Nossas palavras

Toda a louvação pertence a Allah, nosso Criador, Sustentador e Senhor. Sua misericórdia e benevolência para conosco são ilimitadas e incessantes. Bênçãos e paz estejam sobre nosso líder e guia, o último Profeta, Muhammad, Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Pela infinita misericórdia de Allah, a Academia de Pesquisa Sayyid Abul A’la Maududi, após concluir a tradução e edição do livro Fiqh us-Sunnah, escrito pelo renomado faqih e especialista em Shariah da era moderna, Al-Ustaz Sayyid Sabiq, do árabe para o bengali, prepara-se para publicá-lo para os leitores de língua bengali. O livro será publicado em três volumes, insha Allah.

Esta obra é uma realização imortal da ciência do fiqh. Al-Ustaz Sayyid Sabiq escreveu-a a pedido, por incentivo e sob a orientação do mártir Hasan al-Banna. A obra é um livro-guia para professores e estudantes seguidores do Islã (muçulmanos praticantes) no mundo moderno.

Esta obra permanecerá como um marco na história da ciência do fiqh. Até agora, em geral, as obras de fiqh têm sido escritas com base em madhhabs. No entanto, as características desta obra diferem das dessas obras e são notáveis. Em resumo, as características desta obra são:

01. Não é uma obra de fiqh baseada em nenhum madhhab.
02. É uma obra de fiqh baseada em evidências.
03. Na discussão das normas e disposições da Shariah, são mencionados inicialmente os versículos pertinentes que são autoexplicativos.
04. Na discussão das normas, em segundo lugar, é mencionada a Sunnah pertinente do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Os hadiths relacionados são citados.
05. São mencionadas as tradições dos Companheiros.
06. Nos casos de ijtihad, qiyas e explicação de versículos e hadiths que exigem interpretação, são mencionadas as explicações e opiniões dos mujtahids dos Tabi’un e dos Tabi’ al-Tabi’in.
07. São mencionadas as opiniões dos faqihs mujtahids de épocas posteriores.
08. São mencionadas as opiniões dos diversos madhhabs e dos imames dos madhhabs.
09. Nos casos em que isso é aplicável e há decisões disponíveis, são mencionadas as sentenças e observações de diversos tribunais islâmicos.
10. Em alguns pontos, são oferecidas orientações quanto à opinião e ao caminho preferíveis.

Considerando o conjunto da obra, este é um livro extraordinário, digno de ser seguido por todos: muçulmanos comuns, Ahl al-Hadith, Ahl al-Ra’y e muqallids (seguidores) dos diversos madhhabs.

Considero necessário que todo muçulmano instruído leia esta obra para seguir de modo puro e correto a Shariah islâmica, e que ela esteja presente em todos os lares.

Se alguém notar algum erro na tradução ou na impressão desta obra, pedimos que informe por escrito ou por telefone ao endereço da editora, para que seja corrigido na próxima edição, se Deus quiser.

Nosso pensamento, planejamento e todo o nosso esforço só terão valido a pena se os seguidores do Islã tirarem proveito desta obra. Suplicamos a Deus, o Altíssimo, que aceite este nosso pequeno esforço.
Abdus Shahid Nasim

Diretor
Academia de Pesquisa Sayyid Abul A’la Mawdudi, Daca
Data: 19 de janeiro de 2010 d.C.

Prefácio do mártir Imam Hassan al-Banna

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Todos os louvores pertencem a Deus, o Altíssimo. E que a bênção e a paz estejam sobre nosso líder Muhammad, seus seguidores e seus companheiros.

وَمَا كَانَ الْمُؤْمِنُونَ لِيُنْفِرُوا كَافَّةً، فَلَوْلا نَفَرَ مِن كُلِّ فِرْقَةٍ طَائِفَةٌ مِنْهُمْ لِيَتَفَقَّهُوا فِي الدين، ولِيُنذِرُوا قومه إذا رجعوا إِلَيْهِم لَعَلَّهُم يحذرون.

Significado: Não era necessário que todos os crentes partissem juntos. Mas quão bom seria se, de cada grupo, pelo menos uma parte saísse, adquirisse um conhecimento profundo da religião e, ao retornar, advertisse o povo de sua própria comunidade, para que este se precavesse. (Surata 9, At-Tawbah: versículo 122)

Uma das melhores maneiras de alcançar a proximidade do Deus Altíssimo é promover o conhecimento e a pregação do Islã, bem como divulgar as normas islâmicas, especialmente as normas do fiqh, para que pessoas de todas as camadas da sociedade possam adquirir um conhecimento claro sobre sua adoração e suas práticas. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

“Quando Allah, o Altíssimo, deseja o bem de alguém, concede-lhe um profundo conhecimento da religião. O conhecimento só pode ser adquirido por meio do aprendizado. Os profetas, que a paz esteja com eles, não deixaram dinheiro ou riquezas neste mundo; deixaram apenas o conhecimento da religião. Quem adquirir esse conhecimento deve fazê-lo em grande abundância.”

A maneira mais simples, útil, cativante e atraente de estudar o fiqh islâmico, especialmente as normas relativas à adoração e os temas islâmicos gerais apresentados aos muçulmanos de todas as camadas, é manter o fiqh livre de terminologias técnicas e acadêmicas específicas e de minúcias normativas meramente hipotéticas. Ao mesmo tempo, deve-se vinculá-lo, tanto quanto possível e de maneira simples, às fontes do Alcorão e da Sunnah, e, sempre que houver oportunidade, conscientizar o leitor sobre a racionalidade e os aspectos benéficos do Islã, para que os estudantes de fiqh compreendam que esse estudo está prestes a criar uma relação íntima entre eles, Allah e Seu Mensageiro, e que dele resultarão grandes benefícios para eles neste mundo e no Além. Isso lhes dará o maior incentivo para adquirir um conhecimento ainda mais amplo do Islã.

Allah, o Altíssimo, concedeu ao eminente e veterano erudito, Al-Ustaz Sayyid Sabiq, a inspiração e a capacidade para trilhar este caminho. Por isso, ele escreveu esta obra, repleta de conhecimentos e informações, apresentando as fontes de maneira simples e fluida, e nela analisou as normas do fiqh de modo extremamente belo. Se Allah quiser, por meio dela ele receberá de Allah uma excelente recompensa e também poderá impressionar os muçulmanos de todo o mundo, orgulhosos do Islã. Que Allah o recompense devidamente por essa magnífica realização em favor da religião e da ummah, e por sua valiosa contribuição à pregação da religião; que beneficie as pessoas por meio dele e promova, através de suas mãos, o bem para ele próprio e para o povo. Amém.

Hassan al-Banna

Palavras do autor

Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo

Todo louvor pertence a Allah, o Senhor do universo. Que as bênçãos e a paz estejam sobre nosso líder Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, líder de toda a humanidade das gerações passadas e futuras. E que o perdão e a paz sejam concedidos a seus seguidores e companheiros, bem como a todos aqueles que seguirem seu exemplo até o Dia da Ressurreição.

Esta obra contém as normas da jurisprudência islâmica. Além disso, apresenta as provas claramente expostas no Alcorão em favor dessas normas, os hadiths autênticos e as decisões consensuais da Ummah. Ao mesmo tempo, informações de extrema necessidade para os muçulmanos são discutidas de maneira muito simples, fluida e detalhada. Embora, em geral, tenha sido adotado o princípio de evitar a exposição das divergências, estas foram mencionadas quando isso pareceu compreensível.

Assim, esta obra apresentou a todos a verdadeira natureza da jurisprudência islâmica trazida pelo Mensageiro de Allah, abriu diante das pessoas o caminho para uma compreensão correta das determinações de Allah e de Seu Mensageiro, rejeitou a abominável inovação chamada sectarismo e conflitos entre madhhabs e refutou a absurda teoria de que as portas do ijtihad (reflexão e pesquisa sobre o Alcorão e a Sunnah) haviam sido fechadas.

Meu objetivo com este esforço é servir à nossa religião e prestar serviço e benefício aos nossos irmãos. Suplico a Allah que, por meio desta obra, Ele proporcione às pessoas verdadeiro benefício e bem-estar, e que aceite este nosso trabalho como dedicado ao propósito de alcançar Sua satisfação. Ele é suficiente para nós e é o melhor Protetor.

Sayyid Sabiq
Cairo, 15 de Sha’ban de 1365 da Hégira

Sumário

Conteúdo

– Nossa palavra

– Introdução do mártir Imam Hasan al-Banna

– Palavras do autor

– Texto introdutório: a missão profética, sua universalidade e seu propósito

Primeiro capítulo: Taharah (purificação ritual)

1. O uso da água para a purificação e os tipos de água

Primeiro tipo: água comum
Segundo tipo: água usada
Terceiro tipo: água misturada com alguma substância pura
Quarto tipo: água misturada com alguma substância impura
Quinto tipo: água remanescente ou sobras

2. Impureza e os meios de purificação da impureza

Tipos de impureza
Método de purificação do corpo e das roupas
Método de purificação do solo
Meios de purificar a manteiga e semelhantes
Meios de purificar a pele de animais mortos
Purificação de espelhos e semelhantes
Purificação dos calçados
Algumas informações necessárias
Regras para a eliminação de fezes e urina

3. Sunnahs da natureza humana

4. Ablução

1. A prova legal da ablução
2. A virtude e a importância da ablução
3. As obrigações da ablução
4. As sunnahs da ablução
5. Os atos desaconselháveis na ablução
6. As causas que invalidam a ablução
7. Aquilo que não invalida a ablução
8. As ações para as quais a ablução é necessária
9. As situações em que é recomendável fazer a ablução
10. Alguns conhecimentos importantes relativos à ablução

5. Passar as mãos molhadas sobre as meias

1. A prova legal disso
2. A permissibilidade de passar as mãos molhadas sobre as meias de couro
3. As condições para passar as mãos molhadas sobre as meias e similares
4. A área sobre a qual se passam as mãos molhadas
5. A duração de passar as mãos molhadas
6. O método de passar as mãos molhadas
7. As causas que invalidam esse ato

6. Banho ritual

1. As situações que tornam obrigatório o banho ritual
2. As ações proibidas para quem está em estado de janābah
3. O banho ritual recomendável
4. Os pilares do banho ritual
5. As sunnahs do banho ritual
6. O banho ritual das mulheres
7. Algumas questões relativas ao banho ritual

7. Tayammum

1. A definição de tayammum
2. A permissibilidade do tayammum na Sharia
3. Uma especificidade da comunidade de Muhammad
4. A razão pela qual o tayammum foi instituído na Sharia
5. As situações em que o tayammum é permitido
6. Com que tipo de terra se deve fazer o tayammum?
7. O método do tayammum
8. Quais ações se tornam permitidas por meio do tayammum?
9. As causas que invalidam o tayammum

8. Passar a mão sobre a atadura ou o curativo

1. A validade de passar a mão sobre a atadura ou o curativo
2. As regras de passar a mão
3. Quando é obrigatório passar a mão
4. As causas que anulam o ato de passar a mão

9. Como deve rezar aquele que não encontra água nem terra para se purificar?

10. Hayaḍ (menstruação)

1. Definição de hayaḍ
2. Idade em que ocorre o hayaḍ
3. A cor do sangue menstrual
4. A duração do hayaḍ
5. A duração do estado de pureza entre duas menstruações

11. Nifās (sangramento pós-parto)

1. Definição de nifās
2. A duração do nifās

12. O que é proibido às mulheres menstruadas e às mulheres em estado de nifās

13. Istihada (sangramento causado por doença)

Segundo capítulo: Salat (oração)

1. A importância e o mérito da Salat no Islã

2. Qual é a decisão sobre quem abandona a Salat?

3. Sobre quem a oração é obrigatória

4. A oração da criança

5. Quantas orações obrigatórias há?

6. Os horários da oração

– Horário da oração do zuhr
– Horário da oração do asr
– Horário da oração do maghrib
– Horário da oração do isha
– Horário da oração do fajr
– Quando alguém estiver dormindo ou esquecer durante o horário da oração
– Os horários proibidos para a oração
– Opiniões dos fuqaha sobre rezar após o fajr e o asr
– Opiniões sobre rezar durante o nascer do sol, o pôr do sol e o meio-dia
– Fazer orações nafl depois do início do horário do fajr e antes da oração do fajr

7. O adhan

1. O que é o adhan
2. As virtudes do adhan
3. A razão para a instituição do adhan na sharia
4. O método do adhan
5. Dizer “As-salatu khairum minan nawm” no adhan do fajr
6. O método da iqamah
7. O que os ouvintes devem dizer durante o adhan
8. Fazer du’a após o adhan
9. O dhikr durante a iqamah
10. O que o muezzin deve fazer
11. Fazer o adhan no primeiro horário e antes do horário
12. Manter um intervalo entre o adhan e a iqamah
13. Aquele que faz o adhan deve fazer também a iqamah
14. Quando os seguidores do imam devem se levantar?
15. Sair da mesquita depois de o adhan ter sido realizado
16. Adhan e iqamah para orações perdidas
17. Adhan e iqamah para as mulheres
18. Entrar na mesquita depois de a oração em congregação ter sido realizada
19. O intervalo entre a iqamah e a oração
20. Fazer o adhan por alguém que não seja o muezzin designado
21. Acrescentar ao adhan algo que não faz parte dele

8. As condições da oração

1. Conhecer o horário da oração
2. Purificar-se da impureza menor e da impureza maior
3. A pureza do corpo, da roupa e do local onde se realiza a oração
4. Cobrir a awrah (as partes íntimas): que quantidade de roupa é obrigatória e quanto é recomendável para a oração; rezar com a cabeça descoberta
5. Voltar-se na direção da qiblah

9. O método da oração

10. Os atos obrigatórios da oração

1. A intenção
2. O takbir de consagração
3. O qiyam (ficar de pé)
4. Recitar a Surah al-Fatihah em cada rak’ah das orações nafl e obrigatórias
5. Fazer o ruku’
6. Levantar-se do ruku’, ficar ereto, imóvel e tranquilamente de pé
7. Fazer a prostração
8. A sessão final e recitar nela o tashahhud
9. Fazer o salam

11. As sunan da oração

1. Raf‘ al-yadayn (levantar as mãos)
2. Colocar a mão direita sobre a mão esquerda
3. A súplica inicial da oração
4. Recitar a‘udhu billah
5. Dizer amém ao final da Surata al-Fatihah
6. A recitação após a Surata al-Fatihah
7. Deve-se recitar após a Fátihah?
– A recitação na oração do fajr
– A recitação na oração do meio-dia
– A recitação na oração do ‘asr
– A recitação na oração do maghrib
– A recitação na oração do ‘ishá
– A recitação na oração de sexta-feira
– A recitação na oração do ‘eid
– Recitar determinadas suratas
– Prolongar a primeira rak‘ah do fajr
– O método de recitação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz
– O que é mustahabb na recitação
– Os momentos em que se recita em voz alta e em voz baixa durante a oração
– Recitar atrás do imame

8. Os takbires ao levantar-se e sentar-se
9. O modo de realizar o rukū‘
10. O dhikr do rukū‘
11. O dhikr ao levantar-se do rukū‘ e permanecer ereto
12. Inclinar-se para a prostração
13. O modo de realizar a prostração
14. A duração e o dhikr da prostração
15. Sentar-se entre as duas prostrações e fazer a súplica
16. A sessão de descanso
17. O modo de sentar-se para o tashahhud
18. O primeiro tashahhud
19. Enviar bênçãos ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz
20. As súplicas após o tashahhud final e antes do salām
21. O dhikr e as súplicas após o salām

12. As orações sunnah ou voluntárias

1. A importância segundo a Sharia
2. É mustahabb realizar em casa as orações restantes, exceto as obrigatórias
3. Fazer uma recitação longa e menos prostrações nas orações voluntárias e sunnah
4. É permitido realizar sentado as orações voluntárias e sunnah
5. As categorias das orações voluntárias
6. A sunnah do fajr
7. A sunnah do meio-dia
8. A sunnah do maghrib
9. A sunnah do ‘ishá
10. As sunnas não enfatizadas
11. A oração do witr
12. Recitar o qunūt al-nāzilah nas cinco orações diárias
13. Recitar o qunūt na oração do fajr
14. Qiyām al-layl ou a oração do tahajjud
15. Realizar a oração nas noites do Ramadã
16. Salāt ad-duhā (a oração do período da manhã)
17. A oração de istikhārah
18. Salāt at-tasbīh
19. Salāt al-hājah
20. Salāt at-tawbah
21. A oração durante os eclipses solar e lunar
22. A oração de istisqā’

13. A prostração da recitação

14. A prostração de agradecimento

15. A prostração por esquecimento

16. A oração em congregação

1. A importância e a virtude da oração em congregação
2. A participação das mulheres na congregação da mesquita e a virtude de rezarem em casa
3. Rezar numa mesquita relativamente mais distante e numa congregação maior
4. É recomendável dirigir-se tranquilamente à mesquita
5. É recomendável que o imame torne a oração breve
6. O prolongamento da primeira rakaat pelo imame
7. É obrigatório seguir o imame, e é proibido precedê-lo
8. A congregação estará constituída assim que uma pessoa se juntar ao imame
9. A validade de tornar-se seguidor do imame
10. Participação parcial na congregação
11. As desculpas que permitem abandonar a congregação
12. Quem é mais qualificado para exercer a função de imame
13. Aqueles cuja liderança na oração é válida
14. Aqueles cuja liderança na oração não é válida
15. É recomendável que uma mulher lidere as mulheres na oração
16. Um homem liderar somente mulheres na oração
17. É makruh ser liderado por um pecador ou por um inovador
18. A validade de separar-se do imame por uma razão justificável
19. Rezar novamente com a congregação
20. Sentar-se voltado para a direita ou para a esquerda do imame depois de proferir o salam
21. O imame ou os seguidores permanecerem num lugar elevado
22. Seguir o imame quando há uma barreira entre ele e os seguidores
23. Rezar atrás de quem abandona uma obrigação
24. O imame nomear um substituto
25. A liderança na oração de alguém de quem as pessoas não gostam
26. Os deveres do imame e dos seguidores

17. Descrição das mesquitas

1. A terra é a mesquita desta comunidade
2. A virtude de construir uma mesquita
3. A súplica ao dirigir-se à mesquita
4. A súplica ao entrar e ao sair da mesquita
5. A virtude de ir à mesquita e sentar-se dentro dela
6. Tahiyyat al-Masjid
7. As melhores mesquitas
8. Ornamentar a mesquita
9. Manter a mesquita limpa e perfumá-la
10. A manutenção da mesquita
11. É makruh anunciar objetos perdidos, realizar compras e vendas e recitar poesia
12. Pedir esmolas na mesquita
13. Elevar a voz na mesquita
14. Falar na mesquita
15. É permitido comer, beber e dormir na mesquita
16. Introduzir os dedos de uma mão entre os dedos da outra
17. Rezar entre as colunas

18. Os lugares onde é proibido rezar
1. É proibido rezar junto a sepulturas e em cemitérios
2. É proibido rezar nos locais de culto dos judeus e dos cristãos
3. É proibido rezar em depósitos de lixo, matadouros, locais movimentados das estradas, estábulos, casas de banho e no teto da Caaba Sagrada

19. Rezar no interior da Caaba Sagrada

20. Sutrah, ou barreira diante de quem reza
1. A regra sobre colocar uma barreira
2. Com o que a sutrah será válida
3. A sutrah do imame é também a sutrah dos seguidores
4. Deve-se permanecer próximo da barreira
5. É proibido passar entre quem reza e a sua sutrah
6. A validade de impedir quem passa diante de quem reza
7. Nada invalida a oração

21. Ações permitidas durante a oração
1. Chorar, soluçar e gemer dizendo “ah!” e “oh!”
2. Olhar para os lados, mantendo o pescoço reto, quando necessário
3. Matar animais nocivos, como cobras e escorpiões
4. Caminhar alguns passos por necessidade
5. Carregar uma criança
6. Cumprimentar um fiel com salam ou responder-lhe por meio de um gesto
7. Dizer “Subhanallah” e bater palmas
8. Corrigir o imame quando ele se engana
9. Dizer “Alhamdulillah” ao espirrar ou ao receber uma bênção
10. Prostrar-se sobre o próprio turbante ou roupa por necessidade
11. Outras ações permitidas durante a oração
12. Recitar olhando diretamente para o Alcorão Sagrado
13. Concentrar-se em algo que não seja a oração

22. Ações makruh na oração
1. Brincar, sem necessidade, com a própria roupa ou com o corpo
2. Colocar as mãos na cintura durante a oração
3. Olhar para o céu
4. Olhar para algo que distraia da oração
5. Fechar os olhos sem motivo
6. Fazer sinais com as duas mãos durante o salam
7. Manter a boca fechada e deixar a roupa pendurada
8. Rezar tendo comida à frente
9. Rezar enquanto se contém a urina ou as fezes
10. Rezar dominado por um sono irresistível
11. Reservar um lugar na mesquita para alguém que não seja o imã

23. Fatores que invalidam a oração
1. Comer ou beber voluntariamente
2. Falar intencionalmente sem necessidade relacionada à oração
3. Praticar intencionalmente um amal kathir
4. Abandonar, sem uma desculpa válida e intencionalmente, qualquer condição da oração
5. Rir durante a oração

24. Reposição das orações perdidas

25. A oração do enfermo

26. Salat al-Khawf, ou a oração durante a guerra, o medo e o terror

27. A oração daquele que persegue o inimigo e daquele que foge por medo do inimigo

28. A oração durante a viagem
1. Reduzir (qasr) as orações de quatro rak‘ahs
2. A distância para o qasr
3. A partir de onde começa o qasr?
4. Quando o viajante deve rezar a oração completa
5. Fazer orações voluntárias durante a viagem
6. Viajar na sexta-feira

29. Reunir duas orações
1. Em Arafat e Muzdalifah
2. Durante a viagem
3. Em caso de chuva
4. Devido a doença ou a uma desculpa válida
5. Reunir duas orações por uma necessidade comum

30. Realizar a oração no barco, no trem e no avião

31. A súplica da viagem

32. A oração de Jumu‘ah
1. A virtude da sexta-feira
2. Fazer súplicas na sexta-feira
3. Enviar abundantemente bênçãos e saudações a Rasulullah (que a paz esteja com ele) durante o dia e a noite de sexta-feira
4. É recomendável recitar a Surata Al-Kahf durante o dia e a noite de sexta-feira
5. Tomar banho, adornar-se, usar miswak e perfume na sexta-feira
6. Ir à oração de Jumu‘ah antes do horário
7. Avançar passando por cima dos pescoços dos fiéis
8. É permitido realizar orações nafl antes da oração de Jumu‘ah?
9. Se um fiel ficar sonolento na mesquita, deve mudar-se para outro lugar
10. As provas da obrigatoriedade da oração de Jumu‘ah
11. Para quem a Jumu‘ah é obrigatória e para quem não é
12. O horário da oração de Jumu‘ah
13. O número de fiéis para a congregação de Jumu‘ah
14. O local da oração de Jumu‘ah
15. Análise das condições impostas pelos juristas a respeito da Jumu‘ah
16. O khutbah ou sermão de Jumu‘ah
17. É proibido falar durante o khutbah
18. Alcançar uma rak‘ah da Jumu‘ah ou menos que isso
19. Orações nafl antes e depois da Jumu‘ah
20. Quando o Eid e a Jumu‘ah ocorrem no mesmo dia

33. As orações dos dois Eids
1. Tomar banho, usar perfume e vestir a melhor roupa
2. Comer algo antes de sair para o Eid al-Fitr e depois do Eid al-Adha
3. Ir ao local de oração do Eid
4. A ida de mulheres e crianças ao local de oração do Eid
5. Ir e voltar por caminhos diferentes
6. O horário da oração do Eid
7. Não há adhan nem iqamah na oração do Eid
8. Os takbirs na oração do Eid
9. Orações antes e depois da oração do Eid
10. Para quem é permitido realizar a oração do Eid
11. O khutbah da oração do Eid
12. Reposição da oração do Eid
13. Jogos, entretenimento, canto e alimentação no Eid
14. A virtude de praticar boas ações durante os dez dias de Dhu al-Hijjah
15. É recomendável trocar saudações e felicitações pelo Eid
16. Proferir takbir nos dias específicos dos dois Eids

Terceiro capítulo: Zakat

1. Definição de zakat
2. Ordem e incentivo para pagar o zakat
3. Advertência sobre as terríveis consequências de não pagar o zakat
4. A decisão da Shariah sobre quem nega o zakat
5. Sobre quem o zakat é obrigatório
6. O nisab do zakat
7. O zakat sobre os bens de crianças e loucos
8. O zakat da pessoa endividada
9. O zakat de quem morre sem pagá-lo
10. A intenção como condição para pagar o zakat
11. Pagar o zakat assim que ele se torna obrigatório
12. Pagar o zakat antecipadamente
13. É recomendável fazer súplicas em favor de quem paga o zakat
14. Os bens sobre os quais o zakat é obrigatório
15. O zakat sobre ouro e prata
16. O nisab do ouro e o montante do zakat
17. O nisab da prata e o montante do zakat
18. A combinação de ouro e prata
19. O zakat sobre dívidas
20. O zakat sobre notas bancárias, títulos e certificados
21. O zakat sobre joias
22. O zakat sobre o dote
23. O zakat sobre rendas
24. O zakat sobre mercadorias comerciais
25. O método de pagar o zakat sobre mercadorias comerciais
26. O zakat sobre cereais e frutos
27. O nisab do zakat sobre cereais e frutos
28. O zakat sobre terras kharajiyah
29. O zakat sobre a produção de terras arrendadas
30. Determinação do nisab de tâmaras e uvas
31. Comer parte da colheita antes de pagar o zakat
32. Somar cereais e frutos uns aos outros
33. Quando o zakat incide sobre colheitas e frutos
34. Pagar o zakat com os melhores bens
35. O zakat sobre o mel
36. O zakat sobre os animais

1. Condições do zakat sobre os animais
2. O zakat sobre camelos
3. O zakat sobre bovinos (incluindo búfalos)
4. O zakat sobre cabras e ovelhas
5. Situações de isenção do zakat
6. Os bens sobre os quais não há zakat
7. O zakat sobre animais que não sejam gado
8. O zakat sobre animais com menos de um ano de idade
9. Regras relativas à junção e à separação
10. A junção produz algum efeito sobre o zakat?

37. O zakat sobre tesouros ocultos e recursos minerais
38. O zakat sobre recursos marítimos
39. O zakat sobre riquezas extraídas
40. O zakat incide sobre a responsabilidade, não exatamente sobre os bens
41. Se os bens forem destruídos depois de o zakat se tornar obrigatório e antes de ser pago
42. Se forem destruídos depois de o zakat ser separado
43. O zakat não é anulado quando há atraso em seu pagamento
44. Pagar o valor em vez dos próprios bens
45. O zakat sobre bens pertencentes a sócios
46. Quem tenta escapar do zakat
47. As categorias de despesas do zakat
48. Aqueles a quem não é permitido dar ou de quem não é permitido receber zakat
49. Quem será responsável por arrecadar e distribuir o zakat
50. Transferência para a distribuição do zakat
51. É recomendável dar o zakat às pessoas virtuosas
52. É proibido ao pagador do zakat comprar seus próprios bens do zakat
53. É recomendável dar zakat ao marido e aos parentes
54. Pode-se dar zakat aos que buscam conhecimento islâmico, mas não aos que se dedicam à adoração
55. A transferência do zakat
56. Quando ocorre um erro na distribuição do zakat
57. Dar zakat ou sadaqah publicamente
58. Zakat al-Fitr (fitrah)
59. Além do zakat sobre os bens, é necessário cumprir algum outro direito?
60. Doação nafl (doação voluntária)
– Tipos de doação
– Quem tem prioridade para receber a doação?
– A doação que se perde
– Doar com bens ilícitos
– A esposa doar dos bens do marido
– Doar todos os bens
– Doar aos animais
– Sadaqah jariyah (caridade contínua)
– Agradecer ao doador

Quarto capítulo: Siyam (jejum)

1. Siyam: significado, virtudes e tipos
2. O jejum do Ramadã
3. O mês do Ramadã e as virtudes das ações praticadas nele 3.
4. Advertência contra quebrar o jejum do Ramadã 8.
5. Como se comprova o início do Ramadã 5.
6. A diferença dos locais de aparecimento da lua
7. Aquele que vê a lua sozinho
8. A obrigação do jejum
9. Sobre quem o jejum é obrigatório
10. O jejum dos incrédulos e dos insanos
11. O jejum dos menores
12. Aqueles aos quais é permitido quebrar o jejum e a regra de oferecer fidya
13. Aqueles para quem é permitido quebrar o jejum e para quem é obrigatório compensá-lo
14. Aquele para quem tanto jejuar quanto quebrar o jejum são obrigatórios
15. Os dias em que é proibido jejuar
16. A proibição do jejum contínuo
17. Os jejuns voluntários que são sunnah
18. É permitido quebrar o jejum voluntário
19. Algumas regras que devem ser observadas no jejum
20. Atos permitidos durante o jejum
21. Atos que invalidam o jejum
22. A compensação do jejum do Ramadã
23. Lailatul Qadr
24. I‘tikaf

Quinto capítulo: assistência aos doentes, funeral, sepultamento e mortalha

1. Princípios islâmicos relacionados às doenças e ao tratamento
– Ter paciência durante a doença
– O doente falar sobre sua própria doença
– Visitar o doente
– As virtudes de visitar o doente
– Regras para visitar o doente
– Mulheres visitarem um paciente do sexo masculino
– Um muçulmano visitar um paciente incrédulo
– Visitar um paciente com doença ocular
– Pedir ao doente que faça uma súplica
– Tratamento das doenças
– Tratamento com substâncias proibidas
– O médico não muçulmano
– Recorrer ao tratamento de uma médica
– Tratamento por meio de ruqya e súplicas
– Algumas súplicas famosas relacionadas ao tratamento
– A proibição do uso de amuletos
– É permitido transformar em amuletos e pendurar as súplicas mencionadas no Alcorão e no hadith?

2. Princípios islâmicos relativos ao doente
– Não permitir que o doente permaneça entre os saudáveis
– Entrar e sair de uma área atingida pela peste
– É mustahabb lembrar-se da morte e preparar-se por meio das boas ações
– É makruh desejar a morte
– Uma vida longa acompanhada de boas ações é uma bênção
– Praticar boas ações antes da morte é um sinal de morrer em estado de fé
– É mustahabb que o doente mantenha uma boa opinião sobre Allah
– O que é mustahabb fazer ao estar junto de alguém próximo da morte
– O que é sunnah fazer por aquele que está no caminho da morte

3. O que fazer em relação ao falecido

– O que é mustahabb fazer ao receber a notícia da morte de um muçulmano
– É mustahabb informar os parentes e pessoas próximas do falecido sobre sua morte
– Chorar pelo falecido
– Lamentar-se em voz alta
– Guardar luto pelo falecido
– É mustahabb fornecer comida à família do falecido
– É permitido preparar a mortalha e a sepultura antes da morte
– É mustahabb desejar morrer em Meca ou Medina
– Morte súbita
– Aquele cujo filho morre
– A idade dos membros da Ummah muçulmana
– A morte é uma espécie de libertação; a mortalha e o sepultamento do falecido
– O banho ritual do falecido
– O modo de realizar o banho ritual
– Fazer tayammum no falecido quando não houver água
– O marido e a esposa realizarem o banho ritual um do outro
– Uma mulher realizar o banho ritual de um menino

8. Funeral, sepultamento, mortalha e visita às sepulturas

– Sudário
– O funeral do falecido
– Como realizar a oração fúnebre
– Transporte do caixão e cortejo fúnebre

5. O que é makruh no funeral, no enterro e no sudário
6. O enterro e a escavação da sepultura

7. Questões relacionadas às sepulturas
– É proibido insultar os mortos
– Recitar o Alcorão junto à sepultura
– Reabrir a sepultura após o enterro
– Transferir o falecido da sepultura
– Consolar os enlutados

8. Visitar as sepulturas
9. Ações benéficas para o falecido

10. O interrogatório na sepultura
– Onde fica a alma? Os quatro mundos da alma

Sexto capítulo: Dhikr

Sétimo capítulo: Fazer súplicas

1. A ordem de fazer súplicas
2. A etiqueta das súplicas
3. Súplicas da manhã e da tarde
8. Súplicas para diferentes momentos e ocasiões
5. Algumas súplicas de significado abrangente
6. Saudações e envio de bênçãos ao Mensageiro ﷺ
7. As bênçãos e as súplicas da viagem

Capítulo Oito: Hajj

1. A excelência e a obrigatoriedade do Hajj
2. Condições para que o Hajj se torne obrigatório
3. O Hajj do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)
8. Miqat
5. Ihram
6. Talbiyah (dizer labbayka)
7. Atos permitidos ao muhrim
8. Atos proibidos ao muhrim
9. O que fazer ao praticar atos proibidos durante o ihram
10. Os limites do Santuário de Meca
11. O Santuário de Medina
12. A superioridade de Meca sobre Medina
13. Entrar em Meca sem ihram
14. Atos recomendáveis ao entrar em Meca e na Mesquita Sagrada
15. Tawaf
16. Beber a água de Zamzam
17. Sa‘i entre Safa e Marwah
18. Partida para Mina
19. Partida em direção a Arafat
20. Permanência em Arafat
21. Partida de Arafat em direção a Muzdalifah
22. Atos do Yawm an-Nahr (10 de Dhu al-Hijjah)
23. Lançamento dos seixos
24. O animal do sacrifício, ou hady
25. Raspar ou aparar os cabelos da cabeça
26. Tawaf al-Ifadah ou Tawaf az-Ziyarah
27. Umrah
28. Tawaf de despedida
29. Métodos de realização do Hajj
30. Ihsar
31. A excelência dos dois Santuários

Prefácio: a missão profética, sua universalidade e seu propósito

O Altíssimo Allah enviou o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com um sistema de vida monoteísta, liberal, nobre e livre de toda forma de discriminação, bem como com uma legislação completa e abrangente — a Sharia — para todos os campos da vida. Essa Sharia assegura à humanidade inteira uma vida extremamente digna e civilizada, e a conduz ao mais alto grau de perfeição, progresso e excelência.

Durante vinte e três anos, ele convocou as pessoas para Allah. Nesse período, cumpriu devidamente o propósito com que veio: transmitir a religião de Allah às pessoas e estabelecer e unir a humanidade sobre ela.

1. A universalidade da missão profética de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

A missão profética de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não está limitada a uma esfera específica, de modo que, à semelhança das missões proféticas anteriores, seja destinada a uma determinada geração ou comunidade, enquanto as demais gerações e comunidades dela sejam privadas. Pelo contrário, sua missão profética é abrangente e universal para toda a humanidade. Assim como o domínio do Altíssimo Allah se estende sobre toda a Terra e tudo o que nela existe, assim também se estende a missão profética de Seu último Mensageiro. Ela não está limitada a nenhuma cidade ou região específica, nem a nenhuma época ou período determinado. Allah, o Altíssimo, diz:

تبْرَكَ الَّذِي نَزَّلَ الْفُرْقَانَ عَلَى عَبْدِهِ لِيَكُونَ لِلْعَلَمِينَ نَذِيرًا

“Bendito seja Aquele que revelou a Seu servo o Livro que distingue a verdade da falsidade, para que ele seja um admoestador para todos os mundos.” (Surata 25, Al-Furqan: versículo 1)
Ele também diz:

وَمَا أَرْسَلْتُكَ إِلَّا كَافَّةً لِلنَّاسِ بَشِيرًا وَنَذِيرًا .

“Enviamos-te como anunciador de boas-novas e admoestador para toda a humanidade.” (Surata 34, As-Saba: versículo 28)
Ele também diz:

قُلْ يَأَيُّهَا النَّاسُ إِنِّي رَسُولُ اللهِ إِلَيْكُم جَمِيعَانِ الَّذِي لَهُ مُلْكُ السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ : لَا إِلَهَ إِلَّا هُوَ يُحْيِ وَيُمِيتُ فَآمِنُوا بِاللهِ وَرَسُولِهِ النَّبِيِّ الْأُمِّيِّ الَّذِي يُؤْمِنُ بِاللَّهِ وَكَلِمَتِهِ وَاتَّبِعُوهُ لَعَلَّكُمْ تَهْتَدُونَ

“(Ó Muhammad,) dize: Ó humanidade, sou o Mensageiro de Allah para todos vós, d’Aquele a Quem pertence o reino dos céus e da terra. Não há divindade além d’Ele. Ele dá a vida e causa a morte. Portanto, crede em Allah e em Seu Mensageiro, o profeta iletrado, que crê em Allah e em Suas palavras. Segui-o, para que sejais guiados.” (Surata 7, Al-A‘raf: versículo 158)

Foi narrado em um hadith sahih que o Mensageiro de Allah (s.a.) disse: Cada profeta era enviado especificamente ao seu próprio povo. Eu fui enviado a toda a humanidade, sem distinção entre brancos e negros.”

A abrangência e a universalidade da missão profética de Muhammad (s.a.) são confirmadas ainda mais pelos seguintes fatos:

1. Na religião que ele trouxe, não há nada cuja crença ou prática seja difícil e penosa para as pessoas. Allah, o Altíssimo, disse:

لَا يُكَلِفَ اللَّهُ نَفْسًا إِلَّا وُسْعَهَا

“Allah não impõe a nenhuma pessoa uma responsabilidade além de sua capacidade.” (Surata 2, Al-Baqarah: versículo 286)

Ele também disse:

يُرِيدُ اللهُ بِكُمُ الْيُسْرَ وَلَا يُرِيدُ بِكُمُ الْعُسْرَ .

“Allah deseja para vocês a facilidade; não deseja a dificuldade.” (Al-Baqarah: versículo 185) Ele também disse:

وما جعل عليكم في الدين من حرج .

“Ele não impôs sobre vocês nenhuma dificuldade quanto à religião.” (Surata 2, Al-Hajj: versículo 78)

Foi narrado no Sahih al-Bukhari, por Abu Sa’id al-Maqburi, que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) disse:

هذا الدين يسرا، ولَن يُشَادُ الذِينَ أَحَدٌ إِلَّا غَلَبَهُ

Esta religião é fácil; quem adotar uma abordagem rigorosa para praticá-la não terá sucesso.”

Um hadith de Sahih Muslim é o seguinte:

احب الدين إلى الله الحنيفية السمحة

“A religião monoteísta moderada é a mais amada por Allah.”

2. Os princípios do Islã que não mudam com a mudança de lugar e de época, como as crenças e os atos de adoração, foram apresentados com todos os detalhes e analisados por meio de versículos e hadiths que contêm uma explicação completa. Portanto, ninguém tem o direito de acrescentar ou subtrair deles nem sequer o mínimo. Já os assuntos que mudam conforme o lugar e a época, como as questões relacionadas ao bem-estar da vida civil e os assuntos políticos e militares, foram apresentados de forma resumida. O objetivo é que esses princípios contribuam para o bem-estar das pessoas em todas as épocas e que governantes, líderes comunitários e dirigentes possam encontrar neles orientação para estabelecer a verdade e a justiça.

3. Toda a orientação contida na missão profética de Muhammad (que a paz esteja sobre ele), isto é, na legislação islâmica que ele trouxe, visa somente à proteção do Islã, da vida, do intelecto, da descendência e dos bens e propriedades. E é tão claro quanto a luz do dia que ela é compatível com a natureza e as necessidades inatas do ser humano, está de acordo com sua razão e consciência, contribui para seu desenvolvimento e progresso e é adequada a todos os lugares e épocas. Allah, o Altíssimo, diz:

قُلْ مَنْ حَرَّمَ زِينَةَ اللَّهِ الَّتِي أَخْرَجَ لِعِبَادِهِ والطَّيِّبَتِ مِنَ الرِّزْقِ قُلْ هِيَ لِلَّذِينَ آمَنُوا فِي الحيوة الدُّنْيَا خَالِصَة يومَ القِيمَةِ ، كَذلِكَ نُفَصِّلُ الأيتِ لِقَوْمٍ يُعْلَمُونَ قُلْ إِنَّمَا حَرَّمَ رَبِّي الْفَوَاحِشَ مَا ظَهَرَ مِنْهَا وَمَا بَطَنَ وَالْإِثْرَ وَالْبَغْى

بِغَيْرِ الْحَقِّ وَأَنْ تُشْرِكُوا بِاللَّهِ مَالَمْ يُنَزِّلُ بِهِ سلطنا وأن تَقُولُوا عَلَى اللَّهِ مَالَا تَعْلَمُونَ

“Dize: Quem proibiu os adornos de Allah e as coisas boas da provisão que Ele produziu para os Seus servos? Dize: Elas são para os que creem, na vida deste mundo, e serão exclusivamente deles no Dia da Ressurreição. Assim, explicamos detalhadamente os versículos para um povo que sabe. Dize: Meu Senhor proibiu apenas as obscenidades, aparentes e ocultas, o pecado, a transgressão injusta, associar algo a Allah sem que Ele tenha enviado qualquer autoridade para isso e dizer acerca de Allah aquilo que não sabeis.” (Surata 7, Al-A‘raf: versículos 32–33)

O Deus Altíssimo também disse:

ورحمَتِي وَسِعَتْ كُلَّ شَيْءٍ ، فَسَأَكْتُبُهَا لِلَّذِينَ يَتَّقُونَ وَيُؤْتُونَ الزَّكَوةَ وَالَّذِينَ هُم بِايَتِنَا يُؤْمِنُونَ الَّذِين يتبعون الرسول النبى الأمى الَّذِي يَجِدُونَهُ مَكْتُوبًا عِنْدَ هُمْ فِي التورية وَالْإِنْجِيلِ ( يَأْمُرُهُمْ بِالْمَعْرُوفِ وينهمر عَنِ

الْمُنْكَرِ وَيُحِلُّ لَهُرُ الطَّيِّبَاتِ وَيُحَرِّمُ عَلَيْهِمْ الحبيت ويضع عنهم أمرهم والأغلل الَّتِي كَانَتْ عَلَيْهِمْ ، فَالَّذِينَ آمَنُوا بِه وعزروه ونصروه وَاتَّبَعُوا النُّورَ الَّذِي أُنْزِلَ مَعَهُ لَا أُولَئِكَ هُمُ الْمُفْلِحُونَ

“A Minha misericórdia abrange todas as coisas. Portanto, prescrevê-la-ei para aqueles que são tementes, pagam o zakat e creem nos Nossos versículos; para aqueles que seguem o Mensageiro, o Profeta iletrado, que encontram mencionado, junto a eles, na Torá e no Evangelho. Ele lhes ordena o que é correto, proíbe-lhes o que é reprovável, torna lícitas para eles as coisas boas e ilícitas as coisas más, e livra-os dos seus fardos e dos grilhões que pesavam sobre eles. Então, aqueles que creem nele, o honram, o auxiliam e seguem a luz que foi enviada com ele são os bem-sucedidos.” (Al-A‘raf: 156–157)

2. O objetivo da missão de Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)

O objetivo da missão do Islam é conhecer Allah, reconhecê-Lo e purificar a alma por meio da Sua adoração; fortalecer as relações humanas e estabelecê-las sobre os fundamentos do afeto, do amor, da misericórdia, da fraternidade, da igualdade e da justiça. É por meio dessas ações que o ser humano alcança felicidade e prosperidade neste mundo e no Além. O Deus Altíssimo disse:

هُوَ الَّذِي بَعَثَ فِي الْآمِينَ رَسُولاً منهم يتلوا عليهم ايته ويزكيهم ويعلمهم الكتب والحكمة د وان كانوا مِنْ قَبْلُ لَفِي ضَلَلٍ مُّبِينٍ

“Foi Ele quem enviou aos iletrados um Mensageiro dentre eles, que lhes recita os versículos de Allah, purifica-os e lhes ensina o Livro e a sabedoria, embora antes estivessem em evidente desvio.” (Surata 62, Al-Jumu’a: versículo 2)

O Deus Altíssimo também disse:

وَمَا أَرْسَلْنَاكَ إِلَّا رَحْمَةً لِلْعَالَمِينَ

“E não te enviamos senão como misericórdia para todos os mundos.” (Surata 62, Al-Anbiya: versículo 107)

O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:آنا رحمة م “Sou uma misericórdia oferecida como dádiva.”

3. A elaboração da lei islâmica ou fiqh

Um tema importante abrangido pela Mensagem islâmica é a elaboração da lei islâmica. Este é o aspecto teórico da Mensagem islâmica.
A única fonte da lei religiosa pura é a revelação de Allah, registrada no Alcorão e na Sunna, ou o ijtihad do Mensageiro, que Allah confirmou por meio da revelação. Essa revelação encontra-se preservada sob a forma do Alcorão e da Sunna. Um exemplo da lei religiosa pura são as normas ou ahkam da adoração. Nesse caso, a responsabilidade do Mensageiro não vai além de transmitir às pessoas a revelação de Allah exatamente como é, acompanhada de explicação e análise. O Deus Altíssimo disse:

وما ينطق عن الهوى، إن هو إلا وحي يوحى

“Ele não fala por sua própria vontade; o que diz não é senão revelação transmitida.” (Surata 53, An-Najm: versículos 3–4)

Contudo, no que diz respeito às leis islâmicas relacionadas aos assuntos mundanos, tais como a judicatura, a política e a estratégia militar, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi instruído a consultar os outros. Às vezes, ele mantinha uma opinião, mas logo depois abandonava-a e aceitava as opiniões de seus companheiros, como ocorreu nas batalhas de Badr e Uhud. De modo geral, porém, os Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) recorriam a ele nas questões que desconheciam. Perguntavam-lhe sobre elas. Quando não conheciam o significado de algum versículo do Alcorão ou de algum hadith, procuravam esclarecê-lo com ele; e apresentavam-lhe a interpretação que haviam compreendido. Às vezes, ele confirmava a compreensão deles. Em outras ocasiões, apontava onde haviam cometido um erro e corrigia sua compreensão.

O Islam estabeleceu alguns princípios gerais pelos quais os muçulmanos podem se orientar. São eles:

1. Abster-se de buscar a solução de um acontecimento ou problema que ainda não ocorreu, até que ele ocorra. Allah, o Altíssimo, disse:

يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لَا تَسْتَلُوا عَنْ أَحْيَاء إِنْ تُبْدَلَكُم تَمُوكُمْ ، وَإِن تَسْتَلُوْا عَنْهَا مِيْنَ يُنَزِّلُ الْقُرْآنَ تُبْدَلَكُمْ ، عَفَا اللَّهُ عَنْهَا ، وَاللَّهُ غَفُورٌ حَلِيمٌ

“Ó crentes! Não pergunteis acerca de coisas que, se vos forem reveladas, vos desagradarão. Se perguntardes sobre elas enquanto o Alcorão está sendo revelado, elas vos serão reveladas. Allah vos perdoou. Allah é Perdoador, Paciente.” (Surata 5, Al-Ma’idah: versículo 101)

Há um hadith que diz: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proibiu que se abordassem questões que ainda não haviam ocorrido na realidade.”

2. Abster-se de fazer perguntas excessivas e de ocupar-se com questões complexas:

O Mensageiro ﷺ disse: «Allah detestou para vós a conversa desnecessária, as perguntas excessivas e o desperdício de dinheiro e bens.»

Ele também disse:

إِنَّ اللَّهَ فَرَضَ فَرَائِضَ فَلَا تَضَيْعُوهَا وَمَنْ حَدَوْدًا فَلَا تَعْتَدُوهَا، وَحَرْمَ أَشْيَاءَ فَلَا تَنْتَهِكُوْهَا، وسكت عن أَشْيَاءَ رَحمَةٌ بِكُم مِن غير نسيان فَلا تَبْعَثُوا عنها ، وعنه أيضًا : أَعظَرُ النَّاسِ جزمًا من سالَ عَنْهُ شَيْءٍ لَمْ يَحْرَّمْ فَحَرِمْ مِنْ أَهْلِ مَسْأَلَتِهِ.

«Allah tornou obrigatórias algumas coisas; portanto, não as negligencieis. Estabeleceu alguns limites; portanto, não os transgrideis. Proibiu algumas coisas; portanto, não as violais. E manteve silêncio sobre algumas coisas, por misericórdia para convosco, não por esquecimento. Portanto, não vos ocupeis em investigá-las.»

O Mensageiro de Allah ﷺ também disse: «O maior pecador é aquele que pergunta sobre algo que não era proibido e, por causa da sua pergunta, isso se torna proibido.»

3. Manter-se afastado das divergências e disputas acerca da religião

Allah, o Altíssimo, disse:

وأن منه أُمْتَكرَ أُمَّةً وَاحِدَةً

“Esta é a vossa ummah, uma única ummah.” (Surata 23, Al-Mu’minun: versículo 52)

Allah também disse:

واعتصموا بِحَبْلِ اللَّهِ جَمِيعًا وَلَا تَفَرَّقُوا

“Apegai-vos todos firmemente à corda de Allah e não vos dividais em grupos.” (Surata 3, Âl ‘Imrân: versículo 103)

Allah também disse:

ولا تنازَعُوا فَتَفْعَلُوا وَتَنْمَبْ رِيْعَ

“Não entreis em disputas uns com os outros, pois fracassareis e perdereis o vosso ânimo e a vossa influência.” (Surata 8, Al-Anfâl: versículo 46)

Allah também disse:

إِنَّ الَّذِينَ فَرَّقُوا دِينَهُمْ وَكَانُوا شِيَعًا لَسْتَ مِنْهُمْ فِي شَيْءٍ

“Quanto àqueles que dividiram sua religião e se tornaram grupos, nada tens a ver com eles.” (Surata 6, Al-An’am: versículo 159)

Allah também diz:

وَلَا تَكُونُوا كَالَّذِينَ تَفَرَّقُوا وَاخْتَلَفُوا مِنْ بَعْدِ مَا جَاءَهُمُ الْبَيِّنت ها وأُولَئِكَ لَهُمْ عَذَابٌ عَظِيره

“Não sejais como aqueles que se dividiram e divergiram depois de lhes terem chegado as evidências claras. Para eles haverá um castigo terrível.”
(Surata 3, Al Imran: versículo 105)

4. Submeter as questões controversas ao Alcorão e à Sunna: este procedimento deve ser realizado à luz das seguintes palavras de Allah

فَإِن تَنَازَعَمْتُمْ فِي شَيْ فَرَدُّوهُ إِلَى اللَّهِ وَالرَّسُولِ –

“Se disputardes sobre qualquer assunto, submetei-o a Allah e a este Mensageiro.” (Surata 4, An-Nissá: versículo 59)

– وَمَا اختلفترفيْهِ مِنْ شَيْءٍ فَعْلَمَهُ إِلَى اللَّهِ

“Seja qual for a questão sobre a qual divergirdes, sua decisão será remetida a Allah.” (Surata 42, Ash-Shura: versículo 10)

Isso se deve ao fato de que o Livro de Allah apresentou uma explicação detalhada da religião. Como Allah disse:

ونزلنا عَلَيْكَ الْكِتَبَ تِبْيَانًا لِكُلِّ شَيْءٍ .

“E fizemos descer sobre ti o Livro contendo a explicação de todas as coisas.” (Surata 16, An-Nahl: versículo 89)

Allah também disse:

مَا فَرَّطْنَا فِي الْكِتَبِ مِنْ شَيْءٍ

«Não deixei de registrar no Livro nada que diga respeito a qualquer coisa. (Surata 6, Al-An’am: versículo 38)

Isso foi explicado não somente no Alcorão, mas também por meio da Sunnah prática do Mensageiro. Allah disse:

وانزَلْنَا إِلَيْكَ الذِّكْرَ لِتُبَيِّنَ لِلنَّاسِ مَا نُزِّلَ إِلَيْهِم .

«E fizemos descer sobre ti a Mensagem, para que esclarecesses claramente às pessoas o que lhes foi revelado.» (Surata 16, An-Nahl: versículo 44)

Allah também disse:

إِنَّا أَنْزَلْنَا إِلَيْكَ الْكِتَبَ بِالْحَقِّ لِتَحْكُم بَيْنَ النَّاسِ بِما أردكَ الله :

«Em verdade, fizemos descer sobre ti o Livro com a verdade, para que julgasses entre as pessoas conforme aquilo que Allah te ensinou.» (Surata 4, An-Nissá: versículo 105) Na verdade, foi ordenado que todas as disputas fossem resolvidas de acordo com o Alcorão e a Sunnah, e todas as orientações foram apresentadas claramente. Allah, o Altíssimo, disse:

الْيَوْمَ أَكْمَلْتُ لَكُم دينكم واتممت عليكم نعمتي وَرَضِيتُ لَكُمُ الْإِسْلَامَ دِينًا.

“Hoje aperfeiçoei para vós a vossa religião, completei a Minha graça para convosco e escolhi para vós o Islã como religião.” (Surata 5, Al-Maida: versículo 3)

Enquanto as normas da religião continuarem sendo analisadas dessa maneira e permanecer amplamente reconhecido por todos que é indispensável retornar à sua fonte original para resolver as divergências, não haverá nem espaço nem sentido para divergência alguma nessa religião.

Allah, o Altíssimo, diz:

وَإِنَّ الَّذِينَ اخْتَلَفُوا فِي الْكِتَبِ لَفِي شِقَاقَ بَعِيدٍ .

“Aqueles que divergiram acerca do Livro caíram em uma disputa e um conflito de grande alcance.” (Surata 2, Al-Baqara: versículo 176)

Allah também diz:

فَلَا وَرَبِّكَ لَا يُؤْمِنُونَ حَتَّى يُعَلِّمُوكَ فِيمَا شَجَرَ بَيْنَهُمْ ثُمَّ لَا يَجِدُوا فِي أَنْفُسِهِمْ حَرَجًا مِّمَّا قَضَيْتَ وَيُسَلِّمُوا تَسْلِيمان

“Por teu Senhor, eles não serão crentes até que te aceitem como juiz definitivo em suas disputas; depois, não sintam no íntimo o menor constrangimento diante da decisão que proferires e a aceitem com plena submissão e coração inteiramente tranquilo.” (Surata 4, An-Nisa: versículo 65)

Foi à luz desses princípios que os Companheiros e os muçulmanos das gerações virtuosas que os sucederam viveram. Com exceção de algumas poucas questões, não surgiram divergências entre eles em nenhum assunto. Nas poucas questões em que divergiram, a razão foi que havia diferenças entre eles na compreensão do significado dos textos pertinentes do Alcorão e da Sunnah; além disso, alguns deles conheciam certos textos pertinentes, enquanto outros não os conheciam.

Depois, quando surgiram os imames das quatro escolas jurídicas, eles seguiram o método de seus predecessores. Contudo, um grupo entre eles estava mais próximo da Sunnah do Mensageiro, como os habitantes do Hijaz, entre os quais era relativamente maior o número dos transmissores da Sunnah do Mensageiro e dos relatos dos Companheiros. O outro grupo empregou mais intensamente seu próprio raciocínio, como os habitantes do Iraque, entre os quais era relativamente menor o número dos memorizadores de hadiths. A causa disso era a distância entre suas terras de residência e o local da revelação.

Esses imames fizeram todo o possível para enriquecer o povo com o conhecimento do Islã e guiá-lo pelo caminho do Islã. Eles proibiam o povo de imitá-los cegamente e diziam: “Não é lícito a ninguém adotar nossa opinião e falar de acordo com ela sem conhecer as provas que apresentamos em seu apoio.” Afirmaram inequivocamente que o hadith autêntico era sua escola jurídica. Eles não queriam que as pessoas os seguissem cegamente, como se fossem o Mensageiro, livre de pecados e erros. Seu único objetivo era ajudar as pessoas a compreender a ordem de Allah.

Mais tarde, porém, quando o ânimo das pessoas se enfraqueceu e sua determinação se debilitou, a tendência à imitação cega começou a ganhar força entre elas. Como resultado, cada grupo se contentou com uma determinada escola jurídica. Seus pensamentos, estudos e reflexões ficaram limitados àquela escola. Tornaram-se dependentes dela e seus defensores fanáticos. Empregavam todas as suas forças em seu apoio e defesa. Concediam à declaração de seu imam a mesma autoridade que à declaração de Allah e do Mensageiro. Nenhum sábio desse grupo considerava lícito emitir uma fatwa contrária à opinião de seu imam. A devoção cega ao imam de sua própria escola jurídica chegou a tal ponto que al-Karkhi disse: “Qualquer versículo ou hadith que contrarie a opinião de nossos imames deve ser interpretado; caso contrário, é ab-rogado.”

Por causa da imitação cega e do sectarismo fanático em relação às escolas jurídicas, alguns grupos de muçulmanos começaram a ser privados da orientação do Alcorão e da Sunnah. Começou a circular o rumor de que a porta do ijtihad havia sido fechada. O que os juristas diziam passou a ser considerado a própria Sharia. A Sharia ficou limitada às declarações e opiniões dos juristas. Quem quer que adotasse uma opinião diferente da dos juristas era rotulado como inovador. Sua opinião era considerada inaceitável e sua fatwa, não confiável.

O que contribuiu para a ampla disseminação dessa estreiteza e desse fanatismo foram as madraças fundadas pelos governantes e pelos grupos abastados, bem como a limitação do currículo dessas madraças ao ensino de uma escola jurídica específica ou da doutrina de uma escola jurídica. Isso se tornou um meio decisivo de atrair as pessoas para essas escolas e afastá-las do ijtihad, a fim de manter os meios de subsistência que lhes haviam sido providenciados. Conta-se que Abu Zur‘a perguntou a seu mestre al-Balqini: “Diga-me: qual é a razão de o xeique Taqi al-Din al-Subki abster-se do ijtihad? Ele domina todas as qualificações e todos os instrumentos necessários ao ijtihad!” Al-Balqini permaneceu em silêncio. Depois de algum tempo, Abu Zur‘a disse: “Creio que a única razão de ele se abster disso são os cargos reservados aos juristas das quatro escolas jurídicas. Aqueles que se afastarem dessas quatro escolas não conseguirão cargo algum. Nenhum deles poderá tornar-se cádi, e o povo tampouco aceitará suas fatwas; ao contrário, serão rotulados como inovadores.” Ao ouvir isso, al-Balqini sorriu discretamente e concordou com ele.

Assim, aprisionada nas intrincadas malhas dessa taqlid, isto é, da imitação cega, privada da orientação do Alcorão e da Sunnah e aceitando que a porta do ijtihad havia sido fechada, a Ummah muçulmana caiu em graves dificuldades e calamidades e entrou na toca do lagarto, da qual o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a havia advertido.

O resultado foi que a Ummah muçulmana se dividiu em diversos grupos e subgrupos. Alguns chegaram até a divergir sobre se seria lícito o casamento entre a filha de um seguidor da escola hanafita e o filho de um seguidor da escola shafi‘ita. Alguns dizem: “Esse casamento não é lícito, pois os hanafitas duvidam até da fé dos shafi‘itas.” Outros dizem: “É lícito, pois, se é lícito casar com uma mulher judia ou cristã, também será lícito casar com uma dessas mulheres [porque, segundo os shafi‘itas, é lícito dizer: ‘Se Allah quiser, sou crente’].”

Como consequência, a bid‘ah também se disseminou amplamente, enquanto a tradição e a cultura eternas do Islã estão desaparecendo. O esforço intelectual está prestes a paralisar-se, as atividades de reflexão e pesquisa estão se tornando estagnadas, e a liberdade e a autonomia do conhecimento estão sendo destruídas. A combinação de todos esses sintomas enfraqueceu e debilitou a identidade própria da nação muçulmana, privando-a de sua vida produtiva. Interrompeu seu desenvolvimento e progresso. Nesse ínterim, seus inimigos infiltrados penetraram, pelas brechas, no próprio âmago do Islã.

Assim, muitos anos se passaram. Muitos séculos transcorreram. É o costume eterno de Allah enviar, de tempos em tempos, para esta ummah pessoas que renovam a apresentação de sua religião, despertam a ummah de seu sono e a orientam para o caminho da verdade e da justiça. Contudo, esta ummah parece não querer despertar do sono até retornar à sua desoladora condição anterior — ou a uma condição ainda pior.

Por fim, chegou a vez da elaboração da lei islâmica, por meio da qual Allah organizou e estruturou a vida de toda a humanidade, fazendo dela o apoio para sua vida terrena e sua vida futura. No entanto, a elaboração dessa lei foi rebaixada a um nível tão baixo que não há paralelo semelhante na história. Ela foi lançada em um abismo profundo. A reflexão, a pesquisa e o esforço dedicados a ela transformaram-se em uma atividade que destrói a mente e desperdiça tempo, que não promove benefício algum para a religião de Allah nem contribui para organizar a vida terrena das pessoas.

Aqui apresento, como exemplo, uma citação de uma obra de fiqh escrita por um jurista dos últimos tempos: “Ibn ʿArafa definiu ijāra (locação) como a venda dos benefícios de um bem imóvel, excetuando-se barcos e animais, cuja utilização não pode ser obtida por meio de uma contrapartida produzida a partir dele, e que, quando dividido em partes, revela suas partes.” Ao ouvir essa definição, um de seus alunos objetou que a palavra “partes” contrariava a concisão da definição. Não havia necessidade de mencioná-la. O referido jurista absteve-se de responder por dois dias. Depois, deu uma resposta absolutamente sem sentido.”

Na verdade, a elaboração da lei islâmica havia chegado a um nível tão baixo. Os eruditos não davam importância a nada além da língua original do Livro. No máximo, liam suas anotações, as informações, objeções e enigmas contidos nessas anotações, bem como os comentários escritos a respeito deles. Foi em meio a essa situação que, finalmente, um dia a Europa se lançou sobre o Oriente. Com suas garras agressoras, destruiu tudo e, pisoteando tudo, reduziu tudo a pó. Quando, um dia, os habitantes do Oriente despertaram, golpeados repetidamente pela agressão, e olharam para todos os lados, perceberam que estavam muito atrás da vida do mundo, que avançava rapidamente. A caravana da civilização seguia adiante, enquanto eles permaneciam sentados, indiferentes. Viram que estavam diante de um mundo novo: um mundo repleto de celebração da vida, um mundo que avançava com ímpeto irresistível em força e produtividade. Diante daquela visão, ficaram atônitos. Entre eles, um grupo que havia esquecido sua própria história, que se havia tornado descendente desobediente de seus antepassados e cuja própria religião e tradição haviam sido esquecidas, começou a gritar: “Ó habitantes do Oriente! Vede quanto progresso a Europa alcançou! Vinde, segui seus passos.” Começaram a imitar a Europa sem hesitação e de olhos fechados, fosse isso compatível com a fé ou fosse incredulidade, fosse bom ou mau. Quanto àqueles que estavam imersos até o pescoço na inércia e no fanatismo, adotaram uma posição negativa. Recitar repetidamente “Lā ḥawla wa lā quwwata illā billāh” e “Innā lillāhi wa innā ilayhi rājiʿūn”, tornar-se egocêntricos enquanto tentavam administrar o próprio modo de vida e recolher-se a um canto da casa — esse se tornou o seu método de ação. E esse método ofereceu aos arrogantes inimigos do Islã mais uma prova de que a sharia islâmica não consegue acompanhar o progresso e o desenvolvimento e não é adequada à época. Então ocorreu justamente o desfecho inevitável. As leis estrangeiras agressoras tornaram-se a autoridade dominante e reguladora na vida dos habitantes do Oriente, embora fossem totalmente contrárias à religião, à cultura e à tradição destes. Até os costumes e o modo de vida europeus começaram a invadir as famílias, as ruas, as assembleias, as escolas e faculdades e até os centros de educação e cultura. Além disso, a maré cultural da Europa começou a fortalecer-se e a tornar-se dominante em cada aspecto da vida. Como consequência, o Oriente esteve prestes a esquecer sua religião e sua tradição. O vínculo entre seu passado e seu presente estava prestes a romper-se. Contudo, uma regra eterna de Allah é que a Terra nunca fica desprovida de pessoas que estabeleçam Sua religião. Assim, os chamados à reforma tornaram-se ativos. Começaram a advertir os enganados pelo Ocidente: “Ficai atentos! Abstende-vos de fazer propaganda da civilização ocidental. Pois a decadência moral dos ocidentais não deixará de conduzi-los a um desfecho extremamente lamentável.” Se não corrigirem sua natureza por meio de uma fé pura e não transformarem seu caráter imitando os mais elevados e excelentes modelos de moralidade, em breve sua ciência se converterá em uma arma destrutiva, que transformará suas belas cidades em fornalhas que os devorarão e os queimarão até reduzi-los a cinzas. Como disse Allah: “Não viste como teu Senhor tratou a ʿĀd, o povo de Iram, dotado de colunas elevadas, como jamais se criou semelhante nos países? E os Thamūd, que talharam as rochas no vale para construir casas? E o Faraó, senhor dos exércitos? Eles transgrediram nos países e neles multiplicaram a corrupção. Então teu Senhor lançou sobre eles o flagelo do castigo. Na verdade, teu Senhor está à espreita.” (Surata 89, Al-Fajr: versículos 6–14)

Os chamados à reforma começaram a clamar aos que permaneciam reclusos e imóveis em suas casas: “Apegai-vos ao Alcorão e à Sunnah, as fontes do conhecimento infalível; buscai nessas duas fontes a vossa religião e, por meio delas, anunciai também boas-novas aos outros. Então, com a vossa ajuda, este mundo extraviado encontrará o caminho reto e correto, e esta Terra oprimida alcançará paz e prosperidade.” Allah diz:

لَقَدْ كَانَ لَكُمْ فِي رَسُولِ اللَّهِ أَسْوَةٌ حَسَنَةٌ لِمَنْ كَانَ يَرْجُوا اللهَ وَالْيَوْمَ الْآخِرَ وَذَكَرَ اللَّهَ كَثِيران

“No Mensageiro de Allah há, para vós, o mais belo exemplo — para aqueles que esperam encontrar Allah e o Último Dia e se lembram muito de Allah.” (Al-Ahzab: versículo 21)

Pela infinita misericórdia de Allah, algumas pessoas virtuosas e nobres responderam a este chamado. Aceitaram esta da‘wah com o coração inteiramente devotado. Um grupo de jovens e rapazes acolheu esta da‘wah e dedicou a ela seus bens mais preciosos e suas próprias vidas.

Esta nobre iniciativa despertou curiosidade e comoção no espírito das pessoas. Em meio ao excesso de esperança e entusiasmo, surgiu em suas mentes a pergunta: será que agora Allah permitiu que a Terra fosse novamente iluminada por Sua luz? Será que Ele decidiu que, a partir de agora, as pessoas vivam uma vida pura e imaculada, inspirada pela fé, pelo ihsan, pela justiça e pela fraternidade? Os dois versículos seguintes testemunham precisamente isso:

هُوَ الَّذِي أَرْسَلَ رَسُولَهُ بِالْهُدَى وَدِينِ الحَقِّ لِيُظْهِرَهُ عَلَى الدِّينِ كُلِّهِ ، وَكَفَى بِاللَّهِ حَمِيدَات

“Ele é Quem enviou Seu Mensageiro com a orientação e a verdadeira religião, para fazê-la prevalecer sobre todas as demais crenças e caminhos; e basta Allah como testemunha.” (Surata 48, Al-Fath, versículo 28)

سَنُرِيهِمْ آيَتِنَا فِي الْآفَاقِ وَفِي أَنْفُسِهِمْ حَتَّى يَتَبَيَّنَ لَهُم أَنَّهُ الْحَقِّ ، أَوَلَمْ يَكْفِ بِرَبِّكَ أَنَّهُ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ عَمِيده

“Em breve lhes mostraremos Nossos sinais nos horizontes e em seu próprio ser, até que lhes fique claro que este Alcorão é a verdade. Não basta que teu Senhor seja testemunha de todas as coisas?” (Surata 41, Hamim Sajdah, versículo 59)

Primeiro capítulo: Taharah (purificação)

Taharah (purificação)

1. O uso da água para alcançar a pureza e os tipos de água

Primeiro tipo: água comum

A regra sobre a água comum é que ela é pura e purificadora. As seguintes águas pertencem à categoria da água comum:

a. Água da chuva, água proveniente do derretimento do gelo e água da neve: pois o Deus Altíssimo disse:

وينزل عليكم مِنَ السَّمَاءِ مَاءً ليطهركم به .

“Ele faz descer sobre vós água do céu, para purificar-vos por meio dela.” (Surata 8, Al-Anfal: versículo 11)

O Deus Altíssimo também disse:

وَانزَلْنَا مِنَ السَّمَاءِ مَاءً طَهُورًات

«E fizemos descer do céu água pura.» (Surata 25, Al-Furqan: versículo 48)

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia o takbir na oração, permanecia em silêncio por um breve momento antes da recitação. Certo dia, eu disse: «Ó Mensageiro de Allah! Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti. Qual é a razão do teu silêncio entre o takbir e a recitação? O que dizes nesse momento?» O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: «Eu digo:

اللهم باعد بيني وبين خطاياي كما باعدت بين المشرق والمغرب، اللهم تَقْنِي مِنْ عَطَايَايَ كَهَا ينقى الثوب الأبيض من الدنس، اللهم أَغْسِلْنِي مِن عَطَايَايَ بِالتَّلْمِ وَالْمَاءِ وَالْبَرْد.

«Ó Allah! Cria entre mim e os meus pecados uma distância tão grande quanto a distância que criaste entre o Oriente e o Ocidente. Ó Allah! Purifica-me dos meus pecados assim como se limpa uma roupa da sujeira. Ó Allah! Lava e apaga os meus pecados com neve, água e granizo, e perdoa-me.» — Narrado por todos os livros de hadith autênticos, exceto At-Tirmidhi.

b. A água do mar: Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Um homem perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah! Viajamos pelo mar e levamos conosco pouca água. Se fizermos a ablução com ela, sofreremos de sede. Podemos, portanto, fazer a ablução com a água do mar?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “A água do mar é purificadora [O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não respondeu “sim” à pergunta. Isso porque desejou mencionar, juntamente com a regra, a sua justificativa: a propriedade purificadora da água. Além disso, informou outra regra que não havia sido perguntada: a de que é lícito comer o animal morto encontrado na água. Assim, sua resposta tornou-se completa em termos informativos, e também foi comunicada uma regra adicional que não havia sido solicitada. Quando surgir necessidade dessa regra, ela será útil. Esta é uma excelente característica da fatwa].»

E é lícito comer o animal marinho morto (peixe).» Narrado pelos cinco livros de hadith autênticos. At-Tirmidhi disse: «Este hadith é autêntico e bom. Perguntei a Muhammad ibn Isma’il Al-Bukhari sobre este hadith: como ele é? Ele respondeu: “É autêntico.”»

c. A água de Zamzam: Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: «O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que trouxessem um balde de água de Zamzam. Depois, bebeu um pouco daquela água e fez a ablução com o restante.»
(Musnad Ahmad)

d. Água alterada na cor: Os sábios também consideram água comum a água cuja aparência se alterou por ter permanecido confinada durante muito tempo, por estar em um tanque ou recipiente, ou pela mistura com substâncias como algas, folhas de árvores e outras semelhantes, que frequentemente se misturam à água.

Neste ponto, o princípio é que a água considerada água comum, não qualificada por nenhum atributo específico, pode ser usada válida e corretamente para a purificação. Allah, o Altíssimo, disse:

فَلَمْ تَعِدُوا مَاءً فَتَيَموا

“E, se não encontrardes água, fazei tayammum.” (Surata 5, Al-Má’ida: versículo 6)

Segundo tipo: água usada

É a água que escorre dos membros daquele que faz wudu ou ghusl. Sua regra é que ela continua purificadora, tal como a água comum. Assim como a água original é purificadora, esta também é exatamente purificadora. Ambas são iguais. Não há nenhuma prova que justifique considerá-la diferente da água purificadora. Isso também é comprovado pelo hadith narrado por Rubai‘ bint Mu‘awwidh. Ao descrever o wudu do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ela disse: “E ele passou as mãos sobre a cabeça com a água que havia ficado em suas mãos após o wudu.” — Narrado por Ahmad e Abu Dawud.

A versão narrada por Abu Dawud é a seguinte: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou as mãos sobre a cabeça com a água restante que havia ficado em suas mãos.”

Foi narrado por Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que ele encontrou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em uma rua de Medina. Abu Hurayra estava então em estado de impureza devido à ejaculação, isto é, estava junub. Por isso, afastou-se da presença do Mensageiro de Allah, tomou banho e depois voltou. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Abu Hurayra, onde estiveste?” Ele respondeu: “Eu estava em estado de impureza e não quis sentar-me contigo enquanto estava nesse estado.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Subhanallah! O crente jamais se torna impuro.” — Narrado em todas as coletâneas autênticas de hadith.

Este hadith prova que a água usada é purificadora. Quando um crente não se torna impuro, não há razão para que a água perca sua característica purificadora simplesmente por entrar em contato com seu corpo. No máximo, nesse contato, uma coisa pura se une a outra coisa pura, e isso não causa nenhum dano. Ibn al-Mundhir disse: Foi narrado de Ali, Ibn Umar, Abu Umama, Ata, Hasan, Mak-hul e Nafi‘ que eles disseram: “Aquele que se esquecer de passar as mãos sobre a cabeça e depois perceber que sua barba está molhada, será suficiente para ele passar as mãos sobre a cabeça com a água da barba.” Isso prova que eles consideravam a água usada purificadora. Eu também adoto essa opinião. Há uma transmissão segundo a qual essa é a posição do imam Malik e do imam al-Shafi‘i. Ibn Hazm disse que essa é a opinião de Sufyan al-Thawri, Abu Thawr e de todos os sábios zahiritas.

Terceiro tipo: a água à qual se mistura alguma substância pura, como sabão, açafrão, farinha e semelhantes, e da qual tais substâncias não se separam normalmente. Sua regra é que ela continuará sendo purificadora enquanto ainda puder ser chamada simplesmente de água.

Mas, se já não puder ser chamada simplesmente de água, sua regra é que ela é pura em si mesma, mas não purifica outras coisas. Foi narrado por Umm ʿAtiyya que ela disse: “O Mensageiro de Deus veio até nós após a morte de sua filha Zaynab e disse: ‘Lavai-a três vezes, ou cinco vezes, ou mais vezes, se achardes necessário. Lavai-a com folhas de sidra e água. Depois, na última lavagem, usai cânfora ou algo feito de cânfora. Quando terminardes o banho, chamai-me.’ Quando terminamos o banho, informamo-lo. Ele nos deu seu izār e disse: ‘Cobri-a com ele.’” Este hadith foi narrado em todas as coletâneas de hadith autênticas.

Também só é permitido lavar o morto com a água com a qual é permitido realizar a purificação do vivo.

Aḥmad, al-Nasāʾī e Ibn Khuzayma narraram o hadith de Umm Hāniʾ: o Mensageiro de Deus e sua esposa Maymūna realizaram o banho ritual no mesmo recipiente. Era um recipiente que sua esposa usava para guardar alimentos e no qual havia vestígios de farinha.

Fica evidente que, em ambos os hadiths, havia uma mistura com a água; contudo, essa mistura não era tão intensa a ponto de deixar de ser aplicável a ela o nome de água.
Quarto tipo: a água à qual se mistura alguma substância impura

A mistura pode ocorrer de duas formas:

Primeira: o sabor, a cor e o odor da água se alterarem devido à mistura com uma substância impura. Não é permitido realizar a purificação com esse tipo de água, por consenso unânime. Ibn al-Mundhir e Ibn al-Mulaqqin afirmaram isso.

Segunda: a água permanecer em seu estado natural, sem que nenhuma de suas três características mencionadas se altere. Sua regra é que essa água é pura em si mesma e purifica outras coisas, seja pouca ou muita. A prova disso é o hadith narrado por Abū Hurayra: “Certo beduíno entrou na mesquita e urinou nela. As pessoas correram imediatamente em sua direção e quase se lançaram sobre ele. Então o Mensageiro de Deus disse: ‘Deixai-o e despejai sobre sua urina um balde de água. Fostes enviados para tornar a religião fácil, e não fostes enviados para torná-la difícil.’” Este hadith foi narrado por todas as coletâneas de hadith, exceto Muslim.

Isso também é comprovado pelo hadith de Abu Sa’id al-Khudri (que Deus esteja satisfeito com ele). Ele disse: Perguntaram: «Ó Mensageiro de Deus! Podemos fazer a ablução com a água do poço de Buda’ah? [Buda’ah é um poço de Medina. Abu Dawud disse: Ouvi Qutaybah ibn Sa’id dizer: perguntei ao responsável pelo poço de Buda’ah qual era a sua profundidade. Ele respondeu: quando há mais água, ela chega até a parte inferior do abdômen. Perguntei: e quando diminui? Ele respondeu: até abaixo da parte do corpo que deve ser coberta. Abu Dawud disse: Medi o poço de Buda’ah com meu manto. Estendi-o sobre o poço e depois medi: sua largura era de seis côvados. Perguntei àquele que me abriu o portão do jardim e me fez entrar nele: Foi feita alguma alteração neste poço em relação ao que era antes? Ele respondeu: Não. Vi que a água daquele poço havia mudado de cor.]»

O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: «A água é purificadora; nada a torna impura.» O hadith foi narrado por Ahmad, al-Shafi’i, Abu Dawud, al-Nasa’i e al-Tirmidhi. Al-Tirmidhi o classificou como um bom hadith, e Ahmad o classificou como autêntico. Yahya ibn Ma’in e Abu Muhammad ibn Hazm também disseram que ele é autêntico.

Ibn Abbas, Abu Hurayrah, al-Hasan al-Basri, Ibn al-Musayyab, ‘Ikrimah, Ibn Abi Layla, al-Thawri, Dawud al-Zahiri, al-Nakha’i, Malik e outros sustentavam essa mesma opinião. Al-Ghazali disse: «Se a escola jurídica de al-Shafi’i, no que diz respeito à água, fosse como a escola jurídica de Malik, isso seria, em minha opinião, melhor.»

«O Mensageiro de Deus disse: “Quando a água atinge a quantidade de duas qullah, não pode remover a impureza”.» Este hadith, narrado de Ibn Umar nas cinco coletâneas de hadith, é fraco tanto quanto à cadeia de transmissão quanto ao texto original. (Uma grande jarra é chamada qullah — nota do tradutor.)

Ibn Abd al-Barr disse na introdução: O hadith das duas qullah, seguido pelo imame al-Shafi’i, é fraco do ponto de vista racional e, da mesma forma, não é comprovado do ponto de vista da cadeia de transmissão.

Quinto tipo: água restante ou água residual

A quantidade de água que permanece no recipiente depois que alguém bebe é chamada de água residual. A água residual divide-se em vários tipos:

a. Água residual humana: é pura — seja a de um muçulmano ou a de um não muçulmano, a de alguém impuro devido à emissão seminal ou a de uma mulher menstruada. Quanto ao que Deus disse: «Os idólatras são impuros» (surata 9, At-Tawbah, versículo 28), o significado é impureza moral e espiritual. Essa impureza moral e espiritual resulta das crenças inválidas dos idólatras e de não se protegerem da impureza e da sujeira. Não se trata de impureza de seus corpos ou objetos. Eles conviviam com os muçulmanos, e seus mensageiros e delegações iam até o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), entrando inclusive na Mesquita do Profeta. Ele nunca ordenou que se lavasse coisa alguma por ter entrado em contato com seus corpos.

“Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Eu bebia de um recipiente enquanto estava menstruada e depois o entregava ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele colocava a boca no mesmo lugar em que eu havia colocado a minha e bebia.” — Muslim.

b. O restante deixado por animais cujo consumo é lícito: é puro. Isso porque a saliva desses animais provém de carne pura. Portanto, ela também é pura. Abu Bakr ibn al-Mundhir disse: Há consenso entre os sábios de que é permitido beber a água restante de um animal cuja carne é lícita. Também é válido realizar a ablução com ela.

c. O restante deixado por jumentos, mulas, animais predadores e aves de rapina: é puro. Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: “Perguntou-se ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: Podemos realizar a ablução com a água restante de um jumento? Ele respondeu: Sim. Não apenas isso: é permitido realizar a ablução com o restante deixado por todos os animais predadores.” (Al-Shafi’i, al-Daraqutni e al-Bayhaqi.) Este hadith possui numerosas cadeias de transmissão; quando reunidas, elas o fortalecem.

“Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Certa vez, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiu em viagem durante a noite. Acompanhado de seu grupo, chegou até um homem que estava sentado diante de um reservatório de água. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou: Algum animal predador bebeu água do seu reservatório durante a noite? O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse imediatamente ao homem: Ó dono do reservatório, não lhe diga isso; ele é uma pessoa muito escrupulosa. Se o animal predador bebeu algo, isso está em seu ventre; e o que restou é próprio para bebermos e purificador.” — Al-Daraqutni.

“É narrado por Yahya ibn Sa’id que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, saiu em viagem com uma caravana. Amr ibn al-‘As estava nessa caravana. Quando chegaram a um poço, Amr ibn al-‘As disse: Ó dono do poço, algum animal predador vem ao seu poço? Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu imediatamente: Não informe isso. Nós também vamos até os animais predadores, e eles vêm até nós.” — Muwatta de Malik.

d. O restante deixado por gatos: também é puro. Kabsha bint Ka’b, que vivia na casa de Abu Qatada, disse: “Abu Qatada veio até mim, e eu lhe servi água. Nesse momento, um gato veio beber. Abu Qatada aproximou dele o recipiente de água, e o gato bebeu dele. Kabsha disse: Abu Qatada percebeu que eu estava olhando para aquilo e disse: Ó minha sobrinha, estás admirada? Respondi: Sim. Ele disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: O restante deixado pelo gato não é impuro. O gato está sempre circulando entre vós.” (Narrado nas cinco coletâneas autênticas de hadith. Al-Tirmidhi disse: Este é um hadith autêntico e bom; al-Bukhari e outros também o consideraram autêntico.)

e. O restante deixado por cães e porcos: é impuro, e é obrigatório evitá-lo. A razão da impureza do restante deixado pelo cão é que foi narrado por Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, em al-Bukhari e Muslim: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quando um cão beber de algum recipiente vosso, é obrigatório lavá-lo sete vezes.”

“E em Ahmad e Muslim consta que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Se um cão lamber algum recipiente vosso, ele se tornará puro quando for lavado sete vezes; na primeira delas, deve ser esfregado e lavado com terra.”
O restante deixado pelo porco é impuro devido à impureza e à sujeira do porco.

2. Impureza e os meios de alcançar a pureza da impureza

Najasa ou impureza é a sujeira ou imundície da qual é obrigatório todo muçulmano purificar-se, e, se alguma parte dela atingir seu corpo ou sua roupa, é indispensável lavá-la e limpá-la. Allah, Exaltado seja, disse:

وَثِيَابَكَ نطير

“Purifica as tuas vestes.” (Surata 74, Al-Muddaththir: versículo 4)

Allah, Exaltado seja, também disse:

إن اللهَ يُحِبُّ التوابين ويُحِبُّ المتطهرين

“Certamente, Allah ama os que se arrependem e ama os que se purificam.” (Surata 2, Al-Baqara, versículo 222)

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

الطَّمَورُ شَطْرُ الْإِيان

“A pureza faz parte da fé.”

Há muitas outras discussões sobre este assunto, que mencionaremos a seguir:

– Classificação dos tipos de impureza: a impureza é de dois tipos: primeiro, aquela que pode ser percebida pelos sentidos, como a urina, as fezes e o sangue; segundo, aquela que não pode ser percebida pelos sentidos, como a impureza decorrente da emissão de sêmen.

1. Animais mortos:

Animais mortos são aqueles que morrem naturalmente, isto é, sem abate (aqui se entende o abate conforme a sharia). O animal que é cortado enquanto ainda está vivo também se inclui nessa categoria. Abu Wáqid al-Laithi disse: O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “A parte de um quadrúpede que é cortada enquanto ele está vivo é um animal morto.” (Abu Dawud e Tirmidhi.) Tirmidhi classificou-o como um hadith bom e disse: “Os eruditos seguem este hadith.”

Embora se enquadrem na categoria de animais mortos, os seguintes não são impuros:

a. Cadáveres de peixes e gafanhotos:

Estas coisas são puras. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Foram-nos permitidos dois animais mortos e dois tipos de sangue. Os dois animais mortos são o peixe e o gafanhoto. E os dois tipos de sangue são o fígado e o baço.”» (Narrado por Ahmad, al-Shafi‘i, Ibn Majah, al-Bayhaqi e al-Daraqutni.) O hadith é fraco; contudo, segundo o Imam Ahmad, é mawquf, porém autêntico. (Chama-se mawquf o hadith cuja cadeia de transmissão termina num Companheiro e não chega ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).) Abu Zur‘ah e Abu Hatim também o consideraram mawquf e autêntico. Esse tipo de hadith pertence à categoria marfu‘ (aquele cuja cadeia de transmissão chega ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)). Quando alguns Companheiros dizem: “Isto nos foi permitido e isto nos foi proibido”, isso equivale exatamente a dizer: “Fomos ordenados a fazer determinada coisa e proibidos de fazer determinada coisa”.

Anteriormente foi citada a declaração do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acerca do mar: «O mar é purificador; sua água é pura e os animais mortos que nele se encontram são lícitos.»

b. Os cadáveres de animais que não possuem sangue fluente, como formigas, abelhas e semelhantes. Estes são puros. Se caírem em alguma coisa e morrerem, essa coisa não se torna impura. Ibn al-Mundhir disse: Não conheço ninguém, exceto o Imam al-Shafi‘i, que tenha divergido quanto à pureza daquilo em que esses cadáveres caem. A opinião mais conhecida em sua escola é que isso é impuro; contudo, se cair num líquido, este permanecerá puro enquanto não for alterado por isso.

c. Os ossos, chifres, unhas, pelos, penas, pele e tudo o que for semelhante, provenientes do cadáver de um animal, são puros. O estado original dessas coisas é a pureza; não há prova de que sejam impuras. Sobre os ossos dos cadáveres de elefantes e de outros animais, ele disse: “Vi muitos dos primeiros sábios pentearem os cabelos com pentes feitos deles e usarem seu óleo. Eles não viam nisso nenhum problema.” Narrado por al-Bukhari.

Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): «Ele disse: “Uma cabra foi dada em caridade a uma serva liberta de Maymunah. Depois, a cabra morreu. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passou por elas e disse: ‘Por que vocês não retiraram a pele da cabra, curtiram-na e a utilizaram?’ Elas responderam: ‘Mas ela estava morta.’ O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘O que é proibido no animal morto é apenas comê-lo.’”» (Narrado em todas as coletâneas de hadith, exceto a de Ibn Majah.)

Ibn Majah narrou este hadith de Maymunah. Em al-Bukhari e al-Nasa’i não é mencionada a curtimenta da pele. Foi narrado por Ibn Abbas que ele recitou o versículo 145 da surata al-An‘am e disse: “Foi proibido aquilo que é comido dele, isto é, a carne. A pele, o que dela se extrai, os dentes, as patas, os pelos e a lã são todos lícitos.” (Narrado por Ibn al-Mundhir e Ibn Abi Hatim.) (Surata 6, versículo 143)

O leite e o leite coalhado extraído do estômago do filhote de uma cabra morta são puros. Quando os Companheiros conquistaram o Iraque, comeram o queijo produzido pelos adoradores do fogo daquela região. Esse queijo era feito com o leite coalhado do estômago de filhotes de cabra mortos. Ou considerava-se que os animais abatidos por eles eram cadáveres. Foi narrado que Salman al-Farisi (que Allah esteja satisfeito com ele) foi questionado sobre queijo, manteiga clarificada e roupas feitas de pelos de animais, e respondeu: “Allah tornou lícito em Seu Livro aquilo que tornou lícito, e proibiu aquilo que proibiu em Seu Livro. Quanto às coisas sobre as quais manteve silêncio, concedeu isenção.” Quando Salman era representante de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) em Mada’in, na realidade perguntaram-lhe especificamente sobre o queijo dos adoradores do fogo.

2. Sangue:

Seja sangue corrente — como o sangue que escorre do animal abatido — ou sangue menstrual. Contudo, uma quantidade muito pequena dele é perdoada. Sobre a expressão mencionada no versículo acima, “ou sangue corrente”, Ibn Jurayj disse: significa o sangue que é derramado. Quanto ao sangue que permanece nas veias do animal morto, não há objeção. Narrado por Ibn al-Mundhir.

Foi narrado de Abu Mijlaz que lhe perguntaram sobre o sangue que permanece no local do abate da cabra ou que aparece sobre a panela. Ele respondeu: “Não há mal nisso. Foi proibido apenas o sangue corrente.” Narrado por Abd ibn Humayd e Abu ash-Shaykh.

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Quando víamos vestígios de sangue na parte superior da panela, comíamos a carne.” Al-Hasan disse: “Os muçulmanos costumavam rezar mesmo com seus ferimentos.” — Bukhari.

Foi autenticamente narrado que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, rezou enquanto o sangue escorria de seu ferimento. Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: Abu Hurayra não considerava censurável que uma ou duas gotas de sangue caíssem durante a oração. Contudo, à luz dessas declarações dos Companheiros, o sangue de insetos e o sangue que sai de furúnculos são escusáveis. Quando Abu Mijlaz foi questionado sobre o pus que atinge o corpo ou a roupa, ele disse: “O pus não é algo censurável. Allah mencionou o sangue, mas não mencionou o pus.” Ibn Taymiyyah disse: “Se pus, pus misturado com sangue ou pus sem sangue atingir a roupa, é necessário lavá-la.” Contudo, ele disse que não há prova de que essas coisas sejam impuras. De qualquer modo, deve-se evitá-las tanto quanto possível.

3. A carne de porco:

Allah, o Altíssimo, disse:

قُلْ لَّا أَجِلٌ فِي مَا أُوحِيَ إِلَى مُحَرَّمًا عَلَى طَاعِي يُطْعَمَهُ إِلَّا أَن يَكُونَ مَيْتَةً أَوْ دَمَا تَسْفُومًا أَوْ لَهُم خِنْزِير فَإِنَّهُ رِجْسٌ .

“Dize: Não encontro, naquilo que me foi revelado, nada proibido para quem deseja alimentar-se, exceto um animal morto, sangue derramado ou carne de porco, pois é impura.” (Surata 6, Al-An’am, versículo 145)

Ou seja, as três coisas mencionadas são impuras, algo que as pessoas de mente sã não apreciam.

Segundo a opinião mais conhecida dos estudiosos, é permitido costurar usando pelos de porco.

4–6. Vômito, urina e fezes humanas:

Há consenso de que essas coisas são impuras. Contudo, uma pequena quantidade de vômito é perdoada. Quanto à urina de uma criança que ainda não começou a comer alimentos sólidos, basta borrifar água sobre ela. Umm Qays (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que levou ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) seu filho, que ainda não tinha idade para comer alimentos sólidos. O menino urinou no colo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele pediu que trouxessem água e borrifou uma quantidade um pouco maior sobre sua roupa, sem lavá-la. — Relatado por al-Bukhari e Muslim.

Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Deve-se borrifar água sobre a urina do menino, mas lavar a urina da menina.” Qatada disse: Essa regra se aplica enquanto eles não comem alimentos sólidos. Quando começarem a comer alimentos sólidos, deve-se lavar a urina de ambos. — Relatado por Ahmad, Abu Dawud e Ibn Majah. O texto deste hadith foi citado de Ahmad.

O hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: A cadeia de transmissão deste hadith é autêntica. Borrifar água é suficiente enquanto a criança se alimenta apenas de leite. Quando começa a comer outros alimentos para se nutrir, torna-se obrigatório lavar, segundo o consenso. A razão para permitir apenas borrifar água é, provavelmente, o forte apego das pessoas a carregar consigo seus filhos pequenos. Isso faz com que ocorram frequentemente casos de urina no colo, e lavar a roupa repetidas vezes seja muito trabalhoso. Assim, essa permissão aliviou a dificuldade.

7. Wadi

Wadi é um tipo de líquido branco e espesso que sai depois da urina. Há consenso de que é impuro. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que o wadi sai depois da urina. Quem tiver essa secreção deve lavar os órgãos genitais e fazer a ablução; não é necessário realizar o banho ritual. Relatado por Ibn al-Mundhir. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando sair o mani (sêmen), deve-se realizar o banho ritual. Quando saírem o madhi ou o wadi, deve-se fazer a ablução e purificar-se completamente. Relatado por Asram e al-Bayhaqi. A versão de al-Bayhaqi diz: Sobre o wadi e o madhi, ele disse: “Lavai os órgãos genitais e fazei a ablução como para a oração.”

8. Madhy

Um líquido branco e viscoso que é secretado ao pensar em relações sexuais ou durante a intimidade e as carícias entre homens e mulheres. A pessoa pode nem perceber que ele foi secretado. Ele é secretado tanto pelos órgãos sexuais femininos quanto pelos masculinos, embora seja mais frequente no órgão sexual feminino. Há consenso de que ele é impuro. Contudo, quando atingir o corpo, será obrigatório lavar a parte atingida. Se atingir a roupa, será suficiente borrifar água sobre ela, pois se trata de uma impureza da qual é difícil evitar-se. Isso ocorre com muita frequência nas roupas de jovens solteiros e solteiras. Portanto, a concessão neste caso é ainda mais justificável do que no caso da urina de um menino. “Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Eu sofria de uma secreção muito abundante de madhy. Ordenei a um homem que perguntasse ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre isso; não perguntei pessoalmente por ele ser o pai de sua filha. Quando o homem perguntou, o Mensageiro de Allah respondeu: Lava o teu órgão masculino e faz a ablução.” — Bukhari e outras obras.

Sahl ibn Hunayf, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Eu sofria muito por causa do madhy e, por isso, tomava banho com frequência. Expus o assunto ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele disse: Basta que faças a ablução. Eu disse: Ó Mensageiro de Allah, como devo proceder com o madhy que atinge minha roupa? Ele disse: É suficiente borrifar um punhado de água no local da tua roupa onde pensas que ele atingiu.” Narrado por Abu Dawud, Ibn Majah e Tirmidhi. Tirmidhi classificou-o como hasan e sahih.

Ashram, que Allah esteja satisfeito com ele, também narrou este hadith. Sua versão é a seguinte: “Eu sofria muito por causa do madhy. Então fui ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e informei-o sobre o assunto. Ele disse: Pega um punhado de água e borrifa-o; isso será suficiente para ti.”

9. Mani (sêmen)

Alguns sábios consideraram o sêmen impuro. Contudo, aparentemente ele é puro. Ainda assim, é mustahabb lavá-lo quando estiver úmido e removê-lo esfregando ou raspando quando estiver seco. “Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Eu raspava o sêmen seco da roupa do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e lavava o sêmen úmido.” — Dar al-Qutni, Bazzar e Abu Awana.

Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Perguntaram ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre o sêmen que atinge a roupa. Ele respondeu: Isso é como o muco e a saliva. Basta removê-lo com uma folha ou com capim idhkhir.” — Dar al-Qutni, Bayhaqi e Tahawi. Há divergência quanto a saber se este hadith é marfu ou mawquf.

10. A urina e o esterco dos animais cuja carne não é permitida comer

Ambos são impuros. Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi ao banheiro. Em seguida, ordenou-me que lhe trouxesse três pedras. Encontrei duas pedras e procurei a terceira, mas não a encontrei. Encontrei um pedaço de esterco seco e fui levá-lo a ele. Ele pegou as duas pedras e jogou fora o esterco. Disse: ‘Isto é impuro.’” — Bukhari e Ibn Khuzaymah.

Em algumas narrativas, acrescenta-se: “Isto é impuro. É esterco de burro.” Uma pequena quantidade dele é perdoada quanto à impureza, pois é difícil evitá-lo completamente.

Al-Walid ibn Muslim disse: Perguntei a Al-Awza‘i sobre a urina dos quadrúpedes cuja carne não é lícito comer, como mulas, burros e cavalos. Ele respondeu: Durante suas guerras, os muçulmanos eram atingidos pela urina desses animais.

Mas eles não a lavavam do corpo ou da roupa. Imam Malik, Ahmad e uma parte dos seguidores da escola de Al-Shafi‘i consideram puros a urina e as fezes dos animais cuja carne é lícita. Ibn Taymiyyah disse: Nenhum Companheiro declarou que isso era impuro; ao contrário, considerá-lo impuro é uma inovação que nenhum dos Companheiros afirmou. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Algumas pessoas das tribos de ‘Ukl ou ‘Uraynah vieram a Medina e foram acometidas por uma doença intestinal prolongada. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou-lhes que bebessem a urina e o leite de camelas leiteiras.” — Ahmad, Bukhari e Muslim.

Este hadith comprova a pureza da urina de camelo. Deve-se considerar igualmente puros os demais animais lícitos, além do camelo. Ibn al-Mundhir disse: Aqueles que afirmam que isso era específico apenas para ‘Uraynah ou ‘Ukl estão equivocados, pois nenhuma especificidade pode ser aceita sem prova. Ele disse: O fato de os eruditos, tanto antigamente quanto nos tempos recentes, não terem objetado à venda de esterco de cabras e ovelhas em seus mercados nem ao uso de urina de camelo como medicamento comprova que essas coisas são puras. Al-Shawkani disse: As fezes e a urina de todo animal lícito são exteriormente puras, pois seu estado original é a pureza. A impureza é, na Shariah, uma regra que o transforma de seu estado original de pureza para outro estado.

Portanto, a afirmação daqueles que defendem sua transformação não pode ser aceita sem uma prova adequada para tal mudança. Não encontramos, da parte daqueles que o consideram impuro, nenhuma prova que sustente essa afirmação.

11. Animais que se alimentam de excrementos

Foi proibido montar animais que se alimentam de excrementos, comer sua carne e beber seu leite. É narrado por Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu beber o leite de animais que se alimentam de excrementos.” Isso foi narrado pelas cinco restantes das seis coletâneas autênticas de hadith, exceto Ibn Majah. Al-Tirmidhi o classificou como autêntico. Em outra narrativa, afirma-se: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também proibiu montar animais que se alimentam de excrementos — Abu Dawud. Em um hadith narrado por ‘Amr ibn Shu‘ayb, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu comer a carne de burros domésticos, montar animais que se alimentam de excrementos e comer sua carne.” — Ahmad, Al-Nasa’i e Abu Dawud.

Por animais que se alimentam de excrementos entendem-se geralmente, entre camelos, bovinos, ovinos, patos, galinhas e outros, aqueles que comem fezes e, por isso, sofrem alteração no odor. Se forem mantidos confinados por algum tempo, impedidos de comer excrementos e alimentados com coisas puras, e sua carne se tornar pura, deixando de serem chamados de animais que se alimentam de excrementos, então será lícito comê-la.

Isso porque a causa da proibição era justamente a causa que havia provocado a alteração. Quando essa causa desaparece, deixa de ser proibido.

12. Bebidas alcoólicas

Segundo a maioria dos sábios, as bebidas alcoólicas são impuras, pois Deus disse:

إِنَّا العمر وَالْمَيْسِرُ والأَنْصَابُ وَالْأَزْلَامُ رِجْسٌ مِنْ عَمَلِ الشَّيْطَي .

“As bebidas alcoólicas, os jogos de azar, os ídolos e as flechas divinatórias são apenas abominações, obras de Satanás.” (Surata 5, Al-Máida: versículo 90)

Um grupo de sábios considerou as bebidas alcoólicas puras. Segundo eles, o termo “abominação” significa abominação do ponto de vista moral. A palavra “abominação” foi empregada especificamente em relação às bebidas alcoólicas. As outras coisas mencionadas no versículo, na realidade, não são qualificadas de modo algum como impuras. Deus, o Altíssimo, disse em outro lugar: “Afastai-vos dos ídolos impuros.” É evidente que os ídolos são impuros moralmente. Ninguém se torna impuro por tocá-los. A explicação dada no versículo — de que isso é obra de Satanás, que cria inimizade e ódio entre as pessoas e as impede da oração e da lembrança de Deus — também prova que “abominação” significa algo moralmente abominável e impuro. Na obra Subul as-Salam, foi dito:

A realidade é que toda substância e todo objeto são, em princípio, puros. O fato de algo ser proibido não implica necessariamente que seja impuro. Por exemplo, a maconha é proibida, mas é pura. Tudo o que é impuro é necessariamente proibido, mas nem tudo o que é proibido é impuro. Isso porque a regra relativa à impureza de algo é que se deve evitar seu contato em todas as circunstâncias. Portanto, qualificar algo como impuro equivale a declará-lo proibido. Contudo, declarar algo proibido não significa necessariamente declará-lo impuro. É proibido aos homens usar ouro e seda, embora ambos sejam consensualmente puros. Assim, os versículos e hadiths que declaram proibidas as bebidas alcoólicas não provam que elas sejam impuras. Para isso, é necessária alguma outra prova. Caso contrário, à luz do princípio consensual de que as coisas permanecem originalmente puras, elas continuarão sendo puras. Quem afirmar o contrário deverá apresentar provas em apoio à sua alegação.

13. O cão

O cão é impuro. Se o cão lamber algo com a língua, é obrigatório lavá-lo sete vezes; na primeira, deve-se lavá-lo com terra.

«O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se um cão lamber algum dos vossos recipientes, deveis lavá-lo sete vezes para purificá-lo, sendo a primeira com terra.”» — Muslim, Ahmad, Abu Dawud e al-Bayhaqi. Lavar com terra na primeira vez significa misturá-la com água e lavar o recipiente. Se o cão lamber um recipiente que contenha alimento sólido, deve-se descartar o alimento que foi lambido e o que estiver ao seu redor. O restante permanecerá no estado de pureza anterior e poderá ser utilizado. No entanto, o pelo do cão é puro, pois não há prova de que seja impuro.

Como purificar o corpo e as roupas

Se uma impureza atingir o corpo ou a roupa e for visível, como o sangue, é obrigatório lavá-la com água até que seja removida. Se, depois da lavagem, restarem alguns vestígios cuja remoção seja difícil, isso será perdoado. Mas, se a impureza não for visível, como a urina, será suficiente lavá-la; mesmo que seja lavada apenas uma vez, isso bastará. Asma, filha de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Uma mulher foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e perguntou: “O sangue menstrual de uma de nós atingiu sua roupa; o que ela deve fazer?” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Ela deve raspá-lo e esfregá-lo com os dedos, depois lavá-lo com água e, então, rezar usando-a.” — al-Bukhari e Muslim.

Quando uma impureza atingir a extremidade da roupa de uma mulher, a própria terra a purificará. Isso porque há um hadith que diz: “Uma mulher disse a Umm Salamah, que Allah esteja satisfeito com ela: ‘Deixo a extremidade da minha roupa comprida e caminho por lugares sujos.’ Umm Salamah, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: ‘O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Se a terra tocar a roupa depois de ela ter sido atingida pela sujeira, isso a purificará.’” — Ahmad e Abu Dawud.

Como purificar o solo

Se uma impureza atingir o solo, ele se tornará puro quando se derramar água sobre ela. Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Certo beduíno entrou na mesquita e urinou. As pessoas imediatamente correram para atacá-lo. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Deixai-o. Derramai um balde de água sobre a urina dele. Fostes enviados para facilitar, não para dificultar.’” — Relatado em todas as coletâneas de hadith autênticas, exceto Muslim.

A terra e as coisas firmemente ligadas à terra, como árvores e fundações de edifícios, tornam-se puras quando secam. Abu Qilaba disse: “A secagem da terra é a sua purificação.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “A pureza da terra está em sua secura.” Narrado por Ibn Abi Shayba. Isso se refere à impureza quando ela é líquida. Quando a impureza é um corpo sólido, ela não é removida sem que sua existência seja eliminada e apagada.

Método de purificar manteiga clarificada e semelhantes

Narrado por Ibn Abbas, de Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela). Perguntaram ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre um rato que havia caído na manteiga clarificada. Ele respondeu: “Retirem o rato e a parte ao seu redor. Depois, comam a manteiga clarificada.” — Bukhari.

Al-Hafiz disse: Ibn Abd al-Barr, citando o consenso, afirmou que, quando um animal morto cai em uma substância sólida, deve-se descartar o animal e o que estiver ao seu redor, desde que se tenha certeza de que nenhuma parte do animal morto foi além daquele local. Há, contudo, divergência quanto às substâncias líquidas. Segundo a maioria dos sábios, toda a substância se torna impura devido à mistura com a impureza. Entretanto, um grupo, incluindo al-Zuhri e al-Awzai, sustenta a opinião contrária [segundo esses dois, a regra para as substâncias líquidas é como a regra da água: elas não se tornam impuras pela mistura com a impureza sem que ocorra nelas alguma alteração. Se não houver alteração, permanecem puras. Esta foi a opinião de Ibn Masud, Ibn Abbas e al-Bukhari, e é a opinião correta].

Método de purificar a pele de animais mortos

A pele de um animal morto torna-se pura, tanto externa quanto internamente, por meio da دباغة, isto é, do curtimento ou da purificação. Pois, no hadith narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando a pele é curtida, torna-se pura.” Bukhari e Muslim.

Purificação de espelhos e semelhantes

Espelhos, facas, lâminas, espadas, unhas, ossos, vidro, recipientes engordurados e instrumentos metálicos de afiar que não possuem nenhuma via minúscula de penetração tornam-se puros simplesmente removendo-se deles a impureza. Os Companheiros costumavam carregar suas espadas manchadas de sangue e rezar. Eles limpavam o sangue e consideravam isso suficiente.

Purificação dos calçados

Os calçados e as meias que contenham impureza tornam-se puros quando são esfregados contra o chão até que desapareçam os vestígios da impureza. Isso porque Abu Hurayrah — que Allah esteja satisfeito com ele — disse que o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quando algum de vós pisa uma impureza com o seu calçado, a terra o purifica.” — Abu Dawud. Em outra narração consta: “Quando alguém pisa uma impureza com a sua meia, a terra purifica essa meia.” E foi narrado por Abu Sa‘id — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quando algum de vós vier à mesquita, que vire o seu calçado e o examine. Se encontrar nele alguma impureza, que o esfregue contra o chão até removê-la. Depois, que reze usando-o.” — Ahmad, Abu Dawud.

Outra razão pela qual o calçado esfregado com terra se torna puro é que ele é uma coisa que repetidamente entra em contato com impurezas. Portanto, é suficiente limpá-lo esfregando-o com uma substância sólida. É semelhante ao local onde se limpam a urina e as fezes com pedras, isto é, o local de eliminação dos excrementos. Por esse local a impureza sai e o atinge apenas duas ou três vezes; ainda assim, ele se torna puro apenas ao ser esfregado com pedras. Ora, o calçado entra em contato com impureza mais vezes do que isso. Portanto, é ainda mais razoável que o calçado se torne puro.

Algumas informações necessárias

1. A corda na qual se estendem roupas lavadas também pode ser usada para estender roupas impuras. Depois, se a corda secar ao sol ou ao vento, não há problema em estender nela roupas puras.

2. Se algum líquido cair sobre uma pessoa, mas ela não souber se é água ou urina, não precisa perguntar. E, se perguntar, a pessoa questionada não é obrigada a responder, mesmo que saiba que se trata de uma substância impura. Nesse caso, não é necessário lavá-la.

3. À noite, se algo molhado tocar o pé ou a roupa de alguém, e ele não souber o que é, não é necessário identificá-lo pelo cheiro. Pois foi narrado que, certa vez, Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — estava indo a algum lugar. De repente, algo caiu sobre ele vindo da tubulação do telhado. Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — estava acompanhado por um homem, que perguntou: “Ó dono da tubulação, a sua água é pura ou impura?” Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Ó dono da tubulação, você não nos informará isso?” Em seguida, ele prosseguiu.

4. Se a lama da rua atingir alguém, não é necessário lavá-la. Kamail bin Ziyad disse: “Vi Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — entrar na mesquita atravessando a lama da chuva e rezar sem lavar os pés.”

5. Se, depois de uma pessoa terminar a oração e sair, ela encontrar uma substância impura em seu corpo ou em sua roupa, que tenha aderido sem que ela soubesse, ou que soubesse, mas tivesse esquecido, ou que não tivesse esquecido, mas fosse incapaz de removê-la, sua oração será válida. Não será necessário repeti-la. Pois Allah, o Altíssimo, disse: “Não haverá culpa sobre vós pelo que cometestes por engano.” (Surata 33, Al-Ahzab: versículo 5.) Muitos Companheiros e tabi‘un emitiram pareceres jurídicos de acordo com essa decisão.

6. Se não se souber exatamente em que parte da roupa a impureza aderiu, será obrigatório lavar a roupa inteira. Pois, sem lavá-la por completo, não há outro meio de ter certeza de que ela está purificada. Portanto, isso se enquadra no princípio: “Aquilo sem o qual uma obrigação não pode ser cumprida também é obrigatório.”

7. Há várias roupas juntas, e uma delas está impura, mas há dúvida sobre qual delas é. Nesse caso, deve-se proceder da mesma forma que quando a qibla é desconhecida: após algum tempo de reflexão, deve-se determinar a direção cuja probabilidade pareça mais forte. Aqui também se deve fazer o mesmo. Em tal situação, deve-se realizar a oração apenas uma vez usando uma única roupa, independentemente de o número de roupas ser maior ou menor.

Regras para defecar e urinar

Há algumas regras e normas para defecar e urinar, que são resumidamente as seguintes:

1. Quem vai defecar ou urinar não deve levar consigo qualquer objeto no qual esteja escrito o nome de Allah. Contudo, se houver receio de que ele se perca ou se for levado por ser um objeto que deve ser protegido, a situação será diferente. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) usava um anel no qual estavam gravadas as palavras “Muhammad, Mensageiro de Allah”. Sempre que ia ao banheiro, ele o retirava e o deixava. — Narrado pelas quatro coletâneas autênticas de hadith.
Al-Hafiz classificou este hadith como fraco, e Abu Dawud considerou-o inaceitável. A primeira parte do hadith é autêntica.

2. Deve-se afastar-se das pessoas, ir para um lugar oculto ou para o banheiro, especialmente ao defecar, para que nenhum som seja ouvido nem odor seja percebido. Pois Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Partimos em uma viagem com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Durante a viagem, sempre que ele ia defecar, desaparecia e não podia ser visto.” — Ibn Majah e Abu Dawud.
A versão de Abu Dawud é a seguinte: “Quando queria defecar, ia para um lugar onde ninguém pudesse vê-lo e afastava-se bastante.”

3. Ao entrar no local destinado a defecar e urinar e ao levantar as roupas, deve-se recitar em voz audível “A‘udhu billahi” e “Bismillah”. Pois Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Sempre que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ia ao banheiro ou ao local de urinar, dizia: ‘Ó Allah! Busco refúgio em Ti contra os seres impuros, masculinos e femininos’ (isto é, contra os demônios masculinos e femininos).” — Narrado em todas as coletâneas autênticas de hadith.

4. Deve manter silêncio absoluto, abstendo-se até mesmo de fazer dhikr, retribuir a saudação e responder ao chamado para a oração. Contudo, é permitido falar quando houver extrema necessidade. Por exemplo, pode-se dizer o necessário a uma pessoa cega cuja vida corra perigo caso não lhe seja indicado o caminho. Se espirrar nesse momento, deve dizer alhamdulillah mentalmente, sem mover a língua para isso. Com efeito, há um hadith narrado por Ibn Umar: «O Mensageiro de Allah estava urinando quando um homem passou por ele. O homem saudou o Mensageiro de Allah, mas ele não respondeu.» — Narrado em todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto a de Bukhari.

Abu Sa’id al-Khudri também disse: «Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: Quando duas pessoas vão ao lugar de urinar ou defecar, descobrindo as partes íntimas e conversando entre si, Allah se desagrada delas.» — Ahmad, Abu Dawud e Ibn Majah. Esse hadith aparentemente estabelece a proibição de falar. Contudo, há consenso de que falar nesse momento é makruh.

5. Deve observar a santidade da qibla conforme a Sunnah: não deve ficar de frente para ela nem de costas para ela. Abu Hurayrah narrou que o Mensageiro de Allah disse: «Quando qualquer um de vós se sentar para satisfazer sua necessidade natural, não deve ficar de frente para a qibla nem de costas para ela.» — Ahmad e Muslim. Esse hadith indica que tal ato é makruh. Ibn Umar disse: «Certo dia, subi ao telhado da casa de Hafsah. De lá, vi o Mensageiro de Allah satisfazendo sua necessidade natural, voltado para a Síria e com a Caaba atrás de si.» — Narrado em todas as coletâneas autênticas de hadith. Para conciliar os dois hadiths, pode-se dizer que é proibido defecar ou urinar voltado para a qibla ou de costas para ela em campo aberto, mas é permitido fazê-lo dentro de casas. (Na verdade, essa opinião é melhor do que a opinião anterior, que o classificava como makruh.) Marwan al-Asghar disse: «Vi Ibn Umar parar seu animal de montaria e urinar voltado para a qibla. Eu disse: Ó Abu Abd al-Rahman, isso não foi proibido? Ele respondeu: Sim, foi proibido em campo aberto. Porém, quando houver entre ti e a qibla algo que te oculte, não há pecado em defecar ou urinar voltado para ela ou de costas para ela.» — Abu Dawud, Ibn Khuzaymah e al-Hakim.

6. Deve procurar um local macio e baixo, para se proteger contra os respingos de impureza que possam atingir seu corpo e sua roupa. Abu Musa disse: «O Mensageiro de Allah foi até um lugar plano junto a uma parede e urinou. Então disse: Quando qualquer um de vós urinar, que procure um local apropriado para isso.» — Ahmad e Abu Dawud. Embora esse hadith contenha um narrador desconhecido, seu significado é correto.

7. Deve abster-se de urinar ou defecar dentro de buracos, para que algum animal ali presente não o morda. Há um hadith narrado por Qatadah, que disse: «O Mensageiro de Allah proibiu urinar em buracos.» Perguntaram a Qatadah: «Por que é reprovável urinar em buracos?» Ele respondeu: «Porque os buracos são moradas dos jinn.» — Ahmad, al-Nasa’i, Abu Dawud, al-Hakim, al-Bayhaqi, Ibn Khuzaymah e Ibn al-Sakan.

8. Não deve urinar nem defecar sob as árvores à sombra das quais as pessoas descansam, nem nos caminhos por onde as pessoas passam e conversam. Abu Hurayrah disse que o Mensageiro de Allah falou: «Afastai-vos daqueles que atraem maldições» — isto é, das coisas que causam maldições. Perguntaram: «O que são aqueles que atraem maldições, ó Mensageiro de Allah?» O Mensageiro de Allah respondeu: «Urinar ou defecar nos caminhos por onde as pessoas passam e sob a sombra das árvores.» — Ahmad, Muslim e Abu Dawud.

9. Não deve urinar no banheiro, nem em água corrente nem em água parada. Abd Allah ibn Mughaffal disse que o Mensageiro de Allah falou: «Nenhum de vós deve urinar em seu próprio banheiro e depois fazer a ablução nele, pois é principalmente por causa disso que surgem os maus pensamentos instigados por Satanás.» — Narrado em cinco coletâneas autênticas de hadith. Contudo, a frase «e depois fazer a ablução nele» foi narrada apenas por Ahmad e Abu Dawud. Foi narrado por Jabir que o Mensageiro de Allah proibiu urinar em água parada.» — Ahmad, Muslim, al-Nasa’i e Ibn Majah.

Também foi narrado por Jabir que o Mensageiro de Allah proibiu urinar em água corrente. — Foi dito em Majma’ al-Zawa’id que esse hadith foi narrado por al-Tabarani e que todos os seus narradores são confiáveis. Contudo, se o banheiro tiver um tubo ou um esgoto para escoar a água, não há problema em urinar nele.

10. Não se deve urinar em pé, pois isso é contrário à dignidade, à sobriedade e ao bom caráter. Além disso, há o risco de respingos atingirem o corpo. É permitido fazê-lo em pé quando não houver esse risco.
Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Não acreditem naquele que lhes disser que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, urinava em pé. Ele nunca urinava senão sentado.” — Relatado nas cinco coletâneas de hadith, exceto a de Abu Dawud.
Segundo At-Tirmidhi, este é o mais belo e autêntico hadith sobre o assunto. Contudo, o fundamento do hadith de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, é aquilo que ela sabia. Portanto, o hadith narrado por Hudhayfah não o contradiz. Ele relatou: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, parou junto ao local onde uma tribo lançava seus resíduos e urinou em pé. Eu me afastei. Depois ele me disse: ‘Aproxime-se’. Então fui e fiquei ao seu lado. Em seguida, ele realizou a ablução e passou as mãos úmidas sobre suas meias.” — Relatado em todas as coletâneas autênticas de hadith.

O Imame An-Nawawi disse: “Urinar sentado é o que prefiro. Urinar em pé também é permitido. Ambas as práticas estão comprovadas a partir do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.”

11. Deve-se remover a impureza do local por onde saem as fezes e a urina. Isso pode ser feito com pedras ou com algum material sólido e puro semelhante, capaz de remover a impureza e que não seja algo honrado ou sagrado; pode-se também lavar somente com água ou usar ambos os métodos. Pois foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando qualquer um de vocês for ao banheiro, deve remover a impureza do corpo com três pedras. Isso será suficiente para ele.” — Ahmad, An-Nasa’i, Abu Dawud e Ad-Daraqutni.

Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ia ao banheiro, eu e outro menino da minha idade levávamos com ele um recipiente de água e um bastão. Então ele se purificava com aquela água.” — Al-Bukhari e Muslim.

Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que, ao passar por duas sepulturas, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Esses dois estão sendo castigados, mas não por algo muito grave.” (Isto é, abandonar o ato pelo qual estavam sendo castigados não era difícil para eles.) “Um deles não se purificava da urina nem se protegia dela. O outro andava praticando a intriga.” — Relatado em todas as coletâneas autênticas de hadith.

Foi narrado por Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Protejam-se da urina, pois o castigo da sepultura ocorre principalmente por causa dela.”

12. Não se deve realizar istinja (purificação das fezes e da urina) com a mão direita. No hadith narrado por Abdur-Rahman ibn Zayd, consta que disseram a Salman: “Vosso Profeta ensinou-vos realmente todas as coisas, até mesmo sobre as fezes e a urina.” Salman respondeu: “Certamente. Ele nos proibiu urinar ou defecar voltados para a qibla, realizar istinja com a mão direita, realizar istinja com menos de três pedras (kuluf), ou realizar istinja com algo impuro ou com ossos.” — Muslim, Abu Dawud e At-Tirmidhi.

Foi narrado por Hafsa, que Allah esteja satisfeito com ela: “O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, usava a mão direita para comer, beber, vestir-se, pegar e dar; e usava a mão esquerda para todos os demais atos.” — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah, Ibn Hibban, Al-Hakim e Al-Bayhaqi.

13. Depois de fazer istinjá, deve limpar novamente as mãos com terra ou lavá-las com sabão ou algo semelhante, para remover o mau cheiro que ficou nelas. Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ia urinar ou defecar, eu levava água para ele em um recipiente de cobre ou de couro; então ele fazia istinjá com essa água e, depois, limpava as mãos com terra.” — Abu Dawud, An-Nasa’i, Al-Bayhaqi e Ibn Majah.

14. Depois de urinar, deve borrifar água sobre as partes íntimas e sobre a roupa que veste. Isso afasta os waswasah (as insinuações malignas de Satanás). Mais tarde, quando perceber que estão molhadas, deve dizer a si mesmo: “Isto é a umidade causada pela água borrifada.” Hakam ibn Sufyan ou Sufyan ibn Hakam disse: “Quando o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, urinava, fazia a ablução e borrifava água.” Em outra narração consta: “Vi o Mensageiro de Allah urinar e, em seguida, borrifar água sobre suas partes íntimas.” Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, borrifava tanta água sobre suas partes íntimas que sua calça ficava molhada.

15. Ao entrar no banheiro ou na latrina, deve avançar primeiro o pé esquerdo. Ao sair, deve retirar primeiro o pé direito e dizer: “Ghufranaka.” Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que, quando o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saía do banheiro ou da latrina, dizia: “Ghufranaka”, isto é: “Ó Allah, peço-Te perdão.” — Relatado em todos os livros autênticos de hadith, exceto An-Nasa’i.

O hadith de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, é o mais autêntico narrado sobre este assunto. Um hadith transmitido com uma cadeia de transmissão fraca afirma que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia: “Todo louvor pertence a Allah, que removeu de mim o sofrimento e a impureza e me concedeu força.” Ou: “Todo louvor pertence a Allah, que me fez desfrutar do seu sabor, manteve em mim a sua força e removeu de mim o sofrimento e as coisas imundas.”

3. As sunas da natureza humana

Allah, o Altíssimo, estabeleceu certas sunas para os profetas, que a paz esteja sobre eles, e ordenou-nos que as seguíssemos. Ele as instituiu como práticas que se repetem com frequência, por meio das quais seus seguidores podem ser identificados e pelas quais são reconhecidos como distintos dos demais. Essas práticas podem ser chamadas de “as práticas islâmicas permanentes” ou “sunan al-fitrah — a prática permanente”. Seus detalhes são apresentados a seguir:

1. A circuncisão: cortar a pele que cobre a extremidade do órgão sexual masculino chama-se circuncisão. Seu objetivo é impedir que sujeira se acumule em seu interior, facilitar a obtenção da pureza após urinar e permitir que se desfrute plenamente do prazer da relação sexual. Esta é a circuncisão masculina. Quanto à circuncisão feminina, trata-se do corte da parte superior do órgão sexual feminino, segundo a prática antiga. Contudo, todos os hadith narrados sobre a circuncisão feminina são fracos; nenhum deles é autêntico.

Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O amigo do Misericordioso, Abraão, que a paz esteja sobre ele, circuncidou-se aos oitenta anos, no lugar chamado Qadum, na Síria, ou com uma ferramenta chamada Qadum.” — Al-Bukhari.
Segundo a maioria dos sábios, isso é obrigatório. Os shafi’itas consideram-no recomendado a cada sete dias. Ash-Shawkani disse: Não foi estabelecido um tempo específico para isso, e em nenhum lugar foi declarado obrigatório.

2–3. Raspar os pelos abaixo do umbigo e arrancar os pelos das axilas são igualmente práticas da Sunnah. Raspar, aparar, arrancar ou usar pó depilatório — qualquer um desses métodos é suficiente.

4–5. Há hadiths que respaldam cada uma das práticas de cortar as unhas e aparar ou raspar o bigode.

Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narra: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Diferenciem-se dos politeístas: deixem crescer a barba e raspem o bigode.” — Bukhari e Muslim.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cinco coisas fazem parte da Sunnah permanente: remover os pelos abaixo do umbigo, circuncidar-se, aparar o bigode, arrancar os pelos das axilas e cortar as unhas.” — Todas as coletâneas de hadiths autênticos.

Portanto, basta aparar ou raspar o bigode. O objetivo é que o bigode não cresça demasiadamente; quando cresce, alimentos e bebidas podem ficar presos nele, e sujeira pode se acumular. Zayd ibn Arqam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem não apara o bigode não faz parte do meu grupo.” — Ahmad e an-Nasa’i; at-Tirmidhi classificou-o como autêntico.

Para alcançar o mais elevado nível de pureza, higiene e tranquilidade interior, é melhor remover semanalmente os pelos abaixo do umbigo, os pelos das axilas, cortar as unhas e aparar ou raspar o bigode. Isso porque a permanência de alguns pelos no corpo causa certo desconforto e incômodo. Foi permitido deixar de removê-los por até quarenta dias. Depois de quarenta dias, não há desculpa para não removê-los. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) determinou-nos que não deixássemos passar mais de quarenta dias sem aparar o bigode, cortar as unhas, remover os pelos das axilas e raspar os pelos abaixo do umbigo. — Ahmad, Abu Dawud e outros.

6. Deixar a barba crescer, para que ela se desenvolva e se torne um símbolo da personalidade. Portanto, não se deve apará-la de modo que pareça quase raspada, nem deixá-la crescer tanto que se transforme em infantilidade. O melhor é adotar uma posição moderada. Na verdade, a moderação é melhor em todas as coisas. Deve-se lembrar que a barba é um símbolo da perfeição da masculinidade e da bravura. Foi narrado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Diferenciem-se dos politeístas: deixem crescer a barba e raspem o bigode.” — Bukhari e Muslim.

Bukhari acrescentou: “Quando Ibn Umar ia realizar o Hajj ou a Umrah, segurava a barba com a mão fechada e cortava o que ultrapassasse um punho.”

7. Quando se deixa o cabelo crescer, deve-se cuidar dele, pois Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem tiver cabelo, que cuide dele.” — Abu Dawud.
Ata ibn Abi Yassar disse: “Um homem foi ter com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com o cabelo e a barba desgrenhados, sem óleo e desarrumados. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez-lhe um gesto como se lhe ordenasse que arrumasse o cabelo e a barba. Ele voltou depois de arrumá-los. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Isto não é melhor do que vir com o cabelo desgrenhado, como Satanás?’” — Malik.

Foi narrado por Abu Qatada (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele tinha cabelos longos e encaracolados. Perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a respeito deles. Ele ordenou-lhe que cuidasse do cabelo e o penteasse diariamente. — An-Nasa’i.

O Imam Malik narrou este hadith em seu Muwatta desta forma: “Ó Mensageiro de Allah, meu cabelo chega até a nuca. Devo penteá-lo?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sim; além disso, cuide ainda melhor dele.” Então Abu Qatada passava óleo no cabelo quase duas vezes por dia, apenas motivado pela ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de cuidar do cabelo. É permitido raspar o cabelo da cabeça. Para quem puder cuidar dele, também é permitido deixá-lo crescer, pois Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Ou deixem todo o cabelo, ou raspem-no todo.” — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e An-Nasa’i.

É makruh tanzih raspar uma parte da cabeça e deixar outra parte. Nafi‘ narrou, por intermédio de Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu o qaza‘. Perguntaram a Nafi‘: “O que é o qaza‘?” Ele respondeu: “Raspar uma parte da cabeça das crianças e deixar outra parte.” — Al-Bukhari e Muslim.

Além disso, deve-se considerar também o hadith anteriormente mencionado de Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

8. Deixar os cabelos grisalhos, sejam da cabeça ou da barba. A esse respeito, homens e mulheres são iguais. Pois, no hadith narrado por Amr ibn Shu‘ayb, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não se deve arrancar os cabelos grisalhos, pois eles são a luz do muçulmano. Quando o cabelo de um muçulmano fica grisalho enquanto ele permanece muçulmano, por cada cabelo grisalho ele receberá uma recompensa, terá sua posição elevada e um pecado lhe será apagado.” — Ahmad, Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i e Ibn Majah. Foi narrado por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: “Nós não gostávamos de arrancar os cabelos brancos da cabeça e da barba.” — Muslim.

9. Aplicar hena, vermelho, amarelo e outras tinturas aos cabelos grisalhos. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Os judeus e os cristãos não tingem os cabelos; portanto, contrariem-nos.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith. Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “As melhores tinturas para alterar a vossa aparência na velhice, isto é, para mudar os cabelos grisalhos, são a hena e o katam.” (O katam é uma espécie de erva que torna a tintura de um preto avermelhado.) — Narrado nas cinco coletâneas autênticas de hadith.

Há também hadiths segundo os quais é makruh aplicar tintura aos cabelos e à barba. Parece que isso varia conforme a idade, os costumes e as tradições. Alguns Companheiros disseram que é melhor não usar tintura; outros disseram que é melhor usá-la. Alguns deles usavam tintura amarela; outros usavam hena e katam; e outros, açafrão. Um grupo também usava tintura preta. Al-Jahiz narrou que Ibn Shihab az-Zuhri disse: “Quando o rosto ainda era viçoso, usávamos tintura preta. Mas, quando o brilho do rosto e dos dentes desaparecia, deixávamos de usá-la.” Contudo, há um hadith narrado por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele): quando Abu Qahafa, pai de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), foi levado ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no dia da conquista de Meca, seus cabelos tinham a tintura branca da “saghamah”. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Levem-no a uma de suas esposas, para que ela mude a cor de seus cabelos com outra tintura”; então elas lhe aplicaram tintura preta. — Narrado em todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Al-Bukhari e At-Tirmidhi.

Este hadith está relacionado a um caso específico, que não se aplica de modo geral a todas as situações. Além disso, não é apropriado que uma pessoa como Abu Quhafa, cujo cabelo ficou branco devido à velhice, o tinja de preto. Portanto, isso não se aplica a uma pessoa idosa.

10. Usar perfume que alegra e anima o coração. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse:

حيب إِلَى مِنَ الدُّنْيَا النِّسَاء والطَّيِّبُ وَجَعَلَتْ قُرَّةٌ عَيْنِي فِي الصَّلاةِ.

“Foram tornadas queridas para mim, neste mundo, as mulheres e o perfume; e a oração foi feita como o refrigério dos meus olhos.” — Ahmad e An-Nasa’i.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Aquele a quem for oferecido algum perfume não deve recusá-lo, pois é leve de transportar e agradável no aroma.” — Muslim, An-Nasa’i e Abu Dawud.
Abu Sa’id (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “O almíscar é o melhor dos perfumes.” Registrado em todos os livros autênticos de hadith, exceto os de Al-Bukhari e Ibn Majah.

Nafi’ relatou que Ibn Umar usava a madeira aromática ‘uluwah sem misturá-la com qualquer outra coisa e perfumava-se com ela. — Muslim e An-Nasa’i.

4. A ablução

A ablução é bem conhecida. Ablução é o nome dado à purificação realizada com água. Essa purificação está relacionada ao rosto, às duas mãos, à cabeça e aos dois pés. Os assuntos abrangidos por ela serão discutidos um a um:

1. A prova legal da ablução

A obrigatoriedade da ablução segundo a perspectiva da Sharia é comprovada por três evidências.

Primeira evidência: o Alcorão Sagrado. Allah, o Altíssimo, disse:

يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا إِذَا تَسْتَر إِلَى الصَّلُوا فَاغْسِلُوا وَمُوْمَكُمْ وَأَيْدِيَكُمْ إِلَى الْمَرَافِقِ وَامْسَحُوا بر وسكُمْ وَأَرْجُلَكُمْ إِلَى الْكَعْبَيين

Significado: «Ó crentes! Quando vos dispuserdes a realizar a oração, lavai o rosto e as mãos até os cotovelos; passai as mãos sobre a cabeça e lavai os pés até os tornozelos.» (Surata 5, Al-Ma’idah: versículo 6)

Segunda evidência: a Sunnah do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Quando qualquer um de vós se encontra em estado de impureza ritual, Allah não aceita sua oração até que faça a ablução.» — Bukhari, Muslim, Abu Dawud e Tirmidhi.

Terceira evidência: o ijma’ (consenso): desde a prática do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, até os nossos dias, toda a Ummah muçulmana mantém pleno consenso quanto à obrigatoriedade da ablução segundo a perspectiva da Sharia. Portanto, a obrigatoriedade da ablução no Islã é universalmente conhecida.

2. A virtude e a importância da ablução

Foram narrados muitos hadiths sobre a virtude da ablução. Aqui, considero suficiente mencionar apenas alguns:

a. Foi narrado por Abdullah as-Sunabiji, que Allah esteja satisfeito com ele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando o servo realiza a ablução, assim que enxágua a boca, os pecados saem dela. Depois, quando introduz água no nariz, os pecados saem de seu nariz. Então, quando lava o rosto, os pecados saem de seu rosto, até mesmo debaixo de seus cílios. Depois, quando lava as duas mãos, os pecados saem delas, até mesmo debaixo das unhas. Então, quando passa as mãos sobre a cabeça, os pecados saem de sua cabeça, até mesmo de suas duas orelhas. Depois, quando lava os dois pés, os pecados saem deles, até mesmo debaixo das unhas dos dois pés. Em seguida, ir à mesquita e realizar a oração é um benefício adicional.” (Isto é, depois da ablução, não lhe restam pecados que necessitem ser perdoados pela oração.) — Malik, An-Nasa’i, Ibn Majah e Al-Hakim.

b. Foi narrado por Anas, que Allah esteja satisfeito com ele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Por meio de cada boa qualidade existente no ser humano, Allah corrige todos os seus atos. Contudo, purificar-se para a oração é uma boa qualidade por meio da qual Allah apaga seus pecados. Depois, sua oração é preservada para ele como um acréscimo.” — Abu Ya‘la, Al-Bazzar e At-Tabarani.

c. Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quereis que vos diga por meio de que Allah apaga os pecados e eleva os graus?” As pessoas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, dizei.” Ele disse: “Realizar bem a ablução mesmo em circunstâncias difíceis; dar muitos passos em direção à mesquita; e esperar por uma oração após outra. Isto é ribat, isto é ribat, isto é ribat [ribat significa jihad no caminho de Allah. Ou seja, adorar mantendo sempre a ablução e a purificação equivale a combater no caminho de Allah].” — Malik, Muslim, At-Tirmidhi e An-Nasa’i.

d. Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi ao cemitério e disse: “A paz esteja convosco, ó habitantes das moradas dos crentes. Se Allah quiser, em breve nos reuniremos convosco. Tenho grande desejo de ver os nossos irmãos.” As pessoas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, acaso não somos teus irmãos?” Ele disse: “Vós sois os meus companheiros. Meus irmãos são aqueles que ainda não vieram ao mundo.” As pessoas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, como reconhecerás os membros da tua comunidade que ainda não vieram?” Ele disse: “Que pensais? Se, entre uma manada de cavalos negros, alguém tivesse uma manada de cavalos brancos, não reconheceria os seus cavalos?” As pessoas disseram: “Sim, reconheceria.” Ele disse: “Esses irmãos da minha comunidade virão com os membros resplandecentes por causa da ablução, e eu os conduzirei até junto de mim no Lago (a lagoa de água potável). Atenção: muitas pessoas serão afastadas do meu Lago, assim como se afasta um camelo perdido. Eu chamarei: ‘Vinde!’ Será-me dito: ‘Eles alteraram a tua prática depois de ti.’ Então direi: ‘Afastai-vos, afastai-vos.’” — Muslim.

3. As obrigações da ablução

A ablução possui algumas obrigações e pilares (elementos indispensáveis), pelos quais se constitui a estrutura básica da ablução. Se qualquer uma dessas obrigações for deixada de lado, a ablução não se realiza nem é válida segundo a Sharia. São elas:

Primeira obrigação: a intenção: intenção é desejar, tencionar e decidir realizar uma ação com o objetivo de obter a satisfação de Allah e cumprir a Sua ordem. Isso é uma ação do coração; a língua não desempenha nenhum papel nela. A Sharia não estabeleceu nenhuma regra que exija pronunciar essa intenção em voz alta. A prova de que ela é uma obrigação é o hadith de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele:

إنَّا الْأَعْمَالُ بِالنِّيَّاتِ وَإِنَّمَا لِكُلِّ أَمْرِي مَا تَوى …..

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “As ações são concluídas somente pela intenção. Cada pessoa obterá aquilo que intencionar.” — Sahih al-Bukhari.

Segundo requisito obrigatório: lavar o rosto uma vez — isto é, fazer a água escorrer por todo o rosto. Pois lavar significa fazer a água escorrer. Os limites do rosto, no sentido vertical, vão da parte mais alta da testa até a parte mais baixa do queixo; e, no sentido horizontal, vão de um lóbulo da orelha ao outro.

Terceiro requisito obrigatório: lavar ambos os braços até os cotovelos — a articulação no meio do braço é chamada de cotovelo. No wudu, os cotovelos estão incluídos na parte do braço cuja lavagem é obrigatória. Esta é a tradição deixada pelo Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Não há registro algum de que ele tenha feito wudu sem lavar os cotovelos.

Quarto requisito obrigatório: passar as mãos molhadas sobre a cabeça, isto é, enxugá-la. Masah é tocar com a mão molhada. O masah não pode ser realizado sem mover ou deslizar o membro que faz o masah sobre o membro que é objeto dele. Portanto, simplesmente colocar a mão ou os dedos sobre a cabeça ou em qualquer outro lugar não pode ser chamado de masah. As palavras de Allah, o Altíssimo — “passai as mãos sobre a cabeça” — aparentemente não indicam a obrigatoriedade de passar as mãos sobre toda a cabeça; antes, indicam que passar as mãos sobre uma parte da cabeça é suficiente para cumprir o mandamento. A esse respeito, foram preservadas três formas provenientes do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele:

a. Passar as mãos sobre toda a cabeça: há um hadith narrado por Abdullah ibn Zayd: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passou ambas as mãos sobre a cabeça. Ele as levou uma vez para a frente e outra vez para trás. Começou pela parte frontal da cabeça, depois levou as duas mãos até a parte posterior e, em seguida, retornou-as ao lugar onde havia começado.” — Narrado por todas as coletâneas de hadith.

b. Passar as mãos somente sobre o turbante: Amr ibn Umayya disse: “Vi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passar as mãos sobre o turbante e as meias.” — Ahmad, al-Bukhari e Ibn Majah. Bilal também disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Passai as mãos sobre as meias e sobre o khimar colocado na cabeça — seja um turbante ou outro tecido.’” — Ahmad. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Que Allah não purifique aquele a quem o masah sobre o turbante não purifica.” Al-Bukhari, Muslim e outros imames narraram muitos hadiths sobre esse assunto. Sabe-se que muitos estudiosos também agiram de acordo com isso.

c. Passar as mãos sobre a testa e sobre o turbante. Há um hadith narrado por al-Mughira ibn Shu’ba, que Allah esteja satisfeito com ele: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez wudu e passou as mãos sobre a testa, o turbante e as meias.” — Muslim.
É isso que foi preservado do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Não foi preservado que ele tenha passado as mãos sobre apenas uma parte da cabeça, embora a linguagem aparente do versículo indique isso. Não é suficiente passar as mãos sobre cabelos que caem para fora da linha da cabeça, assim como não é suficiente passá-las sobre um coque.

Quinto preceito obrigatório: lavar os pés, incluindo os tornozelos. Isso está comprovado pelas palavras e ações do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e foi preservado por todos os Companheiros e transmissores.

Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: certa vez, durante uma viagem, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou para trás em relação a nós. Pouco depois, quando nos alcançou, o horário da oração da tarde já estava se esgotando. Então começamos a fazer a ablução e a passar as mãos molhadas sobre os nossos pés. Nesse momento, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse em voz muito alta, duas ou três vezes: “Cuidado! Salvem os tornozelos do Fogo.” — Al-Bukhari e Muslim.

Abdur-Rahman ibn Abi Layla disse: os Companheiros do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegaram a um consenso de que é obrigatório lavar os dois tornozelos. Os preceitos obrigatórios mencionados acima foram declarados em termos inequívocos no versículo 6 da surata Al-Ma’idah. O versículo foi mencionado anteriormente.

6.º preceito obrigatório: sequência. Allah, o Altíssimo, mencionou os preceitos obrigatórios da ablução em sequência no referido versículo. É importante observar que, no caso das mãos e dos pés, o preceito obrigatório é lavá-los. Entretanto, entre ambos Ele mencionou a cabeça, cujo preceito obrigatório é passar as mãos molhadas. É costume dos árabes não mencionar uma terceira coisa entre duas coisas do mesmo tipo sem uma necessidade ou uma finalidade. Aqui, a única finalidade possível é indicar a sequência. O único objetivo do versículo é descrever as ações que devem ser realizadas. E, uma vez que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse de modo geral em um hadith autêntico: “Comecem da mesma maneira que Allah começou”, essa sequência prática tem sido continuamente observada entre os preceitos obrigatórios da ablução. Ninguém jamais afirmou que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tenha feito a ablução sem observar essa sequência. A ablução é um ato de adoração, e a aceitação de todo ato de adoração depende da obediência a ele com coração plenamente convicto.

Portanto, ninguém tem o direito de contrariar o método de ablução do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, seguido desde sempre e por consenso geral.

4. As sunnas da ablução

Sunnah são todas as ações, palavras e práticas cuja autenticidade, remontando ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi comprovada por fontes confiáveis, mas que não são obrigatórias, e cujo abandono não motivou qualquer demonstração de desagrado para com quem as abandona. Essas sunnas são detalhadas a seguir:

a. Dizer “Bismillah” no início. Foram narrados alguns hadiths fracos em favor de dizer “Bismillah” para a ablução. Contudo, quando reunidos, eles ganham força suficiente e demonstram que possuem uma base. Além disso, trata-se originalmente de uma boa ação e, considerando o conjunto das evidências, é uma prática sancionada pela Sharia.

b. Usar o miswak. Isso significa tanto limpar os dentes usando o galho de uma árvore normalmente utilizado para esse fim quanto escová-los apenas com esse galho ou com qualquer objeto duro semelhante que sirva para limpar os dentes. O melhor miswak é o galho da árvore ‘arak’, importado do Hijaz, pois fortalece as raízes dos dentes, previne doenças dentárias, aumenta a força da digestão e elimina a retenção urinária. Naturalmente, a sunnah também é cumprida com qualquer objeto semelhante a uma escova que remova a coloração amarelada dos dentes e mantenha a boca limpa e higienizada. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se eu não temesse causar demasiada dificuldade à minha comunidade, ordenaria que usassem o miswak em cada ablução.” — Malik, Ash-Shafi‘i, Al-Bayhaqi e Al-Hakim.

Foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O miswak purifica a boca e proporciona a satisfação de Allah.” — Ahmad, An-Nasa’i e At-Tirmidhi. Na verdade, usar o miswak é mustahabb em todos os momentos. Contudo, é ainda mais recomendável em cinco ocasiões:

1. Durante a ablução
2. Antes da oração
3. Antes da recitação do Alcorão
4. Ao acordar do sono
5. Quando houver alteração no estado da boca.

A pessoa pode usar o miswak igualmente no início ou no final do dia, esteja jejuando ou não. Pois ‘Amir ibn Rabi‘a (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) usar o miswak inúmeras vezes enquanto jejuava.” — Ahmad, Abu Dawud e At-Tirmidhi.

Por uma questão de higiene, é sunnah lavar o miswak após cada utilização. Pois Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) usava o miswak. Depois de usá-lo, entregava-mo para que eu o lavasse. Em seguida, eu o usava para limpar os meus dentes, lavava-o novamente e entregava-o a ele.” — Abu Dawud e Al-Bayhaqi.

Para quem não tem dentes, é sunnah limpar os dentes apenas com o dedo. Pois foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Ela disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, também deve usar o miswak aquele cujos dentes caíram?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Eu perguntei: ‘Como o fará?’ Ele disse: ‘Introduzindo o próprio dedo na boca.’” — At-Tabarani.

c. Lavar as palmas das mãos três vezes no início da ablução. Aws ibn Aws Ath-Thaqafi disse: “Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizar a ablução e lavar as palmas das mãos três vezes.” — Ahmad e An-Nasa’i.

Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando qualquer um de vocês acordar do sono, não deve mergulhar as mãos no recipiente de água antes de lavá-las três vezes, pois não sabe onde estiveram as suas mãos durante a noite.” — Narrado em todas as coletâneas de hadith. Contudo, Al-Bukhari não mencionou o número de vezes que se devem lavar as mãos.

d. Enxaguar a boca três vezes: Laqit ibn Sabirah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Quando fizeres a ablução, enxagua a boca.’” — Abu Dawud e al-Bayhaqi.

e. Aspirar água pelo nariz e limpá-lo: No hadith narrado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, consta que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando qualquer um de vós fizer a ablução, deve aspirar água pelo nariz e depois limpá-lo.” — al-Bukhari, Muslim e Abu Dawud.

A Sunnah é aspirar água pelo nariz com a mão direita e limpá-lo com a mão esquerda. No hadith de ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, consta: “Ele (‘Ali) pediu que trouxessem água para a ablução; em seguida, enxaguou a boca, aspirou água pelo nariz e limpou-o com a mão esquerda. Fez isso três vezes. Depois disse: ‘Este é o método de purificação do Profeta de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.’” — Ahmad e al-Nasa’i.

Quando, de qualquer modo, a água chegar ao nariz e à boca, as ações de enxaguar a boca e aspirar água pelo nariz serão realizadas naturalmente, cumprindo-se ambas as Sunnahs. Contudo, está autenticamente comprovado que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizava essas duas ações em conjunto (isto é, aspirava água pelo nariz imediatamente após enxaguar a boca). Conforme foi narrado por ‘Abdullah ibn Zayd: “O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enxaguava a boca e aspirava água pelo nariz usando três punhados de água.” — al-Bukhari e Muslim.

Para quem não está jejuando, é Sunnah enxaguar muito bem a boca e aspirar água pelo nariz. No hadith narrado por Laqit, que Allah esteja satisfeito com ele, consta que ele disse: “Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, ensina-me o modo de realizar a ablução.’ Ele disse: ‘Faz a ablução corretamente, faz o khilal entre os dedos (isto é, faz a água chegar entre eles) e aspira água muito bem pelo nariz. Porém, se estiveres jejuando, não o faças.’” — Narrado nas cinco coletâneas autênticas de hadith. Al-Tirmidhi classificou-o como autêntico.

f. Fazer o khilal da barba: No hadith narrado por ‘Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, consta que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazia o khilal da barba. — Ibn Majah e al-Tirmidhi.

Também foi narrado por Anas, que Allah esteja satisfeito com ele: Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazia a ablução, pegava um punhado de água, introduzia-o sob a mandíbula e fazia o khilal com ela. E dizia: “Meu Senhor ordenou-me que fizesse isso.” — Abu Dawud, al-Bayhaqi e al-Hakim.

g. Fazer o khilal entre os dedos: Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando fizeres a ablução, faz o khilal entre os dedos das tuas mãos e dos teus pés.” (Introduzir os dedos entre eles e lavá-los, esfregando-os.) — Ahmad, al-Tirmidhi e Ibn Majah.

Foi narrado por al-Mustawrid ibn Shaddad, que Deus esteja satisfeito com ele: “Vi o Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, fazer khilal entre os dedos dos dois pés com o dedo mínimo.” — Narrado pelas cinco coletâneas autênticas de hadith, exceto Ahmad. Alguns hadith indicam que é recomendável movimentar anéis, pulseiras e braceletes, entre outros. Contudo, esses hadith não são autênticos. Ainda assim, como isso se enquadra na ordem de realizar a ablução da melhor maneira, é bom agir de acordo com eles.

ج. Lavar três vezes: esta é a sunna que tem sido amplamente seguida. Os hadith que parecem contrariá-la foram narrados apenas para comprovar a permissibilidade. Por exemplo, o avô de ʿAmr ibn Shuʿayb disse: um beduíno foi até o Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, e perguntou sobre o modo de realizar a ablução. O Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, mostrou-lhe fazendo cada parte três vezes e disse: “Esta é a ablução. Quem fizer mais do que isso cometerá uma injustiça, excederá os limites e será opressor.” — Ahmad, al-Nasa’i e Ibn Majah.

Também foi narrado por ʿUthman, que Deus esteja satisfeito com ele: o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, realizou a ablução lavando cada parte três vezes. — Ahmad, Muslim e al-Tirmidhi.

Também está comprovado por hadith autênticos que ele realizou a ablução lavando cada parte uma vez e, em outra ocasião, duas vezes. Contudo, passou a mão pela cabeça apenas uma vez. Esta é a forma mais frequentemente narrada.

خ. Começar pelo lado direito: isto é, ao lavar as duas mãos e os dois pés, começar pela mão e pelo pé direitos antes da mão e do pé esquerdos. Foi narrado por ʿA’isha, que Deus esteja satisfeito com ela: o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, gostava de começar pelo lado direito ao calçar os sapatos, pentear os cabelos, realizar a purificação e em todos os atos. — al-Bukhari e Muslim.

Foi narrado por Abu Hurayra, que Deus esteja satisfeito com ele: o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando realizardes a ablução e vos vestirdes, começai pelo lado direito.” — Ahmad, Abu Dawud, al-Tirmidhi e al-Nasa’i.

ঞ. Fricção: passar a mão sobre um membro depois de derramar água sobre ele ou depois de usar a água. Foi narrado por ʿAbdullah ibn Zayd, que Deus esteja satisfeito com ele: foi levada ao Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, uma quantidade de água equivalente a um terço de um mudd. Ele realizou a ablução e depois começou a friccionar os dois antebraços. — Ibn Khuzayma.

Em outra narração de ʿAbdullah ibn Zayd, consta: o Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, realizou a ablução e depois disse: “É assim que se deve fazer a fricção.” — Abu Dawud, al-Tayalisi, Ahmad, Ibn Hibban e Abu Ya‘la.

T. Processo contínuo: isto é, lavar outro membro sem interrupção depois de lavar um membro, de modo que aquele que realiza a ablução não interrompa a ablução no meio para fazer alguma outra coisa que leve a considerar que ele a invalidou. Esse processo contínuo de realizar a ablução está em prática desde os primórdios do Islã, e os muçulmanos vêm seguindo essa regra.

Th. É sunna passar as mãos molhadas nas duas orelhas usando a água restante de passar as mãos na cabeça: com os dedos indicadores no interior das orelhas e os polegares na parte externa. Isso porque as orelhas fazem parte da cabeça. Foi narrado por Miqdām ibn Maʿdī Karib (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ao fazer a ablução, passou as mãos molhadas na cabeça e no interior e exterior das duas orelhas, introduzindo os dois dedos nos canais auditivos. — Narrado por Abū Dāwūd e al-Ṭaḥāwī.

Ibn ʿAbbās (que Allah esteja satisfeito com ele), ao descrever a ablução do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), disse: Ele passou as mãos molhadas na cabeça e nas duas orelhas ao mesmo tempo. — Narrado por Aḥmad e Abū Dāwūd.

Em outra versão consta: Ele passou as mãos molhadas na cabeça e no interior das orelhas com os dois dedos indicadores, e na parte externa das duas orelhas com os dois polegares.

D. Prolongar a luminosidade da testa, das mãos e dos pés: o modo de prolongar a luminosidade da testa é lavar uma parte da frente da cabeça além da parte obrigatória do rosto. E o modo de prolongar a luminosidade das mãos e dos pés é lavar uma parte acima dos cotovelos e dos tornozelos. Isso porque, no hadith narrado por Abū Hurayra, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Minha comunidade comparecerá no Dia da Ressurreição com os rostos, as mãos e os pés luminosamente brancos, como marcas da ablução. O significado de comparecer com os rostos, as mãos e os pés luminosamente brancos é que seus rostos, mãos e pés estarão iluminados e radiantes, deles emanando luz. E isso será um sinal e uma característica especial desta comunidade.

Abū Hurayra disse: Portanto, quem dentre vós puder prolongar a sua luminosidade, que o faça. — Narrado por Aḥmad, al-Bukhārī e Muslim.

Foi narrado por Abū Zurʿa: Abū Hurayra ordenou que trouxessem água para a ablução; então fez a ablução e lavou as mãos de tal modo que ultrapassou os cotovelos. Depois, ao lavar os pés, lavou-os até ultrapassar os tornozelos, chegando às canelas. Eu disse: O que é isto? Ele respondeu: Este é o limite máximo da luminosidade. — Narrado por Aḥmad.

Dh. Deve-se usar o mínimo possível de água — mesmo que se retire água do mar com um recipiente cheio: pois, segundo o hadith narrado por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tomava banho com água de um sāʿ até cinco mudd, e fazia a ablução com um mudd. — Narrado por al-Bukhārī e Muslim.

E foi narrado por Ubaydullah ibn Abi Yazid: «Um homem perguntou a Ibn Abbas: “Quanta água é suficiente para a minha ablução?” Ele respondeu: “Um mudd.” O homem perguntou: “E quanta água é suficiente para o banho ritual?” Ele respondeu: “Um sâ‘.” O homem disse: “Isso não será suficiente para mim.” Ibn Abbas disse: “Você não tem mãe.” (Uma expressão proverbial de leve repreensão.) “Isso foi suficiente até mesmo para o Mensageiro, que é melhor do que você.” — Ahmad, al-Bazzar e at-Tabarani.

Foi narrado por Abdullah ibn Umar: o Mensageiro de Allah passou por Sa‘d enquanto este fazia a ablução. Ele disse: “Que desperdício é esse, ó Sa‘d?” Sa‘d perguntou: “Pode haver desperdício também no uso da água?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Sim, mesmo que você faça a ablução em um rio corrente.” — Ahmad e Ibn Majah.

Considera-se desperdício usar mais água do que o necessário segundo a Sharia, como lavar mais de três vezes.

No hadith narrado por Amr ibn Shuayb, consta: um beduíno foi até o Mensageiro de Allah e perguntou-lhe sobre o modo de fazer a ablução. Ele lhe mostrou que se lavasse cada parte três vezes. Depois disse: “Esta é a ablução. Quem fizer mais do que isso cometerá uma injustiça, excederá os limites e praticará opressão.” — Ahmad, an-Nasa’i, Ibn Majah e Ibn Khuzaymah.

Abdullah ibn Mughaffal disse: ouvi o Mensageiro de Allah dizer: “Em breve surgirão nesta comunidade pessoas que exagerarão na purificação e na súplica.” — Ahmad, Abu Dawud e Ibn Majah. O Imam al-Bukhari disse: “Os sábios desaprovaram ultrapassar, na água da ablução, a quantidade estabelecida pela prática do Mensageiro.”

N. A súplica durante a ablução: além do hadith narrado por Abu Musa al-Ash‘ari, nenhuma outra súplica durante a ablução foi comprovada como proveniente do Mensageiro. Abu Musa disse: “Levei água para a ablução do Mensageiro. Ele fez a ablução. Então o ouvi suplicando:”

“Ó Allah, perdoa os meus pecados, concede amplitude à minha casa e abençoa o meu sustento.” Eu disse: “Ó Profeta de Allah! Ouvi você suplicar com estas palavras.” Ele respondeu: “Acaso estas palavras deixaram algo de fora?” — An-Nasa’i e Ibn as-Sunni, com cadeia autêntica. Contudo, an-Nasa’i intitulou este hadith assim: “O que se deve dizer ao final da ablução”. Já o título de Ibn as-Sunni é: “O que se deve dizer durante a ablução”. An-Nawawi disse: ambos os títulos podem estar corretos.

T. A súplica após a ablução: Umar disse que o Mensageiro de Allah disse: “Quem quer que faça corretamente a ablução e depois diga: ‘Testemunho que não há divindade além de Allah; Ele é Único e não tem parceiro. E testemunho que Muhammad é Seu servo e Mensageiro’, terá abertas para si as oito portas do Paraíso, e poderá entrar por qualquer uma delas que desejar.” — Muslim.

Foi narrado por Abu Sa’id al-Khudri — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quem, depois de realizar a ablução, disser:

سبحانك اللهم وَبِحَمْدِكَ، أَحْمَد أَنْ لا إلهَ إِلَّا أَنْتَ اسْتَغْفِرُكَ وَأَتُوبُ إِلَيْكَ.

“Ó Allah, proclamo a Tua santidade e Te louvo. Testemunho que não há divindade além de Ti. Peço-Te perdão e arrependo-me diante de Ti.” Esta súplica será primeiramente escrita numa folha branca; depois será preservada sob um selo. Então, jamais será destruída até o Dia da Ressurreição. — At-Tabarani e An-Nasa’i. Ao final da versão narrada por An-Nasa’i, consta: “Ela será selada e colocada sob o Trono; depois, jamais será destruída até o Dia da Ressurreição.”

No Tirmidhi, com uma cadeia de transmissão ligeiramente fraca, também foi narrada esta súplica: “Ó Allah, inclui-me entre os que se arrependem e entre os que se purificam.”

ث. Fazer duas rak’ahs após a ablução: Abu Hurayrah — que Allah esteja satisfeito com ele — narrou que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse a Bilal: “Ó Bilal, fala-me sobre a ação virtuosa que realizaste depois de abraçares o Islã e na qual depositas mais esperança. Ouvi o som das tuas sandálias à minha frente no Paraíso.” Ele respondeu: “Sempre que, de dia ou de noite, realizei algum ato de purificação, rezei, com essa purificação, tanto quanto me foi possível. Não realizei nenhuma ação virtuosa na qual depositasse mais esperança do que essa.” — Al-Bukhari e Muslim.

Foi narrado por ‘Uqbah ibn ‘Amir que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quem realizar corretamente a ablução e, depois, fizer duas rak’ahs com plena concentração, o Paraíso lhe será garantido.” — Muslim, Abu Dawud, Ibn Majah e Ibn Khuzaymah.

Foi narrado por Humran, o escravo liberto de ‘Uthman — que Allah esteja satisfeito com ele —, que ele viu ‘Uthman — que Allah esteja satisfeito com ele — pedir que trouxessem água para a ablução. Em seguida, ele derramou um pouco de água do recipiente sobre a mão direita e lavou-a três vezes; depois introduziu a mão direita na água da ablução, fez bochechos três vezes, aspirou água pelo nariz, limpou o nariz e lavou o rosto. Então disse: “Vi o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — realizar a ablução como esta minha ablução. Quem realizar a ablução como esta minha ablução e depois fizer duas rak’ahs, sem falar consigo mesmo durante esse período, terá todos os seus pecados passados perdoados.” — Al-Bukhari, Muslim e outros.

Além disso, não mencionei massagear as pálpebras e as dobras do rosto, movimentar o anel e passar as mãos molhadas pelo pescoço, pois os hadiths referentes a essas práticas não alcançam o grau de autenticidade. Contudo, essas ações são realizadas com o objetivo de completar a limpeza.

5. Ações makruh do wudu

Abandonar qualquer uma das sunnahs mencionadas acima é makruh para quem realiza o wudu. Isso pode privá-lo da recompensa, pois praticar algo makruh causa a privação da recompensa. E abandonar a sunnah é sinônimo de makruh.

6. Causas que anulam o wudu

As causas que anulam o wudu e tornam ilícita a prática daquilo para o qual ele foi realizado são as seguintes:

1. A saída de qualquer coisa pelos canais urinário e fecal, como:

a. Urina,
b. Fezes.

Allah disse: “Ou se algum de vós vier de atender ao chamado da natureza.” Essa expressão se refere tanto à urina quanto às fezes.

c. Gases expelidos pelo ânus.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Quando algum de vós se encontra em estado de impureza, Allah não aceita a sua oração até que faça a ablução.» Um homem vindo do Hadramaut perguntou: «O que significa encontrar-se em estado de impureza, ó Abu Huraira?» Ele respondeu: «A emissão de gases.» — Bukhari e Muslim.

Também é narrado por Abu Huraira que o Mensageiro de Allah disse: «Quando algum de vós sentir algo no ventre, mas não souber se algo saiu dele, não deve sair da mesquita de modo algum até ouvir algum som ou sentir algum odor.» — Muslim.

Na realidade, ouvir um som ou sentir um odor não é uma condição. O que se pretende dizer é que se deve ter certeza de que algo saiu do ventre.

d. e. f. Emissão de mani (sêmen), madhy e wadi:

O Mensageiro de Allah disse a respeito do madhy: «Por causa disso, deve-se fazer a ablução.» Quanto ao mani, Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quando o mani é emitido, é obrigatório tomar banho ritual. Porém, sobre o madhy e o wadi, ele disse: «Lava as tuas partes íntimas e faz a ablução para a oração.» — Bayhaqi.

2. Um sono no qual se perde a consciência e não se consegue permanecer sentado no lugar. Safwan ibn Assal (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Mensageiro de Allah ordenava-nos, quando estávamos em viagem, que não tirássemos as meias durante três dias e três noites, exceto em caso de janabah (impureza maior). Porém, podiam ser tiradas por causa da urina, das fezes e do sono. — Ahmad, Nasa’i e Tirmidhi. Portanto, quando alguém dorme sentado e consegue permanecer sentado no lugar, a sua ablução não se invalida. O mesmo se entende do hadith de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: os companheiros do Mensageiro de Allah esperavam, no final da noite, pela oração de ‘isha; enquanto esperavam, as suas cabeças pendiam de sono, e depois rezavam sem renovar a ablução. — Shafi’i, Muslim, Abu Dawud e Tirmidhi.

A versão de Tirmidhi do hadith narrado por Shu’ba é a seguinte: «Vi os companheiros do Mensageiro; eram acordados para a oração e chegava a ouvir alguns deles roncarem. Depois, levantavam-se e rezavam sem fazer a ablução.» Ibn al-Mubarak disse: «Segundo o nosso entendimento, eles permaneciam sentados naquela ocasião.»

3. Perda da consciência: seja causada por perturbação mental, desmaio, embriaguez ou efeito de algum medicamento; seja breve ou prolongada; e seja a pessoa capaz de permanecer sentada no lugar ou não. Pois a inconsciência causada por esses fatores é muito maior do que o sono. Os eruditos são unânimes quanto a isso.

4. Tocar os órgãos genitais sem uma barreira: Foi narrado por Busra bint Safwan que o Mensageiro de Deus disse: “Quem tocar os próprios órgãos genitais não deve rezar até realizar a ablução.” — Narrado pelas cinco coletâneas de hadith autênticos. At-Tirmidhi o classificou como autêntico. Al-Bukhari disse que este é o hadith mais autêntico sobre o assunto. Malik, Ash-Shafi‘i, Ahmad e outros também o narraram. Abu Dawud disse: “Eu disse ao Imam Ahmad que o hadith de Busra não era autêntico.” Ele respondeu: “Certamente é autêntico.” Foi narrado por Ahmad e An-Nasa’i, por intermédio de Busra, que ela ouviu o Mensageiro dizer: “É necessário realizar a ablução ao tocar os órgãos sexuais.” Isso inclui tanto os próprios órgãos sexuais quanto os de outra pessoa. Foi narrado por Abu Hurayra que o Mensageiro disse: “Quem tocar os órgãos sexuais com a mão, sem qualquer barreira, deve realizar a ablução.” — Ahmad, Ibn Hibban e Al-Hakim. Al-Hakim e Ibn Abd al-Barr o classificaram como autêntico. Ibn as-Sakan disse: “Este é o hadith mais autêntico sobre este capítulo.” A formulação do hadith segundo o Imam Ash-Shafi‘i é: “Quando um de vocês tocar os órgãos sexuais com a mão, sem que haja qualquer barreira entre a mão e os órgãos sexuais, deverá realizar a ablução.” Amr ibn Shu‘ayb narrou, de seu pai e de seu avô, que todo homem que tocar os próprios órgãos genitais e toda mulher que tocar os próprios órgãos genitais devem realizar a ablução. — Ahmad. Ibn al-Qayyim disse: “Segundo Al-Hazimi, esta é uma narração autêntica.” A opinião dos hanafitas, com base em um hadith autêntico, é que tocar os órgãos genitais não anula a ablução. O hadith é o seguinte: Um homem perguntou ao Mensageiro: “Se alguém tocar o próprio órgão sexual, deverá realizar a ablução?” Ele respondeu: “Não. Ele é apenas uma parte de ti.” — Narrado pelas cinco coletâneas de hadith autênticos. Ibn Hibban o classificou como autêntico. Ibn al-Madini disse: “Este é melhor que o hadith de Busra.”* [Como existem hadiths tanto a favor quanto contra a anulação da ablução por tocar os órgãos sexuais, surgiram duas opiniões sobre o assunto. A base de ambas as opiniões são hadiths autênticos. Portanto, quem segue os hadiths pode seguir qualquer uma das duas opiniões. — Editor].

7. Parece apropriado mencionar as coisas que são consideradas anuladoras da ablução, embora não a anulem, pois não há prova incontestável a seu favor.

São as seguintes:

a. Tocar a esposa sem uma barreira: Foi narrado por Aisha que o Mensageiro de Deus a beijou enquanto estava jejuando e disse: “Beijar não invalida a ablução nem rompe o jejum.” — Ishaq ibn Rahwayh o narrou. Al-Bazzar o narrou com uma cadeia de transmissão autêntica. Abd al-Haqq disse: “Não conheço neste hadith qualquer defeito que exija que ele seja rejeitado.”

Também foi narrado por Aisha; ela disse: “Certa noite, percebi que o Mensageiro de Deus não estava na cama. Comecei a procurá-lo. De repente, minha mão tocou o espaço entre os seus pés. Ele estava na mesquita, com os dois pés estendidos, e dizia: ‘Ó Deus, busco refúgio em Tua satisfação contra a Tua ira; busco refúgio em Teu perdão contra o Teu castigo; busco refúgio em Ti contra Ti. Não consigo terminar de ouvir o Teu louvor. Tu és como louvastes a Ti mesmo.’” — Muslim e At-Tirmidhi.

Também foi narrado por Aisha que o Mensageiro de Deus beijou uma de suas esposas e depois foi à mesquita, sem realizar a ablução. — Narrado por Ahmad e pelas quatro coletâneas de hadith autênticos, com uma cadeia de transmissão autêntica.

Também foi narrado por Aisha; ela disse: “Eu dormia diante do Mensageiro de Deus, e meus dois pés ficavam diante dele, isto é, no lugar da prostração. Quando ele ia se prostrar, tocava-me com a mão, e eu imediatamente recolhia os pés.” Outra versão diz: “Quando queria se prostrar, tocava os meus pés.” — Al-Bukhari e Muslim.

b. A saída de sangue por qualquer lugar que não seja o local natural de excreção, seja devido a um ferimento, à aplicação de ventosas ou a um sangramento nasal, quer seja em pouca ou em grande quantidade. Al-Hasan disse: “Os muçulmanos costumavam rezar mesmo com seus ferimentos.” — Al-Bukhari.

Bukhari também disse: Ibn Umar apertou uma espinha ou pústula, e imediatamente saiu sangue dela. Mas ele não refez a ablução. Embora sangue tenha saído junto com a saliva de Ibn Abi Awfa, ele continuou sua oração. E Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, rezou enquanto o sangue escorria de sua ferida. Abbad ibn Bishr foi atingido por uma flecha enquanto rezava e continuou sua oração. — Abu Dawud, Ibn Khuzaymah e Bukhari.

c. Não há nenhum hadith autêntico que prove que o vômito, seja ele em grande quantidade ou em pequena quantidade, invalide a ablução.

d. Comer carne de camelo. Segundo os quatro califas e muitos Companheiros e sucessores, comer carne de camelo não invalida a ablução. Contudo, a ordem de fazer a ablução por esse motivo está comprovada por um hadith autêntico. Foi narrado por Jabir ibn Samurah, que Allah esteja satisfeito com ele: “Um homem perguntou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: ‘Devo fazer a ablução depois de comer carne de carneiro ou de cabra?’ Ele respondeu: ‘Se quiser, faça; caso contrário, não faça.’ Ele perguntou: ‘Devo fazer a ablução depois de comer carne de camelo?’ Ele respondeu: ‘Sim. Faça a ablução depois de comer carne de camelo.’ O homem perguntou: ‘Posso rezar nos locais onde ficam as cabras e as ovelhas?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Ele perguntou: ‘Pode-se rezar nos locais onde ficam os camelos?’ Ele respondeu: ‘Não.’ — Ahmad e Muslim.

Foi narrado por al-Bara ibn Azib: Perguntaram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “É necessário fazer a ablução depois de comer carne de camelo?” Ele respondeu: “Faça a ablução.” Perguntaram: “E depois de comer carne de cabra ou de ovelha?” Ele respondeu: “Não faça a ablução.” Perguntaram-lhe: “Pode-se rezar no local onde fica uma manada de camelos?” Ele respondeu: “Não reze ali. É um lugar de Satanás.” Quando lhe perguntaram sobre rezar no local onde ficam cabras e ovelhas, ele respondeu: “Rezem ali, pois é um lugar de bênção.” — Ahmad, Abu Dawud e Ibn Hibban. Ibn Khuzaymah disse: “Devido à confiabilidade dos narradores deste hadith, não vi nenhuma divergência entre os especialistas em hadith quanto à sua autenticidade.” O Imam al-Nawawi disse: “Esta opinião é relativamente mais forte quanto às provas, embora a maioria dos sábios seja contrária a ela.”

e. Dúvida da pessoa em estado de ablução sobre sua ablução. Quando uma pessoa em estado de pureza duvida se sua ablução foi invalidada, essa dúvida não lhe causa nenhum prejuízo, e a ablução não é invalidada, esteja ela dentro ou fora da oração. A ablução não é invalidada enquanto ela não tiver certeza de que foi invalidada. Foi narrado por Abbad ibn Tamim, por intermédio de seu tio, que um homem informou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que, durante a oração, teve a impressão de que algo lhe havia acontecido — isto é, que havia ocorrido algo que invalida a ablução. Ele disse: “Não deixe a oração até ouvir um som ou sentir um cheiro.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Tirmidhi.

Foi narrado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando alguém dentre vós sentir algo no ventre, mas não souber se algo saiu dele, não deve sair da mesquita enquanto não ouvir algum som ou sentir algum cheiro.” — Muslim, Abu Dawud e Tirmidhi. Aqui, o objetivo não é especificamente ouvir um som ou sentir um cheiro, mas ter certeza de que algo saiu do ventre. Ibn al-Mubarak disse: “Quando há apenas dúvida sobre a ocorrência de impureza, não é necessário fazer a ablução enquanto a pessoa não tiver certeza suficiente para poder jurar. Porém, quando se tem certeza de que ocorreu impureza e há dúvida quanto à permanência da pureza, então, segundo o consenso dos muçulmanos, é necessário fazer a ablução.”

f. Uma gargalhada durante a oração não invalida a ablução, pois o hadith relacionado a isso não é autêntico.

g. Não é necessário fazer a ablução depois de lavar o corpo de um falecido, pois as provas de que isso invalida a ablução são fracas.

8. Atos para os quais a ablução é obrigatória

Primeiro: para realizar qualquer oração, seja ela obrigatória ou voluntária. Até mesmo para realizar a oração fúnebre é necessário fazer a ablução. Pois Allah disse: “Ó crentes, quando vos dispuserdes a realizar a oração, lavai o rosto e as mãos até os cotovelos, passai as mãos pela cabeça e lavai os pés até os tornozelos.” Ou seja, se estiverdes sem ablução e quiserdes realizar a oração, fazei a ablução. E o Mensageiro disse: Allah não aceita a oração sem purificação, nem aceita a caridade daquele que se apropria dos bens antes de sua distribuição. — Todos os livros autênticos de hadith, exceto Bukhari.

Segundo: para circundar a Caaba Sagrada. Pois foi narrado por Ibn Abbas que o Mensageiro de Allah disse: A circunambulação é uma oração. Somente que Allah permitiu falar durante ela. Portanto, quem falar, que diga boas palavras. — Tirmidhi e Dar Qutni. Hakim, Ibn Sakan e Ibn Khuzaima classificaram este hadith como autêntico.

Terceiro: tocar o Alcorão Sagrado. Abu Bakr ibn Muhammad narra: O Mensageiro de Allah escreveu numa carta aos habitantes do Iêmen: “Ninguém deve tocar o Alcorão senão uma pessoa purificada.” — Nasa’i, Dar Qutni, Baihaqi e Ashram. Ibn Abd al-Barr disse: Este hadith, devido à ampla aceitação que recebeu entre as pessoas, aproximou-se do nível de mutawatir. Abdullah ibn Umar narra que o Mensageiro de Allah disse: Ninguém deve tocar o Alcorão senão uma pessoa purificada. — Majma’ az-Zawa’id. De fato, este hadith prova que não é permitido tocar o Alcorão Sagrado senão em estado de pureza. Contudo, a palavra “purificado” possui mais de um significado. São chamados puros: aqueles que estão livres da impureza maior (emissão de sêmen ou impureza decorrente da menstruação), aqueles que estão livres da impureza menor (impureza causada pela urina, pelas fezes ou pela emissão de gases) e o crente cujo corpo não contém qualquer impureza. Para especificar um desses significados, é necessário algum indício. Portanto, este hadith não constitui uma prova conclusiva para proibir a pessoa em estado de impureza menor de tocar o Alcorão. O Alcorão diz: لا يمس إلا المطهرون “Ninguém o toca senão os purificados.” (Surata 56, Al-Waqi’a: versículo 79)

É evidente que este versículo se refere ao Livro protegido em segredo, a “Tábua Preservada”, pois essa interpretação é a mais próxima. E “os purificados” significa os anjos. Assim como Allah disse:

في صحف مكرمة، مرفوعة مطهرة، بايدى سفرة، كرام بررة .

“Conservado em livros honrados, elevado e purificado, pelas mãos de escribas nobres e grandiosos.” (Surata 80, Abasa: versículos 13–16)

Segundo Ibn Abbas, Sha’bi, Dahhak, Zaid ibn Ali, Al-Mu’ayyad بالله, Dawud az-Zahiri, Ibn Hazm e Hammad ibn Abu Sulaiman, é permitido à pessoa em estado de impureza menor tocar o Alcorão. E é consensualmente permitido recitar o Alcorão sem tocá-lo.

9. Situações em que é recomendável fazer a ablução

a. Ao recordar Allah ou pronunciar Seu nome:
Muhajir ibn Qunfudh, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que cumprimentou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enquanto ele fazia a ablução. Ele não respondeu à saudação até concluir a ablução. Depois respondeu e disse: “A única razão pela qual não respondi à sua saudação foi que não gosto de pronunciar o nome de Allah senão estando em estado de pureza.” Qatada disse que, por essa razão, Hasan não gostava de recitar o Alcorão nem de pronunciar o nome de Allah até alcançar a pureza. — Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i e Ibn Majah.

Abu Juhaim ibn al-Harith, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio de Bi’r Jamal (um lugar nos arredores de Medina). Nesse momento, um homem o encontrou e o cumprimentou. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não respondeu à saudação; dirigiu-se a uma parede e passou as mãos pelo rosto e pelas mãos (isto é, fez tayammum), então respondeu à saudação. — Ahmad, al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud e an-Nasa’i. Isso é recomendável e melhor. Caso contrário, é permitido recordar ou mencionar Allah em todas as situações: estando em estado de pureza ou impureza, sentado, em pé, deitado ou caminhando. Pois Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recordava Allah em todos os momentos.” — As cinco coletâneas de hadith, exceto an-Nasa’i. Al-Bukhari citou isso sem cadeia de transmissão.

Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vinha do banheiro, ensinava-nos o Alcorão e comia carne conosco. Nada, exceto a janābah (impureza maior), o impedia de recitar o Alcorão.” — As cinco coletâneas autênticas de hadith; at-Tirmidhi e Ibn Sakan o classificaram como autêntico.

b. Antes de dormir:

Al-Bara ibn Azib, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando fores para a cama, faz a ablução como a ablução para a oração. Depois, deita-te sobre o lado direito e diz: Ó Allah! Entreguei minha alma a Ti, voltei meu rosto para Ti, confiei todos os meus assuntos a Ti e apoiei minhas costas em Ti. Tenho esperança em Ti e temor de Ti. Não há refúgio nem salvação de Ti senão junto a Ti. Ó Allah, creio no Livro que revelaste e creio no Profeta que enviaste.” Se morreres naquela noite, morrerás em estado de fé. Depois dessas palavras, não fales mais nada.” Al-Bara disse: “Repeti essas palavras diante do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando cheguei a: ‘Ó Allah, creio no Livro que revelaste’, disse: ‘e no Teu Mensageiro’. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Não; diz: no Teu Profeta que enviaste.’” — Ahmad, al-Bukhari e at-Tirmidhi.

No caso da pessoa em estado de “janābah”, isto é, atingida por uma impureza maior, isso é ainda mais importante. Pois Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, algum de nós pode dormir em estado de janābah?” Ele respondeu: “Sim, depois de fazer a ablução.” E foi relatado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, queria dormir em estado de janābah, lavava as partes íntimas e fazia a ablução como para a oração.” — Relatado por todas as coletâneas de hadith.

c. É recomendável fazer a ablução para quem está em estado de janābah:

É recomendado que a pessoa em estado de impureza maior faça a ablução quando quiser comer, beber ou voltar a ter relações sexuais. Pois Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, narrou que, quando o Mensageiro de Allah estava junub e queria comer ou dormir, fazia a ablução. — Narrado em várias coletâneas de hadith.

Foi narrado por Ammar ibn Yasir: quando uma pessoa está junub e quer comer ou dormir, o Mensageiro permitiu-lhe fazer a ablução como a ablução para a oração. — Ahmad e at-Tirmidhi.

Abu Sa’id, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Quando algum de vós quiser voltar a ter relações sexuais com a sua esposa depois de já ter tido relações com ela, deve fazer a ablução.” — Narrado por todas as coletâneas de hadith, exceto al-Bukhari.

Ibn Khuzaymah, Ibn Hibban e al-Hakim também narraram este hadith. Eles acrescentaram: “Pois isso é mais estimulante para voltar a ter relações sexuais.”

d. Antes do ghusl obrigatório ou recomendado:

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Quando o Mensageiro de Allah fazia o ghusl da janabah, começava lavando as duas mãos. Depois, com a mão direita, despejava água sobre a mão esquerda; em seguida, lavava as partes íntimas. Depois fazia a ablução como a ablução para a oração.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith.

e. É recomendado fazer a ablução depois de comer alimentos tocados pelo fogo:

Ibrahim ibn Abdullah ibn Qariz disse: “Eu estava passando por Abu Hurayrah enquanto ele fazia a ablução. Ele disse: ‘Sabes por que estou fazendo a ablução? Porque comi queijo. Ouvi o Mensageiro dizer: “Fazei a ablução depois de comer alimentos tocados pelo fogo.”’” — Ahmad, Muslim e as quatro coletâneas de hadith.

E foi narrado por Aisha (r.a.) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Come aquilo que o fogo tocou e faça a ablução.” — Ahmad, Muslim, An-Nasa’i e Ibn Majah.

Cabe observar que, aqui, a ordem de fazer a ablução é entendida como recomendação. Isso porque, no hadith narrado por Amr ibn Umayya ad-Damri, ele disse: “Vi o Mensageiro de Allah (s.a.w.) cortar carne do pescoço de uma cabra cozida e comê-la. Logo depois, foi feito o chamado para a oração. Então ele se levantou, deixou a faca e rezou sem fazer a ablução.” — Bukhari e Muslim. An-Nawawi comentou: este hadith contém a prova da permissibilidade de cortar carne com uma faca.

c. É recomendável fazer uma nova ablução para cada oração:

Buraida (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) fazia a ablução para cada oração. Quando chegou o dia da conquista de Meca, ele fez a ablução, passou as mãos sobre as meias e rezou várias orações com uma única ablução. Umar (r.a.) disse-lhe: “Ó Mensageiro de Allah, o que fizeste agora não costumavas fazer antes.” O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Ó Umar, fiz isso deliberadamente.” — Ahmad, Muslim e outros.
Foi narrado por Ibn Amr ibn Amir al-Ansari (r.a.) que ele disse: Anas ibn Malik costumava dizer: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) fazia a ablução para cada oração.” Eu perguntei: “Como vocês rezavam?” Ele respondeu: “Enquanto não estivéssemos em estado de impureza, rezávamos muitas orações com uma única ablução.” — Ahmad e Bukhari.

Abu Huraira (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Se isso não causasse dificuldade à minha comunidade, eu lhes ordenaria fazer a ablução para cada oração e usar o siwak em cada ablução.” — Ahmad.

Ibn Umar (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) dizia: “Para quem faz a ablução mesmo estando em estado de pureza, são registradas dez boas ações.” — Abu Dawud, At-Tirmidhi e Ibn Majah.

10. Alguns conhecimentos necessários sobre a ablução

a. É permitido falar palavras lícitas durante a ablução. Não há, nos hadiths, prova de que isso seja proibido.
b. Não há fundamento para recitar diferentes súplicas ao lavar cada membro. É suficiente recitar as súplicas mencionadas anteriormente na explicação das sunnas da ablução.
c. Se houver dúvida sobre quantas vezes um membro foi lavado, deve-se considerar aquilo que é certo — isto é, o menor número de vezes.
d. Se houver cera ou qualquer revestimento semelhante em algum dos membros da ablução, a ablução será inválida. Porém, se houver apenas tinta, como henna, tintura e semelhantes, isso não prejudicará a ablução, pois não impede que a água alcance a pele.
e. A mulher mustahada (aquela cuja menstruação dura mais de dez dias ou menos de três dias), a pessoa que sofre de gotejamento contínuo de urina, de emissão contínua de gases ou de uma aflição semelhante deverá fazer a ablução para cada oração, quando essa condição persistir durante todo o período da oração ou estiver fora de seu controle. Suas orações serão consideradas válidas apesar da desculpa.
f. É permitido pedir a ajuda de outra pessoa para fazer a ablução.
g. É permitido secar com um lenço os membros molhados após a ablução, tanto no inverno quanto no verão.

5. Passar a mão sobre as meias de couro

a. Sua prova jurídica:
Foi estabelecida, por hadiths autênticos transmitidos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), a permissibilidade de passar a mão sobre as meias de couro. An-Nawawi disse: Os sábios cujas opiniões são consideradas aceitáveis chegaram a um consenso quanto à permissibilidade de passar a mão sobre as meias de couro, quer a pessoa esteja em sua residência, quer esteja viajando, e quer isso seja feito por necessidade, quer sem necessidade. É permitido até mesmo à mulher permanentemente ocupada com o serviço doméstico e ao incapacitado imóvel. Somente os xiitas e os carijitas se opõem a isso. Sua oposição não é aceitável. O hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: Um grupo de hafizes de hadith afirmou claramente que passar a mão sobre as meias de couro é uma questão comprovada por relatos mutawatir (transmitidos universalmente). Alguns chegaram a reunir uma lista de seus transmissores, que ultrapassa oitenta (80). Entre os hadiths sobre passar a mão sobre as meias de couro, o mais autêntico foi transmitido por Bukhari, Muslim, Abu Dawud e At-Tirmidhi, de Ibrahim An-Nakha’i. O hadith é o seguinte:

Jarir ibn Abdullah urinou; depois fez a ablução e passou a mão sobre suas meias de couro. Disseram-lhe: “Você fez isso, embora tenha urinado?” Jarir respondeu: “Sim. Vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) urinar; depois fazer a ablução e passar a mão sobre as meias de couro.” Ibrahim disse: Esse hadith causava admiração neles, pois Jarir abraçou o Islã depois da revelação da surata Al-Ma’idah. Isto é, ele abraçou o Islã no décimo ano da Hégira, depois da revelação do versículo da surata Al-Ma’idah que contém as normas da ablução e ordena lavar os dois pés. Portanto, seu hadith prova que a ordem de lavar encontrada no versículo se aplica àquele que não usa meias de couro. Quanto àquele que as usa, é obrigatório passar a mão sobre elas. Assim, o hadith pode especificar o campo de aplicação do versículo.

b. A validade de passar a mão sobre meias de couro

É permitido passar a mão sobre as meias comuns ou sobre as meias de couro. Isso foi narrado por numerosos Companheiros. Abu Dawud disse: Ali ibn Abu Talib, Ibn Mas’ud, Al-Bara ibn Azib, Anas ibn Malik, Abu Umamah, Sahl ibn Sa’d e Amr ibn Hurayth passaram a mão sobre meias comuns. Isso também foi narrado de Umar ibn Al-Khattab e de Ibn Abbas. Também foi narrado de Ammar, Bilal e Ibn Umar. Em Tahdhib as-Sunan, obra de Ibn Al-Qayyim, é narrado de Ibn Al-Mundhir: A permissibilidade de passar a mão sobre meias comuns foi afirmada claramente pelo Imam Ahmad. Essa é sua posição correta. Trata-se da prática deliberada desses Companheiros e de uma analogia evidente. Com efeito, não há diferença prática significativa entre as meias de couro e as meias comuns. Portanto, a regra das meias de couro pode ser aplicada às meias comuns. A maioria dos sábios também considera permitido passar a mão sobre ambas. Entre os que afirmaram a permissibilidade estão Sufyan Al-Thawri, Ibn Al-Mubarak, Ata, Al-Hasan Al-Basri e Sa’id ibn Al-Musayyab. Abu Yusuf e Muhammad disseram: Se as meias de couro e as meias comuns forem tão espessas que não se possa ver o que há por baixo delas, é permitido passar a mão sobre elas. Abu Hanifa considerava proibido passar a mão até mesmo sobre meias de couro espessas. Porém, três ou sete dias antes de sua morte, mudou de opinião e emitiu parecer pela permissibilidade. Naquela ocasião, enquanto estava doente, passou a mão sobre meias de couro e disse aos que foram visitá-lo: “Agora eu mesmo fiz aquilo que costumava proibir.” Foi narrado de Al-Mughirah ibn Shu’bah:

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez a ablução e passou a mão sobre as sandálias e as meias de couro [As duas palavras principais neste hadith são na’l (19) e jawrab (ورب). Na’l é aquilo que protege o pé do contato com o chão. Não é uma meia. Pode ser um sapato, uma sandália ou algo semelhante a um tamanco. As na’l do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tinham duas tiras: uma ficava entre o dedão e o dedo adjacente, e a outra, entre o dedo médio e o dedo adjacente. Essas duas tiras se uniam à tira superior sobre o dorso do pé, chamada shirak. Jawrab é a meia de couro que cobre toda a sola do pé, chamada shirak.] — Ahmad, At-Tahawi, Ibn Majah e At-Tirmidhi. At-Tirmidhi o classificou como autêntico, enquanto Abu Dawud o considerou fraco. O objetivo principal era passar a mão sobre as meias comuns, isto é, as meias de couro. A questão de passar a mão sobre as na’l, ou sapatos, surgiu apenas como elemento acessório.

Assim como é permitido passar a mão sobre meias comuns ou meias de couro, também é permitido passar a mão sobre qualquer cobertura usada nos pés, isto é, meias, que sejam vestidas por medo do frio, de ferimentos, do desconforto de andar descalço ou por qualquer motivo semelhante. Ibn Taymiyyah disse: “É permitido passar a mão sobre a cobertura dos pés. Passar a mão sobre uma cobertura é ainda mais apropriado do que passá-la sobre meias comuns ou meias de couro, pois geralmente se usa uma cobertura por necessidade, e removê-la causa diversos danos: ou a pessoa sente frio, ou sofre com o desconforto de estar descalça, ou se fere. Portanto, quando é permitido passar a mão sobre meias comuns e meias de couro, certamente será permitido passá-la sobre uma cobertura. Quem reivindica consenso dos sábios sobre a proibição de qualquer uma dessas duas coisas apenas manifesta sua própria ignorância; quanto a consenso, isso está muito longe de ser provado. Não se pode sequer provar que dez sábios conhecidos tenham declarado isso proibido. Ibn Taymiyyah também disse: Quem refletir sobre as palavras do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e fizer uma analogia correta compreenderá que, neste caso, a margem de escolha é muito ampla. Essa é uma característica benéfica da Sharia e uma expressão de sua generosidade e magnanimidade.” Se houver rasgos ou furos nas meias comuns ou nas meias de couro, não há problema em passar a mão sobre elas, desde que ainda sejam usadas de modo convencional. Al-Thawri disse: As meias dos emigrados e dos Ansar não estavam livres de rasgos e furos. Se isso tornasse proibido passar a mão sobre elas, tal proibição teria necessariamente sido transmitida a partir deles.

c. Condições para passar a mão sobre meias e semelhantes

A condição para que seja permitido fazer o mas-h sobre meias ou qualquer cobertura semelhante é que elas sejam calçadas estando a pessoa em estado de ablução. Al-Mughira ibn Shu’ba narrou: “Certa noite, eu estava viajando com o Mensageiro de Allah. Então despejei água para ele de um recipiente. Com ela, ele lavou o rosto e as duas mãos e passou a mão sobre a cabeça. Depois, inclinei-me para tirar suas meias. Ele disse: ‘Deixe-as; não as tire. Eu as calcei estando em estado de pureza.’ Em seguida, passou a mão sobre elas.” — Ahmad, al-Bukhari e Muslim. Al-Humaydi narrou de al-Mughira, que disse: “Dissemos: ‘Ó Mensageiro, devemos fazer o mas-h sobre as meias?’ Ele respondeu: ‘Sim, se elas tiverem sido calçadas enquanto se estava em estado de pureza.’” Alguns juristas estabeleceram como condição que as meias cubram a parte do pé cuja lavagem é obrigatória, que permaneçam ajustadas ao pé sem precisar ser amarradas com cordões ou algo semelhante e que permitam caminhar continuamente enquanto calçadas. Contudo, Ibn Taymiyya considerou fracas essas condições em sua obra de fatwas.

d. O local do mas-h

O local do mas-h estabelecido pela Lei Islâmica é a parte superior da meia. Al-Mughira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Vi o Mensageiro de Allah fazer o mas-h sobre a parte superior da meia.” — Ahmad, Abu Dawud e al-Tirmidhi.

Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Se o Islam fosse uma religião baseada nas opiniões das pessoas, seria mais apropriado fazer o mas-h sobre a parte inferior da meia do que sobre a parte superior. Vi o Mensageiro de Allah fazer o mas-h sobre a parte superior da meia.” — Abu Dawud e al-Daraqutni. O obrigatório é aquilo que o mas-h significa segundo a língua e o uso lexical; não há nele nenhuma especificação determinada. E nenhum hadith autêntico menciona algo a esse respeito.

e. A duração do mas-h

Durante a permanência no domicílio, a duração do mas-h sobre as meias é de um dia e uma noite; durante a viagem, é de três dias e três noites.

Safwan ibn Assal, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah ordenou-nos fazer o mas-h sobre as meias quando as calçássemos estando em estado de pureza: durante três dias na viagem e um dia e uma noite no domicílio. E não deveríamos tirá-las, exceto em caso de janabah (impureza maior).” — al-Shafi’i, Ahmad, Ibn Khuzayma, al-Tirmidhi e al-Nasa’i.

Foi narrado por Shurayh ibn Hani, que disse: “Perguntei a Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, sobre o mas-h sobre as meias. Ela disse: ‘Pergunta a Ali, pois ele sabe mais sobre isso do que eu. Ele viajava com o Mensageiro de Allah.’ Então perguntei a Ali, e ele respondeu: ‘O Mensageiro de Allah disse: “Para o viajante, três dias e três noites; e para o residente (aquele que permanece no domicílio), um dia e uma noite.”’ — Ahmad, Muslim, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah. Al-Bayhaqi disse: ‘Este é o hadith mais autêntico sobre este assunto.’ A duração começa no momento em que se inicia o mas-h. Alguns dizem que começa quando, depois de calçar as meias, surge a necessidade de renovar a ablução.

c. Regras do masḥ

Quando aquele que realizou a ablução terminar sua ablução e calçar meias ou meias de couro, será permitido que passe a mão molhada sobre elas a cada ablução realizada posteriormente. Não é necessário lavar os pés. Foi-lhe concedida a permissão de um dia e uma noite enquanto estiver em sua residência, e de três dias e três noites quando estiver viajando. Contudo, se entrar em estado de janābah, deverá retirar as meias. Isso é o que foi mencionado no hadith de Ṣafwān, citado anteriormente.

d. O que invalida o masḥ

O masḥ sobre as meias é invalidado (1) quando termina o período permitido, (2) quando se entra em estado de janābah e (3) quando as meias são retiradas. Quando termina o período permitido ou as meias são retiradas, se a ablução ainda estiver válida, basta lavar os dois pés.

6. Ghusl

Ghusl significa fazer a água correr por todo o corpo. Trata-se de uma prática estabelecida pela Lei Islâmica, pois o Deus Altíssimo disse:

وإن كنتر جنبا قاظهروا

“Mas, se estiverdes em estado de impureza maior, purificai-vos completamente.” (Surata 5, Al-Mā’idah: parte do versículo 6)

وَيَسْأَلُونَكَ عَنِ الْمَحِيضِ قُلْ هُوَ أَذًى لا فَاعْتَزِلُوا النِّسَاء فِي الْمَحِيضِ لَا وَلا تَقْرَبُوهُنَّ حَتَّى يَطْهُونَ ، فَإِذَا تَطَهِّرْنَ فَأْتُوهُنَّ من حيث أمركم الله ، إن اللهَ يُحِبُّ التَّوَّابِينَ وَيُحِبُّ المتطهرين

Significado: “Eles te perguntam sobre a menstruação. Dize: ela é uma impureza. Portanto, afastai-vos das mulheres durante a menstruação e não vos aproximeis delas até que estejam puras. Quando estiverem completamente purificadas, aproximai-vos delas da maneira como Allah vos ordenou. Na verdade, Allah ama os que se arrependem e ama os que se purificam.” (Surata 2, Al-Baqarah: versículo 222)

Há algumas normas importantes relacionadas ao ghusl, que serão discutidas aqui:

1. Causas que tornam o ghusl obrigatório

1. Quando o sêmen de um homem ou de uma mulher é emitido com excitação, durante o sono ou em estado de vigília, o ghusl torna-se obrigatório. Esta é a opinião de todos os juristas. Abu Sa’id narrou:
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Água vem de água.” (Isto é, devido à emissão do sêmen, deve-se realizar o ghusl derramando água sobre todo o corpo.) — Muslim.

Foi narrado por Umm Salamah que Umm Sulaym disse: “Ó Mensageiro de Allah, Allah não se envergonha da verdade. As mulheres devem realizar o ghusl quando têm um sonho erótico?” Ele respondeu: “Sim, se ela vir a água.” — Al-Bukhari, Muslim e outros.

Considero apropriado informar sobre algumas situações que ocorrem com frequência neste assunto, pois elas são necessárias:

a. Se houver emissão de sêmen sem excitação sexual, por causa de uma doença ou do frio, o ghusl não é obrigatório. Pois, no hadith narrado por Ali, consta que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lhe disse: “Quando o sêmen for emitido com ímpeto, realiza o ghusl.” Abu Dawud.

Mujahid relatou: Estávamos reunidos na mesquita — nós, alguns discípulos de Ibn Abbas: Tawus, Said ibn Jubayr e Ikrimah — enquanto Ibn Abbas rezava. Nesse momento, um homem se aproximou e parou diante de nós. Ele perguntou: “Há aqui algum mufti?” Respondemos: “Pergunte o que quiser.” Ele disse: “Sempre que urino, imediatamente depois da urina sai um líquido com forte impulso.” Perguntamos: “É o líquido do qual se gera um filho?” Ele respondeu: “Sim.” Dissemos: “Então você deve tomar banho completo.” Ao ouvir isso, o homem se afastou recitando: “Inna lillahi wa inna ilayhi rajiun” (Pertencemos a Allah e a Ele retornaremos). Ibn Abbas terminou rapidamente a oração e disse a Ikrimah: “Quero que você traga esse homem.” Em seguida, voltou-se para nós e disse: “A fatwa que vocês deram a esse homem foi baseada no Livro de Allah?” Respondemos: “Não.” Ele perguntou: “Então foi baseada no Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” Respondemos: “Não.” Perguntou: “Então foi baseada nos Companheiros do Mensageiro de Allah?” Respondemos: “Não.” Ele perguntou: “Então, de onde veio?” Respondemos: “De nosso próprio raciocínio.” Ele disse: “É por isso que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Um faqih (conhecedor da Sharia) é mais poderoso contra Satanás do que mil devotos.’” Nesse momento, o homem voltou. Ibn Abbas dirigiu-se a ele e perguntou: “Quando ocorre aquilo que você mencionou, sente alguma excitação no pênis?” Ele respondeu: “Não.” Ibn Abbas perguntou: “Sente alguma dormência no corpo?” Ele respondeu: “Não.” Então Ibn Abbas disse: “Isso é apenas fraqueza. Para isso, basta que você faça a ablução.”

b. Quando alguém tem uma emissão seminal durante o sono, mas não vê sêmen, não precisa tomar banho completo. Ibn al-Mundhir disse: Os sábios com quem aprendi a religião são unânimes nessa opinião. O hadith de Umm Sulaym, citado anteriormente, afirma que, quando foi perguntado ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se uma mulher que tivesse uma emissão seminal durante o sono deveria tomar banho completo, ele respondeu: “Sim, se ela vir o líquido, isto é, o sêmen.” Esse hadith também prova que, quando não se vê sêmen, não é necessário tomar banho completo. Porém, se, depois de acordar, for constatada a emissão de sêmen, deve-se tomar banho completo.

c. Quando alguém acorda e encontra umidade, mas não se lembra de ter tido uma emissão seminal durante o sono, o banho completo torna-se obrigatório se tiver certeza de que essa umidade é sêmen. Isso porque fica claro que a umidade resultou de uma emissão seminal durante o sono, embora a pessoa tenha se esquecido. Se houver dúvida sobre se a substância é sêmen, sem que haja certeza, então, por precaução, o banho completo é obrigatório. Mujahid e Qatadah disseram: O banho completo não é obrigatório até que haja certeza de que se trata de sêmen. Isso porque, em condições normais, a pureza é certa; e uma certeza não pode ser anulada por uma dúvida.

d. A pessoa sente a ejaculação do sêmen durante a excitação sexual, mas aperta o pênis, impedindo que o sêmen saia. Isso também se baseia no hadith mencionado anteriormente, no qual o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, condicionou a obrigatoriedade do banho completo à constatação do sêmen. Portanto, o banho completo não é obrigatório sem que se veja o sêmen. Contudo, se, depois de soltar o pênis e começar a caminhar, o sêmen sair, deverá tomar banho completo.

5. A pessoa encontra sêmen em sua roupa, mas não sabe quando ele saiu. Nesse intervalo, havia rezado nesse estado. Deve repetir as orações realizadas desde o último sono. Porém, se encontrar algum indício que mostre que o sêmen saiu antes do último sono, deverá repetir as orações realizadas desde o sono em que suspeita que isso tenha ocorrido.

Dois. A união dos dois órgãos sexuais. Isto é, quando a glande do pênis penetra na vagina da esposa e desaparece dentro dela, o banho completo torna-se obrigatório, mesmo que não haja ejaculação. Allah disse: “Se estiverdes em estado de impureza maior, purificai-vos completamente.” O Imam al-Shafii disse: Na língua dos árabes, janabah (impureza maior), em seu sentido literal e direto, refere-se à relação sexual, haja ou não ejaculação. Quando se diz que determinado homem tornou determinada mulher junub (em estado de impureza maior), entende-se que ele manteve relação sexual com ela, mesmo que não tenha havido ejaculação. Ele disse: O ato sexual pelo qual a Shariah estabeleceu a punição de açoites por zina é a relação sexual, mesmo que não haja ejaculação. Abu Hurayrah narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando o homem se senta entre os braços e as pernas da mulher e introduz seu pênis em seu interior, o banho completo torna-se obrigatório, haja ou não ejaculação.” — Ahmad e Muslim.

E foi narrado por Said ibn al-Musayyib: Abu Musa al-Ashari, que Allah esteja satisfeito com ele, disse a Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela: “Quero perguntar-lhe algo, mas sinto vergonha.” Aisha respondeu: “Pergunte, não tenha vergonha. Sou sua mãe.” Então Abu Musa perguntou: “Qual é a regra para aquele que manteve relação sexual, mas não ejaculou?” Aisha respondeu, citando o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Quando os dois órgãos sexuais se encontram, o banho completo torna-se obrigatório.” — Ahmad e Malik.

Contudo, deve-se observar que a penetração do pênis é necessária. O simples contato, sem penetração, não torna o banho completo obrigatório para nenhum dos dois.

Três: quando cessam a menstruação (o fluxo menstrual) e o nifas (o sangramento pós-parto): Allah disse: “Não vos aproximeis delas enquanto não estiverem purificadas. Quando se purificarem, aproximai-vos delas como Allah vos ordenou.” E o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a Fátima bint Abi Hubaysh, que Allah esteja satisfeito com ela: “Durante os dias em que estiveres menstruada, abstém-te da oração. Depois, toma o banho ritual e ora.” — Sahih al-Bukhari e Muslim. Embora este hadith trate da menstruação, segundo o consenso dos Companheiros, o nifas tem o mesmo estatuto que a menstruação. Se ocorrer um parto sem sangramento, alguns dizem que o banho ritual é obrigatório, enquanto outros dizem que não é. Não há orientação sobre isso no Alcorão nem nos hadiths.

Quatro: a morte: quando um muçulmano morre, é obrigatório por consenso que lhe seja dado o banho ritual. Os detalhes serão apresentados no lugar apropriado.

Cinco: quando um incrédulo aceita o Islã: quando um incrédulo aceita o Islã, o banho ritual torna-se obrigatório para ele. Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: “Thumama al-Hanafi foi feito prisioneiro de guerra. Todas as manhãs, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ia até ele e dizia: ‘Qual é a tua opinião, ó Thumama?’ Thumama respondia: ‘Se me matares, matarás um homem de sangue (um guerreiro); se tiveres misericórdia de mim, terás misericórdia de um homem grato; e, se quiseres um resgate, darei o que pedires.’ Os Companheiros do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, preferiam o resgate e diziam: ‘Que proveito há em matá-lo?’ Depois, quando o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até ele, Thumama aceitou o Islã. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, libertou-o, enviou-o ao jardim de Abu Talha e ordenou-lhe que tomasse um banho ritual. Ele tomou o banho ritual e rezou duas rak‘ahs. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘A aceitação do Islã pelo vosso irmão foi concluída de forma adequada.’ — Ahmad, al-Bukhari e Muslim.”

2. Atos proibidos para quem está em estado de janabah

Os seguintes atos são proibidos para quem está em estado de janabah:

a. A oração.

b. O tawaf.

As provas desses pontos foram mencionadas na seção que trata dos atos para os quais a ablução é necessária.

c. Tocar e transportar o Alcorão: Muitos imames concordam que isso é proibido; entretanto, o imame Dawud e Ibn Hazm consideram permitido que quem esteja em estado de janābah toque e transporte o Alcorão, e não o consideram censurável. Como prova, eles apresentam o seguinte hadith de Bukhari e Muslim:

“O Mensageiro de Allah enviou uma carta a Heráclio, na qual estava escrito: ‘Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador’… Por fim, também estava escrito o seguinte versículo da surata Āl ‘Imrān:

قُلْ يَأْهْلَ الْكِتَبِ تَعَالَوْ إِلَى كَلِمَةٍ سَوَاءٍ بَيْنَنَا وَبَيْنَكُمْ إِلَّا تَعْبُدَ إِلَّا اللَّهَ وَلَا نُشْرِكَ بِهِ شَيْئًا وَلَا يَتَّخِلُ بَعْضُنَا بَعْضًا أَرْبَابًا مِن دُونِ اللَّهِ ، فَإِن تَوَلَّوا فَقُولُوا اعْمَدُوا بِأَنَّا مُسْلِمُونَ .

Significado: “Ó Povo do Livro, vinde a uma palavra comum entre nós e vós: que não adoremos senão a Allah, que não Lhe associemos coisa alguma e que não tomemos uns aos outros como senhores em vez de Allah. Mas, se eles se voltarem, dizei: ‘Testemunhai que somos muçulmanos.’” (Surata Āl ‘Imrān, versículo 64)

Ibn Hazm disse: “O Mensageiro enviou aos cristãos esta carta contendo esse versículo. Ele certamente sabia que eles tocariam nela.” A maioria dos imames respondeu a esse argumento dizendo: “Isso é apenas uma carta. Não há problema em tocar cartas, livros de tafsir, fiqh e semelhantes, ainda que contenham versículos, pois não são chamados de Alcorão nem são honrados como o Alcorão [contudo, não há prova no Alcorão ou no hadith de que seja proibido àquele que está em estado de janābah tocar e transportar o Alcorão. Por respeito ao Alcorão, os imames consideram isso ilícito. Entretanto, consideram-no permitido para fins de ensino. O imame Dawud, o Zāhiri, e Ibn Hazm consideram-no permitido em todas as situações. — Editor].”

d. Recitar o Alcorão: Para muitos imames, é proibido àquele que está em estado de janābah recitar qualquer parte do Alcorão.

Há um hadith narrado por ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele: “Nada afastava o Mensageiro de Allah do Alcorão, exceto a janābah (um estado de impureza que torna obrigatório o banho ritual — cuja explicação foi dada anteriormente).” — Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah. Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: “Alguns consideraram fracos certos narradores deste hadith. Contudo, é um bom hadith, do qual se pode extrair uma prova.” Também foi narrado de ‘Ali: “Vi o Mensageiro de Allah fazer a ablução e depois recitar uma parte do Alcorão. Em seguida, disse: ‘Isso é permitido para quem não está em estado de janābah; mas não para quem está nesse estado, nem mesmo a recitação de um único versículo.’” — Ahmad e Abu Ya‘la. Al-Haythami disse: “Os narradores deste hadith são confiáveis.” Ash-Shawkani disse: “Se este hadith for autêntico, pode ser usado como prova da proibição de recitar o Alcorão para quem está em estado de janābah. Porém, o primeiro hadith não contém qualquer afirmação que prove a proibição da recitação do Alcorão, pois o máximo que se pode concluir dele é que o Mensageiro de Allah se abstinha de recitar o Alcorão enquanto estava em estado de janābah. Tal afirmação nem sequer prova que a recitação do Alcorão seja makruh; como poderia provar que é haram?” Segundo os imames al-Bukhari, at-Tabarani, Dawud, o Zāhiri, e Ibn Hazm, é permitido àquele que está em estado de janābah recitar o Alcorão. O imame al-Bukhari disse: “A opinião de Ibrahim é que a mulher menstruada pode recitar versículos do Alcorão. E Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, não considerava censurável que aquele que está em estado de janābah recitasse o Alcorão. O Mensageiro de Allah recordava Allah em todas as situações.” Hafiz Ibn Hajar comentou sobre isso: “O imame al-Bukhari não considerou autêntico nenhum hadith que declare ser proibido àquele que está em estado de janābah ou à mulher menstruada recitar o Alcorão. Embora, em conjunto, esses hadiths sejam considerados provas por outros, a maioria deles está sujeita a interpretação.”

e. Permanecer na mesquita: É proibido àquele que está em estado de janābah permanecer na mesquita. ‘A’ishah, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Certo dia, o Mensageiro de Allah veio, e as casas de seus Companheiros tinham portas voltadas para a mesquita. Ele disse: ‘Desviai as portas de todas essas casas para o lado oposto à mesquita.’ Depois disso, entrou (em sua casa ou na mesquita). As pessoas nada fizeram, esperando que alguma concessão fosse revelada em favor delas. Pouco depois, ele saiu até elas e disse: ‘Desviai as portas dessas casas para o lado oposto à mesquita, pois não considero lícita a mesquita para nenhuma mulher menstruada nem para quem esteja em estado de janābah.’” — Abu Dawud. Umm Salamah, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “O Mensageiro de Allah entrou no pátio desta mesquita e proclamou: ‘A mesquita não é lícita para quem está em estado de janābah nem para a mulher menstruada.’” — Ibn Majah e at-Tabarani.

Ambos os hadiths mencionados provam que a mesquita não é lícita para quem está em estado de janabah nem para a mulher menstruada. Contudo, é permitido a ambos atravessar a mesquita. Pois Allah disse: «Ó vós que credes, não vos aproximeis da oração enquanto estiverdes embriagados, até compreenderdes o que dizeis; nem quando estiverdes em estado de janabah, até vos banhardes, exceto se estiverdes apenas de passagem.» (Surata 4, An-Nissá, versículo 43)

Jábir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «Alguns de nós atravessavam a mesquita estando em estado de janabah.» — Ibn Abi Shaybah e Sa’id ibn Mansur.

Zayd ibn Aslam também disse: «Os companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, transitavam pela mesquita estando em estado de janabah.» (Ibn al-Mundhir). Foi narrado por Yazid ibn Habib, que Allah esteja satisfeito com ele: «As casas de algumas pessoas dos Ansar tinham suas portas voltadas para a mesquita. Elas ficavam em estado de janabah, mas não podiam chegar à água para obtê-la senão passando pela mesquita. Por isso, Allah revelou este versículo: “Não vos aproximeis da oração enquanto estiverdes em estado de janabah, exceto se estiverdes apenas de passagem.”» — Ibn Jarir.

Depois, Ash-Shawkani disse: «Isso prova de modo incontestável o assunto em questão.» Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: «O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse-me: “Traz-me o lenço da mesquita.” Eu disse: “Estou menstruada.” Ele disse: “A tua menstruação não está nas tuas mãos.”» — Todos os livros de hadith, exceto o de Bukhari.

Foi narrado por Maymunah, que Allah esteja satisfeito com ela: «Enquanto alguma de nós estava menstruada, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ia à sua casa e, apoiando a cabeça em seu colo, recitava o Alcorão, embora ela estivesse menstruada. Depois, alguma de nós levava seu lenço e o colocava na mesquita, mesmo estando menstruada.» — Ahmad e An-Nasa’i. Há ainda outros hadiths com este mesmo teor.

3. Ghusl recomendado (mustahabb)

Isto é, o banho ritual que é elogiado e pelo qual se recebe recompensa, mas cuja omissão não implica censura nem pecado. Há seis tipos de banho ritual dessa natureza:

a. O banho ritual de sexta-feira: como a sexta-feira é o dia em que os muçulmanos se reúnem para a adoração e a oração, o Legislador, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou e enfatizou o banho nesse dia, para que os muçulmanos comparecessem à sua reunião com a melhor pureza e limpeza. Foi narrado por Abu Sa’id, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «É obrigatório para todo adulto tomar banho na sexta-feira e usar perfume na medida de sua capacidade.» — Bukhari e Muslim.

“Wājib” significa um mustahabb importante. A prova disso está neste hadith de Bukhari, narrado por Ibn Umar: Na sexta-feira, Umar ibn al-Khattab estava de pé, proferindo o sermão. De repente, apareceu um ancião emigrante entre os Companheiros do Mensageiro. Era Uthman. Umar chamou-o e perguntou: “Que horas são agora?” Ele respondeu: “Eu estava ocupado com o trabalho. Antes de voltar para casa, ouvi o chamado para a oração. Por isso, não pude fazer mais do que a ablução.” Umar disse: “Somente a ablução? Embora você saiba que o Mensageiro ordenava que se tomasse banho.”

O Imam al-Shafi‘i disse: Quando Uthman não tomou banho, não deixou de realizar a oração. E Umar também não lhe ordenou que saísse da mesquita para tomar banho. Ficou então comprovado que ambos sabiam que o banho era uma questão facultativa. Que o banho é mustahabb também é comprovado por este hadith de Muslim, narrado por Abu Hurayra. O Mensageiro disse: “Quem fizer corretamente a ablução, vier para a oração de sexta-feira e escutar em silêncio terá todos os seus pecados perdoados entre uma sexta-feira e a seguinte, e por mais três dias.”

Ao explicar como este hadith comprova que o banho é mustahabb, al-Qurtubi disse: A menção da recompensa pela ablução e pelos demais atos relacionados a ela, os quais exigem a validade da oração, prova que a ablução é suficiente. Hafiz Ibn Hajar disse em sua obra Talḫīṣ: Este hadith é a prova mais forte de que o banho de sexta-feira não é obrigatório. Como não há prejuízo em deixar de tomar banho, ele foi classificado como mustahabb. Contudo, se a falta do banho causar incômodo às pessoas devido ao suor e ao mau cheiro, ou resultar em algo semelhante, então o banho se tornará obrigatório e será proibido deixá-lo. Alguns sábios decidiram que o banho para a sexta-feira é obrigatório mesmo quando sua ausência não causar incômodo a ninguém. Eles apresentam como prova o seguinte hadith de Abu Hurayra: O Mensageiro de Deus disse: “É necessário que todo muçulmano tome banho uma vez por semana. Que ele lave a cabeça e o corpo.” — Bukhari e Muslim.

Eles tomam os hadiths narrados sobre esse assunto em seu sentido aparente, isto é, como indicando obrigatoriedade, e rejeitam o sentido contrário.

O período para o banho se estende desde o amanhecer até a oração de sexta-feira. Contudo, é mustahabb dirigir-se à oração imediatamente após tomar banho. Se, depois do banho, ocorrer algo que invalide a ablução, será suficiente fazer a ablução. Aṣram disse: “Ouvi que perguntaram ao Imam Ahmad: ‘Para quem tomou banho e depois perdeu a ablução, a ablução será suficiente?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Sobre isso, não ouvi nada melhor do que o hadith de Abd al-Rahman ibn Abza. Ibn Abza narra de seu pai, que era um Companheiro: ‘Ele tomava banho na sexta-feira. Se perdesse a ablução depois do banho, fazia apenas a ablução e não tomava banho novamente.’ O período do banho termina com o fim da oração de sexta-feira. Portanto, quem tomar banho depois da oração de sexta-feira não terá tomado o banho da sexta-feira, e o mustahabb também não terá sido cumprido por meio desse banho. Ibn Umar narra que o Mensageiro de Deus disse: ‘Quando algum de vós quiser vir para a oração de sexta-feira, que tome banho.’ — Todas as coletâneas autênticas de hadith.

Ibn Abd al-Barr disse que os muçulmanos chegaram a um consenso sobre isso.

b. O banho do Eid: Os sábios consideraram mustahabb o banho do Eid. Não há nenhum hadith autêntico sobre esse assunto. Na obra Badr al-Munir, afirma-se que os hadiths relativos ao banho do Eid são fracos. Contudo, existem algumas boas declarações dos Companheiros a esse respeito.

c. O banho de quem lavou um morto: Segundo muitos sábios, é mustahabb que aquele que lavou um morto tome banho. Abu Hurayra narra que o Mensageiro disse: “Quem lavar um morto, que tome banho; e quem o transportar, que faça a ablução.” — Ahmad e as coletâneas de Sunan.

Contudo, os imames criticaram este hadith. Ali ibn al-Madini, Ahmad, Ibn al-Mundhir, al-Rafi‘i e outros disseram que os especialistas em hadith não consideraram autêntico nenhum hadith sobre este assunto. Entretanto, o hafiz Ibn Hajar disse sobre este hadith: At-Tirmidhi classificou-o como bom, e Ibn Hibban como autêntico. Como foi transmitido por numerosas cadeias de transmissão, não pode deixar de ser, no mínimo, bom. Adh-Dhahabi disse: A cadeia de transmissão deste hadith é mais forte do que a de muitos hadiths que os juristas aceitaram como prova. O verbo imperativo usado no referido hadith indica algo recomendável, pois foi narrado de Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — que disse: Nós lavávamos os mortos. Depois, alguns de nós tomavam banho e outros não. Al-Khatib transmitiu este hadith com uma cadeia autêntica. Após a morte de Abu Bakr as-Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele —, sua esposa, Asma bint Umais, deu-lhe banho. Então, depois do banho, saiu e perguntou aos muhajirun presentes: Hoje está um dia de frio intenso. Estou jejuando. É obrigatório que eu tome banho? Eles responderam: Não. — Malik.

d. O banho para o ihram: Segundo a maioria dos estudiosos, é recomendável tomar banho quando se pretende entrar em ihram para o hajj ou a umrah. Zayd ibn Thabit — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: Ele viu o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — tirar as roupas e tomar banho para o seu ihram. — Ad-Daraqutni, al-Bayhaqi e At-Tirmidhi. At-Tirmidhi classificou este hadith como bom, enquanto al-Uqayli o classificou como fraco.

e. O banho ao entrar em Meca: É recomendável tomar banho para quem pretende entrar na cidade sagrada de Meca. Foi narrado por Ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — que, quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ia a Meca, passava a noite anterior em Dhu Tuwa até amanhecer e depois entrava em Meca durante o dia. Ele narrou que o Mensageiro de Allah tomava banho. — Al-Bukhari e Muslim.

Ibn al-Mundhir disse: Segundo todos os estudiosos, é recomendável tomar banho antes de entrar em Meca. Contudo, quem não o fizer não terá de oferecer fidyah. A maioria dos estudiosos disse: Fazer wudu será suficiente.

f. O banho para permanecer em Arafat: É recomendável que a pessoa que pretende permanecer em Arafat para o hajj tome banho. Malik narrou, por intermédio de Nafi‘, que Abdullah ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — tomava banho para entrar em ihram, antes de entrar em ihram, para entrar em Meca e para permanecer em Arafat à tarde.

4. Os pilares do banho ritual

O banho ritual prescrito pela Shariah não se completa sem duas coisas:

a. A intenção:
É ela que estabelece a diferença entre as ações naturais e instintivas do ser humano e os atos de adoração. A intenção é um ato exclusivo do coração. O costume que as pessoas aprenderam, adotaram e ao qual se habituaram — o de pronunciar a intenção verbalmente — é uma inovação e uma prática alheia à Shariah. Deve-se abandonar esse costume. Já discutimos anteriormente a realidade e o significado da intenção na seção sobre o wudu.

b. Lavar todas as partes do corpo:
Allah, o Altíssimo, disse: “E, se estiverdes em estado de janabah, purificai-vos completamente.” (Surata 5, Al-Ma’idah: versículo 6), isto é, tomai banho. Allah também disse: “Eles te perguntam acerca da menstruação. Dize: ‘É uma impureza e um estado incômodo’. Portanto, afastai-vos das mulheres durante a menstruação e não vos aproximeis delas até que se purifiquem.” (Surata Al-Baqarah: versículo 222)

A evidência de que, em ambos os versículos, purificar-se significa tomar banho está clara no versículo seguinte: “Ó crentes! Não vos aproximeis da oração enquanto estiverdes embriagados, até saberdes o que dizeis; nem em estado de janabah — salvo quando estiverdes de passagem — até tomardes banho.” (Surata 4, An-Nissa: versículo 43). Com efeito, tomar banho significa lavar todas as partes do corpo.

5. As sunnas do banho

É sunna que toda pessoa que toma banho o faça da maneira como o Mensageiro ﷺ tomava banho. Primeiro:
(1) lavar as duas mãos três vezes;
(2) depois, lavar as partes íntimas;
(3) em seguida, realizar uma ablução completa, como a ablução para a oração. Quando se toma banho usando água de um recipiente pequeno, pode-se deixar a lavagem dos pés para o final do banho.
(4) Depois, derramar água sobre a cabeça três vezes, passando os dedos pelos cabelos para fazer a água chegar às raízes.
(5) Em seguida, derramar água sobre todo o corpo, primeiro do lado direito e depois do lado esquerdo. Ao mesmo tempo, esfregar tanto quanto possível as axilas, o interior das orelhas, o interior do umbigo, entre os dedos dos pés e todo o corpo. Há uma descrição detalhada disso no hadith de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que disse: “Quando o Mensageiro ﷺ tomava banho para se purificar da janabah, começava lavando as mãos; depois, com a mão direita, derramava água sobre a mão esquerda e, com ela, lavava as partes íntimas. Então fazia a ablução como para a oração. Depois, pegava água e introduzia os dedos nas raízes dos cabelos, fazendo a água chegar até elas. Quando se certificava de que a água havia alcançado as raízes dos cabelos, derramava água sobre a cabeça três vezes, enchendo as mãos. Depois, derramava água sobre todo o corpo.” — Al-Bukhari e Muslim.

Em outra narração de Al-Bukhari e Muslim consta: depois, passava as duas mãos entre os cabelos, separando-os; quando percebia que havia molhado o couro cabeludo com água, derramava água sobre a cabeça três vezes. Em outro hadith de Aisha, registrado por Al-Bukhari e Muslim, é dito: quando o Mensageiro ﷺ tomava o banho da janabah, mandava trazer água, derramava-a nas palmas das mãos, depois molhava primeiro o lado direito da cabeça e, em seguida, o lado esquerdo; então passava as duas palmas sobre a cabeça.

Maymunah (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou: “Coloquei água para o banho do Mensageiro ﷺ. Ele derramou água sobre as duas mãos e lavou-as duas ou três vezes. Depois, derramou água com a mão direita sobre a mão esquerda e, com essa água, lavou as partes íntimas. Em seguida, esfregou as mãos com terra, depois bochechou, introduziu água no nariz, lavou o rosto e as mãos, lavou a cabeça três vezes e derramou água sobre todo o corpo. Depois, afastou-se do lugar onde estava de pé e lavou os pés. Então lhe entreguei um pedaço de tecido, mas ele não o aceitou. (Segundo a narração de Al-Bukhari, ele o devolveu.) Em vez disso, começou a sacudir a água das mãos.” — Todas as coletâneas de hadith autênticos.

6. O banho das mulheres

O banho da mulher é igual ao banho do homem. Porém, para a mulher, basta fazer a água chegar às raízes do cabelo trançado. Umm Salamah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que não é necessário desfazê-lo. Uma mulher perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Eu costumo prender o cabelo em uma trança. Devo desfazê-la para o banho da janabah?” O Mensageiro ﷺ respondeu: “Basta que derrames água sobre a cabeça três vezes, enchendo as mãos, e depois derrames água sobre todo o corpo. Com isso, estarás purificada.” — Ahmad, Muslim e At-Tirmidhi.

At-Tirmidhi o considerou bom e autêntico. Foi narrado por Ubayd ibn Umayr — que Allah esteja satisfeito com ele —: Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — soube que Abdullah ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — ordenava às mulheres que desfizessem as tranças durante o banho ritual. Aisha disse: “É de admirar Ibn Umar! Ele ordena às mulheres que desfaçam as tranças durante o banho, mas por que não lhes ordena que raspem os cabelos da cabeça? Eu e o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — tomávamos banho no mesmo recipiente. Não fazíamos nada além de derramar água sobre a cabeça três vezes.” — Ahmad e Muslim.

Quando uma mulher toma banho ritual após a menstruação e o sangramento pós-parto, é recomendável que pegue um pedaço de algodão ou algo semelhante, aplique nele almíscar ou outro perfume e, em seguida, remova com ele os vestígios de sangue. Assim, o local ficará perfumado e o mau odor será eliminado. Foi narrado por Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela —: “Asma, filha de Yazid — que Allah esteja satisfeito com ela —, perguntou ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — sobre o banho ritual após a menstruação. O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: ‘Uma de vocês pegará, durante o banho, a água necessária e folhas de jujubeiro; depois fará a ablução perfeitamente. Em seguida, derramará água sobre a cabeça e a esfregará vigorosamente, para que a água alcance as raízes dos cabelos. Depois, derramará água sobre ela. Então pegará um pedaço de pano embebido em almíscar e, com ele, realizará a purificação.’ Asma perguntou: ‘Como realizarei a purificação com um pano embebido em almíscar?’ Ele disse: ‘Subhanallah! Realiza a purificação com ele!’ Aisha disse: ‘Ela provavelmente estava ocultando o assunto — isto é, fingindo não compreender embora tivesse compreendido. Tu removerás os vestígios de sangue.’ Depois, ela perguntou sobre o banho ritual devido à janabah. O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: ‘Pegarás a água necessária, depois realizarás a purificação perfeitamente; em seguida, derramarás água sobre a cabeça e a esfregarás, para que a água alcance a pele. Depois, derramarás água sobre todo o corpo.’ Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — disse: ‘Como são excelentes as mulheres dos Ansar! A vergonha não as impede de adquirir um conhecimento completo da religião.’ — Todas as coletâneas de hadith autênticos, exceto At-Tirmidhi.

7. Algumas questões relativas ao banho ritual

a. Um único banho ritual será suficiente para a menstruação e a janabah; para a oração de sexta-feira e a oração do Eid; ou para a janabah e a oração de sexta-feira, se houver a intenção de realizar ambos. Isso porque o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Cada pessoa obterá aquilo que intencionou.”

b. Quando se toma banho ritual devido à janabah, mesmo que não se faça a ablução antes dele, o próprio banho servirá como ablução. Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — disse: “O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — não fazia a ablução depois do banho ritual.” Ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Um homem lhe falou: ‘Eu faço a ablução depois do banho ritual.’ Ibn Umar lhe respondeu: ‘Estás exagerando.’” Abu Bakr ibn al-Arabi disse: “Os sábios concordaram que a ablução está incluída no banho ritual. A intenção de purificar-se da janabah também produz a purificação da impureza menor e a remove, pois o impedimento causado pela janabah é muito maior que o impedimento causado pelo hadath (impureza menor). Assim, a intenção de livrar-se da impureza menor fica incluída na intenção de livrar-se da impureza maior, e a intenção relativa à maior é suficiente.”

c. É permitido à pessoa em estado de janabah e à mulher menstruada remover pelos, cortar as unhas e ir ao mercado. Isso não é sequer makruh. Ata disse: “A pessoa em estado de janabah pode depilar-se, cortar as unhas e raspar os cabelos da cabeça. Faça ou não a ablução, não há problema.” — Al-Bukhari.

d. Não há problema em entrar na casa de banho, desde que quem entra evite olhar para as partes íntimas de outra pessoa e que ninguém olhe para as suas partes íntimas. Ahmad disse: “Se sabes que os que estão na casa de banho pública usam um lungi ou um pijama, entra; caso contrário, não entres.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Nenhum homem deve olhar para as partes íntimas de outro homem, e nenhuma mulher deve olhar para as partes íntimas de outra mulher.” Não há impedimento para mencionar o nome de Allah na casa de banho. A lembrança de Allah é uma boa ação em todas as circunstâncias, enquanto não houver uma proibição. O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — lembrava-se sempre de Allah.

e. É permitido secar os membros com um lenço, toalha ou algo semelhante durante a ablução e o banho ritual, tanto no inverno quanto no verão. 6. É permitido ao homem tomar banho com a água restante do banho de uma mulher, e à mulher tomar banho com a água restante do banho de um homem. Do mesmo modo, é permitido ao marido e à esposa tomarem banho juntos usando o mesmo recipiente. Foi narrado por Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele — que uma das esposas do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — tomou banho em um recipiente. Depois, o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — veio para fazer a ablução ou tomar banho usando aquele recipiente. A esposa disse: “Ó Mensageiro de Allah, eu estava em estado de janabah.” O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “A água jamais se torna junub.” — Ahmad, Abu Dawud, An-Nasa’i e At-Tirmidhi.
Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — tomava banho ao mesmo tempo que o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — usando o mesmo recipiente, e um dizia ao outro: “Deixa um pouco de água para mim.”

চ. Não é permitido tomar banho nu em público. É proibido expor qualquer parte da awrah. Não há problema em se cobrir com uma roupa ou algo semelhante. Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela) cobria o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com uma roupa, e ele tomava banho. Contudo, não há problema em tomar banho nu, afastado dos olhares das pessoas. Moisés (que a paz esteja sobre ele) tomou banho nu, conforme foi narrado em Al-Bukhari.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quando Jó (que a paz esteja sobre ele) estava tomando banho nu, de repente caiu sobre ele uma bolsa de moedas de ouro. Jó (que a paz esteja sobre ele) começou a escondê-la em sua roupa. Allah lhe disse: “Ó Jó, acaso não te tornei independente de tudo aquilo que estás vendo?” Jó respondeu: “Ó Allah, por Tua honra, certamente o fizeste; jamais deixo de ser independente por causa de Tuas bênçãos.” — Ahmad, Al-Bukhari e An-Nasa’i.

7. Tayammum

1. Definição de tayammum
O significado linguístico de tayammum é ter intenção ou propósito. O significado técnico de tayammum é ter a intenção de passar terra nas duas mãos e no rosto, com o propósito de tornar válida a oração.

2. A legitimidade do tayammum na Sharia
A necessidade e a legitimidade do tayammum na Sharia estão comprovadas e estabelecidas pelo Alcorão, pela Sunnah e pelo ijma‘ (consenso dos muçulmanos).
Allah, o Altíssimo, diz no Alcorão Sagrado:

وَإِن كُنتم مرضى أَوْ عَلَى سَفَرٍ أَوْ جَاءَ أَحَدٌ مِنْكُم مِنَ الْقَائِطِ أَوْ لَيَسْتُمُ النِّسَاءَ فَلَمْ تَجِدُوا مَاءً فتيمموا سعيدا طيبا فامسحوا بوجوهكم وأيدِيكُمْ ، إِنَّ اللَّهَ كَانَ عَلُوا غَفُورًا .

“Se estiverdes enfermos ou em viagem, ou se algum de vós vier de satisfazer suas necessidades, ou tiverdes tido relações com vossas esposas, e não encontrardes água, buscai então terra pura e passai-a em vossos rostos e mãos. Certamente, Allah é Perdoador, Indulgentíssimo.” (Surata 4, An-Nissá: versículo 43)

Prova da Sunnah ou dos hadiths: Abu Umamah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse:

جَعِلَتِ الْأَرْضِ كُلَّهَا لِي وَلِأُمَّتِي مَسْجِدًا وَطَهُورًا، فَأَيْنَهَا أَدركت رَجُلاً مِنْ أُمَّتِي الصَّلاةُ فعند ظهوره.

«Toda a Terra foi feita para mim e para a minha comunidade como mesquita e meio de purificação. Portanto, sempre que chegar o horário da oração para qualquer pessoa da minha comunidade, onde quer que ela esteja, terá consigo aquilo que a purifica.» — Ahmad.

Ijma‘ (consenso): Os muçulmanos chegaram a um consenso de que, em determinadas situações, o tayammum é permitido pela Sharia como alternativa à ablução e ao banho ritual.

3. Uma particularidade da comunidade de Muhammad

Na verdade, o tayammum é uma característica por meio da qual Allah distinguiu e honrou especialmente esta comunidade. Jābir, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah disse: «Foram-me concedidas cinco coisas que não foram concedidas a ninguém antes de mim: (1) Fui auxiliado pelo temor que as pessoas sentem de mim à distância de um mês. (2) A terra foi feita para mim como mesquita e meio de purificação. Portanto, quando chegar o horário da oração para qualquer pessoa da minha comunidade, que ela reze. (3) Os espólios de guerra foram tornados lícitos para mim, embora não tenham sido lícitos para ninguém antes de mim. (4) Foi-me concedido o direito de intercessão. (5) Antes de mim, cada profeta era enviado apenas ao seu próprio povo; eu, porém, fui enviado a toda a humanidade.» — Bukhari e Muslim.

4. A razão pela qual o tayammum foi instituído na Sharia

‘Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, narrou: «Certo dia, partimos com o Mensageiro de Allah em uma viagem. Em uma região desértica, perdi um colar meu. O Mensageiro de Allah interrompeu a viagem para procurá-lo, e as pessoas (os companheiros) também interromperam a viagem com ele. Contudo, não havia água naquele lugar, nem os companheiros tinham água. Então as pessoas foram até Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, e disseram: “Você não vê o que sua filha, ‘Aisha, fez? Ela perdeu o colar e obrigou todos a interromperem a viagem.” Abu Bakr veio até mim. Naquele momento, o Mensageiro de Allah dormia sobre minha coxa. Abu Bakr repreendeu-me e censurou-me como Allah quis que ele fizesse. Em seguida, começou a cutucar continuamente minha cintura (para que eu me levantasse e partíssemos), mas eu não podia me mover, pois o Mensageiro de Allah dormia sobre minha coxa. Por fim, ele continuou dormindo sem água até amanhecer. Então Allah revelou o versículo que ordenava: “Fazei tayammum.” Usayd ibn Hudayr disse: “Ó descendentes de Abu Bakr! Esta não é a vossa única bênção (há muitas outras bênçãos).” ‘Aisha disse: “Então levantei o camelo sobre o qual estava e encontrei o colar sob ele.”» — Todos os livros de hadith, exceto At-Tirmidhi.

5. As situações em que o tayammum é permitido

O tayammum é permitido no caso de impureza menor, que requer ablução, e no caso de impureza maior, que requer banho ritual. Seja na residência permanente ou em viagem, o tayammum é permitido sempre que se verificar qualquer uma das seguintes situações:

a. Quando não se encontra água, ou quando não se encontra água em quantidade suficiente para alcançar a purificação. ‘Imran ibn Husayn, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «Estávamos em uma viagem com o Mensageiro de Allah. Ele rezou com as pessoas presentes e viu um homem afastado da congregação. Perguntou-lhe: “Por que não te juntaste à oração?” Ele respondeu: “Estou em estado de janābah (impureza maior), mas não há água.” Ele disse: “Usa a terra; isso será suficiente para ti.”» — Bukhari e Muslim. Abu Dharr, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah disse: «Para aquele que não encontra água, a terra é um meio de purificação, mesmo que isso dure dez anos.» — Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i e Ibn Majah. At-Tirmidhi classificou este hadith como autêntico e bom. Contudo, antes de fazer o tayammum, essa pessoa deve procurar saber se há água com a sua caravana, isto é, com os seus companheiros de viagem, e tentar pedi-la. Se não a encontrar com os companheiros, deverá verificar se existe em algum lugar próximo. Quando tiver certeza de que não há água em lugar algum, ou souber que ela está muito distante, não será mais necessário procurá-la.

b. Quando houver no corpo uma ferida ou doença e houver receio de que o uso da água agrave a doença ou atrase a recuperação — seja isso conhecido por experiência ou por informação de um médico confiável. Jābir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «Partimos em uma viagem. Um de nossos companheiros foi ferido por uma pedra, abrindo um ferimento na cabeça. Depois, naquela situação, teve uma polução noturna. Perguntou aos companheiros: “Vocês acham que me é permitido fazer tayammum?” Eles responderam: “Não pensamos que isso te seja permitido. Tu és capaz de usar água.” Então ele tomou banho ritual e morreu. Mais tarde, quando fomos até o Mensageiro de Allah, informaram-no do ocorrido. Ele disse: “Eles o mataram! Por que não perguntaram quando não sabiam? A cura da ignorância é perguntar. Bastava-lhe fazer tayammum, limpar e espremer a ferida com um pano molhado, ou cobrir o ferimento com um pedaço de tecido, passar a mão molhada sobre ele e lavar o restante do corpo.”» — Abu Dawud, Ibn Majah e Ad-Daraqutni.

c. Quando a água estiver extremamente fria e houver forte temor de que seu uso cause dano, será permitido fazer tayammum caso não seja possível aquecê-la, mesmo pagando alguém para isso, nem seja possível entrar numa casa de banho. Há um hadith narrado por Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele: quando foi enviado para a expedição de Dhat al-Salasil, relatou: Certa noite, durante um frio intenso, tive uma emissão seminal durante o sono. Temi que pudesse morrer se tomasse banho ritual. Por isso, fiz tayammum e conduzi meus companheiros na oração do fajr. Depois, quando fui até o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os companheiros informaram-no do ocorrido. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Amr, conduziste teus companheiros na oração estando em estado de impureza?” Respondi: “Lembrei-me da palavra de Allah: ‘Não vos mateis. Certamente, Allah é Misericordioso para convosco.’” (Surata 4, An-Nisā’: versículo 29.) Por isso, fiz tayammum e conduzi-os na oração. Então o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sorriu e nada mais disse. — Ahmad, Abu Dawud, al-Hakim, ad-Daraqutni, Ibn Hibban e al-Bukhari.

d. Mesmo que a água esteja próxima, se houver temor de perder a vida, a honra, os bens ou os companheiros ao tentar obtê-la; ou se houver entre a água e a pessoa interessada um inimigo que possa causar dano, seja ele humano ou outra coisa; ou se a pessoa estiver impossibilitada de usar a água por estar encarcerada; ou ainda se for incapaz de obtê-la por não dispor dos meios necessários, como balde e corda — em todos esses casos, a existência da água equivale à sua inexistência. Do mesmo modo, é permitido fazer tayammum àquele que teme ser vítima de uma falsa acusação e sofrer dano caso tome banho ritual (um exemplo do temor de uma acusação é o de um amigo solteiro que passa a noite como hóspede na casa de seu amigo casado, onde este vive com a família, e fica em estado de impureza devido à emissão seminal. Se tomasse banho ritual, poderiam surgir suspeitas contra ele ou poderiam acusá-lo falsamente).

e. Quando for necessário reservar água para beber, no presente ou no futuro, para si mesmo ou para um companheiro de viagem. Isso se aplica até mesmo se o companheiro de viagem for um cão não acostumado a morder, ou quando for indispensável reservar água para preparar massa de farinha, cozinhar ou remover uma impureza que não possa ser removida por limpeza a seco. Nesse caso, fará tayammum e conservará a água disponível. O imam Ahmad, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que muitos companheiros reservaram água apenas para beber e fizeram tayammum. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Se um viajante entrar em estado de grande impureza (janabah), tiver apenas uma pequena quantidade de água e temer sofrer com a sede, fará tayammum e não tomará banho ritual. — Ad-Daraqutni.

O imam Ibn Taymiyyah disse: Para aquele que, por falta de água, precisa conter a urina ou as fezes, é melhor não contê-las, fazer tayammum e rezar do que contê-las para preservar a ablução.

f. Se, apesar de ser capaz de usar a água, houver o temor de que o tempo da oração termine caso faça a ablução ou tome banho ritual com água, deverá fazer tayammum e rezar nessa situação. Não terá de repetir essa oração.

6. Com que tipo de terra se faz o tayammum?
É válido fazer tayammum com terra pura e com qualquer coisa proveniente da terra, como areia, pedra e cal. Pois Allah, o Altíssimo, disse: “Fazei tayammum com o puro sa‘id.” Os especialistas da língua árabe concordam que sa‘id designa a superfície da terra, seja ela terra propriamente dita ou outra coisa.

7. O método do tayammum
Aquele que faz tayammum deve, antes de tudo, formular a intenção (a intenção é obrigatória no tayammum; isso foi explicado no capítulo sobre a ablução). Depois, mencionará o nome de Allah. Baterá ambas as mãos sobre a terra pura e, com elas, passará as mãos no rosto e nos braços até os cotovelos. Sobre isso, não foi narrado nenhum hadith mais autêntico e claro que o hadith de Ammar, que Allah esteja satisfeito com ele.

Ammar disse: “Fiquei em estado de janabah, isto é, de grande impureza. Depois, não encontrei água. Então rolei sobre a terra e rezei. Em seguida, informei o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre o ocorrido. Ele disse: ‘Bastava-vos fazerdes apenas isto, sem rolar sobre a terra.’ Então o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, bateu as palmas das mãos na terra, soprou nelas (para remover a poeira) e depois passou-as no rosto e nas mãos. — Al-Bukhari e Muslim. Outra versão diz: ‘Basta-te bater as palmas das mãos na terra, soprar nas palmas e, depois, passar ambas no rosto e nas mãos até os cotovelos.’ — Ad-Daraqutni. Este hadith mostra que uma única batida das mãos é suficiente e que, ao passar as mãos, basta passar as palmas. Ao fazer tayammum com terra, é sunnah soprar nas mãos para remover a poeira e não espalhar terra sobre o rosto.”}]}],

8. Que atos se tornam permitidos por meio do tayammum?
O tayammum é o substituto do wudu e do ghusl quando não há água. Portanto, todos os atos que se tornam permitidos por meio do wudu e do ghusl também se tornam permitidos por meio do tayammum, como realizar a oração e tocar o Alcorão, entre outros. A entrada do horário da oração não é uma condição para a validade do tayammum. Aquele que faz tayammum pode realizar, com um único tayammum, quantas orações obrigatórias e voluntárias desejar. As regras do tayammum são exatamente iguais às regras do wudu. Foi narrado por Abu Dharr, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “A terra é um meio de purificação para o muçulmano, mesmo que ele não encontre água durante dez anos. Depois, quando encontrar água, que a faça tocar a pele do seu corpo; pois isso é melhor.” — Ahmad e at-Tirmidhi.

9. Causas que anulam o tayammum
O tayammum é anulado exatamente pelas mesmas causas que anulam o wudu, pois o tayammum ocupa o lugar do wudu. Da mesma forma, o tayammum daquele que o realizou por não encontrar água será anulado assim que encontrar água. E aquele que não era capaz de usar água terá o seu tayammum anulado assim que se tornar capaz de usá-la. Porém, se a água for encontrada depois que a pessoa tiver realizado a oração com tayammum, ou se ela adquirir a capacidade de usar água depois da oração, não deverá repetir a oração, mesmo que ainda reste tempo para a oração. Foi narrado por Abu Sa’id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele: “Dois homens partiram em viagem. De repente, chegou o horário da oração, mas eles não tinham água. Então fizeram tayammum com terra pura e realizaram a oração. Depois, ainda dentro do horário, encontraram água. Um deles fez wudu e repetiu a oração, enquanto o outro não a repetiu. Em seguida, ambos foram até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e relataram o ocorrido. O Mensageiro de Allah disse àquele que não havia repetido o wudu e a oração: ‘Você seguiu corretamente a sunnah, e a sua oração é suficiente para você.’ E disse àquele que havia repetido a oração e feito wudu: ‘Você receberá uma recompensa em dobro.’” — Abu Dawud e an-Nasa’i.
Contudo, se a pessoa encontrar água e se tornar capaz de usá-la depois de iniciar a oração, mas antes de concluí-la, o seu wudu será anulado e ela deverá purificar-se com água. A prova disso é o hadith anteriormente mencionado, narrado por Abu Dharr. E quando uma pessoa em estado de janabah, isto é, em grande impureza, ou uma mulher menstruada fizer tayammum e realizar a oração por alguma das causas que tornam o tayammum permitido, não deverá repetir a oração. Porém, quando se tornar capaz de usar água, será obrigatório que faça o ghusl. Isso porque foi relatado no hadith narrado por ‘Imran, que Allah esteja satisfeito com ele: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conduziu a oração. Quando terminou, viu um homem sentado separado, sem realizar a oração com a congregação. Disse-lhe: ‘Ó fulano, por que você não realizou a oração com a congregação?’ Ele respondeu: ‘A grande impureza me acometeu, e não encontrei água.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Você deveria usar terra; isso é suficiente para você.’ Depois, ‘Imran, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: ‘Quando foi encontrada água, o Mensageiro de Allah deu ao homem em estado de janabah um recipiente cheio de água e disse: “Vá e derrame-a sobre o seu corpo.”’” — al-Bukhari.

8. Passar a mão molhada sobre a atadura ou o curativo

a. A permissibilidade de passar a mão molhada sobre a atadura ou o curativo
É permitido passar a mão molhada sobre a atadura, o curativo ou qualquer objeto semelhante colocado sobre uma parte enferma do corpo. Há vários hadiths sobre esse assunto. Embora esses hadiths sejam fracos, cada um deles reforça e fortalece os demais, tornando-os aptos a servir como prova da permissibilidade. Entre eles, destaca-se o hadith narrado por Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse:

“Certo homem foi ferido pelo golpe de uma pedra, e sua cabeça foi rachada. Depois, teve um sonho molhado. Ele perguntou aos seus companheiros: ‘Vocês acham que tenho permissão para fazer tayammum?’ Eles responderam: ‘Não vemos nenhuma concessão que permita a você fazer tayammum. Você é capaz de usar água.’ Então o homem fez ghusl e morreu logo em seguida. Mais tarde, quando chegamos ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e lhe relatamos o ocorrido, ele disse: ‘Eles o mataram; que Allah os mate! Por que não perguntaram quando não sabiam? A cura da ignorância é perguntar. Teria sido suficiente para ele fazer tayammum, passar a mão molhada sobre o ferimento com um pano molhado ou amarrar uma atadura sobre o ferimento e passar a mão molhada sobre ela; depois, deveria lavar o restante do corpo.’ –

Abu Dawud, Ibn Majah, ad-Daraqutni. Foi narrado com uma cadeia autêntica de Ibn Umar. Ele passou a mão molhada sobre a atadura e o curativo.

b. Regras do passar a mão molhada

A regra para passar a mão molhada sobre a atadura ou o curativo é que, no wudu e no ghusl, em vez de lavar ou passar a mão molhada sobre o membro enfermo, é obrigatório passar a mão molhada sobre a atadura ou o curativo.

c. Quando é obrigatório fazer o mas’h — Se houver uma ferida ou fratura em alguma parte do corpo e a pessoa desejar fazer a ablução ou o ghusl, será obrigatório lavar os membros. Se for necessário aquecer a água para isso, deverá aquecê-la. Porém, se houver receio de dano ao lavar o membro enfermo — por exemplo, a ferida poder abrir e surgir uma doença, a dor existente poder aumentar ou a cura da doença existente poder atrasar — então a obrigação de lavar será substituída pelo mas’h sobre o membro enfermo. Se houver receio de dano até mesmo ao fazer o mas’h, será obrigatório colocar um curativo sobre a ferida ou uma bandagem sobre a fratura. O curativo ou a bandagem deve ser colocado de modo que não ultrapasse os limites do membro enfermo, exceto na medida necessária para prendê-lo. Depois, deverá fazer o mas’h sobre todo o curativo ou bandagem, de modo que nenhum ponto fique sem ser coberto. Não é condição que o corpo esteja em estado de pureza antes de colocar o curativo ou a bandagem, e não há prazo determinado para isso. Enquanto durar a justificativa, deverá continuar fazendo o mas’h sobre o curativo ou a bandagem tanto na ablução quanto no ghusl.

d. Motivos que anulam o mas’h — O mas’h será anulado se o curativo ou a bandagem for removido porque a doença no local correspondente foi curada, se cair por si só ou mesmo que a bandagem não seja retirada, simplesmente porque a doença foi curada.

Taharat (purificação ritual)

9. Como deve rezar aquele que não encontra água nem terra para se purificar?

Quando tanto a água quanto a terra estiverem fora de seu alcance e de sua disponibilidade, deverá rezar sem ablução e sem tayammum. Essa oração não precisará ser repetida em nenhuma circunstância. Muslim narrou, por intermédio de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que ela havia tomado emprestado um colar de Asma, mas o colar se perdeu. Então o Mensageiro de Allah enviou alguns Companheiros para procurá-lo. Quando chegou o horário da oração, eles rezaram sem ablução. Depois, foram até o Mensageiro de Allah e expuseram-lhe o ocorrido. Em seguida, foi revelado o versículo sobre o tayammum. Umaid ibn Hudhayr disse: “Ó Aisha! Que Allah a recompense com o bem. Sempre que alguma calamidade lhe ocorreu, Allah providenciou uma forma de livrá-la dela e, por meio disso, trouxe benefício aos muçulmanos.” Esses Companheiros rezaram mesmo quando estavam privados de todos os meios de obter a purificação. Quando apresentaram o assunto ao Mensageiro de Allah, ele não demonstrou irritação nem desagrado, e também não lhes ordenou que repetissem a oração. O Imam al-Nawawi disse: “Esta é a prova mais decisiva sobre o assunto.”

10. Hayez (menstruação)

1. Definição de hayez
Em árabe, o sentido literal de hayez é fluxo ou corrimento. O sangue que sai pela vagina da mulher em estado saudável, sem parto nem ferimento, é o hayez.

2. Faixa etária para o hayez
Segundo a maioria dos sábios, o hayez não começa antes de as meninas completarem nove anos de idade [isto é, anos lunares, que têm 354 dias].
Se houver sangramento antes de atingir essa idade, não se trata de menstruação, mas de corrimento causado por doença e anormal. Isso pode prolongar-se até o fim da vida. Não há prova de que exista uma idade final determinada para isso. Portanto, quando uma mulher idosa observar sangramento, ele será considerado menstruação.

3. A cor do sangue menstrual
A cor da menstruação deve ser uma das seguintes:

a. Preta: pois foi narrado no hadith de Fátima, filha de Abu Hubaysh: “Fátima, filha de Abu Hubaysh, sofria de istihada (corrimento causado por doença). O Mensageiro de Allah ﷺ disse-lhe: ‘Se for sangue menstrual, será preto e reconhecido pelas mulheres’ [outra possível interpretação é que terá um odor específico].

Quando isso ocorrer, interrompe a oração; mas, se for de outro tipo, continua normalmente com a ablução e a oração, pois se trata de uma doença.” — Abu Dawud, An-Nasa’i, Ibn Hibban e Ad-Daraqutni.
b. Vermelha: pois essa é a cor original do sangue.
c. Amarela: é um tipo de líquido que se parece com pus, tendo uma coloração amarela na parte superior.
d. Acinzentada: uma cor entre o branco e o preto, semelhante à água suja. Marjana, a serva liberta de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), disse: “As mulheres costumavam enviar a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) o algodão manchado de amarelo que introduziam na vagina para verificar se ainda restavam sinais de menstruação. Aisha dizia: ‘Não se apressem [para rezar] até verem algodão branco e limpo, livre da coloração amarela’.” — Malik, Muhammad ibn al-Hasan e Al-Bukhari.

Se a coloração amarela ou acinzentada aparecer durante o período menstrual, será considerada menstruação; caso contrário, não será considerada menstruação. Umm ‘Atiyyah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Depois de alcançar a pureza, não considerávamos relevante qualquer secreção amarela ou acinzentada.” — Abu Dawud e Al-Bukhari. Na versão de Al-Bukhari, não aparecem as palavras “depois de alcançar a pureza”.

4. A duração da menstruação
[Os sábios divergiram quanto à duração da menstruação. Alguns dizem que não há uma duração mínima. Outros dizem que a duração mínima é de um dia e uma noite. Outros ainda dizem que é de três dias. Quanto à duração máxima, alguns afirmam que é de dez dias, enquanto outros dizem que é de quinze dias].

A menstruação não tem duração máxima nem mínima. Não há prova autêntica que determine sua duração. Contudo, se uma mulher tiver um ciclo habitual definido, poderá agir de acordo com ele. No hadith de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), é narrado que ela perguntou ao Mensageiro de Allah ﷺ sobre uma mulher que sofria de sangramento contínuo. O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Que ela observe quantos dias do mês costuma menstruar. Durante esses dias, deve deixar de rezar; depois, deve tomar um banho ritual e amarrar um pano na vagina. Então, deve rezar.” — Os cinco livros de hadith, exceto At-Tirmidhi.

Se ela não tiver um ciclo definido, então o início e o fim serão determinados pelas características do sangue. A prova disso é o hadith anteriormente mencionado de Fátima, filha de Abu Hubaysh. Nesse hadith, o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Se for sangue menstrual, será de uma cor preta bem conhecida.” Esse hadith prova que o sangue menstrual é diferente dos demais sangues e é reconhecível pelas mulheres.

5. A duração do período de pureza entre duas menstruações
Os sábios concordam que não há um limite específico para o período de pureza entre duas menstruações. Há divergência quanto à sua duração mínima. Alguns estimaram-na em quinze dias; outros, em treze dias. O fato é que não há prova incontestável que determine a duração mínima e possa servir como evidência.

11. Nifas (sangramento pós-parto)

a. Definição de nifas
Nifas é o sangue que sai pelo órgão sexual da mulher após o parto, ainda que seja decorrente de um aborto espontâneo.

b. Duração do nifas
O nifas não possui uma duração mínima. Pode durar até mesmo apenas um instante. Se, após o parto, o sangramento de uma mulher cessar pouco depois de começar, ou se ela der à luz sem qualquer sangramento e o nifas terminar, deverá cumprir as orações, os jejuns e os demais atos de adoração, assim como fazem as mulheres que alcançaram a pureza. A duração máxima do nifas é de quarenta dias. É isso que se compreende do hadith narrado por Umm Salama:

Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Durante a época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), as mulheres em estado de nifas permaneciam quarenta dias sem realizar os atos de adoração (isto é, não faziam a oração, o jejum etc.). — Registrado em todas as coletâneas de hadith, exceto a de An-Nasa’i. Após citar este hadith, At-Tirmidhi disse: Todos os sábios entre os Companheiros, os tabi‘un e os que vieram depois deles concordam que as mulheres em estado de nifas devem abster-se da oração durante quarenta dias. Contudo, se alcançarem a pureza antes disso, devem tomar banho e cumprir a oração e o jejum. Se houver sangramento após quarenta dias, segundo a maioria dos sábios, não é permitido deixar de realizar a oração.

12. O que é proibido às mulheres menstruadas e às mulheres em estado de nifas

Tudo o que foi anteriormente mencionado como proibido para o junub (a pessoa em estado de impureza decorrente da ejaculação) também é proibido para a mulher menstruada e para a mulher em estado de nifas. Além disso, os três são denominados pessoas em estado de grande impureza. Para a mulher menstruada e para a mulher em estado de nifas, além do que já foi mencionado como proibido, também são proibidos os seguintes atos:

1. O jejum
Não é permitido à mulher menstruada nem à mulher em estado de nifas jejuar. Se ela jejuar, seu jejum será considerado inválido. Os jejuns do Ramadã que forem deixados de cumprir por causa da menstruação ou do sangramento pós-parto devem ser compensados após o Ramadã. A oração, porém, não precisa ser compensada. Essa concessão foi dada para aliviar das mulheres uma dificuldade excessiva, pois a oração deve ser realizada frequentemente, enquanto o jejum não precisa ser cumprido com tanta frequência. Essa informação é conhecida a partir do hadith de Abu Sa‘id Al-Khudri:

Abu Sa‘id Al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), enquanto se dirigia ao local da oração do Eid para a oração do Eid Al-Fitr ou do Eid Al-Adha, passou por algumas mulheres e disse: “Ó mulheres, dai caridade, pois vi que a maioria de vós será habitante do Inferno.” Elas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, qual é a razão disso?” O Mensageiro de Allah disse: “Vós amaldiçoais excessivamente e desprezais os parentes. Não vi ninguém que, apesar de incompleta em inteligência e prática religiosa, consiga arrebatar tanto o coração até mesmo de um homem extremamente determinado quanto vós.” As mulheres disseram: “Onde está a nossa deficiência em inteligência e prática religiosa?” Ele disse: “O testemunho de uma mulher não equivale à metade do testemunho de um homem?” Elas responderam: “Sim.” Ele disse: “Essa é a deficiência da inteligência. Quando uma mulher está menstruada, não deixa de realizar a oração e o jejum?” Elas responderam: “Sim.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Essa é a deficiência na prática religiosa.” — Al-Bukhari e Muslim.

Mu‘adha disse: Perguntei a Aisha: por que a mulher menstruada deve compensar os jejuns, mas não deve compensar as orações? Aisha respondeu: Durante a vida do Mensageiro, quando ficávamos menstruadas, éramos instruídas a compensar os jejuns, mas não éramos instruídas a compensar as orações. — Todas as coletâneas de hadith autênticos.

2. Relações sexuais durante a menstruação e o puerpério
Por determinação categórica do Alcorão e da Sunnah, isso é proibido por consenso dos muçulmanos. Portanto, não é lícito ter relações sexuais com uma mulher menstruada ou com uma mulher que esteja sofrendo sangramento pós-parto até que ela se purifique. Foi narrado no hadith de Anas: Quando as esposas dos judeus menstruavam, eles não comiam nem bebiam com elas, nem mantinham relações sexuais com elas. Os Companheiros perguntaram ao Mensageiro sobre isso, e Allah revelou o versículo 222 da surata al-Baqarah: “Eles te perguntam sobre a menstruação. Dize: é uma perturbação. Afastai-vos, pois, das mulheres durante a menstruação e não vos aproximeis delas até que estejam purificadas. Quando estiverem purificadas, aproximai-vos delas como Allah vos ordenou. Certamente, Allah ama os que se arrependem e ama os que se purificam.” Então o Mensageiro disse: “Podeis fazer tudo, exceto ter relações sexuais.” — Todas as coletâneas de hadith autênticos, com exceção de Bukhari.

O Imam al-Nawawi disse: Se um muçulmano acreditar que é lícito ter relações sexuais com uma mulher menstruada em sua vagina, tornar-se-á um incrédulo e apóstata. Mas, se tiver relações sem acreditar que isso é lícito, por engano, por desconhecer sua proibição ou por não saber que ela estava menstruada, não cometerá pecado nem terá de oferecer expiação. Se, porém, mantiver relações voluntariamente e de propósito, sabendo que ela estava menstruada e sabendo que isso é proibido, será considerado culpado de um pecado grave e deverá arrepender-se. Há duas opiniões sobre se a expiação é obrigatória. A opinião mais correta é que ela não é obrigatória. Ele também disse: O segundo tipo é ter relações acima do umbigo e abaixo dos joelhos. Isso é lícito por consenso. O terceiro tipo é ter relações entre o umbigo e os joelhos, em qualquer parte, exceto na vagina e no ânus. A maioria dos sábios considera isso proibido. Segundo al-Nawawi, porém, é makruh, mas lícito, pois essa é a opinião mais forte à luz das evidências.

A evidência que ele mencionou é o relato das esposas do Mensageiro: Quando o Mensageiro desejava algo de uma esposa menstruada, primeiro colocava alguma coisa sobre sua vagina e então satisfazia seu desejo. — Abu Dawud. Também foi narrado por Masruq ibn al-Ajda‘, que disse: Perguntei a Aisha: Quando a esposa está menstruada, quanto o marido pode esperar dela? Ela respondeu: Tudo, exceto a vagina. — A obra histórica de Bukhari.

13. Istihada (sangramento causado por doença)

1. Definição: Istihada é o sangramento contínuo, irregular e fora do período habitual.
2. Situações da mustahada (mulher que sofre de sangramento causado por doença)

A mustahada pode encontrar-se em três situações:

a. Antes da istihada, ela conhecia uma duração determinada para sua menstruação. Nesse caso, essa duração conhecida será considerada o período de sua menstruação. O restante do tempo será considerado istihada. Isso porque é mencionado no hadith de Umm Salama que ela perguntou ao Mensageiro sobre uma mulher que sofria de sangramento irregular. Ele respondeu: Ela deve contar quantos dias costumava menstruar e calcular quantos dias isso representa no mês; depois, deve tomar banho ritual. Deve colocar um pano na vagina e então rezar. — Narrado em cinco coletâneas de hadith autênticos, com exceção das de Malik, al-Shafi‘i e al-Tirmidhi. Al-Khattabi disse: Essa é a regra aplicável à mulher cujo número de dias de menstruação durante a saúde era conhecido antes do surgimento da doença. Depois, a doença apareceu e o sangramento tornou-se contínuo. Por isso, o Mensageiro ordenou-lhe que deixasse de rezar durante o mesmo número de dias em que costumava menstruar quando estava saudável. Depois desses dias, ela tomaria um banho ritual; então seria considerada purificada.

b. Ela sofre de sangramento contínuo, mas o número de dias de sua menstruação anterior não era determinado. Isso ocorre porque ela se esqueceu de seu ciclo habitual, ou porque entrou na puberdade já em estado de istihada. Assim, não consegue distinguir entre o sangue menstrual e o sangue da istihada. Nessa situação, deverá considerar sua menstruação como sendo de seis ou sete dias, que é o costume da maioria das mulheres. Conforme foi narrado no hadith de Hamna bint Jahsh, ela disse: “Eu sofria de um sangramento excessivo de istihada. Por isso, fui ao Mensageiro de Allah para obter dele uma orientação e informá-lo sobre minha situação. Encontrei-o na casa de minha irmã, Zaynab bint Jahsh. Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, sofro de um sangramento excessivo de istihada. Qual é a sua opinião sobre isso? Por causa disso, deixei de rezar e jejuar.’ Ele disse: ‘Vou providenciar para você um pedaço de algodão; com ele, o sangue cessará.’ Hamna disse: ‘O fluxo de sangue é mais intenso do que isso.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Então, amarre um pedaço de pano no local do sangramento, como uma rédea.’ Hamna disse: ‘O fluxo de sangue é ainda mais intenso do que isso.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Vou ordenar-lhe duas coisas; qualquer uma delas será suficiente para você. Se for capaz de fazer ambas, você é quem sabe melhor.’ O Mensageiro de Allah disse-lhe: ‘Isso é um golpe de Satanás. Portanto, considere seis ou sete dias como seu período menstrual e confie o número exato ao conhecimento de Allah. Depois, tome um banho ritual. Quando perceber que está purificada e limpa, reze e jejue durante vinte e três ou vinte e quatro dias. Isso será suficiente para você. Faça isso todos os meses, como as mulheres menstruam e se purificam conforme a duração de sua menstruação e de sua pureza. Se puder atrasar o meio-dia e antecipar a oração da tarde, tome um banho ritual e faça as orações do meio-dia e da tarde juntas. Depois, atrase a oração do pôr do sol e antecipe a oração noturna, tome um banho ritual e faça as orações do pôr do sol e da noite juntas; e tome um banho ritual para a oração da alvorada e faça-a. Continue assim, rezando e jejuando, se for capaz de fazê-lo.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Entre as duas opções, esta é a que prefiro.’” — Ahmad, Abu Dawud e At-Tirmidhi. At-Tirmidhi classificou-o como bom e autêntico. Al-Bukhari também o classificou como bom. Ahmad ibn Hanbal igualmente o considerou um hadith bom e autêntico. Al-Khattabi disse, ao explicar este hadith: “Essa mulher estava menstruando pela primeira vez; nenhum período menstrual seu havia transcorrido anteriormente, e ela também não era capaz de reconhecer o sangue menstrual. Como o fluxo de sangue era contínuo, o sangramento ocorria durante a maior parte do tempo. Por isso, o Mensageiro de Allah avaliou o caso dela à luz do costume predominante e da condição que ocorre com a maioria das mulheres durante a maior parte do tempo. Da mesma forma, determinou, à luz do costume comum das mulheres e do que ocorre na maioria dos casos, que ela menstruasse uma vez por mês.” As palavras do Mensageiro de Allah — “como as mulheres menstruam e se purificam conforme a duração de sua menstruação e de sua pureza” — estabelecem precisamente esse princípio. Al-Khattabi disse: “Este é o princípio fundamental para avaliar a situação de uma mulher à luz da situação de outra em questões como menstruação, gravidez, chegada à maturidade e outras semelhantes.”

3. As regras relativas à istihada

As regras da Shariah específicas para a mulher afetada pela istihada são, em resumo, as seguintes:

a. Ela não precisa tomar banho ritual para nenhuma oração nem para nenhum horário de oração. Deverá tomar banho ritual apenas uma vez, quando a menstruação cessar. Essa é a opinião da maioria dos sábios antigos e posteriores.

b. Ela deverá renovar a ablução para cada oração. Segundo uma narração de Al-Bukhari, o Mensageiro de Allah disse: “Faça a ablução para cada oração.” De acordo com o Imam Malik, é recomendável que ela faça a ablução para cada oração. A ablução só será obrigatória quando ocorrer uma nova causa que a invalide.

c. Antes da ablução, ela deverá lavar o órgão genital. Para impedir e reduzir a saída da impureza, deverá introduzir no órgão genital um pedaço de algodão ou pano. Se isso não for suficiente para interrompê-la, deverá também amarrá-lo sobre o órgão genital como uma rédea e colocar uma faixa de pano. A adoção dessas medidas não é obrigatória; elas são recomendáveis.

d. Segundo a maioria dos sábios, ela não pode fazer a ablução antes do início do horário da oração. Isso porque alcançar a pureza é uma necessidade; portanto, não é permitido fazê-lo antes de chegar o momento da necessidade.

e. Segundo a maioria dos sábios, é permitido ao marido manter relações sexuais com ela durante o sangramento da istihada, pois não há nenhuma prova de que isso seja proibido. Ibn Abbas disse: “Quando a mulher afetada pela istihada reza, seu marido também pode aproximar-se dela, pois a oração é ainda mais importante.” Este hadith foi narrado por Al-Bukhari. Ou seja, se ela pode rezar enquanto o sangramento continua — sendo a oração o ato para o qual as exigências de pureza são mais rigorosas —, então as relações sexuais também serão permitidas.

Foi narrado por Ikrimah bin Hamna: “Ela sofria de istihada. Nesse estado, seu marido mantinha relações sexuais com ela.” — Abu Dawud e al-Bayhaqi. An-Nawawi disse: “A cadeia de transmissão deste hadith é boa.”

c. A mulher que sofre de istihada está, em geral, sujeita às mesmas regras da mulher ritualmente pura. Ela pode realizar a oração, jejuar, praticar o i‘tikaf, recitar o Alcorão, tocar e transportar o Alcorão e praticar todos os atos de adoração. Há consenso entre os muçulmanos sobre isso [o sangue da menstruação é sangue impuro. Já o sangue da istihada é sangue natural. Por isso, no primeiro caso, a adoração da mulher é proibida, mas no segundo não é].

Capítulo Dois: Salat (oração)

Salat (oração)

A salat é um ato de adoração. Ela é realizada mediante a pronúncia de certas palavras e fórmulas específicas e a execução de determinadas ações. Essa adoração deve ser iniciada dizendo “Allahu Akbar” e concluída dizendo “As-salamu alaikum wa rahmatullah”.

1. A importância e o mérito da salat no Islã

Em comparação com todos os demais atos de adoração, a salat tem a maior importância no Islã. Seu mérito é o mais elevado. A salat é o pilar da religião do Islã. Sem esse pilar, a religião não pode permanecer de pé. O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse:

رأس الأمر الإسلام، وعمودة الصلاة ذروة سَنَامِهِ الْعِمَادُ فِي سَبِيلِ اللَّهِ .

Significado: “A base de toda a questão é o Islã. O pilar do Islã é a oração, e seu ápice é o jihad no caminho de Allah.” — Ahmad, Tirmidhi.

Entre todos os atos formais de adoração, Allah tornou a oração obrigatória em primeiro lugar. Na noite do Mi‘raj, Allah dirigiu-se diretamente ao Seu Mensageiro, sem qualquer intermediário, e tornou a oração obrigatória. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que disse: Na noite do Mi‘raj, inicialmente foram tornadas obrigatórias cinquenta orações para o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois, foram reduzidas e fixadas em cinco orações, e foi dito: “Ó Muhammad, Minha palavra não sofre alteração; essas cinco orações serão, para ti, equivalentes a cinquenta.” Este hadith foi narrado pelo Imã Ahmad e por An-Nasa’i. Tirmidhi disse que este é um hadith autêntico. No Dia da Ressurreição, a primeira prestação de contas será sobre a oração. Abdullah ibn Qurṭ narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No Dia da Ressurreição, a primeira coisa pela qual o servo será chamado a prestar contas será a oração. Se sua oração for encontrada correta e íntegra, todas as suas ações serão consideradas corretas e íntegras. Mas, se houver corrupção em sua oração, todas as suas ações serão consideradas incorretas e arruinadas.” Este hadith foi narrado por At-Tabarani.

O último testamento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), antes de partir deste mundo, dizia respeito à oração. No momento de dar seu último suspiro, ele repetia: “A oração, a oração, e aqueles que estão sob vossa autoridade…

A última coisa do Islã que desaparecerá da Terra será a oração. Quando a oração desaparecer, o Islã será apagado da Terra. Foi narrado por Ibn Hibban que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Continuareis a desfazer os laços do Islã, um após o outro. Sempre que um laço for desfeito, o seguinte será desfeito. O primeiro a ser desfeito será o sistema de governo islâmico, e o último será a oração.”

No Alcorão Sagrado, Allah mencionou repetidamente a oração. Às vezes, associou o dhikr à oração:

إن الصلوة تَنْهَى عَنِ الْفَحْقَاءِ وَالْمُنْكَرِ، وَلَذِكْرُ اللَّهِ اكْبَرُ

Significado: “Certamente, a oração impede a obscenidade e as más ações, e a recordação de Allah (a oração) é o que há de supremo.” (Surata Al-‘Ankabut: versículo 45)

من افلح من تزكى وذكر اسْمَ رَبِّهِ فصلى.

Significado: Bem-sucedida é a pessoa que buscou a purificação e o aperfeiçoamento espiritual, recordou seu Senhor e realizou a salat. (Surata al-A‘la: versículos 14–15)

واتي الصلاة للتحرى .

Significado: Estabelece a salat com o propósito de Me recordar. (Surata Taha: versículo 14)

Em algumas ocasiões, Allah mencionou a zakat associada à salat. Disse:

وَأَقِيمُوا الصَّلاةَ وَآتُوا الزَّكَاةَ .

Significado: Estabelecei a salat e pagai a zakat. (Surata 2, al-Baqara: versículo 110)

Em algumas ocasiões, associou a salat à paciência. Disse:

وَاسْتَعِينُوا بالصبر والصَّلاةِ .

Significado: E buscai ajuda com a paciência e a oração. (Al-Baqarah: versículo 45)

Por vezes, Ele mencionou junto à oração o sacrifício e a oferenda. Disse:

فصل لربك وانحر.

Significado: Portanto, realiza a oração em intenção do teu Senhor e oferece o sacrifício. (Surata Al-Kawthar: versículo 2)

قُلْ إِن صَلَاتِي وَنُسُكِي وَمَحْيَايَ وَمَمَاتِي لِلَّهِ رَبِّ الْعَلَمِينَ، لَا غَرِيكَ لَهُ وَبِذَلِكَ أُمِرْتُ وَأَنَا أول المسلمين .

Significado: Dize: «Em verdade, a minha oração, o meu sacrifício, a minha vida e a minha morte pertencem exclusivamente a Allah, Senhor dos mundos; Ele não tem parceiro algum. Fui o primeiro a submeter-me a Ele.» (Surata 6, Al-An’am: versículo 163)

Ao mencionar os meios para o bem-estar e o sucesso na vida humana, Allah, o Altíssimo, por vezes mencionou a oração tanto no início quanto no final. Assim, na Surata Al-Mu’minun, Ele diz nos versículos 1 e 2: «Certamente prosperaram os crentes, aqueles que são humildes em suas orações.» Depois de mencionar algumas outras qualidades deles no meio, conclui essa declaração, nos versículos 9 a 11, da seguinte forma: «E aqueles que guardam suas orações. Estes são, em verdade, os herdeiros do Firdaus, onde permanecerão eternamente.»

Esteja a pessoa residente ou em viagem, em tempo de paz ou em tempo de temor, o Islã ordenou que se preserve a oração e se tenha zelo por ela em todas as circunstâncias. Allah, o Altíssimo, diz:

حفِظُوا عَلَى الصَّلَوسِ وَالصَّلوة الوسطى ق وَقَوْمُوا لِلَّهِ فَيَتَى فَإِن خِفْتُمْ فَرِجَالاً أَوْ رَكْبَانًا جَ فَإِذَا اسنتر فَاذْكُرُوا اللهَ كَمَا عَلَيْكُمْ مَا لَمْ تَكُونُوا تَعْلَمُونَ

Significado: “Guardai cuidadosamente as orações, especialmente a oração intermediária, e levantai-vos humildemente (na oração) para Allah. Se temerdes algo, então realizai a oração caminhando ou montados. Porém, quando estiverdes seguros, recordai Allah (isto é, realizai a oração) da maneira como Ele vos ensinou, e que antes de Ele vos ensinar não conhecíeis.” (Surata 2, Al-Baqara: versículos 238–239)

A maneira de realizar a oração durante uma viagem, em estado de guerra e em estado de segurança também foi claramente explicada no Alcorão. Allah, o Altíssimo, diz:

وَإِذَا ضَرَبْتُمْ فِي الْأَرْضِ فَلَيْسَ عَلَيْكُم جناح أن تَقْصُرُوا من الصلوةِ إِنْ خِفْتُمْ أَن يُفْتِنَكُمُ الَّذِينَ كَفَرُوا ، إِنَّ الْكَفِرِينَ كَانُوا لَكُمْ عَدُوٌّ مُبِينًا وَإِذَا كُنْتَ فِيهِمْ فَأَقَمْتَ لَهُمُ الصَّلوةَ فَلْتَقَرْ طَائِفَةٌ ينهم معكَ وَلْيَأْخُذُوا أَسْلِحَتَهُ لا فَإِذَ

ا سَجَدُوا فَلْيَكُونُوا مِن وَرَائِكُمْ من وَلَيَأْتِ طَائِفَةٌ أخرى لم يُصَلُّوْا فَلْيَصَلُّوا مَعَكَ وَلَيَ أَعْدُوا حِلْ رَهُمْ وَأَسْلِحَتَهُمْ ، وَ الَّذِينَ كَفَرُوا لَوْ تَقْتُلُونَ عَنْ أَسْلِحَتَكُمْ وامتعتكم فيميلون عليكم ميلة واحِدَةً ، وَلَا جُنَاحَ عَلَيْكُمْ إِن كَانَ بِكَر

أَذًى من مطر أو كنتم مرضى أن تَفَعُوا أَسْلِحَتِكُمْ وَعَدُوا مِنْ رَكُمْ ، إِنَّ اللَّهَ أَعَنْ لِلْكَفِرِينَ عَذَابًا مُّهِينَانَ فَإِذَا قَضَيْتُمُ الصَّلوةَ فاذْكُرُوا اللَّهَ فِيهَا وَقُعُودًا وَعَلَى جُنُوبِكُمْ، فَإِذَا اطمأننتى فَأَقِيمُوا الصلوة : إِن الصَّلوةَ كَانَتْ عَلَى

المؤمنين كتبا موقوتا .

Significado: “Quando estiverdes viajando pelo país, se temerdes que os kafirs possam causar-vos fitna, não haverá culpa em encurtardes a oração (qasr). Os kafirs são, evidentemente, vossos inimigos. E quando estiveres entre eles e realizares a oração com eles, que um grupo deles se ponha de pé contigo, mantendo-se armado. Depois que concluírem a prostração, que se posicionem atrás de vós; e que aqueles que não participaram inicialmente da oração convosco venham e participem dela. Que eles também permaneçam vigilantes e armados. Os kafirs desejam que fiqueis desatentos às vossas armas e aos vossos pertences, para que possam lançar-se de uma só vez contra vós. Se sofrerdes por causa da chuva ou estiverdes enfermos, não haverá culpa em depordes as armas; contudo, deveis manter a vigilância. Allah preparou para os kafirs um castigo humilhante. Depois, quando concluirdes a oração, recordai Allah em todas as situações: de pé, sentados e deitados. Quando estiverdes seguros, realizai a oração regularmente. Em verdade, a oração em horários determinados é uma obrigação para os crentes.” (Surata 4, An-Nisa: versículos 101–103)

Allah, o Altíssimo, repreendeu severamente aqueles que são negligentes na salat, não a preservam e a desperdiçam, e mencionou seu mau destino. Ele diz:

فَخَلَفَ مِن بَعْدِهِمْ خَلْفٌ أَضَاعُوا الصَّلوةَ وَاتَّبَعُوا الثَّمَوتِ فَسَوْفَ يَلْقَوْنَ عَيًّا

Significado: “Depois deles vieram sucessores indignos, que negligenciaram a salat e seguiram suas paixões e desejos. Em breve testemunharão a punição por suas más ações.”
(Surata 19, Maryam: versículo 59)

Allah, o Altíssimo, também diz:

فويل للمصلين، الَّذِينَ هُمْ عَنْ مَلَاتِهِمْ سَامُونَ .

Significado: “Ai, pois, dos que realizam a salat, mas são negligentes quanto à sua salat.” (Surata 107, Al-Ma’un: versículos 4–5)

A salat está entre os assuntos de máxima importância do Islam. Para isso, é necessária uma orientação especial. Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, suplicou a Allah que fizesse dele e de seus filhos pessoas que estabelecessem a salat:

ربِّ اجْعَلْنِي مُغير الصلوةِ وَمِنْ ذُرِّيَّتِي رَبَّنَا وَتَقَبَّلْ دُعَاءِ

Significado: Senhor! Fazei de mim e também de meus descendentes pessoas que estabeleçam a oração. Senhor! Aceitai minha súplica. (Surata 14, Ibrahim: versículo 40)

2. Qual é o veredito sobre quem abandona a oração?

O consenso da Ummah muçulmana é que abandonar a oração significa rejeitá-la. E rejeitar a oração é incredulidade e afastamento da comunidade islâmica. Contudo, se uma pessoa crente, apesar de manter firme convicção de que a oração é obrigatória, for obrigada a abandoná-la devido a uma ‘desculpa’ legítima, o caso é diferente.

Porém, se alguém abandonar a oração por preguiça ou sob o pretexto de estar ocupado, isso não será considerado uma ‘desculpa’ legítima pela Sharia. Existem muitos hadiths que declaram claramente a incredulidade de tal pessoa. Por exemplo:

1. Foi narrado por Jabir (r.a.) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse:

بين الرجل وبين الكفر ترك الصلاة.

Significado: Entre o servo e a incredulidade, a ponte é o abandono da oração. — Musnad Ahmad, Sahih Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah.

2. Foi narrado por Buraidah (r.a.) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse:

العهد الذي بيننا وبينمر الصَّلاةُ فَمَن تَرَكَهَا فَقَدْ كَفَرَ

“O pacto que existe entre nós e eles é a salat. Portanto, quem quer que abandone a salat comete kufr.” — Musnad Ahmad, Tirmidhi, Nasai e Ibn Majah.

3. Foi narrado por Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele disse: Certo dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falou sobre a salat. A esse respeito, disse: “Quem quer que preserve a salat, no Dia da Ressurreição, a salat será para ele luz, prova e certificado de salvação. E quem quer que não preserve a salat, no Dia da Ressurreição, não terá luz, prova nem certificado de salvação. E não apenas isso: nesse dia, ele estará na companhia de Qarun, Faraó, Haman e Ubay ibn Khalaf.” — Musnad Ahmad, Tabarani e Ibn Hibban.

A cadeia de transmissão deste hadith é excelente. O fato de aquele que abandona a salat estar, no Dia da Ressurreição, na companhia de líderes kafir comprova o seu kufr.

O Imam Ibn al-Qayyim disse: aquele que não preserva a salat, isto é, que abandona a salat, faz isso por estar ocupado com seus bens e riquezas, com o governo, com o trabalho oficial ou com o comércio. Assim, aquele que abandona a salat por estar ocupado com seus bens e riquezas (para obtê-los e preservá-los) será companheiro de Qarun. Aquele que abandona a salat por estar ocupado com a administração do país e do governo será companheiro do Faraó. Aquele que abandona a salat por estar ocupado com o trabalho oficial será companheiro de Haman. E aquele que abandona a salat por estar ocupado com negócios e comércio (bem como com seu emprego) será companheiro de Ubay ibn Khalaf.
4. Foi narrado por Abdullah ibn Shaqiq al-Uqayli que ele disse: “Os companheiros de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não consideravam kufr o abandono de nenhuma prática além da salat.” — Tirmidhi e Hakim. Hakim disse: Este é um hadith autêntico segundo as condições estabelecidas pelo Imam Bukhari e por Muslim.

5. Muhammad ibn Nasr al-Marwazi disse: Ouvi Ishaq dizer: “Foi transmitido por uma cadeia autêntica, partindo do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que aquele que abandona a salat é kafir.”
A opinião dos estudiosos que adquiriram conhecimento do próprio Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também era a seguinte: “Aquele que deliberadamente abandona a salat sem uma desculpa válida, e aquele que, deliberadamente e sem uma desculpa válida, deixa passar o horário da salat, é kafir.”

6. Ibn Hazm disse: “Foi narrado por Umar, Abd al-Rahman ibn Awf, Muadh ibn Jabal, Abu Hurayra e outros companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) que aquele que deliberadamente abandona uma oração obrigatória e deixa passar todo o seu horário é kafir e um renegado que abandonou o Islam.” Não temos conhecimento de que alguém tenha contrariado a opinião desses companheiros. O Imam Mundhiri mencionou isso em At-Targhib wa at-Tarhib. Em seguida, disse: A opinião de um grupo dos companheiros e dos que vieram depois deles é que aquele que voluntariamente abandona a oração e deixa passar todo o seu horário é kafir. Entre esse grupo estão Umar ibn al-Khattab, Abdullah ibn Masud, Abdullah ibn Abbas, Muadh ibn Jabal, Jabir ibn Abdullah e Abu ad-Darda (que Allah esteja satisfeito com eles). Entre os que, além dos companheiros, sustentaram essa opinião estão Ahmad ibn Hanbal, Ishaq ibn Rahwayh, Abdullah ibn al-Mubarak, an-Nakha’i, al-Hakam ibn Utaybah, Abu Ayyub as-Sakhtiyani, Abu Dawud at-Tayalisi, Abu Bakr ibn Abi Shaybah, Zuhayr ibn Harb e outros (que Allah tenha misericórdia deles).

Os hadiths que declaram que aquele que abandona a oração deve ser morto são os seguintes:

a. Relatado por Ibn Abbas, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: As alças do Islam e os fundamentos da religião são três coisas. Sobre essas três coisas está estabelecida a base do Islam. Quem abandonar qualquer uma delas será um incrédulo em relação a ela, e seu sangue será lícito: testemunhar que não há divindade além de Allah, realizar as orações obrigatórias e jejuar no Ramadã. — Abu Ya‘la.
Em outra narração consta: Quem abandonar qualquer uma delas será um incrédulo. Nem suas obrigações nem suas devoções voluntárias serão aceitas, e sua vida e seus bens se tornarão lícitos.

b. Relatado por Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Foi-me ordenado combater as pessoas até que testemunhem que não há divindade além de Allah e que Muhammad é o Mensageiro de Allah, estabeleçam a oração e paguem o zakat. Quando cumprirem essas coisas, suas vidas e seus bens estarão protegidos de mim, exceto pelo direito do Islam. E a prestação de contas delas cabe a Allah. — Al-Bukhari e Muslim.

c. Relatado por Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Serão designados sobre vós diversos tipos de governantes: alguns de vós aprovareis e outros reprovareis. Quem os reprovar estará livre de culpa; e quem os negar estará a salvo. Mas aquele que se mostrar satisfeito com eles e os seguir terá uma situação diferente. As pessoas perguntaram: Ó Mensageiro de Allah, devemos combater governantes desse tipo? Ele respondeu: Não, enquanto realizarem a oração. — Muslim. Isto é, a oração foi estabelecida como o único impedimento para combater governantes injustos.

d. Relatado por Abu Sa‘id, que Allah esteja satisfeito com ele: Quando Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, estava no Iêmen, enviou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, um pequeno pedaço de ouro. O Mensageiro de Allah o dividiu entre quatro pessoas. Então um homem disse: Ó Mensageiro de Allah, tema a Allah. O Mensageiro de Allah respondeu: Ai de ti! Acaso não sou eu, entre todos os habitantes do mundo, o mais digno de temer a Allah? Em seguida, o homem se retirou. Khalid ibn al-Walid disse: Ó Mensageiro de Allah, não devo cortar-lhe o pescoço? O Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, respondeu: Não lhe cortes o pescoço. Talvez ele ore. Khalid disse: Há muitas pessoas que dizem com a boca aquilo que não têm no coração. O Mensageiro de Allah disse: Não fui ordenado a investigar o que há no coração das pessoas nem a abrir-lhes os ventres. — Resumido dos hadiths de Al-Bukhari e Muslim. Também neste hadith a oração foi estabelecida como impedimento para a execução. Ou seja, se alguém abandonar a oração, a execução se torna inevitável.

A opinião de alguns outros sábios é a seguinte: Os hadiths mencionados acima classificaram claramente aquele que abandona a oração como incrédulo e declararam lícito matá-lo. Contudo, muitos sábios antigos e posteriores sustentam que ele não deve ser declarado incrédulo. Entre eles estão o Imam Abu Hanifa, Malik e Al-Shafi‘i. Segundo eles, essa pessoa é transgressora e deve ser obrigada a arrepender-se. Se não se arrepender, de acordo com o Imam Malik, Al-Shafi‘i e outros, deverá ser morta como punição. Abu Hanifa diz: Ela não será morta; receberá outra punição e será mantida presa até que passe a orar. Quanto aos hadiths que a chamam de incrédula, eles entendem que se referem àqueles que negam a oração e consideram lícito abandoná-la. Eles contestam essa opinião citando alguns versículos do Alcorão e palavras do hadith. Por exemplo, o versículo 116 da surata An-Nissa: “Certamente, Allah não perdoa que se associe algo a Ele, mas perdoa, além disso, aquilo que deseja, a quem deseja.” E foi relatado por Ahmad e Muslim, de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Cada profeta teve uma súplica que foi aceita. Por isso, cada profeta apressou-se em fazer sua súplica. Eu, porém, reservei minha súplica para interceder por minha comunidade no Dia da Ressurreição. Se Allah quiser, aquele que morrer sem associar ninguém a Allah receberá minha intercessão. Foi relatado no Sahih de Al-Bukhari, por Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah disse: A pessoa mais afortunada por receber minha intercessão será aquela que disser com coração sincero: Não há autoridade nem salvador além de Allah.”

Um debate sobre aquele que abandona a oração: No livro Tabaqat al-Shafi‘iyya, Al-Subki menciona que o Imam Al-Shafi‘i e o Imam Ahmad certa vez debateram sobre aquele que abandona a oração. Al-Shafi‘i disse: Ó Ahmad! Você afirma que ele é um incrédulo.
Ahmad: Sim.

Al-Shafi‘i: Se ele é um incrédulo, como se tornará muçulmano?

Ahmad responderá: Ele dirá: Não há divindade além de Allah; Muhammad é o Mensageiro de Allah.

Al-Shafi‘i: O homem permanece firme nessa declaração. Ele não a abandonou.

Ahmad: Tornar-se-á muçulmano ao rezar.

Al-Shafi‘i: A oração do incrédulo não é válida. E não se ordena que ele aceite o Islã por meio da oração.

O imame Ahmad não conseguiu dar outra resposta.

A posição de Al-Shawkani: Al-Shawkani afirma que a verdade é que aquele que não reza é um incrédulo. No Estado Islâmico, ele será morto. Ele é incrédulo porque, por um lado, foi chamado de incrédulo em hadices autênticos. E somente a oração foi apresentada como o impedimento para qualificá-lo como incrédulo. Portanto, se ele abandonar a oração, não resta impedimento para chamá-lo de incrédulo. Não somos obrigados a aceitar as provas apresentadas pelos opositores. Pois nossa posição é que pode haver formas de incredulidade passíveis de perdão e que não constituem impedimento à intercessão do Mensageiro, que a bênção e a paz estejam sobre ele. Por exemplo, apesar de observarem a qibla, alguns pecadores foram chamados de incrédulos pela Lei Islâmica. Assim, não há motivo para recorrer a esses argumentos e controvérsias estreitos.

3. Sobre quem a oração é obrigatória?

A oração é obrigatória para todo muçulmano adulto e mentalmente são. ‘Aisha narra que o Mensageiro de Allah, que a bênção e a paz estejam sobre ele, disse: “Três pessoas estão isentas de responsabilidade: o adormecido, até despertar; a criança, até atingir a puberdade; e o insano, até recuperar a razão.” — Ahmad, Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i e Ibn Majah.

4. A oração da criança

Embora a oração não seja obrigatória para o menino menor de idade, é dever de seu responsável ordenar-lhe que ore ao completar sete anos. E, ao completar dez anos, deve ser castigado por não orar, para que adquira o hábito e seja treinado e, depois de atingir a maioridade, ore. Foi narrado por Amr ibn Shuayb que o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Ordenai aos vossos filhos que orem quando completarem sete anos. E, quando completarem dez anos, castigai-os por isso e separai os seus leitos.” — Ahmad, Abu Dawud e Al-Hakim.

5. Quantas orações obrigatórias existem?

Deus, o Altíssimo, tornou obrigatórias cinco orações durante o dia e a noite. Foi narrado por Ibn Muhayriz: Um homem da tribo de Banu Kinana, chamado Mukhda ji, ouviu que um homem chamado Abu Muhammad, na Síria, dizia que a oração do witr era obrigatória. Então disse: “Fui até Ubada ibn as-Samit e informei-o sobre isso.” Ubada disse: “Abu Muhammad mentiu. Ouvi o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, dizer: ‘Deus tornou obrigatórias para os servos cinco orações. Quem as realizar e não deixar nenhuma delas por desprezo, Deus prometeu fazê-lo entrar no Paraíso. Mas, quanto àquele que não as realizar devidamente, Deus não lhe fez promessa alguma: se quiser, irá castigá-lo; e, se quiser, irá perdoá-lo.’” — Ahmad, Abu Dawud, An-Nasa’i e Ibn Majah.

Foi narrado por Talha ibn Ubaydullah: Um beduíno foi até o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, com os cabelos desalinhados. Ele disse: “Ó Mensageiro de Deus! Dize-me quais orações Deus tornou obrigatórias para mim.” Ele respondeu: “Tornou obrigatórias cinco orações. Contudo, se quiseres realizar voluntariamente algumas orações adicionais, podes fazê-lo.” Ele perguntou: “Quantos jejuns Ele tornou obrigatórios?” Ele respondeu: “O jejum do mês de Ramadã. Além disso, se quiseres observar algum jejum voluntário, podes fazê-lo.” Ele perguntou: “Quanto à zakat, o que foi tornado obrigatório?” O Mensageiro de Deus explicou-lhe todas as normas do Islam. Ele disse: “Juro por Deus que não deixarei nada dessas obrigações, nem cumprirei qualquer oração voluntária adicional.” O Mensageiro de Deus disse: “Se ele cumprir sua promessa, será bem-sucedido.” Em outra narração: “Ele entrará no Paraíso.” — Al-Bukhari e Muslim.

6. O horário da oração

A oração tem um horário ou período determinado. É necessário realizar a oração dentro desse período. Deus diz:

إن الصلوة كانت عَلَى الْمُؤْمِنِينَ كِتَبا موقوتا .

“Certamente, é obrigatório para os crentes rezar nos horários determinados.” Ou seja, uma obrigação certa e comprovada pelo Livro.

No Alcorão, há referências a todos esses horários. Allah diz:

وَاقِرِ الصَّلاةَ طَرَفَي النَّهَارِ وَزُلَفًا مِنَ اللَّيْلِ إِنَّ الْحَسَنَاتِ يُذْ مِبْنَ السَّيِّئَاتِ، ذَلِكَ ذكرى للذاكرين.

“Estabelece a oração nas duas extremidades do dia e nas duas partes da noite. Certamente, as boas ações fazem desaparecer as más ações. Isto é uma lembrança para os que se recordam.” (Surata Hud: versículo 114)

Hasan disse: as orações das duas extremidades do dia são o fajr e o asr, e as orações das duas partes da noite são o maghrib e o isha.

E na Surata Isra está escrito:

أخير الصلاة لدلوك الفيس إلى عمق الليل، وترأن الفَجْرِ إِن قُرْآنَ الْفَجْرِ كَانَ مَشْهُودًا.

“Estabelece a oração desde o declínio do sol até o início da escuridão da noite, e também a recitação do Alcorão do fajr. Certamente, a recitação do Alcorão do fajr é testemunhada.”

Isto é, realiza a oração do zuhr no primeiro horário após o declínio do sol. Esse período se estende até o início da escuridão da noite. Dentro desse período estão incluídas as orações do asr, maghrib e isha. E a recitação do Alcorão do fajr significa a oração do fajr. “É testemunhada” significa que os anjos da noite e os anjos do dia estão presentes como testemunhas.

E na surata Ta-Ha consta:

وَسَبِّحْ بِحَمْدِ رَبِّكَ قَبْلَ طُلُوعِ الشَّمْسِ وَقَبْلَ غُرُوبِهَا ، وَمِنْ أَنَاءِ الَّيْلِ فَسَبِّحُ وَامْرَانَ النَّمَارِ تعلق ترفيه

“Glorifica, com louvor ao teu Senhor, antes do nascer e do pôr do sol. E glorifica-O durante as horas da noite e nas extremidades do dia, para que te sintas satisfeito.” A glorificação antes do nascer do sol significa a oração do fajr. E a glorificação, ou recitação do tasbih, antes do pôr do sol significa a oração do asr. Al-Bukhari e Muslim narram, segundo Jarir, que Jarir — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: Estávamos sentados junto do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. De repente, numa noite de lua cheia, ele olhou para a lua e disse: “Certamente, vereis o vosso Senhor exatamente como vedes esta lua agora, sem qualquer dificuldade para vê-Lo. Portanto, se puderdes concluir alguma oração antes do nascer e do pôr do sol, fazei-o.” Em seguida, recitou este versículo. Esta era a indicação dos horários das orações no Sagrado Alcorão. Contudo, os hadiths determinaram esses horários e descreveram seus sinais. Os hadiths são mencionados a seguir:

1. Narrado por Abdullah ibn Amr: o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: O horário do zuhr começa quando o sol se inclina para o ocidente e a sombra de uma pessoa se torna igual ao seu comprimento, e permanece até antes do asr. O horário do asr permanece enquanto o sol não se tornar amarelo. O horário do maghrib permanece enquanto houver vermelhidão no céu ocidental após o pôr do sol. O horário da oração do isha permanece até a metade da noite. E o horário da oração do fajr vai do início da alvorada até o nascer do sol. Quando o sol nascer, abstende-vos de rezar, pois ele nasce entre os dois chifres de Satanás. Narrado por Muslim.

2. Narrado por Jabir ibn Abdullah: Jibril — que a paz esteja sobre ele — veio ao Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e disse-lhe: Levanta-te e reza. Então ele rezou depois que o sol se inclinou. Depois, Jibril veio novamente até ele no horário do asr e disse-lhe: Levanta-te e reza. Então ele rezou a oração do asr depois que a sombra de cada coisa se tornou duas vezes o seu tamanho. Depois, Jibril veio até ele no horário do maghrib e disse: Levanta-te e reza. Então ele rezou depois que o sol se pôs. Depois, Jibril veio até ele no horário do isha e disse: Levanta-te e reza. Então ele rezou a oração do isha depois que a vermelhidão do céu ocidental desapareceu. Depois, quando amanheceu, Jibril veio até ele. No dia seguinte, Jibril veio até ele novamente no horário do zuhr e disse: Levanta-te e reza. Então ele rezou a oração do zuhr quando a sombra de cada coisa se tornou igual ao seu tamanho. Depois, ele veio até ele no horário do asr e disse: Levanta-te e reza. Então, quando a sombra de cada coisa se tornou duas vezes o seu tamanho, ele rezou a oração do asr. Novamente, veio até ele no maghrib no mesmo horário de antes. Depois, veio até ele no horário do isha, quando havia passado metade da noite ou um terço dela, e ele rezou a oração do isha. Então, quando a alvorada se tornou muito clara, veio até ele e disse: Levanta-te e reza. Então ele rezou a oração do fajr. Depois disse: “Entre estes dois horários há ainda outro horário.” Ahmad, an-Nasa’i e at-Tirmidhi. Al-Bukhari disse: Este é o hadith mais autêntico sobre os horários das orações, isto é, sobre a liderança de Jibril na oração.

— O horário da oração do zuhr

Ficou claro a partir dos dois hadiths acima que o horário do zuhr começa quando o sol se inclina a partir do centro do céu e permanece até que a sombra de qualquer coisa se torne igual ao seu tamanho, descontando-se a sombra que existia no momento da inclinação do sol. Contudo, em períodos de calor intenso, é recomendável adiar a oração do zuhr em relação ao início do seu horário, para que a concentração não seja prejudicada. Fora do calor intenso, é recomendável realizar a oração no início do horário. Anas — que Allah esteja satisfeito com ele — narrou: Quando fazia muito frio, o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — apressava a oração; e quando fazia muito calor, ele a adiava. — Al-Bukhari. Abu Dharr — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: Estávamos numa viagem com o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Então o mu’adhdhin quis fazer o chamado para a oração do zuhr. O Mensageiro disse: “Espera”, isto é, adia. Novamente, o mu’adhdhin quis fazer o chamado, e ele disse: “Espera.” Disse isso duas ou três vezes. Em certo momento, vimos as sombras das pequenas colinas. Ele disse: “A intensidade do calor é uma parte da fervura do Inferno. Portanto, quando o calor se intensificar, fazei a oração mais tarde.” — Al-Bukhari e Muslim.

Limite do adiamento para amenizar o calor: Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: Os sábios divergiram quanto ao limite do adiamento. Alguns disseram: até que, depois da sombra imediatamente posterior à inclinação do sol, a sombra se alongue mais um côvado. Outros dizem: até que alcance um quarto da altura da pessoa; outros, um terço; e outros, a metade. Há ainda muitas outras opiniões. Contudo, o princípio geralmente aceito é que isso varia conforme as circunstâncias. A condição é que, de modo algum, se ultrapasse o fim do horário da oração.

– O horário da oração do Asr

O horário do Asr começa quando a sombra de um objeto, além da sombra que se segue ao zênite do sol, se torna igual ao próprio objeto. O horário do Asr permanece até o pôr do sol. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem conseguir realizar uma rak‘ah do Asr antes do pôr do sol, terá alcançado todo o horário do Asr.”

A versão de al-Bayhaqi diz: “Quem realizar uma rak‘ah do Asr antes do pôr do sol e depois realizar as orações restantes após o pôr do sol não terá perdido o Asr.”

O horário recomendado e o horário desaconselhável: assim que o sol começa a ficar amarelo, termina o horário recomendado. É isso que se entende pelos dois hadiths de Abdullah ibn Amr citados anteriormente. Ainda é permitido atrasar a oração até depois de o sol ficar amarelo; contudo, se isso ocorrer sem uma justificativa, será desaconselhável. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Esta é a oração do hipócrita: ele fica sentado esperando. Quando o sol chega entre os dois chifres de Satanás, levanta-se e dá quatro bicadas, quase não se lembrando de Allah.” — Registrado em todas as coletâneas, exceto as de al-Bukhari e Ibn Majah.

Al-Nawawi disse, em sua nota sobre Muslim: “Nossos imames disseram que o horário do Asr é de cinco tipos:”

1. O horário preferível;
2. O horário recomendado;
3. O horário permitido, não desaconselhável;
4. O horário permitido, mas desaconselhável;
5. O horário da justificativa.

O horário preferível é o primeiro horário. O horário recomendado vai até que a sombra se torne duas vezes maior. Até o sol ficar amarelo, é permitido e não desaconselhável. Desde que fique amarelo até o pôr do sol, é permitido, porém desaconselhável. Quanto àquele que, por causa de uma viagem ou da chuva, combina o Zuhr e o Asr no horário do Zuhr, para ele o horário do Zuhr é o horário da justificativa. A oração do Asr pode ser realizada em qualquer um desses cinco horários, e nenhum deles será considerado uma reposição. Porém, quando o sol se põe, será considerada uma oração perdida a ser reposta.

É necessário antecipar a oração em dias nublados: Burayda al-Aslami (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Estávamos com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em uma expedição. Ele disse: ‘Antecipai a oração em dias nublados, pois aquele cuja oração do Asr é perdida tem todas as suas boas ações anuladas.’” — Ahmad e Ibn Majah. Ibn al-Qayyim disse: “Abandonar a oração é de dois tipos: abandoná-la completamente e nunca realizar a oração abandonada. Neste caso, todas as boas ações são anuladas. Mas, se alguém a abandonar especificamente em um determinado dia, as boas ações daquele dia serão anuladas.”

A oração do Asr é a oração intermediária. Allah, exaltado seja, disse: “Guardai todas as orações e guardai a oração intermediária.” Diversos hadiths autênticos mencionam claramente que a oração do Asr é a oração intermediária.

a. Foi narrado por Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse no dia da batalha da Trincheira: “Que Allah encha de fogo os túmulos e as casas dos incrédulos, pois eles nos mantiveram ocupados na batalha até o pôr do sol e não nos permitiram rezar a oração intermediária.” — Bukhari e Muslim.

b. Foi narrado por Ibn Mas‘ud: “Os politeístas impediram o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de rezar a oração do Asr até o sol ficar vermelho e depois amarelo. Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Eles não nos permitiram rezar a oração intermediária, a oração do Asr. Que Allah lhes encha o ventre e os túmulos de fogo.’” — Ahmad, Muslim e Ibn Majah.

— O horário da oração do Magrib

Quando o sol desaparece e se põe, começa o horário da oração do Magrib, que se prolonga até o desaparecimento do crepúsculo avermelhado no céu ocidental. Abdullah ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘O horário da oração do Magrib começa quando o sol se põe e continua até o desaparecimento do crepúsculo.’” — Muslim. Algo semelhante foi narrado por Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele. Um homem perguntou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, quais eram os horários das orações e mencionou o hadith completo. Nele também consta: Então Gabriel lhe ordenou, e ele rezou a oração do Magrib quando o sol se pôs. Quando chegou o segundo dia, ele disse: Então ele a atrasou até o desaparecimento do crepúsculo. Depois disse: ‘O horário do Magrib está entre esses dois momentos.’

An-Nawawi disse no comentário de Muslim: Os mais competentes entre os nossos imames são da opinião de que é preferível reconhecer a validade de atrasar a oração até o desaparecimento do crepúsculo. É permitido iniciar a oração em qualquer momento desse período. Não há pecado em adiá-la em relação ao início do horário. Esta é a opinião correta e precisa; nenhuma outra é válida. Além disso, o hadith anteriormente mencionado sobre Gabriel conduzir a oração, segundo o qual ele rezou a oração do Magrib assim que o sol se pôs nos dois dias, no mesmo horário, prova que é mustahabb apressar a oração do Magrib. Há diversos hadiths que dão orientações claras sobre isso. Por exemplo:

1. Foi narrado por Sa’ib ibn Yazid que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Enquanto a minha comunidade rezar a oração do Magrib antes do surgimento das estrelas, permanecerá firme no Islam.”

2. Foi narrado no Musnad por Abu Ayyub al-Ansari que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Rezai a oração do Magrib no momento de quebrar o jejum do jejuador e apressai a oração antes do surgimento das estrelas.”

3. Em Sahih Muslim, é narrado por Rafi‘ ibn Khadij: Estávamos rezando a oração do maghrib com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois, quando cada um de nós retornava, conseguia ver o lugar onde havia deixado suas próprias flechas.

4. Em Sahih Muslim, é narrado por Salamah ibn al-Akwa‘: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rezava a oração do maghrib imediatamente depois de o sol se pôr e desaparecer.

— O horário da oração do ‘ishá

O horário da oração do ‘ishá começa depois que o crepúsculo vermelho no horizonte ocidental desaparece e se estende até a meia-noite. É narrado por ‘Aishah que as pessoas rezavam o ‘ishá desde o desaparecimento do crepúsculo vermelho no horizonte ocidental até o primeiro terço da noite. É narrado por Abu Hurairah que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se eu não considerasse isso difícil para a minha comunidade, ordenaria que atrasassem a oração do ‘ishá até um terço da noite ou até a meia-noite.” E é narrado por Abu Sa‘id: Certa noite, ficamos esperando o Mensageiro de Allah para a oração do ‘ishá. Assim, quase metade da noite havia passado. Por fim, ele veio e nos conduziu na oração. Então disse: “Sentem-se. A essa altura, as outras pessoas já se deitaram. Enquanto esperastes por mim, fostes considerados como estando em oração. Se não fosse pela fraqueza dos fracos, pela doença dos enfermos e pela necessidade dos necessitados, eu atrasaria esta oração até o meio da noite. Este é o horário recomendado. O horário permitido e o horário da necessidade inevitável estendem-se até o fajr.” Qatadah narra que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Saibam que perder uma oração por causa do sono não é negligência. Somente aquele que não reza antes de chegar o horário da oração seguinte é culpado de negligência.”

Os hadiths anteriores que descrevem os horários provam que o horário de cada oração se estende até o início do horário da oração seguinte. Entretanto, o caso da oração do fajr é diferente. Essa oração não se estende até o meio-dia. Os sábios concordam que seu horário termina com o nascer do sol. É recomendado atrasar a oração do ‘ishá em relação ao seu horário inicial. É melhor atrasar a oração do ‘ishá até o fim de seu horário recomendado, isto é, até a meia-noite. Isso se baseia no hadith de ‘Aishah: “Certa noite, quando uma grande parte da noite já havia passado e as pessoas na mesquita tinham adormecido, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiu e conduziu a oração do ‘ishá. Ele disse: ‘Se eu não quisesse impor dificuldades à minha comunidade, este seria o horário do ‘ishá’.” [An-Nawawi disse: Isso não significa depois da meia-noite, pois nenhum sábio afirmou que é melhor atrasá-la para depois da meia-noite.] — Muslim, an-Nasa’i.

Os hadiths de Abu Hurairah e Abu Sa‘id já foram mencionados. Ambos apoiam o hadith de ‘Aishah. Cada um deles prova que atrasar a oração é melhor e recomendado. Contudo, ele abandonou a prática de adiar a oração de forma permanente, pois isso causa dificuldade aos que rezam. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levava em consideração a conveniência dos fiéis que rezavam em congregação: às vezes apressava a oração e às vezes a atrasava. É narrado por Jabir que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rezava o zuhr quando o calor intenso se fazia sentir depois que o sol passava do meridiano; o ‘asr enquanto o sol ainda estava claro (isto é, antes de ficar amarelado); o maghrib depois do pôr do sol; e o ‘ishá, às vezes atrasado e às vezes adiantado. Quando via que os fiéis já haviam chegado, apressava a oração; e quando via que estavam demorando, atrasava-a. Ele — ou eles — rezava o fajr enquanto ainda permanecia a escuridão do fim da noite.

Dormir antes da oração do ‘ishá e conversar depois dela Dormir antes da oração do ‘ishá e conversar depois dela é makruh. Abu Barzah al-Aslami narra: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, gostava de atrasar a oração do ‘ishá, que chamais de ‘atamah, e não gostava de dormir antes dela nem de conversar depois dela. Ibn Mas‘ud narra: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proibia-nos severamente de conversar e ficar contando histórias depois do ‘ishá.

A razão pela qual é makruh dormir antes da oração do ‘ishá e conversar depois dela é que, por causa do sono, pode-se perder a oportunidade de rezar no horário recomendado ou em congregação. Além disso, conversar depois do ‘ishá pode tornar inevitável permanecer acordado até tarde da noite, e ficar acordado à noite causa muitos danos. Contudo, se alguém quiser dormir um pouco antes do ‘ishá e houver alguém para acordá-lo, ou se conversar depois do ‘ishá sobre assuntos úteis, isso não será makruh. Ibn ‘Umar disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conversava com Abu Bakr até tarde da noite sobre diversos problemas dos muçulmanos, e eu também permanecia com ele. Ibn ‘Abbas disse: Certa noite, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava na casa de Maymunah, eu também me deitei ali naquele dia para observar como ele rezava à noite. Vi que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conversou por algum tempo com sua família e depois adormeceu.

— O horário da oração do Fajr

O horário da oração do Fajr se estende desde o aparecimento do verdadeiro amanhecer até o nascer do sol. Isso foi mencionado no hadith citado anteriormente.

É recomendável antecipar a oração do Fajr. É recomendável antecipar a oração do Fajr e realizá-la no início de seu horário. Abu Mas‘ud al-Ansari disse: “Certa vez, o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) realizou a oração do Fajr ainda no escuro. Depois, em outra ocasião, realizou-a quando o amanhecer já havia clareado. A partir de então, até sua morte, ele sempre realizou a oração no escuro e nunca mais a realizou depois de o amanhecer clarear.” — Abu Dawud e al-Bayhaqi; a cadeia de transmissão é autêntica. ‘A’ishah (R.A.) disse: “As esposas dos crentes realizavam a oração do Fajr com o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.), cobertas por suas vestimentas. Depois da oração, quando retornavam para suas casas, ainda estava tão escuro que ninguém conseguia reconhecê-las.” — As seis coletâneas autênticas.

Contudo, no hadith narrado por Rafi‘ ibn Khadij, consta que o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) disse: “Tornai o Fajr claro, pois isso fará com que vossa recompensa seja maior.” — As cinco coletâneas autênticas. Esse hadith ordena que se faça claro e luminoso o momento de retornar após concluir a oração do Fajr, não o momento de iniciá-la. Isto é, o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) ordenou que se recitassem longas passagens na oração, para que, ao sair, já fosse uma manhã clara. O próprio Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) fazia isso. Durante a oração, ele chegava a recitar de cem até tantas aleyas. Outra interpretação desse hadith é que se deve certificar cuidadosamente de que o verdadeiro amanhecer já ocorreu. Não se deve realizar a oração baseando-se apenas em suposições.

Se o horário terminar depois de se ter realizado uma rak‘ah, a pessoa que conseguir completar apenas uma rak‘ah antes do fim do horário terá sua oração inteira considerada como realizada dentro do horário. Abu Hurayrah narrou que o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) disse: “Quem conseguir realizar uma rak‘ah da oração dentro do horário, será como se tivesse realizado a oração inteira.” — Todas as coletâneas autênticas. Isso se aplica a todas as orações. A versão narrada por al-Bukhari diz: “Quando qualquer um de vós conseguir realizar uma única prostração da oração do ‘Asr antes do pôr do sol, que complete sua oração; e quando conseguir realizar uma prostração da oração do Fajr antes do nascer do sol, que complete sua oração.” Aqui, “prostração” significa uma rak‘ah. O sentido aparente do hadith é que, se alguém completar uma rak‘ah da oração do Fajr ou do ‘Asr dentro do horário, sua oração não será considerada makruh por coincidir com o nascer ou o pôr do sol, embora esses sejam dois horários makruh. Como conseguiu realizar uma rak‘ah completa dentro do horário, sua oração será considerada realizada no horário vigente, não sendo necessário repeti-la como compensação. Contudo, não é permitido atrasar deliberadamente a oração até esse momento final.

— Se estiver dormindo ou esquecer durante o horário da oração

A pessoa que estiver dormindo durante o horário de uma oração ou se esquecer dela terá seu horário de oração assim que acordar ou se lembrar. Abu Qatadah narrou: “As pessoas informaram ao Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) que, às vezes, perdiam a oração por causa do sono. O Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) disse: ‘Se a oração for perdida por causa do sono, isso não é negligência. Negligência é perdê-la estando acordado. Portanto, quando algum de vós se esquecer da oração ou não conseguir realizá-la por causa do sono, que a realize assim que se lembrar.’” — An-Nasa’i; at-Tirmidhi disse que este é um hadith autêntico. Anas (R.A.) narrou que o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) disse: “Quem se esquecer da oração, que a realize assim que se lembrar. Essa é sua única expiação.” — Al-Bukhari e Muslim. ‘Imran ibn Husayn narrou: “Certa vez, viajamos com o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.). No fim da noite, paramos para viajar e descansar. Dormimos tão profundamente que somente o calor do sol conseguiu nos despertar. Estávamos tão desorientados que alguns de nós começaram a correr de um lado para outro, atordoados, procurando os meios para a purificação. O Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) ordenou que todos se acalmassem. Em seguida, partimos e continuamos a viagem. Quando finalmente o sol já havia se elevado, o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) fez a ablução e ordenou a Bilal que fizesse o adhan. Bilal fez o adhan. Depois, o Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) realizou as duas rak‘ahs anteriores ao Fajr e então conduziu a oração; nós rezamos. Depois, todos disseram: ‘Ó Mensageiro de Allah, amanhã não deveremos repetir esta oração no horário determinado, isto é, no horário do Fajr?’ O Mensageiro de Allah (S.A.A.S.) respondeu: ‘Depois de vosso Senhor ter proibido a usura para vós, Ele próprio a praticaria?’ Ou seja, repetir a oração do Fajr no horário determinado no dia seguinte seria um acréscimo semelhante à usura.

— Os horários proibidos para a oração

Após a oração do fajr até o nascer do sol; do nascer do sol até que ele se eleve a uma altura equivalente ao comprimento de uma lança; exatamente ao meio-dia, até que o sol comece a inclinar-se para o oeste; e após a oração do ‘asr até o pôr do sol, é proibido realizar qualquer oração. Isso porque foi narrado por Abu Sa‘id que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Não há oração após a oração do ‘asr até o pôr do sol, nem oração após a oração do fajr até o nascer do sol.” — Bukhari e Muslim. ‘Amr ibn ‘Abasa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu perguntei: “Ó Profeta de Allah, informa-me sobre a oração.” Ele respondeu: “Realiza a oração do fajr. Depois, abstém-te de orar até o sol nascer, pois o sol nasce entre os dois chifres de Satanás” [An-Nawawi disse: Satanás aproxima a própria cabeça do sol nesses horários, para que os incrédulos que adoram o sol se tornem adoradores de Satanás. Assim, ele e seus seguidores adquirem certa influência, autoridade e poder, de modo que possam lançar dúvidas sobre a oração dos que oram. Por isso, a oração nesses horários foi considerada makruh, a fim de protegê-la dessa dúvida criada por Satanás, assim como a oração é makruh nos lugares que servem de refúgio para Satanás].

Nesse horário, os incrédulos se prostram diante do sol. Depois, reza, pois nessa oração os anjos estão presentes e testemunham. Em seguida, quando a sombra tiver o comprimento de uma lança — isto é, quando a sombra permanecer junto à pessoa e não se projetar no chão, o que ocorre exatamente ao meio-dia — reza. Depois, abstém-te de orar, pois nesse momento — isto é, exatamente ao meio-dia — o Inferno arde intensamente. Quando a sombra avançar um pouco, reza, pois então os anjos estão presentes e testemunham. Dessa maneira, é permitido realizar todos os tipos de oração até a oração do ‘asr. Depois da oração do ‘asr, abstém-te novamente de orar até o sol se pôr, pois o sol se põe entre os dois chifres de Satanás, e nesse momento os incrédulos se prostram diante dele. — Ahmad e Muslim.

Foi narrado por ‘Uqba ibn ‘Amir: O Mensageiro de Allah ﷺ proibiu-nos de orar e de sepultar os mortos em três horários — isto é, de realizar o sepultamento intencionalmente. Se o sepultamento ocorrer involuntariamente, ele não é proibido: durante o nascer do sol, até que ele se eleve; exatamente ao meio-dia; e durante o pôr do sol. — Todas as coleções de hadith autênticas, exceto Bukhari.

— Opiniões dos juristas sobre a realização de orações após o fajr e o ‘asr

Segundo a maioria dos sábios, é permitido realizar, após as orações do fajr e do ‘asr, as orações obrigatórias que tenham sido perdidas anteriormente. Isso porque o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quem perder uma oração por esquecimento deve realizá-la assim que se lembrar.” — Bukhari e Muslim. Contudo, entre os Companheiros, ‘Ali, Ibn Mas‘ud, Zayd ibn Thabit, Abu Hurayra e Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com eles); entre os tabi‘un, Hasan e Sa‘id ibn al-Musayyab; e entre os imames das escolas jurídicas, Abu Hanifa e Malik, consideraram makruh realizar qualquer oração nafl após o fajr e o ‘asr. Por ter realizado duas rak‘at após o ‘asr, ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) açoitou algumas pessoas na presença de vários Companheiros, e ninguém desaprovou isso. Khalid ibn al-Walid também costumava açoitar. Segundo ash-Shafi‘i, é permitido realizar uma oração que tenha uma causa, como a tahiyyat al-masjid e a sunnat al-wudu. Esses dois tipos de oração podem ser realizados imediatamente após o fajr e o ‘asr, pois o Mensageiro de Allah ﷺ realizou a sunnah do zuhr após a oração do ‘asr. Segundo os hanbalitas, independentemente da causa, todas as orações nafl são haram após o ‘asr e o fajr, exceto as duas rak‘at do tawaf. Jubayr ibn Mut‘im narrou que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Ó descendentes de ‘Abd Manaf, não impeçais ninguém que circunvale esta Casa ou nela ore em qualquer hora do dia ou da noite.” — As Sunan al-Arba‘a, Ibn Hibban.

— Opiniões sobre a realização de orações durante o nascer do sol, o pôr do sol e o meio-dia

Os hanafitas, de modo geral, não consideram permitido realizar orações nesses três horários, sejam elas fard, wajib, nafl, qada ou uma oração em curso. A exceção é a oração do ‘asr em curso e a oração fúnebre. (Se o cadáver chegar em qualquer um desses três horários, a realização da oração fúnebre não será makruh.) Se um versículo de prostração for recitado nesses três horários, a prostração da recitação também será permitida. Segundo Abu Yusuf, não é makruh realizar orações nafl ao meio-dia de sexta-feira. Na escola shafi‘ita, é makruh realizar orações nafl sem causa nesses três horários. Entretanto, as orações fard, as orações nafl que tenham uma causa, a oração nafl ao meio-dia de sexta-feira e a oração nafl no Haram de Meca — todas são permitidas e não são makruh. Segundo os malิกitas, durante o nascer e o pôr do sol, sejam quais forem as causas, são haram a oração nafl, a oração de voto, a prostração da recitação e a oração fúnebre. Contudo, a oração fúnebre é permitida quando houver receio de que o corpo se deteriore. Nesses dois horários, porém, são permitidas tanto as orações fard perdidas e em curso quanto, ao meio-dia, todas as orações fard e nafl. Na anotação de al-Muwatta, al-Baji narra de Ibn Wahb que, quando Malik (que Allah tenha misericórdia dele) foi questionado sobre realizar orações ao meio-dia, respondeu: “Também realizei a oração de sexta-feira com um grupo que estava realizando a oração de sexta-feira exatamente ao meio-dia. Alguns hadiths trazem uma proibição a esse respeito. Contudo, não proíbo a oração que realizei com as pessoas. Por outro lado, devido à proibição, também não a considero preferível.” Os hanbalitas consideram que nenhuma oração nafl é válida nesses três horários, tenha ou não uma causa, seja no Haram de Meca ou em qualquer outro lugar, e seja na sexta-feira ou em outro dia. Entretanto, consideram permitida a tahiyyat al-masjid da sexta-feira ao meio-dia e durante o sermão. Segundo eles, a oração fúnebre é haram nesses três horários, mas é permitida quando houver receio de deterioração. A qada das orações perdidas, a oração de voto e as duas rak‘at do tawaf, embora sejam nafl, são permitidas nesses três horários segundo eles. (A razão para mencionar aqui as diferentes opiniões dos imames é que há provas fortes em favor de todas elas.)

— Realização de orações nafl após o início do horário do fajr e antes da oração do fajr

Yassār, o liberto de Ibn ‘Ammār, disse: ao ver-me fazendo uma oração voluntária depois do início do horário do fajr, Ibn ‘Umar disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio até nós enquanto estávamos rezando nesse horário e disse: ‘Que os presentes entre vós informem os ausentes: depois do início do fajr, não há oração além da oração do fajr.’” — Ahmad e Abu Dawud. Embora o hadith seja fraco, possui várias cadeias de transmissão, cada uma complementando as outras. Portanto, pode ser apresentado como prova de que, além das duas rak‘ahs do fajr, qualquer outra oração voluntária é makruh durante o horário do fajr. Essa foi a interpretação dada por ash-Shawkani. Segundo al-Hasan, ash-Shafi‘i e Ibn Hazm, qualquer oração voluntária pode ser feita sem restrição e não é makruh. Segundo Malik, somente é permitido fazer uma oração voluntária nesse horário àquele cuja oração voluntária daquela noite tenha sido perdida por uma razão plausível. É mencionado que Ibn ‘Abbas, al-Qasim e Ibn ‘Amir rezaram o witr depois do início do horário do fajr. Ibn Mas‘ud disse: “Se a oração congregacional do fajr começar enquanto eu estiver rezando o witr, não me importarei.” Yahya disse: “‘Ubādah costumava liderar um grupo de pessoas na oração. Certa madrugada, ele saiu, e, assim que o mu’adhdhin começou a fazer o adhan do fajr, ‘Ubādah pediu-lhe que parasse, rezou o witr e depois conduziu todos na oração do fajr.” Sa‘id disse: “Ibn ‘Abbas dormiu. Ao acordar, disse ao seu servo: ‘Veja o que as pessoas estão fazendo.’ Naquela época, Ibn ‘Abbas já não enxergava. O servo saiu e voltou. Informou que as pessoas haviam retornado depois de rezar o fajr. Então Ibn ‘Abbas levantou-se, rezou o witr e depois rezou o fajr.

— Fazer uma oração voluntária durante a iqamah

Depois que a oração congregacional começa, é makruh fazer uma oração voluntária. Abu Hurayrah narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando a oração congregacional começa, não há oração além da obrigatória.” Em outra versão: “Não há oração além daquela que começou.” — Ahmad, Muslim e as quatro Sunan. ‘Abdullah disse: um homem entrou na mesquita enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava rezando o fajr. Ele rezou duas rak‘ahs da sunnah num canto da mesquita e depois juntou-se à oração congregacional com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando o Mensageiro de Allah terminou a oração com o taslim, disse-lhe: “Ó fulano, com qual das duas orações vieste preparado: com a tua oração individual ou com a oração conosco?” — Muslim, Abu Dawud e an-Nasa’i. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mostrou desagrado pela oração individual, mas não ordenou que ele a repetisse. Isso prova que, embora seja makruh, essa oração é válida.

Ibn ‘Abbas narrou que disse: “Eu estava rezando quando o mu’adhdhin começou a fazer a iqamah. Então o Profeta de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, puxou-me e disse: ‘Estás rezando quatro rak‘ahs do fajr?’” — al-Bayhaqi. Abu Musa narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, viu um homem rezando as duas rak‘ahs do fajr. Então o mu’adhdhin começou a fazer o adhan, e ele apertou-lhe o pescoço e disse: “Isto deveria ter sido feito antes disto.” (Isto é, essa oração deveria ter sido feita antes do adhan.)

7. O adhan

a. O que é o adhan?

Adhan é o nome dado ao anúncio, por meio de palavras específicas, de que começou o horário da oração. Por meio dele também se realiza o chamado das pessoas para comparecerem à oração congregacional e a divulgação dos preceitos e símbolos do Islã. Ele é obrigatório ou recomendado. Al-Qurtubi e outros disseram: embora o adhan seja composto por poucas palavras, ele contém os princípios relativos à crença. Isso porque começa com a fórmula “Allah é o Maior e o mais Grandioso”. Nela estão incluídas a existência sublime e a grandeza de Allah. Em seguida, Ele é louvado como Único, sem parceiro. Depois é proclamada a missão profética de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Logo depois do testemunho da missão profética, faz-se o chamado para uma adoração específica, pois é por meio do Mensageiro que se pode conhecer a adoração. Em seguida, faz-se o chamado para a prosperidade. Essa prosperidade é a vida eterna; aqui há uma indicação da vida interminável na Outra Vida. Depois, a mesma declaração é repetida para reforçá-la.

b. A virtude do adhan

Foram narrados numerosos hadiths sobre a virtude do adhan e do mu’adhdhin. A seguir, citarei alguns deles:

1. Abu Huraira relatou que o Mensageiro de Allah disse: Se as pessoas soubessem o que há no adhan e na primeira fileira — isto é, quanta recompensa e virtude existem neles — e não houvesse outra maneira de obter essa oportunidade senão por sorteio, certamente fariam um sorteio. Se soubessem o que há em ir à mesquita ao meio-dia para a oração do zuhr, certamente competiriam por isso. E, se soubessem o que há nas orações do ‘isha e do fajr, certamente compareceriam à congregação nesses dois horários, ainda que tivessem de se arrastar. — Bukhari e outros.

2. Muawiya relatou que o Mensageiro de Allah disse: No Dia da Ressurreição, os mu’adhdhins terão os pescoços mais longos. — Ahmad, Muslim e Ibn Majah.

3. Al-Bara ibn Azib relatou que o Mensageiro de Allah disse: Allah envia Sua misericórdia sobre a primeira fileira, e Seus anjos suplicam por ela. E o mu’adhdhin é perdoado até onde alcança sua voz; todos os que ouvem seu adhan, sejam úmidos ou secos, confirmam-no, e ele recebe uma recompensa igual à de todos os que rezam com ele. — Ahmad e Nasa’i.

4. Abu Darda disse: Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: Se três pessoas permanecerem em um lugar, não fizerem o adhan e não rezarem em congregação, Satanás certamente prevalecerá sobre elas. — Ahmad.

5. Abu Huraira relatou que o Mensageiro de Allah disse: O imam é responsável, e o mu’adhdhin é digno de confiança. Ó Allah, guia os imams pelo caminho correto e perdoa os mu’adhdhins.

6. Uqba ibn Amir relatou: Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: Quando um pastor encarregado de apascentar ovelhas em um trecho isolado de uma montanha faz o adhan para a oração e reza, Allah Se admira dele. Então Allah diz: “Vede este Meu servo: por temor de Mim, ele faz o adhan e reza. Perdoei este Meu servo e o fiz entrar no Paraíso.” — Ahmad, Abu Dawud e Nasa’i.

3. A razão para a instituição do adhan na Sharia

O azan foi instituído no primeiro ano da Hégira. A razão de sua instituição encontra-se nos seguintes hadiths:

a. Nafi‘ narrou que Ibn Umar costumava dizer: Os muçulmanos reuniam-se em um só lugar e, calculando aproximadamente o horário da oração, às vezes chegavam para a oração em congregação. Não havia uma pessoa específica para chamá-los. Certo dia, discutiram esse assunto. Um deles disse: “Que se providencie um sino, como o sino dos cristãos.” Outro disse: “Pelo contrário, que se providencie uma trombeta, como a dos judeus.” Umar disse: “Não podem enviar alguém para chamar para a oração?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Bilal, levanta-te e chama para a oração.” — Ahmad, al-Bukhari.

b. Abdullah ibn Zayd ibn Abd Rabbihi narrou: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que se tocasse um sino para chamar as pessoas à oração, mas isso não lhe agradava por se assemelhar ao costume dos cristãos. Nesse momento, sonhei que um homem passava ao meu lado carregando um sino. Eu lhe disse: “Ó servo de Allah, venderias este sino?” Ele respondeu: “O que farias com ele?” Eu disse: “Chamaria as pessoas para a oração.” Ele perguntou: “Queres que te ensine um método melhor que esse?” Eu disse: “Ensina-me.” Ele disse: “Dirás: ‘Allahu akbar, Allahu akbar, Allahu akbar, Allahu akbar. Ashhadu alla ilaha illallah, ashhadu alla ilaha illallah. Ashhadu anna Muhammadar rasulullah, ashhadu anna Muhammadar rasulullah. Hayya ‘alas-salah, hayya ‘alas-salah. Hayya ‘alal-falah, hayya ‘alal-falah. Allahu akbar, Allahu akbar. La ilaha illallah.’” Depois de fazer uma pequena pausa, o homem disse: “E, quando a oração em congregação começar, dirás: ‘Allahu akbar, Allahu akbar. Ashhadu alla ilaha illallah. Ashhadu anna Muhammadar rasulullah. Hayya ‘alas-salah. Hayya ‘alal-falah. Qad qamatis-salatu, qad qamatis-salah. Allahu akbar, Allahu akbar. La ilaha illallah.’” Quando amanheceu, fui até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e contei-lhe o que havia visto em sonho. Ele disse: “Se Allah quiser, este sonho é verdadeiro. Vai até Bilal e informa-o do que viste, para que ele faça o azan com essas palavras, pois ele tem uma voz mais forte e mais melodiosa que a tua.” [Este hadith mostra que é mustahabb que o mu’adhdhin tenha uma voz relativamente mais forte e melodiosa. Abu Mahyura relata que, ao ouvir a voz de Bilal, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou impressionado e ensinou-lhe o azan. Ibn Khuzayma].

Então fui até Bilal, comecei a ensinar-lhe o azan, e ele passou a fazê-lo. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, ouviu o azan enquanto estava sentado em sua casa. Imediatamente saiu, arrastando seu manto, e disse: “Ó Mensageiro, por Aquele que te enviou com a verdade, juro por Allah que também me foi mostrado exatamente aquilo que foi mostrado a Abdullah.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Todo louvor pertence a Allah.” — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah, Ibn Khuzayma, at-Tirmidhi.

4. O método do azan

Vários hadiths apresentam os três métodos seguintes para o azan:

a. Primeiro, dizer Allahu akbar quatro vezes. Todas as demais frases do azan devem ser ditas duas vezes. Não se fará tarjī‘, exceto nas palavras do tawhid. Assim, de acordo com o hadith anteriormente narrado por Abdullah, o número de frases do azan será quinze.

b. Dizer o takbir quatro vezes e as fórmulas das duas shahadas com tarjī‘. Tarjī‘ significa dizer primeiro, duas vezes cada uma e em voz baixa, “Ashhadu alla ilaha illallah” e “Ashhadu anna Muhammadar rasulullah”; depois, repeti-las em voz alta. Abu Mahdhura disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ensinou-me o azan dessa maneira”, e assim ele contém dezenove frases. As cinco coletâneas de hadith. At-Tirmidhi disse que este hadith é hasan sahih.

c. O primeiro takbir será dito duas vezes, e ambas as shahadas serão ditas com tarjī‘. Assim, o número de palavras do adhan será dezessete. Foi narrado por Muslim, através de Abu Mahdhura, que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ensinou-lhe o adhan da seguinte forma: Allahu akbar, Allahu akbar. Ashhadu alla ilaha illallah, ashhadu alla ilaha illallah. Ashhadu anna Muhammadar rasulullah, ashhadu anna Muhammadar rasulullah. Depois, dirá novamente: ashhadu alla ilaha illallah duas vezes; ashhadu anna Muhammadar rasulullah duas vezes; hayya ‘alas-salah duas vezes; hayya ‘alal-falah duas vezes; Allahu akbar, Allahu akbar; la ilaha illallah.

5. Dizer “as-salatu khayrun minan-nawm” no adhan do fajr. No adhan do fajr, é necessário que o mu’adhdhin diga “as-salatu khayrun minan-nawm” depois de “hayya ‘alas-salah” e “hayya ‘alal-falah”. Abu Mahdhura disse: “Ó Mensageiro de Allah, ensina-me o método do adhan.” Ele lho ensinou e disse: “Quando for a oração do fajr, dirás: as-salatu khayrun minan-nawm, as-salatu khayrun minan-nawm, Allahu akbar, Allahu akbar, la ilaha illallah.” — Ahmad, Abu Dawud.

6. O método da iqamah

Há três métodos de iqamah conhecidos a partir de diferentes narrações. Primeiro: começar repetindo Allahu akbar e, depois, dizer todas as frases do adhan duas vezes, sem tarjī‘, dizendo apenas uma vez la ilaha illallah no final. Pois foi narrado no hadith de Abu Mahdhura — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ensinou-lhe uma iqamah composta por dezessete frases: quatro vezes Allahu akbar; duas vezes ashhadu alla ilaha illallah; duas vezes ashhadu anna Muhammadar rasulullah; duas vezes hayya ‘alas-salah; duas vezes hayya ‘alal-falah; duas vezes qad qamatis-salah; duas vezes Allahu akbar; e uma vez la ilaha illallah. Narrado nas cinco coletâneas de hadith autênticos.

Terceiro: este método é semelhante ao anterior. A única diferença é que a frase “qad qamatis-salah” deve ser dita uma vez. Segundo este método, a iqamah será composta por dez frases. O Imam Malik adotou este método, pois é o seguido pelos habitantes de Medina. Entretanto, Ibn al-Qayyim disse: a frase “qad qamatis-salah” nunca foi autenticamente narrada como sendo dita uma vez da parte do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ibn ‘Abd al-Barr disse: ela é dita duas vezes em todas as circunstâncias.

7. O que os ouvintes devem dizer durante o adhan

a. O ouvinte deve repetir exatamente cada frase pronunciada pelo mu’adhdhin, exceto “hayya ‘alas-salah” e “hayya ‘alal-falah”. Depois dessas duas frases, deverá dizer: “la hawla wa la quwwata illa billah”. Foi narrado por Abu Sa‘id al-Khudri — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quando ouvirdes o adhan, dizei o que o mu’adhdhin diz.” Narrado em todas as coletâneas de hadith autênticos. Foi narrado por ‘Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quando o mu’adhdhin disser: Allahu akbar, Allahu akbar, vós também direis: Allahu akbar, Allahu akbar. Quando o mu’adhdhin disser: ashhadu alla ilaha illallah, vós também direis: ashhadu alla ilaha illallah. Quando o mu’adhdhin disser: ashhadu anna Muhammadar rasulullah, vós também direis: ashhadu anna Muhammadar rasulullah. Quando o mu’adhdhin disser: hayya ‘alas-salah, direis: la hawla wa la quwwata illa billah. Depois, quando o mu’adhdhin disser: hayya ‘alal-falah, direis: la hawla wa la quwwata illa billah. Depois, quando o mu’adhdhin disser: Allahu akbar, Allahu akbar, vós também direis: Allahu akbar, Allahu akbar. Depois, quando o mu’adhdhin disser: la ilaha illallah, vós também direis: la ilaha illallah. Quem disser sinceramente essas palavras junto com o mu’adhdhin entrará no Paraíso.” — Muslim, Abu Dawud.

O Imam an-Nawawi disse: nossos imams afirmaram que é mustahabb que os ouvintes digam o mesmo que o mu’adhdhin diz, exceto hayya ‘alas-salah e hayya ‘alal-falah. Isso expressa o apoio e a concordância do ouvinte com as palavras do mu’adhdhin. Contudo, hayya ‘alas-salah e hayya ‘alal-falah (“vinde para a oração, vinde para o sucesso”) são um chamado para a oração. Esse chamado cabe exclusivamente ao mu’adhdhin. Por isso, nesse momento, é mustahabb que o ouvinte faça outra súplica. Foi por essa razão que se difundiu a expressão la hawla wa la quwwata illa billah, isto é, “não há fonte de força senão Allah”. Pois ela expressa a submissão completa a Allah. Foi narrado por Abu Musa al-Ash‘ari em al-Bukhari e Muslim que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “La hawla wa la quwwata illa billah é um dos tesouros do Paraíso.”

Nossos imames disseram: é mustahabb para todo ouvinte repetir as palavras do muezzin, esteja ele puro ou impuro, menstruada ou em estado de impureza decorrente de ejaculação, seja adulto ou criança. Isso porque se trata de um dhikr ou de uma súplica, e todas essas categorias de pessoas podem fazer dhikr. Somente a pessoa que está rezando, a que se encontra no banheiro ou urinário e a que está mantendo relações sexuais não pode fazer qualquer súplica ou dhikr. Quando terminar de urinar ou defecar, deverá repetir as palavras do adhan. Se você ouvir o adhan enquanto estiver ocupado lendo algo, fazendo dhikr, estudando ou realizando alguma atividade semelhante, deverá interromper essa atividade e repetir as palavras do muezzin; depois, se quiser, poderá retomar o que estava fazendo. Porém, se alguém ouvir o adhan enquanto estiver ocupado com uma oração obrigatória ou voluntária, não deverá repetir as palavras do adhan, segundo a opinião do imame ash-Shafi‘i e de seus discípulos. Deverá repeti-las após terminar a oração. No livro Al-Mughni, afirma-se que, para quem entra na mesquita e ouve o adhan, é mustahabb esperar até que ele termine e repetir as palavras do muezzin, para assim realizar as duas ações meritórias. Se começar a oração sem repetir as palavras do muezzin, não haverá problema. Essa também é a opinião do imame Ahmad.

b. Imediatamente após o adhan, deverá invocar bênçãos sobre o Mensageiro de Allah, seguindo qualquer uma das fórmulas transmitidas em diversos hadiths. Em seguida, deverá pedir a Allah a wasilah para o Mensageiro de Allah. ‘Abdullah ibn ‘Amr narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Quando ouvirdes o adhan, repetireis as palavras do muezzin e, depois, invocareis bênçãos sobre mim. Pois quem invoca bênçãos sobre mim uma vez, Allah invoca bênçãos sobre ele dez vezes em retribuição. Depois, pedireis a Allah a wasilah para mim. A wasilah é uma morada no Paraíso destinada exclusivamente a um servo especial de Allah. Espero ser eu esse servo. Aquele que pedir a wasilah para mim terá tornado lícita para mim a intercessão por ele.” Muslim. E foi narrado por Jabir que o Mensageiro de Allah disse: “Quem ouvir o adhan e disser: ‘Ó Allah, Senhor deste chamado perfeito e desta oração prestes a ser realizada, concede a Muhammad a wasilah e a elevada posição, e estabelece-o no lugar louvado que Tu lhe prometeste’, terá direito à minha intercessão no Dia da Ressurreição.” Bukhari.

8. Fazer súplicas após o adhan

O período entre o adhan e a iqamah é um dos momentos em que se espera que as súplicas sejam aceitas. Por isso, é mustahabb fazer muitas súplicas nesse período. Foi narrado por Anas que o Mensageiro de Allah disse: “A súplica entre o adhan e a iqamah não é rejeitada.” Abu Dawud, Nasa’i e Tirmidhi. Tirmidhi disse que o hadith é hasan-sahih. Também consta em Tirmidhi: As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, o que devemos dizer em nossas súplicas?” Ele respondeu: “Pedi a Allah o perdão dos pecados e a segurança nesta vida e na Outra.” Foi narrado por ‘Abdullah ibn ‘Amr que um homem disse: “Ó Mensageiro de Allah, os muezzins estão obtendo mais mérito do que nós.” O Mensageiro de Allah disse: “Dizei também o que eles dizem. E, quando terminardes o adhan, fazei súplicas; Allah vos concederá o que pedirdes.” Ahmad e Abu Dawud. Foi narrado por Sahl ibn Sa‘d que o Mensageiro de Allah disse: “Duas súplicas não são rejeitadas: uma é a súplica durante o adhan, e a outra é a súplica durante o combate, quando os combatentes se enfrentam e matam uns aos outros.” Abu Dawud, com uma cadeia autêntica. Umm Salamah disse: “O Mensageiro de Allah ensinou-me esta súplica no momento do adhan do maghrib: ‘Ó Allah, a Tua noite está chegando, o Teu dia está partindo e ouvem-se em direção a Ti as vozes dos que Te invocam. Portanto, perdoa os meus pecados.’”

9. Fazer dhikr no momento da iqamah

Quem ouvir a iqamah deverá repetir o que diz aquele que a anuncia; isso é mustahabb. Porém, ao ouvir “Qad qamatis-salah”, deverá dizer: “Aqamahallahu wa adamaha”, isto é: “Que Allah estabeleça e preserve a oração”. Isso porque foi narrado por alguns Companheiros que Bilal começou a fazer a iqamah e, sempre que dizia “Qad qamatis-salah”, o Mensageiro de Allah dizia: “Que Allah estabeleça e preserve a oração”. Entretanto, ao dizer “Hayya ‘alas-salah” e “Hayya ‘alal-falah”, deverá dizer: “La hawla wa la quwwata illa billah”.

10. O que o muezzin deve fazer

a. Deverá buscar somente a satisfação de Allah por meio do adhan. Por isso, não deverá aceitar qualquer remuneração. Foi narrado por ‘Uthman, que disse: “Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, nomeia-me imam do meu povo.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Tu és o imam deles. Porém, conduz a oração para eles de modo tão breve quanto seja apropriado para o mais fraco entre eles. E nomeia como muezzin alguém que não aceite remuneração pelo adhan.’” Abu Dawud, Nasa’i, Ibn Majah e Tirmidhi. A versão de Tirmidhi diz: “A última ordem que o Mensageiro de Allah me deu foi: ‘Escolhe como muezzin alguém que não aceite remuneração pelo adhan.’” Este hadith prova que é permitido pedir a liderança em uma boa ação. É mustahabb que o muezzin busque somente a satisfação de Allah por meio do seu adhan, sem receber remuneração.

b. O mu’adhdhin deve estar livre tanto da impureza menor quanto da maior. Pois Muhajir ibn Qunfudh (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lhe falou: “A única razão pela qual não respondi à sua saudação foi que eu não estava em estado de pureza, e não gostei de mencionar Allah estando impuro.” — Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i e Ibn Majah. Contudo, se o adhan for proferido estando impuro, ele será válido, mas makruh. Essa é a opinião dos shafi‘itas. Segundo as escolas hanbalita e hanafita, não é makruh.

c. Deve proferir o adhan de pé e voltado para a qibla. Ibn al-Mundhir disse: há consenso de que é sunnah proferir o adhan de pé. Isso torna mais eficaz o ato de fazer o adhan ser ouvido. Também é sunnah estar voltado para a qibla durante o adhan. Todos os mu’adhdhins designados pelo Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proferiam o adhan voltados para a qibla. Se, devido a algum impedimento, não for possível voltar-se para a qibla, o adhan será válido, embora makruh.

d. Ao dizer “Hayya ‘ala as-salah, hayya ‘ala as-salah”, deve virar a cabeça, o pescoço e o peito para a direita; e, ao dizer “Hayya ‘ala al-falah, hayya ‘ala al-falah”, deve olhar para a esquerda. O Imam an-Nawawi disse que esse é o método correto de proferir o adhan. Foi narrado em al-Bukhari, Muslim e Ahmad que Bilal proferia o adhan dessa maneira. Al-Bayhaqi disse: não há nenhum hadith sahih narrando que o mu’adhdhin se virasse. Em al-Mughni, foi mencionada a opinião do Imam Ahmad: ele só deve se virar quando estiver proferindo o adhan no alto de um minarete, para que as pessoas de ambos os lados possam ouvi-lo.

e. Deve inserir os dedos em ambos os ouvidos ao proferir o adhan. Bilal disse: “Coloquei meus dedos nos ouvidos e proferi o adhan.” Abu Dawud e Ibn Hibban. Segundo at-Tirmidhi, é mustahabb inserir os dedos nos ouvidos ao proferir o adhan.

f. Deve proferir o adhan em voz alta, mesmo quando estiver sozinho no deserto. Foi narrado por ‘Abdullah ibn ‘Abdur-Rahman. Ele disse que Abu Sa‘id al-Khudri afirmou: “Vejo que gostas do deserto e de cabras e ovelhas. Portanto, quando estiveres no deserto ou entre um rebanho, profere o adhan em voz alta. Pois qualquer ser humano, jinn ou outra criatura que ouvir o adhan testemunhará a teu favor no Dia da Ressurreição.” Abu Sa‘id disse: “Ouvi isso do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).” — Ahmad, al-Bukhari, an-Nasa’i e Ibn Majah.

g. Deve fazer uma breve pausa após cada duas frases do adhan. Já a iqama deve ser proferida rapidamente. Isso foi narrado como mustahabb em hadiths transmitidos por diversas vias.

h. Não deve falar durante a iqama. Muitos consideraram makruh falar durante o adhan; contudo, segundo al-Hasan, ‘Ata’ e Qatada, não é makruh. Abu Dawud disse: “Perguntei ao Imam Ahmad: ‘Pode-se falar durante o adhan?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Perguntei: ‘Também se pode falar durante a iqama?’ Ele respondeu: ‘Não.’ Pois é mustahabb proferir a iqama rapidamente.”

11. Proferir o adhan no início do horário e antes do horário

O adhan deve ser proferido no início do horário. Nem antes nem depois dele. Somente no caso do fajr é permitido proferir o adhan antes do início do horário, desde que seja possível distinguir entre o primeiro e o segundo adhan, para que não haja dúvida nem confusão.

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Bilal faz o adhan durante a noite. Portanto, comei e bebei até que Ibn Umm Maktum faça o adhan.” — Bukhari e Muslim. Há, no hadith narrado por Ibn Mas‘ud e registrado por Ahmad, uma prova da permissibilidade de proferir o adhan do fajr antes do início do horário. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Que nenhum de vós deixe de comer o sahur ao ouvir o adhan de Bilal, pois ele o faz para chamar de volta à comida aquele que está ocupado com a oração noturna e para despertar o adormecido.” Bilal proferia o adhan com as fórmulas estabelecidas para o adhan. At-Tahawi e An-Nasa’i narraram que a única diferença entre o adhan de Bilal e o de Ibn Umm Maktum era que um era proferido em voz mais alta e o outro em voz mais baixa.

12. Haver um intervalo entre o adhan e a iqamah

Deve haver entre o adhan e a iqamah um intervalo de tempo suficiente para que seja possível preparar-se para a oração e comparecer à oração em congregação. Isso porque o próprio objetivo do adhan é a realização da oração em congregação. Sem um intervalo de tempo, esse objetivo não seria alcançado. Em Bukhari há um título: “Quanto deve ser o intervalo entre o adhan e a iqamah?”. Contudo, não foi estabelecido nenhum tempo específico. Ibn Battal disse: não há um limite determinado para isso. Deve-se apenas conceder tempo e oportunidade para que os fiéis se reúnam. Foi narrado por Jabir ibn Samurah, que Allah esteja satisfeito com ele: o mu’adhdhin do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazia uma breve pausa após proferir o adhan e antes da iqamah. Quando via o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sair, proferia a iqamah ao vê-lo. — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e At-Tirmidhi.

13. Aquele que profere o adhan deve proferir também a iqamah

Segundo o consenso dos sábios, a iqamah será válida mesmo que seja proferida por outra pessoa que não o mu’adhdhin. Contudo, é melhor que o próprio mu’adhdhin profira a iqamah. Ash-Shafi‘i disse: “Prefiro que aquele que profere o adhan seja também responsável por proferir a iqamah.” At-Tirmidhi disse: “Segundo a maioria dos sábios, a prática seguida é que aquele que profere o adhan profira também a iqamah.”

14. Quando os que seguem o imam devem levantar-se?

No Muwatta, o imam Malik disse: “Não ouvi dizer que haja um momento específico para os que seguem o imam se levantarem quando começa a iqamah. Penso que isso deve ser determinado de acordo com a capacidade das pessoas. Entre elas, há quem seja rápido e há quem seja lento.” Ibn al-Mundhir narrou que Anas se levantava justamente quando o mu’adhdhin dizia: “Qad qamatis-salah”.

15. Sair da mesquita depois de o adhan ter sido proferido

Há proibição, nos hadiths, de deixar de responder ao adhan do mu’adhdhin e de sair da mesquita depois do adhan. Contudo, se houver uma desculpa válida ou uma firme intenção de retornar rapidamente e alcançar a oração em congregação, não é censurável sair da mesquita depois do adhan. Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou-nos que, quando o adhan fosse proferido enquanto estivéssemos na mesquita, nenhum de nós saísse sem rezar. — Ahmad. Também foi narrado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele: Um homem saiu da mesquita depois de o mu’adhdhin ter proferido o adhan. Então ele disse: Este homem desobedeceu a Abu al-Qasim Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. — Muslim, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah. Também foi narrado por Mu’adh al-Juhani: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Cometeu uma injustiça, uma enorme injustiça, incredulidade e hipocrisia aquele que, embora tenha ouvido o arauto de Allah convocar para o bem, não respondeu ao seu chamado. — Ahmad e al-Tabarani.

Al-Tirmidhi disse que foi narrado por vários Companheiros que aquele que ouve o adhan e não responde a ele não tem oração. Alguns estudiosos disseram: Essas palavras foram proferidas para expressar rigor quanto à oração em congregação e à resposta ao adhan. Em suma, não é permitido abandonar a oração em congregação sem uma desculpa válida.

16. Adhan e iqama para as orações perdidas

Para aquele cuja oração foi perdida por ter adormecido ou por tê-la esquecido, é prescrito proferir o adhan e a iqama quando desejar realizar essa oração. Na narração de Abu Dawud que menciona o episódio em que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seus Companheiros despertaram depois de o sol ter nascido, é dito que ele ordenou a Bilal que proferisse o adhan e a iqama, e então rezou. Se mais de uma oração tiver sido perdida, deve-se proferir o adhan para a primeira de modo que não cause nenhum mal-entendido entre as pessoas, e deve-se proferir a iqama para cada oração. Akrama disse: Quando um homem perguntou a Abu Abdullah como deveria proferir o adhan ao realizar suas orações perdidas, ele mencionou um hadith no qual se diz: No dia da batalha da Trincheira, os idólatras não permitiram que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezasse as quatro orações. Depois de transcorrida uma parte da noite, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a Bilal que proferisse o adhan e a iqama; então realizou primeiro a oração do meio-dia, depois a oração da tarde apenas com a iqama, em seguida a oração do pôr do sol apenas com a iqama e, por fim, a oração da noite apenas com a iqama.

17. Adhan e iqama das mulheres

Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: As mulheres não têm adhan nem iqama. Al-Bayhaqi. Esta é a opinião de Anas, al-Hasan, Ibn Sirin, al-Nasa’i, al-Thawri, Malik, Abu Thawr e dos ashab al-ra’y (pensadores livres baseados no ijtihad). Al-Shafi’i e Ishaq dizem: Se elas proferirem o adhan e a iqama, não há nada de errado nisso. Ahmad disse: Tanto proferir o adhan e a iqama quanto não os proferir é permitido. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, proferia o adhan e a iqama, liderava as mulheres na oração e permanecia no meio delas. Al-Bayhaqi.

18. Entrar na mesquita depois de a oração em congregação ter sido realizada

No livro Al-Mughni, é dito: quem entra na mesquita depois de a oração em congregação ter sido realizada pode, se quiser, proferir tanto o adhan quanto a iqamah. Foi isso que disse o Imam Ahmad. Al-Athram narrou, a respeito de Anas, que Anas entrou numa mesquita onde, antes de sua entrada, a oração em congregação já havia sido realizada. Ele pediu a um homem que proferisse o adhan. O adhan e a iqamah foram proferidos, e ele conduziu a oração em congregação. Também pode, se quiser, deixar de proferir tanto o adhan quanto a iqamah e realizar a oração. Urwah disse: quando chegares a uma mesquita onde um grupo de pessoas já tiver proferido o adhan e a iqamah e realizado a oração, o adhan e a iqamah deles serão suficientes para os que vierem depois. Essa é a opinião de Hasan al-Basri, al-Sha‘bi e al-Nasa’i. Hasan al-Basri, porém, disse que todos preferiam proferir a iqamah. E, se alguém proferir o adhan, deverá fazê-lo em voz baixa, para que as pessoas não o ouçam fora do horário e não o compreendam equivocadamente.

19. O intervalo entre a iqamah e a oração

É permitido que haja um pequeno intervalo entre a iqamah e a oração devido a conversa ou a alguma outra coisa. Mesmo que esse intervalo se prolongue, não é necessário repetir a iqamah. Foi narrado por Anas: quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi a um canto da mesquita e conversava em segredo com um homem, a iqamah foi proferida. Depois, quando o sono tomou conta dos olhos das pessoas, ele veio para a oração. Al-Bukhari.

Certo dia, depois de a iqamah para a oração ter sido proferida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lembrou-se de que o banho ritual era obrigatório para ele. Imediatamente voltou para casa, tomou o banho ritual e depois retornou; então realizou a oração com os Companheiros, sem repetir a iqamah.

20. Proferir o adhan sem ser o muezzin designado

Não é permitido que outra pessoa, sem a autorização do muezzin designado, profira o adhan. No entanto, se o muezzin não chegar no horário e houver o risco de o horário do adhan passar, outra pessoa poderá proferi-lo.

21. Acrescentar ao adhan coisas que não fazem parte dele

O adhan é um ato de adoração. E todos os atos de adoração dependem da observância exata da Sunnah. Não nos é permitido acrescentar ou subtrair coisa alguma da nossa religião. Há um hadith autêntico: se alguém introduzir na nossa religião algo novo que não faça parte dela, isso será rejeitado. Ou seja, será inválido e inútil. Aqui mencionamos algumas coisas que se difundiram na sociedade, fazendo com que muitos as considerem parte do Islam. No entanto, de modo algum fazem parte do Islam. Entre as mais importantes estão:

a. Durante o adhan ou a iqamah, o muezzin dizer: “Ashhadu anna sayyidana Muhammadan rasulullah”. Hafiz Ibn Hajar considera que não é permitido acrescentar algo dessa forma à Sunnah transmitida e estabelecida por sucessivas gerações. Não há problema em acrescentar algo fora da Sunnah.

b. O xeique Ismail al-Ajluni disse em sua obra Kashful Khafa: quando o muezzin disser “Ashhadu anna Muhammadan rasulullah”, o ouvinte deverá beijar o espaço entre os dois dedos indicadores, esfregar os olhos com eles e, ao mesmo tempo, dizer: “Ashhadu anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu, raditu billahi rabban wa bil-islami dinan, wa bi-Muhammadin nabiyyan” (Testemunho que Muhammad é servo e Mensageiro de Allah. Estou satisfeito com Allah como Senhor, com o Islam como religião e com Muhammad como profeta). Dailami narrou de Abu Bakr que, quando Abu Bakr ouviu o muezzin dizer “Ashhadu anna Muhammadan rasulullah”, ele também o repetiu, beijou o espaço entre seus dois dedos indicadores e esfregou os olhos com eles. Então o Mensageiro de Allah disse: “A intercessão por aquele que fizer o que meu companheiro fez tornar-se-á obrigatória para mim”. Contudo, é dito na obra al-Maqasid que essa narração de Dailami não é autêntica. Do mesmo modo, também não é autêntica a narração da obra de Abul Abbas, Mujibat al-Rahmah wa Aza’im al-Maghfirah, segundo a qual Khidr teria dito: “Quem ouvir o muezzin dizer ‘Ashhadu anna Muhammadan rasulullah’ e disser ‘Marhaban bi-habibi wa qurratu ayni Muhammad ibn Abdullah sallallahu alayhi wa sallam’ (Seja bem-vindo meu amado e alegria dos meus olhos, Muhammad, filho de Abdullah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz), depois beijar os dois polegares e esfregar com eles os próprios olhos, jamais ficará cego nem sofrerá de oftalmia”. Há muitas outras afirmações semelhantes em circulação. O xeique Ismail disse: nada disso possui qualquer fundamento nos hadiths autênticos.

c. É makruh acrescentar ao adhan letras, kasrah, fathah, dammah ou madd, introduzindo-lhe uma melodia. Se, por causa dessa melodia, o significado for distorcido ou surgir um significado incompreensível, isso será haram. Yahya al-Bakka disse: “Vi Ibn Umar dizer a um homem: ‘Estou irado contigo por causa de Allah’. Depois disse aos seus companheiros: ‘Este homem introduz melodias no adhan e recebe remuneração por isso’”.

d. Em al-Iqna e em seu comentário, uma das obras dos hambalitas, foi dito: não é Sunnah anunciar, do local do adhan, antes do fajr, qualquer coisa além do adhan, como tasbih, canto ou súplicas em voz alta. Nenhum sábio considerou isso mustahabb; ao contrário, essas práticas são reprováveis, pois não existiam na época do Mensageiro de Allah e de seus Companheiros. Nem sequer há fundamento para elas entre as práticas que existiam naquela época. Ninguém tem o direito de ordenar tais práticas, demonstrar desagrado por quem não as realiza ou fazer depender delas a qualificação ou desqualificação para obter sustento. Isso equivale a ajudar a inovação religiosa. Também não é permitido obrigar alguém a qualquer dessas práticas, mesmo que o waqif da mesquita as imponha como condição, pois isso contraria a Sunnah. Ibn al-Jawzi disse em sua obra Talbis Iblis: “Vi algumas pessoas subirem aos minaretes no meio da noite, fazerem sermões e exortações, praticarem dhikr e recitarem em voz alta várias suratas do Alcorão, perturbando assim o sono das pessoas e seu tahajjud. Tudo isso é injustiça e proibido”. Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: “As inovações introduzidas antes do fajr e antes da oração de sexta-feira, em nome do salawat e do tasbih, não são de modo algum adhan — nem no sentido linguístico nem no técnico”.

e. Não há na Shariah qualquer determinação para recitar em voz alta salawat e salam pelo Mensageiro de Allah depois do adhan. Isso é uma inovação e makruh. Ibn Hajar disse em Fatawa Kubra: “Nossos imames e outros foram consultados sobre a maneira como atualmente o muezzin recita salawat e salam pelo Mensageiro de Allah depois do adhan. Eles emitiram a fatwa de que salawat e salam são Sunnah, mas essa maneira é uma inovação”. Quando o mufti do Egito, xeique Muhammad Abduh, foi questionado sobre recitar salawat pelo Mensageiro de Allah depois do adhan, respondeu: “Está registrado em Fatawa Khaniyah que o adhan não foi instituído para nenhuma ocasião além das orações obrigatórias. O adhan consiste em quinze frases, sendo a última ‘La ilaha illallah’. Qualquer coisa acrescentada antes ou depois disso é uma inovação. Foi inventada unicamente com o propósito de criar uma melodia. Ninguém declarou lícita essa criação de melodias. As palavras daqueles que qualificam algumas dessas práticas como bid‘ah hasanah (boa inovação) não têm qualquer validade. Toda inovação desse tipo em qualquer ato de adoração é má e injusta. Quem afirma que não há tentativa de criar uma melodia é mentiroso”.

8. Condições da oração

Condição é aquilo cuja ausência implica necessariamente a ausência da coisa que dela depende, mas cuja presença pode ou não estar acompanhada da coisa a ela relacionada. Um exemplo é o wudu. Na sua ausência, a ausência da oração é inevitável. Porém, sua presença não torna inevitável nem obrigatória a presença da oração, pois realizar o wudu não torna obrigatória a realização da oração. As condições que devem ser cumpridas antes da oração, e cuja omissão pelo orante invalida sua oração, são:

1. Conhecer o horário da oração

É suficiente que prevaleça a convicção de que chegou o horário da oração. É lícito rezar para quem sabe com certeza que chegou o horário da oração ou cuja convicção a esse respeito seja predominante. Essa certeza ou convicção predominante pode ser obtida por meio da informação fornecida por uma pessoa confiável, do chamado à oração do muezim encarregado, do próprio ijtihad — isto é, reflexão, investigação e busca de informações — ou de qualquer outra fonte ou método utilizado para adquirir conhecimento.

2. Purificar-se da impureza menor e da impureza maior

Allah, o Altíssimo, disse:

يأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا إِذا قمتم إلى الصَّلاةِ فَاغْسِلُوا وُجُوهَكُمْ، وَأَيْدِيكُمْ إِلَى الْمَرَافِقِ، وَامْسَحُوا بِرُوسِكُمْ وارجلكم إلى الكعبينِ وَإِن كُنتُم جنبًا فَاظْهرُوا

Isto significa: Ó vós que credes! Quando vos dispuserdes a levantar para a oração, lavai o rosto e as mãos até os cotovelos, passai as mãos sobre a cabeça e lavai os pés até os tornozelos. E, se estiverdes em estado de impureza devido à ejaculação, purificai-vos completamente.

Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Allah não aceita a oração sem a purificação, nem a caridade proveniente de bens usurpados. Relatado por todas as coletâneas de hadices autênticos, exceto Sahih al-Bukhari.

3. A pureza do corpo, das roupas e do local onde se reza

Quando for possível cumprir essa condição, deve-se cumpri-la; caso contrário, deve-se rezar mesmo em estado de impureza, e não será necessário repetir essa oração. A questão da pureza corporal é comprovada pelo hadice de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele).

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Purificai-vos da urina, pois geralmente o castigo da sepultura ocorre por causa da negligência nesse assunto.” — Ad-Daraqutni. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Eu tinha emissões muito frequentes de madhi. Por isso, pedi a um homem que perguntasse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele perguntou, e o Mensageiro de Allah respondeu: ‘É necessário lavar o órgão genital e fazer a ablução.’” — Al-Bukhari e outras obras. Nessas obras, é narrado por Aisha que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse à mulher cujo sangramento continuava mesmo após o período menstrual: “Lava o sangue do teu corpo e reza.” Sobre a pureza das roupas, Allah disse:

وَثِيَابَكَ نطور

“Purifica as tuas roupas.” (Surata Al-Muddassir: versículo 4

Jabir ibn Samura, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ouvi um homem perguntar ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: ‘Posso rezar usando a mesma roupa com que vou ter relações com minha esposa?’ O Mensageiro de Allah respondeu: ‘Sim, mas, se vires nela alguma coisa, lava-a.’” — Ahmad e Ibn Majah. Muawiya disse: “Perguntei a Umm Habiba: ‘O Mensageiro de Allah rezava com a mesma roupa com que tinha relações com sua esposa?’ Ela respondeu: ‘Sim, quando não havia nela nenhuma impureza.’” — Ahmad, Abu Dawud, An-Nasa’i e Ibn Majah. Foi narrado por Abu Sa’id, que Allah esteja satisfeito com ele: “Certa vez, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tirou as sandálias durante a oração. Ao vê-lo, os presentes também tiraram as suas sandálias. Quando o Mensageiro de Allah se voltou para eles, perguntou: ‘Por que tirastes as vossas sandálias?’ Eles responderam: ‘Vimos que as tiraste e, por isso, também as tiramos.’ Ele disse: ‘Jibril veio até mim e informou-me que havia impureza nas sandálias. Portanto, quando qualquer um de vós vier à mesquita, deve virar as sandálias e examiná-las. Se encontrar alguma impureza nelas, deve esfregá-las no chão e então rezar.’” — Ahmad e Abu Dawud.

Este hadith prova que, se alguém iniciar a oração levando consigo uma impureza sem saber ou por engano e descobrir isso durante a oração, poderá limpá-la imediatamente e continuar a oração; deverá completar o que falta a partir do ponto em que a oração havia chegado. Não será necessário repetir a oração. A condição de que o local da oração seja puro é comprovada pelo hadith narrado por Abu Huraira. Um beduíno entrou na mesquita e urinou. As pessoas correram em sua direção para castigá-lo. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não lhe digais nada. Derramai um balde de água sobre a sua urina, pois fostes enviados para demonstrar benevolência, não para demonstrar severidade.” — Narrado por todos os livros autênticos de hadith, exceto Muslim.

Após analisar os argumentos daqueles que defendem a exigência da pureza das roupas, Ash-Shawkani disse: “Quando ficou comprovada a validade das provas que apresentei, juntamente com seus significados implícitos, sabei que elas estabelecem como obrigatório purificar as roupas. Portanto, quem reza com impureza na roupa deixa de cumprir uma obrigação. Contudo, assim como a oração se torna inválida quando uma condição de sua validade não é cumprida, ela não se torna inválida simplesmente por causa da impureza da roupa. Na obra Ar-Rawdah An-Nadiyyah, consta: Segundo a maioria dos sábios, a pureza do corpo, da roupa e do local é obrigatória para a oração. Um grupo considera isso uma condição da validade da oração. Outros dizem que é uma sunnah. Porém, a verdade é que é obrigatório. Se alguém rezar deliberadamente levando consigo uma impureza, terá deixado de cumprir uma obrigação, mas sua oração será válida.”

4. Cobrir o awrah (as partes íntimas)

Allah disse:

يبَنِي آدَمَ خُذُوا زِينَتَكُمْ عِنْدَ كُلِّ مَسْجِرٍ .

“Ó filhos de Adão, levai vossas vestes e adornos a cada lugar de prostração (em cada oração).”

Por vestes e adornos entende-se a roupa que cobre a awrah. E o lugar de prostração é a oração. Ou seja, cobri vossa awrah em cada oração. Salama ibn al-Akwa‘ disse: “Eu perguntei: Ó Mensageiro de Deus, devo rezar usando apenas uma camisa? Ele respondeu: Sim, abotoe-a, mesmo que seja com um espinho.” — Bukhari e outros.

Os limites da awrah masculina. Durante a oração, aquilo que é obrigatório o homem cobrir são os órgãos íntimos dianteiro e traseiro. Quanto à coxa, ao umbigo e ao joelho, há divergência. Alguns dizem que também são awrah, enquanto outros dizem que não. A prova dos que afirmam que não são awrah é a seguinte: os defensores dessa opinião apresentam os hadiths abaixo como evidência:

a. Foi narrado por ‘Aisha que o Mensageiro de Deus estava sentado com a coxa descoberta. Nesse momento, Abu Bakr pediu permissão para entrar. Ele lhe deu permissão e permaneceu sentado da mesma maneira. Em seguida, ‘Umar pediu permissão. Ele também lhe deu permissão e continuou sentado como antes. Depois, ‘Uthman pediu permissão. Então ele cobriu a coxa. Quando os três foram embora, eu disse: “Ó Mensageiro de Deus! Abu Bakr e ‘Umar pediram permissão, e tu lhes deste permissão, permanecendo sentado como estavas. Qual é a razão disso?” O Mensageiro de Deus respondeu: “Ó ‘Aisha, acaso não devo ter pudor diante daquele de quem até os anjos têm pudor?” — Ahmad, Bukhari.

b. Foi narrado por Anas: “No dia de Khaybar, o Mensageiro de Deus levantou o izar de cima da coxa. Cheguei até a ver a brancura de seu joelho.” — Ahmad, Bukhari. Ibn Hazm disse: “Isso prova que a coxa não é awrah. Se fosse awrah, Deus não teria descoberto a coxa de Seu puro, santo e inocente Mensageiro depois de ele ter se tornado profeta, nem teria permitido que Anas e outros a vissem; embora Deus o tivesse protegido de expor sua awrah mesmo quando era criança, muito antes da profecia.” Bukhari e Muslim narraram, segundo Jabir: “Quando o Mensageiro de Deus estava removendo pedras com eles para reparar a Caaba, ainda usava o izar. Seu tio ‘Abbas lhe disse: ‘Ó meu sobrinho, por que não tiras o izar, o colocas sobre o pescoço e carregas as pedras sobre ele?’ Quando ele tirou o izar e o colocou sobre o pescoço, caiu inconsciente. Depois disso, nunca mais foi visto despido.”

c. Foi narrado por al-Bara’: ‘Abdullah bateu com a mão na minha coxa e disse: “Eu perguntei a Abu Dharr.” Ele bateu na minha coxa assim como eu bati na tua. Ele disse: “Eu perguntei ao Mensageiro de Deus assim como tu me perguntaste.” Então ele bateu na minha coxa assim como eu bati na tua e disse: “Faze a oração no horário apropriado.”

Ibn Hazm disse: “Se a coxa fosse awrah, o Mensageiro de Deus não teria tocado a coxa de Abu Dharr com sua mão pura. E, se a coxa fosse awrah para Abu Dharr, ele não a teria tocado com a mão. O mesmo se aplica a ‘Abdullah e a al-Bara’. Além disso, não é permitido a nenhum muçulmano, em hipótese alguma, tocar os órgãos genitais ou as nádegas de qualquer pessoa, nem o corpo de certas mulheres, mesmo por cima da roupa.”

d. Ibn Hazm mencionou novamente que Zubair ibn Huwayris olhou para a coxa descoberta de Abu Bakr, e que Anas foi até Qasssa ibn Shamas enquanto sua coxa estava descoberta.

As provas daqueles que consideram a coxa como awrah:

1. Muhammad ibn Jahsh narrou: O Mensageiro de Allah (s.a.w.) passou por Muammar enquanto sua coxa estava descoberta. Então disse: “Ó Muammar, cubra sua coxa, pois a coxa é awrah.” — Ahmad, Hakim e Bukhari.

2. Jarhad disse: O Mensageiro de Allah (s.a.w.) passou por mim enquanto eu usava um manto, mas minha coxa estava descoberta. Ele disse: “Cubra sua coxa, pois a coxa é uma parte íntima.” Malik, Ahmad, Abu Dawud e Tirmidhi. Bukhari também mencionou isso em sua obra histórica.

Foram apresentadas as provas de ambos os lados. Todo muçulmano tem o direito de seguir qualquer uma dessas duas opiniões. Contudo, do ponto de vista islâmico, é mais prudente cobrir, tanto quanto possível, a área entre o umbigo e os joelhos. Bukhari disse: o hadith de Anas é mais autêntico, enquanto o hadith de Jarhad é mais prudente.

Os limites da awrah da mulher:

Todo o corpo da mulher é awrah. É wajib que ela cubra todo o corpo, exceto o rosto e as mãos. Allah, o Altíssimo, disse: “Que as mulheres não exibam seus adornos, exceto aquilo que aparece naturalmente.” Isto é, que não exibam nenhum membro adornado além do rosto e das mãos. Isso é conhecido por meio de hadiths autênticos narrados por Ibn Abbas, Ibn Umar e Aisha. Foi narrado por Aisha (r.a.) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Allah não aceita a oração de uma mulher que atingiu a puberdade sem que ela cubra a cabeça.” — Todos os livros de hadith autênticos, exceto o de Nasai. Também foi narrado por Umm Salama (r.a.) que ela perguntou ao Mensageiro de Allah (s.a.w.): “Pode uma mulher rezar usando apenas uma túnica e um véu, sem uma saia longa (semelhante a uma anágua)?” O Mensageiro de Allah (s.a.w.) respondeu: “Sim, se a túnica for tão comprida que cubra o dorso dos pés.” — Abu Dawud. Também foi narrado por Aisha (r.a.) que lhe perguntaram quantas peças de roupa as mulheres deveriam usar para rezar. Aisha disse ao questionador: “Pergunte a Ali; depois volte a mim e informe-me.” Então ele foi até Ali e perguntou-lhe. Ali respondeu: “Um véu para a cabeça e uma túnica comprida.” Depois, o homem voltou até Aisha e informou-a. Aisha disse: “Ali falou corretamente.”

Quanto de vestimenta é wajib e quanto é mustahabb para a oração:

É obrigatório cobrir do corpo apenas o quanto o tecido cobre das partes íntimas, ainda que ele seja tão estreito e justo que defina os limites dessas partes. Contudo, se a roupa for tão fina que revele a cor da pele, tornando possível saber se ela é branca ou vermelha, não é válido rezar usando-a. É válida a oração com uma única peça de roupa. Abu Huraira relatou: Perguntaram ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — sobre rezar usando uma única peça de roupa. Ele respondeu: “Por acaso todos vocês têm duas peças de roupa?” Muslim, Malik e outros.

É recomendável usar duas ou mais peças de roupa e adornar-se. Ibn Umar relatou que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Quando algum de vocês rezar, que use duas peças de roupa, pois adornar-se para Allah é mais digno do que para os outros. Se não tiver duas peças, que use um lungi durante a oração. E que nenhum de vocês, durante a oração, enrole a roupa ao redor de todo o corpo à maneira dos judeus.” — Tabarani, Bayhaqi.

Abd al-Razzaq também relatou que Ubayy ibn Ka’b e Abd Allah ibn Mas’ud expressaram opiniões divergentes. Ubayy disse: “Não é detestável rezar com uma única peça de roupa.” Ibn Mas’ud disse: “Só se rezava com uma única peça quando havia escassez de roupas.” Imediatamente, Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — subiu ao púlpito e disse: “O que Ubayy disse é correto. Contudo, Ibn Mas’ud também não estava errado. Quando Allah lhes concede abundância, sejam também generosos. Um homem reuniu muitas roupas. Alguns rezaram usando apenas um lungi e um manto; outros, usando apenas um lungi e uma túnica; outros, um lungi e uma túnica longa; outros, calças largas e um manto; outros, calças largas e uma túnica; outros, calças largas e uma túnica longa; outros, calças largas de couro sem pernas e uma túnica longa; e outros, calças largas de couro sem pernas e uma túnica. Considero tudo isso suficiente.” Depois disse: “Também se pode rezar usando calças largas de couro sem pernas e um manto.” Isso é mencionado em Bukhari sem mencionar a causa. Burayda disse: “O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — proibiu rezar usando apenas uma peça de tecido enrolada, sem faixa na cintura. Também proibiu rezar usando calças largas sem um manto.” Abu Dawud.

Bayhaqi. Também foi narrado por Hasan, filho de Ali, que, quando queria rezar, vestia suas roupas mais bonitas. Quando lhe perguntaram sobre isso, respondeu: “Allah é belo e ama a beleza. Estou usando belas roupas para o meu Senhor. Allah disse: ‘Vistam suas melhores roupas em cada oração.’”

— Rezar com a cabeça descoberta

Ibn Asakir narrou, segundo Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele —, que, às vezes, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — tirava sua kulunsuwa (um tipo de gorro que cobre a cabeça) e a colocava diante dele, durante a oração, como uma barreira. Segundo os hanafitas, não há problema em rezar com a cabeça descoberta. Contudo, se alguém usar uma cobertura por concentração na oração, isso é preferível. Entretanto, não há nenhuma prova de que cobrir a cabeça durante a oração seja melhor.

5. Voltar-se na direção da qibla

Há consenso entre os estudiosos de que é obrigatório, durante a oração, voltar-se na direção da Mesquita Sagrada. Allah disse:

قول وجمك عطر المسجد الحرام وحيث ما كنتي قولوا وجومكم شطره.

«Portanto, volta o teu rosto na direção da Mesquita Sagrada. E onde quer que estejais, voltai os vossos rostos nessa direção.» (Surata Al-Baqarah: versículo 144). Foi narrado por Al-Bara: rezamos voltados para Bayt al-Maqdis durante dezesseis ou dezessete meses junto do Mensageiro de Allah. Depois, fomos direcionados para a Caaba. Sahih Muslim

Regra para quem vê diretamente a Caaba e para quem não a vê: aquele que se encontra diante da Caaba deve obrigatoriamente voltar-se diretamente para a Casa da Caaba. Já aquele que não está numa posição de vê-la diretamente deve obrigatoriamente voltar-se na direção ou para o lado da Caaba, pois não lhe é possível fazer mais do que isso. Allah não encarrega ninguém de algo além de sua capacidade. Foi narrado por Abu Huraira que o Mensageiro de Allah disse: «A qibla fica entre o leste e o oeste.» Ibn Majah, At-Tirmidhi. At-Tirmidhi disse que o hadith é hasan sahih. Isso se aplica a Medina, à Síria, à Península Arábica e ao Iraque. Já para os habitantes do Egito, a qibla fica entre o leste e o sul. No Iêmen, o leste fica à direita de quem reza e o oeste à esquerda. No subcontinente indiano, o leste fica atrás e o oeste à frente.

Como identificar a qibla: cada região possui sinais próprios para identificar a qibla. O mihrab que os muçulmanos constroem nas mesquitas é um desses sinais. Da mesma forma, a qibla pode ser identificada por meio de uma bússola.
O que fazer quando não se consegue identificar a qibla: se alguém não conseguir identificar a qibla por causa de nuvens, escuridão ou algo semelhante, deverá perguntar a alguém da região e procurar descobrir a direção da qibla. Se não encontrar ninguém, deverá refletir. Então rezará na direção que, após refletir, lhe parecer ser a direção da qibla. Essa oração será válida. Não será necessário repeti-la em nenhuma circunstância, mesmo que, depois de concluir a oração, descubra que a direção estava errada. Se descobrir isso durante a oração, deverá virar-se para a direção correta sem interrompê-la.

Foi narrado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): Quando as pessoas estavam rezando a oração do fajr em Quba, um mensageiro chegou e anunciou: “Esta noite, uma parte do Alcorão foi revelada ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nessa parte, foi ordenado que se voltassem o rosto para a Caaba. Portanto, voltai o rosto para a Caaba.” Os que rezavam estavam voltados para a Síria (Bayt al-Maqdis). Imediatamente, viraram-se e ficaram voltados para a Caaba. — Al-Bukhari e Muslim.

Quando alguém reza voltado para uma direção com base em sua reflexão e avaliação, deverá reavaliar a questão no horário da oração seguinte. Se o resultado dessa nova avaliação for diferente, deverá rezar de acordo com a segunda avaliação. Contudo, não terá de repetir a oração que fez na primeira ocasião.

Quando não é necessário voltar-se para a qibla: voltar-se para a qibla é obrigatório. Essa obrigação não é suspensa, salvo nas poucas situações seguintes:

a. É permitido ao viajante que está montado rezar uma oração voluntária sobre sua montaria. Ele fará o rukūʿ e a prostração por meio de gestos, inclinando-se um pouco mais para a prostração do que para o rukūʿ. Sua qibla será a direção para a qual a montaria estiver indo.
Foi narrado por Amir ibn Rabi‘a, que disse: “Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rezando sobre sua montaria; ele rezava voltado para a direção em que o animal ia.” — Al-Bukhari e Muslim. Na versão adicional de Al-Bukhari, consta que ele rezava fazendo sinais com a cabeça e que não fazia esse tipo de sinal na oração obrigatória.
Nas narrações de Ahmad, Muslim e At-Tirmidhi consta: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rezava sobre o dorso de seu camelo durante a viagem de Meca a Medina, voltado para a direção em que ele ia.” Foi sobre isso que foi revelado: “Para qualquer direção para a qual vos volteis, ali está Allah.” Ibrahim an-Nakha‘i disse: “Os Companheiros rezavam sobre o dorso de suas montarias voltados para a direção em que elas iam.” Ibn Hazm disse que os Companheiros e os tabi‘in rezavam normalmente dessa maneira, tanto em sua terra natal quanto no exílio.

b. Quando aquele que teme algum perigo, o enfermo ou a pessoa incapaz de agir livremente não puder voltar-se para a qibla, deverá rezar na direção que lhe for possível. Isso porque o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quando vos ordeno algo, cumpri-o na medida do possível.” Allah disse: “Se estiverdes em estado de medo, rezai caminhando ou montados, da maneira que puderdes.” Ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — explicou: isto é, voltados ou não para a qibla. — Bukhari

9. O método da oração

Diversos hadiths que descrevem o método e a forma de realizar a oração foram transmitidos pelo Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Aqui, limitar-nos-emos a citar dois hadiths. O primeiro relata uma ação do Mensageiro de Allah, e o segundo, uma de suas palavras:

a. Foi narrado por Abdullah ibn Ghanam: “Abu Malik al-Ash‘ari reuniu as pessoas de sua tribo e disse: ‘Ó povo dos Ash‘aritas, reuni-vos e reuni também vossas esposas e vossos filhos. Vou ensinar-vos como o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — nos ensinava a rezar em Medina.’ Todos se reuniram conforme ele ordenou, e reuniram também suas esposas e filhos. Então Abu Malik al-Ash‘ari fez a ablução e mostrou-lhes como fazê-la. Lavou todos os membros prescritos da ablução. Depois, quando o sol começou a declinar e as sombras se alongaram, levantou-se e fez o chamado para a oração. Em seguida, colocou os homens na primeira fileira, os meninos atrás deles e as mulheres atrás dos meninos. Depois fez o segundo chamado para a oração. Então avançou e tornou-se o imã. Em seguida, levantou as duas mãos e disse: ‘Allahu akbar’. Recitou a Surata al-Fatiha e uma surata que lhe fosse fácil. Depois disse ‘Allahu akbar’, inclinou-se em rukū‘ e pronunciou três vezes: ‘Subhanallahi wa bihamdihi’. Então levantou-se dizendo: ‘Sami‘allahu liman hamidah’. Depois disse ‘Allahu akbar’ e prostrou-se. Em seguida, disse ‘Allahu akbar’ e levantou a cabeça. Novamente disse ‘Allahu akbar’ e prostrou-se. Depois disse novamente ‘Allahu akbar’, levantou-se e ficou ereto. Assim, na primeira rak‘ah, foram pronunciados seis takbirs, isto é, seis vezes ‘Allahu akbar’. Quando se levantou para a segunda rak‘ah, disse ‘Allahu akbar’. Ao terminar a oração, voltou-se para as pessoas de sua tribo e ficou de frente para elas. Então disse: ‘Guardai na memória este meu takbir e aprendei de mim o rukū‘ e a prostração, pois esta é a oração do Mensageiro de Allah. Foi assim que ele nos ensinou a rezar.’ Certa vez, quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — terminou a oração dessa maneira, voltou-se para a multidão e disse: ‘Ó gente! Escutai, compreendei e sabei que entre os servos de Allah há alguns que não são profetas nem mártires. No entanto, ao verem sua proximidade e seu elevado status junto a Allah, até os profetas e os mártires desejarão para si uma proximidade e um status semelhantes aos deles.’ Subitamente, um beduíno avançou da extremidade da multidão reunida e, agitando a mão diante do Profeta de Allah, disse: ‘Ó Profeta de Allah, há entre as pessoas alguns escolhidos que não são profetas nem mártires, mas cuja proximidade e elevado status junto a Allah fazem com que os profetas e os mártires desejem para si uma proximidade e um status semelhantes. Descreve-nos alguns de seus sinais.’ O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: ‘São pessoas comuns, de diferentes grupos, e pessoas que vieram de diferentes tribos. Não estão ligadas por relações próximas de sangue nem por laços de parentesco. Amaram-se umas às outras somente por Allah e permaneceram unidas em fileiras. No Dia da Ressurreição, Allah instalará para elas púlpitos luminosos e as fará sentar sobre eles. Tornará luminosos seus rostos e suas vestes. No Dia da Ressurreição, quando todas as outras pessoas estiverem aterrorizadas, elas não estarão aterrorizadas. Elas são os amigos de Allah; não terão medo nem ficarão preocupadas.’ — Ahmad e Abu Ya‘la, com uma cadeia de transmissão hasan. Al-Hakim disse: ‘A cadeia deste hadith é sahih.’

b. Foi narrado por Abu Hurayra — que Allah esteja satisfeito com ele — que um homem entrou na mesquita e rezou. Depois, foi até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e o cumprimentou. Ele respondeu ao cumprimento e disse: “Volta e reza, pois não rezaste.” O homem voltou e fez o mesmo três vezes. Então disse: “Juro por Allah, que vos enviou com a verdade, não consigo rezar melhor do que isso. Ensinai-me.”

Ele disse: “Quando te levantares para a oração, pronuncia o takbir. Depois recita do Alcorão aquilo que puderes. Em seguida, inclina-te em rukū‘ e permanece tranquilamente no rukū‘. Depois levanta-te e fica completamente ereto. Em seguida, prostra-te e permanece tranquilamente na prostração. Depois levanta-te e senta-te tranquilamente. Em seguida, prostra-te e permanece tranquilamente na prostração. Faz isso durante toda a tua oração.” — Ahmad, Bukhari e Muslim.

Esta é, em linhas gerais, a forma de realizar a oração que conhecemos pelas palavras e ações do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nós a realizamos distinguindo entre as obrigações e as práticas da sunnah.

10. As obrigações da oração

A oração possui certos deveres obrigatórios e pilares que a constituem. Se algum desses deveres obrigatórios for omitido, a oração não será válida segundo a Lei Islâmica. A seguir, serão apresentados os deveres obrigatórios:

1. A intenção

(Alguns consideram-na uma condição, e não um pilar.) Pois Deus disse: “Foi-lhes ordenado apenas adorar a Deus, dedicando exclusivamente a Ele a devoção e a obediência.” (Surata Al-Bayyina: versículo 5)

E o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: “As ações são determinadas apenas pelas intenções, e cada pessoa terá aquilo que intencionou. Assim, aquele cuja migração for por Deus e por Seu Mensageiro, sua migração será por Deus e por Seu Mensageiro. E aquele cuja migração for para obter algum benefício mundano ou para se casar com uma mulher, sua migração será para aquilo pelo qual migrou.” Bukhari. Isto é: sua migração será do tipo mais inferior. A profunda sabedoria disso já foi discutida anteriormente na explicação da ablução.

Pronunciar a intenção verbalmente: Ibn al-Qayyim disse em sua obra intitulada Ighāthat al-Lahfān: A intenção consiste em desejar e decidir realizar uma ação. Seu lugar é o coração; ela não tem relação alguma com a língua. É por isso que não foi transmitida nenhuma intenção verbal, nem da parte do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, nem da parte dos Companheiros. As fórmulas de intenção verbal que hoje foram inventadas para serem recitadas no início da ablução, do banho ritual e da oração são um campo de batalha criado por Satanás para aqueles que se deixam dominar pelas más sugestões. Nesse campo, ele os aprisiona, atormenta-os e mantém-nos ocupados corrigindo essas fórmulas. Por isso, você verá cada um deles repetindo-as muitas vezes e esforçando-se intensamente para pronunciá-las corretamente, embora elas não tenham absolutamente nenhuma relação com a oração.

2. O takbīr de consagração

Alī relatou que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A chave da oração é a purificação; o takbīr torna ilícitas, na oração, todas as ações lícitas; e a saudação final torna todas as ações lícitas.” — Al-Shāfiʿī, Aḥmad, Abū Dāwūd, Ibn Mājah e Al-Tirmidhī. Al-Tirmidhī disse que este é o relato mais autêntico sobre o assunto. Além disso, os dois hadiths citados anteriormente, por meio das palavras e ações do Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, já estabeleceram a fórmula “Allāhu Akbar” para o takbīr de consagração ou de entrada no estado ritual. Pois foi narrado por Abū Ḥumayd em Ibn Mājah: “Sempre que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, se levantava para orar, ficava ereto, levantava as duas mãos e dizia: Allāhu Akbar.”

3. Qiyām (ficar de pé)

À luz do Alcorão, da Sunnah e do consenso dos sábios, é obrigatório que aquele que tem capacidade de ficar de pé permaneça de pé na oração obrigatória. Deus diz: “Observai todas as orações, especialmente a oração intermediária, e permanecei diante de Deus com humildade.”

Foi narrado por Imran ibn Husayn — que Deus esteja satisfeito com ele —: “Ele disse: Eu sofria de hemorroidas. Por isso, perguntei ao Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e lhe conceda paz — sobre a oração. Ele disse: Reza de pé. Se não puderes, reza sentado; e, se não puderes, reza deitado.” — Bukhari. Todos os sábios concordam com esta posição. Também concordam que, ao permanecer de pé, é melhor deixar um pequeno espaço entre os dois pés.

O qiyam na oração voluntária: é permitido rezar sentado na oração voluntária, mesmo tendo capacidade de permanecer de pé. Contudo, a recompensa por rezar de pé é maior do que a recompensa por rezar sentado. Abdullah ibn Umar — que Deus esteja satisfeito com ele — narrou que o Mensageiro de Deus disse: “A oração realizada sentado equivale à metade da oração.” — Bukhari e Muslim.

Quando não puder permanecer de pé na oração obrigatória: aquele que não puder permanecer de pé na oração obrigatória deverá rezar da maneira que lhe for possível. Pois Deus não impõe a ninguém uma responsabilidade além da sua capacidade. Ele receberá a recompensa completa, sem qualquer redução. Abu Musa — que Deus esteja satisfeito com ele — disse que o Mensageiro de Deus disse: “Quando um servo adoece ou viaja, receberá a mesma recompensa que receberia pelas obras que realizava quando estava saudável e em sua residência.” — Bukhari.

4. Recitação da Surata al-Fatiha em cada rak‘ah das orações voluntárias e obrigatórias

A obrigatoriedade de recitar a Surata al-Fatiha em cada rak‘ah foi comprovada por numerosos hadiths autênticos. Como os hadiths relacionados a esse assunto são claros e autênticos, não há espaço para divergência quanto a isso. Apresentamos a seguir esses hadiths:

a. Foi narrado por Ubadah ibn as-Samit — que Deus esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Deus disse: “A oração daquele que não recita a Surata al-Fatiha não é válida.” — Todas as coletâneas de hadiths autênticos.

b. Foi narrado por Abu Huraira — que Deus esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Deus disse: “Aquele que rezou, mas não recitou na oração Umm al-Kitab (isto é, a mãe do Alcorão, ou a Surata al-Fatiha), ou, conforme outra narração, não recitou a Surata al-Fatiha, terá uma oração incompleta e inválida.” — Ahmad, Bukhari e Muslim.

c. Foi narrado por Abu Huraira que o Mensageiro de Deus disse: “A oração na qual não se recita a Surata al-Fatiha não é suficiente.” — Ibn Khuzayma, Ibn Hibban e Abu Hatim.

d. Ad-Daraqutni narrou, com uma cadeia autêntica de transmissores: “A oração daquele que reza sem a Surata al-Fatiha não lhe é suficiente.”

e. Abu Said disse: “Fomos ordenados a rezar recitando a Surata al-Fatiha e tudo o mais que pudéssemos recitar.” — Abu Dawud.

f. O hadith sobre aquele que rezou de maneira incorreta, conforme foi narrado por outra cadeia de transmissão, diz: “Depois, recita Umm al-Qur’an (a Surata al-Fatiha).” Por fim, o Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Depois, faz isso em cada rak‘ah.”

g. Está comprovado por fatos que o Mensageiro de Deus — que Deus o abençoe e lhe conceda paz — recitava a Surata al-Fatiha em cada rak‘ah das orações voluntárias e obrigatórias. Nada em contrário foi comprovado. Todos os atos de adoração dependem da obediência e do seguimento sem questionamento. O Mensageiro de Deus disse: “Rezai da maneira como me vistes rezar.” — Bukhari.

Dizer Bismillah no início da Surata al-Fatiha: “Bismillahir-Rahmanir-Rahim” faz parte de um versículo da Surata an-Naml. Contudo, quanto ao “Bismillahir-Rahmanir-Rahim” que aparece no início das suratas, há três opiniões:

Primeira opinião: é um versículo tanto da Surata al-Fatiha quanto de cada surata. Portanto, é obrigatório recitá-lo na al-Fatiha. Na oração em que a Surata al-Fatiha deve ser recitada silenciosamente, a Bismillah também deve ser recitada silenciosamente; e, na oração em que a Surata al-Fatiha deve ser recitada em voz alta, a Bismillah também deve ser recitada em voz alta. A prova mais forte dessa opinião é o hadith de Nuaym al-Mujammir. Ele disse: “Rezei atrás de Abu Huraira. Ele recitou ‘Bismillahir-Rahmanir-Rahim’ e, em seguida, recitou Umm al-Qur’an (a Surata al-Fatiha). […] Ao final, disse: Juro por Deus, conduzi a oração da maneira mais semelhante à oração do Mensageiro de Deus.” — Nasa’i, Ibn Khuzayma e Ibn Hibban. O hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: “Este é o hadith mais autêntico sobre a recitação em voz alta e sobre recitar a Bismillah…”

Segundo a segunda opinião: “Bismillahir Rahmanir Rahim” é um versículo independente, revelado para trazer bênção e facilitar a distinção entre as suratas. Recitá-lo na Surata Al-Fátiha não é apenas permitido; é recomendável. Não é sunnah recitá-lo em voz alta. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Rezei atrás do Mensageiro de Allah, de Abu Bakr, de Umar e de Uthman. Nenhum deles recitava ‘Bismillahir Rahmanir Rahim’ em voz alta.” — An-Nasa’i, Ibn Hibban e At-Tahawi.

Segundo a terceira opinião: ele não é um versículo nem da Surata Al-Fátiha nem de qualquer outra surata. Fora das orações voluntárias, é makruh recitá-lo em voz alta ou silenciosamente nas orações obrigatórias. Essa opinião não é muito forte.

Ibn al-Qayyim conciliou a primeira e a segunda opiniões, afirmando que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, às vezes recitava “Bismillahir Rahmanir Rahim” em voz alta, mas que o recitava silenciosamente com maior frequência. É certo que ele não o recitava sempre em voz alta nas cinco orações diárias, durante o dia e a noite, tanto em viagem quanto em casa. Depois dele, os califas, a maioria dos Companheiros e os habitantes das cidades também o recitavam silenciosamente.

Aquele que não consegue recitar corretamente a recitação obrigatória: Al-Khattabi disse: “O princípio é que a oração não é válida sem a recitação da Surata Al-Fátiha. Também é razoável afirmar que sua recitação é obrigatória para aquele que consegue recitar corretamente a Surata Al-Fátiha, mas não para aquele que não consegue. Se um orante não consegue recitar corretamente a Surata Al-Fátiha, mas consegue recitar outra parte do Alcorão, deve recitar dessa parte uma quantidade equivalente a sete versículos. Isso porque, depois da Surata Al-Fátiha, a melhor recitação é uma parte do Alcorão equivalente a ela. Se ele não for capaz de aprender nenhuma parte do Alcorão — seja por uma incapacidade congênita, por memória insuficiente, por dificuldade de pronúncia ou por sofrer de alguma deformidade ou deficiência —, então, depois do Alcorão, a melhor recitação para ele são ‘Subhanallah’, ‘Alhamdulillah’ e ‘La ilaha illallah’, ensinadas pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Foi narrado que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Depois das palavras de Allah, a melhor recordação é: Subhanallah, Alhamdulillah, La ilaha illallah e Allahu Akbar.’ Um hadith narrado por Rifa‘ah ibn Rafi‘ apoia a afirmação de Al-Khattabi: ‘O Mensageiro de Allah ensinou a oração a um homem e depois disse: Se tiveres memorizado alguma parte do Alcorão, recita-a; caso contrário, recita Alhamdulillah, Allahu Akbar e La ilaha illallah.’ — Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i e Al-Bayhaqi.

5. Fazer o rukū‘

A obrigatoriedade do rukū‘ é consenso geral, pois Allah, o Altíssimo, disse:

بابها الَّذِينَ آمَنُوا ارْكَعُوا وَاسْجَدُوا

“Ó crentes, inclinai-vos e prostrai-vos…” (Surata Al-Hajj, versículo 77)

A regra do rukūʿ: não basta inclinar o corpo e colocar as duas mãos sobre os joelhos para que o rukūʿ seja válido; é necessário permanecer calmamente nessa posição durante algum tempo. Pois já foi mencionado anteriormente em um hadith que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Depois, faz o rukūʿ e permanece nele tranquilamente.” Foi narrado por Abu Qatadah que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que rouba da oração é o maior dos ladrões.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, como alguém pode roubar da oração?” Ele respondeu: “Não completa o rukūʿ nem a prostração.” Em outra narração, consta que ele não endireita as costas durante o rukūʿ e a prostração. — Ahmad, at-Tabarani, Ibn Khuzaymah e al-Hakim. Abu Musa al-Badri também disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A oração de quem não endireita as costas durante o rukūʿ e a prostração não é válida.” — As cinco coleções autênticas de hadith, Ibn Khuzaymah, Ibn Hibban, at-Tabarani e al-Bayhaqi. At-Tirmidhi disse: “O hadith é bom e autêntico.” Os Companheiros do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os sábios posteriores também seguiram esse hadith. Eles consideram obrigatório endireitar as costas durante o rukūʿ e a prostração, bem como entre o rukūʿ e a prostração.

Foi narrado por Hudhayfah (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele viu um homem que não fazia completamente o rukūʿ e a prostração. Hudhayfah disse-lhe: “Tu não rezaste. Se morreres nessa condição, morrerás afastado da religião que Allah revelou a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” — Al-Bukhari.

6. Levantar-se do rukūʿ e permanecer de pé, ereto, imóvel e tranquilo

Ao descrever a maneira como o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazia a oração, Abu Humayd disse: “Quando ele levantava a cabeça, ficava tão ereto que todos os ossos das costas retornavam às suas posições e permaneciam firmes.” — Al-Bukhari e Muslim. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando ele se levantava do rukūʿ, não ia para a prostração sem ficar completamente ereto.” — Muslim. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Depois, levanta a cabeça e fica ereto.” — Al-Bukhari e Muslim. Foi narrado por Abu Hurayrah: “Allah não olha para a oração daquele que não mantém as costas estendidas entre o rukūʿ e a prostração.” — Ahmad.

7. Fazer a prostração

Os versículos do Alcorão que comprovam a obrigatoriedade da prostração já foram citados anteriormente. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Depois, vai para a prostração e permanece nela tranquilamente. Em seguida, levanta-te, senta-te e permanece sentado tranquilamente. Depois, vai novamente para a prostração e permanece nela com firmeza.” Portanto, fazer a primeira prostração, levantar-se dela, voltar a fazer a segunda prostração e realizar tudo isso com estabilidade e tranquilidade são obrigatórios em cada rakʿah das orações obrigatórias e voluntárias.

Duração da permanência firme e tranquila: permanecer tranquilamente significa ficar nessa posição por algum tempo depois que os membros do corpo estiverem estabilizados. Os sábios estabeleceram como duração mínima o tempo equivalente a dizer “Subhanallah” uma vez.

As partes do corpo usadas na prostração: são o rosto, as duas mãos, os dois joelhos e os dois pés. Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele ouviu o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Quando o servo se prostra, sete partes do seu corpo se prostram com ele: o rosto, as duas mãos, os dois joelhos e os dois pés.” — Todas as coleções autênticas de hadith, exceto Al-Bukhari. Ibn Abbas disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a ordem de prostrar-se sobre sete partes do corpo e foi proibido de levantar o cabelo e as roupas ao ir para a prostração na oração. As sete partes são a testa, as duas mãos, os dois joelhos e os dois pés.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Foi-me ordenado prostrar-me sobre sete ossos”: e, indicando o nariz com a mão, mencionou a testa, o nariz, as duas mãos, os dois joelhos e os dois pés. — Al-Bukhari e Muslim. Em outra narração consta: “Foi-me ordenado prostrar-me sobre sete partes do corpo e fui proibido de levantar as roupas ou o cabelo ao ir para a prostração. As sete partes são: a testa, o nariz, as duas mãos, os dois joelhos e os dois pés.” — Muslim e An-Nasa’i. Foi narrado por Abu Humayd: “Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ia para a prostração, encostava o nariz e a testa no chão.” — Abu Dawud e At-Tirmidhi. At-Tirmidhi disse: “A prática seguida pelos sábios é prostrar-se sobre a testa e o nariz.” Se alguém encostar apenas a testa no chão e não o nariz, um grupo de sábios diz que a oração é válida, enquanto outro grupo diz que ela não é válida até que tanto a testa quanto o nariz sejam encostados no chão.

8. A sessão final e a recitação do tashahhud nela

Está comprovado que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia a sessão final na oração e nela recitava o tashahhud. Ele disse a um homem que havia rezado incorretamente: “Quando te levantares da última prostração e te sentares pelo tempo necessário para o tashahhud, tua oração estará concluída.” Ibn Qudamah disse que Ibn Abbas relatou: “Antes de o tashahhud se tornar obrigatório para nós, dizíamos: ‘As-salamu alallahi qabla ibadihi, as-salamu ala Jibril, as-salamu ala Mikail’.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Em vez de dizerdes ‘As-salamu alallah’, dizei ‘At-tahiyyatu lillahi’.” Isso prova que a recitação de ‘At-tahiyyatu’ não era obrigatória no início; tornou-se obrigatória posteriormente.

A formulação mais autêntica do tashahhud A formulação mais autêntica do tashahhud é o tashahhud de Ibn Masud. Ibn Masud disse: “Quando nos sentávamos com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, durante a oração, dizíamos: ‘As-salamu alallahi qabla ibadihi, as-salamu ala fulan, wa fulan’.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “‘As-salamu alallah’” — não digais “paz sobre Allah”, pois Allah é a própria paz. Em vez disso, quando vos sentardes na sessão da oração, dizei: “‘At-tahiyyatu lillahi was-salawatu wat-tayyibat, as-salamu alaika ayyuhan-nabiyyu wa rahmatullahi wa barakatuhu. As-salamu alaina wa ala ibadillahis-salihin. Ashhadu alla ilaha illallah, wa ashhadu anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu.’” Depois, fareis súplica recitando a súplica que mais vos agradar.” Todas as coletâneas de hadith autênticos. Muslim disse: “Os muçulmanos concordaram quanto ao tashahhud de Ibn Masud, pois os discípulos de Ibn Masud não divergiram entre si ao transmitirem esse tashahhud, ao passo que os discípulos dos demais divergiram entre si.” At-Tirmidhi. Al-Khattabi, Ibn Abd al-Barr e Ibn al-Mundhir consideraram o hadith de Ibn Masud o mais autêntico sobre o tashahhud. Depois do tashahhud de Ibn Masud, o mais autêntico é o tashahhud de Ibn Abbas. Ibn Abbas disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ensinava-nos o tashahhud assim como nos ensinava o Alcorão. Ele dizia: ‘At-tahiyyatul-mubarakatu, as-salawat ut-tayyibatu lillah, as-salamu alaika ayyuhan-nabiyyu wa rahmatullahi wa barakatuhu, as-salamu alaina wa ala ibadillahis-salihin, ashhadu alla ilaha illallah wa ashhadu anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu.’” Muslim, Abu Dawud, An-Nasai e Ash-Shafii. Ash-Shafii disse: “Há vários hadiths transmitidos sobre o tashahhud. Porém, este é o que mais aprecio, porque é relativamente mais completo.” Al-Hafiz disse: “Quando perguntaram a Ash-Shafii por que havia escolhido o tashahhud de Ibn Abbas, ele respondeu: ‘Porque o achei amplo e abrangente, e o recebi de Ibn Abbas com uma cadeia de transmissão autêntica. Em termos de formulação, também o considero mais amplo e abrangente que os demais. Contudo, embora o tenha escolhido, não censuro aqueles que escolheram outros tashahhuds autênticos.’” Há ainda outro tashahhud, adotado pelo Imam Malik e citado no Muwatta. Umar ibn al-Khattab ensinava esse tashahhud às pessoas, sentado no púlpito da mesquita. Ele é: “‘At-tahiyyatu lillah, az-zakiyatu lillah was-salawatu lillah, as-salamu alaika ayyuhan-nabiyyu wa rahmatullahi wa barakatuhu, as-salamu alaina wa ala ibadillahis-salihin, ashhadu alla ilaha illallah wa ashhadu anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu.’” An-Nawawi disse: “Todos esses hadiths sobre o tashahhud são autênticos. Segundo os princípios dos estudiosos do hadith, o mais autêntico é o de Ibn Masud, seguido pelo de Ibn Abbas.” Ash-Shafii disse: “É suficiente recitar qualquer um desses tashahhuds. Os estudiosos concordam quanto à validade de todos eles.”

9. O salam final

As palavras e os atos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, comprovam que o salam no final da oração é obrigatório. Segundo uma narração de Ali, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A chave da oração é a purificação; o takbir — o primeiro takbir — torna ilícitas para aquele que reza muitas ações lícitas, e o salam torna-as novamente lícitas.” Ahmad, Ash-Shafii, Abu Dawud, Ibn Majah e At-Tirmidhi. Segundo At-Tirmidhi, este é o hadith mais autêntico e melhor sobre esse assunto. Amir ibn Sad narra de seu pai, que disse: “Eu via o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazer o salam para a direita e para a esquerda de tal modo que se via a parte branca de suas faces.” Ahmad, Muslim, An-Nasai e Ibn Majah. Wail ibn Hujr narrou: “Rezei com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele dizia para a direita: ‘As-salamu alaikum wa rahmatullah’, e para a esquerda: ‘As-salamu alaikum wa rahmatullah’.” Abu Dawud.

O primeiro salam é obrigatório e o segundo é recomendado Segundo a maioria dos estudiosos, o primeiro salam é obrigatório, enquanto o segundo é recomendado. Ibn al-Mundhir disse: “Os estudiosos concordam que, se alguém fizer o salam apenas uma vez, sua oração estará concluída.” Ibn Qudamah disse em Al-Mughni: “A declaração de Ahmad sobre os dois salams não estabelece inequivocamente que ambos sejam obrigatórios. Ahmad apenas disse: ‘Os dois salams foram autenticamente comprovados como provenientes do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.’ Com isso, ele também pode ter pretendido indicar que os dois salams são prescritos, mas não obrigatórios. Outros também expressaram essa opinião.” Em uma transmissão, a declaração de Ahmad aparece assim: “Para mim, os dois salams são os mais preferíveis.” Isso também não prova que sejam obrigatórios; prova apenas que são preferíveis. Além disso, Aisha, Salamah ibn al-Akwa e Sahl narraram que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia o salam uma vez, e que os emigrantes também faziam o salam uma vez.

Com base em tudo o que mencionamos acima, conciliando os hadiths com as declarações dos Companheiros, estabeleceu-se que os dois salams são prescritos e sunnah, enquanto um único salam é obrigatório. O consenso transmitido por Ibn al-Mundhir comprova a correção dessa opinião. Portanto, ela é incontestável. An-Nawawi disse: “Ash-Shafii, a maioria dos antigos estudiosos e a maioria dos estudiosos posteriores consideram os dois salams uma sunnah.” Malik e um grupo de estudiosos disseram: “A sunnah é apenas um salam.” Os que dizem isso baseiam-se em alguns hadiths fracos, que não resistem diante dos hadiths autênticos mencionados acima. Ainda que um deles fosse autêntico, ele apenas indicaria que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez o salam uma vez para estabelecer a permissibilidade de limitar-se a um único salam. Os estudiosos cujas opiniões têm maior peso concordam que não é obrigatório fazer mais de um salam. Se alguém fizer o salam uma vez, é recomendado que o faça voltado para a frente. Se fizer o salam duas vezes, deverá voltar-se primeiro para a direita e depois para a esquerda. Em cada salam, deverá virar o rosto o suficiente para que sua face possa ser vista de lado. Esta é a opinião correta.

11. As sunnahs da oração

Há algumas sunnas da oração cuja observância é recomendável para o orante que deseja obter a recompensa completa. As sunnas são mencionadas a seguir:

1. Rafʿ al-yadayn (levantar as mãos)

É recomendável levantar as mãos em quatro ocasiões. Primeiro: no momento do takbīrat al-iḥrām. Ibn al-Mundhir disse: não há qualquer divergência entre os sábios quanto ao fato de que o Mensageiro de Allah levantava as mãos no início da oração. O hafiz Ibn Hajar disse que cinquenta Companheiros narraram o ato de levantar as mãos no início da oração. Entre eles estavam os dez Companheiros que receberam, ainda em vida, a boa-nova do Paraíso, os chamados ʿAshara Mubashshara. Al-Bayhaqi narrou de al-Hakim: “Não conhecemos nenhuma outra sunna, além desta, sobre cuja transmissão do Mensageiro de Allah tenham concordado os quatro califas, depois os dez Companheiros que receberam a boa-nova do Paraíso e os Companheiros posteriores que se espalharam por todo o mundo.”

A maneira de levantar as mãos: há várias narrações sobre a maneira de levantar as mãos. A maneira sobre a qual a maioria dos sábios concorda é que se devem elevar ambas as mãos até a altura do pescoço; as pontas dos dedos devem alcançar a parte superior das orelhas, os polegares devem alcançar os lóbulos das orelhas e as palmas das duas mãos devem ser elevadas até a altura do pescoço. O imã al-Nawawi disse: foi assim que al-Shafiʿi conciliou os hadiths relacionados a este assunto. As pessoas também aprovaram essa conciliação. É recomendável manter os dedos estendidos ao levantar as mãos. Nos cinco livros restantes dos hadiths autênticos, além do Sunan de Ibn Majah, foi narrado por Abu Hurayra que, sempre que o Mensageiro de Allah se levantava para a oração, elevava as duas mãos estendidas.

Ao levantar as mãos, isso deve ocorrer simultaneamente ao takbīrat al-iḥrām ou antes dele. Ibn ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, sempre que entrava na oração, dizia o takbīr e levantava as mãos. Ele narrou que o próprio Mensageiro de Allah fazia o mesmo. — Al-Bukhari, al-Nasa’i e Abu Dawud. Também foi narrado por Ibn ʿUmar que o Mensageiro de Allah levantava as mãos no momento em que dizia o takbīr. Elevava as duas mãos até a altura do pescoço ou próximo dela. — Ahmad e outros. Também foi narrado por Ibn ʿUmar que se levantavam as mãos antes do takbīrat al-iḥrām.

Ele disse: “Quando o Mensageiro de Allah se levantava para a oração, elevava as mãos à altura do pescoço e depois dizia o takbīr.” — Al-Bukhari e Muslim. A formulação do hadith de Malik ibn al-Huwayrith é a seguinte: “Ele dizia o takbīr e depois levantava as mãos.” — Muslim. Este hadith tornou obrigatório dizer o takbīrat al-iḥrām antes de levantar as mãos. Contudo, o hafiz disse: não vi ninguém afirmar que primeiro se dizia o takbīr e depois se levantavam as mãos.

O segundo e o terceiro levantamentos das mãos: também é recomendável levantar as mãos ao inclinar-se para o rukūʿ e ao levantar-se dele. Vinte e dois Companheiros narraram que o Mensageiro de Allah fazia isso. Foi narrado por Ibn ʿUmar:

“Quando o Mensageiro de Allah se levantava para a oração, elevava as duas mãos até a altura do pescoço e depois dizia o takbīr. Quando queria fazer o rukūʿ, levantava novamente as mãos da mesma maneira; e, ao levantar-se do rukūʿ, também as levantava da mesma forma e dizia: ‘Samiʿa Allahu liman hamidah, Rabbana wa laka al-hamd.’” — Al-Bukhari, Muslim e al-Bayhaqi. Em al-Bukhari também consta que ele não fazia isso ao descer para a prostração nem ao levantar-se dela. Em Muslim consta ainda que ele não fazia isso ao levantar-se da prostração nem entre as duas prostrações. Em al-Bayhaqi consta que sua oração continuou sendo realizada dessa maneira até a sua morte. Ibn al-Madini disse: “Este hadith é uma prova diante do mundo inteiro; quem o ouvir tem o dever de segui-lo, pois sua cadeia de transmissão não apresenta nenhum defeito.” Al-Bukhari compôs um capítulo separado sobre esta questão e nele narrou, de al-Hasan e Humayd ibn Hilal, que os Companheiros faziam isso, isto é, levantavam as mãos nas três ocasiões mencionadas. Al-Hasan não omitiu nenhuma das três. A posição da escola hanafita é que, além do takbīrat al-iḥrām, não é prescrito pela sharia levantar as mãos em nenhum outro momento. Sua prova é o hadith de Ibn Masʿud. Ele disse: “Eu vos ensinarei a oração do Mensageiro de Allah.” Então conduziu a oração e não levantou as mãos senão uma vez. A opinião dos hanafitas é fraca, pois numerosos especialistas em hadith criticaram esse hadith. Ibn Hibban, contudo, considerou-o uma boa narração. O hadith narrado pelos habitantes de Kufa para sustentar a não elevação das mãos durante o rukūʿ e ao levantar-se dele é, na realidade, o mais fraco dos hadiths. Isso porque contém muitos defeitos que o tornam inválido. Mesmo que se admitisse que o hadith é autêntico, como disse al-Tirmidhi, ainda assim ele não contradiz os famosos hadiths autênticos. O autor da obra al-Tanqih considera que Ibn Masʿud, assim como esqueceu algumas outras coisas, pode também ter esquecido o ato de levantar as mãos. Al-Zaylaʿi citou em sua obra Nasb al-Raya, com base em al-Tanqih: “Não há motivo para admirar-se de Ibn Masʿud ter esquecido. Os muçulmanos de todo o mundo não esqueceram as suratas al-Nas e al-Falaq do Alcorão, mas Ibn Masʿud as esqueceu! Ele esqueceu aquilo sobre o qual todos os sábios concordaram. Também esqueceu como dois homens devem permanecer atrás do imã. Assim, tendo esquecido várias coisas, o que há de impossível em que tenha esquecido o ato de levantar as mãos na oração? Afinal, esquecer não é algo anormal.”

O quarto momento para levantar as mãos: Nāfiʿ narrou, de Ibn ʿUmar, que, quando ele se levantava da posição sentada após a segunda rakʿah, levantava as mãos. Ele mencionou que havia recebido isso de Ibn ʿUmar — que Allah esteja satisfeito com ele —, que, por sua vez, o havia recebido do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. — Bukhari, Abu Dawud e Nasāʾī. Ao descrever a oração do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, ʿAlī — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — se levantava após as duas prostrações, isto é, após a segunda rakʿah, levantava as mãos até o pescoço e pronunciava o takbīr.” — Abu Dawud, Ahmad e Tirmidhi.

Igualdade entre mulheres e homens nesta sunnah: Al-Shawkānī disse: “Saibam que, nesta sunnah, mulheres e homens são iguais. Não há nenhuma prova de diferença entre mulheres e homens a esse respeito. Também não há nenhuma prova de diferença entre mulheres e homens quanto à altura até a qual se devem levantar as mãos.”

2. Colocar a mão direita sobre a mão esquerda

É mustahabb, durante a oração, colocar a mão direita sobre a mão esquerda. Há vinte hadiths sobre isso, narrados por vinte e oito Companheiros e tābiʿūn. Foi narrado por Sahl ibn Saʿd que ele disse: “Ordenava-se às pessoas que os homens colocassem, durante a oração, a mão direita sobre a mão esquerda.” Abu Hazim disse: “Sei que este hadith foi narrado do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” — Bukhari, Ahmad e Malik. Al-Hafiz disse: “Deve-se considerar que este hadith foi narrado do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, pois se presume que aquele que emitiu a ordem mencionada no hadith foi o próprio Mensageiro de Allah.” O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — também disse: “Nós, os profetas, fomos ordenados a apressar o iftar, atrasar o sahur e colocar a mão direita sobre a mão esquerda durante a oração.”

Foi narrado por Jābir — que Allah esteja satisfeito com ele — que um homem estava rezando. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — passou por ele. O homem rezava colocando a mão esquerda sobre a mão direita. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — afastou-lhe a mão e colocou a mão direita sobre a mão esquerda. — Ahmad e outros. Al-Nawawī disse: “A cadeia de transmissão deste hadith é autêntica.” Ibn ʿAbd al-Barr disse: “Nada contrário a isso foi transmitido da parte do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” A maioria dos Companheiros e dos tābiʿūn adotava essa opinião. O imām Mālik — que Allah tenha misericórdia dele — também a mencionou em seu Muwattaʾ. Mālik, na prática, procedeu assim durante toda a sua vida.

O local onde se colocam as mãos: Ibn al-Humām disse: “A questão de se o local onde se colocam as mãos deve ser abaixo do peito ou abaixo do umbigo não foi comprovada por nenhum hadith autêntico.” Para os hanafitas, deve ser abaixo do umbigo; para os shafiitas, abaixo do peito. Duas opiniões foram narradas de Ahmad, correspondentes às opiniões dessas duas escolas jurídicas. Contudo, o correto é conciliar ambas. Tirmidhi disse: “Entre os Companheiros, os tābiʿūn e os que vieram depois deles, os sábios competentes consideram que os homens devem colocar a mão direita sobre a mão esquerda. Alguns deles preferem colocá-las abaixo do umbigo, enquanto outros preferem colocá-las abaixo do peito. Todas essas formas são válidas para eles.” Entretanto, sabe-se por algumas narrações que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — colocava as duas mãos abaixo do peito. No hadith narrado por Ahmad, Hulb al-Tāʾī disse: “Vi o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — colocar a mão direita sobre a mão esquerda e colocá-las sobre a junção dos dois ossos no peito.” Wāʾil ibn Hujr disse: “Rezei com o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele colocou a mão direita sobre a mão esquerda e colocou-as sobre o peito.” Ibn Khuzaymah, Abu Dawud e Nasāʾī. Nas narrações de Abu Dawud e Nasāʾī, especifica-se ainda que ele colocou a mão direita sobre o dorso da palma da mão esquerda, bem como sobre o pulso e o antebraço.

3. A súplica para iniciar a oração

É mustahabb que aquele que reza recite uma das súplicas com as quais o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — suplicava e iniciava a oração, após o takbīr de abertura e antes da recitação. Citaremos algumas delas a seguir:

a. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele): Quando o Mensageiro de Allah dizia o takbir na oração, permanecia em silêncio por algum tempo após o takbir e antes da recitação. Eu disse: “Que meus pais sejam sacrificados por você, o que você diz durante esse silêncio entre o takbir e a recitação?” Ele respondeu: “Eu digo:

اللَّهم بَاعِل بَيْنِي وَبَيْنَ عَطَايَايَ كَمَا بَاعَل بَيْنَ الْمَشْرِقِ وَالْمَغْرِبِ اللَّهُ نَقْنِي مِنْ عَطَايَايَ كَمَا ينقى الثوب الأبيض من الدنس، اللهم اغْسِلْنِي مِن عَطَايَايَ بِالتَّلْمِ وَالْمَاءِ وَالْبَرَدِ .

“Ó Allah, cria entre mim e os meus pecados uma distância tão grande quanto a distância entre o Oriente e o Ocidente. Ó Allah, purifica-me dos meus pecados como se limpa a sujeira de uma roupa branca. Ó Allah, lava-me e purifica-me dos meus pecados com neve e água.” — Bukhari, Muslim, Abu Dawud, Nasa’i e Ibn Majah.

b. Foi narrado por Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): Quando o Mensageiro de Allah se levantava para a oração, dizia o takbir. Depois dizia:

وَجَمْت وَجْهِي لِلَّذِي فَطَرَ السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ حَنِيفًا مُسْلِمًا وَمَا أَنَا مِنَ الْمُشْرِكِينَ، إِن صَلَاتِي ونَسُكِي وَمَحْيَايَ وَمَمَاتِي لِلَّهِ رَبِّ الْعَالَمِينَ ، لأمْرِيكَ لَهُ، وَبِلْ لِك أمرت وأنا من المعلمين ، اللهم أنت الملك لا إله إلا أنت،

أنت رَبِّي وَأَنا عَبْدُكَ ظَلَمْتُ نَفْسِي وَاعْتَرَفْتُ بِذَنْبِي فَاغْفِرْ لِي ذُنُوبِي جَمِيعًا ، إِنَّهُ لَا يَغْفِرُ الذُّنُوبَ إِلَّا أَنْتَ، وَاهْدِنِي لَأَحْسَنِ الْأَخْلَاقِ، لَا يَهْدِي لاحْسَنِهَا إِلَّا أَنْتَ، وَأَسْرِى عَلَى سَيْنهَا لا يَصْرِفُ عَلَى سَيْنَهَا إِلَّا أَنسَ، لَبَيكَ

وَسَعْدَيْكَ، وَالْخَيْرُ كُلَّهُ فِي بَدَيْكَ، وَالشَّرُّ لَيْسَ إِلَيْكَ، وَآتَابِكَ وَإِلَيْكَ، تَبَارَكْتَ وَتَعَالَيْسَ، اسْتَغْفِرُكَ وَأَتُوبُ إليك

“Voltei o meu rosto para Aquele que criou os céus e a terra, com devoção sincera e em submissão, e não faço parte dos idólatras. Minha oração, meu sacrifício, minha vida e minha morte pertencem a Allah, Senhor de todos os mundos. Ele não tem associado algum. Foi isso que me foi ordenado, e eu sou o primeiro dos que se submetem. Ó Allah, Tu és o único Rei. Não há outro protetor além de Ti. Tu és o meu Senhor, e eu sou Teu servo. Cometi injustiça contra mim mesmo. Reconheço os meus pecados. Portanto, perdoa todos os meus pecados. Ninguém pode perdoar os pecados senão Tu. Guia-me para o melhor caráter. Ninguém pode guiar para o melhor caráter senão Tu. Afasta de mim o mau caráter. Ninguém além de Ti tem poder para afastar de mim o mau caráter. Respondo repetidamente ao Teu chamado. Estou pronto para obedecer repetidamente à Tua religião e ajudá-la repetidamente. Todo bem está em Tuas mãos. Tu estás livre de todo mal. Estou somente Contigo e somente a Ti retornarei. Tu és Bendito e Grandioso. Peço-Te perdão e arrependo-me diante de Ti.” — Ahmad, Muslim, Tirmidhi, Abu Dawud e outros.

c. Foi narrado por Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que, após o takbir de abertura, ele dizia: “Subhanaka Allahumma wa bihamdika wa tabarakasmuka wa ta‘ala jadduka, wa la ilaha ghayruka.” (Ó Allah, proclamo a Tua pureza e Te louvo. Teu nome é abençoado, Tua majestade é suprema e não há divindade além de Ti.) — Muslim, Daru Qutni. Ibn al-Qayyim disse: Está comprovado, por uma cadeia autêntica de transmissão, que Umar costumava pedir auxílio e vitória por meio desta súplica, no lugar onde o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia de pé. Ele a recitava em voz alta e a ensinava às pessoas. O Imam Ahmad disse: Eu sigo esta súplica narrada por Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

d. Asim (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Perguntei a Aisha com que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) iniciava a oração noturna. Ela respondeu: Ninguém antes de ti me havia perguntado sobre isso. Sempre que ele se levantava para a oração durante a noite, após o takbir de abertura, dizia dez vezes “Allahu akbar”, dez vezes “Alhamdulillah”, dez vezes “La ilaha illallah” e dez vezes “Astaghfirullah”. E dizia:

اللهم اغْفِرْ لِي وَاهْدِنِي وَارْزُقْنِي وَعَافِنِي –

“Ó Allah, perdoa, guia, concede sustento e concede segurança.” Em seguida, pedia refúgio contra a estreiteza do lugar no Dia da Ressurreição. Abu Dawud, an-Nasa’i e Ibn Majah.

e. Foi narrado por Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: Perguntei a Aisha: Com que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) iniciava a oração noturna? Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: Ele iniciava a oração noturna com esta súplica: Ó Allah, Senhor de Jibril, Mika’il e Israfil, Criador dos céus e da Terra, Conhecedor do visível e do invisível. Tu és Quem julga entre os Teus servos acerca daquilo em que eles divergem. Guia-me, com a Tua permissão, à verdade sobre a qual divergiram. Tu guias quem queres ao caminho reto e correto. — Muslim, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah.

f. Foi narrado por Nafi‘, que disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitar, durante uma oração voluntária: “Allahu akbar kabiran”, três vezes; “Alhamdulillahi hamdan kathiran”, três vezes; “Subhanallahi bukratan wa asilan”, três vezes. “Ó Allah, busco refúgio em Ti contra Satanás, o expulso; contra a incitação de Satanás à guerra e à discórdia entre as pessoas; contra suas más ações e seus feitiços; e contra sua arrogância.” Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah e Ibn Hibban.

g. Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se levantava à noite para a oração do tahajjud, dizia:

اللهم لك الحمد أنت قير السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ وَمَن فِيهِن ولله الْحَمْدُ أَنتَ نُورُ السَّمَوَاتِ والأرض ومن يمون، ولك الحمد أن مالك السموات والأرض ومن فيهن، ولك الحمد أنت

الْحَقِّ وَوَعْدَكَ الْحَقِّ، وَلِقَاؤُكَ حَقٌّ، وَقَوْلكَ حَقٌّ، وَالْجَنَّة حق والنار حق، والنبيون حق ومحمد حقٌّ وَالسَّاعَة حق، اللهم لك أسلمت، وبك آمنت، وعليك توكلت وَإِلَيْكَ أتيت، وبك عَامَت، وَإِلَيْكَ حَاكَيْتُ فَاغْفِرْ لِي مَا قَدَّمْت

وَمَا أَمْرُ وَمَا أَسْوَرْت وَمَا أَعْلَيْت أَنت المقدم وانت التوتر، لا إله إلا أنت، أو لا إله غَيْرُكَ، وَلا حَوْلَ وَلا قُوَّةَ إِلَّا بِاللَّهِ

Ó Allah, todo louvor pertence a Ti. Tu és o Fundador dos céus, da terra e de tudo quanto neles existe. Todo louvor pertence a Ti. Tu és a luz dos céus, da terra e de tudo quanto neles existe. Todo louvor pertence a Ti. Tu és o Soberano dos céus, da terra e de tudo quanto neles existe. Todo louvor pertence a Ti. Tu és a Verdade; tua promessa é verdadeira; o encontro contigo é verdadeiro; tua palavra é verdadeira; o Paraíso é verdadeiro; o Inferno é verdadeiro; os profetas são verdadeiros; Muhammad é verdadeiro; e a Hora é verdadeira. Ó Allah! Submeti-me a Ti, creio em Ti, confio em Ti, volto-me para Ti, apresento a Ti todas as minhas súplicas e entrego a Ti o julgamento. Portanto, perdoa todos os meus pecados passados e futuros, ocultos e manifestos. Tu és Aquele que faz avançar e Aquele que faz retroceder; não há divindade além de Ti. Não há força nem poder senão por Allah. —Bukhari, Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah, Malik.

Foi narrado de Ibn Abbas, em Abu Dawud, que o Mensageiro de Allah recitava a súplica mencionada no tahajjud, depois de dizer Allahu Akbar.

4. Recitar A‘udhu billah

É mustahabb buscar refúgio em Allah contra Satanás depois de recitar a súplica inicial da oração e antes da recitação — isto é, dizer: A‘udhu billahi minash-shaytanir-rajim. Pois Allah, o Altíssimo, disse: “Quando desejares recitar o Alcorão, busca refúgio em Allah contra Satanás, o banido.” No hadith anteriormente narrado por Nafi‘, menciona-se que o Mensageiro de Allah dizia no tahajjud: “Allahumma inni a‘udhu bika minash-shaytanir-rajim.” Ibn al-Mundhir disse: antes da recitação, o Mensageiro de Allah dizia: “A‘udhu billahi minash-shaytanir-rajim.”

É sunnah buscar refúgio em segredo. Em Al-Mughni, afirma-se: buscar refúgio contra Satanás deve ser feito em segredo, não em voz alta. Não conheço nenhuma divergência a esse respeito. Contudo, segundo al-Shafi‘i, nas orações nas quais a recitação é feita em voz alta, A‘udhu billahi minash-shaytanir-rajim pode ser recitado tanto em voz alta quanto em segredo. Um hadith narrado de Abu Huraira com uma cadeia fraca determina que seja recitado em voz alta.
“A‘udhu billahi minash-shaytanir-rajim” deve ser recitado somente na primeira rak‘ah. Abu Huraira disse: quando o Mensageiro de Allah se levantava para a segunda rak‘ah, começava a recitação com Alhamdu lillahi rabbil-‘alamin, sem qualquer intervalo. —Muslim. Ibn al-Qayyim disse: há divergência entre os sábios sobre se a isti‘adhah — A‘udhu billah… — deve ser recitada no início da segunda rak‘ah ou não. Entretanto, eles concordam que, nesse momento, não se deve recitar a súplica inicial da oração. Há duas opiniões a esse respeito, e ambas foram narradas do Imam Ahmad. Alguns discípulos de Ahmad disseram que a base dessas duas opiniões é a questão de saber se a recitação de todas as rak‘ahs da oração deve ser considerada uma única recitação ou se a recitação de cada rak‘ah deve ser considerada independente.

Se a recitação de todas as rak‘ahs for considerada uma única recitação, então uma única isti‘adhah será suficiente para toda a oração. Naturalmente, não há divergência quanto ao fato de que a súplica inicial da oração se aplica à oração inteira. E, conforme o sentido aparente dos hadiths autênticos, uma única isti‘adhah é suficiente. Em seguida, Ibn al-Qayyim mencionou o hadith de Abu Huraira e disse: basta recitar uma vez a súplica inicial da oração porque não houve silêncio nem intervalo entre a recitação de uma rak‘ah e a recitação da outra; ao contrário, entre elas foram recitadas algumas súplicas e fórmulas de dhikr. Portanto, a recitação de todas as rak‘ahs é como uma única recitação. O que foi recitado entre as recitações não foi senão Alhamdulillah, Subhanallah, La ilaha illallah, o salat sobre o Mensageiro de Allah e coisas semelhantes. Al-Shawkani disse: de acordo com o que foi mencionado nos hadiths, recitar A‘udhu billah… somente antes da recitação da primeira rak‘ah é a medida mais cautelosa.

5. Dizer “amém” ao final da surata Al-Fátiha

É sunna que todo aquele que reza diga “amém” depois de recitar a surata Al-Fátiha, seja ele imã, ma’mum ou esteja rezando sozinho. Na oração em que a recitação deve ser silenciosa, o “amém” também deve ser dito silenciosamente; e na oração em que a recitação deve ser audível, o “amém” deve ser dito em voz alta. Narrou Nu‘aim al-Mujammar: “Rezei atrás de Abu Huraira. Ele recitou ‘Bismillahir-Rahmanir-Rahim’ e depois recitou Umm al-Qur’an (a surata Al-Fátiha). Quando chegou a ‘gairil-magdubi alaihim walad-dallin’, disse ‘amém’, e as pessoas também disseram ‘amém’. Depois da oração, Abu Huraira disse: ‘A minha oração é a que mais se assemelha à oração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.’” Bukhari, Nasa’i, Ibn Khuzayma, Ibn Hibban e Ibn Siraj. Em Bukhari também consta: Ibn Shihab disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia ‘amém’.” Ata disse: “‘Amém’ é uma súplica.” Ibn az-Zubair dizia “amém”, e os membros da congregação atrás dele também diziam “amém”, de modo que se ouvia um enorme clamor na mesquita. Nafi‘ disse: “Ibn Umar nunca deixava de dizer ‘amém’. Além disso, incentivava as pessoas a dizerem ‘amém’. Ouvi dele um hadith sobre isso.” Abu Huraira narrou que, quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia “gairil-magdubi alaihim walad-dallin”, dizia imediatamente: “amém”. Até as pessoas ao seu lado na primeira fileira conseguiam ouvi-lo. Abu Dawud e Ibn Majah. Em Ibn Majah consta ainda que as pessoas da primeira fileira também o ouviam e que toda a mesquita estremecia. Hakim, Baihaqi e Daruqutni.

Foi narrado por Wa’il ibn Hujr: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recitar: ‘gairil-magdubi alaihim walad-dallin’; em seguida, ele disse ‘amém’ em voz alta.” Ahmad e Abu Dawud. Tirmidhi considerou este hadith bom e disse: “Muitos entre os companheiros, os tabi‘in e os sábios que vieram depois deles defendiam essa opinião. Eles consideravam que o ‘amém’ deveria ser dito em voz alta, e não em segredo.” Hafiz disse: “A cadeia de transmissão deste hadith é autêntica.” Ata disse: “Encontrei duzentos companheiros nesta mesquita. Quando o imã dizia ‘walad-dallin’, eu ouvia o ‘amém’ deles, cujo som rasgava os céus.”

Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Os judeus não invejam vocês por nada tanto quanto invejam o fato de vocês cumprimentarem com salam e dizerem ‘amém’ atrás do imã.” Ahmad e Ibn Majah.

É mustahabb que o ma’mum diga “amém” simultaneamente com a voz do imã. Não deve dizê-lo antes nem depois do imã. Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando o imã disser ‘gairil-magdubi alaihim walad-dallin’, digam ‘amém’. Aquele cujo ‘amém’ coincidir com o ‘amém’ dos anjos terá todos os seus pecados anteriores perdoados.” Bukhari. Em outro hadith, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando o imã disser ‘gairil-magdubi alaihim walad-dallin’, digam também ‘amém’, pois os anjos dizem ‘amém’ nesse momento e o imã também diz ‘amém’. Aquele cujo ‘amém’ coincidir com o ‘amém’ dos anjos terá seus pecados anteriores perdoados.” Bukhari. Em outro hadith, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando o imã disser ‘amém’, digam ‘amém’, pois aquele cujo ‘amém’ coincidir com o ‘amém’ dos anjos terá seus pecados anteriores perdoados.” Todas as coleções de hadith autênticos. [Khattabi disse: “Quando o imã disser ‘walad-dallin’, digam ‘amém’ significa que vocês devem dizê-lo imediatamente com o imã, para que o ‘amém’ de vocês e o do imã sejam pronunciados ao mesmo tempo. A afirmação ‘quando o imã disser amém, digam amém’ não contradiz o hadith anterior, nem significa que seja permitido dizê-lo depois de se atrasar em relação ao ‘amém’ do imã. É como dizer: ‘Quando o comandante partir, partam também.’ Isto é, a partida de vocês e a do comandante devem ocorrer ao mesmo tempo.”]

Explicação da palavra “amém”: A palavra “amém” não faz parte da surata Al-Fátiha. É uma súplica independente. Seu significado é: “Ó Allah, aceita.”

6. A recitação depois da surata Al-Fátiha

É sunna recitar outra surata ou algum trecho do Alcorão depois da surata Al-Fátiha. Nas duas rak‘at do fajr e da oração de sexta-feira, nas duas primeiras rak‘at do zuhr, do ‘asr, do maghrib e do ‘isha, e em todas as rak‘at das orações voluntárias, deve-se recitar algum outro trecho do Alcorão depois da Al-Fátiha. Foi narrado por Abu Qatada:

“O Mensageiro de Allah recitava, nas duas primeiras rak‘ahs da oração do zuhr, a Surata al-Fátiha e outras duas suratas, e, nas duas últimas rak‘ahs, a Surata al-Fátiha. Às vezes, fazia-nos ouvir a recitação de alguns versículos. E recitava na primeira rak‘ah uma surata ou uma recitação mais longa que na segunda rak‘ah. Fazia o mesmo no ‘asr e no fajr.” — Bukhari, Muslim e Abu Dawud. Na versão de Abu Dawud também consta: “Pensávamos que ele prolongava a primeira rak‘ah para que as pessoas pudessem alcançar a oração desde o início.” Jabir ibn Samurah relatou: Os habitantes de Kufa queixaram-se de Sa‘d diante de ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Então ‘Umar destituiu temporariamente Sa‘d e nomeou ‘Ammar como seu governador. Eles continuaram a queixar-se dele, chegando a afirmar que ele não conduzia bem a oração. ‘Umar mandou chamar Sa‘d. Quando ele chegou a Medina, disse-lhe: “Ó Abu Ishaq, eles afirmam que não conduzes bem a oração?” Abu Ishaq respondeu: “Por Allah, eu os conduzia na oração exatamente como o Mensageiro de Allah, sem diminuir nada disso. Quando conduzia a oração do ‘isha, prolongava as duas primeiras rak‘ahs e tornava leves as duas últimas.” Ele disse: “Ó Abu Ishaq, essa é a impressão que eles têm de ti.” Depois, enviou com ele um ou mais homens a Kufa. Eles perguntaram aos habitantes de Kufa sobre ele e não deixaram de perguntar em nenhuma mesquita da cidade. Todos elogiavam Sa‘d. Por fim, foram à mesquita dos Banu ‘Abd. Ali, um homem levantou-se e disse: “Já que nos interrogais em nome de Allah, escutai: Sa‘d não participava de nenhuma expedição militar, não distribuía os bens equitativamente e não julgava com justiça em certos casos.”

Sa‘d disse: “Sabei que farei três súplicas: Ó Allah, se este Teu servo for mentiroso e estiver de pé por ostentação e para obter fama, concede-lhe uma vida longa e uma pobreza prolongada, e envolve-o em provações.” Mais tarde, aquele homem costumava dizer: “Sou um velho aflito; fui atingido pela maldição de Sa‘d.” ‘Abd al-Malik disse: “Depois vi-o: devido à extrema velhice, as suas sobrancelhas haviam caído sobre os olhos, e ele piscava para as mulheres da cidade quando passavam pela rua.” — Bukhari. Abu Hurayra disse: “A recitação deve ser feita em toda oração. Contudo, o que o Mensageiro de Allah nos fazia ouvir, nós vos faremos ouvir; e o que ele mantinha oculto de nós, nós também manteremos oculto de vós. Se não recitardes mais que a Surata al-Fátiha, isso será suficiente. Mas, se recitardes mais, será melhor.” — Bukhari.

7. Como recitar depois da Surata al-Fátiha

Pode-se seguir qualquer método ao recitar depois da Surata al-Fátiha. Husayn disse: “Partimos em campanha para o Khurasan acompanhados de trezentos Companheiros. Alguns deles nos conduziam na oração e faziam a reverência depois de recitar vários versículos de uma surata.” Foi relatado que Ibn ‘Abbas recitava a Surata al-Fátiha e um versículo da Surata al-Baqara em cada rak‘ah. — Darqutni. Bukhari intitulou uma seção de seu Sahih: “Recitar duas suratas na mesma rak‘ah, recitar as suratas da parte final do Alcorão e recitar uma surata antes de outra.” Em seguida, menciona ‘Abdullah ibn al-Sa’ib: o Mensageiro de Allah recitava a Surata al-Mu’minun na oração do fajr. Quando chegou à passagem sobre Musa e Harun, ou à menção de ‘Isa, sentiu um acesso de tosse e fez a reverência. ‘Umar costumava recitar, na primeira rak‘ah, cento e vinte versículos da Surata al-Baqara e, na segunda, qualquer uma das suratas que são frequentemente recitadas. Ahnaf recitou a Surata al-Kahf na primeira rak‘ah e a Surata Yunus ou a Surata Yusuf na segunda. Ele também mencionou que rezou atrás de ‘Umar recitando essas duas suratas. Ibn Mas‘ud conduziu a oração recitando quarenta versículos de al-Anfal na primeira rak‘ah e, na segunda, uma surata curta. Sobre aquele que recita uma surata nas duas rak‘ahs ou repete a mesma surata em ambas, Qatada disse: “Tudo isso faz parte do Livro de Allah.”

‘Ubaydullah ibn Thabit, citando Anas, disse: Um homem dos Ansar conduzia-os na oração na mesquita de Quba. Sempre que recitava uma surata, começava pela Surata al-Ikhlas e, depois de terminá-la, recitava outra surata junto com ela. Fazia isso em todas as rak‘ahs. Seus companheiros conversaram com ele sobre o assunto e disseram: “Começas a oração com esta surata e depois não a consideras suficiente; em vez disso, recitas outra. Ou conduzes a oração apenas com esta surata — al-Ikhlas — ou a deixas de lado e recitas outra.” Ele respondeu: “Não abandonarei a Surata al-Ikhlas. Se quiserdes, continuarei a conduzir-vos assim; se não gostardes, deixarei de conduzir-vos.” As pessoas consideravam-no o melhor entre elas e não gostavam que outro as conduzisse na oração. Quando o Mensageiro de Allah foi até eles, informaram-no do caso. Ele disse ao homem: “Ó fulano, o que te impede de fazer o que teus companheiros estão pedindo?” Por que consideras necessário recitar esta surata em todas as rak‘ahs?” Ele respondeu: “Amo esta surata.” O Mensageiro de Allah disse: “O teu amor por esta surata fará com que entres no Paraíso.” Um homem da tribo de Juhaynah disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah recitar a Surata az-Zalzalah nas duas rak‘ahs do fajr. Não sei se ele a recitou assim por engano ou deliberadamente.” — Abu Dawud. Ibn al-Qayyim disse: “Quando o Mensageiro de Allah terminava a recitação da Surata al-Fátiha, começava outra surata; às vezes a prolongava e, em viagem ou por outra razão, a abreviava. Na maior parte do tempo, recitava suratas de extensão intermediária.”

— A recitação do fajr

Na oração do fajr, recitava aproximadamente de sessenta a cem versículos. Recitava a Surata Qaf, a Surata al-Qamar e a Surata at-Takwir; às vezes, recitava a Surata az-Zalzalah nas duas rak‘ahs; durante a viagem, recitava as suratas an-Nas e al-Falaq. Na primeira rak‘ah, recitou desde o início da Surata al-Mu’minun até a história de Musa e Harun, e fez a reverência ao ser acometido por um acesso de tosse. Às sextas-feiras, recitava integralmente as suratas Alif-Lam-Mim as-Sajdah e ad-Dahr. Ao contrário de muitos hoje, que recitam uma parte de uma surata e uma parte de outra, o Mensageiro não fazia isso. Alguns ignorantes imaginam que a oração do fajr de sexta-feira foi distinguida por uma prostração adicional; isso é um grave desvio. Alguns imames, por causa dessa conceção equivocada, consideraram makruh a recitação da Surata as-Sajdah. O Mensageiro de Allah recitava as suratas as-Sajdah e ad-Dahr somente porque nelas há descrições do início da criação humana, da vida terrena, da vida futura, do Paraíso, do Inferno e de outros assuntos. Por isso, recitava-as no fajr de sexta-feira para recordar aos muçulmanos o que ocorreu e o que ocorrerá nesse dia. Do mesmo modo, nos grandes dias festivos, como o ‘Id e a sexta-feira, recitava as suratas Qaf, al-Qamar, Sabbih isma e al-Ghashiyah.

— A recitação do zuhr

Na oração do meio-dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) às vezes recitava uma passagem tão longa que Abu Sa’id disse: depois do início da oração do meio-dia, alguns iam a Jannat al-Baqi para fazer suas necessidades, voltavam para casa, faziam a ablução e então alcançavam a oração na primeira rak’ah. — Muslim. Às vezes recitava a surata as-Sajdah, às vezes a surata al-A’la, às vezes a surata al-Layl, às vezes a surata al-Buruj e às vezes a surata at-Tariq.
A recitação na oração do ‘Asr
Quando se recita uma passagem longa na oração do meio-dia, recita-se na oração do ‘Asr metade dela; e, quando se recita uma passagem curta ao meio-dia, recita-se no ‘Asr uma passagem de extensão semelhante.

— A recitação na oração do Maghrib

Na oração do Maghrib, a prática do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era contrária à prática de hoje. Certa vez, ele recitou a surata al-A’raf nas duas rak’ahs do Maghrib; em outra ocasião, a surata at-Tur; e, em outra, a surata al-Mursalat.

Ibn ‘Abd al-Barr disse: foi relatado que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava no Maghrib a surata al-A’raf, a surata as-Saffat, ad-Dukhan, al-A’la, at-Tin, an-Nas e al-Falaq, al-Mursalat e as suratas mais curtas de al-Mufassal (as menores suratas da parte final de ‘Amma). Todas são hadiths famosos e autênticos. Entretanto, foi Marwan ibn al-Hakam quem instituiu o costume de recitar sempre as suratas mais curtas no Maghrib. Por isso, Zayd ibn Thabit desaprovou isso. Ele lhe disse: “O que há com você? Você recita as suratas mais curtas no Maghrib, embora eu tenha visto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitar uma das duas suratas mais longas.” Eu perguntei: “Qual é uma das duas suratas mais longas?” Ele respondeu: “Al-A’raf.” — Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah. An-Nasa’i narrou, de ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela): o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou a surata al-A’raf dividida entre as duas rak’ahs do Maghrib. Portanto, recitar sempre os versículos e as suratas mais curtos contraria a Sunnah. Isso foi uma prática de Marwan ibn al-Hakam.

— A recitação na oração do ‘Isha’

Na oração do ‘Isha’, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou a surata at-Tin e disse a Mu’adh que recitasse as suratas ash-Shams, al-A’la, al-Layl e outras. Ele desaprovou a recitação da surata al-Baqarah.

— A recitação na oração de sexta-feira

Na oração de sexta-feira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava integralmente as suratas al-Jumu’ah, al-Munafiqun, al-Ghashiyah, al-A’la e al-Ghashiyah. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nunca recitava as partes finais de várias suratas. Isso era contrário à prática que ele seguia.

– A recitação na oração do Eid

Na oração do Eid, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) às vezes recitava integralmente as suratas Qaf e Al-Qamar, e às vezes as suratas Al-A‘la e Al-Ghashiyah.

O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) seguiu este método na recitação da oração até o fim de sua vida. Depois, de modo algum, ele foi alterado ou abolido. Os Califas Bem-Guiados também seguiram esse método. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) recitou a surata Al-Baqarah na oração do fajr e terminou a oração com a saudação de paz próximo ao nascer do sol. As pessoas disseram: “Ó califa do Mensageiro de Allah! O sol está prestes a nascer.” Ele respondeu: “Se o sol nascesse, não nos encontraria negligentes.” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) recitava as suratas Yusuf, An-Nahl, Hud, Bani Isra’il e outras na oração do fajr. Se o prolongamento da recitação do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tivesse sido revogado, isso não teria permanecido desconhecido dos Califas Bem-Guiados. Os críticos também teriam conhecimento disso. Quanto ao hadith narrado por Jabir no Muslim, segundo o qual o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recitava a surata Qaf no fajr, mas posteriormente fazia uma recitação breve, seu significado é que ele fazia no fajr uma recitação mais longa do que nas outras orações e, nas orações posteriores ao fajr, uma recitação breve. Há uma prova disso no relato de Ubdul Fazl. Ao ouvir seu filho Ibn Abbas recitando a surata Al-Mursalat na oração, ele disse: “Meu filho, ao recitares esta surata, fizeste-me recordar o passado. Foi a última surata que ouvi o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recitar no maghrib.” Esse foi o último acontecimento. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também disse: “Quando algum de vós dirigir a oração em congregação, que a torne leve e breve.” Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezava em congregação, fazia a oração mais breve e leve.” Na realidade, a questão de tornar a oração leve e breve é relativa. Sua base era a prática constante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), não os desejos dos seguidores. Ele não dava uma ordem para depois agir em contradição com ela. Ele sabia que atrás dele havia muitos idosos, pessoas fracas e pessoas afligidas por dificuldades. Portanto, aquilo que ele fazia era a oração leve e breve que lhe havia sido ordenado conduzir. A oração que ele conduzia poderia ter sido muitas vezes mais longa do que aquela. Assim, em comparação com uma oração ainda mais longa, aquela oração era breve e leve. Todos os debates devem ser encerrados observando o método que ele seguia sempre. Isso também é comprovado pelo hadith narrado por An-Nasa’i de Ibn Umar: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenava-nos que fizéssemos uma oração breve e leve, mas ele próprio nos conduzia recitando a surata As-Saffat.” Portanto, conduzir a oração recitando As-Saffat era justamente a oração breve e leve que ele ordenava.

– Recitar determinadas suratas

Além da oração de sexta-feira e das duas orações do Eid, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não determinava nenhuma surata específica em qualquer oração, de modo que não conduzisse a oração senão com aquela surata. Sobre as outras orações, Abu Dawud narra: O avô de Amr ibn Shu‘ayb disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ao conduzir a oração obrigatória, recitar todos os tipos de suratas, tanto longas quanto curtas. Contudo, seu costume era recitar uma surata completa. Às vezes dividia uma surata entre duas rak‘ahs e, às vezes, recitava a primeira parte de uma surata. Porém, não me lembro de ele alguma vez ter recitado a partir do meio ou da parte final de uma surata.” Há muitos exemplos conhecidos de que ele recitava duas suratas em uma rak‘ah voluntária: em uma rak‘ah, as suratas Ar-Rahman e An-Najm; em outra, Al-Qamar e Al-Haqqah; em outra, At-Tur e Adh-Dhariyat; e, em outra, Al-Waqi‘ah e Al-Qalam, formando esses pares de suratas. Entretanto, não se sabe com certeza se ele as recitava nas orações obrigatórias ou nas voluntárias. Ambas as possibilidades existem. Contudo, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) raramente recitava a mesma surata nas duas rak‘ahs de uma mesma oração. Abu Dawud narrou, de um homem da tribo de Juhaynah, que ele ouviu o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recitar a surata Az-Zalzalah nas duas rak‘ahs do fajr. Mas disse: “Não sei se o Mensageiro de Allah a recitou por engano ou intencionalmente.”

– Prolongar a primeira rak‘ah do fajr

Na oração do fajr e em todas as demais orações, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fazia a primeira rak‘ah mais longa do que a segunda. Às vezes, prolongava-a tanto que não se ouvia o passo de ninguém. Ele prolongava a oração do fajr mais do que as outras orações. A razão é que Allah e os anjos testemunham a recitação do Alcorão no fajr. Alguns dizem que os anjos da noite e os anjos do dia participam dela. A base dessas duas opiniões é a seguinte: a descida de Allah ao primeiro céu continua até o término da oração do fajr ou até o início dela? Há hadiths que sustentam ambas as opiniões. Outra razão pode ser que, como o número de rak‘ahs da oração do fajr foi reduzido, a duração da oração compensava a redução do número de rak‘ahs. Além disso, pode ser porque essa oração ocorre depois do longo sono e descanso das pessoas. Também porque, quando ela é realizada, o trabalho de buscar o sustento e os meios da vida mundana ainda não começou. Ademais, essa oração ocorre num momento em que, estando os ouvidos, a língua e a mente das pessoas completamente livres, nasce na oração uma concentração total; assim, torna-se possível compreender o Alcorão e refletir sobre ele. Além disso, essa oração é a primeira atividade do dia e a base de todas as atividades; por isso, foi prolongada para receber importância e dignidade.

Somente aqueles que observam os mistérios, as razões e os objetivos profundos das disposições da Shariah conseguem compreendê-los.

– O método de recitação do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava lenta e pausadamente, parando ao final de cada versículo e prolongando a voz.

– O que é recomendável na recitação

É recomendável recitar com uma voz bela e melodiosa. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Embelezai e tornai melodiosa a vossa voz para o Alcorão.” Ele também disse: “Não faz parte de nós aquele que não recita o Alcorão com uma voz bela.” Também disse: “Aquele cuja recitação do Alcorão vos leva a pensar que teme a Allah é quem possui a melhor voz na recitação do Alcorão.” Disse ainda: “Allah não escuta coisa alguma com tanta atenção quanto escuta a recitação do Alcorão feita por um profeta de voz melodiosa, que recita o Alcorão com uma bela voz.” O Profeta disse que, para quem recita o Alcorão durante a oração ou em qualquer outra situação, é sunnah que, ao recitar versículos sobre a misericórdia, peça a Allah Sua misericórdia e graça; ao recitar versículos sobre o castigo, busque refúgio em Allah contra o castigo, o Fogo, o mal e as coisas indesejáveis. Ou diga: “Ó Allah, peço-Te proteção”, e assim por diante. E, ao recitar versículos que proclamam a santidade de Allah, diga: “Subhanallah wa ta‘ala” (Allah é Perfeito e Sublime), ou: “Bendito seja Allah, Senhor dos mundos”, ou: “Nosso Senhor é o possuidor da maior glória”, e expressões semelhantes. Hudhayfa disse: “Certa noite, rezei com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele começou a recitar a surata Al-Baqarah. Pensei que faria o rukū‘ depois de cem versículos, mas prosseguiu além dos cem. Pensei que concluiria a rak‘ah com aquela surata, mas continuou. Pensei que então faria o rukū‘, mas começou a surata Āl ‘Imrān. Terminou de recitá-la e então começou a surata An-Nisā’. Recitou-a muito lentamente. Sempre que recitava um versículo sobre a glorificação de Allah, dizia imediatamente: ‘Subhanallah’; sempre que recitava um versículo de súplica, suplicava imediatamente; e sempre que recitava um versículo sobre buscar refúgio em Allah, buscava imediatamente refúgio e suplicava.” — Muslim.

Nossos imames disseram: onde quer que o Alcorão seja recitado, durante ou fora da oração, é recomendável para o recitador fazer isso, glorificar a Allah, suplicar e buscar refúgio; e, durante a oração, isso é recomendável para o imam, o seguidor e aquele que reza sozinho. Pois tudo isso é súplica; portanto, todos são iguais nisso, assim como todos os que rezam são iguais ao dizer “Amin”. Quando alguém recitar: “Acaso Allah não é o melhor dos juízes?” (o último versículo da surata At-Tin), é recomendável dizer: “Sim, sou testemunha disso.” E, ao recitar o último versículo da surata Al-Qiyamah: “Acaso Ele não é capaz de dar vida aos mortos?”, deverá dizer: “Sim, testemunho.” E, ao recitar o último versículo da surata Al-Mursalat: “Em que palavra, então, depois desta, eles acreditarão?”, deverá dizer: “Creio em Allah.” E, ao recitar: “Glorifica o nome do teu Senhor, o Altíssimo”, deverá dizer: “Subhana Rabbiyal-A‘la” (Glorifico meu Senhor, o Altíssimo). Assim deverá fazer durante e fora da oração.

– Os momentos da oração em que a recitação deve ser audível ou silenciosa

É sunnah recitar em voz audível e alta nas duas rak‘ahs do fajr e do jum‘ah, nas duas primeiras rak‘ahs do maghrib e do ‘isha’, nas duas rak‘ahs de cada uma das orações dos dois Eids, do eclipse solar e do istisqa’. É sunnah recitar silenciosamente na oração do dhuhr, na do ‘asr, na terceira rak‘ah do maghrib e nas duas últimas rak‘ahs do ‘isha’. Quanto às demais orações voluntárias, a regra é recitar silenciosamente durante as orações diurnas. Nas orações noturnas, pode-se recitar tanto silenciosa quanto audivelmente; contudo, o melhor é seguir o caminho intermediário.

“Certa noite, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até Abu Bakr. Viu que ele rezava com uma voz muito baixa. Foi até Umar e viu que ele rezava em voz alta. Mais tarde, quando ambos se reuniram diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele disse: ‘Ó Abu Bakr, fui até ti e vi que rezavas com uma voz muito baixa.’ Abu Bakr respondeu: ‘Ó Mensageiro de Allah, fiz ouvir Aquele com quem mantive uma conversa secreta.’ Ele disse a Umar: ‘Ó Umar, fui até ti e vi que rezavas em voz alta.’ Ele respondeu: ‘Ó Mensageiro de Allah, eu despertava os que dormiam e afugentava Satanás.’ Ele disse: ‘Ó Abu Bakr, eleva um pouco a tua voz.’ E disse a Umar: ‘Reduz um pouco a tua voz.’” — Ahmad e Abu Dawud. Se alguém, por engano, recitar audivelmente onde deveria recitar silenciosamente, ou silenciosamente onde deveria recitar audivelmente, não haverá nenhum prejuízo. Se se lembrar disso durante a recitação, deverá continuar o restante conforme a regra.

– Recitar atrás do imame

A regra fundamental é que nenhuma oração é válida sem a Surata Al-Fátiha. Já mencionei, na descrição das obrigações da oração, que a Surata Al-Fátiha deve ser recitada em cada rak‘at das orações obrigatórias e voluntárias. Contudo, nas orações audíveis, os que oram atrás do imame estão dispensados da recitação; é obrigatório apenas escutarem em silêncio. Pois Allah, o Altíssimo, disse: “Quando o Alcorão for recitado, escutai-o e guardai silêncio. Talvez alcanceis a misericórdia de Allah.” E o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando o imame pronunciar o takbir, pronunciai o takbir; e, quando o imame recitar, guardai silêncio.” — Muslim. O significado do hadith “A recitação do imame é a recitação daquele que tem um imame” também é o mesmo: isto é, nas orações audíveis, a recitação do imame é suficiente para ele. Porém, nas orações silenciosas, é obrigatório que aquele que ora atrás do imame recite. Do mesmo modo, numa oração audível, se ele não conseguir ouvir a recitação do imame, também será obrigatório que recite. Segundo Abu Bakr Ibn al-‘Arabi, a opinião de que a recitação é obrigatória nas orações silenciosas é a mais preponderante para nós, pois os hadiths que estabelecem a obrigatoriedade da recitação se aplicam a todos. Contudo, nas orações audíveis, não é correto recitar por três razões:

Uma: esta é a prática seguida pelo povo de Medina.
Duas: a ordem do Alcorão: “Guardai silêncio e escutai.”
Três: a opinião mais preponderante. É impossível recitar junto com o imame. Quando se recitaria? Se disserem que se deve recitar durante a pausa do imame, responderemos que o silêncio não é obrigatório para o imame. Então, como ele poderia tornar obrigatório aquilo que não é obrigatório? Especialmente quando encontramos uma maneira de recitar durante a oração audível: recitar mentalmente, por meio da reflexão e da ponderação. Isso está de acordo com o Alcorão, o hadith e o método da adoração, com a imitação da Sunnah e com a aplicação da opinião mais preponderante. Esta é também a opinião de Zuhri, Ibn al-Mubarak, Malik, Ahmad, Ishaq e Ibn Taymiyyah.

8. O takbir ao levantar-se e sentar-se

Na oração, deve dizer “Allahu Akbar” cada vez que se elevar ou se abaixar, e ao ficar de pé ou sentar-se. Somente ao levantar-se do rukū‘ deve dizer “Sami‘a Allahu liman hamidah”. Ibn Mas‘ud disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer ‘Allahu Akbar’ cada vez que se elevava ou se abaixava e ao ficar de pé ou sentar-se.” — Ahmad, Nasā’ī, Tirmidhī. Os companheiros do Mensageiro, como Abu Bakr, ‘Umar, ‘Uthman e ‘Ali, bem como os tābi‘ūn que vieram depois deles, os juristas e os sábios, seguiram essa mesma opinião. Abu Hurayrah disse: “Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pretendia realizar a oração, dizia ‘Allahu Akbar’ estando de pé; depois, ao dirigir-se ao rukū‘, dizia ‘Allahu Akbar’; em seguida, ao levantar as costas do rukū‘, dizia: ‘Sami‘a Allahu liman hamidah’. Depois, ao dirigir-se à prostração, dizia novamente ‘Allahu Akbar’; ao levantar a cabeça da prostração, dizia ‘Allahu Akbar’; e, ao levantar-se para a segunda rak‘ah, dizia ‘Allahu Akbar’. Fazia isso em cada rak‘ah até completar a oração. Assim era a oração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, até deixar este mundo.” — Ahmad, Bukhari, Muslim, Abu Dawud. ‘Ikrimah disse: “Eu disse a Ibn ‘Abbas: ‘Rezei a oração do meio-dia no vale atrás de um velho tolo. Ele pronunciou vinte e dois takbirs durante a oração; pronunciou o takbir ao dirigir-se à prostração e ao levantar-se dela.’ Ibn ‘Abbas disse: ‘Essa era a oração de Abu al-Qasim, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.’” — Ahmad, Bukhari. É recomendável começar o takbir no início da passagem de uma posição para outra.

9. O método do rukū‘

É obrigatório inclinar-se no rukū‘ até uma altura em que seja possível segurar os joelhos com as mãos. Porém, a Sunnah é manter a cabeça e a parte posterior do corpo alinhadas, afastar os dois braços das costelas e apoiar as duas mãos sobre os joelhos, estender os dedos sobre os joelhos e as canelas e manter as costas estendidas. Foi narrado por ‘Uqbah ibn ‘Amir:

Ele afastou as duas mãos das costelas, colocou-as sobre os joelhos, estendeu os dedos sobre os joelhos e fez o rukū‘. Em seguida, disse: “Vi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizar a oração dessa maneira.” — Ahmad, Abu Dawud, Nasā’ī. Abu Humayd disse: “Sempre que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia o rukū‘, mantinha o corpo alinhado; não inclinava a cabeça para baixo nem a elevava para cima. Mantinha-a entre essas duas posições e colocava as duas mãos sobre os joelhos como se os agarrasse.” — Nasā’ī. Em Sahih Muslim, é narrado por ‘A’ishah: “Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia o rukū‘, não levantava nem abaixava a cabeça; mantinha-a entre essas duas posições.” ‘Ali disse: “Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia o rukū‘, se uma taça de água fosse colocada sobre suas costas, ela não cairia.” (Suas costas permaneciam perfeitamente retas.) — Ahmad, Abu Dawud. Mus‘ab ibn Sa‘d disse: “Rezei ao lado do meu pai. No rukū‘, coloquei as duas mãos entre as coxas, mas ele me proibiu de fazer isso.”

Depois, disse: “Fazíamos isso e recebemos a ordem de colocar as mãos sobre os joelhos.” — Todas as coletâneas de hadiths autênticos.

10. As recordações do rukū‘

É recomendável recitar “Subḥāna Rabbiyal-‘Aẓīm” no rukū‘. ‘Uqbah ibn ‘Āmir disse: quando foi revelado: “Fasabbiḥ bismi Rabbikal-‘Aẓīm” (o último versículo da surata Al-Wāqi‘ah), isto é, “Glorifica o nome do teu Senhor, o Magnífico”, o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Adotai esta glorificação no vosso rukū‘.” — Aḥmad e Abū Dāwūd. Ḥudhayfah disse: “Rezei com o Mensageiro de Allah ﷺ. No rukū‘, ele recitava: ‘Subḥāna Rabbiyal-‘Aẓīm’.” — Muslim, Abū Dāwūd, At-Tirmidhī, An-Nasā’ī e Ibn Mājah. Também é conhecida, por meio de algumas cadeias de transmissão fracas, a seguinte súplica: “Subḥāna Rabbiyal-‘Aẓīm wa biḥamdih.” Ash-Shawkānī disse: “Embora as cadeias de transmissão deste hadith sejam fracas, elas se fortalecem mutuamente.” A pessoa que reza pode limitar-se a recitar essa súplica no rukū‘ ou acrescentar a ela qualquer uma das seguintes súplicas:

a. É narrado por ‘Alī, que o Mensageiro de Allah ﷺ, ao se inclinar para o rukū‘, dizia:

اللَّه لَكَ رَكَعَت، وَبِكَ أمَنتُ، ولك أسلمت، أنت رَبِّي مَفَعَ سَبْعِي وَبَصَرِى وَمُعِى وَعَثْى وعَصَى وَمَا اسْتَقَلبَ بِهِ قَدَمِي لِلَّهِ رَبِّ الْعَالَمِينَ.

Significado: “Ó Allah, inclinei-me diante de Ti, creio em Ti e submeti-me a Ti. Tu és o meu Senhor; os meus ouvidos, os meus olhos, o meu cérebro, os meus ossos, as minhas veias, os meus nervos e os meus músculos estão todos sujeitos a Ti. E aquilo que os meus pés conseguem fazer é por Allah, o Senhor dos mundos.” — Aḥmad, Muslim e Abū Dāwūd.

b. É narrado por ‘Ā’ishah, que o Mensageiro de Allah ﷺ, ao entrar no rukū‘ e na prostração, dizia:

سبوح قدوس رَبِّ الْمَلَائِكَةِ وَالرُّوح

Significado: Tu estás completamente livre de tudo o que é inadequado e indigno de Ti; Tu és o Senhor de todos os anjos e do Espírito (Gabriel).”

c. Foi narrado por Awf ibn Malik al-Ashja‘i: Certa noite, rezei com o Mensageiro de Allah. Ele recitou a surata Al-Baqarah enquanto estava de pé na oração. Na inclinação, disse:

سبْحَانَ ذِي الْجَبَرُوتِ وَالْمَلَكُوفِ وَالْكِبْرِيَاءِ وَالْعَظَمَةِ
.
Significado: Proclamo a Tua santidade, ó Possuidor de todo poder, majestade, reino, grandeza e magnificência.” — Abu Dawud, at-Tirmidhi e an-Nasa’i.

d. Foi narrado por Aisha (que Allah se agrade dela) que o Mensageiro de Allah dizia frequentemente, na inclinação e na prostração:

سبحانك اللهم رَبَّنَا وَبِحَمْدِكَ اللَّه اغْفِرْ لِي.

Significado: Ó Allah, proclamo a Tua santidade e louvo-Te; ó Allah, perdoa-me.” Ele recitava isso em conformidade com a palavra de Allah: “Proclama a santidade do teu Senhor, acompanhada do Seu louvor, e pede-Lhe perdão.” — Ahmad, al-Bukhari, Muslim e outros.

11. A recordação ao levantar-se da inclinação e ao ficar ereto

O orante — seja ele o imame, o seguidor ou esteja sozinho — dirá, ao levantar-se da inclinação,سمع الله لمن حيدة “Samiʿallāhu liman ḥamidah” (Allah ouve aquele que O louva). Então, quando ficar ereto, dirá:

رَبَّنَا وَلَكَ الْحَمْدُ“Rabbana laka al-hamd” (Ó nosso Senhor, a Ti pertence todo louvor) ou,المربَّنا ولك الحمد“Allahumma rabbana wa laka al-hamd”. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele): quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se levantava do rukūʿ, dizia:سمع الله لمن“Samiʿa Allahu liman hamidah”; depois, ainda em pé, dizia novamente:ربنا ولك الحمل“Rabbana wa laka al-hamd”. — Ahmad, al-Bukhari e Muslim. No hadith de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), registrado por al-Bukhari, consta: quando o imã diz:مع الله لمن حمدهdiz:سمع الله لمن حيلة“Samiʿa Allahu liman hamidah”, então dizei:اللمُ رَبَّنَا وَلَكَ الْحَمْدُ“Allahumma rabbana wa laka al-hamd”. Por isso, muitos sábios consideram que o maʾmūm não deve dizer “Samiʿa Allahu liman hamidah”. Ao contrário, quando ouvir o imã dizer isso, deverá dizer:الأمر رَبَّنَا وَلَكَ الْحَمد“Allahumma rabbana wa laka al-hamd”. No entanto, consta no hadith narrado por Abu Huraira, registrado no Musnad de Ahmad e em outras obras, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quando o imã disser “Samiʿa Allahu liman hamidah”, dizei:اللهم ربنا ولك الحين“Allahumma rabbana wa laka al-hamd”, pois aquele cuja declaração coincidir com a declaração dos anjos terá todos os seus pecados anteriores perdoados. Contudo, as palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), “Rezai como me vistes rezar”, indicam que todo orante deve dizer tanto “Samiʿa Allahu liman hamidah” quanto “Rabbana laka al-hamd”, mesmo que seja um maʾmūm. Em resposta àqueles que dizem que o maʾmūm não deve dizer ambas, mas somente “Rabbana laka al-hamd”, o imã al-Nawawi disse: “Os nossos imãs disseram: o significado do hadith ‘Quando o imã disser “Samiʿa Allahu liman hamidah”, então dizei’ é: dizei ‘Rabbana laka al-hamd’ e, juntamente com isso, dizei também ‘Samiʿa Allahu liman hamidah’, que já conheceis.”اللَّمَرْ رَبَّنَا وَلَكَ الْحَمْدُA razão para mencionar somente “Allahumma rabbana laka al-hamd” é que os maʾmūmūn ouviam o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer em voz audível “Samiʿa Allahu liman hamidah”, pois é sunnah dizê-lo em voz audível. Eles não ouviam quando ele dizia “Rabbana laka al-hamd”, pois ele o dizia em voz baixa. As pessoas conheciam as palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), “Rezai como me vistes rezar”, e também conheciam o princípio de obedecer-lhe plenamente, estando acostumadas a praticá-lo. Assim que ouviam “Samiʿa Allahu liman hamidah”, pronunciavam-no imediatamente. Portanto, não era necessário ordenar-lhes que o dissessem. Como não conheciam “Rabbana laka al-hamd”, receberam a ordem de dizê-lo. Ao levantar-se do rukūʿ e permanecer ereto, o mínimo que se deve dizer é “Rabbana laka al-hamd” ou “Allahumma rabbana wa laka al-hamd”. Além disso, é mustahabb acrescentar um pouco mais, conforme os seguintes hadiths:

a. Rifaʿah ibn Rafiʿ disse: “Certo dia, estávamos rezando atrás do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando ele levantou a cabeça do rukūʿ e disse ‘Samiʿa Allahu liman hamidah’, um homem atrás dele disse:

رَبَّنَا لَكَ الْحَمْدُ حَمْداً كَثِيرًا طَيِّبًا مُبَارَكًا فِيهِ.

Significado: Ó nosso Senhor, para Ti pertence todo louvor, um louvor abundante, puro e abençoado.

Quando o Mensageiro de Allah virou o rosto após terminar a oração, disse: “Quem disse estas palavras agora mesmo nesta oração?” O homem respondeu: “Ó Mensageiro, fui eu.” Então o Mensageiro de Allah disse: “Vi trinta ou quarenta anjos competindo para ver qual deles as registraria primeiro.” — Ahmad, al-Bukhari, Malik e Abu Dawud.

b. ʿAli, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que o Mensageiro de Allah, ao levantar a cabeça do rukūʿ, dizia:

سمع الله لمن حمدة ربنا لك الحمد ملء السمواتِ وَالأَرْضِ وَمَا بينهما .

Significado: Allah ouve aquele que O louva. Ó nosso Senhor, a Ti pertence todo o louvor, um louvor equivalente ao que há nos céus, na terra e entre ambos, e ao que mais Tu quiseres. — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e al-Tirmidhi.

c. ‘Abdullah ibn Abi Awfa disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ao levantar a cabeça da inclinação, dizia:

اللهم لَكَ الْحَمْدُ مِلْءَ السَّمَاءِ وَمِلْءَ الْأَرْضِ وَمِلهُ مَا عِلْت مِن شَيْءٍ بَعْد اللَّهُمَّ طَهِّرْنِي بِالتَّلْمِ والْبَرْدِ وَالْمَاءِ الْبَارِدِ اللهُم طَهِّرْلِي مِن الذُّنوبِ وَتَقنِي مِنْهَا كَمَا يُنقى الثوب الأبيض مِنَ الْوَسَمِ.

Significado: Ó Allah, para Ti é o louvor na medida do céu, na medida da terra e na medida de tudo o que quiseres além disso. Ó Allah, purifica-me com neve, granizo e água fria. Ó Allah, purifica-me dos pecados assim como uma roupa branca é limpa da sujeira. — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e Ibn Majah. O significado desta súplica é pedir pureza e limpeza completas.

d. Abu Sa‘id al-Khudri disse: sempre que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia: “Sami‘a Allahu liman hamidah”, dizia também:

اللَّهُ رَبَّنَا لَكَ الْحَمْدُ مِلْءَ السَّمَوَاتِ وَمِلْءَ الْأَرْضِ وَمِلْءَ مَا هِنْتَ مِنْ هَيْءٍ بَعْدُ أَهْلَ الثَّنَاءِ وَالْمَجْدِ أَحَقُّ مَا قَالَ الْعَبْدُ، وَكُلْنَا لَكَ عَبْدٌ، لَا مَانِعَ لِمَا أَعْطَيْنَ، وَلَا مُعْطِيَ لِمَا مَنَعْتَ، وَلَا يَنْفَعُ ذَا الْجَلِّ مِنْكَ الْجَنَّ.

Significado: Ó Allah, nosso Senhor, para Ti é todo o louvor que preenche os céus, que preenche a terra e que preenche tudo o que quiseres além disso. Ó Senhor do louvor e da glória, Tu és o mais digno do que o servo diz; todos nós somos Teus servos. Ninguém pode impedir aquilo que concedes, e ninguém pode conceder aquilo que não concedes. A riqueza, a posição e a prosperidade de uma pessoa afortunada e de alta posição não lhe servirão de nada — somente as boas obras podem beneficiá-la. — Muslim, Ahmad e Abu Dawud.

d. Também foi narrado com uma cadeia autêntica que, depois de dizer “Sami‘a Allahu liman hamidah”, ele se levantava completamente ereto e dizia:يربى الحمد لربي الحمد“Para o meu Senhor é o louvor, para o meu Senhor é o louvor.” Quanto mais longa era a sua inclinação, igualmente longo era o tempo que permanecia ereto.

12. Prostração

Segundo a maioria dos sábios, é recomendável colocar os joelhos no chão antes das mãos. Ibn al-Mundhir disse: Esta é a opinião de ʿUmar al-Nakhaʿi, Muslim ibn Yasār, Sufyān al-Thawrī, Ahmad, Isḥāq e dos aṣḥāb al-raʾy, isto é, dos mujtahids que seguem o raciocínio independente. O próprio Ibn al-Mundhir também sustentava essa opinião. Abū al-Ṭayyib disse: Esta é a opinião da maioria dos juristas. Ibn al-Qayyim disse:

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocava os joelhos antes das mãos, depois colocava as duas mãos e, em seguida, a testa e o nariz. Esta é a opinião correta. Wāʾil ibn Ḥujr disse: “Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e, ao prostrar-se, ele colocava primeiro os joelhos e depois as mãos. Ao levantar-se, levantava primeiro as mãos e depois os joelhos. Ninguém jamais viu em sua prática algo contrário a isso.” Mālik, al-Awzāʿī e Ibn Ḥazm consideram recomendável colocar as mãos antes dos joelhos. Há também uma narração de Aḥmad nesse sentido. Al-Awzāʿī disse: “Vi as pessoas colocarem primeiro as mãos e depois os joelhos.” Ibn Abī Dāwūd disse: “Esta é a opinião dos especialistas em hadith.” O modo de levantar-se da prostração para ficar de pé na segunda rakʿah também é objeto de opiniões opostas. Segundo a maioria, deve-se levantar primeiro as mãos e depois os joelhos. Outros dizem que se devem levantar primeiro os joelhos e depois as mãos.

13. O modo da prostração

Aquele que se prostra deve realizar a prostração observando as seguintes regras:

a. O nariz, a testa e as duas mãos devem ser colocados no chão, e as duas mãos devem ser mantidas afastadas das costelas. Wāʾil ibn Ḥujr disse: “Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se prostrava, colocava a testa entre as palmas das duas mãos e deixava as axilas expostas.” Abū Dāwūd. Abū Ḥumayd disse: “Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se prostrava, colocava o nariz e a testa no chão, mantinha as duas mãos afastadas das costelas e colocava as palmas na altura dos ombros.” Ibn Khuzaymah, al-Tirmidhī.

b. As palmas das duas mãos devem ficar na altura das duas orelhas ou do pescoço. Alguns sábios conciliaram essas duas narrações opinando que as pontas dos polegares devem ficar na altura das orelhas e as palmas na altura do pescoço.

c. Deve manter os dedos unidos e estendidos. Al-Ḥākim e Ibn Ḥibbān narraram que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se inclinava para o rukūʿ, mantinha espaço entre os dedos; mas, quando se prostrava, mantinha os dedos unidos.

d. As pontas dos dedos devem estar voltadas para a qiblah. Al-Bukhārī narrou, por intermédio de Abū Ḥumayd, que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se prostrava, não estendia as duas mãos no chão nem as fechava, e mantinha as pontas dos dedos dos pés voltadas para a qiblah.

14. A duração da prostração e o dhikr

Para quem se prostra, é recomendável, ao prostrar-se, recitarبحان ربى الأعلى (proclamo a glória e a santidade do meu Senhor Supremo). ‘Uqbah ibn ‘Amir narrou que, quando foi revelado: «Glorifica o nome do teu Senhor, o Altíssimo» — o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «Colocai isso em vossas prostrações.» — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah e al-Hakim. Foi narrado por Hudhayfah que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizia durante a prostração: «Glória ao meu Senhor, o Altíssimo.» — Ahmad, Muslim, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah. É censurável recitar o tasbih da inclinação e da prostração menos de três vezes. Al-Tirmidhi disse: Esta é a opinião seguida pelos sábios. Eles consideram recomendável recitar o tasbih três vezes, como quantidade mínima. Contudo, segundo a maioria dos sábios, recitar o tasbih uma única vez é suficiente para a validade da inclinação e da prostração. Como já mencionei, permanecer na prostração com calma, tranquilidade e serenidade é obrigatório. Considera-se que isso é possível recitando o tasbih pelo menos uma vez.

Contudo, segundo alguns sábios, o tasbih completo é alcançado com dez recitações. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Não vi ninguém rezar de modo mais semelhante ao do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) do que este jovem», referindo-se a ‘Umar ibn ‘Abd al-‘Aziz. «Supomos que ele recitava o tasbih dez vezes na inclinação e dez vezes na prostração.» — Ahmad, Abu Dawud e al-Nasa’i. Al-Shawkani disse: Há neste hadith uma prova para os que afirmam que o tasbih completo consiste em recitá-lo dez vezes. Contudo, a opinião mais correta é que aquele que reza sozinho pode recitar o tasbih quantas vezes desejar; e quanto mais recitar, melhor. Muitos hadiths autênticos recomendam prolongar a oração de quem reza dessa maneira. Se isso não causar dificuldade aos seguidores, o imam também pode fazê-lo. Ibn ‘Abd al-Barr disse: Todo imam deve abreviar a oração, pois há uma ordem do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a esse respeito. Deve abreviá-la mesmo quando os seguidores estiverem suficientemente descansados e fortes, pois ninguém sabe que problema poderá surgir para qualquer pessoa. Durante uma oração prolongada, alguém pode precisar urinar ou defecar, ou pode ocorrer-lhe algum outro problema repentino. Ibn al-Mubarak disse: É recomendável que o imam recite o tasbih cinco vezes, para que os que estão atrás dele tenham oportunidade de recitá-lo pelo menos três vezes. É recomendável que aquele que reza não se limite a recitar o tasbih, mas recite também, conforme sua capacidade, outras súplicas. Há um hadith autêntico que diz:

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «O momento em que estais mais próximos de Allah é quando estais prostrados. Portanto, multiplicai as súplicas durante a prostração.» Ele também disse: «Sabei que fui proibido de recitar o Alcorão durante a inclinação e a prostração. Na inclinação, glorificai a grandeza de Allah; e, na prostração, multiplicai as súplicas. É provável que sejam aceitas.» — Ahmad e Muslim. Há muitos hadiths sobre este tema; citarei aqui alguns deles:

a. Foi narrado por ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) que, quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se prostrava, dizia:

الأمر لَكَ سَجَدت، وبك آمنت، وَلَكَ أَسْلَمْتُ، سَجَدَ وَجْهِي لِلَّذِي خَلَقَهُ فَصَورَهُ فَأَحْسَنَ صُورَهُ نشق سمعه وبصره، فَتَبَارَكَ اللهُ أَحْسَنَ الْخَالِقِينَ.

Significado: «Ó Allah, prostrei-me diante de Ti, creio em Ti e submeti-me a Ti. Meu rosto prostrou-se diante do seu Criador, que o formou harmoniosamente e criou os seus ouvidos e os seus olhos. Bendito seja Allah, o melhor dos criadores.» — Ahmad e Muslim.

b. Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), ao descrever a oração do tahajjud do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), disse: Ele levantou-se para rezar. Rezou e, durante a oração ou a prostração, começou a dizer:

اللَّهُ أَجْعَلْ فِي قَلْبِي نَوْرًا وَفِي سَبْعِي نُورًا، وَفِي بَصَرِي نُورًا، وَعَن يَمِينِي لَوْرًا، وَتَحْتِي نُورًا واجعلني نورا .

Significado: Ó Allah, coloca luz no meu coração, coloca luz nos meus ouvidos, coloca luz nos meus olhos, coloca luz à minha direita, coloca luz abaixo de mim e faz de mim luz. — Muslim, Ahmad. An-Nawawi diz que ele pediu luz em todos os seus membros e em todas as direções, cujo significado é a orientação para a verdade e o caminho correto. Ele pediu luz em todos os seus membros, no corpo, em todas as suas ações e condutas, em todas as situações e em todas as direções, para que nada pudesse ficar oculto à sua vista.

c. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Certo dia, percebeu que o Mensageiro não estava deitado na cama. Procurou-o com a mão e descobriu que ele estava em prostração. Durante a prostração, ele dizia:

ربِّ أَعْطِ نَفْسِي تَقْوَامًا ، وَزَكَهَا ، أَنْتَ خَيْرٌ مَنْ زَكَامًا ، أَنْتَ وَلِيُّهَا وَمَوْلَاهَا .

Significado: Ó meu Senhor, concede-me autocontrole, purifica-me; Tu és o melhor dos que purificam, e és meu protetor e meu senhor. — Ahmad

d. Abu Huraira disse: O Mensageiro dizia durante a prostração:

اللهم المغولي ذنبي كله، دقه وجله وأولهُ وَآخِرَهُ، وَعَلَانِيَتَهُ وَسرة.

Significado: Ó Allah, perdoa todos os meus pecados, os pequenos e os grandes, os primeiros e os últimos, os ocultos e os manifestos. — Muslim, Abu Dawud, al-Hakim.

e. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: certa noite, perdi o rastro do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), mas depois o encontrei na mesquita. Vi que ele estava em prostração e dizia:

اللهم إني أعوذ برضاك من سخطك، وأعوذ بمعافاتك من عقوبَتِكَ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْكَ لَا أَحْصِي تَنَاءَ علَيْكَ أَنتَ كَمَا اثْنَيْسَ عَلَى نَفْسِكَ.

Significado: Ó Allah, busco refúgio em Tua satisfação contra Tua ira, em Teu perdão contra Teu castigo e em Ti contra Ti. Não consigo terminar de Te louvar. Tu és tal como Tu mesmo Te louvaste. — Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah.

f. Foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): certa noite, ela perdeu o rastro do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e pensou que ele tivesse ido até alguma de suas outras esposas. Depois, encontrou-o. Viu que ele estava em inclinação ou em prostração. Ele dizia:

سبحانك الله وَبِحَمْدِكَ، لَا إِلَهَ إِلَّا أَنتَ

Significado: Ó Allah! Glorifico-Te e louvo-Te. Não há divindade além de Ti. Então ela disse ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti. Tu estavas em uma situação, e eu em outra. (Isto é, tu estavas fazendo uma coisa, enquanto eu pensava outra.) — Ahmad, Muslim e Nasa’i.

g. Durante a prostração, ele dizia:

اللَّهمَّ اغْفِرْ لِي عَطِينَتِي وَجَمْلِي ، وَإِسْرَانِي فِي أَمْرِي وَمَا أَنتَ أَلَمُ بِهِ مِنَى اللَّهُمَّ اغْفِرْ لِي جَدِي ومَزْلِي، وَعَطَنِي وَعَمْدِي، وَكُلُّ ذَلِكَ عِنْدِي اللَّهمَّ اغْفِرْ لِي مَا قَدَّمْتَ وَمَا أَمْرُ، وَمَا أَسْرَرْت وَمَا أعلنت أنتَ إِلهِي لَا إِلَهَ إِلَّا أَنتَ.

Significado: Ó Allah, perdoa os meus erros, falhas e ignorância. Perdoa os atos que cometi sem discernimento. E perdoa também aquilo que Tu conheces melhor do que eu. Ó Allah, perdoa os pecados que cometi em meu estado natural ou em tom de brincadeira, intencionalmente ou sem intenção. Tudo isso faz parte de mim. Ó Allah! Perdoa os pecados que cometi antes e depois, em segredo e abertamente. Tu és o meu Deus; não há outro deus além de Ti.

15. A sessão e a súplica entre as duas prostrações

A sunnah da sessão entre as duas prostrações é estender o pé esquerdo e sentar-se sobre ele, mantendo o pé direito erguido e voltando as pontas dos dedos do pé direito na direção da qiblah. Foi narrado por ‘Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela: «O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estendia o pé esquerdo e mantinha o direito erguido.» — Bukhari e Muslim. Também foi narrado por Ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: «A sunnah da oração é manter o pé direito erguido, com os dedos voltados para a qiblah, e sentar-se sobre o pé esquerdo.» — Nasa’i. Nafi‘ disse: «Quando Ibn ‘Umar orava, tudo nele ficava voltado para a qiblah, até mesmo suas sandálias.» Abu Humayd disse: «O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estendia o pé esquerdo e sentava-se sobre ele; depois, alinhava todos os membros, de modo que cada osso voltava ao seu lugar. Em seguida, prostrava-se.» — Ahmad, Abu Dawud e Tirmidhi.

Em alguns hadiths, o iq‘ā também é considerado mustahabb. Iq‘ā é estender os dois pés no chão e sentar-se sobre os calcanhares de ambos. Abu ‘Ubaydah disse: «Essa é a opinião dos ahl al-hadith (especialistas em hadith).» Abu az-Zubayr disse: «Ouvi Tawus dizer: perguntamos a Ibn ‘Abbas sobre sentar-se sobre os dois pés estendidos. Ele respondeu: “Isso é sunnah.” Dissemos: “Nós consideramos isso doloroso para os pés.” Ibn ‘Abbas respondeu: “Essa é a sunnah do vosso Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.”» — Muslim.

Também foi narrado por Ibn ‘Umar: quando ele levantava a cabeça da primeira prostração, sentava-se sobre as pontas dos dedos dos dois pés e dizia: «Isso é sunnah.» Tawus disse: «Vi ‘Abdullah ibn ‘Abbas, ‘Abdullah ibn ‘Umar e ‘Abdullah ibn az-Zubayr praticarem o iq‘ā.» — Bayhaqi. Há uma forma de iq‘ā que consiste em colocar as nádegas no chão e manter as duas coxas erguidas. Isso é unanimemente considerado makruh. Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proibiu-me três coisas: bicar como um galo durante a prostração; sentar-se sobre as nádegas mantendo as pernas erguidas, como um cão; e olhar de um lado para o outro, como uma raposa.» — Ahmad, Bayhaqi, Tabarani e Abu Ya‘la. A maneira mustahabb de sentar-se entre as duas prostrações é colocar a mão direita sobre a coxa direita e a mão esquerda sobre a coxa esquerda, estender os dedos para o lado ocidental, deixando um pequeno espaço entre eles, e estendê-los até os joelhos.

É mustahabb recitar, entre as duas prostrações, qualquer uma das duas súplicas seguintes, tantas vezes quanto se desejar. Nasa’i e Ibn Majah narraram, segundo Hudhayfah, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia entre as duas prostrações:

رَبِّ اغْفِرْ لِي رَبِّ اغْفِرْ لِي.

Significado: Ó meu Senhor! Perdoa-me. Ó meu Senhor! Perdoa-me. Abu Dawud narrou, segundo Ibn ‘Abbas, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia entre as duas prostrações:

اللهم اغفر لي وارحمني وعَافِنِي وَاهْدِنِي وارزقني .

Significado: Ó Allah! Perdoa-me, tem misericórdia de mim, guia-me pelo caminho correto e concede-me sustento.

16. A sessão de descanso

Esta é uma breve sessão ao final do segundo sujud da primeira rak‘ah, antes de se levantar para a segunda rak‘ah, e ao final do segundo sujud da terceira rak‘ah, antes de se levantar para a quarta rak‘ah. Devido às divergências entre os hadiths pertinentes, os estudiosos também divergem a esse respeito. Apresento aqui o breve resumo que Ibn al-Qayyim fez sobre o assunto: “Os juristas divergem quanto a saber se esta é uma sunnah da oração e se é mustahabb que todos a pratiquem, ou se ela só deve ser feita quando houver necessidade. Duas opiniões foram transmitidas do imame Ahmad. Al-Khallal disse que, a respeito da sessão de descanso, Ahmad voltou-se para o hadith narrado por Malik ibn al-Huwayris e disse que Yusuf ibn Musa informou que, quando Abu Umamah foi questionado sobre isso, respondeu: sentar-se sobre a parte superior dos dois pés é mencionado no hadith de Rifa‘ah. No hadith de Ibn ‘Ajlan consta que ele se sentava sobre a parte superior dos dois pés. Vários companheiros e outros que descreveram a oração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não mencionaram essa sessão. Ela é mencionada somente nos hadiths de Abu Humayd e Malik ibn al-Huwayris. Se isso fosse uma prática habitual do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele a faria sempre, e aqueles que descreveram sua oração a mencionariam. O simples fato de se mencionar que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizou esse ato não prova que ele seja uma sunnah da oração. Um ato só será considerado sunnah e digno de ser imitado quando se souber que ele próprio o praticava e que os companheiros também o praticavam sabendo que era sunnah. Porém, quando se presume que ele o fez por considerá-lo necessário, isso não prova que seja sunnah.”

17. A maneira de sentar-se para o tashahhud

Ao sentar-se para o tashahhud, devem-se observar as seguintes sunnahs:

As mãos devem ser colocadas conforme descrito nos hadiths a seguir:

a. Ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se sentava para o tashahhud, colocava a mão esquerda sobre o joelho esquerdo e a mão direita sobre o joelho direito, fechava a mão em punho e fazia um sinal com o dedo indicador. — Muslim. (Fechava a mão em punho e colocava o polegar sob o indicador, na articulação entre os dedos.)

b. Wā’il ibn Hujr disse: O Mensageiro de Allah colocava a palma da mão esquerda sobre o joelho e a coxa esquerdos. Colocava a ponta do cotovelo direito sobre a coxa direita e, fechando os dedos, formava um círculo. Em outra narração, consta que formava um círculo com o polegar e o dedo médio e fazia um sinal com o indicador. Depois, levantava o dedo. Eu o vi movê-lo e fazer sinal com ele. — Ahmad. Al-Bayhaqi disse: mover o dedo também pode significar fazer sinal com ele, e não movê-lo repetidamente, de modo que isso corresponda à narração de Ibn az-Zubayr. Ibn az-Zubayr narra: Quando o Mensageiro fazia uma súplica, fazia sinal com o dedo, mas não o movia. — Abu Dawud.

c. Zubayr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Quando o Mensageiro de Allah se sentava para o tashahhud, colocava a mão direita sobre a coxa direita e a mão esquerda sobre a coxa esquerda. Fazia sinal com o indicador da mão direita, e seu olhar não ultrapassava o sinal que fazia. — Ahmad, Muslim e an-Nasa’i. Este hadith mostra que basta colocar a mão direita sobre a coxa; não é necessário mantê-la fechada. Também se deve fazer sinal com o indicador da mão direita. É igualmente sunnah que o olhar daquele que reza não ultrapasse o sinal do indicador. Estas são três formas autênticas. É permitido seguir qualquer uma delas.

Deve-se fazer um leve sinal com o indicador direito até a conclusão do salām. Numayr al-Khuzāʿī disse: Vi o Mensageiro de Allah sentado durante a oração, com a mão direita sobre a coxa direita. Mantinha o indicador levantado e, inclinando-o levemente, fazia súplicas. — Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i, Ibn Majah e Ibn Khuzaymah. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro viu Sa‘d fazendo súplica com dois dedos e então lhe disse: “Ó Sa‘d, com um dedo!” (isto é, faça sinal com um só dedo). — Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i e al-Hakim.

Quando Ibn Abbas foi perguntado sobre fazer sinal levantando o dedo, respondeu: “Isso é a declaração da unicidade de Allah.” Anas disse: “É uma demonstração de humildade.” Mujahid disse: “Com isso, Satanás é repreendido.” Segundo a escola shafi‘ita, deve-se fazer um sinal uma vez com o indicador ao pronunciar “illallah”. Segundo os hanafitas, deve-se levantar o indicador ao pronunciar “ashhadu an lā ilāha” e baixá-lo ao pronunciar “illallah”. Segundo os mal ज̣ikitas, deve-se mover o indicador para a direita e para a esquerda até o fim da oração. Segundo a escola hanbalita, sempre que o nome de Allah for pronunciado, deve-se levantar o indicador, apontando para a unicidade de Allah, sem balançá-lo nem movê-lo.

No primeiro tashahhud, deve-se sentar estendendo os dois pés; no tashahhud final, deve-se estender o pé esquerdo, manter o direito erguido, com as pontas dos dedos voltadas para a qibla, e sentar-se sobre a nádega esquerda. Abu Humayd disse: Quando o Mensageiro de Allah se sentava ao fim de duas rak‘at, sentava-se sobre o pé esquerdo e mantinha o pé direito erguido. Quando se sentava na última rak‘ah, estendia o pé esquerdo e fazia-o sair por baixo do pé direito. Mantinha o pé direito erguido e sentava-se sobre as nádegas. — Al-Bukhari.

18. O primeiro tashahhud

Segundo a maioria dos sábios, o primeiro tashahhud é sunnah. Isso porque Abd Allah ibn Buhaynah disse: O Mensageiro de Allah levantou-se na oração do meio-dia, tendo deixado uma sessão (isto é, ela lhe escapou). Quando concluiu a oração, fez duas prostrações de esquecimento. Em cada prostração, disse “Allahu akbar”, e em ambas se prostrou sentado, antes de pronunciar o salām. As pessoas da congregação também fizeram as prostrações com ele. Essas duas prostrações foram em compensação pela sessão que ele havia esquecido. — Todas as coletâneas de hadiths autênticos. Na obra Subul as-Salam, afirma-se: Este hadith prova que, se o primeiro tashahhud for omitido por esquecimento, ele pode ser compensado pelas prostrações de esquecimento. A declaração do Mensageiro — “Rezai como me vistes rezar” — prova que o primeiro tashahhud é obrigatório. O fato de sua omissão ser compensada pelas prostrações de esquecimento prova aqui que, embora seja obrigatório, sua compensação pode ser feita por meio dessas prostrações. Isso não pode provar que ele não é obrigatório, enquanto não se provar que as prostrações de esquecimento são suficientes para compensar a omissão, por esquecimento, de qualquer ato obrigatório.

O hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: Ibn al-Battal afirmou: A prova de que as prostrações de esquecimento não substituem um ato obrigatório é que, se alguém esquecer o takbirat al-ihram, as prostrações de esquecimento não o compensarão. O tashahhud é igualmente assim. Além disso, por ser uma súplica que não é feita em voz audível em nenhuma circunstância, ele não é obrigatório. É semelhante à súplica inicial recitada antes da Surata al-Fatiha. Outros apresentam como prova a imitação contínua do Mensageiro, embora as pessoas tivessem omitido isso deliberadamente, sabendo do fato. Contudo, há uma discussão a esse respeito. Entre os que consideram obrigatório o primeiro tashahhud estão Layth ibn Sa‘d, Ishaq e Ahmad, segundo a opinião mais conhecida. Essa também é a opinião de ash-Shafi‘i. Segundo uma narração, essa é igualmente a opinião dos hanafitas. Como prova de sua obrigatoriedade, at-Tabari diz: A oração foi inicialmente prescrita com duas rak‘at. Nessa oração, o tashahhud era obrigatório. Mais tarde, quando a oração foi ampliada, a obrigatoriedade não foi abolida por causa dessa ampliação.

É recomendável concluir rapidamente a primeira sessão. Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se sentava após completar as duas primeiras rak‘at, parecia que estava sentado sobre uma pedra incandescente.” (Isto é, ele a concluía muito rapidamente.) — Ahmad, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah. At-Tirmidhi disse: “Os eruditos seguem esta opinião. Eles preferem não prolongar a sessão da segunda rak‘ah e não recitar nela nada além do tashahhud.” Ibn al-Qayyim disse: “Não foi relatado por nenhuma cadeia de transmissão que ele recitasse salawat no primeiro tashahhud. Tampouco se sabe que, nessa sessão, ele buscasse refúgio contra o castigo do túmulo, o castigo do Inferno, as provações da vida e da morte e a tentação do Dajjal.” Aqueles que consideraram recomendável recitá-las fizeram-no apenas por reconhecerem sua necessidade geral. Caso contrário, foi relatado com uma cadeia autêntica que o lugar específico para recitá-las é a última sessão.

19. Enviar salawat ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

É recomendável recitar salawat sobre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na sessão do tashahhud final. Como salawat, pode-se recitar qualquer uma das seguintes fórmulas:

1. Abu Mas‘ud al-Badri disse que Bashir ibn Sa‘d falou: “Ó Mensageiro de Allah! Allah ordenou-nos que enviássemos salawat sobre você. Como devemos enviar salawat?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em silêncio. Em seguida, disse: “Dizei:

اللَّه صَلِّ عَلَى مُحَمَّدٍ وَعَلَى الوِ مُحَمَّدٍ كَمَا صَلَّيْتَ عَلَى آلِ إِبْرَاهِيمَ وَبَارِكْ عَلَى مُحَمَّدٍ وَعَلَى آلِ محَمَّدٍ كَمَا بَارَكْتَ عَلَى آلِ إِبْرَاهِيرَ فِي الْعَالَمِينَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَجِيدٌ.

Significado: Ó Allah, envia misericórdia sobre Muhammad e sobre a família e os parentes seguidores de Muhammad, assim como enviaste misericórdia sobre a família e os parentes de Abraão. E envia bênçãos sobre Muhammad e sobre a família e os parentes seguidores de Muhammad, assim como enviaste bênçãos sobre a família e os parentes de Abraão entre os mundos. Tu és, certamente, Digno de todo louvor e Glorioso.” E proferireis o salam da maneira que conheceis. Muslim e Ahmad.

2. Ka‘b ibn ‘Ujrah disse: “Dissemos: Ó Mensageiro de Allah, sabemos como proferir o salam sobre você. Mas como devemos enviar salawat sobre você?” Ele respondeu: “Dizei:

اللهم صل على محمدٍ وَعَلَى آلِ مُحملٍ كَمَا صَلَّيْتَ عَلَى آلِ إِبْرَاهِيمَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَجِيدٌ، اللهم بارك على محمدٍ وَعَلَى آلِ مُحَمَّدٍ كَمَا بَارَكْتَ عَلَى آلِ إِبْرَاهِيمَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَجِيدٌ.

Todos os livros de hadith autênticos. Que a recitação da salat sobre o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe dê paz — não seja obrigatória, mas recomendável, está comprovado pelos hadith narrados de Fudalah em Tirmidhi, Ahmad e Abu Dawud.

O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe dê paz — ouviu um homem fazendo uma súplica durante a oração, mas ele não recitou a salat sobre o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe dê paz. O Mensageiro de Allah comentou: “Este homem terminou sua oração muito rapidamente.” Então chamou-o e disse a ele ou a outra pessoa: “Quando algum de vocês fizer a oração, que comece louvando a Allah, depois recite a salat sobre o Profeta e, em seguida, suplique a Allah pelo que desejar.” O autor de Al-Muntaqa disse: “Este hadith prova que a salat não é obrigatória, pois o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe dê paz — não ordenou que aquele que a abandonou repetisse a oração. Isso também é corroborado pelo hadith de Ibn Mas‘ud, no qual, depois da descrição do tashahhud, se diz: ‘Depois disso, pode pedir a Allah o que desejar.’” Ash-Shawkani disse: “Não encontrei nenhuma prova em favor daqueles que consideram a salat obrigatória.” [A palavra árabe para salat é “salat”. Quando Allah envia a salat sobre o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe dê paz — isso significa que Allah o louva e o honra; e quando os anjos enviam a salat sobre ele, isso significa que suplicam para que Allah lhe conceda misericórdia. A palavra original “al” (JI) significa família e parentes. Alguns dizem que ela se refere aos Banu Hashim e aos Banu Abd al-Muttalib, aos quais é proibido aceitar zakat e sadaqah. Segundo outros, significa seus descendentes. Outros ainda dizem que significa sua comunidade e seus seguidores até o Dia da Ressurreição. Para muitos, refere-se aos membros virtuosos da comunidade. Contudo, o significado mais preponderante é toda a comunidade.]

20. A súplica após o tashahhud final e antes do salam

É recomendável suplicar, depois do tashahhud e antes do salam, por todo bem deste mundo e do Além. Abd Allah ibn Mas‘ud disse: “O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe dê paz — ensinou-nos o tashahhud. Depois, ao final do tashahhud, disse: ‘Depois disso, podemos pedir o que desejarmos.’” — Muslim.

É recomendável, sem restrição, fazer súplicas antes do salam. A recomendação será cumprida tanto recitando uma súplica transmitida nos hadith quanto uma súplica própria. No entanto, é melhor recitar uma súplica transmitida nos hadith. Mencionarei algumas das súplicas transmitidas nos hadith:

1. Abu Hurayrah narrou que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe dê paz — disse: “Depois de recitarem o tashahhud final, busquem a proteção de Allah contra quatro coisas e digam:”

اللهم إني أعوذ بك من عَلَابِ جَهَنر، ومن عذاب القبر ومن فتنة المعيَا وَالْمَمَاتِ، وَمِنْ قَرْ فِتْنَةِ المسيح الدجال.

Significado: Ó Allah, busco refúgio em Ti contra o castigo do Inferno, o castigo da sepultura, as provações da vida e da morte e o mal do Dajjal. — Muslim.

2. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava fazer esta súplica durante a oração:

اللَّهُ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنْ عَذَابِ الْقَبْرِ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ فِتْنَةِ الرِّجالِ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ فِتْنَةِ الْمَحْيَا والماس، اللهم إنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنَ الْمَارِ وَالْمَفْرَمِ .

Significado: Ó Allah, busco refúgio em Ti contra o castigo da sepultura, a provação do Dajjal e todas as provações da vida e da morte. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra o pecado e a dívida. — Bukhari e Muslim.

3. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazia a oração, sua última súplica entre o tashahhud e o salam era:

اللَّهُمَّ اغْفِرْ لِي مَا قَدَّمْتَ وَمَا أَعْرَت، وَمَا أَسْرَرْتُ وَمَا أَعْلَنْتُ وَمَا أَسْرَرْتُ وَمَا أَنْتَ أَعْلَمُ بِهِ مِنِي انت المقدم وأنت المؤخر، لا إله إلا أنت .

Significado: Ó Allah, perdoa todos os meus pecados anteriores e posteriores, ocultos e manifestos, os decorrentes de transgressão e aqueles que Tu conheces melhor do que eu. Tu fazes avançar e Tu fazes retroceder. Não há divindade além de Ti. — Muslim.

4. Abdullah ibn Umar disse: Abu Bakr disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ensina-me uma súplica para recitar durante a oração.” Ele disse: “Dize:”

اللَّهُ إِنِّي ظَلَمْتُ نَفْسِي ظُلْمًا كَثِيرًا وَلَا يَغْفِرُ الذُّلُّوبَ إِلَّا أَنْتَ فَاغْفِرْ لِي مَغْفِرَةً مِنْ عِنْدِي وارحمني إنك أنت الغفور الرحيم .

Significado: Ó Allah, cometi muitas injustiças contra mim mesmo (isto é, cometi muitos pecados), e ninguém pode perdoar os pecados além de Ti. Portanto, perdoa-me com um perdão vindo de Ti e tem misericórdia de mim. Certamente, Tu és o Perdoador, o Misericordioso. Bukhari e Muslim.

5. Foi narrado por Hanzala ibn Ali: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou na mesquita e viu um homem que, tendo chegado à parte final da oração, dizia após o tashahhud:

اللَّهُمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ يَا اللَّهُ الْوَاحِدُ الْأَحَدُ الصَّمَدُ الَّذِي لَرْيَان وَلَمْ يُولَدْ وَلَمْ يَكُن لَهُ كُفُوًا أَحَدٌ أَن تَغْفِرَ لِي ذُنُوبِي إِنَّكَ أَنتَ الغَفور الرحيم .

Significado: Ó Allah, ó Único e Incomparável, o Auto-Suficiente, que não tem filho, que não é pai de ninguém e com quem ninguém se iguala. Suplico-Te: perdoa os meus pecados. Certamente, Tu és o Perdoador, o Misericordioso.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ele foi perdoado.” Ele repetiu essas palavras três vezes. — Ahmad e Abu Dawud.

6. Shaddad ibn Aws (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia em sua oração:

اللَّهُمَّ إِنِّي أَسْأَلَكَ الثَّبَاتِ فِي الْأَمْرِ، وَالْعَزِيمَة عَلَى الرَّهْدِ، وَأَسْأَلُكَ فَذَرَ نِعْمَتِكَ، وَحُسَنٌ عِبَادَتِكَ، وَأَسْأَلُكَ قَلْبًا سَلِيْمًا، وَلِسَانًا صَادِقًا، وَأَسْأَلُكَ مِنْ غَيْرِ مَا تَعْلَى، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ شَرِّ مَا تَعْلَى وَاسْتَغْفِرُكَ لِمَا تَعْلَمُ .

Significado: Ó Allah, peço-Te a capacidade de permanecer firme na religião, manter-me constante na sinceridade, agradecer-Te por Tuas dádivas e adorar-Te da melhor maneira. Peço-Te também um coração puro e uma língua veraz. Peço-Te aquilo que sabes ser bom, e busco refúgio em Ti daquilo que sabes ser mau. Tu conheces os meus pecados; peço-Te, portanto, que os perdoes. — An-Nasa’i

7. Abu Mijlaz disse: Ma’qil ibn Yasar conduziu-nos na oração, mas a realizou de forma muito breve. As pessoas demonstraram desagrado com isso. Ele perguntou: “Acaso não fiz o rukūʿ e o sujūd completamente?” Eles responderam: “Sim, fizeste.” Então ele disse: “Vede, recitei na oração uma súplica que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava recitar:

الله يعليك الْغَيْبِ وَقُدْرَتِكَ عَلَى الْخَلْقِ أَحْيِنِي مَا عَلِيْ الْحَيَاةَ خَيْرًا لِي، وَتَوَفَّنِي إِذَا كَانَتِ الْوَقَاةُ خَيْرًا لِي، أَسْأَلُكَ عَفيتَكَ فِي الْغَيْبِ وَالشَّهَادَةِ وكلمة الحق في القضب والرضا وَالْقَصْنَ فِي الْفَقْرِ وَالْفِني، ولذة النظر إلى

وجهك ، والشوق إلَى لِقَائِكَ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ مَرَاء مكبرة، ومن فتنة مصيلة، اللهم زينا بزينة الإِيمَانِ، وَاجْعَلْنَا هداة مهربين.

Significado: Ó Allah, pelo Teu conhecimento do invisível e pelo Teu poder sobre a criação, mantém-me vivo enquanto souberes que a vida é melhor para mim. E faze-me morrer somente quando souberes que a morte é melhor para mim. Concede-me a graça de temer-Te em segredo e em público, de falar com justiça tanto em momentos de ira quanto de satisfação, de seguir um caminho moderado nos gastos tanto na pobreza quanto na abundância, e completa para mim a alegria de contemplar o Teu semblante e o desejo de encontrar-Te. Busco refúgio em Ti contra calamidades e aflições prejudiciais, e contra sofrimentos e dores que desviam do caminho. Ó Allah, embeleza-nos com a fé e faze de nós guias e guiados. — Ahmad, An-Nasa’i

8. Foi narrado por Abu Salih: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou a um homem: “O que recitas na oração?” Ele respondeu: “Recito o tashahhud e depois digo:”

اللهم إني أسألك الجنة وأعوذ بك من النار .

Significado: Ó Allah, peço-Te o Paraíso e busco refúgio em Ti contra o Inferno.” Então o homem disse: “Não consigo recitar bem as outras súplicas difíceis que o senhor e Mu‘adh recitam.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Continua recitando apenas estas duas.” — Ahmad, Abu Dawud. 9. Foi narrado por Ibn Mas‘ud que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe ensinou esta súplica:

اللهم الف بين قلوبنا، وأصلح بَيْنَنَا، وَاهْدِنَا سُبُلَ السَّلام وَنَحنَا مِنَ الظُّلُمَاتِ إلى النور. وَحَيْنَا الْفَوَاحِشَ مَا ظَهَرَ مِنْهَا وَمَا بَطَلَى، وَبَارِك لَنَا فِي أَسْمَاعِنَا وَأَبْصَارِنَا وَقُلُوْبِنَا وَأَزْوَاجِنَا وَذُرِّيَاتِنَا وَتَب عَلَيْنَا إِنَّكَ أَنتَ التواب الرحيم

، واجعلنا شاكرين لنعمتك، مثنين بما وقابليها وأنها علي

Significado: Ó Allah, concede amor mútuo aos nossos corações, corrige os nossos relacionamentos e guia-nos pelo caminho da paz. Liberta-nos das trevas e conduz-nos à luz. Protege-nos da obscenidade, manifesta e oculta. Concede o bem aos nossos olhos, aos nossos ouvidos, aos nossos corações, aos nossos cônjuges e aos nossos filhos. Perdoa os nossos pecados; Tu és, certamente, Perdoador, Misericordioso. Torna-nos agradecidos pelas Tuas bênçãos, louvadores e dignos delas, e completa sobre nós as Tuas bênçãos. — Ahmad, Abu Dawud.

10. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu estava sentado com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Um homem estava rezando. Quando se inclinou e completou o tashahhud, fez a seguinte súplica:

اللهمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ بِأَنَّ لَكَ الْحَمْدِ لا إله إلا أنت المنان، بَدِيعُ السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ بَاذَا الهلال والإكْرَا يَا حَيُّ يَا قَيُّومُ إِنِّي أَسْأَلُكَ .

Significado: Ó Allah, a Ti pertence todo o louvor; por meio disso, suplico-Te. Não há divindade além de Ti. Tu és o Generoso, ó Criador dos céus e da Terra, ó Possuidor da majestade e da honra, ó Vivente, ó Eterno; a Ti suplico.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos Companheiros: “Sabeis por meio de que ele fez a súplica?” Eles responderam: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” Ele disse: “Por Aquele em cuja mão está a vida de Muhammad, ele suplicou por meio do Nome Supremo de Allah; quando se suplica por meio dele, Ele atende, e quando se pede por meio dele, Ele concede.” — An-Nasa’i.

11. Umayr ibn Sa’d disse: Ibn Mas’ud ensinava-nos o tashahhud da oração e dizia: depois do tashahhud, deve-se fazer a seguinte súplica:

اللهم إلى أمالك من الخير كله ما علمت منه وما لم أعلى، وأعوذ بلكَ مِنَ الشَّرْكُلِهِ مَا عَلَيْتُ مِنْهُ وَمَا لَمْ أعلى اللهم إلى أسالك من غير ما سألك مِنْهُ عِبادك الصالحون، وأعوذُ بِكَ مِنْ شَرِّ مَا اسْتَعَاذَكَ مِنْهُ عبادك

الصالحون، رَبَّنَا آتِنَا فِي الدُّنْيَا حَسَنَةٌ وَفِي الْآخِرَةِ حَسَنَةً وَقِنَا عَذَابَ النَّارِ.

Significado: Ó Allah, peço-Te todo o bem, o que conheço e o que não conheço, e busco refúgio em Ti contra todo o mal, o que conheço e o que não conheço. Ó Allah, peço-Te o melhor daquilo que os Teus servos virtuosos Te pediram e busco refúgio em Ti contra o mal daquilo contra o qual os Teus servos virtuosos buscaram refúgio em Ti. Ó nosso Senhor, concede-nos o bem nesta vida e o bem na Outra Vida, e protege-nos do castigo do Inferno.” Ele disse: “Tudo aquilo pelo qual qualquer profeta ou pessoa virtuosa tenha suplicado está incluído nesta súplica.” — Ibn Abi Shaybah, Sa’id ibn Mansur.

21. Dhikr e súplicas após o salām

Há vários dhikrs e súplicas narrados do Mensageiro de Allah após o salām. É sunnah que os orantes os recitem. Mencionamos abaixo estas súplicas:

1. Foi narrado por Thawban — que Allah esteja satisfeito com ele — que, quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — se virava após terminar a oração, pedia perdão a Allah três vezes e dizia:

اللهم أنت السلام ومنك السلام تباركت بَاذَا الْجَلالِ وَالْإِكْرَام

Significado: Ó Allah, Tu és a paz, de Ti vem a paz; ó Possuidor da majestade e da honra, Tu és abençoado.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Sahih al-Bukhari.

Al-Walid disse: Perguntei a Al-Awza’i como se pede perdão. Ele respondeu: Deve-se dizer: Astaghfirullah, astaghfirullah, astaghfirullah (Peço perdão a Allah, peço perdão a Allah, peço perdão a Allah).

2. Mu’adh ibn Jabal — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse-me: Ó Mu’adh, não te esqueças de recitar esta súplica após cada oração:

اللهم أعني على ذِكْرِكَ وَعُكْرِكَ وَحُسْنِ عِبَادَتِكَ.

Significado: Ó Allah, ajuda-me a recordar-Te, agradecer-Te e adorar-Te adequadamente. Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i.

3. Abdullah ibn az-Zubayr disse: quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) terminava a oração e fazia o salam, dizia:

لا إله إلا الله وحده لا قَرِيك له، له الملك وله الحمد، وهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ لَا حَوْلَ وَلَا قُوَّة إلا بِاللَّهِ، وَلَا تَعْبُدُ إِلَّا إِيَّاهُ، أَهْلُ النِّعْمَةِ وَالفَضْلِ وَالثَّنَاءِ وَالْحُسَ، لَا إِلَهَ إِلَّا اللَّهُ مُخْلِصِينَ لَهُ الدين ولو كره الكافرون.

Significado: Não há divindade além de Allah. Ele é Único e não tem associado algum. Toda

a soberania e o poder pertencem a Ele. Todo louvor pertence a Ele. Ele é Todo-Poderoso. Não há força nem poder senão em Allah. Não adoramos ninguém além d’Ele. Somente Ele é digno de todas as bênçãos, da excelência, do louvor e da beleza. Não há divindade além de Allah; somente a Ele devemos obediência, embora os incrédulos não gostem disso. Ahmad, Muslim, Abu Dawud, an-Nasa’i. 4. Al-Mughira ibn Shu’ba disse: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia ao fim de cada oração obrigatória:

لا إله إلا الله وحدَهُ لا عَرِيكَ لَهُ، لَهُ الملك وله الحمد، وهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ اللَّهِ لَا مَانِعَ لِمَا أَعْطَيْتَ وَلَا تَعْطَى لِمَا مَنَعْ وَلَا يَنْفَعُ ذَالْحَقِّ مِنكَ الْجَن .

Significado: Não há divindade além de Allah. Ele é Único e não tem associado algum. A Ele pertencem todo o poder e toda a soberania. A Ele pertence todo louvor. Ele é Todo-Poderoso. Ó Allah, ninguém pode impedir o que Tu concedes, e ninguém pode conceder o que Tu reténs. Nenhuma riqueza pode beneficiar seu possuidor diante de Ti. — Ahmad, al-Bukhari, Muslim.

5. Uqba ibn Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou-me que recitasse as suratas An-Nas e Al-Falaq após cada oração obrigatória. Ahmad, al-Bukhari, Muslim.

6. Abu Umamah (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que recitar o Ayat al-Kursi ao final de cada oração, nada o impedirá de entrar no Paraíso, exceto a morte.” —An-Nasa’i, At-Tabarani. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) também relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que recitar o Ayat al-Kursi ao final de cada oração obrigatória permanecerá sob a proteção de Allah até a oração seguinte.” —At-Tabarani.

7. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que, após cada oração obrigatória, disser trinta e três vezes Subhanallah, trinta e três vezes Alhamdulillah e trinta e três vezes Allahu Akbar — essas três expressões totalizando noventa e nove — completará cem com esta súplica:

لا إله إلا الله وحدَهُ لا شَرِيكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْكُ وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ .

Todos os seus pecados serão perdoados, mesmo que sejam como a espuma do mar. (Isto é, os pecados menores. Nenhum pecado maior é perdoado sem arrependimento.) —Ahmad, Al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud.

8. Ka’b ibn Ujrah disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Há algumas súplicas após a oração cujo recitador jamais será frustrado. São elas: Subhanallah trinta e três vezes, Alhamdulillah trinta e três vezes e Allahu Akbar trinta e três vezes.” —Muslim.

9. Sumayy (relatado por Abu Salih, que o relatou de Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: Os pobres emigrantes foram até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disseram: “Os ricos alcançarão as bênçãos eternas do Paraíso e os elevados graus.” O Mensageiro de Allah disse: “Como assim?” Eles disseram: “Eles são iguais a nós na oração e no jejum, mas nos superam na caridade e na libertação de escravos.” O Mensageiro de Allah disse: “Não quereis que vos ensine algo por meio do qual alcançareis aqueles que vos precederam e ultrapassareis aqueles que vierem depois de vós? Ninguém será superior a vós, exceto quem fizer o mesmo que vós.” Eles disseram: “Sim, ensina-nos.” O Mensageiro de Allah disse: “Após cada oração obrigatória, direis Subhanallah trinta e três vezes, Alhamdulillah trinta e três vezes e Allahu Akbar trinta e três vezes.” Os pobres emigrantes voltaram ao Mensageiro de Allah e disseram: “Nossos irmãos ricos souberam o que fazemos e também estão fazendo o mesmo que fazemos.” O Mensageiro de Allah disse: “Isso é a graça de Allah; Ele a concede a quem deseja.” Al-Bukhari e Muslim.

10. Também foi narrado com uma cadeia autêntica que se deve dizer Subhanallah vinte e cinco vezes, Alhamdulillah vinte e cinco vezes e Allahu Akbar vinte e cinco vezes. Em seguida, dirá vinte e cinco vezes:

لا إله إلا الله وحدَهُ لا فَرِيكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْككَ وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ عَلَى قَدِيرٌ .

11. Abdullah ibn Amr disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quem realizar duas ações entrará no Paraíso. As duas ações são fáceis, mas pouquíssimas pessoas as realizam. Disseram: Ó Mensageiro de Allah, quais são essas duas ações? Ele disse: Depois de cada oração obrigatória, dirás dez vezes “Subhanallah”, dez vezes “Alhamdulillah” e dez vezes “Allahu Akbar”. E, ao deitar-te, dirás “Subhanallah”, “Alhamdulillah” e “Allahu Akbar” cem vezes. Assim, serão recitadas duzentas e cinquenta vezes ao longo do dia, mas na balança serão duas mil e quinhentas. (Isso porque cada boa ação recebe uma recompensa dez vezes maior.) Quem de vós comete duas mil e quinhentas faltas todos os dias? Disseram: Então por que pouquíssimas pessoas as realizam? Ele disse: Satanás vem até vós durante a oração e vos lembra de diversas necessidades; por isso, não recitais isso depois da oração. Ele também vem na hora de dormir, e a pessoa adormece sem recitá-lo. O narrador disse: Vi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recitá-lo contando nos dedos. Abu Dawud e at-Tirmidhi.

12. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e Fátima foram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pedir um servo que facilitasse a realização de suas tarefas. O Mensageiro de Allah recusou-se a dar-lhes um servo e disse: Quereis que vos dê algo melhor do que aquilo que pedistes? Eles disseram: Sim, dê-nos. O Mensageiro de Allah disse: São algumas palavras que Jibril me ensinou. Depois de cada oração, direis dez vezes “Subhanallah”, dez vezes “Alhamdulillah” e dez vezes “Allahu Akbar”. E, antes de dormir, direis “Subhanallah” trinta e três vezes, “Alhamdulillah” trinta e três vezes e “Allahu Akbar” trinta e três vezes. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Desde que o Mensageiro de Allah me ensinou isso, nunca deixei de recitá-lo.

13. Abdur-Rahman ibn Ghanm disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quem, depois das orações do Maghrib e do Fajr, antes de voltar para casa, recitar dez vezes:

لا إله إلا الله وحدَهُ لا شَرِيكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْكُ وَلَهُ الْحَمْدُ بَيْنِهِ الْخَيْرَ يُحْيِي وَيُمِيتُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ غير قدير

Receberá dez recompensas por cada uma delas. Dez de seus pecados serão apagados e dez graus elevados serão-lhe concedidos. Isso será para ele uma proteção contra todos os pecados. Será uma proteção contra Satanás, o expulso, e nenhum pecado, exceto o shirk, poderá destruir essa proteção. Assim, será considerado o melhor dos homens quanto às ações. Somente aquele que fizer uma súplica melhor do que a sua será superior a ele. — Ahmad e at-Tirmidhi.

14. Muslim ibn al-Harith narrou de seu pai, que disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-me: Depois da oração do Fajr, antes de falares com alguém, dirás sete vezes:اللَّمُرْ أَجِرْنِي مِن النَّارِÓ Allah, protege-me do Inferno) — e depois o recitarás. Se morreres nesse dia, Allah registrará para ti a libertação do Inferno. E, depois da oração do Maghrib, antes de falares com alguém, dirás sete vezes:

اللهم إني أسالك الْجَنَّةَ اللَّهم أَورَنِي مِنَ النَّار.

(Ó Allah, peço-Te o Paraíso e busco refúgio em Ti contra o Inferno.) Se morreres durante essa noite, Allah registrará para ti a libertação do Inferno. — Ahmad e Abu Dawud.

15. Abu Hatim narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia após a oração:

الأَمر أَصْلِحْ لِي دِينِي الَّذِي مُوَعِصَةٌ أَمْرِي، وَأَصْلِعْ دُنْيَايَ الَّتِي جَعَلْتَ فِيهَا مَعَاشِي اللَّمَ إِنِّي أَعُوذُ بِرِضَاكَ مِن سَخَطِكَ، وَأَعُوذُ بِعفُوكَ مِن نِقْمَتِكَ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْكَ، لَا مَانِعَ لِمَا أَعْطَيْنَ، وَلَا معطي لما منعت، ولا يَنفَعُ ذَا

الْجَنِ، مِنْكَ الْجَل.

Significado: Ó Allah, corrige para mim a minha religião, que mantém todas as minhas obras livres do pecado, e corrige para mim a minha vida mundana, que é o lugar onde obtenho meu sustento. Ó Allah, busco refúgio em Teu contentamento contra Tua ira, em Teu perdão contra Teu castigo e em Ti contra Teu castigo. Ninguém pode impedir aquilo que concedes, e ninguém pode conceder aquilo que negas. E aquele cujo destino foi decidido por Ti, nenhum esforço poderá beneficiá-lo. Abu Hatim.

16. Al-Bukhari e At-Tirmidhi narraram: Sa’d ibn Abi Waqqas ensinava a seguinte súplica aos seus filhos e dizia que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) buscava refúgio em Allah por meio desta súplica após a oração:

الله إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنَ البغل، وأعوذ بله من الجبن، وأعُوذُ بِكَ أَنْ أَرَدَّ إِلَى أَرْذَلِ الْعُمْرِ وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ فَتْنَةِ الدُّنْيَا وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ عَذَابِ الْقَبْرِ.

Significado: Ó Allah, busco refúgio em Ti contra a avareza, contra a covardia, contra a velhice que torna a pessoa incapaz, contra a provação (teste) do mundo e contra o castigo da sepultura.”

17. Abu Dawud e Al-Hakim narraram: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia após cada oração:

اللَّهُ عَافِنِي فِي بَدَنِي اللهُ عَافِنِي فِي سَعِي، اللَّهُ عَافِنِي فِي بَصَرِي اللَّهُ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ من الكفر والفقر، اللهم إنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنْ عَذَابِ الْقَبْرِ، لَا إِلَهَ إِلَّا أَنسَ.

Significado: Ó Allah, concede saúde ao meu corpo, concede saúde aos meus ouvidos e concede saúde aos meus olhos. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra a incredulidade e a pobreza; busco refúgio em Ti contra o castigo do túmulo. Não há divindade além de Ti.”

18. O Imam Ahmad, Abu Dawud e an-Nasa’i narraram que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia imediatamente após a oração:

اللَّهم رَبَّنَا وَرَبِّ كُلِّ شَيْءٍ أَنَا عَمِيلٌ أَنَّكَ الرَّبِّ وَحْدَكَ لا شَرِيكَ لَكَ. اللَّهم رَبَّنَا وَرَبُّ كُلِّ شَيْءٍ أَنَا شَهِيدٌ أَن محمدا عبدك ورسولك اللهم رَبَّنَا وَرَبُّ كُلِّ شَيْءٍ، أَنَا شَهِيدٌ أَنَّ الْعِبَادَ كَلَّمَ إِغوة. اللَّهُم رَبَّنَا وَرَبِّ كُلِّ شَيْءٍ، أَجْعَلْنِي مُخْلِصًا لَكَ وَأَهْلِي فِي كُلِّ سَاعَةِ مِنَ الدُّنْيَا وَالْآخِرَةِ، بَاذَا الْجَلَالِ وَالْإِكْرَامِ، إِسْمَعَ وَاسْتَعِب الله الأكبر الأكبر، نور السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ، الله الأكبر الأكبر، حسبي الله ونعم الوكيل الله الأكبر الأكبر

Significado: Ó Allah, nosso Senhor e Senhor de todas as coisas, testemunho que somente Tu és o Senhor; não tens parceiro algum. Ó Allah, nosso Senhor e Senhor de todas as coisas, testemunho que Muhammad é Teu servo e Teu Mensageiro. Ó Allah, nosso Senhor e Senhor de todas as coisas, testemunho que todos os servos são irmãos uns dos outros. Ó Allah, nosso Senhor e Senhor de todas as coisas, torna a mim e à minha família sinceramente devotados a Ti. Em cada momento deste mundo e do Além, ó Possuidor de honra e dignidade, escuta e aceita. Allah é o Maior, Allah é o Maior; Allah é a luz dos céus e da terra. Allah é o Maior, Allah é o Maior. Allah me basta, e que excelente Protetor Ele é. Allah é o Maior, Allah é o Maior.”

19. Ahmad ibn Abi Shaybah e Ibn Majah narraram, segundo Umm Salamah, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, após proferir a saudação final da oração do amanhecer, dizia:

الأمر إنِّي أَسْأَلُكَ عِلْمًا نَافِعًا، وَرِزْقًا وَاسِعًا، وَعَمَلاً متقبلاً.

“Ó Allah, peço-Te conhecimento benéfico, provisão abundante e ações aceitas.

12. Orações da sunnah ou voluntárias

1. Importância segundo a sharia

As orações da sunnah e voluntárias foram incluídas na sharia para que, por meio delas, sejam compensadas as imperfeições e falhas ocorridas na oração obrigatória; e nenhuma outra forma de adoração possui o mesmo grau de mérito que a oração. Foi narrado por Abu Huraira:

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: No Dia da Ressurreição, a primeira obra das pessoas pela qual serão chamadas a prestar contas será a oração. Allah dirá aos Seus anjos, embora Ele saiba melhor do que todos: “Examinai a oração do Meu servo. Ele a completou ou a deixou incompleta?” Se a tiver completado, ela será registrada como completa; mas, se tiver deixado alguma falha ou imperfeição, Allah dirá: “Vede se o Meu servo possui alguma adoração voluntária.” Se possuir alguma adoração voluntária, completai com ela a sua obrigação. Depois, as demais ações serão avaliadas da mesma maneira. — Abu Dawud. Abu Umamah também disse: O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Allah não concedeu a nenhum servo uma obra melhor do que duas rak‘ahs de oração. Enquanto o servo permanece em oração, a recompensa continua sendo espalhada sobre a sua cabeça. — Ahmad e At-Tirmidhi. O imã Malik disse no Muwatta’: “Soube que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Sede constantes; jamais conseguireis enumerar tudo. E sabei que a melhor de vossas obras é a oração. Ninguém, exceto o crente, realiza corretamente a ablução.” Muslim narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a Rabi‘ah: “O que desejas?” Ele respondeu: “Desejo permanecer contigo no Paraíso.” Ele perguntou: “Mais alguma coisa?” Ele respondeu: “Somente isso.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Então, ajuda-me a teu respeito com muitas prostrações”, isto é, com muitas orações.

2. É recomendável realizar em casa as orações além das obrigatórias

a. Ahmad e Muslim narraram, por intermédio de Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quando algum de vós fizer a oração na mesquita, que reserve uma parte de sua oração para a sua casa. Pois Allah concede bênção à sua casa por meio de sua oração.

b. Ahmad e Abu Dawud narraram, por intermédio de Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Fazei parte de vossas orações em vossas casas. Não transformeis vossas casas em sepulturas.

c. Ahmad narrou, por intermédio de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: As orações voluntárias e da sunnah realizadas em casa são como luz. Quem quiser, que ilumine a sua casa.

d. Abu Dawud narrou, por intermédio de Zayd ibn Thabit, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: É melhor realizar em casa qualquer oração, exceto a obrigatória, do que realizá-la nesta minha mesquita (a Mesquita do Profeta). Esses hadiths comprovam que é mustahabb realizar em casa as orações nafl e sunnah, e que realizá-las em casa é melhor do que na mesquita. An-Nawawi disse: O motivo para incentivar a realização das orações nafl e sunnah em casa é que elas permanecem mais ocultas e mais livres da ostentação. Assim, ficam muito mais protegidas das coisas que fazem perder a recompensa da adoração. Além disso, por meio delas descem bênçãos e misericórdia sobre a casa, os anjos a visitam e Satanás foge.

3. Recitar longamente e fazer poucas prostrações nas orações nafl e sunnah

Todos os compiladores de hadith sahih, exceto Abu Dawud, narraram de al-Mughira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permanecia tanto tempo de pé em oração que seus pés inchavam. Diziam-lhe: “Ó Mensageiro de Allah, todos os seus pecados passados e futuros já foram perdoados.” Ele respondia: “Então não devo ser um servo agradecido a Allah?” Abu Dawud narrou de Abdullah que perguntaram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): Qual é a melhor adoração? Ele respondeu: Permanecer muito tempo de pé em oração. Perguntaram: Qual é a melhor caridade? Ele respondeu: O trabalho do pobre — isto é, oferecer trabalho em vez de dinheiro. Perguntaram novamente: Qual é a melhor hijrah? Ele respondeu: Afastar-se daquilo que Allah tornou ilícito — isto é, abandoná-lo. Perguntaram: Qual é o melhor jihad? Ele respondeu: Combater os idólatras com a própria vida e os próprios bens. Perguntaram: Qual é o melhor martírio? Ele respondeu: O martírio daquele que foi morto e cujo cavalo também morreu.

4. É permitido realizar sentado as orações nafl e sunnah

É permitido realizar sentado as orações nafl e sunnah mesmo tendo capacidade de realizá-las de pé. Também é permitido, na mesma rak’ah, realizar uma parte de pé e outra sentado, seja a parte em pé antes ou depois. Isso não será makruh. A pessoa pode sentar-se como quiser; contudo, é melhor sentar-se com as pernas cruzadas. Muslim narrou de Alqamah (que Allah esteja satisfeito com ele). Alqamah disse: Perguntei a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): Como o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) realizava a oração de duas rak’ahs sentado? Ela respondeu: Recitava em ambas as rak’ahs. Quando queria fazer o ruku’, levantava-se e fazia o ruku’. Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah narraram de Aisha, que disse: Nunca vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recitar sentado em qualquer oração noturna. Mais tarde, quando chegou à velhice, recitava sentado. Então, quando restavam trinta ou quarenta ayahs, levantava-se, recitava os ayahs restantes de pé e fazia a prostração.

5. Tipos de nafl

O nafl é de dois tipos: nafl geral e nafl específico. Para o nafl geral, basta ter a intenção de realizar a oração. O Imam an-Nawawi disse: Quando se inicia um nafl sem determinar quantas rak’ahs serão realizadas, pode-se encerrá-lo com o salam após uma rak’ah, ou realizar duas, três, cem ou mil rak’ahs. Se a pessoa não se lembrar de quantas rak’ahs realizou e fizer o salam, sua oração também será válida. Não há divergência quanto a isso. Foi narrado no Bayhaqi que Abu Dharr realizou muitas rak’ahs. Quando fez o salam, Ahnaf ibn Qays (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou-lhe: Você sabe se realizou um número ímpar ou par de rak’ahs? Ele respondeu: Mesmo que eu não saiba, Allah sabe. Ouvi meu amigo Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizer — e, ao dizê-lo, começou a chorar —: Sempre que um servo faz uma prostração diante de Allah, Allah eleva sua posição em um grau e perdoa um de seus pecados. — Ad-Darimi.
O nafl específico é a sunnah regular realizada juntamente com as orações obrigatórias. Incluem-se nela as sunnahs do fajr, zuhr, asr, maghrib e isha. Há também a sunnah não regular. A seguir, será apresentada a descrição dos dois tipos de sunnah:

6. A sunnah do fajr

a. Sua virtude:

Há muitos hadiths sobre a virtude de realizar regularmente a sunnah do fajr. A seguir, mencionarei alguns deles:

1. Foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “As duas rak‘ahs antes da oração do fajr são mais amadas por mim do que o mundo inteiro.” Ahmad, Muslim e Tirmidhi.

2. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Mesmo que a cavalaria dos inimigos esteja perseguindo-vos, não abandoneis as duas rak‘ahs da sunnah do fajr.” Ahmad, Abu Dawud, Bayhaqi e Tahawi. Isto significa que, por mais difícil que seja a justificativa, não se deve deixar de realizar essas duas rak‘ahs da sunnah.

3. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizava as duas rak‘ahs da sunnah antes da oração do fajr com tanta regularidade que não realizava nenhuma outra oração com a mesma regularidade.”
Bukhari, Muslim, Ahmad e Abu Dawud.

4. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “As duas rak‘ahs da sunnah do fajr são melhores do que o mundo e tudo o que ele contém.” Ahmad, Muslim, Tirmidhi e Nasa’i.

5. Ahmad e Muslim narraram de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Entre todas as boas ações, nunca vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apressar-se tanto quanto para realizar as duas rak‘ahs da sunnah antes do fajr.”

b. É recomendável que as duas rak‘ahs da sunnah antes do fajr sejam breves

A prática seguida pelo Mensageiro de Allah (s.a.w.) era recitar brevemente nas duas rak‘ahs da sunnah do Fajr.

1. Hafsa (r.a.) disse: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) costumava rezar as duas rak‘ahs antes da oração do Fajr de maneira muito breve em minha casa.” Nafi‘ disse: “Abdullah ibn Umar (r.a.) também rezava brevemente essas duas rak‘ahs.”

2. Aisha (r.a.) disse: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) encurtava tanto as duas rak‘ahs antes do Fajr que eu chegava a duvidar se ele havia recitado a Surah al-Fatiha.” — Ahmad e outros.

3. Aisha (r.a.) também disse: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) prolongava as duas rak‘ahs antes do Fajr pelo tempo equivalente ao da Surah al-Fatiha.” Ahmad, al-Nasa’i, al-Bayhaqi, Malik e al-Tahawi.

C. O que se deve recitar nas duas rak‘ahs da sunnah?

É recomendável recitar, nas duas rak‘ahs da sunnah do Fajr, as surahs cuja recitação foi narrada do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Essas surahs podem ser identificadas nos seguintes hadiths:

1. Aisha (r.a.) disse: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) recitava em silêncio as Surahs al-Kafirun e al-Ikhlas nas duas rak‘ahs da sunnah do Fajr.” Ahmad e al-Tahawi. Naturalmente, ele recitava essas duas surahs depois da Surah al-Fatiha, pois já foi mencionado anteriormente que a oração não é válida sem a Surah al-Fatiha.

2. Também foi narrado por Aisha (r.a.) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) recitava as Surahs al-Kafirun e al-Ikhlas nas duas rak‘ahs da sunnah antes do Fajr e dizia: “Como são belas estas duas surahs!” Ahmad e Ibn Majah.

3. Jābir relatou: Um homem rezou as duas rak‘ahs da sunnah do fajr. Na primeira rak‘ah, recitou a surata al-Kāfirūn. Quando terminou a recitação, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Este servo conheceu o seu Senhor.” Depois, na segunda rak‘ah, recitou a surata al-Ikhlāṣ. Quando terminou a recitação, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Este servo creu no seu Senhor.” Ṭalḥah — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Por isso, gosto de rezar essas duas rak‘ahs com essas duas suratas.” Ibn Ḥibbān e al-Ṭaḥāwī.

4. Ibn ‘Abbās — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — recitava, nas duas rak‘ahs da sunnah do fajr, o versículo 136 da surata al-Baqarah e, na segunda rak‘ah, o versículo 64 da surata Āl ‘Imrān. Muslim.

5. Abū Dāwūd narrou, de Ibn ‘Abbās: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — recitava, na primeira rak‘ah, o versículo 136 da surata al-Baqarah e, na segunda rak‘ah, o versículo 52 da surata Āl ‘Imrān. — Muslim. 6. A oração será válida mesmo que se recite apenas a surata al-Fātiḥah. Isso porque foi mencionado anteriormente, no hadith narrado por ‘Ā’ishah — que Allah esteja satisfeito com ela —, que, nessa oração, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — permanecia em pé pelo tempo equivalente à recitação da surata al-Fātiḥah.

D. Súplicas que devem ser recitadas após a sunnah

O Imām al-Nawawī disse: Foi narrado por intermédio de Abū Mulayth que o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — rezou brevemente as duas rak‘ahs da sunnah do fajr e, depois, sentado, disse: “Ó Allah, Senhor de Jibrīl, Mīkā’īl, Isrāfīl e Muḥammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, busco refúgio em Ti contra o Inferno.” (al-Tirmidhī) E foi narrado por Anas que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quem disser três vezes, na sexta-feira, antes da oração do fajr: ‘Peço perdão a Allah e arrependo-me diante d’Ele, o Vivente, o Subsistente, além de Quem não há divindade alguma’, Allah perdoará todos os seus pecados, ainda que sejam tantos quanto a espuma do mar.”

E. Deitar-se por algum tempo após a sunnah

‘Ā’ishah — que Allah esteja satisfeito com ela — disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, depois de rezar as duas rak‘ahs da sunnah do fajr, deitava-se inclinado sobre o lado direito. — Todas as coletâneas autênticas de hadith. Todas as coletâneas autênticas de hadith também narraram de ‘Ā’ishah: Depois que o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — rezava as duas rak‘ahs da sunnah do fajr, deitava-se se eu estivesse dormindo; e, se eu estivesse acordada, conversava comigo. Há muita divergência quanto à regra de se deitar. A opinião mais conhecida é que isso é recomendável para quem reza a sunnah em casa, em vez de na mesquita. Ḥāfiẓ Ibn Ḥajar diz em Fatḥ al-Bārī: Alguns dos antigos sábios opinavam que isso é recomendável em casa, mas não na mesquita. Também foi narrado algo semelhante de Ibn ‘Umar. Alguns de nossos imãs disseram que não se sabe que o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — tenha feito isso na mesquita. Também foi narrado que Ibn ‘Umay evitava aquele que fazia isso na mesquita. Quando perguntaram ao Imām Aḥmad sobre essa questão, ele respondeu: “Eu não faço isso. Contudo, se alguém o fizer, estará fazendo algo bom.”

F. Sobre a reposição da sunnah do fajr

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem não tiver rezado as duas rak’ahs da sunnah, que as reze depois, mesmo que seja após o nascer do sol.” Al-Bayhaqi. Qays ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: Ele saiu para a oração do Fajr e viu o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rezando o Fajr. Então, sem rezar a sunnah do Fajr, juntou-se ao Mensageiro de Allah na oração em congregação e rezou a oração obrigatória. Depois de terminar a oração obrigatória, levantou-se e rezou a sunnah. Ao vê-lo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Que oração é esta?” Qays informou-o. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em silêncio e nada disse. — Ahmad, Ibn Khuzaymah, Ibn Hibban, Abu Dawud, at-Tirmidhi e Ibn Majah. Ahmad, al-Bukhari e Muslim também narraram, de Imran ibn Husayn: O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava numa viagem. No horário do Fajr, não conseguiram acordar; despertaram com o calor do sol. Esperaram algum tempo. Quando o sol se elevou um pouco mais, ele ordenou ao mu’adhdhin que fizesse o adhan. Depois do adhan, rezou as duas rak’ahs da sunnah e, em seguida, rezou o Fajr. Esses hadiths demonstram claramente que a sunnah do Fajr deve ser compensada, seja antes ou depois do nascer do sol, quer a oração tenha sido perdida por alguma justificativa ou sem justificativa, e quer se tenha perdido juntamente com a oração obrigatória do Fajr ou somente a sunnah.

7. A sunnah do Dhuhr

Segundo os hadiths sobre a sunnah do Dhuhr, ela consiste em quatro, seis ou oito rak’ahs. Apresentamos abaixo os detalhes:

Hadiths relativos às quatro rak’ahs

1. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Lembro-me de dez rak’ahs de oração sunnah que aprendi do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): duas rak’ahs antes do Dhuhr, duas depois do Dhuhr, duas depois do Maghrib em casa, duas depois do Isha em casa e duas antes do Fajr.” — Al-Bukhari.

2. Mughirah ibn Sulayman disse: Ouvi Ibn Umar dizer: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não deixava de rezar duas rak’ahs antes do Dhuhr, duas depois do Dhuhr, duas depois do Maghrib, duas depois do Isha e duas antes do Fajr.” — Ahmad.

Hadiths relativos às seis rak’ahs

1. Abdullah ibn Shaqiq disse: Perguntei a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre a oração do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ela respondeu: “Ele rezava quatro rak’ahs antes do Dhuhr e duas depois.” — Ahmad, Muslim e outros.

2. Foi narrado por Umm Habiba, Mãe dos Crentes: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Para aquele que rezar doze rak‘ahs durante o dia e a noite, será construída uma casa no Paraíso: quatro rak‘ahs antes do meio-dia, duas rak‘ahs depois do meio-dia, duas rak‘ahs depois do Maghrib, duas rak‘ahs depois do ‘Isha e duas rak‘ahs antes do Fajr.” —Tirmidhi, Muslim.

Hadiths sobre oito rak‘ahs

Foi narrado por Umm Habiba, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que rezar quatro rak‘ahs antes do meio-dia e quatro depois dele, Allah tornará sua carne ilícita para o Inferno.” —Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah.

A virtude das quatro rak‘ahs antes do meio-dia

1. Abu Ayyub Ansari costumava rezar quatro rak‘ahs antes do meio-dia. Disseram-lhe: “Você sempre reza esta oração?” Ele respondeu: “Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rezá-la. Por isso, perguntei-lhe a respeito.” Ele disse: “Este é um momento em que as portas do céu são abertas. Por isso, gostei que algumas das minhas boas ações ascendessem nesse momento.” —Ahmad.

2. ‘Aisha disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nunca deixava as quatro rak‘ahs antes do meio-dia nem as duas rak‘ahs antes do Fajr.” —Ahmad, Bukhari. Também foi narrado por ‘Aisha: “Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rezava as quatro rak‘ahs antes do meio-dia, prolongava bastante a posição em pé e realizava perfeitamente o rukū‘ e o sujūd.”

Não há contradição entre o hadith de Ibn ‘Umar, no qual é mencionada a oração de duas rak‘ahs antes do meio-dia, e os demais hadiths nos quais é mencionada a oração de quatro rak‘ahs. Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: “É melhor considerar que ele rezava de maneiras diferentes em diferentes circunstâncias. Às vezes rezava duas rak‘ahs e, às vezes, quatro.” Alguns dizem: “Ele rezava duas rak‘ahs na mesquita e quatro em casa.” Ou então rezava duas rak‘ahs em casa e, depois de ir à mesquita, rezava novamente duas rak‘ahs. Ibn ‘Umar viu as duas rak‘ahs da mesquita, mas não viu as duas rak‘ahs de casa. Já ‘Aisha conhecia ambas. Abu Ja‘far al-Tabari disse: “Na maioria das vezes, ele rezava quatro rak‘ahs e, muito raramente, duas.” Quando alguém reza quatro rak‘ahs antes ou depois do meio-dia, é melhor fazer o salam a cada duas rak‘ahs. Também é permitido rezá-las com um único salam. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A oração da noite e do dia é feita de duas em duas.” —Abu Dawud.

Sobre a reposição das duas orações sunnah do meio-dia

‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não conseguia rezar as quatro rak‘at anteriores ao zuhr, ele as rezava depois. — Tirmidhi. Ibn Majah narrou de ‘Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): Quando as quatro rak‘at anteriores ao zuhr do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não eram realizadas, ele as compensava depois das duas rak‘at posteriores ao zuhr. (O período para a oração obrigatória anterior à sunnah estende-se até o fim do horário da oração obrigatória.)

Esta é a regra relativa à compensação das sunnahs regulares anteriores às orações obrigatórias. Sobre a compensação das sunnahs posteriores à oração, Ahmad narrou de Umm Salamah (que Allah esteja satisfeito com ela): «O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezou o zuhr. Nesse momento, chegaram alguns bens até ele. Ele se ocupou de distribuí-los. Enquanto os distribuía, chegou o chamado para a oração do ‘asr. Ele rezou o ‘asr e depois veio à minha casa, pois aquele era o meu dia. Rezou brevemente duas rak‘at. Nós dissemos: “Ó Mensageiro de Allah, que oração são estas duas rak‘at? Foi-lhe ordenado fazê-las?” Ele respondeu: “Não. Estas são as duas rak‘at posteriores ao zuhr que costumo rezar, mas hoje não pude rezá-las por causa da distribuição dos bens. Nesse ínterim, chegou o chamado para a oração do ‘asr, e não quis abandonar a sunnah posterior ao zuhr.” Bukhari, Muslim e Abu Dawud. (Em uma narração, Umm Salamah disse: “Eu perguntei: ‘Ó Mensageiro de Allah, se esta oração não for realizada, devo compensá-la?’ Ele respondeu: ‘Não.’” Contudo, Bayhaqi disse: Esta narração é fraca.)

8. A sunnah do maghrib

É sunnah rezar duas rak‘at depois da oração do maghrib. Já foi mencionado anteriormente, no hadith narrado por Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que esta está entre as orações que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nunca deixava de rezar.
O que é recomendável recitar: É recomendável recitar as suratas al-Kafirun e al-Ikhlas depois da Surata al-Fatiha na sunnah do maghrib. Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Não sou capaz de determinar com exatidão quantas vezes ouvi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recitar a surata al-Kafirun e a surata «Qul huwa Allahu ahad» nas duas rak‘at da sunnah do maghrib e nas duas rak‘at da sunnah do fajr. Ibn Majah e Tirmidhi.

É recomendável rezar esta oração em casa. Foi narrado por Mahmud ibn Labid (que Allah esteja satisfeito com ele): Certa vez, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi à localidade da tribo Banu ‘Abd al-Ashhal e os conduziu na oração do maghrib. Depois de pronunciar o salam, disse: «Ide para vossas casas e rezai as duas rak‘at restantes.» — Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi e Nasa’i. Já mencionei anteriormente que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezava estas duas rak‘at em casa.

9. A sunnah do ‘isha

Já foram mencionados anteriormente vários hadiths sobre o fato de que rezar duas rak‘at depois da oração do ‘isha é sunnah.

10. As sunnahs não enfatizadas

Foi enfatizada a observância das orações sunnah regulares descritas anteriormente. A seguir, serão apresentadas algumas outras orações sunnah que são regulares e diárias, mas não obrigatórias; elas também pertencem à categoria das orações recomendáveis.

1. Duas ou quatro rak’ahs antes da oração do ‘Asr: foram narrados vários hadiths a esse respeito. Embora haja alguma controvérsia sobre eles, por terem sido transmitidos por numerosas cadeias, cada um confirma e complementa os demais. Entre eles, Ibn ‘Umar disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Que Allah conceda misericórdia àquele que rezar quatro rak’ahs antes do ‘Asr.” — Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Hibban e Ibn Khuzaymah. Ibn Hibban e Ibn Khuzaymah disseram: “Este é um hadith autêntico.”

Do mesmo modo, ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezava quatro rak’ahs antes do ‘Asr, separando cada duas rak’ahs com a saudação dirigida aos anjos próximos de Allah, aos profetas e aos crentes e muçulmanos que os seguem. — Ahmad, Nasa’i, Ibn Majah e Tirmidhi. Há um hadith geral em favor de rezar apenas duas rak’ahs, aplicável a todos os horários de oração. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Entre cada adhan e cada iqamah há uma oração.”

2. Duas rak’ahs antes do Maghrib: al-Bukhari narrou, por intermédio de ‘Abdullah ibn Mughaffal, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Rezai antes do Maghrib; rezai antes do Maghrib”; depois, na terceira vez, disse: “Para quem quiser.” Com isso, indicou que não desejava que as pessoas adotassem essa oração como uma sunnah regular. Na narração de Ibn Hibban consta que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezou duas rak’ahs antes do Maghrib. Muslim narrou, por intermédio de Ibn ‘Abbas: “Nós rezávamos duas rak’ahs pouco antes do pôr do sol. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nos via; não nos ordenava nem nos proibia.” Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: “Considerando todas as evidências em conjunto, parece que é mustahabb rezá-la de forma muito breve, tal como a sunnah do Fajr.”

Duas rak’ahs antes do ‘Isha: isso foi narrado em todas as coletâneas de hadiths autênticos, por intermédio de ‘Abdullah ibn Mughaffal. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Entre cada adhan e cada iqamah há uma oração; entre cada adhan e cada iqamah há uma oração.” Depois, na terceira vez, disse: “Para quem quiser.” Ibn Hibban narrou, por intermédio de Ibn al-Zubayr, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Antes de cada oração obrigatória há duas rak’ahs.”

É preferível fazer uma pausa entre a oração obrigatória e a oração voluntária, para que a oração obrigatória seja completamente concluída.

Foi narrado por um dos Companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezou o ‘Asr. Imediatamente, um homem levantou-se para começar a oração. ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, ao vê-lo, disse: “Senta-te.” O Povo do Livro foi destruído justamente porque não havia intervalo em suas orações. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “’Umar falou corretamente.” — Ahmad.

11. A oração do Witr

1. Virtude e disposição: a oração do Witr é uma sunnah mu’akkadah, isto é, uma sunnah enfatizada. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, incentivou e estimulou sua prática. ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Witr não é obrigatório para vós como são as orações obrigatórias; contudo, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezava o Witr. Depois disse: ‘Ó seguidores do Alcorão, rezai o Witr. Allah é Ímpar e aprecia o que é ímpar.’” — Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah e al-Hakim. [Isto é: Allah é Um. Ele ama a oração do Witr, que possui um número ímpar de rak’ahs, e recompensa por ela. Ibn ‘Umar realizava suas ações sempre em número ímpar].

Segundo o Imam Abu Hanifa, o witr é obrigatório, mas essa opinião é fraca. Ibn al-Mundhir disse: “Não conheço ninguém que tenha concordado com o Imam Abu Hanifa sobre essa questão.” Ahmad, Abu Dawud, al-Nasa’i e Ibn Majah narraram que um ansari chamado Abu Muhammad informou a al-Mikhdāji, um homem da tribo de Banu Kinana, que o witr era obrigatório. Imediatamente, al-Mikhdāji foi até ‘Ubada ibn al-Samit e informou-o de que Abu Muhammad havia dito: “O witr é obrigatório.” ‘Ubada respondeu prontamente: “Abu Muhammad está errado. Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: ‘Allah tornou obrigatórias para Seus servos cinco orações diárias. Quem cumprir essas orações, sem deixar de realizar nenhuma parte delas e sem demonstrar desprezo por elas, terá de Allah a promessa de fazê-lo entrar no Paraíso. Quanto àquele que não cumprir essas orações, não haverá para ele promessa alguma junto de Allah: se quiser, Ele o castigará; e, se quiser, Ele o perdoará.’” Em um hadith narrado por al-Bukhari e Muslim, segundo Talha, o Mensageiro de Allah disse: “Allah tornou obrigatórias cinco orações durante o dia e a noite.” Um beduíno perguntou: “Além disso, tenho de fazer mais alguma coisa?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Não, a menos que queiras realizar orações adicionais (orações nafl).”

2. O horário do witr: Todos os sábios concordam que o horário da oração do witr começa imediatamente após a oração do ‘isha e se estende até o fajr. Abu Tamim al-Jayshani (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Amr ibn al-‘As declarou, em um sermão proferido diante do povo na sexta-feira: “Abu Basra informou-me que o Mensageiro de Allah disse: ‘Allah concedeu-vos uma oração adicional, que é o witr. Portanto, realizai-a entre o ‘isha e o fajr.’” Abu Tamim disse: “Imediatamente, Abu Dharr segurou minha mão e levou-me à mesquita, até Abu Basra. Ele lhe perguntou: ‘Ouviste realmente o Mensageiro de Allah dizer aquilo que ‘Amr mencionou?’ Abu Basra respondeu: ‘Sim, ouvi isso diretamente do Mensageiro de Allah.’” — Ahmad.

Abu Mas‘ud al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro de Allah costumava realizar o witr às vezes no início da noite, às vezes no meio da noite e às vezes no final da noite.” — Ahmad. ‘Abdullah ibn Abi Qays disse: “Perguntei a ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre o witr do Mensageiro de Allah. Ela respondeu: ‘Ele realizava o witr às vezes no início da noite e às vezes no final da noite.’ Perguntei: ‘Como era a sua recitação: audível ou silenciosa?’ ‘A’isha respondeu: ‘Ele fazia das duas formas: às vezes em silêncio e às vezes em voz audível.’ Ele dormia ora depois de tomar banho, ora depois de fazer a ablução (isto é, por causa da emissão de sêmen).” — Abu Dawud, Ahmad, Muslim e al-Tirmidhi.

3. É recomendável realizar o witr no início da noite quando não se tem certeza de conseguir levantar-se no final da noite, e no final da noite quando se tem essa certeza: Para quem teme não conseguir levantar-se no final da noite, é recomendável realizar a oração do witr no início da noite; e para quem confia que conseguirá levantar-se no final da noite, é recomendável realizá-la no final da noite. Foi narrado por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah disse: “Quem dentre vós pensar que não conseguirá levantar-se no final da noite, que realize o witr no início da noite. E quem pensar que conseguirá levantar-se no final da noite, que o realize no final da noite. Os anjos estão presentes no witr do final da noite, e isso é melhor.” — Ahmad, Muslim, al-Tirmidhi e Ibn Majah. Também foi narrado por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah perguntou a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): “Quando realizas o witr?” Abu Bakr respondeu: “No início da noite, depois do ‘isha.” O Mensageiro de Allah disse: “E tu, ó ‘Umar, quando o realizas?” Ele respondeu: “No final da noite.” O Mensageiro de Allah disse: “Ó Abu Bakr, adotaste a precaução; e tu, ó ‘Umar, adotaste a firmeza”, isto é, a firme determinação de levantar-se no final da noite. — Ahmad, Abu Dawud e al-Hakim.

A última prática que o Mensageiro de Allah realizava à noite era o witr no final da noite. Já foi mencionado anteriormente que esse é o melhor horário. ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Em geral, o Mensageiro de Allah realizava o witr no início da noite, no meio da noite e no final da noite. Contudo, seu último witr era sempre no final da noite.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith. Apesar disso, alguns Companheiros, por precaução, recomendaram dormir depois de realizar o witr. Sa‘d ibn Abi Waqqas costumava realizar a oração do ‘isha na mesquita do Mensageiro de Allah e, em seguida, realizava uma rak‘a de witr; não realizava mais do que isso. Disseram-lhe: “Ó Abu Ishaq, realizaste apenas uma rak‘a de witr.” Ele respondeu: “Sim. Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: ‘Quem não dorme sem realizar o witr é uma pessoa prudente.’” — Ahmad.

4. Quantas rak‘at tem o witr? Al-Tirmidhi disse: “Foi narrado em diversos hadiths que o Mensageiro de Allah realizava o witr com treze, onze, nove, sete, cinco, três ou uma rak‘a.” Ishaq ibn Ibrahim disse: “O significado do hadith segundo o qual o Mensageiro de Allah realizava treze rak‘at de witr é que ele realizava treze rak‘at de oração noturna, incluindo o witr. Ou seja, o witr fazia parte do total da oração; a oração noturna foi associada ao witr.” A oração do witr pode ser realizada em pares de duas rak‘at, concluindo cada par com o salam, e depois uma rak‘a com um tashahhud e um salam. Também é possível realizar toda a oração com dois tashahhud e um salam. Dessa forma, as rak‘at podem ser ligadas umas às outras: depois de fazer o tashahhud na penúltima rak‘a, realiza-se a última rak‘a e conclui-se a oração com o tashahhud e o salam. Também é possível realizar toda a oração fazendo o tashahhud e o salam somente na última rak‘a. Todas essas formas são válidas e foram narradas do Mensageiro de Allah. Ibn al-Qayyim disse: “A realização do witr com cinco ou sete rak‘at, com um único salam, foi narrada em hadiths autênticos de maneira categórica e clara.” Por exemplo, no hadith de Umm Salama consta que o Mensageiro de Allah realizava o witr com sete ou cinco rak‘at sem separar essas rak‘at por meio de salam ou conversa. — Ahmad, al-Nasa’i e Ibn Majah. De modo semelhante, ‘A’isha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “O Mensageiro de Allah realizava nove rak‘at de oração à noite e não se sentava senão na oitava rak‘a. Ao sentar-se no final da oitava rak‘a, mencionava e louvava Allah e suplicava a Ele. Então se levantava, sem fazer o salam, e realizava a nona rak‘a; depois sentava-se e recitava o tashahhud. Em seguida, fazia o salam de modo que nós pudéssemos ouvi-lo. Depois do salam, permanecia sentado e realizava mais duas rak‘at de oração. Assim, eram onze rak‘at. Mais tarde, quando o Mensageiro de Allah envelheceu e seu corpo se tornou mais pesado, realizava sete rak‘at de witr e, como antes, realizava mais duas rak‘at.” Em outra narração consta: “Quando envelheceu ainda mais e seu corpo se tornou mais pesado, realizava sete rak‘at de witr; sentava-se somente na sexta e na sétima rak‘a e fazia o salam apenas na sétima.” Em outra narração consta que realizava sete rak‘at e se sentava somente no final. — Todos esses hadiths são autênticos.

Em outro hadith narrado por Aisha, consta: “O Mensageiro de Allah costumava rezar treze rak‘ahs à noite; entre elas, rezava cinco como witr e sentava-se ao final delas.” Bukhari e Muslim. Todos esses hadiths são autênticos e inequívocos, e não há contradição entre eles. Há contradição apenas em um hadith, no qual o Mensageiro disse: “A oração noturna é feita de duas em duas rak‘ahs.” Esse hadith também é autêntico. Entretanto, os hadiths sobre sete e cinco rak‘ahs também são verdadeiros e confirmam uns aos outros. No hadith “A oração noturna é feita de duas em duas rak‘ahs”, o Mensageiro respondeu à pergunta sobre a oração noturna, explicando que ela deve ser realizada de duas em duas rak‘ahs. Essa pessoa não lhe perguntou sobre o witr. As orações compostas por sete, cinco, nove ou uma rak‘ah são todas orações de witr. Witr é o nome dado àquela única rak‘ah que fica separada das orações anteriores. Quando cinco, sete ou nove rak‘ahs são realizadas juntas, o conjunto de três rak‘ahs unidas, à semelhança da oração do maghrib, recebe o nome de witr. Se cinco ou sete rak‘ahs forem separadas por dois salams, como no caso de onze rak‘ahs, o nome witr será aplicado apenas às rak‘ahs separadas. Assim, o Mensageiro de Allah disse: “A oração noturna é feita de duas em duas rak‘ahs. Quando houver receio de que amanheça, realiza o witr com uma rak‘ah.” Essa rak‘ah fará o witr para ele entre as orações que já havia realizado. Portanto, as palavras e as ações do Mensageiro são plenamente coerentes e apoiam-se mutuamente.

5. A recitação do witr pode ser feita, após al-Fatihah, a partir de qualquer parte do Alcorão

É permitido. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Nenhuma parte do Alcorão deve ser abandonada. Portanto, reza o witr com qualquer parte dele.” Contudo, quando o witr for rezado com três rak‘ahs, é recomendável recitar, na primeira rak‘ah, após al-Fatihah, a surata “Sabbihisma”; na segunda, “Qul ya ayyuhal-kafirun”; e, na terceira, “Qul huwallahu” e as suratas an-Nas e al-Falaq. Isso porque foi narrado por Aisha, em Ahmad, Abu Dawud e at-Tirmidhi, que o Mensageiro de Allah recitava “Sabbihisma” na primeira rak‘ah, “al-Kafirun” na segunda e “Qul huwallahu”, an-Nas e al-Falaq na terceira.
6. A súplica do qunut no witr
É prescrito fazer a súplica do qunut no witr durante todo o ano. Foi narrado por Ahmad, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah, de al-Hasan ibn Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, que disse: O Mensageiro de Allah ensinou-me a fazer esta súplica no witr:

اللهم اهدني فيمن مديت، وَعَافِنِي فيمن عافيت، وتولَّني فيمن توليت، وبارك لي فيها أعطيت وَقِنِي عَوْ مَا قَضَيْنَ، فَإِنَّكَ تَقْضِي وَلَا يُقْضِي عَلَيْكَ، وَإِنَّهُ لَا يَذِلُّ مَنْ وَالَيْتَ، وَلا يَعِزُّ مَنْ عَادَهُ

تباركت ربنا وتعاليت، وصلى الله على النبي محمد .

Isto significa: Ó Allah, inclui-me entre aqueles a quem guiaste, concedendo-me orientação. Inclui-me entre aqueles a quem concedeste perdão e bem-estar, concedendo-me também perdão e bem-estar. Inclui-me entre aqueles de quem Te tornaste o Protetor! Abençoa para mim tudo o que me concedeste. Protege-me da Tua má decisão. Tu és o verdadeiro Juiz, e ninguém pode decidir contra Ti. Aquele de quem Te tornaste o Protetor não pode ser humilhado por ninguém. E ninguém pode honrar aquele que se tornou Teu inimigo. Ó nosso Senhor, Tu és detentor de imensa abundância e és Sublime.

At-Tirmidhi disse: Não foi transmitida do Mensageiro uma súplica de qunut melhor do que esta. Ibn Hanbal, Ibn Mas‘ud, Abu Musa, Ibn Abbas, al-Bara’, Anas, al-Hasan al-Basri, Umar ibn Abd al-Aziz, ath-Thawri, Ibn al-Mubarak e a escola hanafita apoiam essa opinião.

Segundo ash-Shafi‘i e outros, a súplica do qunut no witr deve ser feita somente na segunda metade do Ramadan. Isso porque foi narrado em Abu Dawud: “Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, reuniu as pessoas junto de Ubayy ibn Ka‘b. Ele as conduzia na oração durante vinte noites. Não fazia a súplica do qunut, exceto na segunda metade do Ramadan. Muhammad ibn Nasr perguntou a Sa‘id ibn Jubayr como o qunut do witr havia começado. Ele respondeu: Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou uma expedição. Essa expedição enfrentou uma grave dificuldade. Então ele ficou apreensivo quanto à sua sobrevivência. Nessa situação, quando chegaram os últimos dez dias do Ramadan, fez a súplica do qunut para que fossem libertados de sua aflição.”

7. Momento de recitar o qunut: O du‘a do qunut pode ser recitado após a recitação do Alcorão, antes de se inclinar para o rukū‘, ou depois de se levantar do rukū‘. Humayd disse: Perguntei a Anas: “O qunut deve ser recitado depois ou antes do rukū‘?” Anas respondeu: “Nós o recitávamos tanto antes como depois.” Ibn Mājah.

Se o qunut for recitado antes do rukū‘, após a recitação do Alcorão deve-se levantar as mãos e dizer “Allāhu akbar”; e, novamente, ao terminar o qunut, deve-se dizer “Allāhu akbar”. Isso foi narrado por alguns Companheiros. Alguns eruditos consideram recomendável levantar as mãos durante o qunut, enquanto outros não o consideram assim.

Quanto a passar as duas mãos sobre o rosto, al-Bayhaqī disse que isso não é necessário. Os primeiros sábios apenas levantavam as mãos. Portanto, deve-se considerar suficiente apenas levantá-las.

8. Du‘a após o witr: Após pronunciar o salām do witr, é recomendável dizer três vezes “Subhānal-Malikil-Quddūs”, de modo que na terceira vez seja dito em voz alta; depois, deve-se dizer: “Rabbul-malā’ikati war-rūh”. Ubayy ibn Ka‘b disse que, no witr, o Mensageiro de Allah recitava estas três suratas: “Sabbihisma rabbika…”, “Qul yā ayyuhal-kāfirūn” e “Qul huwallāhu ahad”. Depois de pronunciar o salām, dizia três vezes: “Subhānal-Malikil-Quddūs”, sendo que na terceira vez o dizia em voz alta e prolongadamente. — an-Nasā’ī. Ad-Dāraqutnī acrescentou que ele também dizia: “Rabbul-malā’ikati war-rūh”. Foi narrado por Ahmad, Abū Dāwūd, at-Tirmidhī, an-Nasā’ī e Ibn Mājah, através de ‘Alī, que o Mensageiro de Allah recitava a seguinte súplica ao final do witr:

اللهمَّ إِنِّي أَعُوذُ بِرِضَاكَ من سخطك، وأعوذ بمعافاتك من عقوبَتِكَ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْكَ، لَا أَحْمِي تَنَاءُ عليك، أنتَ كَمَا اثْنَيْتَ عَلَى نَفْسِكَ .

9. Não se deve rezar o witr duas vezes na mesma noite: Se alguém já tiver rezado o witr e depois desejar rezar mais, é permitido que reze; não precisa repetir o witr. Abū Dāwūd, an-Nasā’ī e at-Tirmidhī narraram de ‘Alī que ele disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: ‘Não há dois witrs numa mesma noite.’” ‘Ā’ishah disse que o Mensageiro de Allah pronunciava o salām de modo que nós o ouvíamos. Depois de pronunciar o salām, ele rezava mais duas rak‘ahs sentado. Umm Salamah disse: “O Mensageiro de Allah rezava duas rak‘ahs sentado depois do witr.” — Ahmad, Abū Dāwūd, at-Tirmidhī e outros.

10. Reposição do witr: Segundo a maioria dos eruditos, é prescrito pela Sharī‘ah repor o witr perdido.

Al-Bayhaqī e al-Hākim narraram de Abū Hurayrah que o Mensageiro de Allah disse: “Se a manhã chegar para alguém sem que tenha rezado o witr, deve rezá-lo.” Abū Dāwūd narrou de Abū Sa‘īd al-Khudrī que o Mensageiro de Allah disse: “Se alguém esquecer de rezar o witr ou dormir sem rezá-lo, que o reze assim que se lembrar.” Ahmad e at-Tabarānī narraram, com uma cadeia autêntica, que o Mensageiro de Allah rezava o witr mesmo depois do amanhecer. Há divergência quanto ao horário para repor o witr. Segundo a escola hanafi, ele deve ser reposto, excetuando-se os horários em que é proibido rezar. Na escola shafi‘i, pode ser reposto a qualquer hora do dia ou da noite. Segundo Mālik e Ahmad, deve ser reposto depois do início do horário do fajr e antes da oração do fajr.

12. Recitar o qunut nazila nas cinco orações diárias

Há uma regra que permite recitar em voz alta o qunut nazila nas cinco orações diárias em tempos de grandes calamidades e aflições. Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recitou o qunut durante um mês consecutivo nas orações do meio-dia, da tarde, do pôr do sol, da noite e da alvorada. Imediatamente após dizer “Allah ouve quem O louva”, na segunda rak‘ah, ele fazia uma súplica contra os clãs Ral, Dhakwan e Usayya da tribo de Banu Sulaym, enquanto os membros da congregação diziam “Amém”. Abu Dawud e Ahmad. Ahmad acrescentou: O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia enviado mensageiros a esses três clãs para convidá-los ao Islã, mas eles mataram esses mensageiros. (Ral, Dhakwan e Usayya — os três clãs da tribo de Banu Sulaym — enviaram astuciosamente uma mensagem ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizendo: “Aceitamos o Islã. Portanto, envie-nos algumas pessoas para nos ensinar as normas do Islã.” Quando ele lhes enviou setenta Companheiros bem instruídos, eles mataram todos. Na história, esse acontecimento é conhecido como o massacre de Bir Ma‘una. Esse foi o início do qunut. Ikrima disse: Esse foi o começo do qunut.
Segundo uma narração de Abu Hurayra, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, queria fazer uma súplica ou uma maldição contra alguém

ele recitava o qunut depois do rukū‘. Depois de dizer “Allah ouve quem O louva” e “Senhor nosso, a Ti pertence o louvor”, dizia: “Ó Allah, protege Walid ibn Walid, Salama ibn Hisham, Ayyash e os muçulmanos fracos. Ó Allah, torna mais severa a Tua paz contra a tribo de Mudar e impõe-lhes uma fome como a fome de Yusuf.” Ele dizia essas palavras em voz alta. Em suas diversas orações, especialmente na oração da alvorada, dizia: “Ó Allah, amaldiçoa fulano e sicrano”, mencionando os nomes de duas tribos árabes. Finalmente, Allah revelou: “Nada tens a ver com isso. Allah pode perdoá-los ou puni-los, pois são injustos e opressores.” — Ahmad e Bukhari.

13. Recitar o qunut na oração da alvorada

Não há o costume de recitar o qunut na oração da alvorada, exceto em caso de calamidade grave, perigo ou aflição. Em tempos de calamidade, perigo e aflição, é permitido recitar o qunut na oração da alvorada e em todas as demais orações, como mencionado anteriormente. Ahmad, Nasa’i, Ibn Majah e Tirmidhi narraram: Abu Malik al-Ash‘ari disse: Meu pai rezou por trás do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e por trás de Abu Bakr e Umar, que Allah esteja satisfeito com ambos, desde que eu tinha dezesseis anos. Perguntei-lhe: “Eles recitavam o qunut?” Ele respondeu: “Ó meu querido filho, não.”

Ibn Hibban, Khatib e Ibn Khuzayma narraram, segundo Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não recitava o qunut na oração da alvorada, exceto quando fazia uma súplica ou uma maldição contra um grupo específico. Zubayr e os três califas narraram que não recitavam o qunut na oração da alvorada. Esta é a opinião de Hanafi, Hanbali, Ibn al-Mubarak, Thawri e Ishaq. Segundo a escola Shafi‘i, é sunnah recitar o qunut na segunda rak‘ah da oração da alvorada, depois do rukū‘. Foi narrado em todos os livros de hadith autênticos, exceto Tirmidhi, que Ibn Sirin disse: Perguntaram a Anas, que Allah esteja satisfeito com ele: “O Mensageiro de Allah recitava o qunut na oração da alvorada?” Ele respondeu: “Sim.” Perguntaram-lhe: “Antes ou depois do rukū‘?” Ele disse: “Depois do rukū‘.” Ahmad, Bazzar, Daraqutni, Bayhaqi e Hakim também narraram, segundo Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah recitava o qunut na oração da alvorada até deixar este mundo.

Contudo, há controvérsia quanto à apresentação dessa prova. O qunut sobre o qual se fez a pergunta é o qunut nazila, isto é, o qunut recitado em tempos de calamidade. Isso é mencionado claramente nas narrações de Bukhari e Muslim. Não é razoável que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recitasse o qunut na oração da alvorada durante toda a sua vida, enquanto seus califas posteriores o abandonariam. Inclusive, está comprovado que o próprio Anas não recitava o qunut na oração da alvorada. Mesmo que se aceite a autenticidade do hadith, ele também pode ser entendido no sentido de que, enquanto viveu, o Mensageiro permanecia longamente em pé depois do rukū‘ para fazer uma súplica. Esse também é um dos significados de qunut, e é o que melhor se adequa a este contexto. Seja qual for a realidade do assunto, trata-se de uma divergência plenamente válida, na qual fazer ou não fazer a prática tem o mesmo estatuto; e o modelo apresentado pelo Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é o melhor modelo.

14. A oração de qiyam al-layl ou tahajjud

Méritos:

a. Allah, o Altíssimo, ordenou ao Seu Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) o Qiyam al-Layl, dizendo: “Reza o Tahajjud durante a noite, como uma oração adicional (nafl) para ti. Talvez o teu Senhor te estabeleça numa posição louvada.” (Surata Al-Muzzammil)

Embora essa ordem fosse específica para o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), como os muçulmanos em geral receberam a ordem de imitá-lo, eles também estão abrangidos por essa ordem.

b. Em outro lugar, Allah declarou que aqueles que regularmente realizam a oração noturna ou o Tahajjud são os virtuosos e os merecedores da misericórdia e das bênçãos de Allah. Allah diz: “Por certo, os que temem a Allah estarão em jardins e fontes, recebendo aquilo que o seu Senhor lhes conceder. Por certo, antes disso (isto é, no mundo), eram benfeitores. Dormiam pouco durante a noite e, nas últimas horas da noite, pediam perdão.”

c. Ele louvou aqueles que rezam durante a noite e os incluiu entre os Seus servos justos e virtuosos. Ele disse: “Os servos do Misericordioso caminham sobre a terra com humildade; e, quando os ignorantes lhes dirigem a palavra, dizem: ‘Paz’. E passam a noite prostrando-se e permanecendo de pé.”

d. Allah testemunhou que aqueles que realizam o Tahajjud creem nos Seus versículos. Ele disse: “Somente creem nos Nossos versículos aqueles que, ao serem lembrados deles, caem prostrados, glorificam o seu Senhor com louvor e não se ensoberbecem. Seus flancos se afastam dos leitos; invocam o seu Senhor com esperança e temor, e despendem daquilo que lhes concedemos. Nenhuma pessoa sabe que deleite para os olhos lhes foi ocultado, como recompensa pelo que faziam de boas ações.”

e. O próprio Allah declarou que aqueles que não possuem as qualidades com as quais eles estão adornados não podem ser comparados a eles. Allah disse: “Aqueles que, durante as horas da noite, permanecem de pé e prostrados em oração, temem a Outra Vida e esperam a misericórdia do seu Senhor — dize: ‘Podem acaso os sábios ser iguais aos ignorantes?’ Somente os dotados de entendimento aceitam a exortação.” Estas são algumas citações do Livro de Allah.

Agora apresentarei algumas citações dos hadiths do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz):

1. Abdullah ibn Muslim disse: Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou pela primeira vez a Medina, as pessoas começaram a reunir-se diante dele em grupos. Eu também estava entre os que foram ao seu encontro. Quando observei atentamente o seu rosto, compreendi claramente que não era o rosto de um mentiroso. As primeiras palavras que ouvi dele foram: “Ó gente, espalhai amplamente a saudação de paz entre vós, alimentai as pessoas, preservai os laços de parentesco e rezai durante a noite, enquanto as pessoas dormem. Assim, entrareis no Paraíso em paz.” — Al-Hakim, Ibn Majah e At-Tirmidhi. At-Tirmidhi disse: “Este é um hadith hassan sahih.”

2. Salman Al-Farisi, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Rezai durante a noite, pois essa era a prática dos nobres que vos precederam. Com efeito, a oração noturna aproxima-vos do vosso Senhor, expia os pecados, impede as más ações e expulsa as doenças do corpo.”

3. Sahl ibn Sa’d disse: Jibril foi até o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Ó Muhammad, vive o quanto quiseres; porém, um dia certamente morrerás. Faz o que quiseres; contudo, certamente terás de arcar com as consequências das tuas ações. Ama quem quiseres; mas lembra-te de que um dia terás de abandoná-lo. E sabe que a dignidade do crente está na sua oração noturna, e que a sua honra reside em não depender das pessoas.”

4. Foi narrado por intermédio de Abu Ad-Darda, a partir do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que ele disse: “Allah ama três pessoas, sorri ao olhar para elas e lhes anuncia boas-novas: aquele diante de quem aparece um exército e que luta contra ele, colocando a própria vida em risco pela causa de Allah. Depois, ou será martirizado, ou Allah o ajudará e será suficiente para protegê-lo, dizendo: ‘Vede este Meu servo; como ele se manteve firme por Mim.’ Aquele que, apesar de ter uma bela esposa e uma cama macia, se levanta à noite para rezar; Allah olha para ele e diz: ‘Ele recorda-se de Mim e contém o seu desejo. Se quisesse, poderia permanecer deitado.’ E aquele que viaja com uma caravana: a caravana permanece acordada durante algumas noites e depois adormece, mas ele, em todas as circunstâncias, na alegria e na tristeza, levanta-se no fim da noite e põe-se a rezar.”

— Regras da oração noturna

Para aquele que deseja rezar durante a noite, são recomendadas as seguintes práticas da Sunnah:

1. Ao deitar-se, formular a intenção de levantar-se durante a noite para rezar. Foi narrado por Abu Ad-Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Aquele que se deita com a intenção de levantar-se durante a noite para rezar, mas é vencido pelo sono e amanhece, terá registado para si aquilo que intencionou, e o seu sono transformar-se-á numa caridade concedida pelo seu Senhor.” An-Nasa’i e Ibn Majah.

2. Ao acordar do sono, remover do rosto o torpor do sono, limpar os dentes, depois olhar para o céu e recitar a súplica transmitida pelo Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Dirá:

لا إلهَ إِلَّا أَنْتَ سُبْحَانَكَ، أَسْتَغْفِرُكَ لِذَنْبِي وَأَسْأَلُكَ رَحْمَتَكَ، اللَّهُ زِدْنِي عِلْمًا وَلَا تُزِعَ قَلْبِي بَعْدَ إِذْ هَدَيْتَنِي وَهَبْ لِي مِنْ لَدُنْكَ رَحْمَةً إِنَّكَ أَنْتَ الْوَهَّابُ، وَالْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي أَحْيَانَا بَعْدَ مَا أمَاتَنَا وَإِلَيْهِ النشور .

«Não há divindade além de Ti. Glorificado sejas! Peço-Te perdão pelos meus pecados e rogo-Te a Tua misericórdia. Ó Allah, aumenta o meu conhecimento, não me desvies depois de me teres guiado e concede-me misericórdia da Tua parte. Tu és o verdadeiro Doador. Louvor a Allah, que me deu vida depois de me fazer morrer, e diante d’Ele seremos ressuscitados.» Em seguida, recitará as dez últimas aias da surata آل عمران, começando por “Inna fī khalq as-samāwāti wa-l-arḍ”. Depois dirá:

الله لَكَ الْحَمْدَ، أَنْتَ نُورُ السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ وَمَن فِيهِنَّ، وَلَكَ الْحَمْدُ، أَنْتَ قَيرُ السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ وَمَن فِيهِ، وَلَكَ الْحَمْدُ، أَنْتَ الْحَقِّ، وَوَعَدَكَ الْحَقِّ، وَلِقَاؤُكَ حَقٌّ، وَالْجَنَّةَ حَى وَالنَّارَ حَقِ، وَالنَّبِيُّونَ حَقٌّ، وَمُحَمَّدٌ حَقٌّ، وَالسَّاعَةُ حَى اللَّهم لَكَ أَسْلَمْ، وَبِكَ أمَنتُ، وَعَلَيْكَ توكلت، وإلَيْكَ البت، وبك خاصمت، وَإِلَيْكَ حَاكَمَت، فَاغْفِرْ لِي مَا قَدَّمْتَ وَمَا أَخْرَتُ، وَمَا أسررت وما أعلنت، أَنْتَ اللهُ لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ.

«Ó Allah, a Ti pertence todo o louvor. Tu és a luz dos céus, da Terra e de tudo quanto neles existe. A Ti pertence o louvor. Tu és o Guardião dos céus e da Terra. A Ti pertence todo o louvor. Tu és a Verdade, a Tua promessa é verdadeira, o Teu encontro é verdadeiro, o Paraíso é verdadeiro, o Inferno é verdadeiro, os profetas são verdadeiros, Muhammad é verdadeiro e a Hora é verdadeira. Ó Allah, submeti-me a Ti, creio em Ti, confio em Ti, sou obediente a Ti e recorro a Ti para o julgamento. Perdoa-me todos os meus pecados passados e futuros, os ocultos e os manifestos. Tu és Allah; não há divindade além de Ti.»

3. Começará com duas rak‘ahs breves e, depois, rezará quanto quiser. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: «Quando o Mensageiro de Allah começava a oração noturna, iniciava-a com duas rak‘ahs breves.» Abu Huraira disse: O Mensageiro de Allah disse: «Quando algum de vós desejar rezar à noite, que comece com duas rak‘ahs leves.» — Muslim.

4. Despertar a família. Abu Huraira disse: O Mensageiro de Allah disse: «Que Allah tenha misericórdia do homem que se levanta à noite para rezar e desperta a sua esposa. Se ela não quiser levantar-se, ele borrifa água sobre o seu rosto.» O Mensageiro de Allah também disse: «Quando um homem desperta a sua esposa durante a noite, e ambos rezam, ou ambos rezam juntos duas rak‘ahs, serão registrados entre os homens e as mulheres que se lembram de Allah.» — Abu Dawud. Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Certa noite, o Mensageiro de Allah despertou e disse: «Glorificado seja Allah! Que coisas maravilhosas foram reveladas nesta noite! Que tesouros foram revelados! Quem despertará as mulheres da casa? Muitas que estão vestidas neste mundo estarão desnudas no Dia da Ressurreição.» — Bukhari. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah bateu à porta dele e de Fátima e disse: «Não rezais?» Eu respondi: «Ó Mensageiro de Allah, os nossos corações estão nas mãos de Allah. Se Ele quiser despertar-nos, despertar-nos-á.» Assim que disse isso, ele foi embora. Então ouvi-o afastar-se batendo na própria coxa e dizendo: «O ser humano é a criatura mais inclinada à discussão.» — Bukhari e Muslim.

5. Se o sono se tornar intenso enquanto estiver rezando, deverá interromper a oração e deitar-se até o sono passar. Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela: «O Mensageiro de Allah disse: “Quando algum de vós se levanta à noite para rezar e começa a pronunciar o Alcorão de forma confusa, sem compreender o que está recitando, deve deitar-se.”» — Muslim. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah entrou na mesquita e viu uma corda amarrada entre duas colunas. Perguntou: «O que é isto?» As pessoas responderam: «É uma corda que Zaynab colocou; quando sente fraqueza e cansaço, segura-se nela.» O Mensageiro de Allah disse: «Desatai-a. Deveis rezar enquanto puderdes fazê-lo espontaneamente; quando sentirdes cansaço e fraqueza, deitai-vos.» — Bukhari e Muslim.

6. Não se deve trabalhar em excesso; deve-se permanecer acordado à noite para rezar conforme a força e a capacidade física, mantendo isso continuamente. Nunca se deve abandonar essa prática, salvo por uma razão inevitável. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: «Adotai como prática aquilo que sois capazes de manter. Por Allah, Allah não se cansa enquanto vós não vos cansardes.» (Isto é, enquanto não interromperdes a adoração, Allah não interromperá a recompensa.) — Bukhari e Muslim. Também foi narrado por Aisha, em Bukhari e Muslim, que perguntaram ao Mensageiro de Allah qual prática era mais amada por Allah. Ele respondeu: «A prática que é realizada regularmente, ainda que seja pequena.» Foi narrado por Muslim, através de Aisha, que:

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizava regularmente e continuamente tudo o que fazia. Al-Bukhari e Muslim narraram, por meio de Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro disse: “Ó Abdullah, não sejas como fulano, que costumava levantar-se à noite para rezar, mas depois abandonou isso.” Al-Bukhari e Muslim também narraram, por meio de Abdullah ibn Mas‘ud, que foi mencionado diante do Mensageiro o caso de um homem que dormira até amanhecer. O Mensageiro disse: “Satanás urinou em seus ouvidos.” Também foi narrado por Al-Bukhari e Muslim que o Mensageiro de Allah disse: “Abdullah é um homem excelente; se ao menos rezasse à noite.” Salim disse: Depois disso, Abdullah dormia muito pouco à noite.

O horário do qiyam al-layl: a oração noturna pode ser realizada no início, no meio ou no fim da noite, desde que seja depois da oração do ‘isha. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), ao descrever a oração do Mensageiro, disse: Sempre que desejávamos vê-lo rezando à noite, nós o víamos rezando; e sempre que desejávamos vê-lo dormindo, nós o víamos dormindo. Ele continuava jejuando durante todo o mês, até dizermos: “O Mensageiro não quebrará o jejum.” Assim que dizíamos isso, ele o quebrava. E continuava quebrando o jejum, até dizermos: “Ele não jejuará.” — Ahmad, Al-Bukhari e An-Nasa’i. O hafiz Ibn Hajar disse: O Mensageiro não tinha um horário específico para o tahajjud; pelo contrário, rezava o tahajjud sempre que lhe era possível.

Qual é o melhor horário para o tahajjud?

a. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah disse: A cada noite, quando resta o último terço da noite, nosso Senhor desce ao céu mais baixo e diz: “Quem Me fará uma súplica? Quem Me pedirá perdão por seus pecados? Eu o perdoarei.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith.

b. ‘Amr ibn ‘Abasah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que disse: Ouvi o Mensageiro dizer: “Na última metade da noite, o servo encontra-se mais próximo de seu Senhor. Se puderes estar entre os que se lembram de Allah nesse momento, então sê.” — Al-Hakim, At-Tirmidhi e An-Nasa’i.

c. Abu Muslim perguntou a Abu Dharr: “Em qual parte da noite é melhor rezar?” Ele respondeu: “Eu também perguntei isso ao Mensageiro, assim como tu. Ele disse: ‘No fim da noite ou à meia-noite. Porém, são poucos os que fazem isso.’” — Ahmad.

d. Abdullah ibn ‘Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah disse: “O jejum mais amado por Allah é o jejum de Dawud (que a paz esteja sobre ele), e a oração mais amada por Allah é a oração de Dawud. Ele dormia metade da noite, rezava durante um terço dela e dormia durante um sexto. Jejuava um dia e comia no dia seguinte.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto At-Tirmidhi.
Quantas rak‘ahs tem a oração noturna? A oração noturna não possui um número específico nem um limite determinado. A oração noturna é cumprida com a realização do witr depois da oração do ‘isha.

1. Samurah ibn Jundub (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah ordenou-nos que rezássemos à noite, pouco ou muito, e que realizássemos o witr ao final de todas as orações. — At-Tabarani e Al-Bazzar.

2. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: A oração na minha mesquita equivale a dez mil orações. A oração na Mesquita Sagrada equivale a cem mil orações. A oração no campo de batalha equivale a duzentas mil orações. E a oração no meio da noite é mais meritória do que todas essas orações. — Abu ash-Sheikh, Ibn Hibban, At-Targhib wa at-Tarhib.

3. Yas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: É necessário realizar alguma oração durante a noite, ainda que seja apenas pelo tempo que se leva para ordenhar uma cabra. O horário da oração noturna começa imediatamente após a oração do isha. — At-Tabarani.

4. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Certa vez, mencionei a oração noturna. Então, alguns disseram: O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: metade da noite, um terço, um quarto, ou até mesmo o tempo equivalente à ordenha de uma camela ou ao de uma cabra.

5. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nos ordenou e nos incentivou a realizar a oração noturna. Ele chegou a dizer: Realizai a oração noturna, ainda que seja apenas uma rak‘ah. — At-Tabarani.

É melhor realizar sempre onze ou treze rak‘ahs (incluindo o witr). Essa oração pode ser realizada de uma só vez ou com intervalos entre suas partes. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), no Ramadan ou em qualquer outra ocasião, não realizava mais de onze rak‘ahs. Ele realizava quatro rak‘ahs — não perguntes quão belas ou quão longas eram — e depois realizava outras quatro rak‘ahs; não perguntes quão belas e quão longas eram. Em seguida, realizava três rak‘ahs. Eu disse: Ó Mensageiro de Allah, dormes antes de realizar o witr? Ele respondeu: Ó Aisha, meus dois olhos dormem, mas meu coração não dorme. Bukhari e Muslim. Bukhari e Muslim também narraram de Al-Qasim ibn Muhammad: Ouvi Aisha dizer: A oração noturna do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) consistia em dez rak‘ahs por vez, e ele realizava o witr com uma única prostração.

6. Reposição da oração noturna. Muslim narrou de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): Quando, por causa de alguma doença, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixava de realizar a oração noturna, realizava doze rak‘ahs durante o dia. E todos os livros autênticos de hadith, exceto Bukhari, narraram de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Se alguém não conseguir realizar durante a noite o seu dhikr ou a sua súplica — isto é, a oração noturna que costuma realizar regularmente — ou parte dela, e então a realizar entre a oração do fajr e a do zuhr, será registrado para ele como se a tivesse realizado durante a noite.

15. A oração durante as noites do Ramadan

1. A disposição jurídica a esse respeito: a oração noturna do Ramadan, ou a oração de tarawih [تراویح é o plural de tarwīḥa تو. Seu significado é descanso. Como se faz um breve descanso após cada quatro rak‘ahs, essa oração recebeu o nome de tarawih].

É sunnah para homens e mulheres. [Arfaja (r.a.) disse: Ali (r.a.) ordenava que se rezasse o tarawih e nomeava imames distintos para os homens e para as mulheres. Eu era o imam das mulheres.] Esta oração deve ser realizada em duas rak‘ahs de cada vez, depois da oração do isha e antes do witr. Também é permitido realizá-la depois do witr, mas isso não é o melhor. O horário do tarawih permanece até o final da noite. Em todas as coletâneas de hadith autênticos, é narrado por Abu Huraira (r.a.) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) incentivava a oração noturna (tarawih) durante o mês do Ramadan, mas não insistia nela. Ele dizia: “Quem rezar durante as noites do Ramadan com fé e buscando a satisfação de Allah terá perdoados os pecados anteriores.” Todas as coletâneas de hadith autênticos, exceto a de Tirmidhi, narraram de Aisha (r.a.): O Mensageiro (s.a.w.) rezou a oração noturna na mesquita, e muitas pessoas rezaram com ele. Na noite seguinte, rezou novamente, e o número de pessoas aumentou ainda mais. Na terceira noite, as pessoas se reuniram, mas o Mensageiro (s.a.w.) não saiu até elas. Na manhã seguinte, disse: “Vi o que vocês fizeram, isto é, que se reuniram. Contudo, não saí por receio de que essa oração se tornasse obrigatória para vocês.” Isso ocorreu durante o mês do Ramadan.

2. Número de rak‘ahs: Em todas as coletâneas de hadith autênticos, é narrado por Aisha (r.a.) que o Mensageiro (s.a.w.) não rezava mais de onze rak‘ahs no Ramadan nem em outras ocasiões. Ibn Khuzayma e Ibn Hibban narraram de Jabir (r.a.): “O Mensageiro (s.a.w.) conduziu a oração congregacional, realizando oito rak‘ahs e o witr. Na noite seguinte, as pessoas esperaram por ele, mas ele não foi até elas.” Abu Ya‘la e Tabarani narraram de Jabir (r.a.) que Ubayy ibn Ka‘b foi até o Mensageiro (s.a.w.) e disse: “Ó Mensageiro, ontem à noite fiz algo, isto é, no Ramadan.” O Mensageiro (s.a.w.) perguntou: “O que foi, ó Ubayy?” Ubayy respondeu: “Algumas mulheres da minha casa disseram: ‘Não sabemos recitar o Alcorão; portanto, rezaremos com você.’ Então, conduzi-as na oração de oito rak‘ahs e no witr.” O Mensageiro (s.a.w.) não disse nada. Isso constituiu a sunnah de sua aprovação. Essa é toda a sunnah recebida do Mensageiro (s.a.w.); nada mais foi conhecido com uma cadeia autêntica. Também se sabe, por hadith autêntico, que durante os califados de Umar, Uthman e Ali (r.a.), as pessoas rezavam vinte rak‘ahs de tarawih. Essa é a opinião da maioria dos juristas hanafitas, hanbalis e seguidores de Dawud. Tirmidhi disse: A maioria dos eruditos prefere vinte rak‘ahs, segundo a opinião de Umar, Ali e outros Companheiros. A opinião de Thawri, Ibn al-Mubarak e Shafi‘i é a mesma. Shafi‘i disse: “Vi os habitantes de Meca rezarem vinte rak‘ahs dessa maneira.” [Segundo o Imam Malik, o tarawih, sem o witr, é de trinta e seis rak‘ahs. Zarkani disse: De acordo com a narração de Ibn Hibban, o tarawih inicialmente consistia em onze rak‘ahs. Porém, como os orantes sofriam por causa da longa recitação, reduziu-se a extensão da recitação e aumentou-se o número de rak‘ahs para vinte, sem contar as três rak‘ahs do witr. A recitação era de duração moderada. Depois, reduziu-se novamente a extensão da recitação e o número passou a trinta e seis rak‘ahs, sem contar o witr; essa prática acabou se estabelecendo.]

Segundo alguns eruditos, onze rak‘ahs, incluindo o witr, são sunnah, e as rak‘ahs adicionais são mustahabb. Ibn Humam disse: As provas mostram que, entre as vinte rak‘ahs, são sunnah as rak‘ahs que o Mensageiro (s.a.w.) rezou e aquelas que deixou de rezar por receio de que se tornassem obrigatórias para nós. As restantes são mustahabb. Sabe-se, por Bukhari e Muslim, que eram onze rak‘ahs, incluindo o witr. Portanto, segundo a opinião dos nossos imames, das vinte rak‘ahs, oito são sunnah e doze são mustahabb.

3. A oração congregacional do tarawih: A oração noturna do Ramadan pode ser realizada em congregação ou individualmente. Contudo, segundo a maioria, é melhor realizá-la em congregação e na mesquita. Já foi mencionado que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) a realizou em congregação com os muçulmanos, mas não comparecia regularmente por receio de que se tornasse obrigatória. Depois, Umar organizou sua realização em congregação. Abd al-Rahman disse: Numa noite do Ramadan, fui à mesquita com Umar (r.a.). Vi as pessoas rezando de maneiras diversas: algumas rezavam sozinhas, enquanto outras rezavam em congregação atrás de alguém. Umar (r.a.) disse: “Penso que seria melhor reunir essas pessoas sob a liderança de alguém experiente no Alcorão.” Então manteve essa decisão e nomeou Ubayy ibn Ka‘b como imam, reunindo as pessoas em congregação. Noutra noite, saí com ele e vi as pessoas rezando atrás do imam. Ao ver isso, Umar disse: “Que excelente inovação! Contudo, aqueles que agora estão dormindo, para rezarem no final da noite, são melhores.” Mas as pessoas rezavam no início da noite. — Bukhari, Ibn Khuzayma e Bayhaqi.

4. A recitação no tarawih:

Não há uma recitação específica que seja sunnah na oração noturna do Ramadan, ou tarawih. É narrado sobre os antigos sábios que eles recitavam suratas com duzentos versículos; contudo, devido à longa recitação, eram obrigados a apoiar-se em bastões. Não iam para casa antes do surgimento da alvorada. Depois, ordenavam aos servos que servissem rapidamente a comida, para que o sol não nascesse. Eles recitavam a surata Al-Baqarah em oito rak‘ahs. Consideravam que recitá-la em doze rak‘ahs tornava a oração muito mais fácil. Ibn Qudamah disse: Segundo o Imam Ahmad, durante o Ramadan deve-se fazer uma recitação que não cause dificuldade às pessoas, mas que lhes seja fácil, especialmente nas noites mais curtas do ano, isto é, no verão. O qadi disse: Não se considera mustahabb recitar menos de uma conclusão completa do Alcorão durante o Ramadan, para que as pessoas tenham a oportunidade de ouvir o Alcorão inteiro. Contudo, não se deve recitar mais de uma conclusão, para não causar dificuldade aos seguidores do imam. É melhor proceder de acordo com as condições das pessoas. Se uma congregação prefere uma recitação longa e concorda com isso, então é melhor fazê-lo. Assim, Abu Dharr disse: Rezamos a oração noturna do Ramadan atrás do Mensageiro (s.a.w.), e ela era tão longa que temíamos perder o suhur. O imam recitava uma surata com duzentos versículos.

16. Salat ad-Duha (oração do meio da manhã)

Virtudes: Há muitos hadith sobre as virtudes da oração do meio da manhã. Mencionaremos alguns deles a seguir:

1. Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Cada osso e articulação do vosso corpo tem direito a uma caridade. Cada vez que se diz “Subhanallah” é uma caridade. Cada vez que se diz “Alhamdulillah” é uma caridade; ordenar toda boa ação é uma caridade; proibir toda má ação é uma caridade. Porém, se alguém fizer duas rak‘at de oração no período da manhã, isso será suficiente em lugar de todas essas caridades.» — Ahmad, Muslim e Abu Dawud.

2. Ahmad e Abu Dawud narraram, através de Buraida (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Há trezentas e sessenta articulações no ser humano, e é seu dever dar uma caridade por cada uma delas.» As pessoas perguntaram: «Ó Mensageiro de Allah, quem é capaz de dar tantas caridades?» Ele respondeu: «Deve-se enterrar a sujeira que estiver na mesquita e remover do caminho o lixo que estiver nele. Se nem isso puderdes fazer, então duas rak‘at de oração no período da manhã serão suficientes.»

Shawkani disse: Os dois hadiths mencionados evidenciam a grande virtude da oração do período da manhã e que ela é indubitavelmente prescrita pela Sharia. Deles se sabe que duas rak‘at da oração do período da manhã são suficientes em lugar das trezentas e sessenta caridades. Portanto, convém realizar essa oração regularmente em todos os momentos. Os dois hadiths também provam que recitar tanto quanto possível “Subhanallah”, “Alhamdulillah” e “La ilaha illallah”, ordenar o bem e proibir o mal, enterrar a sujeira e o lixo no solo, afastar do caminho aquilo que causa incômodo e praticar todas as demais formas de adoração são exigências e determinações da Sharia. Assim serão cumpridas as caridades que recaem continuamente como responsabilidade sobre as pessoas.

3. Nawwas bin Samyan (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Allah, o Altíssimo, disse: «Ó filho de Adão, não negligencies quatro rak‘at de oração no início do dia; Eu serei suficiente para ti na parte final do teu dia.» — Al-Hakim, Tabarani, Ahmad, Tirmidhi, Abu Dawud e Nasa’i.

4. Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou uma expedição militar. Eles venceram, obtiveram alguns bens e apressaram-se a retornar. Naquele momento, as pessoas conversavam sobre a rápida conclusão da expedição, a grande quantidade de espólios obtidos e o rápido retorno. Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Não quereis que vos diga o que fará com que a expedição deles termine de modo mais proveitoso, que obtenham mais espólios e que retornem mais rapidamente? Aquele que fizer a ablução e for à mesquita para a oração do tasbih do período da manhã terá sua expedição concluída de modo mais proveitoso; obterá mais espólios e retornará mais rapidamente.» — Ahmad, Tabarani e Abu Ya‘la.

5. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Meu amigo Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recomendou-me três coisas: jejuar três dias por mês, fazer duas rak‘at de oração no período da manhã e fazer a oração do witr antes de dormir.
— Bukhari e Muslim.

6. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: Durante uma viagem, vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazer oito rak‘at de oração no período da manhã. Ao terminar a oração, ele disse: «Fiz uma oração que combinou boas e más notícias. Pedi ao meu Senhor três coisas; Ele concedeu-me duas e recusou-se a conceder-me uma. Pedi que não submetesse a minha comunidade a uma longa fome; Ele aceitou esse pedido. Pedi que não desse aos seus inimigos vitória sobre ela; Ele também aceitou esse pedido. Pedi que não dividisse a minha comunidade em grupos e facções, mas rejeitou essa súplica.» — Ahmad, Nasa’i, Al-Hakim e Ibn Khuzayma.

A norma da oração do período da manhã
A oração do período da manhã é um ato de adoração mustahabb. Quem desejar obter sua recompensa deve realizá-la; se não a fizer, não cometerá pecado. Abu Sa‘id (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) continuava a fazer a oração do período da manhã até que disséssemos: “O Mensageiro de Allah não abandona esta oração.” E deixava de fazê-la até que disséssemos: “O Mensageiro de Allah não faz a oração do período da manhã.” (Isto é, ele observava a reação das pessoas. Sempre que elas comentavam que o Mensageiro de Allah continuava a fazer essa oração, ele a interrompia; caso contrário, temia-se que elas pudessem considerá-la obrigatória ou necessária. Por outro lado, quando, após deixá-la por longo tempo, as pessoas comentavam que ele já não a fazia, ele a realizava; de outro modo, poderiam pensar que essa oração havia sido revogada. — Tradutor.)

Horário: o horário desta oração começa quando o sol se eleva cerca de uma lança acima do horizonte e termina assim que começa a declinar para o oeste. Contudo, é recomendável retardar a oração até que o sol esteja mais alto e o calor aumente. Zayd ibn Arqam, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Quando o povo de Quba estava rezando a oração do meio da manhã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até eles e disse: ‘A oração dos que retornam a Allah deve ser realizada quando os filhotes de camelo sentirem intensamente o calor.’ Esse horário é o do meio da manhã, isto é, antes do meio-dia.” — Ahmad, Muslim e Tirmidhi.

Quantas rak‘ahs: conforme foi mencionado anteriormente no hadith de Abu Dharr, que Allah esteja satisfeito com ele, o mínimo são duas rak‘ahs. Está comprovado pela prática do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que o máximo são oito rak‘ahs. Entretanto, pelas suas palavras, sabe-se que o máximo pode ser doze rak‘ahs. Um grupo, incluindo Abu Ja‘far al-Tabari, é da opinião de que não há um número máximo de rak‘ahs para essa oração. Al-Iraqi disse nas notas de Tirmidhi: “Não encontrei nenhum hadith de um companheiro ou de um tabi‘i que limitasse essa oração a doze rak‘ahs.” A opinião de al-Suyuti é semelhante. Sa‘id disse que al-Hasan foi perguntado: “Os companheiros do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, costumavam realizar essa oração?” Ele respondeu: “Sim; alguns faziam duas rak‘ahs, outros quatro, e alguns a realizavam continuamente até o meio-dia.” Ibrahim disse: Um homem perguntou a al-Aswad: “Quantas rak‘ahs devo fazer na oração do meio da manhã?” Ele respondeu: “Quantas quiseres.” Umm Hani, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez oito rak‘ahs na oração do meio da manhã, pronunciando o salam a cada duas rak‘ahs.” — Abu Dawud. E foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia quatro rak‘ahs no meio da manhã e acrescentava quantas quisesse.” — Ahmad, Muslim e Ibn Majah.

17. A oração de Istikhara

Para quem deseja realizar algo mubaha (permitido pela Sharia), mas não sabe se o resultado será bom, é sunnah fazer duas rak‘ahs. Essa oração deve ser diferente das orações obrigatórias. Pode-se fazer, com a intenção de Istikhara, quaisquer duas rak‘ahs de uma oração sunnah regular do dia ou da noite, ou da oração de tahiyyat al-masjid. Depois da Surata al-Fatiha, deve-se recitar qualquer surata ou versículo. Ao terminar a oração, deve-se louvar Allah e enviar bênçãos ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Em seguida, deve-se recitar a súplica que al-Bukhari narrou de Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele. Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ensinava-nos a fazer Istikhara em ‘todos os assuntos’, assim como nos ensinava uma surata do Alcorão. Ele dizia: Quando algum de vós decide realizar algo, deve fazer duas rak‘ahs de uma oração que não seja obrigatória. Depois, deve suplicar:”

اللهم اسْتَغِيرُ بِعِلْمِكَ وَاسْتَقْدِرُكَ بِقُدْرَتِكَ وَأَسْأَلُكَ مِنْ فَضْلِكَ الْعَظِيمِ فَإِنَّكَ تَقْدِيرُ وَلَا أَقْدِرُ وتَعْلَمُ وَلَا أَعْلَمُ وَأَنت علام الغيوب. اللهم إن كنت تعلم أن هذا الْأَمْرَ خَيْرٌ لِي فِي دِينِي وَمَعَاشِي وَعَاقِبَةِ أَمْرِي، أَوْ قَالَ : عَامِل أَمْرِي وَأَجَلِهِ فَاقْدَرْهُ لِي وَبَسِرْهُ لِي ثُمَّ بَارِكَ لِي فِيهِ وَإِن كنتَ تَعْلَمُ أَن هَذا الأَمْرَ عَرْ لِي فِي دِينِي وَمَعَاشِي وَعَاقِبَةِ أَمْرِى، أَوْ قَالَ: عَاجِلِ أَمْرِي وَاجِلِهِ فاصرفه عنى وَاصْرِفْنِي عَنْهُ وَاقْدَرْ لِي الْغَيْرَ حَيْثُ كَانَ، ثُمَّ أَرْضِنِي بِهِ .

“Ó Allah, peço-Te, por meio do Teu conhecimento, que me mostres o que é bom e benéfico; peço força pelo Teu poder ilimitado e peço a Tua graça do tesouro da Tua imensa generosidade. Tu tens poder sobre todas as coisas, e eu não tenho poder algum. Tu sabes tudo, e eu nada sei. Tu és o Conhecedor perfeito de todas as coisas ocultas. Ó Allah, se sabes que este assunto é bom e benéfico para mim no que diz respeito à minha religião, à minha vida, ao meu sustento e ao desfecho da minha questão — segundo outra narração, que é benéfico para mim nesta vida e na Outra — então determina-o para mim e facilita-o para mim. Em seguida, coloca nele prosperidade e bênção para mim. Mas, se sabes que este assunto será ruim para mim no que diz respeito à minha religião, à minha vida, ao meu sustento e ao seu resultado final — segundo outra narração, nesta vida e na Outra — então afasta-o de mim e afasta-me dele; determina para mim o bem onde quer que ele esteja e, depois, faze-me satisfeito com ele.” Quando disser “este assunto”, deve mencionar aquilo que deseja. (Al-Shawkani disse: A afirmação de Jabir de que ele ensinava a Istikhara “em todos os assuntos” prova que não se deve deixar de fazer Istikhara por considerar algum assunto pequeno ou sem importância. Há muitos assuntos que, apesar de parecerem insignificantes, realizá-los ou abandoná-los pode causar grande prejuízo. Por isso, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Deveis pedir tudo ao vosso Senhor, até mesmo uma tira de sandália.” Nota.)

Não há nenhum hadith autêntico que estabeleça a obrigação de recitar um versículo ou uma surata específica nesta oração. Da mesma forma, nenhum hadith menciona que algum versículo ou surata deva ser recitado repetidamente. Al-Nawawi disse: depois da Istikhara, deve-se seguir a direção para a qual o coração se inclinar. Não se deve permanecer dependente da inclinação que se tinha antes da Istikhara; ao contrário, quem faz Istikhara deve abandonar completamente a própria preferência. Caso contrário, não será alguém que busca a melhor orientação de Allah. Tampouco será sincero ao pedir a Allah o bem e o melhor, nem ao reconhecer que não possui conhecimento nem poder. Também não será sincero ao declarar que somente Allah é o Possuidor de todo conhecimento e poder. Se fosse sincero nisso, negaria o próprio poder, conhecimento e preferência anterior e, depois da Istikhara, não continuaria seguindo a preferência que tinha anteriormente.

18. Salat al-Tasbih

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Abbas ibn Abd al-Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele): “Ó meu tio Abbas, não devo dar-lhe algo? Não devo conceder-lhe algo especial? Algo que, se você fizer, fará com que Allah perdoe seus pecados anteriores e passados, seus pecados novos e antigos, seus pecados intencionais e involuntários, seus pecados menores e maiores, seus pecados secretos e públicos — todos os seus pecados. Reze quatro rak‘ahs; em cada rak‘ah, recite uma surata depois da surata Al-Fatiha. Quando terminar a recitação na primeira rak‘ah, diga quinze vezes: ‘Subhanallah wal-hamdu lillah wa la ilaha illallah wallahu akbar’; depois, no rukū‘, diga essa súplica dez vezes; ao levantar-se do rukū‘, dez vezes; depois, no sujūd, dez vezes; sentado entre os dois sujūds, dez vezes; no segundo sujūd, dez vezes; e, ao levantar-se do segundo sujūd, dez vezes. Assim, serão recitadas setenta e cinco vezes em cada rak‘ah. Faça isso em cada rak‘ah. Se puder, faça esta oração uma vez por dia; caso contrário, uma vez por sexta-feira; caso contrário, uma vez por ano; e, caso contrário, uma vez na vida.” Abu Dawud, Ibn Majah, Ibn Khuzaymah e At-Tabarani. O hafiz Ibn Hajar disse: “Este hadith foi narrado por numerosas cadeias de transmissão e por numerosos Companheiros.” Ibn al-Mubarak disse: “Todos devem desejar realizar a Salat at-Tasbih, devem habituar-se a realizá-la frequentemente e não devem demonstrar negligência.”

19. Salat al-Hajah

Ahmad narrou, de Abu ad-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele), que aquele que realizar a ablução de maneira completa e, em seguida, rezar duas rak‘ahs de maneira completa, receberá de Allah aquilo que pedir — seja imediatamente, seja posteriormente.

20. Salat at-Tawbah

Foi narrado por Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Se uma pessoa cometer um pecado e, depois de se purificar, rezar — segundo as narrações de Ibn Hibban, Al-Bayhaqi e Ibn Khuzaymah, duas rak‘ahs — e então pedir perdão a Allah, Allah a perdoará.” Em seguida, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou este versículo: “E aqueles que, tendo cometido uma obscenidade ou injustiçado a si mesmos — isto é, cometido uma transgressão e um pecado —, lembram-se de Allah e pedem perdão por seus pecados; e quem perdoa os pecados senão Allah? E não persistem conscientemente no que cometeram. A recompensa deles será o perdão de seu Senhor e jardins sob os quais correm rios.” (Surata Al Imran, versículos 135–136.) Abu Dawud, An-Nasa’i, Ibn Majah, Al-Bayhaqi e At-Tirmidhi. At-Tabarani narrou, de Abu ad-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que fizer corretamente a ablução e rezar bem duas ou quatro rak‘ahs, realizando adequadamente o rukū‘ e o sujūd, seja essa uma oração obrigatória ou outra oração, e depois pedir perdão a Allah, será perdoado por Allah.”

21. A oração do eclipse solar e lunar

Os sábios concordam que a oração do eclipse solar e lunar é uma sunnah mu’akkadah. É melhor realizá-la em congregação, mas a congregação não é uma condição. Por isso, deve-se anunciar em voz alta: “A oração será realizada em congregação.” A maioria dos sábios considera que ela consiste em duas rak‘ahs. Em cada rak‘ah, devem ser realizados dois rukū‘s.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Durante a vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ocorreu um eclipse solar. O Mensageiro de Allah saiu em direção à mesquita. Iniciou a oração dizendo “Allahu akbar”, e as pessoas se colocaram em fileiras atrás dele. Ele recitou uma longa recitação. Depois, dizendo “Allahu akbar”, inclinou-se no rukū‘ e realizou um rukū‘ tão longo quanto, aproximadamente, a primeira recitação. Então levantou a cabeça e disse: “Sami‘a Allahu liman hamidah” e “Rabbana wa lakal-hamd”. Depois, levantou-se para a segunda rak‘ah e fez uma recitação um pouco mais curta que a da primeira rak‘ah. Em seguida, dizendo “Allahu akbar”, realizou o rukū‘, que foi um pouco mais curto que o primeiro. Depois, levantou-se do rukū‘ dizendo “Sami‘a Allahu liman hamidah” e “Rabbana lakal-hamd”. Em seguida, prostrou-se. Depois, realizou o rukū‘ seguinte da mesma maneira e completou quatro rukū‘s e quatro sujūds. Antes que ele se voltasse para trás e se levantasse, o sol saiu do eclipse. Então ele se levantou e fez um sermão diante das pessoas. Primeiro, louvou Allah com o louvor que Lhe é devido. Depois disse: “O sol e a lua são dois dos sinais de Allah. Eles não sofrem eclipse por causa da vida ou da morte de ninguém. Quando testemunhardes isso, apressai-vos para realizar a oração.” — Al-Bukhari e Muslim. Al-Bukhari e Muslim também narraram, de Ibn Abbas, outro hadith: ocorreu um eclipse solar. Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu de pé por um longo tempo, realizando a oração; ficou de pé aproximadamente pelo tempo necessário para recitar a surata Al-Baqarah. Depois realizou um rukū‘ prolongado. Em seguida, levantou-se do rukū‘ e permaneceu de pé por um longo tempo, um pouco menor que o primeiro. Depois prostrou-se. Então permaneceu novamente de pé por um longo tempo, um pouco menor que o primeiro. Em seguida, realizou um rukū‘ longo, porém mais curto que o primeiro. Depois levantou-se do rukū‘ e permaneceu de pé por um longo tempo, mas por menos tempo que na primeira vez. Então realizou novamente um rukū‘ longo, embora mais curto que o primeiro. Depois prostrou-se. Em seguida, levantou-se e se voltou. Até então, o sol já havia saído do eclipse. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O sol e a lua são sinais de Allah. O eclipse deles não ocorre por causa da vida ou da morte de ninguém. Quando virdes um eclipse, lembrai-vos de Allah.” (Com este hadith, o Imam Ash-Shafi‘i demonstrou que proferir um sermão é condição desta oração. Abu Hanifah e Malik disseram: não há sermão na oração do eclipse solar e lunar. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu um sermão apenas para refutar a falsa crença das pessoas de que o eclipse solar havia ocorrido devido à morte de seu filho Ibrahim.)

Ibn Abd al-Barr disse: Estes dois hadith são os mais autênticos deste capítulo. Ibn al-Qayyim disse: A sunnah claramente e inequivocamente comprovada na oração do eclipse solar e lunar é realizar dois rukūʿ em cada rakʿah. Isso é mencionado nos hadith de ʿĀ’ishah, Ibn ʿAbbās, Jābir, Ubayy ibn Kaʿb, ʿAbdullah ibn ʿAmr e Abū Mūsā. Todos eles mencionaram dois rukūʿ por rakʿah, transmitidos do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Os sábios que mencionaram mais de um rukūʿ são mais numerosos, mais ilustres e mais próximos do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) do que aqueles que não mencionaram mais de um rukūʿ.

Esta é a escola jurídica de Mālik, Aḥmad e al-Shāfiʿī. Já a escola jurídica de Abū Ḥanīfah considera a oração do eclipse solar e lunar igual à oração do Eid e da sexta-feira. Nuʿmān ibn Bashīr disse: O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nos conduziu em uma oração de duas rakʿah, fazendo rukūʿ e sujūd como na vossa oração, e suplicou até que o sol deixasse de estar eclipsado. No hadith de Kusūfah al-Hilālī, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quando virdes o eclipse, rezai uma oração semelhante à última oração obrigatória que tiverdes realizado. — Aḥmad e al-Nasāʾī.

A recitação da Sūrat al-Fātiḥah é obrigatória nas duas rakʿah. Depois da Fātiḥah, pode-se recitar qualquer sūrah ou versículo. A recitação pode ser feita em voz baixa ou audível. Contudo, al-Bukhārī disse: É mais correto recitá-la em voz audível.
O período desta oração vai do início ao fim do eclipse. A oração do eclipse lunar é igual à oração do eclipse solar. Al-Ḥasan al-Baṣrī disse: Quando Ibn ʿAbbās era governador de Baṣrah, ocorreu um eclipse lunar. Ele nos conduziu em uma oração de duas rakʿah, realizando dois rukūʿ em cada rakʿah. Depois, montou em sua montaria e disse: Conduzi-vos na oração exatamente como vi o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezar a oração do eclipse. — Musnad al-Shāfiʿī.

É mustaḥabb dizer «Allāhu akbar», suplicar, dar caridade e pedir o perdão dos pecados durante o eclipse. Foi narrado por ʿĀʾishah em al-Bukhārī e Muslim que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: O sol e a lua são dois sinais especiais de Allah. Eles não eclipsam por causa do nascimento ou da morte de alguém. Quando virdes um eclipse, suplicai a Allah, dizei «Allāhu akbar», dai caridade e rezai. Abū Mūsā narrou: Certa vez ocorreu um eclipse solar. Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezou e disse: Quando virdes algo desse tipo, ou seja, uma calamidade natural, apressai-vos a recordar Allah, suplicar e pedir o Seu perdão.

22. A oração de Istisqāʾ

O significado literal de istisqāʾ é pedir água. Em sentido técnico, significa pedir água a Allah, quando ocorre uma fome ou uma seca, seguindo qualquer um dos métodos abaixo:

1. O imame conduzirá os fiéis em uma oração de duas rakʿah, sem adhān nem iqāmah, em qualquer horário que não seja um horário makrūh. Na primeira rakʿah, recitará a Sūrat al-Fātiḥah e Sabbihisma (Sūrat al-Aʿlā), e na segunda, depois da Fātiḥah, recitará al-Ghāshiyah, em voz audível. Em seguida, fará o khuṭbah antes ou depois da oração. Ao terminar o khuṭbah, todos os orantes virarão seus mantos: a parte que estava sobre o ombro direito será colocada sobre o ombro esquerdo, e a parte que estava sobre o ombro esquerdo será colocada sobre o ombro direito. Depois, voltados para a qiblah, suplicarão erguendo bastante as mãos. Ibn ʿAbbās disse:

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) saiu para o campo humildemente, vestindo roupas comuns de trabalho, caminhando devagar e demonstrando contrição. Rezou duas rakʿah como na oração do Eid, mas não proferiu um khuṭbah como este. Os cinco livros de hadith autênticos. Al-Tirmidhī, Abū Uzānah e Ibn Ḥibbān consideraram-no um hadith autêntico. ʿĀʾishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: As pessoas apresentaram ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) uma queixa sobre a seca. Ele ordenou que trouxessem um minbar, que foi colocado para ele no local da oração do Eid. Em seguida, marcou um dia e ordenou que o povo se reunisse nesse dia. Quando os raios do sol se intensificaram, ele saiu, sentou-se no minbar, disse «Allāhu akbar» e louvou a Allah. Depois disse: Vós vos queixastes da seca em vossa região. Allah ordenou-vos que Lhe suplicásseis e prometeu atender à vossa súplica. Então disse:

الْحَمْدُ لِلَّهِ رَبِّ الْعَالَمِينَ، الرحمن الرحيم، مَالِكِ يَوْمِ الدِّين، لَا إِلَهَ إِلَّا اللَّهَ يَفْعَلُ مَا يُرِيدُ اللَّهُ لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ أَنْتَ الْغَنِيُّ وَنَحْنُ الْفُقَرَاهُ، أَنْزِلَ عَلَيْنَا الْفَيْتَ، وَاجْعَلْ مَا أَنْزَلْتَ عَلَيْنَا قوة وبلاغا إلى حين .

«Todo louvor pertence a Allah, Senhor do universo. O Misericordioso, o Clemente, Soberano do Dia do Juízo; não há divindade além de Allah. Ele dará o que quiser. Ó Allah! Não há divindade além de Ti. Tu és Livre de necessidades, enquanto nós dependemos de Ti; faze descer sobre nós a chuva. E transforma aquilo que fizeres descer sobre nós em força e vigor para nós, até um período determinado.» Em seguida, continuou suplicando com as mãos tão elevadas que se podia ver a parte branca de suas axilas. Depois, virou as costas para o povo e virou seu manto do avesso, mantendo ainda as mãos levantadas. Em seguida, voltou-se para o povo e desceu do púlpito. Então rezou duas rakʿahs. Imediatamente, Allah criou uma nuvem. Relâmpagos brilharam nela, ouviu-se um trovão e, depois, pela vontade de Allah, caiu chuva. Antes mesmo de ele chegar à mesquita, as correntes de água já corriam. Ao ver o povo retornando apressadamente para suas casas, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, riu tanto que seus dentes molares ficaram à mostra. Ele disse: «Testemunho que Allah é poderoso sobre todas as coisas e que sou Seu servo e Mensageiro.» — Al-Hakim, Abu Dawud.

Ubbad ibn Tamim narrou, de seu pai, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiu para realizar a oração de istisqā acompanhado do povo; depois, conduziu-os em duas rakʿahs, recitando em voz audível em ambas. — Todas as coletâneas de hadith autênticas.

Abu Hurayrah disse: O Profeta de Allah saiu certo dia para realizar a oração de istisqā e rezou conosco duas rakʿahs, sem adhan nem iqāmah. Depois, fez um sermão diante de nós, suplicou a Allah e voltou-se para a qiblah, elevando as mãos em súplica; em seguida, colocou o lado direito de seu manto sobre o ombro esquerdo e o lado esquerdo sobre o ombro direito. — Ahmad, Ibn Majah, al-Bayhaqi.

2. O imame também pode suplicar por chuva somente durante o sermão da sexta-feira. Os fiéis devem dizer «āmīn, āmīn» junto com sua súplica. Al-Bukhari e Muslim narram, de Anas, que um homem entrou na mesquita na sexta-feira. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava de pé, fazendo o sermão. O homem disse: «Ó Mensageiro de Allah, todos os nossos bens pereceram e não há como levá-los ao mercado. Portanto, suplica a Allah para que Ele nos socorra.» O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou ambas as mãos e disse: «Ó Allah, socorre-nos!» Anas disse: «Por Allah, não víamos sequer um pedaço de nuvem no céu, nem víamos casa alguma entre nós e a montanha de Sala. De repente, surgiu um pequeno pedaço de nuvem semelhante a um escudo. Assim que alcançou o meio do céu, espalhou-se e começou a chover. Por Allah, não vimos o sol durante uma semana inteira.» Na sexta-feira seguinte, o mesmo homem que havia pedido a chuva entrou novamente na mesquita. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava de pé, fazendo o sermão. O homem colocou-se diante dele e disse: «Ó Mensageiro de Allah, nossas propriedades estão sendo destruídas e os caminhos estão se fechando. Portanto, suplica a Allah para que a chuva pare.» Imediatamente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou as mãos e disse: «Ó Allah, não sobre nós, mas sobre as regiões vizinhas; ó Allah, faze chover sobre as montanhas, as colinas e os lugares acidentados; igualmente, sobre as planícies e as raízes das árvores.» Então, imediatamente, a chuva parou, e saímos caminhando sob o sol.

3. Em qualquer dia que não seja sexta-feira, basta suplicar, na mesquita ou em qualquer outro lugar, sem realizar uma oração. Ibn Majah e Abu Uyaynah narraram que Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Um beduíno veio ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: «Ó Mensageiro de Allah, venho de uma tribo cujos pastores não conseguem levar os animais para pastar no campo por falta de provisões, e cujos touros, devido à fraqueza, não conseguem sequer mover as caudas» — isto é, uma tribo assolada pela fome. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, imediatamente subiu ao púlpito, louvou a Allah e disse: «Ó Allah, concede-nos uma chuva que nos liberte da fome, cujo resultado seja digno de louvor, que fertilize a terra, que caia de forma abundante e torrencial, e que venha prontamente, sem demora.» Então caiu tanta chuva que todos os que vinham ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de qualquer lugar, diziam: «Nossa vida foi salva.»

Certa vez, Shurahbil disse a Kaʿb ibn Murrah: «Ó Kaʿb, narra-nos um hadith do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.» Ele disse: «Ouvi o Mensageiro de Allah dizer que, quando um homem veio até ele e disse: “Suplicai a Allah por chuva para a tribo de Mudar”, o Mensageiro de Allah respondeu: “Tua ousadia é grande! Somente por Mudar?” O homem disse: “Ó Mensageiro de Allah, quando pediste auxílio a Allah, Ele te auxiliou; quando suplicaste a Ele, Ele atendeu à tua súplica.” Imediatamente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou ambas as mãos e disse: “Ó Allah, concede-nos uma chuva que nos liberte da fome, cujo resultado seja digno de louvor, que fertilize a terra, que seja abrangente, que caia imediatamente, sem demora, e que seja benéfica, não prejudicial.”» A súplica foi imediatamente atendida e caiu uma chuva torrencial. Depois, o povo veio queixar-se do excesso de chuva, informando que muitas casas haviam desabado por causa dela. Imediatamente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou ambas as mãos e disse: «Ó Allah, não mais sobre nós; desta vez, faze chover sobre as regiões vizinhas.» Logo, as nuvens se dissiparam e se deslocaram para a direita e para a esquerda. — Ahmad, Ibn Majah, al-Bayhaqi, Ibn Abi Shaybah e al-Hakim.
E al-Shaʿbi, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, saiu com o propósito de realizar a istisqā. Limitou-se a pedir istighfar, isto é, o perdão dos pecados. O povo disse: «Não vimos você realizar a istisqā.» Ele respondeu: «Pedi chuva por meio das estrelas do céu pelas quais se pede chuva» — isto é, pedi perdão. Depois, recitou estes dois versículos da surata Nuh: «Pedi perdão ao vosso Senhor; certamente, Ele é Perdoador. Ele enviará sobre vós chuva abundante.» E também recitou este versículo da surata Hud: «Pedi perdão ao vosso Senhor e arrependei-vos perante Ele…» — al-Bayhaqi e Ibn Shaybah.

A seguir, apresentam-se algumas súplicas de istisqā encontradas em diversos hadiths:

1. Ash-Shafi’i disse: Salim narra, através de seu pai, Abdullah: Sempre que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pedia chuva, dizia:

اللَّهُمَّ أَسْقِنَا غَيْئًا، مَغِيثًا، مَرِيعًا ، عَدَنَا ، مُجَلَّلاً ، عَامًا، طبقًا، سَمَّا، دَانِيَا اللَّهُ أَسْقِنَا الْغَيْت ولا تَجْعَلْنَا مِنَ الْقَانِطين، اللهم إن بِالْعِبَادِ وَالْبِلادِ وَالْبَهَانِي، وَالْخَلْقِ مِنَ الْأَوَاءِ وَالْحَمْدِ والضَّنَكِ مَا لَا تَشْكُوهُ إِلَّا إِلَيْكَ، الأمر الب

ت لنا الزرع، وأدر لَنَا الشَّرْعَ، وَاسْقِنَا مِنْ بَرَكَاتِ السَّمَاءِ وَأَنْبِتَ لَنَا مِنْ بَرَكَاتِ الْأَرْضِ، اللهم ارفع عنا الْجَمْدَ، وَالْجُوْعَ وَالْعَرَى وَأَكْشِفَ عَنَّا مِنَ البَلَاءِ مَا لَا يَكْشِفُهُ غَيْرِكَ، الأمر إِنَّا نَسْتَغْفِرُكَ إِنَّكَ كُنتَ غَفَّارًا، فَأَرْسِلِ السَّمَاءَ

عَلَيْنَا مِن رَارًا.

“Ó Allah, concede-nos uma chuva que nos proteja da seca, que fertilize a terra, que seja geral, torrencial e duradoura. Ó Allah, ajuda-nos com a chuva e não nos deixes desesperados. Ó Allah! A aflição e o dano que atingem Teus servos, os animais da terra e todas as criaturas são tamanhos que não os expomos a ninguém além de Ti. Ó Allah, faze crescer para nós as plantações, dá leite aos úberes, derrama sobre nós as bênçãos do céu e faze brotar para nós as bênçãos da terra. Ó Allah, afasta de nós a aflição, a falta de vestimentas e a falta de alimento; afasta de nós as calamidades que ninguém além de Ti pode afastar. Ó Allah, pedimos-Te perdão. Certamente, Tu és Perdoador. Portanto, concede-nos chuva abundante e contínua.” Ash-Shafi’i disse: Que os imames façam súplicas com esta oração. É isso que prefiro.

2. Sa’d disse: O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez esta súplica durante a oração pela chuva: Ó Allah, concede-nos uma chuva abundante proveniente das nuvens densas nas quais relampeja e das quais cai uma chuva suave. Ó Majestoso, Glorioso.” — Abu ‘Awana.

3. ‘Amr ibn Shu’ayb narra, através de seu pai e de seu avô, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizia durante a oração pela chuva: Ó Allah, dá água aos Teus servos e aos Teus animais, espalha a Tua misericórdia e revive as Tuas terras mortas. — Abu Dawud.

Na súplica pela chuva, é recomendável virar para cima o dorso das mãos. Muslim narra, através de Anas: Quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pedia chuva, apontava para o céu com o dorso de ambas as mãos (este hadith prova que, ao suplicar para ser salvo de alguma calamidade, deve-se elevar o dorso das mãos em direção ao céu; e, ao suplicar por algo, deve-se estender as palmas das mãos em direção ao céu). E, ao ver a chuva cair, é recomendável fazer a seguinte súplica: “Ó Allah, concede uma chuva benéfica.” Também se deve deixar que a chuva toque alguma parte descoberta do corpo. Quando a chuva for excessiva, deve-se dizer: “Ó Allah, pedimos uma chuva de misericórdia; não pedimos uma chuva de castigo, calamidade, destruição ou inundação. Ó Allah, faze-a cair sobre as colinas e nos lugares onde brotam as plantas. Ó Allah, já nos basta; portanto, não a faças cair sobre nós, mas ao nosso redor.” Tudo isso foi narrado do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com uma cadeia de transmissão autêntica.

13. A prostração da recitação

Para quem recita ou ouve um versículo de prostração, é recomendável realizar uma prostração dizendo «Allahu Akbar» e, em seguida, levantar a cabeça dizendo novamente «Allahu Akbar». Isso é chamado de prostração da recitação. Nela não há tashahhud nem saudação final. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «O Mensageiro de Allah recitava o Alcorão diante de nós. Quando passava por um versículo de prostração, prostrava-se dizendo “Allahu Akbar”, e nós também nos prostrávamos.» Abu Dawud, al-Bayhaqi e al-Hakim. Abdullah ibn Masud disse: «Quando recitares um versículo de prostração, diz “Allahu Akbar” e prostra-te. E, quando levantares a cabeça, diz “Allahu Akbar”.»

1. Virtude: Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah afirmou: «Quando um filho de Adão recita um versículo de prostração e se prostra, Satanás foge chorando. Ele diz: “Ai de mim, minha testa está arruinada! Foi ordenado ao filho de Adão que se prostrasse, e ele se prostrou, tornando-se merecedor do Paraíso. Quando me foi ordenado que me prostrasse, desobedeci. Por isso, tornei-me habitante do Inferno.”»

2. Regulamento: Segundo a maioria dos sábios, a prostração da recitação é uma sunnah tanto para o recitador quanto para o ouvinte. Foi narrado em al-Bukhari que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) recitou a surata an-Nahl no púlpito, numa sexta-feira. Em determinado momento, chegou ao versículo de prostração. Ele desceu imediatamente e prostrou-se, e o povo também se prostrou com ele. Na sexta-feira seguinte, recitou novamente a mesma surata e, ao chegar ao versículo de prostração, disse: «Ó povo, não nos foi ordenado que nos prostrássemos. Contudo, quem se prostra age corretamente; e quem não se prostra não comete pecado.» Segundo outra narração, ele disse: «Allah não nos ordenou a prostração, mas, se quisermos, podemos fazê-la.» — ad-Daraqutni. E foi narrado em todos os livros de hadith autênticos, exceto Ibn Majah, que Zayd ibn Thabit disse: «Recitei a surata an-Najm diante do Mensageiro de Allah, mas ele não se prostrou; por isso, ninguém mais se prostrou.»

Ad-Daraqutni. O hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: «O objetivo de não se prostrar era estabelecer a permissibilidade de não fazê-lo.» A opinião do imame ash-Shafi‘i também é essa. Essa opinião é apoiada pela narração de Abu Hurayra, citada por al-Bazzar e ad-Daraqutni, segundo a qual o Mensageiro de Allah se prostrou na surata an-Najm, e nós também nos prostramos com ele. Ibn Masud disse: «O Mensageiro de Allah recitou a surata an-Najm e se prostrou nela; os que estavam com ele também se prostraram. Entretanto, um ancião dos coraixitas pegou um punhado de terra ou um pedaço de pedra, levou-o à testa e disse: “Isto me basta.”» Abdullah disse: «Mais tarde, vi esse homem ser morto enquanto era incrédulo.» — al-Bukhari e Muslim.

3. Lugares de prostração: No Alcorão, há quinze lugares de prostração. Amr ibn al-As disse: «O Mensageiro de Allah ensinou-me quinze versículos de prostração no Alcorão. Entre eles, três estão nas suratas curtas, e duas são suratas.» — Abu Dawud, Ibn Majah, al-Hakim e ad-Daraqutni.

Os quinze lugares de prostração são:

1. Certamente, aqueles que estão junto do teu Senhor não se abstêm, por arrogância, de adorá-Lo; ao contrário, glorificam-No e prostram-se somente diante d’Ele. (Surata 7, Al-A‘raf: versículo 206)

2. Tudo quanto há nos céus e na terra se prostra somente diante de Allah, assim como as suas sombras, pela manhã e ao entardecer, voluntária ou involuntariamente. (Surata Ar-Ra’d: versículo 15)

3. Tudo quanto existe nos céus e na terra, incluindo os seres vivos e os anjos, prostra-se somente diante de Allah. Eles não se ensoberbecem. (Surata An-Nahl: versículo 49)

4. Dize: “Creiais nele ou não creiais, por certo, aqueles a quem foi concedido anteriormente o conhecimento do Livro celestial, quando este lhes é recitado, caem prostrados.” (Surata 17, Bani Israil: versículo 107)

5. Quando os versículos do Misericordioso lhes são recitados, caem prostrados, chorando. (Surata Maryam: versículo 58)

6. Não viste que, diante de Allah, prostram-se todos os que estão nos céus e na terra, o Sol, a Lua, as estrelas, as montanhas, as árvores, os animais, muitos seres humanos e muitos daqueles para os quais o castigo se tornou inevitável? E àquele a quem Allah humilha, ninguém poderá honrar. Allah faz o que quer. (Surata Al-Hajj: versículo 18)

7. Ó crentes! Inclinai-vos, prostrai-vos, adorai o vosso Senhor e praticai o bem. Talvez sejais bem-sucedidos. (Surata Al-Hajj: versículo 77)

8. Quando lhes é dito: “Prostrai-vos diante do Misericordioso”, dizem: “E quem é o Misericordioso? Havemos de nos prostrar diante daquele a quem nos ordenas que nos prostremos?” E isso apenas aumenta a sua aversão. (Surata Al-Furqan: versículo 60)

9. (Por instigação de Satanás) Eles não se prostram diante de Allah, que faz descer a chuva do céu, faz brotar as plantas da terra e conhece tudo quanto ocultais e manifestais.
(Surata An-Naml: versículo 25)

10. Somente aqueles que creem em Nossos versículos, quando são lembrados deles, caem em prostração, glorificam seu Senhor com louvor e não se ensoberbecem.
(Surata As-Sajda, versículo 15)

11. Davi percebeu que Nós o havíamos posto à prova. Então pediu perdão ao seu Senhor, caiu em prostração e se humilhou. (Surata Sad, versículo 24) [Abu Sa‘id disse: O Mensageiro de Allah subiu ao púlpito e recitou a surata Sad. Quando chegou ao versículo da prostração, desceu, prostrou-se, e as pessoas presentes também se prostraram com ele. Em outro dia, ele recitou a mesma surata. Assim que chegou ao versículo da prostração, todos se prepararam para prostrar-se. Então o Mensageiro disse: “Isto é o relato do arrependimento de um profeta. Mas vejo que vocês estão preparados para se prostrar.” Dito isso, desceu e prostrou-se, e todos se prostraram. Abu Dawud].

12. Entre os sinais de Allah estão a noite, o dia, o sol e a lua. Não vos prosterneis diante do sol nem da lua; prostrai-vos diante d’Aquele que os criou, se é somente a Ele que adorais. (Surata Fussilat, versículo 37)

13. Portanto, prostrai-vos diante de Allah e adorai-O. (Surata An-Najm, versículo 62)

14. E, quando o Alcorão é recitado diante deles, não se prostram. (Surata 84, Al-Inshiqaq, versículo 21)

15. Prostra-te e aproxima-te. (Surata 96, Al-‘Alaq, versículo 19)

4. Condições: Segundo a maioria dos juristas, também é necessário cumprir, para a prostração da recitação, as mesmas condições exigidas para a oração, tais como estar em estado de pureza, voltar-se em direção à qibla e cobrir as partes íntimas. Ash-Shawkani disse: Nos hadiths sobre a prostração da recitação não há nada que prove que aquele que se prostra deve fazê-lo somente após realizar a ablução. Aqueles que estavam presentes durante a recitação do Mensageiro de Allah prostravam-se com ele. Contudo, não foi relatado que ele tenha ordenado a algum deles que fizesse a ablução. Além disso, é difícil afirmar que todos estavam em estado de ablução. Às vezes, inclusive, os idólatras prostravam-se com ele, embora fossem impuros e sua ablução não fosse válida. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Ibn Umar, que ele se prostrava mesmo sem ablução. No entanto, Ibn Hajar considerou autêntica a narração de Al-Bayhaqi segundo a qual Ibn Umar disse: “Não se deve prostrar sem ablução.” Para resolver essa contradição, o hafiz Ibn Hajar denominou a pureza necessária para a prostração da recitação de “pureza maior”. Ou opinou que se deve entender que a pureza é recomendável, e não obrigatória. Do mesmo modo, não há neste hadith qualquer afirmação de que seja necessário que as roupas e o local estejam puros. Cobrir as partes íntimas e voltar-se em direção à qibla são atos que devem ser realizados, por consenso, quando isso for possível. Em Fath al-Bari, foi dito: Ninguém, além de Ash-Sha‘bi, apoiou a opinião de Ibn Umar de que é ilícito realizar a prostração da recitação sem ablução. Ibn Abi Shaybah disse: Ibn Abi Abdur-Rahman As-Sulami recitava os versículos de prostração e prostrava-se sem ablução e sem voltar-se em direção à qibla. Até mesmo quando caminhava e falava, prostrava-se por meio de um gesto. Entre os Ahl al-Bayt, Abu Talib e Al-Mansur Billah apoiavam Ibn Umar.

5. Súplica durante a prostração da recitação
Aquele que se prostra durante a recitação pode fazer qualquer súplica. Sobre isso, não há nenhum hadith autêntico além do seguinte hadith de Aisha: “Quando se prostrava durante a recitação do Alcorão, o Mensageiro de Allah dizia:

سَجَدَ وَجْهِي لِلَّذِي خَلَقَهُ وَشَقَ سَمِعَهُ وَبَصَرَهُ بِحَوْلِهِ وَقُوتِهِ فَتَبَارَكَ اللَّهُ أَحْسَنَ الْخَالِقِينَ .

“Meu rosto se prostra diante do Ser Majestoso que o criou e que abriu nele os olhos e os ouvidos. Somente pelo poder e pela inspiração concedidos por Ele me prostro. Allah, o melhor dos criadores, é o Grandioso e o Bendito.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Ibn Majah. Deve-se observar que, se a prostração da recitação ocorrer durante a oração, deve-se dizer, na prostração: “Subhana Rabbiyal A‘la”.

6. A prostração da recitação durante a oração: é permitido que o imam e aquele que ora sozinho recitem, durante a oração, um versículo de prostração e se prostrem imediatamente após sua recitação, seja a oração silenciosa ou audível. Al-Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Abu Rafi‘, que:

Abu Rafi‘ disse: Orei a oração da noite com Abu Huraira. Ele recitou a surata Al-Inshiqaq durante a oração e se prostrou. Eu lhe disse: “Ó Abu Huraira, por que esta prostração?” Ele respondeu: “Prostrei-me ao orar atrás do Mensageiro durante a recitação desta surata. Portanto, continuarei me prostrando.” E Hakem ibn Umar narrou: O Mensageiro se prostrou na primeira rak‘ah da oração do meio-dia. E Hakem ibn Umar narrou: O Mensageiro se prostrou na primeira rak‘ah da oração do meio-dia. Seus companheiros imaginaram que ele havia recitado, durante a oração, a surata Alif Lam Mim Sajdah. An-Nawawi disse: Seja a oração silenciosa ou audível, não é reprovável que o imam ou quem ora sozinho recite um versículo de prostração durante a oração; e, ao recitá-lo, deve prostrar-se imediatamente. Malik disse: Isso é reprovável em qualquer situação. Segundo Abu Hanifa, não é reprovável na oração audível, mas é reprovável na oração silenciosa. O autor da obra Al-Bahr disse: Segundo nossa opinião, deve-se adiar a prostração até o término da oração com o salam, para que não se crie desordem entre os que oram [é dever do seguidor prostrar-se junto com o imam quando este se prostrar, ainda que não tenha ouvido dele a recitação do versículo de prostração. Se o imam recitar o versículo de prostração, mas não se prostrar, o seguidor não deverá prostrar-se; antes, deverá seguir seu imam. Do mesmo modo, se o próprio seguidor recitar um versículo de prostração ou ouvir uma pessoa que não participa da oração recitá-lo, não deverá prostrar-se durante a oração; deverá fazê-lo depois da oração].

7. É permitido recitar vários versículos de prostração e realizar a prostração na mesma oração: se alguém recitar repetidamente o mesmo versículo de prostração, ou o ouvir várias vezes na mesma mesquita, fará a prostração apenas uma vez. Contudo, a condição é que a prostração seja realizada após a última recitação. Se tiver realizado a prostração depois da primeira recitação, segundo a escola hanafita, não será necessário repetir a prostração pelas recitações posteriores. Porém, segundo Ahmad, Malik e Ash-Shafi‘i, será necessário, pois a causa da prostração surgiu novamente.

8. Compensação da prostração da recitação: segundo a maioria dos sábios, é recomendável realizar a prostração imediatamente após recitar ou ouvir um versículo de prostração. Se houver atraso na realização da prostração, sua obrigação não deixa de existir, salvo após um intervalo muito longo. Quando ocorre um intervalo longo, perde-se a oportunidade de cumprir essa obrigação. Contudo, não é necessário compensá-la.

14. Prostração de agradecimento
Segundo a maioria dos sábios, é recomendável realizar a prostração de agradecimento quando se obtém algo novo e alegre ou quando se é salvo de um perigo ou calamidade iminente. Essa prostração é realizada para agradecer ao Deus Altíssimo.

É narrado por Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —: sempre que acontecia algo alegre ou se recebia uma boa notícia, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — realizava a prostração para agradecer a Allah. — Abu Dawud, Ibn Majah e At-Tirmidhi. Al-Bayhaqi também narrou: quando Ali escreveu ao Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — informando-o da conversão dos habitantes de Hamadan ao Islã, ele realizou a prostração. Depois levantou a cabeça e disse: “Paz sobre Hamadan. Paz sobre Hamadan.” Abd ar-Rahman ibn Awf disse: certo dia, quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — saiu, comecei a segui-lo. Ele entrou num jardim de tamareiras e permaneceu em uma longa prostração. Como demorou a se levantar, fiquei com medo de que Allah o tivesse levado. Aproximei-me dele e fiquei observando-o. Então o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — levantou a cabeça e disse: “Ó Abd ar-Rahman, o que aconteceu com você?” Informei-lhe o que se passava em minha mente. Ele disse: “Jibril me disse: ‘Não devo dar-lhe uma boa notícia? Allah, o Altíssimo, disse: “Aquele que invoca bênçãos sobre você, sobre ele derramo Minha misericórdia; e aquele que lhe transmite a saudação de paz, sobre ele transmito Minha saudação de paz.”’” Imediatamente realizei a prostração em agradecimento. — Ahmad. Al-Bukhari também narrou: quando Ka‘b ibn Malik recebeu a boa notícia de que Allah havia aceitado seu arrependimento, realizou a prostração. Ahmad narrou que Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — realizou a prostração ao ver, entre os mortos dos rebeldes kharijitas, o cadáver de um rebelde chamado Dhu ath-Thudayyah. Sa‘id mencionou que Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — realizou a prostração ao ouvir a notícia da morte de Musaylimah. Alguns opinaram que, para a prostração de agradecimento, são necessárias as mesmas condições da prostração da oração. Outros disseram que a prostração da oração não é uma condição para isso, pois esta não é uma oração. O autor de Fath al-‘Allam considerou esta opinião a mais preponderante. Ash-Shawkani disse: nos hadiths sobre esse assunto não há nada que prove que a ablução, a pureza das roupas e a pureza do local sejam condições para a prostração de agradecimento. Da mesma forma, nenhum hadith indica que seja necessário dizer “Allahu akbar” durante a prostração de agradecimento. Contudo, consta em Al-Bahr: deve-se dizer “Allahu akbar”. O imam Yahya disse: não se deve realizar a prostração de agradecimento durante a oração, pois ela não faz parte da oração.

15. A prostração por esquecimento

Há provas de que o Mensageiro ﷺ cometia esquecimentos durante a oração. Ele dizia: “Não sou mais que um ser humano. Eu me esqueço assim como vocês se esquecem. Portanto, quando eu me esquecer, lembrem-me.” Sobre isso, ele deixou algumas regras para sua comunidade. A seguir, mencionamos resumidamente essas regras:

1. O método da prostração por esquecimento: a prostração por esquecimento consiste em duas prostrações. O orante deve realizá-las antes ou depois da saudação final. Ambas as formas são autenticamente conhecidas por meio do Mensageiro ﷺ. Foi narrado por Abu Sa‘id al-Khudri em Al-Bukhari que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quando algum de vocês tiver dúvida durante a oração e não souber ao certo quantas unidades realizou — três ou quatro — deve afastar a dúvida e basear-se no que tem certeza, completando a oração. Depois, deve fazer duas prostrações antes da saudação final.” Em outra narração de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, a respeito do episódio de Dhu al-Yadayn, consta que o Mensageiro de Allah ﷺ fez a prostração depois da saudação final.

Contudo, o melhor procedimento é seguir os hadiths nesse assunto. Quando os hadiths determinarem que a prostração seja feita antes da saudação final, deve-se fazê-la antes; e quando mencionarem que seja feita depois da saudação final, deve-se fazê-la depois. Al-Shawkani disse: “Nesse caso, o melhor procedimento é que, onde as palavras e ações do Mensageiro ﷺ indicarem a prostração antes da saudação final, ela seja feita antes; e onde indicarem a prostração depois da saudação final, ela seja feita depois. Quando surgir uma causa da prostração por esquecimento relacionada ao momento anterior à saudação final, deve-se prostrar antes dela; e quando surgir uma causa relacionada ao momento posterior à saudação final, deve-se prostrar depois dela. Quando a causa da prostração não estiver relacionada especificamente a nenhum desses dois momentos, o orante terá a liberdade de prostrar-se antes ou depois da saudação final. Nesse caso, não haverá diferença se algo for acrescentado ou omitido na oração.” O Imame Muslim narrou, através de Ibn Mas‘ud, que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quando uma pessoa omitir algo ou acrescentar algo na oração, deverá fazer duas prostrações.”

2. Situações em que a prostração por esquecimento é prescrita pela Sharia: a Sharia determinou a prostração por esquecimento nas seguintes situações:

1. Quando a saudação final for feita antes de a oração terminar. Abu Hurayrah رضي الله عنه disse: “O Mensageiro de Allah ﷺ conduziu-nos na oração do meio-dia ou da tarde. Ele fez a saudação final após duas unidades. Depois, dirigiu-se a um pedaço de madeira que estava na mesquita, ficou de pé e apoiou-se nele, como se estivesse irritado. Colocou a mão direita sobre a esquerda, entrelaçou os dedos como uma rede e apoiou a face sobre o dorso da mão esquerda. Aqueles que costumavam sair primeiro da mesquita saíram. As pessoas disseram: ‘A oração foi encurtada?’ Abu Bakr رضي الله عنه e Umar رضي الله عنه também estavam presentes na congregação, mas não ousaram falar com o Mensageiro ﷺ. Havia na congregação um homem chamado Dhu al-Yadayn. Ele se aproximou e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, você encurtou a oração ou se esqueceu?’ O Mensageiro de Allah ﷺ respondeu: ‘Não me esqueci, nem a oração foi encurtada.’ Em seguida, perguntou: ‘Vocês também dizem o que Dhu al-Yadayn disse?’ Eles responderam: ‘Sim.’ Então, imediatamente, o Mensageiro de Allah ﷺ voltou, completou a parte da oração que havia sido deixada de lado e depois fez a saudação final.” [Isso prova que, se alguém fizer a saudação final por engano antes de terminar a oração, será suficiente realizar apenas a parte restante, quer tenha feito a saudação depois de duas unidades, quer a tenha feito antes disso.]

Depois, disse “Allahu Akbar” e fez uma prostração que durou tanto quanto sua prostração habitual ou até mais. Em seguida, levantou a cabeça. — Al-Bukhari e Muslim.

Ahmad, al-Bazzar e al-Tabarani narraram que Ibn al-Zubayr conduziu a oração do crepúsculo e fez a saudação final após duas unidades. Depois, levantou-se para tocar a Pedra Negra. As pessoas da congregação, surpresas, disseram “Subhanallah!” e perguntaram: “O que aconteceu com você?” Então, ele completou a oração restante e fez duas prostrações. Quando esse episódio foi comunicado a Ibn Abbas, ele disse: “Ibn al-Zubayr não se afastou nem um pouco da Sunnah do Mensageiro de Allah ﷺ.”

2. Se algo for acrescentado na oração: todos os livros autênticos de hadith narraram, por intermédio de Ibn Mas‘ud, que o Mensageiro de Allah conduziu uma oração de cinco rak‘ahs. Perguntaram-lhe: “Foi acrescentado algo à oração?” Ele respondeu: “O que é isso?” As pessoas disseram: “O senhor rezou cinco rak‘ahs.” Imediatamente, o Mensageiro de Allah fez duas prostrações depois de pronunciar o salam.

Este hadith prova que, se alguém, por engano, rezar uma rak‘ah a mais sem se sentar na quarta rak‘ah, sua oração será válida caso faça as prostrações de sahw.

3. Se esquecer a sessão do primeiro tashahhud ou deixar de cumprir alguma sunnah da oração: foi narrado em todos os livros autênticos de hadith que o Mensageiro de Allah conduziu a oração e se levantou sem se sentar na segunda rak‘ah. As pessoas o alertaram dizendo “Subhanallah”, mas ele continuou avançando. Ao terminar a oração, fez duas prostrações e depois pronunciou o salam [foi relatado no hadith que, quando o imam fizer as prostrações de sahw por causa de seu erro, o seguidor também deverá fazê-las. Segundo a opinião dos hanafitas e dos shafi‘itas, o seguidor fará as prostrações de sahw pelo erro do imam, mas não as fará por causa de seu próprio erro].

Foi dito no hadith: se alguém se esquecer da primeira sessão e, ao se levantar, lembrar-se antes de ficar completamente em pé, deverá voltar a sentar-se. Porém, se lembrar-se depois de ficar completamente em pé, não deverá voltar a sentar-se. Isso é corroborado pelo seguinte hadith, narrado por Ahmad, Abu Dawud e Ibn Majah, por intermédio de al-Mughira:

O Mensageiro de Allah disse: “Quando algum de vocês se levantar na segunda rak‘ah e ainda não estiver completamente em pé, que se sente. Mas, se já estiver completamente em pé, não deverá sentar-se; deverá, porém, fazer duas prostrações de sahw.”

4. Se surgir alguma dúvida durante a oração: ‘Abdur-Rahman ibn ‘Awf disse: Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: “Quando algum de vocês tiver dúvida sobre sua oração e não souber se rezou uma ou duas rak‘ahs, deverá considerar que rezou uma rak‘ah. E, quando tiver dúvida se rezou duas ou três rak‘ahs, deverá considerar que rezou duas. E, quando não conseguir determinar se rezou três ou quatro rak‘ahs, deverá considerar que rezou três. Depois, ao terminar a oração, deverá fazer duas prostrações antes de pronunciar o salam.” — Ahmad, Ibn Majah e at-Tirmidhi. Em outra narração de ‘Abdur-Rahman consta: “Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: aquele que, durante a oração, tiver dúvida quanto ao número menor de rak‘ahs que rezou deverá continuar rezando até que surja a dúvida quanto ao número maior.” Abu Sa‘id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah disse: “Quando algum de vocês tiver dúvida sobre sua oração e não souber quantas rak‘ahs rezou, três ou quatro, que descarte a dúvida e conclua a oração com base no número sobre o qual tem certeza. Depois, antes de pronunciar o salam, deverá fazer duas prostrações. Se tiver rezado cinco rak‘ahs, essa oração intercederá por ele. E, se tiver rezado para completar quatro rak‘ahs, as duas prostrações de sahw serão um meio de punir Satanás.” — Ahmad e Muslim. Esses dois hadiths constituem uma prova a favor da opinião da maioria dos sábios: quando aquele que realiza a oração tiver dúvida quanto ao número de rak‘ahs, deverá tomar como base o menor número certo e fazer as prostrações de sahw.

16. A oração em congregação

1. A importância e a excelência da oração em congregação

A oração em congregação é uma sunna mu’akkada (sunna enfatizada). [Esta é a regra das orações obrigatórias. Nas orações voluntárias, a congregação é permitida, seja pequena ou grande. Há um hadith segundo o qual o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ofereceu duas unidades de oração voluntária. Anas ficou à sua direita, enquanto Umm Sulaym e Umm Haram ficaram atrás dele. Esse tipo de ocorrência aconteceu mais de uma vez].

Há numerosos hadiths sobre a virtude disso.

Mencionarei aqui alguns deles:

1. Relata-se de Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: A recompensa da oração em congregação é vinte e sete vezes maior que a da oração individual. — Bukhari e Muslim.

2. Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: A recompensa da oração realizada em congregação é vinte e cinco vezes maior que a da oração realizada em casa ou no mercado. Quando ele faz a ablução corretamente e depois vai à mesquita com o único propósito de realizar a oração, a cada passo seu é elevada uma posição e perdoado um pecado. Então, quando realiza a oração, os anjos continuam a suplicar por misericórdia para ele enquanto permanecer no local onde rezou, até que perca a ablução. Eles dizem: Ó Allah, concede-lhe misericórdia! Concede-lhe o bem! E, enquanto aguarda a próxima oração, ele permanece em oração. Bukhari e Muslim.

3. Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, também narrou: Um homem cego foi ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: Ó Mensageiro de Allah, não tenho ninguém que me guie e me leve à mesquita. Em seguida, pediu ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permissão para realizar a oração em casa. Ele lhe deu permissão. Quando o homem se preparava para partir, o Mensageiro de Allah lhe perguntou: Ouves o chamado para a oração? Ele respondeu: Sim. Então ele disse: Portanto, atende ao chamado. Muslim.

4. Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, também narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Juro por Allah que tenho vontade de ordenar a alguém que reúna lenha e, depois que a lenha for reunida, ordenar a outro que conduza a oração na mesquita. Em seguida, iria às casas de algumas pessoas e as incendiaria (isto é, as casas daqueles que não compareceram à oração em congregação sem uma desculpa válida). Bukhari e Muslim.

5. Ibn Mas‘ud, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Quem se alegra em encontrar Allah no Dia Seguinte como muçulmano, que preserve estas orações onde o chamado para a oração é realizado. Allah estabeleceu para o vosso Profeta as práticas da orientação, que são regras permanentes. Preservar estas orações nos locais onde o chamado para a oração é realizado é uma dessas práticas permanentes da orientação. Se realizásseis as orações em vossas próprias casas, como aquele que se ausenta da oração em congregação, estaríeis abandonando a sunna do vosso Profeta. E, se abandonásseis a sunna do vosso Profeta, vos desviaríeis. Em nosso tempo, vimos que ninguém se ausentava da oração em congregação, exceto aquele cuja hipocrisia era conhecida. Alguns chegavam apoiando-se nos ombros de dois homens e então se colocavam na fileira. Muslim. Em outra narração de Ibn Mas‘ud consta: O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ensinou-nos que a prática da orientação é realizar a oração na mesquita onde o chamado para a oração é feito.

6. Abu al-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: Se a oração não for estabelecida em uma aldeia ou em um povoado nômade — isto é, em congregação —, Satanás prevalecerá sobre eles. Portanto, estabeleçam certamente a oração em congregação, pois o lobo devora apenas a ovelha que se separa do rebanho. — Abu Dawud.

2. A participação das mulheres na oração congregacional da mesquita e a virtude de rezarem em casa. É permitido às mulheres ir à mesquita e rezar em congregação, desde que não façam nada que desperte o desejo dos homens nem usem algo que possa desviar as pessoas, como adornos e perfume. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Não impeçais as mulheres de irem às mesquitas. Contudo, suas casas são melhores para elas. Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Não impeçais as servas de Allah de irem às mesquitas de Allah. Porém, que elas vão à mesquita sem usar perfume. — Ahmad e Abu Dawud. Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) também disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Nenhuma mulher deve vir rezar conosco a oração do isha usando perfume. — Muslim, Abu Dawud e an-Nasa’i.

Contudo, para as mulheres, é melhor rezarem em suas casas. Ahmad e at-Tabarani narraram que Umm Humayd as-Sa’diyya foi até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: Ó Mensageiro de Allah, desejo rezar contigo. O Mensageiro de Allah disse: Sei disso. Contudo, rezar em tua própria casa é melhor para ti do que rezar na mesquita do teu bairro; e rezar na mesquita do teu bairro é melhor para ti do que rezar na mesquita congregacional central da tua região.

3. Rezar em uma mesquita relativamente mais distante e em uma congregação maior

É recomendável oferecer a oração na mesquita que esteja relativamente mais distante, mas onde se reúna um número maior de fiéis. Isso porque Muslim narrou, sob a autoridade de Abu Musa — que Allah esteja satisfeito com ele —, que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quanto mais longe uma pessoa for para oferecer a oração, maior será a recompensa que receberá.” Jabir disse: “Como os arredores da mesquita ficaram desocupados, os Banu Salama quiseram mudar-se para um lugar mais próximo da mesquita. Ao saber disso, o Mensageiro de Allah disse: ‘Ó Banu Salama, soube que desejais mudar-vos para perto da mesquita.’ Eles disseram: ‘Sim, ó Mensageiro de Allah! É isso que queremos.’ O Mensageiro disse: ‘Em vez disso, permanecei em vossas moradias. Vossas pegadas são registradas.’” Além disso, o hadith narrado anteriormente por Abu Hurayra sobre o mesmo assunto foi citado por al-Bukhari e Muslim. Ubayy ibn Ka’b narrou que o Mensageiro de Allah disse: “A oração de uma pessoa com outra é mais meritória do que sua oração sozinha; e a oração de uma pessoa com duas outras é mais meritória do que sua oração com apenas uma pessoa, além de ser mais eficaz para libertá-la e purificá-la dos pecados. A congregação que reúne mais pessoas é mais amada por Allah.” — Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i, Ibn Majah e Ibn Hibban.

4. É recomendável dirigir-se calmamente à mesquita

É recomendável ir à mesquita com tranquilidade e solenidade. É desaconselhável ir depressa ou correndo. A pessoa é considerada alguém que está oferecendo a oração desde o momento em que sai de casa com esse propósito. Abu Qatadah disse: “Certo dia, estávamos oferecendo a oração com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — quando, de repente, ele ouviu o alvoroço de algumas pessoas. Ao terminar a oração, perguntou: ‘O que se passa convosco?’ Eles responderam: ‘Viemos correndo para alcançar a oração.’ O Mensageiro disse: ‘Não façais isso. Quando vierdes para a oração, vinde com calma e tranquilidade. Oferecei da oração o que conseguirdes alcançar com a congregação e completai depois aquilo que perderdes.’” — al-Bukhari e Muslim. [“Calma” e “tranquilidade” têm significado semelhante. O Imam an-Nawawi estabeleceu uma diferença entre ambas. Segundo ele, calma significa caminhar lentamente e abster-se de atividades fúteis durante o percurso; tranquilidade significa solenidade.]

Como manter os olhos baixos, falar em voz baixa e não olhar para os lados.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Ao ouvir o iqamah, dirija-se à mesquita. Porém, vá com calma e tranquilidade. Não se apresse. Reze o que conseguir alcançar e complete depois o que perder. — Todas as coletâneas de hadith autênticos, exceto At-Tirmidhi. [ Este hadith mostra que a parte da oração alcançada com o imam é considerada a primeira parte da oração, enquanto a parte restante é considerada a parte posterior ].

5. É recomendável que o imam encurte a oração

É recomendável que o imam encurte a oração em congregação. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quando qualquer um de vós liderar a oração em congregação, deverá encurtá-la, pois entre eles haverá doentes, idosos e fracos. Porém, quando rezar sozinho, poderá prolongá-la quanto quiser. — Todas as coletâneas de hadith autênticos.

Abbas relatou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quando começo a oração, tenho a intenção de prolongá-la. De repente, ouço o choro de uma criança e, então, termino a oração rapidamente. Sei quanto o choro da criança aflige sua mãe. Al-Bukhari e Muslim relataram que Anas disse: Nunca rezei atrás de outro imam uma oração mais breve e, ao mesmo tempo, mais completa do que a do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Abu Umar ibn Abd al-Barr disse: Segundo os estudiosos, há consenso de que é recomendável que qualquer imam encurte a oração. Contudo, cada ato da oração deve ter uma duração equivalente à recitação de “Subhanallah” três vezes. Nenhum ato pode ser omitido ou reduzido. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proibiu bicar como um corvo. Ao ver um homem terminar a oração sem realizar completamente o rukūʿ, disse-lhe: “Vai e reza novamente, pois não rezaste.” Ele também disse: “Allah não olhará para aquele que não endireita as costas depois do rukūʿ e do sujūd.” Em seguida, Abu Umar disse: Não conheço qualquer divergência quanto ao fato de ser recomendável que aquele que atua como imam encurte a oração. Entretanto, é condição que cada ato — rukūʿ, sujūd e outros — seja realizado completamente. Segundo uma narração, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Não façais com que Allah seja detestado pelos servos de Allah. Alguns de vós, ao atuarem como imam, prolongam a oração, causando sofrimento às pessoas que estão atrás.”

6. O prolongamento da primeira rakʿah pelo imam

É permitido pela sharia que o imam prolongue a primeira rakʿah enquanto espera por alguém que esteja tentando juntar-se à oração em congregação, a fim de obter a virtude da oração em congregação. Do mesmo modo, pode-se esperar por alguém que queira juntar-se à congregação durante o rukūʿ. Também se pode esperar durante a sessão final. No hadith de Abu Qatadah consta que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) prolongava a primeira rakʿah. Abu Saʿid disse que, depois do início da oração, quando algumas pessoas iam a Jannatul Baqi para fazer suas necessidades naturais e voltavam após realizar o wudu, o Mensageiro ainda se encontrava na primeira rakʿah. Ele prolongava a primeira rakʿah. — Ahmad, Muslim, Ibn Majah e An-Nasaʾi.

7. É obrigatório seguir o imam, e é proibido antecipar-se a ele

É obrigatório seguir o imam, e é proibido antecipar-se a ele [ Todos os estudiosos concordam que, se alguém se antecipar ao imam no takbirat al-ihram ou na pronúncia do salam, sua oração será invalidada. Segundo Ahmad, se alguém se antecipar ao imam em outros atos, sua oração também será invalidada. E se acompanhar o imam simultaneamente, será makruh. É obrigatório seguir o imam ].

Abu Huraira narra que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: O imam foi designado apenas para ser seguido. Portanto, não vos antecipeis a ele. Quando ele disser o takbir, dizei também o takbir. E quando ele disser «Sami‘a Allahu liman hamidah», dizei: «Allahumma Rabbana lakal-hamd». E quando ele se prostrar, prostrai-vos também. E quando ele se sentar e recitar a bênção sobre o Profeta, sentai-vos todos e recitai-a também. — Bukhari e Muslim. Ahmad e Abu Dawud narram que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: O imam existe apenas para ser imitado. Portanto, quando ele disser o takbir, dizei também o takbir; não digais o takbir antes que o imam o diga. E quando ele se inclinar, inclinai-vos também, e não vos inclineis antes que ele se incline. E quando o imam se prostrar, prostrai-vos também. Não vos prostrais antes que o imam se prostre. Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Quando algum de vós levanta a cabeça antes do imam, não teme que Allah possa transformar a sua cabeça na cabeça de um asno, ou transformar o seu rosto no rosto de um asno?» — Todas as coletâneas autênticas de hadith. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Ó pessoas, eu sou o vosso imam. Portanto, não vos antecipeis a mim na inclinação, na prostração, na posição de pé, na posição sentada nem ao pronunciar o salam. — Ahmad e Muslim. Bara disse: Estávamos rezando com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando o Mensageiro de Allah disse «Sami‘a Allahu liman hamidah», nenhum de nós curvou as costas até que o Mensageiro de Allah tivesse colocado o rosto no chão. — Todas as coletâneas autênticas de hadith.

8. A oração congregacional se estabelece com a entrada de apenas uma pessoa junto ao imam

A oração congregacional se estabelece com a entrada de apenas uma pessoa junto ao imam, seja ela um menino ou uma mulher. Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Passei a noite na casa de minha tia materna, Maymuna. À noite, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou-se para rezar. Eu também me levantei com ele. Fiquei à sua esquerda. Ele — todas as coletâneas autênticas de hadith [este hadith prova que, se alguém não tiver a intenção de ser imam e se levantar para rezar sozinho, é permitido rezar atrás dele como seguidor e que ele se transforme em imam. Isso se aplica tanto às orações obrigatórias quanto às voluntárias. Bukhari narra de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rezava em seu aposento. A parede do aposento era muito baixa. As pessoas conseguiram ver o Mensageiro de Allah. Ao vê-lo, um grupo levantou-se para rezar com ele. Na manhã seguinte, as pessoas conversaram sobre isso. Na noite seguinte, o Mensageiro de Allah voltou a levantar-se para rezar. Também nesse dia algumas pessoas rezaram sob a liderança do Mensageiro de Allah] — segurou-me pela cabeça, trouxe-me para o seu lado direito e fez-me ficar de pé ali.

Abu Sa‘id e Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ambos, disseram que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quem se levantar durante a noite, despertar a sua esposa e ambos rezarem juntos duas rak‘at, será registrado entre os homens e as mulheres que se lembram de Allah. Abu Dawud. Abu Sa‘id narra: Um homem entrou na mesquita. Antes disso, o Mensageiro de Allah havia rezado com os seus companheiros. O Mensageiro de Allah disse: Quem está disposto a rezar com este homem e oferecer-lhe uma caridade? Um dos presentes levantou-se e rezou com ele. — Ahmad, Abu Dawud e Tirmidhi. Ibn Abi Shayba narrou que Abu Bakr as-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, rezou com esse homem. A partir deste hadith, Tirmidhi concluiu que é permitido realizar novamente uma oração congregacional numa mesquita onde já tenha sido realizada uma oração congregacional. Esta é também a opinião de Ahmad e Ishaq. Segundo outros sábios, deve-se rezar individualmente. Esta era a opinião de Sufyan, Malik, ash-Shafi‘i e Ibn al-Mubarak.

Entretanto, realizar simultaneamente várias orações congregacionais num mesmo local é unanimemente considerado ilícito. Isso contraria o propósito para o qual o Islam instituiu a oração congregacional. Também contraria as normas da Sharia.

9. A validade de alguém se tornar seguidor do imam

Quando alguém é nomeado imam na ausência do imam designado, é permitido que, quando o imam designado chegar, essa pessoa se torne seu seguidor. Bukhari e Muslim narram, segundo Sahl ibn Sa‘d: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até a tribo de Banu ‘Amr para resolver uma disputa. Quando chegou a hora da oração, o mu’adhdhin foi até Abu Bakr e disse: «Você vai conduzir a oração? Então devo fazer o iqamah?» Ele respondeu: «Sim.» Em seguida, Abu Bakr começou a conduzir a oração. Pouco depois, o Mensageiro de Allah chegou. As pessoas estavam rezando. O Mensageiro de Allah entrou na fileira e ficou de pé. As pessoas bateram palmas. Enquanto estava na oração, Abu Bakr não olhava para nenhum outro lado. Mas, quando as pessoas bateram palmas com mais intensidade, ele olhou para o lado e viu o Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah fez-lhe um sinal, dizendo: «Permaneça no seu lugar e continue conduzindo a oração.» Abu Bakr levantou as duas mãos e louvou a Allah pela ordem que o Mensageiro de Allah lhe dera acerca da condução da oração. Então Abu Bakr recuou e ficou na fileira; o Mensageiro de Allah avançou, conduziu a oração e depois sentou-se voltado para as pessoas. Em seguida, disse: «Ó Abu Bakr, por que não continuaste conduzindo a oração depois que te ordenei?» Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: «O filho de Abu Quhafa não poderia conduzir a oração na presença do Mensageiro de Allah.» O Mensageiro de Allah perguntou às pessoas: «O que aconteceu? Por que vos vi bater palmas tantas vezes?» Se algo inesperado acontecer a alguém durante a oração, deve dizer “Subhanallah”. Bater palmas é reservado apenas às mulheres.

Ash-Shawkani disse: Este hadith prova que caminhar de uma fileira para a fileira adjacente durante a oração não invalida a oração. Além disso, é permitido louvar Allah e alertar dizendo «Subhanallah» por causa de algum acontecimento. Também é permitido, por uma desculpa, substituir o imam por outra pessoa. Não há nada censurável em a oração ser conduzida por dois imams. Isso prova a validade de uma pessoa ser imam durante uma parte da oração e seguidora durante outra parte. Também prova a validade de levantar as mãos durante a oração ao fazer súplicas e louvar Allah. Está igualmente provado que é permitido olhar para um lado ou para o outro quando necessário. E também está provado que, quando necessário, é permitido comunicar algo ao orante por meio de gestos. Fica provada a validade de louvar e agradecer a Allah por se ter sido honrado na religião, de uma pessoa menos qualificada ser imam de alguém mais qualificado e de realizar pequenos movimentos durante a oração.

10. Participação parcial na oração em congregação

Aquele que entra na congregação no meio da oração deverá dizer o takbīr de consagração em pé e acompanhar o imame na posição em que ele estiver. (Se ele se juntar à congregação dizendo o takbīr de consagração antes de o imame proferir o salām final, receberá a recompensa de toda a congregação. Uma rak‘ah não será considerada alcançada na congregação até que se alcance o rukū‘ dessa rak‘ah. Mesmo que não se alcance completamente o rukū‘ com o imame, ou que se incline a cabeça antes de ele a levantar e toque os joelhos com as mãos, a rak‘ah será considerada alcançada.

Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Quando chegardes à oração e nos encontrardes em prostração, prostrai-vos também. Contudo, não a conteis como uma rak‘ah. E aquele que alcançar o rukū‘ terá alcançado a rak‘ah da oração.» — Abu Dawud, Ibn Khuzaymah e al-Hakim.

O masbūq (aquele que alcançou parcialmente a congregação) fará exatamente tudo o que o imame fizer. Ele permanecerá sentado com ele na última sessão. Não se levantará até que o imame profira o salām final. Quando se levantar, dirá «Allahu Akbar» ao levantar-se, para completar a oração que lhe falta.

11. Desculpas que permitem abandonar a oração em congregação

É permitido abandonar a oração em congregação quando surgir qualquer uma das situações mencionadas a seguir:

1 e 2. Chuva ou neve: Foi narrado por Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, costumava ordenar ao convocador que chamasse para a oração e dissesse: «Orai em vossas próprias casas durante a noite escura e chuvosa.» — Bukhari e Muslim. Foi narrado por Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele: «Saímos em viagem com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Durante a viagem, choveu. O Mensageiro de Allah disse: “Quem de vós quiser, que ore em seu próprio alojamento.”» — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e Tirmidhi. Certa vez, num dia chuvoso, Ibn Abbas disse ao seu mu’adhdhin: «Depois de dizerdes “Ashhadu anna Muhammadan rasulullah”, não digais “Hayya ‘alas-salah” (“Vinde para a oração”). Em vez disso, dizei: “Sallu fi buyutikum” (“Orai em vossas próprias casas”).» Pareceu que as pessoas desaprovaram isso. Então Ibn Abbas disse: «Estais admirados com isso? Aquele que é melhor do que eu, o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, fez isso. A oração em congregação é uma obrigação. Contudo, não gostei de vos fazer sair de vossas casas para caminhar por lama e caminhos escorregadios.» — Bukhari e Muslim. A versão narrada por Muslim é a seguinte: num dia chuvoso de sexta-feira, Ibn Abbas ordenou isso ao seu mu’adhdhin. Também é permitido abandonar a congregação por causa de um calor intenso como uma nevasca, escuridão profunda e medo de um tirano. Ibn Battal disse: «Há consenso dos sábios sobre isso.» Ele também incluiu nessa regra a chuva torrencial, as tempestades e calamidades naturais semelhantes.

3. Quando a comida estiver servida Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Quando algum de vós estiver prestes a comer, não deve apressar-se até comer o quanto necessita — mesmo que a oração em congregação já tenha começado.» — Bukhari.

4. Quando estiver sob a pressão de urinar ou defecar, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: “Não se deve realizar a oração enquanto a comida estiver servida e enquanto se estiver sob a pressão de urinar ou defecar.” — Ahmad, Muslim e Abu Dawud.

5. Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: É sensato atender primeiro às próprias necessidades, para que se possa realizar a oração com a mente tranquila. — Bukhari.

12. Quem é mais qualificado para liderar a oração

Aquele que conhece mais o Livro de Allah é o mais qualificado para liderar a oração. Se vários forem iguais quanto à aptidão para recitar o Alcorão, aquele que possuir mais conhecimento da Sunna será o mais qualificado para liderar a oração. Se ainda houver mais de uma pessoa em igualdade, aquele que for mais antigo na Hégira será o mais qualificado para liderar a oração. Se mesmo assim houver mais de uma pessoa em igualdade, aquele que for mais velho será o mais qualificado para liderar a oração.

a. Abu Sa’id narra que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando três pessoas se reunirem, uma delas deve liderá-las na oração. Aquele que conhecer mais do Alcorão é o mais qualificado para liderar a oração.” — Ahmad, Muslim e Nasa’i. “Conhecer mais do Alcorão” significa possuir mais conhecimento do Alcorão e retê-lo mais na memória. Pois, na narração de Amr ibn Salama, consta: “Aquele dentre vós que tiver consigo a maior quantidade do Alcorão deve liderá-los na oração.”

b. Ibn Mas’ud, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Aquele que conhecer mais o Alcorão entre as pessoas da congregação deve liderá-las na oração. Se todos forem iguais quanto à aptidão para conhecer o Alcorão, aquele que possuir mais conhecimento da Sunna será o mais qualificado para liderar a oração. Se todos forem iguais também quanto ao conhecimento da Sunna, aquele que for mais antigo na Hégira será o mais qualificado para liderar a oração. Se todos forem iguais também quanto à Hégira, aquele que for mais velho será o mais qualificado para liderar a oração. Ninguém deve, de modo algum, liderar a oração na área sob a autoridade de outra pessoa sem a sua permissão. E ninguém deve sentar-se no lugar reservado ao dono da casa sem a sua permissão.” — Ahmad e Muslim.

Isso significa que o governante, o dono da casa e o presidente de uma reunião são mais qualificados para liderar a oração do que os demais, enquanto nenhum desses responsáveis der permissão a outra pessoa.

Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, narra que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não é permitido a uma pessoa que creia em Allah e no Derradeiro Dia tornar-se o imam ou líder de uma comunidade ou grupo sem a sua permissão. E ninguém deve excluir todos os demais e indicar somente a si mesmo como convidado de uma refeição. Se o fizer, será como se tivesse traído a confiança deles.” — Abu Dawud.

13. Aqueles cuja condução da oração é válida

É válido que um menino que compreende a diferença entre o lícito e o ilícito atue como imã. É válido que um cego atue como imã; que aquele que está de pé seja conduzido na oração por alguém que ora sentado; que aquele que ora sentado seja conduzido por alguém que ora de pé; que alguém que realiza uma oração obrigatória seja conduzido por quem realiza uma oração voluntária; que alguém que realiza uma oração voluntária seja conduzido por quem realiza uma oração obrigatória; que aquele que fez tayammum seja conduzido por quem fez ablução; que aquele que fez ablução seja conduzido por quem fez tayammum; que um viajante seja conduzido por um residente permanente e que um residente permanente seja conduzido por um viajante; e que uma pessoa com uma condição especial conduza pessoas comuns. Tudo isso é correto e válido. Amr ibn Salama conduziu as pessoas de sua tribo na oração quando tinha apenas seis ou sete anos de idade. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nomeou Ibn Umm Maktum duas vezes como seu representante em Medina e imã, embora ele fosse cego. Durante a doença que precedeu sua morte, Abu Bakr rezava sentado em sua casa, enquanto um grupo de pessoas rezava de pé atrás dele. Naquela ocasião, ele lhes ordenou por gestos que rezassem sentados. Quando se virou após a oração, disse: “O imã só foi designado para ser seguido. Portanto, quando ele se inclinar, inclinem-se também; quando ele se levantar da inclinação, levantem-se também. E, se o imã rezar sentado, rezem sentados atrás dele.” [Segundo Ishaq, al-Awza‘i, Ibn al-Mundhir e os zahiritas, é inválida a oração de quem é capaz de rezar de pé atrás de uma pessoa que reza sentada por motivo de uma justificativa; essa pessoa deve rezar sentada, imitando o imã. Alguns consideram, contudo, que este hadith foi ab-rogado.]

Mu‘adh rezava a oração do ‘isha com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois, retornava à sua tribo e repetia com eles a mesma oração. Assim, a sua oração tornava-se voluntária, enquanto a oração obrigatória do ‘isha era cumprida por sua tribo. Mihjan ibn Adra disse: “Fui até o Mensageiro de Allah. Ele estava na mesquita. A oração congregacional foi realizada, e ele rezou, mas eu não rezei. Ele me perguntou: ‘Por que não rezaste?’ Respondi: ‘Ó Mensageiro de Allah, rezei em minha casa e depois vim até ti.’ Ele disse: ‘Já que vieste, reza com eles e considera-a uma oração voluntária.’” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, viu um homem rezando sozinho e disse: “Não há alguém que faça caridade a este homem, isto é, que reze com ele?” Amr ibn al-As conduziu a oração como imã após fazer tayammum. O Mensageiro de Allah confirmou a validade de sua oração. Durante a conquista de Meca, o Mensageiro de Allah conduziu em Meca todas as orações, exceto a do maghrib, com duas unidades cada. Ele disse: “Ó habitantes de Meca, levantai-vos e rezai mais duas unidades, pois somos viajantes. Quando um viajante reza atrás de um residente permanente, deve rezar quatro unidades. Mesmo que consiga alcançar com ele menos de uma unidade, deverá rezar quatro unidades.”

Perguntaram a Ibn Abbas: “Quando um viajante reza sozinho, ele reza duas unidades; mas, quando reza atrás de um residente permanente, reza quatro unidades. Qual é a razão disso?” Ele respondeu: “Esta é a sunnah.” — Ahmad

14. Aqueles cuja condução da oração não é válida

Não é válido que uma pessoa doente conduza na oração uma pessoa saudável ou outra pessoa acometida por uma doença diferente — por exemplo, alguém que sofre de emissão involuntária de urina, fezes ou gases. Esta é a opinião da maioria dos sábios. Na escola maliquita, essa condução é válida, porém makruh.

15. É recomendado que uma mulher conduza outras mulheres na oração

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, conduzia as mulheres na oração e permanecia na mesma fileira que elas. Umm Salama também fazia o mesmo. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, designou um mu’adhdhin para Umm Waraqa. Ele ordenou a Umm Waraqa que conduzisse as mulheres de sua casa nas orações obrigatórias.

16. A liderança de um homem exclusivamente para mulheres

Abu Ya‘la e At-Tabarani narraram que Ubayy ibn Ka‘b foi até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro, ontem à noite fiz algo.” Ele perguntou: “O quê?” Ubayy respondeu: “Há algumas mulheres em minha casa. Elas me disseram: ‘Tu sabes recitar o Alcorão, mas nós não sabemos. Conduze-nos na oração.’ Então conduzi-as em oito rak‘at e no witr.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em silêncio. Consideramos seu silêncio uma aprovação.

17. É desaconselhável ser conduzido por um fásico ou adepto de inovações

Al-Bukhari narrou que Ibn Umar costumava orar atrás de Al-Hajjaj. Muslim narrou que Abu Sa‘id Al-Khudri orou a oração do Eid atrás de Marwan. Ibn Mas‘ud orou atrás de Al-Walid ibn ‘Uqbah, embora ele consumisse vinho. Certa vez, ele conduziu a oração do fajr com quatro rak‘at. Por isso, Uthman o açoitou. Os Companheiros e os tabi‘in costumavam orar atrás de Ibn Abi Ubayd. Havia acusações de que ele era ateu e convocava as pessoas ao desvio. O princípio seguido pelos sábios nesse assunto era: aquele cuja oração é válida para si mesmo, também pode conduzir a oração de outros. Apesar disso, consideravam desaconselhável orar atrás de um fásico ou adepto de inovações. Isso porque Abu Dawud e Ibn Hibban narraram que um homem conduziu um grupo de pessoas na oração e depois cuspiu na direção da qiblah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu isso e disse: “Que este homem não conduza mais a oração de vocês.” Mais tarde, ele quis conduzi-los na oração, mas as pessoas o impediram e informaram-lhe o que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia dito. Ele mencionou o assunto ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que disse: “Sim, tu ofendeste Allah e Seu Mensageiro.”

18. A permissibilidade de afastar-se do imam por uma razão válida

Uma pessoa que tenha iniciado a oração com o imam pode sair da oração com a intenção de separar-se dele e completar sozinha o restante da oração, caso o imam prolongue a oração e, nessa situação, ela seja acometida por alguma enfermidade; ou tema que algum bem seja destruído; ou tema por seus companheiros de viagem; ou seja dominada pelo sono; e assim por diante.

Isso porque todos os livros autênticos de hadith narraram, sob a autoridade de Jabir, que Mu‘adh costumava orar a oração do ‘isha com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e depois retornava ao seu povo e conduzia-os na oração. Certo dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) atrasou a oração do ‘isha. Mu‘adh orou o ‘isha com ele. Depois retornou ao seu povo e recitou a surata Al-Baqarah. Então um homem orou separadamente. Disseram-lhe: “Ó fulano, tornaste-te um hipócrita.” Ele respondeu: “Não me tornei um hipócrita. Contudo, certamente irei até o Mensageiro de Allah e certamente lhe informarei sobre o assunto.” Depois, contou todo o ocorrido ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro de Allah disse: “Ó Mu‘adh, acaso queres causar tribulação? Ó Mu‘adh, acaso queres desviar as pessoas? Recita tal e tal surata.”

19. Repetir a oração com a congregação

Yazid ibn Aswad (r.a.) disse: Em Mina, realizamos a oração do fajr com o Mensageiro de Allah (s.a.w.). Nesse momento, chegaram dois homens. Eles interromperam a viagem enquanto ainda estavam sobre seus camelos. Por ordem do Mensageiro (s.a.w.), foram levados até ele. Seus corpos tremiam de medo. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) perguntou-lhes: “O que aconteceu com vocês para que não rezassem com a congregação? Vocês dois não são muçulmanos?” Eles responderam: “Ó Mensageiro de Allah, somos certamente muçulmanos. Já havíamos rezado no local onde estávamos hospedados.” O Mensageiro (s.a.w.) disse-lhes: “Quando vocês rezarem no local onde estão hospedados e depois encontrarem a oração em congregação, rezem novamente com a congregação. Essa oração será voluntária para vocês.” — Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi e Nasa’i.

Este hadith comprova que, se alguém já tiver realizado uma oração, em congregação ou individualmente, e depois encontrar outra congregação realizando a mesma oração na mesquita, é recomendado pela Shariah que participe da congregação seguinte com a intenção de realizar uma oração voluntária e repita essa oração. Foi narrado que Hudhayfa (r.a.) repetiu o dhuhr, o asr e o maghrib depois de tê-los realizado uma vez em congregação. Também foi relatado que, depois de Anas ter realizado a oração do fajr com Abu Musa no pátio onde se secavam tâmaras e outros grãos, ambos chegaram novamente à mesquita congregacional e, ao encontrarem a oração sendo realizada, repetiram-na sob a liderança de Mughirah. Entretanto, a respeito do hadith autêntico no qual o Mensageiro (s.a.w.) disse: “Não realizem a mesma oração duas vezes no mesmo dia”, Ibn Abd al-Barr disse: Ahmad e Ishaq concordam que isso significa não repetir a mesma oração como obrigatória depois de já ter cumprido a oração obrigatória. Porém, aquele que encontra uma congregação pela segunda vez e, seguindo a ordem do Mensageiro (s.a.w.), repete a mesma oração com a intenção de realizá-la voluntariamente, não está repetindo a mesma oração no mesmo dia; isso porque a primeira oração é obrigatória e a segunda é voluntária. Portanto, nesse caso, não há repetição da mesma oração.

20. O imam sentar-se voltado para a direita ou para a esquerda depois de pronunciar o salam

Qubaysa ibn Hulb narra, de seu pai, que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) conduzia-nos na oração e depois se virava e sentava tanto para a direita quanto para a esquerda. — Abu Dawud, Ibn Majah e Tirmidhi. Os sábios seguem a prática de sentar-se voltado para qualquer um dos lados. Ambas as formas foram transmitidas do Mensageiro de Allah (s.a.w.) com cadeias de transmissão autênticas.

Foi narrado por Aisha (r.a.) que, depois de pronunciar o salam, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) permanecia sentado apenas até recitar esta súplica: “Allahumma anta as-salam wa minkas-salam, tabarakta ya dhal-jalali wal-ikram.” — Ahmad, Muslim, Tirmidhi e Ibn Majah. [Depois das orações do maghrib e do fajr, o Mensageiro (s.a.w.) não se afastava do lugar sem recitar dez vezes esta súplica: “La ilaha illallahu wahdahu la sharika lahu, lahul-mulku wa lahul-hamdu, yuhyi wa yumitu wa huwa ala kulli shay’in qadir.” Pois a recompensa por recitar essa súplica é obtida somente quando ela é recitada antes de se sentar com as pernas estendidas.]

Ahmad e Bukhari também narraram, de Umm Salama (r.a.), que, quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) pronunciava o salam, as mulheres se levantavam e iam embora imediatamente após ele pronunciar o salam. Ele permanecia por pouco tempo em seu lugar antes de se levantar. Umm Salama disse: “Allah sabe melhor qual era a verdadeira questão. No entanto, pensamos que as mulheres iam embora antes para que os homens não ficassem frente a frente com elas.”

21. O imam ou os seguidores permanecerem em um lugar elevado

É makruh que o imam realize a oração em um lugar mais elevado do que os seguidores.

Abu Mas‘ud al-Ansari, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibiu que o imam permanecesse sobre alguma coisa enquanto os muqtadis estivessem atrás dele — isto é, numa posição inferior à dele. — Dar Qutni. Humam disse: Hudhayfa, que Allah esteja satisfeito com ele, dirigiu a oração congregacional estando num lugar elevado em Mada’in, antiga cidade do Iraque. Então Abu Mas‘ud segurou sua veste e puxou-a com força. Ao terminar a oração, Abu Mas‘ud disse-lhe: Não sabias que os Companheiros proibiam dirigir a oração a partir de um lugar elevado? Hudhayfa respondeu: Sim, eu sabia. Contudo, só me lembrei disso depois que puxaste minha veste. — Abu Dawud, al-Shafi‘i e al-Bayhaqi.

Entretanto, se houver uma razão especial para o imam permanecer num lugar mais elevado que os muqtadis, isso não será makruh.

Sahl ibn Sa‘d al-Sa‘idi disse: Vi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, no dia em que o púlpito foi instalado pela primeira vez. Ele sentou-se sobre ele, pronunciou o takbir dizendo “Allahu Akbar” estando sobre ele, depois fez o rukū‘, recuou e prostrou-se na base do púlpito. Em seguida, voltou ao púlpito. Ao terminar a oração, voltou-se para o povo e disse: “Ó povo, fiz isso para que pudésseis seguir-me na oração e aprender a minha oração.” — Ahmad, al-Bukhari e Muslim.

É válido, porém, que o muqtadi faça a oração num lugar mais elevado que o imam. Foi narrado que Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, fez a oração atrás do imam sobre o teto da mesquita. Também foi narrado que Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, costumava participar da oração congregacional numa sala da casa de Abu Nafi‘, situada à direita da mesquita de Basra, num nível equivalente à altura de um homem acima da mesquita. Anas participava ali da oração congregacional e orava atrás do imam. Os Companheiros não fizeram objeção a isso. — Sunan Sa‘id ibn Mansur.

Al-Shawkani disse: Se o muqtadi estiver num lugar tão mais elevado que o imam que a diferença ultrapasse trezentos côvados, e por isso ele não consiga saber corretamente os movimentos do imam, isso será inválido por consenso, seja numa mesquita ou em qualquer outro lugar. Se a diferença for menor, será originalmente válido, enquanto não houver prova de sua proibição. Essa regra é demonstrada pelo exemplo anteriormente mencionado de Abu Hurayra, e nenhuma objeção foi levantada contra ela.

22. Seguir o imam quando há uma barreira entre o imam e o muqtadi

Se for possível conhecer os movimentos do imam por meio da visão ou da audição, a oração atrás dele será válida mesmo que haja uma barreira entre o imam e o muqtadi. Al-Bukhari disse: Al-Hasan disse: Se ele ouvir o takbir de abertura, a oração seguindo o imam será válida mesmo que haja uma parede ou uma rua entre o imam e o muqtadi

. Já foi citado anteriormente um hadith segundo o qual as pessoas costumavam orar atrás do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mesmo estando separadas dele pelas casas.

23. Rezar atrás de quem abandona uma obrigação

Se o imame abandonar alguma condição ou pilar da oração, mas o seguidor cumprir todos os pilares e condições e não souber que o imame os abandonou, a oração do seguidor atrás desse imame será válida. Abu Huraira relatou que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Os imamess conduzirão a oração para vocês. Se a conduzirem corretamente, haverá benefício para vocês e para eles. Mas, se cometerem um erro, haverá benefício para vocês e prejuízo para eles.” — Ahmad e al-Bukhari. Sahl disse: Ouvi o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dizer: “O imame é responsável. Se cumprir devidamente sua tarefa, haverá benefício para ele e para a congregação; mas, se não a cumprir devidamente, o prejuízo será dele, não da congregação.” — Ibn Majah. Também se sabe, por hadith autêntico, que Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — conduziu a oração sem saber que estava em estado de janabah (impureza maior). Depois, ele próprio repetiu a oração, mas as pessoas não a repetiram.

24. O imame nomear um substituto

Se, enquanto o imame estiver na oração, ocorrer algo que o impeça de continuar conduzindo-a — por exemplo, ele se lembrar de que está impuro ou perder a ablução —, poderá nomear outra pessoa para substituí-lo, e esta completará o restante da oração com os seguidores. Amr ibn Maymun — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: No dia em que Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — foi ferido durante a oração do fajr, eu estava em oração. Entre mim e Umar não havia ninguém além de Abdullah ibn Abbas. De repente, ouvi-o dizer: “Allahu akbar”. Depois disse: “Fui morto — ou devorado — por um cão.” Quando o assassino o golpeou, ele disse isso, segurou a mão de Abd al-Rahman ibn Awf e o fez avançar. Então Abd al-Rahman conduziu a oração de forma breve. — Al-Bukhari. Abu Rafi disse: Certo dia, Ali conduzia a oração quando, de repente, seu nariz começou a sangrar intensamente. Ele segurou a mão de um homem, fez com que avançasse e saiu. — Said ibn Mansur. Ahmad disse: Umar e Ali praticaram a nomeação de um substituto pelo imame. Quanto aos seguidores completarem a oração individualmente, esse precedente foi estabelecido quando Muawiya — que Allah esteja satisfeito com ele — foi ferido. Assim, após ele ser ferido, as pessoas completaram a oração individualmente.

25. A liderança na oração daquele de quem as pessoas não gostam

Muitos hadiths proibiram que conduzisse a oração aquele que não é apreciado pela congregação. Contudo, essa aversão só deve ser considerada quando for aceitável segundo a sharia e tiver por trás dela uma razão reconhecida pela sharia.

Ibn Abbas relatou que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “A oração de três pessoas não é aceita: a daquele que conduz a oração de uma congregação embora as pessoas não gostem dele; a da mulher que passa a noite deixando o marido descontente; e a dos dois irmãos que rompem relações entre si.” — Ibn Majah. Abdullah ibn Amr relatou: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dizia: “Allah não aceita a oração de três pessoas: daquele que conduz qualquer congregação embora as pessoas não gostem dele; daquele que reza depois do horário; e daquele que transforma uma pessoa livre em escravo.” — Abu Dawud e Ibn Majah. At-Tirmidhi disse que é makruh alguém ser imame apesar de ser detestado pelo povo. Se o imame não for um transgressor, então aquele ou aqueles que o detestam serão pecadores.

26. Os deveres do imame para com os seguidores

1. Se o seguidor for apenas um, ficará à direita do imam; se forem dois ou mais, ficará atrás dele. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou-se para a oração. Então cheguei e fiquei à sua esquerda. Ele segurou minha mão, depois me fez dar a volta e me colocou à sua direita. Em seguida, Jabir ibn Sakhr chegou e ficou à esquerda do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então o Mensageiro de Allah segurou as mãos de todos nós e nos empurrou para que ficássemos atrás dele. — Muslim e Abu Dawud.

E quando uma mulher participar da oração em congregação, ficará sozinha atrás dos homens e não ficará na mesma fileira que eles. Mesmo que faça o contrário, segundo a maioria, sua oração será válida.
Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: Em nossa casa, eu e um órfão rezamos atrás do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Minha mãe ficou atrás de nós. Ele segurou a mim e ao órfão pelas mãos e nos colocou atrás dele, deixando a idosa atrás de nós. — Al-Bukhari e Muslim.

2. É recomendável que o imam fique no meio da fileira e próximo das pessoas instruídas. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Colocai o imam no meio e fechai as brechas.” — Abu Dawud.

Foi relatado por Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Que os mais instruídos e maduros entre vós fiquem próximos de mim; depois, os que os seguem; depois, os que os seguem. E cuidado para que não haja na congregação algazarra como a de um mercado.” — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e At-Tirmidhi. Foi relatado por Anas: O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) gostava que os Muhajirun e os Ansar ficassem próximos dele, para que pudesse escolher pessoas entre eles. — Ahmad e Abu Dawud. O objetivo de colocá-los à frente é que possam corrigir o erro do imam, alertá-lo e, caso ele queira nomear alguém para substituí-lo, fazê-lo.

3. A posição das mulheres e das crianças. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocava os homens à frente das crianças, as crianças atrás deles e as mulheres atrás das crianças. (Se houver apenas uma criança, ela ficará na fileira dos homens.) — Ahmad e Abu Dawud. E, em todos os livros autênticos de hadith, exceto Al-Bukhari, foi relatado por Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A melhor fileira dos homens é a primeira, e a pior é a última. A melhor fileira das mulheres é a última, e a pior é a primeira.”

A última fileira das mulheres é a melhor porque fica mais distante dos homens. Já a primeira fileira possibilita maior contato com os homens.

4. A oração individual atrás da fileira. Se alguém pronunciar o takbirat al-ihram para iniciar sozinho a oração atrás da fileira e, depois, entrar na fileira e alcançar o imam no rukūʿ, sua oração será válida.
Abu Bakrah (que Allah esteja satisfeito com ele) alcançou a congregação enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava no rukūʿ, mas fez o rukūʿ antes de chegar à fileira. Depois, relatou o ocorrido ao Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah disse: “Que Allah aumente o teu empenho em alcançar a congregação, mas não voltes a fazê-lo.” (Isto é: não saias tão tarde para a mesquita; não entres na fileira dessa maneira depois de fazer o rukūʿ; e não corras novamente com tanta pressa para alcançar a congregação.) — Ahmad, Al-Bukhari, Abu Dawud e An-Nasa’i. Contudo, segundo a maioria dos sábios, aquele que completar toda a oração separado da fileira terá realizado a oração, embora isso seja makruh. Segundo Ahmad, Ishaq, Hammad, Ibn Abi Layla, Al-Waki’, Hasan ibn Salih, An-Nasa’i e Ibn al-Mundhir, se alguém rezar sozinho atrás da fileira até mesmo por uma rak’ah inteira, sua oração será inválida.

Warithah disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu um homem rezando sozinho atrás da fileira e ordenou-lhe que repetisse a oração. — Os cinco livros autênticos de hadith, exceto An-Nasa’i. A versão de Ahmad é a seguinte: Perguntaram ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre um homem que havia rezado sozinho atrás da fileira. Ele disse: “Que repita a oração.” Ali ibn Shayban disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu um homem rezando sozinho atrás da fileira e levantou-se. Quando o homem terminou a oração e se preparava para partir, disse-lhe: “Presta atenção à oração, pois não há oração sozinho atrás da fileira.” — Ahmad, Ibn Majah e Al-Bayhaqi.

No entanto, a maioria dos sábios segue o hadith de Abu Bakrah, pois, embora ele tenha realizado parte da oração atrás da fileira, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não lhe ordenou que repetisse a oração. Portanto, a ordem de repetir a oração mencionada em outros hadiths deve ser interpretada da seguinte maneira: isso foi prescrito como algo recomendável, para incentivar a realização do que é melhor. Kamal ibn al-Humam disse: Nossos imames determinaram, com base no hadith de Wabisah, que é recomendável repetir a oração, e, com base no hadith de Ali ibn Shaiban, que, se ela não for repetida, permanecerá uma deficiência na oração — de modo que esses dois hadiths estejam em harmonia com o hadith de Abu Bakrah. Pois, aparentemente, o hadith de Abu Bakrah indica que não há obrigação de repetir a oração. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não lhe ordenou que a repetisse. Quanto àquele que chega à oração congregacional e constata que não há lugar na fileira, nem mesmo qualquer brecha, há duas opiniões a respeito: alguns dizem que ele deve permanecer sozinho e rezar, sendo makruh para ele puxar alguém da fileira. Outros dizem que, depois de pronunciar o takbirat al-tahrimah, ele deve puxar da fileira alguém que conheça essa regra. É recomendável que aquele que for puxado aceite o convite dessa pessoa.

5. Recomendar o alinhamento das fileiras e o fechamento das brechas: É recomendável que o imam ordene aos muçulmanos que alinhem as fileiras e fechem as brechas entre elas antes do início da oração.

Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vinha até nós antes de pronunciar o takbirat al-tahrimah e dizia: “Fiquem ombro a ombro e alinhem-se bem.” — Bukhari e Muslim. Em outra narração de Bukhari e Muslim, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Alinhem as fileiras, pois o alinhamento das fileiras aperfeiçoa a oração.” Nu‘man ibn Bashir disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, costumava alinhar-nos nas fileiras como se alinham os recipientes, encostando-os uns aos outros. Finalmente, quando percebeu que havíamos compreendido e assimilado dele a questão do alinhamento das fileiras, certo dia virou-se e olhou. Viu um homem com o peito projetado para a frente. Então disse: “Vós certamente alinhareis as vossas fileiras; caso contrário, Allah criará entre vós hostilidade, ódio e rancor.” — As cinco coletâneas autênticas de hadith, exceto Tirmidhi. Ahmad e Tabarani narraram que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Alinhem as vossas fileiras, mantenham os ombros nivelados uns com os outros, sejam flexíveis com os vossos irmãos e fechem as brechas, pois Satanás entra entre vós como um filhote de cabra.” Abu Dawud, Nasa’i e Bayhaqi narraram: Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Completai primeiro a fileira da frente e depois a seguinte; qualquer deficiência deve ficar na última fileira.” Bazzar narrou, por intermédio de Ibn Umar: “Quando uma pessoa caminha para fechar uma brecha na fileira, cada passo que dá tem mais recompensa do que qualquer outro passo.” Nasa’i, Hakim e Ibn Khuzaymah narraram, pelo mesmo narrador, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem une uma fileira, Allah o une; e quem rompe uma fileira, Allah o rompe.” Todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Bukhari e Tirmidhi, narraram de Jabir ibn Samurah, que disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio certa vez até nós e disse: “Não podeis alinhar-vos como os anjos se alinham diante do seu Senhor?” Dissemos: “Ó Mensageiro de Allah, como os anjos se alinham diante do seu Senhor?” Ele disse: “Eles completam primeiro a fileira da frente e permanecem juntos, encostados uns aos outros na fileira.”

6. Incentivo a permanecer no lado direito da fileira: Já foi citada anteriormente a declaração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Se as pessoas soubessem que recompensa há em fazer o chamado para a oração e em ocupar a primeira fileira, e se não houvesse outro meio de obter essa oportunidade senão por sorteio, certamente fariam um sorteio.

Foi narrado por Abu Sa‘id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, percebeu entre os seus companheiros a tendência de permanecer atrás da primeira fileira. Então disse-lhes: “Avançai e rezai atrás de mim; os que vierem depois de vós devem rezar atrás de vós. E aqueles que permanecerem sempre atrás, Allah os deixará para trás.” — Muslim, Nasa’i, Abu Dawud e Ibn Majah.

Em outra narração de Abu Dawud e Ibn Majah, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aqueles que rezam no lado direito da fileira recebem a misericórdia de Allah, e os anjos suplicam por misericórdia para eles.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, isso também se aplica à primeira fileira?” Ele disse: “Allah concede misericórdia e os anjos suplicam pela primeira fileira.” As pessoas perguntaram novamente: “Ó Mensageiro de Allah, e a segunda fileira?” Dessa vez ele disse: “Sim, também para a segunda fileira.”

7. Fazer chegar a voz do imam: É recomendável providenciar que a voz do imam chegue a todos os fiéis que rezam atrás dele quando ela não alcança todos e há necessidade de fazê-la chegar. Porém, quando a voz do imam chega aos ouvidos de toda a congregação, tentar fazê-la chegar novamente é uma inovação extremamente indesejável. Essa é a opinião unânime de todos os imames.

17. Descrição da mesquita

1. A terra é a mesquita desta ummah

Uma das particularidades da ummah de Muhammad é que Allah tornou pura e uma mesquita toda a terra para ela. Portanto, sempre que chegar o horário da oração enquanto um muçulmano estiver em qualquer lugar, que ele reze ali mesmo. Abu Dharr disse: Nós perguntamos: “Ó Mensageiro, qual foi a primeira mesquita estabelecida na Terra?” Ele respondeu: “A Mesquita Sagrada.” Perguntei: “E depois qual?” Ele respondeu: “A Mesquita de Al-Aqsa.” Perguntei: “Qual foi o intervalo entre a construção dessas duas mesquitas?” Ele respondeu: “Quarenta anos.” Depois disse: “Onde quer que o horário da oração chegue para ti, reza ali mesmo, pois esse lugar é uma mesquita.” — Todas as coletâneas de hadiths autênticos.

2. A virtude de construir mesquitas

a. Foi narrado por Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse:مَن بَنِي لِلَّهِ مَسْجِدًا يَبْتَغِي بِهِ وَجْهَ الله بَنَى اللهُ لَهُ بَيْتًا فِي الْجَنَّةِ . مُتَّفَقٌ عَلَيْهِO Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Quem construir uma mesquita buscando com isso o agrado de Allah, Allah construirá para ele uma casa no Paraíso.” — Al-Bukhari e Muslim.

b. Ahmad, Ibn Hibban e Al-Bazzar narraram, sob a autoridade de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Quem construir uma mesquita para Allah, ainda que seja tão pequena quanto o lugar onde uma ave põe seus ovos, Allah construirá para ele uma casa no Paraíso.”

3. A súplica ao partir em direção à mesquita

a. Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) saía de casa, dizia:

تَوَكَّلْتُ عَلَى اللَّهِ اللَّمَ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ أَنْ أَسِلٌ أَوْ أَضَلَّ أَوْ أَزِلَ أَوْ أَزَلَ أَوْ أَظْلِمَ أَوْ أَظْلَرَ أَوْ اجْعَلَ أَوْ يُعْمَلْ عَلَيَّ. رواه اصحاب السنن وسععه الترمذي .

“Parti em nome de Allah, confiei em Allah. Ó Allah, busco refúgio em Ti para não me desviar e para que ninguém me desvie; para não escorregar e para que ninguém me faça escorregar; para não cometer injustiça contra ninguém e para que ninguém cometa injustiça contra mim; e para não agir de modo tolo e para que ninguém aja de modo tolo comigo. — Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah.

b. Abu Dawud, Nasa’i e Ibn Majah narraram, com base em Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —

disse: Quem disser, ao sair de casa:

بِاسْرِ اللَّهِ تَوَكَّلْتُ عَلَى اللَّهِ، وَلَا حَوْلَ وَلَا قُوَّةَ إِلَّا بِاللَّهِ.

Ser-lhe-á dito: “Isso te basta; foste guiado, foste protegido, e Satanás se afasta dele.”

c. Al-Bukhari e Muslim narraram, com base em Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — dirigiu-se à mesquita dizendo:

اللَّهُ أَجْعَلْ فِي قَلْبِي نُورًا وَفِي بَصَرِي نَوْرًا، وَفِي سَبْعِي نُورًا، وَعَنْ يَمِينِي نُورًا، وَخَلْفِي نَوْرًا، وفي عصبي نورا، وفي لحمي نورا، وفي دمعي نورا، وفِي شَعْرِي نُورًا، وَفِي بَكْرِي نُورًا.

Em outra narração de Sahih Muslim, consta que ele disse assim:

اللَّهم أَجْعَلْ فِي قَلْبِي نُورًا، وَفِي لِسَانِي لَوْرًا، وَاجْعَلْ فِي سَبْعِي لَوْرًا وَفِي بَصَرِي نَوْرًا، وَاجْعَلْ مِن خَلْفِي نورا، وَمِن أَمَا مِي نُورًا، واجعل من فوقي نورا، ومن تَحْتِي نُورًا، اللهم أعطني نورا.

Significado: Ó Allah, concede luz ao meu coração, luz aos meus olhos, luz aos meus ouvidos, luz à minha direita. Concede luz atrás de mim. Concede luz aos meus nervos, luz à minha carne, luz às minhas lágrimas, luz aos meus cabelos, luz à minha pele. Acréscimo na narração de Muslim: concede luz à minha língua, luz à minha frente, luz acima de mim, luz abaixo de mim. Ó Allah! Concede-me luz.

d. Ahmad, Ibn Khuzayma e Ibn Majah narraram de Abu Sa’id que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quando alguém sai de casa para a oração e diz:

اللهم إني أسألك بحق السائلين عَلَيْكَ وَبِحَقِّ مَنْشَايَ مَلا فَإِنِّي لَمْ أَخْرُجْ أَمْرًا وَلَا بَطَرًا وَلَا رِيَاهُ وَلَا سَمِعَةً، خَرَجْتُ أَنْقَاء سَخَطِكَ، وَابْتِغَاءَ مَرْضَاتِكَ، أَسْأَلُكَ أَنْ تُنْقِذَنِي مِنَ النَّارِ، وَأَنْ تَغْفِرَ لِي ذُنُوبِي إِنَّهُ لا يَغْفِرُ الذُّنُوبَ إِلَّا

أَنْتَ .

“Ó Allah, em nome do direito daqueles que Te suplicam e em nome do direito desta minha jornada, suplico-Te. Pois não nego nem sou ingrato às Tuas dádivas, e não pratico adoração com o propósito de ser visto ou ouvido pelas pessoas. Saí de casa para me proteger da Tua ira e, buscando alcançar a Tua satisfação, suplico-Te: protege-me do Inferno e perdoa os meus pecados; ninguém, exceto Tu, pode perdoar os pecados.” Allah designa setenta mil anjos para pedir perdão por ele, e Allah permanece voltado para ele até que termine a sua oração.

4. Súplicas para entrar na mesquita e sair dela

Para quem deseja entrar na mesquita, a Sunnah é entrar com o pé direito e dizer:

أَعُوذُ بِاللَّهِ الْعَظِيمُ وَيَوَجهِ الكَرِيرِ، وَسُلْطَانِهِ الْقَدِيرِ، مِنَ الشَّيْطَانِ الرَّحِيمِ، بِسْمِ اللهِ اللَّهُ مَل عَلَى مُحَمَّدٍ اللَّه اغْفِرْ لِي ذُنُوبِي وَافْتَحْ لِي أَبْوَابَ رَحْمَتِكَ .

«Busco refúgio no Deus Altíssimo, busco refúgio em Sua grandiosa satisfação e busco refúgio em Seu domínio eterno, contra Satanás expulso. Em nome de Deus. Ó Deus, envia bênçãos sobre Muhammad. Ó Deus, perdoa os meus pecados e abre para mim as portas da Tua misericórdia.» E, ao sair, sairá com o pé esquerdo e dirá:

بِسْمِ اللهِ اللَّه صَلِّ عَلَى مُحَمد الله اغْفِرْ لِي ذُنُوبِي وَافْتَحْ لِي أَبْوَابَ فَضْلِكَ اللَّهُ أَعْصِنِي من الشيطان الرجيم .

«Em nome de Deus. Ó Deus, envia bênçãos sobre Muhammad. Ó Deus, perdoa os meus pecados e abre para mim as portas da Tua graça. Ó Deus, protege-me contra Satanás.»

5. A virtude de ir à mesquita e sentar-se dentro dela

a. Ahmad, Al-Bukhari e Muslim narraram, de Abu Huraira, que o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: «Quem for à mesquita pela manhã e ao entardecer, Deus preparará o Paraíso para recebê-lo, cada vez que for de manhã e ao entardecer.»

b. Ahmad, Ibn Majah, Ibn Khuzaymah, Ibn Hibban e At-Tirmidhi narraram, de Abu Sa’id, que o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: «Quando virdes um homem frequentar assiduamente a mesquita, testemunhai a favor da sua fé, pois Deus disse: “Somente povoa as mesquitas aquele que crê em Deus e no Último Dia.”»

c. Muslim narrou, de Abu Huraira, que o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: «Quem se purificar em sua casa e depois se dirigir à Casa de Deus com o propósito de cumprir uma obrigação prescrita por Deus, por um de seus passos seu pecado será apagado, e pelo outro sua posição será elevada.»

d. At-Tabarani e Al-Bazzar narraram, com base em Abu ad-Darda, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «A mesquita é a morada de todo aquele que teme a Allah. E, quanto àquele cuja morada é a mesquita, Allah lhe garante misericórdia e proteção contra o castigo, e garante que o fará atravessar o caminho que conduz ao Paraíso e chegar ao destino da satisfação de Allah. O destino da satisfação de Allah é o Paraíso.»

6. Tahiyyat al-Masjid
Foi narrado por Abu Qatadah em todas as coletâneas autênticas de hadith que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Quando qualquer um de vós chegar à mesquita, que faça duas prostrações, isto é, que reze duas rak’ahs, antes de se sentar.»

7. A melhor mesquita

a. Al-Bayhaqi narrou, com base em Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Uma oração na Mesquita Sagrada equivale a cem mil orações; uma oração na minha mesquita equivale a mil orações; e uma oração em Bayt al-Maqdis equivale a quinhentas orações.»

b. Ahmad narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Uma oração nesta minha mesquita é melhor do que mil rak’ahs em qualquer outra mesquita, exceto na Mesquita Sagrada. E uma oração na Mesquita Sagrada é cem vezes melhor do que uma oração nesta minha mesquita.»

c. Todas as coletâneas autênticas de hadith narraram que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Não é permitido empreender viagem em direção a nenhum lugar, exceto a três mesquitas: a Mesquita Sagrada, esta minha mesquita e a Mesquita de Al-Aqsa.»

8. Ornamentar as mesquitas

a. Ahmad, Abu Dawud, An-Nasa’i e Ibn Majah narraram, com base em Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «A Hora não acontecerá enquanto as pessoas não se orgulharem das mesquitas.» A versão narrada por Ibn Khuzaymah é a seguinte: «Chegará para as pessoas uma época em que se orgulharão das mesquitas, mas depois disso as frequentarão muito pouco, isto é, dirigir-se-ão muito pouco às mesquitas.»

b. Abu Dawud e Ibn Hibban narraram, de Ibn Abbas, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Não fui ordenado a elevar a mesquita além do necessário. Acréscimo de Abu Dawud: Ibn Abbas disse: Vós decorareis as mesquitas da mesma forma como os judeus e os cristãos decoravam seus locais de culto.

c. Ibn Khuzaymah narrou que Umar ordenou a construção das mesquitas e disse: Estou protegendo os fiéis da chuva. Não deves pintar a mesquita de vermelho ou amarelo, pois essas cores distrairão as pessoas da adoração. — Bukhari.

9. Manter a mesquita limpa e perfumada

a. Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah e Ibn Hibban narraram, de Aisha, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou a construção de mesquitas nas localidades e ordenou que fossem mantidas limpas e perfumadas. Segundo a versão de Abu Dawud: O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava ordenar-nos que construíssemos mesquitas em nossas áreas residenciais, que as reparássemos e as purificássemos. E quando Abdullah se sentava no púlpito, perfumava a mesquita.

b. Anas narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Foram-me mostradas as recompensas que minha comunidade receberá, até mesmo pela remoção de lixo da mesquita. — Abu Dawud e Tirmidhi.

10. Manutenção da mesquita

A mesquita é a casa de adoração. É necessário protegê-la de todo tipo de sujeira, lixo e mau odor.

Muslim narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «A mesquita não é lugar apropriado para sujeira, lixo ou urina. Ela serve apenas para a recordação de Allah e o estudo do Alcorão.» Ahmad narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando algum de vós tossir ou assoar o nariz, que remova o muco ou a secreção nasal, para que não atinja o corpo ou a roupa de algum crente e não lhe cause incômodo. Ahmad e Bukhari narraram, de Abu Hurayrah, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando algum de vós se levantar para a oração, que não cuspa à sua frente.

Pois, enquanto permanece em oração, ele está conversando com Allah; e não deve cuspir para o lado direito, pois à sua direita há um anjo. Deve cuspir para o lado esquerdo ou enterrá-lo no chão sob o pé. Jábir (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ninguém que tenha comido cebola, alho ou kurrath (um tipo específico de verdura de odor desagradável) deve aproximar-se da nossa mesquita, pois aquilo que causa sofrimento às pessoas também causa sofrimento aos anjos.” Certa vez, durante o sermão de sexta-feira, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó povo, vocês comem os frutos de duas árvores que considero repugnantes: a cebola e o alho. Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que, quando sentia o cheiro dessas duas coisas em alguém, mandava que essa pessoa saísse em direção a Al-Baqi. Portanto, quem comer alguma delas deve cozinhá-la para eliminar seu mau odor antes de comê-la.” — Ahmad, Muslim e An-Nasa’i. [É permitido comer cebola e alho crus. Contudo, depois de comê-los, não é permitido ir à mesquita nem a locais de reunião pública enquanto o mau odor não desaparecer. Outros odores desagradáveis também estão incluídos, como o de fumar, arrotar e o mau hálito.]

11. É makruh anunciar objetos perdidos, realizar compra e venda e recitar poesia

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem ouvir alguém anunciando na mesquita um objeto perdido deve dizer: ‘Que Allah não o devolva a você.’ Pois a mesquita não foi construída para isso.” — Muslim. Também foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando virem alguém realizando compra e venda na mesquita, digam-lhe: ‘Que Allah não torne seu comércio lucrativo.’” — An-Nasa’i e At-Tirmidhi. Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu realizar compra e venda na mesquita, recitar poesia e anunciar objetos perdidos, bem como sentar-se em círculo na sexta-feira antes da oração (isto é, realizar reuniões e ajuntamentos).” — As cinco coletâneas de hadith autênticas

A poesia cuja recitação foi proibida na mesquita é aquela que contém difamação e calúnia contra algum muçulmano, elogio a algum opressor, palavras obscenas e coisas semelhantes. Já não são proibidos os poemas que contêm ensinamentos, elogios ao Islam ou incentivo à prática do bem.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) viu Hassan recitando poesia na mesquita. Ele olhou naquela direção e então disse: “Eu também costumava recitar poesia na mesquita. Nela há alguém melhor do que você.” Depois, olhando para Abu Huraira, disse: “Eu lhe pergunto, em nome de Allah: você ouviu o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: ‘Responda por mim; ó Allah, fortalece-o (Hassan) com Jibril’?” Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Sim, ouvi.” — Al-Bukhari e Muslim.

12. Mendigar na mesquita

O Shaykh al-Islam Ibn Taymiyyah disse: mendigar é, em princípio, proibido, seja na mesquita ou em qualquer outro lugar. Contudo, torna-se permitido em caso de necessidade inevitável. Quando houver extrema necessidade, pode-se mendigar dentro da mesquita, desde que isso seja possível sem causar incômodo a ninguém — como passar por cima dos pescoços dos fiéis, apresentar informações falsas ou falar em voz alta de maneira perturbadora para as pessoas. Por exemplo, se o pregador estiver proferindo um sermão e os fiéis estiverem ouvindo e adquirindo conhecimento, sem que o pedido de esmola cause qualquer interrupção, então mendigar será permitido.

13. Elevar a voz na mesquita

É proibido elevar a voz na mesquita; até mesmo recitar o Alcorão em voz alta é proibido quando isso incomoda os que estão orando. A exceção é o estudo do conhecimento islâmico.

Foi narrado por Ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — que, certo dia, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — saiu ao encontro das pessoas. Naquele momento, elas estavam orando e recitando o Alcorão em voz alta. Então o Mensageiro de Allah disse: “Aquele que ora conversa com seu Senhor. Portanto, deve refletir sobre o que está dizendo. Nenhum de vós deve elevar a voz sobre a do outro.” — Ahmad. Abu Sa’id narrou que o Mensageiro de Allah fez retiro espiritual na mesquita. Ao ouvir os que oravam recitando o Alcorão em voz alta, abriu a cortina e disse: “Escutai! Todos vós estais conversando com vosso Senhor. Portanto, não prejudiqueis uns aos outros, e ninguém deve perturbar os demais recitando o Alcorão em voz alta.” — Abu Dawud, al-Nasa’i, al-Bayhaqi e al-Hakim.

14. Falar na mesquita

O Imam al-Nawawi disse: É permitido falar na mesquita sobre assuntos lícitos, sejam mundanos ou quaisquer outros assuntos lícitos. Mesmo que isso provoque risos ou seja de alguma forma recreativo, continua sendo permitido enquanto permanecer limitado a assuntos lícitos. Pois Jabir ibn Samura disse: “O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não deixava o lugar onde fazia a oração do fajr até o nascer do sol. Quando o sol nascia, ele se retirava. Durante esse período, as pessoas conversavam sobre vários assuntos; chegavam a falar até mesmo sobre questões da época da ignorância. Então elas riam, e o Mensageiro de Allah sorria.” — Muslim.

15. É permitido comer, beber e dormir na mesquita

Ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: Durante a época do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dormíamos na mesquita e, às vezes, ficávamos simplesmente deitados, rolando de um lado para o outro. Naquela época, porém, éramos jovens. O Imam al-Nawawi disse: Está comprovado que os habitantes de al-Suffa, os membros da tribo de Urayna, Safwan ibn Umayya e muitos dos Companheiros dormiam na Mesquita do Profeta. Antes de abraçar o Islam, Thumama costumava passar a noite na mesquita. Tudo isso ocorreu durante a vida do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Imam al-Shafi’i disse no livro al-Umm: Se um politeísta pôde dormir na mesquita, então um muçulmano também poderá. No livro chamado Mukhtasar, afirma-se: Um politeísta pode passar a noite em qualquer mesquita, exceto na Mesquita Sagrada. Abdullah ibn al-Harith disse: Durante a vida do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — sentávamo-nos na mesquita e comíamos carne e pão. — Ibn Majah.

16. Entrelaçar os dedos de uma mão com os dedos da outra

É makruh entrelaçar os dedos ao dirigir-se à mesquita para realizar a oração e enquanto se está sentado na mesquita aguardando a oração. Fora desses momentos, isso não é makruh — nem mesmo quando ocorre dentro da mesquita. É narrado de Ka’b que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: Quando algum de vós fizer a ablução corretamente e depois se dirigir à mesquita com a intenção de realizar a oração, não deve entrelaçar os dedos, pois, nesse momento, é considerado como estando em oração. — Ahmad, Abu Dawud e al-Tirmidhi. Abu Sa’id disse: Entrei na mesquita com o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e vi um homem sentado no centro da mesquita. Os dedos de suas mãos estavam entrelaçados, e seu corpo estava coberto por uma roupa. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — fez um sinal para o homem, mas ele não compreendeu o sinal. Então o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — olhou para ele e disse: Quando algum de vós estiver na mesquita, não deve entrelaçar os dedos, pois isso é obra de Satanás. Enquanto algum de vós permanecer na mesquita, estará em oração, até sair dela. — Ahmad.

17. Realizar a oração entre colunas

É permitido ao imame e à pessoa que ora sozinha realizar a oração entre colunas. Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Ibn Umar, que, quando o Mensageiro de Allah entrou na Caaba, realizou a oração entre duas colunas. Saíde ibn Jubair, Ibrahim al-Taimi e Suwaid ibn Ghafala costumavam liderar a oração de seus respectivos clãs entre as colunas. Quanto aos seguidores do imame, realizar a oração entre colunas é makruh quando a aglomeração é pequena, mas não é makruh quando a aglomeração é grande. Anas disse: “Éramos proibidos de realizar a oração entre colunas e éramos afastados dali.” — Al-Hakim. Muawiya disse: “Durante a época do Mensageiro de Allah, éramos proibidos de formar fileiras entre as colunas e éramos expulsos dali.” — Ibn Majah. Saíde ibn Mansur narrou que Ibn Masud, Ibn Abbas e Hudhaifa proibiam tal prática. Ibn Sayyidun-Nas disse: “Não se sabe que algum companheiro tenha discordado disso.”

18. Lugares onde é proibido realizar a oração

1. É proibido realizar a oração junto a um túmulo ou em um cemitério [A finalidade da proibição de tomar os túmulos como mesquitas é evitar o exagero na veneração dos mortos e o risco de cair no desvio].

Narrado por Aisha em Bukhari, Muslim, Ahmad e Nasa’i: o Mensageiro de Allah disse: “Que Allah amaldiçoe os judeus e os cristãos, pois eles transformaram os túmulos de seus profetas em mesquitas.” Ahmad e Muslim narraram, por intermédio de Abu Mursad, que o Mensageiro de Allah disse: “Não realizeis a oração voltados para os túmulos nem vos senteis sobre eles.” Jundub disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah dizer, cinco dias antes de sua morte: ‘Os que vos precederam tomaram os túmulos de seus profetas e dos virtuosos como mesquitas. Atenção! Não tomeis os túmulos como mesquitas. Eu vos proíbo de fazê-lo.’” Foi narrado por Aisha: Umm Salama informou ao Mensageiro de Allah que, quando estivera na Abissínia, vira uma igreja cristã chamada Maria. Ela mencionou as imagens que vira nela. O Mensageiro de Allah disse: “Eles são um povo que, quando um homem virtuoso entre eles morria, construía uma mesquita sobre seu túmulo e colocava nela aquelas imagens. Eles são as piores criaturas perante Allah.” — Bukhari, Muslim e Nasa’i [Há muitos hadiths categóricos e inequívocos que proíbem realizar a oração perto dos túmulos, quer se trate de um único túmulo ou de vários. Portanto, essa proibição é clara e explícita, e sua violação de modo algum é aceitável].

O Mensageiro de Allah também disse: “Que Allah amaldiçoe as mulheres que visitam os túmulos, aqueles que os transformam em mesquitas e aqueles que acendem lâmpadas neles.” Muitos estudiosos entenderam essa proibição no sentido de makruh. Isso se aplica tanto a realizar a oração com o cemitério à frente quanto atrás. Entretanto, segundo a escola Zahiri, o significado dessa proibição é haram, e a oração no cemitério é inválida. Se houver três túmulos ou mais, a posição da escola Hanbali também é a mesma. Quando há um ou dois túmulos, a oração é válida. Contudo, realizar a oração voltado para os túmulos é makruh; caso contrário, não é makruh.

2. É proibido realizar a oração nas casas de culto dos judeus e dos cristãos

Abu Musa al-Ashari e Umar ibn Abd al-Aziz realizaram a oração nas casas de culto dos cristãos.

Segundo al-Sha‘bi, ‘Ata e Ibn Sirin, não há nada de errado nisso. Bukhari disse: Ibn ‘Abbas costumava rezar nas sinagogas dos judeus. Contudo, não rezava em uma de suas sinagogas porque nela havia uma estátua. Informaram a ‘Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, a partir de Najran, que a sinagoga dos judeus dali era o lugar mais belo e limpo. ‘Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, respondeu: “Lavai-a com água e folhas de jujubeiro e depois rezai nela.” Segundo os hanafitas e os shafi‘itas, é makruh rezar nas sinagogas dos judeus e nas igrejas dos cristãos em qualquer circunstância.

3. É proibido rezar em lixões, matadouros, locais movimentados das estradas, estábulos, banheiros e sobre o teto da Caaba

Relatou-se de Ibn ‘Umar, que Deus esteja satisfeito com ele: o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, proibiu rezar em sete lugares: no lixão, no matadouro, no cemitério, em locais movimentados das estradas, no banheiro, no abrigo dos camelos e sobre o teto da Caaba. — Ibn Majah, ‘Abd ibn Humayd e Tirmidhi.

A razão pela qual é proibido rezar no lixão e no matadouro é que esses dois lugares geralmente são sujos. Por isso, é proibido rezar sem estar protegido por uma barreira. Se houver uma barreira, a oração é makruh segundo a maioria, e haram segundo Ahmad e os zahiritas. A razão pela qual é proibido rezar no abrigo dos camelos é que eles foram criados dos jinn. Alguns mencionam outras razões. A regra sobre rezar no abrigo dos camelos é como a regra sobre rezar no lixão e no matadouro. A razão pela qual é proibido rezar em locais movimentados das estradas é que normalmente há muita aglomeração e circulação, além de muito barulho que distrai. A razão pela qual é proibido rezar sobre o teto da Caaba é que quem reza sobre o teto reza acima da Caaba, e não voltado para ela, o que é contrário ao que se pretende. Por isso, muitos consideram inválida a oração sobre o teto da Caaba. Já na escola hanafita, isso é permitido. Contudo, é makruh, por não demonstrar respeito pela Caaba. A razão pela qual é proibido rezar no banheiro é que ele é um lugar de impureza. Porém, quando não há impureza, é permitido, mas makruh, segundo a maioria dos eruditos. Segundo o imam Ahmad e a escola zahirita, rezar no banheiro é absolutamente inválido.

19. A oração no interior da Caaba

A oração no interior da Caaba é válida e permitida, seja obrigatória ou voluntária.

Ibn ‘Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, entrou na Caaba com Usama, Bilal e ‘Uthman ibn Talha, e fechou a porta. Quando abriram a porta, fui o primeiro a entrar. Ao encontrar Bilal, perguntei-lhe: “O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, rezou lá dentro?” Bilal respondeu: “Sim, entre as duas colunas iemenitas.” — Ahmad, Bukhari e Muslim.

20. Sutra, ou barreira diante de quem reza

1. A regra sobre colocar uma sutrah

É recomendável que o fiel coloque diante de si uma sutrah que possa impedir alguém de passar à sua frente e impedir que seu olhar alcance aquilo que se encontra além dela. Abu Saʿid (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Quando algum de vós rezar, que coloque algo diante de si como sutrah e se aproxime dela.” — Abu Dawud, Ibn Majah. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando o Mensageiro de Allah saía para a oração no dia do Eid, ordenava que sua lança fosse colocada diante dele. Rezava voltado para ela. As pessoas ficavam atrás dele. Ele também fazia isso durante as viagens, e os comandantes e governantes seguiram essa prática.” — Bukhari, Muslim, Abu Dawud. Segundo os hanafitas e os maliquitas, a sutrah é recomendável quando houver possibilidade de pessoas passarem à frente; caso contrário, não é recomendável. Isso porque Ibn Abbas disse: “O Mensageiro de Allah rezou em um espaço aberto, sem haver nada diante dele.” — Ahmad, Abu Dawud, Bayhaqi.

2. Com que se efetiva a sutrah

Qualquer coisa que o fiel coloque diante de si como barreira servirá como sutrah, mesmo que seja a extremidade de seu leito.

Foi narrado por Sabrah ibn Maʿbad que o Mensageiro de Allah disse: “Quando algum de vós rezar, deve colocar uma barreira diante de si, ainda que seja com uma flecha.” — Ahmad, Hakim. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Quando algum de vós rezar, deve colocar algo diante de si. Se não encontrar nada, deve colocar um bastão. Se não tiver um bastão, deve traçar uma linha. Depois disso, não haverá prejuízo se alguém passar à sua frente.” — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Hibban. Também foi narrado por Abu Hurayrah que o Mensageiro de Allah rezou protegido pela coluna de sua mesquita. Rezou protegido por uma árvore. Também rezou tendo diante de si o leito sobre o qual Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) estava deitada. (Isso mostra que é permitido rezar tendo uma pessoa adormecida à frente. Alguns disseram ser proibido rezar tendo à frente uma pessoa adormecida ou alguém que esteja conversando, mas essa opinião não é correta.) O Mensageiro de Allah também rezou tendo diante de si sua camela e a peça de madeira situada na parte traseira dela. Talhah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Nós rezávamos enquanto animais passavam à nossa frente. Quando isso foi comunicado ao Mensageiro de Allah, ele disse: ‘Se a peça de madeira que fica na parte traseira do camelo estiver diante daquele que reza, não haverá prejuízo, seja o que for que passe à sua frente.’” — Ahmad, Muslim, Abu Dawud, Ibn Majah, Tirmidhi.

3. A sutrah do imame é a sutrah dos seguidores

A barreira colocada diante do imame é suficiente também para os seguidores. O avô de Amr ibn Shuʿayb disse: “Quando descemos com o Mensageiro de Allah pela estrada montanhosa de Azakhir, nos arredores de Meca, chegou o horário da oração. Ele rezou tendo uma parede diante de si, e nós nos posicionamos atrás dele para rezar. De repente, chegou um cabrito e começou a passar diante dele. O Mensageiro de Allah avançou para impedi-lo, até que seu ventre tocou a parede; então o cabrito passou por trás dele.” — Ahmad, Abu Dawud. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Fui a Mina montado no dorso de uma jumenta, quando estava próximo da puberdade. O Mensageiro de Allah estava conduzindo a oração em Mina. Passei diante de parte da fileira; depois deixei a jumenta pastando e entrei na fileira, e ninguém reprovou isso.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith. Esses hadiths provam que é permitido passar diante dos seguidores durante a oração. Somente o imame e aquele que reza sozinho precisam de uma barreira.

4. Deve-se permanecer próximo da sutrah

Al-Baghawi disse: os estudiosos consideram recomendável permanecer tão próximo da barreira que haja espaço suficiente para prostrar-se. Da mesma forma, deve haver entre as fileiras um espaço equivalente ao necessário para a prostração. Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezava deixando entre si e a parede uma distância de três côvados. — Ahmad, an-Nasa’i e al-Bukhari. Sahl disse: entre o local onde o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezava e a parede havia espaço suficiente para a passagem de uma cabra. — al-Bukhari e Muslim.

5. É proibido passar entre o orante e sua sutra

Está comprovado pelos hadith mencionados que passar entre o orante e sua barreira é proibido e constitui um pecado grave. Além disso, foi narrado por Busr ibn Sa’id que Zayd ibn Khalid enviou alguém a Abu Juhaim para perguntar-lhe o que ele havia ouvido do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sobre aquele que passa diante do orante. Abu Juhaim informou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: se aquele que passa soubesse qual seria o seu castigo, seria melhor para ele permanecer de pé durante quarenta do que passar. — Todas as coletâneas de hadith autênticos.

(O narrador de Busr, Arun Nastr, disse: não me lembro se ele disse quarenta dias, meses ou anos. Em Fath al-Bari foi dito: o sentido aparente do hadith prova que passar diante do orante é totalmente proibido. Mesmo que não haja outro caminho, deve-se permanecer de pé até que o orante termine sua oração. O significado do hadith é que, se aquele que passa soubesse quantos pecados há em passar diante do orante, permaneceria de pé durante o período mencionado para evitar esse pecado.)

Foi narrado por Zayd ibn Khalid que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: se aquele que passa diante do orante soubesse quão grande pecado comete ao fazer isso, seria melhor para ele permanecer de pé durante quarenta outonos — isto é, quarenta anos — do que passar diante dele. — Al-Bazzar. Ibn al-Qayyim disse: a proibição mencionada no hadith aplica-se somente quando o orante reza colocando uma barreira diante de si. Se ele reza sem colocar uma barreira, não é proibido passar diante dele. Ibn Hibban, apoiando essa opinião, narrou de al-Muttalib ibn Abi Wada’ah. Al-Muttalib disse: vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), depois de terminar a circunvolução, dirigir-se ao lado do mataf — o pátio da circunvolução — e rezar duas rak’ahs. Naquele momento, não havia ninguém entre ele e os que faziam a circunvolução. Abu Hatim disse: este hadith prova que, quando o orante reza sem colocar uma barreira diante de si, é permitido passar diante dele. Há neste hadith uma prova clara de que a severa punição anunciada para aquele que passa diante do orante aplica-se somente àquele que passa diante de quem reza colocando uma barreira diante de si. Ela não se aplica a quem passa diante de um orante que reza sem barreira. Abu Hatim disse: foi mencionado no relato que, durante essa oração, não havia nenhuma barreira entre o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e os que faziam a circunvolução. Em seguida, citou o hadith de al-Muttalib: vi o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rezando alinhado com o Rukn al-Aswad, enquanto homens e mulheres passavam diante dele, sem haver nenhuma barreira entre eles e o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Em Rawdat foi dito: se alguém reza sem colocar diante de si uma sutra ou barreira, ou se há uma barreira, mas o orante se afastou dela, a opinião correta é que, como o orante foi negligente e não tomou nenhuma medida para impedir quem passasse, não é proibido passar diante dele. Ainda assim, é melhor evitar passar.

6. É permitido impedir quem tenta passar diante do orante

Quando o orante coloca uma barreira diante de si e uma pessoa ou outro animal tenta passar à sua frente, é permitido que ele o impeça. Porém, se a passagem ocorrer além da barreira, não é permitido impedi-la, pois essa passagem não causará dano a ninguém.

Humayd ibn Hilal disse: enquanto eu e um companheiro meu discutíamos um hadith, Abu Salih as-Samman disse: vou contar-lhe o que ouvi de Abu Sa’id e o que o vi fazer. Certa vez, eu estava rezando a oração de sexta-feira com Abu Sa’id al-Khudri, colocando uma barreira diante de nós. Então, um jovem da tribo de Banu Abu Mu’ayt entrou na mesquita e tentou passar diante de Abu Sa’id. Ele colocou a mão sobre o peito do jovem e o impediu. Depois, o jovem olhou e viu que não havia outro caminho, exceto passar diante de Abu Sa’id. Por isso, tentou passar novamente. Abu Sa’id o impediu, segurando-lhe o peito com mais força do que antes. Então o jovem permaneceu de pé e censurou Abu Sa’id. Em seguida, muitas pessoas se reuniram ali. Depois, o jovem foi até Marwan e apresentou uma queixa sobre o ocorrido. Abu Sa’id também foi até Marwan. Marwan disse: o que aconteceu entre você e seu sobrinho? Ele veio apresentar uma queixa contra você. Abu Sa’id disse: ouvi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizer: quando um de vocês se coloca para rezar colocando uma barreira diante de si e alguém tenta passar diante dele, deve impedi-lo, pois ele não é senão um demônio. — al-Bukhari e Muslim.

7. Nada invalida a oração

Ali, Uthman, Sa’id ibn al-Musayyab, Sha’bi, Malik, Shafi’i, Sufyan al-Thawri e os hanafitas disseram: nada invalida a oração. Abu Dawud narrou, por intermédio de Abu al-Waddak, que um jovem dos coraixitas passava diante de Abu Sa’id, que estava orando. Ele o impediu. O jovem tentou passar novamente, e ele tornou a impedi-lo. Tentou passar outra vez, e ele novamente o impediu. Depois de fazer isso três vezes, quando o jovem foi embora, Abu Sa’id disse: nada invalida a oração. O Mensageiro de Allah disse: «Impeçam, tanto quanto puderem, aquele que passa diante de quem está orando, pois ele é um demônio.»

21. Atos permitidos durante a oração

É permitido realizar os seguintes atos durante a oração:

1. Chorar, soluçar, emitir sons de dor e gemer

Esses atos são permitidos durante a oração, quer sejam motivados pelo temor de Allah ou por outra razão, como diversas calamidades e aflições, ou dor e sofrimento físico. Contudo, só são permitidos enquanto dominarem a pessoa e ela não tiver capacidade de contê-los. Pois Allah disse: «Quando os versículos de Allah lhes são recitados, eles caem prostrados, chorando.» Este versículo abrange tanto as pessoas que estão orando quanto as que não estão.

Abdullah ibn Shukhayr disse: «Vi o Mensageiro de Allah em tal estado que se ouvia, em seu peito, o som do choro causado pelo temor de Allah, semelhante ao borbulhar da água fervendo numa panela.» — Ahmad, Abu Dawud, al-Nasa’i e al-Tirmidhi. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «No dia de Badr, entre nós, não havia nenhum cavaleiro além de Miqdad ibn Aswad. Observei a nossa situação: além do Mensageiro de Allah, nenhum de nós passava a noite em oração. Ele permaneceu de pé sob uma árvore, orando e chorando durante toda a noite. Continuou assim até amanhecer.» — Ibn Hibban. Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que, durante a doença da qual o Mensageiro de Allah faleceu, ele disse: «Ordena a Abu Bakr que conduza a oração.» Aisha disse: «Ó Mensageiro de Allah, Abu Bakr é um homem de coração sensível; não consegue conter as lágrimas e chora quando recita o Alcorão.» Aisha disse: «Só falei isso para que as pessoas não considerassem Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, um mau presságio e não passassem a evitá-lo como evitam o pecado. Como ele seria o primeiro a suceder o Mensageiro de Allah na liderança da oração, isso poderia provocar nas pessoas uma reação negativa desse tipo contra ele.» O Mensageiro de Allah disse: «Ordena a Abu Bakr que conduza a oração. Vós, mulheres, sois como as companheiras de José» [isto é, a senhora da casa em que José, que a paz esteja com ele, foi criado revelou algo contrário ao que guardava no coração; Aisha fez o mesmo. Embora aquela mulher tivesse convidado as outras mulheres, apresentando o convite como um banquete, sua verdadeira intenção era mostrar-lhes a beleza de José, para que considerassem justificável sua fraqueza por ele. Da mesma forma, Aisha apresentava como motivo para impedir que seu pai conduzisse a oração o fato de ele ser sensível e de os orantes não conseguirem ouvir sua recitação por causa do choro; mas o verdadeiro motivo era que as pessoas não o considerassem azarado ou um mau presságio.] — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Hibban e al-Tirmidhi.

O fato de o Mensageiro de Allah ter permanecido firme em ordenar que Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, conduzisse a oração, mesmo sabendo que ele chorava sempre que recitava o Alcorão, prova que é permitido a uma pessoa assim conduzir a oração e orar acompanhada desse tipo de choro.

Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, recitava a surata Yusuf na oração do fajr. Quando chegou a este versículo: «Só exponho a Allah a minha angústia e a minha tristeza», ouviu-se o som do seu choro. —Bukhari. O choro de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, demonstra a inconsistência da afirmação daqueles que dizem que, se alguém chorar durante a oração, seja por temor a Allah ou por qualquer outra razão, a oração se torna inválida caso pronuncie sequer duas palavras enquanto chora. Não é possível aceitar o argumento deles de que, mesmo pronunciando duas palavras enquanto chora, isso constitui uma frase. Pois o choro é uma coisa, e a frase é outra.

2. Olhar para os lados, mantendo o pescoço reto, quando necessário

Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, olhava para a direita e para a esquerda durante a oração, mas não virava o pescoço para trás. —Ahmad. Abu Dawud narrou que, enquanto o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezava, ele olhava na direção da passagem montanhosa. —Abu Dawud disse: Ele havia enviado um cavaleiro para vigiar a passagem montanhosa durante a noite. Anas ibn Sirin disse: Vi Anas ibn Malik olhar para algo durante a oração. —Ahmad. Contudo, olhar para os lados sem necessidade é makruh tanzihi, pois isso prejudica a atenção e a concentração em Allah.

Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela; ela disse: Perguntei ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre olhar para os lados durante a oração. Ele respondeu: «Isso é uma artimanha de Satanás para subtrair uma parte da oração do servo». —Ahmad, Bukhari, Nasai e Abu Dawud. Abu ad-Darda narrou, do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: «Ó gente, abstende-vos de olhar para os lados durante a oração, pois olhar para os lados não faz parte da oração da pessoa. Se não conseguirdes controlar-vos nas orações voluntárias, então de modo algum vos descontroleis nas orações obrigatórias». —Ahmad. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse-me: «Cuidado! Não olhes para os lados durante a oração, pois olhar para os lados é uma ação destrutiva. Se for absolutamente inevitável, isso pode ser tolerado na oração voluntária, mas não na obrigatória». —Tirmidhi. No hadith narrado por Harith al-Ashari, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Allah, o Altíssimo, ordenou cinco coisas a Yahya, filho de Zakariya, que a paz esteja sobre ele, para que ele próprio as praticasse e ordenasse aos Filhos de Israel que também as praticassem. Uma delas foi: Allah ordenou-vos que realizásseis a oração. Quando realizardes a oração, não olheis para os lados, pois, enquanto o servo não olhar para os lados, Allah mantém o Seu olhar concentrado no rosto do servo». —Ahmad e Nasai. Foi narrado por Abu Dharr, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Enquanto o servo não olhar para outro lado durante a oração, Allah continua a olhar para ele. Quando o servo olha para outro lado, Ele imediatamente desvia o Seu olhar». —Ahmad e Abu Dawud.

Tudo isso se refere apenas a virar o rosto. Porém, virar todo o corpo e afastá-lo da qibla invalida a oração por consenso, pois com isso se viola a obrigação de estar voltado para a qibla.

3. Matar animais nocivos, como serpentes, escorpiões e semelhantes

Isso é permitido, embora envolva amal kathir, isto é, uma quantidade excessiva de movimentos. Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Matai a serpente e o escorpião, mesmo que os encontreis durante a oração». —Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasai e Ibn Majah.

4. Caminhar um pouco por necessidade

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava rezando em casa, e a porta estava fechada. Nesse momento, cheguei e pedi que abrisse a porta. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, caminhou um pouco, abriu a porta para mim e depois voltou ao lugar onde rezava. Durante isso, seu rosto não se desviou da qibla. — Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i e at-Tirmidhi.

Isto é, ao caminhar para abrir a porta e ao retornar depois de abri-la, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não desviou o rosto da qibla. Um hadith de ad-Daraqutni corrobora isso. Ele diz que, quando alguém pedia ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que abrisse a porta enquanto ele rezava, se a porta estivesse voltada para a qibla, à direita ou à esquerda, ele a abria sem desviar o rosto da qibla. Azraq ibn Qays disse: Abu Barza al-Aslami estava à margem de um rio, na cidade de Ahwaz, no Iraque. Começou a rezar segurando as rédeas com a mão. O animal de montaria começou a voltar, e ele passou a acompanhar seu movimento, prolongando a oração. Ao ver isso, um homem pertencente ao grupo kharijita disse: “Ó Allah, humilha este velho! Como ele está rezando?” Depois da oração, Abu Barza disse: “Ouvi o que disseste. Participei de seis, sete ou oito batalhas com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Naquela época, vi como ele administrava todas as coisas e como as tornava fáceis. Para mim, era mais fácil acompanhar o movimento do meu animal do que abandoná-lo, pois, se eu o abandonasse, ele retornaria ao lugar que conhecia, e isso me causaria dificuldade.” Como Abu Barza estava viajando, rezou a oração do ‘Asr com duas rak‘ahs. — Ahmad, al-Bukhari e al-Bayhaqi. Quanto a caminhar uma longa distância, Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: Os juristas estão de acordo que caminhar muito durante uma oração obrigatória invalida a oração. Portanto, é possível interpretar o hadith de Abu Barza como significando que ele caminhou apenas uma pequena distância.

5. Carregar uma criança

Abu Qatada, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezava carregando sobre os ombros Umama, a filha de sua filha Zaynab. Quando se inclinava para o rukū‘, colocava a criança no chão; depois, quando se levantava da prostração, tornava a colocá-la sobre os ombros. Embora eu não tivesse perguntado nada, ‘Amir disse: “Qual oração era aquela?” Ibn Juwayj disse: “Soube que era a oração do fajr.” — Ahmad e an-Nasa’i. ‘Abdullah ibn Ahmad ibn Hanbal disse que este é um bom hadith. Al-Fakihani disse: A razão pela qual o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezava carregando Umama sobre os ombros foi, provavelmente, que ele queria combater a atitude tradicional dos árabes de hostilidade às mulheres. Por isso, até mesmo durante a oração, ao carregar a menina sobre os ombros, tentou refutar de maneira ainda mais enfática os costumes e tradições que eles mantinham. Como os atos são mais eloquentes que as palavras, ele demonstrou por meio de sua prática quanto o Islam é compassivo para com as mulheres.

‘Abdullah ibn Shaddad disse: Certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu diante de nós para conduzir a oração do zuhr ou do ‘asr. Ele carregava al-Hasan ou al-Husayn. Pouco antes de chegar à frente e iniciar a oração como imam, colocou a criança no chão. Em seguida, pronunciou Allahu akbar para iniciar a oração. Durante a oração, fez uma prostração muito longa. ‘Abdullah disse: Levantei a cabeça da prostração e vi a criança montada sobre as costas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enquanto ele permanecia prostrado. Ao ver aquilo, voltei a prostrar-me. Depois da oração, as pessoas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, prolongaste tanto a prostração que fizeste durante a oração que pensamos que algo te havia acontecido ou que tinhas recebido uma revelação.” Ele respondeu: “Nenhuma dessas coisas aconteceu. Na verdade, o menino — isto é, meu neto — subiu sobre mim, e não quis apressá-lo a descer até que satisfizesse sua vontade.” — Ahmad, an-Nasa’i e al-Hakim.

O Imam an-Nawawi disse: Este hadith demonstra, para a escola Shafi‘i e seus seguidores, que é permitido carregar, durante as orações obrigatórias e voluntárias, uma criança do sexo masculino ou feminino, ou qualquer outro animal puro, e que isso é permitido tanto ao imam quanto ao ma’mum. Contudo, o Imam Malik e seus discípulos opinaram que isso se aplica somente às orações voluntárias e é proibido nas obrigatórias. Essa interpretação do hadith, porém, não é válida, pois ficou claro neste hadith que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava conduzindo a oração e que o fato ocorreu durante uma oração obrigatória. Além disso, uma narração anterior informa que isso ocorreu na oração do fajr. An-Nawawi disse: Alguns maliquitas afirmam que essa prática foi ab-rogada. Outros dizem que era específica do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Outros ainda opinam que ocorreu devido a uma necessidade inevitável. Todas essas alegações são falsas e rejeitadas, pois não há prova alguma em seu favor, nem necessidade de aceitá-las. Ao contrário, o hadith é autêntico e demonstra inequivocamente a legitimidade dessa prática, que não contradiz nenhum princípio da Sharia. O ser humano é puro, e tudo o que estiver em seu ventre é perdoável, pois se encontra em seu estômago. As roupas da criança também são consideradas puras. As provas da Sharia deixam claro que as ações realizadas durante a oração, quando são poucas ou ocasionais, não a invalidam. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, praticou isso precisamente para demonstrar sua legitimidade. Este hadith também refuta a alegação do Imam al-Khattabi de que a prática do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, teria sido involuntária, pois ele carregou a criança durante a oração simplesmente porque ela estava agarrada a ele. Ele não a levantou; quando se pôs de pé para a oração, ela já estava com ele. Al-Khattabi disse: Não se pode imaginar que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tenha carregado Umama voluntariamente uma segunda vez, pois isso seria uma ação adicional que desviaria a atenção. Essa é a afirmação de al-Khattabi, mas ela é inaceitável e desprovida de fundamento. As palavras de Sahih Muslim — “quando se levantou, carregou Umama” e “quando se levantou da prostração, carregou novamente Umama” — bem como a narração de outros transmissores além de Muslim — “ele veio até nós carregando Umama e conduziu-nos na oração” — refutam a afirmação de al-Khattabi. Não conhecemos fundamento para a alegação de que carregar Umama desviaria a atenção durante a oração. E, mesmo que desviasse um pouco a atenção, isso também trazia muitos benefícios e permitiu conhecer alguns princípios da Sharia, como já mencionamos. Portanto, pode-se dizer que foi por causa desses benefícios que ocorreu essa distração [se a criança não fosse carregada ou não fosse colocada novamente sobre os ombros, poderia chorar ou fazer alvoroço, o que causaria uma distração ainda maior durante a oração].

Assim, está comprovado de forma incontestável e irrefutável que o hadith é apropriado e significativo precisamente para demonstrar a legitimidade dessa prática e chamar a atenção para esses benefícios. Portanto, essa prática é permitida para nós e constitui uma norma válida para os muçulmanos até o Dia da Ressurreição.

6. Transmitir ao orante uma saudação ou alguma mensagem em nome de outra pessoa e responder por gestos àquele que saúda ou se dirige a ele. Foi narrado por Jابر ibn Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele: quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partia para a expedição contra os Banu al-Mustaliq, enviou-me uma mensagem. Fui até ele, e ele estava rezando montado em seu camelo. Falei com ele, e ele respondeu com um gesto da mão. Tornei a falar, e ele novamente respondeu com um gesto da mão. Eu ouvia sua recitação do Alcorão, e ele fazia sinais com a cabeça. Quando terminou a oração, disse: “O que fizeste quanto àquilo por causa do qual te enviei a mensagem?” Respondi: “Eu estava rezando e, por isso, não pude responder ao que disseste.” — Ahmad e Muslim. Suhaib, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava rezando. Eu passei diante dele e o saudei. Ele respondeu por meio de um gesto. Ele disse que apenas fez um sinal com o dedo.” — Ahmad e al-Tirmidhi. Suhaib também disse: “Perguntei a Bilal: ‘Como o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondia quando as pessoas o saudavam enquanto ele estava rezando?’ Bilal respondeu: ‘Fazia um gesto com a mão.’” — Ahmad, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia gestos durante a oração.” — Ahmad, Abu Dawud e Ibn Khuzaymah. Nesse caso, fazer um gesto com o dedo, com a mão inteira ou com a cabeça é igualmente válido, e todos esses modos foram narrados do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

7. Dizer “Subhanallah” e bater palmas

Quando surgir alguma necessidade especial durante a oração, quando o imame cometer um erro e for preciso alertá-lo, orientar um cego pelo caminho correto, dar permissão a alguém que entra ou em situações semelhantes, é permitido aos homens dizer “Subhanallah” e às mulheres bater palmas. Foi narrado por Sahl ibn Sa‘d al-Sa‘idi que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando algo acontecer a alguém durante a oração, que diga ‘Subhanallah’. Bater palmas é próprio das mulheres, e dizer ‘Subhanallah’ é próprio dos homens.” — Ahmad, Abu Dawud e al-Nasa’i.

8. Corrigir o erro do imame

Quando o imame esquecer algum versículo, o seguidor deverá corrigi-lo e fazê-lo lembrar-se do versículo esquecido, tenha ele recitado ou não a quantidade indispensável da recitação. Foi narrado por Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: certo dia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou em dúvida durante a recitação da oração. Depois da oração, disse ao meu pai: “Estavas presente conosco na congregação?” Ele respondeu: “Sim.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Então, por que não me corrigiste?” — Abu Dawud e outros.

9. Dizer “Alhamdulillah” ao espirrar ou ao receber uma bênção [É recomendável conter o bocejo. Foi narrado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, em al-Bukhari, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando algum de vós bocejar durante a oração, que o contenha tanto quanto puder e não diga ‘ah’, pois isso é obra de Satanás; ele ri ao ver isso.]”

Foi narrado por Rifa‘ah ibn Rafi‘, que Allah esteja satisfeito com ele, que disse: “Rezei atrás do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; de repente, espirrei e disse: ‘Alhamdulillah hamdan kathiran tayyiban mubarakan fihi kama yuhibbu Rabbuna wa yardha’.” Quando terminou a oração, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “Quem falou durante a oração?” Ninguém respondeu. Perguntou novamente, mas ainda ninguém respondeu. Na terceira vez, Rifa‘ah disse: “Ó Mensageiro de Allah, fui eu.” Ele disse: “Juro por Allah: mais de trinta anjos competiram entre si para ver qual deles levaria esta súplica para o alto.” — al-Nasa’i, al-Tirmidhi e al-Bukhari.

10. Prostrar-se sobre o próprio turbante ou vestimenta por causa de uma justificativa

Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele: o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezou usando uma única peça de tecido e protegeu-se do frio e do calor do chão com a parte excedente dela. —Ahmad. Contudo, fazer isso sem uma justificativa é makruh.

11. Outras ações permitidas na oração

Ibn al-Qayyim apresentou um breve relato de algumas ações permitidas que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizava durante a oração. Ele disse: o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezava enquanto Aisha permanecia deitada, estendendo-se transversalmente entre ele e a qibla. Quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ia para a prostração, tocava-a com a mão, e então Aisha recolhia as pernas. Quando ele se levantava novamente, Aisha estendia as pernas. Às vezes, enquanto ele rezava, Satanás vinha e tentava interromper sua oração. Então o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, agarrava-o e apertava-lhe o pescoço, de modo que a saliva de Satanás ficava em sua mão. Ele rezava sobre o púlpito. (Seu púlpito tinha três degraus. Ele rezava sobre o púlpito para que as pessoas pudessem vê-lo por trás e aprender a oração com ele.) Também fazia a inclinação sobre o púlpito. Quando chegava o momento da prostração, descia, recuava e prostrava-se no chão. Depois subia novamente ao púlpito. Ele rezava tendo uma parede à sua frente. Quando algum animal estava prestes a passar diante dele durante a oração, aproximava-se da parede e tentava impedi-lo. Chegava até seu ventre tocar a parede, e o animal passava por trás dele. Certa vez, enquanto rezava, duas escravas dos Banu Abd al-Muttalib chegaram até ele brigando. Ele segurou as duas com as mãos e separou uma da outra, embora continuasse rezando. A versão transmitida por Ahmad é a seguinte: as duas escravas sentaram-se segurando os joelhos do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele separou as duas, mas não se virou. (Isto é, não virou o corpo para longe da qibla.) Em outra ocasião, enquanto rezava, um jovem tentou passar à sua frente. Ele ordenou-lhe, por meio de um gesto com a mão, que voltasse, e ele voltou. Em outra ocasião, uma escrava passava diante dele durante a oração. Ele fez-lhe um gesto com a mão, pedindo que voltasse. Mesmo assim, ela passou à sua frente. Depois da oração, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Ahmad. Ele soprava durante a oração; em seu Sunan, Ibn Abbas relata que ele chorava durante a oração e tossia. Disse: “As mulheres são mais insolentes por natureza.” Contudo, este hadith não tem fundamento. Sa’id narrou o hadith. Ele também narrou: dava.

Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Eu tinha um horário determinado para visitar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando chegava, pedia-lhe permissão para entrar. Se ele estivesse rezando, limpava a garganta, e eu entrava. Se o encontrasse livre, ele me dava permissão. —an-Nasa’i, Ahmad. A versão transmitida por Ahmad é: Eu tinha um horário para visitar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, durante o dia e a noite. Quando eu chegava, se ele estivesse rezando, limpava a garganta. O Imam Ahmad narrou este hadith e também agia de acordo com ele. Ele limpava a garganta durante a oração e não considerava isso algo que a invalidasse. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, às vezes rezava descalço e às vezes usando calçados. Abdullah ibn Umar disse: Para contrariar os judeus, ele ordenou que se rezasse usando calçados. Às vezes rezava usando uma peça de tecido e, outras vezes, duas. Na maior parte do tempo, rezava usando duas peças.

12. Recitar o Alcorão Sagrado olhando para ele

Malik narrou que Zakwan, o liberto de Aisha, dirigia a oração durante o Ramadã recitando o Alcorão Sagrado enquanto olhava para ele. Esta é a opinião da escola shafi’ita. O Imam an-Nawawi disse: Mesmo que, ocasionalmente, se virem as páginas do Alcorão durante a oração, a oração não será invalidada. E, se alguém olhar para algum texto que não seja o Alcorão e o recitar mentalmente, a oração não será invalidada, por mais extenso que seja. Contudo, isso será makruh. O Imam ash-Shafi’i afirmou isso em sua obra al-Imla.

13. Concentrar-se em algo diferente da oração

Foi narrado por Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Quando se faz o chamado para a oração, Satanás foge soltando gases, para não ouvir o chamado. Quando o chamado termina, ele retorna. Quando se faz a iqama da oração, ele foge novamente. Quando a iqama termina, ele retorna e perturba a concentração da pessoa. Diz-lhe: “Lembra-te de tal e tal coisa.” Quando a pessoa não se lembra daquela coisa, ele a faz esquecer quantas rak’ahs rezou. Se algum de vós não souber se rezou três ou quatro rak’ahs, que faça duas prostrações enquanto estiver sentado. —Bukhari e Muslim. Bukhari disse: Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, afirma: Eu preparo meu exército enquanto estou em oração.

Embora a oração seja válida nessa condição, o orante deve manter o coração concentrado em Allah. Deve afastar da mente todos os pensamentos mundanos, refletindo sobre o significado dos versículos e esforçando-se para compreender o significado e a sabedoria de cada ato da oração. Pois, no registro das obras, só é escrito da oração aquilo que é recitado com compreensão.

Foi narrado por Ammar ibn Yassir, em Abu Dawud, an-Nasa’i e Ibn Hibban: Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: “As pessoas terminam a oração e vão embora, mas, para algumas, apenas um décimo da oração é registrado; para outras, um nono; para outras, um oitavo; para outras, um sétimo; para outras, um sexto; para outras, um quinto; para outras, um quarto; para outras, um terço; e, para outras, apenas a metade.” Al-Bazzar narra, por intermédio de Ibn Abbas, que o Mensageiro de Allah disse: “Allah diz: Só aceito a oração daquele que, por meio dela, se humilha diante da Minha grandeza e supremacia; que não demonstra arrogância nem altivez diante das criaturas; que não persiste na desobediência a Mim; que passa o dia lembrando-se de Mim; e que demonstra compaixão pelos pobres, pelos viajantes, pelas viúvas e pelos necessitados. A luz de tal servo é como os raios do sol. Eu o protejo com Meu poder e ordeno aos Meus anjos que o protejam. Dou-lhe luz na escuridão e paciência na ignorância. Entre as Minhas criaturas, ele é como o Firdaus entre os jardins do Paraíso.” Abu Dawud narra, por intermédio de Zayd ibn Khalid, que o Mensageiro de Allah disse: “Quem realiza a ablução adequadamente e reza duas unidades de oração com perfeição terá todos os pecados anteriores perdoados.” Muslim narra, por intermédio de Uthman ibn Abi al-As: Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, Satanás interfere na minha oração e causa confusão na minha recitação do Alcorão.” O Mensageiro de Allah disse: “Esse é um demônio chamado Khanzab. Quando perceberes a sua presença, busca refúgio em Allah contra ele e cospe levemente três vezes à tua esquerda.” Uthman disse: Fiz isso, e Allah afastou Satanás de mim. Abu Hurayra narra que o Mensageiro de Allah disse: “Allah diz: Dividi a oração — isto é, a surata al-Fatiha — igualmente entre Mim e Meu servo. Meu servo receberá aquilo que pedir. Quando ele diz: Alhamdu lillahi rabbil alamin, Allah diz: ‘Meu servo louvou-Me.’ Quando diz: Ar-Rahmanir-Rahim, Allah diz: ‘Meu servo exaltou-Me.’ Quando diz: Maliki yaumid-din, Allah diz: ‘Meu servo glorificou a Minha grandeza e submeteu-se a Mim.’ Quando diz: Iyyaka na’budu wa iyyaka nasta’in, Allah diz: ‘Isto é dividido entre Mim e Meu servo; e Meu servo receberá aquilo que pedir.’ Quando diz: Ihdinas-siratal-mustaqim, siratal-ladhina an’amta alayhim, ghayril-maghdubi alayhim wa lad-dallin, Allah diz: ‘Isto é reservado para Meu servo, e Meu servo receberá também aquilo que pedir além disso.’”

22. Atos censuráveis durante a oração

É censurável abandonar qualquer uma das sunnas mencionadas anteriormente. Além disso, também são censuráveis os atos a seguir.

1. Brincar, sem necessidade, com a própria roupa ou com o próprio corpo

Muaikib disse: Perguntei ao Mensageiro de Allah se era permitido tocar com a mão as pedrinhas durante a oração. Ele respondeu: “Não toques nas pedrinhas enquanto estiveres rezando. Se absolutamente precisares fazê-lo, toca apenas uma vez, para nivelá-las.” — Todas as coletâneas de hadith autênticos. Abu Dharr narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Quando qualquer um de vós se põe de pé para a oração, a misericórdia de Allah desce sobre ele. Portanto, não é apropriado mexer nas pedrinhas.” — Ahmad, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah. Foi narrado por Umm Salama que o Mensageiro de Allah viu seu servo chamado Yassar soprar durante a oração. Disse-lhe: “Que Allah refresque o teu rosto.” — Ahmad.

2. Colocar as mãos na cintura durante a oração

Abu Hurayra disse: O Mensageiro de Allah proibiu colocar as mãos na cintura durante a oração. — Abu Dawud.

3. Olhar para o céu

Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Aqueles que olham para o céu durante a oração devem necessariamente abster-se disso; caso contrário, Allah lhes tirará a visão. Ahmad, Muslim e an-Nasa’i.

4. Olhar para algo que distrai da oração

Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezou usando uma manta estampada. Em seguida, disse: “Os desenhos desta manta distraíram minha concentração. Levem-na a Abu Juham e tragam de lá a manta grossa sem desenhos que ele possui.” Muslim e Bukhari. (Abu Juham havia presenteado essa manta estampada ao Mensageiro, que a devolveu e pediu sua manta sem desenhos, para que Abu Juham não se sentisse magoado.) Bukhari narrou, através de Anas, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse-lhe: “Retire sua cortina fina, pois suas imagens ficam continuamente diante de mim durante a oração.” Este hadith prova que, se o olhar recair sobre linhas desenhadas durante a oração, a oração não será invalidada.

5. Fechar os olhos sem motivo

Segundo alguns, isso é makruh. Outros, porém, consideram que não é makruh. O hadith que o classifica como makruh não é autêntico. Ibn al-Qayyim disse: O correto é que, se manter os olhos abertos não prejudicar a concentração, é melhor mantê-los abertos. Mas, se a atenção for prejudicada pela presença de desenhos, ornamentos ou algo semelhante à frente, então, de modo algum, fechar os olhos será makruh. Em tal situação, considerar recomendado fechar os olhos está mais próximo dos objetivos e propósitos da Sharia do que considerá-lo makruh.

6. Fazer sinais com as duas mãos no momento da saudação final

Jabir ibn Samura, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Nós rezávamos atrás do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele disse: “O que há com essas pessoas, que fazem a saudação com as mãos de tal maneira que parecem as caudas de cavalos correndo? Basta colocar as mãos sobre as coxas e dizer: as-salamu alaykum.” — an-Nasa’i.

7. Cobrir a boca e deixar a roupa pendente

Abu Huraira relatou que o Mensageiro de Allah proibiu deixar a roupa pendente e manter a boca fechada durante a oração. As cinco coleções de hadith autênticos e al-Hakim.

Al-Khattabi disse: deixar a roupa pendente significa deixá-la cair de modo que toque o chão. Ibn Humam disse: vestir a camisa sem introduzir as mãos nas mangas também está incluído nisso.

8. Fazer a oração com a comida à frente

Aisha relatou que o Mensageiro de Allah disse: quando o jantar for servido e a congregação para a oração estiver pronta, comei primeiro. Ahmad e Muslim. Segundo a maioria dos sábios, quando o horário da oração — isto é, da iqama — estiver próximo, é recomendável comer primeiro. Caso contrário, deve-se fazer primeiro a oração. Segundo Ibn Hazm e alguns sábios shafeítas, deve-se terminar primeiro a refeição, mesmo que o tempo seja restrito.

Nafi disse: a comida era servida para Ibn Umar, e, ao mesmo tempo, a oração começava. Ele não se juntava à oração antes de terminar a refeição. Chegava até a ouvir a recitação do imame enquanto estava sentado comendo. Bukhari.

Al-Khattabi disse: o propósito de o Mensageiro de Allah ordenar que se comesse primeiro era que a pessoa satisfizesse sua necessidade de alimento e depois começasse a oração com a mente satisfeita. Assim, não sentiria a agonia da fome, não se apressaria ao realizar o rukū e a prostração, nem seria negligente ao realizar a oração corretamente.

9. Fazer a oração enquanto se retém a urina e as fezes

Ahmad, Abu Dawud e Tirmidhi narraram, sob a autoridade de Thauban, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Não é permitido a ninguém fazer três coisas: (1) um homem liderar uma congregação em oração e, excluindo os membros da congregação, suplicar somente por si mesmo. Se fizer isso, estará traindo-os; (2) olhar para o interior de uma casa sem permissão. Isso equivale a entrar nessa casa sem permissão; (3) rezar enquanto retém a urina, até se livrar dessa necessidade. É makruh para o imam, durante uma súplica em voz alta, suplicar somente por si mesmo, excluindo os que rezam atrás dele. Não é makruh durante uma súplica silenciosa. Ahmad, Muslim e Abu Dawud narraram, sob a autoridade de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ninguém deve rezar quando a comida está servida ou enquanto retém a urina ou as fezes.”

10. Rezar estando dominado pelo sono

Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando alguém sentir sonolência, deve deitar-se e dormir, para que o sono passe. Pois, se rezar enquanto está sonolento, pode acontecer que, ao pedir perdão, acabe insultando a si mesmo.” Todas as coletâneas autênticas de hadith. Foi narrado por Abu Huraira que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando alguém se levanta à noite para rezar e, devido à intensidade do sono, não consegue pronunciar claramente o que quer dizer, nem sabe o que está dizendo, deve deitar-se.” Ahmad e Muslim.

11. Reservar no masjid um lugar para alguém que não seja o imam

Abdur-Rahman ibn Shibl disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proibiu bicar como um corvo, fazer o ruku e o sujud rapidamente, sentar-se espalhando as pernas como uma fera e reservar no masjid um lugar para algum muçulmano, tal como o camelo reserva um lugar para si.” Ahmad ibn Khuzaymah e al-Hakim.

23. Fatores que invalidam a oração

A oração é invalidada pelas seguintes ações, e o objetivo da oração é frustrado:

1. Comer ou beber algo deliberadamente

Ibn al-Mundhir disse: Os sábios são unânimes em que aquele que comer ou beber deliberadamente durante a oração obrigatória deverá repeti-la. Segundo a maioria, o mesmo se aplica à oração voluntária, pois os motivos que invalidam a oração obrigatória também invalidam a oração voluntária. (Nas escolas Shafi‘i e Hanbali, se alguém comer ou beber por engano ou por ignorância, ou engolir durante a oração um alimento preso entre os dentes em quantidade equivalente a um grão de cevada, sua oração não será invalidada. Tawus e Ishaq disseram: Beber água não causa prejuízo, pois isso constitui um ato pequeno. Foi relatado que Sa‘id e Ibn az-Zubair bebiam durante a oração voluntária.

2. Falar deliberadamente sem necessidade da oração

Foi narrado por Zayd ibn Arqam: Nós conversávamos durante a oração. Um de nós falava com outro durante a oração. Finalmente, foi revelado: “Rezai devotamente por Allah.” Por meio desse versículo, recebemos a ordem de permanecer em silêncio, e falar tornou-se proibido para nós. — Todas as coletâneas autênticas de hadith. Ibn Mas‘ud (r.a.) disse: Quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) estava em oração, nós o cumprimentávamos com o salam, e ele respondia. Quando retornamos de Najashi, nós o cumprimentamos com o salam durante a oração, mas ele não respondeu. Então dissemos: Ó Mensageiro de Allah, antes nós o cumprimentávamos com o salam e o senhor respondia. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Na oração há muitas ocupações que não permitem falar.” Bukhari e Muslim. Contudo, se alguém falar por ignorar a regra ou por engano, sua oração será válida.

Mu‘awiyah ibn al-Hakam (r.a.) disse: Quando eu estava rezando com o Mensageiro de Allah (s.a.w.), um homem espirrou. Eu disse: “Que Allah tenha misericórdia de você.” As pessoas da congregação olharam fixamente para mim. Eu disse: “O que aconteceu com vocês? Por que estão olhando assim para mim?” Em resposta, começaram a bater com as mãos nas coxas. Quando percebi que queriam que eu ficasse em silêncio, calei-me. Quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) terminou a oração, nunca vi, antes ou depois dele, um professor melhor do que ele. Ele não me repreendeu, não me censurou nem me bateu. Disse: “Na oração não se pode falar das conversas que as pessoas normalmente mantêm umas com as outras. Durante a oração, deve-se dizer apenas ‘Subhanallah’ e ‘Allahu Akbar’, e recitar o Alcorão.” — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e an-Nasa’i.

Aqui se vê que Mu‘awiyah ibn al-Hakam falou por desconhecer a regra da sharia. Por isso, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) não lhe ordenou repetir a oração. Porém, o hadith narrado por Abu Hurayrah (r.a.) prova que, se alguém falar durante a oração como as pessoas normalmente conversam entre si, a oração não será invalidada. Ele disse: O Mensageiro de Allah (s.a.w.) conduziu-nos na oração do meio-dia ou da tarde e pronunciou o salam. Imediatamente após o salam, um companheiro chamado Dhu al-Yadayn — “o de duas mãos”; recebeu esse nome porque suas mãos eram excessivamente longas — disse: “Ó Mensageiro de Allah, o senhor encurtou a oração ou esqueceu-se?” O Mensageiro de Allah (s.a.w.) respondeu: “Não a encurtei nem me esqueci.” Dhu al-Yadayn disse: “Ao contrário, ó Mensageiro de Allah, o senhor se esqueceu.” Então o Mensageiro de Allah (s.a.w.) perguntou às pessoas da congregação: “É verdade o que Dhu al-Yadayn está dizendo?” Elas responderam: “Sim.” Então o Mensageiro de Allah (s.a.w.) rezou mais duas rak‘ahs e depois fez duas prostrações de esquecimento. — Bukhari e Muslim. A escola Maliki decidiu que é permitido falar para corrigir um erro na oração, sob duas condições: primeiro, que isso não pareça excessivo segundo o costume; segundo, que seja algo tal que, se a pessoa dissesse apenas “Subhanallah”, a intenção não seria compreendida. O imã al-Awza‘i disse: A oração daquele que falar deliberadamente com o objetivo de corrigir um erro na oração não será invalidada. Certa pessoa recitou o Alcorão em voz alta durante a oração da tarde, e alguém atrás dela disse: “Esta é a oração da tarde.” Sobre isso, al-Awza‘i disse que a oração dele não foi invalidada.

3. Praticar deliberadamente um ato excessivo

Os sábios divergiram sobre como determinar o que constitui um ato excessivo e o que não constitui. Segundo alguns, se alguém, ao observar a ação de longe, tiver certeza de que a pessoa não está rezando, isso será um ato excessivo; caso contrário, não será. Segundo outros, qualquer ação que, aos olhos do observador, faça parecer que aquele que a pratica não está rezando será um ato excessivo, sem que seja necessária certeza. An-Nawawi disse: Se uma ação não pertence à categoria dos atos da oração e for excessiva, a oração será invalidada por consenso; se não for excessiva, não será invalidada por consenso. Essa é a regra. Depois, eles divergiram novamente em quatro posições sobre como distinguir os atos excessivos dos não excessivos. Por fim, a quarta posição foi adotada. An-Nawawi disse: Esta é a posição correta e mais conhecida. O autor desta obra e a maioria dos sábios adotaram-na: nesse caso, o costume prevalecente deve ser tomado como critério. Portanto, ações que as pessoas consideram insignificantes e não excessivas não prejudicam a oração, como responder ao salam por meio de um gesto, tirar os sapatos, tirar ou colocar o turbante, vestir ou tirar uma roupa leve, pegar uma criança pequena no colo ou sobre os ombros e colocá-la no chão, impedir a passagem diante de si, limpar a saliva com um pano e coisas semelhantes. Já foi mencionado que o Mensageiro (s.a.w.) matou uma cobra ou um escorpião durante a oração e ordenou que isso fosse feito. Contudo, se alguém fizer aquilo que as pessoas consideram excessivo, como caminhar continuamente por uma longa distância ou realizar muitas ações seguidas, a oração será certamente invalidada. Os sábios também são unânimes em que a oração será invalidada quando o ato excessivo for praticado sem interrupção. Se for praticado com intervalos — por exemplo, avançar um passo, permanecer parado por algum tempo e depois avançar mais um ou dois passos; ou avançar dois passos, fazer uma pausa por algum tempo e depois avançar novamente dois passos —, mesmo que caminhe cem passos ou mais dessa maneira, isso não prejudicará a oração por consenso. Atos extremamente leves, como mover as contas do rosário com a mão, coçar-se, dar um nó ou desfazê-lo, não invalidam a oração, ainda que sejam feitos continuamente e muitas vezes. Esta é a posição correta e mais conhecida. Ash-Shafi‘i (r.a.) disse: Se alguém contar os versículos tocando com a mão as contas de um rosário, a oração não será invalidada; contudo, é melhor não contar dessa maneira.

4. Abandonar, sem desculpa e deliberadamente, alguma condição da oração

Al-Bukhari e Muslim narraram que o Mensageiro de Deus disse a um beduíno que não havia realizado corretamente a oração: “Volta e reza novamente, pois não rezaste.” Este hadith já foi mencionado anteriormente. Ibn Rushd disse: é opinião unânime dos juristas que, se alguém rezar sem realizar a purificação, deverá repetir a oração, quer isso tenha ocorrido intencionalmente, quer por engano. Do mesmo modo, deverá repetir a oração se não a realizar voltado para a qibla, quer deliberada, quer inadvertidamente. Em suma, sempre que faltar qualquer uma das condições para a validade da oração, ela deverá ser repetida [Observação: é proibido ao orante realizar, sem uma justificativa, qualquer ato que invalide a oração. Se ocorrer uma causa inevitável — como ajudar alguém indefeso e em perigo, salvar uma pessoa que está se afogando, entre outras situações — torna-se obrigatório interromper a oração. Segundo as escolas hanafita e hanbalita, é permitido interromper a oração quando houver receio de dano, pequeno ou grande, aos bens do próprio orante ou de outra pessoa; quando a mãe que está rezando temer que o choro de seu filho pequeno lhe esteja causando dor; quando a panela colocada no fogo estiver transbordando; quando um animal fugir; e em situações semelhantes].

5. Rir durante a oração

Ibn al-Mundhir mencionou que há consenso de que rir invalida a oração. An-Nawawi disse: isso se aplica àquele cujo riso faz com que as duas extremidades da boca se afastem. A maioria dos sábios disse: não há problema em sorrir discretamente. Se o riso se tornar intenso e impossível de conter, então, se for pouco, não invalidará a oração; mas, se for muito, a invalidará. O que é considerado pouco ou muito é determinado segundo o costume corrente.

24. Reposição das orações perdidas

Os sábios concordam que, se alguém deixar de realizar uma oração dentro de seu horário, seja por esquecimento, seja por ter dormido, será obrigatório repô-la. Já foi mencionado anteriormente que o Mensageiro de Deus disse: “Não há negligência no sono; a negligência existe apenas enquanto se está acordado. Portanto, se alguém esquecer uma oração ou perdê-la por causa do sono, deverá realizá-la assim que se lembrar.” Não há reposição para a pessoa inconsciente; contudo, se ela recuperar a consciência num momento em que seja possível realizar a purificação e iniciar a oração, deverá repô-la. Foi narrado por Nafi‘ que certa vez Ibn Umar sofreu uma perturbação mental e, por causa disso, deixou de rezar. Depois de recuperar a razão, não repôs as orações perdidas. Foi narrado por Ibn Jurayj que, quando um doente perde a consciência e depois a recupera, não precisa repetir as orações. Perguntaram a Az-Zuhri: “O que deve fazer a pessoa inconsciente?” Ele respondeu: “Não precisa repor as orações.” Al-Hasan al-Basri e Muhammad ibn Sirin disseram, a respeito da pessoa inconsciente, que aquele que perdeu a consciência durante o horário de uma oração não precisa repeti-la se recuperar a consciência ainda dentro desse horário.

Por outro lado, a maioria dos sábios entende que aquele que abandona deliberadamente a oração comete pecado e deve repô-la. Ibn Taymiyyah disse: quem abandona deliberadamente a oração não tem permissão para repor a oração perdida, e sua reposição não será válida. Em vez disso, deve realizar muitas orações voluntárias. Ibn Hazm discutiu essa questão detalhadamente. Apresentarei aqui um resumo de sua discussão:

“Quem abandona deliberadamente a oração e, nessa situação, deixa passar o horário da oração jamais será capaz de repô-la. Deve realizar muitas boas ações e orações voluntárias, para que sua balança pese mais no Dia da Ressurreição. Deve também arrepender-se diante de Deus e pedir-Lhe perdão. Abu Hanifa, Malik e Ash-Shafi‘i disseram: deverá repô-la depois de terminado o horário. Malik e Abu Hanifa chegaram a dizer que, se alguém deixar uma ou mais orações, deverá repô-las antes de realizar a oração obrigatória que se segue, desde que o número de orações abandonadas deliberadamente seja cinco ou menos, quer o horário da oração seguinte ainda esteja vigente, quer já tenha terminado. Se forem mais de cinco orações, deverá realizar primeiro a oração do horário vigente. A prova dessa posição é a palavra de Deus: “Ai dos que rezam e são negligentes quanto às suas orações.” Deus também disse: “Depois deles, vieram sucessores que abandonaram a oração e seguiram seus desejos; em breve encontrarão a perdição.” Portanto, se aquele que abandona deliberadamente a oração pudesse repô-la depois de terminado o horário e isso fosse considerado como tê-la realizado, não haveria motivo para lamentá-lo, nem se diria que ele se entregou à perdição, assim como não se mencionou lamento nem perdição a respeito de quem atrasasse a oração até o final de seu horário. Além disso, Deus estabeleceu um horário para cada oração obrigatória, cujo início e fim são definidos e conhecidos. Ela começa num momento determinado e termina num momento determinado. Assim, não há diferença entre aquele que reza antes de chegar o horário e aquele que reza depois de o horário ter passado, pois ambos rezaram fora do horário estabelecido e são igualmente responsáveis por transgredir os limites de Deus. Deus disse: “Quem transgride os limites de Deus, esse é injusto consigo mesmo.” Ademais, a reposição da oração é um ato cuja determinação deve provir da Lei religiosa. A determinação da Lei religiosa deve vir de Deus pela boca de Seu Mensageiro. Não se aceita exceção a isso. Por isso, perguntamos: quem ordenou àquele que abandonou deliberadamente a oração que repusesse a oração abandonada, isto é, que a realizasse depois do horário determinado? Se disserem: “Foi Deus”, perguntaremos novamente: aquele que decidiu abandonar a oração depois de terminado o seu horário praticou uma boa ação ou uma ação pecaminosa? Se disserem: “Uma boa ação”, responderemos: isso contradiz o consenso inequívoco de toda a comunidade muçulmana, bem como o Alcorão e a Sunnah. Se disserem: “Uma ação pecaminosa”, diremos: falaram a verdade. Contudo, também diremos que uma ação pecaminosa não pode ocupar o lugar de uma boa ação. Além disso, Deus, por meio da boca de Seu Mensageiro, determinou o horário de cada oração. Estabeleceu para cada oração um limite inicial e um limite final. Não permitiu que essa oração fosse realizada antes do limite inicial, nem depois do limite final. Nenhum membro da comunidade muçulmana divergiu disso. Se fosse permitido realizar a referida oração depois de transcorrido seu horário, a determinação do limite final do horário da oração se tornaria completamente sem sentido. E Deus não pode realizar algo sem sentido. A propósito,”

Além disso, cada ato tem um horário determinado. Se ele for realizado fora desse horário, não será válido. Se fosse válido, aquele período não teria sido designado como o horário do ato. Esta é uma questão incontestável. Depois de uma longa discussão, Ibn Hazm disse: se fosse obrigatório, para aquele que deliberadamente abandona a oração dentro do horário determinado, repor essa oração, Deus e Seu Mensageiro não teriam negligenciado essa ordem, não a teriam esquecido, nem teriam deixado de mencioná-la, submetendo-nos deliberadamente a uma dificuldade. Ele próprio disse: “Teu Senhor não se esquece.” E qualquer norma da Lei religiosa que não esteja no Alcorão e na Sunnah é inválida.

Foi narrado em um hadith sahih que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Aquele cuja oração do Asr se perdeu é como quem perdeu todos os seus bens e sua família.” Portanto, é correto dizer que aquilo que se perde deliberadamente não pode ser recuperado. Se houvesse oportunidade e possibilidade de recuperá-lo, não teria sido perdido, assim como a oração perdida por esquecimento não deixa de poder ser recuperada. Não há dificuldade quanto a isso. Toda a Ummah concorda que, quando o horário da oração termina, a oração se perde. Há consenso categórico quanto a essa perda. Se fosse possível repor a oração perdida, seria possível afirmar que dizer que aquela oração se perdeu é completamente falso e inválido. Portanto, está comprovado sem qualquer dúvida que jamais é possível repor uma oração deliberadamente abandonada. Entre os que apoiam essa opinião estão Umar e seu filho Abdullah, Sa‘d, Salman al-Farisi, Ibn Mas‘ud, Qasim, Budayl al-Uqayli, Ibn Sirin, Mutarrif e Umar ibn Abd al-Aziz. Allah não concedeu, em circunstância alguma, àquele para quem a oração foi tornada obrigatória, permissão para adiá-la além do horário determinado. Nem mesmo por causa de combate, guerra, medo, doença grave ou viagem. Allah, o Altíssimo, descreveu assim a oração do medo, ou salat al-khawf:

“Quando estiveres entre eles e iniciares a oração, que um grupo dos crentes se ponha em oração contigo.” Ele também disse: “Se estiverdes em perigo, então orai caminhando ou montados.” Allah, o Altíssimo, não permitiu que a oração fosse adiada além do horário determinado, nem mesmo ao enfermo em estado crítico ou moribundo. Ao contrário, ordenou que quem não pudesse orar em pé o fizesse sentado; quem não pudesse orar sentado o fizesse deitado; quem não encontrasse água fizesse tayammum; e quem não encontrasse terra orasse sem tayammum. Então, de onde aqueles que permitiram abandonar deliberadamente a oração até o fim do seu horário tiraram essa permissão? Depois, ordenaram que ela fosse realizada após o término do horário e disseram que isso lhe seria suficiente. Contudo, isso não se encontra no Alcorão, nem em qualquer hadith sahih ou fraco, nem na declaração de qualquer Companheiro, nem por analogia jurídica. Mas quando dissemos que aquele que abandona deliberadamente a oração e não a realiza enquanto ainda está no horário deve arrepender-se, pedir perdão e praticar muitas orações voluntárias, dissemos isso à luz dos seguintes versículos:

“Depois deles, vieram sucessores que abandonaram a oração e seguiram os desejos e caprichos. Em breve, eles se envolverão no desvio. Exceto aqueles que se arrependem, creem e praticam boas ações. Esses entrarão no Paraíso, e não sofrerão a menor injustiça.” E também: “Aqueles que, depois de cometerem uma obscenidade ou injustiçarem a si mesmos, se lembram de Allah e pedem perdão por seus pecados.” E: “Quem fizer o peso de um átomo de bem o verá, e quem fizer o peso de um átomo de mal também o encontrará.” “Nesse Dia, estabeleceremos as balanças da justiça e não seremos injustos com ninguém nem no mínimo que seja.”

O consenso de toda a Ummah e numerosos versículos e hadiths mostram que as orações voluntárias têm um mérito extraordinário, cuja medida Allah conhece melhor. As orações obrigatórias também têm um mérito extraordinário, cuja medida Allah conhece melhor. Assim, quando houver uma deficiência nas orações obrigatórias, se houver muitas orações voluntárias, parte delas será utilizada para compensar essa deficiência. Allah, o Altíssimo, disse: “Allah não desperdiça a recompensa dos benfeitores, e as boas ações afastam as más ações.”

25. A oração do enfermo

Se alguém não puder permanecer de pé durante a oração obrigatória por estar acometido de doença ou de outra justificativa ou incapacidade semelhante, poderá orar sentado. Se não puder sentar-se, deverá orar deitado, fazendo os movimentos de rukū‘ e sujūd por gestos, e deverá fazer o sujūd mais baixo que o rukū‘. Allah disse: “Lembrai-vos de Allah em pé, sentados e deitados.” Imran ibn Husayn disse: Eu sofria de hemorroidas e perguntei ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre a oração. Ele me disse: “Ora em pé. Se não puderes, ora sentado. Se não puderes, ora deitado de lado.” — Relatado em todas as coleções de hadith sahih, exceto Muslim. An-Nasa’i acrescentou: “Se não puderes, ora deitado de costas.” Allah não impõe a ninguém uma responsabilidade além de sua capacidade.

Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi visitar um enfermo e viu-o orando sobre uma almofada. Ele lançou a almofada para longe e disse: “Se puderes, ora sobre o chão. Se não puderes, ora por gestos e faz o teu sujūd mais baixo que o teu rukū‘.” — Relatado por al-Bayhaqi. Para determinar a incapacidade, devem ser considerados: sofrimento excessivo, receio de agravamento da doença, demora na recuperação ou receio de tontura. Quando alguém orar sentado em vez de em pé, deverá sentar-se com as pernas cruzadas.

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Vi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, orar sentado com as pernas cruzadas.” — Relatado por an-Nasa’i. Também é possível sentar-se como na posição do tashahhud. Como deve orar aquele que não consegue permanecer em pé nem sentar-se? Alguns dizem que deverá orar deitado de lado; se não puder, deverá orar deitado de costas, estendendo tanto quanto possível os pés na direção da qiblah.

Ali narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Se o doente puder rezar em pé, deverá rezar em pé; caso contrário, deverá rezar sentado. Se não puder prostrar-se, fará um gesto com a cabeça e se prostrará inclinando-se mais baixo do que no rukū‘. Se não puder rezar sentado, deverá rezar deitado sobre o lado direito, voltado para a qibla; se não puder, deverá rezar deitado de costas, com os pés voltados para a qibla.” — Ad-Daraqutni. Outro grupo afirmou que ele deverá rezar da maneira que puder. Esses hadiths deixam claro que, se ele não puder fazer gestos enquanto estiver deitado de costas, nada mais lhe será exigido.

26. Salat al-Khawf, ou a oração durante a guerra, o medo e o terror

Os sábios são unânimes em que a Salat al-Khawf, isto é, a oração do medo, é prescrita pela Shariah [esse medo pode ser de qualquer tipo, como o medo de um ataque inimigo, de um incêndio etc. Isso pode ocorrer tanto em casa quanto em viagem].

Pois Allah disse: “E quando estiveres entre eles e fores conduzi-los na oração, que um grupo deles se ponha de pé contigo e mantenha consigo as suas armas. Então, quando tiverem concluído a prostração, que se coloquem atrás de vós; e que o outro grupo, que ainda não rezou, reze contigo, mantendo-se vigilante e armado. Os incrédulos desejam que sejais negligentes quanto às vossas armas e aos vossos equipamentos, para que possam lançar-se de uma só vez sobre vós. Não haverá pecado sobre vós se depuserdes as armas por causa da chuva ou se estiverdes doentes; mas permanecei vigilantes. Allah preparou, para os incrédulos, um castigo humilhante.” [Segundo a maioria dos sábios, portar armas durante a oração em tempo de medo é mustahabb; segundo alguns, é obrigatório].

O Imam Ahmad disse: Há seis ou sete hadiths sobre a oração do medo, e é permitido seguir qualquer um deles. Ibn al-Qayyim disse: Os métodos da oração do medo são, originalmente, seis. Contudo, alguns transmitiram mais. Conforme as diferentes narrações dos transmissores, esses métodos chegaram a dezessete. Também é possível que uma das ações do Mensageiro de Allah tenha coincidido com outra, mas haja diferenças quanto a isso nas narrações dos transmissores.

Apresentamos aqui os seis métodos da Salat al-Khawf:

1. Se o inimigo estiver em uma direção diferente da qibla, o imam conduzirá a oração de duas rak‘ahs da seguinte maneira: o imam rezará uma rak‘ah com um grupo. Depois, aguardará enquanto eles rezam sozinhos a outra rak‘ah e, em seguida, vão posicionar-se diante do inimigo. Então o outro grupo chegará, e o imam rezará a segunda rak‘ah com eles. Aguardará até que rezem sozinhos a rak‘ah restante e, então, fará o salam com eles.

Sahl ibn Khaythamah narrou que um grupo se alinhou para rezar com o Mensageiro de Allah, enquanto o outro grupo se posicionou diante do inimigo. Ele rezou uma rak‘ah com o grupo que estava com ele. Depois, permaneceu de pé enquanto o grupo completava sozinho a rak‘ah restante da oração. Em seguida, eles foram posicionar-se diante do inimigo. Então o outro grupo chegou, e ele rezou com eles a rak‘ah restante. Depois, permaneceu sentado enquanto eles rezavam sozinhos a rak‘ah restante. Então fez o salam com eles. Relatado em todos os livros de hadith autênticos, exceto no de Ibn Majah.

2. Quando o inimigo estiver situado em qualquer direção que não seja a da qibla, o imã fará uma rakaat com um grupo, enquanto o outro grupo permanecerá enfrentando o inimigo. Depois, o grupo que fez uma rakaat com o imã partirá e tomará posição diante do inimigo, e o outro grupo virá e fará uma rakaat. Em seguida, ambos os grupos completarão individualmente a rakaat restante. Foi narrado por Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: O Mensageiro de Allah fez uma rakaat com um grupo, enquanto o outro grupo permaneceu enfrentando o inimigo. Então eles partiram e foram ocupar o lugar de seus companheiros, posicionando-se diante do inimigo. Depois, o outro grupo veio, e o Mensageiro de Allah fez uma rakaat com eles. Em seguida, fez o salam. Depois disso, ambos os grupos fizeram individualmente uma rakaat cada. — Ahmad, Bukhari e Muslim.

É evidente que o segundo grupo completará sua oração depois de o imã fazer o salam. Assim, sua oração não será interrompida por causa da vigilância no intervalo. Eles completarão suas duas rakaat de uma só vez. Quanto ao primeiro grupo, não poderá fazer sua segunda rakaat enquanto o segundo grupo não terminar a oração e retornar para enfrentar o inimigo. Ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Então ele fez o salam, e este grupo se levantou, fez sua rakaat restante e fez o salam [No Fathul-Bari consta: Por este grupo entendem-se grupos tanto grandes quanto pequenos. Isso inclui até mesmo uma única pessoa. Se houver três pessoas no grupo, uma delas será o imã e fará a oração com outra, enquanto a terceira ficará de guarda. Depois, a pessoa restante fará a oração].

3. O imã fará duas rakaat de oração com cada grupo. As duas primeiras rakaat serão obrigatórias para o imã, enquanto as duas segundas serão facultativas para ele. Isso não invalidará a oração obrigatória dos seguidores, pois é permitido ao seguidor que realiza uma oração obrigatória fazer a oração obrigatória atrás de um imã que realiza uma oração facultativa.

Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah fez duas rakaat de oração com um grupo de seus companheiros. Depois, fez duas rakaat com os outros e, em seguida, fez o salam. — Shafi’i e Nasa’i. Segundo a narração de Ahmad, Abu Dawud e Nasa’i, Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah conduziu para nós a salatul-khawf. Primeiro, fez duas rakaat com alguns companheiros e fez o salam. Depois, esse grupo partiu e o outro veio. Eles ocuparam o lugar do primeiro grupo, e o Mensageiro fez duas rakaat com eles e fez o salam. Assim, o Mensageiro de Allah fez quatro rakaat, enquanto os companheiros fizeram duas. Segundo as narrações de Ahmad, Bukhari e Muslim, esse acontecimento ocorreu em Zatur Riqaa.

4. Quando o inimigo estiver na direção da qibla, o imã fará a oração com os dois grupos. Até o momento da prostração, todos permanecerão juntos de guarda contra o inimigo e continuarão vigiando-o. Somente no momento da prostração eles se dividirão em dois grupos. Um grupo fará a prostração com o imã, enquanto o outro aguardará. Quando o primeiro grupo terminar a prostração, o outro fará a prostração. Assim que a primeira rakaat terminar, o grupo que havia ficado atrás avançará, e o primeiro grupo recuará.

Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Fizemos a salatul-khawf com o Mensageiro de Allah. Ele nos colocou em duas fileiras atrás dele. O inimigo estava então entre nós e a qibla. O Mensageiro de Allah proferiu o takbir, e todos nós também proferimos o takbir. Quando ele fez o ruku, todos nós fizemos o ruku. Quando levantou a cabeça do ruku, todos nós levantamos a cabeça. Então ele e a fileira adjacente a ele fizeram a prostração, enquanto a outra fileira permaneceu de pé, voltada para o inimigo. Quando o Mensageiro de Allah e a fileira adjacente terminaram a prostração, a fileira seguinte fez a prostração e se levantou. Depois, a fileira de trás foi para a frente, e a da frente foi para trás. Em seguida, o Mensageiro de Allah fez o ruku, e todos nós fizemos o ruku. Depois, ele levantou a cabeça, e todos nós levantamos a cabeça. Então o Mensageiro e a fileira adjacente a ele, que havia ficado atrás durante a primeira rakaat, foram para a prostração, enquanto a fileira de trás permaneceu voltada para o inimigo. Quando o Mensageiro de Allah fez a prostração com a fileira adjacente a ele, a fileira de trás também fez a prostração. Nesse momento, toda a congregação se prostrou simultaneamente. Depois, o Mensageiro de Allah fez o salam, e todos nós também fizemos o salam. Ahmad, Muslim, Nasa’i, Ibn Majah e Bayhaqi.

5. Ambos os grupos começarão a oração simultaneamente atrás do imã. Depois, um grupo partirá para tomar posição diante do inimigo, enquanto o outro completará uma rakaat atrás do imã. Em seguida, este também partirá e ficará diante do inimigo. Então o outro grupo — aquele que partiu logo após iniciar a oração — retornará, fará sozinho e separadamente uma rakaat e, nesse momento, o imã, que estará de pé, fará com eles a segunda rakaat. Depois, o grupo que estava diante do inimigo virá e fará separadamente uma rakaat. Nesse momento, o imã e o segundo grupo estarão sentados. Então o imã fará o salam, e todos farão o salam.

Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: No ano da expedição de Najd, fiz a salatul-khawf com o Mensageiro de Allah. Ele se levantou para a oração do asr, e um grupo se levantou com ele. O outro grupo se posicionou diante do inimigo, tendo a qibla atrás deles. O Mensageiro de Allah proferiu o takbir, e todos os que estavam com ele também proferiram o takbir de consagração. (Isto é, tanto os que estavam com ele quanto os que estavam diante do inimigo.) Depois, o Mensageiro fez o ruku de uma rakaat, e os que estavam com ele também fizeram o ruku. Em seguida, ele fez a prostração, e o grupo adjacente a ele também fez a prostração, enquanto os outros permaneceram de pé diante do inimigo. Depois, o Mensageiro de Allah se levantou, e o grupo que estava com ele também se levantou. Eles correram imediatamente em direção ao inimigo e tomaram posição diante dele. Então o grupo que até aquele momento estava diante do inimigo retornou, fez o ruku e a prostração, enquanto o Mensageiro ainda permanecia de pé na oração, como antes. Depois, eles se levantaram da prostração. Então o Mensageiro fez o ruku de outra rakaat, e eles também fizeram o ruku com ele. Ele fez a prostração, e eles também fizeram a prostração com ele. Em seguida, o grupo que permanecia de pé diante do inimigo veio e fez por si mesmo o ruku e a prostração. Nesse momento, o Mensageiro e o grupo que estava com ele permaneciam sentados. Então o Mensageiro de Allah fez o salam, e todos os que estavam com ele também fizeram o salam. O Mensageiro de Allah havia feito duas rakaat, e ambos os grupos também haviam feito duas rakaat cada. Ahmad, Abu Dawud e Nasa’i.

6. Cada grupo rezará apenas uma rak‘ah com o imame. O imame rezará duas rak‘ahs, enquanto cada grupo rezará uma rak‘ah.

Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dirigiu a oração em Dhu Qarad. As pessoas se posicionaram atrás dele em duas fileiras: uma fileira atrás dele e a outra paralela ao inimigo. Ele rezou uma rak‘ah com os que estavam atrás dele. Depois, eles foram para a outra fileira, e os integrantes daquela fileira vieram para trás dele. Então ele rezou uma rak‘ah com eles, ficando para eles uma rak‘ah por completar. — An-Nasa’i, Ibn Hibban. Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) também disse: Allah tornou obrigatórias para vós quatro rak‘ahs durante a residência, duas rak‘ahs durante a viagem e uma rak‘ah em estado de medo. — Ahmad, Muslim, Abu Dawud, An-Nasa’i. Tha‘labah ibn Zuhdam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Estávamos com Sa‘id ibn al-‘As no Tabaristão, e ele perguntou: “Quem dentre vós rezará a oração do medo com o Mensageiro de Allah?” Hudhayfah (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Eu.” Ele rezou uma rak‘ah com um grupo e outra rak‘ah com o outro grupo, e nenhum dos grupos completou a rak‘ah restante. — Abu Dawud, An-Nasa’i.

A oração do Magrebe como oração do medo. É bem sabido que não se faz qasr na oração do Magrebe. Contudo, não há nenhum hadith que informe como a oração do medo deve ser realizada no Magrebe. Por isso, os imames divergiram a esse respeito. A opinião dos hanafitas e maliquitas é que o imame rezará duas rak‘ahs com o primeiro grupo e uma rak‘ah com o segundo. Ash-Shafi‘i e Ahmad consideraram válido rezar uma rak‘ah com o primeiro grupo e duas rak‘ahs com o segundo, pois foi relatado que ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) procedeu dessa maneira.

A oração quando o medo se torna mais intenso. Quando o medo se intensificar e começar uma batalha feroz entre os dois lados, cada pessoa rezará conforme sua capacidade, a pé ou montada, voltada para a qiblah ou não, fazendo o rukū‘ e o sujūd por gestos, da maneira que puder. Ao rezar por gestos, deverá fazer o sujūd mais baixo que o rukū‘. Quanto aos pilares da oração que não puder cumprir, não há problema em não os cumprir. Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ao descrever a oração do medo, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Se o medo for ainda maior, rezai a pé ou montados, da maneira que puderdes. Não importa se estais voltados para a qiblah ou não.” Em uma narração de Muslim, Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Se o medo e o temor aumentarem ainda mais, é permitido rezar por gestos, caminhando ou montado.”

27. A oração daquele que persegue o inimigo e daquele que foge por medo do inimigo

Aquele que persegue o inimigo e teme que, se demorar, o tempo da oração termine, rezará por gestos, esteja ou não viajando na direção da qiblah. A mesma regra se aplica àquele que foge por medo do inimigo. Também se aplica àquele a quem um inimigo impede de fazer o rukū‘ e o sujūd, ou cuja vida, bens ou família estejam ameaçados por um inimigo, ladrões, assaltantes ou animais ferozes. Essa pessoa pode rezar por gestos enquanto se desloca, qualquer que seja a direção em que esteja indo. Al-‘Iraqi disse: Isso inclui aquele que foge por qualquer motivo legítimo, como uma inundação ou um incêndio, quando não encontra um abrigo seguro; o devedor em dificuldade financeira que não consegue apresentar provas de sua situação, pois o credor o prenderá assim que o encontrar e não acreditará nem aceitará qualquer desculpa sua; e aquele sobre cuja cabeça pende uma sentença de morte, que espera que, permanecendo escondido por alguns dias, a ira de seu adversário se acalme e ele obtenha perdão. Pessoas nessas condições podem rezar por gestos enquanto se deslocam, na direção em que estiverem indo.

‘Abdullah disse: O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou-me até Khalid ibn Sufyan e disse:

“Vai e mata-o.” Encontrei-o, mas já se aproximava a oração do ‘Asr. Pensei que algo poderia acontecer entre ele e mim que atrasasse a oração. Por isso, comecei a rezar por gestos enquanto caminhava e continuei correndo atrás dele. Quando me aproximei, ele perguntou: “Quem és tu?” Respondi: “Um homem dos árabes. Soube que estás reunindo pessoas para este homem; por isso vim falar contigo sobre isso.” Ele disse: “Estou ocupado justamente com esse assunto.” Então caminhei com ele por algum tempo. Quando surgiu uma oportunidade, golpeei-o com minha espada, e ele caiu sem vida (morreu). Ahmad, Abu Dawud.

28. A oração durante a viagem

Há algumas normas relativas à oração durante a permanência fora de casa. Apresentamo-las a seguir:

1. Encurtar (qasr) a oração de quatro rak‘ahs

Allah, o Altíssimo, disse: “Quando viajardes pela terra, não haverá pecado sobre vós se encurtardes a oração, caso temais que os incrédulos vos causem dano.” A condição do temor não se aplica aqui.

Ya‘la ibn Umayyah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Perguntei a Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: “Consideraste a questão do encurtamento? Allah disse: ‘Se temerdes que os incrédulos vos causem dano.’ Mas esse tempo já passou.” Umar respondeu: “Aquilo que te pareceu surpreendente também me pareceu surpreendente. Eu mencionei isso ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e ele disse: ‘É uma concessão que Allah vos concedeu; portanto, aceitai a concessão de Allah.’” Relatado em todas as coletâneas autênticas de hadith. Ibn Jarir narra de Abu Munir al-Jarshi: Foi perguntado a Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: “Neste versículo — ‘Quando viajardes…’ — foi prescrito encurtar a oração por causa do temor. Hoje estamos seguros e não sentimos temor algum. Ainda assim devemos encurtar a oração?” Ele respondeu: “No Mensageiro de Allah há para vós um excelente exemplo.” Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Em Meca, foram prescritas duas rak‘ahs para cada oração. Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina, acrescentou duas rak‘ahs a cada conjunto de duas rak‘ahs. A oração do maghrib foi uma exceção, pois é o witr do dia. O mesmo se aplica à oração do fajr, pois nela são recitados longos trechos. Quando o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, viajava, rezava as orações como haviam sido prescritas originalmente em Meca.” Ahmad, al-Bayhaqi, Ibn Hibban e Ibn Khuzaymah.

Ibn al-Qayyim disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saía como viajante e retornava a Medina

até então encurtava para duas rak‘ahs as orações de quatro rak‘ahs. Não há prova de que alguma vez tenha rezado quatro rak‘ahs completas durante uma viagem. Nenhum dos imames divergiu quanto a isso. Contudo, houve bastante divergência entre eles sobre a obrigatoriedade do encurtamento. Segundo Amr, Ali, Ibn Mas‘ud, Ibn Abbas, Ibn Umar, Jabir e outros, o encurtamento é obrigatório. Essa também é a opinião da escola hanafita.

Segundo os hanafitas, se um viajante, numa oração obrigatória de quatro rak‘ahs, se sentar após o tashahhud da segunda rak‘ah e completar quatro rak‘ahs, sua oração será válida, mas será makruh, pois terá atrasado a saudação final. O que rezou depois das duas rak‘ahs será considerado uma oração voluntária. Porém, se não se sentar após as duas rak‘ahs, sua oração não será válida, pois esse é o assento final do viajante, que é obrigatório. Quando uma obrigação é omitida, a oração se torna inválida.

Segundo a escola maliquita, a redução da oração (qasr) é uma sunnah mu’akkadah. A ênfase dada a ela é maior do que a dada à oração em congregação. Portanto, quando o viajante não encontrar um imã viajante, deverá rezar sozinho, em vez de rezar em congregação. Para ele, é makruh rezar em congregação sob a liderança de um não viajante. Segundo os hambalitas, o qasr não é obrigatório, mas permitido. Contudo, é melhor do que rezar a oração completa. Quanto a viajar uma distância que permita o qasr, a opinião da escola shafi‘ita é a mesma.

2. A distância para o qasr

O que se depreende dos versículos do Alcorão relacionados a este assunto é que, em qualquer viagem, seja ela curta ou longa, deve-se reduzir a oração, sendo permitido também quebrar o jejum. Não há nenhuma evidência nos hadith que condicione essa permissão. Ibn al-Mundhir citou mais de vinte opiniões a esse respeito; dentre elas, mencionaremos aqui algumas das mais corretas:
Ahmad, Muslim, Abu Dawud e al-Bayhaqi narraram, através de Yahya ibn Yazid: Perguntei a Anas sobre a redução da oração. Anas respondeu: “Quando o Mensageiro de Allah viajava uma distância de três milhas ou três farsakhs, reduzia as orações obrigatórias e rezava duas rak‘ahs.” Al-Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: “Este é o hadith mais autêntico e claro sobre a distância para o qasr.” A dúvida quanto a se tratar de milhas ou farsakhs é esclarecida pelo hadith narrado por Abu Sa‘id al-Khudri. Ele disse: “Quando o Mensageiro de Allah viajava um farsakh, reduzia a oração.”

É bem conhecido que um farsakh equivale a três milhas. Assim, a dúvida que permanece no hadith de Anas é eliminada pelo hadith de Abu Sa‘id. Fica claro, portanto, que a menor distância em que o Mensageiro de Allah fazia o qasr era de três milhas. Um farsakh equivale a 5.541 metros, e uma milha, a 1.748 metros. A menor distância mencionada nos hadith como distância para o qasr é uma milha. Ibn Abi Shaybah narrou isso de Ibn Umar, e Ibn Hazm adotou essa opinião. Ao apresentar a evidência de que não se deve fazer o qasr em menos de uma milha, ele disse: “O Mensageiro de Allah foi a Baqi‘ para sepultar os mortos e saiu ao campo para atender às necessidades naturais, mas não fez o qasr.”

O imã Abu al-Qasim al-Kharqi deu, em Al-Mughni, uma resposta adequada às afirmações dos juristas que estipulam uma viagem longa, sendo que, segundo alguns, a distância mínima seria o percurso de dois dias e, segundo outros, o de três dias. Ele disse: “Não encontro nenhuma prova em favor da opinião dos imãs. Isso porque as opiniões dos Companheiros são contraditórias entre si e repletas de divergências. Devido a essa contradição e divergência, elas não constituem prova a favor nem contra ninguém. Os hadith narrados de Ibn Umar e Ibn Abbas são contrários às evidências apresentadas pelos nossos imãs. Mesmo que isso não fosse encontrado, a possibilidade de considerar a distância que eles mencionaram estaria excluída, pois ela não foi comprovada pela prática nem pelas palavras do Mensageiro. A primeira razão é que isso contradiz a sunnah seguida pelo Mensageiro, que citamos, e também o sentido explícito dos versículos do Alcorão. O Alcorão concedeu a permissão do qasr àquele que parte em viagem. Allah disse: ‘Quando viajardes pela terra, não haverá pecado em reduzirdes a oração.’ A condição do temor da perseguição dos incrédulos foi revogada pelo hadith citado anteriormente. Além disso, o sentido aparente do versículo abrange qualquer viagem. Quanto à afirmação do Mensageiro: ‘O viajante pode fazer masḥ durante três dias’, ela se destina apenas a mencionar a duração do masḥ. Portanto, não é aceitável utilizá-la como prova neste caso. Como é possível percorrer pequenas distâncias em três dias, e o Mensageiro as chamou de viagem, ele disse: ‘Não é permitido a uma mulher que creia em Allah e no Dia do Juízo viajar a distância de um dia sem estar acompanhada de um mahram.’”

Em segundo lugar, a distância estabelecida para o qasr baseia-se na revelação e depende dela. Portanto, não é correto incluir algo nesse âmbito apenas com base em reflexões, pesquisas e opiniões produzidas pela razão, sobretudo quando não existe um princípio fundamental sob o qual isso possa ser incluído, nem um precedente por analogia ao qual algo possa ser comparado. Há uma prova decisiva em favor daqueles que permitem o qasr a todo viajante. Essa permissão só poderia ser anulada caso houvesse consenso contrário a ela. O qasr se aplica a toda viagem, seja de avião, de trem, uma viagem religiosa ou de qualquer outro tipo. Aqueles cuja profissão exige que estejam constantemente viajando, como os condutores e trabalhadores de embarcações, entre outros, também podem fazer o qasr e interromper o jejum, pois são verdadeiramente viajantes.

3. A partir de onde se começa a fazer o qasr?

Segundo a maioria dos eruditos, o qasr da oração torna-se permitido — e isso também é uma condição — a partir do momento em que se deixa a própria residência e se sai da própria cidade. Ao retornar, não se deve rezar a oração completa até entrar na primeira casa da própria cidade. Ibn al-Mundhir disse: “O Mensageiro fazia o qasr assim que saía de Medina. Não tenho conhecimento de que tenha feito o contrário em nenhuma viagem.” Anas disse: “Eu rezava com o Mensageiro a oração do meio-dia com quatro rak‘ahs em Medina e com duas rak‘ahs em Dhu al-Hulayfah.” Isso é mencionado em todas as coletâneas de hadith autênticos. Alguns consideram que aquele que tenha a intenção de viajar deve fazer o qasr mesmo enquanto ainda estiver em sua própria casa.

4. Quando o viajante deve rezar a oração completa

Enquanto permanecer em viagem, o viajante deverá encurtar a oração. Mesmo que, por alguma necessidade, comece a permanecer em algum lugar aguardando o cumprimento dessa necessidade, continuará encurtando a oração. Isso porque, ainda que permaneça ali por muitos anos, será considerado um forasteiro. Se tiver a intenção de permanecer por um período determinado, segundo Ibn al-Qayyim, continuará sendo considerado viajante, seja sua permanência longa ou breve, enquanto não tomar o local onde reside como sua residência permanente. Há muitas opiniões dos sábios sobre essa questão; Ibn al-Qayyim mencionou um resumo delas e, por fim, defendeu sua própria opinião: “O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Tabuk durante vinte dias e não disse à sua comunidade que, se permanecesse em algum lugar por mais tempo que isso, não deveria encurtar a oração. Essa permanência ocorreu casualmente.” Uma permanência desse tipo durante a viagem não transforma a viagem em residência permanente, seja ela longa ou breve. A condição, porém, é que o viajante não tenha a intenção de se tornar residente permanente ou cidadão daquele lugar. Há ampla divergência entre os sábios a esse respeito.

No Sahih al-Bukhari, é narrado por Ibn Abbas, que Deus esteja satisfeito com ele, que disse: “O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu dezenove dias em uma de suas viagens e, durante esse período, rezou duas unidades de oração. Portanto, quando permanecermos em algum lugar por dezenove dias, rezaremos duas unidades; se permanecermos mais que isso, rezaremos a oração completa.” O Imã Ahmad disse: “Com isso, Ibn Abbas referia-se ao período em que ele permaneceu em Meca durante a conquista de Meca, pois disse que o Mensageiro de Deus permaneceu dezoito dias em Meca durante a conquista. Naquela ocasião, ele também pretendia conquistar Hunayn, mas isso não aconteceu naquele momento. Depois, decidiu permanecer. Essa foi a permanência mencionada por Ibn Abbas.” Outros disseram que o Mensageiro de Deus permaneceu vinte dias em Tabuk e encurtou as orações durante esse período. — Ahmad. Al-Miswar ibn Makhrama disse: “Permanecemos quarenta dias com Saad em uma aldeia da Síria. Saad encurtava a oração, mas nós rezávamos a oração completa.” Nafi disse: “Ibn Umar permaneceu seis meses em Adhru Bai n. Durante esse período, rezava duas unidades, mas não pôde entrar no local devido à neve.” Haks disse: “Anas permaneceu dois anos na Síria, rezando como um viajante.” Anas disse: “Os companheiros do Mensageiro de Deus permaneceram sete meses no reservatório de Hormuz e encurtaram a oração durante todo esse período.” Al-Hasan disse: “Permaneci dois anos inteiros no estrangeiro com Abd al-Rahman; ele encurtava a oração e não rezava a oração de sexta-feira.” Ibrahim disse: “Eles permaneciam um ano inteiro, ou até mais, em Rayy, e também permaneciam dois anos em Sijistão, encurtando as orações.” Esses são os exemplos do Mensageiro de Deus e de seus companheiros, e essa é a posição correta. Contudo, ao examinar as opiniões das diferentes escolas jurídicas, vemos que o Imã Ahmad julgava que, quando alguém tivesse a intenção de permanecer quatro dias, deveria rezar a oração completa; se pretendesse permanecer menos que isso, deveria encurtá-la. Ele explicou os exemplos mencionados dizendo que o Mensageiro de Deus e seus companheiros não haviam decidido com certeza permanecer. Em vez disso, continuavam dizendo “partiremos hoje” e “partiremos amanhã”, e acabavam permanecendo por muitos dias. Mas essa explicação é questionável, como é evidente para todos. O Mensageiro de Deus conquistou Meca, e o significado desse acontecimento é bem conhecido. Ele permaneceu ali para consolidar firmemente os fundamentos do Islã e eliminar o politeísmo. Dedicou-se a criar um ambiente favorável ao Islã entre os árabes das regiões vizinhas. Todos sabem que isso não poderia ser realizado em um ou dois dias; era necessário um longo período. Sua permanência em Tabuk foi semelhante. Ele permaneceu ali aguardando o inimigo. E era certo que seria necessário muito tempo para resolver a questão entre ele e seus inimigos. Ele sabia que eles não chegariam a um acordo com ele em apenas quatro dias. Da mesma forma, Ibn Umar permaneceu seis meses em Adhru Bai n e passou esse período encurtando as orações por causa da neve. É bem sabido que uma neve desse tipo não derrete em quatro dias, deixando o caminho livre. Do mesmo modo, Anas permaneceu dois anos na Síria, e os companheiros permaneceram seis meses no reservatório de Hormuz, encurtando as orações durante todo esse tempo. É evidente que um combate ou cerco desse tipo não termina em quatro dias. Os discípulos do Imã Ahmad disseram que, quando alguém permanece em algum lugar por causa do combate contra o inimigo, de um cerco imposto pelo governante ou de uma doença, deve encurtar as orações, quer tenha uma forte expectativa de se livrar dessa situação em poucos dias ou em muitos dias, quer não tenha essa expectativa. No entanto, impuseram para isso uma condição que não encontra prova alguma no Alcorão, na tradição profética, no consenso ou nas ações dos Companheiros. A condição é que deve haver a possibilidade de a necessidade ser resolvida em menos de quatro dias. Pergunta-se-lhes: de onde obtiveram essa condição? Quando o Mensageiro de Deus permaneceu em Meca e em Tabuk, encurtando as orações por muito mais de quatro dias, ele não disse nada a ninguém. Não informou que não pretendia permanecer mais de quatro dias. Sabia, contudo, que os muçulmanos o seguiriam nas orações e seguiriam seu exemplo quanto ao encurtamento das orações durante sua permanência. Ainda assim, não lhes disse uma única palavra. Não disse: “Se permanecerem mais de quatro dias, não encurtem as orações.” E, no entanto, era muito importante esclarecê-lo. Mais tarde, os Companheiros também seguiram seu exemplo. E nada disseram àqueles que rezavam com eles.

Malik e al-Shafi’i disseram: quando alguém tiver a intenção de permanecer mais de quatro dias, deverá rezar a oração completa; se pretender permanecer menos que isso, deverá encurtá-la. O Imã Abu Hanifa disse: se tiver a intenção de permanecer quinze dias, deverá rezar a oração completa; se pretender permanecer menos que isso, deverá encurtá-la. Essa também é a opinião de al-Layth ibn Saad. É igualmente narrado que Umar, Ibn Umar e Ibn Abbas, os três Companheiros, tinham essa mesma opinião. Said ibn al-Musayyab disse: “Quando permanecer quatro dias, reze quatro unidades.” Segundo outra narração, ele teria emitido uma opinião semelhante à de Abu Hanifa. Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: “Se permanecer dez dias, deverá rezar a oração completa.” Também é narrado que essa era uma das opiniões de Ibn Abbas. Al-Hasan disse: “Deverá encurtar a oração enquanto não chegar a alguma cidade.” Aisha, que Deus esteja satisfeito com ela, disse: “Deverá encurtar a oração enquanto não terminarem suas provisões e não perder o rumo do destino.” Os quatro imãs concordam em uma questão: quando alguém permanece em algum lugar por uma necessidade, aguardando que ela seja resolvida, e continua dizendo “partirei hoje” e “partirei amanhã”, acabando por permanecer por tempo indeterminado, deverá encurtar a oração durante todo esse período indeterminado. Contudo, segundo uma narração, al-Shafi’i divergiu. Ele disse que é permitido encurtar a oração por dezessete ou dezoito dias, mas não depois disso. Ibn al-Mundhir disse: o viajante deverá encurtar a oração enquanto não tiver certeza sobre a duração de sua permanência, mesmo que isso leve anos.

5. Fazer orações voluntárias durante a viagem

Segundo a maioria dos sábios, não é detestável que aquele que encurta a oração durante a viagem faça orações voluntárias, sejam elas as orações da sunna regularmente praticadas ou outras.

Bukhari e Muslim narraram que o Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, tomou banho na casa de Umm Hani no dia da conquista de Meca e rezou oito rak‘ahs. Ibn Umar rezava orações voluntárias sentado sobre sua montaria, fazendo sinais com a cabeça. Hasan disse: “Os companheiros do Mensageiro, que a paz esteja com ele, rezavam orações voluntárias antes e depois das orações obrigatórias durante as viagens.” Ibn Umar e outros consideravam que não era permitido rezar orações voluntárias antes ou depois das orações obrigatórias, exceto no meio da noite. Ao ver algumas pessoas rezando orações voluntárias, ele disse: “Se eu rezasse orações voluntárias, rezaria a oração completa, sem encurtá-la. Ó meu sobrinho, acompanhei o Mensageiro, que a paz esteja com ele, e ele nunca rezou mais de duas rak‘ahs, até sua morte (isto é, durante as viagens). Também acompanhei Abu Bakr, e ele igualmente nunca rezou mais de duas rak‘ahs. Quanto a Umar e Uthman, ele disse: ‘Tendes no Mensageiro de Deus um excelente exemplo.’” — Bukhari.

Ibn Qudama conciliou as declarações de Hasan e de Ibn Umar, dizendo: “A declaração de Hasan prova que não há mal em rezar orações voluntárias. Já a declaração de Ibn Umar prova que não há mal em deixar de rezá-las.”

6. Viajar na sexta-feira

Não há mal em viajar na sexta-feira, desde que não tenha chegado o horário da oração. Umar ouviu um homem dizer: “Se não fosse sexta-feira, eu partiria.” Umar imediatamente lhe disse: “Parta. A oração de sexta-feira não impede ninguém de viajar.” Abu Ubaida viajou numa sexta-feira e não esperou pela oração. Zuhri decidiu viajar antes do meio-dia. Quando lhe disseram: “Hoje é sexta-feira”, ele respondeu: “O Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, viajava às sextas-feiras.”

29. Reunir duas orações

É permitido, em qualquer uma das situações a seguir, rezar juntas as orações do Dhuhr e do Asr no horário do Dhuhr ou do Asr, e as orações do Maghrib e do Isha no horário do Maghrib ou do Isha. (Contudo, segundo o consenso, não é permitido reunir quaisquer outras orações além de Dhuhr e Asr, e Maghrib e Isha.)

1. Em Arafat e Muzdalifa

Os estudiosos concordam que é sunnah rezar juntas as orações do Dhuhr e do Asr em Arafat, no horário do Dhuhr, e as orações do Maghrib e do Isha em Muzdalifa, no horário do Isha. Isso porque o Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, assim procedeu.

2. Durante a viagem

Segundo a maioria dos sábios, é permitido realizar conjuntamente as duas orações no horário de qualquer uma das duas orações mencionadas, durante a viagem, quer se esteja em movimento, quer se tenha feito uma parada. Mu‘az, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Durante a expedição de Tabuk, quando o sol começava a declinar antes de partir, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava conjuntamente as orações do meio-dia e da tarde. Mas, quando partia antes de o sol começar a declinar, adiava a oração do meio-dia até fazer uma parada para a oração da tarde. Fazia o mesmo com a oração do pôr do sol. Quando o sol se punha antes de partir, realizava conjuntamente as orações do pôr do sol e da noite. E, quando partia antes do pôr do sol, adiava a oração do pôr do sol até fazer uma parada para a oração da noite. Então fazia uma parada e realizava as duas orações conjuntamente. Abu Dawud e Tirmidhi.

Kuraib disse: Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Devo informar-vos como o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava as orações durante a viagem?” Dissemos: “Diga!” Ele disse: “Antes de partir, quando o sol começava a declinar no local onde havia parado, ele realizava conjuntamente as orações do meio-dia e da tarde. Mas, se o sol não começava a declinar no local da parada, partia. Quando se aproximava o horário da oração da tarde, fazia uma parada e realizava conjuntamente as orações do meio-dia e da tarde. E, quando o sol se punha durante a parada, realizava conjuntamente as orações do pôr do sol e da noite. Mas, se ainda não se aproximava o horário do pôr do sol, partia e, no horário da oração da noite, fazia uma parada e realizava conjuntamente as orações do pôr do sol e da noite.” Ahmad e Shafi‘i são da mesma opinião. Shafi‘i disse: “Quando partia para a viagem antes de o sol começar a declinar, adiava a oração do meio-dia e a realizava conjuntamente com a oração da tarde.” Al-Bayhaqi. Ele também disse: “Realizar conjuntamente duas orações por causa da viagem era uma prática amplamente difundida entre os Companheiros e os tabi‘in.”

Malik narrou no Muwatta’ que, certo dia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, adiou a oração em Tabuk. Depois saiu e realizou conjuntamente as orações do meio-dia e da tarde. Em seguida, entrou novamente. Depois saiu outra vez e realizou conjuntamente as orações do pôr do sol e da noite. Shafi‘i disse: A expressão “entrou novamente e saiu outra vez” aplica-se apenas ao período da parada. Depois de mencionar este hadith em Al-Mughni, Ibn Qudama disse: Ibn Abd al-Barr classificou este hadith como autêntico.

Os autores de biografias disseram: A expedição de Tabuk ocorreu no nono ano da Hégira. Este hadith é uma prova decisiva contra aqueles que dizem que só é permitido realizar conjuntamente duas orações quando alguém fica extremamente cansado durante a viagem. Isso porque o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava as duas orações conjuntamente durante a parada. Naquele momento, ele não estava em movimento. Permanecia na tenda, saía dela e realizava as duas orações conjuntamente, depois voltava para a tenda. Muslim narrou este hadith. Ele disse que o Profeta realizava conjuntamente as orações do meio-dia e da tarde, e as orações do pôr do sol e da noite. Este hadith demonstra claramente a permissibilidade de realizar conjuntamente duas orações. É inequívoco e claro. Não há nenhum hadith que o contradiga. Como realizar conjuntamente duas orações é uma concessão da viagem, isso não se restringe à situação de estar em movimento, assim como o encurtamento das orações e o masح não se restringem à situação de estar em movimento. No entanto, adiá-las é preferível.

A intenção não é uma condição para realizar conjuntamente duas orações nem para encurtá-las. Ibn Taymiyya disse: Esta é a opinião da maioria dos sábios. Quando o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava duas orações conjuntamente com seus Companheiros, não ordenava a nenhum deles que formulasse a intenção de realizá-las conjuntamente ou de encurtá-las. Ao contrário, partia de Medina para Meca e, durante o caminho, encurtava as orações, mas não realizava nenhuma delas conjuntamente. Depois, em Arafat, conduziu a oração do meio-dia e não informou a ninguém que pretendia realizar a oração da tarde em seguida. Então realizou a oração da tarde, embora eles não tivessem formulado a intenção de realizar conjuntamente as duas orações. Este é um exemplo de realização conjunta no primeiro horário. Do mesmo modo, quando saía de Medina, conduzia a oração da tarde em duas unidades em Dhu al-Hulayfa, sem ordenar-lhes que formulassem a intenção de encurtá-la. Sobre a realização conjunta consecutiva das duas orações, ele disse: Aqui, a intenção não é condição em hipótese alguma: nem para a primeira oração, nem para a segunda. Na realidade, a Lei Islâmica não estabeleceu nenhum limite específico nem qualquer obrigação a esse respeito, pois impor tal obrigação frustraria o objetivo da flexibilização. Shafi‘i disse: Se alguém realizar a oração do pôr do sol em sua casa com a intenção de realizá-la conjuntamente e depois for à mesquita e realizar a oração da noite, isso será válido. Também foi narrado algo semelhante de Ahmad.

3. Em tempo de chuva

Asram narrou de Abu Salama, que disse: Realizar conjuntamente as orações do pôr do sol e da noite em dias de chuva é uma sunnah. Bukhari também narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizou conjuntamente as orações do pôr do sol e da noite numa noite chuvosa.

Em resumo, as opiniões das escolas jurídicas sobre esta questão são as seguintes: a escola Shafi’i considera lícito ao residente (muqim) juntar as orações do Zuhr e do Asr, bem como as do Maghrib e do ‘Isha, no primeiro horário. Contudo, é condição que haja chuva no momento do takbirat al-ihram da primeira das duas orações, no momento de concluir a primeira oração e no momento de iniciar a segunda. A opinião da escola Maliki é que, quando está chovendo ou há possibilidade de chuva, ou quando há lama e escuridão intensa do lado de fora, é lícito realizar juntas as orações do Maghrib e do ‘Isha na mesquita, no primeiro horário. A lama deve ser tanta que se torne difícil para uma pessoa de condição mediana ir à mesquita usando seus sapatos. Juntar as orações do Zuhr e do Asr por causa da chuva é makruh.

A opinião da escola Hanbali é que somente é lícito juntar as orações do Maghrib e do ‘Isha, seja realizando-as no primeiro horário ou no horário posterior, qualquer que seja a causa: gelo, neve, lama, chuva intensa ou chuva que encharque as roupas. Essa concessão é apenas para aquele que pretende ir à mesquita de longe e sofre com a chuva no caminho. Porém, não é lícito juntar as duas orações àquele que já está na mesquita, que realiza a oração em congregação em sua própria casa, que vai à mesquita protegido por algum objeto — como um guarda-chuva — ou cuja casa fica próxima da mesquita.

4. Por doença ou alguma escusa

O imame Ahmad, Qadi Husayn, Khabbazi e alguns juristas da escola Shafi’i consideram lícito juntar duas orações, antecipando ou adiando uma delas, devido à escusa causada por doença. Isso porque, nesse caso, a dificuldade é maior do que a causada pela chuva. Segundo al-Nawawi, esta opinião é mais forte do ponto de vista das provas. Em al-Mughni, afirma-se que a permissão para juntar várias orações só é confirmada no caso de uma doença que torne difícil e penoso realizar a oração em seu horário determinado. Já os hanbalis adotaram o princípio da flexibilidade e da amplitude. Eles permitiram juntar várias orações, antecipando-as ou adiando-as, em diferentes tipos de escusas e situações de medo. Por exemplo, isso é permitido à parteira para quem seria difícil lavar suas roupas a cada oração; à mustahada — a mulher cujo fluxo menstrual ultrapassa a duração máxima e é inferior à duração mínima —; àquele cuja urina goteja continuamente; àquele para quem é impossível purificar-se a cada horário; àquele que teme por sua vida, seus bens ou sofrer perda de patrimônio; e àquele que teme sofrer prejuízo em seu sustento caso não junte vários horários de oração.

Ibn Taymiyyah disse: a escola mais flexível quanto à junção das orações é a escola Hanbali. Eles também permitiram a junção por causa de ocupações profissionais. Al-Nasa’i narrou um hadith do Mensageiro sobre esse assunto. Ele também disse que é lícito juntar as orações para um cozinheiro e outros profissionais semelhantes que temam que seus produtos se estraguem.

5. Juntar duas orações por uma necessidade geral

Al-Nawawi disse, em seu comentário sobre Muslim: um grupo de imames sustenta que, enquanto permanece em seu local de residência, é lícito a uma pessoa juntar várias orações quando houver necessidade, mesmo que isso se torne um hábito. Esta também era a opinião de Ibn Sirin. Ashhab, entre os discípulos do imame Malik, também sustentava essa opinião. Al-Khattabi, Qaffal e Shashi, entre os discípulos de al-Shafi’i, Abu Ishaq e um grupo dos ahl al-hadith também sustentavam essa opinião. Ibn al-Mundhir igualmente a adotou. O sentido aparente de uma declaração de Ibn Abbas também oferece apoio a essa opinião. Trata-se da parte final do hadith narrado dele em Muslim: “Ele quis não impor dificuldade à sua comunidade e, por isso, não mencionou doença nem chuva como causa.” O hadith é o seguinte:

O Mensageiro de Allah, estando em Medina, realizou juntas as orações do Zuhr e do Asr, e as do Maghrib e do ‘Isha, sem que houvesse chuva ou medo. Perguntaram a Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele: qual foi a intenção dele com isso? Ele respondeu: para que não causasse dificuldade ou constrangimento à sua comunidade. Al-Bukhari e Muslim também narraram, de Ibn Abbas, que o Mensageiro de Allah realizou em Medina, juntas, oito rak’ahs do Zuhr e do Asr, e sete rak’ahs do Maghrib e do ‘Isha. Ou seja, realizou as oito rak’ahs do Zuhr e do Asr em um só horário, e as sete rak’ahs do Maghrib e do ‘Isha em um só horário. Muslim narrou de Abdullah ibn Shaqiq, que disse: certo dia, depois do Asr, Abdullah ibn Abbas fez um sermão diante de nós. O sermão se prolongou tanto que o sol se pôs, as estrelas começaram a aparecer e as pessoas passaram a dizer: a oração, a oração. Nesse momento, um homem da tribo de Banu Taym foi até Ibn Abbas e começou a dizer continuamente, com impaciência: a oração, a oração. Ibn Abbas disse: você está me ensinando a Sunnah? Então disse: vi o Mensageiro de Allah realizar juntas as orações do Zuhr e do Asr, e as do Maghrib e do ‘Isha. Abdullah ibn Shaqiq disse: senti certa inquietação quanto a esse assunto. Por isso, fui até Abu Hurayrah, e ele confirmou a afirmação de Ibn Abbas.

No Al-Mughni, afirma-se que, depois de realizar as duas orações conjuntamente no horário da primeira oração, se a justificativa desaparecer antes de chegar o horário da segunda oração, não será necessário repetir a segunda oração em seu horário determinado. Isso porque a oração foi realizada validamente, e ele ficou desobrigado de sua responsabilidade. Ele cumpriu a obrigação que tinha em relação à referida oração. Portanto, não terá de repeti-la. Além disso, quando realizou as duas orações conjuntamente, sua justificativa ainda estava presente. Assim, o fato de essa justificativa ter desaparecido posteriormente não invalida a oração obrigatória já realizada. Do mesmo modo, se, depois de realizar a oração com tayammum, encontrar água, não será necessário repetir a oração.

30. Rezar em barcos, trens e aviões

É completamente permitido rezar em barcos, trens e aviões. Deve-se rezar da maneira que for possível, e isso não será makruh. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi questionado sobre rezar em um barco, ele respondeu: “Se não houver receio de afogamento, reze de pé no barco.” — Relatado por Ad-Daraqutni e Al-Hakim. Abdullah ibn Abi Utbah disse: Viajei de barco com Jabir, Abu Sa’id e Abu Hurairah, que Allah esteja satisfeito com eles. Eles rezaram em congregação, de pé, dentro do barco. Um deles os conduziu na oração, embora fossem capazes de rezar em terra. — Relatado por Sa’id ibn Mansur.

31. A súplica da viagem:

É mustahabb recitar esta súplica ao sair de casa para viajar:

بسم اللهِ تَوَكَّلْتُ عَلَى اللهِ وَلَا حَوْلَ وَلا قوة إلا بالله، الأمر إنِّي أَعُوذُ بِكَ أَنْ أَضِلَّ أَوْ أَضَلَّ، أَوْ أَزِلَ أَوْ أَزَلَ، أَوْ أَظْلِمَ أَوْ أَظْلَمَ، أَوْ أَهْمَلَ أَوْ يُجْمَلَ عَلَى.

Significado: Em nome de Allah, parti; confiei em Allah; não há força nem poder senão em Allah. Ó Allah, busco refúgio em Ti para não me desviar e para que ninguém me desvie; para não escorregar e para que ninguém me faça escorregar; para não cometer injustiça contra ninguém e para que ninguém cometa injustiça contra mim; para não tratar ninguém mal e para que ninguém me trate mal.”

Depois disso, pode-se escolher e recitar qualquer súplica do Alcorão e dos hadiths. A seguir, são apresentadas algumas súplicas desse tipo:

1. ‘Alī ibn Rabī‘a disse: Vi ‘Alī (que Allah esteja satisfeito com ele), quando lhe trouxeram um animal para montar. Ao colocar o pé no estribo, ele disse: “Bismillāh.” Depois de montar o animal, disse:

سُبْحَانَ الَّذِي سَخَّرَ لَنَا عَذَا وَمَا كُنَّا لَهُ مُقْرِنِينَ وَإِنَّا إِلَى رَبَّنَا لَمُنْقَلِبُونَ .

Significado: “Glorificado seja Aquele que submeteu este animal a nosso serviço; de outro modo, não teríamos podido submetê-lo. E certamente retornaremos ao nosso Senhor.” Em seguida, disse três vezes “Alhamdulillāh” e três vezes “Allāhu akbar”. Depois disse: “Subhānaka, lā ilāha illā anta, qad zalamtu nafsī, faghfir lī; innahu lā yaghfiruz-zunūba illā anta.” Então ‘Alī (que Allah esteja satisfeito com ele) riu. Eu perguntei: “Ó comandante dos crentes, por que riste?” Ele respondeu: “Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazer o mesmo que eu fiz e, depois, vi-o rir.” Perguntei: “Ó Mensageiro de Allah, por que riste?” Ele respondeu: “Quando o servo diz: ‘Ó Allah, perdoa-me’, Allah Se admira e diz: ‘Meu servo sabe que ninguém além de Mim pode perdoar seus pecados.’” — Ahmad, Ibn Hibbān e al-Hākim.

2. Foi narrado por al-Azdī: Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ensinou-lhe que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saía em viagem e montava seu camelo, dizia três vezes “Allāhu akbar” e depois dizia:

سُبْحَانَ الَّذِي سَخَّرَ لَنَا مُلَا وَمَا كُنَّا لَهُ مُقْرِنِينَ وَإِنَّا إِلَى رَبَّنَا لَمُنْقَلِبُونَ اللَّهُ إِنَّا نَسْأَلُكَ فِي سَفَرِنَا منَا الْبِرِّ وَالتَّقْوَى، وَمِنَ الْعَمَلِ مَا تَرْضَى اللَّهُم مَونَ عَلَيْنَا سَفَرَنَا عَذَا وَالْوِعَنَا بَعْدَهُ، اللَّمْ الت الصَّاحِبُ فِي السَّفَرِ، وَالْخَلِيفَةً

فِي الأمل، اللهم إنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنْ وَعِشَاءِ السَّفَرِ وَكَابَةِ المنقلب وسُوءِ الْمَنْظَرِ فِي الْأَهْلِ وَالْمَالِ .

Significado: “Glorificado seja Aquele que submeteu este animal a nosso serviço; caso contrário, não teríamos podido controlá-lo. Ó Allah, nesta nossa viagem, pedimos-Te retidão, cautela e temor a Ti, bem como aquilo que Te agrada. Ó Allah, facilita-nos esta viagem e encurta para nós a sua distância. Ó Allah, Tu és nosso companheiro durante a viagem e nosso representante junto à nossa família e aos nossos bens. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra as dificuldades da viagem, um mau retorno e o olhar invejoso dirigido à minha família e aos meus bens.”

E, quando retornava da viagem, dizia:

ایبون تالِبُونَ عَابِدُونَ لِرَبْنَا حَامِدُونَ .

Significado: Retornamos arrependidos, adorando e louvando o nosso Senhor.” — Ahmad, Muslim.

3. Ibn Abbas narrou: Quando o Mensageiro de Allah ﷺ decidia empreender uma viagem, dizia:

اللَّهم أَنْتَ الصَّاحِبُ فِي السَّفَرِ، وَالْخَلِيفَةُ فِي الْأَهْلِ : اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنَ الضَّبْنَةِ فِي السفرِ وَالْكَابَةِ فِي الْمُنقَلبِ، اللهم أَهْوِ لَنَا الْأَرْضِ، وَمَوْنَ عَلَيْنَا السَّفَرَ.

Significado: Ó Allah, Tu és o nosso companheiro durante a viagem e o nosso representante junto à nossa família. Ó Allah, buscamos refúgio em Ti contra a companhia, durante a viagem, de pessoas cuja ajuda não seja suficiente para nós, e buscamos refúgio em Ti contra a ansiedade e a preocupação no momento do retorno. Ó Allah, encurta para nós as distâncias e facilita para nós a viagem.” E, quando desejava retornar, dizia: “Retornamos arrependidos, adorando e louvando o nosso Senhor.” E, quando chegava junto à sua família, dizia: “Arrependi-me, arrependi-me; retornamos ao nosso Senhor. Que nenhum pecado venha até nós.” Ahmad, Tabarani, Bazzar.

4. Abdullah ibn Sarjas disse: Sempre que o Mensageiro de Allah ﷺ saía em viagem, dizia:

الله إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِن وَعُشَاءِ السَّفَرِ وَكَابَةِ الْمُنْقَلبِ، وَالْحَوْرِ بَعْدَ الْكَوْرَ وَنَعُوَةِ الْمَظْلُومِ، وَسُوْءِ الْمُنْظَرِ فِي الْمَالِ وَالْأَهْلِ .

Significado: Ó Allah, busco refúgio em Ti contra viajar por caminhos difíceis, contra as dificuldades e aflições do retorno, contra a desfiguração após a integridade, contra a súplica de alguém injustiçado e contra uma situação ruim nos bens e na família.” E, quando retornava, dizia o mesmo. Apenas na última expressão, em vez de dizer “nos bens e na família”, mencionava primeiro a família e dizia: “na família e nos bens”. Ahmad, Muslim. 5. Ibn Umar disse: Quando o Mensageiro ﷺ saía para uma expedição ou viagem e então chegava a noite, dizia:

يَا أَرْضِ رَبِّي وَرَبِّكَ اللَّهُ أَعُوذُ بِاللَّهِ مِنْ شَرِّكَ وَشَرِّ مَا فِيكَ وَهَرِ مَا خَلِقَ فِيكَ وَشَرِّ مَادَبٌ عَلَيْكَ، أَعُوذُ بِاللَّهِ مِنْ شَرِّ كُلِّ أَسَدٍ وَأَسْوَدَ وَحَيَّةٍ وَعَقْرَب، وَمِن شَرِّ سَاكِنِ الْبَلَدِ، وَمِنْ قَرٍ وَالِهِ وَمَا وَلَدَ .

Significado: Ó terra, Allah é o meu Senhor e o teu Senhor. Busco refúgio em Allah contra o teu mal, contra o mal de tudo o que há em ti, contra o mal de tudo o que foi criado em ti, contra o mal de tudo o que se move sobre ti, contra todos os leões, pítons, serpentes e escorpiões, contra o mal dos habitantes das cidades e contra o mal de todo pai e de seu filho. Ahmad, Abu Dawud.

6. Khawla bint Hakim, que Allah esteja satisfeito com ela, relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Quem parar para descansar em algum lugar e disser:

أعُوذُ بِكَلِمَاتِ اللَّهِ الثَّامَاتِ كُلِّهَا مِنْ شَرِّ مَا خَلَقَ .

Significado: Busco refúgio nas palavras perfeitas de Allah contra o mal de tudo o que Ele criou. Nada poderá prejudicá-lo até que parta daquele lugar. Todos os livros autênticos de hadith, exceto os de Bukhari e Abu Dawud.

7. Ata ibn Abu Marwan disse: alguém lhe jurou por Allah, Aquele que abriu o mar para Moisés, e Suhaib informou-lhe que, quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, queria entrar numa localidade, assim que a avistava, dizia:

الله رب السموات السبع وما أظللى، وَرَبِّ الْأَرْضِينَ السَّبْعِ وَمَا أَقْلَلْنَ، وَرَبِّ الشَّيَاطِينِ وَمَا أَضْلَلْنَ، وَرَبِّ الرِّيَاحِ وَمَا ذَرَيْنَ، أَسْأَلُكَ خَيْرَ مَذِهِ الْقَرْيَةِ وَغَيْرَ أَهْلِهَا وَخَيْرَ مَا فِيهَا ، وَتَعُوذُ بِكَ مِن قَرِهَا وَقَرٍ أَهْلِهَا وَشَرِّ مَا فِيهَا .

Significado: Ó Senhor dos sete céus e de tudo aquilo que eles cobrem com sua sombra; ó Senhor das sete camadas da terra e de tudo o que ela carrega; Senhor dos grupos de Satanás e daqueles a quem ele desvia; Senhor dos ventos e de tudo aquilo que eles carregam. Peço-Te o bem desta aldeia, de seus habitantes e de tudo o que há em seu interior. E busco refúgio em Ti contra o mal desta aldeia, de seus habitantes e de tudo o que há em seu interior. — Nasa’i, Ibn Hibban, Hakim.

8. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Estávamos viajando com o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando ele queria entrar em uma aldeia, ao avistá-la, dizia:

اللهم بَارِكَ لَنَا فِيهَا اللَّه أَرزَقْنَا جَنَاهَا، وَحَيْنَا إِلَى أَهْلِهَا وَحَيْبُ مَالِعِي أَهْلِهَا إِلَيْنَا.

Significado: Ó Allah, abençoa-nos nesta aldeia (três vezes). Ó Allah, concede-nos os frutos desta aldeia. Torna-nos queridos pelos seus habitantes e torna-nos queridos os seus habitantes piedosos. At-Tabarani.

9. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, queria entrar em algum território, aproximava-se daquele território e dizia:

اللَّهُ إِنِّي أَسْأَلُكَ مِنْ غَيْرِ مُلَهِ وَغَيْرِ مَا جَمَعْنَ فِيْهَا، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ شَرِّهَا وَمَا جَمَعْتَ فِيهَا، اللهم ارْزُقْنَا جَنَاهَا ، وَأَعِلْنَا مِن وَبَاهَا ، وَحَبِبْنَا إِلَى أَهْلِهَا، وَحَيْب صَالِحِي أَهْلِهَا إِلَيْنَا.

Significado: Ó Allah, peço-Te todo o bem que há neste território e todo o bem que acumulaste nele. E busco refúgio em Ti contra todo o mal que há neste território e todo o mal que acumulaste nele. Ó Allah, concede-nos os frutos deste território. Livra-nos dos seus perigos, calamidades e doenças; torna-nos queridos pelos seus habitantes e torna-nos queridos os seus habitantes piedosos. Ibn as-Sunni.

10. Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Quando chegava a última parte da noite, enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava em viagem, ele dizia:

سمعَ سَامِعُ بِحَمْدِ اللهِ وَحُسْنِ بَلَالِهِ عَلَيْنَا ، رَبَّنَا مَا جِبْنَا وَأَفْضِلْ عَلَيْنَا، عَائِنَا بِاللَّهِ مِنَ النَّارِ .

Que seja testemunhado o louvor que proferimos pelas melhores dádivas de Allah. Ó nosso Senhor, acompanha-nos e concede-nos a Tua graça. Buscamos refúgio em Allah contra o Fogo. Muslim.

32. A oração de sexta-feira

1. A excelência da sexta-feira

A sexta-feira é o melhor dia da semana. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O melhor dos dias em que o sol nasce é a sexta-feira. Nesse dia, Adão (que a paz esteja sobre ele) foi criado. Nesse mesmo dia, ele foi admitido no Paraíso. Nesse mesmo dia, foi expulso do Paraíso. E a Hora também ocorrerá nesse dia.” Muslim, Abu Dawud, an-Nasa’i e at-Tirmidhi. Abu Lubaba (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A sexta-feira é o líder de todos os dias e o dia mais honrado perante Allah. Perante Allah, ela é mais honrada do que o dia do Eid al-Fitr e o dia do Eid al-Adha. Ela possui cinco características: nesse dia, Allah criou Adão (que a paz esteja sobre ele); nesse dia, Allah fez Adão (que a paz esteja sobre ele) morrer; nesse dia, há um momento em que, sempre que um servo pede algo a Allah — desde que não peça algo ilícito — Allah certamente lhe concede; nesse dia, a Ressurreição ocorrerá; e todos — os anjos próximos de Allah, os céus, a terra, os ventos, as montanhas e os mares — temem a sexta-feira.” Ahmad e Ibn Majah.

2. Fazer súplicas na sexta-feira

Deve-se esforçar ao máximo para fazer súplicas nos momentos finais da sexta-feira. Abdullah ibn Salam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava sentado. Eu disse: “Encontramos no Livro de Allah que, na sexta-feira, há um momento em que, se algum servo pedir algo a Allah depois da oração, Allah certamente atenderá à sua necessidade.” Abdullah disse: Quando mencionei “um momento”, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez um gesto para mim e disse: “Ou uma parte de um momento.” Eu disse: “Você está correto: ou uma parte de um momento.” Então perguntei: “Quando é esse momento?” Ele respondeu: “Um dos momentos finais do dia.”

Eu disse: “Esse não é o momento da oração.” Ele disse: “Sim, é o momento da oração. Pois, quando o servo crente, depois de realizar a oração, permanece sentado aguardando a próxima oração, considera-se que ele está em oração.” — Ibn Majah. Abu Sa’id e Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ambos) narraram que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na sexta-feira há um momento em que, quando um servo muçulmano pede a Allah alguma coisa boa, Allah certamente lha concede. Esse momento é depois da oração de Asr.” — Ahmad. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A sexta-feira tem doze horas. Entre elas há uma hora em que, quando um servo muçulmano pede algo a Allah, Allah certamente lho concede. Buscai essa hora depois da oração de Asr.” — an-Nasa’i, Abu Dawud e al-Hakim. Abu Salama ibn Abd ar-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que alguns companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se reuniram e discutiram sobre o momento especial da sexta-feira. Quando se levantaram da reunião, nenhum deles tinha dúvida de que esse momento era o final da sexta-feira. Ahmad ibn Hanbal disse que, segundo a maioria dos hadiths, o momento em que se espera que as súplicas sejam aceitas é depois da oração de Asr, e que isso deve ser esperado depois que o sol começa a declinar. O hadith narrado por Muslim e Abu Dawud, de Abu Musa, que ouviu o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falar sobre o momento especial da sexta-feira — que ele se estende desde o momento em que o imame se senta no púlpito até o término da oração — foi classificado como fraco.

3. Multiplicar as bênçãos e saudações ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) durante o dia e a noite de sexta-feira

Foi narrado por Aws (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A sexta-feira é um dos melhores dias para vós. Nesse dia Adão (que a paz esteja sobre ele) foi criado; nesse dia ele morreu; nesse dia será soprado o primeiro toque da Trombeta; e, nesse mesmo dia, após o segundo toque da Trombeta, quase todos os seres vivos dos céus e da terra cairão inconscientes. Portanto, enviai muitas bênçãos sobre mim nesse dia, pois as vossas bênçãos são apresentadas a mim.” Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, como as nossas bênçãos serão apresentadas a vós, quando já estareis misturado à terra?” Ele respondeu: “Allah, o Altíssimo, proibiu que a terra consumisse os corpos dos profetas.” — As cinco coletâneas autênticas de hadith, exceto a de Tirmidhi.

Ibn al-Qayyim disse: É recomendável enviar muitas bênçãos sobre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) durante o dia e a noite de sexta-feira, pois ele disse: “Enviai muitas bênçãos sobre mim durante o dia e a noite de sexta-feira.” O Mensageiro de Allah é a melhor das criaturas, e a sexta-feira é o melhor dos dias. Portanto, enviar bênçãos sobre ele nesse dia possui uma distinção especial que não existe nos outros dias. Além disso, há outro argumento: tudo de bom que a comunidade do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) alcançou neste mundo e no Além foi alcançado por intermédio dele. Assim, Allah concedeu à sua comunidade o bem e a prosperidade deste mundo e do Além. Consequentemente, a maior distinção que eles alcançam é alcançada justamente na sexta-feira. Pois, se forem habitantes do Paraíso, nesse dia entrarão nos grandes palácios do Paraíso e nesse dia receberão bênçãos ainda maiores. Na vida terrena, a sexta-feira é para eles um dia de festa. Nesse dia, Allah aceita as suas súplicas e os auxilia com bens mundanos. Tudo isso eles receberam por causa do Mensageiro de Allah e por intermédio dele. Portanto, para agradecer-lhe e cumprir ao menos o seu direito, deve-se enviar muitas bênçãos sobre ele durante o dia e a noite de sexta-feira.

4. É recomendável recitar a Surata Al-Kahf durante o dia e a noite de sexta-feira:

Foi narrado por Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem recitar a Surata Al-Kahf durante o dia de sexta-feira terá uma luz que permanecerá com ele e o iluminará durante todo o período entre duas sextas-feiras.” — Nasa’i, Bayhaqi e Hakim. Foi narrado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem recitar a Surata Al-Kahf na sexta-feira terá uma luz brilhando desde debaixo dos seus pés até o céu, que o iluminará até o Dia da Ressurreição, e todos os seus pecados entre duas sextas-feiras serão perdoados.” — Ibn Mardawayh.

No entanto, é makruh recitar a Surata Al-Kahf em voz alta na mesquita. O xeique Muhammad Abduh emitiu uma fatwa segundo a qual é makruh reservar exclusivamente a sexta-feira para o jejum, reservar a noite de sexta-feira para a oração e recitar especificamente a Surata Al-Kahf somente nesse dia. Isso porque a Surata Al-Kahf não costuma ser recitada sem uma recitação melodiosa e agradável. Entretanto, as pessoas na mesquita conversarão, farão algazarra e não escutarão atentamente. Além disso, o recitador do Alcorão muitas vezes faz com que os que estão orando se enganem nas súplicas e nas suratas da oração, confundindo-os. Portanto, em tal situação, não é correto recitar a Surata Al-Kahf.

5. Banho, higiene, uso do miswak e de perfume na sexta-feira

É recomendável que todo aquele que deseja comparecer à oração de sexta-feira ou participar de qualquer outra reunião adote o mais elevado nível de limpeza e adorno, seja homem ou mulher, idoso ou menor de idade, viajante ou residente. Isso inclui tomar banho, vestir a melhor roupa, usar perfume e limpar os dentes, entre outras coisas. Há muitos hadiths sobre esse assunto. Por exemplo:
[Para quem não pretende ir à mesquita, o banho não é recomendável. Pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem comparecer à oração de sexta-feira, seja homem ou mulher, deve tomar banho. Quanto àquele que não comparecer, não precisa tomar banho.” — Bayhaqi].

a. Foi narrado por Abu Sa’id (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na sexta-feira, todo muçulmano deve tomar banho e vestir a melhor roupa. E, se tiver perfume, deve aplicá-lo.” — Ahmad, Bukhari e Muslim.

b. Relatado por Ibn Salam (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sentado no púlpito numa sexta-feira, disse: “Não há culpa se algum de vós comprar duas roupas adicionais exclusivamente para a sexta-feira, além das roupas que usa diariamente no trabalho.” — Abu Dawud, Ibn Majah. [Por “trabalho” entende-se o emprego. Al-Bayhaqi relatou, por intermédio de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele): “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha uma roupa especial que usava no Eid e na sexta-feira.” Também é mencionado nos hadiths que é recomendável usar uma roupa especial na sexta-feira, diferente das roupas dos outros dias.]

c. Relatado por Salman al-Farisi (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se alguém tomar banho na sexta-feira, purificar-se tanto quanto puder, passar óleo nos cabelos, penteá-los e usar perfume; depois for à mesquita, não se intrometer entre duas pessoas sentadas juntas nem as separar para entrar na fileira; em seguida, realizar a oração obrigatória e escutar atentamente o que o imame disser, todos os seus pecados entre uma sexta-feira e a seguinte serão perdoados.” — Ahmad, al-Bukhari. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava dizer: “E mais três dias”, pois Allah concede dez recompensas por uma boa ação. O perdão dos pecados, porém, limita-se aos pecados menores, pois no hadith relatado por Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) em Ibn Majah está escrito: “desde que não cometa um pecado grave.”

d. Ahmad relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “É dever de todo muçulmano tomar banho, usar perfume e limpar os dentes na sexta-feira.”

e. Al-Tabarani relatou, por intermédio de Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse numa sexta-feira: “Ó muçulmanos, Allah fez deste dia um Eid para vós. Portanto, tomai banho e limpai os dentes.”

6. Ir cedo para a oração de sexta-feira

É recomendável que os fiéis, exceto o imame, vão cedo à mesquita para a oração de sexta-feira. Alqamah disse: “Fui à sexta-feira com Abdullah ibn Masud. Ao chegar, ele viu que três pessoas já haviam chegado antes dele. Disse: ‘Sou o quarto entre quatro. O quarto também não está distante de Allah.’ Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: ‘No Dia da Ressurreição, as pessoas ocuparão seus lugares de acordo com quão cedo foram à oração de sexta-feira: primeiro, segundo, terceiro e quarto, nessa ordem. O quarto também não estará distante de Allah.’” — Ibn Majah. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem tomar banho na sexta-feira como o banho devido pela emissão seminal — isto é, de maneira muito completa — e depois for cedo à mesquita, será como quem sacrificou uma camela. Quem for na segunda hora será como quem sacrificou uma vaca; quem for na terceira hora será como quem sacrificou um carneiro com chifres; quem for na quarta hora será como quem sacrificou uma galinha; e quem for na quinta hora será como quem sacrificou um ovo. Quando o imame chega, os anjos comparecem para ouvir o sermão.” — Todas as coleções autênticas de hadith, exceto Ibn Majah.

Os shafiitas e um grupo de eruditos, ao explicar este hadith, dizem que essas horas são as horas do dia; isto é, é recomendável ir à mesquita desde o início do dia, desde o amanhecer. Segundo Malik, essas horas são frações da hora anterior e da hora posterior ao declínio do sol. Outros dizem que são frações da hora anterior ao declínio do sol. Ibn Rushd considera correta esta última opinião, pois, depois do declínio do sol, ir à mesquita torna-se obrigatório.

7. Avançar passando por cima dos pescoços dos fiéis

At-Tirmidhi citou a opinião dos eruditos de que eles desaprovavam veementemente que aqueles que chegassem mais tarde à mesquita na sexta-feira passassem por cima dos pescoços dos fiéis que haviam chegado antes, para alcançar a primeira fileira. Abdullah ibn Busr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Na sexta-feira, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava proferindo o sermão. Um homem chegou e começou a passar por cima dos pescoços dos fiéis. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Sente-se. Você chegou tarde e está incomodando as pessoas.” Abu Dawud, An-Nasa’i, Ahmad.

Contudo, foi concedida permissão ao imame e àquele que deseja chegar a um espaço vazio na frente e para quem passar por cima dos pescoços seja inevitável. Também constitui exceção aquele que estava em uma das fileiras da frente, saiu por alguma necessidade e deseja retornar ao seu lugar anterior. A condição, porém, é que se evite incomodar as pessoas. Uqbah disse: Rezei a oração da tarde em Medina atrás do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Após a oração, ele saiu muito rapidamente e passou por cima dos pescoços das pessoas até chegar ao aposento de uma de suas esposas. As pessoas ficaram alarmadas com a sua partida apressada. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltou logo depois e viu que as pessoas estavam admiradas com a sua rapidez. Então disse: “Lembrei-me de algum ouro que tínhamos, e não me agradava que ele me retivesse; por isso, fui ordenar que fosse distribuído.” Al-Bukhari, An-Nasa’i.

8. É permitido realizar orações voluntárias antes da oração de sexta-feira?

É permitido realizar orações voluntárias antes da sexta-feira enquanto o imame não sair de seu aposento. Depois que o imame sair, deve-se interromper as orações voluntárias. A oração de saudação à mesquita, porém, é uma exceção: ela pode ser realizada mesmo durante o sermão, mas deve ser feita brevemente. Entretanto, se o fiel entrar na mesquita na parte final do sermão e o tempo para realizar a oração de saudação à mesquita for limitado, não deverá realizá-la.

a. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) prolongava a oração voluntária antes da sexta-feira e, depois dela, rezava duas unidades, dizendo: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fazia isso.” Abu Dawud.

b. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Quem tomar banho na sexta-feira, depois for à oração de sexta-feira e rezar o que lhe estiver prescrito, permanecer em silêncio até ouvir o sermão do imame terminar e rezar com ele terá seus pecados entre aquela sexta-feira e a sexta-feira seguinte, além de mais três dias, perdoados.” Muslim.

c. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Um homem entrou na mesquita na sexta-feira, enquanto o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proferia o sermão. Ele perguntou: “Você rezou?” O homem respondeu: “Não.” Ele disse: “Então, reze duas unidades.” Todas as coletâneas de hadith autênticos. Em outra narração consta: “Quando um de vós chegar à mesquita na sexta-feira enquanto o imame estiver proferindo o sermão, deverá rezar brevemente duas unidades.” Ahmad, Muslim, Abu Dawud. Em outra narração consta: “Quando um de vós chegar à mesquita na sexta-feira depois que o imame tiver saído, deverá rezar duas unidades.” Al-Bukhari e Muslim.

9. Se um fiel sentir sonolência na mesquita, deve mudar-se para outro lugar

Enquanto estiver na mesquita, se alguém for tomado por forte sonolência, deve mudar de lugar e ir para outro local. Isso porque o movimento pode afastar a sonolência e trazer o estado de vigília. Isso se aplica igualmente à sexta-feira e aos demais dias.

Narrado por Ibn Umar: o Mensageiro de Allah disse: “Se algum de vós for tomado pela sonolência enquanto estiver na mesquita, que se desloque do lugar onde está sentado para outro lugar.” — Ahmad, Abu Dawud, al-Bayhaqi e at-Tirmidhi.

10. As provas da obrigatoriedade da oração de sexta-feira

Os eruditos concordam que a oração de sexta-feira é uma obrigação individual e consiste em duas rak‘at. Allah disse: “Ó crentes, quando for feito o chamado para a oração na sexta-feira, apressai-vos para a recordação de Allah e deixai o comércio. Se soubésseis, isso seria melhor para vós.” (Surata Al-Jumu‘ah)

a. Al-Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Abu Hurayrah, que o Mensageiro de Allah disse: “Embora eu tenha vindo ao mundo no fim dos tempos, no Dia da Ressurreição o nosso julgamento será o primeiro de todos, embora os outros tenham recebido o Livro antes de nós, e nós o tenhamos recebido depois deles. Em seguida, este dia foi estabelecido como obrigatório para eles, mas divergiram a respeito dele. Allah nos guiou quanto a esse dia. Assim, as pessoas nos seguem em relação a este dia. O dia dos judeus é amanhã, sábado, e o dos cristãos é no dia seguinte, domingo.”

b. Ahmad e Muslim narram, por intermédio de Ibn Mas‘ud, que um grupo não comparecia à oração de sexta-feira. A respeito deles, o Mensageiro de Allah disse: “Tenho vontade de designar alguém para conduzir as pessoas na oração e, depois, atear fogo às casas daqueles que não comparecem à oração de sexta-feira.” Ahmad, Muslim.

c. Abu Hurayrah e Ibn Umar informaram que ambos ouviram o Mensageiro de Allah dizer no púlpito: “Aqueles que abandonam a oração de sexta-feira devem cessar esse abandono; caso contrário, Allah certamente selará os seus corações, e então eles se tornarão negligentes.” Muslim, Ahmad e an-Nasa’i.

d. O Companheiro Abu al-Ja‘d disse: o Mensageiro de Allah disse: “Quem abandonar três orações de sexta-feira por preguiça e desprezo, Allah selará o seu coração.” As cinco coletâneas autênticas de hadith.

11. Sobre quem a oração de sexta-feira é obrigatória e sobre quem não é

A oração de sexta-feira é obrigatória para todo muçulmano livre, racional e adulto que seja capaz de comparecer à congregação da sexta-feira e esteja livre de uma justificativa que lhe permita deixar de participar dela.
Por outro lado, aqueles sobre quem a oração de sexta-feira não é obrigatória são:

1 e 2. Mulheres e crianças. Os sábios são unânimes quanto a isso.

3. A pessoa doente para quem ir à oração de sexta-feira seja extremamente penoso, ou que tema que sua doença se agrave ou que sua recuperação seja retardada caso vá à mesquita para participar da oração de sexta-feira. Da mesma forma, aquele que estiver encarregado de cuidar e tratar de um doente, quando for impossível que outra pessoa o substitua nessa tarefa.

Tariq ibn Shihab narrou que o Mensageiro de Allah disse: “A oração de sexta-feira em congregação é obrigatória para todo muçulmano, mas quatro pessoas foram isentadas: o escravo acorrentado, a mulher, a criança e o doente.”

4. O viajante. Se o viajante fizer uma parada quando chegar o horário da oração de sexta-feira, segundo a maioria dos sábios, ela não é obrigatória para ele. Isso porque o Mensageiro de Allah não realizava a oração de sexta-feira durante as viagens. Quando estava em Arafat, durante a sua Peregrinação de Despedida, era uma sexta-feira. Ele realizou as orações do meio-dia e da tarde juntas, no horário da oração do meio-dia, e não realizou a oração de sexta-feira. Os califas também fizeram o mesmo.

5 e 6. O devedor necessitado que teme ser preso, e aquele que foge por medo de um governante tirano. Isso porque o Mensageiro de Allah disse: “Aquele que ouvir o chamado para a oração, mas não lhe responder — isto é, não for à mesquita — sua oração não será válida.” Naturalmente, se houver uma justificativa, o caso é diferente. As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, qual é a justificativa?” Ele respondeu: “O medo ou a doença.” Abu Dawud.

7. Toda pessoa que tenha uma justificativa está autorizada a deixar de participar da congregação, por exemplo, devido à chuva, à lama, ao frio e coisas semelhantes.
Ibn Abbas disse ao seu muezim, num dia de chuva intensa: “Quando disseres ‘Ashhadu anna Muhammadan Rasulullah’, não digas ‘Hayya ‘alas-salah’. Em vez disso, dize: ‘Sallu fi buyutikum’ (Orai em vossas próprias casas).” Pareceu que as pessoas não gostaram disso. Então ele disse: “Aquele que é melhor do que eu — isto é, o Mensageiro de Allah — fez o mesmo. A oração de sexta-feira é uma obrigação que exige perseverança. Eu não queria que vos fizésseis sair por caminhos lamacentos e escorregadios para realizá-la.” Abu Mulayh disse que seu pai encontrou o Mensageiro de Allah numa sexta-feira, e eles foram surpreendidos pela chuva. Contudo, a chuva era tão fraca que nem sequer molhou as solas dos seus sapatos. O Mensageiro de Allah ordenou-lhes que orassem sobre os seus próprios animais de montaria. Abu Dawud e Ibn Majah.

Naquele momento, a oração de sexta-feira não era obrigatória para nenhum deles; sua única obrigação era realizar a oração do meio-dia. Contudo, se alguém realizasse a oração de sexta-feira, ela seria válida, e não teria de repetir a oração obrigatória do meio-dia [para quem já realizou a oração de sexta-feira, é consensualmente ilícito realizar a oração do meio-dia, pois a oração de sexta-feira substitui a oração do meio-dia. Allah não nos impôs seis orações diárias. Aqueles que dizem ser permitido realizar a oração do meio-dia depois da oração de sexta-feira não possuem nenhuma prova proveniente de hadith, do Alcorão ou de qualquer imame, nem qualquer argumento racional]. Durante a época do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), as mulheres iam à mesquita e realizavam a oração de sexta-feira com ele.

12. O horário da oração de sexta-feira

A opinião da maioria dos Companheiros e dos tabi‘un é que o horário da oração de sexta-feira é o mesmo da oração do meio-dia. Ahmad, al-Bukhari, Abu Dawud, at-Tirmidhi e al-Bayhaqi narraram, sob a autoridade de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizava a oração de sexta-feira quando o sol começava a declinar para o oeste. Ahmad e Muslim narraram, sob a autoridade de Salamah ibn al-Akwa‘, que ele disse: “Realizávamos a oração de sexta-feira com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), depois voltávamos e observávamos até onde chegavam as sombras de cada coisa.” O Imame al-Bukhari disse:

Assim que o sol começa a declinar para o oeste, começa o horário da oração de sexta-feira. Uma opinião semelhante foi transmitida de ‘Umar e ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ambos), de an-Nu‘man ibn Bashir e de ‘Umar ibn Harith. Ash-Shafi‘i disse: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Bakr, ‘Umar, ‘Uthman e todos os imames realizavam a oração de sexta-feira depois que o sol começava a declinar.

Segundo os hambalitas e Ishaq, o horário da oração de sexta-feira vai desde o início do horário da oração do ‘Id até o fim do horário da oração do meio-dia. Sua prova é um hadith narrado por Ahmad, Muslim e an-Nasa’i, sob a autoridade de Jabir. Ele disse: “Depois que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conduzia a oração de sexta-feira, íamos até nossos camelos e, quando o sol começava a se mover, fazíamos com que eles descansassem.” Isso prova que eles realizavam a oração do meio-dia antes do declínio do sol. Eles também apresentam como prova o hadith de ‘Abdullah ibn Saydan as-Sulami. Ele disse: “Participei da oração de sexta-feira com Abu Bakr. Seu sermão e sua oração ocorreram antes do meio-dia. Depois, participei dela com ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele); sua oração e seu sermão eram concluídos ao meio-dia. Mais tarde, também realizei a oração de sexta-feira com ‘Uthman; sua oração e seu sermão ocorriam quando o sol começava a declinar. Nunca vi ninguém contestar isso ou desaprová-lo.” Ad-Daraqutni e Ahmad.

Também foi narrado de Ibn Mas‘ud, Jabir, Sa‘id e Mu‘awiyah que eles realizavam a oração antes do declínio do sol, e ninguém contestou isso. A maioria dos estudiosos afirmou, a respeito do hadith de Jabir, que se trata de uma descrição exagerada da antecipação da oração: isto é, ela era realizada imediatamente após o declínio do sol, sem esperar um pouco para que o calor diminuísse. Não se esperava que a intensidade do calor diminuísse. A oração e o descanso dos camelos ocorriam depois do declínio do sol.

13. O número de pessoas para a congregação da oração de sexta-feira

Não há qualquer divergência entre os estudiosos de que a congregação é uma condição indispensável para a validade da oração de sexta-feira. Num hadith narrado por Tariq ibn Shihab, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A oração de sexta-feira em congregação é obrigatória para todo muçulmano.” Contudo, há divergência quanto ao número de pessoas necessário para que a oração de sexta-feira seja válida. O hafiz Ibn Hajar mencionou cerca de quinze opiniões em Fath al-Bari. A opinião preponderante, porém, é que a oração de sexta-feira é válida com duas ou mais pessoas, pois o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A congregação se constitui com duas ou mais pessoas.” Ash-Shawkani disse: “Quando todas as demais orações são válidas com uma congregação de duas pessoas, a oração de sexta-feira também é uma oração. Sem uma prova, nenhuma regra contrária às demais orações pode ser aplicada a ela. Não há prova de que, para a congregação da oração de sexta-feira, seja necessário um número maior de pessoas do que aquele com o qual a congregação é válida nas demais orações.” ‘Abdul-Haqq disse: “Não há nenhum hadith autêntico sobre o número de pessoas na oração de sexta-feira.” As-Suyuti também disse: “Nenhum hadith menciona um número específico.” A opinião de at-Tabari, Dawud, Ibrahim an-Nakha‘i e Ibn Hazm é semelhante.

14. O local da oração de sexta-feira

É lícito realizar a oração de sexta-feira na cidade, no porto, no centro urbano, na aldeia, na mesquita, nos edifícios da cidade ou nas áreas sob sua jurisdição. Além disso, a oração de sexta-feira pode ser realizada em mais de um local. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu aos habitantes do Barém, por meio de Ibn Abi Shaybah: “Realizai a oração de sexta-feira onde quer que estejais.” Tanto as cidades quanto as aldeias estão comprovadamente entre os locais válidos para a oração de sexta-feira. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois da primeira oração de sexta-feira realizada na Mesquita do Profeta, em Medina, a primeira oração de sexta-feira seguinte foi realizada na aldeia de Juwāthā, no Barém.” — Bukhari, Abu Dawud. Layth ibn Sa‘d disse: “Os habitantes do Egito e de suas regiões costeiras realizavam a oração de sexta-feira, por ordem de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), durante o período de ambos, e havia Companheiros entre eles.” Ibn Umar disse: “Eu via os habitantes das áreas entre Meca e Medina realizando a oração de sexta-feira, e ninguém os repreendia por isso.” — Abd al-Razzaq.

15. Análise das condições impostas pelos juristas para a oração de sexta-feira

Como já disse, as condições para que a oração de sexta-feira seja obrigatória são: ser homem, ser livre, estar saudável, ser residente — isto é, não estar em viagem — e não possuir uma desculpa que torne necessário abster-se de realizar a oração de sexta-feira. Também já mencionei que a congregação é uma condição para a validade da oração de sexta-feira. É somente isso que se encontra nas palavras e ações do Mensageiro, e nas palavras e ações dos nobres Companheiros; e é somente isso que Allah nos impôs como responsabilidade. Quanto às condições adicionais impostas pelos juristas, além dessas, elas não têm fundamento nem prova. Aqui, considero suficiente citar as palavras do autor da obra *Ar-Rawdat an-Nadiyyah*:

“A oração de sexta-feira é como as demais orações, pois não foi encontrada nenhuma prova que demonstre que essa oração seja diferente das outras. Essa afirmação já indica que são inválidas e infundadas todas as condições mencionadas para ela, como a existência de um imame central, uma grande cidade e um número específico de pessoas. Com efeito, não há nenhuma prova por trás dessas condições que demonstre ser sua presença necessária ou obrigatória, nem sequer recomendável. Pelo contrário, se em algum lugar apenas duas pessoas realizarem a oração de sexta-feira, sem haver ali ninguém além delas, serão consideradas como tendo cumprido a obrigação que lhes cabia. Se uma delas fizer o sermão, terá cumprido a sunnah do sermão; e, se não o fizer, terá apenas deixado de cumprir uma sunnah. Se não existisse o hadith de Tariq ibn Shihab, que estabelece que todo muçulmano deve estar presente em uma congregação e que, durante o período do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), essa oração nunca foi realizada sem congregação, então a obrigação seria cumprida mesmo que essa oração fosse feita individualmente, assim como as demais orações. Por outro lado, sobre a afirmação de que são necessários pelo menos quatro seguidores e de que é necessário um governante para dirigir a oração, os imames de grande prestígio disseram claramente que isso não são palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), nem palavras dos Companheiros. Portanto, não há necessidade de explicá-las ou analisá-las. Esse é o posicionamento de Hasan al-Basri. Quando se reflete sobre as opiniões inventadas e as concepções falsas que se difundiram em torno dessa venerabilíssima adoração da oração de sexta-feira — que Allah tornou obrigatória para os muçulmanos uma vez por semana, em congregação, e estabeleceu como um importante símbolo do Islã —, ninguém pode deixar de se espantar. Alguns dizem, por exemplo, que o sermão é como uma oração de duas unidades e que a oração daquele que não ouviu o sermão não é válida. Só pode dizer isso quem não recebeu este hadith autêntico do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): ‘Se alguém perder uma unidade da oração de sexta-feira, que faça mais uma unidade depois de terminar a oração; com isso, sua oração estará completa.’ Outros dizem que a oração de sexta-feira não é válida sem três pessoas, incluindo o imame. Alguns dizem que são necessárias quatro pessoas; outros, sete; outros, nove; outros, doze; outros, vinte; outros, trinta; outros, quarenta; outros, cinquenta; e outros, setenta. Há ainda quem diga que é necessária uma grande congregação, sem especificar um número. Alguns dizem que a oração de sexta-feira não é válida senão em uma grande cidade. Ao definir essa cidade, dizem que ela deve ter alguns milhares de habitantes; outros dizem que nela devem existir uma mesquita congregacional e banheiros públicos. Muitas outras afirmações estranhas desse tipo também circulam. Alguns dizem que a oração de sexta-feira não é obrigatória sem o governante supremo do país. Se ele não estiver disponível, ou se for alguém cuja honestidade e justiça não sejam satisfatórias sob algum aspecto, então a oração de sexta-feira não seria obrigatória nem válida. Muitas outras afirmações semelhantes podem ser encontradas, sem que haja absolutamente qualquer prova por trás delas. Não se encontra no Alcorão nem no hadith uma única palavra que, conforme alegam, prove que todas essas coisas sejam condições para a validade da oração de sexta-feira, ou que sejam obrigatórias ou partes indispensáveis dela. É surpreendente aonde as opiniões inventadas podem levar as pessoas! Quantas coisas absurdas e extravagantes saem de suas cabeças, coisas que só têm lugar em rodas de histórias e que não possuem a menor relação com a pura Sharia islâmica. Somente aquele que conhece o Alcorão e a Sunnah, permanece firme na verdade e na justiça e não se desvia da verdade por ser influenciado por palavras inventadas está consciente dessa realidade. Qualquer pessoa que pronuncie palavras falsas e errôneas deve tê-las atiradas de volta contra o próprio rosto. Entre os servos de Allah, o árbitro definitivo é o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro. Allah disse:

فَإِن تَنَازَعْتُمْ فِي شَيْءٍ فَرُدُّوهُ إِلَى اللَّهِ وَالرَّسُولِ .

“Se disputardes sobre qualquer questão, apresentai-a a Allah e ao Mensageiro

إِنَّمَا كَانَ قَوْلُ الْمُؤْمِنِينَ إِذَا تَقُوْا إِلَى اللهِ وَرَسُولِهِ لِيَحْكُمَ بَيْنَهُمْ أَن يَقُولُوا سَمِعْنَا وَأَطَعْنَا “

“Quando os crentes são chamados a Allah e ao Mensageiro para que suas disputas sejam resolvidas, sua única resposta é: “Ouvimos e obedecemos”.”

فَلا وَرَبِّكَ لَا يُؤْمِنُونَ حَتَّى يُحَكِّمُوكَ فِيمَا شَجَرَ بَيْنَهُمْ ثُمَّ لَا يَجِدُوا فِي أَنْفُسِهِمْ حَرَجًا مِمَّا قَضَيْت ويسلموا تسليما .

“Não! Pelo teu Senhor, eles não serão crentes até que te tomem como juiz nas questões em que divergem entre si; depois, não encontrem em seus corações qualquer dúvida ou resistência quanto à decisão que proferires e se submetam completamente a ela.”

Estes versículos e outros semelhantes provam decisivamente que, em caso de divergência, o único árbitro é a decisão de Allah e de Seu Mensageiro. A decisão de Allah é o Seu Livro. E a decisão do Mensageiro, após sua morte, não é outra senão a sua Sunnah. Allah não concedeu a nenhum de Seus servos — por maior que seja sua erudição ou conhecimento — o direito e a autoridade de afirmar, acerca da Sharia, algo que não tenha prova no Alcorão e na Sunnah. Embora seja permitido ao mujtahid agir, em determinada questão, segundo sua própria opinião ponderada quando não encontra evidências no Alcorão e na Sunnah, não foi permitido a ninguém seguir essa opinião de modo irrefletido e cego, por maior que seja o mujtahid em questão. Juro por Allah que fico ainda mais admirado quando vejo esse tipo de imitação cega entre os autores, nos livros destinados a orientar o povo e nos conselhos dirigidos às pessoas comuns de pouco conhecimento e instrução. Isso não está limitado aos confins de uma escola jurídica, país ou época; ao contrário, pode ser visto em todas as épocas, em todos os países e em todas as escolas jurídicas: uma pessoa posterior imita cegamente as palavras de uma pessoa anterior, como se as tivesse recebido diretamente do Alcorão, quando, na realidade, são palavras inteiramente inventadas. Algumas afirmações específicas desse tipo tornaram-se especialmente difundidas no âmbito desta adoração, isto é, a oração de sexta-feira, embora não haja qualquer prova a seu favor no Alcorão, na Sunnah, na Sharia ou na razão.

16. O sermão ou discurso de sexta-feira

Regulamentos relativos ao sermão: segundo a maioria dos sábios, o sermão de sexta-feira é obrigatório. Como prova, mencionam que está continuamente comprovado por hadiths autênticos que o Mensageiro (s.a.w.) proferia um sermão em toda sexta-feira. Também citam como prova estas palavras do Mensageiro de Allah (s.a.w.): “Orai da mesma forma que me vistes orar.” E citam ainda as palavras de Allah: “Ó crentes! Quando for feito o chamado para a oração na sexta-feira, dirigi-vos prontamente à recordação de Allah.”

Aqui, como a ordem de dirigir-se apressadamente à recordação de Allah torna obrigatória essa ação, e como não pode ser obrigatório apressar-se para algo que não é obrigatório, fica provado que a recordação de Allah também é obrigatória. E essa recordação foi chamada de sermão, pois no sermão estão contidos elementos que incentivam a recordar Allah. Al-Shawkani analisou essas provas. Em resposta ao primeiro argumento, disse: o fato de o Mensageiro (s.a.w.) proferir regularmente o sermão não o torna obrigatório. Em resposta ao segundo argumento, disse: aqui foi ordenado que se faça corretamente a oração segundo o modo e o método com que ele a fazia. Mas o sermão não é oração. Em resposta ao terceiro argumento, disse: a recordação à qual foi ordenado dirigir-se apressadamente não é outra coisa senão a oração. No máximo, pode-se dizer que a ordem oscila entre a oração e o sermão. Entretanto, não há divergência quanto ao fato de a oração ser obrigatória, ao passo que o caráter obrigatório ou não obrigatório do sermão é objeto de divergência. Portanto, não há margem para concluir, com base nesse argumento, que o sermão seja obrigatório. Por fim, Al-Shawkani disse: consequentemente, é evidente que está correta a opinião de Hasan al-Basri, Dawud al-Zahiri, al-Juwayni, Abd al-Malik da escola maliquita e Ibn al-Majishun: o sermão de sexta-feira é apenas recomendado.

É recomendado que o imame cumprimente os presentes depois de subir ao púlpito. Jabir (r.a.) disse: o Mensageiro de Allah (s.a.w.) cumprimentava os presentes assim que subia ao púlpito. — Ibn Majah. Em outro hadith, consta: quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) subia ao púlpito, voltava-se para o povo e dizia: “As-salamu alaykum.” Sha‘bi disse: Abu Bakr (r.a.) e Umar (r.a.) faziam o mesmo. Sa’ib (r.a.) disse: durante a época do Mensageiro (s.a.w.), de Umar (r.a.) e de Abu Bakr (r.a.), o primeiro chamado para a oração de sexta-feira era feito depois que o imame subia ao púlpito. Mais tarde, durante o governo de Uthman (r.a.), quando o número de pessoas aumentou, ele instituiu um terceiro chamado, feito no minarete. O Mensageiro (s.a.w.) tinha apenas um mu’adhdhin. — Bukhari, Nasa’i e Abu Dawud. Nas narrações de Ahmad e Nasa’i consta: quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) se sentava no púlpito, Bilal fazia o chamado para a oração; e, quando ele descia, Bilal fazia a iqamah. ‘Adi ibn Thabit disse: quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) ficava de pé sobre o púlpito, seus Companheiros sentavam-se voltados para ele. — Ibn Majah. Al-Tirmidhi disse: era segundo este hadith que os Companheiros e os que vieram depois deles agiam. Eles consideravam recomendado que as pessoas permanecessem sentadas voltadas para o imame enquanto ele proferia o sermão.

Louvar a Allah e ao Mensageiro, aconselhar e recitar o Alcorão durante o sermão

Mustahabb:

Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não há bem algum em uma fala que não comece com o louvor a Allah.” Abu Dawud e Ahmad.

Em outra narração consta: “O sermão que não contém a profissão de fé é como uma mão acometida pela lepra.” Ahmad, Abu Dawud e Tirmidhi. Na narração de Tirmidhi, em vez de “profissão de fé”, aparece “tashahhud”. Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando o Mensageiro de Allah recitava o tashahhud, dizia: “Alhamdu lillahi nast‘ainuhu wa nastaghfiruhu wa na‘udhu billahi min shururi anfusina, may yahdillahu fala mudilla lahu wa may yudlil fala hadiya lahu, wa ashhadu alla ilaha illallah wa ashhadu anna Muhammadan ‘abduhu wa rasuluhu, arsalahu bil-haqqi bashiran wa nadhiran baina yadai as-sa‘ah, may yuti‘illaha wa rasulahu faqad rashada wa man ya‘sihima fa-innahu la yadurru illa nafsahu, wa la yadurrullaha shai’an.” Quando Ibn Shihab foi questionado sobre o tashahhud do Mensageiro de Allah no dia de sexta-feira, ele mencionou o tashahhud acima. Nele consta: “Wa man ya‘sihima faqad ghawa.”

Ambas as narrações acima foram extraídas de Abu Dawud. (Tradução da profissão de fé e do tashahhud acima: Todo louvor pertence a Allah. Somente d’Ele pedimos ajuda e perdão. Buscamos refúgio em Allah contra o mal de nós mesmos. Aquele a quem Allah guia, ninguém pode desencaminhar; e aquele a quem Allah desencaminha, ninguém pode guiar. Testemunho que não há divindade além de Allah. E testemunho também que Muhammad é Seu servo e Mensageiro. Ele o enviou com a verdade, como anunciador de boas-novas e admoestador antes da Hora. Quem obedecer a Allah e ao Seu Mensageiro estará no caminho reto. E quem desobedecer a Allah e ao Seu Mensageiro só prejudicará a si mesmo; ele se desviará e não poderá causar dano algum a Allah.) Jabir ibn Samura (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazia o sermão de pé e sentava-se entre os dois sermões. Recitava diversos versículos do Alcorão para o povo e dava-lhe conselhos. Todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Bukhari e Tirmidhi. Ele também narrou que o Mensageiro de Allah não prolongava o sermão de sexta-feira. Era um conjunto de algumas palavras fáceis e breves. Abu Dawud. Umm Hisham disse: Aprendi de cor a surata Qaf apenas por ouvi-la da boca do Mensageiro de Allah, pois ele a recitava do púlpito durante o sermão de toda sexta-feira. Ahmad, Muslim, Nasa’i e Abu Dawud. Ya‘la ibn Umayya (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro de Allah recitar no púlpito: “Wa nadaw ya Maliku” (surata Az-Zukhruf). Bukhari e Muslim. Em Ibn Majah consta: Ubayy (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah ficava de pé às sextas-feiras, lembrava ao povo as antigas nações destruídas pelo castigo terreno de Allah e recitava a surata Tabarakalladhi.

Na obra Rawdat an-Nadiyyah consta: O sermão conforme a Shariah é aquele que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava proferir ao povo, transmitindo-lhe as boas-novas e as advertências relativas à Vida Futura. Portanto, esse é o espírito do sermão, e foi por isso que ele foi instituído pela Shariah. Já louvar a Allah no sermão, enviar bênçãos ao Mensageiro de Allah ou recitar alguma parte do Alcorão são elementos externos ao objetivo fundamental da instituição do sermão pela Shariah. O fato de essas coisas ocorrerem nos sermões do Mensageiro de Allah não prova que sejam o objetivo supremo e absoluto do sermão, nem uma condição indispensável. Qualquer pessoa justa reconhecerá que o objetivo fundamental do sermão é o sermão exortativo ou o bom conselho, e não o louvor a Allah e o envio de bênçãos ao Mensageiro no início do sermão.

É costume arraigado dos árabes que, quando alguém assumia um cargo ou proferia um discurso, começasse louvando a Allah e ao Seu Mensageiro. Esse é, de fato, um costume muito bom e excelente. Contudo, esse não é o objetivo principal; o objetivo são as palavras que vêm depois. Se alguém dissesse que, quando uma pessoa se levanta para discursar em uma reunião ou assembleia, nada além do louvor a Allah e das bênçãos ao Mensageiro deve servir de conteúdo motivador por trás de seu discurso, isso não seria aceitável; pelo contrário, toda pessoa de mente sã rejeitaria tal ideia. Uma vez reconhecido isso, fica claro que, no sermão de sexta-feira, o bom conselho ocupa o lugar de objetivo principal, enquanto o louvor a Allah e as bênçãos ao Mensageiro não constituem o objetivo fundamental. Assim, quando o pregador conclui a tarefa de dar bons conselhos, ele realiza o ato genuinamente prescrito pela Shariah. Contudo, se também incluir em seu discurso o louvor a Allah e ao Seu Mensageiro, ou acrescentar a ele passagens inspiradoras do Alcorão, isso será ainda melhor e mais completo.

Proferir os dois sermões de pé e sentar-se brevemente entre eles
Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazia o sermão de sexta-feira de pé; depois sentava-se e então tornava a levantar-se, como fazem hoje os pregadores. Todas as coletâneas autênticas de hadith. Jabir ibn Samura disse: O Mensageiro de Allah fazia o sermão de pé; depois sentava-se, em seguida tornava a levantar-se e fazia o sermão de pé. Portanto, quem disser que ele fazia o sermão sentado estará mentindo. Pois, por Allah, rezei com ele mais de duas mil vezes — isto é, as orações obrigatórias. Ahmad, Muslim e Abu Dawud.

Tawus disse: O Mensageiro de Allah, Abu Bakr, Umar e Uthman faziam o sermão de pé. Muawiya foi o primeiro a fazer o sermão sentado. Sha‘bi disse: Muawiya só fazia o sermão sentado quando a gordura de sua barriga e a carne de seu corpo aumentaram. Como o Mensageiro de Allah e os Companheiros faziam o sermão de pé e sentavam-se entre os sermões, alguns imames deram o parecer de que ficar de pé e sentar-se eram obrigatórios. Contudo, não é correto determinar que algo seja obrigatório apenas observando suas ações, sem que haja uma ordem expressa por palavras.

É recomendável proferir o sermão em voz alta, de forma breve e com seriedade: Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Tornar o sermão breve e prolongar a oração é um sinal de compreensão da Shariah. Portanto, prolongai a oração e abreviai o sermão.” Ahmad e Muslim. A razão pela qual prolongar a oração e abreviar o sermão é considerado um sinal de compreensão da Shariah é que aquele que possui suficiente sabedoria, discernimento e competência nos assuntos da Shariah — isto é, o faqih — é capaz de escolher palavras adequadas para expressar amplos significados em poucas palavras.

Jabir ibn Samura, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: a oração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era moderada e equilibrada, e seu sermão também era moderado e equilibrado. — Todas as coletâneas de hadith autênticos, exceto as de Bukhari e Abu Dawud. Abdullah ibn Abi Awfa, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, prolongava a oração e encurtava o sermão. — An-Nasa’i. Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proferia o sermão, seus olhos ficavam vermelhos, sua voz se elevava e ele se mostrava tomado pela emoção, como se estivesse alertando um exército: “Cuidado! O exército inimigo chegará pela manhã ou ao entardecer.” — Muslim e Ibn Majah. An-Nawawi disse: é recomendável que o sermão seja agradável ao ouvido, elegante, fluente, fácil de compreender, bem organizado, claro, abrangente em seus princípios e profundo em seus detalhes. A linguagem do sermão não deve ser obscena, pois isso não causa impacto no coração dos ouvintes. Tampouco é desejável que seja rude e repulsiva, pois, nesse caso, o objetivo do sermão não é alcançado. Pelo contrário, devem ser escolhidas palavras elegantes, simples e claras. Ibn al-Qayyim disse: o sermão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também era assim. Era repleto da fé em Allah, nos anjos, nos Livros, nos mensageiros e na Outra Vida, bem como de descrições do Paraíso e do Inferno. Nele havia a descrição das bênçãos que Allah preparou para Seus servos amados e dos castigos que determinou para Seus inimigos e desobedientes. Assim, ao ouvirem seu sermão, as pessoas tinham o coração preenchido de fé e emoção ao escutarem sobre o monoteísmo, a fé, Allah e as antigas nações que Ele destruiu. Diferentemente dos discursos de outras pessoas, seu discurso não se limitava a transmitir informações sobre as criaturas, nem se apegava à vida e aos seus prazeres, fazendo as pessoas temerem a morte. Depois de ouvirem tais discursos, os ouvintes saíam sem obter qualquer benefício; um dia morriam, seus bens eram distribuídos e a terra consumia seus corpos. Esses discursos tampouco geravam fé, nem proporcionavam o conhecimento do monoteísmo ou qualquer conhecimento útil. Porém, se alguém examinar os sermões do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e de seus Companheiros, verá que eles estão repletos de ensinamentos sobre a orientação, o monoteísmo e os atributos de Allah. Estão repletos dos fundamentos da fé, do convite a Allah e da descrição das bênçãos de Allah. Neles se percebe o esforço para incutir o temor de Seu castigo por meio da lembrança das nações destruídas pelo castigo de Allah. Neles há estímulo constante à lembrança de Allah e à gratidão a Ele. Por meio da menção à grandeza de Allah e aos Seus atributos, busca-se despertar no coração de Suas criaturas o amor por Ele. Por meio da ordem de adorá-Lo, agradecer-Lhe e lembrá-Lo, busca-se alcançar o amor de Allah. Assim, quando os ouvintes saíam depois de escutar aqueles sermões, estabelecia-se entre Allah e eles um vínculo de amor completo e indissolúvel. Depois disso, transcorreram muitos séculos. As leis da sharia e os mandamentos de Allah transformaram-se em meras formalidades. Não há esforço nem cuidado para cumprir seus direitos e alcançar seus verdadeiros objetivos. Por isso, os sermões também se transformaram simplesmente em discursos bem elaborados e agradáveis de ouvir. Como resultado, a sinceridade não apenas diminuiu, mas, pode-se dizer, desapareceu, e o verdadeiro objetivo do sermão fracassou.

Interrupção do sermão devido a algum acontecimento especial: Abu Burayda, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava proferindo um sermão diante de nós. De repente, Hasan e Husayn chegaram. Vestiam duas túnicas vermelhas. Vinham caminhando, tropeçando e caindo repetidamente. Imediatamente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, interrompeu o sermão, desceu do púlpito, tomou-os nos braços e colocou-os diante de si. Então disse: “Allah e Seu Mensageiro disseram a verdade: ‘Vossos bens e vossos filhos são apenas uma prova.’ Ao olhar para essas duas crianças, vi-as caminhando depois de tropeçarem e caírem repetidamente. Por isso, não pude deixar de interromper meu sermão.” — As cinco coletâneas de hadith autênticos. Abu Rifa‘a, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava proferindo um sermão. Nesse momento, aproximei-me dele e me apresentei. Disse: “Ó Mensageiro de Allah! Sou um estrangeiro e quero aprender sobre a religião. Não sei qual é a minha religião.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, imediatamente olhou para mim, interrompeu o sermão e veio até mim. Depois, mandou trazer uma cadeira de madeira cujas pernas eram de ferro. Sentou-se nela e começou a transmitir-me parte do conhecimento que Allah lhe havia concedido sobre o Islam. Em seguida, voltou ao púlpito e concluiu o sermão. — Muslim e An-Nasa’i.

Ibn al-Qayyim disse: às vezes, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, interrompia o sermão por alguma necessidade especial ou para responder às perguntas dos Companheiros. Às vezes, quando necessário, descia do púlpito, depois retornava e concluía o sermão. Foi o que fez quando desceu por causa de Hasan e Husayn, tomou-os nos braços, subiu ao púlpito com eles e concluiu o sermão. Durante o sermão, chamava alguém e dizia: “Ó fulano, venha e sente-se”; ou: “Ó fulano, reze.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proferia o sermão de acordo com a situação.

17. É proibido falar durante o sermão

Segundo a maioria dos eruditos, é obrigatório ouvir o sermão em silêncio, e é proibido falar durante ele, mesmo que a fala seja a respeito de ordenar o bem e proibir o mal, quer se esteja ouvindo o sermão naquele momento, quer não. Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aquele que fala enquanto o imam profere o sermão é como um jumento que carrega uma grande quantidade de livros. E aquele que lhe diz: ‘Fique calado!’ não terá sua oração de sexta-feira válida.” — Ahmad. (Sua oração de sexta-feira será considerada como a oração do meio-dia, pois a obrigação prescrita para esse horário foi, por consenso, invalidada.)

Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Na oração de sexta-feira, há três tipos de pessoas presentes: uma delas comparece e fala palavras vãs; essa pessoa não obtém nada além de suas palavras vãs. Outra comparece para fazer súplicas; aquilo que pedir a Allah, Ele lhe concederá, se quiser, e, caso contrário, não lhe concederá. E outra comparece em silêncio, sem incomodar ninguém nem passar por cima do pescoço de ninguém. Para ela, a oração de sexta-feira será uma expiação por todos os pecados cometidos entre uma sexta-feira e a seguinte, e também por mais três dias. Isso porque Allah disse: “Quem praticar uma boa ação terá uma recompensa dez vezes maior.”» — Ahmad e Abu Dawud. Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Quando disseres ao teu companheiro: “Cala-te!”, terás proferido palavras vãs.» — Todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Ibn Majah. Abu al-Darda disse: «O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se no púlpito, proferiu o sermão e recitou um versículo. Ubai ibn Ka’b estava sentado ao meu lado. Perguntei-lhe: “Ó Ubai, quando este versículo foi revelado?” Ubai não respondeu. Perguntei novamente, mas ele também não respondeu. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desceu do púlpito, Ubai me disse: “Hoje, nesta sexta-feira, não obtiveste nada além de tuas palavras vãs.” Quando o Mensageiro de Allah saiu, fui até ele e contei-lhe o que Ubai havia dito. Ele disse: “Ubai falou a verdade. Quando ouvires o teu imame falando, escuta em silêncio até que ele termine.”» — Ahmad e al-Tabarani. Segundo o imame al-Shafi’i e Ahmad, é proibido falar para quem consegue ouvir o imame; quanto àquele que não consegue ouvi-lo, não é proibido falar, embora seja preferível permanecer em silêncio. Al-Tirmidhi disse: Segundo Ahmad e Ishaq, durante o sermão do imame é permitido responder à saudação e dizer “que Allah tenha misericórdia de ti” em resposta a um espirro. Al-Shafi’i disse: Se alguém espirrar na sexta-feira e outra pessoa disser “que Allah tenha misericórdia de ti”, espero que isso seja permitido, pois dizer isso em resposta ao espirro é uma sunna. Contudo, se alguém saudar outra pessoa, considero isso desaconselhável, mas a saudação deve ser respondida, pois saudar é uma sunna e responder é obrigatório. Fora do momento do sermão, porém, é permitido falar. Tha’laba ibn Abi Malik disse: Enquanto Umar estava sentado no púlpito, as pessoas conversavam. Quando o mu’adhdhin terminava o chamado para a oração, Umar se levantava, e então ninguém mais falava até que os dois sermões terminassem. Depois, quando Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, descia do púlpito e se aproximava o início da oração, as pessoas voltavam a falar. — Musnad al-Shafi’i. Ahmad relatou que, enquanto Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, estava sobre o púlpito e o mu’adhdhin fazia o iqama, ele perguntava às pessoas sobre seu estado e sobre os preços no mercado.

18. Alcançar uma rak’a da oração de sexta-feira ou menos

Segundo a maioria dos sábios, quem alcançar uma rak’a da oração de sexta-feira junto com o imame será considerado como tendo alcançado a oração de sexta-feira, e deverá acrescentar mais uma rak’a. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Quem alcançar uma rak’a da oração de sexta-feira deve rezar mais uma rak’a; sua oração estará completa.» — al-Nasa’i, Ibn Majah e al-Daraqutni. Abu Hurayra relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Quem alcançar uma rak’a da oração terá alcançado a oração inteira.» — Todas as coletâneas autênticas de hadith.

Entretanto, quem alcançar menos de uma rak’a terá perdido a oração de sexta-feira e deverá rezar quatro rak’as de zuhr. Esta é a opinião da maioria dos sábios. Ibn Mas’ud, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «Quem alcançar uma rak’a da oração de sexta-feira deve rezar mais uma rak’a; e quem perder as duas rak’as deve rezar quatro.» — al-Tabarani. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: «Quando alcançardes uma rak’a da oração de sexta-feira, rezai mais uma rak’a; mas, se alcançardes a congregação enquanto ela está sentada, rezai quatro rak’as.» — al-Bayhaqi.

Esta é a posição das escolas shafi’i, maliqui e hanbali, bem como a de Muhammad ibn al-Hasan. Abu Hanifa e Abu Yusuf disseram: «Quem alcançar o tashahhud junto com o imame terá alcançado a oração de sexta-feira. Depois da saudação final do imame, basta-lhe rezar duas rak’as para que sua oração de sexta-feira seja válida.»

A oração em caso de aglomeração: Ahmad e al-Bayhaqi relataram, por meio de Sayyar: «Ouvi Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, dizer: “O Mensageiro de Allah construiu esta mesquita, e nós, os muhajirun e os ansar, estávamos com ele. Quando a aglomeração aumentar, prostrai-vos sobre as costas uns dos outros.” Ao ver um grupo de pessoas rezando na rua, ele disse: “Ide à mesquita e rezai.”»

19. As orações voluntárias antes e depois da sexta-feira

É sunna rezar quatro ou duas rak’as depois da oração de sexta-feira. Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Quando algum de vós rezar depois da sexta-feira, que reze quatro rak’as.» — Muslim, Abu Dawud e al-Tirmidhi. Ibn Umar disse: «O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rezava duas rak’as em sua casa às sextas-feiras.» — Todas as coletâneas autênticas de hadith.

Ibn al-Qayyim disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — entrava em casa depois da oração de sexta-feira e rezava duas rak‘ahs. E ordenava aos que haviam rezado a sexta-feira que rezassem quatro rak‘ahs. O Imam Ibn Taymiyyah disse: quando rezava na mesquita, rezava quatro rak‘ahs; quando rezava em casa, rezava duas rak‘ahs.

De fato, isso também é comprovado pelos hadiths.

Abu Dawud narrou, sob a autoridade de Ibn Umar, que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — quando rezava na mesquita, rezava quatro rak‘ahs; e quando rezava em casa, rezava duas rak‘ahs. Em al-Bukhari e Muslim, foi narrado sob a autoridade de Ibn Umar: o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ia para casa depois da oração de sexta-feira e rezava duas rak‘ahs.

Quando ele rezava quatro rak‘ahs, alguns dizem que as rezava de uma só vez. Outros dizem que rezava as duas primeiras rak‘ahs, fazia o taslim e depois rezava novamente duas rak‘ahs. Contudo, é melhor realizar essa oração em casa. Se for realizada na mesquita, deve-se mudar do lugar onde se fez a oração obrigatória.

Sobre a realização da sunnah antes da oração de sexta-feira, o Shaykh al-Islam Ibn Taymiyyah disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não realizava nenhuma oração depois do chamado à oração e antes da oração de sexta-feira, e ninguém narrou que ele o fizesse. Durante sua época, o chamado à oração era feito assim que ele se sentava no púlpito. Bilal fazia o chamado à oração e, logo depois, ele proferia dois sermões. Então Bilal fazia o segundo chamado, a iqamah. Nesse momento, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — conduzia a oração. Portanto, depois do chamado à oração, nem ele nem qualquer muçulmano que rezasse com ele poderiam realizar outra oração. Ninguém narrou que ele rezasse antes de sair de casa na sexta-feira, nem mencionou alguma oração específica antes da sexta-feira. É verdade que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — incentivava a oração depois de ir à mesquita, mas não determinava para isso um horário nem um número de rak‘ahs específico. Só se menciona a sexta-feira. Como ele disse: “Quem for cedo à mesquita, caminhando e sem montar em nada, e rezar o que lhe for destinado…” Isso também foi narrado a respeito dos Companheiros. Às sextas-feiras, quando chegavam à mesquita, rezavam tanto quanto podiam desde o momento em que entravam. Alguns rezavam dez rak‘ahs, outros doze; alguns, oito, e outros, menos. Por isso, a maioria dos imames concorda que não há nenhuma sunnah com número específico de rak‘ahs em horário específico antes da sexta-feira. Isso só poderia ser comprovado por uma palavra ou ato do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, mas ele não instituiu, por suas palavras nem por seus atos, nenhuma oração sunnah específica a esse respeito.

20. Quando o Eid e a sexta-feira ocorrem no mesmo dia

Quando a sexta-feira e o Eid coincidem no mesmo dia, quem tiver realizado a oração do Eid não precisa realizar a oração de sexta-feira.

Foi narrado por Zayd ibn Arqam — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — realizou a oração do Eid e concedeu uma dispensa quanto à sexta-feira. Ele disse: “Quem quiser, que a realize.” — As cinco coletâneas de hadiths autênticos. Abu Hurayrah — que Allah esteja satisfeito com ele — disse que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Neste dia, dois Eids coincidiram para vocês. Quem quiser, se tiver realizado a oração do Eid, pode deixar de realizar a oração de sexta-feira. Nós realizaremos a oração de sexta-feira.” — Abu Dawud.

É recomendável que o imame conduza a oração de sexta-feira para aqueles que desejam comparecer à oração de sexta-feira e não comparecem à oração do Eid. Segundo a opinião dos hambalitas, é obrigatório que aqueles que não desejam realizar a oração de sexta-feira façam a oração do meio-dia, pois estiveram presentes no Eid. Contudo, a opinião de que isso não é obrigatório é a mais preponderante. Abu Dawud narrou, sob autoridade de Ibn az-Zubair, que ele disse: “Dois Eids coincidiram no mesmo dia.” Ele realizou ambas as orações, de duas rak‘at cada, no início da manhã, e não realizou nenhuma outra oração além delas até a oração da tarde.

33. As orações dos dois Eids

As orações dos dois Eids foram instituídas já no primeiro ano da Hégira. Elas são uma sunna mu’akkada. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava regularmente essas orações e ordenou aos muçulmanos e às muçulmanas que saíssem para realizá-las. A seguir, apresentamos algumas normas importantes relacionadas a essas orações:

1. Tomar banho, usar perfume e vestir a melhor roupa

Foi narrado por Ja‘far ibn Muhammad que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, usava, em cada dia do Eid, a veste iemenita burda hibra’. — Ash-Shafi‘i e Al-Baghawi. Al-Hasan, neto do Mensageiro de Allah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou-nos que, no Eid, vestíssemos a melhor roupa possível, usássemos o melhor perfume possível e oferecêssemos em sacrifício o animal mais valioso possível.” — Al-Hakim. Ibn al-Qayyim disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, usava sua melhor roupa nos dois Eids. Ele tinha uma roupa boa para usar nos dois Eids e na sexta-feira.”

2. Comer algo antes de sair para o Eid al-Fitr e depois do Eid al-Adha

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, comia um número ímpar de tâmaras antes de sair para a oração do Eid al-Fitr. Já no Eid al-Adha, depois de retornar do local da oração do Eid, quando ele próprio oferecia o sacrifício, começava a refeição do dia com a carne do sacrifício.

Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saía pela manhã no dia do Eid al-Fitr, saía somente depois de comer um número ímpar de tâmaras.” — Ahmad e Al-Bukhari. Buraida, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “No dia do Eid al-Fitr, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não saía sem comer. No dia do Eid al-Adha, não comia nada até retornar do local da oração do Eid.” — At-Tirmidhi, Ibn Majah e Ahmad. Ahmad acrescentou: “Ele comia do seu próprio sacrifício.” No Muwatta’, foi narrado por Sa‘id ibn al-Musayyib: “Ordenava-se aos muçulmanos que comessem pela manhã, antes de sair, no dia do Eid al-Fitr.”

Ibn Qudama disse: Não tenho conhecimento de qualquer divergência quanto à recomendação de comer antes da oração no dia do Eid al-Fitr.

3. Ir ao local de oração do Eid

É permitido realizar a oração do Eid na mesquita. Contudo, é preferível realizá-la no local de oração do Eid, desde que não haja qualquer impedimento devido a tempestade ou chuva. Isso porque o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava ambas as orações do Eid no local de oração do Eid. (Exceto em Meca; pois, na Mesquita Sagrada, é melhor realizar a oração do Eid.) Certa vez, ele realizou a oração do Eid na Mesquita do Profeta, mas nunca o fez ali por outra razão além da chuva.
Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Certa vez, choveu no dia do Eid. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizou a oração do Eid na mesquita. — Abu Dawud, Ibn Majah e Hakim.

4. Mulheres e crianças irem ao local de oração do Eid

Na sharia, é permitido que mulheres e crianças vão ao local de oração em ambos os Eids, sejam elas virgens ou não, jovens ou idosas, menstruadas ou não. Umm Atiya, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Foi-nos ordenado enviar ao local de oração do Eid, em ambos os Eids, até mesmo as moças virgens e as mulheres menstruadas, para que participassem do bem e das exortações aos muçulmanos. As mulheres menstruadas, porém, mantinham-se afastadas do local da oração. — Bukhari e Muslim. Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviava suas esposas e filhas ao local de oração do Eid em ambos os Eids. — Ibn Majah e Bayhaqi. Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Saí com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no dia do Eid al-Fitr ou do Eid al-Adha. Então ele conduziu a oração e proferiu o sermão. Depois foi até as mulheres, aconselhou-as, recordou-lhes a Vida Futura e ordenou-lhes que dessem caridade. — Bukhari.

5. Ir e voltar por caminhos diferentes

Segundo a maioria dos sábios, é recomendável ir por um caminho e voltar por outro para a oração do Eid, seja a pessoa o imam ou alguém que ora atrás dele. Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: No dia do Eid, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ia ao campo por um caminho e voltava por outro. — Bukhari. Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: No dia do Eid, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saía por um caminho e voltava por outro. — Ahmad, Muslim e Tirmidhi. No entanto, é permitido voltar pelo mesmo caminho pelo qual se foi. Isso foi narrado por Abu Dawud, Hakim e Bukhari, de Bakr ibn Mubashshir. Ele disse: Eu ia ao local de oração do Eid com os companheiros do Mensageiro de Allah nos dias do Eid al-Adha e do Eid al-Fitr. Íamos ao local de oração do Eid pelo vale chamado Batn Wadi Bithan. Depois de orarmos com o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, voltávamos para nossas casas pelo mesmo Batn Wadi Bithan.

6. O horário da oração do Eid

O horário do Eid começa depois que o sol se eleva aproximadamente três metros e vai até o seu declínio. Ahmad narrou, por meio de Jundub: “O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — conduzia-nos na oração do Eid al-Fitr quando o sol se elevava a uma altura de duas lanças, e na oração do Eid al-Adha quando se elevava à altura de uma lança.” (Considera-se que uma lança corresponde a três metros.) Al-Shawkani disse: “Este hadith é o melhor para determinar o horário das orações dos dois Eids.” Sabe-se, a partir do hadith, que é mustahabb atrasar relativamente menos a oração do Eid al-Adha e atrasar relativamente mais a oração do Eid al-Fitr. Ibn Qudamah disse: “É mustahabb antecipar a oração do Eid al-Adha, para ampliar o período do sacrifício, e atrasar a oração do Eid al-Fitr, para ampliar o período de entrega do fitr.” Não tenho conhecimento de que haja divergência quanto a isso.

7. Não há adhan nem iqamah na oração do Eid

Ibn al-Qayyim disse: “Quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegava ao local de oração do Eid, iniciava a oração sem adhan nem iqamah e sem fazer o anúncio de que ‘a oração está começando’. Não fazer nenhuma dessas coisas é a Sunnah.”

Ibn Abbas e Jabir — que Allah esteja satisfeito com ambos — disseram: “Não se fazia adhan nem no Eid al-Fitr nem no Eid al-Adha.” — Bukhari e Muslim. Muslim narrou, por meio de Ata: “Jabir — que Allah esteja satisfeito com ele — informou-me que, quando o imam saía para a oração do Eid al-Fitr ou depois disso, não se deveria fazer adhan, iqamah, anúncio ou qualquer coisa semelhante.” Sa’d ibn Abi Waqqas — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — realizava a oração do Eid sem adhan nem iqamah. Ele proferia dois sermões e sentava-se por algum tempo entre os dois sermões.” — Bazzar.

8. Os takbirs na oração do Eid

A oração do Eid consiste em duas rak’ahs. É Sunnah proferir, na primeira rak’ah, sete takbirs depois do takbir de consagração e antes da recitação, e, na segunda rak’ah, cinco takbirs, sem contar o takbir do levantar-se. Deve-se levantar as mãos a cada takbir.
Foi narrado por Ibn Shu’ayb que, em um Eid, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — proferiu doze takbirs: sete na primeira rak’ah e cinco na segunda. Ele não realizou nenhuma outra oração antes ou depois da oração do Eid. — Ahmad e Ibn Majah. O imam Ahmad disse: “Adoto esta opinião.”

Foi narrado em uma transmissão de Abu Dawud e al-Daraqutni que o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “No Eid al-Fitr, há sete takbirs na primeira rak’ah e cinco takbirs na segunda rak’ah. Em ambas as rak’ahs, deve-se fazer a recitação depois dos takbirs.”
Esta é a opinião mais preponderante. A maioria dos Companheiros, dos tabi’un e dos imams adotava essa opinião. Ibn Abd al-Barr disse: “Foi narrado do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — por várias cadeias, com isnad autêntico, que ele proferia sete takbirs na primeira rak’ah e cinco na segunda em ambos os Eids.” Relatos semelhantes foram transmitidos de Abdullah ibn Amr, Ibn Umar, Jabir, Aisha, Abu Waqid e Amr ibn Awf al-Muzani. Não foi narrado nenhum hadith, autêntico ou fraco, contrário a isso, e desde o início foi praticado dessa maneira.

Na escola jurídica hanafi, é costume proferir três takbirs na primeira rak’ah, depois do takbir de consagração e antes da recitação, e três takbirs na segunda rak’ah, depois da recitação.

O Mensageiro de Allah fazia uma breve pausa entre cada dois takbires. Não há registro de que, durante esse intervalo, recitasse alguma súplica ou dhikr específico. Contudo, At-Tabarani e Al-Bayhaqi transmitiram, por uma cadeia confiável, que Ibn Mas‘ud louvava Allah e enviava bênçãos ao Mensageiro entre dois takbires, tanto em suas palavras quanto em suas ações. Sabe-se que Hudhayfa e Abu Musa também faziam o mesmo.

Ahmad e Ash-Shafi‘i consideram recomendável fazer, entre os dois takbires, a seguinte súplica ou algum dhikr semelhante: “Subhanallahi wal-hamdu lillahi wa la ilaha illallahu wallahu akbar”. Abu Hanifa e Malik disseram: deve-se fazer os takbires continuamente, sem pausa para súplica ou dhikr entre eles. Esse takbir da oração do Eid é uma sunnah. Se alguém o omitir, intencionalmente ou por esquecimento, a oração não será inválida. Segundo Ash-Shawkani, quem omitir o takbir por esquecimento não deverá fazer a prostração do esquecimento. Ibn Qudamah também sustenta essa opinião e diz: “Não sei de nenhuma divergência a esse respeito.”

9. As orações antes e depois da oração do Eid

Não há prova de que exista alguma oração sunnah antes ou depois da oração do Eid. O Mensageiro e seus Companheiros não faziam nenhuma oração antes ou depois dela, após chegarem ao local da oração do Eid.

Ibn Abbas disse: “O Mensageiro de Allah saía no dia do Eid e então fazia duas rak‘ahs. Não fazia nenhuma oração antes nem depois delas.” Todas as coletâneas de hadith autênticos. Foi narrado por Ibn Umar: “Ele saiu no dia do Eid. Não fez nenhuma oração antes nem depois da oração do Eid. E mencionou que o Mensageiro fazia exatamente isso.” — Al-Bukhari. Foi narrado que Ibn Abbas considerava makruh fazer uma oração antes do Eid. Quanto às orações voluntárias em geral, o hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: isso não foi declarado proibido com base em nenhuma prova específica. O período em que as orações voluntárias são makruh nos demais dias também é makruh nesse dia.

10. Para quem é válida a oração do Eid

É válido que todos — homens, mulheres, crianças, residentes e viajantes — façam a oração do Eid, seja em casa, na mesquita ou no local da oração do Eid. Quem perder a oração do Eid em congregação deverá fazer duas rak‘ahs. O imã Al-Bukhari disse: “Se alguém perder a oração do Eid, deverá fazer duas rak‘ahs.” O mesmo se aplica aos que estão em casa e nas aldeias, que também devem fazê-la. Isso porque o Mensageiro disse: “Este é o nosso Eid, dos muçulmanos.” Anas ibn Malik ordenou que seu escravo liberto, que residia em Zabia, fizesse a oração do Eid. Então ele reuniu seus familiares e fez com eles a oração do Eid, acompanhada de takbires, como os habitantes da cidade. Ikrimah disse: “Os habitantes dos arredores devem reunir-se no dia do Eid, e um deles deve fazer duas rak‘ahs, da maneira como o imã as faz.” Ata disse: “Quando alguém perde a oração do Eid em congregação, deve fazer duas rak‘ahs.”

11. O sermão da oração do Eid

É sunna proferir o sermão da oração do Eid, e também é sunna ouvi-lo. Abu Sa‘id, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dirigia-se ao musallá no dia do Eid al-Fitr e do Eid al-Adha (musallá era o nome de um lugar situado a cem côvados da Mesquita do Profeta). Ali, primeiro conduzia a oração; depois, voltava-se e ficava de frente para as pessoas. Elas permaneciam sentadas em fileiras. Então ele lhes dava ordens, conselhos e exortações. Se pretendesse enviar alguma tropa para algum lugar, ordenava que ela fosse enviada e depois partia. Abu Sa‘id disse: As pessoas continuaram passando os dias dessa maneira. Finalmente chegou o momento em que saí com Marwan, o governador de Medina, para o Eid al-Fitr ou o Eid al-Adha. Quando chegamos perto do púlpito, vimos ali um púlpito construído por Kathir ibn as-Salt. Vi que Marwan estava prestes a subir nele antes da oração do Eid. Então puxei sua roupa; ele também me puxou. Em seguida, subiu ao púlpito e proferiu o sermão antes da oração. Eu lhe disse: “Juro por Allah, você mudou a prática.” Ele respondeu: “Abu Sa‘id, aquilo que você conhecia já passou.” Eu disse: “Juro por Allah, aquilo que conheço é melhor do que aquilo que não conheço.” Ele respondeu: “As pessoas não permanecerão sentadas para nos ouvir depois da oração; por isso, antecipei-o para antes da oração.” — Bukhari e Muslim. ‘Abdullah ibn Sa’ib disse: Participei do Eid com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando ele terminou a oração, disse: “Agora vou proferir um sermão. Quem quiser sentar-se para ouvi-lo, que se sente; e quem quiser partir, que parta.” — Nasa’i, Abu Dawud e Ibn Majah.

Os hadiths transmitidos com o sentido de que se devem proferir dois sermões para o Eid e que o imame deve sentar-se por algum tempo entre eles para fazer uma pausa são fracos. An-Nawawi disse: Não há prova quanto aos dois sermões.

É mustahabb começar o sermão louvando a Allah. Nenhuma exceção a isso foi transmitida do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ibn al-Qayyim disse: O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começava todos os seus discursos louvando a Allah. Nenhum hadith afirma que o Mensageiro começasse o sermão com o takbir. Apenas Ibn Majah transmitiu, de Sa‘id, o muezzin do Mensageiro de Allah, que o Mensageiro de Allah fazia takbir ocasionalmente durante o sermão e fazia mais takbir nos sermões dos dois Eids. Isso não prova que ele começasse o sermão com o takbir. Há divergência quanto ao início do sermão do Eid e do sermão de istisqa. Alguns dizem que ambos devem começar com o takbir. Outros dizem que o sermão de istisqa deve começar com o istighfar (pedido de perdão). Outros dizem que ambos devem começar louvando a Allah. Shaykh al-Islam Taqi ad-Din disse: Esta é a opinião correta, pois o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Qualquer assunto importante que não comece com o louvor a Allah permanecerá deficiente.” O Mensageiro de Allah começava todos os seus sermões louvando a Allah. Embora muitos juristas tenham afirmado que o sermão de istisqa deve começar com o istighfar e o sermão do Eid com o takbir, não há absolutamente nenhum apoio na sunna do Mensageiro de Allah para a opinião deles. A sunna, ao contrário, indica o oposto: todos os tipos de sermão devem começar louvando a Allah.

12. Reposição da oração do Eid

Abu ‘Umair ibn Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Um grupo de companheiros ansar do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, informou-me que certa vez não conseguimos avistar a lua nova de Shawwal. Pela manhã, jejuamos. No final do dia, chegou uma caravana. Eles testemunharam diante do Mensageiro de Allah que tinham visto a lua na noite anterior. Então o Mensageiro de Allah nos ordenou que quebrássemos o jejum e que realizássemos a oração do Eid no dia seguinte. — Ahmad, Nasa’i e Ibn Majah. Eles disseram: Se a oração do Eid de algum grupo de pessoas for perdida por alguma justificativa, eles deverão realizá-la no dia seguinte.

13. Jogos, diversão, canto e alimentação no Eid

Os jogos lícitos, a diversão inocente e os bons cantos fazem parte dos costumes do Islam; Allah, Exaltado seja, os estabeleceu como permitidos no dia do Eid para o exercício físico, a alegria mental e a recreação.

Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, os habitantes de Medina tinham dois dias tradicionais de jogos. O Mensageiro de Allah disse: “Allah determinou para vocês uma alternativa melhor do que esses dias: o Eid al-Fitr e o Eid al-Adha.” — Nasa’i. ‘A’isha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse:

No dia do Eid, os abissínios brincavam diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eu tentava observar por cima de seu ombro, então ele abaixou o ombro. Assim, continuei observando por cima de seu ombro e, satisfeita, voltei. — Ahmad, al-Bukhari e Muslim. Em outra narração presente nessas três obras, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Abu Bakr veio à nossa casa no dia do Eid. Naquela ocasião, tínhamos duas escravas que, por meio de cânticos, relembravam os acontecimentos da batalha de Bu’ath, na qual foram mortos os grandes líderes e guerreiros de Aws e Khazraj.

Entre as duas tribos de Medina, Aws e Khazraj, ocorreu, na época da ignorância, uma longa e sangrenta guerra. Nessa guerra, houve um grande massacre dos homens de Aws pelas mãos de Khazraj. Bu’ath era o nome de uma fortaleza de Aws; a batalha de Bu’ath recebeu esse nome por causa dela. Foi uma famosa batalha da história árabe antiga. Então Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó servos e servas de Allah, acaso estais ouvindo a música de Satanás?” Ele repetiu isso três vezes. Ao ouvir suas palavras, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Abu Bakr! Cada povo tem um dia de festividade, e hoje é o nosso dia de festividade.” A versão de al-Bukhari diz: “Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou em minha casa, enquanto duas escravas cantavam canções de Bu’ath. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) imediatamente virou-se para o outro lado e deitou-se na cama. Abu Bakr também entrou naquele momento e repreendeu-me, dizendo: ‘A música de Satanás está sendo tocada diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?’ Então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou sua atenção para Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: ‘Deixa-as cantar o que estão cantando.’ Depois, quando ele voltou sua atenção para o outro lado, fiz um sinal às duas escravas, e elas imediatamente saíram. Era o dia do Eid. Naquele dia, os abissínios brincavam com escudos e lanças. Às vezes, eu queria assistir à brincadeira junto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e outras vezes ele dizia: ‘Estás ansiosa para assistir à brincadeira?’ Eu respondia: ‘Sim.’ Então ele me colocava atrás dele, de modo que minha face ficasse alinhada com a sua, e dizia: ‘Ó jovens abissínios, brincai bem!’ Quando finalmente me cansava de observar, ele dizia: ‘Estás satisfeita?’ Eu respondia: ‘Sim.’ Ele dizia: ‘Então vai.’” Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: “Aisha narra que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse naquele dia: ‘Os judeus de Medina devem saber que há amplitude em nossa religião. Fui enviado com um modelo monoteísta e tolerante.’” Ahmad e Muslim narram que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os dias de Tashriq são dias de comer, beber e recordar Allah.”

14. A virtude das boas ações nos dez dias de Dhu al-Hijjah

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não há dias em que as boas ações sejam mais amadas por Allah do que os dias destes dez dias (os dez dias de Dhu al-Hijjah).” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, nem mesmo o jihad no caminho de Allah?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nem mesmo o jihad no caminho de Allah, exceto o jihad de um homem que saiu para combater com sua vida e seus bens, mas não retornou com nenhum dos dois.” — Todas as coleções autênticas de hadith, exceto Muslim e al-Nasa’i. Ahmad e al-Tabarani narram, segundo Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nenhuma boa ação é mais amada por Allah em qualquer outro dia do que nesses dez dias. Portanto, recitai abundantemente nesses dias: La ilaha illa Allah, al-hamdulillah e Allahu akbar.”

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quanto à palavra do Alcorão “e para que mencionem o nome de Allah em dias determinados”, esses dias determinados significam os dez dias de Dhu al-Hijjah. Durante esses dez dias, Ibn Umar e Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ambos) saíam ao mercado pronunciando “Allahu akbar”. Ao ouvi-los, as pessoas também diziam “Allahu akbar”. — Al-Bukhari.

Quando se aproximavam os dez dias de Dhu al-Hijjah, Sa’id ibn Jubayr esforçava-se tanto na prática de boas ações que era difícil contê-lo. Al-Awza’i disse: “Soube que uma boa ação praticada em qualquer um dos dez dias de Dhu al-Hijjah equivale a um jihad no caminho de Allah acompanhado de jejum durante o dia e vigília durante a noite. Contudo, é diferente o caso daquele a quem foi concedida a distinção da posição de mártir.” Al-Awza’i disse: “Um homem da tribo de Banu Makhzum narrou-me este hadith, atribuindo-o ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”

Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Adorar Allah durante os dez dias de Dhu al-Hijjah é tão amado por Allah que nenhum outro dia de adoração Lhe é mais amado. A adoração de cada um desses dias equivale à adoração de um ano inteiro, e a adoração de cada uma de suas noites equivale à adoração da Noite do Decreto. — Al-Tirmidhi, Ibn Majah e al-Bayhaqi.

15. É recomendável trocar saudações e felicitações pelo Eid

Jubair bin Mufair disse: No dia do Eid, quando os Companheiros do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se encontravam, um dizia ao outro: «Que Allah aceite o meu Eid e o seu Eid.»

16. Proferir o takbir nos dias determinados dos dois Eids

Proferir o takbir nos dias do Eid é uma sunnah. Sobre o Eid al-Fitr, Allah disse: «Para que completeis o número (dos jejuns do Ramadã), proclameis a grandeza de Allah por Ele vos ter guiado e Lhe sejais gratos.» (Surata al-Baqarah: versículo 185). E sobre o Eid al-Adha, disse: «E mencionai Allah em dias determinados.» (Al-Baqarah: versículo 203)

Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Estes dias são os Ayyam at-Tashriq. — Bukhari.

Allah também disse: «Assim, Allah vos submeteu esses animais, para que proclameis a grandeza de Allah por Ele vos ter guiado.» (Surata al-Hajj: versículo 37)

Segundo a maioria dos sábios, no Eid al-Fitr deve-se proferir o takbir desde o momento de sair para a oração até o início do sermão. Há alguns hadiths fracos narrados sobre isso. Contudo, também foram narrados hadiths autênticos por Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e outros. Al-Hakim disse: Esta é uma sunnah que os narradores de hadith transmitiram continuamente. Malik, Ahmad, Ishaq e Abu Thawr também adotaram esta opinião. Outro grupo disse que o takbir começa na noite do Eid al-Fitr, quando é avistada a lua nova de Shawwal, e continua até a ida ao local da oração do Eid e a saída do imam. Quanto ao takbir do Eid al-Adha, seu período vai desde o fajr do dia de Arafah até o asr dos Ayyam at-Tashriq. Esses dias são: o décimo primeiro, o décimo segundo e o décimo terceiro dia de Dhu al-Hijjah. O que se conhece com maior autenticidade dos Companheiros é a declaração de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e de Ibn Masud: o takbir continua desde o fajr do dia de Arafah até o asr do último dia em Mina. Ibn al-Mundhir, ash-Shafi’i, Ahmad, Abu Yusuf, Muhammad, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, apoiam esta opinião.

Proferir o takbir nos Ayyam at-Tashriq não está limitado a um horário específico; ao contrário, é recomendável fazê-lo em todos os momentos desses dias.

Bukhari disse: Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, proferia o takbir em sua tenda, em Mina. As pessoas da mesquita, ao ouvi-lo, proferiam o takbir, e também o faziam as pessoas do mercado. Assim, toda Mina vibrava com o som do takbir. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, proferia o takbir em Mina, depois das orações, em sua cama, em sua tenda, durante suas reuniões e enquanto caminhava, em todos os dias desse período. Maymunah, que Allah esteja satisfeito com ela, proferia o takbir no dia do sacrifício. As mulheres proferiam o takbir com os homens na mesquita, atrás de Abbas bin Uthman e de Umar ibn Abd al-Aziz, durante as noites dos Ayyam at-Tashriq. O hafiz Ibn Hajar disse: As declarações e práticas dos Companheiros provam que, nesses dias, era costume proferir o takbir depois das orações e em outras situações. Há divergências entre os sábios sobre alguns desses pontos: alguns dizem que o takbir deve ser proferido depois de todas as orações. Outros dizem que deve ser proferido apenas depois das orações obrigatórias, não depois das voluntárias. Outros ainda dizem que somente os homens devem proferi-lo, não as mulheres; em congregação, não individualmente; nas orações realizadas no horário, não nas orações compensadas; na oração do residente, não na do viajante; e na oração da cidade, não na do campo. O imam Bukhari parece defender que o takbir seja proferido em todas as situações mencionadas. As declarações e práticas dos Companheiros que ele citou apoiam essa opinião. Existem várias narrations sobre a forma do takbir. A mais autêntica é a de Salman. Ele disse: Proferi o takbir desta forma: «Allah é o Maior, Allah é o Maior, Allah é o Maior, grandiosissimamente.»

Segundo a narração de Umar e Ibn Mas‘ud: “Allahu akbar, Allahu akbar, la ilaha illallahu wallahu akbar, Allahu akbar wa lillahil hamd.”

Terceiro capítulo: Zakat

Zakat

1. Definição de zakat

A parte devida a Allah que a pessoa retira de seus bens e entrega aos pobres chama-se zakat. A razão para receber esse nome é que, por meio dela, espera-se obter bênçãos, alcançar a purificação do coração e dos desejos e promover o desenvolvimento voltado para o bem. O significado lexical de “zakat” é crescimento, purificação e bênção, isto é, prosperidade. O Altíssimo Allah disse:

خُل مِنْ أَمْوَالِمِ صدقة تطهرهم وتزكيهم بها .

“Toma de seus bens uma caridade com a qual os purificarás e os farás prosperar.” (Surata At-Tawbah: versículo 103)

A zakat é um dos cinco pilares do Islã. A zakat é mencionada junto com a oração em oitenta e dois versículos. Allah, o Exaltado, tornou-a obrigatória por meio de Seu Livro, da Sunnah de Seu Profeta e do consenso de sua ummah.

a. Foi narrado em todos os livros autênticos de hadith, por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele: quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Mu‘adh ibn Jabal, que Allah esteja satisfeito com ele, ao Iêmen, disse-lhe: “Tu estás indo para um povo do Livro. Convoca-os a testemunhar que não há divindade além de Allah e que eu sou o Mensageiro de Allah. Se eles aceitarem isso, informa-os de que Allah tornou obrigatórias para eles cinco orações diárias. Se aceitarem isso, informa-os de que Allah tornou obrigatória para eles, em suas riquezas, uma caridade (zakat), que é retirada dos ricos e distribuída entre os pobres. Se eles aceitarem o que lhes disseres a esse respeito, cuidado para não tomares suas propriedades valiosas e melhores. E protege-te da súplica do oprimido, pois entre essa súplica e Allah não há véu algum.”

b. At-Tabarani narrou em suas obras Al-Awsat e As-Saghir, a partir de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah, o Altíssimo, tornou obrigatória para os muçulmanos ricos, em suas riquezas, uma quantia (isto é, tornou obrigatória a caridade) suficiente para os pobres que vivem entre eles. Quando os pobres sofrem por falta de alimento ou de vestuário, a conduta dos ricos — isto é, sua avareza — é responsável por esse sofrimento. Cuidado! Allah lhes exigirá contas rigorosamente e lhes infligirá um castigo doloroso.”

No início do Islã, em Meca, o zakat foi tornado obrigatório de forma não especificada. Não estava determinado sobre que quantidade de riqueza e quanto deveria ser pago. Isso foi deixado à consciência e à compaixão dos muçulmanos. Segundo o relato mais famoso, a quantia do zakat correspondente a cada categoria de riqueza foi determinada no segundo ano da Hégira. Foi então que as normas do zakat foram reveladas.

2. Ordenança e incentivo à entrega do zakat

a. Allah, o Altíssimo, diz no versículo 103 da Surata At-Tawbah: “Toma de suas riquezas uma caridade com a qual os purificarás e os limparás.” Ou seja: ó Mensageiro, toma das riquezas dos crentes uma caridade determinada, isto é, o zakat obrigatório, ou uma caridade de quantidade não determinada, como uma doação voluntária, por meio da qual os purificarás e os limparás da cobiça e da avareza, da crueldade e da estreiteza para com os pobres e necessitados, e de outras deficiências desumanas; e adornarás suas riquezas com a busca do bem moral e real, com bênção e prosperidade, para que alcancem todo o bem e a felicidade deste mundo e da Outra Vida.

b. Allah, o Altíssimo, disse:

إن المتقين في جنس وعيون . أخذِينَ مَا أَنْهُمْ رَبُّهُمْ ، إِنَّهُمْ كَانُوا قَبْلَ ذَلِكَ مُحْسِنِينَ كَانُوا قَلِيلاً مِنَ الَّيْلِ مَا يَهْجَعُونَ، وَبِالْأَسْحَارِ هُمْ يَسْتَغْفِرُونَ وَفِي أَمْوَالِهِرْ حَقَّ لِلسَّائِلِ وَالْمَعْرُومِ.

“Os que temem a Allah permanecerão em jardins e junto a rios. Eles receberão aquilo que seu Senhor lhes concederá, pois anteriormente eram benfeitores. Dormiam muito pouco durante a noite e, nas últimas horas da noite, pediam perdão. E, em suas riquezas, havia um direito destinado ao suplicante e ao necessitado privado.” (Surata Adh-Dhariyat: versículos 15–19)

Com efeito, Allah descreveu a retidão como a mais sublime das qualidades das pessoas nobres; descreveu sua oração noturna como um sinal de sua retidão, sua busca de perdão ao amanhecer como um meio de adorar Allah e alcançar Sua proximidade, e sua doação aos necessitados, por misericórdia e compaixão, como uma manifestação de retidão.

c. Allah Todo-Poderoso disse:

وَالْمُؤْمِنُونَ وَالْمُؤْمِنتُ بَعْضُهُمْ أَوْلِيَاء بَعْضٍ يَا مُرُونَ بِالْمَعْرُوفِ وَيَنْمَونَ عَنِ الْمُنْكَرِ وَيُقِيمُونَ الصلوة وَيُؤْتُونَ الزَّكوة ويُطِيعُونَ اللهَ وَرَسُولَهُ ، أُولَئِكَ يرحمهم الله .

“Os homens e as mulheres crentes são aliados uns dos outros. Ordenam o bem e proíbem o mal. Estabelecem a oração, pagam o zakat e obedecem a Allah e ao Mensageiro. Sobre eles Allah derramará Sua misericórdia.” (Surata At-Tawbah: versículo 71)

Em outras palavras, o povo sobre o qual Allah faz descer misericórdia e bênçãos é aquele que crê em Allah, estabelece entre si laços de amizade por meio da ajuda e do amor mútuos, ordena o bem, proíbe o mal, preserva sua relação com Allah por meio da oração e fortalece suas relações mútuas por meio do pagamento do zakat.

d. Allah Todo-Poderoso também disse:

الَّذِينَ إِن مكتمر فِي الْأَرْضِ أَقَامُوا الصَّلوةَ وَأتُوا الزَّكُوةَ وَأَمَرُوا بِالْمَعْرُوفِ وَتَمَوْا عَنِ الْمُنْكَرِ وَلِلَّهِ عَاقِبَةُ الأمور .

“São aqueles que, se lhes concedo autoridade na Terra, estabelecem a oração, instituem o sistema do zakat, ordenam o bem e proíbem o mal. Com efeito, o desfecho de todos os assuntos está nas mãos de Allah.” (Surata Al-Hajj: versículo 41)

Allah, o Altíssimo, estabeleceu o zakat como um dos principais objetivos e propósitos da concessão do poder estatal.

a. At-Tirmidhi relatou, por intermédio de Abu Kabsha, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Juro por três coisas; guardai-as na memória: (1) a caridade não diminui a riqueza; (2) quando um servo é injustiçado e suporta isso com paciência, Allah aumenta sua honra e dignidade; (3) quando um servo abre a porta para pedir algo a alguém, Allah abre para ele a porta da pobreza.”

b. Ahmad e At-Tirmidhi relataram, por intermédio de Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Allah aceita a caridade e a toma com a Sua mão direita; depois, Ele a faz crescer para um de vós da mesma forma que alguém dentre vós cria e faz crescer o seu potro. Assim, até mesmo um bocado de alimento se torna grande como o monte Uhud.” Uki disse: A confirmação deste hadith por parte de Allah está presente. Ela consiste no seguinte: Allah disse:

الى يَعْلَمُوا أَنَّ اللَّهَ مَوَ يَقْبَلُ التَّوْبَةَ عَنْ عِبَادِهِ وَيَأْخُذُ الصَّدق .

“Acaso não sabem que Allah, o Altíssimo, é quem aceita o arrependimento de Seus servos e recebe as caridades?” (Surata At-Tawbah, versículo 104)

يبْحَقُ الله الربُوا وَيُرْبى الصدقت.

“Allah elimina os juros e faz crescer as caridades.” (Surata Al-Baqarah, versículo 276)

c. O Imam Ahmad relatou, com uma cadeia autêntica, por intermédio de Anas, que Allah esteja satisfeito com ele: “Um homem da tribo de Banu Tamim compareceu perante o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, sou dono de uma grande riqueza. Tenho muitos familiares, muitas terras e muitos hóspedes que me visitam. Dize-me agora o que devo fazer e como devo gastar.’ O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Deves retirar o zakat da tua riqueza. Isso é um meio de purificar-te. Além disso, mantém os laços com os teus parentes e reconhece o direito do pobre, do vizinho e daquele que pede ajuda — isto é, reconhece-o e concede-lhe o que lhe é devido.’”

d. Foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Juro por três coisas: Allah jamais tornará aquele que cumpre as obrigações do Islã semelhante àquele que não cumpre nenhuma delas. E as obrigações do Islã são três: oração, jejum e zakat. Quando Allah toma um servo como amigo neste mundo, no Dia da Ressurreição não tomará outro como amigo em seu lugar. E quando uma pessoa ama um grupo, Allah a manterá junto deles (no Dia da Ressurreição). Se eu jurar por uma quarta coisa, espero que não incorra em pecado. É que, se Allah ocultar a falta de um servo neste mundo, também ocultará sua falta no Dia da Ressurreição.”

e. At-Tabarani narrou em sua obra Al-Awsat, por intermédio de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele), que um homem disse: “Ó Mensageiro de Allah! Que benefício terá uma pessoa se pagar o zakat de seus bens?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Quando uma pessoa paga o zakat de seus bens, todas as calamidades e aflições se afastam dela.”

f. Al-Bukhari e Muslim narraram de Jarir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: “Prestei juramento de fidelidade ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para estabelecer a oração, pagar o zakat e desejar o bem a todo muçulmano.”

3. Advertência sobre as terríveis consequências de não pagar o zakat

a. O Deus Altíssimo disse:

وَالَّذِينَ يَكْنِزُونَ الذَّهَبَ وَالْفِصْةَ وَلَا يُنْفِقُونَهَا فِي سَبِيلِ اللَّهِ لا فَبَشِّرْهُم بِعَذَابِ اليه يوم يحمى عَلَيْهَا فِي نَارِ جَهَنَّمَ تَتَّكُوى بِهَا جِبَاءَهُمْ وَجُنُوبُهُمْ وَظُهُورُهُمْ ، هَذَا مَا كَنَرْتُمْ لِأَنْفُسِكُمْ فَلْ وَقَوْا مَا كنتي تميزون.

“E anuncia-lhes um castigo doloroso: àqueles que acumulam ouro e prata e não os gastam no caminho de Allah. No dia em que esse ouro e essa prata forem aquecidos no fogo do Inferno e, com eles, forem marcadas suas testas, seus flancos e suas costas, ser-lhes-á dito: ‘Isto é o que acumulastes para vós mesmos. Portanto, saboreai o que acumulastes.’” (Surata At-Tawbah: versículos 34–35)

b. Allah também disse:

وَلَا يَحْسَبَنَّ الَّذِينَ يَبْخَلُونَ بِمَا أَنْهُمُ اللهُ مِن فَضْلِهِ هُوَ خَيْرًا لَمَرْ بَلْ هُوَ غَرْ لَهُمْ ، سَيَطُوقُونَ مَا بَغِلُوا بِهِ يَوْمَ الْقِيمَةِ .

“Que aqueles que são avarentos com os dons da graça que Deus lhes concedeu não pensem que essa avareza é boa para eles. Pelo contrário, ela é ruim para eles. No Dia da Ressurreição, aquilo que possuíam e com que eram avarentos (não pagando o zakat) será aquecido no fogo do Inferno, transformado em grilhões e colocado em seus pescoços.” (Surata آل عمران, versículo 180)

O Imame Ahmad, al-Bukhari e Muslim narraram, por meio de Abu Hurayra, que o Mensageiro de Deus disse: “Se aquele que acumula riqueza — isto é, aquele cuja riqueza torna obrigatório o zakat, mas não o paga — não pagar o zakat de sua riqueza, ela será queimada no fogo do Inferno e transformada em placas metálicas largas; com elas, seus dois flancos e sua testa continuarão sendo marcados até que Deus conclua o julgamento de Seus servos, num dia cuja duração será de cinquenta mil anos. Depois, ele será encaminhado para o Paraíso ou para o Inferno. Se o proprietário de uma manada de camelos não pagar o zakat devido por ela, no Dia da Ressurreição uma vasta planície será estendida e ampliada ao máximo para essa manada; então os camelos pastarão nessa planície. Sempre que o último camelo da manada passar sobre ele, o primeiro voltará a chegar ali. Isso continuará por cinquenta mil anos, até que Deus conclua o julgamento de Seus servos. Depois, ele será encaminhado para o Paraíso ou para o Inferno. Se o proprietário de uma manada de carneiros não pagar o zakat devido por ela, no Dia da Ressurreição uma vasta planície será estendida e ampliada ao máximo para essa manada. Ali, os carneiros continuarão pastando e revolvendo o chão com as patas e os chifres. Não haverá nela nenhum carneiro sem chifres nem com chifres curvados. Assim que o último carneiro chegar, o primeiro voltará. Isso continuará durante aquele dia, cuja duração, segundo o cálculo atual, será de cinquenta mil anos, até que Deus conclua o julgamento de Seus servos. Depois, ele será encaminhado para o Paraíso ou para o Inferno. As pessoas perguntaram: ‘Ó Mensageiro de Deus, e quanto aos cavalos?’ Ele respondeu: ‘O bem foi determinado na testa dos cavalos até o Dia da Ressurreição. Os cavalos são de três tipos: para alguns, são recompensa; para outros, proteção; e para outros, pecado. O cavalo que é recompensa para seu dono é aquele que ele mantém pelo caminho de Deus e prepara para servir no caminho de Deus. Por tudo o que ele coloca em seu ventre, isto é, por tudo o que lhe dá para comer, Deus registra uma recompensa para ele. Se o fizer pastar num campo verdejante, Deus registrará uma recompensa para ele por tudo o que o cavalo comer. Se lhe der água de um rio ou de um canal, haverá para ele uma recompensa por cada gota de água que lhe der. O Mensageiro de Deus mencionou recompensa até mesmo por sua urina e suas fezes. E se esse cavalo pastar numa ou duas áreas de terreno elevado e montanhoso, seu dono receberá uma recompensa a cada passo que ele der. O cavalo que é proteção para seu dono é aquele que ele mantém por orgulho de sua nobreza ou por apreço à sua beleza, sem esquecer, nos dias de felicidade ou de dificuldade, o direito de seu ventre e de suas costas — isto é, assim como monta nele, também não se esquece de alimentá-lo quando sente fome. Já o cavalo que é um fardo de pecado para seu dono é aquele que ele mantém por excessivo orgulho, arrogância e ostentação. Esse cavalo será para ele um fardo de pecado.’ As pessoas perguntaram: ‘Ó Mensageiro de Deus, o que dizes sobre os jumentos?’ O Mensageiro de Deus respondeu: ‘Nada me foi revelado sobre os jumentos, exceto este versículo abrangente e singular: ”

فَمَن يَعْمَلْ مِثْقَالَ ذَرَّةٍ خَيْرًا يره، ومن يعمل مِثْقَالَ ذَرَةٍ قرا يره .

“Quem fizer o bem do peso de um átomo o verá, e quem fizer o mal do peso de um átomo o verá.” (Surata الزلزلة, versículos 7–8)

Al-Bukhari e Muslim narraram, por meio de Abu Hurayra, que o Mensageiro de Deus disse: “Aquele a quem Deus concedeu uma riqueza, mas que não pagou o seu zakat, verá essa riqueza transformar-se, no Dia da Ressurreição, numa serpente venenosa com duas manchas negras sobre os olhos. Essa serpente o enroscará no Dia da Ressurreição, apertará suas duas mandíbulas e dirá: ‘Eu sou a tua riqueza; eu sou o teu tesouro acumulado.’” Então o Mensageiro de Deus recitou este versículo:

وَلَا يَحْسَبَنَّ الَّذِينَ يَبْخَلُونَ بِمَا أَتَاهُرُ اللَّهُ مِن فَضْلِهِ .

“Que aqueles que são avarentos com os dons da graça de Deus não pensem que isso é bom para eles…” (Surata آل عمران, versículo 180)

Ibn Majah, al-Bazzar e al-Bayhaqi narraram, por intermédio de Ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Ó emigrantes, peço refúgio a Allah para que vocês não sejam atingidos por cinco maus hábitos que podem surgir entre vocês. Quando a fornicação se tornar pública entre um povo, doenças que não existiam no tempo de seus antepassados se espalharão entre eles. Quando as pessoas diminuírem a medida e o peso nas transações, serão atingidas pela fome, pela pobreza e pela opressão do Estado. E aqueles que não pagarem o zakat sofrerão por causa da falta de chuva. Se não houvesse os animais, eles não receberiam chuva alguma. E aqueles que quebrarem o pacto com Allah e com Seu Mensageiro serão dominados por inimigos estrangeiros, que tomarão parte de seus bens. E quando os governantes de um povo não governarem segundo o Livro de Allah, surgirão entre eles conflitos internos».

Al-Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Ahnaf ibn Qays (que Allah esteja satisfeito com ele), que Ahnaf disse: Sentei-me numa reunião de um grupo dos coraixitas. De repente, apareceu ali um homem de cabelos desgrenhados, vestido com roupas grosseiras e de aparência desleixada. Assim que chegou, ficou diante de todos e os saudou (esse homem era Abu Dharr, que Allah esteja satisfeito com ele). Em seguida, disse: «Anunciem aos que acumulam riquezas a boa notícia de pedras aquecidas no fogo do Inferno. Depois, cada uma delas será colocada sobre o mamilo de cada um deles; por fim, sairá pela parte superior do seu pescoço. Então será colocada novamente sobre ele e sairá por seu mamilo. Assim, ele continuará tremendo». Depois, esse homem foi embora e sentou-se junto a um grupo de soldados. Eu o segui e sentei-me perto dele. Ainda não sabia quem era aquele homem. Disse-lhe: «Parece-me que as pessoas não gostaram do seu discurso». Ele respondeu: «Eles não entendem nada. Meu amigo me disse…» Perguntei: «Quem é seu amigo?» Ele respondeu: «O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Você consegue ver Uhud?» Olhei na direção do sol para observar quanto restava do dia. Eu pensava que o Mensageiro de Allah me enviaria para alguma tarefa. Respondi: «Sim, consigo ver Uhud». Então ele disse: «Não gostaria de possuir ouro em quantidade igual a Uhud e, depois de reservar três dinares, doar todo o restante». Essas pessoas não entendem nada; estão apenas acumulando as riquezas deste mundo. Juro por Allah, enquanto eu não me encontrar com Allah — isto é, enquanto não morrer — não lhes pedirei nada deste mundo, nem lhes farei perguntas sobre a religião.

4. A determinação da Shariah acerca de quem nega o zakat

O zakat é uma determinação indiscutível do Islam, cuja obrigatoriedade é objeto de consenso de toda a ummah muçulmana. Ela alcançou tal notoriedade que se tornou parte das determinações essenciais do Islam. Portanto, quem negar sua obrigatoriedade certamente sairá do Islam, tornando-se incrédulo e apóstata, e as normas relativas ao apóstata serão aplicadas a ele. Contudo, se tiver aceitado o Islam recentemente, poderá ser escusado por desconhecer todas as determinações do Islam.

Aquele que, embora acredite que é necessário e obrigatório pagar o zakat, se abstém de pagá-lo, não sairá do Islam, mas será pecador por não o pagar. O governante do país tem o direito de cobrar-lhe o zakat à força e puni-lo. Não poderá tomar dele bens em valor superior ao zakat. Segundo a opinião anterior do Imam Ahmad e de al-Shafi’i, o governo poderá tomar dele o zakat e, além disso, apropriar-se de metade de seus bens restantes como medida punitiva. O governo também poderá tomar o zakat e a metade restante dos bens daquele que ocultar o valor real de sua propriedade para não pagar o zakat e cuja fraude for posteriormente descoberta. Como prova disso, Imam Ahmad, al-Nasa’i, Abu Dawud, al-Hakim e al-Bayhaqi narraram, por intermédio de Bahz ibn Hakim, de seu pai, e de seu avô, que este disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: «Deve-se pagar o zakat por todo rebanho de camelos que pastam livremente. Quando houver quarenta camelos, deve-se entregar uma bint labun. Nenhum camelo poderá ser excluído do cálculo. Quem o entregar buscando recompensa receberá sua recompensa. E quem não pagar o zakat, nós…»

«…certamente o cobraremos como um direito obrigatório de Allah e também cobraremos metade de todos os seus bens. Nada disso será lícito para os descendentes de Muhammad». Ahmad disse: «A cadeia de transmissão deste hadith é autêntica». Sobre Bahz, al-Hakim disse: «Seu hadith é sahih». Contudo, al-Bayhaqi afirmou que, segundo al-Shafi’i, esse hadith não é considerado autêntico pelos especialistas em hadith.

Se um grupo, embora reconheça que o zakat é obrigatório, se recusar a pagá-lo e for muito influente e poderoso, o zakat deverá ser cobrado dele, ainda que seja necessário combatê-lo. Isso porque al-Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): «O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Fui ordenado a combater as pessoas até que testemunhem que não há divindade além de Allah, que Muhammad é Seu Mensageiro, estabeleçam a oração e paguem o zakat. Quando fizerem isso, terão de mim a segurança de suas vidas e de seus bens, salvo quando houver outro direito devido segundo as determinações do Islam. Allah fará a prestação de contas deles».

Todos os livros de hadith sahih narraram, por intermédio de Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele): «Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu e Abu Bakr estava vivo, muitos árabes abandonaram o Islam e se tornaram incrédulos. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Como você pode combatê-los, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Fui ordenado a combater as pessoas até que testemunhem que não há divindade além de Allah? Quem der esse testemunho terá de mim a segurança de sua vida e de seus bens, salvo os direitos devidos segundo o Islam, e Allah fará sua prestação de contas”. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Juro por Allah, combaterei quem fizer distinção entre a oração e o zakat, pois o zakat é o direito de Allah sobre os bens”. O clã Banu Yarbu havia reunido o zakat para enviá-lo a Abu Bakr, mas Malik ibn Nuwayra os proibiu de enviá-lo e distribuiu entre eles os bens do zakat. Foi em torno deles que surgiu a divergência e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou em dúvida a respeito deles. Por isso, discutiu com Abu Bakr e contestou sua decisão de combatê-los. Abu Bakr combateu-os no primeiro ano de seu califado, no décimo primeiro ano da Hégira».

Juro por Allah que, se eles se recusarem a entregar até mesmo a jovem camela que entregavam na época do Mensageiro de Allah, lutarei contra eles. Umar disse: Juro por Allah que a única razão para ele dizer isso foi que Allah abriu o peito de Abu Bakr para a guerra. (Isto é, não havia em sua mente qualquer dúvida quanto à legitimidade da guerra.) Compreendi que o que ele havia compreendido era a verdade. A versão de Muslim, Abu Dawud e at-Tirmidhi é a seguinte: “Mesmo que se recusem a entregar até a corda usada para amarrar os camelos, ainda assim lutarei contra eles”, em vez de “a jovem camela”.

5. Sobre quem a zakat é obrigatória?

A zakat torna-se obrigatória para o muçulmano livre assim que ele se torna proprietário de bens no valor do nisab (a quantidade mínima estabelecida). Se qualquer uma das categorias de bens sujeitas à zakat atingir o nisab estabelecido, deve-se pagar a zakat.

6. O nisab da zakat

As condições relativas ao nisab são:

a. Deve exceder as necessidades básicas da família: isto é, deve-se pagar a zakat quando houver excedente após a aquisição de alimentos, roupas, moradia, meios de transporte e ferramentas de trabalho.

b. Deve transcorrer um ano lunar completo. A contagem desse ano começa no dia em que se torna proprietário do nisab, e o nisab deve permanecer completo durante todo o ano. Se houver uma redução durante o ano e ele voltar a atingir o nisab posteriormente, a contagem deverá recomeçar a partir do dia em que o nisab for novamente completado.

An-Nawawi disse: A posição da nossa escola jurídica, bem como a de Malik, Ahmad e da maioria dos imames, é que, no caso dos bens cuja própria natureza constitui a base da obrigação da zakat e para os quais é condição o transcurso de um ano, como ouro, prata e animais, o nisab deve permanecer completo durante todo o ano para que a zakat seja devida. Se houver uma redução em qualquer momento do ano, este ficará incompleto. Quando o nisab voltar a ser completado, um novo ano começará a ser contado a partir desse momento. Abu Hanifa disse: É suficiente que o nisab esteja completo no início e no fim do ano. Não há problema se houver uma redução durante o período intermediário. Assim, se inicialmente alguém possuir duzentos dirhams e, no meio do ano, perder tudo, exceto um dirham, ou se inicialmente possuir quarenta cabras e, no meio do ano, todas morrerem, exceto uma, mas no fim do ano voltar a possuir duzentos dirhams e quarenta cabras, a zakat será obrigatória sobre o total. [Se alguém vender o nisab no meio do ano ou o converter em outro tipo de bem, o ano da zakat será interrompido, e uma nova contagem deverá ser iniciada.]

Todavia, essa condição não se aplica ao zakat sobre cereais e frutos. Nesse caso, o zakat torna-se obrigatório no dia da colheita. Pois Allah disse: وَأَتَوْا حَقَّهُ يَوْم حَصَادِه“No dia da colheita, entregai o que lhe é devido (o zakat).” Al-‘Abdari disse: Os bens sujeitos ao zakat são de dois tipos: um é aquele que cresce por si mesmo, como os frutos e os grãos. O zakat torna-se obrigatório sobre eles assim que são colhidos. O outro é aquele cujo crescimento depende de medidas tomadas para esse fim, como o dinheiro, os dirhams, os dinares, as mercadorias comerciais e os animais. Nestes casos, é necessário completar um ano. Mesmo que atinjam o nisab, o zakat não se torna obrigatório antes de completar um ano. Essa é a opinião dos juristas.

7. O zakat sobre os bens da criança e do louco

Quando os bens do louco e da criança atingirem o nisab, será obrigatório aos seus responsáveis pagar o zakat em nome deles. ‘Amr ibn Shu‘ayb narrou de seu pai, que narrou de seu avô, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem for responsável por um órfão que possua algum patrimônio deve comerciar com esse patrimônio em benefício dele, para que ele não seja consumido pelo zakat.” A cadeia de transmissão deste hadith é fraca. O Imã Ash-Shafi‘i afirmou enfaticamente, com base neste hadith, que o zakat é obrigatório sobre todos os tipos de patrimônio.
‘Aisha costumava retirar o zakat dos bens dos órfãos sob seus cuidados.

At-Tirmidhi disse: Há divergência entre os sábios sobre esta questão. Segundo ‘Umar, ‘Ali, ‘Aisha, Ibn ‘Umar e vários outros Companheiros, o zakat é obrigatório sobre os bens do órfão. Essa também é a opinião de Malik, Ash-Shafi‘i, Ahmad e Ishaq. Segundo outro grupo, incluindo Sufyan e Ibn al-Mubarak, não há zakat sobre os bens do órfão.

8. O zakat da pessoa endividada

Aquele que possui bens sujeitos ao zakat, mas está endividado, deverá primeiro quitar, com esses

bens, a dívida e, depois, pagar o zakat sobre o que restar, se isso atingir o nisab. Se não atingir o nisab, não terá de pagar zakat, pois, nessa situação, ele próprio é pobre. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O zakat não é obrigatório para ninguém, exceto para o rico.” — Ahmad e al-Bukhari.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “O zakat será recolhido dos ricos e distribuído entre os pobres.” A esse respeito, tanto a dívida devida a Allah quanto a dívida devida às pessoas são iguais. Em outro hadith, foi dito: “A dívida para com Allah tem prioridade quanto ao pagamento.” Isso será apresentado adiante.

9. O zakat de quem morreu sem pagar o zakat

Aquele sobre quem o zakat era obrigatório, mas que morreu sem pagá-lo, deixa um patrimônio sobre o qual o zakat continua obrigatório. O cumprimento dessa obrigação deve ter prioridade sobre o pagamento das dívidas, a execução do testamento e a distribuição da herança [esta é a opinião de al-Shafi‘i, Ahmad, Ishaq e Abu Thawr]. Pois Allah, o Altíssimo, disse a respeito da herança: (Surata 4, An-Nisa: versículo 12)

من بَعْدِ وَصِيَّةٍ يُوصِي بِمَا أَوْ دَيْن .

“(A herança será distribuída) depois de cumprido o testamento feito pelo falecido e pagas as dívidas.” An-Nisa: versículo 22. E o zakat é uma dívida devida a Allah, que permanece vigente.

Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele: Um homem foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Minha mãe morreu, mas ficou devendo o jejum de um mês. Devo compensá-lo em nome dela?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Se sua mãe tivesse uma dívida, você a pagaria em nome dela?” Ele respondeu: “Sim.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Então, a dívida para com Allah tem maior prioridade de ser quitada.” — Al-Bukhari e Muslim.

10. A intenção (propósito) é uma condição para o pagamento do zakat

O zakat é uma adoração. Portanto, a intenção é uma condição para a sua validade. A intenção consiste em ter como objetivo a satisfação de Allah no momento de pagar o zakat, buscar por meio dele a recompensa ou retribuição junto a Allah e acreditar firmemente, no coração, que este é o zakat obrigatório imposto sobre ele. Allah, o Altíssimo, disse:

وَمَا أَمِرُوا إِلَّا لِيَعْبُدُوا اللهَ مُخْلِصِينَ لَهُ الدِّين .

“Dedicavam a devoção exclusivamente a Allah: e só lhes foi ordenado adorar Allah.” (Surata Al-Bayyinah: versículo 5)

Além disso, foi declarado em um hadith autêntico que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Todas as ações são realizadas de acordo com as intenções. Cada pessoa receberá recompensa conforme a sua intenção.”

Segundo Malik e Ash-Shafi’i, a intenção é uma condição no momento do pagamento do zakat. Segundo Abu Hanifah, é necessário formular a intenção no momento do pagamento ou quando se separa a quantidade de bens que deverá ser entregue. Segundo Ahmad, também é válido formular a intenção pouco antes do pagamento.

11. Pagar o zakat assim que se torna obrigatório

No momento em que o zakat se torna obrigatório, é obrigatório pagá-lo imediatamente. É proibido adiá-lo. Porém, se não for possível pagá-lo, é permitido adiá-lo até que isso se torne possível. Ahmad e Al-Bukhari narraram, por intermédio de Uqbah ibn Al-Harith, que Allah esteja satisfeito com ele, que Uqbah disse: “Rezei a oração da tarde com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando ele terminou a oração com o salam, levantou-se rapidamente e foi até uma de suas esposas. Depois, saiu novamente. Ao perceber o espanto das pessoas da congregação diante de sua pressa, o Mensageiro de Allah disse: ‘Durante a oração, lembrei-me de que havia em minha casa ouro ou prata. Eu não gostaria que a tarde chegasse ou que a noite passasse enquanto isso ainda estivesse conosco. Por isso, voltei para ordenar que fosse distribuído.’” (Ibn Battal disse: “Este hadith mostra que é melhor apressar-se em toda boa ação, pois calamidades, aflições e obstáculos podem ocorrer a qualquer momento. E ninguém tem garantia de vida. Não é correto adotar a atitude de que ‘isso poderá ser feito depois’.”)

Al-Bukhari também narrou em sua obra de história, e Ash-Shafi’i narrou por intermédio de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah disse: “Quando o zakat se mistura a qualquer riqueza, a destruição dessa riqueza torna-se inevitável.” Ao narrar o mesmo hadith, Al-Humaydi acrescentou: “Pode acontecer de o zakat tornar-se obrigatório sobre a sua riqueza, mas você não o retirar. Nesse caso, essa riqueza ilícita acabará destruindo a riqueza lícita.”

12. Pagar o zakat antecipadamente

É permitido pagar o zakat antes de completar-se um ano. Pode-se inclusive pagá-lo de uma só vez por dois anos. Foi narrado de Az-Zuhri que ele considerava válido pagar o zakat antes de completar-se um ano. Quando perguntaram a Al-Hasan Al-Basri se seria suficiente um homem pagar antecipadamente, de uma só vez, o zakat de três anos, ele respondeu: “Será.”

Al-Shawkani, Al-Shafi’i, Ahmad, Abu Hanifa, Hadi, Qasim e Mu’ayyid Billah disseram: isso é recomendável. Mas Malik, Rabi’a, Sufyan al-Thawri, Dawud, Abu Ubayd ibn Harith e Nasir, entre os Ahl al-Bayt, disseram: não é permitido pagar o zakat antes de completar um ano.

O último grupo baseia-se nos hadiths que estabelecem o término de um ano como condição para a obrigatoriedade do zakat, conforme mencionado anteriormente. Contudo, mesmo aceitando essa opinião, a posição daqueles que consideram lícito antecipá-lo não é prejudicada. Pois a obrigatoriedade do zakat depende do término de um ano, e não há divergência quanto a isso. A divergência diz respeito à validade de pagá-lo antes desse prazo.

Ibn Rushd disse: a verdadeira causa da divergência é saber se o zakat é uma adoração ou um direito dos pobres. Segundo aqueles que dizem que ele é uma adoração e o comparam à oração, não é permitido retirá-lo ou pagá-lo antes do tempo devido. Já aqueles que o consideram um direito devido às pessoas julgam lícito pagá-lo antecipadamente.

Al-Shafi’i apresentou, em apoio à sua opinião, o hadith de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pagou antecipadamente o zakat de Al-Abbas, antes que ele se tornasse obrigatório.

13. É recomendável fazer uma súplica pelo pagador do zakat

É recomendável fazer uma súplica pelo pagador do zakat ao receber dele o zakat. Allah disse:

خَلْ مِنْ أَمْوَالِهم صدقة تطهرهم وتزكيهم بما وصل عَلَيْهِمْ ، إِنْ مَلُونَكَ سَكَن لَّهُ .

“Recebe o zakat de seus bens, com o qual os purificarás e os purificará, e suplica por eles. Na verdade, tua súplica é um consolo para eles.” (At-Tawbah: versículo 103)
Foi narrado por Abdullah ibn Abu Awfa (que Allah esteja satisfeito com ele): sempre que algum zakat era levado ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele dizia: “Ó Allah, concede-lhes misericórdia.” Quando meu pai entregou o zakat a ele, disse: “Ó Allah, concede misericórdia aos descendentes de Abu Awfa.” Ahmad e An-Nasa’i narraram, através de Wa’il ibn Hujr, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quando alguém lhe deu um belo camelo como zakat, fez a seguinte súplica pelo doador: “Ó Allah, abençoa-o e abençoa o seu camelo.”

Al-Shafi‘i disse: A melhor conduta para o governante é, depois de receber a zakat, suplicar pelo doador da zakat, dizendo: “Que Allah te recompense pelo que deste e abençoe o que deixaste.”

14. Os bens sobre os quais a zakat é obrigatória

Os bens sobre os quais o Islam tornou a zakat obrigatória são: ouro, prata, produtos agrícolas, frutos, mercadorias comerciais, animais que pastam livremente, riquezas minerais e tesouros preciosos enterrados sob a terra.

15. A zakat do ouro e da prata

Sobre a zakat do ouro e da prata, o Altíssimo Allah diz:

والَّذِينَ يَكْبِرُونَ الذَّهَبِ وَالْفِضَّةَ وَلا يُنفِقُونَهَا فِي سَبِيلِ اللَّهِ لا فَبَشِّرْهُم بِعَل اب اليه يوم يعمى عَلَيْهَا فِي نَارِ جَهَنَّمَ فَتَكْوَى بِمَا جِباههم وجنوبهم وظهورهم ، هَذَا مَا كَنَرْتُمْ لِأَنْفُسِكُمْ فَلُ وقُوْا مَا كنتم تكنزون .

“E aqueles que acumulam ouro e prata e não os gastam no caminho de Allah, anuncia-lhes um castigo doloroso. No dia em que serão aquecidos no fogo do Inferno e, com eles, serão marcadas as suas testas, os seus flancos e as suas costas. (E lhes será dito:) Isto é o que acumulastes para vós mesmos. Portanto, provai o que acumulastes para vós. (Surata At-Tawbah: versículo 34)”

A zakat é obrigatória tanto sobre o ouro quanto sobre a prata quando atingirem o nisab, tiver decorrido um ano sobre eles e estiverem livres das necessidades básicas e das dívidas, quer estejam em estado bruto, quer tenham sido fundidos e purificados das impurezas, quer tenham sido transformados em moedas.

16. O nisab do ouro e a quantidade de zakat:

Não há zakat sobre o ouro até que ele alcance vinte dinares. Quando atingir vinte dinares e tiver transcorrido um ano sobre essa quantia, deve-se pagar um quadragésimo dela, isto é, meio dinar. Sobre o que exceder vinte dinares, deve-se pagar um quadragésimo na mesma proporção. Foi narrado por Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não tens que pagar zakat — isto é, sobre o ouro — enquanto não tiveres vinte dinares. Quando tiveres vinte dinares e tiver transcorrido um ano sobre essa quantia, deverás pagar meio dinar. Sobre o que exceder essa quantia, deverás pagar na mesma proporção. Não há zakat sobre qualquer riqueza até que transcorra um ano.” Considerado sahih por Ahmad, Abu Dawud, al-Bayhaqi e al-Bukhari.

Foi narrado por Zirriq, o liberto de Banu Fuzara, que Umar ibn Abd al-Aziz, depois de assumir o califado, escreveu-lhe: “Cobra um dinar de zakat a cada quarenta dinares das mercadorias com que negociam todos os comerciantes muçulmanos que passam por tua região. Se a quantia for inferior, cobra proporcionalmente até vinte dinares. Se, diminuindo, chegar a três dinares, deixa-a e não cobres zakat sobre ela. Quanto ao que cobrares deles, concede-lhes, pelo restante do ano, um certificado de isenção até o limite de uma riqueza equivalente.” Ibn Abi Shayba. O Imam Malik disse no Muwatta: “A sunnah sobre a qual não há divergência entre nós é:”

A zakat torna-se obrigatória a partir de vinte dinares e duzentos dirhams.

Vinte dinares equivalem, segundo o peso do dirham egípcio, a 28 4/8 dirhams.

17. O nisab da prata e a quantidade de zakat

Não há zakat sobre a prata até que ela alcance o equivalente a duzentos dirhams. Quando atingir duzentos dirhams, deve-se pagar como zakat um quadragésimo dela. Sobre o que exceder essa quantia, deve-se pagar na mesma proporção, seja o excedente pequeno ou grande. Deve-se lembrar que, depois de o nisab ser alcançado no ouro e na prata, não há isenção de zakat sobre nenhuma parte deles.

Foi narrado por Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Fostes isentados no caso de cavalos e escravos. Portanto, pagai um dirham de zakat para cada quarenta dirhams de prata. Não há zakat sobre cento e noventa dirhams. Quando atingirem duzentos dirhams, deveis pagar cinco dirhams de zakat.” Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah.

At-Tirmidhi disse: Perguntei a Al-Bukhari sobre este hadith. Ele respondeu: O hadith é autêntico. A prática seguida pelos sábios é que não há zakat sobre menos de cinco awqiya. Uma uqiyya equivale a quarenta dirhams, e cinco awqiya equivalem a duzentos dirhams.

18. A combinação de ouro e prata

Quem possuir uma quantidade de ouro inferior ao nisab e uma quantidade de prata inferior ao nisab não deverá somá-los para completar o nisab, pois são duas coisas diferentes. Uma não se combina com a outra, assim como o gado bovino não se combina com os caprinos. Portanto, se alguém possuir 199 dirhams de prata e 19 dinares de ouro, o zakat não será obrigatório para ele.

19. O zakat sobre dívidas

A dívida pode apresentar duas situações:

(1) O devedor reconhece a dívida e está disposto a pagá-la. Há divergência entre os sábios quanto a esse tipo de dívida.

Primeira opinião: Segundo Ali, At-Thawri, Abu Thawr, os hanafitas e os hambalitas, o zakat sobre essa dívida é obrigatório para o credor. Contudo, ele não precisa pagá-lo até receber a dívida. Depois de recebê-la, deverá pagar o zakat relativo aos anos anteriores.

Segunda opinião: Segundo Uthman, Ibn Umar, Jabir, Tawus, An-Nakha’i, Al-Hasan, Az-Zuhri, Qatadah e Ash-Shafi’i, o zakat deve ser pago imediatamente, quer a dívida tenha sido recebida ou não.

Terceira opinião: não é necessário pagar zakat, pois não há crescimento desse patrimônio. Portanto, não há zakat sobre ele, assim como não há zakat sobre as ferramentas e os equipamentos usados para obter renda. Esta é a opinião de Ikrima, Aisha e Ibn Umar.

Quarta opinião: segundo Sa‘id ibn al-Musayyab e ‘Ata ibn Abi Rabah, deve-se pagar o zakat de um ano depois de receber o valor.

(2) Segundo caso: o devedor é tão pobre que não consegue pagar, ou nega a dívida, ou fica protelando. Segundo Qatada, Ishaq, Abu Thawr e os hanafitas, não é necessário pagar zakat sobre esse patrimônio, pois o proprietário é incapaz de se beneficiar dele. Segundo al-Thawri, Abu Ubayd e outros, deve-se pagar o zakat relativo ao período passado depois de receber a dívida, pois sua propriedade sobre esse patrimônio continua vigente e ele é utilizável. Portanto, é obrigatório pagar o zakat pelo período transcorrido, assim como no caso de uma dívida devida por uma pessoa próspera e capaz de pagar. A respeito desse patrimônio, foram narradas de al-Shafi‘i duas opiniões diferentes. Por outro lado, segundo Umar ibn Abd al-Aziz, al-Hasan, al-Layth, al-Awza‘i e Malik, deve-se pagar o zakat de um ano depois de recebê-lo.

20. O zakat sobre cédulas bancárias, títulos e certificados

Deve-se pagar o zakat sobre cédulas bancárias (dinheiro), títulos, certificados e semelhantes, pois eles são meios de troca em lugar do ouro e da prata.

21. O zakat sobre joias

Os sábios concordam que não há zakat sobre joias feitas de pedras preciosas, como diamantes, pérolas, rubis e outras pedras semelhantes. Contudo, se forem utilizadas como mercadorias comerciais, deve-se pagar zakat sobre elas. Há divergência quanto à obrigatoriedade do zakat sobre as joias de ouro e prata das mulheres. Abu Hanifa e Ibn Hazm disseram que se deve pagar zakat quando atingirem o nisab, pois no hadith narrado por Amr ibn Shu‘ayb consta: “Duas mulheres foram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), usando braceletes de ouro nas mãos. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse-lhes: ‘Gostariam que Allah lhes colocasse braceletes de fogo nas mãos no Dia da Ressurreição?’ Ambas responderam: ‘Não.’ Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: ‘Cumpram o direito dos braceletes que estão em suas mãos’, isto é, paguem o zakat.”

Asma bint Yazid disse: “Eu e minha tia fomos até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Naquela ocasião, usávamos braceletes de ouro. Ele nos perguntou: ‘Vocês pagam o zakat deles?’ Respondemos: ‘Não.’ Ele disse: ‘Vocês não temem que, no Dia da Ressurreição, Allah lhes coloque braceletes de fogo? Paguem o zakat deles.’” Ahmad.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: «O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) veio até mim. Então viu anéis de prata em minha mão e me perguntou: “Ó Aisha, o que é isto?” Eu respondi: “Ó Mensageiro de Allah, fiz estes anéis para me enfeitar diante de você.” Ele perguntou: “Tu pagas o zakat deles?” Eu respondi: “Não.” Ele disse: “Então eles são suficientes para o teu Inferno.” — Abu Dawud, Dar Qutni e Bayhaqi.

A opinião dos outros três imames é que não há zakat sobre as joias das mulheres, qualquer que seja a sua quantidade. Bayhaqi narra que Jabir ibn Abdullah foi questionado sobre as joias: “Há zakat sobre elas?” Jabir respondeu: “Não.” Perguntaram novamente: “Mesmo que valham mil dinares?” Jabir respondeu: “Mesmo que tenham valor ainda maior.” Bayhaqi também narra que Asma, filha de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela), adornava suas filhas com joias de ouro no valor aproximado de cinquenta mil dinares, mas não pagava zakat por elas. E em Al-Muwatta, por meio de Abd al-Rahman ibn al-Qasim, é narrado de seu pai que Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) cuidava de sobrinhas órfãs que viviam sob sua tutela e que possuíam algumas joias; contudo, ela não pagava zakat por elas. Além disso, Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) colocava joias em suas filhas e escravas, mas não pagava zakat por elas.

Al-Khattabi disse: «O que se evidencia das declarações claras contidas no Livro de Allah é que o pagamento do zakat sobre as joias é obrigatório. As declarações dos Companheiros também o apoiam. Aqueles que dizem que não é obrigatório seguiram o caminho dos argumentos racionais. Há também declarações de alguns Companheiros em favor dessa opinião. Contudo, pagá-lo é melhor e constitui uma medida de precaução.» Essas opiniões referem-se às joias lícitas. Se uma mulher usar joias ilícitas, como joias próprias dos homens — por exemplo, ornamentos de espada, que são proibidos —, também será obrigatório para ela pagar o zakat sobre elas. O mesmo se aplica a pratos, tigelas e objetos semelhantes de ouro e prata.

22. O zakat do dote

Segundo Abu Hanifa, não há zakat sobre o dote da esposa enquanto ele não for recebido. Depois de recebido, é condição que atinja o nisab e que transcorra um ano. A situação é diferente se, juntamente com o dote, ela possuir outros bens que alcancem o nisab. Quando uma parte do dote for recebida, ela será somada aos outros bens que já possua no valor do nisab; ao completar-se o ano, deverá pagar o zakat sobre tudo.

Segundo o Imam al-Shafi’i, o zakat do dote da esposa torna-se obrigatório quando se completa um ano. Ao fim do ano, deve-se pagar o zakat sobre todos os bens, quer o dote tenha sido recebido antes da consumação do casamento, quer depois. Se o dote for anulado por apostasia ou por qualquer outro motivo que dissolva o casamento, ou se metade dele for anulada por causa do divórcio, isso não altera a regra do zakat. Segundo os hanbalis, o dote devido à esposa é como uma dívida que lhe é devida. Para eles, sua regra é a mesma das demais dívidas. Se o marido for abastado e rico, deve-se pagar o zakat sobre o dote. Quando ele for recebido, deverá pagar também o zakat dos anos anteriores. Se o marido for pobre e incapaz, ou negar a dívida, ainda assim, segundo al-Khiraqi, deve-se pagar o zakat. Nesse caso, não há diferença entre o dote recebido antes ou depois da consumação. Se, por causa de um divórcio antes da consumação, metade do dote for anulada e a outra metade for recebida, o zakat será obrigatório sobre a parte recebida, mas não sobre a parte não recebida. Da mesma forma, se, antes de ser recebido, todo o dote for anulado devido à dissolução do casamento por algum motivo imputável à esposa, não haverá zakat obrigatório sobre ela.

23. O zakat dos aluguéis

Segundo Abu Hanifa e Malik, aquele que aluga sua própria casa não se torna credor do aluguel apenas por assinar o contrato; o aluguel só se torna devido quando termina o período da locação. Por isso, quem aluga uma casa não terá de pagar zakat sobre o aluguel até receber o valor, até transcorrer um ano e até que ele alcance o nisab. Já segundo a escola hanbali, o locador torna-se proprietário do aluguel desde o momento em que assina o contrato. Assim, quem aluga sua casa fica obrigado a pagar zakat quando o aluguel atingir o nisab e completar-se um ano. Com efeito, o locador pode utilizar o aluguel de sua casa de diversas maneiras. Não se pode alegar que o contrato de aluguel pode ser rescindido a qualquer momento para isentar-se do zakat, assim como não se pode alegar que o casamento pode ser dissolvido antes da consumação para isentar-se do zakat do dote antes da consumação. Quando receber o aluguel, deverá pagar seu zakat. Se ele for uma dívida, então terá a regra das dívidas, seja ela de pagamento imediato ou diferido. (Isto é, quando o receber, deverá pagar o zakat pelo período transcorrido desde a assinatura do contrato, caso tenha passado um ano ou mais.) Al-Nawawi disse em sua obra Al-Majmu: se alguém alugar sua casa ou convertê-la em um aluguel pago imediatamente, e o aluguel for recebido, então, por consenso, o zakat será obrigatório para ele.

24. O zakat das mercadorias comerciais

Segundo a maioria dos sábios, incluindo os Companheiros, os tabi’un e os juristas, o zakat é obrigatório sobre as mercadorias comerciais. Abu Dawud e al-Bayhaqi narraram, de Samura ibn Jundub, que Samura ibn Jundub disse: “O Mensageiro de Allah ordenava-nos pagar o zakat daquilo que mantínhamos para vender.” Ad-Daraqutni e al-Bayhaqi narraram, de Abu Dharr, que o Mensageiro de Allah disse: “Há zakat sobre os camelos, há zakat sobre as cabras e ovelhas, há zakat sobre o gado bovino e há zakat sobre os bens domésticos.” Ash-Shafi’i, Ahmad, Abu Ubayd, ad-Daraqutni, al-Bayhaqi e Abd ar-Razzaq narraram, de Abu Amr ibn Himas, e Abu Amr, de seu pai: “Eu vendia peles e grandes recipientes para alimentos. Certo dia, Umar ibn al-Khattab passou por mim e disse: ‘Paga o zakat desses teus bens.’ Eu disse: ‘Ó comandante dos crentes, são apenas peles.’ Ele disse: ‘Avalia-as e depois paga o zakat correspondente.’” Em al-Mughni, é dito: muitos acontecimentos desse tipo ocorreram. Ninguém os rejeitou. Portanto, isso será considerado ijma’, isto é, uma opinião consensual. Em contrapartida, os sábios da escola zahirita dizem: não há zakat sobre as mercadorias comerciais. Ibn Rushd disse: a única razão das divergências entre os sábios quanto à obrigatoriedade do zakat sobre as mercadorias comerciais é a analogia e a divergência sobre a autenticidade dos hadiths de Samura e Abu Dharr.

A analogia adotada pela maioria dos sábios é que o objetivo dos bens destinados ao comércio é aumentar a riqueza por meio deles. Portanto, os bens destinados ao comércio são análogos àqueles sobre os quais há consenso quanto à obrigatoriedade do zakat.

Na obra Al-Manar, é dito: segundo a maioria dos sábios da ummah muçulmana, o zakat das mercadorias comerciais é obrigatório. Não há, sobre isso, nenhuma declaração explícita no Alcorão e na Sunnah. Encontram-se apenas algumas narrações, algumas das quais reforçam outras. Contudo, são as declarações explícitas do Alcorão e da Sunnah que dão força a essas narrações. O significado dessas declarações é que as mercadorias comerciais negociadas com fins lucrativos são como uma espécie de dinheiro em espécie. Não há diferença significativa entre o valor dessas mercadorias e os dirhams e dinares, isto é, o dinheiro em espécie. Se existe alguma diferença, é apenas que o nisab do zakat oscila entre as mercadorias e o valor delas, ou seja, o dinheiro em espécie. Ele não possui uma quantia fixa. Assim, se o zakat não fosse obrigatório sobre as mercadorias comerciais, todos os comerciantes poderiam continuar negociando seu dinheiro em espécie de tal maneira que um ano jamais passasse sobre o nisab do ouro ou da prata. Desse modo, o zakat seria anulado sobre todas as suas mercadorias comerciais.
O princípio fundamental desta norma é que Allah, o Altíssimo, tornou o zakat obrigatório sobre a riqueza dos ricos com o objetivo de ajudar e demonstrar solidariedade para com os pobres e promover o bem-estar social. O benefício para os ricos é que seus corações são purificados da repugnante mancha da avareza. Eles se enriquecem com a nobre virtude da compaixão pelos pobres e ajudam o país e a nação a estabelecer uma sociedade voltada para o bem-estar público. Quanto aos pobres, o benefício é que podem ser ajudados em calamidades e dificuldades repentinas. Também se impedem certas distorções na sociedade, como a concentração de grandes riquezas nas mãos de poucas pessoas e a ocorrência de inflação. Allah, o Altíssimo, indicou isso ao explicar o nobre propósito da distribuição da riqueza pública:

كي لا يكون دولة بين الأغنياء منكم

“Para que a riqueza não fique circulando apenas entre os ricos dentre vós.” (Al-Hashr: versículo 8)

Seria razoável permitir que a classe de comerciantes, por cujas mãos provavelmente circula a maior parte da riqueza da nação, permanecesse fora dos nobres propósitos e objetivos mencionados pelo Islam?

Quando uma mercadoria se torna uma mercadoria comercial? Em al-Mughni, é dito: para que uma mercadoria se transforme em mercadoria comercial, são indispensáveis duas condições:

1. É necessário tornar-se proprietário dos bens por algum dos seguintes meios: comércio, casamento, khulʿ, recebimento de uma doação, testamento, espólio de guerra, emprego lícito ou ganho. Pois, quando a obrigação da zakat sobre uma riqueza é estabelecida pela sua entrada na propriedade de alguém, ela não se estabelece apenas pela intenção, assim como o jejum. Não há diferença entre tornar-se proprietário mediante uma contrapartida e tornar-se proprietário sem contrapartida, pois ele se tornou proprietário dela por meio de seu próprio ato. Assim, essa riqueza se tornou semelhante à riqueza recebida por herança.

2. Ao adquirir a propriedade dos bens, deve-se ter a intenção de que eles se destinam ao comércio. Se, no momento de se tornar proprietário, não tiver a intenção de que se destinam ao comércio, eles não se tornarão bens comerciais. Se essa intenção for formulada posteriormente, ela não produzirá efeito.

Se alguém se tornar proprietário por herança e pretender negociar com ela, ela não se transformará em bem comercial, pois, originalmente, é um bem destinado ao uso. Sua condição comercial é posterior e adventícia. Portanto, uma mera intenção não a transformará em bem comercial. Do mesmo modo, se alguém, permanecendo em sua própria residência, tiver a intenção de viajar, não se tornará viajante apenas pela intenção, sem efetivamente sair em viagem. E se comprar um bem para o comércio e depois tiver a intenção de considerá-lo um bem para seu próprio uso, ele se tornará um bem de uso pessoal e a zakat não incidirá sobre ele.

25. Método de pagar a zakat sobre os bens comerciais

Aquele que se tornar proprietário de bens comerciais no valor do nisab e completar-se um ano sobre eles deverá avaliá-los ao final do ano e pagar a zakat. (Segundo o Imam Malik, o ano também é contado sobre um valor inferior ao nisab, por precaução quanto ao nisab. Se, ao final do ano, o nisab estiver completo, a zakat deverá ser paga.)

Deve-se pagar como zakat um quadragésimo do valor desses bens. O comerciante fará o mesmo em seus negócios a cada ano. O ano não será contado até que a riqueza que possui alcance o valor do nisab. Se alguém possuir bens cujo valor seja inferior ao nisab e, depois de transcorrida parte do ano, esses bens permanecerem na mesma quantidade, mas o valor da parte acrescentada aumentar; ou se o preço dos bens aumentar, fazendo com que o nisab seja atingido; ou se vender esses bens pelo valor do nisab; ou se, durante o ano, adquirir outros bens; ou se passar a possuir uma riqueza de valor suficiente para completar o nisab, então o ano começará a ser contado a partir desse momento, e o período anterior não será considerado. Esta é a opinião de al-Thawri, da escola hanafita, de al-Shafiʿi, Ishaq, Abu ʿUbayd, Abu Thawr e Ibn al-Mundhir.

Depois, se novamente, no meio do ano, o nisab ficar abaixo do limite, embora esteja completo no início e no fim do ano, segundo Abu Hanifa o ano não será interrompido. Caso contrário, ele teria de conhecer o valor dos bens a todo momento, para saber quando seu valor atingiria o nisab, o que seria uma tarefa extremamente difícil. Segundo os hanbalitas, quando o nisab diminui no meio do ano e depois volta a aumentar até ficar completo, o ano será contado novamente a partir desse momento, pois, ao diminuir o nisab no meio do período, o ano havia sido interrompido.

26. Zakat sobre cereais e frutos

Allah, o Altíssimo, tornou a zakat obrigatória sobre os grãos e os frutos por meio de Sua seguinte palavra:

يأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا الْفِقُوا مِنْ طَيِّبَت مَا كَسَبْتُمْ وَمِمَّا أَخْرَجْنَا لَكُم مِّنَ الْأَرْضِ

“Ó crentes, gastai do que adquiristes de lícito e daquilo que fizemos surgir para vós da terra.” (Surata Al-Bácara: versículo 267) A palavra “gastar” transmite o significado de zakat. Allah também diz:

e وَهُوَ الَّذِي أَنْهَا جَنْبٍ مَعْرُوض وغير معروش والنخل والزرع مُخْتَلِفًا أَكله والزيتون والرمان مُتَهَا بِها وَغَيْرَ مُتَقَابِهِ ، كُلُوا مِن شَيْرِ إِذَا أَثْمَرَ وَأَتُوا حَقَّهُ يَوْمَ حَصَادِهِ .

“E Ele é Quem criou jardins, alguns sustentados por treliças e outros não sustentados por treliças, e as tamareiras e as plantações, cujos frutos têm sabores diversos, e as oliveiras e as romãzeiras, semelhantes e diferentes entre si. Comei de seus frutos quando frutificarem e dai o que é devido deles no dia da colheita.” (Surata Al-An’am: versículo 141)

Ibn Abbas disse, ao explicar este versículo: “O que é devido é a zakat, que foi tornada obrigatória.” E a zakat consiste em um décimo e em um vigésimo.

Produtos agrícolas dos quais se cobrava zakat na época do Mensageiro de Allah: Durante a época do Mensageiro de Allah, cobrava-se zakat do trigo, da cevada, das tâmaras e das passas.
Foi narrado por Abu Musa e Muadh (que Allah esteja satisfeito com ambos): “O Mensageiro de Allah enviou os dois ao Iêmen para ensinar o Islam ao povo. Ordenou-lhes que não cobrassem zakat de nada além destas quatro coisas: trigo, cevada, tâmaras e passas.” — Ad-Daraqutni, Al-Hakim, At-Tabarani e Al-Baihaqi. Os narradores deste hadith são confiáveis. Ibn al-Mundhir e Ibn Abd al-Barr disseram: “Os estudiosos são unânimes em que a zakat é obrigatória sobre o trigo, a cevada, as tâmaras e as passas.”

Segundo uma narração de Ibn Majah: “O Mensageiro de Allah instituiu a zakat somente sobre o trigo, a cevada, as tâmaras, as passas e o milho.”

Culturas sobre as quais não se cobrava zakat: não se cobrava zakat de hortaliças nem de qualquer fruta, exceto uvas e tâmaras. Foi narrado por Ata ibn Sa’ib:
Abdullah ibn al-Mughira quis cobrar zakat das hortaliças produzidas no campo de Musa ibn Talha. Musa ibn Talha disse-lhe: “Você não pode fazer isso, pois o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia que não há zakat nelas.” — Relatado por al-Daraqutni e al-Hakim. Musa ibn Talha também disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu zakat sobre cinco coisas: trigo, cevada, sorgo, uvas passas e tâmaras. Além dessas, não há ushr (zakat de um décimo) sobre nenhuma outra cultura produzida pela terra.” Ele também disse: “Mu’adh não cobrava zakat sobre hortaliças e verduras.”

Ma’shar narrou que o administrador de Umar lhe perguntou qual, entre as uvas do tipo firsik e as romãs, era produzida em maior quantidade do que as uvas comuns. Em resposta, ele escreveu: “Não há ushr sobre elas. Trata-se de uma planta espinhosa.” At-Tirmidhi disse: “Esta é a opinião da maioria dos sábios: não há zakat sobre hortaliças e verduras.”

Al-Qurtubi disse: “A zakat está relacionada aos grãos alimentícios, não às hortaliças e verduras. Em Ta’if havia firsik, romãs e limões, mas não há prova de que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ou algum de seus califas tenha cobrado zakat sobre eles.” Ibn al-Qayyim disse: “Não era prática do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, cobrar zakat sobre cavalos e escravos. Ele também não cobrava zakat sobre jumentos, mulas, hortaliças, melões, melancias e quaisquer frutas vendidas por medida ou peso. Contudo, não cobrava zakat sobre uvas e tâmaras por atacado. Não fazia distinção entre tâmaras secas e não secas.”

Opiniões dos juristas: não há divergência entre os sábios quanto à obrigatoriedade da zakat sobre grãos alimentícios e frutas. A divergência diz respeito apenas às categorias de grãos alimentícios sobre as quais a zakat é obrigatória. A seguir, apresentam-se resumidamente as opiniões dos sábios sobre esse assunto:

1. Hasan al-Basri, ath-Thawri e ash-Sha’bi disseram: não há zakat, exceto sobre os grãos mencionados expressamente no Alcorão e nos hadiths. Esses grãos são: trigo, cevada, milho, tâmaras e uvas passas. Isso porque não há menção no Alcorão e nos hadiths a outros grãos. Na opinião de ash-Shawkani, esta é a posição correta.

2. A opinião de Abu Hanifa: a zakat é obrigatória sobre todos os produtos agrícolas produzidos pela terra, sejam eles hortaliças, verduras ou qualquer outra coisa. Ele estabeleceu apenas a condição de que a terra seja utilizada com a intenção de aumentar sua capacidade produtiva. Não há zakat somente sobre lenha, bambu, plantas narcóticas e árvores que não dão frutos. Como prova de sua opinião, ele apresentou a declaração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Sobre toda plantação que nasce graças à chuva do céu deve-se pagar um décimo de zakat.” Essa declaração inclui todo produto agrícola produzido pela água da chuva. Além disso, o cultivo dessas plantas é feito com a intenção de aumentar a capacidade produtiva da terra. Portanto, elas se assemelham aos grãos.

3. A opinião de Abu Yusuf e Muhammad: deve-se pagar zakat sobre tudo o que é produzido pela terra. A condição, porém, é que isso possa durar um ano sem cuidados excessivos, seja sua quantidade determinada por peso ou por medida. Exemplos do que é medido por peso são o algodão e o açúcar; exemplos do que é medido por medida são as sementes e os grãos. Se não durar um ano, como pepinos, melões, melancias, bangi e frutas e hortaliças semelhantes, não há zakat sobre isso.

4. A opinião de Malik: deve-se pagar zakat sobre todo produto produzido pela terra. A condição, porém, é que ele seja durável, possa secar e seja produzido pelo esforço humano, seja um grão alimentício, como trigo e cevada, ou outra coisa que não seja um grão alimentício, como as sementes chamadas qirtim e o gergelim. Segundo ele, não há zakat sobre hortaliças e frutas, como figos, romãs, maçãs e semelhantes.

5. Segundo al-Shafi‘i, a zakat é obrigatória sobre os cultivos produzidos pela terra que são usados como alimento, podem ser armazenados e são obtidos mediante o esforço humano. Como o trigo e a cevada — sobre estes a zakat é obrigatória. Al-Nawawi disse: em nossa escola jurídica, não há zakat sobre nenhum fruto além das tâmaras e das uvas. Não há zakat sobre nenhum cultivo além daqueles usados como alimento e que podem ser armazenados. Também não há zakat sobre os vegetais.

Segundo Ahmad, deve-se pagar zakat sobre tudo o que Allah faz surgir da terra, como sementes de cereais e frutos que secam, permanecem conservados, têm sua quantidade determinada por medida e são produzidos pelo próprio esforço da pessoa em sua própria terra — quer sejam alimentos, como o trigo (observe-se que, se alguém comprar produtos agrícolas ou frutos para consumo, ou de outra forma, não haverá zakat obrigatória sobre eles), quer sejam outros cereais além do trigo e da cevada (como lentilhas, grão-de-bico, feijão-mungo, feijões etc.), quer sejam hortaliças, pepinos e pepinos-armênios, ou qirtim e gergelim. Segundo ele, não há zakat sobre frutos de qualidade semelhante à desses produtos agrícolas, como maçãs, peras e figos, que não secam, nem sobre vegetais como pepinos, pepinos-armênios, melões, cenouras e nabos.

A zakat das azeitonas: Al-Nawawi disse: a opinião correta entre nós é que não há zakat sobre as azeitonas. A opinião de Hasan ibn Salih, Ibn Abi Layla e Abu ‘Ubayd é a mesma. Por outro lado, segundo al-Zuhri, al-Awza‘i, al-Layth, Malik, al-Thawri, Abu Hanifa e Abu Thawr, a zakat é obrigatória sobre elas. Al-Zuhri, al-Layth e al-Awza‘i disseram que se deve fazer uma estimativa das azeitonas e pagar a zakat com base na quantidade de seu azeite. Malik disse: não é necessário fazer uma estimativa. Depois de extrair o azeite, quando a quantidade atingir cinco wasaq, deve-se pagar o ‘ushr (um décimo).

A causa e a origem da divergência: Ibn Rushd disse: a causa da divergência entre aqueles que limitam a zakat apenas aos produtos sobre os quais há consenso e aqueles que a estendem também aos produtos alimentares armazenáveis é a divergência quanto à razão da relação da zakat com esses quatro produtos consensuais. A questão é: essa relação se deve exclusivamente a esses produtos ou a alguma característica deles, considerada o fato de serem alimentos? Aqueles que dizem que não se deve a nenhuma característica, mas que a zakat foi prescrita especificamente para esses quatro produtos, defendem limitá-la a eles. Já aqueles que dizem que ela se deve à característica de serem alimentos incluem todos os cereais alimentares no âmbito da zakat. Quanto à divergência entre os que limitam a zakat apenas aos cereais alimentares e os que a aplicam a todos os cereais — exceto aos frutos inebriantes, à lenha e ao bambu —, suas causas são opostas.

O raciocínio por analogia baseado na abrangência literal: a abrangência literal, que exige incluir todos os produtos agrícolas no âmbito da zakat, está presente no hadith do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — segundo o qual se paga um décimo sobre aquilo que cresce com a água da chuva e um vigésimo sobre aquilo que cresce mediante irrigação. Nesse hadith, a palavra “aquilo” tem sentido abrangente. Do mesmo modo, há uma expressão de sentido abrangente na seguinte afirmação do Alcorão:

وهُوَ الَّذِي أَنْهَا جَنَّاتٍ مَعْرُوعات .

“Ele é Allah, que criou os jardins, alguns sustentados por treliças e outros não sustentados por treliças… e dai o que é devido por eles no dia de sua colheita.”

Aqui, o raciocínio por analogia, isto é, o argumento, é que o único objetivo da zakat é eliminar a necessidade ou a pobreza — algo que, na maioria das vezes, não é alcançado por nenhum cultivo que não seja alimentar. Assim, aqueles que, com base nessa analogia, restringem o termo abrangente “cereais” a um sentido específico, entendendo por ele apenas os cereais alimentares, consideram todos os demais cereais, exceto os alimentares, fora do âmbito da zakat. Já aqueles que mantêm o sentido abrangente opinam que a zakat também é obrigatória sobre outros cereais além dos alimentares. Naturalmente, segundo o consenso, aquilo que está excluído da zakat continuará excluído dela.

Mesmo aqueles que concordam que a zakat é obrigatória apenas sobre os grãos alimentícios divergem quanto a algumas coisas. A razão dessa divergência é a discordância sobre se essas coisas são de fato alimentos. Um exemplo desse tipo de divergência é a discordância entre o imame Malik e al-Shafi’i a respeito das azeitonas. Malik considera a zakat obrigatória sobre as azeitonas. Já a última opinião de al-Shafi’i, proferida enquanto estava no Egito, é que a zakat não é obrigatória sobre as azeitonas. A causa dessa divergência é que um deles considera esse produto agrícola um alimento, enquanto o outro não.

27. O nisab da zakat sobre grãos e frutas

Segundo a maioria dos sábios, a zakat não é obrigatória sobre nenhuma fruta ou grão até que, depois de separado da palha e da casca, atinja a quantidade de cinco wasaq. Se não for descascado, seu nisab será de dez wasaq.

1. Relatado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Não há zakat sobre menos de cinco wasaq.” — Ahmad e al-Bayhaqi.

2. Relatado por Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Se tâmaras ou qualquer grão forem menos de cinco wasaq, não há zakat sobre eles.” Um wasaq equivale, por consenso, a sessenta sa’. Abu Hanifa e Mujahid disseram que a zakat é obrigatória sobre qualquer grão, seja pouco ou muito. Isso porque a declaração do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), “Sobre aquilo que cresce pela água da chuva incide o ushr”, tem sentido geral. Além disso, como não há a condição de completar um ano, também não há a condição do nisab.

Ao analisar essa opinião, Ibn al-Qayyim disse: “Em muitas hadiths autênticos, foi estabelecido de modo inequívoco que o nisab daquilo sobre o qual o ushr é obrigatório é de cinco wasaq. Por exemplo, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: ‘Sobre a colheita que cresce pela água da chuva incide o ushr (um décimo), e sobre aquela que cresce por irrigação incide metade do ushr.’ Eles disseram: ‘Aqui não há nisab; deve-se pagar zakat tanto sobre pouco quanto sobre muito.’ Contudo, o hadith que especifica o nisab contradiz esse hadith. Entretanto, a declaração de um hadith de sentido geral é tão definitiva quanto a de um hadith de sentido específico. Quando dois hadiths parecem contradizer-se, deve-se dar preferência àquilo cuja observância é mais cautelosa. E isso significa que a zakat sobre as colheitas é obrigatória mesmo quando ficam abaixo do nisab.”

A solução para esse problema é que é necessário agir de acordo com ambos os hadiths, e não é permitido invalidar completamente um deles por meio do outro. Isso porque a obediência ao Mensageiro é obrigatória segundo ambos os hadiths. Esses dois hadiths de modo algum se contradizem. Pois “sobre a colheita que cresce pela água da chuva incide o ushr”. Nesse hadith, foi especificado separadamente sobre qual incide o ushr e sobre qual incide metade do ushr. Ambos foram mencionados, e foi esclarecido separadamente quanto de zakat deve ser dado sobre cada um deles. A questão do nisab não foi mencionada nesse hadith; ela foi mencionada no outro. Portanto, como seria possível interpretar uma ayah ou um hadith claro e inequívoco, que não admite outra interpretação além de sua explicação específica, segundo o sentido de uma ayah ou de um hadith ambíguo cujo objetivo é explicar uma afirmação indefinida por meio de uma afirmação definida? É assim que todas as afirmações indefinidas são explicadas por outra afirmação definida.

Ibn Qudama disse: “O hadith ‘Não há zakat sobre uma colheita inferior a cinco wasaq’ é específico; é necessário apresentá-lo primeiro e, por meio dele, especificar o outro hadith, que é indefinido. Da mesma forma, o hadith indefinido e de sentido geral ‘Há zakat sobre todos os camelos que pastam’ foi especificado pelo hadith ‘Não há zakat sobre menos de cinco camelos’. Do mesmo modo, o hadith ‘Sobre a colheita da terra regada pela chuva incide um décimo, ou ushr’ foi especificado e explicado pelo hadith ‘Não há zakat sobre menos de cinco wasaq’. Além disso, como se trata de um bem sobre o qual incide zakat, não há zakat sobre sua pequena quantidade. Esse princípio se aplica a todas as coisas sujeitas à zakat. No caso das colheitas, não é necessário completar um ano, pois, quando a colheita é cortada e recolhida em casa, seu crescimento já se completou; ele não se completa por deixá-la armazenada. Para os demais bens, foi estabelecida a condição de completar um ano, pois se supõe que, no caso dos outros bens, o crescimento pode completar-se ao longo de um ano. A condição do nisab foi estabelecida para que o bem cresça e alcance um nível que possibilite ajudar as pessoas. Além disso, a zakat só é obrigatória sobre os ricos; contudo, em qualquer bem sujeito à zakat, a riqueza não é comprovada sem o nisab.”

Um sâ’ é um recipiente de medida e um terço dele. Assim, o nisab também pode equivaler a cinquenta recipientes de medida. Se a produção agrícola não puder ser medida por recipientes, Ibn Qudama disse: o nisab do açafrão, do algodão e de coisas semelhantes que são medidas por peso é de mil e seiscentos ratl iraquianos. (É importante observar que cinco wasaq equivalem a mil e seiscentos ratl iraquianos, e um ratl iraquiano equivale aproximadamente a 130 dirrãs.) Portanto, seu peso equivale a mil e seiscentos ratl iraquianos.

Abu Yusuf disse: se a produção agrícola não puder ser medida por recipientes, não haverá zakat obrigatório sobre ela. Porém, se aquilo que é medido por recipientes atingir o valor do nisab, deverá pagar-se zakat. Não haverá zakat obrigatório até que atinja o equivalente a cinco wasaq da menor coisa que é medida por recipientes, como a cevada e semelhantes. Isso porque não é possível calculá-la apenas por esse critério; por isso, ela é calculada por outro. Assim, as mercadorias, exceto dinheiro, são avaliadas segundo o menor dos nisabs de ouro e prata.

Muhammad disse: é necessário que seja cinco vezes a medida da categoria de maior valor. Portanto, se o algodão atingir cinco qintares, não será necessário pagar zakat. Isso porque aquilo que é medido em wasaq é calculado em wasaq pelo fato de este ser o meio ou padrão máximo para medir coisas dessa categoria.

A quantidade de zakat a ser paga sobre a produção agrícola varia conforme o tipo de água utilizada para irrigá-la. Se ela for irrigada sem o uso de qualquer instrumento, deverá ser pago um décimo da produção, ou seja, o ushr. Mas, se for utilizado algum instrumento ou se for empregada água comprada, deverá ser pago metade do ushr, isto é, um vigésimo.

1. Foi narrado por Mu‘adh, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Nas culturas irrigadas pela chuva, pela umidade natural e pela água corrente, paga-se o ushr, isto é, um décimo; e nas culturas irrigadas por meio de reservatórios, rios ou canais, paga-se metade do ushr, isto é, um vigésimo, como zakat.” — Al-Bayhaqi e al-Hakim.

2. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “As culturas cultivadas com água da chuva ou dos rios e canais

com a qual são cultivadas, ou com a umidade natural, estão sujeitas ao ushr; e as culturas cultivadas por irrigação estão sujeitas à metade do ushr.” — Al-Bukhari. E, se a terra for cultivada ora por meios mecânicos, ora por meios não mecânicos, e ambos forem empregados em proporções iguais, deverá ser pago como zakat três quartos do ushr.

Ibn Qudama disse: não sei de ninguém que tenha divergido sobre isso. Se um dos dois métodos for predominante, a regra do método menos utilizado ficará subordinada à do método predominante. Essa é a opinião de Abu Hanifa, Ahmad e al-Thawri, e uma das duas opiniões de al-Shafi‘i.

Todas as despesas da colheita, como a ceifa, o transporte, a debulha, a limpeza e o armazenamento, serão custeadas com os bens do proprietário. Nenhuma delas será paga com os bens destinados ao zakat.

Segundo Ibn Abbas e Ibn Umar, se um empréstimo tiver sido contraído com o objetivo de cultivar a terra e produzir a colheita, ele será deduzido do zakat. Foi narrado por Jabir ibn Zayd que, a respeito de alguém que contrai um empréstimo e o gasta em sua colheita e em sua família, Ibn Umar disse: primeiro, ele deve quitar o valor que tomou emprestado; depois, dará o zakat sobre o que restar. Ibn Abbas disse: primeiro, ele deduzirá aquilo que gastou na colheita; depois, dará o zakat sobre o restante. Yahya ibn Adam disse em sua obra Kitab al-Kharaj: primeiro, gastará com a colheita; depois, dará o zakat sobre o que restar. Ibn Hazm narrou, citando Ata, que se deduzirá daquilo que foi obtido com a colheita o que foi gasto nela. Depois, se restar o equivalente ao nisab do zakat, deverá pagar o zakat sobre isso; caso contrário, não deverá pagá-lo.

28. O zakat das terras kharajitas

As terras são de dois tipos: terras de ushr e terras kharajitas.

1. Terra de ushr é aquela cujo proprietário abraçou voluntariamente o Islã; ou aquela que foi conquistada pela força e distribuída entre os muçulmanos; ou aquela que os muçulmanos tornaram cultivável.

2. Terra kharajita é aquela que foi tomada pela força, mas deixada nas mãos de seus proprietários mediante o pagamento de uma quantia determinada de imposto. Kharaj significa imposto ou tributo.

Assim como nas terras de ushr, o zakat também se torna obrigatório nas terras kharajitas quando seus proprietários abraçam o Islã, ou quando um muçulmano as compra. Nesse caso, devem ser pagos simultaneamente tanto o ushr quanto o kharaj. O pagamento de um não impede o pagamento do outro. Segundo Ibn al-Mundhir, essa é a opinião da maioria dos eruditos. Entre os que também apoiaram essa opinião estão Umar ibn Abd al-Aziz, Rabi’a, Zuhri, Yahya al-Ansari, Malik, Awzai, Hasan ibn Salih, Ibn Abi Layla, Layth, Ibn al-Mubarak, Ahmad, Ishaq, Abu Ubayd e Dawud al-Zahiri. Eles apresentaram, em apoio à sua opinião, provas extraídas do Alcorão, da hadith e da analogia jurídica. A prova extraída do Alcorão é o versículo 267 da surata Al-Baqarah:

يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا أَنْفِقُوا مِنْ طَيِّبَ مَا كَسَبْتُمْ وَمِمَّا أَخْرَجْنَا لَكُمْ مِنَ الْأَرْضِ .

“Ó crentes, gastai daquilo que adquiristes licitamente e daquilo que fizemos sair da terra para vós.”

Aqui, a zakat foi estabelecida incondicionalmente sobre os produtos produzidos pela terra, quer se trate de uma terra sujeita ao kharaj, quer de uma terra sujeita ao ushr. O hadith diz que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, afirmou: “Sobre tudo o que é produzido pela água da chuva incide o ushr.” A expressão “tudo” tem sentido abrangente, incluindo tanto as terras sujeitas ao ushr quanto as sujeitas ao kharaj. Quanto ao raciocínio por analogia, como a zakat e o kharaj são direitos distintos, cada um deles estabelecido por uma causa própria, ambos se tornam devidos aos seus beneficiários. Portanto, um não pode impedir o outro. Por exemplo, se uma pessoa em estado de ihram matar como caça um animal pertencente a alguém, deverá pagar uma compensação ao proprietário e, além disso, oferecer um sacrifício separado por ter caçado algo proibido durante o ihram. Ademais, visto que o ushr é obrigatório com base em ordens claras do Alcorão e do hadith, não pode ser dispensado por causa do kharaj fundamentado no ijtihad (investigação).

Segundo Abu Hanifa, o ushr não é obrigatório sobre a terra sujeita ao kharaj. Nela, deve-se pagar somente o kharaj, como antes. Uma das condições para a obrigatoriedade do ushr é que a terra não esteja sujeita ao kharaj.
As provas de Abu Hanifa e sua análise: Abu Hanifa apresentou as seguintes provas em favor de sua opinião:

1. Ibn Mas‘ud narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Na terra de um muçulmano, não se pagam simultaneamente o ushr e o kharaj.” Contudo, este hadith é unanimemente considerado fraco. Al-Bayhaqi também o classificou como fraco. Da mesma forma, o imame hanafita Kamal ibn al-Humam também o classificou como fraco. (Ele considerou preponderante a opinião da maioria. Sua análise não difere da nossa.)

2. Ahmad, Muslim e Abu Dawud narraram, de Abu Hurayra, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “O Iraque deixará de entregar seus recipientes cheios de cereais e dirhams. A Síria deixará de entregar suas duas medidas de cereais e dinares. O Egito deixará de entregar seus recipientes cheios de cereais, na medida de vinte e quatro sa‘, e dinares. E vós retornareis ao lugar de onde partistes.” Ele repetiu isso três vezes. “A carne e o sangue de Abu Hurayra são testemunhas disso.” [Este hadith foi usado como prova com o argumento de que nele se anuncia que, em algum momento, os direitos obrigatórios deixarão de ser pagos e que surgirá um impedimento entre esses direitos. Neste hadith, menciona-se apenas o kharaj. Se o ushr fosse obrigatório, teria sido mencionado.]

Contudo, este hadith não contém qualquer prova de que a zakat não deva ser cobrada sobre as terras sujeitas ao kharaj. Ao explicá-lo, os sábios disseram que seu significado é que os habitantes do Iraque, da Síria e do Egito um dia aceitarão o Islã, e, consequentemente, a jizya será abolida para eles. Ou o hadith alude ao fato de que, no fim dos tempos, os direitos obrigatórios, como a zakat e a jizya, não serão pagos. Depois de mencionar essas duas interpretações, al-Nawawi disse: se a interpretação deles estivesse correta, a zakat não seria obrigatória sobre dirhams, dinares (ouro e prata) e mercadorias comerciais. Entretanto, ninguém sustenta tal opinião.

3. Foi narrado que, quando certo agricultor aceitou o Islã, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Deixai sua terra em sua posse e cobrai dele o kharaj.” Isso deixa claro que foi ordenada a cobrança do kharaj, e não a do ushr.”

O episódio mencionado prova que a conversão ao Islã do proprietário da terra não ab-roga nem o kharaj nem o ushr. O kharaj foi mencionado porque poderia surgir a ideia de que, assim como a jizya é abolida quando alguém aceita o Islã, o kharaj (imposto territorial) também seria abolido. Quanto ao ushr, é sabido por todos que ele é obrigatório para todo muçulmano livre; portanto, não havia necessidade de mencioná-lo. Do mesmo modo, não foi mencionada a cobrança, daquele agricultor, da zakat sobre os animais de criação, da zakat sobre ouro e prata, entre outras. Outra possível razão para não mencionar o ushr é que talvez ele não possuísse nenhuma das colheitas sobre as quais o ushr é obrigatório.

4. O argumento de que “os governantes e os imames não cobravam o ushr e o kharaj da mesma pessoa” é inválido. Ibn al-Mundhir afirmou que Umar ibn Abd al-Aziz cobrava ambos.

5. “O kharaj é o oposto do ushr, pois o kharaj é imposto como punição, enquanto o ushr é imposto como ato de adoração. Portanto, não se pode cobrar ambos da mesma pessoa.” Isso está correto em princípio, mas não é correto de forma absoluta. Além disso, a base do kharaj não é, em todos os casos, a coerção e a força. Em certas situações, o kharaj pode ser imposto sobre uma terra sem coerção, como uma terra adjacente a outra terra sujeita ao kharaj, ou uma terra que se torna cultivável e é irrigada pela água de um rio ou canal; também se impõe kharaj sobre essa terra.

6. “A causa fundamental do kharaj e do ushr é a mesma: a terra ser fértil e produtiva, seja naturalmente, seja artificialmente. Pois, se a terra for salgada, úmida ou pantanosa e não se obtiver nenhum benefício dela, então não incidem sobre ela nem o kharaj nem o ushr.”

E, quando a causa for a mesma, não se imporão sobre essa terra tanto o kharaj quanto o ushr, pois de uma mesma causa nunca se tornam devidos dois direitos do mesmo tipo. Por exemplo, se alguém destinar animais de pasto criados para comércio e, com o decurso de um ano, atingir com eles o nisab, não se imporá zakat duas vezes sobre eles.”

A resposta é que a realidade não é essa. O ushr é imposto sobre a produção obtida da terra, enquanto o kharaj é imposto sobre a própria terra, quer ela seja cultivada, quer seja deixada sem uso. Ibn al-Humam disse: mesmo que se admita que o kharaj e o ushr tenham a mesma causa, nada impede que ambos estejam vinculados à própria terra.

29. O zakat da produção de uma terra arrendada

A opinião da maioria dos eruditos é que, quando uma pessoa arrenda uma terra e cultiva nela, o zakat é obrigatório para ela, e não para o proprietário da terra. Segundo o imame Abu Hanifa, o zakat é obrigatório para o proprietário. Ibn Rushd disse: a razão dessa divergência é saber se o ushr é imposto sobre a terra ou sobre a produção. Embora todos concordem que ele é imposto sobre uma dessas duas coisas, divergem sobre qual delas tem maior direito de estar relacionada ao destino da doação no caminho de Allah. E isso depende de a terra e a produção estarem ambas sob a posse de um único proprietário.

Segundo a maioria dos eruditos, aquilo sobre o qual o zakat é imposto são os grãos. Já segundo o imame Abu Hanifa, o zakat é imposto sobre aquilo que constitui a causa fundamental da obrigatoriedade do zakat: a terra.

Ibn Qudama deu preferência à opinião da maioria dos sábios. Ele disse: “A zakat incide sobre a colheita. Portanto, é sobre o proprietário da colheita que a zakat é imposta. Um exemplo disso é quando a colheita é destinada ao comércio: incide a zakat sobre seu valor, além do ushr sobre a colheita que ele possui. Não é correta a afirmação deles de que o ushr é uma despesa da terra. Pois, se o ushr fosse uma despesa da terra, ele incidiria sobre a própria terra, mesmo que ela não fosse cultivada, como ocorre com o kharaj. Também incidiria sobre o muçulmano, como ocorre com o kharaj. Além disso, seu montante seria determinado não pela quantidade da colheita, mas pela extensão da terra. Nesse caso, onde quer que o fay (imposto) fosse distribuído, também seria obrigatório destinar o ushr; e não seria obrigatório dar o ushr aos beneficiários da zakat.”

30. Determinação do nisab das tâmaras e das uvas

Quando as tâmaras e as uvas começam a amadurecer e sua maturação completa se torna evidente, seu nisab será determinado por estimativa, não por medição. Uma pessoa honesta e perspicaz estimará quantas uvas e tâmaras há nas videiras e nas tamareiras e, em seguida, calculará sua quantidade em passas e tâmaras secas, para saber o montante da zakat devido sobre esses frutos. Depois, quando os frutos secarem, a zakat será retirada deles de acordo com a quantidade anteriormente determinada.

É relatado por Abu Humayd al-Saʿidi, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse: “Fomos com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, na expedição de Tabuk. Quando ele chegou a Wadi al-Qura, viu uma mulher em seu próprio jardim. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-nos: ‘Estimem quanto fruto pode haver em seu jardim’ — e o próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estimou dez wasaq. Então disse à mulher: ‘Calcula quanto deve ser retirado deste fruto (como ushr).’” — Bukhari. Esta é a sunnah do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e, depois dele, seus Companheiros também agiram assim. Esta é igualmente a opinião da maioria dos sábios. (O Imam Malik considerou obrigatório determinar o ushr com base nessa estimativa. Segundo al-Shafiʿi e Ahmad, isso é sunnah.) Contudo, os hanafitas discordaram. Eles dizem: “Uma estimativa continua sendo apenas uma estimativa; portanto, não pode tornar obrigatório qualquer ato.”

No entanto, a sunnah do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é uma orientação mais correta. A estimativa não é um meio de criar mera conjectura; antes, é considerada um exercício de ijtihad para determinar a quantidade dos frutos, assim como o ijtihad é aplicado na avaliação do preço de mercadorias perecíveis. A razão para a estimativa neste caso é que as pessoas costumam comer os frutos quando estão maduros. Portanto, é necessário determinar a quantidade da zakat antes que sejam colhidos, levados para casa e consumidos. Assim, os proprietários dos jardins poderão dispor livremente de sua colheita como desejarem, ao mesmo tempo que assumirão a responsabilidade de separar a quantidade de bens correspondente à zakat. Aquele que fizer a estimativa deve deixar de fora um terço ou um quarto da estimativa, para que os proprietários da colheita tenham algum conforto e margem de tolerância. Isso porque eles próprios precisam comer dos frutos e também oferecê-los a seus convidados e vizinhos. Além disso, a colheita está sujeita a diversos tipos de calamidades: pássaros e viajantes comem parte dela, e outra parte cai por causa das tempestades e do vento. Nessas circunstâncias, se a zakat fosse calculada sobre a colheita inteira, eles sofreriam prejuízo.

É relatado por Sahl ibn Abi Hathma, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando fizerem uma estimativa, deixem de fora um terço. Se não deixarem de fora um terço, deixem de fora um quarto.” — Ahmad, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i, al-Hakim e Ibn Hibban. Al-Tirmidhi disse: o hadith relatado por Sahl é aquele seguido pela maioria dos sábios. (Isso será determinado de acordo com o número de pessoas da família do proprietário. Se o número for grande, deve-se deixar de fora um terço; se for pequeno, um quarto.)

Bashir ibn Yasar disse: “Umar ibn al-Khattab enviou Abu Hathma al-Ansari para estimar a quantidade das colheitas dos muçulmanos e instruiu-o: ‘Quando vires que as pessoas estão permanecendo em seus próprios pomares de tamareiras durante o outono, permite que comam o que costumam comer; não faças a estimativa durante o período de sua permanência.’ Makhul disse: ‘Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviava um avaliador, dizia: “Não imponhas encargos excessivos sobre as pessoas, pois parte da colheita é destinada à caridade, parte é pisoteada, e parte é comida pelo proprietário e por seus familiares.”’” — Abu Ubayd.

31. Comer parte da colheita antes de pagar a zakat

É permitido ao proprietário da colheita comer parte dela antes de pagar o zakat devido sobre sua colheita. O que ele tiver comido antes de cortar e recolher a colheita não será contabilizado, pois isso é uma prática habitual. Além disso, a quantidade consumida geralmente é pequena. Um exemplo disso são os proprietários de pomares, que comem algumas frutas e também oferecem algumas a outras pessoas. Depois, quando a colheita for cortada e recolhida, e os grãos forem debulhados, ele pagará o zakat sobre a colheita existente. Ahmad foi questionado sobre quanto o proprietário dos cereais poderia comer dos grãos pisoteados que permanecem espalhados no campo. Ele respondeu que poderia comer a quantidade necessária. Al-Shafi’i, Al-Layth e Ibn Hazm também apoiaram essa opinião. (Entretanto, o imame Malik e Abu Hanifa disseram: tudo o que o proprietário dos cereais comer antes de cortar e recolher a colheita será contado como parte do nisab.)

32. Combinação de cereais e frutos

Os eruditos chegaram a um consenso de que diferentes variedades de frutos podem ser combinadas entre si, ainda que algumas sejam boas, outras ruins e tenham cores diferentes. Do mesmo modo, diferentes variedades de uvas-passas, diferentes variedades de trigo e diferentes variedades de todos os cereais podem ser combinadas entre si. (Quando a variedade de boa qualidade é combinada com a de má qualidade, o zakat será recolhido de acordo com a quantidade de cada uma. Se os frutos forem de qualidades diferentes, o zakat será recolhido com base na qualidade intermediária.) Os eruditos também concordaram que as mercadorias comerciais podem ser combinadas com seu valor, e o valor pode ser combinado com as mercadorias. Al-Shafi’i, porém, é favorável a acrescentar o valor às mercadorias da mesma categoria, pois o nisab delas é calculado com base nessa categoria.

Eles também concordaram que, exceto no caso dos cereais e frutos, não se pode completar o nisab combinando uma categoria com outra. Animais de uma espécie não podem ser combinados com animais de outra espécie. Portanto, não se podem combinar camelos com bovinos para completar o nisab. No caso dos frutos, tampouco se pode combinar uma categoria com outra, como tâmaras com uvas-passas.

Há divergência quanto à combinação de grãos de diferentes espécies. A opinião melhor e mais preponderante é que nenhum deles deve ser combinado com outro para calcular o nisab. O nisab de cada um será calculado separadamente, pois os grãos têm muitas espécies e variedades, e cada uma possui um nome diferente. Portanto, não se pode combinar cevada com trigo, trigo com cevada, tâmaras com uvas-passas, uvas-passas com tâmaras, nem milho com leguminosas. Essa é uma opinião transmitida de Abu Hanifa, Al-Shafi’i e Ahmad. Muitos dos antigos eruditos sustentaram essa opinião.
Ibn al-Mundhir disse: estabeleceu-se consenso quanto a não se combinarem camelos com bovinos e caprinos, bovinos com caprinos e ovinos, nem uvas-passas com tâmaras. Portanto, nas demais categorias também não se pode combinar uma com outra. Nenhum dos que defendem a combinação de uma espécie com outra possui uma prova autêntica em apoio à sua opinião.

33. Quando o zakat se torna obrigatório sobre as colheitas e os frutos

O zakat torna-se obrigatório sobre a colheita quando seus grãos endurecem e começam a cair; e, no caso dos frutos, quando sua maturação se torna visível. Isso é reconhecido pelo avermelhamento das tâmaras e pelo adoçamento das uvas. O zakat não será retirado antes de os grãos serem limpos das impurezas e de os frutos secarem. Se o agricultor vender os cereais e os frutos depois de os grãos endurecerem e de a maturação dos frutos se manifestar, será ele, e não o comprador, quem deverá pagar o zakat sobre esses cereais e frutos. Isso porque o contrato de venda é a causa da obrigatoriedade do zakat, e, naquele momento, eles ainda estão sob sua propriedade.

34. Dar o zakat com os bens de melhor qualidade

Allah, o Altíssimo, ordenou àquele que paga o zakat que o pagasse com a parte lícita e melhor de seus bens, e proibiu que oferecesse a parte ruim. Ele disse:

يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا أَنْفِقُوا مِنْ طَيِّبَت مَا كَسَبْتُمْ وَمِمَّا أَخْرَجْنَا لَكُم مِنَ الْأَرْضِ سَ وَلَا تَيَمُوا الْخَبِيتَ مِنْهُ تُنْفِقُونَ وَاسْتُرْ بِاعِلِيْهِ إِلَّا أَن تُفْسِقُوا فِيْهِ، وَاعْلَمُوا أَنَّ اللَّهَ غَنِيٌّ حَمِيدٌ )

“Ó crentes, dai em caridade das melhores coisas que adquiristes e daquilo que produzimos para vós da terra. E não tenhais a intenção de dar o que é ruim, embora vós mesmos não estejais dispostos a aceitá-lo, a não ser fechando os olhos. Sabei que Allah é Rico e Louvável.” (Surata Al-Baqarah: versículo 267)

Abu Dawud, An-Nasa’i e outros narraram, de Sahl ibn Hunayf, que narrou de seu pai: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibiu oferecer Jarur e Habiq — estas duas variedades inferiores de tâmaras.” Como as pessoas em geral costumavam dar como zakat as piores frutas de suas colheitas, isso foi proibido no versículo acima e no hadith.

Al-Bara, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O versículo ‘Não deis em caridade o que é ruim’ foi revelado acerca de um grupo de ansar como nós. Éramos proprietários de pomares de tamareiras. Alguns de nós vinham de seu próprio pomar de tamareiras. Alguns tinham muitas tâmaras, outros tinham poucas. Eles traziam um ou dois cachos de tâmaras e os penduravam na Mesquita do Profeta. Os pobres emigrantes que viviam na Suffah não tinham comida suficiente. Quando sentiam fome, iam até os cachos pendurados e os golpeavam com um bastão. Então caíam as tâmaras mais maduras e as tâmaras secas, e eles as comiam. Alguns daqueles que não eram interessados em boas ações traziam cachos que também continham tâmaras de qualidade inferior. Às vezes, o cacho estava quebrado, e mesmo assim o penduravam. Por isso Allah revelou: ‘Não tenhais a intenção de dar o que é ruim, embora vós mesmos não estejais dispostos a aceitá-lo, a não ser fechando os olhos.’ Al-Bara disse: se alguém desse a qualquer um de vós, como presente, algo semelhante ao que ele havia dado, ele não o aceitaria sem fechar os olhos e sentir vergonha. Depois disso, passamos a trazer somente aquilo que tínhamos de melhor.” — At-Tirmidhi.

Ash-Shawkani disse: Este hadith prova que não é permitido ao proprietário reservar as coisas de melhor qualidade entre aquelas sobre as quais o zakat é obrigatório e retirar as de pior qualidade como zakat, nem é permitido ao cobrador aceitá-las. No caso das tâmaras, isso constitui uma ordem expressa. Com base nisso, uma vez que o zakat é obrigatório, por analogia, esta regra se aplica a todos os tipos de bens, em sua totalidade.

35. O zakat sobre o mel

Segundo a maioria dos eruditos, não há zakat sobre o mel. O Imam Al-Bukhari disse: Segundo os hadiths autênticos, não há zakat sobre o mel. Ash-Shafi’i disse: Minha opinião preferida é que não se deve cobrar zakat sobre o mel, pois as declarações e os exemplos do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e dos Companheiros sobre aquilo que deve pagar-se zakat são comprovados. Porém, nada foi comprovado sobre o mel. Portanto, ele foi isentado. Ibn Al-Mundhir disse: Não há nenhum hadith autêntico sobre o zakat do mel, nem há consenso. Logo, não há zakat sobre ele. Esta é a opinião da maioria.

Segundo os imãs hanafitas e Ahmad, deve-se pagar zakat sobre o mel, embora não haja nenhum hadith a esse respeito. Ainda assim, existem muitas declarações dos Companheiros sobre isso, cada uma das quais reforça as demais. Além disso, como o mel é produzido a partir dos brotos e das flores das árvores, é medido e armazenado, o zakat também é obrigatório sobre ele, assim como sobre os grãos e as tâmaras. Ademais, sua produção requer menos despesas do que as frutas e as colheitas. Segundo Abu Hanifa, uma condição para que o zakat seja obrigatório sobre o mel é que ele seja produzido em terras sujeitas ao ushr. Ele não estabeleceu a condição de um nisab para isso. Deve-se cobrar o ushr dele, seja pouco ou muito. Segundo o imã Ahmad, o nisab é uma condição, e corresponde a dez faraq. Um faraq equivale a 16 ratl iraquianos. (Um ratl iraquiano = 130 dirhams.) Segundo ele, deve-se pagar o ushr sobre o mel, independentemente de ser produzido em terras kharajis ou ushris. Abu Yusuf disse: o nisab do mel é de dez ratl. Segundo Muhammad, é de cinco faraq. Um faraq equivale a 36 ratl.

36. Zakat dos animais

De acordo com os hadiths autênticos, deve-se pagar zakat sobre camelos, bovinos, cabras e ovelhas. Há também ijma, isto é, consenso dos muçulmanos, estabelecido sobre essa questão.

1. Condições do zakat dos animais

O zakat dos animais tem três condições: (1) que atinjam a quantidade do nisab; (2) que transcorra um ano completo; (3) que sejam animais de pasto. Ou seja, que pastem por si mesmos, alimentando-se de capim, durante a maior parte do ano em pastagens permitidas. A maioria dos sábios considera essa condição necessária. Ninguém, além de Malik e Laith, a contestou. Ambos estabeleceram o zakat sobre os animais sem essa condição, quer eles pastem por si mesmos, quer sejam amarrados e alimentados, quer sejam utilizados para o trabalho ou não. Contudo, os hadiths autênticos estabeleceram claramente a condição de que sejam «animais que pastam por si mesmos». Isso deixa claro que não há zakat sobre os animais alimentados no estábulo; caso contrário, a expressão «que pastam por si mesmos» seria inútil.

Ibn Abd al-Barr disse: não tenho conhecimento de que os juristas de nenhuma região tenham apoiado a opinião de Malik e Laith.

2. Zakat dos camelos

Não há zakat até que o número de camelos chegue a cinco. Quando houver cinco camelos que pastem por si mesmos e tiver transcorrido um ano sobre eles, deve-se dar uma cabra de um ano como zakat. Quando chegarem a dez, devem-se dar duas cabras. Assim, cada vez que o número aumentar em cinco, deve-se acrescentar uma cabra. Depois, quando chegarem a vinte e cinco, deve-se dar uma camela que tenha completado um ano e entrado no segundo, ou um camelo que tenha completado dois anos e entrado no terceiro. (Quando o nisab determinar uma camela, não é permitido dar um camelo como zakat. Porém, se não for encontrada uma camela que tenha entrado no segundo ano, pode-se dar um camelo que tenha entrado no terceiro. E, quando todo o rebanho for composto apenas de camelos machos, pode-se receber um camelo macho como zakat.)

Quando o número de camelos chegar a 36, deverá ser dada como zakat uma camela que tenha entrado no terceiro ano de vida. Ao chegar a 46, uma camela que tenha entrado no quarto ano; ao chegar a 61, uma camela que tenha entrado no quinto ano; ao chegar a 76, duas camelas que tenham entrado no terceiro ano; e, ao chegar a 91, duas camelas que tenham entrado no quarto ano; até 120, serão três. Depois disso, se o número continuar aumentando, para cada quarenta deverá ser dada uma camela que tenha entrado no terceiro ano, e para cada cinquenta, uma camela que tenha entrado no quarto ano.

Quando as idades dos camelos a serem dados como zakat forem diferentes, aquele sobre quem recair a obrigação de dar uma camela que tenha entrado no quinto ano, mas não possuir uma camela dessa idade e possuir uma camela que tenha entrado no quarto ano, dará esta última; se possível, deverá acrescentar duas cabras ou vinte dirrãs. E aquele sobre quem recair a obrigação de dar uma camela que tenha entrado no quarto ano, mas não possuir nada além de uma camela que tenha entrado no quinto ano, dará esta última; porém, o arrecadador do zakat lhe dará vinte dirrãs ou duas cabras. E aquele sobre quem recair a obrigação de dar uma camela que tenha entrado no quarto ano, mas não a possuir, tendo apenas uma camela que tenha entrado no terceiro ano, dará esta última; além disso, se possível, deverá acrescentar duas cabras ou vinte dirrãs. E aquele a quem for devida, como zakat, uma camela que tenha entrado no terceiro ano, mas não possuir nada além de uma camela que tenha entrado no quarto ano, dará esta última; e o arrecadador lhe dará vinte dirrãs ou duas cabras. E aquele a quem for devida, como zakat, uma camela que tenha entrado no terceiro ano, mas não a possuir, tendo, em vez disso, uma camela que tenha entrado no segundo ano, dará esta última; junto com ela, se possível, deverá receber adicionalmente duas cabras ou vinte dirrãs. E aquele a quem for devida, como zakat, uma camela que tenha entrado no segundo ano, mas não possuir nada além de um camelo macho que tenha entrado no terceiro ano, dará este último; nada mais deverá ser acrescentado. E aquele que possuir apenas quatro camelos não estará sujeito a zakat. Contudo, o proprietário dos camelos poderá dar o que quiser [o imame Ax Xaukani disse: “Esta afirmação prova que o zakat é obrigatório sobre bens materiais. Se fosse obrigatório pagar o zakat com base em um valor fixado, estas palavras não teriam sentido, pois o valor varia conforme o lugar e o tempo”].

Esta é a regra do zakat dos camelos. Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, aplicou esta regra na presença dos Companheiros. Ninguém se opôs a ela.
Foi narrado por az-Zuhri que o pai de Salim disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia escrito as regras do zakat, mas não as entregou aos seus funcionários antes de sua morte. Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, entregou-as e as aplicou até morrer. Depois dele, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, divulgou-as e seguiu-as até morrer. Inclusive, no dia em que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, faleceu, morreu incluindo-as em seu testamento.”

3. O zakat do gado bovino (incluindo os búfalos)

Não há zakat sobre o gado bovino que pasta livremente até que seu número chegue a trinta. Quando chegar a trinta e completar um ano, deverá ser dado um bezerro de um ano de idade (macho ou fêmea). Nada mais deverá ser dado até que o número de bovinos chegue a quarenta. Ao chegar a quarenta, deverá ser dada uma novilha de dois anos de idade até que o número chegue a sessenta. Ao chegar a sessenta, deverão ser dados dois bezerros de um ano. (Segundo a escola hanafita, pode ser dado um touro ou uma vaca de dois anos. Segundo os demais, é obrigatório dar uma única vaca de dois anos quando o número chegar a quarenta. Porém, se todo o gado for macho, o zakat poderá ser pago com gado macho. Esta é uma opinião consensual.) Ao chegar a setenta, deverão ser dadas duas vacas de dois anos; e, ao chegar a noventa, três bezerros machos de um ano. Ao chegar a cem, uma vaca de dois anos e dois bezerros de um ano. Ao chegar a cento e dez, duas vacas de dois anos e um bezerro macho de um ano. Ao chegar a cento e vinte, três vacas de dois anos ou quatro bezerros machos de um ano. Depois disso, para cada trinta adicionais, deverá ser dado um bezerro macho de um ano, e para cada quarenta, uma vaca de dois anos.

4. O zakat das cabras e das ovelhas

Não há zakat sobre cabras e ovelhas até que seu número chegue a quarenta. Quando forem quarenta cabras que pastam livremente e tiver passado um ano sobre elas, deverá ser dada uma cabra como zakat, até 120. Quando chegarem a 121, deverão ser dadas duas cabras, e isso permanecerá assim até duzentas. Quando chegarem a 201, deverão ser dadas três cabras, e isso permanecerá assim até trezentas. Quando ultrapassarem trezentas, deverá ser dada uma cabra para cada cem. Uma ovelha que tenha entrado no quinto ano e uma cabra cujos dentes incisivos tenham caído são válidas como zakat. No caso de cabras e ovelhas, se todo o nisab for constituído de machos, será permitido dar cabras ou ovelhas machos como zakat. Se forem somente fêmeas, ou se forem compostos de fêmeas e machos, segundo os hanafitas, será permitido pagar o zakat com cabras ou ovelhas machos. Segundo os demais, devem ser dadas somente cabras ou ovelhas fêmeas. (Observe-se que cabras e ovelhas são consideradas uma mesma categoria, podendo uma ser incluída na outra.) — Ibn al-Mundhir.

5. Situações de isenção do zakat

Há consenso quanto à isenção da zakat entre dois níveis que tornam a zakat obrigatória. Sabe-se, pelas palavras do Mensageiro de Allah, que, no caso da zakat dos camelos, quando eles chegarem a 25, deve-se dar uma camela que tenha entrado no segundo ano. Depois, quando chegarem a 36, deve-se dar, até 45, uma camela que tenha entrado no terceiro ano. Portanto, há isenção da zakat para as quantidades de camelos entre 25 e 36. A respeito da zakat do gado bovino, ele disse: quando houver trinta vacas, deve-se dar, até quarenta, um bezerro de um ano, macho ou fêmea. Quando chegarem a quarenta, deve-se dar uma vaca de dois anos. Portanto, não há zakat sobre o gado bovino entre trinta e quarenta cabeças. Do mesmo modo, sobre as cabras e as ovelhas, ele disse: quando chegarem a quarenta, deve-se dar uma cabra, até cento e vinte. Também aqui há isenção da zakat entre quarenta e cento e vinte cabeças.

6. Os bens sobre os quais não há zakat

Ao receber a zakat, é necessário levar em consideração os direitos dos proprietários dos bens. Portanto, não se pode aceitar como zakat os seus bens valiosos e estimados. Contudo, se eles quiserem oferecê-los voluntariamente, poderão ser aceitos. Do mesmo modo, deve-se levar em consideração o direito dos pobres. Portanto, não se pode aceitar um animal com um defeito que, segundo os especialistas em animais, seja considerado uma deficiência. Porém, quando todos os animais tiverem defeitos, será permitido aceitá-los. A zakat deve ser retirada dos bens de qualidade média.

1. No escrito de Abu Bakr consta que não se deve aceitar como zakat um animal do qual tenham caído todos ou muitos dentes; do mesmo modo, não se deve aceitar um animal caolho nem um bode reprodutor.

2. Foi narrado por Sufyan ibn Abdullah al-Thaqafi que Umar proibiu o coletor da zakat de aceitar uma cabra estéril, uma cabra criada em casa para fornecer leite, um animal que estivesse prestes a dar à luz e um bode mantido para reprodução.

3. Foi narrado por Abdullah ibn Muawiya al-Ghadiri que o Mensageiro de Allah disse: “Quem praticar três coisas provará o sabor da fé: aquele que crer em Allah Único e acreditar que não há outra divindade além d’Ele; der todos os anos a zakat de seus bens voluntariamente, com satisfação e com intenção de beneficiar; e não der como zakat um animal sem dentes, com doença de pele, doente ou que não queira dar leite, nem der algo ruim ou inferior, mas der de seus bens de qualidade média. Pois Allah não lhes pediu os melhores bens, nem lhes ordenou que dessem os piores.” — Abu Dawud, al-Tabarani.

7. A zakat dos animais que não são gado

Não há zakat sobre nenhum animal além do gado. Portanto, cavalos, mulas e jumentos não estão sujeitos à zakat, desde que não sejam mercadorias destinadas ao comércio.

Foi narrado por Ali que o Mensageiro de Deus disse: “Isentei-vos do zakat sobre cavalos e escravos. Não há zakat sobre eles.” — Ahmad e Abu Dawud.
E foi narrado por Abu Huraira: Perguntaram ao Mensageiro de Deus acerca dos jumentos: há zakat sobre eles? Ele respondeu: “Nada foi revelado sobre isso, exceto este magnífico versículo: ‘Quem fizer o bem do peso de um átomo o verá; e quem fizer o mal do peso de um átomo o verá.’” — Ahmad

E foi narrado por Haritha ibn Mudarrib: ele realizou a peregrinação com Umar. Então, os líderes da Síria foram até ele e disseram: “Ó comandante dos crentes, adquirimos alguns escravos e animais. Purifica-nos tomando a caridade de nossas riquezas.” Ele respondeu: “Esta é uma prática que os meus dois predecessores não realizaram.” (Isto é, o Mensageiro de Deus e Abu Bakr. “Mas esperai; consultarei os muçulmanos.”) — Ahmad, Tabarani e Haythami.

E Zuhri narrou, por intermédio de Salman ibn Yasar: Os sírios disseram a Abu Ubaida ibn al-Jarrah: “Toma o zakat de nossas riquezas e escravos.” Ele recusou. Então escreveu a Umar, que também recusou. Os sírios insistiram com Abu Ubaida, e ele escreveu a Umar. Umar respondeu: “Se eles desejarem oferecê-lo, aceita-o deles e distribui-o novamente entre eles” (isto é, entre os pobres dentre eles), “e dá-o aos seus escravos.” — Malik e Bayhaqi.

8. O zakat dos animais com menos de um ano

Quem possuir o nisab de camelos, bovinos, cabras e ovelhas e, durante o ano, esses animais derem à luz, deverá pagar, ao término do ano dos animais adultos, o zakat de todos eles. Deve-se retirar um único zakat referente aos animais adultos e às crias. Esta é a opinião da maioria dos sábios.

Pois Malik e Shafi’i narraram, por intermédio de Sufyan ibn Abdullah al-Thaqafi, que Umar ibn al-Khattab disse: “Contareis também os cordeiros e cabritos que o pastor carrega consigo. Não aceiteis essas crias. Não aceiteis animais estéreis, os criados em casa para serem amamentados, os que estão prestes a dar à luz nem as cabras, ovelhas ou bovinos reservados para reprodução. Aceitai, entre as cabras e ovelhas, uma com um ano de idade ou aproximadamente isso, seja macho ou fêmea: uma cria que não seja absolutamente pequena nem absolutamente excelente.”

Abu Hanifa, Shafi’i e Abu Thawr consideram que as crias não devem ser contabilizadas sem que o nisab dos animais adultos esteja completo. Abu Hanifa também disse: As crias devem ser acrescentadas ao nisab dos animais adultos, quer tenham nascido desses próprios animais adultos, quer tenham sido compradas; depois, o zakat será pago quando se completar o ano. A condição de Imam Shafi’i é que as crias sejam dos animais adultos do nisab que estejam sob sua propriedade e que tenham nascido antes do término do ano. Contudo, segundo Abu Hanifa, Muhammad, Sha’bi, Dawud e uma opinião atribuída a Ahmad, não há zakat obrigatório sobre quem possua apenas o nisab de crias. Isso porque Ahmad, Abu Dawud, Nasa’i, Bayhaqi e Dar Qutni narraram, por intermédio de Suwaid ibn Ghafala, que ele disse: O coletor do zakat do Mensageiro de Deus veio até nós. Ouvi-o dizer: “Não aceitarei uma cria que ainda mama; isso faz parte da minha responsabilidade.” Segundo Imam Malik e uma das opiniões de Ahmad, deve-se cobrar zakat das crias assim como dos animais adultos. Pois, quando elas são contabilizadas juntamente com os adultos, também devem ser contabilizadas separadamente. Segundo Shafi’i e Abu Yusuf, deve-se retirar uma cria como zakat dentre as crias.

9. As regras relativas à reunião e à separação

1. Suwaid ibn Ghafala disse: veio até nós um cobrador do zakat enviado pelo Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ouvi-o dizer: não recolhemos nenhum filhote em amamentação; não separamos os animais que estão juntos, nem juntamos os animais que estão separados. Um homem trouxe-lhe uma camela de corcova alta, mas ele se recusou a recebê-la. — Ahmad, Abu Dawud e An-Nasa’i.

2. Anas escreveu, citando Abu Bakr: Esta é a caridade obrigatória (zakat) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tornou obrigatória para os muçulmanos. Não se devem juntar animais separados por medo do zakat, nem separar animais que estão juntos. Quando um rebanho pertence a dois sócios, ambos terão direito, um perante o outro, a partes iguais. (Al-Khattabi explica: por exemplo, quarenta cabras pertencentes a dois sócios, vinte de cada um, estão juntas. Ambos reconhecem especificamente as suas cabras. O cobrador do zakat chega e leva uma cabra de um deles como zakat. Nesse caso, aquele cuja cabra foi tomada poderá exigir do seu sócio o valor da metade que lhe cabe.) — Al-Bukhari.

Malik disse em seu Muwatta: Isso significa que três pessoas criam, separadamente, quarenta cabras cada uma. Assim, cada uma delas deve uma cabra, totalizando três cabras. Então elas juntam todas as suas cabras, e passam a dever coletivamente apenas uma cabra. (Isso porque, quando estão juntas, de quarenta a cento e vinte cabras, é devida uma única cabra. Este é um exemplo de juntar animais que estavam separados por medo do zakat.) Ou então, dois sócios possuem conjuntamente duzentas e uma cabras. Eles devem três cabras. Se as dividirem em duas partes, cada um passará a dever uma cabra. (Este é um exemplo de separar um rebanho conjunto por medo do zakat.)

O Imam Ash-Shafi‘i disse: Este hadith contém instruções tanto para o proprietário dos bens quanto para o cobrador, e ambos são advertidos a não separar o que está junto nem juntar o que está separado por medo do zakat. O proprietário pode juntar os animais separados ou separar os que estão juntos, temendo que o valor do zakat aumente, para que a quantidade devida permaneça menor. Já o cobrador pode juntar ou separar os animais, temendo que o valor do zakat diminua, para que ele aumente. (Por exemplo, dois sócios possuem quarenta cabras cada um; se elas permanecerem juntas, ambos deverão apenas uma cabra. Então o cobrador as separa e recolhe uma cabra de cada um, totalizando duas. Ou ambos possuem vinte cabras; nesse caso, nenhum dos dois deve zakat. Então o cobrador junta os dois rebanhos, formando quarenta cabras, para poder recolher uma cabra.) Portanto, a expressão “por medo do zakat” significa por medo de que a quantidade devida aumente ou diminua. A escola hanafita proíbe que o cobrador divida bens pertencentes a um único proprietário para aumentar o zakat devido. Por exemplo, uma pessoa possui cento e vinte cabras e ele as divide em três grupos, fazendo com que sejam devidas três cabras. Também é proibido aumentar o zakat juntando os bens de uma pessoa aos bens de outra. Por exemplo, alguém possui cento e uma cabras, e outra pessoa possui a mesma quantidade. Se o cobrador juntar os dois rebanhos, poderá recolher três cabras, embora, antes da junção, cada um devesse uma cabra, totalizando duas.

10. A junção tem algum efeito sobre o zakat?

Segundo os hanafitas, a junção não produz efeito algum, quer se trate de uma junção decorrente da propriedade conjunta entre sócios, quer os animais pertencentes conjuntamente aos sócios sejam identificáveis, quer estejam lado a lado e compartilhem o pasto e o alojamento. Na verdade, não há zakat obrigatório sobre um bem de propriedade conjunta enquanto a parte de cada um não atingir individualmente o nisab. O princípio unânime é que não há zakat sem propriedade individual.

A opinião dos maliquitas é que, no que diz respeito ao zakat, os sócios de um rebanho são como um único proprietário. A propriedade conjunta não produz efeito se ambos os proprietários não possuírem o nisab. Para isso, porém, é condição que os animais estejam sob o mesmo pastor, tenham o mesmo alojamento e o mesmo reprodutor, que haja intenção de sociedade, que os bens de cada sócio sejam identificáveis separadamente e que cada sócio esteja sujeito ao zakat. O efeito da junção não se aplica a bens que não sejam animais. O bem recolhido como zakat recairá sobre todos os sócios proporcionalmente. Se algum sócio possuir bens individuais, todos eles serão considerados conjuntos e unidos.

A opinião dos shafi‘itas é que a junção dos bens de ambos produz efeito sobre o zakat, e os bens de duas ou mais pessoas são considerados como um único bem. Assim, o zakat torna-se obrigatório em razão dessa junção, e a quantidade devida pode diminuir ou aumentar. Exemplo do efeito sobre a obrigatoriedade do zakat: duas pessoas possuem vinte cabras cada uma. Por causa da junção, uma cabra torna-se obrigatória. Se permanecessem separadas, nenhum zakat seria obrigatório. Exemplo do aumento do zakat: cem cabras de uma pessoa são juntadas às cem de outra. Com isso, cada uma deverá uma cabra e meia de zakat. Se permanecessem separadas, cada uma deveria uma cabra. Exemplo da redução do zakat: três pessoas possuem quarenta cabras cada uma e juntam os rebanhos. Todos deverão coletivamente uma cabra; isto é, cada um deverá um terço de uma cabra. Entretanto, se não os juntassem e cada um mantivesse suas cabras separadas, cada um deveria uma cabra. Por isso, os shafi‘itas estabeleceram cinco condições:

1. Todos os sócios devem ser obrigados a pagar o zakat (isto é, o zakat deve ser obrigatório para cada um deles).
2. Os bens reunidos devem atingir o nisab.
3. Deve ter transcorrido um ano completo sobre eles.
4. O local onde todos os seus animais passam a noite, o local onde comem a forragem e pastam, o reservatório de onde bebem água, bem como o pastor e o local de ordenha, devem ser inteiramente um só e comuns a todos.
5. Se os animais forem da mesma espécie, seu reprodutor também deve ser o mesmo.

O imã Ahmad também expressou a mesma opinião que al-Shafi‘i. A única diferença é que, segundo Ahmad, o efeito da associação ficará limitado aos animais e não se estenderá a qualquer outro tipo de bem.

37. O zakat sobre tesouros enterrados e recursos minerais

1. Tesouros enterrados

Aqui se refere aos tesouros enterrados da época da Jahiliyyah. Eles podem ser reconhecidos pelos nomes, imagens e outros elementos gravados neles. Se forem encontrados neles sinais do Islã, aplicar-se-á a eles a regra dos bens perdidos, e não a dos tesouros enterrados. Quando não for encontrado sinal algum e não se puder determinar se pertencem à época da Jahiliyyah ou à época islâmica, também serão considerados bens perdidos.

O imã Malik disse: “A opinião consensual entre nós, e aquilo que ouvi dos sábios, é que o rikaz será considerado um tesouro enterrado da época da Jahiliyyah enquanto não for procurado mediante pagamento. Isto é, sem que se gaste dinheiro para encontrá-lo e sem que se realize grande esforço ou empenho. Aquilo que é recuperado mediante pagamento, para o qual se empregam grande esforço e trabalho, e cuja busca às vezes é bem-sucedida e às vezes fracassa, não é rikaz.” Abu Hanifa disse: “Todo bem enterrado sob a terra é chamado rikaz, quer tenha sido depositado pelo Criador, quer por alguma de Suas criaturas.”

2. Recursos minerais e as condições do zakat sobre eles segundo os juristas

A palavra ma‘dan deriva de ‘adan, que significa permanecer permanentemente. Por isso, ‘Adan é também um dos nomes do Paraíso, pois ele é a morada eterna dos crentes.

Os sábios divergiram quanto à definição do ma‘dan, isto é, do recurso mineral sobre o qual o zakat é obrigatório. Segundo o imã Ahmad, qualquer objeto valioso criado de uma substância que não seja a terra é ma‘dan, ou seja, um recurso mineral sujeito ao zakat, desde que seja extraído ou retirado do subsolo, como ouro, prata, ferro, cobre, chumbo, safira, crisoberilo, esmeralda, turquesa, cristal, ágata, antimônio, betume, alcatrão, petróleo, enxofre, ácido sulfúrico solidificado e outros semelhantes. Ele estabeleceu como condição que o mineral extraído atinja o nisab, seja diretamente ou por meio da avaliação de seu valor.

Segundo Abu Hanifa, o zakat só é obrigatório sobre os minerais que podem ser derretidos pelo fogo e moldados, como ouro, prata, ferro e cobre. Não há zakat sobre minerais líquidos, como o alcatrão, nem sobre minerais sólidos que não derretem ao fogo, como a safira. Ele também não estabeleceu a condição de um nisab para isso. Contudo, seja pouco ou muito, é obrigatório doar um quinto, ou khumus, dele.

Segundo Malik e al-Shafi‘i, o zakat só é obrigatório sobre o ouro e a prata extraídos. Na opinião de ambos, o ouro deve atingir vinte mithqal e a prata, duzentos dirham, como na opinião do imã Ahmad. Não é necessário que transcorra um ano. Assim como ocorre com as colheitas agrícolas, o zakat sobre ambos deve ser pago no próprio momento em que forem obtidos.

Segundo os três imãs mencionados, deve-se retirar um quarenta avos como zakat, e este zakat será distribuído nas mesmas categorias às quais o zakat é destinado. Porém, segundo o imã Abu Hanifa, ele será distribuído nas mesmas categorias nas quais são distribuídos os bens de fai (espólios de guerra).

3. A determinação sobre a obrigatoriedade do zakat sobre tesouros enterrados e riquezas minerais

A regra fundamental sobre a obrigatoriedade do zakat sobre ambos encontra-se no seguinte hadith, narrado por Abu Hurayra e registrado nos seis livros autênticos de hadith:

«O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: quando um animal se solta e causa algum dano, ninguém será responsabilizado por esse dano. Quando alguém cava um poço e uma pessoa cai nele e morre, ninguém será responsabilizado por isso. Ninguém será responsabilizado pelos danos causados por uma mina. Contudo, deve-se pagar um quinto sobre o tesouro enterrado. Ibn al-Mundhir disse: não sei de ninguém que tenha se oposto a este hadith, exceto Hasan

al-Basri. Ele estabeleceu uma distinção entre as terras árabes, isto é, as terras dos muçulmanos, e as terras dos descrentes. Sobre a riqueza mineral encontrada em terras não muçulmanas deve-se pagar um quinto, enquanto sobre a riqueza mineral encontrada em terras muçulmanas deve-se pagar zakat. Ibn al-Qayyim disse: há duas interpretações para as palavras «ninguém será responsabilizado pelos danos causados por uma mina». A primeira: quando alguém é contratado para escavar uma mina, e então a mina desaba sobre ele e ele morre, ninguém será responsabilizado por essa morte. A menção conjunta do animal e do poço dá suporte a essa interpretação. A segunda: não há zakat sobre ela. A afirmação seguinte — «e deve-se pagar um quinto sobre o rikāz» — dá suporte a essa interpretação. Aqui se estabelece uma distinção entre a riqueza mineral e o tesouro enterrado. Sobre o rikāz, isto é, o tesouro enterrado, foi estipulado um quinto, pois se trata de uma riqueza acumulada que pode ser obtida sem dificuldade nem gasto. Ele foi diferenciado da riqueza mineral, pois sua extração exige considerável esforço e despesa.

Descrição do rikāz sobre o qual se paga o khumus (um quinto): o rikāz sobre o qual o khumus é obrigatório é aquilo que constitui riqueza em si mesmo, como ouro, prata, ferro, chumbo, utensílios e semelhantes. Essa é a opinião de Abu Hanifa, dos hanbalitas, de Ishaq e de Ibn al-Mundhir, e uma das duas opiniões de Malik e al-Shafi‘i. A outra opinião de al-Shafi‘i é que o khumus deve ser pago somente sobre ouro e prata.

Locais onde se encontra o rikāz: ele pode ser encontrado em qualquer um dos seguintes lugares:

1. Terreno abandonado ou cujo proprietário seja desconhecido, ainda que o rikāz seja encontrado à superfície, ou em uma estrada abandonada ou em uma aldeia desabitada. Quanto ao tesouro enterrado nesses lugares, há consenso de que se deve pagar um quinto — o zakat — e ficar com os quatro quintos restantes. Al-Nasa’i narra de ‘Amr ibn Shu‘ayb, e este de seu pai: «Perguntaram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre algo encontrado. Ele disse: aquilo que encontrares numa estrada ou numa área habitada, anuncia-o entre as pessoas durante um ano. Se o proprietário aparecer, entrega-lho; caso contrário, será teu. E aquilo que for encontrado em qualquer lugar que não seja uma estrada ou uma área habitada está sujeito ao khumus (um quinto) do rikāz.» (Este hadith mostra que, se o proprietário não for encontrado, o objeto pertencerá a quem o encontrou, se ele for pobre; caso contrário, deverá doá-lo.)

2. O rikāz encontrado no interior de uma propriedade cuja posse foi transferida para alguém pertence a essa pessoa. Isso porque o rikāz é algo depositado no interior da terra. Portanto, sua propriedade não é adquirida simplesmente pela aquisição da propriedade da terra; ela é adquirida quando se toma posse da terra. Assim, ele se assemelha à erva, à madeira e à caça encontradas na terra de outra pessoa, coisas acessíveis e permitidas a todos. Por isso, essa pessoa tem mais direito a ele. Contudo, se aquele de quem a propriedade foi transferida reivindicar que o tesouro lhe pertence, ele será dele, pois estava sob sua posse, uma vez que se encontrava em seu próprio terreno. Se ele não o reivindicar, pertencerá a quem o encontrar. Essa é a opinião de Abu Yusuf e a opinião considerada mais correta entre os hanbalitas. O Imam al-Shafi‘i disse: ele pertencerá ao proprietário anterior se este o reconhecer. Se não o reconhecer, pertencerá ao proprietário anterior a ele, e assim por diante até chegar ao primeiro proprietário. Se a propriedade da casa tiver sido transferida por herança, será considerado pertencente aos herdeiros. Porém, se os herdeiros concordarem em afirmar que não pertencia ao seu antepassado, pertencerá ao primeiro proprietário. Se a identidade do primeiro proprietário não for conhecida, será tratado como um objeto perdido e considerado sem proprietário. Abu Hanifa e Muhammad, que Allah tenha misericórdia deles, disseram: o rikāz pertence ao primeiro proprietário da terra ou aos seus herdeiros, se forem conhecidos. Se não forem conhecidos, deverá ser depositado no tesouro público (Bayt al-Mal).

3. Se o rikāz for encontrado sob a propriedade de um muçulmano ou de um não muçulmano legalmente protegido (dhimmī), então, segundo Abū Ḥanīfa e Muḥammad, e também segundo Aḥmad, de acordo com uma narração, ele pertencerá àquele sob cuja propriedade foi encontrado. Também foi narrado de Aḥmad que ele pertence àquele que o encontrou. Essa é igualmente a opinião de Ḥasan ibn Ṣāliḥ e Abū Thawr. Abū Yūsuf preferiu essa opinião. A razão disso já foi mencionada anteriormente: a propriedade do rikāz não é adquirida automaticamente apenas pela propriedade da terra. Se o proprietário da terra reivindicá-lo, sua palavra será aceita, pois ele tem direito sobre aquilo que está sob sua propriedade. Se não o reivindicar, então pertencerá àquele que o encontrou. O Imām al-Shāfiʿī disse: se o proprietário o reconhecer, o rikāz será dele; se não o reconhecer, pertencerá ao primeiro proprietário.

Já foi dito quanto deve ser pago sobre o rikāz. O rikāz é um tesouro enterrado na terra durante a época da Jāhiliyya, e um quinto dele deve ser pago. Os quatro quintos restantes pertencem ao proprietário mais antigo da terra, se ele for conhecido. Se estiver morto, pertencem aos seus herdeiros, caso sejam conhecidos. Caso contrário, devem ser depositados no Bayt al-Māl. Essa é a escola de Abū Ḥanīfa, Mālik, al-Shāfiʿī e Muḥammad. Aḥmad e Abū Yūsuf disseram: se o proprietário da terra não o reivindicar, ele pertencerá àquele que o encontrou; caso contrário, por consenso, pertencerá ao proprietário da terra. Seja a quantidade de rikāz pequena ou grande, um quinto dela deve ser pago, e não há um niṣāb fixado para isso. Segundo Abū Ḥanīfa, Aḥmad, a opinião considerada mais correta entre as duas opiniões de Mālik e al-Shāfiʿī, o niṣāb deve ser levado em consideração. Contudo, há consenso de que não se exige o transcurso de um ano. Sobre quem é obrigado a pagar o khumus, ou um quinto: segundo a maioria dos estudiosos, a obrigação de pagar o khumus recai sobre aquele que encontrou o rikāz, seja ele muçulmano, cidadão não muçulmano protegido, adulto, menor, mentalmente são ou insano, não importa. Entretanto, cabe ao tutor do menor ou do insano cumprir a obrigação de pagar o khumus.

Ibn al-Mundhir disse: todos os estudiosos cujas opiniões conhecemos chegaram a um consenso: se um cidadão não muçulmano protegido encontrar um rikāz, o khumus recairá sobre ele. Mālik, os habitantes de Medina, al-Thawrī, al-Awzāʿī, os iraquianos, os adeptos da opinião independente e outros sustentam essa opinião. Al-Shāfiʿī disse: aquele sobre quem o zakāt é obrigatório, também está sujeito ao khumus; ninguém mais. Isso porque o khumus também é zakāt.

Quem tem direito a receber o khumus: segundo al-Shāfiʿī, aqueles que têm direito a receber o zakāt também têm direito a receber o khumus. Isso porque Aḥmad e al-Bayhaqī narraram, por intermédio de Bishr al-Khasʿamī, de um homem de sua tribo:

“Ele disse: enquanto eu recolhia o zakāt de Bishr, um recipiente cheio de quatro mil dirhams caiu diante de mim perto de um antigo templo em Kūfa. Levei-o a ʿAlī, que Deus esteja satisfeito com ele. Ele disse: ‘Divida-o em cinco partes.’ Eu o dividi. ʿAlī tomou uma parte, ou seja, um khumus, e deu-me os quatro quintos restantes. Então, quando eu estava indo embora, ele me chamou e disse: ‘Há algum pobre entre os seus vizinhos?’ Respondi: ‘Sim.’ Ele disse: ‘Leve isto e distribua entre eles.’”

Por outro lado, segundo Abū Ḥanīfa, Mālik e Aḥmad, aqueles que têm direito aos espólios de guerra têm direito a receber o khumus do rikāz. Isso porque al-Shaʿbī narrou: um homem encontrou mil dinares enterrados fora de Medina. Levou-os a ʿUmar ibn al-Khaṭṭāb, que tomou duzentos dinares como khumus e deu ao homem os oitocentos dinares restantes. ʿUmar, que Deus esteja satisfeito com ele, começou a distribuir aqueles duzentos dinares entre os muçulmanos presentes. Ao final, reteve uma pequena parte. Então disse: ‘Onde está o proprietário dos dinares?’ O homem foi até ele. ʿUmar, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: ‘Pegue estes dinares; eles são seus.’ No Mughnī, afirma-se que, se isso fosse zakāt, ele teria especificado, na distribuição desses dinares, as pessoas elegíveis para receber o zakāt e não os teria devolvido àquele que encontrou o tesouro. Além disso, o pagamento desse khumus também é obrigatório para o cidadão não muçulmano protegido, enquanto o zakāt não é obrigatório para um não muçulmano.

38. O zakāt dos recursos marinhos

Segundo a maioria dos estudiosos, não se deve pagar zakāt sobre nenhum recurso marinho, como pedras preciosas, pérolas, esmeraldas, âmbar, peixes e outros. Contudo, de acordo com uma das duas narrações recebidas de Aḥmad, o zakāt é obrigatório sobre os recursos marinhos que atinjam o niṣāb. Abū Yūsuf apoiou essa opinião apenas no caso das pérolas e do âmbar. Ibn ʿAbbās, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: não há zakāt sobre o âmbar; ele é algo lançado pelo mar. Jābir disse: não há zakāt sobre o âmbar; ele é como um espólio para quem o obtiver.

39. Zakat sobre a riqueza adquirida

Quando alguém adquire uma riqueza sobre a qual não há zakat antes de completar-se um ano, e ela alcança o nisab, sem que ele possua qualquer outra riqueza, ou possua riqueza da mesma categoria, mas abaixo do nisab, o ano da zakat dessa riqueza será contado a partir do momento em que a riqueza adquirida alcançar o nisab. Quando o ano se completar, a zakat se tornará obrigatória.
Se, porém, ele já possuir uma riqueza equivalente ao nisab, a riqueza adquirida necessariamente será de um dos três tipos seguintes:

1. A riqueza adquirida é um acréscimo da própria riqueza, como o lucro do comércio e as crias dos animais. Ela estará sujeita à riqueza original tanto no que diz respeito ao ano quanto à zakat.

Assim, aquele que possuir mercadorias comerciais equivalentes ao nisab ou animais, e depois, durante o ano, obtiver lucro no comércio ou tiver crias de seus animais, deverá pagar, segundo o consenso, a zakat sobre toda a riqueza, tanto a original quanto a adquirida.

2. A riqueza adquirida pertence à mesma categoria da riqueza equivalente ao nisab que ele já possui, mas não é parte dela nem sua cria; ao contrário, foi adquirida por compra, doação ou herança. Segundo Abu Hanifa, esse tipo de riqueza adquirida será agregado à riqueza que alcança o nisab. Será submetido a ela para a contagem do ano, e a zakat deverá ser paga sobre o conjunto total da riqueza original e da adquirida.

Al-Shafi‘i e Ahmad disseram: a riqueza adquirida seguirá a riqueza original apenas no que diz respeito ao nisab, e um novo ano será contado a partir dela, seja a riqueza original dinheiro em espécie ou um animal. Por exemplo, ele possuía duzentos dirhams e, depois, adquiriu mais alguns dirhams durante o ano. Pagará a zakat sobre ambas as riquezas depois que o ano se completar. A opinião de Malik sobre os animais é a mesma de Abu Hanifa; quanto ao ouro e à prata, é a mesma de al-Shafi‘i e Ahmad.

3. A riqueza adquirida é de uma categoria diferente da riqueza que ele já possui. Não se poderá agregá-la à riqueza existente para calcular o nisab ou o ano. Ao contrário, se ela alcançar o nisab, deverá completar um ano e pagar a zakat ao final dele; caso contrário, nada deverá pagar. Essa é a opinião da maioria dos sábios.

40. A zakat incide sobre a obrigação, não sobre a própria riqueza

Segundo uma opinião de Abu Hanifa, Malik e Ahmad, e também segundo uma narração atribuída a al-Shafi‘i, a zakat incide sobre o próprio bem. A outra opinião de Ahmad e al-Shafi‘i é que a zakat recai sobre a responsabilidade do proprietário do bem, e não sobre o próprio bem. A diferença prática decorrente dessa divergência é a seguinte: uma pessoa possuía duzentos dirhams, e dois anos se passaram sem que pagasse a zakat. Aquele que afirma que a zakat é obrigatória sobre o próprio bem dirá que essa pessoa deverá pagar agora apenas a zakat de um ano, pois, após o pagamento da zakat do primeiro ano, o montante ficou cinco dirhams abaixo do nisab. Já aquele que afirma que a zakat recai sobre a responsabilidade dirá que ela deverá pagar duas zakats, correspondentes aos dois anos consecutivos, pois a zakat tornou-se obrigatória sobre sua responsabilidade; portanto, isso não terá qualquer efeito sobre a redução do nisab. Ibn Hazm considera preferível a opinião de que a obrigação recai sobre a responsabilidade. Ele disse: “Desde a nossa época até a época do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, não há divergência entre nenhum membro da ummah muçulmana quanto ao fato de que, quando a zakat de trigo, cevada, tâmaras, ouro, prata, camelos, bovinos, cabras ou ovinos se torna obrigatória para alguém, e ele paga a zakat com algo diferente desses cereais, ouro, prata, camelos, bovinos, cabras ou ovinos, não se deve impedi-lo disso nem considerar tal ato reprovável. Pelo contrário, que ele a pague com esses bens, ou com outra coisa que tenha consigo, ou com qualquer outro bem que possa ser comprado, doado ou emprestado — tudo é equivalente. Assim, isso está comprovadamente correto: a zakat recai sobre a responsabilidade, e não sobre o próprio bem. Pois, se incidisse sobre o próprio bem, em nenhuma circunstância seria lícito pagá-la com outra coisa, e a pessoa seria impedida de fazê-lo. Da mesma forma, alguém que tivesse um sócio em qualquer dos bens mencionados não poderia, sem o consentimento dele, dar ao sócio algo diferente do bem em que ambos são coproprietários.”

Do mesmo modo, se a zakat incidisse sobre o próprio bem, necessariamente uma das duas situações seguintes ocorreria: ou a zakat seria obrigatória sobre cada parte desse bem, ou seria obrigatória sobre uma de suas partes, e não sobre o bem em si. Se a zakat fosse obrigatória sobre todas as suas partes, seria proibido vender sequer um grão ou qualquer quantidade dele, pois todos os beneficiários da zakat seriam coproprietários dessa parte; igualmente, seria proibido ao proprietário consumir sequer uma pequena parte dela. Contudo, isso é unanimemente considerado inválido. Da mesma forma, não seria lícito retirar uma cabra do rebanho sem avaliar o valor do rebanho inteiro, como ocorre necessariamente numa propriedade compartilhada. E, se a zakat fosse obrigatória sobre uma parte específica do bem — e não sobre o próprio bem —, isso também seria inválido, pois, nesse caso, ele poderia consumir, sem saber, a parte pertencente aos beneficiários da zakat.

41. Se o bem perecer depois de a zakat se tornar obrigatória e antes de ser paga

Se tiver decorrido um ano após a zakat se tornar obrigatória, ou se tiver chegado o momento da colheita, e então toda a riqueza ou parte dela perecer antes do pagamento da zakat, a obrigação integral da zakat permanecerá sobre o proprietário, quer o perecimento tenha ocorrido por sua negligência, quer sem negligência de sua parte. Essa é a opinião de Ibn Hazm e a posição mais conhecida do madhhab do Imam Ahmad. Abu Hanifa, porém, afirma que, se toda a riqueza perecer sem qualquer transgressão do proprietário, a zakat será anulada; e, se apenas uma parte perecer, a zakat será anulada proporcionalmente. Isso porque, segundo ele, a zakat está ligada ao próprio bem, e não ao seu valor. Por outro lado, quando o bem perecer em razão de alguma transgressão, a zakat não será anulada. Al-Shafi‘i, Hasan ibn Salih, Ishaq, Abu Thawr e Ibn al-Mundhir disseram: se o nisab perecer antes de o proprietário ter capacidade de pagar a zakat, ela será anulada; se perecer depois disso, não será anulada. Ibn Qudama deu preferência a essa opinião e disse: “Se Allah quiser, a opinião correta é que, quando a riqueza perece, a zakat será anulada somente quando o proprietário não tiver sido negligente em pagá-la. Isso porque a zakat se torna obrigatória com base na consideração e na compaixão. Portanto, não pode ser obrigatória quando a riqueza já não existe e o proprietário está em situação de pobreza.”

Negligência significa deixar de pagar a zakat apesar de ter capacidade para fazê-lo. Se não houver capacidade, isso não será considerado negligência, seja porque não se encontrou ninguém com direito a receber a zakat, seja porque o bem estava distante do proprietário, seja porque o que deveria ser entregue como zakat não se encontrava entre seus bens e era necessário comprá-lo, mas não foi possível encontrá-lo para compra, seja porque ele estava ocupado procurando-o, ou por qualquer outra razão semelhante que o impedisse de pagar a zakat. E, se afirmarmos que a zakat continua obrigatória mesmo depois de a riqueza perecer, e posteriormente o proprietário tiver capacidade de pagá-la, deverá pagá-la. Caso contrário, deverá receber um prazo até recuperar sua capacidade e prosperidade, sem que lhe sejam acrescentados danos além da perda que já sofreu. Pois, se é obrigatório conceder ao proprietário um prazo para o pagamento de uma dívida para com as pessoas, conceder-lhe um prazo para o pagamento da zakat, que é um direito de Allah, é ainda mais digno de consideração.

42. Se a zakat perecer depois de ser separada

Se, depois de a zakat ser separada com o propósito de distribuí-la entre os credores, toda ela ou parte dela perecer, será necessário pagar a zakat novamente. Isso porque ela continuará sendo responsabilidade do proprietário até chegar àqueles a quem Allah ordenou que fosse entregue. Ibn Hazm narra de Ibn Abi Shayba, Hafs ibn Ghiyath, Jarir, Mu’tamar ibn Sulayman al-Taymi, Zayd ibn Hubab e Abd al-Wahhab ibn Ata. Hafs narrou de Hisham ibn Hassan e Hasan al-Basri; Jarir narrou de al-Mughira e seus discípulos; Mu’tamar narrou de Muzammir e Hammad; Zayd narrou de Ghubah e al-Hakam; e Abd al-Wahhab narrou de Ibn Abi Arubah, Hammad e Ibrahim al-Nakha‘i. Depois, todos concordaram e disseram: “Quem separar a zakat e, em seguida, ela perecer deverá pagá-la novamente.” É narrado de Ata: não será necessário pagar a zakat novamente.

43. A zakat não é anulada quando seu pagamento é atrasado

Aquele que deixou passar ano após ano, ou que não pagou a zakat que lhe era obrigatória, deverá pagar toda a zakat dos anos anteriores, quer soubesse ou não que a zakat era obrigatória para ele, e quer residisse em um país muçulmano ou em um país não muçulmano. Esta é a opinião da escola jurídica xafiita.

44. Dar o valor em vez do bem original

Nos casos em que o Alcorão e a Sunnah estabelecem instruções claras para pagar a zakat a partir do próprio bem original, só será suficiente dar o seu valor quando esse bem original, ou um bem da mesma espécie, não puder ser encontrado. Isso porque a zakat é um ato de adoração. E a adoração só será válida quando realizada conforme aquilo que a Shariah determinou. Além disso, a zakat deve ser paga com o bem original, para que os pobres possam tornar-se participantes dos bens originais dos ricos.

Em um hadith narrado por Mu‘adh, consta: “Quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) o enviou ao Iêmen, disse-lhe: ‘Recebe grãos provenientes de grãos, cabras provenientes de cabras e ovelhas, camelos provenientes de camelos e bovinos provenientes de bovinos.’” — Abu Dawud, Ibn Majah, Bayhaqi e Hakim.

Al-Shawkani disse: “A verdade é que a zakat é obrigatória a partir do próprio bem original, e não é válido dar o seu valor sem uma justificativa. Contudo, segundo Abu Hanifah, é válido dar o valor mesmo quando se tem capacidade de pagar com o bem original. Isso porque a zakat é um direito dos pobres, e para os pobres não há diferença entre receber o bem original ou o seu valor.” Al-Bukhari narrou: “Mu‘adh disse aos habitantes do Iêmen: ‘Trazei-me, como zakat, roupas de seda com bordas ou roupas para vestir. Isso será mais fácil para vós.’”

Foi dada aos Companheiros do Mensageiro de Allah, em Medina, a liberdade de pagar o valor.

45. Zakat sobre bens em sociedade
Quando um bem pertencer a dois ou mais sócios, segundo a opinião da maioria dos eruditos, a zakat não será obrigatória para nenhum deles se cada um, individualmente, não possuir o nisab.

46. Aquele que tenta escapar da zakat

O Imame Mālik, Ahmad, al-Awzāʿī, Ishaq e Abū ʿUbayd disseram: se uma pessoa possuir o nisab de qualquer tipo de riqueza e, antes do término do ano, vender essa riqueza, doá-la ou destruir parte dela, não ficará isenta do pagamento da zakat. Se fizer isso na segunda metade do ano, a zakat será cobrada dela ao término do ano. Porém, se fizer isso na primeira metade do ano, não terá de pagar zakat, pois não parece que, com isso, tenha pretendido escapar da zakat. Abū Hanifah e al-Shāfiʿī disseram: a sua zakat será anulada, pois ele reduziu a riqueza antes do término do ano. Contudo, se tiver pretendido deliberadamente escapar da zakat, será considerado pecador e desobediente a Allah.

Os defensores da primeira opinião apresentam como prova os versículos 18 a 21 da surata al-Qalam:

إِنَّا بَلَوْنَهُمْ كَمَا بَلَوْنَا أَصْحَبَ الْجَنَّةِ ، إِذْ أَنْسَبُوا لَيَصْرِمِنْهَا مُصْبِحِيْنَ، وَلَا يَسْتَقْنُونَ فَطَافَ عَلَيْهَا طَائِفَ مِنْ رَبِّكَ وَهُمْ نَالِمُونَ. فَاصْبَحَتْ كَالمُرِنِي.

«Nós os testamos, assim como testamos os donos do jardim, quando juraram que colheriam os seus frutos bem cedo, mas não disseram: “Se Allah quiser”. Então, uma calamidade proveniente do teu Senhor atingiu o jardim enquanto eles dormiam. E, pela manhã, o jardim havia se tornado como um campo já ceifado.» Assim, Allah os puniu por tentarem escapar da zakat.

Outra razão é que ele quis privar aqueles que tinham direito à zakat, mas não conseguiu. Além disso, como teve uma intenção injusta, a sabedoria exigia que fosse punido mediante a frustração do seu objetivo. É como alguém que mata o próprio pai para antecipar o recebimento da sua herança. Por isso, a Sharia privou-o da herança como punição.

47. Categorias de despesas da zakat

Há oito categorias de beneficiários da zakat. Allah mencionou-as no seguinte versículo:

إِنَّهَا الصَّدَقْتُ لِلْفُقَرَاءِ وَالْمَسْكِينِ وَالْعَمِلِينَ عَلَيْهَا وَالْمُؤلَّفَةِ قُلُوبُهُمْ وَفِي الرِّقَابِ وَالْغَرِمِينَ وفِي سَبِيلِ اللَّهِ وَابْنِ السَّبِيلِ ، فَرِيضَةً مِّنَ اللهِ ، وَاللهُ عَلِيمٌ حَكِيرٌ .

“A zakat é devida aos pobres, aos necessitados, aos funcionários encarregados de arrecadar a zakat, àqueles cujos corações se deseja conquistar, para a libertação de escravos, para os endividados, no caminho de Allah e para os viajantes. Esta é uma obrigação determinada por Allah. Allah é Onisciente e Sábio.” (Surata At-Tawbah, versículo 60)

Ziyad ibn Harith As-Suda’i disse: “Fui até o Mensageiro de Allah e prestei-lhe o juramento de fidelidade. Naquele momento, um homem chegou e disse: ‘Dê-me algo da zakat.’ Ele respondeu: ‘No que diz respeito à zakat, Allah não aprovou a decisão de nenhum profeta nem de qualquer outra pessoa. Por isso, Ele mesmo a distribuiu entre oito categorias. Se você pertencer a alguma dessas oito categorias, eu lhe darei.’” Abu Dawud.

A explicação detalhada das oito categorias mencionadas no versículo é a seguinte:

1–2. Os pobres e os necessitados: aqueles que dependem de outros para satisfazer suas necessidades básicas. O oposto deles são os ricos, que são autossuficientes para satisfazer suas necessidades básicas. Já explicamos anteriormente que a quantidade de riqueza que torna alguém rico é uma riqueza equivalente ao nisab, além das necessidades básicas dele e de seus filhos. Entre essas necessidades básicas estão alimento, bebida, vestuário, moradia, meios de transporte e meios de obter o sustento, pois a vida humana não pode prosseguir sem eles. Aquele que não dispõe de recursos suficientes para satisfazer essas necessidades é pobre e tem direito à zakat.

No hadith de Mu‘adh consta: “A riqueza será tomada dos ricos entre eles e devolvida aos pobres entre eles.” Aquele de quem ela é tomada é rico e possui o nisab. Já aquele a quem ela é devolvida é o seu oposto: o pobre, isto é, aquele que não possui uma riqueza equivalente à do rico. Não há diferença entre o pobre e o necessitado quanto à necessidade e à carência, nem quanto ao direito à zakat. Contudo, embora tenham sido reunidos no versículo por meio da conjunção ‘atf — isto é, uma partícula de adição (“e”) —, indicando duas categorias distintas, isso não invalida o que afirmamos. Com efeito, o necessitado é uma categoria dos pobres, com algumas características específicas. Isso é suficiente para que seja considerado uma categoria distinta.

Sabe-se pelos hadiths que o necessitado é aquele pobre que não pede nada às pessoas. O povo também não consegue reconhecê-lo. Por isso, ele foi mencionado separadamente no versículo, pois pode ser que, devido à sua dignidade, não seja reconhecido.

Abu Hurayrah narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Não é necessitado aquele que é mandado embora com uma ou duas tâmaras, ou com uma ou duas porções de comida. O necessitado é aquele que evita pedir; não implora nem pede algo insistentemente a ninguém.” Outra versão diz: “Não é necessitado aquele que é mandado embora com uma ou duas porções de comida e uma ou duas tâmaras. Ao contrário, o necessitado é aquele que não encontra um meio de se livrar da dependência dos outros; ninguém o reconhece para lhe dar alguma coisa, e ele também não pede nada às pessoas.” — Bukhari e Muslim.

Quanto de zakat deve ser dado ao pobre: o objetivo da zakat é livrar o pobre da pobreza e atender às suas necessidades. Portanto, deve-se dar-lhe da zakat uma quantia que o liberte da pobreza, lhe permita viver com suficiência de forma permanente e o torne autossuficiente, livre da dependência dos outros. Essa quantia pode variar conforme a situação e a pessoa. ‘Umar disse: “Quando deres uma doação a alguém, torna-o autossuficiente.” Qadi ‘Abd al-Wahhab disse: “O Imam Malik não estabeleceu uma definição sobre esse assunto. Ele apenas disse: também se pode dar àquele que possui essas coisas básicas: moradia, empregado e animal de transporte.” Também consta nos hadiths que é lícito ao pobre pedir ajuda para adotar um meio de obter renda e tornar-se autossuficiente por meio dele durante toda a vida.

Qubaisa ibn Mukhariq al-Hilali disse: Eu tinha uma dívida sobre meus ombros. Fui ao Mensageiro de Allah para consultá-lo sobre isso. Ele disse: “Permanece aqui até que o zakat chegue até nós; então ordenarei que te deem algo.” Depois disse: “Ó Qubaisa, não é lícito pedir ajuda a ninguém, exceto a uma destas três pessoas: aquele que está endividado pode pedir ajuda para que receba auxílio e depois deixe de pedir; aquele que foi atingido por uma calamidade que destruiu grande parte de seus bens pode pedir ajuda, para que possa prover seu sustento. Segundo outra narração, para que possa satisfazer suas necessidades e tornar-se autossuficiente; e aquele que caiu em uma pobreza tão grave que três pessoas sensatas de sua tribo testemunhem: ‘Fulano caiu em extrema pobreza’, pode pedir ajuda, para que possa prover seu sustento e tornar-se autossuficiente. Ó Qubaisa, quem pedir ajuda além dessas três pessoas obterá ganhos ilícitos e consumirá o ilícito.” — Ahmad, Muslim, Abu Dawud e an-Nasa’i.

Pode-se dar zakat a uma pessoa saudável, forte e capaz de trabalhar e ganhar seu sustento? Assim como não se pode dar zakat a uma pessoa rica, também não se pode dá-lo a uma pessoa forte e capaz de trabalhar e ganhar seu sustento.

1. Ubaidullah ibn Adi ibn al-Khiyar disse: Dois homens me informaram que foram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, durante a Peregrinação de Despedida. Naquele momento, ele estava distribuindo o zakat. Eles disseram: Nós dois lhe pedimos zakat. Ele levantou os olhos para nós e depois os baixou novamente. Percebeu que ambos éramos fortes. Disse: “Se quiserem, posso dar-lhes; porém, nele não há parte para um rico nem para uma pessoa forte, capaz de trabalhar e ganhar seu sustento.” — Abu Dawud e an-Nasa’i.

Al-Khattabi disse: O princípio encontrado neste hadith é que, quando não se sabe que uma pessoa possui algum bem, deve-se presumir que ela não possui bens. Isso prova que a força física aparente e um corpo robusto não são critérios considerados no zakat, sem verificar como a pessoa ganha seu sustento. Com efeito, há muitas pessoas fisicamente saudáveis e fortes que, apesar disso, são tão inábeis no trabalho que não conseguem realizar adequadamente tarefa alguma. Este hadith prova que não se pode deixar de dar zakat a pessoas desse tipo.

Rayhan ibn Yazid narrou de Abdullah ibn Amr, e este do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que o Mensageiro de Allah disse: “Não é lícito receber zakat para um rico, nem para uma pessoa saudável e forte, capaz de trabalhar e ganhar seu sustento, com todos os membros sãos e normais.” — Abu Dawud e at-Tirmidhi. Esta é a opinião de ash-Shafi’i, Ishaq, Abu Ubaid e Ahmad.

Os hanafitas dizem: É lícito que uma pessoa saudável e forte receba zakat, desde que não possua bens no valor de duzentos dirrãs ou mais.

An-Nawawi disse: As pessoas que normalmente não estão acostumadas a ganhar seu sustento por meio de trabalho físico, embora sejam fortes e capazes, podem receber a parcela do zakat destinada aos pobres? Em resposta a essa pergunta, o Imam al-Ghazali disse: “Sim, podem.” Na verdade, esta é a opinião correta. Deve-se considerar a profissão adequada a cada pessoa.

A regra para quem possui o nisab, mas não tem prosperidade suficiente para satisfazer suas necessidades básicas:

Aquele que possui o nisab de algum tipo de riqueza, mas cuja riqueza não é capaz de satisfazer suas necessidades básicas devido ao grande número de membros da família ou ao aumento dos preços, será considerado rico por possuir o nisab, e o zakat será obrigatório sobre sua riqueza conforme prescrito. Ao mesmo tempo, também é pobre, pois a riqueza que possui não supre suas necessidades. Portanto, ele também poderá receber zakat como pobre. O imame Nawawi disse: aquele que possui terras, mas cuja produção não lhe garante uma condição confortável, terá todas as suas necessidades satisfeitas por meio do zakat e não será obrigado a vender suas terras.

Em Al-Mughni, é dito que Maymuni relatou: Eu disse a Ahmad ibn Hanbal: Não é raro encontrar uma pessoa que possua alguns camelos e cabras ou ovelhas sobre os quais o zakat é obrigatório, mas que seja pobre. Ela possui também quarenta cabras e terras que não satisfazem suas necessidades. Pode receber zakat? Ahmad respondeu: Sim. Isso porque ela não possui riqueza suficiente para lhe proporcionar uma condição confortável, nem é capaz de obter uma renda suficiente para alcançar tal condição. É lícito que receba zakat, assim como seria lícito se possuísse uma riqueza sobre a qual o zakat não fosse obrigatório.

3. Funcionários e agentes encarregados do setor do zakat: são aqueles que o governo, ou um representante autorizado ou investido de poderes pelo governo, encarrega de cobrar e arrecadar o zakat dos ricos. Também estão incluídos nessa categoria os responsáveis por guardar os bens do zakat, os pastores dos animais do zakat e os encarregados de manter os registros do zakat. Eles devem ser muçulmanos e não podem pertencer às famílias sobre as quais o zakat é proibido, isto é, nenhum membro dos descendentes do Mensageiro de Allah, os Banu Hashim e os Banu Abd al-Muttalib.

Relatado por al-Muttalib ibn Rabi’a ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib, que disse: Eu e al-Fadl ibn Abbas fomos até o Mensageiro de Allah. Então, um de nós disse: Ó Mensageiro de Allah! Viemos até você para que nos nomeie responsáveis pelo zakat, para que também desfrutemos dos benefícios que outros desfrutam nessa função e para que lhe entreguemos aquilo que outros lhe entregam. O Mensageiro de Allah disse: O zakat e a caridade não são apropriados para Muhammad nem para os descendentes de Muhammad. Eles são, na verdade, a sujeira das pessoas. — Ahmad e Muslim.

Contudo, mesmo que sejam ricos, é lícito que os funcionários e agentes do setor do zakat recebam zakat como remuneração e subsídio.

Relatado por Abu Sa’id: O Mensageiro de Allah disse: O zakat não é lícito para nenhum rico, exceto para cinco pessoas: 1. aquele que está encarregado de uma tarefa relacionada ao zakat; 2. aquele que comprou com seu próprio dinheiro os bens destinados ao zakat; 3. o endividado; 4. aquele que luta no caminho de Allah; e 5. quando um necessitado oferece a um rico, como presente, algum bem recebido como zakat. — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah e al-Hakim. Os encarregados das tarefas do zakat recebem do zakat somente a remuneração pelo trabalho que realizam.

Relatado por Abdallah al-Sa’di: Ele veio da Síria até Umar ibn al-Khattab. Umar lhe disse: Ouvi dizer que você está encarregado de uma tarefa dos muçulmanos, mas não aceita o salário que lhe é pago por isso. Isso é verdade? Abdallah respondeu: Sim. Tenho muitos cavalos e escravos; sou abastado. Quero que meu trabalho seja uma caridade para os muçulmanos. Umar disse: Eu também tinha a mesma atitude que você tem. O Mensageiro de Allah me dava algo em troca, e eu dizia: Dê isso a alguém mais pobre do que eu. Certa vez, ele me deu algo, e eu disse: Dê isso a alguém mais necessitado do que eu. Ele disse: Aceite desta riqueza aquilo que Allah lhe conceder sem que você o peça ou deseje; depois, utilize-o ou doe-o. Quanto àquilo que Allah não lhe conceder, não o cobice. — Al-Bukhari e al-Nasa’i.

É recomendável que a remuneração dos encarregados das tarefas do zakat seja suficiente para atender às suas necessidades.

“É narrado por Mustaurid ibn Shaddad (que Allah esteja satisfeito com ele). O Mensageiro de Allah disse: ‘Quem for encarregado de algum serviço público deve providenciar uma casa, se não tiver casa; deve casar-se, se não tiver esposa; deve contratar um criado, se não tiver criado; e deve providenciar um meio de transporte, se não tiver transporte. E quem adquirir algo além disso será um usurpador.’ — Ahmad e Abu Dawud; sua cadeia de transmissão é autêntica.
Al-Khattabi disse: Este hadith pode ser interpretado de duas maneiras: a primeira é que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permitiu que se providenciassem um criado e uma moradia

com a remuneração de seu trabalho. Não é permitido receber qualquer benefício além disso. A segunda é que os funcionários e autoridades têm direito a moradia e a um criado. Se não tiver moradia, será alugada para ele uma casa enquanto permanecer encarregado desse trabalho; se não tiver criado, será contratado um para ele, e deverá ser providenciada uma remuneração suficiente para o criado.

4. Aqueles cujos corações precisam ser conquistados: no Tafsir al-Manar, a identidade desse grupo é apresentada da seguinte forma:

Trata-se de um grupo cujos corações se deseja atrair e preencher de amor pelo Islã e pelos muçulmanos, e cuja reunião e firmeza sobre o Islã se fazem necessárias. Devido à fraqueza de sua lealdade ao Islã, é necessário fazer isso por meio de uma parte da zakat. Com isso, também se busca proteger os muçulmanos de seus danos ou obter seus serviços na defesa dos muçulmanos. Os juristas dividiram esse grupo em duas categorias: muçulmanos e incrédulos.

Os muçulmanos, por sua vez, são de quatro tipos:

1. Os nobres e líderes entre os muçulmanos, como Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) deu a Adi ibn Hatim e a Zabarqan ibn Badr. Isso apesar de não haver qualquer fraqueza ou deficiência em seu Islã. A razão era a posição especial que ocupavam entre suas tribos.

2. As figuras de liderança entre os muçulmanos fracos, que gozam de grande consideração em suas próprias tribos e grupos. O objetivo de lhes dar uma parte da zakat é assegurar sua firmeza no Islã, sua solidez na fé e seu apoio e boa vontade em questões como o jihad. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também deu muitos bens, provenientes dos espólios dos Banu Hawazin, a um grupo de habitantes de Meca que havia aceitado o Islã após a conquista de Meca. Entre eles havia hipócritas e muçulmanos de fé fraca. Ao receberem as dádivas dessa categoria da zakat, a fé da maioria deles se fortaleceu e eles se tornaram bons muçulmanos.

3. Um grupo de muçulmanos que vive próximo às fronteiras do Estado Islâmico e do Estado inimigo. Isso lhes é dado na esperança de que resistam da parte deles no momento de um ataque inimigo. O autor do Tafsir al-Manar diz: “Creio que esta é a murabatah, ou defesa, mencionada no Alcorão.” Esses juristas incluíram esta categoria sob o título “no caminho de Allah”. Com isso, pretende-se a luta no caminho de Allah.
Em nossa época, é especialmente importante conquistar os corações daquele grupo de muçulmanos que os incrédulos tentam atrair para que se convertam à sua religião, ou pelo menos se tornem seus apoiadores. Vemos que os países imperialistas destinam uma parte dos recursos de seus países com o objetivo mesquinho de transformar os muçulmanos em seus escravos e convertê-los à sua religião, a fim de atrair e conquistar seus corações. Alguns deles estão envolvidos diretamente em uma conspiração para converter os muçulmanos ao cristianismo e afastá-los do Islã. Outros querem apenas transformá-los em seus apoiadores, fazê-los inimigos dos países muçulmanos e utilizá-los para destruir a unidade islâmica. Diante disso, não é um dever ainda mais urgente dos muçulmanos fazer todo o possível para proteger esses muçulmanos de cair nas armadilhas das vis conspirações dos não muçulmanos?

4. Um grupo entre os muçulmanos cuja ajuda, cooperação, influência e autoridade possam ser necessárias para a arrecadação do zakat. Esse grupo influente pode, por meio de sua influência e poder, fazer com que o zakat seja arrecadado daqueles que não concordam em pagá-lo senão mediante combate. Para eles, prestar essa ajuda ao governo é mais prioritário, pois é menos prejudicial e assegura um benefício maior. Pode-se obter a colaboração de grupos desse tipo concedendo-lhes uma parte dos fundos do zakat.

Por outro lado, entre os incrédulos, aqueles cujos corações precisam ser conquistados e atraídos são de dois tipos:

1. Aqueles de quem se pode esperar que, caso seus corações sejam conquistados por meio de uma doação, possam até mesmo tornar-se muçulmanos. É o caso de Safwan ibn Umayya, a quem o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, garantiu segurança no dia da conquista de Meca e concedeu quatro meses para que, nesse período, refletisse sobre o que deveria fazer e tomasse uma decisão. Ele estava foragido, mas, ao receber a garantia de segurança, compareceu e, antes de abraçar o Islã, juntou-se aos muçulmanos na batalha de Hunayn. Quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, partiu para a expedição de Hunayn, tomou emprestadas dele suas armas. O Mensageiro deu-lhe uma grande quantidade de camelos de carga que pastavam em um vale. Ao recebê-los, ele disse: “Esta é a dádiva de um homem generoso que não teme a pobreza. O Mensageiro de Deus era a pessoa mais odiada por mim. Ainda assim, ele me deu essas coisas e continuou a dar. Por isso, agora ele é a pessoa mais querida para mim.”

2. Aquele ou aqueles de cuja parte se teme uma atividade prejudicial. Espera-se que, dando-lhes o zakat, sua atividade prejudicial cesse. Ibn Abbas, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: Certo grupo de pessoas costumava ir ao Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele. Se ele lhes dava algo, elogiavam o Islã; se não lhes dava, censuravam-no e criticavam-no. Abu Sufyan ibn al-Harb, Aqra ibn Habis e Uyayna ibn Hisn pertenciam a esse grupo. O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, deu a cada um deles cem camelos.

A opinião dos hanafitas é que a categoria daqueles cujos corações devem ser conquistados foi abolida, pois Deus tornou Sua religião vitoriosa e poderosa. Uyayna ibn al-Hisn, Aqra ibn Habis e Abbas ibn Mirdas foram até Abu Bakr e pediram suas partes. Abu Bakr escreveu-lhes uma carta concedendo-lhes suas partes. Eles foram até Umar e lhe entregaram a carta, mas ele se recusou a dar-lhes e rasgou a carta. Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, dava-lhes isso para atraí-los ao Islã. Agora o Islã não depende de vocês. Portanto, se permanecerem firmes no Islã, tanto melhor; caso contrário, nós decidiremos entre vocês e nós pela espada. Em seguida, recitou este versículo:

وقُلِ الْحَقُّ مِنْ رَبِّكُمْ لكَ فَمَنْ شَاءَ فَلْيُؤْمِنْ وَمَنْ شَاءَ فَلْيَكْفُرْ.

“Ó Profeta! Dize: A verdade veio de vosso Senhor. Quem quiser, que creia; e quem quiser, que descreia.” (Surata Al-Kahf, versículo 29)

Depois, eles voltaram a Abu Bakr e lhe disseram: “O califa é você ou Umar? Você nos deu uma carta, e Umar a rasgou.” Abu Bakr respondeu: Se ele quis fazer isso, podia fazê-lo.

O argumento dos hanafitas é o seguinte: Abu Bakr aceitou a decisão de Umar. Nenhum outro companheiro contestou essa decisão, nem mesmo Uthman e Ali. Em resposta, diz-se que essa foi uma decisão resultante do ijtihad de Umar (juízo e opinião baseados na reflexão independente). Ele considerou que, depois de o Islã se estabelecer firmemente em suas tribos, já não havia necessidade de lhes dar nada. Mesmo que abandonassem o Islã e se tornassem apóstatas, não haveria receio de qualquer prejuízo. O fato de Uthman e Ali não terem concedido zakat dessa categoria não comprova a opinião hanafita de que a categoria dos que devem ter seus corações conquistados foi abolida. Eles podem ter deixado de conceder zakat dessa categoria porque, durante o governo de Uthman e Ali, não havia necessidade de conquistar os corações dos incrédulos. Isso não prova que a existência dessa categoria tenha se tornado desnecessária. Ela pode voltar a ser necessária durante o governo de algum governante. Acima de tudo, o melhor fundamento para apresentar provas são o Alcorão e a Sunna. Essas são duas fontes das quais não há possibilidade de se afastar em nenhuma circunstância. Ahmad e Muslim narraram, sob a autoridade de Anas, que tudo o que era pedido ao Mensageiro de Allah sob a condição de aceitar o Islã, ele concedia. Certa vez, um homem foi até ele e pediu algo. Então, ele lhe deu um grande número de cabras dentre as cabras da zakat que pastavam entre duas montanhas. O homem voltou para seu povo e disse: “Ó meu povo, aceitai o Islã, pois Muhammad dá com uma mão tão aberta que não considera sequer o receio de vir a ficar necessitado.”

Segundo al-Shawkani, é permitido dar zakat à categoria dos que devem ter seus corações conquistados. Essa opinião é defendida por Itra, Jibai, al-Balkhi, Ibn Mubashshir, Malik, Ahmad e, segundo uma narração, também por al-Shafi’i. Al-Shafi’i disse: não se deve conquistar o coração de nenhum incrédulo. Contudo, pode-se dar ao muçulmano pecador a partir da categoria dos que devem ter seus corações conquistados.

Abu Hanifa e seus discípulos dizem: essa categoria foi abolida pela expansão e pelas vitórias do Islã. Eles apresentam como prova a recusa de Abu Bakr em dar zakat a Abu Sufyan, Uyayna, al-Aqra e Abbas ibn Mirdas, em apoio à sua opinião.

Entretanto, a verdade incontestável é que, quando surgir necessidade, será permitido dar zakat à categoria dos que devem ter seus corações conquistados. Quando se constatar que um grupo ou comunidade não obedece ao governo islâmico senão por interesses mundanos, e que o governo não consegue submetê-los à obediência por nenhum meio além do uso da força, poderá conquistar seus corações com recursos da zakat. Nesse caso, a expansão do Islã não será um impedimento, pois, em uma situação desse tipo, a expansão do Islã não produz resultado.

No Tafsir al-Manar, afirma-se que, de modo geral, essa é a opinião correta. Quanto aos detalhes, o ijtihad deve limitar-se a determinar, conforme a utilidade, o montante da zakat a ser distribuído e, quando houver bens de interesse público, como os espólios de guerra, a determinar sua quantidade. Nesses casos, a decisão deve ser tomada de acordo com o conselho e a opinião do conselho de shura. Os califas também decidiam, após consulta, os assuntos sujeitos ao ijtihad. É necessário refletir sobre até que ponto é razoável impor como condição a incapacidade do governo de submeter pela força aqueles que não se deixam tornar obedientes, para que se lhes conceda zakat com o objetivo de conquistar seus corações. Isso porque essa condição nunca é permanente. Pelo contrário, o princípio fundamental nesse caso é dar prioridade à medida relativamente menos prejudicial e mais benéfica.

5. Libertação de escravos

Os escravos contratados também estão incluídos nessa categoria. Portanto, os recursos da zakat serão usados para ajudá-los a libertar-se da escravidão. Com esses recursos, os escravos serão libertados e tornados livres. Foi narrado por al-Bara, que Allah esteja satisfeito com ele: “Um homem foi até o Mensageiro de Allah e disse: indique-me uma ação que me aproxime do Paraíso e me afaste do Inferno. Ele disse: liberta escravos e elimina a servidão. O homem perguntou: ó Mensageiro de Allah, essas duas coisas não são a mesma? Ele respondeu: não. Libertar um escravo significa que tu libertes sozinho algum escravo. Eliminar a servidão significa que ajudes alguém a obter a liberdade pagando o preço de sua escravidão, isto é, o resgate.” — Ahmad e al-Daraqutni.

Foi narrado por Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah disse: “É dever de Allah ajudar três pessoas: aquele que combate no caminho de Allah; aquele que se empenha em reunir o resgate para obter a própria liberdade; e aquele que toma a iniciativa de se casar com o objetivo de preservar sua castidade.” Ahmad, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah. Al-Tirmidhi o classificou como autêntico e bom.

Ash-Shawkani disse: Há divergência quanto à interpretação da expressão corânica “libertação de escravos”. Ali ibn Abi Talib, Said ibn Jubayr, Al-Layth, At-Thawri, os Itra, os hanafitas, os shafiitas e a maioria dos sábios disseram: Refere-se aos mukatab, isto é, àqueles que celebraram um contrato para obter a liberdade mediante o pagamento de uma quantia determinada. Eles devem ser ajudados, com os recursos da zakat, a pagar a quantia estipulada e alcançar a liberdade. Ibn Abbas, Al-Hasan Al-Basri, Malik, Ahmad ibn Hanbal, Abu Thawr, Abu Ubayd, Ibn Al-Mundhir e Al-Bukhari disseram: Significa comprar escravos com o propósito de libertá-los. Eles também disseram: Se isso se referisse apenas aos mukatab, eles já estariam incluídos na categoria dos endividados, pois o mukatab é um devedor. Além disso, comprar um escravo para libertá-lo é preferível a ajudar um mukatab, pois, mesmo que o mukatab seja ajudado, ele pode não se tornar livre: enquanto restar sequer uma moeda a pagar, continuará sendo escravo. Ademais, comprar escravos é sempre possível, ao passo que tornar-se mukatab nem sempre é possível.

Az-Zuhri disse: Tanto os escravos quanto os mukatab estão incluídos nessa categoria. O autor da obra MuntAqā al-Akhbār indicou essa opinião. Esta é a interpretação mais clara, pois o versículo inclui ambos.

O hadith de Al-Bara também prova que ajudar alguém a alcançar a liberdade não é o mesmo que libertá-lo. Também se sabe pelo hadith que libertar escravos e ajudar um mukatab a reunir o valor estipulado para sua liberdade estão entre as ações que aproximam do Paraíso e afastam do Inferno.

6. Os endividados

Entre aqueles que estão sobrecarregados de dívidas e são incapazes de pagá-las há várias categorias: por exemplo, quem está obrigado a pagar uma multa, um preço de sangue ou qualquer outra dívida; quem se tornou fiador da dívida de alguém e, ao tentar pagá-la com seus próprios bens, corre o risco de perder todo o seu patrimônio, ou o perdeu e ainda assim não conseguiu quitá-la integralmente; quem contraiu uma dívida por necessidade; ou quem se arrependeu de um pecado e precisa contrair uma dívida para pagar sua expiação. Todas essas pessoas podem receber ajuda da zakat para quitar suas dívidas.

1. Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah e At-Tirmidhi narraram, de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Pedir ajuda só é lícito para três pessoas: aquele que está assolado por uma pobreza tão extrema que não possui nada além de um pedaço de terra sem vegetação; aquele que está desorientado por uma multa imposta coercivamente de forma injusta e sem qualquer compensação; e aquele que está ansioso para salvar, pagando o preço de sangue, um parente próximo ou amigo íntimo que matou alguém e será morto se o preço de sangue não for pago, algo que lhe causaria grande sofrimento.

2. Muslim narrou, de Abu Said Al-Khudri, que, durante a época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), um homem comprou alguns cereais e acabou enfrentando grandes dificuldades. Tornou-se extremamente endividado. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos muçulmanos: “Dai zakat e caridade a este homem.” As pessoas deram-lhe zakat e caridade, mas, mesmo assim, sua dívida não foi totalmente quitada. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos seus credores: “Ficai apenas com o que recebestes. Não recebereis mais nada além disso.” (Isto é, naquele momento, não tendes direito a receber dele mais do que aquilo que ele possui; e, enquanto permanecer necessitado, não podeis detê-lo. Portanto, este hadith não anulou o restante da dívida dos credores.)

3. Foi narrado por Qubaysah ibn Mukhariq, que disse: Eu assumi uma “humālah” (obrigação). Fui ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para perguntar-lhe a respeito. Ele disse: “Permanece aqui até que recebamos algum recurso da zakat e ordenemos que te seja dada uma parte dele.”
Os sábios disseram: “Humālah” é uma obrigação que uma pessoa assume e uma dívida

assume como uma responsabilidade pessoal. Ele a paga para resolver algum conflito. Quando surgia algum tumulto entre os árabes que exigia o pagamento de uma indenização de sangue ou de outra multa, e isso levava ao fim do referido conflito, alguém assumia essa responsabilidade. Não há dúvida de que isso é uma nobre qualidade de caráter. Quando as pessoas sabiam que alguém havia assumido uma ḥumālah, todos corriam para ajudá-lo e lhe davam o suficiente para que pudesse livrar-se daquela obrigação. Se aquele que assumira uma ḥumālah ou responsabilidade pedisse ajuda às pessoas para livrar-se dela, ninguém consideraria isso algo censurável; pelo contrário, seria motivo de orgulho. É permitido receber zakat para livrar-se desse tipo de responsabilidade. Nesse caso, a incapacidade financeira não é condição para receber zakat. Portanto, mesmo tendo capacidade financeira, é permitido recebê-lo.

7. No caminho de Alá

O caminho de Alá significa o caminho que conduz à satisfação de Alá, seja ele o conhecimento islâmico ou qualquer obra do Islã. Segundo a maioria dos sábios, isso se refere à luta em benefício do Islã. Os que partem voluntariamente para a guerra, mas não recebem do Estado nenhum salário regular, podem receber os fundos de zakat destinados a essa categoria. Sejam ricos ou pobres, eles têm direito a uma parte do zakat. Já foi narrado anteriormente o hadith do Mensageiro de Alá, no qual ele disse: “O zakat não é lícito para nenhum rico, exceto para cinco pessoas, entre elas aquele que luta no caminho de Alá…”

O hajj não é uma obra do caminho de Alá na qual se possa gastar o dinheiro do zakat, pois ele é obrigatório apenas para aqueles que possuem a suficiência financeira necessária, e não para qualquer outra pessoa.

No Tafsir al-Manar, foi dito: “Pode-se gastar dessa categoria para garantir a segurança do caminho de ida e volta do hajj e para fornecer água, alimentos e serviços de saúde aos peregrinos, quando não houver outra fonte da qual se possa despender.” A categoria “no caminho de Alá” inclui todas as atividades relacionadas aos interesses e ao bem-estar geral do Islã que constituem obras fundamentais do Islã e do Estado islâmico. Entre elas, as mais importantes são as atividades preparatórias para a guerra, como a compra de armas, o fornecimento de alimentos aos soldados, o transporte, a aquisição de equipamentos e a preparação dos combatentes para a luta. Contudo, os equipamentos fornecidos aos combatentes deverão ser devolvidos ao tesouro público após a guerra, se forem bens duráveis, como armas, cavalos e semelhantes. Isso porque tais coisas são usadas somente na guerra e, por isso, nenhum combatente se torna seu proprietário permanente. Ele as utiliza como combatente no caminho de Alá, e, mesmo após o fim da guerra, elas continuam pertencendo ao caminho de Alá. Ao contrário, o pobre, o funcionário do departamento do zakat, o endividado, aquele cuja aproximação se deseja e o viajante são exatamente o oposto. O que eles recebem jamais terá de ser devolvido, mesmo que sua pobreza desapareça, que deixem de trabalhar no departamento do zakat, que deixem de estar endividados, que cesse a necessidade de conquistar sua simpatia e que o viajante retorne à sua casa. Esta categoria é tão ampla que inclui a construção de hospitais militares e gerais, a construção e reparação de estradas, a construção de ferrovias militares, a construção de represas, a aquisição de aviões de guerra e a construção de fortalezas e trincheiras. A construção de ferrovias comerciais, porém, não está incluída nela.

Em nossa época, uma importante área de gasto no caminho de Alá é formar pregadores do Islã e enviá-los a países não muçulmanos. Instituições bem organizadas deverão enviá-los com dinheiro suficiente, assim como os não muçulmanos fazem para divulgar suas religiões. Também estão incluídos nessa categoria os gastos com instituições nas quais se oferecem educação islâmica e qualquer outro tipo de educação de interesse e benefício público. Nesse caso, enquanto os professores dessas instituições estiverem impossibilitados de obter renda por meio de outras profissões por estarem ocupados com o ensino, deverão receber salários e benefícios dessa categoria. Contudo, nenhum sábio rico deverá receber por transmitir seu conhecimento, ainda que as pessoas se beneficiem de seu conhecimento.

8. O viajante

Os sábios afirmaram por consenso: pode-se dar, do zakat, uma ajuda ao viajante que se separou de sua região, suficiente para auxiliá-lo a alcançar o objetivo de sua viagem, quando não lhe for possível ter acesso aos seus próprios bens. Isso porque, em tal situação, ele se torna temporariamente pobre. A condição, porém, é que sua viagem tenha como objetivo uma boa ação; no mínimo, não deve ter como objetivo um pecado. Há divergência quanto à viagem permitida. Segundo a opinião de al-Shafi‘i, a melhor opinião é que, mesmo se ele viajar apenas por entretenimento, poderá receber zakat.

Segundo os shafiitas, há dois tipos de viajantes:

1. Aquele que sai de sua área de residência, mesmo permanecendo no próprio país.

2. Aquele que viaja para o exterior, atravessando as fronteiras de sua pátria.

Ambos têm direito a receber o zakat, mesmo que haja alguém disposto a lhe emprestar uma quantia suficiente para atender às suas necessidades e ele possua, em sua terra natal, bens com os quais possa quitar esse empréstimo. Segundo o Imam Malik e Ahmad, somente o viajante que saiu de sua terra natal para o exterior pode receber zakat; não aquele que viaja de um lugar para outro dentro do próprio país. Se no exterior houver alguém que possa lhe conceder um empréstimo e ele possuir, em sua terra natal, bens com os quais possa quitá-lo, não se deve dar zakat a essa pessoa. Porém, se não encontrar quem lhe empreste ou não tiver condições de quitar o empréstimo, pode-se dar-lhe zakat.

Dar zakat a alguns ou a todos os seus beneficiários. Os oito grupos de beneficiários do zakat mencionados no versículo são: os pobres, os necessitados, os funcionários encarregados do zakat, aqueles cujos corações se deseja conquistar, a libertação de escravos e escravas, os endividados, os viajantes e os combatentes no caminho de Allah. Há divergência entre os juristas quanto à distribuição do zakat entre eles. Segundo o Imam Shafi’i e seus discípulos, quando o próprio proprietário ou seu representante distribui o zakat, a categoria dos funcionários do zakat deixa de existir; e, se as sete categorias restantes estiverem presentes, o zakat deve ser distribuído entre elas. Caso contrário, deve ser dado às categorias que estiverem presentes. Não é permitido excluir uma categoria quando houver pessoas pertencentes a ela. Se ela for excluída, o proprietário continuará responsável por entregar-lhe sua parte. Ibrahim al-Nakha’i disse: se os bens do zakat forem abundantes, devem ser divididos entre todas as categorias; se forem poucos, podem ser entregues a apenas uma categoria. Ahmad ibn Hanbal disse: é preferível distribuí-los entre todas as categorias, mas o zakat será válido mesmo que seja dado a apenas uma. O Imam Malik disse: deve-se investigar qual categoria tem maior necessidade. Deve-se dar prioridade, sucessivamente, aos que mais necessitam, conforme o grau de pobreza e a intensidade da carência. Se, em determinado ano, a necessidade dos pobres for maior, deve-se dar-lhes prioridade naquele ano; se, em outro ano, a necessidade dos viajantes for maior, deve-se dar-lhes prioridade nesse ano. Os hanafitas e Sufyan al-Thawri disseram: o pagador do zakat pode dá-lo a qualquer categoria. Essa também é a opinião de Hudhayfah, Ibn Abbas, al-Hasan al-Basri e Ata ibn Abi Rabah. Abu Hanifah disse que todo o zakat pode ser dado a uma única pessoa pertencente a qualquer uma das categorias.

A razão da divergência: Ibn Rushd disse que a razão da divergência entre os estudiosos está na diferença de interpretação do significado literal e do significado implícito. Do ponto de vista literal, o versículo exige que o zakat seja distribuído entre todas as categorias. Por outro lado, seu significado implícito exige que se dê prioridade aos que têm maior necessidade, pois o objetivo do zakat é eliminar a pobreza e a carência. Considerando esse aspecto, a menção, no versículo, de oito categorias distintas significa que elas devem ser identificadas separadamente, e não que todas devam participar simultaneamente do zakat. A primeira opinião é mais clara no sentido literal, enquanto a segunda é mais clara quanto ao significado.

A prova em favor da opinião do Imam Shafi’i é um hadith narrado por Sa’di em Abu Dawud: “Um homem pediu zakat ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-lhe: Allah, o Altíssimo, não quis que nenhum profeta ou outra pessoa decidisse sobre o zakat. Por isso, Ele mesmo decidiu a respeito e o distribuiu em sete categorias. Se você estiver incluído em alguma dessas categorias, eu lhe darei o que lhe é devido.”

A preferência da opinião da maioria sobre a opinião de Shafi’i: No livro ar-Rawdah an-Nadiyyah, foi dito: a distribuição de todo o zakat a uma única categoria mostra-se uma medida mais apropriada à luz da análise dos textos relativos ao zakat. Em suma, Allah, o Altíssimo, vinculou o zakat às oito categorias mencionadas e o destinou a elas. Não é permitido dar zakat a ninguém fora dessas categorias. Destiná-lo a essas oito categorias não significa que o zakat deva ser distribuído igualmente entre todas elas. Também não significa que, seja o zakat pouco ou muito, algo deva ser dado a cada uma delas. Pelo contrário, significa que, em termos gerais, o zakat se destina a essas categorias. Quem estiver obrigado a pagar qualquer tipo de zakat cumprirá a ordem de Allah e se livrará da responsabilidade imposta por Ele ao dá-lo a qualquer uma dessas categorias. Se se disser que, quando o proprietário de bens passa a possuir riqueza sujeita ao zakat, é obrigatório distribuí-la entre todas as oito categorias, caso todas estejam presentes, isso será, por um lado, extremamente difícil e impraticável e, por outro, completamente contrário à prática seguida anteriormente por todos os muçulmanos. Quando distribuído entre todas as categorias, o que cada uma recebe pode, às vezes, ser tão insignificante que ninguém de uma determinada categoria consiga beneficiar-se disso. Se forem várias categorias, beneficiar-se será ainda mais difícil. Assim, ficou claro que o fato de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ter ordenado a Salamah ibn Sakhr que tomasse o zakat de toda a tribo de Banu Zirbiq e o utilizasse para sua expiação não prova que fosse obrigatório dar uma parte a todos. Além disso, não se encontra em lugar algum qualquer declaração de que cada tipo de zakat deva ser distribuído entre todas as categorias. Tampouco é possível usar como prova dessa opinião o hadith em que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a Mu’adh que recolhesse o zakat dos ricos do Iêmen e o distribuísse entre os pobres deles. Isso porque também se tratava do zakat de um grupo de muçulmanos, distribuído, de modo geral, entre as oito categorias. O hadith de Ziyad ibn al-Harith as-Sa’di é semelhante. Ao mencionar o hadith acima, ele disse: sua cadeia de transmissão inclui Abd ar-Rahman Ziyad al-Afriqi, a respeito de quem várias pessoas fizeram diferentes comentários. Mesmo que se admita que esse hadith seja apto a servir como prova, ainda assim dividir o zakat significa dividir as categorias de sua aplicação; e esse é exatamente o sentido claro do versículo da Surata at-Tawbah. Foi a esse versículo que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez referência (isto é, ao versículo que menciona as oito categorias de aplicação do zakat). Se esse hadith significasse que o zakat deve ser dividido e que nenhuma parte dele poderia ser aplicada senão em uma categoria específica, então não seria permitido aplicar em outra categoria o zakat de uma categoria na qual não houvesse pessoas. Isso, porém, contraria o consenso dos muçulmanos. Além disso, mesmo que se aceite tal interpretação, ela seria considerada em relação ao total do zakat recolhido pelo governo, e não ao zakat de cada categoria individualmente. Portanto, não há prova que estabeleça a obrigatoriedade de distribuir o zakat separadamente em cada categoria. Pelo contrário, é permitido dar uma parte do zakat a algumas categorias e outra parte a outras. Entretanto, quando o governo de um país reúne todo o zakat daquele país e há pessoas de todas as oito categorias solicitando-o, as pessoas de cada categoria terão direito à parte estabelecida por Allah. Não será obrigatório ao governo distribuir quantidades iguais entre todas as categorias, nem será necessário dar algo a cada uma delas. Ao contrário, o governo poderá dar a uma categoria mais do que a outra e até mesmo excluir completamente uma categoria e distribuir o zakat entre outras, se considerar que nisso há benefício para o Islã e para os muçulmanos.

Por exemplo, a zakat foi arrecadada pelo governo e, de repente, começou uma jihad, tornando-se indispensável proteger o Islã dos ataques dos kafires e dos rebeldes. Nessa situação, é permitido gastar com os que participam da jihad e dar-lhes prioridade, mesmo que se torne inevitável gastar toda a zakat exclusivamente nessa categoria. Do mesmo modo, quando, por razões de maior interesse público, se torna indispensável dar prioridade a alguma categoria que não seja a dos combatentes da jihad, será permitido gastar nessa categoria. Esta é a opinião mais preponderante.

48. Aqueles a quem não é lícito dar ou de quem não é lícito receber zakat

Até aqui, apresentamos as categorias destinadas à distribuição da zakat e os que têm direito a recebê-la. Resta apresentar as categorias para as quais não é lícito receber zakat e que não têm direito a recebê-la. São elas:

1. Kafires e ateus. Os juristas são unânimes quanto a isso, pois foi dito num hadith: “A zakat será arrecadada dos ricos dentre eles e distribuída entre os pobres dentre eles.” Esse hadith refere-se aos ricos e pobres muçulmanos, e não aos ricos e pobres de outra religião. Ibn al-Munir disse que todos os sábios de que se recorda são unânimes em afirmar que não se pode dar nenhuma parte da zakat aos não muçulmanos. Contudo, como já mencionei, aqueles não muçulmanos cuja afeição se deseja conquistar são uma exceção. Também é permitido dar-lhes caridade voluntária, além da zakat, pois Allah disse:

ويُطْعِمُونَ الطَّعَامَ عَلَى حَيْهِ مِسْكِينَا وَيَتِيماً وأسيرًا .

“E alimentam, por amor a Allah, o necessitado, o órfão e o cativo.” (Surata Ad-Dahr: versículo 8)

Em outro hadith, foi dito: “Trata bem a tua mãe.” No entanto, a mãe dele era idólatra.

2. Banu Hashim

Com isso se pretende referir aos descendentes de Ali, Aqil, Ja‘far, Abbas e Harith. Ibn Qudamah disse: Não temos conhecimento de qualquer divergência quanto à proibição da zakat para os Banu Hashim.

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A zakat não é apropriada para os descendentes de Muhammad. A zakat é a impureza ou o resíduo das pessoas.” Foi narrado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, no Sahih Muslim: “Al-Hasan pegou uma tâmara da zakat. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse imediatamente: ‘Deixe-a, deixe-a. Você não sabe que nós não comemos zakat nem sadaqah?’” — Bukhari e Muslim. Há divergência entre os sábios acerca dos Banu al-Muttalib. Segundo al-Shafi‘i, assim como no caso dos Banu Hashim, eles também não podem receber zakat dos bens cuja parte correspondente é entregue diretamente como zakat, tais como os produtos agrícolas, os animais e os minerais. Al-Shafi‘i, Ahmad e Bukhari narraram de Jubayr ibn Mut‘im: No dia da batalha de Khaybar, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, distribuiu a parte destinada aos parentes entre os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib, mas não a deu aos Banu Nawfal nem aos Banu Abd Shams. Então eu e Uthman ibn Affan fomos até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e dissemos: “Ó Mensageiro! Não negamos a posição honrosa dos Banu Hashim, que eles alcançaram devido à sua presença entre eles; mas qual é a diferença entre nós e nossos irmãos, os Banu Abd al-Muttalib? Você deu a eles e nos excluiu, embora os parentes de ambos os nossos clãs sejam os mesmos.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não há diferença entre nós e os Banu al-Muttalib, nem no Islam nem na época da ignorância. Nós e eles somos um só.” Ao dizer isso, ele entrelaçou os dedos de uma mão com os da outra.

Ibn Hazm disse: Disso se entende que, juridicamente, não é permitido fazer distinção entre os Banu al-Muttalib e os Banu Hashim. Isso está comprovado pela declaração explícita do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Portanto, os Banu al-Muttalib são descendentes do próprio Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. E, sendo eles descendentes de Muhammad, isso lhes é proibido.

Segundo Abu Hanifah, os Banu al-Muttalib podem receber zakat. De Ahmad foram transmitidas duas opiniões, uma a favor e outra contra essa posição. Assim como o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proibiu a zakat aos Banu Hashim, também a proibiu aos seus escravos libertos e escravas libertas.

Abu Rafi‘, escravo liberto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou um homem dos Banu Makhzum para recolher a zakat. Abu Rafi‘ disse-lhe: “Leve-me com você, para que eu receba uma parte da zakat.” O coletor respondeu que não faria isso até comparecer diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e lhe perguntar sobre o assunto. Então foi até o Mensageiro de Allah e perguntou. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A zakat não é lícita para nós. E os escravos libertos de qualquer clã fazem parte desse mesmo clã.” — Ahmad, Abu Dawud e al-Tirmidhi.

Há divergência entre os sábios quanto à sadaqah voluntária: ela é lícita ou proibida para os Banu Hashim?

Al-Shawkani resumiu as opiniões a esse respeito e disse: É evidente, a partir da declaração do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, “a sadaqah não é lícita para nós”, que toda sadaqah, obrigatória ou voluntária, é proibida. Muitos, entre eles al-Khattabi, disseram: Por consenso, toda sadaqah é proibida ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele também disse que várias pessoas citaram de al-Shafi‘i uma opinião diferente acerca da sadaqah voluntária; de modo semelhante, foi transmitida uma opinião de Ahmad. Ibn Qudamah disse: O que foi citado de Ahmad não é claro. Contudo, segundo a maioria dos hanafitas, também segundo os hanbalitas e muitos zaiditas, é permitido aos descendentes do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, receber sadaqah voluntária, mas não zakat. Isso porque o que lhes é proibido é a impureza das pessoas, e esta é a zakat, não a sadaqah voluntária. Segundo a transmissão autêntica, essa também é a opinião dos shafi‘itas. No livro Al-Bahr, afirma-se: A sadaqah voluntária foi distinguida por se assemelhar a doações, presentes e legados. Abu Yusuf e Abu al-Abbas disseram: Assim como a sadaqah obrigatória, a sadaqah voluntária também é proibida para eles, pois o hadith a esse respeito não faz distinção entre esses dois tipos de sadaqah. Esta é a opinião preponderante.

3–4. O pai e os filhos

Os juristas concordam que não é permitido dar zakat à mãe, ao pai, ao avô, à avó, ao filho, ao neto, à filha nem aos filhos da filha. Isso porque é obrigação de quem paga zakat sustentar seus ascendentes e descendentes. Mesmo que sejam pobres, como ele é rico, eles também são considerados ricos por causa dele. Portanto, quando lhes é dado zakat, ele próprio se beneficia, o que prejudica a responsabilidade de sustento que lhe cabe.

O imame Malik excluiu os avôs, as avós e os netos e netas. Ele permitiu dar-lhes zakat para eximir-se da responsabilidade de sustentá-los. Naturalmente, isso se aplica quando são pobres. Se forem ricos e participarem da guerra como soldados voluntários, pode-se dar-lhes zakat da categoria “no caminho de Allah”. Do mesmo modo, se estiverem endividados, pode-se dar-lhes zakat da categoria dos endividados, pois ele não é obrigado a pagar suas dívidas. Da mesma forma, se forem funcionários do departamento de zakat, também se pode dar-lhes zakat dessa categoria. Segundo Ibn Taymiyya, é permitido dar zakat aos pais quando a pessoa é incapaz de sustentá-los e eles necessitam de zakat.

5. A esposa

Ibn al-Mundhir disse: os sábios concordam que o marido não pode dar zakat à esposa, pois a responsabilidade de sustentá-la recai sobre ele. Assim, como os pais, ela não necessita de zakat, pois o marido é obrigado a fornecer à esposa tudo de que ela necessita para seu sustento, assim como os filhos são obrigados a fornecer isso aos pais. Contudo, se a esposa estiver endividada, ele pode dar-lhe zakat da categoria dos endividados, para que ela possa quitar sua dívida.

6. Gastar o dinheiro do zakat em obras que aproximam de Allah

Além das oito categorias de beneficiários do zakat mencionadas no versículo da surata At-Tawbah, não é permitido gastar o dinheiro do zakat em qualquer outra obra por meio da qual se busque aproximar-se de Allah. Portanto, não se pode dar zakat para reconstruir mesquitas, reparar estradas, aumentar a capacidade de receber hóspedes, realizar os funerais dos mortos e atividades semelhantes.

Abu Dawud disse: Ouvi que Ahmad foi questionado: Pode-se providenciar a mortalha dos mortos com o zakat? Ele respondeu que não. Do mesmo modo, não se pode pagar com o zakat a dívida de uma pessoa morta. (Isso porque o endividado está morto; nada pode ser dado a ele. E, se for dado ao credor, será dado ao credor, não ao endividado.) Com o zakat, pode-se pagar a dívida de uma pessoa viva, não a de uma pessoa morta, pois uma pessoa morta não pode ser considerada endividada. Perguntaram: Então, pode-se dar à família dela? Ahmad respondeu: Se a família dela tiver uma dívida, pode-se dar.

49. Quem será responsável pela arrecadação e distribuição do zakat?

O Mensageiro de Allah enviava representantes para arrecadar a zakat e distribuí-la entre os que dela eram elegíveis. Abu Bakr e Umar, que Allah esteja satisfeito com ambos, também enviavam representantes.

A zakat deve ser paga pelo valor dos bens avaliados, como mercadorias comerciais, ouro, prata e riquezas enterradas; não há diferença entre esses dois tipos de bens. Depois, quando Uthman se tornou califa, ele também continuou assim por algum tempo. Mas, quando viu que os bens sujeitos à avaliação aumentavam continuamente e considerou que seguir esse procedimento era excessivamente difícil para os muçulmanos e que sua verificação prejudicava os proprietários, atribuiu aos próprios donos dos bens a responsabilidade de pagar a zakat.

Os juristas concordaram que, quando a zakat for paga sobre bens sujeitos à avaliação, os proprietários dos bens deverão providenciar eles mesmos o pagamento da zakat. Saib ibn Yazid disse: Ouvi Uthman ibn Affan discursar de pé no púlpito do Mensageiro de Allah: “Este é o mês de pagardes a zakat. Se algum de vós tiver uma dívida, que a pague, para que vossos bens fiquem livres de dívidas e possais pagar a zakat deles.” — Bayhaqi.

An-Nawawi disse: Esta é uma opinião consensual. Nossos imames mencionaram que há consenso sobre isso. Embora os próprios proprietários tenham o direito de pagar a zakat dos bens sujeitos à avaliação, permanece a questão: é melhor que eles mesmos o façam ou que a entreguem ao governo, para que este a distribua? Segundo os shafiitas, se o governo for justo, é melhor entregá-la a ele. Segundo os hambalitas, é melhor que o proprietário a distribua por iniciativa própria. Contudo, também será válido confiá-la ao governo. Quanto aos bens cuja zakat é paga diretamente com uma parte deles, segundo os malיקitas e hanafitas, o direito de arrecadar e distribuir sua zakat pertence ao governo e a seus representantes. Já segundo os shafiitas e hambalitas, o método de arrecadação e distribuição da zakat é o mesmo e uniforme para ambos os tipos de bens.

50. Entrega para a distribuição da zakat

Quando o governante dos muçulmanos segue os princípios islâmicos, é válido entregar-lhe a zakat, seja ele justo ou opressor. O proprietário ficará livre de sua responsabilidade ao entregá-la a ele. Porém, se ficar evidente que o governo não distribui a zakat às pessoas ou categorias apropriadas, é melhor que o proprietário a distribua por conta própria nas categorias apropriadas. A situação é diferente se o governo ou um funcionário público a exigir e a recolher. Ao dar a zakat a uma pessoa pobre, não é necessário dizer: “Isto é a zakat que estou dando”. Basta entregá-la, quer o pagador a dê diretamente, quer por intermédio do governo.

1. Anas disse: Um homem dos Banu Tamim foi até o Mensageiro de Allah e disse: Ó Mensageiro de Allah! Quando eu entregar a zakat ao teu representante, isso será suficiente para mim? O Mensageiro de Allah respondeu: Sim. Quando entregares a zakat ao meu representante, estarás livre de tua responsabilidade e receberás a recompensa por ela. E quem fizer qualquer alteração nela carregará o pecado disso. — Ahmad.

2. Foi narrado por Ibn Masud que o Mensageiro de Allah disse: Depois de mim surgirão egoísmo e muitas coisas que vos serão desconhecidas e detestáveis. As pessoas perguntaram: Ó Mensageiro de Allah, o que nos ordenas que façamos? Ele respondeu:

Dai-lhes aquilo que vos é devido, e pedi a Allah aquilo que vos é devido.” — Bukhari e Muslim.

3. Wa’il ibn Hujr disse: Um homem perguntou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Você já

pensou no que faremos se algum dia forem designados para nos governar dirigentes que exigirão apenas aquilo que lhes é devido e reterão aquilo que nos é devido?” Ele respondeu: “Ouvi-los-eis e obedecer-lhes-eis, pois eles serão responsáveis por suas ações, e vós sereis responsáveis por vossas ações.” — Muslim. Al-Shawkani disse: “Segundo a maioria dos sábios, estes hadiths provam a legitimidade de entregar o zakat até mesmo a governantes injustos e que, nesse caso, o zakat é considerado cumprido. Contudo, isso se aplica aos governantes muçulmanos de países muçulmanos. Quanto à possibilidade de entregar o zakat aos governos modernos existentes, o xeique Rashid Rida disse:

“Na época atual, a maioria dos países não possui um governo islâmico que convide as pessoas ao Islam, implemente as normas islâmicas, combata a propaganda anti-islâmica, faça jihad em defesa do Islam e dos muçulmanos — o que, conforme as circunstâncias, é fard ‘ayn (uma obrigação individual, imposta a cada pessoa) ou fard kifaya (uma obrigação coletiva, cumprida em nome de todos quando alguns a realizam) —, aplique as normas de paz do Islam, arrecade o zakat prescrito por Allah e o gaste em suas categorias determinadas. Pelo contrário, a maioria dos países muçulmanos caiu sob o domínio de países imperialistas. Em alguns deles há governantes muçulmanos que os estrangeiros utilizam como marionetes para submeter o povo às correntes da escravidão em nome do Islam. Utilizam-nos até mesmo para prejudicar o Islam, e esses governantes, valendo-se de sua influência, poder e riqueza, exercem autoridade arbitrária sobre atividades religiosas como o zakat, a caridade e o waqf. Não é permitido entregar sequer um centavo do zakat a governos desse tipo, qualquer que seja o título ou a religião do presidente desses Estados. Além disso, nos países muçulmanos cujos governantes obedecem ao Islam e nos quais os estrangeiros não exercem autoridade sobre o tesouro dos muçulmanos, passando por cima dos governantes, é obrigatório entregar diretamente ao governo o zakat que lhe é entregue diretamente (como o zakat sobre cereais, frutos e animais). Do mesmo modo, se o governo o exigir, é obrigatório entregar-lhe o zakat sobre ouro e prata. Segundo os juristas, nesses países é permitido entregar o zakat aos governantes, mesmo que em alguns casos sejam autocráticos e opressores.”

51. É recomendável entregar o zakat às pessoas virtuosas

Se um muçulmano estiver incluído em uma das oito categorias determinadas e for elegível para recebê-lo, deve-se entregar o zakat a ele, seja uma pessoa virtuosa ou um fasiq, isto é, uma pessoa ímpia (chama-se fasiq aquele que comete pecados maiores ou persiste em pecados menores). Contudo, quando se souber com certeza que, por meio desse zakat, ele obterá condições de cometer algum ato ilícito, não se deve entregá-lo a ele, para que não adquira a capacidade de praticar o ilícito. Mas, quando nada se souber a esse respeito e se souber que ele se beneficiará disso, então pode-se entregá-lo. É preferível que aquele que entrega o zakat escolha, para recebê-lo, um sábio virtuoso, beneficente e dotado de qualidades humanas.

Foi narrado por Abu Sa‘id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O exemplo do crente e da fé é como o de um cavalo amarrado a uma estaca. Por mais que ele circule ao redor dela, acaba retornando à estaca. (Isto é, o servo se afasta da fé ao abandonar as boas ações exigidas pela fé. Mesmo arrependendo-se de tê-las abandonado, ele retorna à fé, decidido a não abandoná-las novamente no futuro, assim como o cavalo retorna à sua estaca.) O crente às vezes comete um erro, mas retorna à fé. Portanto, alimentai os crentes tementes a Allah e virtuosos.” — Ahmad.

Ibn Taymiyya disse: “Se a pessoa necessitada de auxílio não realiza a oração, nada deve ser dado a ela até que se arrependa e passe a observar regularmente a oração.” A opinião de Ibn Taymiyya é correta, pois abandonar a oração é um pecado gravíssimo; não pode ser permitido prestar qualquer auxílio àquele que está envolvido em um pecado tão grave até que se arrependa.

Aqueles que se ocupam de atividades fúteis e sem sentido, pessoas imprudentes que não se abstêm de más ações, não se refreiam de nenhum desvio, cuja consciência foi destruída, cuja natureza foi corrompida e cujos bons sentimentos e impulsos para o mal se tornaram inativos, também serão considerados inelegíveis para receber zakat, assim como aqueles que não rezam — a menos que isso possa atraí-los para o caminho reto, incentivá-los à purificação espiritual e reavivar neles o fervor religioso e a motivação para praticar boas ações.

52. É proibido ao pagador de zakat comprar os bens que deu como zakat

O Mensageiro de Allah proibiu o pagador de zakat de comprar aquilo que havia dado como zakat pela causa de Allah, assim como proibiu os emigrantes, depois de deixarem Meca por meio da hijra, de retornar para lá. Foi narrado por Abdullah ibn Umar: Umar deu a um homem um cavalo para combater pela causa de Allah. Mais tarde, viu que aquele cavalo estava sendo vendido e decidiu comprá-lo. Ao perguntar ao Mensageiro de Allah, este lhe disse: “Não o compres e não recuperes a caridade que ofereceste.” — Bukhari, Muslim, Abu Dawud e Nasa’i.

An-Nawawi disse: essa proibição não indica que seja haram, mas sim makruh. Portanto, se alguém deu algo a outra pessoa como zakat ou sadaqa, ou como expiação, voto ou outra doação voluntária semelhante, é makruh, isto é, indesejável, comprá-lo daquele a quem o deu. Não é apropriado voltar voluntariamente a ser proprietário desse bem, seja comprando-o ou por qualquer outro meio. Contudo, se vier a possuí-lo por herança, isso não será makruh. Ibn Battal disse: à luz desse hadith de Umar, a maioria dos sábios considera indesejável que alguém compre a caridade que ele próprio deu. Entretanto, Ibn al-Mundhir disse: Hasan, Ikrima, Rabi‘a e al-Awza‘i permitiram comprar os bens dados como caridade. Ibn Hazm deu preferência a essa opinião. Ele apresentou como prova o hadith de Abu Sa‘id al-Khudri, no qual o Mensageiro de Allah disse: “O zakat não é lícito para nenhum rico, exceto para cinco pessoas: o combatente pela causa de Allah, o funcionário do zakat, o endividado, aquele que compra com seu próprio dinheiro os bens dados como zakat ou caridade, e aquele que tinha um vizinho pobre, deu zakat a esse pobre e, depois, o pobre ofereceu ao rico, como presente, aqueles bens do zakat.” Se ele o entregar como zakat, o zakat será válido, quer o receba ou não. Porém, se alguém der zakat sob a condição de que o recebedor o devolva como pagamento de uma dívida, o zakat não será válido e, por consenso, não ficará isento da obrigação do zakat; igualmente, por consenso, a dívida não será quitada. Se ambos tiverem essa intenção, mas nenhuma condição for imposta, isso será permitido por consenso e o zakat será válido. E, se o recebedor o devolver como pagamento da dívida, o devedor ficará quite.

55. A transferência do zakat

Os juristas são unânimes em considerar permitida a transferência do zakat de uma cidade para outra, para os que têm direito a recebê-lo, quando não houver entre os habitantes da cidade do pagador ninguém necessitado dele. Porém, se os membros da tribo ou os habitantes da cidade do pagador estiverem necessitados, muitos hadiths afirmam de modo inequívoco que o zakat de cada cidade deve ser distribuído entre os pobres daquela cidade e não pode ser enviado para outra. Isso porque o objetivo do zakat é eliminar a pobreza dos pobres de cada cidade. Se, apesar da existência de pobres numa cidade, fosse permitida a transferência do zakat dessa cidade para outra, isso equivaleria a deixar os pobres daquela cidade à mercê das garras da pobreza. Já foi mencionado anteriormente no hadith de Mu‘adh: “Informa-lhes que Allah lhes impôs o dever de dar zakat, que será cobrado dos ricos entre eles e distribuído entre os pobres entre eles.”

Abu Juhaifa disse: “O coletor de zakat do Mensageiro de Allah veio até nós. Ele recolheu o zakat dos ricos e o distribuiu entre os pobres. Eu era um jovem órfão, e ele me deu uma camela jovem.” — Tirmidhi. Também foi narrado por Imran ibn Husain que ele foi nomeado funcionário encarregado de recolher o zakat. Quando voltou, perguntaram-lhe: “Onde estão os bens recolhidos?” Ele respondeu: “Por acaso fui enviado para recolher esses bens? Recolhi-os exatamente dos lugares onde os recolhíamos no tempo do Mensageiro de Allah e distribuí-os exatamente onde os distribuíamos.” — Abu Dawud e Ibn Majah. Tawus disse: “Na carta de Mu‘adh estava escrito: quando alguém se mudar de uma cidade para outra, seu zakat e seu ushr serão distribuídos na cidade onde vivem seus familiares.” — Sunan al-Athram.

Com base nesses hadiths, os juristas demonstraram que o zakat de cada cidade deve ser distribuído entre os pobres daquela cidade. Contudo, como já foi mencionado, se os habitantes da cidade do pagador não precisarem do zakat, será permitido transferi-lo para pessoas qualificadas de outra cidade. Os juristas concordam quanto a isso. Os hanafitas, porém, disseram: transferir o zakat para outra cidade é makruh. Se houver parentes pobres em outra cidade, não será makruh dá-lo a eles, pois isso honrará os parentes. Além disso, se em outra cidade houver um grupo mais necessitado que os habitantes da cidade do pagador, ou se a transferência para outra cidade trouxer maior benefício aos muçulmanos, ela também não será makruh. Do mesmo modo, não será makruh transferi-lo de um país não muçulmano para um país muçulmano, para estudantes e interessados nos conhecimentos islâmicos, ou enviá-lo antecipadamente antes do fim do ano.

Segundo os shafiítas, só é permitido enviar o zakat para outra cidade quando não houver, na cidade onde ele se tornou obrigatório, pessoas elegíveis para recebê-lo. Se houver, ele deverá ser distribuído ali, não sendo permitido enviá-lo para outra cidade. Isso porque foi narrado por Amr ibn Shuayb: desde que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, enviou Muaz ibn Jabal, este permaneceu com os soldados até a morte do Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. Depois, foi ter com Umar. Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, enviou-o de volta à sua antiga função. Então Muaz enviou a Umar o zakat arrecadado do povo. Umar manifestou desagrado e disse: “Não te enviei para arrecadar zakat, sadaqa e jizya. Enviei-te apenas para arrecadar o zakat dos ricos e distribuí-lo entre os pobres.” Muaz respondeu: “Enviei-o a ti somente porque não encontrei ninguém que pudesse receber o zakat de mim.” No ano seguinte, Muaz enviou a Umar uma quantidade maior de zakat. Ainda assim, houve entre os dois a mesma troca de palavras. No terceiro ano, Muaz enviou novamente a Umar todo o zakat. Umar reagiu outra vez como antes. Muaz disse: “Não encontrei ninguém que pudesse receber o zakat.” Abu Ubayd disse que o imã Malik afirmou: não é permitido enviar o zakat para uma cidade, a menos que haja necessidade nela. Em tal situação, o governo deverá enviá-lo para lá após avaliar a questão. Segundo os hambalitas, o zakat de uma cidade não pode ser enviado para uma distância que exija encurtar as orações durante a viagem. Ele deve ser distribuído na cidade onde se tornou obrigatório ou nas proximidades, a uma distância inferior à que permite encurtar as orações.

Abu Dawud disse: Ahmad foi questionado sobre o envio do zakat de uma cidade para outra. Ele respondeu: “Não é permitido enviá-lo.” Perguntaram-lhe: “E se nessa outra cidade houver parentes do contribuinte do zakat?” Ele respondeu: “Não; porém, se os pobres de sua própria cidade não tiverem necessidade dele, será permitido transferi-lo.” Como prova disso, foi citado o hadith de Abu Ubayd mencionado anteriormente.

Ibn Qudama disse: se alguém contrariar esta opinião e enviar o zakat para outra cidade, segundo a maioria dos sábios o zakat será considerado cumprido. Se o contribuinte estiver em uma cidade e seus bens estiverem em outra, será considerada a cidade onde os bens se encontram. Isso porque os bens são a causa da obrigatoriedade do zakat, e é para esse local que se dirige a atenção dos beneficiários. Se parte dos bens estiver na cidade onde ele reside e o restante em outra cidade, deverá distribuir todo o zakat na cidade onde reside. Esta é a norma relativa ao zakat. Quanto à fitra, ela deverá ser distribuída no local onde se tornou obrigatória, esteja ou não ali o patrimônio da pessoa.

56. Quando ocorre um erro na distribuição do zakat

Já foi apresentado anteriormente quem tem direito ao zakat e para quem ele é proibido. Mas, se o contribuinte, por engano, entregá-lo a alguém para quem é proibido e, por ignorância, deixar de entregá-lo a quem tem direito, e depois perceber seu erro, seu zakat será considerado cumprido ou permanecerá como uma dívida sobre ele, devendo entregar novamente o zakat à categoria apropriada? Há divergência entre os juristas quanto a essa questão.

Segundo Abu Hanifa, Muhammad, Hasan e Abu Ubayd, seu zakat será considerado cumprido, não sendo necessário que ele o entregue novamente.

Ma’n ibn Yazid disse: meu pai saiu com alguns dinares, com a intenção de entregá-los como sadaqa, e os colocou junto a um homem na mesquita. Eu vim, peguei aqueles dinares e os levei ao meu pai. Ele disse: “Eu não pretendia dá-los a ti.” Levei a questão, como litigante, ao Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Yazid, receberás de acordo com aquilo que intencionaste. E, ó Ma’n, aquilo que recebeste continuará sendo teu.” — Ahmad e al-Bukhari.

Embora exista a possibilidade de a sadaqa mencionada neste hadith ser voluntária, a palavra “o que” nele tem um sentido abrangente. Portanto, seja ela voluntária ou obrigatória, a regra será a mesma.

Como prova disso, é mencionado outro hadith de Abu Huraira. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Um homem dos Filhos de Israel jurou: ‘Esta noite certamente darei alguma caridade.’ Então saiu levando sua caridade. Sem saber, acabou dando-a a um ladrão. As pessoas começaram a dizer: ‘Esta noite, um ladrão recebeu caridade.’ Então o homem disse: ‘Ó Allah, louvado sejas!’ Mais uma vez jurou: ‘Esta noite certamente darei alguma caridade.’ Então saiu levando a caridade. Dessa vez, sem saber, acabou dando-a a uma mulher adúltera. Novamente, as pessoas começaram a dizer: ‘Esta noite, uma mulher adúltera recebeu caridade.’ O homem disse: ‘Ó Allah, todo louvor é Teu, embora eu tenha dado caridade a uma adúltera. Certamente darei caridade novamente.’ Então saiu levando a caridade e, sem saber, acabou dando-a a um homem rico. Novamente, as pessoas começaram a dizer: ‘Hoje, um homem rico recebeu caridade.’ Então o homem disse: ‘Ó Allah, louvo-Te por ter dado caridade a um ladrão, a uma adúltera e a um homem rico.’ Depois, aquele homem viu em sonho alguém dizendo-lhe: ‘Quanto ao ladrão a quem deste caridade, talvez ele possa corrigir-se e abandonar o roubo. A mulher adúltera, ao receber a caridade, talvez possa arrepender-se do adultério. E o homem rico, ao receber a caridade, talvez possa tirar uma lição e doar da riqueza que Allah lhe concedeu.’ — Ahmad, al-Bukhari e Muslim. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse à pessoa que lhe pediu caridade: “Se fores um dos oito, dar-te-ei o que te é devido.” E deu zakat a dois homens saudáveis e fortes, dizendo: “Se quiserem, posso dar-vos.” Contudo, no zakat não há direito algum para o rico, nem para o saudável, forte e capaz de trabalhar.” Em Al-Mughni, foi dito: se a suficiência financeira fosse considerada, ele não teria se limitado apenas a dizer isso.

A opinião do Imam Malik, de al-Shafi‘i, de Abu Yusuf, de al-Thawri e de Ibn al-Mundhir é que, quando o erro é descoberto, o zakat dado a uma pessoa inelegível não é válido, devendo ser dado novamente a uma pessoa elegível. Isso porque ele deu o zakat obrigatório a quem não tinha direito a recebê-lo; portanto, não foi liberado de sua obrigação. É como quando alguém toma um empréstimo de uma pessoa e, em vez de devolvê-lo a ela, paga-o a outra: a dívida não é quitada. Há duas narrativas sobre a opinião do Imam Ahmad. Se ele deu zakat a alguém por considerá-lo rico e depois ficou comprovado que essa pessoa era rica, segundo uma narrativa o zakat é válido, e segundo outra não é. Porém, se ficar evidente que a pessoa a quem o zakat foi dado não era elegível para recebê-lo — por exemplo, era um escravo, um incrédulo, um Hashimita ou parente do doador —, então o zakat não é válido. Sobre esse caso, só uma opinião foi narrada do Imam Ahmad. Isso porque, embora seja possível reconhecer as outras categorias, não é possível saber quem é rico e quem é pobre. Allah diz: “O ignorante considera-os ricos por causa de sua abstinência.”

57. Dar o zakat ou a caridade publicamente

É permitido dar o zakat e a caridade publicamente. Contudo, deve-se ter o cuidado de não fazê-lo com a intenção de ostentar diante das pessoas. Naturalmente, dar caridade em segredo é o melhor. Allah, o Altíssimo, disse:

إن تبدوا الصَّدَقَاتِ فَنِعِمَاعِي وَإِن تَعْفُوهَا وَتُؤْتُوهَا الْفُقَرَاءَ فَهُوَ خَيْرٌ لَكُمْ.

“Se derdes publicamente, isso é bom; mas, se derdes secretamente e aos pobres, isso será melhor para vós.” (Surata al-Baqara: versículo 271)

Ahmad, al-Bukhari e Muslim narraram, segundo Abu Huraira, que, no dia em que não haverá outra sombra além da sombra de Allah, Allah dará abrigo sob Sua sombra a sete pessoas: 1. um governante ou líder justo; 2. um jovem que cresceu na obediência a Allah; 3. uma pessoa cujo coração está ligado à mesquita; 4. duas pessoas unidas por um vínculo de afeição por Allah, que se reúnem por Allah e se separam por Allah; 5. uma pessoa que dá caridade tão secretamente que sua mão esquerda não sabe o que sua mão direita dá; 6. uma pessoa que se lembra de Allah quando está sozinha e cujos dois olhos se enchem de lágrimas; e 7. uma pessoa a quem uma mulher bela e nobre convida para si mesma com uma má intenção, mas que diz: “Temo a Allah.”

58. Zakat al-Fitr (fitra)

A caridade que deve ser dada por ocasião do Eid al-Fitr, no fim do Ramadan, é a zakat al-fitr. Ela é obrigatória para todo muçulmano, seja pequeno ou adulto, homem ou mulher, livre ou escravo.

Al-Bukhari e Muslim narraram, segundo Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): «O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu a fitra do Ramadan em um sa’ de tâmaras ou um sa’ de trigo para todo muçulmano livre ou escravo, homem ou mulher, pequeno ou adulto.»

Objetivo da fitra: a prescrição da fitra foi instituída no mês de Sha’ban do segundo ano da Hégira, para purificar o jejuador, pois durante o jejum ele pode ter cometido alguma ação reprovável ou indecente. Além disso, ela proporciona alguma ajuda aos pobres e necessitados.

Abu Dawud, Ibn Majah e ad-Daraqutni narraram, segundo Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu a fitra para purificar o jejuador das palavras e ações vãs e indecentes e para alimentar os pobres. Quem a entregar antes da oração do Eid, ela será aceita como purificação; mas quem a entregar depois da oração, para ele será uma caridade comum.»

Sobre quem a fitra é obrigatória: a fitra é obrigatória para todo muçulmano livre que possua um sa’ de alimento além do necessário para a alimentação dele e de sua família durante um dia e uma noite. Deve dá-la em seu próprio nome e em nome daqueles cujo sustento está sob sua responsabilidade, como esposa, filhos, filhas e servos. (Segundo as escolas de Malik, ash-Shafi’i e Ahmad, a fitra torna-se obrigatória quando se possui um sa’ de alimento além da comida necessária para a família durante um dia e uma noite. Ash-Shawkani disse: esta é a opinião correta. Segundo os hanafitas, é condição possuir o nisab da zakat.)

Quantidade da fitra: a quantidade obrigatória da fitra é um sa’ de trigo, cevada, tâmaras, uvas-passas ou aqit (leite seco do qual não foi retirada a manteiga), arroz, milho e semelhantes, que sejam considerados alimentos básicos. (Um sa’ equivale a quatro mudd; um mudd equivale às duas mãos em concha de uma pessoa adulta de estatura mediana, correspondendo à capacidade de um recipiente pequeno ou grande e um terço de outro, ou à capacidade de dois recipientes. ) Abu Hanifah também considerou permitido dar o valor de um sa’. Segundo ele, se aquele que oferece a fitra a der em trigo, ela será cumprida mesmo dando meio sa’.

Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava vivo, dávamos um sa’ de alimento, um sa’ de aqit, um sa’ de cevada, um sa’ de tâmaras ou um sa’ de uvas-passas por cada adulto, menor, pessoa livre ou escravo. Continuamos a fazê-lo assim até que Muawiya veio para realizar o Hajj ou a Umrah. Muawiya subiu ao púlpito e falou com o povo. Ele disse: “Considero que meio sa’ de trigo da Síria equivale a um sa’ de tâmaras.” As pessoas aceitaram isso. Abu Sa’id, porém, disse: “Continuarei dando um sa’ enquanto estiver vivo.”» Registrado em todos os livros de hadith. At-Tirmidhi disse: alguns estudiosos são da opinião de que se deve dar um sa’ de tudo; esta é a opinião de ash-Shafi’i e Ishaq. Alguns estudiosos dizem que se deve dar um sa’ de tudo, exceto trigo; quanto ao trigo, basta meio sa’. Esta também é a opinião de Sufyan, Ibn al-Mubarak e dos habitantes de Kufa.

Quando a fitra se torna obrigatória? Os juristas são unânimes em que a fitra se torna obrigatória na parte final do Ramadan. Contudo, divergem quanto à determinação de seu momento exato. Uma das opiniões narradas de ath-Thawri, Ahmad, Ishaq, ash-Shafi’i e Malik é que ela se torna obrigatória no pôr do sol da noite do Eid al-Fitr (o último dia do Ramadan), pois esse é o momento em que termina o jejum do Ramadan. Abu Hanifah, al-Layth, a opinião anterior de ash-Shafi’i e a segunda opinião narrada de Malik sustentam que a fitra se torna obrigatória ao nascer do sol do dia do Eid.

O resultado dessa divergência manifesta-se no caso da criança que nasce antes do amanhecer ou depois do pôr do sol no dia do Eid. É obrigatório pagar a fitra por ela? De acordo com a primeira opinião, não é obrigatório, pois ela nasceu depois do momento em que a obrigação se torna aplicável. Segundo a segunda opinião, é obrigatório, pois ela nasceu antes desse momento.

É permitido pagar a fitra antes do momento em que ela se torna obrigatória? Segundo a maioria dos juristas, é permitido pagá-la um ou dois dias antes do Eid. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou-nos pagar a fitra antes de irmos à oração do Eid.” Nafi‘ disse: “Ibn Umar pagava a fitra um ou dois dias antes do Eid.” Há também divergência quanto à sua antecipação para um período ainda mais anterior. Segundo Abu Hanifa, é permitido pagar a fitra antes do Ramadã. Al-Shafi‘i disse: “É permitido pagá-la antes do primeiro dia do mês.” De acordo com a opinião mais conhecida de Malik e Ahmad, é permitido pagá-la um ou dois dias antes. Os imames concordam que, depois de a fitra se tornar obrigatória, adiá-la não a anula. Pelo contrário, permanece a obrigação de quitá-la, como uma dívida. Deve-se pagá-la mesmo que isso ocorra antes da morte. Todos, exceto Ibn Sirin e al-Nakha‘i, concordam que não é permitido pagar a fitra depois de passado o dia do Eid. Segundo eles, é permitido pagá-la até o fim do dia do Eid al-Fitr. Ibn Sirin e al-Nakha‘i consideram permitido pagá-la mesmo depois do dia do Eid. Ahmad disse: “Espero que não haja problema em pagá-la depois do dia do Eid.” Ibn Rislān disse: “Pagar a fitra depois do dia do Eid é ilícito por consenso.” Isso porque ela é uma espécie de zakat; portanto, adiá-la necessariamente implica pecado, assim como há pecado em atrasar a oração para além do seu horário determinado. Já foi mencionado o hadith segundo o qual, se a fitra for paga antes da oração do Eid, será uma caridade aceita; se for paga depois da oração, será uma caridade comum, que pode ser dada e é dada em qualquer momento.

Quem recebe a fitra? Aqueles que têm direito a receber o zakat são também os que têm direito a receber a fitra. Isto é, as oito categorias mencionadas no versículo da surata At-Tawbah. Entre essas categorias, os mais merecedores são os pobres. Isso porque já foi mencionado no hadith que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, instituiu a fitra para purificar o jejuador das palavras e ações vãs e obscenas e para alimentar os pobres.

Al-Bayhaqi e al-Daraqutni narraram, de Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, instituiu a fitra e disse: “Fazei com que os pobres não necessitem de nada neste dia.” Em outra narração: “Dispensai os pobres, neste dia, de pedir de casa em casa.”

O local onde a fitra deve ser entregue foi discutido no capítulo sobre a transferência do zakat.

Zuhri, Abu Hanifa, Muhammad e Ibn Shabrumah permitiram dar a fitra a cidadãos não muçulmanos. Isso porque Allah, o Altíssimo, disse:

لا يَنْهَاكُمُ اللَّهُ عَنِ الَّذِينَ لَمْ يُقَاتِلُوكُمْ فِي الدِّينِ وَلَمْ يُخْرِجُوكُمْ مِنْ دِيَارِكُمْ أَن تَبَرُوم وَتُقْسِطُوا إِلَيْمِرُ إِنَّ اللَّهَ يُحِبُّ الْمُقْسِطِينَ .

“Allah não vos proíbe, quanto àqueles que não vos combateram por causa da religião nem vos expulsaram de vossas casas, de tratá-los com benevolência e justiça. Certamente, Allah ama os justos.” (Surata Al-Mumtahanah: versículo 8)

59. É obrigatório dar algum outro direito além do zakat sobre a riqueza?

O Islã adota uma visão realista em relação à riqueza. Aos seus olhos, a riqueza é a veia e a artéria da vida, bem como o sustento do indivíduo e da coletividade. Allah disse:

وَلَا تُؤْتُوا السُّفَهَاءَ أَمْوَالَكُمُ الَّتِي جَعَلَ اللهُ لَكُمْ قِيَامًا.

“Não confieis vossos bens aos insensatos, bens que Allah fez para vós como meio de sustento.” (Surata An-Nissá, versículo 5)

Disso se compreende que a distribuição do zakat deve ser feita de modo que sejam atendidas a alimentação, a vestimenta, a moradia e todas as demais necessidades básicas de cada pessoa, cuja satisfação é absolutamente indispensável, para que não reste na sociedade nenhuma pessoa que desperdice a riqueza e não tenha qualquer meio de sustento. O método do zakat é o melhor meio de promover prosperidade na distribuição da riqueza. Por um lado, limita o luxo dos ricos; por outro, eleva os pobres ao nível da suficiência e remove de suas vidas o sofrimento da privação e da estreiteza.

O zakat não é uma caridade concedida pelo rico ao pobre. Pelo contrário, é um direito deste, que Allah confiou às mãos do rico para que ele o entregue à pessoa que lhe é devida. Daqui se comprova esta grande verdade: a riqueza não é monopólio exclusivo dos ricos; ao contrário, pertence igualmente a ricos e pobres. A lógica do sistema de distribuição dos bens obtidos sem combate, isto é, do “fai”, está refletida nesta palavra de Allah:كي لا يكون دولة بين الأغنياء منكر. “para que isso não fique circulando apenas entre os ricos dentre vós”. Ou seja, o objetivo desse sistema de distribuição é que a riqueza não continue circulando em círculos apenas entre os ricos; ao contrário, é necessário que ela continue sendo distribuída entre ricos e pobres.

O zakat é a parcela da riqueza que constitui o direito obrigatório dos pobres, quando remove a necessidade dos necessitados, atende às necessidades dos privados, proporciona suficiência aos aflitos, alimenta-os ao afastar sua fome e lhes concede paz e segurança ao eliminar seu medo. Porém, quando o zakat não é suficiente para suprir as necessidades dos necessitados, torna-se devido na riqueza outro direito além do zakat. O único critério para determinar os limites e a quantidade desse direito é suprir a necessidade. Portanto, dos bens dos ricos será tomada apenas a quantidade necessária para atender às necessidades dos pobres.

Al-Qurtubi disse: “Ele doa sua riqueza, movido pelo amor a Allah.” Este trecho do versículo comprova que, na riqueza, além do zakat, há um direito dos pobres, e que a doação só se completa por meio do cumprimento desse direito. Alguns dizem que, neste versículo, “doa” se refere ao zakat obrigatório. Contudo, a opinião mais correta é que se refere a um direito adicional ao zakat.

Ad-Daraqutni narrou, por intermédio de Fátima bint Qays: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Além da zakat, há um direito dos necessitados sobre a riqueza. Em seguida, recitou este versículo:

“Não é virtude voltar o rosto apenas para o leste e para o oeste. A virtude consiste, antes, em crer em Allah, no Dia Derradeiro, nos anjos, em todos os Livros e em todos os profetas e mensageiros; em dar, por amor a Allah, riqueza aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, aos que pedem ajuda e pela libertação de escravos; em estabelecer a oração, pagar a zakat, cumprir as promessas feitas e manter a paciência na pobreza, na doença, na aflição e durante os combates. Esses são os verdadeiramente verazes e esses são os tementes.” — Ibn Majah, At-Tirmidhi.

Embora o hadith seja controverso quanto à sua cadeia de transmissão, o conteúdo deste versículo comprova a autenticidade do hadith. Isso porque o versículo menciona a zakat juntamente com a oração. Assim, fica comprovado que a expressão “dar riqueza por amor a Allah”, presente aqui, não se refere à zakat obrigatória. Se se referisse a ela, a zakat teria sido mencionada duas vezes.

Além disso, os sábios afirmaram por consenso: quando, depois do pagamento da zakat, surge alguma outra necessidade dos muçulmanos, torna-se obrigatório doar riqueza para atendê-la. Todos também concordam com esta declaração do Imam Malik, que apoia a opinião acima: “Mesmo que toda a riqueza dos muçulmanos tenha de ser gasta para libertar os prisioneiros muçulmanos, é obrigatório libertá-los.” Na exegese de Tafsir al-Manar, ao comentar este versículo, foi dito: isto é, doar riqueza motivado pelo amor a Allah ou doá-la apesar do apego à riqueza. O Imam Sheikh Muhammad Abduh disse: “Essa doação é adicional à zakat. Ela também é, tal como a zakat, uma boa ação essencialmente obrigatória e uma obra fundamental de piedade. Sempre que surgir a necessidade de doar riqueza, e ela surgir num momento em que ainda não tenha chegado o prazo de alguém pagar a zakat, como

quando, depois de pagar a zakat e antes de completar-se um ano e chegar novamente o momento de pagar a zakat, alguém for visto em dificuldade. Para esse tipo de doação, não há nisab nem quantidade determinada. Seu montante depende da capacidade. Suponhamos que uma pessoa possua apenas um pão. Justamente nesse momento, aparece alguém cuja necessidade daquele pão é tão grande que, sem ele, sua vida não seria preservada. Por outro lado, o dono do pão não necessita tanto dele, nem qualquer daqueles cuja manutenção está sob sua responsabilidade necessita dele nessa medida; em tal situação, é obrigatório doar o pão. E não são apenas os aflitos e desamparados que têm direito a receber ajuda. Allah, o Altíssimo, ordenou a todo crente que também doe aos parentes a partir da riqueza que não é destinada à zakat. Ao gastar riqueza por generosidade, solidariedade e fortalecimento dos laços, quando entre os parentes há alguém necessitado, o coração naturalmente se volta para ele com maior solidariedade e compaixão do que para qualquer outra pessoa. É uma característica natural do ser humano sentir mais dor diante da pobreza e da fome dos parentes consanguíneos do que diante das dos demais parentes. Ao ser honrado um parente consanguíneo, ele se sente honrado; quando este é humilhado, sente-se humilhado. Em contrapartida, aquele que despreza os laços de sangue e adota a atitude de querer viver confortavelmente a todo custo, pouco importando quanto sofram seus parentes próximos, está distante de sua natureza inata, distante do Islã e distante da virtude e do bem. Já aquele que se aproxima mais dos parentes por meio do amor que lhes dedica considera seus direitos mais prioritários e a manutenção dos laços com eles uma obra mais nobre.

O versículo trata dos órfãos. Quando morre o responsável por um órfão, a responsabilidade por sua tutela e cuidado recai naturalmente sobre os muçulmanos abastados e compassivos, para que sua vida, seu sustento e sua educação não sejam prejudicados. Pois, se forem prejudicados, eles se tornarão um fardo tanto para si mesmos quanto um espinho na garganta da sociedade.

Em seguida, vem a menção aos miskin, isto é, aos grupos de pessoas extremamente pobres. Embora sejam incapazes de obter os recursos necessários às suas necessidades básicas, contentam-se com um sustento muito escasso e abstêm-se de estender a mão aos outros. Ajudar e demonstrar compaixão por essas pessoas é um dever indispensável de toda pessoa capaz.

Em seguida, é mencionado o “ibn as-sabil”, isto é, o viajante que perdeu os recursos necessários para a viagem e, por isso, não consegue encontrar-se com seus parentes ou sua família. O sentido literal de “ibn as-sabil” é “filho do caminho”, como se o próprio caminho fosse sua mãe, seu pai e sua família. É um termo tão expressivo que nenhuma outra palavra pode reivindicar ser seu equivalente.

Ao ordenar que se ajude o viajante e se tenha compaixão por ele, o Islã incentiva as pessoas a viajar e a fazer turismo.

Em seguida, é mencionado o caso daqueles que pedem ajuda. São pessoas aflitas, enfermas e assoladas pela pobreza e pela necessidade, que são obrigadas a estender a mão em busca da ajuda de pessoas de todas as camadas da sociedade. O assunto deles foi mencionado relativamente mais tarde, pois eles pedem ajuda e, justamente por pedirem, as pessoas lhes dão. Às vezes, alguém percorre casa por casa para arrecadar ajuda destinada a outra pessoa. Pedir ajuda é proibido pela sharia, salvo em caso de necessidade inevitável e de extrema penúria. Quando alguém precisar pedir ajuda, não deve ultrapassar os limites dessa situação de extrema penúria.

Por fim, o versículo menciona a “libertação de escravos”. Isso inclui comprar escravos e libertá-los; ajudar no pagamento das parcelas dos escravos da categoria dos mukatab, que receberam de seus senhores autorização para obter a liberdade mediante o pagamento de uma quantia determinada; e ajudar a pagar o resgate dos prisioneiros de guerra.

O fato de o Islã declarar obrigatório gastar uma parte dos bens dos muçulmanos nessa causa prova o quanto ele se empenha em submeter as pessoas à escravidão. Prova também que o Islã considera o ser humano originalmente livre, exceto em algumas situações temporárias inevitáveis. Podem surgir situações inevitáveis em que, visando ao interesse público, não haja alternativa senão transformar o prisioneiro em escravo. A razão para mencionar essa categoria por último é que ela pode surgir simplesmente para preservar a vida. Já a necessidade de libertar o escravo de sua servidão existe para elevá-lo a uma condição relativamente melhor. A obrigação imposta pelo Islã de gastar, fora da zakat, para ajudar essas categorias não está limitada a nenhum período específico nem condicionada a um nisab. Também não foi estabelecida uma proporção da ajuda em relação ao total dos bens possuídos, como um décimo (ushr), um quadragésimo ou 2,50%, por exemplo. Trata-se de uma doação caritativa totalmente incondicional, que depende inteiramente da generosidade do doador e da aflição daquele que pede ajuda. O ser humano é uma criatura extremamente honrada. É responsabilidade de toda pessoa capaz protegê-lo da destruição. Além de salvá-lo da destruição, não há limite ou medida determinada para o quanto cada um deve fazer.

A maioria das pessoas é indiferente à maior parte desses direitos coletivos. No entanto, o Alcorão Sagrado incentiva amplamente o cumprimento deles, pois neles existe a garantia de uma vida coletiva saudável, harmoniosa e digna. Ainda assim, a maioria das pessoas não deseja ajudar espontaneamente todos esses necessitados. Observa-se que dão algo apenas àqueles que pedem ajuda. Contudo, atualmente, estes são os menos merecedores de receber ajuda, pois adotaram o pedido ou a mendicância como profissão. E a maioria dos mendigos profissionais recebe a assistência necessária.

Ibn Hazm disse: é responsabilidade dos ricos de cada cidade suprir as necessidades dos pobres daquela cidade. Quando não for possível suprir suas necessidades nem mesmo com a zakat e com todos os bens dos muçulmanos, também será dever do governante obrigá-los a cumprir essa responsabilidade. Nesse caso, os ricos deverão fornecer-lhes a quantidade mínima necessária de alimento, a partir do que eles próprios comem, e dar-lhes as roupas mínimas necessárias para o inverno e o verão. Deverão providenciar moradias que os protejam da chuva, do sol, do calor e assim por diante. Há uma prova disso no Alcorão Sagrado:

وَأَسِ ذَالْقُرْبَى حَقَّهُ وَالْيَسْكِينَ وَابْنَ السَّبِيل

“Dá ao parente o que lhe é devido, bem como ao necessitado e ao viajante em dificuldade.” (Surata Al-Isra: versículo 26)

وبِالْوَالِدَيْنِ إِحْسَانًا وَبِذِي الْقُرْبَى وَالْيَتَامَى وَالْمَسَاكِينَ وَالْجَارِ ذِي الْقُرْبَى وَالْجَارِ الْجُنُبِ والصَّاحِبِ بِالْجَنبِ، وَابْنِ السَّبِيلِ وَمَا مَلَكَتْ أَيْمَانُكُمْ

“Tratai bem os pais, os parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho parente, o vizinho não parente, a esposa, o viajante necessitado e os escravos e escravas.” (Surata An-Nissá: versículo 36)

Assim, Allah, o Altíssimo, ordenou que se cumprissem os direitos dos necessitados, dos viajantes, dos escravos e escravas e dos parentes. Também ordenou que se tratassem bem os pais, os parentes, os vizinhos necessitados e os escravos e escravas. Tudo o que mencionamos acima está incluído no bom tratamento. E deixar de fazê-lo é, sem dúvida, mau tratamento. No Além, os habitantes do Paraíso perguntarão aos habitantes do Inferno:

ما سلككُمْ فِي سَفَرٍ قَالُوا: لَمْ نَكَ مِنَ الْمُصَلِّينَ وَلَم لَكَ نُطْعِمُ الْمِسْكِين.

“O que vos fez entrar no Inferno? Eles responderão: Não orávamos nem alimentávamos os necessitados.” (Surata Al-Muddaththir, versículos 42–44)

Assim, Allah mencionou alimentar os necessitados e a oração ao mesmo tempo, demonstrando que ambos são igualmente importantes.

Em um hadith transmitido com uma cadeia de transmissão extremamente confiável e autêntica, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem não tem misericórdia das pessoas não receberá a misericórdia de Allah.” Portanto, não há dúvida de que aquele que possui riqueza além de suas necessidades, vê seu irmão muçulmano faminto e sem roupas e, ainda assim, não o ajuda, falhou em demonstrar misericórdia para com ele.

Abdur-Rahman ibn Abu Bakr as-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Os habitantes da Suffa eram pessoas extremamente pobres. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem tiver comida para duas pessoas deve levar consigo uma terceira; e quem tiver comida para quatro pessoas deve levar consigo uma quinta ou uma sexta pessoa.”

Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O muçulmano é irmão do muçulmano; ele não pode cometer injustiça contra ele, nem abandoná-lo.” Ver um irmão muçulmano faminto e sem roupas, ter condições de lhe fornecer alimento e vestuário e, ainda assim, não fazê-lo equivale a abandoná-lo.

Abu Sa’id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem tiver espaço excedente na montaria deve acomodar nele aquele que não possui montaria. E quem tiver provisões excedentes deve fornecer provisões àquele que não as possui.” Em seguida, ele mencionou, uma por uma, todas as espécies de bens que foram mencionadas. Assim, compreendemos que não tínhamos direito a nenhum bem excedente.

Embora este seja um hadith de Abu Sa’id al-Khudri, todos os Companheiros concordaram com ele. E foi narrado por Abu Musa al-Ash’ari, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Alimentem o faminto, visitem o doente e libertem o cativo.”

Há muitas determinações no Alcorão e no hadith a esse respeito.

Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Se eu tivesse compreendido antes o que só compreendi agora, teria tomado os bens excedentes dos ricos e os distribuído entre os pobres emigrantes.” A cadeia de transmissão deste hadith é extremamente autêntica e confiável. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Allah ordenou que os ricos doassem de seus bens uma quantidade capaz de proporcionar suficiência aos pobres. Contudo, se eles sofrerem por não terem satisfeitas suas necessidades básicas de alimento, vestuário e outras, e os ricos não lhes fornecerem isso, no Dia da Ressurreição terão de prestar contas por isso diante de Allah, e Allah os castigará por isso.”

Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Em teus bens há um direito dos pobres além do zakat.”

A Mãe dos Crentes, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, Hasan ibn Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disseram: “Se, devido a uma dolorosa dívida de sangue, a uma dívida esmagadora ou a uma pobreza extrema, pedires ajuda a alguém, ela se tornará um direito que te é devido.”

Foi narrado por Abu Ubaidah ibn al-Jarrah que se soube com certeza, por parte de trezentos Companheiros, que suas provisões haviam acabado. Então, por ordem de Abu Ubaidah, suas provisões foram reunidas em dois sacos, e alimento passou a ser distribuído igualmente a todos eles.

Portanto, este é um consenso categórico e certo por parte dos Companheiros, e ninguém dentre eles se opôs a isso. ash-Sha‘bi, Mujahid, Tawus e outros disseram: além do zakat, há direitos devidos sobre a riqueza. Enquanto um muçulmano tiver alimento excedente suficiente para dar a seu irmão muçulmano ou a um cidadão não muçulmano, não lhe será lícito, por necessidade, comer carniça ou carne de porco. Isso porque alimentar o faminto é uma obrigação daquele que possui alimento. Justamente por ser isso uma obrigação para ele, ele não se encontra em tal situação de desespero ou necessidade que lhe permita comer carniça ou carne de porco. Por isso, ele também tem o direito de lutar armado. Se for morto nessa luta, aquele que o matou deverá ser condenado à morte. E, se morrer aquele que, embora possuísse alimento excedente, não o forneceu, terá uma morte amaldiçoada. Isso porque se absteve de conceder um direito e, por isso, é um opressor. Allah, o Altíssimo, disse:

فإن بَغَتْ إِحْدَاهُمَا عَلَى الأخرى فَقَاتِلُوا الَّتِي تَبْغِي حَتَّى تَفِيءَ إِلَى أَمْرِ اللهِ .

“Se um grupo cometer injustiça contra outro grupo, combatei o grupo que comete a injustiça até que ele retorne à determinação de Allah.” E aquele que não concede a seu irmão o direito que lhe cabe é certamente um opressor contra ele. Foi por isso que Abu Bakr as-Siddiq combateu aqueles que se recusavam a pagar o zakat.

Mencionamos todas essas declarações do Alcorão e dos hadiths com tantos detalhes apenas para mostrar quanta compaixão e solidariedade pelo ser humano existem no Islã, quanto mais nobres e superiores elas são em comparação com os sistemas jurídicos modernos, e que estes são semelhantes a velas tremeluzentes diante do sol radiante do Islã.

60. Doação voluntária (doação geral)

O Islã não apenas convocou as pessoas a fazer doações. Pelo contrário, incentivou-as e estimulou-as nessa prática de tal maneira que, espontaneamente, desperta em seus corações o impulso para a generosidade e a magnanimidade, mantendo-as sempre animadas pelo espírito de altruísmo, bem-estar público e serviço à sociedade.

Allah, o Altíssimo, disse:

مَثَلُ الَّذِينَ يُنفِقُونَ أَمْوَالَهُمْ فِي سَبِيلِ اللهِ كَمَثَلِ حَبَّةٍ الْبَتَت سَبْعَ سَنَابِلَ فِي كُلِّ سَنبُلَةٍ مِالَةٌ حَبَّةٍ وَاللهُ يُضَاعِفُ لِمَن يَشَاءُ وَاللَّهُ وَاسِعٌ عَلِيمٌ .

“Aqueles que gastam seus bens no caminho de Allah são como uma semente que produz sete espigas, e em cada espiga há cem grãos. E Allah multiplica para quem Ele quiser. Allah é imenso, Onisciente.” (Surata Al-Baqarah: versículo 261)

Allah também disse:

لَن تَنَالُوا الْبِرَّ حَتَّى تُنْفِقُوا مِمَّا تُحِبُّونَ وَمَا تَنفِقُوا مِنْ شَيْءٍ فَإِنَّ اللَّهَ بِهِ عَلِيمٌ .

“Jamais alcançareis a piedade até que deis daquilo que amais. E tudo quanto doardes, Allah disso é conhecedor.” (Surata آل عمران: versículo 160)

وَالْفِقُوْا مَا جَعَلَكُمْ مُسْتَخْلَفِينَ فِيهِ فَالَّذِينَ آمَنُوا مِنْكُمْ وَأَنْفَقُوا لَهُمْ أَمْرٌ كَبِيرٌ .

“Doai daquilo que Ele vos fez sucessores. E aqueles dentre vós que creem e doam terão uma grande recompensa.” (Surata Al-Hadid: versículo 7)
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: 1. “A caridade apazigua a ira de Allah e impede uma morte repentina.” — At-Tirmidhi.

2. “A caridade do muçulmano prolonga sua vida, impede uma morte repentina, isto é, um mau desfecho, e Allah, por meio dela, elimina a arrogância e o orgulho.” — At-Tirmidhi.

3. “Todas as manhãs, dois anjos descem. Um deles diz: Ó Allah! Concede ainda mais riqueza àquele que doa. E o outro diz: Ó Allah! Destrói os bens daquele que é avarento.” — Muslim.

4. As ações de beneficência protegem contra uma morte ruim. A caridade secreta aplaca a ira de Allah. Dar aos parentes consanguíneos prolonga a vida. Todo comportamento nobre é sadaqa. Aqueles que praticam boas ações neste mundo também receberão boas ações na Outra Vida. Aqueles que têm mau comportamento neste mundo receberão mau tratamento na Outra Vida. Os que têm comportamento nobre serão os primeiros a entrar no Paraíso. — At-Tabarani.

Tipos de doação

A doação não se limita a um tipo específico de ação beneficente. Pelo contrário, o princípio geral é que toda ação de beneficência é uma doação ou sadaqa.

A seguir, são apresentados alguns hadiths relacionados a esse tema:

O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: 1. “Todo muçulmano deve dar algo em caridade ou praticar alguma sadaqa. Os Companheiros disseram: Ó Profeta de Allah, o que fará aquele que não tem nada para dar? O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: Trabalhará com as próprias mãos, ganhará seu sustento, beneficiará a si mesmo com isso e, depois, dará em caridade o que sobrar. As pessoas disseram: E se ele também não puder fazer isso? Ele disse: Ajudará alguma pessoa em dificuldade, seja ela oprimida ou incapaz. As pessoas disseram: E se ele nem sequer tiver essa oportunidade? Ele disse: Então praticará qualquer boa ação ou ato de beneficência e se abst será do mal; isso será considerado uma doação para ele. — Al-Bukhari.”

2. Depois do nascer do sol, é prescrito como dever de cada pessoa dar sadaqa todos os dias. Entre essas ações, reconciliar com justiça uma disputa entre duas pessoas também é sadaqa. Ajudar alguém a montar no dorso do seu animal também é sadaqa. Dizer uma boa palavra também é sadaqa. Cada passo dado em direção à oração também é sadaqa. — Ahmad.

3. Foi narrado por Abu Dharr al-Ghifari que o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: Depois do nascer do sol, é dever de cada pessoa dar sadaqa diariamente em seu próprio benefício. Eu disse: Ó Mensageiro de Allah, de onde daremos sadaqa? Nós não temos riqueza alguma. Ele disse: Dizer “Allahu Akbar”, “Subhanallah”, “Alhamdulillah”, “La ilaha illallah” e “Astaghfirullah” também é sadaqa. Ordenar o bem e proibir o mal também é sadaqa. Remover do caminho espinhos, pedras e ossos também é sadaqa. Guiar o cego pelo caminho, tentar fazer-se entender por alguém mudo ou surdo, indicar a alguém onde encontrar aquilo de que necessita quando sabes onde está, empenhar-se ao máximo para ajudar uma pessoa em dificuldade que pede auxílio e ajudar plenamente os fracos — tudo isso é sadaqa. Até mesmo ter relações sexuais com tua esposa te proporciona recompensa. — Ahmad e Muslim.

Também consta no Muslim: As pessoas disseram: Ó Mensageiro de Allah, quando um de nós satisfaz seu desejo sexual, também recebe recompensa por isso? O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: Que pensais? Se ele satisfizesse seu desejo por um meio ilícito, não teria pecado? Do mesmo modo, se o satisfizer por um meio lícito, certamente receberá recompensa por isso.

4. Foi narrado por Abu Dharr, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Cada filho de Adão deve oferecer uma sadaqa todos os dias após o nascer do sol. Perguntaram: Onde encontraremos recursos suficientes para oferecer sadaqa todos os dias? O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: Há muitas formas de obter recompensa. Dizer “Subhanallah”, “Alhamdulillah”, “Allahu Akbar” e “La ilaha illallah”; ordenar o bem e proibir o mal; remover do caminho aquilo que causa dano; explicar algo a um surdo; guiar um cego; indicar algo necessário a quem procura; esforçar-se ao máximo para ajudar alguém em perigo que pede auxílio; e empregar toda a força para ajudar o fraco — tudo isso é uma sadaqa em seu próprio benefício. — Ibn Hibban, Bayhaqi. Bayhaqi também citou: Sorrir para o seu irmão é uma sadaqa; remover espinhos, pedras e ossos do caminho das pessoas também é uma sadaqa; e orientar uma pessoa perdida também é uma sadaqa.

5. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também disse: “Quem dentre vós tiver condições de se proteger do Inferno, que o faça oferecendo nem que seja uma parte de uma tâmara. E quem não puder fazê-lo, que o faça ao menos por meio de uma boa palavra.” — Ahmad e Muslim. (Este hadith ensina que é incorreto considerar a sadaqa insignificante.)

6. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Allah, Exaltado seja, dirá no Dia da Ressurreição: ‘Ó filho de Adão, Eu estava doente, mas tu não Me visitaste.’ O filho de Adão dirá: ‘Ó meu Senhor, como poderia visitar-Te? Tu és o Senhor de todos os mundos.’ Allah dirá: ‘Não sabias que tal servo Meu estava doente e não o visitaste? Se o tivesses visitado, ter-Me-ias encontrado junto dele. Ó filho de Adão, pedi-te alimento, mas não Me alimentaste.’ Ele dirá: ‘Ó meu Senhor! Como poderia alimentar-Te? Tu és o Senhor de todos os mundos.’ Allah dirá: ‘Não sabias que tal servo Meu te pediu alimento, mas não lhe deste alimento? Se lhe tivesses dado alimento, terias encontrado a recompensa disso junto de Mim. Ó filho de Adão, pedi-te água, mas não Me deste de beber.’ Ele dirá: ‘Ó meu Senhor, como poderia dar-Te água? Tu és o Senhor de todos os mundos.’ Allah dirá: ‘Tal servo Meu pediu-te água, mas não lhe deste de beber. Se lhe tivesses dado água, terias encontrado isso junto de Mim.’” — Muslim.

7. “Se um muçulmano plantar uma muda ou cultivar uma plantação, e uma pessoa ou um animal comer algo dela, isso será considerado uma sadaqa em seu favor.” — Bukhari.

8. “Toda ação é uma sadaqa; encontrar o teu irmão com um rosto sorridente e oferecer-lhe um pouco de água do teu balde também são boas ações.” — Ahmad, Tirmidhi.
Quem terá prioridade para receber a sadaqa?

A maior prioridade para receber a sadaqa cabe aos filhos de quem a oferece, à sua família e aos seus parentes. Aquele que necessita de algo para prover o sustento próprio e de sua família não pode, antes de atender à sua própria necessidade, oferecer esse algo a outra pessoa. Sobre este assunto, seguem alguns hadiths:

1. Foi narrado por Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Quando um de vós estiver necessitado, deve gastar primeiro a sua riqueza consigo mesmo. Se sobrar algo, deve gastá-lo com a sua família; depois, se ainda sobrar, deve gastá-lo com os seus parentes. Segundo outra narração: com os parentes consanguíneos. Se ainda houver algum excedente, então aqui e ali.” — Ahmad e Muslim.

2. “Oferecei sadaqa.” Um homem disse: Tenho um dinar. Ele respondeu: Gasta-o contigo mesmo como sadaqa. (Isto é, gasta-o na tua própria necessidade.) O homem disse: Tenho mais um dinar. Ele respondeu: Oferece-o ao teu servo. O homem disse: Tenho mais um dinar. Ele respondeu: Tu sabes melhor o que fazer com ele. — Abu Dawud, Nasa’i, Hakim.

3. «Que uma pessoa deixe qualquer membro de sua família passar fome é um pecado extremamente grave para ela.» — Muslim e Abu Dawud.

A caridade que se torna inválida

É proibido que o doador, posteriormente, repreenda ou prejudique aquele a quem fez a doação, ou dê caridade com o propósito de exibir-se. Com isso, a caridade se torna inválida. Pois Allah, o Altíssimo, disse:

يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لَا تَبْطِلُوا صَدَقَتِكُمْ بِالْمَيِّ وَالْأَذى ، كَالَّذِي يُنْفِقُ مَالَهُ رِئَاءَ النَّاسِ.

«Ó crentes, não invalideis vossas caridades com reprovações e ofensas, como aquele que gasta sua riqueza para ser visto pelas pessoas.» (Al-Baqarah: versículo 264)

(Repreender significa lembrar a pessoa da caridade que lhe foi dada e falar sobre isso, fazer com que aquele que a recebeu trabalhe em alguma tarefa como compensação, ou vangloriar-se e mostrar arrogância diante dele por causa disso. Prejudicar significa mencionar a caridade de tal maneira que aquele que a recebeu se sinta ofendido, ou repreendê-lo.)

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «No Dia da Ressurreição, Allah não falará com três pessoas, não olhará para elas, não as purificará, e haverá para elas um castigo doloroso.» Abu Dharr perguntou: «Eles estão perdidos e arruinados, ó Mensageiro de Allah! Quem são eles?» Ele respondeu: «Aquele que, por arrogância, caminha arrastando sua roupa abaixo dos tornozelos; aquele que dá caridade e depois repreende; e aquele que vende mercadorias fazendo um juramento falso.»

Dar caridade com riqueza ilícita

Quando uma doação é feita com bens ilícitos, Allah não a aceita. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

1. “Ó pessoas, Allah é Puro e não aceita senão aquilo que é puro. Ele ordenou aos crentes o mesmo que ordenou aos Mensageiros. Ele disse:

يَأَيُّهَا الرَّسُلُ كُلُوا مِنَ الطَّيِّبَاتِ وَاعْمَلُوا صَالِحًا ، إِلَى بِمَا تَعْمَلُونَ عَلَيْرُهُ

“Ó Mensageiros! Comei alimentos puros e praticai boas ações. Certamente, estou ciente de tudo quanto fazeis.”

Allah também disse:

يأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُلُوا مِنْ طَيِّبَتِ مَا رَزَقْنَكُمْ .

“Ó crentes, comei das provisões puras que vos concedemos.” Em seguida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Um homem viaja por uma longa distância, com os cabelos desgrenhados e coberto de poeira. Nessa condição, ele estende as duas mãos para Allah e diz: ‘Ó meu Senhor, ó meu Senhor’, mas o que come é ilícito, o que veste é ilícito e ele se nutre de alimento ilícito. Como, então, sua súplica será aceita?” — Muslim.

2. “Quem doar, de seus ganhos lícitos, uma riqueza equivalente a uma tâmara, Allah a aceitará com Sua mão direita e depois a fará crescer para seu dono, assim como qualquer um de vós cria o seu potro desmamado. Assim, enquanto a faz crescer, essa doação acaba tornando-se do tamanho de uma montanha. Na verdade, Allah não aceita nenhuma doação senão de bens lícitos.” — Bukhari.

A doação da esposa dos bens do marido

Se a esposa tiver certeza de que conta com a aprovação do marido, poderá doar dos bens dele. Mas, se não tiver certeza, a doação será ilícita. Relatado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quando a esposa doa, de maneira justa, parte do alimento de sua casa, ela receberá a recompensa pelo que doou. Seu marido receberá a recompensa pelo que adquiriu, e o responsável que guardar essa doação também receberá sua recompensa. Ninguém diminuirá a recompensa de ninguém. — Bukhari.

Relatado por Abu Umama, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse: Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer no sermão da Peregrinação de Despedida: A esposa não pode gastar nada da casa sem a permissão do marido. Perguntaram: Ó Mensageiro de Allah, nem mesmo comida? Ele respondeu: A comida é nosso melhor bem. — Tirmidhi.

Contudo, é permitido doar, sem autorização, algo muito pequeno que, segundo os costumes, não seja considerado censurável. Relatado por Asma bint Abi Bakr, que Allah esteja satisfeito com ela: Ela disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: Zubayr, meu marido, é um homem de temperamento muito severo. Pessoas pobres vêm até mim, e eu lhes dou, sem sua permissão, parte de seus bens. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Dá apenas a pequena quantidade que é habitualmente dada conforme o costume. Não acumules, pois Allah acumulará contra ti e não te dará. — Ahmad, Bukhari e Muslim.

Doação de todos os bens

Se uma pessoa saudável, forte e capaz de ganhar seu sustento quiser doar todos os seus bens, isso é permitido. (O Imam Abu Ja’far al-Tabari disse: embora seja permitido, é recomendável não doar mais de um terço.

Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou-nos que fizéssemos doações. Decidi doar alguns bens e pensei: Nunca consegui doar mais do que Abu Bakr; hoje, porém, doarei mais do que ele. Levei metade dos meus bens ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: Quanto deixaste para tua família? Respondi: Deixei para eles tanto quanto trouxe, e outro tanto. Mas Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, trouxe todos os seus bens. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: O que deixaste para tua família? Ele respondeu: Deixei Allah e Seu Mensageiro para eles. Eu disse: Nunca mais competirei contigo. — Abu Dawud e Tirmidhi.

Contudo, os eruditos estabeleceram condições para a doação de todos os bens: o doador deve ser saudável, forte, capaz de ganhar seu sustento, paciente e livre de dívidas, e não deve ter sob sua responsabilidade alguém cujo sustento e manutenção tenha de prover. Se essas condições não forem cumpridas, isso será makruh.

Foi narrado por Jābir — que Allah esteja satisfeito com ele — que disse: Certo dia, estávamos na presença do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — quando, de repente, um homem trouxe um lingote de ouro em forma de ovo. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah! Encontrei isto numa mina. Pegue-o. Isto é uma caridade, e não possuo mais nada além disso.” O Mensageiro de Allah ignorou-o. Então ele aproximou-se pelo lado esquerdo, mas o Mensageiro de Allah também o ignorou. Depois, aproximou-se por trás. Então o Mensageiro de Allah pegou o lingote de ouro e imediatamente o atirou; se atingisse o homem, poderia causar-lhe dor ou feri-lo. Em seguida, o Mensageiro de Allah disse: “Alguns de vós trazem toda a sua riqueza para dar em caridade e depois estendem a mão diante das pessoas. A caridade é responsabilidade do rico.” — Abu Dawud e al-Hakim.

É permitido dar caridade ao não muçulmano que tenha celebrado um tratado de paz e àquele que não o tenha celebrado: tanto o não muçulmano que se submeteu à autoridade do Estado muçulmano quanto aquele que não se submeteu podem receber caridade, e o muçulmano será recompensado por isso. Allah, o Altíssimo, louvando os caridosos, disse:

ويُطْعِمُونَ الطَّعَامَ عَلَى حَبِهِ مِسْكِينًا وَيَتِيهَا وَأَسِيرًا.

“E alimentam o necessitado, o órfão e o prisioneiro, movidos pelo amor a Allah.”

O prisioneiro é o não muçulmano que não se submeteu. Allah também disse:

لَا يَنْهَاكُمُ اللَّهُ عَنِ الَّذِينَ لَمْ يُقَاتِلُوا كُم فِي الدِّينِ وَلَمْ يُخْرِجُوكُمْ مِنْ دِيَارِكُمْ أَن تَبَرُّوهُمْ وتَقْسِطُوا إِلَيْهِ إِنَّ اللهَ يُحِبُّ الْمُقْسِطِينَ .

“Allah não vos proíbe tratar com bondade e agir com justiça para com aqueles que não vos combateram por causa da religião nem vos expulsaram de vossas casas. Allah ama os que agem com justiça.” (Surata Al-Mumtahanah: versículo 8)

Foi narrado por Asma bint Abi Bakr que ela disse: Minha mãe veio até mim, embora ainda fosse idólatra. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah! Minha mãe veio visitar-me e deseja receber algo. Devo dar-lhe caridade?” Ele respondeu: “Sim, dá caridade à tua mãe.”

Doar aos animais

1. Foi narrado por Bukhari e Muslim que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Um homem caminhava pela estrada. Sentiu uma sede intensa e ficou aflito. Então encontrou um poço, desceu nele, bebeu água e saiu. Assim que saiu, viu um cão ofegando, com a língua para fora, de tanta sede. Ao vê-lo, o homem pensou: “Este cão está sofrendo de sede exatamente como eu estava sofrendo.” Então desceu novamente ao poço. Tirou a meia, encheu-a de água, segurou-a com os dentes, subiu e deu de beber ao cão. Depois agradeceu a Allah, e Allah perdoou todos os seus pecados. As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, há recompensa para nós por causa dos animais?” Ele respondeu: “Há recompensa por manter vivo todo ser vivo.”

2. Também foi narrado por Bukhari e Muslim que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Um cão, quase morrendo de sede, rondava junto a um poço. Uma adúltera dos Filhos de Israel o viu, tirou a meia do pé, retirou água para ele e deu-lhe de beber. Com isso, seus pecados foram perdoados.

Sadaqa jariya (caridade contínua)

Ahmad e Muslim narraram que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando uma pessoa morre, todas as suas obras cessam, exceto três coisas: 1. sadaqa jariya (caridade contínua); 2. um conhecimento do qual as pessoas se beneficiam; ou 3. um filho virtuoso que ore por ela. — Ahmad e Muslim.
Agradecimento ao doador

1. Foi narrado por Abu Dawud e an-Nasa’i, de Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Acolhei aquele que vos pedir proteção em nome de Allah; dai àquele que vos pedir algo em nome de Allah. Concedei segurança àquele que vos pedir segurança em nome de Allah. Retribuí quem vos fizer uma doação; se não puderdes dar-lhe nada, orai por ele, para que vos consoleis com a sensação de lhe ter dado alguma retribuição.

2. Ahmad narrou, de Ash’ath ibn Qays, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quem não agradece às pessoas não agradece a Allah.

3. At-Tirmidhi narrou, de Usama ibn Zayd, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando alguém recebe um benefício e diz ao benfeitor:جَزَاكَ اللهُ خَيْرًا“Que Allah te recompense com o bem”, terá expressado grande louvor.

Quarto capítulo: Siyam (jejum)

Siyam (jejum)

1. Siyam: significado, virtudes e modalidades

O significado linguístico da palavra árabe siyam é conter-se ou abster-se. Allah diz:

إِنِّي نذرت الرحمن موما .

“Fiz um voto de jejuar em nome de Allah, o Misericordioso.” Isto é, fiz um voto de abster-me de falar. Aqui, siyam significa abster-se de comer e beber, conforme as regras, desde o amanhecer até o pôr do sol.
Foram narrados muitos hadiths sobre as virtudes do jejum. Alguns são mencionados a seguir:

1. Abu Huraira relatou que o Mensageiro de Allah disse: Allah, o Altíssimo, diz: Todas as ações do filho de Adão são para ele próprio, exceto o jejum. O jejum é para Mim. (A finalidade de dizer “para Mim” é honrar o jejum.) E Eu mesmo recompensarei por ele. (Aqui termina a parte sagrada do hadith. A parte seguinte é uma declaração do próprio Mensageiro.) E o jejum é um escudo. (Que protege dos pecados.) Quando algum de vós jejuar em determinado dia, não deve dizer palavras obscenas, gritar nem comportar-se de maneira rude. Se alguém o insultar ou vier lutar com ele, deve dizer duas vezes: “Estou jejuando.” Juro por Allah, em Cuja mão está a vida de Muhammad, o hálito do jejuador (o odor alterado por causa do jejum) será, no Dia do Juízo, mais perfumado para Allah do que a fragrância do almíscar. O jejuador tem duas alegrias: quando quebra o jejum, alegra-se por quebrá-lo; e quando se encontrar com Allah, alegrar-se-á por causa do jejum. — Ahmad, Muslim e Nasa’i.

2. Foi narrado por Bukhari e Abu Dawud: “O jejum é um escudo. Quando algum de vós jejuar, não deve dizer palavras obscenas nem comportar-se de maneira rude. Se alguém vier lutar com ele ou insultá-lo, deve dizer duas vezes: “Sou um jejuador.” Juro, por Allah, em Cuja mão está a vida de Muhammad, que o hálito do jejuador é mais puro para Allah do que a fragrância do almíscar. Ele abandona a comida, a bebida e as relações sexuais por Minha causa. O jejum é para Mim, e Eu mesmo o recompensarei. E cada boa ação vale dez vezes mais a cada dia.”

3. Foi narrado por Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O jejum e o Alcorão intercederão pelo servo no Dia da Ressurreição. O jejum dirá: ‘Ó meu Senhor, eu o impedi de comer, beber e manter relações sexuais durante o dia. Portanto, aceita a minha intercessão em favor dele.’ O Alcorão dirá: ‘Eu o impedi de dormir à noite. Portanto, aceita a minha intercessão em favor dele.’ Então, a intercessão de ambos será aceita.” — Ahmad.

4. Abu Umama (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: Fui até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ordena-me uma ação que me fará entrar no Paraíso.” Ele disse: “Deves jejuar; nada se compara a isso.” Depois, voltei a ele, e ele tornou a dizer: “Deves jejuar.” — Ahmad e An-Nasa’i.

5. Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Se um servo jejuar um dia pela causa de Allah, Allah afastará dele o Inferno, em troca desse dia, por setenta anos.” Narrado em todas as coletâneas de hadith autênticas, exceto a de Abu Dawud.

6. Foi narrado por Sahl ibn Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O Paraíso possui uma porta chamada Ar-Rayyan. No Dia da Ressurreição, será dito: ‘Onde estão os que jejuavam?’ Quando o último deles entrar, essa porta será fechada.” — Al-Bukhari e Muslim.

O jejum é de dois tipos: obrigatório e voluntário. O jejum obrigatório, por sua vez, é de três tipos:

1. O jejum do Ramadã.

2. O jejum de expiação.

3. O jejum por voto.

Aqui será discutido apenas o jejum do Ramadã e o jejum voluntário. Os demais jejuns serão discutidos em seus devidos lugares.

2. O jejum do Ramadã

Regra: o jejum do Ramadã é obrigatório com base no Alcorão, na Sunna e no consenso.

يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُتِبَ عَلَيْكُمُ الصِّيَامُ كَمَا كُتِبَ عَلَى الَّذِينَ مِنْ قَبْلِكُمْ لَعَلَّكُمْ تَتَّقُونَ.

“Ó vós que credes, foi-vos prescrito o jejum, assim como foi prescrito aos que vos precederam, para que sejais piedosos.” (Surata Al-Baqara: versículo 183)
O Deus Todo-Poderoso também diz: “O mês do Ramadã é aquele em que foi revelado o Alcorão, como orientação para a humanidade, contendo provas claras da orientação e do discernimento entre a verdade e a falsidade. Portanto, quem dentre vós alcançar esse mês deverá jejuar nele.” (Surata Al-Baqara: versículo 185)

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Os cinco fundamentos do Islam são: testemunhar que não há outra divindade além de Allah e que Muhammad é o Mensageiro de Allah; estabelecer a oração, pagar o zakat, jejuar no Ramadã e realizar o hajj à Casa de Allah.” Talha ibn Ubaydullah narra que um homem perguntou ao Mensageiro de Allah: “Ó Mensageiro de Allah, informe-me qual jejum Allah tornou obrigatório para mim.” Ele respondeu: “O jejum do mês do Ramadã.” O homem perguntou: “Além desse, devo jejuar algum outro?” Ele respondeu: “Não, mas podes jejuar voluntariamente.”

Além disso, há consenso de toda a ummah muçulmana de que o jejum do Ramadã é obrigatório. Ele é um dos cinco pilares do Islam, conhecido como parte inseparável do Islam; portanto, quem o negar é um incrédulo e um apóstata.

O jejum tornou-se obrigatório na segunda-feira, no dia 2 do mês de Sha’ban do segundo ano da Hégira.

3. O mês do Ramadã e a virtude das obras realizadas nele

1. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele): quando o Ramadã se aproximou, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Chegou até vós um mês abençoado. O jejum deste mês foi tornado obrigatório para vós. Neste mês, as portas do Paraíso são abertas, as portas do Inferno são fechadas e os demônios são acorrentados. Neste mês há uma noite que é melhor do que mil meses. Quem for privado do bem deste mês estará, de fato, privado.” Ahmad, an-Nasa’i.

2. Foi narrado por Arfaja (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: Eu estava junto de Utba ibn Farqad.

Ele estava narrando um hadith sobre o Ramadã. Disse: Um dos companheiros de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) veio até nós. Ao vê-lo, Utba ficou perturbado e silenciou. Ele narrou um hadith sobre o Ramadã e disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falar sobre o Ramadã: “Neste mês, as portas do Inferno são fechadas, as portas do Paraíso são abertas e os demônios são acorrentados. Neste mês, um anjo proclama: ‘Ó buscador do bem, recebe as boas-novas; e ó buscador do mal, detém-te até que o Ramadã termine.’” Ahmad e an-Nasa’i.

3. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele): o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “As cinco orações diárias, de uma oração de sexta-feira à seguinte e de um Ramadã ao seguinte são expiações pelos pecados cometidos nesse intervalo, desde que se evitem os pecados maiores.” — Muslim.

4. Foi narrado por Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele): o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem jejuar durante o Ramadã, conhecer seus limites e se abstiver das coisas das quais deve se resguardar terá todos os seus pecados anteriores expiados.” — Ahmad, al-Bayhaqi.

5. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele): o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem jejuar durante o Ramadã com fé e buscando a satisfação de Allah terá todos os seus pecados passados perdoados.” — Ahmad, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah.

4. Advertência contra quebrar o jejum durante o Ramadã

1. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Os pilares do Islã são três, sobre os quais se fundamenta o Islã. Quem abandonar qualquer um deles será um incrédulo, e seu sangue será lícito: testemunhar que não há outra divindade além de Allah, realizar as cinco orações obrigatórias e jejuar o Ramadã.” — Abu Ya‘la, Daylami.

2. Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quem quebrar o jejum em qualquer dia do Ramadã sem uma razão autorizada por Allah, mesmo que jejue pelo resto da vida, isso não compensará o jejum que quebrou.” Abu Dawud, Ibn Majah, Tirmidhi. Al-Bukhari narrou, por meio de Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele): Quem quebrar o jejum de um dia do Ramadã sem uma desculpa ou doença, mesmo que jejue pelo resto da vida, sua compensação não será aceita. Ibn Mas‘ud também disse o mesmo.

O Imam Dhahabi disse: É consenso entre os crentes que quem abandona um jejum do Ramadã sem estar doente é pior do que o adúltero e o alcoólatra. Mais ainda: os muçulmanos passam a duvidar de que ele seja muçulmano e consideram-no incrédulo e apóstata.

5. Como se confirma o Ramadã

O mês do Ramadã será confirmado após o mês de Sha‘ban completar trinta dias, ou mesmo mediante o testemunho de um crente dotado de discernimento que tenha avistado a lua nova.

1. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: Ele disse: As pessoas começaram a procurar a lua nova. Informei ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): Eu avistei a lua nova. Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) jejuou e ordenou às pessoas que jejuassem. — Abu Dawud, Hakim, Ibn Hibban.

2. Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Jejuem ao avistar a lua nova e encerrem o jejum ao avistá-la. Se não conseguirem avistá-la, completem o mês de Sha‘ban com trinta dias. — Al-Bukhari e Muslim.

Tirmidhi disse: A maioria dos eruditos age de acordo com esta opinião. Eles dizem: O testemunho de uma pessoa será aceito para iniciar o jejum. Ibn al-Mubarak, al-Shafi‘i e Ahmad sustentam esta mesma opinião. Al-Nawawi disse: Esta é a opinião mais correta.

Por outro lado, a lua nova de Shawwal é estabelecida após a conclusão de trinta dias de Ramadan, e o testemunho de uma pessoa justa não é aceito pela maioria dos juristas. Eles estabelecem como condição o testemunho de duas pessoas justas sobre o avistamento da lua. Abu Thawr, porém, não faz distinção entre a lua nova de Shawwal e a lua nova de Ramadan. Ele afirma: o testemunho de uma pessoa justa também será aceito quanto à lua nova de Shawwal.
Ibn Rushd disse: a opinião de Abu Bakr Ibn al-Mundhir e a de Abu Thawr são iguais. Creio que essa também é a opinião da escola zahiri.

Abu Bakr Ibn al-Mundhir argumentou: quando o testemunho de uma pessoa torna obrigatório jejuar e interromper o jejum, então é indispensável que o testemunho de uma pessoa também seja suficiente para estabelecer o início e o fim do mês. Isso porque ambos distinguem o período do jejum do período de sua interrupção.

Al-Shawkani disse: quando não há prova autêntica a favor da aceitação de duas pessoas para o testemunho da interrupção do jejum, fica claro que, por analogia com o início do jejum, o testemunho de uma pessoa também será suficiente para a interrupção do jejum.

Além disso, o fato de a adoração ser praticada com base na informação de uma pessoa demonstra que isso pode ser aceito em todos os casos. Contudo, se houver prova de que, em algum caso específico, não se deve praticar a adoração com base na informação de uma pessoa, então essa é uma questão à parte. É o caso, por exemplo, da aceitação de testemunhos em transações financeiras e assuntos semelhantes. Portanto, a opinião de Abu Thawr é a mais preponderante.

6. A diferença entre os locais de avistamento da lua

Segundo a maioria dos sábios, a diferença entre os locais de avistamento da lua não é considerada. Portanto, quando uma pessoa avista a lua, jejuar torna-se obrigatório para todas as pessoas. Pois o Mensageiro de Allah disse: “Jejuai ao avistardes a lua e interrompei o jejum ao avistardes a lua.” Essa ordem aplica-se a toda a comunidade. Assim, se um muçulmano avistar a lua em qualquer lugar, isso equivalerá ao avistamento da lua por todos os muçulmanos.

Entretanto, a opinião de Ikrimah, Qasim ibn Muhammad, Salim, Ishaq, a posição autêntica dos hanafitas e a opinião preponderante dos shafiitas é a seguinte: o avistamento da lua pelos habitantes de cada país só é considerado para eles. O avistamento da lua em outro país não é obrigatório para eles. Com efeito, Kuraib relatou: eu fui à Síria. Lá, avistei a lua nova de Ramadan na noite de sexta-feira. Depois, no fim do mês, fui a Medina. Ibn Abbas perguntou-me: quando avistastes a lua? Respondi: avistamo-la na noite de sexta-feira. Ele perguntou: tu a viste? Respondi: sim, eu a vi, e as pessoas também a viram. Todos jejuaram. Muawiya também jejuou. Ele disse: mas nós avistamos a lua na noite de sábado. Portanto, continuaremos jejuando até avistarmos a lua ou completarmos trinta dias de jejum. Eu disse: não consideras suficiente o avistamento da lua por Muawiya e o jejum dele? Ele respondeu: não. Foi assim que o Mensageiro de Allah nos ordenou.” — Ahmad, Muslim, al-Tirmidhi.

Al-Tirmidhi disse: este hadith é bom e autêntico. Os sábios seguem este hadith em sua prática e consideram, para cada país, aceitável apenas o avistamento da lua pelos habitantes desse país. Na anotação de Bulugh al-Maram, intitulada Fath al-Allam, foi dito: a opinião mais aceitável é que, no país onde a lua foi avistada, isso será obrigatório para seus habitantes e para os habitantes das regiões adjacentes.

7. Aquele que vê sozinho a lua

Os juristas chegaram a um consenso de que é obrigatório jejuar para aquele que vê sozinho a lua. Contudo, Ata discordou e disse: ele não precisa jejuar até que outra pessoa, juntamente com ele, veja a lua. Há, porém, divergência quanto àquele que vê sozinho a lua de Shawwal. Entretanto, a opinião correta é que ele deve quebrar o jejum. Essa é a opinião de Shafi’i e Abu Thawr. Isso porque o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou jejuar e quebrar o jejum ao se ver a lua. Quando ele próprio a viu com certeza, e isso diz respeito à sua percepção, não há necessidade de que outra pessoa compartilhe disso com ele.

8. Os elementos obrigatórios do jejum

O jejum tem dois elementos obrigatórios pelos quais ele se constitui:

1. Abster-se de comer, beber e manter relações sexuais com a esposa desde o amanhecer até o pôr do sol. Allah, o Altíssimo, disse:

فالن بَاشِرُوهُنَّ وَابْتَغُوا مَا كَتَبَ الله لَكُم من وَكُلُوا وَاشْرَبُوا حَتَّى يَتَبَيَّنَ لَكُمُ الْخَيْةُ الأَبيض مِنَ الْخَيْطِ الأسود من الفجر من ثمَّ أَتِمُوا الصِّيَامَ إِلَى الَّيْلِ

“Agora, uni-vos às vossas esposas, buscai o que Allah vos determinou e comei e bebei até que a linha branca se distinga para vós da linha negra — isto é, até o amanhecer — e, então, completai o jejum até a noite.” (Surata Al-Baqara: versículo 182)

A linha branca significa a faixa branca do dia, e a linha negra significa a escuridão da noite. Com efeito, foi narrado em Bukhari e Muslim: Adi ibn Abi Hatim disse: Depois que este versículo foi revelado, arranjei uma corda branca e outra corda negra e coloquei-as sob o meu travesseiro. Durante a noite, comecei a observá-las, mas nada ficava claro para mim. Pela manhã, fui até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e contei-lhe o ocorrido. Ele disse: A linha branca é a luz do dia, e a linha negra é a escuridão da noite.

2. Intenção: a segunda obrigação é ter a intenção de jejuar. Allah, o Altíssimo, diz:

وَمَا أَمِرُوا إِلَّا لِيَعْبُدُوا اللَّهِ مُخْلِصِينَ لَهُ الدِّينَ .

“Foi-lhes ordenado apenas que adorassem a Ele, dedicando-Lhe sinceramente a obediência.” (Surata Al-Baiyinah: versículo 5)

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “As ações são determinadas apenas pelas intenções, e cada pessoa terá somente aquilo que intencionou.” — Sahih Al-Bukhari.

É necessário formular a intenção em cada noite do Ramadã, antes do alvorecer [intenção significa decidir; tomar mentalmente a decisão de jejuar naquele dia. A fórmula que se costuma recitar em nosso país para a intenção não está de acordo com a Sunna. — Editor].

Hafsa, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Quem não decidir jejuar antes do alvorecer não terá jejum.” (Ahmad, Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i, Ibn Majah, Ibn Khuzaymah e Ibn Hibban.) É válido formular a intenção em qualquer momento da noite. Não é necessário pronunciá-la em voz alta, pois ela é uma ação do coração; a língua não tem nenhuma função nela. A essência da intenção é decidir realizar uma ação para obter a satisfação de Allah e cumprir a Sua ordem. Portanto, aquele que come o sahur com a intenção de jejuar e deseja aproximar-se de Allah por meio do autocontrole já formulou a intenção. E, se alguém não comer o sahur, mas estiver sinceramente decidido, por Allah, a abster-se durante o dia de tudo o que invalida o jejum, sua intenção também será válida. Muitos juristas disseram: é permitido formular a intenção do jejum voluntário durante o dia, desde que antes disso não tenha comido nem bebido.

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Certo dia, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, veio até mim e perguntou: ‘Vocês têm alguma coisa?’ Respondemos: ‘Não.’ Então ele disse: ‘Estou jejuando’ (comecei a jejuar).” — Muslim e Abu Dawud.

Segundo os hanafitas, é necessário formular a intenção antes do meio-dia. Essa também é a opinião mais conhecida de Ash-Shafi’i. Entre as duas opiniões de Ibn Mas’ud e Ahmad, a mais conhecida é que, sempre que a intenção for formulada, antes ou depois do meio-dia, será suficiente.

9. Sobre quem o jejum é obrigatório

Os eruditos concordam que o jejum é obrigatório para o muçulmano adulto, mentalmente são, saudável e residente em sua própria localidade. Para as mulheres, é condição estar livre da menstruação e do sangramento pós-parto. Portanto, o jejum não é obrigatório para o incrédulo, o insano, a criança, o enfermo, o viajante, a mulher menstruada ou em estado pós-parto, a grávida, a mãe que amamenta e o idoso muito avançado. Entre eles, há aqueles para quem o jejum não é absolutamente obrigatório, como o incrédulo e o insano. Há outros cujos responsáveis devem ordenar-lhes que jejuem. Para alguns, é permitido quebrar o jejum temporariamente e depois compensá-lo; outros quebram o jejum e oferecem fidya. Os detalhes dessas categorias são apresentados separadamente a seguir:

10. O jejum do incrédulo e do insano

O jejum é um ato de adoração do Islã. Portanto, não é obrigatório para os não muçulmanos. A regra do jejum também não se aplica ao insano, pois ele está privado da razão e do entendimento dos quais depende a atribuição de responsabilidades. Há um hadith narrado por Ali, que Allah esteja satisfeito com ele: o Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, disse: “A pena foi suspensa para três pessoas: o insano, até recuperar sua consciência e razão; o adormecido, até despertar; e a criança, até atingir a idade adulta.” — Ahmad, Abu Dawud e at-Tirmidhi.

11. O jejum da criança

Embora o jejum não seja obrigatório para a criança, seu responsável deve ordenar-lhe que jejue, para que adquira o hábito desde pequena. Contudo, sua capacidade é uma condição para isso.
Foi narrado por ar-Rubaiy bint Mu’awwidh que, na manhã do dia de Ashura, o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, enviou uma mensagem às aldeias dos Ansar: quem estivesse jejuando deveria completar o jejum, e quem tivesse quebrado o jejum deveria jejuar pelo restante do dia. Desde então, jejuávamos nesse dia, fazíamos nossos filhos pequenos jejuarem e íamos à mesquita; depois, fazíamos para eles brinquedos de lã. Quando algum deles chorava querendo comer, dávamos-lhe esses brinquedos, para que se distraísse até o iftar. — Bukhari e Muslim.

12. Aqueles a quem é permitido quebrar o jejum e que devem oferecer fidya

É permitido ao homem e à mulher muito idosos quebrarem o jejum. Da mesma forma, ao enfermo cuja recuperação não é esperada e àqueles ocupados em trabalhos extremamente árduos, que não têm outra oportunidade de ganhar o sustento senão por meio desse trabalho. Quando jejuar em todas as estações do ano se torna excessivamente difícil para essas categorias, é-lhes permitido quebrar o jejum. Contudo, devem alimentar uma pessoa pobre por cada dia. Não há instrução clara quanto à quantidade dessa alimentação.
Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: é permitido ao idoso muito avançado quebrar o jejum, mas, em compensação, deve alimentar uma pessoa pobre por cada dia. Ele não precisa compensar os jejuns. — ad-Daraqutni e al-Hakim.

Al-Bukhari narrou de Ata que ele ouviu Ibn Abbas recitar este versículo:

“Aqueles para quem jejuar é extremamente penoso devem alimentar um necessitado” (Surata Al-Baqara: 184). Ibn Abbas disse: Este versículo não foi ab-rogado. Ele se aplica aos homens e mulheres extremamente idosos que não têm capacidade para jejuar. Em vez disso, devem alimentar um necessitado. (Segundo o imame Malik e Ibn Hazm, não precisam pagar fidya nem repor os jejuns.) Quanto ao doente que não tem esperança de cura e para quem jejuar é extremamente penoso, sua regra é a mesma que a do idoso. Não há diferença. O mesmo se aplica aos trabalhadores envolvidos em trabalho árduo.

O xeique Muhammad Abduh disse: A expressão do versículo “aqueles para quem jejuar é penoso” refere-se aos extremamente idosos, aos doentes sem esperança de cura e, de modo semelhante, aos trabalhadores submetidos a trabalho árduo, como os empregados nas minas de carvão. Também estão incluídos entre eles os condenados que são mantidos em trabalhos forçados por toda a vida. Se jejuar for realmente penoso para eles e forem capazes de pagar a fidya, é permitido que quebrem o jejum.

Gestantes e mães que amamentam: essas duas categorias só podem quebrar o jejum quando temerem pela própria vida ou pela vida de seus filhos (com base em suposição, experiência ou relatório médico). Devem pagar a fidya, mas não precisam repor os jejuns. Esta é a opinião de Ibn Umar e Ibn Abbas.

Abu Dawud narrou, por intermédio de Ikrimah, que Ibn Abbas disse: Neste versículo, foi permitido ao homem e à mulher extremamente idosos, mesmo que fossem capazes de jejuar, quebrar o jejum, sob a condição de alimentar um necessitado a cada dia. Quanto à gestante e à mulher que amamenta, se temerem pela vida da criança, quebrarão o jejum e a alimentarão. — Al-Bazzar. Ibn Abbas dizia a uma de suas escravas grávidas: “Você é uma das incapazes. Portanto, pague a fidya. Não precisa repor os jejuns.”

Foi narrado por Nafi que, quando Ibn Umar foi questionado sobre a gestante, ele disse: Se ela temer pela vida da criança, quebrará o jejum e dará, a cada dia, um mudd de trigo a um necessitado. — Malik e Al-Bayhaqi.

Em outro hadith, foi dito: Deus Todo-Poderoso isentou o viajante do jejum e da metade da oração, e a gestante e a mulher que amamenta do jejum.

Segundo os juristas hanafitas, Abu Ubayd e Abu Thawr, a mulher que amamenta e a gestante não devem pagar fidya; devem apenas repor os jejuns. Segundo Al-Shafi’i e Ahmad, se elas temerem somente pela vida da criança, quebrarão o jejum e deverão tanto repor os jejuns quanto pagar a fidya. Mas, se temerem somente pela própria vida ou pela vida delas e da criança ao mesmo tempo, deverão apenas repor os jejuns, sem pagar fidya.

13. Aqueles que têm permissão para quebrar o jejum e para quem é obrigatório compensá-lo

É permitido quebrar o jejum à pessoa doente que tem esperança de se recuperar e ao viajante, e ambos devem compensar os jejuns. Allah diz:

وَمَنْ كَانَ مِنْكُمْ مَرِيضًا أَوْ عَلَى سَفَرٍ فَعِدَّةٌ مِنْ أَيَّامٍ أُخَرَ –

“Quem de vós estiver doente ou em viagem deverá jejuar o mesmo número de dias posteriormente.” (Surata Al-Baqarah: versículo 185)

Ahmad, Abu Dawud e Al-Bayhaqi narram, sob a autoridade de Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele), que Allah, o Altíssimo, tornou o jejum obrigatório para o Seu Profeta e revelou:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُتِبَ عَلَيْكُمُ الصِّيَامُ كَمَا كُتِبَ عَلَى الَّذِينَ مِن قَبْلِكُمْ .

“Ó crentes! O jejum foi prescrito para vós, assim como foi prescrito para aqueles que vos precederam” até “E aqueles para quem o jejum é extremamente penoso devem oferecer, como expiação, a alimentação de um necessitado.” Por isso, quem quisesse jejuava, e quem quisesse alimentava um necessitado.

Isso lhe era suficiente. Depois, Allah revelou outro versículo:

عمر رَمَضَانَ الَّذِي أُنْزِلَ فِيهِ الْقُرْآنَ إِلَى قَوْلِهِ : فَمَنْ شَونَ مِنْكُمُ الشَّهْرَ فَلْيَصُهُ .

“O mês de Ramadan, no qual Allah revelou o Alcorão” até “Portanto, quem dentre vós presenciar este mês, deverá jejuar.” (Surata Al-Baqara: versículo 185)

Assim, Ele tornou obrigatório o jejum para a pessoa saudável e residente. Concedeu isenção ao doente e ao viajante, e ordenou alimentar um necessitado em favor do idoso incapaz de jejuar.” Quando a doença se agrava, e há receio de que o jejum a agrave ainda mais ou atrase a recuperação, concede-se isenção do jejum por causa dessa doença. (O agravamento da doença ou o atraso da recuperação pode ser constatado por experiência, suposição ou pela opinião de um médico confiável.)

Em Al-Mughni, afirma-se que alguns sábios antigos permitiram quebrar o jejum por qualquer doença, até mesmo por dor no dedo ou no dente. Isso porque o versículo menciona a doença por meio de uma expressão de sentido abrangente. E, uma vez que foi concedida ao viajante a permissão de quebrar o jejum mesmo quando não precisava fazê-lo, o mesmo se aplica ao doente. Esta é a posição de Bukhari, Ata e da escola Zahiri. Da mesma forma, a pessoa saudável que teme adoecer caso jejue pode quebrar o jejum como o doente. Igualmente, para aquele que fica tão debilitado pela fome e pela sede a ponto de temer pela própria vida, é obrigatório quebrar o jejum, ainda que seja saudável e residente. Contudo, deverá compensá-lo. Allah, o Altíssimo, disse:

وَلَا تَقْتُلُوا أَنْفُسَكُمْ إِنَّ اللهَ كَانَ بِكُمْ رَحِيمًا .

“Não vos mateis. Certamente, Allah é Misericordioso convosco.” (Surata 4, An-Nissa: versículo 29)

Allah também disse:

وَمَا جَعَلَ عَلَيْكُم في الدين من حرج .

“Allah não vos impôs nenhuma dificuldade na religião.” (Surata Al-Hajj: versículo 78).

Quando o doente jejua com dificuldade, seu jejum é válido. Contudo, isso é makruh, pois ele está deixando de aceitar a concessão preferida por Allah. Além disso, isso pode prejudicá-lo. Durante a época do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), alguns Companheiros jejuavam conforme sua orientação, enquanto outros quebravam o jejum.

Hamza al-Aslami disse: “Ó Mensageiro de Allah, sinto que tenho capacidade para jejuar durante a viagem. Há algum problema em eu jejuar?” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) respondeu: “Isso é uma concessão concedida por Allah. Aceitá-la é bom; não aceitá-la também não causa prejuízo.” — Sahih Muslim.

Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: “Partimos com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) em uma expedição a Meca. Estávamos jejuando. Depois, paramos em um lugar para descansar. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: ‘Vocês se aproximaram do inimigo. Se quebrarem o jejum agora, terão mais força.’ Contudo, isso era uma concessão. Por isso, alguns de nós jejuaram e outros quebraram o jejum. Mais tarde, paramos novamente em outro lugar para descansar. Então ele disse: ‘Amanhã de manhã vocês estarão frente a frente com o inimigo. Se quebrarem o jejum, terão mais força. Portanto, quebrem o jejum.’ Isso era uma ordem obrigatória. Por isso, quebramos o jejum. Depois, vi que, durante a viagem, jejuamos com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz).” — Ahmad, Muslim e Abu Dawud.

Também foi relatado por Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele): “Durante o Ramadã, íamos combater com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz); alguns de nós jejuavam e outros não. Os que jejuavam não censuravam os que não jejuavam, nem os que não jejuavam censuravam os que jejuavam por isso. Todos consideravam que aquele que se sentia capaz e jejuava agia bem, e que aquele que se sentia fraco e quebrava o jejum também agia bem.” — Ahmad e Muslim.

Os juristas divergiram sobre qual das duas opções é melhor. Segundo Abu Hanifa, al-Shafi’i e Malik, para quem tem capacidade, jejuar é melhor; e para quem não tem capacidade, não jejuar é melhor. Segundo Ahmad, não jejuar é melhor.

Umar ibn Abd al-Aziz disse: O que é mais fácil é melhor. Para aquele para quem jejuar imediatamente

e difícil compensar depois, jejuar é melhor. Al-Shawkani disse: Para aquele para quem jejuar é difícil e prejudicial, e que não deseja aceitar a concessão, não jejuar é melhor. E para aquele que teme envolver-se em ostentação ou orgulho ao jejuar durante a viagem, não jejuar é melhor. Quando não há esse temor ao jejuar, então jejuar é melhor. Se o viajante formular à noite a intenção de jejuar e iniciar o jejum, é permitido que o quebre durante o dia.

Foi narrado por Jabir ibn Abdullah: no ano da conquista de Meca, o Mensageiro de Allah partiu em direção a Meca e jejuou. Quando chegou ao vale de Ghamim, os demais que estavam com ele também jejuavam. Foi-lhe dito que as pessoas estavam sofrendo por causa do jejum. As pessoas estavam refletindo sobre o jejum que haviam iniciado. Então, depois da oração da tarde, o Mensageiro de Allah mandou trazer um recipiente com água e bebeu. Todos observavam aquela cena. Alguns deles interromperam o jejum, enquanto outros continuaram jejuando. O Mensageiro de Allah ficou sabendo que algumas pessoas continuavam jejuando e disse: “Eles desobedeceram.” (Pois ele havia ordenado que interrompessem o jejum, mas eles desobedeceram a essa ordem.) — Muslim, Nasai e Tirmidhi.

Porém, se alguém formular a intenção de jejuar enquanto estiver residente e depois viajar durante o dia, a maioria dos sábios considera que não lhe é permitido interromper o jejum. Segundo Ahmad e Ishaq, isso é permitido.
Tirmidhi narrou de Muhammad ibn Ka’b: “No Ramadã, fui até Anas ibn Malik, que estava se preparando para viajar. Ele já havia tomado todas as providências para a viagem e até vestido as roupas de viagem. De repente, mandou trazer comida e comeu. Eu lhe perguntei: ‘Isto é uma Sunnah do Mensageiro?’ Ele respondeu: ‘Sim, é uma Sunnah.’ Então partiu.” Tirmidhi disse que o hadith é hasan.

Foi narrado por Ubayd ibn Jubayr, que disse: no mês do Ramadã, embarquei em um barco na cidade de Fustat, no antigo Egito, com Abu Basra al-Ghifari. Abu Basra empurrou o barco e o fez partir; depois ofereceu comida e disse: “Venha.” Eu disse: “Você ainda não saiu dos limites da cidade?” Abu Basra respondeu: “Você está ignorando a Sunnah do Mensageiro de Allah?” — Ahmad e Abu Dawud.

Al-Shawkani disse: estes dois hadiths provam que o viajante pode interromper o jejum antes mesmo de sair da localidade de onde pretende iniciar a viagem.

Ibn al-Arabi disse: o hadith de Anas é autêntico, e é permitido interromper o jejum assim que se toma a decisão de viajar. Ele disse: esta é a opinião correta. É permitido interromper o jejum na viagem em que é permitido encurtar as orações. Da mesma forma, pelo mesmo período em que é permitido continuar encurtando as orações ao fazer uma parada em algum lugar, também é permitido interromper o jejum. Isso já foi discutido em detalhes no capítulo sobre o encurtamento das orações.

Ahmad, Abu Dawud, Bayhaqi e Tahawi narraram de Mansur al-Kalbi: certa vez, no Ramadã, Dihya ibn Khalifa partiu de uma localidade de Damasco para um lugar situado aproximadamente a um farsakh, isto é, cerca de oito quilômetros de distância, e interrompeu o jejum, juntamente com um grupo de seus companheiros. Porém, os demais não quiseram interromper o jejum. Depois, ao retornar à sua localidade, ele disse: “Juro por Allah, hoje vi algo que jamais imaginei que veria. Um grupo ignorou a prática seguida pelo Mensageiro de Allah e por seus Companheiros.” Ele disse isso a respeito daqueles que haviam continuado jejuando. Em seguida, disse: “Ó Allah, leva-me para junto de Ti.”

Todos os narradores deste hadith são confiáveis, exceto Mansur al-Kalbi, que é o único narrador questionado. Contudo, segundo al-Ijli, Mansur al-Kalbi também é confiável.

14. Aqueles para quem são obrigatórios tanto interromper o jejum quanto compensá-lo
Os juristas estão de acordo: é proibido jejuar durante a menstruação e o sangramento pós-parto. Se alguém jejuar nesse período, o jejum será inválido. Contudo, os jejuns desses dias deverão ser compensados posteriormente.

Al-Bukhari e Muslim narraram que Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: No tempo do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, éramos ordenadas a compensar os jejuns perdidos durante a menstruação, mas não éramos ordenadas a compensar as orações.

15. Os dias em que é proibido jejuar

Os dias em que os hadith proibiram explicitamente o jejum são os seguintes:

1. É proibido jejuar nos dois dias de Eid: Os eruditos são unânimes em afirmar que é haram jejuar nos dois dias de Eid, qualquer que seja a intenção, obrigatória ou voluntária. Isso porque Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibiu jejuar nesses dois dias. O dia do Eid al-Fitr é o dia em que interrompeis o jejum do Ramadã. E no dia do Eid al-Adha comeis a carne do vosso sacrifício.” — Ahmad e as quatro outras coleções de hadith autênticos.

2. É proibido jejuar nos Ayyam al-Tashriq: Também é proibido jejuar de qualquer forma durante os três dias seguintes ao Eid al-Adha. Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou Abdullah ibn Hudhafa para anunciar, percorrendo Mina: “Não jejueis nestes dias, pois eles são dias de comer, beber e recordar Allah.” — Ahmad.
At-Tabarani narrou, por intermédio de Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ambos: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou um mensageiro para proclamar em voz alta: Não jejueis nestes dias, pois eles são dias de comer, beber e ter relações conjugais.”

Entretanto, os imames da escola shafiita permitiram jejuar nos Ayyam al-Tashriq para cumprir um voto, uma expiação ou a compensação de um jejum. Mas jejuar nesses dias sem necessidade — isto é, apenas com a intenção de realizar um jejum voluntário — é unanimemente proibido. Segundo eles, isso é semelhante à oração, que é permitida em horários proibidos quando há uma necessidade equivalente.

3. É proibido jejuar somente na sexta-feira: A sexta-feira é o Eid semanal dos muçulmanos. Por isso, a Sharia proibiu jejuar nesse dia. Contudo, segundo a maioria dos eruditos, essa proibição não significa que seja haram, mas sim makruh, quando se escolhe especificamente apenas esse dia para jejuar. Porém, se for jejuado também um dia antes ou um dia depois, ou se a sexta-feira coincidir com o dia habitual de jejum da pessoa, ou se esse dia for o Dia de Arafah ou de Ashura, então jejuar na sexta-feira não será makruh. Segundo o Imam Malik e Abu Hanifa, jejuar na sexta-feira não é makruh em nenhuma circunstância.

Foi narrado por Abdullah ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi à casa da Mãe dos Crentes, Juwayriya bint al-Harith. Era sexta-feira, e Juwayriya estava jejuando. Ele lhe perguntou: “Jejuaste ontem?” Juwayriya respondeu: “Não.” Ele perguntou: “Pretendes jejuar amanhã?” Juwayriya respondeu: “Não.” Então o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Nesse caso, interrompe o teu jejum.” — Ahmad, An-Nasa’i.
Amir al-Ashari, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: “A sexta-feira é o vosso dia de Eid. Portanto, não jejueis nesse dia. Contudo, se jejuardes um dia antes ou um dia depois, podeis jejuar também nesse dia.” — Al-Bazzar; a cadeia de transmissão é hasan.

Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Se algum de vocês quiser observar um jejum voluntário, que jejue na quinta-feira e não jejue na sexta-feira, pois a sexta-feira é um dia de comer, beber e recordar Allah.” — Ibn Abi Shaybah.
Foi narrado por Bukhari e Muslim, a partir de Jabir, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não jejuem somente na sexta-feira, a menos que jejuem um dia antes ou um dia depois dela.” Em uma versão de Muslim, consta: “Não reservem a noite de sexta-feira, dentre as demais noites, para a oração, nem reservem o dia de sexta-feira, dentre os demais dias, para o jejum. Contudo, se a sexta-feira coincidir com o dia habitual de jejum de algum de vocês, não há mal nisso.”

4. Reservar exclusivamente o sábado para o jejum: Foi narrado por Busr al-Sulami que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não jejuem aos sábados, exceto pelo jejum que vos foi tornado obrigatório.” (Se coincidir com o dia habitual, é permitido jejuar no Dia de Arafa, repor um jejum perdido, cumprir um voto ou observar um jejum voluntário.) “E, se algum de vocês não encontrar nada além da casca de uma uva ou de um pedaço de madeira, que o mastigue.” — Ahmad, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah.

Al-Tirmidhi disse: O sentido de ser censurável jejuar nesse dia é que não se deve reservar o sábado para o jejum, pois os judeus consideram o sábado um dia venerável.

A Mãe dos Crentes, Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, jejuava mais aos sábados e domingos do que nos outros dias. E dizia: ‘Esses dois dias são dias de festividade dos politeístas, e eu quero contrariá-los.’” — Ahmad, al-Bayhaqi, al-Hakim e Ibn Khuzaymah. Al-Hakim e Ibn Khuzaymah disseram que este é um hadith autêntico.

Com base nessas evidências, as escolas hanafita, shafi’ita e hanbalita consideram censurável jejuar exclusivamente no sábado. Porém, o Imam Malik não o considera censurável, com base no último hadith mencionado.

5. É proibido jejuar no dia duvidoso: Ammar ibn Yasir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Quem jejuar no dia duvidoso estará contrariando Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” — Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah.

Al-Tirmidhi disse: Este é um hadith autêntico e bom. Para a maioria dos sábios, esta é a opinião que deve ser seguida. Esta também é a opinião de Sufyan al-Thawri, Malik ibn Anas, Abdullah ibn al-Mubarak, al-Shafi’i, Ahmad e Ishaq. Todos eles consideram censurável jejuar no dia duvidoso. Segundo a maioria deles, se alguém jejuar nesse dia e ficar comprovado que ele era um dia do Ramadã, deverá repor um dia de jejum em seu lugar. Porém, se tiver jejuado conforme seu hábito habitual, seu jejum será válido e não será censurável. Segundo a opinião dos hanafitas, se ficar comprovado que aquele dia era do Ramadã, o próprio jejum será suficiente para ele.

Foi narrado por Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não jejuem um ou dois dias antes do jejum do Ramadã, salvo se for um jejum que alguém costuma observar; nesse caso, ele poderá jejuar.” — Narrado por todas as coletâneas de hadith autênticas.

Tirmidhi disse: “Este hadith é autêntico e bom, e é seguido pelos eruditos.” Eles consideram makruh que alguém, por reverência ao Ramadã, se apresse em começar a jejuar antes da chegada do Ramadã. Porém, se alguém estiver habituado a jejuar em determinado dia e esse dia coincidir ocasionalmente com aquele dia, não há objeção.

6. É proibido jejuar o ano inteiro: É haram jejuar durante todo o ano, incluindo os dias em que o jejum é proibido. Isso porque o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que jejuar o ano inteiro não terá jejuado de fato.” — Ahmad, Bukhari e Muslim.

Contudo, se ele interromper o jejum nos dois dias do Eid e nos dias de Tashriq, jejuando nos dias restantes, não será makruh jejuar dessa maneira durante todo o ano, desde que o jejuador tenha capacidade física para jejuar o ano inteiro.
Tirmidhi disse: Um grupo de eruditos considerou makruh jejuar o ano inteiro sem interromper o jejum no Eid al-Fitr, no Eid al-Adha e nos dias de Tashriq. Se interromper o jejum nesses dias, não será makruh jejuar no restante do ano. Essa também é a opinião de Malik, Shafi‘i, Ahmad e Ishaq. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aprovou o jejum contínuo de Hamzah al-Aslami, dizendo: “Se quiseres, jejua; e, se quiseres, interrompe o jejum.”

7. A esposa jejuar voluntariamente sem a permissão do marido enquanto ele está em casa: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu a esposa de jejuar voluntariamente sem a permissão do marido enquanto ele estivesse em casa. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Enquanto o marido estiver em casa, a esposa não deve jejuar nenhum jejum além do Ramadã sem a sua permissão.” — Ahmad, Bukhari e Muslim. Os eruditos consideraram a proibição do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como equivalente a declarar tal ato haram, e entenderam que, se a esposa jejuar sem a sua permissão, é permitido ao marido fazê-la interromper o jejum, pois, ao agir assim, ela usurpou um direito dele. Deve-se, porém, lembrar que isso se aplica aos jejuns que não sejam o do Ramadã, pois o jejum obrigatório do Ramadã não depende da permissão do marido. Ela pode jejuar sem a sua permissão mesmo quando ele não está em casa. Se ele voltar para casa, poderá fazê-la interromper o jejum. Mesmo que o marido esteja doente e incapaz de manter relações sexuais enquanto estiver em casa, ainda assim é ilícito para a esposa jejuar sem a sua permissão.

16. É proibido jejuar continuamente

Jejuar continuamente, sem fazer a refeição do suhur nem quebrar o jejum ao iftar, é chamado sawm al-wisal, ou jejum contínuo.

1. Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cuidado! Não jejueis continuamente” — repetiu isso três vezes. As pessoas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, vós jejuais continuamente!” Ele respondeu: “Neste aspecto, não sois como eu. Meu Senhor me alimenta e me dá de beber durante toda a noite.” (Isto é, concede-me a força de quem come e bebe.) Portanto, assumais apenas as responsabilidades que sois capazes de cumprir. — Bukhari e Muslim. Os juristas consideraram essa proibição equivalente à classificação do ato como makruh. Ahmad, Ishaq e Ibn al-Mundhir permitiram que o jejuador mantivesse o jejum continuamente até o suhur, desde que isso não lhe causasse grande dificuldade. Isso porque Bukhari narrou, por meio de Abu Sa‘id al-Khudri, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não jejueis continuamente. Contudo, se alguém quiser fazê-lo, que continue até o suhur.”

17. Os jejuns voluntários que são uma sunnah

O Mensageiro de Allah (s.a.w.) tinha grande empenho em observar os seguintes jejuns:

Os seis jejuns de Shawwal: todos os principais livros autênticos de hadith, exceto Bukhari e Nasai, narram de Abu Ayyub Ansari (r.a.) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Quem jejuar durante o Ramadan e depois jejuar seis dias de Shawwal será como quem jejuou o ano inteiro.” Isso se aplica àquele que jejua o Ramadan todos os anos. Os eruditos disseram: cada boa ação vale dez vezes a recompensa. Em troca do mês de Ramadan, são dez meses; e, em troca dos seis dias de Shawwal, dois meses.

Segundo o Imam Ahmad, os seis jejuns de Shawwal são válidos quer sejam observados consecutivamente, quer com intervalos. Isso não altera sua virtude. Contudo, segundo os hanafitas e os shafiitas, é melhor observá-los consecutivamente, imediatamente após o Eid.

O jejum do dia de Arafah para quem não está realizando o Hajj:

1. Abu Qatadah (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “O jejum do dia de Arafah expia os pecados do ano anterior e do ano seguinte. E o jejum de Ashura expia os pecados do ano anterior.” — Todos os principais livros autênticos de hadith, exceto Bukhari e Tirmidhi.

2. Hafsah (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) nunca deixava quatro coisas: o jejum de Ashura; o jejum dos dez dias de Dhu al-Hijjah (isto é, dos nove primeiros dias); o jejum de três dias de cada mês; e as duas rak‘ahs de oração antes do desjejum pela manhã (Ishraq). Ahmad e Nasai.

3. Uqbah ibn Amir (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “O dia de Arafah, o dia do Sacrifício e os dias de Tashriq são nossos dias de Eid, muçulmanos; são dias de comer e beber.” — Todos os principais livros autênticos de hadith restantes, exceto Ibn Majah.

4. Abu Hurayrah (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) proibiu aquele que permanecia na planície de Arafah de jejuar. — Ahmad, Abu Dawud, Nasai e Ibn Majah.

At-Tirmidhi disse: Segundo os eruditos, o jejum do dia de Arafah é recomendado em todos os lugares, exceto em Arafah.

5. Foi narrado por Umm al-Fadl que as pessoas estavam em dúvida se o Mensageiro de Allah jejuava no dia de Arafah. Enviei-lhe um pouco de leite. Naquele momento, ele estava proferindo um sermão na planície de Arafat. Bebeu o leite enquanto proferia o sermão. — Al-Bukhari e Muslim.

A importância do jejum de Muharram e de Ashura:

1. Foi narrado por Abu Hurayrah que perguntaram ao Mensageiro de Allah: “Qual oração é melhor depois das orações obrigatórias?” Ele respondeu: “A oração no meio da noite.” Perguntaram: “Qual jejum é melhor depois do jejum do Ramadan?” Ele respondeu: “O mês de Allah, que vocês chamam de Muharram.” — Ahmad, Muslim e Abu Dawud.

2. Foi narrado por Mu’awiyah ibn Abi Sufyan: Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: “Hoje é o dia de Ashura. O jejum deste dia não foi prescrito como obrigatório para vocês. Eu estou jejuando. Quem quiser pode jejuar. Quem quiser pode jejuar. E quem quiser pode não jejuar.” — Al-Bukhari e Muslim.

3. Aisha disse: “No dia de Ashura, os coraixitas jejuavam durante a época da ignorância. O Mensageiro também jejuava. Quando chegou a Medina, continuou jejuando e ordenou que se jejuasse. Depois, quando o jejum do Ramadan foi tornado obrigatório, disse: ‘Quem quiser pode jejuar no dia de Ashura; quem quiser pode não jejuar.’” — Al-Bukhari e Muslim.

4. Foi narrado por Ibn Abbas: “O Mensageiro de Allah chegou a Medina e viu que os judeus jejuavam no dia de Ashura. Ele perguntou: ‘O que é isso?’ Eles responderam: ‘É um dia grandioso; nesse dia, Allah salvou Moisés e os Filhos de Israel das mãos dos seus inimigos. Por isso, Moisés jejuava nesse dia.’ O Mensageiro disse: ‘Eu tenho mais direito a Moisés do que vocês.’ Então jejuou nesse dia e ordenou a todos que jejuassem.” — Al-Bukhari e Muslim.

5. Foi narrado por Abu Musa al-Ashari: “Os judeus veneravam muito o dia de Ashura e celebravam uma festividade nesse dia. O Mensageiro de Allah disse aos muçulmanos: ‘Jejuem neste dia.’” — Al-Bukhari e Muslim.

6. Ibn Abbas (r.a.) narrou: Quando o Mensageiro de Allah (s.a.w.) jejuou no dia de Ashura e ordenou que os outros também jejuassem, as pessoas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, os judeus e os cristãos veneram este dia.” Ele disse: “No próximo ano, se Allah quiser, jejuaremos também no nono dia.” Ibn Abbas disse: Antes que chegasse o ano seguinte, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) faleceu. — Muslim e Abu Dawud.

Em outra narração, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Se eu viver até o próximo ano, certamente jejuarei também no nono dia (isto é, junto com o décimo).” — Ahmad e Muslim.

Os sábios mencionaram que o jejum do dia de Ashura é de três tipos: primeiro, jejuar três dias: o nono, o décimo e o décimo primeiro de Muharram; segundo, jejuar dois dias: o nono e o décimo de Muharram; terceiro, jejuar somente o décimo de Muharram.

Gastar mais com a família no dia de Ashura: Jابر ibn Abdullah (r.a.) narrou que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Quem gastar mais consigo mesmo e com sua família no dia de Ashura, Allah lhe concederá prosperidade durante todo o ano.” — Bayhaqi.

Passar a maior parte do mês de Sha’ban jejuando: O Mensageiro de Allah (s.a.w.) jejuava durante a maior parte do mês de Sha’ban. Aisha (r.a.) disse: “Nunca vi o Mensageiro (s.a.w.) jejuar um mês inteiro, exceto o mês de Ramadan. E nunca o vi jejuar mais em nenhum mês do que no mês de Sha’ban.” — Bukhari e Muslim.

Foi narrado por Usama ibn Zayd (r.a.) que ele disse: Eu falei: “Ó Mensageiro de Allah, nunca o vi jejuar tanto em nenhum mês quanto no mês de Sha’ban.” O Mensageiro (s.a.w.) disse: “As pessoas são negligentes em relação a este mês, que fica entre Rajab e Ramadan. Neste mês, as ações das pessoas são apresentadas ao Senhor dos mundos. Por isso, desejo que minhas ações sejam apresentadas enquanto estou jejuando.” — Abu Dawud e Nasa’i.

Não há nenhuma prova autêntica que sustente considerar o jejum no meio de Sha’ban mais meritório do que o dos outros dias ou distingui-lo.

O jejum nos meses sagrados: Os meses sagrados são quatro: Dhu al-Qi’dah, Dhu al-Hijjah, Muharram e Rajab. É mustahabb jejuar bastante nesses meses.

Foi narrado por um homem da tribo de Bahila: Ele foi até o Mensageiro de Allah (s.a.w.) e disse: “Ó Mensageiro de Allah, estive com você no ano passado.” O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Por que você mudou tanto? Seu corpo e seu rosto eram bonitos.” Ele respondeu: “Desde o último dia em que o encontrei, não comi nenhum alimento durante o dia, apenas à noite.” O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Por que você se afligiu assim?” Jejue o mês da paciência (isto é, o mês de Ramadan) e jejue um dia de cada mês.” Ele disse: “Permita-me aumentar isso; tenho capacidade.” O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Jejue dois dias de cada mês.” Ele disse: “Permita-me aumentar um pouco mais.” O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Jejue alguns dias nos meses sagrados e deixe de jejuar em alguns deles” — repetiu isso três vezes. Ele juntou três dedos uma vez e depois os separou novamente (isto é, indicou jejuar três dias e depois deixar de jejuar por três dias). — Ahmad, Abu Dawud e Ibn Majah.

O jejum no mês de Rajab só tem, em comparação com os outros meses, a particularidade de ser um mês proibido e honrado. Não há prova, em nenhum hadith autêntico, de que o jejum neste mês tenha algum mérito especial. O que se encontra não é digno de ser apresentado como prova. Ibn Hajar disse: Não há nenhum hadith autêntico sobre algum mérito especial deste mês, nem sobre o mérito de jejuar algum dia específico dele ou de realizar a oração noturna nele.
Jejum às segundas e quintas-feiras: Abu Huraira (r.a.) narrou que os dias em que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) jejuava com maior frequência eram segunda-feira e quinta-feira. Quando lhe perguntaram o motivo, ele disse: Às segundas e quintas-feiras, as obras praticadas pelas pessoas são apresentadas a Allah. Então, Allah perdoa todo muçulmano — ou, segundo outra formulação, todo crente. Contudo, não perdoa os dois crentes que deixaram de falar um com o outro. Allah diz: Adiem a decisão a respeito desses dois. — Ahmad. Em Muslim consta: “O Mensageiro (s.a.w.) foi perguntado sobre o jejum de segunda-feira. Ele respondeu: Nesse dia nasci e nesse dia foi enviada a revelação para mim.”

Jejuar três dias de cada mês: Abu Dharr al-Ghifari (r.a.) disse: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) nos recomendou jejuar, todos os meses lunares, durante os três dias de Ayyam al-Bid, isto é, nos dias treze, quatorze e quinze, e disse: Isso equivale a jejuar o ano inteiro. — An-Nasa’i.”

Também foi narrado que o Mensageiro (s.a.w.) jejuava aos sábados, domingos e segundas-feiras em um mês, e às terças, quartas e quintas-feiras no mês seguinte. Há hadiths segundo os quais ele jejuava três dias a partir do primeiro dia de cada mês. Há também hadiths que relatam que ele jejuava na quinta-feira, no primeiro dia do mês, na segunda-feira seguinte e na segunda-feira posterior.

Jejuar um dia e não jejuar no dia seguinte: Abdullah ibn Amr (r.a.) disse: “O Mensageiro de Allah (s.a.w.) me disse: Soube que passas todas as noites em oração e jejuas durante o dia? Respondi: Ó Mensageiro de Allah, é verdade. Ele disse: Jejua às vezes e não jejues outras vezes; ora algumas vezes e dorme outras. Pois o teu corpo tem direitos sobre ti, tua esposa tem direitos sobre ti e teu hóspede tem direitos sobre ti. Jejuar três dias por mês é suficiente para ti. Então pedi algo mais rigoroso, e ele tornou isso mais rigoroso para mim. Eu disse: Sinto que tenho capacidade para isso. Ele disse: Então jejua três dias a partir de cada sexta-feira. Depois pedi algo ainda mais rigoroso, e ele tornou isso mais rigoroso. Eu disse: Ó Mensageiro de Allah, sinto que tenho capacidade para isso. Ele disse: Observa o jejum do profeta de Allah, Davi, e não faças mais do que isso. Perguntei: Ó Mensageiro de Allah, como era o jejum de Davi (a.s.)? Ele respondeu: Ele jejuava um dia e não jejuava no dia seguinte. — Ahmad e outros. Também foi narrado de Abdullah ibn Amr que o Mensageiro (s.a.w.) disse: O jejum mais amado por Allah é o jejum de Davi (a.s.), e a oração mais amada por Allah era a oração de Davi (a.s.). Ele dormia às vezes metade da noite, às vezes um sexto da noite, e passava um terço dela em oração. Jejuava um dia e não jejuava no dia seguinte.”

18. É permitido quebrar o jejum voluntário

1. Umm Hani (r.a.) disse: O Mensageiro de Allah (s.a.w.) veio à minha casa no ano da conquista de Meca. Foi-lhe oferecida uma bebida, da qual ele bebeu. Depois, ofereceu-me a bebida. Eu disse: Estou jejuando. Ele respondeu: Quem pratica uma devoção voluntária tem liberdade quanto a si mesmo. Se quiseres, continua jejuando; se quiseres, quebra o jejum. — Ahmad e ad-Daraqutni.

2. Abu Juhaifa disse: O Mensageiro (s.a.w.) estabeleceu a fraternidade entre Salman e Abu ad-Darda. Certo dia, Salman foi à casa de Abu ad-Darda. Ele viu Umm ad-Darda (a esposa de Abu ad-Darda) vestida de maneira extremamente simples. Por isso, perguntou-lhe: O que aconteceu contigo? Umm ad-Darda respondeu: Teu irmão, Abu ad-Darda, não tem interesse em nada deste mundo. Logo depois, Abu ad-Darda chegou. Assim que chegou, providenciou comida para Salman. Então disse a Salman: Come, pois estou jejuando. Salman respondeu: Não comerei enquanto não comeres. Assim, ele comeu. Quando chegou a noite e Abu ad-Darda quis levantar-se para orar, Salman disse-lhe: Dorme. Então Abu ad-Darda dormiu. Ele quis levantar-se novamente, mas Salman disse: Dorme. Abu ad-Darda dormiu. Quando chegou o fim da noite, Salman disse: Agora levanta-te para orar. Então, ambos rezaram. Depois, Salman disse: Assim como teu Senhor tem direitos sobre ti, tu mesmo tens direitos sobre ti e tua família também tem direitos sobre ti. Portanto, concede a cada um o direito que lhe é devido. Depois disso, Abu ad-Darda contou o ocorrido ao Mensageiro (s.a.w.). O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: Salman falou a verdade. — Al-Bukhari e At-Tirmidhi.

3. Abu Sa’id al-Khudri (r.a.) disse: “Preparei comida para o Mensageiro de Allah (s.a.w.). Ele e seus companheiros vieram à minha casa. Quando a comida foi servida, alguém disse: Estou jejuando. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: Teu irmão convidou-vos e se esforçou por vós. Quebra hoje o jejum e jejua outro dia em seu lugar, se quiseres. — Al-Bayhaqi; cadeia de transmissão hassan.”

Com base nesses hadiths claros e autênticos, a maioria dos sábios considera permitido que quem esteja realizando um jejum voluntário o interrompa. Contudo, é recomendável que ele faça a reposição desse jejum.

19. Algumas regras recomendadas do jejum

É recomendável que a pessoa que jejua observe as seguintes regras:

1. Fazer a refeição do sahur: toda a comunidade concorda que fazer a refeição do sahur é recomendável, e quem jejua sem fazer o sahur não comete pecado algum. Anas — que Allah esteja satisfeito com ele — narrou: o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Fazei a refeição do sahur, pois há bênção nela.” Al-Bukhari e Muslim.

Miqdad ibn Ma‘dikarib narrou que o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Fazei a refeição do sahur, pois ela é uma refeição abençoada.” — An-Nasa’i.

Abençoada significa que ela fornece energia à pessoa que jejua e torna mais fácil jejuar.

Com que quantidade de comida se completa o sahur? O sahur é válido tanto com pouca quanto com muita comida. Até mesmo beber um gole de água é suficiente para completar o sahur. Abu Sa‘id al-Khudri disse: “Há bênção no sahur. Não o abandoneis; mesmo que seja apenas bebendo um gole de água, fazei o sahur. Pois Allah concede misericórdia àqueles que fazem o sahur, e os anjos suplicam por eles.” — Ahmad.

O horário do sahur: o horário do sahur vai da meia-noite até o amanhecer. Contudo, é recomendável atrasá-lo. Zayd ibn Thabit — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Fizemos a refeição do sahur com o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois fomos para a oração (isto é, a oração do amanhecer).” O narrador disse: “Perguntei: quanto tempo houve entre os dois?” Ele respondeu: “O tempo necessário para recitar cinquenta versículos.” (Isto é, o tempo necessário para recitar cinquenta versículos.) — Al-Bukhari e Muslim.
‘Amr ibn Maymun disse: “Os companheiros do Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — apressavam-se para quebrar o jejum e demoravam para fazer o sahur.”

Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Enquanto minha comunidade se apressar para quebrar o jejum e atrasar o sahur, permanecerá em boas condições.” Se surgir dúvida quanto ao despontar da alvorada, se houver dúvida sobre o seu despontar, é permitido comer e beber até que se tenha certeza de que a alvorada despontou. Não se deve agir com base na dúvida e na incerteza, pois Allah estabeleceu a certeza — e não a dúvida quanto ao despontar da alvorada — como o término do horário para comer e beber. Ele disse:

وكُلُوا وَاشْرَبُوا حتى يتبين لكم الخيط الأبيض مِنَ الْخَيْطِ الْأَسْوَدِ مِنَ الْفَجْرِ .

“Comei e bebei até que se distinga claramente, para vós, o fio branco do fio preto, isto é, a alvorada.” (Surata Al-Baqarah: versículo 187)

Um homem disse a Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): “Sempre que tenho dúvida durante o sahur, paro de comer.” Ibn Abbas respondeu: “Continua comendo enquanto estiveres em dúvida, até que ela desapareça.” Abu Dawud disse: O Imam Abu Abdillah Ahmad ibn Hanbal afirmou: “Quando o jejuador tem dúvida quanto ao despontar da alvorada, deve continuar comendo até ter certeza de que ela despontou.” Essa é a opinião de Ibn Abbas, Ata e Awzai.

An-Nawawi disse: É permitido comer àquele que tem dúvida sobre o horário da alvorada; essa é a posição consensual dos shafiitas.

2. Apressar-se para quebrar o jejum: É recomendável que o jejuador se apresse para quebrar o jejum depois de ter certeza do pôr do sol. Foi narrado por Sahl ibn Sad que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Enquanto as pessoas se apressarem para quebrar o jejum, permanecerão em boas condições.” Bukhari e Muslim.

É melhor quebrar o jejum com um número ímpar de tâmaras frescas e maduras. Se não forem encontradas, pode-se fazê-lo com água. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) quebrava o jejum antes da oração com tâmaras frescas e maduras. Se não houvesse tâmaras, fazia-o com tâmaras secas. Se estas também não estivessem disponíveis, bebia alguns goles de água pura.” Abu Dawud, Al-Hakim e Tirmidhi.

Foi narrado por Salman ibn Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Quando qualquer um de vós jejuar, deve quebrar o jejum com tâmaras secas. Se não as tiver, então com água, pois a água purifica.” Ahmad e Tirmidhi.

Este hadith comprova que é recomendável fazer um iftar breve desse modo antes da oração do maghrib. Depois da oração, deve-se comer o restante da refeição. Contudo, se a comida do iftar já estiver preparada, deve-se começar por ela. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando a refeição noturna for servida (no iftar), começai o iftar com ela antes do maghrib e não vos apresseis em concluir o iftar deixando a comida de lado.” — Bukhari e Muslim.

3. Fazer súplicas durante o iftar, enquanto se está em estado de jejum: Ibn Majah narrou, por intermédio de Abdullah ibn Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “A súplica do jejuador não é rejeitada no momento do iftar.” No momento do iftar, Abdullah costumava fazer esta súplica: “Ó Allah, peço-Te, pela Tua misericórdia, que se estende sobre todas as coisas, que me perdoes.” Também está comprovado que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia: “A sede desapareceu, as veias foram hidratadas e, se Allah quiser, a recompensa do jejum foi alcançada.” Também foi narrado que ele dizia: “Ó Allah, jejuei por Ti e fiz o iftar com a provisão que Tu forneceste.” Tirmidhi narrou, com uma cadeia autêntica, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “As súplicas de três pessoas não são rejeitadas: o jejuador, até que faça o iftar (isso indica que é recomendável suplicar durante todo o período do jejum); o governante justo; e a pessoa injustiçada e oprimida.”

4. Abster-se de atividades incompatíveis com o jejum: o jejum é uma das melhores formas de adoração que ajudam a alcançar a proximidade de Allah. Allah o instituiu para disciplinar os desejos do ser humano e habituá-lo às boas ações. Portanto, o jejuador deve abster-se das ações que prejudicam o seu jejum, para que se beneficie dele e alcance a taqwa mencionada por Allah em Sua seguinte palavra:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُتِبَ عَلَيْكُمُ الصِّيَامُ كَمَا كُتِبَ عَلَى الَّذِينَ مِن قَبْلِكُمْ لَعَلَّكُمْ تَتَّقُونَ

“Ó crentes, foi-vos prescrito o jejum, assim como foi prescrito aos que vos precederam, para que alcanceis a taqwa (abster-vos das más ações por temor a Allah).” (Surata al-Baqarah: versículo 183)

O jejum não consiste apenas em abster-se de comer e beber e das demais coisas proibidas durante o período do jejum. Pois foi narrado por Abu Hurairah, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “O jejum não consiste apenas em abster-se de comer e beber; consiste também em abster-se de toda futilidade, injustiça e obscenidade. Se alguém te insultar ou agir injustamente contigo, diz: ‘Estou jejuando, estou jejuando.’” — Ibn Khuzaymah, Ibn Hibban e Hakim.

Narrado por Abu Hurairah em todas as coletâneas autênticas de hadith, exceto Muslim: o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Allah não tem necessidade de que uma pessoa abandone a comida e a bebida se ela não se abstém da palavra mentirosa e das más ações.” (Isto é, Allah não aceita o seu jejum.) Ele também disse: “Há muitos jejuadores que nada obtêm do seu jejum além da fome, e há muitos que passam a noite em oração e nada obtêm além de permanecerem acordados durante a noite.” — Nasai, Ibn Majah e Hakim.

5. Usar o miswak: durante o jejum, é recomendável que o jejuador use o miswak. Quanto a isso, não há diferença entre a primeira e a última parte do dia. O Imam Tirmidhi disse: o Imam Shafi’i não considerava haver problema em usar o miswak no início ou no fim do dia. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, usava o miswak enquanto jejuava. Isso já foi discutido anteriormente.

6. Generosidade e estudo do Alcorão
A generosidade e o estudo do Alcorão são sempre recomendáveis. Contudo, dá-se ainda maior ênfase a isso no Ramadã.
Al-Bukhari narrou, de Ibn Abbas, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era o mais generoso de todas as pessoas. E era ainda mais generoso no mês do Ramadã, quando Jibril se encontrava com ele. A cada noite do Ramadã, Jibril se encontrava com ele e estudava o Alcorão com ele. Na verdade, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era mais veloz em sua generosidade do que o vento impetuoso. (Isto é, ele dava com tamanha amplitude e rapidez que até o vento impetuoso ficaria para trás em comparação com sua velocidade.)

7. Empenho intenso na adoração durante os dez últimos dias do Ramadã: 1. Al-Bukhari e Muslim narraram, de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): Quando chegavam os dez últimos dias do Ramadã, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) passava a noite em vigília, despertava sua família e se empenhava intensamente na adoração. Segundo outra narração de Muslim: Ele não se esforçava tanto em nenhuma outra época quanto nos dez últimos dias.

2. At-Tirmidhi narrou, de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) despertava sua família durante os dez últimos dias do Ramadã e se empenhava pessoalmente na adoração com grande esforço.

20. Atos permitidos durante o jejum

Os seguintes atos são permitidos durante o jejum:

1. Entrar na água e mergulhar: Abu Bakr ibn Abd ar-Rahman narrou, de um dos Companheiros do Mensageiro de Allah, que viu o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), enquanto jejuava, derramar água sobre a cabeça devido ao intenso calor ou à sede. — Ahmad, Malik e Abu Dawud.

Além disso, foi narrado por Al-Bukhari e Muslim, de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que às vezes o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) amanhecia em estado de janabah (impureza decorrente de relações conjugais) enquanto jejuava. Então ele tomava banho ritual.

Se, involuntariamente, entrar água no estômago do jejuador, seu jejum será válido.

2. Aplicar kohl nos olhos: pingar nos olhos qualquer substância líquida usada para esse fim, quer se sinta ou não o seu sabor na garganta, não prejudica o jejum. Isso porque nada passa dos olhos para o estômago. Sabe-se que Anas, que Deus esteja satisfeito com ele, aplicava kohl nos olhos enquanto jejuava. Essa é a opinião dos imames shafiitas, de Ibn al-Mundhir, Ata, Hasan, al-Nasa’i, al-Awza’i, Abu Hanifa e Abu Thawr. Entre os Companheiros, essa também era a opinião de Ibn Umar, Anas e Ibn Abi Awfa. Essa era igualmente a opinião de Dawud. Contudo, segundo al-Tirmidhi, não há nenhum relato confiável do Mensageiro, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, sobre essa questão.

3. Beijar a esposa: é permitido àquele que é capaz de se controlar.

Aisha, que Deus esteja satisfeito com ela, disse: “O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, beijava e tocava o corpo de suas esposas enquanto jejuava. Ele era, dentre todos vocês, o mais capaz de controlar seus próprios desejos.” Umar, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: “Certo dia, fiquei excitado e beijei [minha esposa], embora estivesse jejuando. Então fui até o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Hoje cometi algo terrível: beijei [minha esposa] enquanto jejuava.’ O Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Pense: se você gargarejasse com água enquanto jejuava, o que aconteceria?’ Respondi: ‘Nada aconteceria.’ Ele disse: ‘Então, qual é o problema disso?’
Ibn al-Mundhir disse: Umar, Ibn Abbas, Abu Hurayra, Aisha, Ata, al-Sha’bi, Hasan, Ahmad e Ishaq permitiram beijar. Segundo as escolas hanafita e shafiita, beijar é makruh para quem fica sexualmente excitado, mas não é makruh para os demais. Ainda assim, é melhor evitar.”

Nesse aspecto, não há diferença entre jovens e idosos. O que deve ser considerado é a excitação sexual e o receio de ejaculação. Se um jovem ou um idoso vigoroso sentir excitação sexual, isso será makruh. Já não é makruh para um idoso que não sente excitação sexual nem para um jovem fraco. Contudo, em qualquer circunstância, é melhor evitar isso, quer o beijo seja dado no queixo, na boca ou em qualquer outro lugar. Do mesmo modo, tocar o corpo com a mão e abraçar também estão incluídos na categoria do beijo.

4. Tomar injeções: a regra é a mesma do beijo, quer a injeção seja para fins nutritivos ou para qualquer outro fim, e quer seja aplicada numa veia ou sob a pele. Isso porque, embora o medicamento chegue ao estômago dessa maneira, não chega por uma via natural.

5. Fazer hijama: não é proibido extrair sangue da cabeça ou de qualquer outra parte do corpo por meio de hijama ou de outro instrumento; o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, fazia hijama enquanto jejuava. Contudo, se isso causar fraqueza ao jejuador, será makruh. Thabit al-Bunani perguntou a Anas, que Deus esteja satisfeito com ele: “Durante a época do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, vocês consideravam desagradável fazer hijama em alguém que estivesse jejuando?” Anas respondeu: “Não, mas deixávamos de fazê-lo quando havia receio de fraqueza.” — al-Bukhari.

6. Enxaguar a boca e aspirar água pelo nariz: contudo, é makruh exagerar nisso, como fazer gargarejos. Foi narrado por Laqit ibn Sabra, que Deus esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando aspirares água pelo nariz, faze-o profundamente; porém, se estiveres jejuando, não o faças.” — al-Tirmidhi, Abu Dawud, al-Nasa’i e Ibn Majah.

No entanto, os eruditos consideraram makruh usar medicamento pelo nariz, entendendo que existe o risco de engolir parte dele. Há elementos nos hadiths que apoiam essa opinião. Ibn Qudama disse: se, ao fazer a ablução ou o banho ritual, ao enxaguar a boca ou aspirar água pelo nariz, a água chegar à garganta involuntariamente, sem uso excessivo de água, isso não prejudicará o jejum. Essa é uma das duas opiniões atribuídas a al-Awza’i, Ishaq e al-Shafi’i. Essa também é a opinião de Ibn Abbas.

Segundo Malik e Abu Hanifa, o jejum será invalidado nesse caso. Isso porque ele fez a água chegar ao estômago embora se lembrasse de que estava jejuando. Portanto, assim como o jejum é invalidado quando se bebe água deliberadamente, também será invalidado neste caso.

Ibn Qudamah disse: A primeira opinião é a mais preponderante (isto é, o jejum não será invalidado). Além disso, temos o argumento de que a água chegou à garganta sem que ele tivesse a intenção de fazê-la chegar ali nem tivesse usado água em excesso. Se uma mosca voasse e entrasse na garganta de alguém, o jejum não seria invalidado por isso; da mesma forma, não será invalidado neste caso. A diferença em relação a fazer a água chegar deliberadamente à garganta é evidente. (Ibn Abbas disse: Se uma mosca entrar na garganta de um jejuador, o jejum não será invalidado.)

7. Outros casos: Do mesmo modo, não invalidam o jejum as coisas impossíveis de evitar, como engolir saliva e a poeira da estrada; a farinha que entra na garganta ao peneirá-la; o catarro e coisas semelhantes que entram na garganta. Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: É permitido provar, olhando ou degustando, um alimento que se pretende comprar para verificar sua qualidade. Al-Hasan costumava mastigar nozes para seu neto enquanto jejuava. Ibrahim também aprovou isso. Contudo, é makruh mastigar um alimento pegajoso que não se desfaz em pedaços ao ser mastigado. Al-Sha’bi, Al-Nakha’i e os imames hanafitas, shafi’itas e hanbalitas também o consideraram makruh. Aisha e Ata, porém, consideraram isso permitido, pois o alimento não chega ao estômago. É como uma pedra mantida dentro da boca. Isso se aplica ao alimento que não se desfaz nem se divide em pedaços quando mastigado. Se o alimento se divide em pedaços e algum pedaço chega ao estômago, o jejum será invalidado. Ibn Taymiyyah disse: É permitido ao jejuador inalar fragrâncias. Entretanto, há divergência entre os estudiosos quanto ao uso de kohl, às injeções, à entrada de gotas de líquido pelo orifício genital masculino e à aplicação de medicamentos em pessoas feridas no centro da cabeça ou no interior do abdômen. Alguns são da opinião de que algumas dessas coisas invalidam o jejum. Outros dizem que todas elas, exceto o uso de kohl, invalidam o jejum. Outros ainda afirmam que todas invalidam o jejum, mas não a aplicação de gotas. E alguns dizem que todas, exceto o kohl e as gotas, invalidam o jejum. Em seguida, ele considerou a primeira opinião a mais preponderante e disse: A opinião mais forte é que nenhuma dessas coisas invalida o jejum. Isso porque o jejum é uma parte do Islã, cujo conhecimento é obrigatório para todo muçulmano. Se essas ações fossem de tal natureza que Allah e Seu Mensageiro as tivessem proibido durante o jejum e elas o invalidassem, seria dever indispensável do Mensageiro de Allah explicá-las claramente. E, se ele as tivesse explicado, os Companheiros as teriam conhecido e transmitido à comunidade, assim como transmitiram as demais normas da Sharia. Contudo, quando vemos que nenhum Companheiro nem nenhum estudioso transmitiu do Mensageiro de Allah sequer um hadith autêntico ou fraco sobre essas questões, fica claro que Allah ou Seu Mensageiro não classificaram nenhuma delas como reprovável ou invalidante do jejum. Sobre todas as ações inevitáveis e generalizadas, era indispensável que o Mensageiro fizesse um anúncio geral e universal, e era igualmente indispensável que a comunidade as transmitisse de uma geração à outra. Assim, entende-se que o uso de kohl e coisas semelhantes está entre os fatores inevitáveis e generalizados, como passar óleo, tomar banho, usar perfume e queimar incenso. Se essas coisas invalidassem o jejum, o Mensageiro certamente o teria explicado, assim como explicou as demais ações que invalidam o jejum. Como não o explicou, entende-se que são do mesmo tipo que usar perfume, queimar incenso e passar óleo. Às vezes, a fumaça do incenso chega ao nariz, entra no cérebro e se espalha por todo o corpo. O óleo também é absorvido pelo corpo, penetra em seu interior e lhe fornece energia. Do mesmo modo, o perfume fornece muita energia ao corpo. Como ele não proibiu o jejuador dessas coisas, ficou comprovado que é permitido queimar incenso, usar perfume, passar óleo e usar kohl. Na época do Mensageiro de Allah, os muçulmanos eram feridos na cabeça ou no abdômen durante o jihad ou em outros acontecimentos e aplicavam medicamentos nas feridas. Se isso invalidasse o jejum, ele certamente o teria declarado em termos claros. Como não proibiu o jejuador de usar essas coisas, soube-se que elas não são proibidas nem invalidam o jejum. O kohl não fornece ao corpo alimento nem nutrição. Ninguém introduz kohl no estômago, nem pelo nariz nem pela boca. Do mesmo modo, uma injeção usada para retirar alguma substância do corpo não fornece alimento ou nutrição ao corpo; ao contrário, remove algo dele. É como inalar uma substância ou sentir um medo que provoque diarreia e faça expelir tudo o que há no estômago, sem que seja necessário introduzir algo nele. Quanto ao medicamento aplicado no tratamento de feridas no abdômen e na cabeça que chega ao estômago, ele não pertence à categoria dos alimentos que chegam ao estômago.

Allah, o Altíssimo, disse: “Foi prescrito para vós o jejum, assim como foi prescrito para aqueles que vos precederam, para que alcanceis a taqwa.” E o Mensageiro de Allah disse: “O jejum é um escudo.” Ele também disse: “Satanás circula no filho de Adão como circula o sangue. Portanto, estreitai as vias de circulação de Satanás por meio da fome e do jejum.” Com isso, entende-se que, essencialmente, foi ordenado ao jejuador que se abstivesse de comer e beber. Pois a taqwa reside na abstinência de comer e beber. Comer e beber produz uma grande quantidade de sangue, dentro do qual Satanás circula. Esse sangue nasce do alimento, não das injeções, nem do kohl, nem do líquido introduzido por gotas no órgão genital masculino, nem do medicamento aplicado nas feridas do abdômen e da cabeça.

8. É permitido ao jejuador comer, beber e manter relações sexuais até o amanhecer: quando chega o amanhecer

Se ele tiver comida na boca, deverá cuspi-la; e, se estiver mantendo relações sexuais, deverá interrompê-las. Mesmo que tenha comida na boca e interrompa a relação sexual, o jejum será válido. Porém, se engolir deliberadamente a comida que está na boca ou continuar a relação sexual, o jejum será invalidado. Al-Bukhari e Muslim narraram, segundo Aisha, que o Mensageiro de Allah disse: “Bilal faz o chamado à oração enquanto ainda é noite. Portanto, continuai comendo e bebendo até que Ibn Umm Maktum faça o chamado à oração.”

9. Amanhecer em estado de janabah: Já se sabe, pelo hadith narrado anteriormente por Aisha, que é permitido ao jejuador permanecer em estado de “janabah” (impureza maior) até o amanhecer.

10. Purificação da menstruação e do sangramento pós-parto: É permitido à mulher menstruada ou à mulher com sangramento pós-parto adiar o banho até depois que o sangramento cesse e até o amanhecer. Nessa condição, elas também podem jejuar. Contudo, devem purificar-se para realizar a oração.

21. As ações que invalidam o jejum

As causas que invalidam o jejum são de dois tipos:

1. As que invalidam o jejum e tornam obrigatória a reposição.

2. As que invalidam o jejum e tornam obrigatórias tanto a reposição quanto a expiação.

As que invalidam o jejum e para as quais basta apenas fazer a reposição são:

1 e 2. Comer e beber intencionalmente. Se alguém comer ou beber intencionalmente, seu jejum será invalidado e deverá fazer a reposição desse jejum. Se comer ou beber involuntariamente, por ter esquecido que estava jejuando ou por ter sido forçado a fazê-lo, não terá de fazer nem a reposição nem a expiação.

Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem, estando em jejum, comer ou beber por engano, que complete seu jejum, pois foi o próprio Allah que o alimentou e lhe deu de beber.” — Todas as coletâneas de hadith autênticos.

At-Tirmidhi disse: A maioria dos sábios age de acordo com este hadith. Sufyan Al-Thawri, Ash-Shafi’i, Ahmad e Ishaq são da mesma opinião.

Ad-Daraqutni, Al-Bayhaqi e Al-Hakim narraram: Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quem, durante o Ramadã, fizer acidentalmente algo que quebre o jejum não terá de fazer reposição nem expiação.

Ibn Abbas narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Allah perdoou à minha comunidade os erros, os esquecimentos e aquilo que lhe foi imposto à força. Ibn Majah, At-Tabarani e Al-Hakim.

3. Provocar vômito intencionalmente: se alguém provocar intencionalmente o vômito, deverá repor o jejum

Porém, se o vômito ocorrer espontaneamente, não deverá fazer nem reposição nem expiação. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quem vomitar espontaneamente não terá de repor o jejum. Mas quem provocar intencionalmente o vômito — cheirando algo que provoque vômito ou introduzindo o dedo na garganta — deverá repô-lo. — Ahmad, Abu Dawud, At-Tirmidhi, Ibn Majah, Ibn Hibban, Ad-Daraqutni e Al-Hakim.

Al-Khattabi disse: Não conheço nenhuma divergência quanto ao fato de que o vômito espontâneo não exige reposição, enquanto o vômito intencional exige reposição.

4 e 5. Menstruação e lóquios (sangramento menstrual e pós-parto): se isso ocorrer mesmo no último instante antes do pôr do sol, o jejum será invalidado e deverá ser reposto. Os sábios estão de acordo quanto a isso.

6. Provocar intencionalmente a ejaculação: seja isso causado pelo marido beijar ou abraçar a esposa, pela masturbação ou por qualquer outro meio, o jejum é invalidado e torna-se obrigatória a sua reposição. Se, durante o jejum, durante o dia, a ejaculação ocorrer apenas por olhar para a esposa, o jejum não será invalidado, e não serão obrigatórias nem a reposição nem a expiação. Do mesmo modo, o líquido pré-ejaculatório não prejudica o jejum, seja em grande ou pequena quantidade.

7. Engolir algo que normalmente não é comido ou introduzi-lo no estômago. Segundo a maioria dos sábios, isso invalida o jejum. Por exemplo, uma grande quantidade de sal

8. Aquele que, enquanto estiver jejuando, decidir quebrar o jejum terá seu jejum invalidado, mesmo que não coma nem beba nada. Isso porque a intenção é uma parte inseparável do jejum. Portanto, se decidir quebrar o jejum, ele certamente será invalidado.

9. Se alguém comer, beber ou tiver relações sexuais supondo que o sol se pôs ou que ainda não amanheceu, e depois ficar comprovado que essa suposição estava errada, segundo a maioria dos sábios, incluindo os quatro imames, deverá compensar o jejum. Porém, segundo Ishaq, Dawud, Ibn Hazm, Ata, Urwa, Hasan al-Basri e Mujahid, seu jejum é válido e ele não precisa compensá-lo. Isso porque Allah disse:

لَيْسَ عَلَيْكُمْ جُنَاحٌ فِيهَا أَخطائي به، ولكن ما تعمدت قلوبكم .

“Não haverá culpa sobre vós pelo que fizerdes por engano. Mas será diferente aquilo que vossos corações intencionarem fazer.” (Surata Al-Ahzab: versículo 4)

Além disso, pouco antes citei esta declaração do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Allah perdoou os erros e as faltas da minha comunidade.”

Abd al-Razzaq narrou que, durante o califado de Umar ibn al-Khattab, as pessoas fizeram o iftar. Eu vi grandes panelas serem retiradas da casa de Hafsa, que Allah esteja satisfeito com ela, e as pessoas beberam. Logo depois, o sol apareceu por baixo das nuvens. As pessoas ficaram muito constrangidas com o ocorrido. Muitos disseram: “Compensaremos o jejum deste dia.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Por quê? Juro por Allah que não pretendíamos cometer pecado.”

Al-Bukhari narrou, por intermédio de Asma bint Abi Bakr: “Durante a época do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fizemos o iftar num dia nublado. Depois, o sol apareceu.” Ibn Taymiyyah disse: “Este hadith prova duas coisas:”

Primeiro: quando o céu está nublado, não é recomendável atrasar o iftar com o objetivo de ter certeza do pôr do sol. Isso porque o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os Companheiros não fizeram isso. O Mensageiro também não ordenou que os Companheiros o fizessem. No entanto, os Companheiros eram mais obedientes a Allah e ao Seu Mensageiro do que todos os muçulmanos das gerações posteriores.

Em segundo lugar: por esse motivo, também não é necessário repor o jejum. Pois, se o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — lhes tivesse ordenado repô-lo, isso teria sido amplamente divulgado, assim como foi divulgado o episódio do iftar. Como isso não foi relatado, fica provado que ele não ordenou a reposição.

Segundo a maioria dos sábios, a única coisa que torna obrigatórias tanto a reposição quanto a expiação é a relação sexual com a esposa; nada além disso.

Foi narrado por Abu Huraira — que Allah esteja satisfeito com ele — que um homem foi até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e disse: “Ó Mensageiro de Allah, estou perdido.” Ele perguntou: “O que te levou à perdição?” O homem respondeu: “Tive relação sexual com minha esposa durante o Ramadã.” O Mensageiro perguntou: “Tens condições de libertar um escravo?” Ele respondeu: “Não.” Perguntou: “Podes jejuar dois meses consecutivos?” Ele respondeu: “Não.” Perguntou: “Podes alimentar sessenta necessitados?” Ele respondeu: “Não.” Então o homem ficou esperando. Pouco depois, chegaram ao Mensageiro de Allah cerca de quinze sa‘ de tâmaras. Ele disse: “Toma isto e dá-o em caridade.” O homem perguntou: “Existe alguém mais pobre do que eu? Nos arredores de Medina, não há ninguém mais necessitado dessas tâmaras do que eu.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah riu de tal modo que seus quatro dentes molares ficaram à mostra. Então disse: “Vai e alimenta tua família com isso.” — Todas as coletâneas autênticas de hadith. Uma das duas opiniões atribuídas ao Imam al-Shafi‘i é que a expiação deixa de ser obrigatória devido à pobreza. Essa é a opinião mais conhecida do Imam Ahmad. Alguns malikitas também sustentam essa opinião. Contudo, segundo a maioria dos sábios, a expiação não é anulada pela pobreza.

A opinião da maioria dos sábios é que, se marido e mulher tiverem iniciado o jejum com a intenção de jejuar e, durante o dia do Ramadã, mantiverem deliberadamente relações sexuais sem serem coagidos, a expiação será obrigatória para ambos. (Contudo, se o jejum for uma reposição do jejum do Ramadã ou um jejum votivo, e o jejum for invalidado por meio da relação sexual, não será necessário oferecer expiação.) Mas, se a relação sexual ocorrer por engano ou não ocorrer voluntariamente, como quando for praticada mediante coerção, estupro ou violação, ou se eles não tiverem tido a intenção de jejuar, nenhum dos dois será obrigado a oferecer expiação. E, se o marido obrigar a esposa a manter relações sexuais, ou se ela quebrar o jejum por alguma justificativa válida, a expiação será obrigatória para o marido, não para a esposa. Segundo a posição da escola shafi‘ita neste caso, a expiação nunca será obrigatória para a esposa, quer ela o faça voluntariamente, quer seja coagida. Para ela, será obrigatória apenas a reposição do jejum. Al-Nawawi disse: “A opinião mais correta em termos gerais é que somente o homem deve oferecer expiação por si mesmo. Nada é obrigatório para a esposa. Pois isso é um direito financeiro relacionado à relação sexual; portanto, está ligado ao homem, não à esposa. É comparável ao dote.” Abu Dawud disse: “Perguntou-se ao Imam Ahmad, a respeito de um homem que manteve relações sexuais com a esposa durante o Ramadã: sua esposa deve oferecer expiação?”

Ele respondeu: “Não ouvimos dizer que a esposa tenha de oferecer expiação.”

Em Al-Mughni, foi dito: “A razão é que o Mensageiro de Allah ordenou ao homem que mantivera relações sexuais durante o Ramadã que libertasse um escravo. Não ordenou nada à esposa, embora soubesse que ela também participara do ato.”

A expiação deve ser oferecida seguindo a ordem mencionada no hadith. Essa é a opinião da maioria dos sábios. De acordo com ela, primeiro deve-se libertar um escravo. Se isso não for possível, deve-se jejuar dois meses consecutivos. (Durante esses dois meses não pode haver nenhum dia do Ramadã, nem o Eid nem os dias de Tashriq.) Se isso também não for possível, deve-se alimentar sessenta necessitados com alimento de qualidade média, semelhante ao alimento da própria família. (Quanto à alimentação, a opinião do Imam Ahmad é que se deve dar a cada necessitado um mudd de trigo ou meio sa‘ de cevada ou tâmaras. Segundo Abu Hanifa, deve-se dar meio sa‘ de trigo e um sa‘ dos demais alimentos. Segundo al-Shafi‘i e Malik, qualquer que seja o alimento oferecido, deve-se dar um mudd a cada necessitado. Essa também é a opinião de Abu Huraira, ‘Ata e al-Awza‘i, e é a opinião mais conhecida, pois foram dados quinze sa‘ ao beduíno.) Nessa ordem, só é permitido passar de uma opção à seguinte quando se é incapaz de cumprir a anterior. Segundo os malikitas e uma das opiniões de Ahmad, a pessoa pode escolher livremente entre essas três opções; qualquer uma que escolher servirá como expiação. Isso porque Malik narrou, por intermédio de Abu Huraira — que Allah esteja satisfeito com ele —, que um homem quebrou o jejum durante o Ramadã, e então o Mensageiro de Allah ordenou-lhe que libertasse um escravo, ou jejuasse dois meses consecutivos, ou alimentasse sessenta necessitados. — Muslim. Aqui, o uso de “ou” indica claramente que foi concedida liberdade de escolha. Além disso, como a expiação se torna obrigatória por causa de uma única violação de uma norma, é apropriado haver liberdade para escolher entre as alternativas, como ocorre na expiação por um juramento.

Al-Shawkani disse: “Em diferentes versões da narração, encontram-se tanto a exigência de ordem quanto a liberdade de escolha. Contudo, as versões relativas à ordem são mais numerosas.” Al-Muhallab e al-Qurtubi reuniram todas as versões, incluindo as que mencionam acontecimentos múltiplos.

Hafiz disse: A ocorrência de vários incidentes é muito improvável, pois o incidente foi um só. A ocasião foi uma só, e o princípio é que não houve vários incidentes. Alguns sábios consideram que a menção da sequência indica preferência, enquanto a concessão de escolha indica a validade de cada alternativa. Outros sustentam exatamente o ponto de vista oposto (isto é, que a sequência indica a validade de cada alternativa, enquanto a concessão de escolha indica preferência).

Quem mantém relações sexuais com a esposa deliberadamente durante o Ramadã, não oferece a expiação e depois volta a manter relações em outro dia, no fim do Ramadã, fica quite oferecendo uma única expiação. Essa é a opinião dos hanafitas e uma das opiniões transmitidas de Ahmad. Isso porque se trata da punição de uma infração cuja causa se repetiu antes da aplicação da punição. Assim, uma ocorrência se incorpora à outra e ambas se tornam uma só. O imame Malik, ash-Shafi‘i e, segundo uma narração, Ahmad disseram que ele deve oferecer duas expiações, pois cada dia é um dia independente de adoração. Quando a expiação se torna obrigatória pela violação desse dia, uma não se incorpora à outra nem se torna uma só com ela, assim como não acontece quando as relações ocorrem em dois Ramadãs diferentes.

Os sábios concordaram que, se alguém mantiver relações sexuais durante o Ramadã deliberadamente, oferecer a expiação e depois voltar a manter relações em outro dia, deverá oferecer outra expiação separadamente.

Da mesma forma, concordaram que, se alguém mantiver relações duas vezes no mesmo dia e praticar a segunda sem ter oferecido a expiação pela primeira, deverá oferecer uma única expiação. Se já tiver oferecido a expiação pela primeira relação, segundo a maioria dos imames, não deverá oferecer expiação pela segunda. Segundo o imame Ahmad, deverá oferecer uma segunda expiação.

22. A reposição dos jejuns do Ramadã

A reposição dos jejuns do Ramadã não é obrigatória imediatamente; ao contrário, é obrigatória com prazo amplo e pode ser feita a qualquer momento. A expiação segue a mesma regra. Isso porque foi narrado por ‘Aisha: quando ela deixava de jejuar alguns dias do Ramadã, compensava-os no mês de Sha‘ban e, embora tivesse capacidade, não os compensava imediatamente depois do Ramadã. O jejum compensatório é equivalente ao jejum original; isto é, deve-se jejuar exatamente o mesmo número de dias que foram perdidos, nem sequer um dia a mais. A diferença entre o jejum original e o compensatório é que não é necessário manter os jejuns compensatórios consecutivamente. Pois Allah disse: “Quem estiver doente ou em viagem deverá completar o número em outros dias.” Ou seja, quem quebrar o jejum por motivo de doença ou viagem deverá jejuar, em outros dias, a mesma quantidade de dias que deixou de jejuar, consecutivamente ou com intervalos. Isso porque Allah ordenou o jejum sem estabelecer qualquer condição.

Ad-Daraqutni narrou, de Ibn ‘Umar, que o Mensageiro de Allah disse: Os jejuns compensatórios do Ramadã podem ser observados com intervalos ou consecutivamente.

Se alguém atrasar a reposição e chegar outro Ramadã, deverá jejuar o Ramadã que chegou e, depois dele, completar os jejuns restantes. Não terá de oferecer fidya. Não faz diferença se o atraso ocorreu por uma justificativa ou sem justificativa. Essa é a opinião da escola hanafita e de al-Hasan al-Basri.

Entretanto, segundo os imames Malik, ash-Shafi‘i, Ahmad, Ishaq e os hanafitas, se o atraso ocorrer por uma justificativa, não será necessário oferecer fidya. Mas, se ocorrer sem justificativa, a pessoa deverá jejuar o Ramadã que chegou, depois fazer a reposição e oferecer, por cada dia, uma fidya alimentar adicional de um mudd. Contudo, eles não possuem nenhuma prova aceitável em apoio a essa opinião. A posição dos hanafitas é a correta neste assunto, pois nenhuma norma da Sharia é aceitável sem um versículo ou um hadith autêntico.

Aquele que morre deixando jejuns não compensados: Os sábios concordaram que, se alguém morrer deixando algumas orações não cumpridas, elas não serão consideradas cumpridas se o seu wali ou outra pessoa as realizar em seu nome. Da mesma forma, não há disposição que permita a outra pessoa jejuar em nome de quem é incapaz de jejuar durante a própria vida.

E aquele que, apesar de ter capacidade para jejuar, morre sem ter jejuado antes de sua morte, deixando os jejuns por cumprir. Os juristas divergiram a respeito dele.

A opinião da maioria dos sábios, incluindo Abu Hanifa e Malik, e a opinião mais conhecida de al-Shafi’i, é que seu wali não jejuará em seu lugar; ao contrário, distribuirá alimento na medida de um mudd por dia (segundo os hanafitas, meio sa de trigo e um sa dos demais grãos). A opinião preferida na escola shafi’ita é que é recomendável ao wali jejuar em seu lugar, e com isso o falecido ficará isento. Não será necessário alimentar ninguém em seu lugar. Por “wali” entende-se um parente, seja ele da linhagem paterna, um herdeiro ou qualquer outra pessoa.

Se um parente jejuar em nome do falecido com a permissão do wali, isso será válido. Se jejuar sem sua permissão, não será válido. A prova disso é o hadith narrado por Aisha, registrado por Ahmad, al-Bukhari e Muslim: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Quem morrer deixando jejuns por cumprir terá seu wali jejuando em seu lugar.’” Na versão de al-Bazzar, acrescenta-se: “se quiser.”

Ahmad, al-Tirmidhi, Abu Dawud, al-Nasa’i e Ibn Majah narraram, sob autoridade de Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele: “Um homem foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, minha mãe morreu deixando um mês de jejuns por cumprir. Devo compensá-los em seu lugar?’ O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Se tua mãe tivesse uma dívida, tu a pagarias?’ Ele respondeu: ‘Certamente.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Então, o pagamento da dívida para com Allah é ainda mais digno de prioridade.’”

Al-Nawawi disse: esta opinião é correta e aceitável. Nós cremos nela. E os nossos imames que eram perspicazes e conciliavam o hadith com a jurisprudência também reconheceram essa opinião como correta.

Método para determinar o horário do jejum em países onde o dia é longo e a noite é curta. Nos países onde o dia é longo e a noite é curta, e naqueles onde a noite é longa e o dia é curto, houve divergência entre os juristas sobre segundo qual país os horários devem ser determinados. Alguns dizem que nesses países devem ser seguidos os horários de algum país ou cidade de duração moderada onde a sharia seja aplicada, como Meca e Medina. Outros dizem que devem ser determinados segundo o país de duração moderada mais próximo.

23. Laylat al-Qadr

A virtude: Laylat al-Qadr é a melhor noite do ano. Pois Allah disse:

إنَّا أَنزَلْنَاهُ فِي لَيْلَةِ القَدر وَمَا أَدْرَكَ مَا لَيْلَةُ الْقَدْرِ لَيْلَةُ الْقَدْرِ خَيْرٌ مِنْ أَلْفِ شَهْرٍ.

Significado: Nós o fizemos descer — isto é, o Alcorão — na Noite do Decreto. E o que te fará saber o que é a Noite do Decreto? A Noite do Decreto é melhor do que mil meses. Isto é, as boas ações realizadas na Noite do Decreto, como a oração, a recitação, a recordação de Allah e outras, são melhores do que as boas ações realizadas durante mil meses nos quais não há nenhuma Noite do Decreto.

É recomendável buscar a Noite do Decreto. É recomendável buscar a Noite do Decreto nas noites ímpares dos últimos dez dias do Ramadan. Isso porque o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, empenhava-se intensamente em buscá-la durante os últimos dez dias do Ramadan. Como já foi mencionado, quando chegavam os últimos dez dias do Ramadan, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permanecia acordado à noite, despertava sua família e empenhava-se intensamente. (Isto é, mantinha-se afastado de suas esposas e dedicava-se mais à adoração.)

Em que noite ocorre a Noite do Decreto? Os eruditos divergiram quanto à determinação dessa noite. Alguns disseram: a vigésima primeira noite. Outros disseram: a vigésima terceira noite. Outros disseram: a vigésima quinta noite. Outros disseram: a vigésima nona noite. E alguns disseram que ela se alterna entre as noites ímpares dos últimos dez dias. Contudo, segundo a maioria, a Noite do Decreto ocorre na vigésima sétima noite. Ahmad narrou, de Ibn Umar, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem buscar a Noite do Decreto, que a busque na vigésima sétima noite.” Muslim, Ahmad, Abu Dawud e at-Tirmidhi narraram, de Ubayy ibn Ka’b: “Ubayy disse: Juro por Allah, além de Quem não há outra divindade, que ela certamente ocorre no Ramadan. Por Allah, sei em que noite ela ocorre. É a noite em que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nos ordenou que rezássemos. É a vigésima sétima noite. Seu sinal é que, na manhã desse dia, o sol nascerá branco, sem raios.”

A oração e a súplica dessa noite: 1. Al-Bukhari e Muslim narraram, de Abu Hurayrah:

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem passar a noite em oração na Noite do Decreto, com fé e buscando a satisfação de Allah, terá seus pecados anteriores perdoados. 2. Ahmad, Ibn Majah e at-Tirmidhi narraram, de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Eu perguntei: Ó Mensageiro de Allah, se eu souber qual é a Noite do Decreto, o que devo recitar nessa noite? Ele respondeu: Recita:اللَّمُرَّ إِنَّكَ عفو تحب العفو فاعف عنيÓ Allah, Tu és Indulgente e amas perdoar; portanto, perdoa-me.”

24. I’tikaf

1. O significado de i’tikaf: em seu sentido linguístico, i’tikaf significa apegar-se a algo e manter-se preso a isso — seja algo bom ou mau. Allah, o Altíssimo, disse: “O que são estas estátuas às quais estais devotados?” Isto é, à adoração delas? Em seu sentido técnico, que é o pretendido aqui, significa permanecer continuamente na mesquita por um período determinado, com o objetivo de alcançar a proximidade de Allah.

2. O i‘tikāf segundo a Shariah: Os eruditos concordam que o i‘tikāf é prescrito pela Shariah, pois o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) costumava fazer i‘tikāf durante dez dias em cada Ramadan. No ano em que faleceu, fez i‘tikāf durante vinte dias. — Bukhari, Abu Dawud e Ibn Majah.

Seus Companheiros e suas esposas fizeram i‘tikāf com ele e também depois dele. Embora o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) tenha tornado o i‘tikāf conhecido, não há nenhum hadith autêntico sobre sua virtude. Abu Dawud disse: “Perguntei ao Imam Ahmad: ‘Você conhece algo sobre a virtude do i‘tikāf?’ Ele respondeu: ‘Além de alguns relatos fracos, não encontrei nada.’”

3. Tipos de i‘tikāf: Há dois tipos de i‘tikāf: sunnah e obrigatório. O i‘tikāf que um muçulmano realiza voluntariamente, com o objetivo de se aproximar de Allah, obter recompensa e imitar e seguir o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), é o i‘tikāf da sunnah. É especialmente importante realizar o i‘tikāf da sunnah nos últimos dez dias do Ramadan, pois, como já mencionei, nesse período o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) se empenhava ao máximo na adoração.

Por outro lado, o i‘tikāf que uma pessoa impõe a si mesma como obrigatório é o i‘tikāf obrigatório. Por exemplo, alguém pode fazer um voto incondicional, dizendo: “É obrigatório para mim, por Allah, fazer i‘tikāf durante este período” (ou: “Farei i‘tikāf durante tantos dias ou por tanto tempo por Allah”), ou fazer um voto condicional, dizendo: “Se Allah curar o meu doente, certamente farei i‘tikāf durante tantos dias ou por tanto tempo.” Foi narrado no Sahih de Bukhari que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) disse: “Quem fizer um voto de obedecer a Allah, que cumpra sua obediência.” Também foi narrado em Bukhari: ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, fiz um voto de fazer i‘tikāf durante uma noite na Mesquita Sagrada.” O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) disse: “Cumpre o teu voto.”

4. Duração do i‘tikāf: O i‘tikāf obrigatório deve ser realizado pelo período que a pessoa que fez o voto determinou. Se ela tiver feito o voto por um dia ou mais, deverá fazer i‘tikāf exatamente por um dia ou pelo período determinado superior a um dia.

Por outro lado, o i‘tikāf da sunnah ou recomendado não tem uma duração fixa. Basta permanecer na mesquita com a intenção de fazer i‘tikāf, seja por um período longo ou curto. A pessoa receberá recompensa pelo tempo que permanecer na mesquita. Depois, quando sair da mesquita e retornar a ela, deverá renovar a intenção, caso pretenda fazer i‘tikāf novamente. Ya‘la ibn Umayyah disse: “Mesmo que eu permaneça uma hora na mesquita, não fico ali senão com a intenção de fazer i‘tikāf.” ‘Ata disse: “Enquanto alguém permanecer na mesquita, esse período será i‘tikāf.” Se alguém se sentar na mesquita esperando obter bênção e recompensa, isso também será i‘tikāf; caso contrário, não será i‘tikāf. Aquele que faz i‘tikāf recomendado pode interrompê-lo antes do período que havia intencionado, se desejar.

Foi narrado por ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) pretendia fazer i‘tikāf, primeiro realizava a oração do fajr e depois entrava no local de seu i‘tikāf. Certa vez, ele pretendeu fazer i‘tikāf durante os últimos dez dias do Ramadan e ordenou que preparassem para ele um local de i‘tikāf. Imediatamente, isso foi feito. ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando vi isso, ordenei que preparassem um local para mim, e ele foi preparado.” As outras esposas do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) também ordenaram que preparassem locais para elas, e eles foram preparados. Depois de realizar a oração do fajr, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) olhou para os locais e disse: “O que é isso? Vocês pretendem realizar adoração?” Imediatamente, ordenou que desmontassem seu local de i‘tikāf, e ele foi desmontado. Suas esposas também ordenaram que desmontassem os locais delas, e eles foram desmontados. Então, o i‘tikāf foi adiado para os primeiros dez dias de Shawwal.

O fato de o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) ter ordenado às suas esposas que desmontassem os locais de i‘tikāf e abandonassem o i‘tikāf mesmo depois de terem formulado a intenção prova que é permitido interromper o i‘tikāf depois de iniciá-lo. O hadith também mostra que o marido pode impedir a esposa de fazer i‘tikāf sem sua permissão, e essa é a opinião da maioria dos eruditos. Contudo, há divergência quanto a saber se o marido tem o direito de proibi-la novamente depois de lhe ter dado permissão uma vez. Segundo ash-Shafi‘i, Ahmad e Dawud, o marido tem o direito de impedir e proibir a esposa de fazer i‘tikāf voluntário.

(O hadith de Aisha mencionado prova que é permitido ao praticante do i‘tikaf reservar para si um espaço separado dentro da mesquita, onde possa permanecer em recolhimento durante todo o período do i‘tikaf. Contudo, a condição é que isso não cause qualquer inconveniente aos demais nem torne o espaço exíguo. Se for necessário preparar esse tipo de espaço ou compartimento separado, ele deverá ser feito no extremo da mesquita ou numa área aberta adjacente, para que não cause falta de espaço ou incômodo aos outros e proporcione ao praticante um local de recolhimento mais completo. A razão do desagrado do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionado neste hadith em relação à construção de compartimentos separados para suas esposas foi explicada no comentário de Muslim. A razão era que ele temia que suas esposas talvez não fossem sinceras e devotadas no i‘tikaf. Pelo contrário, talvez estivessem competindo para mostrar quem amava mais o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e por quem ele tinha mais amor, desejando apenas permanecer perto dele. Por isso, ele não gostou que elas permanecessem na mesquita, embora reunisse outras pessoas na mesquita e até beduínos comuns e hipócritas fossem até ele. Além disso, suas esposas precisavam ir até ele por suas diversas necessidades e falar-lhe sobre os assuntos das necessidades diárias. Pode haver ainda outra razão. Quando, durante o próprio i‘tikaf, ele visse suas esposas junto de si, poderia parecer que estava em sua própria casa, permanecendo junto delas. Isso frustraria justamente o objetivo do i‘tikaf, que é afastar-se das esposas, das relações mundanas e de coisas semelhantes. Ou talvez elas tenham tornado o espaço da mesquita exíguo com seus compartimentos separados; isso também pode ter sido a causa desse desagrado.)

5. Condições do i‘tikaf: A condição do i‘tikaf é que o praticante seja muçulmano, tenha capacidade de discernir entre o certo e o errado, esteja livre da menstruação, do sangramento pós-parto e do estado de impureza causado pela ejaculação. Portanto, o i‘tikaf de um incrédulo, de uma criança sem discernimento e de uma pessoa em estado de impureza não é válido.

6. Os pilares do i‘tikaf: A essência do i‘tikaf é permanecer na mesquita com o propósito ou a intenção de aproximar-se de Allah. Se a pessoa não permanecer na mesquita ou não tiver a intenção de adorar Allah, não haverá i‘tikaf. A prova de que a intenção é indispensável está nas palavras de Allah:

وما أمروا إلا ليعبدوا الله مخلصين له الدين .

“Foi-lhes ordenado apenas adorar Allah com devoção exclusiva.” (Surata Al-Bayyinah, versículo 5)

E nas palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “As ações são consideradas de acordo com as intenções, e cada pessoa terá apenas aquilo que intencionou.” — Sahih al-Bukhari.

A prova de que a mesquita é indispensável para o i‘tikaf está nas palavras de Allah:

ولا تباعر و من وانتي عَاكِفُونَ فِي الْمَسَاجِلِ .

“Não tenhais relações sexuais com vossas esposas enquanto estiverdes em i‘tikāf nas mesquitas.” (Surata Al-Baqara, versículo 187)

Este versículo prova que, se o i‘tikāf fosse válido em algum lugar que não fosse a mesquita, não teria sido proibida especificamente a relação sexual durante o i‘tikāf na mesquita, pois isso é contrário ao i‘tikāf. Assim, fica evidente que o i‘tikāf deve ser realizado somente na mesquita.

7. Opiniões dos juristas sobre a definição da mesquita na qual o i‘tikāf é válido: Os juristas divergiram quanto à definição da mesquita na qual o i‘tikāf é válido. Segundo Abu Hanifa, Ahmad, Ishaq e Abu Thawr, o i‘tikāf só é válido na mesquita onde são realizadas as cinco orações obrigatórias e onde se realiza a oração congregacional. Isso porque o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O i‘tikāf é válido em toda mesquita na qual haja um imame e um muezim designados.” — Ad-Daraqutni.

Já o imame Malik, Ash-Shafi‘i e Dawud dizem que o i‘tikāf é válido em qualquer mesquita, pois não há prova autêntica que exclua algumas mesquitas ou especifique determinadas mesquitas.
Segundo os shafi‘itas, é preferível realizar o i‘tikāf na mesquita onde se realiza a oração de sexta-feira, porque o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava o i‘tikāf nessa mesquita. Além disso, nessas mesquitas a maioria das orações é realizada em congregação. Se a oração de sexta-feira ocorrer durante o período do i‘tikāf, não é correto realizar o i‘tikāf em outra mesquita.

Se o minarete ou o local de onde se faz o chamado para a oração estiver dentro da mesquita ou em seu recinto, é permitido à pessoa em i‘tikāf ir até lá para fazer o chamado. Também pode subir ao teto da mesquita, pois tudo isso faz parte da mesquita. Contudo, se a porta do minarete estiver fora da mesquita, o i‘tikāf será invalidado caso ele suba voluntariamente ao minarete. Quanto ao pátio aberto da mesquita, segundo os hanafitas e os shafi‘itas, e segundo uma das opiniões atribuídas ao imame Ahmad, ele faz parte da mesquita. Porém, de acordo com outra opinião atribuída a Ahmad e com a opinião de Malik, ele não faz parte da mesquita. Portanto, a pessoa em i‘tikāf não poderá sair para o pátio da mesquita.

Segundo a maioria dos sábios, o i‘tikāf da mulher não é válido no local de sua casa destinado à oração, pois esse local não é chamado de mesquita. Ninguém diverge quanto à permissibilidade de vender esse local. Por outro lado, há provas autênticas de que as esposas do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizaram o i‘tikāf na Mesquita do Profeta.

8. O jejum da pessoa em i‘tikāf
É melhor que a pessoa em i‘tikāf jejue, mas não há problema se não jejuar. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Ibn Umar, que Umar disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Ó Mensageiro de Allah, na época da Jahiliyyah eu havia feito o voto de realizar i‘tikāf durante uma noite na Mesquita Sagrada.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Cumpre o teu voto.” Essa ordem do Mensageiro para que ele cumprisse seu voto prova que o jejum não é condição para o i‘tikāf, pois não é válido jejuar durante a noite.
Sa‘id ibn Mansur narrou, sob a autoridade de Abu Sahl, que Sahl disse: “Uma mulher da minha família havia feito o voto de realizar i‘tikāf. Perguntei a Umar ibn Abd al-Aziz, e ele respondeu: ‘Ela só deverá jejuar se tiver feito o voto de jejuar; caso contrário, não.’ Então Az-Zuhri disse: ‘Não há i‘tikāf sem jejum.’ Umar perguntou: ‘Ouviste isso do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?’ Az-Zuhri respondeu: ‘Não.’ Ele perguntou: ‘Então, de Abu Bakr?’ Ele respondeu: ‘Não.’ Perguntou: ‘Então, de Umar?’ Ele respondeu: ‘Não.’ Perguntou: ‘De Uthman?’ Ele respondeu: ‘Não.’” (…)
Então saí de sua presença, encontrei Ata e Tawus e perguntei-lhes. Tawus apontou para certa pessoa e disse: “Fulano considerava que, se a mulher mencionada não tivesse feito o voto de jejuar, não precisaria jejuar.” Ata disse: “Se a mulher mencionada não tivesse feito o voto de jejuar, não seria obrigatório que jejuasse.” Al-Khattabi disse: “Os sábios divergiram sobre essa questão.” Al-Hasan al-Basri disse: “O i‘tikāf sem jejum é válido.” Essa também é a opinião do imame Ash-Shafi‘i. Foi narrado de Ali e de Ibn Mas‘ud que disseram: “A pessoa em i‘tikāf pode jejuar, se quiser, e pode realizar o i‘tikāf sem jejuar, se quiser.” Segundo Al-Awza‘i e Malik, não há i‘tikāf sem jejum. Essa é também a opinião de Ibn Umar, Ibn Abbas, Aisha, Sa‘id ibn al-Musayyab, Urwah ibn az-Zubayr, Az-Zuhri e dos sábios chamados Ahl ar-Ra’y, que fazem ijtihad juntamente com o Alcorão e a Sunnah.

9. O momento de entrar no local do i‘tikāf e de sair dele
Como já dissemos, o i‘tikāf recomendado não tem duração determinada. Assim que a pessoa em i‘tikāf entrar na mesquita e intencionar aproximar-se de Allah permanecendo em seu interior, será considerada em i‘tikāf até sair. Se intencionar realizar o i‘tikāf durante os últimos dez dias do Ramadã, deverá entrar no local do i‘tikāf antes do pôr do sol. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Abu Sa‘id, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem realizar o i‘tikāf comigo, que o faça durante os últimos dez dias.” Os dez dias significam as dez noites. A primeira dessas dez noites é a noite do dia vinte e um ou do dia vinte.
O hadith que relata que, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desejava realizar o i‘tikāf, entrava no local do i‘tikāf depois de realizar a oração do amanhecer, significa que ele entrava no local reservado ao i‘tikāf após o amanhecer. Entretanto, sua entrada na mesquita para o i‘tikāf ocorria no primeiro período da noite.

Quanto àquele que fizer i‘tikaf durante os últimos dez dias do Ramadã, segundo Abu Hanifa e al-Shafi‘i, ele deverá sair da mesquita depois do pôr do sol do último dia do Ramadã. Segundo Malik e Ahmad, ao sair depois do pôr do sol, terá completado dez dias de i‘tikaf; contudo, é mustahabb permanecer na mesquita até antes da oração do Eid. Al-Aqram narra de Abu Qilaba que este costumava passar a noite do Eid al-Fitr — isto é, a noite anterior — na mesquita. Depois, pela manhã, saía como se estivesse indo para a oração do Eid. Enquanto permanecia em i‘tikaf, não se estendia para ele nenhuma esteira nem tapete de oração; ao contrário, permanecia sentado como os demais orantes. No dia do Eid al-Fitr, fui até ele e vi Juwayriya al-Muzayniya sentada em seu colo. Pensei que ela fosse sua filha, mas depois soube que era sua escrava. Ele a libertou e, em seguida, partiu como se estivesse indo para a oração do Eid. Ibrahim disse: quando alguém faz i‘tikaf durante os últimos dez dias do Ramadã, o povo costumava preferir que permanecesse na mesquita na noite do Eid al-Fitr e, depois, pela manhã, se dirigisse da mesquita ao local da oração do Eid. Se alguém fizer voto de i‘tikaf por um dia ou por alguns dias determinados, ou realizar um i‘tikaf mustahabb, deverá iniciar o i‘tikaf antes do amanhecer e sair da mesquita depois que o sol se puser completamente, seja isso no Ramadã ou em outro período. E, se alguém fizer voto de i‘tikaf por uma noite ou por algumas noites determinadas, ou realizar um i‘tikaf mustahabb, deverá entrar no i‘tikaf antes que o sol se ponha completamente e sair depois do amanhecer. Ibn Hazm disse: a razão é que a noite começa imediatamente após o pôr do sol e termina com o amanhecer; o dia começa com o amanhecer e termina com o pôr do sol. Além disso, a pessoa não é obrigada a fazer senão aquilo que tencionou ou tornou obrigatório para si. Se alguém fizer voto de i‘tikaf por um mês ou tiver a intenção de realizar um i‘tikaf voluntário, seu mês começará na primeira noite daquele mês. Entrará na mesquita antes do pôr do sol completo e sairá, ao fim do mês, depois do pôr do sol completo, seja isso no Ramadã ou em qualquer outro mês.

10. As ações mustahabb e as ações makruh para quem está em i‘tikaf: é mustahabb realizar muitas devoções voluntárias, rezar, recitar o Alcorão, dizer “Subhanallah”, “Alhamdulillah”, “Allahu Akbar” e “La ilaha illallah”, e pedir perdão pelos pecados. Também é mustahabb para quem está em i‘tikaf enviar bênçãos e saudações ao Mensageiro de Allah, fazer súplicas e praticar atos de adoração semelhantes que auxiliem a aproximar-se de Allah e fortalecer o vínculo com Ele. É igualmente recomendável estudar o conhecimento islâmico, a exegese, os hadiths, as biografias dos profetas e das pessoas virtuosas e laboriosas, bem como os livros de fiqh e de religião. Seguindo o exemplo do Mensageiro de Allah, é mustahabb permanecer numa tenda armada no pátio da mesquita. Já realizar ações, falar e manter conversas que não tragam benefício é makruh. Isso porque al-Tirmidhi e Ibn Majah narraram de Abu Basra que o Mensageiro de Allah disse: “Uma das nobres características islâmicas do ser humano é abster-se de palavras e ações inúteis.”

No entanto, adotar um silêncio absoluto e considerá-lo um meio de alcançar proximidade com Allah é makruh. Isso porque al-Bukhari, Abu Dawud e Ibn Majah narraram de Ibn Abbas: certo dia, o Mensageiro de Allah estava proferindo um sermão. De repente, viu um homem de pé, imóvel. Perguntou quem era aquele homem. As pessoas informaram que ele era o pai de Israel. Ele havia feito voto de permanecer apenas em pé, jamais sentar-se, não ficar à sombra e jejuar. O Mensageiro de Allah disse: “Ordenai-lhe que fale, fique à sombra, sente-se e complete o jejum.” Abu Dawud narrou de Ali que o Mensageiro de Allah disse: “Não se chama órfão aquele que fica sem pai depois de atingir a maturidade, e não se deve guardar silêncio durante todo o dia até a noite.” Eis o que é permitido ou lícito para quem está em i‘tikaf:

11. As seguintes ações são lícitas para quem está em i‘tikaf: 1. Sair do local do i‘tikaf para acompanhar os familiares até a saída. Safiyya disse: “O Mensageiro de Allah estava em i‘tikaf. Fui visitá-lo à noite. Depois de conversar com ele, saí e retornei para casa. O Mensageiro de Allah caminhou comigo para me acompanhar até minha casa. A residência de Safiyya ficava na casa de Usama ibn Zayd. Nesse momento, dois homens dos Ansar passavam por eles. Ao verem o Mensageiro de Allah, apressaram-se para ir embora. O Mensageiro de Allah disse: ‘Ide devagar. Esta é Safiyya bint Huyayy, minha esposa.’ Eles disseram: ‘Ó Mensageiro de Allah, Subhanallah!’ — isto é, ‘Por acaso poderíamos pensar algo assim de ti, supondo que estivesses encontrando uma mulher estranha?’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Satanás circula pelo ser humano como o sangue circula pelas veias e artérias. Por isso temi que ele pudesse lançar algum mau pensamento nos corações de vocês dois.’ — al-Bukhari, Muslim e Abu Dawud.”

(Al-Khattabi disse: este hadith mostra que ele saiu da mesquita para acompanhar Safiyya até sua casa. Isso prova que, se alguém em i‘tikaf sair da mesquita para uma necessidade urgente segundo a Sharia, seu i‘tikaf não será invalidado e o i‘tikaf não constitui obstáculo à realização de uma ação benéfica para outra pessoa. Foi narrado de al-Shafi‘i que ele disse: movido pelo afeto pelos dois companheiros dos Ansar, o Mensageiro de Allah esclareceu-lhes a identidade de Safiyya. Pois, se eles tivessem nutrido uma má suspeita em relação ao Mensageiro de Allah, teriam se tornado descrentes. Por isso, ele se apressou em informá-los do assunto, para que sua fé não fosse destruída. Em Tarikh Ibn Asakir, foi narrado de Ibrahim ibn Muhammad, que disse: estávamos numa reunião de Ibn Uyayna, e o Imam al-Shafi‘i estava presente, discutindo este hadith. Ibn Uyayna perguntou ao Imam al-Shafi‘i: ‘Qual é a lição deste hadith?’ Ele respondeu: ‘Quando vocês se encontrarem numa situação semelhante, ajam dessa maneira, para que não surja uma má suspeita a respeito de vocês. O Mensageiro de Allah jamais acusou seus companheiros de nutrirem más suspeitas a seu respeito, pois ele era a pessoa mais virtuosa de toda a Terra.’ Ibn Uyayna disse: ‘Ó Abu Abdillah’ — o kunya do Imam al-Shafi‘i — ‘que Allah o recompense com o bem. Você sempre diz coisas de que gostamos muito.’)

2. Pentear o cabelo, raspar a cabeça, cortar as unhas, limpar a sujeira do corpo, vestir boas roupas e usar perfume. Aisha disse: “Enquanto o Mensageiro de Allah permanecia em i‘tikaf na mesquita, ele estendia a cabeça em minha direção através da abertura do aposento, e eu lavava sua cabeça.” Na versão de Musaddad consta: “Eu penteava seus cabelos com um pente enquanto estava menstruada.” — al-Bukhari, Muslim e Abu Dawud.

3. Sair da mesquita por uma necessidade inevitável. Aisha disse: “Quando o Mensageiro de Allah estava em i‘tikaf, estendia a cabeça em minha direção, e eu penteava seus cabelos. Ele não entrava em casa senão para atender a uma necessidade humana.” — al-Bukhari e Muslim.

Ibn al-Mundhir disse: Os sábios são unânimes em que é permitido sair durante o i‘tikaf para urinar e defecar, pois isso é uma necessidade inevitável que não pode ser satisfeita dentro da mesquita. Se não houver ninguém para trazer comida e bebida, também é permitido sair para atender à necessidade de comer e beber. Se surgir uma necessidade repentina de vomitar, pode-se sair para vomitar fora da mesquita. É permitido sair da mesquita para realizar qualquer tarefa extremamente urgente que não possa ser feita nela. Contudo, não se deve permanecer fora por mais tempo do que o necessário. Se não permanecer fora por um longo período, o i‘tikaf não será invalidado. Também é permitido sair para tomar banho a fim de remover a impureza causada pela emissão de sêmen e para limpar a impureza do corpo e das roupas.

Sa‘id ibn Mansur narra que ‘Ali ibn Abi Talib, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Mesmo que alguém esteja em i‘tikaf, deve participar da oração de sexta-feira e da oração fúnebre, visitar o doente e sair para ordenar à sua família que lhe forneça o que necessita. Contudo, deve dar a ordem em pé e retornar à mesquita imediatamente. ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, deu setecentos dirrãs ao seu sobrinho para comprar um servo. O sobrinho disse: “Estou em i‘tikaf.” ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “Que prejuízo haveria em ir ao mercado e comprá-lo?” Qatada permitiu condicionalmente que a pessoa em i‘tikaf participasse do enterro do falecido e visitasse o doente. Segundo ele, o mu‘takif pode sair para essas atividades: visitar o doente, participar da oração de sexta-feira e da oração fúnebre, e sair para atender a necessidades. Ele disse: Não se deve entrar na entrada ou no pátio da casa de alguém, salvo em caso de necessidade absoluta. Al-Khattabi disse: Segundo um grupo de sábios, é permitido à pessoa em i‘tikaf participar da oração de sexta-feira, da oração fúnebre e visitar o doente. Essa é a opinião de ‘Ali, Sa‘id ibn Jubayr, al-Hasan al-Basri e al-Nakha‘i.

Abu Dawud também narrou, citando ‘A’isha, que Allah esteja satisfeito com ela, que, enquanto estava em i‘tikaf, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passava pelo doente. Contudo, não permanecia ali para perguntar sobre seu estado; perguntava enquanto continuava caminhando. Quanto ao hadith narrado por ‘A’isha, que Allah esteja satisfeito com ela, no qual se afirma que a prática conforme a Sunnah para a pessoa em i‘tikaf é não visitar o doente, isso significa que ela não deve sair da mesquita com o propósito de visitá-lo, nem causar-lhe incômodo; deve perguntar por seu estado sem permanecer ali e retornar.

4. É permitido à pessoa em i‘tikaf comer, beber e dormir dentro da mesquita. Contudo, deve preservar a santidade e a limpeza da mesquita. Também lhe é permitido realizar na mesquita contratos de casamento, compra e venda e semelhantes.

12. O que invalida o i‘tikaf: O i‘tikaf é invalidado pela prática de qualquer uma das ações a seguir:

1. Sair deliberadamente da mesquita sem necessidade, ainda que seja por um período muito curto. Isso porque, com tal saída, perde-se a permanência na mesquita, que é parte inseparável do i‘tikaf.

2. Apostasia: pois ela contradiz a adoração. Allah diz: “Se cometeres shirk, tuas boas obras serão anuladas.” (Surata al-Zumar: versículo 65)

3, 4, 5: Perder a razão por insanidade ou embriaguez, e a menstruação e o sangramento pós-parto: pois, no primeiro caso, não há capacidade de distinguir entre o bem e o mal, e nos dois últimos não há estado de pureza, que é uma condição prévia para o i‘tikaf.

6. Relações sexuais: Allah disse:

ولا تقربو من وَانْتُمْ عَاكِفُونَ فِي الْمَسَاجِلِ، تِلْكَ حُدُودَ اللَّهِ فَلَا تَقْرَبُومَا –

«Não vos aproximeis de vossas esposas enquanto estiverdes em i‘tikaf nas mesquitas. Esses são os limites estabelecidos por Allah; portanto, não vos aproximeis deles.» (Surata Al-Baqara: versículo 87)

No entanto, não há problema em tocar sem desejo sexual. Com efeito, uma das esposas do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) penteava seus cabelos enquanto ele estava em i‘tikaf. Sobre beijar e tocar com desejo sexual, Abu Hanifa e Ahmad disseram: isso é ilícito e proibido. Contudo, se não houver ejaculação, o i‘tikaf não será invalidado. Malik disse: o i‘tikaf será invalidado mesmo sem ejaculação, pois isso é uma relação proibida que o invalida assim como a ejaculação. De Ash-Shafi‘i foram transmitidas duas opiniões semelhantes às mencionadas. Ibn Rushd disse: o termo “mubasharat” (relação íntima) é um ismo mushtarak, isto é, uma palavra ambígua. A divergência dos imames diz respeito a saber se esse tipo de palavra transmite ambos os sentidos ao mesmo tempo. Segundo os que afirmam que sim, o termo mubasharat (relação íntima) indica tanto a relação sexual quanto os atos próximos dela. Portanto, a proibição mencionada no versículo aplica-se tanto à relação sexual quanto aos atos próximos dela. Já os que não consideram que o termo transmita ambos os sentidos simultaneamente dizem que relação íntima significa ou relação sexual ou um ato próximo dela. Esta última é, de fato, a opinião apoiada pela maioria. Assim, se dissermos que seu significado é relação sexual, não se poderá afirmar que também significa um ato próximo da relação sexual, pois não é aceitável que uma mesma palavra indique simultaneamente uma coisa e outra próxima dela. Para aqueles que incluem a ejaculação na categoria da relação sexual, a relação íntima acompanhada de ejaculação (toque ou beijo) tem o mesmo significado que a relação sexual. Já para aqueles que não incluem a ejaculação na categoria da relação sexual, o termo relação íntima não indica diretamente a relação sexual.

13. Compensação do i‘tikaf: Há divergência quanto àquele que inicia um i‘tikaf voluntário e depois o interrompe ou abandona. Alguns dizem que compensar o i‘tikaf é mustahabb, e outros dizem que é wajib. At-Tirmidhi disse: se a pessoa em i‘tikaf, após formular a intenção e iniciá-lo, o abandonar antes de concluí-lo, será wajib compensá-lo segundo o imam Malik. Eles apresentam como prova o seguinte hadith: «O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) saiu do i‘tikaf e depois fez i‘tikaf durante dez dias de Shawwal.» Ash-Shafi‘i disse que, se a pessoa não tiver tornado o i‘tikaf obrigatório para si por meio de um voto ou de outra forma, e se ele for voluntário, então, caso o abandone, não terá de compensá-lo. Mesmo que o torne obrigatório voluntariamente, ele não se tornará wajib. Ash-Shafi‘i disse: podes iniciar qualquer ato; depois de iniciá-lo, se dele saíres, não terás de compensá-lo, exceto o hajj e a ‘umra.

Entretanto, se alguém fizer um voto de realizar i‘tikaf durante um dia ou vários dias, iniciá-lo e depois interrompê-lo, deverá compensá-lo por consenso. Se morrer antes de compensá-lo, não será necessário fazê-lo em seu nome. Segundo Ahmad, porém, será wajib para seu responsável compensá-lo em seu nome. ‘Abd al-Karim ibn Umayya disse: ouvi ‘Abdullah ibn ‘Utba dizer: «Era wajib para nossa mãe fazer i‘tikaf.» Nesse estado, ela morreu. Perguntei a Ibn ‘Abbas sobre isso, e ele disse: «Faze i‘tikaf e jejua em nome dela.» Sa‘id ibn Mansur narrou: ‘A’isha fez i‘tikaf em nome de seu irmão depois da morte dele.

14. A pessoa em i‘tikaf permanecerá em um local da mesquita e ali montará uma tenda:

1. Ibn Majah narrou, por intermédio de Ibn ‘Umar, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fazia i‘tikaf durante os últimos dez dias do Ramadã. Nafi‘ disse: ‘Abdullah ibn ‘Umar mostrou-me o local onde o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) costumava fazer i‘tikaf.

2. Também foi narrado por Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que, quando fazia i‘tikaf, estendia-se uma esteira ou colocava-se uma cama para ele junto ao Pilar do Arrependimento. (Um dos Companheiros havia se amarrado a esse pilar. Depois que Allah aceitou o seu arrependimento, ele foi desatado; por isso, esse pilar recebeu o nome de Pilar do Arrependimento.)

3. Foi narrado por Abu Sa‘id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez i‘tikaf estendendo uma esteira à porta do edifício turco. (O objetivo de estender a esteira sobre a porta era impedir que alguém pudesse olhar para ele.)

15. Fazer um voto de realizar i‘tikaf em uma mesquita específica: se alguém fizer o voto de realizar i‘tikaf na Mesquita Sagrada, na Mesquita do Profeta ou na Mesquita de Al-Aqsa, será obrigatório para ele realizar o i‘tikaf na mesquita que determinou. Isso porque o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não se deve viajar para nenhum lugar, exceto para três mesquitas: a Mesquita Sagrada, a Mesquita de Al-Aqsa e esta minha mesquita.” Contudo, se alguém fizer o voto de realizar i‘tikaf em qualquer outra mesquita além dessas três, não será obrigatório para ele realizar o i‘tikaf na mesquita determinada. Ele poderá realizar o i‘tikaf na mesquita que desejar, pois Allah não especificou nenhum lugar para a Sua adoração. Além disso, nenhuma outra mesquita, além dessas três, possui superioridade sobre as demais. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “A oração nesta minha mesquita é mil vezes superior à oração em qualquer mesquita, exceto na Mesquita Sagrada. E a oração na Mesquita Sagrada é cem vezes melhor do que a oração nesta minha mesquita.”

Se alguém fizer o voto de realizar i‘tikaf na Mesquita do Profeta, será permitido realizar o i‘tikaf na Mesquita Sagrada, pois a Mesquita Sagrada é superior à Mesquita do Profeta.

Quinto capítulo: assistência ao enfermo, oração fúnebre, sepultamento e mortalha

Quinto capítulo

— Assistência ao enfermo, oração fúnebre, sepultamento e mortalha

1. Princípios islâmicos relacionados às doenças e ao tratamento

Muitos hadiths sobre doenças afirmam, em termos inequívocos, que as doenças são uma expiação e remissão dos pecados. Mencionarei alguns desses hadiths:

a. Al-Bukhari e Muslim narraram, sob autoridade de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando Allah deseja o bem de alguém, faz com que seja acometido por doenças e adversidades.”

b. Al-Bukhari e Muslim também narraram, sob autoridade de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se um muçulmano for acometido por alguma doença, aflição, adversidade, tristeza ou preocupação — ainda que um espinho penetre em seu corpo — Allah, por meio disso, apaga seus pecados.”

c. Al-Bukhari narrou, sob autoridade de Ibn Mas‘ud. Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Certo dia, fui até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e vi que ele estava sofrendo de uma febre intensa. Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, o senhor está sofrendo de uma febre muito forte.’ Ele respondeu: ‘Sim. Sofro de uma febre tão intensa quanto a de dois de vocês.’ Eu disse: ‘O senhor receberá, então, uma recompensa duplicada.’ Ele respondeu: ‘Sim, e os demais também terão o mesmo.’ Qualquer muçulmano que sofra uma aflição, por maior que seja — desde a picada de um pequeno espinho — Allah apaga seus pecados em troca disso, assim como as folhas caem das árvores.”

d. Foi narrado por Abu Huraira que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O exemplo do crente é como o de um jardim de mudas, que qualquer vento que venha de qualquer direção torna mais viçoso. Então, quando as árvores se firmam sobre seus troncos, tornam-se protegidas de todos os tipos de calamidades. Já o pecador é como uma árvore de cedro, altiva e frágil; quando Allah quer, destrói-a.”

Paciência diante da doença

– O doente deve ter paciência diante do sofrimento que enfrenta, pois nenhum servo recebeu algo melhor do que a paciência.

1. Muslim narrou, sob autoridade de Suhaib ibn Sinan, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “É admirável a situação do crente: tudo o que lhe acontece é bom, e isso não ocorre com ninguém além do crente. Se algo agradável lhe acontece, ele agradece a Allah, e isso é bom para ele. E, se algo doloroso lhe acontece, ele tem paciência, e isso também é bom para ele.”

2. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Anas, que Allah esteja satisfeito com ele. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer que Allah disse: “Quando submeto Meu servo a uma provação em seus dois olhos e ele persevera, concedo-lhe o Paraíso em recompensa.” (Perseverar diante de uma provação não significa abster-se de empreender esforços lícitos para enfrentá-la; significa, antes, continuar buscando licitamente livrar-se dela, sem desespero e confiando em Allah, mantendo em todas as circunstâncias a firme convicção de que o decreto de Allah é benéfico.)

3. Al-Bukhari e Muslim narraram, sob a autoridade de Ata ibn Abi Rabah, que narrou de Ibn Abbas. Ibn Abbas disse: “Queres que te mostre uma mulher do Paraíso?” Eu (Ata ibn Abi Rabah) disse: “Sim, mostra-me.” Ele disse: “Esta mulher negra.” Ela foi até o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Tenho crises de falta de ar, perco o controle e fico descoberta. Portanto, roga a Allah por mim.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Se quiseres, podes perseverar, e o Paraíso será garantido para ti; ou, se quiseres, rogarei a Allah que te cure.” A mulher disse: “Perseverarei.” Então acrescentou: “É que fico descoberta. Portanto, roga a Allah para que eu não fique descoberta.” Ele então rogou por ela.

O paciente falar sobre a própria doença:

É permitido que o paciente fale sobre sua doença e seu sofrimento ao médico e ao amigo. Contudo, isso não deve ser feito de modo a expressar ressentimento ou desespero. Já foi citada anteriormente a declaração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Também sou acometido pela febre como qualquer um de vós.” Certa vez, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, falou ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre seu sofrimento, dizendo: “Ai de mim, minha cabeça!” Então o Mensageiro disse: “Eu também estou assim.” Depois, quando Asma estava sofrendo intensamente com a dor, Abdullah ibn az-Zubair, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou-lhe: “Como te sentes?” Ela respondeu: “Com muita dor!” Antes de falar sobre sua própria doença, o paciente deve louvar a Allah. Ibn Masud disse: “Se a pessoa agradece a Allah antes de falar sobre a doença, falar sobre ela não lhe parece tão difícil.” E é perfeitamente permitido queixar-se a Allah de qualquer tristeza ou sofrimento. Jacó, que a paz esteja sobre ele, disse: “Só apresentarei a Allah minha aflição e minha tristeza.” E o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse (após as perseguições em Taife): “Ó Allah, somente a Ti apresento a insuficiência da minha força e dos meus recursos.”

As boas ações que o paciente costumava praticar quando estava saudável são registradas em seu nome enquanto está doente. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Abu Musa al-Ashari, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando um servo adoece ou viaja, são registradas em seu nome todas as ações que ele praticava quando estava saudável e permanecia em sua residência.”

Visitar o doente

Uma das práticas de cortesia do Islã é visitar o doente e perguntar por seu estado, para que o ânimo do paciente permaneça elevado e seu direito seja cumprido. Ibn Abbas disse: “Visitar o doente no primeiro dia é uma sunnah; depois disso, é voluntário.” Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Abu Musa, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Alimentai o faminto, visitai o doente e libertai o prisioneiro.”

Al-Bukhari e Muslim também narraram que o muçulmano tem seis direitos sobre outro muçulmano. Foi perguntado: “Ó Mensageiro de Allah, quais são eles?” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Quando o encontrares, saúda-o; quando te convidar, aceita o convite; quando te pedir um conselho sincero, aconselha-o; quando espirrar e louvar a Allah, roga por ele, dizendo: ‘Que Allah tenha misericórdia de ti’; quando adoecer, visita-o; e, quando morrer, participa de sua oração fúnebre e de seu sepultamento.”

A virtude de visitar o doente

1. Ibn Majah narrou, por intermédio de Abu Hurayrah, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando alguém visita um doente, um anunciador do céu lhe diz: ‘Que você seja virtuoso, que sua jornada seja virtuosa e que sua morada seja no Paraíso.’”

2. Muslim narrou, por intermédio de Abu Hurayrah, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “No Dia da Ressurreição, Allah dirá: ‘Ó filho de Adão, Eu adoeci, mas você não Me visitou.’ Ele dirá: ‘Ó meu Senhor, como poderia visitar-Te? Tu és o Senhor de todos os mundos.’ Allah dirá: ‘Você não sabia que certo servo Meu estava doente, mas você não o visitou? Não sabia que, se o tivesse visitado, Me encontraria junto dele? Depois dirá: ‘Ó filho de Adão, pedi alimento a você, mas você não Me alimentou.’ Ele dirá: ‘Ó meu Senhor, como Te alimentaria? Tu és o Senhor de todos os mundos.’ Allah dirá: ‘Você não sabia que certo servo Meu lhe pediu alimento, mas você não o alimentou? Não sabia que, se o tivesse alimentado, encontraria isso Comigo? Ó filho de Adão, pedi água a você, sedento, mas você não Me deu de beber.’ Ele dirá: ‘Ó meu Senhor, como Te daria de beber? Tu és o Senhor de todos os mundos.’ Ele dirá: ‘Certo servo Meu lhe pediu água, mas você não lhe deu de beber. Não sabia que, se lhe tivesse dado de beber, encontraria isso Comigo?’”

3. Foi narrado por intermédio de Thawban que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando um muçulmano visita seu irmão muçulmano, permanece entre os pomares do Paraíso até retornar.” Perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, o que são os pomares do Paraíso?” Ele respondeu: “Um jardim repleto de frutos.”

4. Foi narrado por intermédio de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Ali disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: ‘Quando um muçulmano visita pela manhã outro muçulmano enfermo, setenta mil anjos suplicam por seu bem até a noite; e, quando o visita à tarde, setenta mil anjos suplicam por seu bem até a manhã. E enormes quantidades de frutos ficam reservadas para ele no Paraíso.’” — At-Tirmidhi. At-Tirmidhi disse que o hadith é bom.

Como visitar o doente

Ao visitar um doente, é recomendável suplicar pela sua cura, por seu bem-estar geral e por sua segurança, bem como aconselhá-lo a ter paciência. Deve-se falar com ele de modo a alegrá-lo e fortalecer seu ânimo. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando visitarem um doente, façam-no ter esperança em uma vida longa.” Naturalmente, isso não impedirá nada (isto é, não poderá afastar aquilo que está destinado a ele). Contudo, trará alegria e tranquilidade ao coração do doente. Sempre que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, visitava um doente, ao chegar junto dele dizia: “Não há motivo para temer; se Allah quiser, você ficará curado.” Também é recomendável evitar, tanto quanto possível, permanecer por muito tempo junto do doente ou visitá-lo com frequência, para que isso não se torne incômodo e penoso para ele. Porém, se o próprio doente desejar isso, então a situação é diferente.

A visita de mulheres a homens enfermos

O Imam Al-Bukhari disse: Capítulo sobre a visita de mulheres a homens enfermos: Umm Ad-Darda foi visitar um homem dos Ansar na Mesquita do Profeta. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina, Abu Bakr e Bilal foram acometidos por uma forte febre. Fui visitá-los e disse: ‘Pai, como você está? Bilal, como você está?’ Quando Abu Bakr era acometido pela febre, recitava estes versos:

كُلَّ امْرِي مصبح فِي أَهْلِهِ – وَالْيَوْتِ أَدْنَى مِنْ شِرَاكَ نَعْلِهِ .

‘Cada pessoa exerce influência entre seus familiares, contudo a morte está mais próxima do que o cadarço de seu sapato.’

E, quando a febre de Bilal diminuía, ele dizia:

الا ليت شعري مَنْ أبِيتَن لَيْلَهُ – بِوَادٍ وَحَوْلِي إِذْخَرُ وَجَلِيلُ – وَمَنْ أَرَدْنَ يَوْمًا مِيَاءَ مِجَنَّةِ – وَهَلْ يَبْدُونَ لِي عَامَةً وَطَفِيلُ.

‘Ah! Terei algum dia a oportunidade de passar a noite em uma terra plana, onde haja abundância de izkhir e jalil ao meu redor? Poderei algum dia descer a um reservatório com muita água? E verei diante de mim camelos negros e a água turva no fundo do tanque?’ (Ele estava relembrando Meca.)

Aisha disse: Fui até o Mensageiro de Allah e informei-lhe que Abu Bakr e Bilal recitavam poesia por causa da febre. Então o Mensageiro de Allah disse: ‘Ó Allah, torna Medina tão amada por nós quanto Meca, ou ainda mais. Ó Allah, torna Medina saudável e abençoa tudo o que nela há. Afasta dela a febre e estabelece-a junto a reservatórios de água.’ (Isto é, concede abundância de água a Medina.)

Visitar um doente incrédulo

Não há mal algum em um muçulmano visitar um incrédulo doente. Al-Bukhari narrou, por meio de Anas, que um jovem judeu era servo do Mensageiro de Allah. Quando ele adoeceu, o Mensageiro de Allah foi visitá-lo. Em seguida, disse-lhe: ‘Aceita o Islã.’ E ele aceitou o Islã imediatamente. Sa’id ibn al-Musayyab também disse: Quando Abu Talib estava em seu leito de morte, o Mensageiro de Allah foi até ele.

Visitar um doente dos olhos

Abu Dawud narrou, com base em Zaid ibn Arqam, que ele disse: Quando senti dor nos olhos, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, veio visitar-me.

Pedir ao doente que faça uma súplica

Ibn Majah narrou, com base em Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: Quando visitares um doente, pede-lhe que faça uma súplica por ti, pois a súplica dele é como a súplica dos anjos (isto é, é aceita por Allah).

Tratamento das doenças

Em muitos hadiths, o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, ordenou o tratamento das doenças:

1. Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah narraram, com base em Usama ibn Shuraik, que ele disse: Fui até o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele. Vi seus companheiros sentados de tal maneira que parecia que havia pássaros pousados sobre suas cabeças (isto é, ouviam suas palavras com atenção). Cumprimentei-o e sentei-me. Então, beduínos começaram a chegar de diferentes lugares. Eles perguntaram: Ó Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, devemos tratar as doenças? O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, respondeu: Tratai-as. Pois Allah não criou doença alguma sem criar também um remédio para ela. Há apenas uma exceção: uma doença, que é a velhice.

2. Nasa’i, Ibn Majah e al-Hakim narraram, com base em Ibn Mas’ud, que o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: Allah, o Altíssimo, não criou doença alguma sem providenciar sua cura. Portanto, tratai-vos.

3. Muslim narrou, por meio de Jabir, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Para toda doença há um remédio. Quando o remédio de uma doença é aplicado corretamente, ela é curada, com a permissão de Allah.
Tratamento com substâncias proibidas

A opinião da maioria dos eruditos é que é ilícito tratar doenças com substâncias proibidas, como o álcool. Eles apresentaram como prova os seguintes hadiths:

1. Muslim, Abu Dawud e Tirmidhi narraram, por meio de Wa’il ibn Hujr al-Hadrami, que Tariq ibn Suwaid perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Pode-se preparar um remédio com álcool?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Isso não é um remédio; ao contrário, é uma doença.” Este hadith mostra que é ilícito tratar-se com álcool. Na verdade, o próprio álcool é uma doença.

2. Al-Bayhaqi narrou, por meio de Umm Salama, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah não colocou a cura das vossas doenças nas coisas que proibiu para vós.” Este hadith também foi narrado por Bukhari, por meio de Ibn Mas’ud.

3. Abu Dawud narrou, por meio de Abu al-Darda, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah, o Altíssimo, criou a doença e o remédio, e criou um remédio para cada doença. Portanto, tratai as doenças. Contudo, não vos trateis com coisas proibidas.”

4. Ahmad, Muslim, Tirmidhi e Ibn Majah narraram, por meio de Abu Hurayra, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu o uso dos piores remédios, isto é, veneno. Pequenas gotas de álcool, que não são claramente perceptíveis e não causam embriaguez, quando misturadas aos componentes de um remédio, não o tornam proibido, assim como não há problema quando uma pequena quantidade de seda está presente numa vestimenta.

Médico não muçulmano

Ibn Muflih citou, em sua obra Adab al-Sharia, a seguinte declaração do xeique Taqi al-Din: “Se um judeu ou cristão for competente na medicina e digno da confiança do público, pode ser contratado como médico. Da mesma forma, pode-se confiar-lhe algum patrimônio e realizar transações com ele. Allah, o Altíssimo, diz:

ومن أهلِ الْكِتَابِ مَنْ إِن تَامَنهُ بِقِنْطَارِ يُوَدِهِ إِلَيْكَ، وَمِنْهُم مِّن إِن تَأْمَنُهُ بِدِينَارٍ لأَبَوَيْهِ إِلَيْكَ إِلَّا مادمت عَلَيْهِ قَالَها

“Entre os adeptos do Livro, há alguns que, se lhes confiares uma grande quantidade de bens, devolverão tudo a ti. E entre os adeptos do Livro há também alguns que, se lhes confiares um único dinar, não o devolverão a ti, a menos que continues a exigir-lhes isso.” (Surata Al Imran, versículo 75)

Foi narrado em um hadith autêntico que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) emigrou, contratou, mediante pagamento, um politeísta perito em orientar os viajantes. Ele depositou nele confiança quanto à sua própria vida e aos seus bens. Além disso, todos os membros da tribo Banu Khuzayah, muçulmanos e incrédulos, sem distinção, eram aliados do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Embora Harith ibn Kaladah fosse incrédulo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que o chamassem para realizar tratamentos. Contudo, quando é possível contratar um muçulmano para o tratamento, assim como não é apropriado dar preferência a um incrédulo, ignorando um muçulmano disponível, para transações e depósitos em confiança, também não é apropriado fazê-lo no campo do tratamento. Quando necessário, é permitido confiar um depósito a um adepto do Livro ou procurar tratamento com ele. Isso não se inclui na amizade com judeus e cristãos que o Alcorão proibiu. Porém, se houver necessidade de debater com eles, isso deve ser feito da maneira mais adequada. Pois Allah disse:

وَلَا تُجَادِلُوا أَهْلَ الْكِتَابِ إِلَّا بِالَّتِي فِي أَحْسَنُ.

“E não discutais com os adeptos do Livro, salvo da maneira mais adequada.” Abu al-Khattab disse, mencionando os hadiths sobre o tratado de Hudaybiyyah, o envio, pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), de um membro da tribo Banu Khuzayah como seu aliado e a aceitação de suas informações: isso prova que é permitido aceitar um médico incrédulo quando ele expõe a doença e o método de tratamento, desde que não haja razão para acusá-lo em relação ao que declara, nem haja margem para suspeita.

Recorrer ao tratamento de uma médica

Quando necessário, é permitido que um homem trate uma mulher e que uma mulher trate um homem. Um homem pode tratar uma mulher, e uma mulher pode tratar um homem? Sob este título, Bukhari narrou de Rubai bint Mu’awwidh ibn Afra, que disse: “Íamos às guerras com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dávamos água aos combatentes no campo de batalha, prestávamos cuidados a eles e enviávamos os feridos e mortos para Medina.” Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: é permitido tratar uma mulher estranha ou um homem estranho quando necessário. Quanto a olhar, tocar com a mão e coisas semelhantes, só será permitido na medida indispensável para o tratamento. Ibn Muflih disse em sua obra Adab al-Sharia: se uma mulher adoecer e não houver ninguém para tratá-la além de um homem, este poderá olhar para ela na medida necessária; se for indispensável, poderá até ver seu órgão genital. A regra entre homens é a mesma. Ibn Hamdan disse: se não houver ninguém para tratar um homem além de uma mulher, será permitido a essa mulher ver, na medida necessária, inclusive o órgão genital do homem. O cádi disse: em caso de necessidade, é permitido ao médico ver as partes íntimas da paciente, e à mulher, bem como ao homem, ver as partes íntimas do corpo de um homem.

Tratamento por meio de ruqya e súplicas

A recitação de fórmulas e as súplicas, quando feitas com palavras árabes compreensíveis relacionadas à recordação de Allah, estão de acordo com a Sharia. Quanto às palavras incompreensíveis, não há garantia de que não contenham shirk. Awf ibn Malik disse: “Nós fazíamos recitações no período da Jahiliyyah. Perguntamos ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): ‘Ó Mensageiro de Allah, qual é a sua opinião sobre essa prática?’ Ele respondeu: ‘Mostrem-me as fórmulas dessas recitações. Se elas não contiverem shirk, não há mal nelas.’” — Muslim e Abu Dawud.

Rabi disse: “Perguntei a Al-Shafi‘i sobre os talismãs e as recitações, e ele respondeu: ‘Não há problema em usar talismãs e fazer recitações com o Alcorão e com as palavras de recordação de Allah que você conhece.’ Eu perguntei: ‘Os Povos do Livro (judeus e cristãos) podem fazer recitações para os muçulmanos?’ Ele respondeu: ‘Sim, se forem feitas com palavras conhecidas que contenham o Livro de Allah e a recordação de Allah.’”

Algumas súplicas conhecidas relacionadas ao tratamento

1. Al-Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): quando alguém da família do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) adoecia, ele esfregava o local da dor e soprava sobre ele após recitar esta súplica:

الله رَبِّ النَّاسِ إِذْهَبِ الْبَاسِ اشْفِ وَأَنتَ الثَّانِي، لَاعِنَاءَ إِلَّا شِفَاؤُكَ، شِفَاءٌ لا يُغَادِرُ سَقَمًا .

“Ó Allah, Senhor da humanidade, remove o sofrimento e cura a doença; Tu és o Curador. Ninguém cura senão por meio da Tua cura, e a Tua cura não deixa doença alguma sem ser curada.”

2. Muslim narrou, por intermédio de Uthman ibn Abi al-As, que Uthman ibn Abi al-As informou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre uma dor que sentia em seu corpo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Coloque a mão sobre o local do seu corpo onde sente dor e diga:”

يسر الله: diga 7 vezes : أعوذ بعزة اللهِ وَقَدْرَتِهِ مِنْ شَرِّ مَا أَمِنَ وَأَحَاذِرُ .

“Busco refúgio na majestade, no poder e na autoridade de Allah contra o dano e o mal daquilo que sinto e daquilo que evito por precaução.” Depois fiz isso algumas vezes. Pouco tempo depois, Allah removeu minha dor. Desde então, venho recomendando esse procedimento à minha família, aos meus parentes e a outras pessoas.

3. At-Tirmidhi narra, através de Muhammad bin Salim, que Muhammad bin Salim disse: Thabit al-Bunani me disse: “Ó Muhammad, quando sentires alguma dor, coloca a mão no local onde sentes a dor e depois diz:”

يسر الله أَعوذُ بِعِزَّةِ اللهِ مِن شَرَّ مَا أَونَ مِن وَجَعِي هذا .

“Em nome de Allah, busco refúgio na majestade e no poder de Allah contra o mal da dor que sinto.” Depois, levanta a mão. Em seguida, repete isso um número ímpar de vezes. Pois Anas bin Malik me informou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou-lhe que fizesse isso.

4. Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: aquele que visitar um doente cuja morte ainda não se aproximou e disser sete vezes:

اسال الله العظيم رب العرش العظيم أن يشفيك –

“Peço a Allah, Senhor do Trono Magnífico, que te cure.” Allah, o Altíssimo, o protegerá daquela doença. — Abu Dawud, At-Tirmidhi.

5. Al-Bukhari narrou, através de Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele:

اعِيلُ كَمَا بِكَلِمَاتِ اللهِ التَّامَةِ مِنْ كُلِّ شَيْطَانٍ وَعَامَّةٍ وَمِن كُلِّ عَيْن لَامَةٍ .

O Mensageiro ﷺ soprava sobre Hassan e Hussein, recitando estas palavras: «Entrego vocês dois à proteção segura das palavras perfeitas de Allah contra todo demônio, todo animal venenoso e nocivo que mata, e todo mau-olhado.» Ele dizia: «Vosso pai — isto é, Ibrahim عليه السلام — costumava recitar esta súplica e soprar sobre Ismael e Isaac.»

6. Muslim narra, de Sa’d ibn Abi Waqqas, que o Mensageiro de Allah ﷺ foi visitá-lo quando ele estava enfermo

e disse:

اللهم الْفِ سَعدا اللهم اغفِ سَعَدا اللهم اشف سعد.

«Ó Allah! Cura Sa’d. Ó Allah, cura Sa’d. Ó Allah, cura Sa’d.» Proibição do uso de amuletos

O Mensageiro de Allah ﷺ proibiu o uso de amuletos. 1. É narrado por Uqbah ibn Amir que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: «Que Allah não complete aquilo que busca aquele que pendura um tamimah (amuleto); e que Allah não deixe sob sua guarda coisa alguma aquele que pendura uma concha de caracol ou de ostra.» (Isto é, que Ele não lhe conceda nenhuma bênção.)

Tamimah ou amuleto é um fio com inscrições ou recitações — ou um amuleto amarrado com um fio — que os árabes penduravam no corpo de seus filhos (na época da ignorância). Eles acreditavam que, por meio dele, poderiam proteger seus filhos do mau-olhado. O Islã o declarou inválido e proibido. O Mensageiro ﷺ proferiu uma súplica contra aqueles que penduram essa tamimah, pedindo que seu destino não alcançasse a plenitude, pois eles desejavam deixar seu destino pendurado.

2. Foi narrado por Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) que, ao entrar no quarto de sua esposa, viu algo amarrado ao pescoço dela. Ele o arrancou e disse: «Os descendentes de Abdullah não têm necessidade alguma de associar a Allah qualquer coisa para a qual Ele não tenha revelado nenhuma prova». Então disse: «Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Os amuletos, os encantamentos e a tawlah fazem parte do shirk”». As pessoas perguntaram:

«Conhecemos os amuletos e os encantamentos, mas o que é a tawlah?» Ele respondeu: «É um tipo de amuleto que as mulheres usam para se tornarem queridas por seus maridos». (Diz-se que é um tipo de fio sobre o qual são recitados encantamentos mágicos, ou um pedaço de papel no qual são escritos encantamentos que fazem com que as mulheres sejam queridas pelos homens, ou os homens pelas mulheres.) — Hafiz e Ibn Hibban.

3. Imran ibn Husayn disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu um homem usando um círculo no braço. O narrador disse: Creio que o círculo era de cobre. Ele disse: «Que você pereça! O que é isso?» O homem respondeu: «Usei-o por causa da wahina (fraqueza)». O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Saiba que isso somente aumentará a sua fraqueza. Jogue-o para longe do seu corpo. Pois, se você morrer enquanto isso estiver em seu corpo, jamais prosperará». — Ahmad.

A wahina é um tipo de artrite que afeta o pescoço e todo o braço. Alguns dizem que é uma doença que afeta o braço. O homem apareceu usando um círculo de cobre na mão. Pensava que isso o livraria de suas dores. Por isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu-o de usá-lo e chamou-o de amuleto.

4. Abu Dawud narrou, por intermédio de ‘Isa ibn Hamzah, que ele disse: Fui até ‘Ali ibn ‘Abdullah ibn Hakim. Naquela ocasião, ele estava sofrendo de urticária (vermelhidão e inchaço da pele). Eu lhe disse: “Você não usa nenhum amuleto?” Ele respondeu: “Busco refúgio em Allah contra isso.” (Peço a Allah proteção contra isso.) Pois o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem usa um amuleto é entregue àquilo que usa como amuleto.”

É permitido transformar em amuletos e pendurar as súplicas mencionadas no Alcorão e nos hadiths?

Foi narrado por ‘Abdullah ibn ‘Amr ibn al-‘As que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando algum de vocês se assusta ao ter um sonho, que recite:”

أَعُوذُ بِكَلِمَاتِ اللَّهِ التَّامَّةِ مِنْ غَضَبِهِ وَعِقَابِهِ وَشَرْ عِبَادِهِ وَمِن هَمزات الشياطين وأن يحضرون.

“Busco refúgio nas palavras perfeitas de Allah contra a Sua ira, o Seu castigo, o mal causado pelos Seus servos, as instigações malignas de Satanás e contra a vinda dos demônios até mim.” Então, aquele sonho assustador não lhe causará nenhum dano. Abdullah ibn Amr ensinava esta súplica aos filhos que já haviam atingido a maturidade. Quanto aos que ainda não tinham atingido a maturidade, ele a escrevia em um papel e o pendurava em seus pescoços. — Abu Dawud, Nasa’i e Tirmidhi. Aisha, Malik, a maioria dos sábios shafiitas e uma opinião atribuída a Ahmad apoiam essa posição. Entretanto, Ibn Abbas, Hudhayfa, os sábios hanafitas, alguns shafiitas e outra opinião atribuída a Ahmad sustentam que não é permitido pendurar no pescoço nenhum objeto como amuleto, pois os hadiths mencionados anteriormente estabeleceram uma proibição absoluta.

2. Princípios islâmicos relativos ao doente

Não permitir que o doente permaneça entre os saudáveis

É permitido manter separado dos saudáveis aquele que está acometido por uma doença contagiosa. Ele não deve permanecer junto aos saudáveis. Isso porque o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não se deve colocar um doente contagioso junto aos saudáveis.” Ele também proibiu que o dono de camelos doentes permanecesse junto ao dono de camelos saudáveis, embora tenha dito: “Não existe contágio nem mau agouro.” Também foi narrado que, quando um leproso foi ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para prestar juramento de fidelidade, ele enviou-lhe o juramento por meio de um mensageiro e não lhe permitiu entrar em Medina.

Entrar e sair de uma região atingida pela peste

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proibiu entrar em uma região onde tenha ocorrido um surto de peste e sair dela, pois isso pode expor a pessoa a perigos e calamidades. O objetivo dessa proibição do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é limitar a doença a um local específico e impedir a propagação da epidemia. Isso é chamado de medida de prevenção da transmissão de doenças. Tirmidhi narrou, de Usama ibn Zayd, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mencionou a peste e disse: “Ela é um remanescente do castigo e da ira que se abateram sobre um grupo dos Filhos de Israel. Quando ela surgir em uma região e vocês estiverem nela, não saiam dela; e, se não estiverem nela, não entrem nela.”

Bukhari também narrou, de Ibn Abbas, que Umar ibn al-Khattab viajou para a Síria. Quando chegou aos arredores da Síria, encontrou-se com o comandante Abu Ubayda e seus companheiros. Eles informaram a Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que uma epidemia havia se espalhado na Síria. Então Umar disse: “Chamem os primeiros emigrantes para virem até mim.”

Ibn Abbas disse: Abu Ubayda chamou-os, e Umar consultou-os. Eles informaram que havia surgido uma epidemia na Síria. Então divergiram sobre o que deveriam fazer. Alguns disseram: “Viemos com um objetivo e não queremos recuar dele.” Outro grupo disse: “Com você estão os demais homens e os Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Não concordamos que você os conduza para dentro desta epidemia.” Umar disse: “Afastem-se de mim. Chamem os ansar para virem até mim.” Eu, Ibn Abbas, chamei-os. Nenhum dos dois homens entre eles discordou dessa questão. Todos disseram: “Nossa opinião é que você deve partir com as pessoas e não conduzi-las para essa região atingida pela epidemia.” Então Umar convocou o povo e disse: “Amanhã de manhã montarei a cavalo; montem também.” (Isto é, deixaremos este lugar.) Abu Ubayda ibn al-Jarrah disse: “Você deseja fugir do destino determinado por Allah?” Umar respondeu: “Ó Abu Ubayda, seria apropriado que outra pessoa, e não você, tivesse dito isso. Sim, fugimos de um destino de Allah para outro destino de Allah. Pense: se você tivesse alguns camelos que descessem e pastassem em uma planície aberta, onde houvesse dois vales, um fértil e outro sem vegetação nem água, não seria verdade que, se fizesse os camelos pastarem na terra fértil, isso também estaria dentro do destino determinado por Allah, e que, se os fizesse pastar na terra árida, isso igualmente estaria dentro do destino determinado por Allah?” Nesse momento, chegou Abd al-Rahman ibn Awf, que estivera ausente até então por alguma necessidade. Ele disse: “Tenho uma informação sobre este assunto. Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: ‘Quando ouvirdes que uma epidemia surgiu em uma região, não vos dirijais para lá; e, se a epidemia surgir na região onde estiverdes, não saiais dela.’” Então Umar louvou a Allah e partiu.

É recomendável preparar-se para a morte lembrando-se dela e praticando boas ações.

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) incentivou a lembrar-se da morte e a preparar-se para ela por meio de boas ações, qualificando isso como um guia para o caminho do bem. Foi narrado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele disse: Fui até o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) acompanhado de dez pessoas. De repente, um homem dos ansar levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Quem é a pessoa mais inteligente e mais prudente?” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Aquele que mais se lembra da morte e que mais se prepara para ela é o mais inteligente. Ele alcançará honra neste mundo e elevada posição na Vida Futura.” Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) também narrou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Lembrai-vos frequentemente daquela que elimina todos os sabores e prazeres — isto é, a morte.” — Tabarani.

Ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Na explicação do versículo “Allah abre o peito daquele a quem deseja guiar para o caminho reto para o Islã”, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Quando a luz de Allah entra no coração, ele se expande e se alarga.” As pessoas perguntaram: “Há algum sinal pelo qual isso possa ser reconhecido?” Ele respondeu: “A inclinação para o mundo eterno, a tendência a evitar o mundo da arrogância e da ilusão — isto é, afastar-se das felicidades e riquezas deste mundo — e preparar-se para a morte antes que ela chegue.” — Ibn Jarir.

É reprovável desejar a morte

É reprovável desejar a morte ou suplicar por ela devido à pobreza, doença, aflição, calamidade ou qualquer outra coisa semelhante. Com efeito, foi narrado por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) em todas as coletâneas de hadith autênticas que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Nenhum de vós deve, de modo algum, desejar a morte por causa de alguma dificuldade, calamidade ou aflição que o tenha atingido. Se, inevitavelmente, desejar a morte, que suplique assim:

الله أَحْيِنِي مَا كَانَتِ الْحَيَاةُ خَيْرًا لِي، وَتَوَفَّنِي إِذَا كَانَتِ الْوَفَاةُ خَيْرًا لِي .

“Ó Allah, mantém-me vivo enquanto a vida for melhor para mim e faze-me morrer quando a morte for melhor para mim.”

A sabedoria por trás da proibição de desejar a morte encontra-se no hadith narrado por Umm al-Fadl, esposa de Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): Certa vez, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi visitar Abbas. Naquela ocasião, Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) estava doente e desejava a morte. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ó Abbas, ó tio do Mensageiro de Allah, não deseje a morte. Se és uma pessoa virtuosa, então, se tiveres uma vida longa, praticarás ainda mais boas ações. A quantidade de tuas boas ações aumentará, e isso será benéfico para ti. Mas, se fores uma pessoa pecadora, o adiamento de tua morte te dará a oportunidade de alcançar a satisfação de Allah abandonando os pecados com arrependimento e pedindo perdão. Portanto, não desejes a morte.” — Ahmad e Hakim.

Contudo, se alguém temer apostatar de sua religião, não é makruh que deseje a morte.

Foi narrado que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia a seguinte súplica:

اللَّهُمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ فِعْلَ الْخَيْرَاتِ وَتَرْكَ الْمُنْكَرَاتِ وَحَبِّ الْمَسَاكِينَ، وَأَن تَغْفِرْ لِي وَتَرْحَمَنِي وَإِذَا أَرَدْسَ فِتْنَةٌ فِي قَوْمِي فَتَوَفَّنِي غَيْرَ مَفْتُونِ، وَأَسْأَلُكَ مُبْكَ وَحُبُّ مَنْ يَحِبُّكَ وَحَبْ عَمَل يقرب إلى حبك .

“Ó Allah, peço-Te a inspiração e a capacidade para praticar todas as boas ações, abandonar todas as más ações e amar os pobres; peço-Te o Teu perdão e a Tua misericórdia. E, quando quiseres espalhar o desvio entre o meu povo, faze-me morrer antes que eu me desvie. Peço-Te o Teu amor, a amizade daqueles que Te amam e o amor pelas ações que me aproximam do Teu amor.” — At-Tirmidhi.

Foi narrado em Al-Muwatta que Omar, que Allah esteja satisfeito com ele, fazia a seguinte súplica:

اللهم كبرت سني، ومعفت قوتي، والتقرب رَعِيَّتِي، فَاقْبِضْنِي إِلَيْكَ غير مضيع ولا مفرط.

“Ó Allah, envelheci, minhas capacidades diminuíram e meu povo se dispersou por todos os lados. Portanto, leva-me para junto de Ti antes que minhas capacidades se extingam completamente e antes que a preguiça e a fraqueza surjam em mim.”

Uma vida longa acompanhada de boas ações é uma bênção.

1. Abdur-Rahman ibn Abu Bakr narrou, de seu pai, que um homem perguntou: Ó Mensageiro de Allah, quem é a melhor das pessoas? Ele respondeu: Aquele cuja vida é longa e cujas ações são virtuosas. O homem perguntou: E quem é a pior das pessoas? Ele respondeu: Aquele cuja vida é longa e cujas obras são más. — Ahmad e at-Tirmidhi.

2. Abu Huraira narrou que o Mensageiro de Allah disse: Não quereis que vos informe quem é o melhor dentre vós? As pessoas disseram: Ó Mensageiro de Allah, diga-nos. Ele respondeu: O melhor dentre vós é aquele que tem vida longa e pratica boas ações. — Ahmad.

Praticar boas ações antes da morte é um sinal de morrer em estado de fé

Ahmad, at-Tirmidhi, al-Hakim e Ibn Hibban narraram, com base em Anas, que o Mensageiro de Allah disse: Quando Allah deseja o bem para um servo, Ele o emprega. Perguntaram: Como Ele o emprega? Ele respondeu: Inspira-o a praticar boas ações antes de fazê-lo morrer; depois, leva-o.‬

É recomendável que o enfermo mantenha uma boa opinião sobre Allah

É recomendável recordar ao enfermo a imensa misericórdia de Allah e manter uma boa opinião sobre Allah. Muslim narrou, com base em Jabir, que Jabir disse: Ouvi o Mensageiro de Allah dizer, três dias antes de sua morte: “Nenhum de vós deve morrer sem ter uma boa opinião sobre Allah.” O hadith considera recomendável fortalecer a esperança do enfermo e despertar nele a esperança de obter o perdão, para que ele se encontre com Allah no estado que Lhe é mais querido. Pois Ele é o Clemente, o Misericordioso e o Generosíssimo. Ele ama o perdão e a esperança. Foi dito no hadith: “Cada pessoa será ressuscitada no Dia da Ressurreição no estado em que morreu.”

Ibn Majah e at-Tirmidhi narraram, com base em Anas, que o Mensageiro de Allah visitou um jovem cuja morte se aproximava. Perguntou-lhe: Como te sentes? Ele respondeu: Espero a misericórdia de Allah, mas também temo os pecados que cometi. O Mensageiro de Allah disse: Quando esses dois sentimentos se reúnem no coração de um servo em tal situação, Allah lhe concede aquilo que ele espera e o protege daquilo que teme.

O que é sunnah fazer ao visitar alguém cuja morte se aproxima

É recomendável que pessoas piedosas visitem aquele cuja morte se aproxima e falem sobre Allah.

1. Ahmad, Muslim, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah narraram de Umm Salama que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando visitardes um doente ou um morto, falai coisas boas, pois os anjos dizem ‘amém’ (aceitai) às vossas palavras. Quando o pai de Salama (o marido de Umm Salama) morreu, fui ao Mensageiro de Allah e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, o pai de Salama morreu.’ Ele disse: “Dize:اللهمَّ اغْفِرْ لِي وَلَهُ، وَأَعْقِينِي مِنْهُ عُقْبَى حَسَنَةٌ . Faça esta súplica:
“Ó Allah, perdoa-o e perdoa-me, e concede-me uma recompensa melhor em seu lugar.” Eu fiz esta súplica. Como resultado, Allah me concedeu, em seu lugar, alguém melhor do que ele: Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

2. Muslim narrou de Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi até Abu Salama após sua morte. Seus olhos estavam abertos, e ele os fechou. Em seguida, disse: “Quando a alma de uma pessoa é retirada, sua visão também se vai.” Então, alguns membros de sua família começaram a lamentar. O Mensageiro de Allah disse: “Suplicai apenas pelo bem para vós mesmos, pois os anjos dizem ‘amém, amém’ a tudo o que disserdes.” Depois, ele fez esta súplica:

اللهم اغْفِرْ لِأَبِي سَلَمَةَ وارفع درجتهُ فِي الْمَهْدِينَ، وَأَخْلِقْهُ فِي عَقِيهِ الْغَابِرِينَ وَاغْفِرْ لَنَا وَلَهُ يَارَبِّ العالمين، وأَقْسِحْ لَهُ فِي قَبْرِهِ، وَلَوِرَ لَهُ فِيهِ .

“Ó Allah, perdoa Abu Salama, eleva sua posição entre os guiados e sê seu sucessor para aqueles de sua descendência que permanecerem depois dele — isto é, para a retificação deles. Ó Senhor dos mundos, perdoa-o e perdoa-nos, amplia sua sepultura e ilumina-a.”

As práticas da Sunnah para o moribundo

Quando a morte de alguém se aproxima, é recomendado realizar as seguintes ações:

1. Fazer com que o moribundo pronuncie a fórmula de fé. Muslim, Abu Dawud e at-Tirmidhi narraram de Abu Sa’id al-Khudri: “Fazei com que aqueles dentre vós que estão morrendo pronunciem a fórmula de fé.” Abu Dawud narrou de Mu’adh ibn Jabal, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Aquele cujas últimas palavras forem ‘Não há divindade além de Allah’ entrará no Paraíso.”

Essa tentativa de fazê-lo pronunciar a fórmula de fé só deverá ser feita quando ele não for capaz de dizê-la por meio da frase «Dou testemunho». Se puder dizê-la, não será necessário ensiná-la novamente. A fórmula de fé deverá ser ensinada enquanto ele ainda não tiver perdido a condição de moribundo e conservar a capacidade de falar. Não é possível ensiná-la àquele cuja razão e discernimento tenham ficado inativos. Aquele que perdeu apenas a capacidade de falar, mas conserva a razão e o discernimento, pode testemunhar mentalmente a unicidade de Allah. Os eruditos disseram: não se deve pressioná-lo excessivamente para que pronuncie a fórmula de fé. Não lhe dirá:

الا الله diga. Isso pode fazer com que ele se irrite e acabe proferindo alguma palavra indesejável. Deve-se pronunciar a fórmula de fé diante dele, de modo audível e atraindo sua atenção, para que ele a compreenda e possa repeti-la. Depois que pronunciar a fórmula de fé uma vez, não se deve pedir que a repita. Contudo, se depois disso ele disser alguma outra coisa, a fórmula de fé deverá ser apresentada novamente a ele, para que ela seja sua última palavra. Segundo a maioria dos eruditos, é suficiente ensinar ao moribundo apenas a kalima tayyiba, «la ilaha illallah». Isso porque é exatamente o que foi explicitamente mencionado no hadith. Alguns eruditos consideram que se devem ensinar tanto a kalima tayyiba quanto a kalima shahada, pois o objetivo é fazê-lo recordar a unicidade de Allah, que depende de ambas.

2. O moribundo deverá ser colocado deitado sobre o lado direito, voltado para o oeste. Al-Bayhaqi e Al-Hakim narram, sob a autoridade de Abu Qatada: quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, perguntou por Bara ibn Ma’rur. As pessoas disseram que ele havia falecido. Ele havia deixado em testamento, para o Mensageiro, um terço de seus bens e ordenado que, quando sua morte se aproximasse, fosse colocado voltado para a qibla. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Ele deu uma instrução correta segundo as normas do Islã». Então devolvi um terço de seus bens a seus filhos. Depois, ele foi realizar sua oração fúnebre e suplicou assim:

اللهم اغفر له وارحمهُ وَأَدْخِلْهُ مَنْتَكَ وَقَدْ فَعَلْتَ .

«Ó Allah, perdoa-o, tem misericórdia dele, faze-o entrar no Teu Paraíso — e Tu já o fizeste, isto é, aceitaste a súplica.»

Ahmad narrou que Fátima, filha de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi colocada deitada voltada para o oeste no momento de sua morte; depois, foi colocada sobre o lado direito.

O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que todos dormissem dessa maneira, e esse também é o modo de colocar o morto na sepultura. Numa narração atribuída a Al-Shafi’i, foi dito que o moribundo deve ser deitado de costas, com os pés voltados para a qibla, e sua cabeça deve ser ligeiramente elevada, para que seu rosto fique voltado para a qibla. Contudo, a primeira opinião é a da maioria dos eruditos e é a mais preponderante.

3. Recitação da surata Yasin: Ahmad, Abu Dawud, Al-Nasa’i, Al-Hakim e Ibn Hibban narraram, sob a autoridade de Ma’qil ibn Yasar, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «A surata Yasin é o coração do Alcorão. Se alguém a recitar buscando Allah e a vida futura, certamente será perdoado. Portanto, recitai esta surata para os vossos mortos.»

Ibn Hibban disse: neste hadith, “falecido” significa uma pessoa agonizante. Foi narrado no Musnad de Ahmad, por Safwan (que Allah esteja satisfeito com ele), que os antigos sábios costumavam dizer: quando a surata Yasin é recitada junto a uma pessoa agonizante, Allah, por meio disso, facilita sua morte.

4. Depois que uma pessoa morre, seus olhos devem ser fechados. Isso porque foi narrado em Muslim: o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) foi até Abu Salama após sua morte. Seus olhos estavam abertos, então ele os fechou e disse: “Quando a alma é retirada, a visão também é retirada juntamente com ela.”

5. O falecido deve ser coberto com um tecido, para que sua awrah seja protegida e seu rosto alterado seja mantido fora da vista das pessoas. Pois foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) faleceu, ele foi coberto com um manto decorado. — Bukhari e Muslim.

É permitido beijar o falecido. Ninguém discorda disso. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) beijou Uthman ibn Maz’un após sua morte. E Abu Bakr, depois da morte do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz), inclinou-se sobre ele e beijou-o entre os olhos. Então disse: “Ó Profeta, ó melhor dos homens!”

6. Providenciar seu enterro e sua mortalha o mais rapidamente possível depois que a morte for confirmada. Antes que o corpo comece a se decompor, seu responsável deve apressar os preparativos para o banho, o enterro e a oração fúnebre. Um médico ou outra pessoa experiente deve confirmar se se trata de morte, e não de inconsciência. Abu Dawud narrou que, quando Talha ibn al-Bara adoeceu, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) foi visitá-lo. Ele disse: “Vejo que Talha morreu. Portanto, informem-me e apressem os preparativos para sua mortalha e seu enterro.” Não é apropriado que o corpo de um muçulmano permaneça retido entre sua família.

Não se deve atrasar a preparação da mortalha e do enterro do corpo esperando por alguém além de seu responsável. Pode-se esperar pelo responsável até antes que o corpo comece a se decompor. Ahmad e Tirmidhi narraram, por intermédio de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) lhe disse: “Ó Ali, não atrases três coisas: a oração, quando chegar seu horário; a oração fúnebre, quando chegar o momento; e o casamento de uma moça solteira, quando for encontrado um pretendente adequado.”

7. Pagar as dívidas do falecido, caso ele tenha dívidas. Ahmad, Ibn Majah e Tirmidhi narraram, por intermédio de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: “A alma do crente fica suspensa por causa de sua dívida até que ela seja paga.” Isto é, seu destino permanecerá indeterminado: não se sabe se será salvo ou destruído. Isso também pode significar que ele será impedido de entrar no Paraíso. Essa regra se aplica àquele que morre deixando bens suficientes para pagar sua dívida. Porém, há evidências de que, se alguém não possui bens, tinha a intenção de pagar a dívida e morreu sem conseguir fazê-lo, Allah pagará sua dívida. Da mesma forma, se alguém morre deixando bens, tinha a intenção de pagar a dívida, mas seus herdeiros não a pagam com os bens que deixou, Allah também pagará sua dívida. Bukhari narrou, por intermédio de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: “Quem toma dinheiro emprestado das pessoas com a intenção de devolvê-lo, Allah pagará sua dívida em seu lugar. Mas quem pretende apropriar-se dele, Allah o destruirá.” Ahmad, Abu Nu’aym, Bazzar e Tabarani narraram que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: “No Dia da Ressurreição, o endividado será chamado e colocado diante de Allah. Então lhe será perguntado: ‘Ó filho de Adão, com que finalidade contraíste esta dívida e por que violaste os direitos das pessoas?’ Ele dirá: ‘Ó Allah, Tu sabes que, depois de contrair esta dívida, não a consumi, não bebi com ela e não fui extravagante. Porém, fui atingido por calamidades como incêndio, roubo e prejuízo.’ Allah dirá: ‘Meu servo disse a verdade. Eu sou quem mais tem direito de pagar tua dívida.’ Então Allah ordenará que algo seja trazido e o colocará na balança. Como resultado, suas boas ações pesarão mais do que suas más ações. Depois, ele entrará no Paraíso pela misericórdia de Allah.”

Certa vez, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) não conduzia a oração fúnebre de uma pessoa endividada. Porém, mais tarde, quando Allah lhe concedeu a conquista de vários países e aumentou sua riqueza, ele passou a conduzir a oração fúnebre daqueles que morriam endividados e a pagar suas dívidas. Foi narrado em Bukhari que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: “Sou mais próximo dos crentes do que eles próprios. Portanto, quem morrer endividado sem deixar bens suficientes para pagar sua dívida, eu a pagarei. E quem morrer deixando bens, a responsabilidade de pagar sua dívida caberá aos seus herdeiros.”

Este hadith comprova que, se uma pessoa morrer endividada, sua dívida será paga pelo tesouro público dos muçulmanos, isto é, pelo fundo destinado aos devedores, uma das categorias para a distribuição do zakat. Esse direito não se extingue por causa de sua morte.

3. O que deve ser feito em relação ao falecido

O que é recomendável fazer ao receber a notícia da morte de um muçulmano

Quando um muçulmano recebe a notícia da morte de alguém querido, deve primeiro recitar إِنَّا لِلَّهِ وَإِنَّا إِلَيْهِ رَاجِعُونَ (Nós pertencemos a Allah e a Ele retornaremos) e, em seguida, suplicar a Allah por essa pessoa. Isso é recomendável.

1. Ahmad e Muslim narraram de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Umm Salama disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) dizer: Quando uma calamidade aflige um servo e ele diz:

إِنَّا لِلَّهِ وَإِنَّا إِلَيْهِ رَاجِعُونَ اللَّهُمَّ أَجِرْنِي فِي مُصِيبَتِي وَأَخْلِفُ لِي خَيْرًا مِنْهَا.

“Nós pertencemos a Allah e a Ele retornaremos. Ó Allah, recompensa-me por minha calamidade e concede-me em troca algo melhor do que ela”, Allah o recompensará por sua calamidade e lhe concederá em troca algo melhor do que ela. Umm Salama disse: Quando Abu Salama morreu, pronunciei o que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) me havia recomendado dizer. Assim, Allah me concedeu como recompensa algo melhor do que ele: o próprio Mensageiro de Allah. (Após a morte do marido de Umm Salama, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) casou-se com ela.)

2. At-Tirmidhi narrou, por intermédio de Abu Musa al-Ashari (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: Quando o filho de um servo morre, Allah pergunta aos Seus anjos: “Vocês levaram o filho do Meu servo?” Eles respondem: “Sim.” Allah pergunta: “Levaram a parte mais querida de seu coração?” Eles respondem: “Sim.” Allah pergunta: “O que Meu servo disse então?” Eles respondem: “Ele Te louvou e disse: ‘Inna lillahi wa inna ilaihi raji’un’ [Nós pertencemos a Allah e a Ele retornaremos].” Então Allah diz: “Construam para Meu servo uma casa no Paraíso e chamem-na de ‘Casa do Louvor a Allah’.”

3. E foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), em Al-Bukhari, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Allah, o Altíssimo, diz: quando retiro deste mundo alguém querido do Meu servo crente, e então esse servo se mantém satisfeito, não tenho para ele outra recompensa senão o Paraíso.

4. Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que Allah, o Altíssimo, disse sobre aqueles que, quando lhes sobrevém uma calamidade, dizem:

الَّذِينَ إِذَ أَصَابَتْهُمْ مُصِيبَةٌ قَالُوا إِنَّا لِلَّهِ وَإِنَّا إِلَيْهِ رَاجِعُونَ أَوْلَئِكَ عَلَيْهِمْ مَلَوَاتِ مِنْ رَبِّهِمْ وَرَحْمَةٌ وأولئك هم المهتدون .

“Na verdade, pertencemos a Allah e a Ele retornaremos.” Sobre eles descem abundantes bênçãos e misericórdia da parte de Allah, e eles são os bem guiados. Ibn Abbas disse: neste versículo, Allah informa que, quando o crente se submete à decisão de Allah, retorna a Ele e se lembra, durante as aflições e calamidades, de voltar-se para Ele, três coisas benéficas lhe são asseguradas: bênçãos da parte de Allah, misericórdia e orientação.

É recomendável informar aos parentes e pessoas próximas do falecido sobre sua morte.

Os sábios consideram recomendável informar sobre a morte do falecido seus familiares, parentes, amigos e pessoas virtuosas, para que possam obter a recompensa de participar de seu amortalhamento e sepultamento. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), em todas as coletâneas autênticas de hadith: “No dia em que An-Najashi morreu, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) anunciou sua morte e foi ao campo com os muçulmanos para realizar a oração fúnebre por ele na ausência. Ali, alinhou seus companheiros em fileiras e realizou por An-Najashi a oração com quatro takbirs.” Ahmad e Al-Bukhari também narraram, segundo Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) anunciou o martírio de Zayd, Ja‘far e Ibn Rawaha; suas notícias chegaram a mim antes deles.” At-Tirmidhi disse: não há impedimento em informar a um homem sobre a morte de seu irmão e de seus parentes.

Por outro lado, Al-Bayhaqi disse: soube, a respeito de Malik ibn Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que ele disse: não gosto que a notícia da morte de alguém seja anunciada aos gritos a partir da mesquita. Porém, se alguém vier e permanecer junto à porta da mesquita para informar às pessoas sobre sua morte, não há objeção nisso.

Por outro lado, Ahmad e At-Tirmidhi narraram de Hudhayfa que ele disse: “Após minha morte, não informem isso a ninguém, pois temo que isso se enquadre no tipo de anúncio da morte que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proibiu.” Contudo, aqui se refere ao anúncio da morte praticado na época da ignorância. O costume deles era que, quando morria um homem nobre, enviavam um mensageiro a cavalo de tribo em tribo. Ele ia dizendo: “Fulano morreu, e com ele morreu toda a nação árabe.” Ao mesmo tempo, gritava e chorava.

Chorar pelo falecido

Os eruditos são unânimes em considerar permitido chorar pelo falecido, desde que não haja gritos nem lamentos em voz alta. Está registrado no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Allah não castiga pelo derramamento de lágrimas nem pela tristeza do coração; Ele castiga ou concede misericórdia somente por causa disto”, e apontou para a sua língua. Ele chorou pela morte de seu filho Ibrahim e disse: “Os olhos derramam lágrimas e o coração fica tomado pela tristeza. Contudo, não dizemos senão aquilo que agrada a Allah. Ó Ibrahim, estamos realmente entristecidos pela tua separação.” Ele também chorou pela morte de Umayma, filha da filha de Zaynab. Ao vê-lo, Sa‘d ibn ‘Ubadah disse: “Ó Mensageiro de Allah, não proibiste Zaynab de chorar? E agora tu mesmo estás chorando?” O Mensageiro ﷺ respondeu: “Isto é compaixão que Allah criou nos corações dos Seus servos. E Allah só concede misericórdia, entre os Seus servos, àqueles que são compassivos.”

At-Tabarani também narrou, de ‘Abdullah ibn Zayd, que foi permitido chorar, desde que não houvesse lamento em voz alta.

Chorar com lamentos em voz alta torna-se causa de tormento e sofrimento para o falecido.

Foi narrado por Ibn ‘Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — que, quando ‘Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — foi ferido, choraram por ele aos gritos. Quando recuperou a consciência, disse: “Não sabeis que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: ‘O falecido é castigado por causa dos lamentos dos vivos’?” E foi narrado por Abu Musa — que Allah esteja satisfeito com ele — que, quando ‘Umar foi ferido, Suhayb começou a gritar: “Ó meu irmão!” ‘Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Ó Suhayb, não sabes que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: ‘O falecido é castigado por causa do choro dos vivos’?” E al-Mughira ibn Shu‘bah — que Allah esteja satisfeito com ele — narrou: “Ouvi o Mensageiro de Allah ﷺ dizer: ‘Aquele por quem se chora aos gritos será castigado.’” Esses hadiths foram narrados por al-Bukhari e Muslim.

Explicação: O significado desses hadiths é que o falecido se entristece e sofre com os lamentos de seus familiares, pois ouve o seu choro e suas ações são apresentadas diante dele. O significado do hadith não é que ele sofra tormento por causa do choro de seus familiares, pois o Alcorão diz: “Ninguém será castigado pelo pecado de outro.” Ibn Jarir narrou, de Abu Hurayrah — que Allah esteja satisfeito com ele —, que Abu Hurayrah disse: “As ações de vocês são apresentadas diante de seus parentes falecidos. Quando veem boas ações, ficam felizes; e, quando veem más ações, ficam constrangidos.” Ahmad e at-Tirmidhi narraram, de Anas — que Allah esteja satisfeito com ele —: “As ações de vocês são apresentadas diante de seus parentes e de seus consanguíneos falecidos. Se forem boas, eles ficam felizes; se não forem boas, dizem: ‘Não os deixeis morrer sem que os guieis ao caminho reto, assim como nos guiastes ao caminho reto.’”

An-Nu‘man ibn Bashir disse: “Quando ‘Abdullah ibn Rawahah perdeu a consciência, sua irmã começou a lamentar-se aos gritos, dizendo: ‘Ó montanha! Ó fulano! Ó fulano!’ e continuou proferindo várias palavras semelhantes. Depois, quando ‘Abdullah ibn Rawahah recuperou a consciência, disse: ‘Cada vez que me dizias alguma dessas coisas, era-me perguntado: ‘És realmente assim?’” — al-Bukhari

Lamentar-se em voz alta

Em diversos hadiths, o lamento em voz alta é declarado terminantemente ilícito. Foi narrado por Abu Malik al-Ash‘ari, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quatro práticas da época da ignorância ainda persistem em minha comunidade: vangloriar-se dos antepassados, insultar as pessoas chamando-as de pessoas de linhagem inferior, acreditar que as estrelas influenciam a ocorrência ou não da chuva e lamentar-se em voz alta pela morte de alguém.” Ele também disse: “Se as mulheres que fazem lamentos profissionais não se arrependerem antes da morte, serão colocadas de pé no Dia da Ressurreição em tal estado que vestirão roupas de alcatrão e armaduras que causarão feridas e coceira.” Ahmad e Muslim. Umm ‘Atiyyah disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tomou de nós o compromisso de não lamentarmos em voz alta nem expressarmos o luto dessa forma.” Al-Bazzar narrou, com uma cadeia de transmissão confiável, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Duas vozes são amaldiçoadas neste mundo e no Além: a voz dos instrumentos musicais para expressar alegria e a voz do choro melodioso em meio à calamidade.” Foi narrado por Abu Musa em al-Bukhari e Muslim que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rompeu relações com três tipos de mulheres: a que chora gritando por causa do luto, a que raspa a cabeça durante a calamidade e a que rasga suas vestes. Ahmad narrou de Anas que, ao tomar o juramento de fidelidade das mulheres, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, exigiu delas o compromisso de não fazerem lamentos aos gritos. As mulheres disseram: “Ó Mensageiro de Allah, durante a época da ignorância algumas mulheres nos ajudavam a expressar o luto. Agora, após o surgimento do Islã, não deveremos ajudá-las a expressar o luto?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “No Islã não há lugar para ajudar nos lamentos.”

O luto pela pessoa falecida

É permitido às mulheres observar luto por até três dias pela morte de um parente próximo, salvo se o marido as proibir. Não é permitido observar luto por mais de três dias por qualquer pessoa além do marido. Em caso de morte do marido, é obrigatório para a esposa observar luto durante o período da ‘iddah. Esse período é de quatro meses e dez dias. Foi narrado de Umm ‘Atiyyah em todas as coletâneas de hadith autênticas, exceto em At-Tirmidhi, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não é permitido a uma mulher observar luto por mais de três dias por qualquer falecido, exceto o marido. Pelo marido, observará luto durante quatro meses e dez dias. Não usará roupas coloridas, exceto o manto iemenita; não aplicará kohl; não usará perfume; não tingirá as mãos com hena; não penteará os cabelos, exceto quando estiver em estado de pureza; e, ao terminar a menstruação, tomará banho com água perfumada.” Observar luto consiste em abandonar os adornos que as mulheres normalmente usam, como joias, kohl, roupas de seda, perfume e hena. É dever da esposa abandonar essas coisas e observar luto exclusivamente pelo marido durante todo o período da ‘iddah, para demonstrar sua lealdade a ele e cumprir seus direitos. É recomendável fornecer comida à família da pessoa falecida.

Foi narrado por ‘Abdullah ibn Ja‘far, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Providenciem comida para a família de Ja‘far, pois lhes sobreveio uma calamidade que não lhes permite preparar comida.” (Isto é, o martírio de Ja‘far.) Abu Dawud, Ibn Majah e At-Tirmidhi. A razão para declarar essa prática recomendável é que ela constitui uma obra de recompensa e generosidade, além de fortalecer os laços com os vizinhos e os parentes. O Imam Ash-Shafi‘i disse: “O melhor que os parentes da pessoa falecida podem fazer é alimentar satisfatoriamente sua família durante todo o dia e toda a noite. Essa é a Sunnah e a prática das pessoas nobres.”

Os sábios também consideram recomendável insistir para que a família do falecido coma, para que não se enfraqueça por abandonar a alimentação por vergonha ou pela intensidade do luto. Contudo, não é permitido levar comida às mulheres que fazem lamentos em voz alta, pois isso equivaleria a ajudá-las em seu ato pecaminoso.

Entretanto, os imams consideram por consenso reprovável que a família do falecido organize um banquete coletivo. Isso acrescenta calamidade à sua calamidade e problema ao seu problema, além de criar semelhança com os costumes e práticas da época da ignorância. Jarir disse: “Considerávamos uma forma ilícita de expressar o luto reunir pessoas na casa do falecido e organizar um banquete coletivo após seu sepultamento.” Alguns sábios chegaram a classificá-la como ilícita.

Ibn Qudamah disse: “É permitido fazê-lo quando houver uma necessidade real, pois às vezes os parentes do falecido vêm de aldeias distantes e de outras regiões, sendo obrigados a passar a noite ali; nesse caso, não há alternativa senão oferecer-lhes hospitalidade.”

É permitido preparar a mortalha e a sepultura antes da morte

Al-Bukhari disse que, durante a vida do Mensageiro de Allah, alguns costumavam preparar sua mortalha, e o Mensageiro de Allah não fazia objeção a isso. Al-Bukhari narrou, através de Sahl — que Allah esteja satisfeito com ele —: Uma mulher trouxe ao Mensageiro de Allah um manto tecido. Ele tinha uma borda decorativa. Sahl disse: “Sabeis que manto era esse?” As pessoas responderam: “Um shamla.” (Um manto de excelente qualidade.) Sahl disse: “Sim.” A mulher disse: “Eu mesma teci este manto e o trouxe para que o vestisses.” O Mensageiro de Allah o recebeu, pois precisava dele. Em seguida, vestiu-o como um izar e veio até nós. Um homem o elogiou e disse: “Deixa-me vesti-lo. Como é belo!” As pessoas disseram: “Não fizeste bem. O Mensageiro de Allah o vestiu e precisava dele; depois, tu o pediste. Sabias que ele não recusa quem pede.” Ele respondeu: “Por Allah, não o pedi para vesti-lo; pedi-o para que fosse a minha mortalha.” Sahl disse: “Depois disso, o manto tornou-se sua mortalha.” O hafiz Ibn Hajar, ao comentar este título, disse: Al-Bukhari acrescentou as palavras “o Mensageiro de Allah não fazia objeção a isso” para aludir à objeção feita pelos Companheiros. Quando um dos Companheiros pediu o manto, os Companheiros objetaram. Porém, quando aquele Companheiro — cujo nome não foi mencionado — lhes explicou sua justificativa (isto é, manifestou a intenção de fazê-lo sua mortalha), eles não fizeram objeção. Disso se entende que é permitido preparar, ainda em vida, a mortalha e outras coisas necessárias para uma pessoa após sua morte. A questão é: também é permitido cavar a própria sepultura? Ibn Battal disse: Isso prova que é permitido preparar algo antes que surja a necessidade dele. Muitos homens virtuosos costumavam cavar suas sepulturas antes de morrer. Contudo, Zayn ibn al-Munir disse: Nenhum Companheiro fez isso. Se fosse recomendável, muitos Companheiros o teriam feito.

Al-‘Ayni disse: O fato de nenhum dos Companheiros ter realizado uma determinada prática não prova que ela seja ilícita. Aquilo que os muçulmanos em geral consideram bom é bom perante Allah, especialmente quando é praticado por um grupo de sábios e pessoas virtuosas.

O Imam Ahmad disse: Se uma pessoa comprar um terreno para sua sepultura e deixar em testamento que seja enterrada ali, não há nada de errado nisso. Foi narrado que Uthman, Aisha e Umar ibn Abd al-Aziz fizeram o mesmo.

É recomendável desejar morrer em Meca ou Medina

É recomendável suplicar a Allah pedindo a morte em Meca ou Medina. Al-Bukhari narrou, através de Hafsa, que Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — costumava suplicar:

اللَّهُ ارْزُقْنِي شَهَادَةً فِي سَبِيلِكَ وَاجْعَلْ مَوْتِي فِي بَلَدِ رَسُولِكَ .

“Ó Allah, concede-me o martírio em Teu caminho e faze-me morrer na cidade de Teu Profeta.” Hafsa disse: “Eu lhe perguntei: ‘Como isso será possível?’ Ele respondeu: ‘Se Allah quiser, Ele me concederá isso.’” At-Tabarani narrou, através de Jabir, que o Mensageiro de Allah disse: “Quem morrer em qualquer um dos dois Santuários Sagrados — Meca ou Medina — estará seguro no Dia da Ressurreição.”

Morte súbita

Abu Dawud narrou, por intermédio de um Companheiro chamado Ubaid ibn Khalid Sulami (o narrador às vezes o menciona como uma declaração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e às vezes como uma declaração do Companheiro Ubaid): «A morte súbita é um acontecimento doloroso.» (A morte súbita era desaprovada porque, nesse caso, a pessoa não tem a oportunidade de ter os pecados perdoados por meio do sofrimento da doença, nem de se preparar para a morte por meio do arrependimento e das boas ações.) Este hadith também foi narrado por Abdullah ibn Masud, Anas ibn Malik, Abu Hurayra e Aisha, que Allah esteja satisfeito com eles.

Aquele cujo filho morre

1. Bukhari narrou, por intermédio de Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Se os três filhos menores de idade de um muçulmano morrerem, Allah, por Sua misericórdia, fará com que ele entre no Paraíso por causa deles.»

2. Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Abu Said al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele: As mulheres disseram ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: «Reserve um dia para nos aconselhar.» Então, ao aconselhar as mulheres, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse que aquela cujos três filhos morressem seria protegida do Fogo por eles. Uma mulher perguntou: «E se dois morrerem?» O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: «Mesmo que dois morram.»
A idade das pessoas da ummah muçulmana

Tirmidhi narrou, por intermédio de Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «A idade média da minha ummah ficará entre sessenta e setenta anos. Pouquíssimas pessoas conseguirão ultrapassá-la.»

A morte é uma forma de alívio

Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Abu Qatada, que Allah esteja satisfeito com ele, que um cortejo fúnebre passou diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao vê-lo, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Este morto alcançou o alívio, ou outros alcançaram o alívio por meio dele.» As pessoas perguntaram: «Ó Mensageiro de Allah, qual morto alcança o alívio e de qual morto os outros alcançam o alívio?» O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: «O servo crente alcança, por meio da morte, o alívio das aflições, calamidades e sofrimentos deste mundo. Já quando o servo pecador morre, os demais servos, toda a região, as árvores e os animais ficam livres do seu mal.»

O amortalhamento e o sepultamento do morto

É obrigatório lavar ritualisticamente o falecido, envolvê-lo na mortalha, realizar a oração fúnebre por ele e sepultá-lo. A seguir, apresenta-se a explicação detalhada:

O banho ritual do falecido

1. A norma relativa ao banho ritual: Segundo a maioria dos eruditos, realizar o banho ritual de um muçulmano falecido é uma obrigação comunitária. Se algumas pessoas cumprirem essa tarefa, ela será considerada cumprida em nome de todos os muçulmanos. Isso porque o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou essa prática e ordenou a todos os muçulmanos que supervisionassem o cumprimento dessa ordem.

2. Quem deve receber o banho ritual e quem não deve: É obrigatório realizar o banho ritual de todo muçulmano que não tenha sido morto pelas mãos dos descrentes em uma guerra.

3. O banho ritual e a oração fúnebre por partes do corpo do falecido:
Há divergência entre os juristas quanto ao banho ritual de partes do corpo de um muçulmano falecido. Segundo o Imam al-Shafi‘i, Ahmad e Ibn Hazm, deve-se realizar o banho ritual, envolvê-las na mortalha e fazer a oração fúnebre por elas. O Imam al-Shafi‘i disse: “Soube que, durante o incidente da Batalha do Camelo, um pássaro deixou cair uma mão em Meca. As pessoas conseguiram identificar a quem pertencia a mão ao observarem o anel nela. (A mão era de ‘Abd al-Rahman ibn ‘Itab ibn Usayd.) Depois, em uma reunião dos Companheiros, foram realizados o banho ritual e a oração fúnebre por ela.” O Imam Ahmad disse: “Abu Ayyub realizou a oração fúnebre pela perna de uma pessoa, e ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, realizou-a por alguns ossos.” Ibn Hazm disse: “Qualquer parte encontrada de um muçulmano falecido deverá receber o banho ritual e ser envolvida na mortalha. A única exceção é o mártir.” Ele disse: “Ao realizar a oração fúnebre pela parte encontrada, deve-se tencionar a oração por todo o seu corpo e sua alma.” Segundo Abu Hanifa e Malik, se mais da metade do corpo for encontrada, deve-se realizar o banho ritual e a oração fúnebre. Caso contrário, não se realizará nem o banho ritual nem a oração.

4. O mártir não deve receber o banho ritual: O mártir morto pelas mãos dos descrentes em uma guerra não deve receber o banho ritual. Isso se aplica mesmo que o banho ritual fosse obrigatório para ele. (Segundo os mal oficialmente, não se realiza o banho ritual do mártir para quem o banho ritual era obrigatório. Essa também é a opinião mais correta na escola de al-Shafi‘i, bem como a opinião dos Imams Muhammad e Abu Yusuf. A prova disso é que Hanzala, que Allah esteja satisfeito com ele, foi martirizado enquanto o banho ritual era obrigatório para ele. Mesmo assim, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não lhe realizou o banho ritual.) Se as roupas que o mártir usava forem suficientes como mortalha, ele será envolvido nelas. Caso contrário, acrescentar-se-á o restante da mortalha até completá-la. Se ele estiver usando mais roupas do que as necessárias segundo a mortalha da Sunna, as roupas excedentes serão retiradas. Ele será sepultado com o seu sangue. Nenhuma gota de sangue deverá ser lavada ou removida. Ahmad narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não realizeis o banho ritual dos mártires, pois de cada ferida e de cada gota de sangue emanará, no Dia da Ressurreição, o aroma do almíscar.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que os mártires de Uhud fossem sepultados com o seu sangue; não lhes realizou o banho ritual nem a oração fúnebre.

O Imam al-Shafi‘i disse: “A razão para sepultá-los sem banho ritual e sem oração é, provavelmente, que eles encontrarão Allah com suas feridas. Pois o aroma do seu sangue será o aroma do almíscar. Depois da dignidade que Allah lhes concedeu, eles já não precisam da oração fúnebre. Isso também aliviou a dificuldade dos demais muçulmanos, pois muitos dos combatentes estavam feridos e sofrendo. Além disso, havia o receio de um novo ataque dos inimigos contra eles. Havia também a preocupação deles com suas famílias e a preocupação de suas famílias com eles. (Por isso, era necessário que se reunissem rapidamente com suas famílias.)” Segundo alguns, o profundo motivo para se deixar de realizar a oração fúnebre pelos mártires é que essa oração é feita por um morto, enquanto o mártir está vivo. Ou então a oração fúnebre é uma forma de intercessão, e os mártires não precisam dessa intercessão, pois são eles que intercederão pelos outros.

5. Os mártires que devem receber o banho ritual e por quem se deve realizar a oração fúnebre: todos os que

Há muçulmanos que morreram, não em consequência de uma guerra contra alguns incrédulos; o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também os classificou como “mártires”. Contudo, eles devem receber o ghusl, e a oração fúnebre também deve ser realizada por eles. Aqueles desse tipo que morreram durante a vida do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, receberam o ghusl pelas mãos dele; depois, os muçulmanos deram o ghusl a Umar, Uthman e Ali, embora todos eles fossem mártires. Apresentamos aqui a descrição dos mártires desse tipo:

1. Foi narrado por Jabir ibn Atiq que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: além daqueles mortos no caminho de Allah, há sete pessoas que são mártires: quem morre de peste, quem morre afogado, quem morre de um furúnculo interno surgido na lateral do corpo, quem morre de uma doença abdominal, quem morre queimado pelo fogo, quem morre soterrado sob um desabamento e a mulher que morre durante o parto. — Ahmad, Abu Dawud e an-Nasa’i.

2. Foi narrado por Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “A quem vocês consideram mártir entre vocês?” Os Companheiros responderam: “Ó Mensageiro de Allah, aquele que foi morto no caminho de Allah.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Nesse caso, o número de mártires em minha comunidade seria muito pequeno.” Eles perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, então quem são os mártires?” Ele respondeu: “Aquele que é morto no caminho de Allah é mártir; aquele que morre no caminho de Allah — isto é, enquanto se encontra em obediência a Allah — também é mártir; aquele que morre de peste, ou epidemia, também é mártir; aquele que morre de uma doença abdominal também é mártir; e aquele que morre afogado também é mártir.” — Muslim.

3. Foi narrado por Sa’id ibn Zayd que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: aquele que é morto ao tentar proteger seus bens é mártir; aquele que é morto ao tentar salvar a própria vida, ou seja, em legítima defesa, é mártir; aquele que é morto tentando defender o Islã também é mártir; e aquele que é morto ao tentar proteger sua família também é mártir. — Ahmad e at-Tirmidhi.

6. Não se deve dar o ghusl ao incrédulo. Não é obrigatório para nenhum muçulmano dar o ghusl a um incrédulo. Alguns consideram isso permitido. Segundo os maliquitas e os hanbalitas, não é permitido a um muçulmano dar o ghusl, envolver em mortalha ou sepultar um parente não muçulmano. Contudo, se houver receio de que o cadáver se perca, é obrigatório enterrá-lo. Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i e al-Bayhaqi narraram que Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Eu disse ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: ‘Seu pai idoso e extraviado, ou seja, Abu Talib, pai de Ali, morreu.’ Ele disse: ‘Vai e enterra teu pai, e não digas nada a ninguém até voltares a mim.’ Então fui e o enterrei. Depois voltei ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele então me ordenou que tomasse banho. Tomei banho, e ele fez uma súplica por mim.

Ibn al-Mundhir disse: não há nenhuma sunnah específica a ser seguida no ghusl do falecido.

Procedimento do ghusl

É obrigatório fazer a água passar uma vez por todo o corpo do falecido, mesmo que ele tenha morrido em estado de impureza devido à menstruação ou à emissão de sêmen. É recomendável colocar o falecido em um local elevado e retirar suas roupas. (Segundo o Imam ash-Shafi’i, se a camisa for tão fina que não impeça a água de chegar ao corpo, é melhor realizar o ghusl com a camisa. Isso porque o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recebeu o ghusl com sua camisa. Contudo, aparentemente, isso era uma particularidade do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Caso contrário, a prática conhecida era dar o ghusl ao falecido sem roupas, exceto cobrindo as partes íntimas.) Depois, se ele não for uma criança, deve-se cobrir suas partes íntimas. Durante o ghusl, ninguém deverá estar presente, exceto aqueles cuja presença seja necessária. É recomendável que quem der o ghusl seja uma pessoa virtuosa e digna de confiança, para que divulgue o que vir de bom e oculte o que vir de ruim. Ibn Majah narrou que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Aqueles dentre vocês que são dignos de confiança devem dar o ghusl aos seus mortos.” É obrigatório que aquele que dará o ghusl formule a intenção, pois essa tarefa lhe foi confiada. Em seguida, deve iniciar o ghusl. Primeiro, pressionará suavemente o abdômen, para que saia qualquer coisa que esteja nele. Depois, removerá qualquer sujeira ou impureza presente no corpo. Com um pedaço de pano na mão, limpará com ele as partes íntimas, pois é proibido tocá-las com a mão descoberta. Em seguida, fará a ablução nele como para a oração, pois o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse que se deve começar o ghusl pelo lado direito e pelos membros da ablução. Além disso, é recomendável começar pelos membros da ablução para reavivar os sinais do crente e fazer resplandecer seus sinais luminosos. Depois, dará ao falecido três ghusl com água e sabão, começando pelo lado direito. Se três vezes não forem suficientes para limpá-lo bem, ou se por qualquer outra razão for necessário dar o ghusl mais de três vezes, deverá fazê-lo cinco ou sete vezes. No Sahih al-Bukhari consta que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Dai o ghusl ao falecido em número ímpar: três, cinco ou sete vezes; ou mais vezes, se julgardes necessário.” (Ibn Abd al-Barr disse: “Não conheço nenhum sábio que tenha ordenado fazê-lo mais de sete vezes.” Ahmad e Ibn al-Mundhir consideraram makruh dar o ghusl mais de sete vezes.) Ibn al-Mundhir disse: foi dada àqueles que realizam o ghusl a faculdade de determinar quantas vezes o farão, sob a condição de que o número seja ímpar. Se o falecido for uma mulher, deve-se desfazer seu cabelo, lavá-lo depois de desfeito e, em seguida, trançá-lo novamente como antes, deixando as tranças penduradas nas costas. No hadith narrado por Umm Atiyya, é dito: as mulheres fizeram três tranças no cabelo de uma filha do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Perguntou-se: “As tranças foram desfeitas e depois refeitas em três tranças?” Umm Atiyya

Disse: Sim.

Depois de concluir o banho ritual do falecido, deve-se enxugar e secar seu corpo com um pano limpo, para que o sudário não fique molhado. Depois, deve-se aplicar perfume ao corpo. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando incensardes o corpo do falecido com algo perfumado, fazei-o três vezes.” — Baihaqi, Hakim e Ibn Hibban.

Abu Wa’il disse: Ali tinha almíscar. Ele havia recomendado que seu corpo fosse perfumado com aquele almíscar. Disse: “Este é o perfume que restou do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Segundo a maioria dos sábios, é makruh cortar as unhas do falecido, aparar ou raspar seu bigode, os pelos das axilas e os pelos abaixo do umbigo. Ibn Hazm, contudo, considera isso permitido.

Não há divergência quanto à obrigatoriedade de lavar e limpar somente a impureza que sair do abdômen do falecido após o banho ritual e antes de envolvê-lo no sudário. Há divergência quanto à necessidade de purificar novamente o falecido. Alguns dizem que basta fazer-lhe a ablução. Outros dizem que é necessário dar-lhe outro banho ritual. O princípio com base no qual os sábios formularam, por meio do ijtihad, o procedimento do banho ritual é o hadith de Umm ‘Atiyyah, narrado em todas as coletâneas de hadith autênticas. Ela disse: “Quando a filha do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, morreu, ele veio até nós e nos disse: ‘Lavai-a três vezes com água e folhas de sidra, ou cinco vezes, ou mais, se julgardes necessário. Por fim, aplicai cânfora. Depois, informai-me.’ Quando terminamos, informamos o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Então ele nos deu sua peça de vestuário inferior e disse: ‘Colocai-a sob o sudário dela.’”

Os sábios disseram que a razão para aplicar cânfora é que ela é uma substância perfumada e que este é o momento da chegada dos anjos. Além disso, ela tem a capacidade de resfriar e preservar qualquer coisa; particularmente, possui a propriedade de enrijecer o cadáver, afastar dele os insetos e retardar sua decomposição. Na ausência de cânfora, pode-se usar outra substância que possua propriedades semelhantes, integral ou parcialmente.

Fazer tayammum no falecido na ausência de água

Se não houver água, deve-se fazer tayammum no falecido. Allah, o Altíssimo, disse: “Se não encontrardes água, fazei tayammum.” E o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A terra foi feita para mim um lugar de oração e um meio de purificação.”

Também se pode fazer tayammum quando houver receio de que o corpo do falecido fique instável e se desfaça caso lhe seja dado banho ritual. Do mesmo modo, pode-se fazer tayammum quando, para dar banho ritual ao cadáver de uma mulher, não houver ninguém além de um homem não mahram, ou quando, para dar banho ritual ao cadáver de um homem, não houver ninguém além de uma mulher não mahram. Abu Dawud e Baihaqi narraram que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando uma mulher morrer e não houver com ela nenhuma outra mulher, mas apenas alguns homens, e quando um homem morrer e não houver com ele nenhum outro homem, mas apenas algumas mulheres, então deve-se fazer tayammum nesses falecidos, homem e mulher, e enterrá-los. Eles estão na condição dos falecidos para os quais não há água.”

Um homem mahram fará o tayammum da mulher com as próprias mãos. Se não houver um homem mahram, um homem não-mahram fará o tayammum envolvendo um pano nas próprias mãos. Esta é a escola jurídica de Abu Hanifa e Ahmad. Segundo Malik e al-Shafi’i, se houver um homem mahram, ele fará o ghusl dela, pois, para ele, uma mulher falecida é como um homem.

Na obra «Musawwa», é relatado que o imã Malik ouviu dos eruditos: quando uma mulher morre sem que haja outra mulher ao seu redor e sem que haja um homem mahram, será feito nela o tayammum; seu rosto e suas duas mãos deverão ser passados sobre a terra. E quando um homem morre sem que haja outro homem junto dele, havendo apenas algumas mulheres, estas farão nele o tayammum. (Ibn Hazm e outros relataram: quando um homem morre num lugar onde há somente mulheres, sem nenhum homem, ou quando uma mulher morre num lugar onde há somente homens, sem nenhuma mulher, as mulheres lavarão o homem e os homens lavarão a mulher, cobrindo-a com um tecido espesso e derramando água sobre todo o corpo sem tocar o cadáver com as mãos. Se houver água, não será permitido fazer tayammum em vez do ghusl.)

O ghusl mútuo entre marido e mulher

Os juristas são unânimes em afirmar que a esposa pode fazer o ghusl do marido. Aisha disse: «Se eu me adiantar para cumprir minha responsabilidade de fazer o ghusl, não recuarei. Foram as esposas do Mensageiro que fizeram o ghusl dele.» — Ahmad, Abu Dawud e al-Hakim. Contudo, há divergência quanto a se o marido pode fazer o ghusl da esposa. Segundo a maioria, isso é permitido, pois foi relatado por al-Daraqutni e al-Bayhaqi que Ali fez o ghusl de Fatima. E o Mensageiro de Allah disse a Aisha: «Se morreres antes de mim, eu farei teu ghusl e te envolverei no kafan.» — Ibn Majah.

Os hanafitas dizem: não é permitido que o marido faça o ghusl da esposa. Se não houver ninguém além do marido, ele fará nela o tayammum. Contudo, os hadiths são contrários à opinião dos hanafitas.

Uma mulher fazer o ghusl de um menino. Ibn al-Mundhir disse: todos os eruditos confiáveis são unânimes em afirmar que é permitido uma mulher fazer o ghusl de um menino.

4. Oração fúnebre, sepultamento, kafan e visita aos túmulos

Kafan

1. Regra: É uma obrigação coletiva (fard kifaya) envolver completamente o corpo do falecido em uma mortalha, ainda que seja com apenas um tecido. Al-Bukhari narrou, a partir de Khabbab, que Khabbab disse: “Nós emigramos com o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — buscando somente a satisfação de Allah. Nossa recompensa cabia a Allah. Contudo, alguns de nós eram pobres; entre eles estava Mus’ab ibn ‘Umair. Ele foi morto na batalha de Uhud, e não encontramos nada para envolvê-lo além de um manto. Quando cobríamos sua cabeça com ele, seus pés ficavam descobertos; e quando cobríamos seus pés, sua cabeça ficava descoberta. Então o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ordenou-nos que cobríssemos sua cabeça e colocássemos izkhir sobre seus dois pés (izkhir é um tipo de grama aromática usada, juntamente com madeira, para cobrir os telhados das casas).”

2. O que é recomendável na mortalha:

1. O tecido da mortalha deve ser limpo e cobrir todo o corpo: Ibn Majah e At-Tirmidhi narraram, a partir de Abu Qatadah, que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Quando algum de vós for responsável por seu irmão, que o envolva bem na mortalha.”

2. É recomendável que a mortalha seja branca: Ahmad, Abu Dawud e At-Tirmidhi narraram, a partir de Ibn ‘Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele —, que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Vesti roupas brancas, pois as roupas brancas são as melhores. E envolvei nelas os vossos mortos.”

3. É recomendável fumigar a mortalha com khup, khuni e perfume. Ahmad e Al-Hakim narraram, sob a autoridade de Jabir — que Allah esteja satisfeito com ele —, que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Quando fumigardes o falecido, fumigai-o três vezes.” Abu Sa’id e Ibn ‘Abbas — que Allah esteja satisfeito com ambos — recomendaram que suas mortalhas fossem fumigadas com madeira de sândalo.

4. Para o homem, quatro peças de tecido, e para a mulher, cinco. Foi narrado por Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — em todas as coletâneas autênticas de hadith: o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — foi envolvido em três tecidos novos de algodão branco. Não havia turbante entre eles. At-Tirmidhi disse: “A maioria dos companheiros eruditos do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — seguia este hadith.” Sufyan al-Thawri disse: “O homem será envolvido em três tecidos. Se quiserdes, uma túnica e duas mortalhas; caso contrário, três mortalhas. Se não forem encontrados dois tecidos, um será suficiente. Dois tecidos também serão suficientes. Se possível, três tecidos são o melhor.” Essa é a opinião de Ash-Shafi’i, Ahmad e Ishaq. Eles disseram: “A mulher será envolvida em cinco tecidos.” Umm ‘Atiyyah disse: “O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — deu-lhe uma izar, uma túnica, uma cobertura para a cabeça e duas mortalhas.”

3. A mortalha daquele que está em estado de ihram. Quando uma pessoa em estado de ihram morre, ela será lavada como os demais que não estão em estado de ihram, e será envolvida com suas próprias vestes de ihram. Sua cabeça não será coberta, nem será aplicado perfume sobre ela, pois as regras do ihram continuam vigentes. Foi narrado por Ibn ‘Abbas nas coletâneas autênticas de hadith que um homem que estava junto do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — no campo de Arafat caiu repentinamente das costas de seu animal de montaria. Imediatamente, o animal quebrou-lhe o pescoço. O ocorrido foi comunicado ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, e ele disse: “Lavai-o com água e folhas de sidr, envolvei-o com suas duas vestes de ihram, não o perfumeis e não cubrais sua cabeça. Allah o ressuscitará no Dia da Ressurreição enquanto estiver dizendo: ‘Labbayka!’”

Os hanafitas e mal इकitas dizem: assim que uma pessoa em estado de ihram morre, seu ihram deixa de vigorar. Portanto, por não estar mais em estado de ihram, ela será envolvida como uma pessoa que não está em ihram. Sua mortalha será costurada, sua cabeça será coberta e será aplicado perfume sobre ela. Eles dizem: o caso daquele que morreu ao cair das costas de seu animal de montaria foi uma ocorrência excepcional e isolada. Portanto, o método de envolvê-lo ficará restrito a ele e não se aplicará a todos. Contudo, é sabido que a justificativa dada pelo Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, de que ele seria ressuscitado no Dia da Ressurreição pronunciando “Labbayka”, aplica-se a qualquer pessoa em estado de ihram. E este é um princípio permanente: uma regra que se aplica a uma pessoa aplica-se a todos, salvo quando houver prova de que ela é específica daquela pessoa.

4. É makruh exagerar no kafan: o kafan deve ser de boa qualidade. Não é apropriado usar para o kafan um tecido muito caro ou um tecido que normalmente não se costuma usar. ash-Sha‘bi relatou que ‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Não exagereis no meu kafan, pois ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: ‘Não exagereis no kafan, pois ele será retirado muito rapidamente.’” — Abu Dawud. Foi relatado por Hudhayfah, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não exagereis no kafan. Comprai para mim dois tecidos limpos.” Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Lavai esta minha roupa que uso e acrescentai-lhe mais dois tecidos, isto é, juntai-os; depois, utilizai-os para me amortalhar.” ‘A’ishah disse: “Mas esta roupa é velha.” Ele respondeu: “O vivo é mais merecedor de uma roupa nova do que o morto. O kafan é para o pus que sai do corpo morto.”

5. O kafan feito de seda: Não é permitido amortalhar um homem com tecido de seda, mas é permitido fazê-lo com uma mulher. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O ouro e a seda são proibidos para os homens da minha comunidade e permitidos para as mulheres.” Muitos sábios também desaprovaram amortalhar uma mulher com tecido de seda, pois isso envolve desperdício e extravagância de bens proibidos pela Sharia. Segundo eles, aquilo que é apreciado como adorno durante a vida não é apreciado por mim como kafan após a morte. al-Hasan, Ibn al-Mubarak e Ishaq consideraram isso makruh. Ibn al-Mundhir disse: “Não me lembro de ninguém ter afirmado o contrário.”

6. O kafan deve ser providenciado com os bens do próprio falecido: se o falecido deixou alguma propriedade, o seu kafan deve ser providenciado com ela. Se não deixou nenhuma propriedade, aquele que arcava com as despesas de seu sustento deve arcar com o custo do kafan. Porém, se não houver ninguém que sustentasse o falecido, o seu kafan será providenciado pelo Bayt al-Mal dos muçulmanos, isto é, pelo tesouro público; caso contrário, os muçulmanos deverão providenciá-lo por iniciativa própria. Neste caso, a regra para a mulher é a mesma que para o homem. Ibn Hazm disse: “As despesas do kafan da mulher e da escavação de sua sepultura devem ser pagas com os seus próprios bens. Isso não é responsabilidade de seu marido, pois, sem uma determinação categórica do Alcorão e da Sunnah, é proibida a intervenção de qualquer pessoa nos bens de outro muçulmano.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A vida e os bens de cada um de vós são proibidos aos demais.” Allah impôs ao marido apenas a responsabilidade pela alimentação, vestimenta e moradia de sua esposa. Na linguagem com que Allah nos ordenou a respeito do kafan, o kafan não é chamado de vestimenta, nem a sepultura é chamada de moradia.

A oração fúnebre do falecido

1. A regra da oração fúnebre: é consenso dos imames juristas que a oração fúnebre de um falecido é fard kifayah. Isso porque o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou-a, e os muçulmanos seguiram essa ordem. al-Bukhari e Muslim relataram, por intermédio de Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele: sempre que era levado ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um falecido endividado, ele perguntava se havia deixado algum patrimônio excedente para quitar a sua dívida. Se lhe dissessem que havia deixado patrimônio suficiente para pagar a dívida, ele realizava a oração fúnebre. Caso contrário, dizia aos muçulmanos: “Realizai a oração fúnebre por vosso companheiro.”

2. A virtude da oração fúnebre: 1. Foi relatado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, em todas as coletâneas autênticas de hadith, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem realizar a oração fúnebre e participar do enterro do falecido receberá a recompensa de um qirat. E quem o acompanhar até que o enterro seja concluído receberá a recompensa de dois qirat. O menor desses dois qirat é equivalente à montanha de Uhud”, isto é, no Dia da Ressurreição terá, na balança, o peso da montanha de Uhud.

2. Foi relatado por Muslim, através de Khabbab, que Khabbab disse: “Ó ‘Abdullah ibn ‘Umar, não ouviste o que Abu Hurayrah diz? Ele teria ouvido o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: ‘Quem sair de sua casa acompanhando um falecido, realizar a oração fúnebre por ele e depois acompanhá-lo até o seu enterro receberá a recompensa de dois qirat. Cada qirat é equivalente à montanha de Uhud. E quem realizar a oração fúnebre e partir receberá a recompensa equivalente à montanha de Uhud.’” Isso prova que não é necessário pedir permissão a ninguém para partir após a oração. Ao ouvir isso, Ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou Khabbab até ‘A’ishah para perguntar se as palavras de Abu Hurayrah eram verdadeiras e ordenou-lhe que voltasse para informá-lo do que ‘A’ishah dissesse. ‘A’ishah respondeu: “Abu Hurayrah disse a verdade.” Ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Perdemos muitas recompensas de qirat.”

3. As condições da oração fúnebre: como a oração fúnebre é uma oração, nela também se aplicam as condições de todas as demais orações obrigatórias, tais como estar livre da impureza visível, estar livre da impureza menor e maior, voltar-se na direção da qiblah e cobrir a ‘awrah. ‘Abdullah ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, dizia: “Não é permitido realizar a oração fúnebre senão em estado de pureza.” A diferença em relação às demais orações obrigatórias é que não há um horário específico como condição para ela. Pode ser realizada a qualquer momento em que o corpo do falecido esteja presente. Segundo os hanafitas e os shafi‘itas, pode ser realizada inclusive nos horários proibidos. Ahmad, Ibn al-Mubarak e Ishaq consideravam makruh realizar a oração fúnebre ao nascer do sol, ao pôr do sol e exatamente ao meio-dia. Contudo, segundo eles, não será makruh se houver receio de que o corpo do falecido se deteriore caso haja demora.

4. Os pilares da oração fúnebre: a oração fúnebre possui certos pilares pelos quais sua essência é constituída. Se algum desses pilares for omitido, a oração será inválida e, segundo a Sharia, será inaceitável. Esses arkan, ou elementos fundamentais, são:

1. A intenção: pois Allah, o Altíssimo, disse na surata Al-Bayyinah:

وما أمروا إلا لِيَعْبُدُوا اللهَ مُخْلِصِينَ لَهُ الدين.

“E não lhes foi ordenado senão adorar a Allah, dedicando-Lhe sinceramente a devoção.” O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “As ações são determinadas somente pelas intenções, e cada pessoa terá apenas aquilo que intencionou.” Bukhari.

A definição da intenção já foi apresentada anteriormente, e foi explicado que o lugar da intenção é o coração. Não é obrigatório, segundo a Sharia, pronunciar a intenção com a língua.

2. A oração em pé daquele que é capaz de orar em pé: para a maioria dos sábios, isso é um pilar ou elemento fundamental. Portanto, a oração daquele que, sem uma justificativa válida, realiza a oração fúnebre montado em um veículo ou sentado não será válida. Em Al-Mughni, foi dito: não é permitido realizar a oração fúnebre montado, pois, nesse caso, não se cumpre a obrigação de orar em pé. Essa é a opinião de Abu Hanifah, Ash-Shafi’i e Abu Thawr. Não conheço nenhuma divergência a esse respeito. Enquanto se permanece em pé na oração, é recomendável segurar a mão esquerda com a mão direita, como nas demais orações. Alguns dizem que isso não é recomendável. Contudo, a primeira opinião é a melhor.

3. Quatro takbirs: Muslim e Bukhari narraram, segundo Jabir, que o Mensageiro de Allah ﷺ realizou a oração fúnebre pelo Negus, na sua ausência, e pronunciou quatro takbirs durante a oração. At-Tirmidhi disse: a maioria dos Companheiros do Mensageiro ﷺ e dos demais sábios age de acordo com este hadith. Eles consideram que se devem pronunciar quatro takbirs na oração fúnebre. Essa também é a opinião de Sufyan, Malik, Ibn al-Mubarak, Ash-Shafi’i, Ahmad e Ishaq.

Elevar as mãos durante os takbirs: na oração fúnebre, é sunnah não fazer raf‘ al-yadayn, isto é, não elevar as mãos em nenhum takbir além do primeiro. Isso porque não há nenhuma narração do Mensageiro de Allah ﷺ indicando que ele tenha elevado as mãos em algum takbir além do primeiro. Depois de apresentar as divergências e os argumentos de todas as partes, o Imam Ash-Shawkani disse: em suma, além do primeiro takbir, não há nada relatado do Mensageiro ﷺ em nenhuma outra ocasião que possa servir como prova. As ações e palavras dos Companheiros, por si sós, não constituem uma prova conclusiva. Portanto, é preferível limitar a elevação das mãos ao primeiro takbir, isto é, ao takbir de abertura (takbirat al-ihram), pois a Sharia não estabeleceu a elevação das mãos nos demais takbirs. Nas outras orações, há narrações a favor da elevação das mãos apenas ao passar de um pilar para outro — da posição em pé para o rukū‘ e do rukū‘ para a prostração. Porém, na oração fúnebre não há mudança de posição.

4, 5. Recitar em silêncio a Surata al-Fátiha e as bênçãos e saudações ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): O imame Shafi‘i narrou em seu Musnad, através de Abu Umama ibn Sahl, que um companheiro lhe informou: “A sunnah na oração fúnebre é que o imame pronuncie o takbir e, depois do primeiro takbir, recite a Surata al-Fátiha em silêncio e secretamente. Em seguida, envie bênçãos ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Faça súplicas durante os takbires da oração fúnebre, mas não recite o Alcorão em nenhum dos takbires. Depois, encerre a oração com a saudação em silêncio.” (Segundo a maioria dos sábios, é sunnah fazer em silêncio a recitação e as bênçãos e saudações ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Porém, o imame deve pronunciar o takbir e a saudação final em voz audível, para que os seguidores possam ouvi-lo.) Em Fath al-Bari, foi dito: al-Bukhari narrou, através de Talha ibn ‘Abdullah, que Talha disse: “Rezei a oração fúnebre com Ibn ‘Abbas. Ele recitou a Surata al-Fátiha e disse: ‘Isso faz parte da sunnah.’” Este hadith também foi narrado por al-Tirmidhi, que disse: “Alguns companheiros e outros sábios seguem este hadith. Eles consideram recomendável recitar a Surata al-Fátiha depois do takbir de abertura.” Essa também é a opinião do imame Shafi‘i, de Ahmad e de Ishaq. Alguns disseram: “Na oração fúnebre não se recita o Alcorão. Nela, fazem-se apenas os louvores a Allah, enviam-se bênçãos ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e fazem-se súplicas pelo falecido.” Essa também é a opinião de al-Thawri e de outros juristas de Kufa. A prova dos que defendem a recitação da Surata al-Fátiha é que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chamou essa oração de “oração” e disse: “Orai pelo vosso companheiro.” Em outro hadith, ele disse: “A oração daquele que não recita a Surata al-Fátiha não é válida.”

A fórmula e o momento das bênçãos e saudações ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): Pode-se enviar bênçãos e saudações ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em qualquer idioma. Se alguém disser apenas: “Allahumma salli ‘ala Muhammad” (Ó Allah, envia bênçãos sobre Muhammad), isso será suficiente. Contudo, a fórmula transmitida pelo Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) é a melhor. Ela é:

اللَّمَ صَلِّ عَلَى مُحَمَّدٍ وَعَلَى آلِ مُحَمَّدٍ كَمَا صَلَّيْتَ عَلَى إِبْرَاهِيمَ وَعَلَى آلِ إِبْرَاهِيمَ، وَبَارِكْ عَلَى مُحَمَّدٍ الْعَالَمِينَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَجِيدٌ آل إِبْرَاهِيرَ فِي محمد كما باركت عَلَى إِبْرَاهِيمَ وَعَلَى وَعَلَى آلِ

Essas bênçãos devem ser recitadas depois do segundo takbir. No entanto, não há hadith que estabeleça especificamente esse momento.

6. A súplica: Todos os juristas concordam que a súplica é um dos pilares, isto é, uma parte indispensável, da oração fúnebre. Pois o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Quando rezardes pelo falecido, fazei uma súplica específica por ele.” — Abu Dawud, al-Bayhaqi e Ibn Hibban.

Qualquer que seja a brevidade dessa súplica, ela será suficiente. Contudo, é mustahabb recitar qualquer uma das súplicas ma’thurah mencionadas a seguir (súplicas transmitidas do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)):

Foi narrado por Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez a seguinte súplica na oração fúnebre de uma mulher:

اللهم أنت رَبَّهَا وَأَنتَ خَلَقْتَهَا وَأَنْتَ رَزَقْتَهَا، وَأَنْتَ مَدَيْتَهَا لِلإِسْلامِ، وَأَنْتَ قَبَضْهَا رُوحَهَا ، وانتَ أَعْلَمُ بِسِرهَا وَعَلَانِيَتِهَا، مِلْنَا شُفَعَاءَ لَهَا ، فَاغْفِرْ لَهَا ذَنْبَهَا .

“Ó Allah, Tu és o Senhor deste falecido; Tu o criaste, Tu lhe deste sustento, Tu o guiaste para o Islam, Tu lhe tiraste a vida e Tu conheces melhor o que ele ocultava e o que manifestava. Viemos como intercessores em seu favor. Perdoa, pois, os seus pecados.”

Wā’ila ibn al-Asqa‘ disse: o Mensageiro de Allah realizou a oração fúnebre por um muçulmano. Então, ouvi-o dizer:

الأَمر إِن فَلَانَ بْنَ فَلَانٍ فِي ذِمَّتِكَ وَحَبْلِ حِوَارِكَ، فَقِهِ مِن فِتْنَةِ الْقَبْرِ وَعَذَابِ النَّارِ وَأَنْتَ أَهْلُ الوَفَاءِ وَالْحَقِّ اللَّهُ فَاغْفِرْ لَهُ وَارْحَهُ فَإِنَّكَ انت الغفور الرحيم.

“Ó Allah, fulano, filho de fulano, partiu sob a Tua proteção e sob o amparo da Tua vizinhança. Portanto, protege-o da provação do túmulo e do castigo do Inferno. Tu és o Guardião da verdade e da promessa. Ó Allah, perdoa-o e tem misericórdia dele; Tu és, de fato, o Perdoador, o Misericordioso.” — Ahmad, Abu Dawud.

Foi narrado por ‘Awf ibn Mālik: depois de realizar uma oração fúnebre, ouvi o Mensageiro de Allah dizer:

اللَّهُمُ الْفِرْلَهُ وَارْحَمْهُ، وَأَعفُ عَنْهُ وَعَافِهِ وَأَكْرَمْ نُزَلَهُ، وَوَسِعَ مَنْ عَلَهُ وَاغْسِلْهُ بِمَاءِ وَتَلَجَ وَبَرَدٍ، وَلَقِهِ مِنَ الْخَطَايَا كَمَا يُنقى الثوبُ الْأَبْيَضُ مِنَ الدَّنَسِ، وَأَبْدِلَهُ دَارًا خَيْرًا مِنْ دَارِهِ وَأَهْلاً خَيْرًا مِنْ أَهْلِهِ وَزَوْجًا غيْرًا مِنْ زَوْجِهِ، وَلِهِ

فِتْنَةَ الْقَبْرَ وَعَذَاب النار .

“Ó Allah, perdoa-o, tem misericórdia dele, apaga os seus pecados, concede-lhe segurança, honra-o, amplia a sua morada, lava-o com água e neve, e purifica-o dos pecados assim como uma veste branca é limpa da sujeira. Dá-lhe uma morada melhor que a sua morada neste mundo, uma família melhor que a sua família neste mundo e uma esposa melhor que a sua esposa neste mundo; e livra-o da provação do túmulo e do castigo do Inferno.” — Muslim.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que disse: O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) realizou a oração fúnebre e disse:

اللهمَّ اغْفِرْ لِعَيْنَا وَمَيِّتِنَا، وَسَفِيرِنَا وَكَبِيرِنَا وَذَكَرنَا وَأَنْتَانَا، وَعَامِرِنَا وَغَالِبِنَا، اللهم مَنْ أَحْيَيْتَهُ مِنا فَاحْيَهِ عَلَى الْإِسلام، ومن توفيته منا فتوفه على الإيمان، اللهم لا تحرمنا أجره، وَلَا تُضَلَّنَا بَعده.

“Ó Allah, perdoa os nossos vivos e os nossos mortos, os nossos jovens e os nossos idosos, os nossos homens e as nossas mulheres, os presentes e os ausentes. Ó Allah, aquele dentre nós a quem mantiveres vivo, mantém-no vivo como seguidor do Islã; e aquele a quem deres a morte, faze-o morrer com fé. Ó Allah, não nos prives da sua recompensa e não nos desvies depois dele. — Ahmad, Tirmidhi, Abu Dawud, Nasa’i e Ibn Majah.

Se o falecido for uma criança, também é recomendado fazer esta súplica:الأمر اجعَلَهُ لَنَا سَلَقًا وَفَرَطًا وَذَحْرًا “Ó Allah, faze-o para nós um precursor, uma recompensa antecipada e um tesouro acumulado. — Bukhari.
O Profeta disse: Se o falecido for menino ou menina, recitará a súplica: “Ó Allah, perdoa os nossos mortos e os nossos vivos…”. Além disso, acrescentará esta súplica:

اللهمَّ اجْعَلْهُ فَرَطًا لِأَبَوَيْهِ وَسَلْفًا وَنَمْرًا وَعِظَةٌ وَاعْتِبَارًا وَعَفِيعًا وَنَقِلْ بِهِ مَوَازِينَهَا، وَأَفْرِغِ الصَّبْرَ عَلَى قُلُوبِهِمَا، وَلَا تَفْتِنها بعدة، ولا تحرمهما أجرة.

“Ó Allah, faze-o uma recompensa, um precursor, um conselho, um ensinamento e um intercessor para os seus pais; faze, por meio dele, a balança deles pesar mais; derrama paciência em seus corações; não os submetas depois disso a uma provação por causa dele e não os prives da sua recompensa.”

Local e momento para recitar as súplicas: Al-Shawkani disse: Os hadiths não especificaram claramente o local e o momento para recitar essas súplicas. Portanto, quem quiser pode recitar, dentre essas súplicas, as que desejar, todas depois dos takbirs ou depois do primeiro takbir, do segundo takbir ou do terceiro takbir, de uma só vez; ou pode distribuí-las entre quaisquer dois takbirs; ou recitar uma delas depois de cada takbir, para praticar todas as súplicas mencionadas nos hadiths.

7. Súplica após o quarto takbir: É recomendado fazer uma súplica após o quarto takbir, quer se tenha feito ou não uma súplica após o terceiro takbir. Ahmad narrou, por intermédio de Abdullah ibn Abi Awfa: Uma filha de Abdullah ibn Abi Awfa morreu. Ele pronunciou quatro takbirs sobre ela. Após o quarto takbir, permaneceu de pé durante o tempo entre dois takbirs e fez uma súplica. Então disse: O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) realizava a oração fúnebre dessa maneira. O Imam al-Shafi’i disse: Depois disso, ele dirá: “Ó Allah, não nos prives da sua recompensa e não nos submetas depois disso a nenhuma provação”. O filho de Abu Huraira disse: Os sábios das primeiras gerações, após o quarto

اللهم لا تحرمنا أَمْرَهُ، وَلَا تَفْتِنَا بَعْدَهُ. اللهِ رَبَّنَا آتِنَا فِي الدُّنْيَا حَسَنَةً وَفِي الْآخِرَةِ حَسَنَةً وَقِنَا عَذَابَ النَّار :

“Ó Allah, ó nosso Senhor, concede-nos paz neste mundo e na Outra Vida, e protege-nos do castigo do Inferno.”

8. A saudação final: Todos os juristas, exceto Abu Hanifa, concordam que a saudação final é obrigatória. Ele afirmou que fazer a saudação para a direita e para a esquerda é wajib, não fard. Aqueles que a consideram fard apresentam provas em apoio à sua opinião: a oração fúnebre também é uma oração. E é por meio da saudação final que se conclui a oração. Ibn Mas‘ud disse que a saudação final da oração fúnebre é como a saudação final das demais orações. Sua forma mínima é:

السَّلامُ عَلَيْكُمْ، أَوْ سَلَامٌ عَلَيْكُمْ

Segundo o Imam Ahmad, é sunnah fazer uma única saudação para a direita. Também é válido fazer a saudação voltado para a frente. O exemplo do Mensageiro de Allah também consiste em fazer uma única saudação. O exemplo dos Companheiros foi semelhante, e o fato de nenhum deles ter se oposto a isso constitui uma prova.

O Imam Shafi‘i considera mustahabb fazer a saudação final duas vezes. Na primeira, deve virar o rosto para a direita, e na última, para a esquerda. Ibn Hazm disse: a segunda saudação é um ato de dhikr e de obtenção de recompensa.

Modo de realizar a oração fúnebre

Aquele que realiza a oração fúnebre primeiro cumprirá as condições da oração. Depois, fará a intenção de realizar a oração fúnebre pelo falecido ou pelos falecidos presentes, seja um ou mais. Em seguida, levantará primeiro as mãos e dirá o takbir de abertura. Depois, colocará a mão direita sobre a esquerda e recitará a Surata al-Fatiha. Em seguida, dirá o segundo takbir e recitará as bênçãos sobre o Mensageiro de Allah. Depois, dirá o terceiro takbir e fará uma súplica pelo falecido. Em seguida, dirá o quarto takbir, fará uma súplica e dará a saudação final.

1. Como o imame deve posicionar-se na oração fúnebre de um homem e de uma mulher falecidos: a sunnah é que o imame se posicione junto à cabeça do homem falecido e junto ao meio do corpo da mulher. Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que certa vez fez a oração fúnebre por um homem e se posicionou junto à sua cabeça. Depois, trouxeram o corpo de uma mulher, e ele fez a oração fúnebre por ela, posicionando-se junto ao meio do corpo. Quando lhe perguntaram sobre isso, respondeu: “Assim o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se posicionava na oração fúnebre do homem, no mesmo lugar em que eu me posicionei, e na oração fúnebre da mulher, no mesmo lugar em que eu me posicionei.” — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah e Tirmidhi. At-Tahawi disse: “Esta é, para nós, a melhor maneira, pois os hadiths relatados do Mensageiro de Allah apoiam justamente esta prática.”

A oração fúnebre por vários falecidos: quando houver vários falecidos, entre os quais homens e mulheres, eles serão colocados em filas, um após o outro, entre o imame e a qibla, para que todos fiquem diante do imame. O mais virtuoso entre eles será colocado mais próximo do imame, e será realizada uma única oração fúnebre por todos.

Se forem reunidos os corpos de numerosos homens e mulheres, é permitido realizar separadamente a oração fúnebre dos homens e a das mulheres. Também é permitido realizar a oração fúnebre de todos juntos. Os homens serão dispostos em filas mais próximos do imame, enquanto as mulheres serão colocadas mais próximas da qibla. Foi relatado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele realizou conjuntamente a oração fúnebre por nove homens e mulheres. Colocou os homens mais próximos do imame e as mulheres mais próximas da qibla, dispondo todos em uma única fila. Foram colocados os corpos de Umm Kulthum, filha de Ali e esposa de Umar, e de seu filho Zayd. Naquele dia, o imame era Sa’id ibn al-As. Ibn Abbas, Abu Hurayra, Abu Sa’id e Qatada estavam presentes na oração fúnebre. O jovem Zayd foi colocado mais próximo do imame. Um homem disse: “Não gostei disso.” Olhei para Ibn Abbas, Abu Hurayra, Abu Sa’id e Abu Qatada e perguntei: “O que está acontecendo?” Eles responderam: “Esta é a sunnah.” — An-Nasa’i e Al-Bayhaqi. Consta no hadith: quando a oração fúnebre de um menino e de uma mulher for realizada conjuntamente, o menino será colocado mais próximo do imame e a mulher mais próxima da qibla. Quando houver homens, mulheres e meninos, os meninos serão colocados junto aos homens.

É recomendável formar três filas e alinhá-las: os participantes da oração fúnebre devem posicionar-se em três filas (no mínimo, duas), e é recomendável que as filas sejam retas. Malik ibn Hubayra (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se um crente morrer e um grupo de muçulmanos, cujo número corresponda a três filas, realizar a oração fúnebre por ele, todos os seus pecados serão perdoados.” Depois disso, quando o número de pessoas era pequeno, Malik ibn Hubayra procurava dispô-las em três filas. — Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah e Tirmidhi. O imame Ahmad disse: “Quando o número de participantes for pequeno, devem ser dispostos em três filas.” Perguntaram-lhe: “Como devem ser dispostos se forem quatro pessoas?” Ele respondeu: “Devem ser dispostos em duas filas, com duas pessoas em cada fila.” Foi considerado detestável que fossem três, pois nesse caso haveria apenas uma pessoa em cada fila.

É recomendável que haja uma grande congregação na oração fúnebre: a reunião de um grande número de pessoas na congregação da oração fúnebre

é recomendável. Pois foi relatado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se cem pessoas realizarem a oração fúnebre por um falecido e intercederem por ele diante de Allah, sua intercessão será aceita.” (Isto é, se suplicarem especificamente por ele, pedindo especialmente o perdão de seus pecados, seus pecados serão perdoados.) — Ahmad, Muslim e Tirmidhi. Também foi relatado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah dizer: se, após a morte de um muçulmano, quarenta pessoas que não associam parceiros a Allah se reunirem para realizar sua oração fúnebre, Allah aceitará a intercessão delas em seu favor.” — Ahmad, Muslim e Abu Dawud.

Aquele a quem faltar parte da oração fúnebre: se alguma pessoa perder um takbir da oração fúnebre, é recomendável que faça imediatamente o qada do takbir perdido. Não há problema se não o fizer. Ibn Umar, Hasan, Ayyub as-Sakhtiyani e Al-Awza’i disseram: se alguns takbirs da oração fúnebre forem perdidos, não é necessário fazê-los em qada. O autor de Al-Mughni deu preferência a esta última opinião. Ele disse: “Nossa prova é a declaração de Ibn Umar, e não se sabe que algum companheiro a tenha contradito.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) relatou que disse: “Ó Mensageiro de Allah, participo da oração fúnebre, mas não consigo ouvir alguns takbirs.” Ele respondeu: “Acompanha o takbir que conseguires ouvir; e o que perderes não precisará ser feito em qada.” De fato, isso é claro e inequívoco. Além disso, como esses takbirs são consecutivos, não é necessário fazer qada deles, tal como ocorre com os takbirs das duas orações do Eid.

Por quem se pode e por quem não se pode realizar a oração fúnebre: os juristas concordam que, quando um muçulmano morre — seja homem ou mulher, adulto ou menor —, pode-se realizar sua oração fúnebre. Ibn al-Mundhir disse: “É consenso dos sábios que, quando se sabe que uma criança estava viva e se manifesta algum sinal de vida por meio de alguma de suas ações, e depois ela morre, pode-se realizar sua oração fúnebre.”

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «O cavaleiro deverá ficar atrás do morto, e o pedestre deverá ficar diante dele, próximo, à direita ou à esquerda. Deve-se oferecer a oração fúnebre pelo feto abortado incompleto, e deve-se suplicar pelo perdão e pela misericórdia para seus pais.» — Ahmad e Abu Dawud.

Este hadith também afirma: «O pedestre deverá ficar atrás, à frente, à direita ou à esquerda do morto, sempre próximo. Em outra narração consta que o cavaleiro deverá ficar atrás do morto, enquanto o pedestre poderá ficar onde quiser. Deve-se oferecer a oração fúnebre pela criança.» — Ahmad, An-Nasa’i e At-Tirmidhi.

A oração fúnebre pelo feto abortado incompleto: se o feto abortado incompleto não tiver completado quatro meses, não deverá ser lavado nem se deverá oferecer a oração fúnebre por ele. Ele deverá ser envolvido em um pano e enterrado. Esta é a opinião da maioria dos juristas.

Porém, se tiver quatro meses ou mais e manifestar sinais de vida, por meio de choro ou de qualquer outra forma, então, por consenso, deverá ser lavado e deverá ser oferecida a oração fúnebre por ele. Mas, se de modo algum manifestar sinais de vida, segundo Abu Hanifah, Malik, Al-Hasan e Al-Awza‘i, não se deverá oferecer a oração fúnebre por ele. Isso porque At-Tirmidhi, An-Nasa’i, Ibn Majah e Al-Bayhaqi narraram, sob a autoridade de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Se o feto abortado morrer depois de dar sinais de vida por meio de um som ou movimento, deve-se oferecer a oração fúnebre por ele, e ele terá direito à herança.» O hadith estabeleceu como condição para oferecer a oração fúnebre que ele tivesse manifestado sinais de vida antes da morte. Segundo Ahmad, Sa‘id, Ibn Sirin e Ishaq, não somente se deverá oferecer a oração, mas também lavá-lo. Isso porque o hadith mencionado anteriormente contém essa instrução. Nele consta: «Deve-se oferecer a oração fúnebre pelo feto abortado.» Além disso, como ele é um ser vivo no qual foi insuflada a vida, deve-se oferecer a oração fúnebre por ele, tal como se faz com uma criança que manifesta sinais de vida. Isso porque o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) informou que a vida é insuflada no feto após quatro meses. Em resposta aos primeiros, eles dizem: o hadith é ambíguo e contradiz um hadith mais forte. Portanto, não pode ser usado como prova.

A oração fúnebre pelo mártir: mártir é aquele que é morto pelas mãos dos não muçulmanos durante uma batalha contra eles. Está comprovado por numerosos hadiths categóricos e inequívocos que não se deve oferecer a oração fúnebre por ele. Todos esses hadiths são autênticos.

a. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que os mártires de Uhud fossem enterrados com o sangue que havia em seus corpos; eles não foram lavados, nem se ofereceu a oração fúnebre por eles.

b. Ahmad, Abu Dawud e At-Tirmidhi narraram, sob a autoridade de Anas, que os mártires de Uhud foram enterrados com o sangue que havia em seus corpos, e não se ofereceu a oração fúnebre por eles. Por outro lado, também existem alguns hadiths autênticos que comprovam, em termos inequívocos, que se deve oferecer a oração fúnebre pelo mártir:

1. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de ‘Uqbah ibn ‘Amir (que Allah esteja satisfeito com ele): um dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu e, oito anos depois, ofereceu aos mártires de Uhud uma oração exatamente como a oração fúnebre, como se estivesse se despedindo dos vivos e dos mortos.

2. Foi narrado por Abu Mālik al-Ghifārī — que Allah esteja satisfeito com ele — que disse: Nove dos mortos de Uhud estavam sendo trazidos. Ḥamzah — que Allah esteja satisfeito com ele — era o décimo. Então o Mensageiro de Allah — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — fazia a oração por eles. Depois, eles eram levados. Em seguida, outros nove eram trazidos novamente, enquanto Ḥamzah ainda permanecia em seu lugar. Por fim, o Mensageiro — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — fez a oração fúnebre por eles. — Al-Bayhaqī. Al-Bayhaqī disse: Embora este hadith seja murs‍al, é o mais autêntico deste capítulo.
Devido às divergências entre esses hadiths, as opiniões dos juristas também assumiram formas diferentes. Alguns aceitaram todos os hadiths, enquanto outros deram preferência a certos hadiths em relação aos demais.

Entre os que preferem aceitar todos os hadiths está Ibn Ḥazm. Ele opinou que tanto realizar como não realizar a oração fúnebre são permitidos. Disse: É bom realizar a oração fúnebre pelo mártir, e também é bom não realizá-la. Nenhuma das narrações transmitidas de Imām Aḥmad deixa de refletir essa opinião. Ibn al-Qayyim considerou essa opinião correta. Disse: A opinião correta nesta questão é que, visto que existem hadiths tanto a favor como contra a oração fúnebre, há liberdade para realizá-la ou não. Esta é uma das opiniões de Imām Aḥmad e está mais de acordo com os princípios de sua escola jurídica. Ele disse: Quanto aos mártires de Uhud, o que aparentemente se conclui é que não foi realizada a oração fúnebre por eles no momento do sepultamento. Setenta homens foram mortos em Uhud juntamente com Ḥamzah. Portanto, seria impossível e inválido que a oração fúnebre tivesse sido realizada por eles e isso permanecesse oculto. O hadith narrado por Jābir ibn ʿAbd Allāh, segundo o qual não foi realizada a oração fúnebre por eles, é autêntico e claro. Seu pai, ʿAbd Allāh, também estava entre os mortos daquele dia. Assim, ninguém poderia conhecer os acontecimentos da batalha de Uhud tão profundamente quanto Jābir.
Abū Ḥanīfah, al-Thawrī, al-Ḥasan e Ibn al-Musayyab consideram preferível a narração sobre a realização da oração fúnebre. Segundo eles, é obrigatório realizar a oração fúnebre pelo mártir. Mālik, al-Shāfiʿī e Isḥāq também, conforme uma narração, dão preferência à opinião contrária à de Aḥmad. Eles dizem: Não se deve realizar a oração fúnebre pelo mártir. Dando preferência à sua própria opinião, al-Shāfiʿī disse em sua obra Al-Umm: “Os hadiths segundo os quais o Mensageiro de Allah — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — não realizou a oração fúnebre pelos mártires de Uhud foram transmitidos de forma mutawātir, como se fossem relatos testemunhados com os próprios olhos. Já a narção segundo a qual ele realizou a oração fúnebre por eles e pronunciou setenta takbīrs na oração não é autêntica. Quem apresentou essas narrações contra esses hadiths autênticos deveria ter-se envergonhado de si mesmo. Por outro lado, o hadith de ʿUqbah ibn ʿĀmir testemunha por si só que esse acontecimento ocorreu oito anos depois. Talvez, sabendo que sua morte se aproximava, ele tenha suplicado por eles e pedido perdão por eles, desejando despedir-se deles. Isso de modo algum prova a revogação de uma norma estabelecida (isto é, a norma relativa à oração fúnebre do mártir).”

Aquele que é ferido na guerra contra os incrédulos, recupera-se e depois morre: Quem for ferido na guerra, viver depois disso por algum tempo e então morrer deverá ser lavado e deverá ser feita por ele a oração fúnebre, ainda que seja considerado mártir. Isso porque o Mensageiro de Allah — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — mandou lavar Saʿd ibn Muʿādh e realizou sua oração fúnebre. Uma flecha havia cortado uma veia de sua mão. Depois, ele foi levado à mesquita, onde permaneceu alguns dias. Então, em determinado momento, seu ferimento inchou e ele morreu como mártir.

Mas, se depois de ser ferido ele permanecer doente, falar e comer e beber, e então morrer, não deverá ser lavado nem deverá ser realizada por ele a oração fúnebre. Nas obras Al-Mughnī e Futūḥ al-Shām, é mencionado que um homem disse: Levei um pouco de água para ʿAlī, com a intenção de dar um pouco dela ao meu primo, caso o encontrasse vivo. Porém, de repente, encontrei al-Ḥārith ibn Hishām e quis dar-lhe água. Nesse momento, vi um homem olhando para ele. Al-Ḥārith fez-me sinal para que eu desse água àquele homem. Quando me aproximei para dar-lhe água, vi outro homem olhando para ele. Então, este também me fez sinal para que eu lhe desse água. Por fim, todos morreram. Nenhum deles recebeu lavagem nem oração fúnebre. Todos morreram depois da batalha.

A oração fúnebre daquele que morre após a aplicação de uma pena prevista pela Sharīʿah: Quem for morto em consequência da aplicação de uma pena prevista pela Sharīʿah deverá ser lavado e deverá ser realizada por ele a oração fúnebre. Al-Bukhārī narrou, por intermédio de Jābir: Um homem da tribo de Banū Aslam foi até o Mensageiro de Allah — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — e confessou ter cometido adultério. O Mensageiro de Allah ignorou-o. Finalmente, ele repetiu várias vezes seu testemunho sobre o próprio crime. O Mensageiro de Allah disse: “Estás louco?” Ele respondeu: “Não.” Ele perguntou: “És casado?”

Ele respondeu: “Sim.” Então, o Mensageiro de Allah ordenou que ele fosse apedrejado até a morte, e ele foi apedrejado no local de oração do Eid. Quando, devido às pedradas, ficou extremamente agitado e tentou fugir correndo, foi capturado, apedrejado novamente e morreu. Depois, o Mensageiro de Allah elogiou-o e realizou sua oração fúnebre. Imām Aḥmad disse: Não sabemos que o Mensageiro — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — tenha deixado de realizar a oração fúnebre de alguém, exceto daquele que se apropriou indevidamente dos espólios antes de sua distribuição e daquele que cometeu suicídio.

A oração fúnebre daquele que se apropria indevidamente dos espólios, do suicida e dos demais pecadores: Segundo a maioria dos sábios, deve ser realizada a oração fúnebre pelo suicida, por aquele que se apropriou indevidamente dos espólios e por todos os pecadores. Al-Nawawī disse: O qāḍī afirmou que a oração fúnebre deve ser realizada por todo muçulmano que tenha mantido sua fé, pelo suicida e pelo filho ilegítimo. O hadith segundo o qual o Mensageiro — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — não realizou a oração fúnebre daquele que se apropriou indevidamente dos espólios e do suicida provavelmente tinha como objetivo repreender e censurar tal ato, assim como ele não realizou a oração fúnebre daquele que morreu endividado. Contudo, ordenou aos Companheiros que realizassem a oração fúnebre.
Ibn Ḥazm disse: Deve ser realizada a oração fúnebre por todos os muçulmanos, sejam eles virtuosos ou pecadores, tenham sido punidos por uma pena prevista pela Sharīʿah, mortos numa rebelião ou mortos numa guerra. O governante ou qualquer outra pessoa deve realizar sua oração fúnebre. Do mesmo modo, deve ser realizada a oração fúnebre daquele que pratica inovações, desde que não tenha chegado ao nível da incredulidade, bem como do suicida e do assassino, se morrerem como muçulmanos, ainda que sejam os criminosos mais desprezíveis da Terra. Isso porque a afirmação do Mensageiro — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — “Realizai a oração pelo vosso companheiro” tem sentido abrangente. Todo muçulmano é nosso companheiro. Allah disse: “Os crentes são irmãos uns dos outros.” E também disse: “Os homens crentes e as mulheres crentes são aliados e protetores uns dos outros.” Portanto, quem se opõe à realização da oração fúnebre por um muçulmano profere algo extremamente grave. Um pecador necessita mais das súplicas de seus irmãos muçulmanos do que aquele que merece a misericórdia de Allah.
Foi narrado em um hadith autêntico que um homem morreu em Khaybar. O Mensageiro — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — disse: “Realizai a oração fúnebre pelo vosso companheiro. Ele se apropriou indevidamente de algo no caminho de Allah.” Depois, revistaram seus pertences e encontraram um cordão cujo valor não ultrapassava dois dirhams.

Foi autenticamente narrado que ʿAṭāʾ realizou a oração fúnebre pelo filho ilegítimo, por sua mãe, pelos cônjuges que se amaldiçoaram mutuamente, pelo condenado à morte e por aquele que foi morto por fugir do campo de batalha. ʿAṭāʾ disse: Não deixarei de realizar a oração fúnebre por quem tenha dito: “Não há divindade além de Allah”.

Foi transmitido autenticamente de Ibrāhīm al-Nakhaʿī que ele disse: nos primórdios do Islã, não se deixava de realizar a oração fúnebre por ninguém que se voltasse para a qibla dos muçulmanos e realizasse a oração. Deve-se realizar a oração fúnebre por quem cometeu suicídio. É sunnah realizar a oração fúnebre por quem foi morto por apedrejamento como punição. Qatāda disse: não tenho conhecimento de nenhum sábio que tenha recusado realizar a oração fúnebre por alguém que tenha dito: “lā ilāha illā Allāh”. Ibn Sīrīn disse: nunca vi ninguém deixar de realizar a oração fúnebre por alguém que se voltasse para a qibla dos muçulmanos.

Foi narrado por Abū Ghālib: perguntei a Abū Umāma al-Bāhilī: “Pode-se realizar a oração fúnebre por um alcoólatra?” Ele respondeu: “Sim. Talvez, em algum momento, ele tenha dito lā ilāha illā Allāh enquanto estava deitado em sua cama, e por isso seus pecados tenham sido perdoados.” Al-Ḥasan disse: “Deve-se realizar a oração fúnebre por quem tenha dito lā ilāha illā Allāh e rezado voltado para a qibla.” Isso é apenas uma súplica.

A oração fúnebre do incrédulo: não é permitido realizar a oração fúnebre por nenhum incrédulo, pois Allah disse:

وَلَا تُصَلِّ عَلَى أَحَدٍ مِنْهُمْ مَاسَ أَبَدًا، وَلَا تَقُرْ عَلَى قَبْرِهِ ، إِنَّهُمْ كَفَرُوا بِاللَّهِ وَرَسُولِهِ، وَقَالَ مَا كَانَ لِلنَّبِي، وَالَّذِينَ آمَنُوا أَن يَسْتَغْفِرُوا لِلْمُشْرِكِينَ وَلَوْ كَانُوا أَولِى تُرْبِي مِنْ بَعْدِ مَا تَبَيَّنَ لَهُمْ أَنَّهُمْ اصْحابِ الجَحِيمِ وَمَا كَانَ

اسْتِغْفَارَ إِبْرَاهِيمَ لِأَبِيهِ إِلَّا عَنْ مَوْعِدَةٍ وَعَدَهَا إِيَّاهُ فَلَمَّا تَبَيَّنَ لَهُ أَنَّهُ عَدو لِلَّهِ تَبَرأَ مِنْهُ .

“Quando algum deles morrer, jamais realizes a oração fúnebre por ele, nem permaneças junto à sua sepultura. Eles renegaram Allah e Seu Mensageiro.” Allah também disse: “Não é permitido ao Profeta nem aos crentes pedir perdão pelos idólatras, mesmo que sejam seus parentes, depois de saberem que serão habitantes do Inferno.” Quanto a Ibrāhīm ter pedido perdão por seu pai, isso ocorreu apenas para cumprir a promessa que lhe havia feito. Depois, quando soube que ele era inimigo de Allah, afastou-se dele. Do mesmo modo, não se deve realizar a oração fúnebre pelos filhos dos idólatras, pois eles estão sujeitos à condição religiosa de seus pais. Contudo, é diferente no caso daqueles que reconhecemos como muçulmanos, por exemplo, quando um de seus pais aceitou o Islã; ou quando morreram, foram capturados ou se separaram de seus pais; ou quando foram separados de um deles. Quando crianças desse tipo morrem, deve-se realizar sua oração fúnebre.

A oração fúnebre sobre a sepultura: mesmo que a oração fúnebre tenha sido realizada pelo falecido antes de seu sepultamento, pode-se realizar a oração fúnebre sobre sua sepultura a qualquer momento depois do sepultamento. Já foi mencionado anteriormente que o Mensageiro de Allah realizou, oito anos depois, a oração fúnebre pelos mártires de Uḥud. Foi narrado por Zayd ibn Thābit, que Allah esteja satisfeito com ele: certa vez, saímos com o Mensageiro de Allah. Quando chegamos a Jannat al-Baqīʿ, ele viu uma sepultura recente e perguntou: “De quem é esta sepultura?” Disseram-lhe: “De uma determinada mulher.” Ele a reconheceu e disse: “Por que não me informaram sobre sua morte e sua oração fúnebre?” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, você estava dormindo ao meio-dia, e não consideramos apropriado incomodá-lo.” Ele disse: “Não façam mais isso. Enquanto eu estiver vivo entre vocês, sempre que alguém morrer, informem-me, pois minha oração é uma misericórdia para ele.” Então ele foi até a sepultura e nos alinhou atrás dele. Em seguida, realizou sobre ela a oração fúnebre, com quatro takbīrs. — Aḥmad, al-Nasāʾī, al-Bayhaqī, al-Ḥākim e Ibn Ḥibbān.

Al-Tirmidhī disse: a maioria dos sábios, juntamente com os Companheiros, agiu de acordo com este hadith. A opinião de al-Shāfiʿī, Aḥmad e Isḥāq também é essa. O hadith também menciona que os Companheiros realizaram a oração fúnebre da referida mulher depois de seu sepultamento. O Mensageiro realizou a oração fúnebre sobre sua sepultura. Os Companheiros não estavam dispostos a sepultá-la sem realizar a oração fúnebre.

O fato de os Companheiros terem realizado a oração fúnebre sobre o túmulo juntamente com o Mensageiro prova que isso não era exclusivo do Mensageiro.

Ibn al-Qayyim disse: Embora estes hadiths sejam, literalmente, categóricos e inequívocos, por existirem hadiths que parecem contradizê-los, eles se tornaram hadiths difíceis de compreender. Esse hadith é: “Não vos senteis sobre os túmulos nem rezai sobre eles.” Este também é um hadith autêntico. Aquele que disse isso também realizou a oração sobre um túmulo. Na realidade, estes dois hadiths não se contradizem. Não há lugar determinado para a oração fúnebre realizada sobre o corpo do falecido. Pelo contrário, é melhor realizar essa oração fora da mesquita do que dentro dela. Portanto, a oração fúnebre realizada sobre o seu túmulo pertence à mesma categoria da oração fúnebre realizada sobre o seu corpo. Ambas as orações são realizadas tendo como objetivo o mesmo falecido; não há diferença se a oração for realizada sobre o túmulo ou sobre o corpo. Quanto às demais orações, a questão é completamente diferente, pois não é permitido pela Sharia realizar outras orações sobre os túmulos. (O último hadith proíbe isso.) Isso abriria o caminho para transformar os túmulos em mesquitas. O Mensageiro amaldiçoou aqueles que fazem isso. Assim, como se pode comparar essa prática — cujo praticante ele amaldiçoou, contra a qual advertiu e cujo praticante classificou como a pior das criaturas, dizendo: “Os que estiverem vivos quando a Hora ocorrer e os que transformarem os túmulos em mesquitas serão as piores pessoas” — com esta outra prática, que ele realizou repetidamente? (Isto é, a oração fúnebre sobre o túmulo não é uma oração comum.)

Oração fúnebre pelo ausente: É permitido realizar a oração fúnebre por um falecido ausente, esteja ele distante ou próximo. Quem realiza a oração fúnebre deve posicionar-se voltado para a qibla. Se o local onde o falecido se encontra não estiver na direção da qibla, deve-se intencionar realizar a oração por ele. Os takbirs e todos os demais procedimentos devem ser realizados da mesma maneira que na oração fúnebre por um falecido presente. Isso porque foi narrado por Abu Huraira, em todas as coletâneas autênticas de hadiths: No dia em que o Negus morreu, o Mensageiro de Allah convocou as pessoas para realizar sua oração fúnebre e foi com elas até o local de oração do Eid. Ali, alinhou os Companheiros em fileiras e pronunciou quatro takbirs.” Ibn Hazm disse: A oração fúnebre pelo falecido ausente deve ser realizada sob a liderança de um imam e com uma congregação. O Mensageiro realizou a oração fúnebre pelo Negus, que havia morrido na Abissínia. Seus Companheiros alinharam-se com ele e realizaram a oração. Esta é a opinião unânime deles, que não pode ser contrariada. Abu Hanifa e Malik discordaram dessa opinião. Contudo, não há nenhuma prova aceitável em apoio à opinião deles.

Oração fúnebre na mesquita: Não há impedimento em realizar a oração fúnebre na mesquita, desde que não haja receio de que ela seja contaminada. Muslim narrou, segundo Aisha, que o Mensageiro realizou a oração fúnebre por Sahl ibn Bayda na própria mesquita. Os Companheiros também realizaram na mesquita as orações fúnebres de Abu Bakr e Umar. Ninguém contestou isso, pois se trata de uma oração como as demais.” Para Malik e Abu Hanifa, a razão pela qual isso é makruh é que o Mensageiro de Allah disse: “Quem realizar a oração fúnebre na mesquita não receberá nada.” (Isto é, não receberá recompensa.) Contudo, esse hadith contradiz a prática do Mensageiro de Allah e dos Companheiros. Além disso, o hadith é fraco. Ahmad ibn Hanbal disse: Este é um hadith fraco. Entretanto, os sábios consideraram esse hadith autêntico e disseram que, na cópia autêntica do Sunan de Abu Dawud, o texto é: “Quem realizar a oração fúnebre na mesquita não sofrerá nenhum dano.” (Isto é, não cometerá pecado.) Ibn al-Qayyim disse: A oração fúnebre na mesquita não era uma sunna habitual do Mensageiro. Durante sua vida, as orações fúnebres eram realizadas fora da mesquita, salvo por alguma necessidade. Ele as realizava na mesquita apenas ocasionalmente, como no caso da oração fúnebre de Ibn Bayda. É permitido realizar a oração fúnebre tanto fora quanto dentro da mesquita; contudo, é melhor realizá-la fora da mesquita.

Realizar a oração fúnebre entre vários túmulos: A maioria dos sábios considera makruh realizar a oração fúnebre entre vários túmulos em um cemitério. Isso foi narrado de Ali, Abdullah ibn Umar e Ibn Abbas. Essa também é a opinião de Ata, Nasa’i, al-Shafi’i, Ishaq e Ibn al-Mundhir. Isso porque o Mensageiro de Allah disse: “Toda a terra é uma mesquita, exceto os túmulos e o hammam (hammam é o local que reúne banheiro, urinol e sala de banho).” Em uma narração transmitida de Ahmad, afirma-se que não há impedimento em realizar a oração fúnebre entre os túmulos de um cemitério. Isso porque o Mensageiro foi ao cemitério e realizou a oração fúnebre sobre um túmulo. Abu Huraira realizou a oração fúnebre sobre o túmulo de Aisha, entre os túmulos de Jannat al-Baqi. Ibn Umar também esteve presente nessa oração. Umar ibn Abd al-Aziz também a realizou. As mulheres também podem realizar a oração fúnebre; tal como os homens, a oração fúnebre é para elas

permitida, quer a realizem sozinhas, quer em congregação. Umar esperou por Umm Abdullah (sua esposa). Por fim, Umm Abdullah realizou sozinha (não tendo alcançado a congregação) a oração fúnebre de Utba. Aisha também ordenou que trouxessem o corpo de Sa’d ibn Abi Waqqas para que ela realizasse sua oração fúnebre. Al-Nawawi disse: Tal como nas demais orações, também deve ser sunna para as mulheres realizar a oração fúnebre em congregação. Hasan ibn Salih, Sufyan al-Thawri, Ahmad e os hanafitas também sustentam essa opinião. Malik disse: As mulheres devem realizar a oração fúnebre sozinhas.

Prioridade para liderar a oração fúnebre: Há divergência entre os juristas sobre quem tem prioridade para liderar a oração fúnebre. Uma opinião é a seguinte: a prioridade máxima cabe à pessoa a quem o falecido deixou essa incumbência em testamento; depois, ao governante; depois, ao pai e aos ascendentes; depois, ao filho e aos descendentes; e depois, ao parente paterno mais próximo. Essa é a opinião dos maliquitas e hanbalitas. Outra opinião é: primeiro o pai, depois o avô, depois o filho, depois o neto, depois o irmão, depois o sobrinho, depois o pai, depois o primo paterno, seguindo a ordem dos parentes da linhagem paterna. Essa é a opinião de al-Shafi’i e Abu Yusuf. Abu Hanifa e Muhammad ibn Hasan são da opinião de que, primeiro, vem o governador da província, se estiver presente; depois, o juiz; depois, o governante da região; depois, o responsável pela mulher falecida. Em seguida, vem o parente mais próximo segundo a ordem da consanguinidade paterna; depois, o mais próximo entre os restantes. Se o pai e o filho estiverem presentes ao mesmo tempo, o pai terá prioridade.

Transporte do caixão e cortejo fúnebre

Ao transportar o caixão, são recomendáveis, segundo a Sharia, as seguintes ações:

1. Transportá-lo e acompanhar o cortejo fúnebre. A Sunnah é que os que o carregam alternem suas posições ao redor do corpo, de modo que passem por todos os lados. Ibn Majah, al-Bayhaqi e Abu Dawud al-Tayalisi narraram de Ibn Mas‘ud que Ibn Mas‘ud — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Quem acompanha o morto — isto é, quem o leva até o túmulo — deve carregá-lo alternadamente por todos os lados do esquife, pois isso faz parte da Sunnah.” (Quando um Companheiro chama algo de Sunnah, isso significa que tal prática foi estabelecida pelo próprio Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.) Depois disso, se quiser, poderá avançar voluntariamente um pouco mais; caso contrário, poderá deixar de fazê-lo. E foi narrado de Abu Sa‘id que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Visitai o doente e participai dos cortejos fúnebres. Isso vos fará lembrar da Outra Vida.” — Ahmad.

2. Agilidade e rapidez no cortejo fúnebre: todos os livros autênticos de hadith narraram de Abu Hurayrah que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Apressei-vos a levar o morto ao túmulo. Se ele for uma pessoa virtuosa, isso o fará chegar mais rapidamente à sua melhor recompensa; caso contrário — isto é, se for uma pessoa má —, tereis afastado de vossos ombros um mal.” Ahmad, al-Nasa’i e outros narraram de Abu Bakrah que Abu Bakrah disse: “Vimos o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — caminhar conosco no cortejo fúnebre. Enquanto carregávamos o morto sobre os ombros, caminhávamos rapidamente, balançando o pescoço.” O Imam al-Bukhari narrou em sua obra histórica que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — caminhou tão rapidamente que nossos sapatos se rasgaram. Isso ocorreu no dia da morte de Sa‘d ibn Mu‘adh.” Em Fath al-Bari, afirma-se que, em suma, é recomendável levar rapidamente o morto ao túmulo. Contudo, deve-se fazê-lo de modo que não haja receio de dano ou deformação do corpo, nem de sofrimento excessivo para os que o carregam e os que o acompanham. Além disso, essa rapidez não deve resultar na perda da limpeza nem em causar incômodo aos muçulmanos. Al-Qurtubi disse: “O propósito do hadith é que não se deve atrasar o sepultamento do morto, pois o atraso muitas vezes dá origem à ostentação e à arrogância.”

3. Caminhar próximo ao corpo, à sua frente, atrás dele, à sua direita ou à sua esquerda. Os estudiosos divergiram sobre cada uma dessas formas. A maioria dos estudiosos prefere caminhar à frente. Eles dizem: “Essa é a melhor maneira, pois o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, Abu Bakr e ‘Umar costumavam caminhar à frente.” — Ahmad, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah. Segundo os hanafitas, é melhor caminhar atrás, pois é isso que se entende da ordem do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — de acompanhar o morto. Aquele que acompanha é chamado assim porque caminha atrás.

Anas ibn Malik considerava todas as formas equivalentes, pois já foi citada anteriormente a declaração do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —: “O cavaleiro deve caminhar atrás do cortejo fúnebre, enquanto o pedestre deve caminhar à frente, atrás, à direita ou à esquerda, mantendo-se próximo.”

É evidente que todas as formas são lícitas. A divergência limita-se às formas permitidas, e o que se espera entre elas é tolerância e flexibilidade. Foi narrado por ‘Abd al-Rahman ibn Abi Awfa que Abu Bakr e ‘Umar caminhavam à frente do cortejo, enquanto ‘Ali caminhava atrás. Então disseram a ‘Ali: “Eles dois caminham à frente.” ‘Ali respondeu: “Eles também sabem que caminhar atrás é melhor do que caminhar à frente, assim como rezar em congregação é melhor do que um homem rezar sozinho. No entanto, eles são tolerantes e desejam facilitar a religião para as pessoas.” — al-Bayhaqi e Ibn Abi Shaybah. A maioria dos estudiosos considera makruh montar um animal sem uma justificativa ao participar do cortejo fúnebre. Porém, não o considera makruh no trajeto de retorno. Isso porque Thawban disse: “Quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — caminhava com um morto, trouxeram-lhe um animal, mas ele não o montou. Depois, quando retornava, trouxeram-lhe um animal e ele montou-o. Quando lhe perguntaram o motivo, respondeu: ‘Enquanto íamos, os anjos caminhavam. Eu não poderia montar o animal enquanto eles caminhavam. Quando partiram, montei.’” — Abu Dawud, al-Bayhaqi e al-Hafiz. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — caminhou no funeral de Ibn al-Dahdah e retornou montado num cavalo. — al-Tirmidhi. A declaração do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — citada anteriormente, “O cavaleiro deve caminhar atrás do cortejo fúnebre”, não contradiz este hadith, pois talvez o objetivo daquele hadith seja demonstrar que montar durante o cortejo é tanto makruh quanto lícito. Segundo os hanafitas, não há objeção em ir montado, embora caminhar seja melhor — salvo quando houver uma justificativa. A Sunnah para o cavaleiro é permanecer atrás do cortejo. Al-Khattabi disse: “Não conheço divergência alguma quanto ao fato de o cavaleiro dever permanecer atrás do cortejo.”

5. O que é makruh no funeral, no sepultamento e no amortalhamento

No funeral, no sepultamento e no amortalhamento, são makruh as seguintes ações:

1. Recitar o dhikr em voz alta ou recitar o Alcorão ou qualquer outra coisa. Ibn al-Mundhir disse: Ouvimos uma narração de Qays ibn ‘Ubadah, que disse: Os Companheiros do Mensageiro ﷺ não gostavam de elevar a voz em três situações: no funeral — incluindo a oração fúnebre, o amortalhamento, o enterro e o cortejo —, no dhikr e na guerra. Sa‘id ibn al-Musayyab, Sa‘id ibn Jubayr, al-Hasan, al-Nakha‘i, Ahmad e Ishaq consideravam makruh também dizer, durante o funeral: “Peçam o perdão para o falecido”. Segundo al-Awza‘i, isso é uma inovação.

Fudayl ibn ‘Amr disse: Ibn ‘Umar estava em um funeral. De repente, ouviu um homem dizer: “Todos vocês peçam o perdão para o falecido; Allah o perdoará.” Ibn ‘Umar imediatamente disse: “Que Allah não o perdoe.” Al-Nawawi disse: O princípio dos antigos sábios de manter silêncio ao levar o corpo para ser enterrado após a oração fúnebre é absolutamente correto. Portanto, nenhuma súplica, dhikr ou recitação do Alcorão deve ser feita em voz alta. Em todos os procedimentos relacionados ao funeral, são necessários serenidade de pensamento e tranquilidade do coração; por isso, o silêncio é o mais apropriado. Esta é a opinião correta. Por mais que seja contestado, esse princípio não deve ser abandonado. Durante os funerais, alguns ignorantes recitam diversas suratas ou súplicas de maneira prolongada e arrastada, o que é totalmente proibido.

Sobre recitar o dhikr em voz alta, há uma fatwa do xeque Muhammad ‘Abduh, na qual ele disse: É makruh que aquele que transporta o corpo recite o dhikr em voz alta. Se quiser mencionar Allah, que o faça em silêncio, no coração. Recitar o dhikr em voz alta é uma inovação. Isso não existia na prática do Mensageiro ﷺ, de seus Companheiros, dos tabi‘in nem dos tabi‘ al-tabi‘in. Portanto, é indispensável impedir essa prática.

2. Acompanhar o caixão levando fogo consigo. Isso é uma prática da época da ignorância. Ibn al-Mundhir disse: Todos os sábios e eruditos cuja opinião me é conhecida desaprovavam isso. Al-Bayhaqi disse: ‘A’ishah, ‘Ubadah ibn al-Samit, Abu Hurayrah, Abu Sa‘id al-Khudri e Asma’ bint Abi Bakr fizeram, antes de morrer, a recomendação de que ninguém acompanhasse seus corpos levando fogo atrás deles. Ibn Majah narrou que Abu Musa al-Ash‘ari, quando estava moribundo, disse: “Não acompanhem meu corpo levando incenso ou braseiro.”

As pessoas disseram: “Você ouviu algo sobre isso do Mensageiro ﷺ?” Ele respondeu: “Sim, do Mensageiro ﷺ.”

Contudo, se o enterro ocorrer à noite e for necessário acender fogo para obter iluminação, não há problema. Al-Tirmidhi narrou, por intermédio de Ibn ‘Abbas, que o Mensageiro ﷺ foi, à noite, até uma sepultura; então, acenderam uma luz para ele ali.

3. Os participantes do cortejo fúnebre fazerem uma pausa e sentarem-se em algum lugar antes de colocar o corpo no chão. Al-Bukhari disse: Quem acompanhar um corpo para enterrá-lo não deve sentar-se antes que ele seja retirado dos ombros dos carregadores. Se se sentar, deverá ser ordenado a levantar-se. Em seguida, narrou, por intermédio de Abu Sa‘id al-Khudri, que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quando virdes um corpo, levantai-vos. Quem o acompanhar não deve sentar-se até que o corpo seja colocado no chão.” Sa‘id al-Maqbari narrou, por intermédio de seu pai: Estávamos em um cortejo fúnebre. Nesse momento, Abu Hurayrah segurou a mão de Marwan, e ambos se sentaram antes de o corpo ser colocado no chão. Abu Sa‘id chegou, segurou a mão de Marwan e disse: “Levante-se. O Mensageiro ﷺ nos proibiu de fazer isso”, isto é, sentar-nos antes de o corpo ser colocado no chão. Abu Hurayrah disse: “Ele falou a verdade.” Al-Hakim também narrou: Quando Abu Sa‘id ordenou a Marwan que se levantasse, ele se levantou e disse: “Por que você me fez levantar?” Então, Abu Sa‘id mencionou o hadith. Em seguida, disse a Abu Hurayrah: “Por que você não me informou?” Ele respondeu: “Você era o imame. Quando você se sentou, eu também me sentei.”

Esta é a opinião da maioria dos Companheiros, dos tabi‘in, dos hanafitas, dos hambalitas, de al-Awza‘i e de Ishaq. Al-Shafi‘i disse: Não é makruh que os participantes do cortejo fúnebre se sentem antes de o corpo ser colocado no chão. Entretanto, os sábios concordam que, para quem caminha à frente do corpo, não há problema em sentar-se antes que o corpo chegue até ele. Al-Tirmidhi disse: Foi narrado por alguns sábios que os Companheiros do Mensageiro ﷺ e outros caminhavam à frente do corpo e se sentavam antes que ele chegasse até eles. Esta é a opinião do imame al-Shafi‘i. Depois, quando o corpo chegava, ele não se levantava. Ahmad disse: Se alguém permanecer de pé, não o censuro; e, se se sentar, também não há problema.

4. Levantar-se ao passar um cortejo fúnebre. Ahmad narrou de Waqid ibn Amr ibn Sa‘id ibn Mu‘adh, que disse: “Ao ver um cortejo fúnebre na tribo de Banu Salimah, levantei-me. Então Nafi‘ ibn Jubayr me disse: ‘Sente-se. Eu lhe apresentarei uma prova decisiva sobre isso.’ Mahmud ibn Hakim az-Zurqi me informou que ouviu Ali ibn Abu Talib dizer: ‘O Mensageiro de Allah ﷺ ordenou-nos que nos levantássemos ao ver um cortejo fúnebre. Depois, ele próprio se sentou e ordenou-nos que nos sentássemos.’ A versão narrada por Muslim é a seguinte: ‘Vimos o Mensageiro de Allah ﷺ levantar-se, então nos levantamos. Depois, ele se sentou, então nos sentamos’ — isto é, em relação ao cortejo fúnebre. At-Tirmidhi disse: ‘Este hadith de Ali é autêntico e bom, e quatro tabi‘ins o narraram uns dos outros.’ Alguns sábios seguem este hadith. Ash-Shafi‘i disse: ‘Esta é a narração mais correta sobre o assunto.’ Este hadith ab-roga o primeiro hadith, no qual se afirma: ‘Quando virdes um cortejo fúnebre, levantai-vos.’ Ahmad disse: ‘Quem quiser pode levantar-se, e quem quiser pode sentar-se.’ A prova disso é o hadith segundo o qual o Mensageiro de Allah ﷺ certa vez se levantou e, em outra ocasião, sentou-se. Entre os maliquitas, Ishaq ibn Habib e Ibn al-Majishun concordaram com a opinião de Ahmad. An-Nawawi disse: ‘Levantar-se é mustahabb; esta é a opinião adotada.’

Ibn Hazm disse: “É mustahabb levantar-se depois de ver um cortejo fúnebre, até que ele passe deixando o observador para trás ou até que o corpo seja colocado no chão, seja ele o corpo de um incrédulo ou não. Contudo, não há culpa em não se levantar.” A prova daqueles que consideram isso mustahabb é o hadith narrado por Amir ibn Rabi‘ah e registrado em todas as coletâneas de hadith autênticas. O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quando virdes um cortejo fúnebre, levantai-vos por ele, até que passe deixando-vos para trás ou até que seja colocado no chão.” Ahmad narrou que Ibn Umar, sempre que via um cortejo fúnebre, levantava-se imediatamente e permanecia de pé até que ele passasse. Al-Bukhari e Muslim narraram, por meio de Sahl ibn Hunayf e Qays ibn Sa‘d, que ambos estavam sentados em Qadisiyyah quando, de repente, algumas pessoas passaram diante deles levando um corpo. Ao vê-lo, os dois se levantaram. Foi-lhes dito: “É o corpo de um dos dhimmas.” — isto é, de um não muçulmano. Eles responderam: “Um cortejo fúnebre passou diante do Mensageiro de Allah ﷺ, e ele se levantou ao vê-lo.” Então lhe disseram: “Era o corpo de um judeu.” O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Acaso não era uma vida?” Al-Bukhari narrou, por meio de Abu Layla, que Ibn Mas‘ud e Qays se levantavam ao ver um cortejo fúnebre. Qual é o significado desse levantar-se? A resposta encontra-se no hadith narrado por Ahmad, Ibn Hibban e al-Hakim. Nesse hadith, narrado de Abdullah ibn Amr, consta: “Levantai-vos em respeito Àquele que toma as almas.” A versão de Ibn Hibban diz: “Em respeito ao Deus Altíssimo, que ceifa as vidas.” Em suma, os sábios divergiram sobre esta questão. Alguns consideram makruh levantar-se para um cortejo fúnebre; outros o consideram mustahabb; e outros consideram que a pessoa é livre para levantar-se ou não. Cada um dos partidários dessas três opiniões possui suas provas. A pessoa pode adotar a opinião que considerar mais adequada.

5. É makruh a participação das mulheres em cortejos fúnebres. Umm ‘Atiyyah, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Fomos proibidas de acompanhar os mortos, mas isso não nos foi tornado obrigatório.” — Ahmad, al-Bukhari, Muslim e Ibn Majah. (Isto é, não nos foi imposta a obrigação de acompanhar os mortos. Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: o significado é que isso não foi proibido com a mesma ênfase que outras coisas proibidas. Em outras palavras, acompanhar os mortos foi considerado makruh para as mulheres, mas não haram. Al-Qurtubi disse: o sentido aparente da declaração de Umm ‘Atiyyah é que se trata de uma proibição no grau de makruh tanzihi. Esta é a opinião da maioria dos sábios. Segundo Malik, isso é permitido. Esta é também a opinião dos habitantes de Medina. A prova de sua permissibilidade é o hadith narrado por Abu Hurayrah: o Mensageiro de Allah ﷺ estava em um cortejo fúnebre. Ao ver ali uma mulher, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, gritou. Então o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Ó Umar, deixe-a ficar.” — Ibn Majah e an-Nasa’i. Al-Muhallab disse: o hadith de Umm ‘Atiyyah demonstra que as proibições da Shariah possuem diferentes graus.)

Abdullah ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, também disse: “Estávamos viajando com o Mensageiro de Allah ﷺ quando, de repente, ele viu uma mulher. Não pensamos que ele a tivesse reconhecido. Quando avançamos pela estrada, o Mensageiro de Allah ﷺ parou. Finalmente, a mulher o alcançou. Vimos que era Fatimah, que Allah esteja satisfeito com ela. O Mensageiro de Allah ﷺ disse: ‘Ó Fatimah, por que saíste de casa?’ Fatimah respondeu: ‘Vim à casa dessas pessoas. Um de seus familiares morreu, por isso vim prestar-lhes solidariedade e condolências.’ O Mensageiro de Allah ﷺ disse: ‘Talvez tenhas ido com eles até o cemitério?’ Fatimah respondeu: ‘Busco refúgio em Allah de ir com eles até o cemitério, pois ouvi o senhor falar muitas vezes sobre isso.’ O Mensageiro de Allah ﷺ disse: ‘Se tivesses ido até o cemitério, não verias o Paraíso enquanto o avô de teu pai não o visse.’” — Ahmad, al-Hakim, an-Nasa’i e al-Bayhaqi. Os sábios declararam que este hadith não é autêntico, pois sua cadeia de transmissão contém Rabi‘ah ibn Sa‘if, que é fraco no campo dos hadiths e contra quem existem várias objeções.

Ibn Majah e al-Hakim narraram de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Ali disse: “Certo dia, o Mensageiro de Allah ﷺ saiu e viu várias mulheres sentadas. Ele perguntou: ‘O que acontece? Por que estais sentadas?’ Elas responderam: ‘Estamos esperando um corpo.’ O Mensageiro de Allah ﷺ perguntou: ‘Vós lavareis o corpo?’ Elas responderam: ‘Não.’ Ele perguntou: ‘Então o carregareis?’ Elas responderam: ‘Não.’ Ele perguntou: ‘Então o colocareis na sepultura?’ Elas responderam: ‘Não.’ Ele disse: ‘Então voltai. Já cometestes algum pecado e não obtivestes nenhuma recompensa.’” Este hadith também é controvertido. Apesar disso, Ibn Mas‘ud, Ibn Umar, Abu Umamah, A’ishah, Masruq, al-Hasan, an-Nakha‘i, al-Awza‘i, Ishaq, os hanafitas, os shafi‘itas e os hanbalitas apoiam esta opinião.

Segundo o Imam Malik, não é de modo algum makruh que uma mulher idosa acompanhe o cortejo fúnebre de alguém. Tampouco é makruh para uma mulher jovem, se o falecido for alguém cuja perda lhe seja extremamente dolorosa, desde que ela saia devidamente coberta e que sua saída não cause qualquer perturbação. Por outro lado, Ibn Hazm considera equivocadas as provas e os argumentos da maioria dos sábios e afirma que é permitido às mulheres acompanharem os cortejos fúnebres. Ele disse: “Não consideramos makruh que as mulheres acompanhem os cortejos fúnebres, nem as impedimos de fazê-lo.” Foram narradas algumas declarações dos Companheiros proibindo esse ato, mas nenhuma delas é autêntica. Sobre o hadith de Umm ‘Atiyyah mencionado anteriormente, ele disse que, embora seja autêntico quanto à cadeia de transmissão, não serve como prova. No máximo, dele se poderia deduzir que isso é makruh. Pelo contrário, a opinião oposta está comprovada de modo autêntico, como narramos pela via de Shu‘bah. Nessa via, Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: “O Mensageiro de Allah ﷺ estava presente no enterro de um corpo. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, viu uma mulher e gritou. Então o Mensageiro de Allah ﷺ disse a Umar: ‘Ó Umar, deixe-a ficar, pois os olhos derramam lágrimas, o coração está aflito e o momento está próximo.’” Foi narrado de Ibn Abbas, com uma cadeia autêntica, que esse ato não é makruh.

Abster-se de participar do cortejo fúnebre por causa de práticas contrárias à Sharia: O autor de Al-Mugni disse: se houver no cortejo fúnebre alguma prática contrária à Sharia, que possa ser vista ou ouvida, deve-se primeiro verificar se é possível impedi-la. Se for possível, deverá fazê-lo. Caso não seja possível, deverá adotar uma de duas condutas. A primeira é censurá-la e participar do cortejo fúnebre. Com a censura, terá cumprido seu dever; e, ao participar, evitará abandonar uma ação legítima por causa de um ato ilícito. A segunda é retornar sem participar. Isso porque, dessa forma, se livrará de ver e ouvir uma prática contrária à Sharia, da qual é capaz de se proteger.

6. O sepultamento e a escavação da sepultura

1. A regra do sepultamento na Sharia: Há consenso entre a comunidade muçulmana de que sepultar o falecido e cobrir seu corpo é uma obrigação comunitária (fard kifaya). Allah, o Altíssimo, disse:

الم تجعل الْأَرْضِ كِفَانًا أَحْيَاء وَأَمْوَاتًا .

“Acaso não fizemos da terra um lugar de reunião para os vivos e os mortos?”

2. Sepultar à noite: Segundo a maioria dos sábios, sepultar à noite é igual a sepultar durante o dia; não há diferença entre os dois. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sepultou à noite o homem que costumava fazer dhikr em voz alta. E Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, também sepultou Fátima à noite. Do mesmo modo, Abu Bakr, Uthman, Aisha e Ibn Masud foram sepultados à noite.

Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi à noite até uma sepultura. Uma lâmpada foi acesa para ele ali. Ele tomou a lâmpada pelo lado da qibla e disse, dirigindo-se ao falecido: “Que Allah tenha misericórdia de você. Você tinha um coração muito terno e estudava o Alcorão em grande medida.” Ele pronunciou quatro takbirs sobre ele. — At-Tirmidhi. A maioria dos sábios considera permitido sepultar à noite.

Contudo, sepultar à noite só será permitido quando isso não causar a perda de nenhum direito do falecido nem prejudicar a oração fúnebre. Porém, quando com isso os direitos do falecido forem prejudicados, a oração fúnebre sofrer dano e o cumprimento de todas as suas formalidades for de algum modo impedido, o sepultamento noturno se tornará proibido e makruh segundo a Sharia. Muslim narrou que, certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez um sermão. Ele mencionou um companheiro que havia morrido e que, depois, fora envolto à noite em uma mortalha insuficientemente longa e sepultado. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse, repreendendo severamente: “Que ninguém seja sepultado à noite, a menos que não haja absolutamente outra alternativa.” Ibn Majah narrou, de Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não sepulteis vossos mortos à noite, a menos que não haja absolutamente outra alternativa.”

3. Enterrar durante o nascer, o zênite e o ocaso do sol: Os sábios são unânimes em afirmar que, quando houver receio de que o cadáver se decomponha, não será makruh enterrá-lo nesses três períodos. Do mesmo modo, segundo a maioria dos sábios, mesmo sem receio de decomposição, é permitido enterrá-lo nesses três períodos, desde que isso não seja intencional. Porém, enterrá-lo intencionalmente nesses períodos é makruh. Isso porque Ahmad, Muslim, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah narraram de Uqbah ibn Amir que Uqbah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibia-nos de realizar a oração fúnebre e enterrar nossos mortos em três períodos: durante o nascer do sol, até que ele se eleve e brilhe completamente; ao meio-dia, quando o sol estiver sobre nossas cabeças, até que decline; e quando o sol estiver próximo de se pôr, até que se ponha.” Devido a este hadith, os hanbalitas dizem que enterrar os mortos nesses três períodos é makruh em todas as circunstâncias.

4. É mustahabb aprofundar a sepultura: O objetivo do enterro é cobrir o cadáver em uma cova que impeça a propagação de seu mau cheiro e impeça que animais e aves se aproximem dele. Qualquer forma de enterro que alcance esse objetivo cumpre a obrigação e o dever. Contudo, é recomendável cavar a sepultura até a altura de um homem. An-Nasa’i e at-Tirmidhi narraram de Hisham ibn Amir que ele disse: No dia da batalha de Uhud, queixamo-nos ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizendo: “Ó Mensageiro de Allah, é muito difícil para nós cavar uma sepultura separada para cada pessoa.” Ele respondeu: “Cavai profundamente e com cuidado, e enterrai duas ou três pessoas em uma mesma sepultura.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, a quem devemos colocar primeiro?” Ele respondeu: “Colocai primeiro aquele que entre eles recitava mais o Alcorão.” Hisham disse: “Meu pai foi o terceiro dos três enterrados em uma mesma sepultura.” Ibn Abi Shaybah e Ibn al-Mundhir narraram de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que ele disse: “Cavai a sepultura tão profunda e larga quanto a altura da cabeça.” Segundo Abu Hanifah e Ahmad, deve-se cavá-la até a metade da altura do corpo humano; fazê-la mais profunda é melhor.

5. A sepultura lateral é preferível à sepultura em vala central: A sepultura lateral consiste em abrir, ao lado da sepultura, na direção da qiblah, outra cavidade no solo. Quando a entrada dessa cavidade é fechada com tijolos de barro cru, ela se assemelha a uma casa com teto. Já a sepultura em vala central consiste em cavar uma vala comprida no meio da sepultura, cujas laterais são erguidas com terra; o cadáver é colocado dentro dela e, acima dele, constrói-se um teto com algum material. Ambos os tipos de sepultura são válidos, mas a sepultura lateral é preferível. Ahmad e Ibn Majah narraram de Anas: Quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, faleceu, havia dois homens: um era perito em sepulturas laterais e o outro era habilidoso em sepulturas em vala central. Todos disseram: “Pediremos a Allah que nos oriente para o que é melhor e enviaremos mensageiros aos dois; utilizaremos aquele que chegar primeiro.” Foram enviados mensageiros aos dois, e o especialista em sepulturas laterais chegou primeiro. Assim, foi feita uma sepultura lateral para o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Este hadith prova a validade da sepultura lateral. Sua preferência, porém, é comprovada por outro hadith. Ahmad, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah narraram de Ibn Abbas que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “A sepultura lateral é para nós, e a sepultura em vala central é para os outros.”

6. Como colocar o morto na sepultura: O modo conforme a sunnah de colocar o morto na sepultura é, quando possível, introduzir primeiro a parte inferior de seu corpo, isto é, os pés. Abu Dawud, Ibn Abi Shaybah e al-Bayhaqi narraram de Abdullah ibn Zayd que ele colocou um morto na sepultura pelos pés e disse: “Este é o modo conforme a sunnah.” Se isso não for possível, ele será colocado da maneira que for possível, pois nenhuma afirmação do Alcorão ou do hadith determinou especificamente uma dessas formas.

7. É mustahabb colocar o morto na sepultura com o rosto voltado para a qiblah: A sunnah conhecida é deitar o morto sobre o lado direito na sepultura e voltar seu rosto para a qiblah. A pessoa que realizar esse ato deverá desatar as amarras da mortalha, dizendo: “Em nome de Allah e segundo a religião do Mensageiro de Allah” ou “Segundo a sunnah do Mensageiro de Allah”.

Ibn Umar narrou do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: Quando o morto for colocado na sepultura, deve-se dizer: “Em nome de Allah e segundo a religião — ou a sunnah — do Mensageiro de Allah.” — Ahmad, Abu Dawud, at-Tirmidhi, Ibn Majah e an-Nasa’i.

8. Segundo a maioria dos juristas, é makruh colocar na sepultura do morto um tecido, um travesseiro ou algo semelhante: Ibn Hazm considera que não há problema em estender um tecido dentro da sepultura, sob o corpo do morto. Isso porque Muslim narrou de Ibn Abbas que um manto vermelho foi estendido na sepultura do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele afirma que, assim como Allah protegeu Seu Mensageiro das agressões das pessoas, também permitiu que se estendesse um tecido em seu enterro, não o proibindo. Além disso, aqueles que naquela época eram as pessoas mais virtuosas e nobres da Terra realizaram esse ato com pleno consenso, e nenhum deles se opôs. Contudo, os sábios consideram mustahabb fazer um travesseiro para a cabeça do morto com um tijolo, uma pedra ou terra; retirar a mortalha da face direita, colocá-la sobre o solo e encostar a face direita na direção do tijolo ou da pedra. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Quando me colocardes na sepultura, encostai minha face ao solo.” Ad-Dahhak recomendou que se desatasse o nó de sua mortalha e que suas faces fossem retiradas de dentro dela. Os sábios consideram mustahabb apoiar o morto por trás com tijolos ou terra e não deitá-lo de costas. Segundo Abu Hanifah, Malik e Ahmad, quando o morto for uma mulher, é mustahabb estender longitudinalmente sobre ela um tecido durante sua colocação na sepultura. Segundo ash-Shafi’i, isso é igualmente mustahabb tanto para mulheres quanto para homens.

9. É mustahabb lançar três punhados de terra na sepultura: É mustahabb que cada pessoa que participar do enterro lance três punhados de terra com as duas mãos. Essa terra deve ser lançada a partir do lado da cabeça do morto. Ibn Majah narrou: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou a oração fúnebre por um morto. Depois foi até sua sepultura e lançou três punhados de terra a partir do lado da cabeça. Em outra narração consta que, quando o Mensageiro, que Allah esteja satisfeito com ele, colocou sua filha Umm Kulthum na sepultura, ao lançar o primeiro punhado de terra disse: “Foi desta terra que vos criamos”; ao lançar o segundo punhado disse: (وَفِيهَا نَعِيلَ كُمْ) “E a ela vos devolveremos novamente”; e, ao lançar o terceiro punhado, disse: (وينها تكرمكم تارة أخرى) “E dela vos faremos sair novamente.” Devido a esta última narração, os três imames — Abu Hanifah, ash-Shafi’i e Malik — consideraram mustahabb recitar essas três partes de versículos nos três punhados, respectivamente. Porém, por considerar o hadith fraco, o imame Ahmad entende que nada precisa ser recitado ao lançar a terra.

10. É recomendável suplicar pelo falecido após o término do sepultamento: depois que o sepultamento do falecido for concluído, é recomendável suplicar por ele e pedir a Allah que o mantenha firme na fé. Pois, nessa situação, é isso que o falecido deseja. Foi narrado por Uthman, que o Mensageiro de Allah, após concluir o sepultamento, permanecia de pé junto ao túmulo do falecido e dizia: “Peçam perdão pelos pecados de vosso irmão e roguem que ele permaneça firme em sua fé, pois agora ele está pedindo isso.” Abu Dawud, al-Hakim e al-Bazzar. Razin também narrou, por intermédio de Ali, que, quando o sepultamento do falecido era concluído, o Mensageiro dizia:

اللهم هذا عبدك نَزَلَ بِكَ وَأَنتَ خَيْرٌ مَنْزُولِ بِهِ فَاغْفِرْ لَهُ وَوَسِعَ مَن خَلَهُ .

‘Ó Allah, este é o Teu servo que se tornou Teu hóspede, e Tu és o melhor dos anfitriões.

“Portanto, perdoa-o e torna amplo o seu lugar de entrada.” Ibn Umar considerava recomendável recitar, sobre o túmulo, a primeira e a última parte da surata al-Baqara após o sepultamento. — al-Bayhaqi. 11. Fazer “tasqīn” após o sepultamento (ensinar ou recordar a fé): alguns sábios e o imame al-Shafi’i consideram recomendável fazer “tasqīn” (ensinar ou recordar a fé) ao falecido depois de concluído o sepultamento (exceto no caso de um falecido menor de idade). Sa’id ibn Mansur narrou, por intermédio de Rashid ibn Sa’d, Damra ibn Habib e Hakim ibn Umayr — eles disseram: depois que se concluía o nivelamento do túmulo do falecido e as pessoas que haviam comparecido ao sepultamento iam embora, considerava-se recomendável dirigir-se ao falecido sobre o túmulo, dizendo: “Ó fulano, diga: não há divindade além de Allah; testemunho que não há divindade além de Allah” (três vezes). “Ó fulano, diga: meu Senhor é Allah, minha religião é o Islã e meu profeta é Muhammad.” Então, irá embora. Al-Tabarani também narrou, por intermédio de Abu Umama, que ele disse: quando um de vossos irmãos morrer e vós nivelardes a terra de seu túmulo, que um de vós permaneça de pé sobre o túmulo e diga: “Ó fulano, filho de fulana.” Depois que isso for dito, o falecido o ouvirá, mas não poderá responder. Então, quando for dito novamente: “Ó fulano, filho de fulana”, ele se sentará dentro do túmulo. Depois, quando for dito mais uma vez: “Ó fulano, filho de fulana”, ele dirá: “Que Allah tenha misericórdia de vós; ordenai-me.” Contudo, vós, habitantes deste mundo, não percebeis isso. Então lhe será dito: recorda um pouco a condição em que deixaste o mundo: não há outra divindade além de Allah, e Muhammad é Seu servo e Mensageiro. Testemunha isso; e recorda que estavas satisfeito com Allah como Senhor, com o Islã como religião, com Muhammad como profeta e com o Alcorão como guia. Então Munkar e Nakir segurarão as mãos um do outro e dirão: “Vamos; não temos ocasião de permanecer com aquele a quem foram ensinadas as suas provas.” Nesse momento, um homem perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, e se o nome da mãe do falecido não for conhecido?” Ele respondeu: “Então, menciona-se o nome de sua mãe, Hawwa, e diz-se: ‘Ó fulano, filho de Hawwa.’” Os sírios continuam até hoje a fazer o talqin dessa maneira. Porém, os malikis e alguns dos hanbalis consideram o talqin makruh.

7. Questões relativas aos túmulos

É sunna elevar o túmulo um palmo acima da superfície do solo, para que ele possa ser reconhecido como um túmulo. Elevá-lo mais do que isso é haram. Isso porque Muslim e outros compiladores de hadith narraram que Thumama ibn Shufaya disse: “Estávamos com Fudala ibn Ubayd em um lugar chamado Rols, em Roma. Naquele momento, um de nossos companheiros morreu. Por ordem de Fudala, seu túmulo foi preparado e nivelado com o solo. Então Fudala disse: ‘Ouvi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenar que os túmulos fossem nivelados.’” Abu al-Hayyaj al-Asadi narrou: Ali ibn Abi Talib me disse: “Não queres que eu te envie para a mesma tarefa para a qual o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) me enviou? Essa tarefa consiste em não deixar imagem alguma sem desfigurar-lhe o rosto, nem túmulo algum sem nivelá-lo.” Al-Tirmidhi disse: “Alguns sábios seguem este hadith. Consideram makruh elevar um túmulo mais do que o necessário para que ele seja reconhecido como tal. Ele pode ser elevado apenas o suficiente para que ninguém o pise nem se sente sobre ele.” Em conformidade com a sunna correta, os governantes muçulmanos costumavam demolir a parte excedente dos túmulos construídos com altura excessiva. O imã al-Shafi’i disse: “Não gosto que se traga terra de outro lugar para acrescentá-la ao túmulo. Não é recomendável elevar o túmulo mais de um palmo acima do solo, nem revesti-lo ou construí-lo com material endurecido, pois isso manifesta arrogância e luxo, o que não é compatível com a morte. Não vi os túmulos dos Muhajirun e dos Ansar revestidos ou construídos com material endurecido. Pelo contrário, vi muitos governantes demolirem construções endurecidas sobre os túmulos, sem ver os fuqaha considerarem isso censurável.” Al-Shawkani disse: “É haram elevar o túmulo além do limite permitido.” Todos os discípulos de Ahmad, parte dos discípulos de al-Shafi’i e Malik expressaram essa mesma opinião. É equivocada a afirmação do imã Yahya, de al-Mahdi e de outros de que isso não é proibido porque os sábios antigos e posteriores construíram os túmulos com material endurecido e ninguém os contestou. No máximo, eles permaneceram em silêncio. E o silêncio não constitui prova quando ocorre em questões contrárias às declarações decisivas do Alcorão e da sunna.

Outra prática proibida pelo referido hadith, relacionada à elevação dos túmulos, é construir cúpulas sobre eles e salas de reunião adjacentes aos túmulos. A construção desse tipo de edificação equivale a transformar os túmulos em mesquitas; por isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) amaldiçoou quem a realiza.

Não há como mensurar quanto dano foi causado ao Islã pela construção de diversos tipos de edificações sobre os túmulos e pelo embelezamento deles. Por isso, o Islã ainda hoje lamenta e clama. Um dos danos mais significativos é que pessoas ignorantes e tolas se afundaram, em torno dessas construções relacionadas aos túmulos, em crenças fantasiosas semelhantes às crenças dos politeístas acerca de ídolos e divindades. Essas pessoas que se identificam como muçulmanas foram fortalecendo gradualmente tais crenças, até chegar ao ponto de considerar esses túmulos capazes de proporcionar diversos tipos de benefícios e de afastar diversos tipos de males, calamidades e aflições. Assim, esses túmulos foram transformados em centros para a realização dos desejos e a consecução dos objetivos, e diante deles são feitas súplicas por coisas que os servos suplicam somente a Allah. Esses túmulos e os lugares a eles associados são transformados em locais de peregrinação, aos quais as pessoas vão e onde permanecem em grupos; tocam-nos reverentemente com as mãos e pedem diante deles salvação e refúgio. Em suma, não deixaram de praticar com esses túmulos nada do que o povo da sociedade da jahiliyya praticava com ídolos e divindades. Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un.

Apesar de uma injustiça tão abominável e de uma incredulidade tão terrível, é muito raro encontrar alguém que se irrite e se enfureça contra isso unicamente buscando a satisfação de Allah e que se levante para denunciá-lo, empenhando-se em preservar a dignidade do Islã baseado no tawhid: nem um sábio, nem um estudante islâmico, nem um comandante militar ou líder político, nem um ministro, nem um rei ou governante. Recebemos também, sem qualquer dúvida, a notícia de que muitos — ou a maioria — desses devotos de túmulos ou mausoléus, sempre que são desafiados pelo adversário a prestar um juramento, juram conscientemente em falso em nome de Allah. Depois, quando lhes dizem: “Jure em nome de tal e tal pír, wali ou venerável”, eles, sem demora alguma, abandonam a declaração que haviam jurado em nome de Allah. Mesmo depois de negarem, reconhecem a verdade real. (A atitude é como se temessem mais o referido pír ou wali do que o próprio Allah.) Isso prova de forma irrefutável que o politeísmo deles assumiu uma forma ainda mais grave do que o politeísmo dos cristãos trinitários, que afirmam que Allah é o segundo de dois deuses ou o terceiro de três deuses. Portanto, pergunto humildemente aos sábios, reis e governantes do mundo muçulmano: que perigo maior do que uma incredulidade tão grandiosa pode haver para o Islã? Que poderia ser mais prejudicial a esta religião de Allah do que adorar qualquer criatura em vez de Allah? Que calamidade maior do que essa poderia atingir os muçulmanos? E, se denunciar um politeísmo tão aberto não for nosso dever e obrigação religiosa indispensável, então qual outra injustiça será considerada nossa responsabilidade denunciar? O poeta expressou justamente sua lamentação ao dizer:

لَقَدْ أَسْمَعْت لَوْ نَادَيت حَيًّا – وَلَكِنْ لَا حَيَاةَ لِمَنْ تُنَادِي وَلَوْ نَارًا نَفَعْتَ بِهَا أَضَاءَتْ – وَلَكِنْ أَنْتَ تَنْفَعُ فِي رَمَادِ

“Se estivesses dirigindo-te a uma pessoa viva, certamente conseguirias fazê-la ouvir as palavras. Mas aquele a quem te diriges está sem vida; se soprasses sobre o fogo, ele certamente ard seria. Contudo, continuas soprando sobre cinzas.”

Os sábios emitiram uma fatwa ordenando a demolição das mesquitas e cúpulas construídas sobre túmulos. No livro chamado Khawajir, está escrito: é obrigatório tomar a iniciativa de demolir as mesquitas e cúpulas construídas sobre os túmulos, pois elas são mais nocivas do que a Mesquita de Dirar. Essas cúpulas e mesquitas foram construídas com base na oposição ao Mensageiro de Allah, que proibiu sua construção e ordenou que os túmulos elevados fossem demolidos. É obrigatório remover todas as lâmpadas colocadas sobre os túmulos. É ilícito fazer votos ou estabelecer waqf para qualquer coisa no túmulo. Esta fatwa foi emitida durante o reinado do rei Záhir. Quando ele decidiu demolir todos os túmulos revestidos e todas as construções do cemitério cercado por muros, os sábios daquela época concordaram e declararam que era dever do governante demolir essas estruturas.

Nivelar o túmulo e elevá-lo ligeiramente: os juristas concordaram que tanto elevar ligeiramente o túmulo quanto nivelá-lo são permitidos. At-Tabari disse: o túmulo deve ser feito ao nível do solo ou, conforme o costume dos muçulmanos, elevado na medida de um palmo. Não aprovo a adoção de qualquer terceiro método. Nivelar o túmulo não é o mesmo que deixá-lo ao nível do solo. Os juristas divergiram sobre qual dos dois é preferível. O cádi Iiad citou a maioria dos sábios dizendo que o melhor método é elevá-lo ligeiramente, pois Sufyan an-Nammar lhe disse que havia visto o túmulo do Mensageiro de Allah ligeiramente elevado. — Al-Bukhari. Essa é a opinião de Abu Hanifa, Malik, Ahmad, Muzani e de muitos juristas shafiitas.

Ash-Shafi’i também disse que, como o Mensageiro de Allah ordenou que os túmulos fossem nivelados, nivelá-los é o melhor.

Marcar o túmulo com um sinal: é permitido marcar o túmulo com uma pedra, um pedaço de madeira ou algo semelhante. Ibn Majah narrou, de Anas, que o Mensageiro de Allah marcou o túmulo de Uthman ibn Maz’un com uma pedra; isto é, colocou uma pedra sobre o túmulo para que ele pudesse ser reconhecido. No livro Jawad, afirma-se que a cadeia de transmissão é boa. Abu Dawud também narrou isso de Al-Muttalib ibn Wada’ah. A narração acrescenta que ele carregou a pedra pessoalmente e a colocou junto à cabeceira — isto é, na direção da cabeça do falecido — e disse: “Por meio dela reconhecerei o túmulo do meu irmão e poderei sepultar junto dele os membros da minha família que morrerem.” O hadith mostra que é mustahabb sepultar parentes falecidos próximos uns dos outros, para que seja mais fácil visitá-los e para que se fortaleça o afeto por eles.

Ir ao túmulo sem tirar os sapatos ou sandálias: segundo a maioria dos sábios, é permitido ir ao túmulo usando os sapatos ou sandálias. Jarir ibn Hazim disse: vi Al-Hasan e Ibn Sirin caminharem junto aos túmulos usando seus calçados. Al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud e An-Nasa’i narraram, de Anas, que o Mensageiro de Allah disse: “Quando um servo é colocado no túmulo e seus companheiros se afastam, ele ouve o som dos seus calçados.” Com base neste hadith, os sábios provaram a permissibilidade de caminhar junto ao túmulo usando calçados, pois, se as pessoas não fossem até lá calçadas, não haveria possibilidade de se ouvir o som dos sapatos. Por outro lado, o Imam Ahmad considerou makruh ir ao túmulo usando sapatos de couro curtido com folhas de sibt — um tipo especial de árvore. Abu Dawud, An-Nasa’i e Ibn Majah narraram, de Bashir, o liberto do Mensageiro de Allah, que o Mensageiro de Allah viu um homem andando junto ao túmulo usando calçados e disse: “Ó homem que usa sapatos de couro de sibt, ai de ti! Tira os teus sapatos.” O homem olhou para ele e, quando reconheceu que era o Mensageiro de Allah, tirou imediatamente os sapatos e os lançou para longe. Al-Khattabi disse: talvez ele tenha considerado esses sapatos desagradáveis por conterem ostentação e distinção, pois os sapatos de sibt eram considerados calçados usados por pessoas luxuosas e nobres. Na verdade, ele preferia que se fosse ao túmulo com a vestimenta da humildade e da modéstia. O Imam Ahmad considera makruh caminhar usando calçados somente quando não há uma justificativa. Se houver uma justificativa que impeça a pessoa que deseja ir ao túmulo de tirar os sapatos, como espinhos ou impureza, então não será makruh usá-los.

É proibido cobrir os túmulos: não é permitido cobrir um túmulo com qualquer coisa. Isso constitui gasto de dinheiro e futilidade sem finalidade reconhecida pela Sharia, além de induzir as pessoas ao desvio. Bukhari e Muslim narraram de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que Aisha disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu com um grupo de guerreiros. Nesse momento, cobri a porta com uma cortina de tecido macio. Ao retornar, ele viu a cortina e imediatamente a puxou e a retirou. Então disse: “Allah não nos ordenou cobrir a terra e as pedras.”

É proibido acender lamparinas nos túmulos e construir mesquitas: vários hadiths autênticos proíbem, em termos inequívocos, construir mesquitas sobre os túmulos e acender lamparinas neles. Por exemplo:

1. Bukhari e Muslim narraram de Abu Huraira que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Que Allah destrua os judeus! Eles transformaram os túmulos de seus profetas em mesquitas.”

2. Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi e Nasai narraram de Ibn Abbas que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou as mulheres que visitam os túmulos e aqueles que constroem mesquitas sobre os túmulos e acendem lamparinas neles.

3. Muslim narrou em seu Sahih, por intermédio de Abdullah al-Bajali, que ele disse: Ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer, cinco dias antes de sua morte: “Estou livre, diante de Allah, de que qualquer um dentre vós seja meu amigo íntimo, pois Allah me tomou como amigo íntimo, assim como tomou Abraão como amigo íntimo. Se eu tivesse tomado alguém como amigo íntimo, teria tomado Abu Bakr. Os povos que vos precederam costumavam transformar os túmulos de seus profetas e dos virtuosos em mesquitas. Não transformeis os túmulos em mesquitas. Eu vos proíbo de fazer isso.”

4. Foi narrado por Abu Huraira no Sahih Muslim que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah amaldiçoou os judeus e os cristãos. Eles transformaram os túmulos de seus profetas em mesquitas.”

5. Bukhari e Muslim narraram de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que Umm Habiba e Umm Salama informaram o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de que, quando estavam na Abissínia, haviam visto uma igreja cujo interior continha muitas imagens. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando um homem virtuoso entre eles (os cristãos) morria, eles construíam uma mesquita sobre seu túmulo e esculpiam nela vários tipos de imagens. No Dia da Ressurreição, serão as piores criaturas perante Allah.” O autor de Al-Mughni disse: Não é permitido construir uma mesquita sobre um túmulo, isto é, num local adjacente a ele. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah amaldiçoou as mulheres que visitam os túmulos, os que constroem mesquitas sobre os túmulos e as mulheres que acendem lamparinas nos túmulos.” — Abu Dawud e Nasai.

Se essa prática fosse permitida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não teria amaldiçoado quem a pratica. Além disso, nela se gasta dinheiro sem qualquer benefício. Também se demonstra aos túmulos uma veneração tão grande que é comparável à veneração de ídolos. Com base nos hadiths e na declaração do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Que Allah amaldiçoe os judeus! Eles costumavam transformar os túmulos de seus profetas em mesquitas”, é ilícito construir mesquitas sobre os túmulos. Por meio desse hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) advertiu contra agir como os judeus. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: O túmulo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não foi deixado exposto e acessível apenas para que não fosse transformado em mesquita. Além disso, rezar especificamente junto aos túmulos se assemelha a honrar os ídolos e buscar aproximar-se deles. Já citamos anteriormente relatos segundo os quais a idolatria começou com a veneração dos mortos, que prosseguiu mediante a confecção de suas imagens, o ato de tocá-las e a oração diante delas. O Imam Bukhari narrou de Ibn Abbas: os ídolos chamados Wadd, Suwa, Yaghuth, Ya’uq e Nasr, que o povo de Noé (que a paz esteja sobre ele) adorava, eram, na realidade, nomes de alguns homens virtuosos e piedosos daquele povo. Depois que morreram, as pessoas fizeram imagens deles com a boa intenção de mantê-los na memória e seguir seu exemplo. Porém, com o passar do tempo, quando surgiu uma deficiência de informação e conhecimento sobre eles, Satanás tornou atraente e sedutora a veneração de suas imagens e estátuas, tocá-las com as mãos e buscar aproximar-se delas. Ele os induziu, prometendo que, ao tocá-las com as mãos, obteriam bênçãos e benefícios. As pessoas tratavam assim os túmulos dos virtuosos. Isso foi transmitido dos politeístas aos judeus e cristãos, e destes aos muçulmanos. Na realidade, embora haja diferenças de forma e aparência, como ídolos, todos eles são essencialmente iguais.

É makruh sacrificar animais junto à sepultura: a Sharia proibiu sacrificar animais perto das sepulturas, para que as pessoas se afastem do costume de sacrifícios da sociedade da جاهلية e se livrem da competição de ostentação e orgulho mútuos. Abu Dawud narrou, de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah disse: “Não há sacrifício ritual no Islã.” Abd al-Razzaq disse: as pessoas sacrificavam vacas ou cabras junto às sepulturas.

Al-Khattabi disse: no período da جاهلية, as pessoas sacrificavam camelos junto ao túmulo de um falecido conhecido por sua generosidade e diziam: “Estamos retribuindo seus méritos.” Isso porque, enquanto estava vivo, ele sacrificava camelos e alimentava as pessoas. Agora sacrificamos estes animais junto ao seu túmulo, para que os animais e as aves venham e os comam. Assim como ele organizava banquetes públicos em vida, continuava a organizá-los após a morte. Um poeta disse: “Sacrifiquei minha camela junto ao túmulo de Najashi, com uma espada intensamente afiada, brilhante e cortante, que seus afiadores haviam aperfeiçoado ao máximo. Sacrifiquei-a sobre o túmulo daquele homem que, se eu tivesse morrido antes dele, teria sacrificado sem hesitação muitas de suas camelas sobre o meu túmulo.” Alguns habitantes do período da جاهلية acreditavam na ressurreição após a morte e pensavam que, se um camelo fosse sacrificado junto ao túmulo em nome do falecido, ele ressuscitaria no Dia da Ressurreição montado em um camelo; caso contrário, ressuscitaria a pé.

É proibido sentar-se sobre a sepultura, apoiar-se nela e caminhar sobre ela: não é permitido sentar-se sobre a sepultura, apoiar-se nela ou caminhar sobre ela. Amr ibn Hazm narrou que o Mensageiro de Allah o viu sentado, apoiado em uma sepultura, e disse: “Não causes sofrimento ao ocupante desta sepultura.” — Ahmad. Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah disse: “É muito melhor que um de vós se sente sobre uma brasa ardente, fazendo com que suas roupas e até sua pele sejam queimadas, do que se sente sobre o túmulo de alguém.” — Ahmad, Muslim, Abu Dawud, al-Nasa’i e Ibn Majah. Segundo Ibn Hazm e um grupo dos primeiros sábios, entre eles Abu Hurayra, isso é haram, pois foi anunciada uma ameaça de punição por esse ato.

Contudo, segundo a maioria dos sábios, isso é makruh. Al-Nawawi disse: o Imam al-Shafi‘i, em seu livro al-Umm, e a maioria de seus discípulos consideram sentar-se sobre a sepultura makruh tanzihi. Na terminologia dos juristas, é mais conhecido que a palavra makruh se refira a makruh tanzihi. Muitos deles expressaram essa opinião. Essa é também a opinião da maioria dos sábios, incluindo al-Nakha‘i, al-Layth, Ahmad e Dawud. Apoiar-se sobre a sepultura é igualmente makruh tanzihi.

Entretanto, entre os Companheiros, Ibn Umar, e entre os imames, Malik e Abu Hanifa, consideravam permitido sentar-se sobre a sepultura. Malik disse em seu Muwatta: “A razão pela qual se proibiu sentar-se sobre a sepultura pode ser, segundo nossa compreensão, impedir que se satisfaçam necessidades naturais, como urinar e defecar.” Sobre isso, ele mencionou um hadith fraco. Ahmad declarou que essa interpretação era fraca e inaceitável. Al-Nawawi disse: “Esta é uma interpretação fraca ou inválida.” Ibn Hazm também a rejeitou por vários motivos.

Essa divergência diz respeito a sentar-se por motivos diferentes de atender às necessidades naturais. Porém, não há divergência quanto a sentar-se para atender às necessidades naturais — urinar ou defecar. Segundo todos os juristas, isso é haram. Do mesmo modo, os juristas concordam quanto à permissibilidade de caminhar sobre uma sepultura quando há necessidade inevitável. Um exemplo dessa necessidade é quando não se pode chegar à sepultura do próprio falecido sem passar sobre outra sepultura.

É proibido revestir a sepultura e escrever sobre ela: Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Mensageiro de Allah proibiu revestir ou caiar a sepultura, sentar-se sobre ela e construir uma estrutura sobre ela. — Ahmad, Muslim, al-Nasa’i, Abu Dawud e al-Tirmidhi. Na versão de al-Tirmidhi, também foi proibido pisoteá-la. Na versão de al-Nasa’i, proibiu-se escrever qualquer coisa sobre a sepultura e acrescentar qualquer coisa à estrutura. A maioria dos sábios entendeu essa proibição como indicação de makruh, enquanto Ibn Hazm a entendeu como haram. Foi dito que o significado dessa proibição é que a sepultura simboliza a destruição, não a permanência. Revestir ou caiar a sepultura faz parte da ornamentação mundana, da qual o falecido não necessita. Alguns dizem que o significado é que a cal é mais inflamável ao fogo; por isso, seu uso foi proibido. Em apoio a esta última análise, é relevante uma declaração de Zayd ibn Arqam. Quando um homem quis cimentar e caiar o túmulo de seu filho, ele lhe disse: “Tomaste uma decisão tola e injusta. Aquilo que o fogo tocou não deve aproximar-se da sepultura.”

Contudo, é permitido revestir a sepultura com terra. Al-Tirmidhi disse: al-Hasan al-Basri e al-Shafi‘i permitiram revestir a sepultura com terra. Jafar ibn Muhammad narrou, de seu pai, que o Mensageiro de Allah elevou a sepultura de seu pai um palmo acima do solo, revestiu-a com terra vermelha trazida do pátio da casa e espalhou seixos sobre ela. O hadith foi narrado por Abu Bakr al-Najjad. Hafiz Ibn Hajar não fez nenhum comentário sobre isso em seu Talkhis.

Assim como os sábios consideraram makruh caiar e revestir os túmulos, também consideraram makruh sepultar o falecido em um caixão ou urna de madeira. Se o solo estiver úmido ou molhado, será permitido construir o túmulo com tijolos ou algo semelhante e sepultar o falecido em uma urna de madeira; isso não será makruh. Al-Mughira narrou de Ibrahim: os antigos sábios preferiam os tijolos crus e não gostavam dos tijolos cozidos. Preferiam usar bambu e não gostavam de usar madeira. Nos hadiths, proibiu-se escrever qualquer coisa em um túmulo. Aparentemente, essa proibição abrange, sem distinção, escrever sobre o túmulo o nome do falecido ou qualquer outra coisa. Depois de mencionar esse hadith, al-Hakim disse: “O hadith é autêntico quanto à sua cadeia de transmissão, mas não se age de acordo com ele, pois os líderes e governantes dos muçulmanos, tanto no Oriente quanto no Ocidente, escrevem em seus túmulos.” Os posteriores herdaram essa prática dos antigos. Adh-Dhahabi comentou que isso é uma inovação. Contudo, eles não sabiam que se tratava de algo proibido. Na escola hanbali, a proibição de escrever sobre os túmulos implica makruh, seja o que se escreva do Alcorão, seja o nome e a identificação do falecido. Ash-Shafi‘i apoia a opinião dos hanbalis e acrescenta que, quando o túmulo pertence a um sábio ou a uma pessoa virtuosa, é recomendável escrever sobre ele seu nome e sua identificação. Os malikis consideram haram escrever o Alcorão sobre o túmulo e makruh escrever o nome do falecido e a data de sua morte. Segundo os hanafis, escrever sobre o túmulo é makruh tahrimi; porém, se houver receio de que o sinal do túmulo desapareça, não será makruh.

Ibn Hazm disse: não será makruh gravar o nome do falecido em uma pedra. Nos hadiths, proibiu-se acrescentar ao túmulo mais terra do que aquela retirada ao escavá-lo. Al-Bayhaqi intitulou o capítulo sobre isso da seguinte forma: “Capítulo sobre não usar no sepultamento mais terra do que a retirada do túmulo, para que ele não fique excessivamente elevado.” Ash-Shawkani e Ash-Shafi‘i também sustentam a mesma opinião. Ash-Shafi‘i disse: é mustahabb não usar no sepultamento mais terra do que aquela retirada do túmulo, para que ele não fique excessivamente elevado. Contudo, não há problema em acrescentar mais terra.

Sepultamento de vários mortos em um único túmulo: a prática seguida pelos antigos sábios até hoje é que cada falecido seja sepultado em um túmulo separado. É makruh sepultar vários mortos em um único túmulo. Porém, se, devido ao grande número de mortos ou à escassez de sepultadores ou de sua capacidade, for difícil sepultar cada falecido em um túmulo separado, será permitido sepultar vários mortos em um único túmulo. Ahmad e At-Tirmidhi narraram que, no dia da batalha de Uhud, os ansar foram até o Mensageiro de Allah e disseram: “Ó Mensageiro de Allah, estamos muito cansados e feridos. Como nos ordenas agora que sepultemos os mártires?” O Mensageiro de Allah disse: “Cavai os túmulos largos e profundos e sepultai dois ou três em cada túmulo.” Eles perguntaram: “Qual deles sepultaremos primeiro?” Ele respondeu: “Aquele que mais recitava o Alcorão.” Abd ar-Razzaq narrou de Wasila ibn al-Asqa: homens e mulheres eram sepultados no mesmo túmulo. Primeiro colocava-se o homem, e atrás dele, a mulher.

Sepultamento de um falecido no mar: em Al-Mughni, diz-se que, quando alguém morre em um navio ou embarcação, segundo o Imam Ahmad, se os ocupantes do navio esperarem encontrar em breve terra firme onde possam sepultá-lo, deverão retê-lo por um ou dois dias, enquanto não houver receio de que o corpo se decomponha. Se não encontrarem terra firme, ele deverá ser lavado, envolto na mortalha, perfumado e submetido à oração fúnebre. Depois, deverá ser amarrado a algum objeto pesado e lançado à água. Essa também é a opinião de Ata e de al-Hasan. Al-Hasan disse: ele deverá ser colocado dentro de um saco e lançado ao mar. O Imam Ash-Shafi‘i disse: deve-se amarrá-lo entre duas tábuas e lançá-lo ao mar, para que as águas o levem até a margem. Assim, o corpo poderá chegar às mãos de pessoas que o sepultarão. E não haverá pecado em lançá-lo ao mar.

Contudo, é preferível colocá-lo em um saco e lançá-lo ao mar, pois assim se alcança o objetivo principal de proteger o corpo da nudez. Lançá-lo amarrado entre duas tábuas equivale a expô-lo à deformação e à humilhação. Pode acontecer que o corpo permaneça nu e desprotegido na margem do mar, ou que caia nas mãos de alguma comunidade de idólatras. Portanto, o que dissemos é o melhor.

Colocar galhos de árvores sobre o túmulo: não há na Shariah nenhuma prescrição para fincar galhos ou colocar flores sobre o túmulo. Contudo, foi narrado por Ibn Abbas em Al-Bukhari e em outras coletâneas de hadith que o Mensageiro de Allah colocou dois

Ao passar ao lado de dois túmulos, ele disse: “Os ocupantes destes dois túmulos estão sendo castigados. E não estão sendo castigados por algo que pareça grande. Um deles não se protegia adequadamente da urina, e o outro praticava a intriga.” Em seguida, fincou nos dois túmulos dois pedaços de galho e disse: “Talvez o castigo de ambos seja aliviado enquanto estes dois galhos não secarem.” A respeito desse hadith, al-Khattabi disse: fincar no túmulo um ramo verde de tamareira e as palavras do Mensageiro de Allah — “talvez o castigo seja aliviado enquanto ele não secar” — significam que isso pode ser considerado uma prática abençoada, decorrente da súplica e da intercessão do Mensageiro de Allah para aliviar o castigo. Parece que o Mensageiro de Allah estabeleceu a umidade daqueles dois galhos como meio de limitar o castigo de ambos, e não porque houvesse nos galhos verdes algo que não existisse nos secos. Em muitos países, as pessoas comuns espalham folhas de tamareira sobre os túmulos de seus mortos. Na minha opinião, essa prática também não tem fundamento racional. Na verdade, a afirmação de al-Khattabi está correta. Os Companheiros do Mensageiro de Allah também a compreenderam dessa maneira, pois, além de Barida al-Aslami, não se sabe de nenhum outro que tenha colocado galhos, folhas ou flores de árvores sobre algum túmulo. Foi narrado em Al-Bukhari que Barida deixou como testamento que fossem colocados dois galhos verdes em seu túmulo. Isso, porém, não pode ser uma prescrição da Shariah, pois, se fosse, não poderia ter permanecido desconhecida de todos os outros Companheiros além de Barida. Hafiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bari: Barida considerava o hadith aplicável a todos os casos, não limitado àqueles dois mortos. Ibn Rashid disse: pelo texto de Al-Bukhari, parece que a colocação de galhos de árvore no túmulo se restringia àqueles dois homens. Por isso, logo após essa narração, ele citou uma declaração de Ibn Umar. Ao ver uma tenda sobre um túmulo, Ibn Umar disse: “Retira-a. São suas próprias obras que lhe darão sombra.” Essa declaração de Ibn Umar mostra que não há benefício algum no que é colocado sobre o túmulo. O benefício está somente nas boas obras.

Regra sobre o sepultamento de uma mulher falecida que traz no ventre um feto vivo: quando uma mulher morre estando grávida de um filho vivo, será wajib abrir-lhe o ventre e retirá-lo, caso haja esperança de salvá-lo com vida. Isso só pode ser determinado por um médico confiável e competente. Quando uma mulher dos Povos do Livro, grávida de um homem muçulmano, morre, deverá ser sepultada em um local separado. Al-Bayhaqi narrou de Wasila ibn al-Asqa que uma mulher cristã morreu enquanto trazia no ventre um filho muçulmano. Ela foi sepultada separadamente, longe tanto do cemitério cristão quanto do cemitério muçulmano. O Imam Ahmad aprovou essa prática, argumentando que, por ser uma mulher não muçulmana, não se pode sepultá-la no cemitério dos muçulmanos.

Pois eles sofrerão por causa de seu castigo. Também não se deve sepultar um muçulmano no cemitério dos incrédulos, pois, devido ao castigo dos habitantes daquele cemitério, o filho muçulmano que ele traz no ventre sofrerá. Ibn Qudamah disse que, para Abu Abdullah, isto é, o Imam Ahmad, sepultar os muçulmanos no cemitério dos muçulmanos é preferível a sepultá-los em casa. Isso é menos prejudicial aos vivos que aos seus herdeiros, é mais semelhante à morada da Outra Vida, proporciona mais oportunidades de súplica pelo morto e desperta maior compaixão por ele. Os Companheiros, os tabi‘in e os que vieram depois deles sempre sepultavam os mortos em cemitérios abertos.

Alguém poderia dizer que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi sepultado em sua própria casa, e que seus dois companheiros, Umar e Abu Bakr, foram sepultados ao seu lado. A resposta é que Aisha disse: o objetivo disso era impedir que seu túmulo fosse transformado em mesquita. — Bukhari. Além disso, o Mensageiro de Allah sepultava seus Companheiros em Jannatul Baqi. E aquilo que ele próprio fez é superior ao que os outros fizeram. Os Companheiros entenderam que ser sepultado em casa era algo exclusivo do Mensageiro de Allah. Também foi narrado um hadith segundo o qual os profetas são sepultados no lugar onde morrem. Ademais, sendo sepultado em casa, ele poderia ser protegido de um número maior de visitantes noturnos, e seu túmulo poderia ser separado dos demais túmulos.

Quando perguntaram ao Imam Ahmad sobre alguém que tivesse deixado em testamento que fosse sepultado em sua casa, ele respondeu: será sepultado no cemitério, ao lado dos demais muçulmanos.

É proibido insultar os mortos

Também não é permitido insultar os mortos nem mencionar as más e imorais ações que praticaram. Bukhari narrou, de Aisha, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não insulteis os mortos, pois eles já chegaram àquilo que enviaram adiante.”

Abu Dawud e Tirmidhi narraram, de Ibn Umar, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Mencionai as boas ações dos vossos mortos e abstende-vos de mencionar as más ações que praticaram.”

Contudo, se entre os muçulmanos havia aqueles que praticavam abertamente pecados ou inovações religiosas, ou que cometiam atos de sedição, corrupção, anarquia ou prejuízo, é permitido mencionar suas más ações quando houver nisso algum benefício ou interesse para os muçulmanos. Por exemplo, pode-se alertar as pessoas contra suas atividades, despertar em seus corações repulsa por suas palavras e incentivá-las a evitar imitá-los. Porém, se não houver benefício algum, não será permitido criticar o morto. Bukhari e Muslim narraram, de Anas, que, certa vez, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passava com um grupo de muçulmanos junto a um cadáver, eles elogiaram o morto. O Mensageiro de Allah disse imediatamente: “Isso se tornou certo.” Depois, continuando o caminho, passaram por outro cadáver, e seus Companheiros o censuraram. Imediatamente, o Mensageiro de Allah disse: “Isso se tornou certo.” Umar perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, o que se tornou certo?” Ele respondeu: “Vós elogiastes um deles, e por isso o Paraíso tornou-se certo para ele; e censurastes o outro, e por isso o Inferno tornou-se certo para ele. Vós sois as testemunhas de Allah na Terra.”

Não apenas é permitido censurar os mortos incrédulos, mas também amaldiçoá-los. Allah disse:

لَعِنَ الَّذِينَ كَفَرُوا مِنْ بَنِي إِسْرَائِيل … تَستَ يَدَا أَبِي لَهَبٍ وَتَب –

“Malditos sejam os que, dentre os Filhos de Israel, cometeram kufr.” Ele também disse: “Que pereçam as duas mãos de Abu Lahab.” A maldição e a condenação do Faraó e de seus semelhantes são bem conhecidas no Livro de Allah. O Alcorão diz: إِلا لَعْنَةُ اللَّهَ عَلَى الظَّالِمِينَ“Atenção: a maldição de Allah recai sobre os injustos.”

Recitar o Alcorão junto ao túmulo

Os juristas divergem quanto à disposição da sharia sobre a recitação do Alcorão junto ao túmulo. Al-Shafi’i e Muhammad consideram-na mustahabb, para que o falecido obtenha a bênção da companhia do Alcorão. O cádi Iyad e al-Qarafi, da escola maliquita, apoiaram a posição do imã al-Shafi’i e de Muhammad. Segundo Ahmad, não há nada de errado nisso. Malik e Abu Hanifa consideraram-na reprovável, alegando que não há nenhuma sunnah, isto é, hadith, que a sustente.

A reabertura do túmulo após o sepultamento

Os sábios concordam que o local onde um muçulmano foi sepultado permanece como waqf, isto é, permanentemente reservado para ele, enquanto houver ali sequer um de seus ossos ou alguma parte de sua carne. Mesmo que reste apenas uma parte dele, o túmulo continuará proibido para todo o seu corpo. (Ou seja, não será permitido sepultar outro morto naquele local nem utilizá-lo para qualquer outra finalidade.) Contudo, se o corpo se deteriorar completamente e se tornar terra, será permitido sepultar outro morto em seu lugar e utilizar o local para plantar mudas, cultivá-lo, construir casas e de outras maneiras. Se, ao cavar o túmulo, forem encontrados ossos do falecido, o escavador não deverá concluir a escavação. Mas, se a escavação já tiver sido concluída e algum osso for encontrado, deverá ser aberto um túmulo ao lado daquele, e será permitido sepultar outro morto junto a ele.

Aquele que foi sepultado sem a oração fúnebre será retirado do túmulo, a oração fúnebre será realizada e ele será sepultado novamente, se ainda não tiver sido coberto com terra. Mas, se já tiver sido coberto com terra, cavar o túmulo e retirar o morto dele será haram, segundo os hanafitas, os shafiitas e uma das narrativas de Ahmad. Nesse caso, a oração fúnebre será realizada enquanto ele permanecer no túmulo, sem retirá-lo. Segundo outra narrativa de Ahmad, o túmulo será aberto, o morto será retirado e a oração fúnebre será realizada. Para os três imãs, é permitido cavar um túmulo por uma finalidade legítima, como quando algum objeto foi deixado acidentalmente dentro dele; quando o morto não foi colocado voltado para a qibla, para então colocá-lo voltado para ela; ou quando alguém foi sepultado sem ghusl, para realizar o ghusl e envolvê-lo adequadamente no kafan. Contudo, se houver receio de que, ao fazê-lo, o corpo se rompa, isso deverá ser abandonado.

Os imãs hanafitas se opuseram a cavar o túmulo e retirar o morto com o objetivo de realizar essas ações. Eles classificaram tais ações como mutilação do cadáver. É bem conhecido que mutilar um cadáver é haram. Ibn Qudama disse: somente no caso de um cadáver que já tenha começado a se decompor é que cavar o túmulo e retirá-lo será considerado mutilação; portanto, o túmulo não deverá ser aberto.

E, se tiver sido enterrado sem mortalha, há duas medidas possíveis: uma é deixá-lo como está. Isso porque o objetivo da mortalha é cobrir o morto, e esse objetivo já foi alcançado ao cobri-lo com terra. A segunda medida é abrir a sepultura, retirar o morto e vesti-lo com uma mortalha. Isso porque amortalhar o morto é obrigatório, assim como o banho ritual.

O imã Ahmad disse: se aquele que cavou a sepultura esquecer nela sua enxada ou pá, pode-se abrir a sepultura para recuperá-la. Ele disse: se uma enxada, dinheiro ou qualquer outra coisa cair na sepultura, pode-se abrir a sepultura para retirar o objeto. Ele disse: se o objeto deixado na sepultura for valioso, a sepultura será aberta. Perguntaram-lhe: e se os responsáveis pelo morto pagarem o valor do objeto? Ele respondeu: se eles lhe derem o que lhe é devido, o que mais ele quer?

O imã Bukhari narrou, com base em Jaber, que, depois de Abdallah ibn Ubayy ter sido colocado em sua sepultura, o Mensageiro foi até ele; em seguida, ordenou que o retirassem da sepultura. Depois, colocou-o sobre seu próprio joelho, cuspiu um pouco de sua saliva sobre ele e vestiu-o com uma túnica. Também foi narrado de Jaber que ele disse: outro homem foi enterrado junto com meu pai. Isso não me agradou. Por isso, retirei-o dali (seis meses depois) e coloquei-o em uma sepultura separada. Bukhari intitulou esses dois hadiths assim: “Pode-se retirar o morto da sepultura por alguma razão?”

Abu Dawud também narrou, com base em Abdallah ibn Amr. Abdallah ibn Amr disse: quando saímos em direção a Taife, ao passarmos perto de uma sepultura, o Mensageiro disse: “Esta é a sepultura de Abu Righal. Ele repelia os ataques enquanto estava dentro deste Santuário Sagrado. Depois, quando saiu, foi atingido pelo mesmo infortúnio em que seu povo havia caído. Por isso, foi enterrado aqui. O sinal disso é que um ramo de ouro foi enterrado com ele. Se abrirdes sua sepultura, encontrá-lo-eis ao seu lado.” Imediatamente, as pessoas saíram apressadas à sua procura e encontraram o ramo de ouro. Al-Khattabi disse: este hadith prova que é permitido abrir as sepulturas dos politeístas quando houver garantia de benefício para os muçulmanos. Nesse caso, a inviolabilidade deles não é igual à dos muçulmanos.

Transferência do morto para fora da sepultura: segundo os shafiitas, o morto só pode ser transferido para Meca, Medina ou Bayt al-Maqdis. Não é permitido transferi-lo para qualquer outro lugar. A permissão excepcional para transferi-lo para essas três cidades foi concedida devido à sua extraordinária virtude. Se alguém recomendar em testamento que seu cadáver seja transferido para algum lugar diferente dessas cidades, o testamento não poderá ser executado. Isso porque, além de atrasar seu enterro, há o risco de o cadáver se decompor.

Da mesma forma, é proibido retirar o cadáver da sepultura sem uma finalidade legítima. Por exemplo, o morto pode ser retirado da sepultura se tiver sido enterrado sem o banho ritual, voltado para uma direção diferente da qibla, ou se a sepultura ficar molhada ou for invadida por água corrente ou de inundação. A obra Minhaj afirma: é proibido retirar o morto ou abrir a sepultura para qualquer outra finalidade, exceto em caso de necessidade inevitável. Exemplos de necessidade inevitável são descobrir, após o enterro, que o morto foi enterrado sem o banho ritual, em terreno tomado à força ou com duas mortalhas roubadas. Também se incluem os casos em que algum objeto ou pertence tenha caído na sepultura, ou em que o morto tenha sido enterrado voltado para uma direção diferente da qibla. A opinião dos maliquitas é que a transferência do morto é permitida quando houver uma necessidade justificável, como evitar o risco de que ele seja levado pelo mar ou devorado por animais selvagens; garantir que seus familiares possam visitá-lo ou que ele seja enterrado junto deles; ou esperar obter bênção no local para onde será transferido, entre outras razões. A transferência é permitida pelas razões mencionadas quando houver certeza de que o cadáver não se romperá nem se deformará e de que seus ossos não serão quebrados.

Segundo os hanafitas, é makruh transferir o morto de uma cidade para outra. É mustahabb enterrar cada morto no cemitério da cidade onde morreu. Antes do enterro, pode-se transferir o morto para uma distância de uma ou duas milhas, pois às vezes o cemitério também fica a uma ou duas milhas de distância. Contudo, é haram transferi-lo depois do enterro sem uma justificativa. Se o filho de uma mulher morrer e for enterrado, na ausência dela, em um lugar diferente da cidade onde ela reside, e ela não conseguir suportar isso e desejar que ele seja transferido, sua exigência não deverá ser atendida. Os hambalitas dizem: é mustahabb enterrar o mártir no próprio lugar onde foi morto.

Ahmad narrou, com base em Jaber, que o Mensageiro disse: “Enterrai os mortos em combate no próprio lugar onde foram mortos.” Ibn Majah narrou que o Mensageiro ordenou que os mortos na batalha de Uhud fossem devolvidos ao lugar onde haviam sido mortos (isto é, que fossem transferidos). Porém, não se deve transferir os demais mortos de uma cidade para outra sem uma razão justificável. Essa é a opinião de Awza’i e de Ibn al-Mundhir. Abdallah ibn Abi Mulayka disse: Abd al-Rahman, filho de Abu Bakr, morreu enquanto estava com o exército. Seu corpo foi levado a Meca e enterrado. Quando Aisha foi a Meca, dirigiu-se à sua sepultura e disse: “Por Deus, se eu estivesse presente junto de ti, terias sido enterrado no lugar onde morreste. E, se eu tivesse estado presente em teu enterro, não teria visitado tua sepultura, pois assim o cadáver sofre relativamente menos transtorno e há relativamente menos risco de deformação.” Contudo, se houver uma finalidade justificável, é permitido transferir o morto. Ahmad disse: não sei de nenhuma objeção à transferência do morto de sua própria cidade para outra. Quando al-Zuhri foi questionado sobre isso, respondeu: Sa’d ibn Abi Waqqas e Sa’id ibn Zayd foram transferidos de Aqeeq para Medina.

Consolar os enlutados

É obrigatório consolar os enlutados e incentivá-los a ter paciência. Deve-se dizer tudo aquilo que lhes traga consolo, alivie sua tristeza e amenize a dor da perda. É mustahabb consolar a pessoa enlutada mesmo que ela seja não muçulmana. Ibn Majah e al-Bayhaqi narraram, com base em Amr ibn Hazm, que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Quando um muçulmano consola seu irmão por uma calamidade que o atingiu, Allah, o Altíssimo, o vestirá, no Dia da Ressurreição, com uma veste da mais elevada honra.” Deve-se observar que é mustahabb oferecer condolências apenas uma vez.

É obrigatório oferecer condolências a todos os membros da família do falecido e a todos os seus parentes, sejam jovens ou idosos, homens ou mulheres. (Os sábios proibiram que um homem ofereça condolências a uma jovem bonita. Somente seus parentes mahram devem consolá-la.) As condolências podem ser oferecidas antes ou depois do enterro e durante três dias. Contudo, se a pessoa enlutada estiver ausente, as condolências podem ser oferecidas mesmo após três dias.
A linguagem das condolências: pode-se usar qualquer expressão que alivie a tristeza e a dor dos enlutados e os incentive a ter paciência. Entretanto, é melhor limitar-se às palavras conhecidas nos hadiths. Al-Bukhari narrou, com base em Usama ibn Zayd — que Allah esteja satisfeito com ele —, que uma filha do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou-lhe uma mensagem: “Meu filho morreu. Portanto, venha até nós.” O Mensageiro de Allah enviou-lhe imediatamente uma mensagem, transmitindo saudações e dizendo:

إِنَّ لِلَّهَ مَا أَحَلَ، وَلَهُ مَا أَعْطَى، وكُلَّ شَيْءٍ عِنْدَهُ بِأَجَلٍ مُسَمًّى ، فَلْتَصْبِرُ، وَلتَعْتَسِبْ .

“O que Allah tomou pertence a Ele, e o que Ele concedeu também pertence a Ele; e tudo tem, junto a Ele, um prazo determinado. Portanto, todos devem ter paciência e estar satisfeitos em todas as circunstâncias.” (O Imam an-Nawawi disse: Este hadith é um dos maiores princípios do Islam. Ele contém muitos importantes princípios fundamentais, regras detalhadas e ensinamentos morais do Islam, além de ensinar a ter paciência diante de calamidades, aflições, doenças, tristeza, sofrimento e acidentes repentinos. O significado da primeira parte é que aquilo que Allah tomou pertence a Ele. Todo o universo pertence a Allah. Portanto, Ele não tomou de vocês algo que não Lhe pertencesse; tomou aquilo que era Sua propriedade e que estava confiado a vocês como um depósito. O significado da segunda parte é que aquilo que Ele lhes concedeu não saiu de Sua propriedade. Ao contrário, pertence a Allah, e Ele pode alterá-lo quando quiser. Todas as coisas foram criadas para um prazo determinado. Tudo, exceto Ele próprio, é perecível. Portanto, não lamentem nem chorem com desespero. Aquele que Ele tomou já teve seu prazo de vida concluído. Quando o prazo de alguém termina, é impossível que haja o menor atraso ou antecipação. Sabendo disso, tenham paciência e aceitem a calamidade com satisfação.)

At-Tabarani, al-Hakim e Ibn Mardawayh também narraram, com base em Muadh ibn Jabal, que um filho de Muadh ibn Jabal morreu. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou-lhe uma mensagem de condolências. Nela, escreveu: “Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. De Muhammad, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, para Muadh ibn Jabal. Que a paz esteja contigo. Não há divindade além de Allah. Eu O louvo. Que Allah te conceda uma recompensa maior e te dê força para ter paciência. E que Ele nos conceda, a ti e a nós, a capacidade de agradecer. Com efeito, nossas vidas, bens e famílias estão entre as dádivas agradáveis concedidas por Allah e entre os depósitos confiados por Ele a nós. Que Allah te conceda alegria e honra em troca disso e te dê uma grande recompensa por tê-lo tomado de ti. Que derrame sobre ti misericórdia, compaixão e orientação. Se desejas, em troca disso, a satisfação de Allah, então tem paciência. Que tua inquietação e teu lamento não destruam tua recompensa. Sabe que o lamento e a tristeza não trazem nenhum morto de volta nem afastam sofrimento algum. E a calamidade que estava destinada inevitavelmente chegou. Que a paz esteja novamente contigo.” (Este hadith é fraco, pois o filho de Muadh morreu dois anos após a morte do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.) O Imam ash-Shafi‘i narrou que, quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — faleceu e as pessoas vieram oferecer condolências, elas ouviram um orador dizer: “O consolo para toda calamidade está somente junto a Allah. Todo falecido deixa um herdeiro, e toda pessoa ou coisa perdida tem um substituto. Portanto, confiai em Allah e esperai d’Ele, pois aquele que, ao ser atingido por uma aflição, manifesta inquietação fica privado da recompensa.” A cadeia de transmissão deste hadith é fraca.

Os sábios dizem: quando um muçulmano oferece condolências a outro muçulmano pela morte de um parente, deve dizer: “Que Allah te conceda uma recompensa maior, te dê o melhor consolo e perdoe o teu falecido.” Ao oferecer condolências a um muçulmano pela morte de um parente não muçulmano, deve dizer: “Que Allah te conceda uma recompensa maior e te dê o melhor consolo.” Ao oferecer condolências a um não muçulmano pela morte de um parente muçulmano, deve dizer: “Que Allah te dê o melhor consolo e perdoe o teu falecido.” E ao oferecer condolências a um não muçulmano pela morte de um parente não muçulmano, deve dizer: “Que Allah te conceda um sucessor.”

Em resposta às condolências, o herdeiro do falecido deve dizer: “Que Allah o recompense.” Segundo o Imam Ahmad, ele pode apertar a mão daquele que oferece as condolências, se quiser, ou não fazê-lo. Se perceber que a pessoa enlutada, impaciente diante de sua calamidade, está rasgando as próprias roupas, ainda assim deve consolá-la. Não deve abandonar seu dever legítimo por causa da conduta ilícita dela. Contudo, se a proibir de manifestar o luto dessa maneira ilícita, isso será melhor.

A Sunnah quanto à expressão de pesar é que, depois de transmitir palavras de luto, condolências e conforto aos parentes e familiares do falecido, todos sigam para seus próprios afazeres. Nenhum dos que expressam pesar ou estão enlutados deve reunir-se para isso e permanecer junto por longo tempo. Essa é a prática e a tradição dos antigos sábios. O imame Ash-Shafi‘i disse em sua obra Al-Umm: “Eu desaprovo a reunião para expressar pesar, mesmo que nela não haja lamentos, pois isso aumenta a angústia e a tristeza do coração, além de desperdiçar trabalho e dinheiro. Ademais, o dano que tinha de ocorrer já ocorreu.” An-Nawawi disse: “O imame Ash-Shafi‘i e seus discípulos afirmaram que realizar reuniões para expressar pesar é makruh; isto é, reunir-se na casa da família do falecido com esse propósito, para que os que expressam pesar possam ir até eles. Ao contrário, cada um deve seguir para seus próprios afazeres. Essa reunião é makruh para todos, homens e mulheres. Se não houver junto dela nenhuma outra prática inovada, será makruh tanzih. Porém, se a ela se juntar algum ato haram e inovado, como frequentemente acontece, transformar-se-á em um ato haram extremamente abominável. Isso constituirá uma inovação. E consta em um hadith autêntico: ‘Toda coisa nova é uma bid‘ah, e toda bid‘ah é desvio.’”

Ahmad e numerosos sábios hanafitas sustentam essa opinião. Contudo, os antigos hanafitas consideram que não há impedimento em realizar uma reunião de luto, por até três dias, em qualquer lugar que não seja uma mesquita, desde que nenhum outro ato proibido esteja associado a ela.

Hoje em dia, algumas pessoas, juntamente com as reuniões de luto, armam grandes tendas, estendem tapetes e gastam muito dinheiro para demonstrar orgulho e ostentação. Tudo isso são práticas inovadas, injustas e bid‘ah, que é obrigatório aos muçulmanos abandonar; envolver-se nelas é haram. Sobretudo nessas reuniões, muitas coisas contrárias aos ensinamentos do Alcorão e da Sunnah são praticadas, e elas são realizadas segundo costumes da época da ignorância, como recitar o Alcorão com uma melodia semelhante à das canções, não observar a etiqueta e o respeito devidos à recitação e animar a reunião, quebrando o silêncio com fumo e outras coisas. E não termina aí. Muitos transgressores ultrapassam os limites e, em vez de se contentarem com as cerimônias dos primeiros dias, voltam a reunir esses atos ilícitos e bid‘ah no quadragésimo dia. Depois, ao completar-se o primeiro ano, realizam o primeiro aniversário da morte e, em seguida, o segundo aniversário. Assim, realizam muitas outras coisas que, além de não serem apoiadas pela consciência e pela razão, não têm qualquer prova a seu favor no Alcorão e na Sunnah.

8. Visitar os túmulos

É mustahabb que os homens visitem os túmulos. Ahmad, Muslim, Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i e Ibn Majah narraram, por meio de Abdullah ibn Buraidah, de seu pai, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Eu havia proibido vocês de visitarem os túmulos. Agora, visitem-nos, pois isso lhes recorda a Outra Vida.” A razão da proibição inicial era que eles haviam recentemente deixado a época da ignorância e ainda não tinham adquirido plenamente o hábito de abandonar palavras injustas e indecentes. Mais tarde, quando ingressaram completamente no Islã, encontraram tranquilidade nele e assimilaram bem suas normas e proibições, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permitiu-lhes visitar os túmulos.

Foi narrado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, visitou o túmulo de sua mãe e chorou tanto que fez chorar todos os que estavam ao redor. Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Pedi ao meu Senhor permissão para pedir perdão por minha mãe, mas não me foi concedida. Depois, pedi-Lhe permissão para visitar o túmulo dela, e dessa vez ela me foi concedida. Portanto, visitem os túmulos, pois eles recordam a Outra Vida.” — Ahmad, Muslim, Abu Dawud, An-Nasa’i e Ibn Majah.

Quando o objetivo da visita é recordar e tirar uma lição, também é permitido visitar os túmulos dos incrédulos, somente para esse fim. Se eles tiverem sido um povo tirânico e Allah os tiver destruído como punição por sua tirania, então é mustahabb chorar ao passar por seus túmulos e pelo local de sua destruição, e buscar refúgio junto a Allah contra o castigo e a ira. Al-Bukhari narrou, por meio de Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que, quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passava com os Companheiros pelas moradias destruídas do povo de Thamud, disse: “Não entrem nas moradas desses castigados, exceto em estado de choro. Se não puderem chorar, não entrem nelas, para que não lhes sobrevenha o que lhes sobreveio.”

Como visitar os túmulos: quando o visitante chegar ao túmulo, deverá ficar de frente para o falecido, saudá-lo e fazer súplica por ele. A esse respeito, são dignos de menção alguns hadiths:

1. Foi narrado por Buraida (que Allah esteja satisfeito com ele): quando iam ao cemitério, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ensinava-lhes que dissessem:

السَّلَامُ عَلَيْكُمْ أَهْلَ الدِّهَارِ مِنَ الْمُؤْمِنِينَ وَالْمُسْلِمِينَ، وَإِنَّا إِن هَاءَ اللَّهُ بِكُمْ لَا حِقُونَ، أَنْتُمْ فَرَطْنَا وَلَعَن لَكُم تبع، وَتَسْأَلُ اللهَ لَنَا وَلَكُمُ الْعَافِية .

“Ó habitantes das moradas dos crentes e muçulmanos, que a paz esteja sobre vós. Se Allah quiser, nós também nos reuniremos convosco. Vós nos precedestes, e nós vos seguiremos. Pedimos a Allah perdão e misericórdia para vós e para nós.”

2. Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passava pelos cemitérios de Medina, parava voltado para eles e dizia:

السلام عَلَيْكُمْ يَا أَهْلَ الْقَبْرِ يَغْفِرُ اللهَ لَنَا وَلَكُمْ أَنتُرْ خَلَقْنَا وَنَحْنُ بِالْآثر .

“Ó habitantes dos túmulos, que a paz esteja sobre vós. Que Allah perdoe a vós e a nós. Vós nos precedestes, e nós vos seguiremos.” — Tirmidhi.

3. Foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): sempre que chegava a noite correspondente ao seu turno, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saía de casa, no fim da noite, em direção ao Jannat al-Baqi. Ao chegar lá, dizia:

السّلامُ عَلَيْكُمْ دَارَ قَوْمٍ مُؤْمِنِينَ، وَأَتَاكُمْ مَا تُوعَدُونَ غَدًا مُؤَهِّلُونَ، وَإِنَّا إِنْ شَاءَ اللَّهُ بِكُمْ لَا حِقُونَ اللَّهُ أَغْفِرْ لِأَهْلِ بَقِيعِ الْفَرْقَدِ .

“Ó habitantes do cemitério dos crentes! Que a paz esteja sobre vós. Aquilo que vos foi prometido chegará em breve, embora com algum atraso. E, se Allah quiser, nós nos juntaremos a vós. Ó Allah, perdoa os habitantes de Baqi.” — Muslim.

4. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Eu perguntei: “Ó Mensageiro de Allah, o que devo dizer aos habitantes das sepulturas?” Ele respondeu: “Dize:

السَّلامُ عَلَى أَهْلِ الدِّيَارِ مِنَ الْمُؤْمِنِينَ وَالمُسْلِمِينَ وَيَرْحَمُ اللهُ الْمُسْتَقْدِمِينَ مِنَّا وَالْمُسْتَاخِرِينَ وَإِنَّا إِن شَاءَ اللَّهُ بِكُمْ لَا حِقُونَ .

“Que a paz esteja sobre os habitantes da morada dos crentes e dos muçulmanos. Que Allah tenha misericórdia de todos os nossos que partiram antes e dos que ficaram para trás. Se Allah quiser, nós nos juntaremos a vós.”

Algumas pessoas ignorantes tocam as sepulturas com as mãos, beijam-nas e dão voltas ao seu redor; tudo isso são práticas inovadoras abomináveis. Elas são ilícitas, e é obrigatório evitá-las, pois tais atos são exclusivos da Caaba — que Allah aumente sua honra. Nenhuma sepultura de profeta ou de santo pode ser comparada à Caaba. A verdadeira bênção está apenas em seguir o exemplo deles, enquanto todo mal está nas práticas inovadoras.

O imame Ibn al-Qayyim disse: Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, visitava as sepulturas, fazia isso com o propósito de suplicar pelos habitantes delas, demonstrar compaixão por eles e pedir perdão em seu favor. Já os politeístas suplicavam aos mortos, juravam por eles e pediam diversas coisas a Allah. Apresentavam aos mortos suas várias reivindicações, pediam-lhes ajuda e expunham diante deles os anseios de seus corações. Isso era completamente contrário à orientação do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Sua orientação consistia no monoteísmo e no desejo do bem para os mortos. A prática dos politeístas, por sua vez, consistia em associar parceiros a Allah, prejudicar a si mesmos e prejudicar os mortos. Quanto à súplica relacionada aos mortos, há três tipos de pessoas: a que suplica pelos mortos; a que suplica por intermédio dos mortos; e a que suplica aos mortos. Somente o primeiro tipo corresponde à prática de súplica dos muçulmanos. Alguns consideram melhor fazer súplicas junto ao morto no cemitério do que fazê-las dentro da mesquita. Contudo, quem refletir sobre a orientação do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e de seus Companheiros compreenderá a diferença entre essas duas práticas.

Visitar as sepulturas pelas mulheres: o imame Malik, alguns sábios hanafitas, uma das opiniões atribuídas ao imame Ahmad e a maioria dos sábios permitiram que as mulheres visitassem as sepulturas. No hadith de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, consta: “Ó Mensageiro de Allah, o que devo dizer a eles?” — isto é, aos habitantes das sepulturas durante a visita. Já foi narrado por Abdullah ibn Abi Mulayka que, certo dia, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, voltou do cemitério. Eu lhe perguntei: “Ó Mãe dos Crentes, de onde vieste?” Ela respondeu: “Da sepultura de meu irmão, Abd al-Rahman ibn Abi Bakr.” Eu disse a Aisha: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não proibiu a visita às sepulturas?” Ela respondeu: “Sim. Primeiro, ele proibiu a visita às sepulturas; depois, ordenou que fossem visitadas novamente.” Al-Hakim e al-Bayhaqi. Al-Dhahabi disse: “O hadith é autêntico.” Em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, é narrado por Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, viu uma mulher junto a uma sepultura. Ela chorava por seu filho falecido. Ele lhe disse: “Teme a Allah e sê paciente.” A mulher respondeu: “Tu não fazes ideia da minha aflição.” Depois que ele partiu, informaram à mulher: “Ora, ele é o Mensageiro de Allah!” Ao ouvir isso, foi como se o temor da morte se tivesse apoderado dela. Imediatamente, ela chegou à porta da casa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Viu que não havia nenhum porteiro à porta. Ao chegar diante dele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, eu não o reconheci.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “A paciência é necessária já no primeiro golpe.” Esse hadith mostra que o Mensageiro de Allah a viu junto à sepultura, mas não fez nenhuma objeção. Portanto, fica comprovado que a visita das mulheres às sepulturas não é ilícita. Além disso, como o objetivo da visita às sepulturas é recordar a Outra Vida, e isso é igualmente necessário tanto para mulheres quanto para homens — não sendo mais necessário para os homens do que para as mulheres, mas igualmente necessário —, a visita das mulheres às sepulturas não é ilícita. Alguns sábios consideram desaconselhável que as mulheres visitem as sepulturas, porque têm menos paciência e mais emoção. Além disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Malditas sejam as mulheres que visitam excessivamente as sepulturas.” — Ahmad, Ibn Majah e al-Tirmidhi. Al-Qurtubi disse: O fato de a maldição mencionada neste hadith se referir às mulheres que visitam excessivamente fica claro pela forma intensiva usada na linguagem do hadithصيغة المبالغة (a forma que expressa intensidade). Talvez a razão disso seja que tal prática prejudica os direitos dos maridos e dos filhos e envolve sair de casa para se exibir. Também pode ser causada pelo estado resultante de possíveis lamentos e prantos junto às sepulturas, entre outras coisas. Alguns dizem: se as mulheres estiverem livres dessas possíveis causas, não há impedimento para que visitem as sepulturas, pois recordar a morte é necessário para todos, homens e mulheres. Ao avaliar a declaração de al-Qurtubi, al-Shawkani disse: Para conciliar os hadiths relacionados a este tema que aparentemente parecem contradizer-se entre si, deve-se apoiar-se na declaração de al-Qurtubi.

Práticas benéficas para o falecido

É permitido enviar recompensa à alma do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz? Sobre isso, há consenso de que o falecido se beneficia, na vida futura, das boas ações das quais ele próprio foi causa durante sua vida — isto é, das ações que realizou diretamente ou das que foram realizadas indiretamente por sua iniciativa ou incentivo. Muslim, Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah narraram, sob a autoridade de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quando o filho de Adão morre, todas as suas ações cessam, exceto três coisas: uma caridade contínua que ele realizou, um conhecimento útil que ensinou e divulgou, ou um filho virtuoso que suplica por ele. Ibn Majah narrou que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Entre as boas obras realizadas pelo falecido que chegam até ele após sua morte estão algum conhecimento que ele ensinou e divulgou, um filho virtuoso que deixou, um livro que deixou para seus herdeiros, uma mesquita que construiu, uma hospedaria que construiu para os viajantes, um reservatório de água que escavou ou uma caridade que ofereceu de seus bens enquanto gozava de saúde e estava vivo. Muslim narrou, sob a autoridade de Jabir ibn Abdullah, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quem estabelecer no Islã uma boa prática receberá sua recompensa e também a recompensa daqueles que agirem seguindo essa prática, sem que a recompensa deles seja diminuída em nada. E quem estabelecer no Islã uma prática má carregará seu pecado e também os pecados daqueles que o seguirem, sem que os pecados deles sejam diminuídos em nada. As boas ações realizadas por outras pessoas, cuja recompensa chega ao falecido, são:

1. Suplicar pelo falecido e pedir perdão por ele: o Deus Altíssimo disse:

وَالَّذِينَ جَاؤُوا مِن بَعْدِهِمْ يَقُولُونَ رَبَّنَا اغْفِرْ لَنَا وَلإِخْوَانِنَا الَّذِينَ سَبَقُونَا بِالْإِيْمَانِ، وَلَا تَجْعَلْ فِي قُلُوْبِنَا عِلَّا لِلَّذِينَ آمَنُوا، رَبَّنَا إِنَّكَ رَؤُوفٌ رَحِيمٌ .

Significado: E os que vieram depois deles dizem: “Senhor nosso, perdoa-nos e perdoa também nossos irmãos que nos precederam na fé, e não coloques em nossos corações qualquer rancor contra os crentes. Senhor nosso, Tu és, certamente, Indulgente, Misericordioso.” (Surata Al-Hashr, versículo 10)

Já foi citada anteriormente esta declaração do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Quando fizerdes a oração fúnebre pelo falecido, suplicai sinceramente por ele.” Também foi mencionada esta súplica do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Ó Allah, perdoa todos nós, os vivos e os mortos.” Os sábios dos primeiros tempos e das gerações posteriores costumavam suplicar pelos mortos, pedir misericórdia para eles e pedir perdão por eles. Ninguém desaprovava esse ato.

2. Dar caridade: o Imam an-Nawawi disse: Há consenso de que a recompensa da caridade chega ao falecido, quer ela seja oferecida por um filho, quer por outra pessoa. Muslim e Ahmad narraram, sob a autoridade de Abu Huraira, que um homem disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Meu pai morreu e deixou alguns bens, mas não fez testamento. Se eu der caridade em seu nome, isso servirá como expiação por seu pecado?” Ele respondeu: “Sim.” Também foi narrado, sob a autoridade de Sa’d ibn Ubada, que, quando sua mãe morreu, ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, minha mãe morreu. Devo dar caridade em seu nome?” Ele respondeu: “Sim.” Sa’d perguntou: “Qual caridade é melhor?” Ele respondeu: “Dar água para beber.” Hasan disse: “Os sistemas de fornecimento de água potável que se veem em Medina pertencem aos descendentes de Sa’d.” — Ahmad, an-Nasa’i e outros. Contudo, não é prescrito pela Sharia dar caridade junto ao túmulo. Também é makruh dar caridade no momento da oração fúnebre.

3. Jejuar: al-Bukhari e Muslim narraram, sob a autoridade de Ibn Abbas, que um homem foi ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, minha mãe morreu e ficou devendo um mês de jejum. Posso compensá-lo em seu nome?” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se tua mãe tivesse uma dívida, tu a pagarias?” Ele respondeu: “Sim.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “É ainda mais necessário quitar a dívida para com Allah.”

4. Peregrinação: al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Ibn Abbas, que uma mulher da tribo de Juhaina foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Minha mãe havia feito o voto de realizar a peregrinação, mas morreu sem realizá-la. Devo realizar a peregrinação em seu nome?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Realiza a peregrinação em seu nome. Não consideraste que, se ela tivesse uma dívida, tu a pagarias? Paga-a, pois quitar a dívida para com Allah é mais necessário.”

5. Oração: Foi narrado por ad-Daraqutni que um homem disse: “Ó Mensageiro de Allah, eu tratava bem meu pai e minha mãe durante a vida deles. Agora, depois da morte deles, como devo continuar tratando-os bem?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Depois da morte, tratá-los bem consiste em fazer orações por eles junto com as tuas orações e jejuar por eles junto com os teus jejuns.”

6. Recitar o Alcorão: Esta é a opinião da maioria dos Ahl as-Sunna. An-Nawawi disse: A opinião mais conhecida na escola de ash-Shafi‘i é que isso não chega ao falecido. A opinião de Ahmad ibn Hanbal e de uma parte dos shafi‘itas é que chega. Depois de recitar o Alcorão, deve-se dizer: “Ó Allah, faze chegar a fulano uma recompensa equivalente àquilo que recitei.” Na obra Al-Mughni, de Ibn Qudamah, consta que Ahmad ibn Hanbal disse: “Todo tipo de boa ação chega ao falecido, pois há numerosos textos da Revelação que o comprovam. Além disso, os muçulmanos se reúnem para isso, recitam o Alcorão e enviam sua recompensa aos seus falecidos. Portanto, isso constitui um consenso (ijma‘).”

Contudo, aqueles que dizem que a recompensa pela recitação do Alcorão chega ao falecido estabelecem como condição que o recitador não aceite qualquer pagamento por sua recitação. Se o recitador receber pagamento por sua recitação, isso se tornará ilícito tanto para quem dá como para quem recebe, e ele não obterá recompensa alguma pela recitação do Alcorão. Ahmad, at-Tabarani e al-Bayhaqi narraram de ‘Abdur-Rahman ibn Shabl que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Recitai o Alcorão e praticai-o. Não vos desligueis do Alcorão nem exagereis a seu respeito. Não busqueis obter, por meio dele, riqueza nem riqueza adicional.”

Ibn al-Qayyim disse: “Os atos de adoração são de dois tipos: financeiros e físicos. O Mensageiro de Allah informou que a recompensa da caridade chega ao falecido antes da recompensa de todos os demais atos de adoração financeiros, e que a recompensa do jejum chega antes da recompensa de todos os demais atos de adoração físicos. Ele também informou que o Hajj, um ato de adoração que reúne os aspectos físico e financeiro, chega ao falecido. Portanto, esses três tipos de adoração estão comprovados tanto pelos textos da Revelação como pela razão.”

7. A intenção é uma condição: É indispensável ter a intenção para qualquer coisa que seja oferecida em favor do falecido. Ibn ‘Aqil disse: Quando se oferece uma oração, um jejum ou uma recitação do Alcorão em nome do falecido, isso chega até ele e lhe traz benefício. A condição, porém, é ter a intenção de fazer chegar a recompensa. Ibn al-Qayyim apoiou essa opinião.

8. O melhor presente para o falecido: Ibn al-Qayyim disse: “O melhor presente para o falecido é aquilo que lhe é mais benéfico, como libertar um escravo em seu nome. Dar caridade em seu nome é melhor do que jejuar em seu nome. A melhor caridade é aquela que supre uma grande necessidade do beneficiário e aquela que é mantida continuamente. Por isso, o Mensageiro de Allah disse: ‘A melhor caridade é providenciar alimento e água.’ Contudo, isso se aplica quando há uma grave escassez de alimento e água e as pessoas normalmente sofrem de sede. Caso contrário, providenciar água junto a rios e canais não será considerada uma caridade melhor do que alimentar alguém faminto. Do mesmo modo, suplicar sinceramente pelo falecido, com humildade e insistência, e pedir perdão por ele é melhor do que dar caridade, como realizar a oração fúnebre e ir ao túmulo para fazer súplicas.”

Em suma, os melhores presentes para o falecido são libertar um escravo em seu nome, dar caridade, pedir perdão por ele, suplicar por ele e realizar o Hajj em seu nome.

Enviar recompensa ao Mensageiro de Allah

Ibn al-Qayyim disse: alguns juristas dos tempos recentes consideram isso recomendável. Outros, longe de considerá-lo recomendável, consideram-no uma inovação, pois os Companheiros não o faziam. Qualquer boa ação que os membros da comunidade do Mensageiro realizem, ele certamente receberá a recompensa por ela. No entanto, nada será diminuído da recompensa daquele que praticou originalmente a ação. Isso porque foi ele quem convocou sua comunidade para todas as boas ações. E todo aquele que convoca para uma boa ação recebe a recompensa por essa ação realizada por seus seguidores, sem que nada seja diminuído da recompensa de quem a praticou. A comunidade muçulmana recebeu do próprio Mensageiro o conhecimento e os exemplos práticos de todas as boas ações. Portanto, ele certamente receberá a recompensa pelas boas ações realizadas por seus seguidores, quer alguém lha dedique, quer não.

Crianças muçulmanas e crianças não muçulmanas

Toda criança muçulmana menor de idade que morre é destinada ao Paraíso. O imame al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Adi ibn Thabit, que ele ouviu que, quando Ibrahim, filho do Mensageiro, morreu, ele disse: “No Paraíso há uma ama de leite para ele.”

Anas ibn Malik narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Se três filhos de um muçulmano morrerem antes de atingir a maioridade, Allah o fará entrar no Paraíso por Sua misericórdia para com esses filhos.” Este hadith prova que, se as crianças por meio das quais seu pai entrará no Paraíso certamente entrarão no Paraíso, pois são a causa da entrada de seu pai no Paraíso. Do mesmo modo, as crianças dos idólatras são como as crianças muçulmanas: elas também entrarão no Paraíso. O imame al-Nawawi disse: “Esta é a opinião correta e a preferida pelos eruditos investigadores.” Isso porque Allah, o Altíssimo, disse:

وَمَا كُنَّا مُعَذِّبِينَ حَتَّى نَبْعَثَ رَسُولًا .

Quando os adultos não são punidos por não terem recebido a mensagem do Islam, não se pode sequer questionar a punição dos menores. Ahmad narrou, sob a autoridade de Khansa bint Muawiya, que sua tia perguntou ao Mensageiro: “Ó Mensageiro de Allah! Quem entrará no Paraíso?” Ele respondeu: “O profeta entrará no Paraíso, o mártir entrará no Paraíso e o recém-nascido entrará no Paraíso.”

Significado: “Não castigo até enviar um mensageiro.” (Bani Isra’il: versículo 15)

9. As perguntas do túmulo

A Ahlus-Sunna wal-Jama‘a (todos os muçulmanos, exceto os xiitas) é unânime em que toda pessoa será interrogada após a morte, quer seja sepultada, quer não. Mesmo que alguém seja devorado por uma fera, queimado até virar cinzas e estas sejam espalhadas ao vento, ou morra afogado no mar, ainda assim será questionado sobre suas ações; se tiver praticado o bem, receberá uma boa recompensa, e, se tiver praticado o mal, sofrerá um mau resultado. Quer se trate de bênção ou castigo, tanto o corpo quanto a alma experimentarão isso conjuntamente. Ibn al-Qayyim disse: a opinião dos antigos sábios muçulmanos e dos grandes imames é que, após a morte, o falecido desfruta de bênção ou sofre castigo, e ambos são experimentados por sua alma e por seu corpo. Depois de deixar o corpo, a alma continua a experimentar castigo ou bênção; às vezes, ela se une ao corpo e, juntamente com ele, experimenta a bênção ou o castigo. Então, quando ocorrer a Ressurreição, as almas retornarão novamente aos corpos, e eles se levantarão de seus túmulos para comparecer diante do Senhor dos mundos. Muçulmanos, judeus e cristãos concordam plenamente quanto ao retorno da alma aos corpos e à ressurreição dos seres humanos.

Al-Marwazī relatou que o imame Ahmad, que Allah tenha misericórdia dele, disse: o castigo da sepultura é uma verdade indiscutível. Somente aquele que é desviado e desvia os outros pode negá-lo. Hanbal disse: perguntei a Ahmad sobre o castigo da sepultura. Ele respondeu: os hadiths a esse respeito são autênticos; cremos neles e os aceitamos. Tudo o que recebemos do Mensageiro, por uma cadeia de transmissão autêntica, nós aceitamos. Se não aceitarmos, rejeitarmos e negarmos o que o Mensageiro trouxe, isso equivalerá, da nossa parte, a rejeitar a ordem de Allah. Allah disse:

وَمَا أَنكُمُ الرَّسُولُ فَخُذُوهُ ، وَمَا نَهْكُمْ عَنْهُ فَالْتَهَوا

Significado: «Aceitai o que o Mensageiro vos der e abstende-vos daquilo que ele vos proibir.» (Surata 59, Al-Hashr: versículo 7)

Perguntei-lhe: o castigo da sepultura também é verdadeiro? Ele respondeu: sim, é verdadeiro. Há castigo na sepultura. Disse ainda: cremos no castigo da sepultura, cremos em Munkar e Nakīr e cremos também que o servo é interrogado na sepultura. Allah diz: «Allah mantém firmes, na vida mundana e na Outra Vida, aqueles que creem na palavra firme.» Como a sepultura faz parte da vida da Outra Vida, o versículo indica que, na sepultura, Ele concederá aos crentes a capacidade e a firmeza para responder corretamente às perguntas.

Ahmad ibn Qāsim disse: perguntei: ó Abu ‘Abdullah (isto é, o imame Ahmad), crês no interrogatório de Munkar e Nakīr? Ele respondeu: Subhān Allah! Certamente creio e também o digo às pessoas. Perguntei: Munkar e Nakīr são exatamente os termos usados, ou falas de dois anjos? Ele respondeu: tornou-se usual chamá-los de Munkar (desconhecido) e Nakīr (não reconhecido).

Hāfiz Ibn Hajar disse em Fath al-Bārī: a opinião de Ahmad ibn Hazm e de Ibn Hurayra é que o interrogatório ocorrerá somente sobre a alma, sem que ela entre no corpo. Contudo, a maioria dos sábios e dos imames é contrária a essa opinião. Eles dizem: a alma é devolvida ao corpo ou a alguma parte dele. Se o interrogatório ocorresse somente sobre a alma, ela não teria qualquer relação com o corpo. Mesmo que o corpo do falecido fosse despedaçado, isso não faria diferença, pois Allah pode devolver a vida a qualquer parte do corpo e interrogá-la. Ele também pode reunir as partes separadas do corpo.

A razão pela qual os que afirmam que o interrogatório ocorre somente sobre a alma dizem isso é que, quer o falecido seja colocado sentado na sepultura ou se faça outra coisa com ele, quer a sepultura seja estreitada ou ampliada, e mesmo que ele não seja sepultado de modo algum — como aquele que é morto por crucifixão —, nada disso afetaria seu interrogatório. Os que sustentam a posição contrária respondem: tudo isso é possível diante do poder ilimitado de Allah. Há exemplos disso até mesmo no mundo natural. Consideremos, por exemplo, uma pessoa adormecida: em seu sonho, ela sente tanto prazer quanto sofrimento, embora a pessoa ao seu lado nada perceba. Além disso, uma pessoa acordada às vezes sente tristeza ou alegria por aquilo que ouve ou pensa, enquanto quem está ao seu lado nada percebe. A confusão surge por se comparar o invisível ao visível e a condição após a morte à condição anterior a ela.

Parece que Allah ocultou e manteve o estado da sepultura fora do alcance dos olhos e dos ouvidos de Seus servos. Ele fez isso como misericórdia e favor para com eles, para que, por medo disso, não se tornassem relutantes em sepultar uns aos outros. Na vida mundana, os membros do corpo não têm capacidade de perceber os acontecimentos e estados da vida futura. Contudo, pela vontade de Allah, pode haver exceções em alguns casos.

Há diversos hadiths em apoio à opinião da maioria dos sábios. O Mensageiro disse, por exemplo: o falecido ouve até o som dos calçados daqueles que participam de seu sepultamento. Disse também: devido à pressão da sepultura, seus ossos das costelas passam de um lado para o outro. Disse ainda: quando é golpeado com um martelo, ouve o seu som. Disse também: golpeiam-no entre as duas orelhas. E disse: os dois anjos fazem-no sentar-se. Essas afirmações mostram que tais ações e reações físicas ocorrem porque há uma reunificação da alma com o corpo na sepultura.

Citarei alguns hadiths autênticos a esse respeito:

1. Muslim relatou, através de Zayd ibn Thābit, que certo dia o Mensageiro de Allah estava montado em sua mula, no jardim de Banū Najjār, e nós estávamos com ele. De repente, a mula se assustou e quase o derrubou. Descobriu-se que havia ali seis, cinco ou doze sepulturas. O Mensageiro perguntou: quem conhece os ocupantes dessas sepulturas? Um homem respondeu: eu os conheço. Ele perguntou: quando morreram? O homem respondeu: morreram feridos em diversos acontecimentos. Ele disse: se não fosse o receio de que, ao saberdes que esta comunidade sofre dentro de suas sepulturas, deixaríeis de sepultar os mortos, eu pediria a Allah que vos fizesse ouvir o som do castigo da sepultura que eu ouço. Então ele se aproximou de nós e disse: buscai refúgio em Allah contra o castigo do Inferno. Todos os presentes disseram: buscamos refúgio em Allah contra o castigo do Inferno. O Mensageiro de Allah disse: buscai refúgio em Allah contra o castigo da sepultura. Todos disseram: buscamos refúgio em Allah contra o castigo da sepultura. O Mensageiro de Allah disse: buscai refúgio em Allah contra todas as provações e calamidades, ocultas e manifestas. Todos disseram: buscamos refúgio em Allah contra todas as provações e calamidades, ocultas e manifestas. Ele disse: buscai refúgio em Allah contra a tentação do Dajjal. Eles disseram: buscamos refúgio em Allah contra a tentação do Dajjal.

2. Al-Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Qatada, e depois de Anas, que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: Quando o servo é colocado no túmulo e seus familiares se afastam, ele ouve o som dos seus calçados. Então, dois anjos aproximam-se dele, fazem-no sentar-se e perguntam-lhe: “O que dizias sobre este homem, Muhammad ﷺ?” O crente responde: “Testemunho que ele é o servo e o Mensageiro de Allah.” Então os dois anjos dizem: “Olha, ali está o teu lugar no Inferno. Allah o substituiu por um lugar para ti no Paraíso.” Assim, ele vê os dois lugares. Quanto ao incrédulo e ao hipócrita, perguntam-lhe: “O que dizias sobre este homem?” Ele responde: “Não sei de nada. Eu apenas dizia o que as pessoas diziam.” Então os dois anjos dizem: “Tu não sabias, nem perguntaste àqueles que sabiam.” Em seguida, ele é golpeado com numerosos martelos de ferro. Ele grita tão alto que todos ao seu redor, exceto os gênios e os seres humanos, ouvem os seus gritos.

3. Al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i e Ibn Majah narraram, por intermédio de Al-Bara’ ibn ‘Azib: Quando um muçulmano é colocado no túmulo e testemunha que não há divindade além de Allah e que Muhammad ﷺ é o Seu Mensageiro, isso é a concretização do seguinte versículo do Alcorão: “Allah firma os que creem na palavra firme, na vida mundana e na Outra Vida.” Segundo outra narração, este versículo foi revelado a respeito do tormento do túmulo. É-lhe perguntado: “Quem é o teu Senhor?” Ele responde: “Allah é o meu Senhor e Muhammad é o meu Profeta.” É isto que o versículo afirma:

يثبت الله الَّذِينَ آمَنُوا بِالْقَوْلِ الثَّابِسِ فِي الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَفِي الآخِرَةِ .

Significado: “Allah firma, na vida mundana e na Outra Vida, aqueles que creem na palavra firme (a kalima tayyiba).”

4. Está registrado no Musnad de Ahmad e no Sahih de Abu Hatim que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: Quando o morto é colocado no túmulo, ele ouve o som dos calçados dos seus familiares enquanto eles se afastam. Se for crente, sua oração permanece junto à sua cabeça; o jejum, ao seu lado direito; o zakat, ao seu lado esquerdo; e a caridade, os presentes dados aos familiares, a generosidade e as boas ações permanecem junto aos seus pés. Depois, quando alguém tenta aproximar-se pela sua cabeça — isto é, o anjo do tormento — a oração diz: “Não há entrada pelo meu lado.” Quando tenta entrar pelo lado direito, o jejum diz: “Não podes entrar pelo meu lado.” Quando tenta entrar pelo lado esquerdo, o zakat diz: “Não há possibilidade de entrada pelo meu lado.” Quando tenta entrar pelos pés, a caridade, as boas ações, a generosidade, os presentes dados aos familiares e outras obras virtuosas dizem: “Não podes entrar pelo meu lado.” Em seguida, é dito ao morto: “Senta-te.” Ele se senta. Então, o sol está diante dele e prestes a pôr-se. É-lhe perguntado: “Este homem estava entre vós. O que dizias a respeito dele? Que testemunho dás sobre ele?” Ele responde: “Deixai-me rezar.” Os dois anjos dizem: “Tu rezarás depois. Responde ao que estamos a perguntar. Este homem estava entre vós. O que dizes a respeito dele e que testemunho dás?” Ele responde: “Ele é Muhammad ﷺ. Testemunho que trouxe a verdade da parte de Allah.” É-lhe dito: “Foi sobre isso que viveste, sobre isso morreste e, se Allah quiser, sobre isso serás ressuscitado.” Então, abre-se para ele uma porta em direção ao Paraíso. É-lhe dito: “Este é o teu lar, e nele estão as bênçãos que Allah preparou para ti.” Assim, sua alegria e seu orgulho aumentam enormemente. Depois, seu túmulo é ampliado até setenta côvados e iluminado. Em seguida, o corpo é restaurado à sua condição anterior, e sua alma é introduzida no corpo de uma ave pura suspensa nas árvores do Paraíso. É isto que Allah disse:

يثبت الله الَّذِينَ آمَنُوا بِالْقَوْلِ الثَّابِسِ فِي الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَفِي الْآخِرَةِ .

Significado: “Allah firma, na vida mundana e na Outra Vida, aqueles que creem na palavra firme.” (Surata Ibrahim: versículo 27)

Quanto ao incrédulo, Ele menciona exatamente o relato oposto e, ao final, diz: Então, o seu túmulo se estreita para ele, de modo que as costelas de um lado do morto se deslocam para o outro lado. Este é o sustento estreito que Allah mencionou:

فَإِن لَهُ مَعِيشَةً ضَنكًا وَنَعْشَرهُ، يَوْمَ الْقِيَامَةِ أَعْمَى .

Isto é: para ele está destinado um modo de vida estreito, e Nós o ressuscitaremos cego no Dia da Ressurreição.” (Surata Ta-Ha: versículo 124)

5. Está registrado no Sahih Bukhari, narrado por Samura ibn Jundub: sempre que o Mensageiro de Allah realizava uma oração, ele se voltava para nós e sentava-se de frente para nós após a oração. Então dizia: “Algum de vocês teve um sonho esta noite?” Se alguém tivesse visto um sonho, contava-o. Então o Mensageiro dizia: “Masha’Allah” (Allah mostrou o que quis). Certa vez, ele nos perguntou: “Algum de vocês teve um sonho?” Respondemos: “Não.” Ele disse: “Mas eu tive um sonho hoje. Dois homens vieram até mim, seguraram minhas mãos e levaram-me à Terra Sagrada. Vi um homem sentado e outro de pé, segurando uma vara de ferro curvada. Ele introduzia essa vara de ferro na mandíbula do homem sentado e rasgava-a até a nuca. Depois fazia o mesmo com a outra mandíbula. Nesse momento, a primeira mandíbula se recompunha, e ele repetia o procedimento como antes.” Perguntei: “O que é isso?” Eles disseram: “Siga em frente.” Então prosseguiram, até que chegamos a um homem deitado de costas. Havia um homem de pé junto à sua cabeça, segurando uma grande pedra na mão. Com ela, esmagava-lhe a cabeça. Assim que o atingia, a pedra rolava para longe. Então o homem corria para buscá-la. Enquanto ele voltava com a pedra, a cabeça do homem atingido se recompunha. Depois ele se aproximava e o golpeava novamente. Perguntei: “O que é isso?” Ambos disseram: “Siga em frente.” Prosseguimos, até que chegamos a uma fornalha cuja parte superior era estreita e a inferior, larga. Havia fogo ardendo por baixo. Dentro da fornalha, vimos homens e mulheres nus. As chamas subiam de baixo até eles. Quando as chamas chegavam perto deles, tentavam subir, a ponto de quase sair da fornalha. Quando o fogo diminuía, voltavam ao lugar anterior. Perguntei: “O que é isso?” Eles disseram: “Avance.” Prosseguimos, até chegarmos à margem de um rio de sangue. Havia um homem flutuando no rio e outro no meio dele, diante de si uma pedra. O homem que flutuava no rio avançava. Sempre que tentava sair do rio, o outro lançava uma pedra contra seu rosto e fazia-o retornar ao lugar onde estava. Cada vez que ele estava prestes a sair, o outro atirava a pedra contra seu rosto, fazendo-o voltar ao lugar anterior. Então perguntei: “O que é isso?” Ambos disseram: “Avance.” Prosseguimos, até chegarmos a um jardim verde. Ali havia uma árvore enorme. Ao pé dela estava um ancião, rodeado por muitas crianças. Perto da árvore havia um homem, diante de quem havia um fogo que ele mantinha aceso. Ambos subiram comigo na árvore e levaram-me a uma casa mais bela do que qualquer outra que eu já tivesse visto. Nela havia muitos jovens e anciãos. Depois subiram comigo ainda mais alto e levaram-me a uma casa ainda mais bela e melhor. Eu disse: “Hoje vocês dois me fizeram percorrer muitos lugares. Agora expliquem-me o significado de tudo o que vi.” Ambos disseram: “Sim. Aquele que você viu tendo a mandíbula rasgada era um mentiroso, acostumado a espalhar notícias falsas. Depois, essas notícias eram transmitidas de pessoa em pessoa até se espalharem por todos os horizontes. Por isso, esse tratamento continuará com ele até o Dia da Ressurreição. E aquele cuja cabeça você viu sendo esmagada era um homem a quem Allah concedera o conhecimento do Alcorão. Porém, passava a noite dormindo sem estudar o Alcorão e, durante o dia, não agia de acordo com ele. Assim será tratado até o Dia da Ressurreição. Os que você viu dentro da fornalha eram todos adúlteros. Aquele que você viu no rio de sangue era um usurário. O ancião que você viu ao pé da árvore era Ibrahim. As crianças ao seu redor eram os filhos das pessoas. E o homem que mantinha o fogo aceso era Malik, o guardião do Inferno. A primeira casa era a casa dos muçulmanos comuns, e esta casa era a casa dos mártires. Eu sou Jibril, e este é Mika’il. Agora, levante a cabeça.” Levantei a cabeça e vi um palácio semelhante a uma nuvem. Ambos disseram: “Aquele palácio é a sua morada.” Eu disse: “Deixem-me entrar em minha casa.” Eles disseram: “Ainda lhe resta parte da vida; você ainda não a completou. Se tivesse vindo depois de completar sua vida, poderia entrar em sua morada.”

Ibn al-Qayyim disse: Esta é a descrição do castigo no Barzakh (o período entre a morte e a Ressurreição), pois os sonhos dos profetas correspondem à realidade.

6. At-Tahawi narrou, sob a autoridade de Ibn Mas‘ud, que o Mensageiro de Allah disse: “Foi ordenado que um servo de Allah recebesse cem golpes sobre seu túmulo. O homem continuou a suplicar e implorar a Allah que reduzisse esse castigo, até que restou apenas um golpe. Então seu túmulo se encheu de fogo sobre ele. Depois que esse castigo foi retirado, ele recuperou a consciência e disse aos anjos: ‘Por que me açoitaram?’ Eles responderam: ‘Você realizou uma oração sem purificação e viu uma pessoa sendo injustiçada, mas não a ajudou.’”

7. An-Nasa’i e Muslim narraram, sob a autoridade de Anas, que o Mensageiro de Allah ouviu um som e perguntou: “Quando essa pessoa morreu?” As pessoas responderam: “Morreu na época da ignorância.” Ao ouvir isso, ele ficou satisfeito e disse: “Se não fosse pelo fato de que vocês não enterrariam uns aos outros, eu suplicaria para que Allah os fizesse ouvir o castigo do túmulo.”

8. Bukhari, Muslim e An-Nasa’i narraram, sob a autoridade de Ibn Umar, que o Mensageiro de Allah disse: “Este é aquele por quem o Trono estremeceu, as portas dos céus foram abertas e setenta mil anjos estiveram presentes diante dele. O túmulo o apertou e depois o soltou.”

10. Onde fica a alma?

Ibn al-Qayyim compôs um capítulo. Nesse capítulo, mencionou as opiniões dos eruditos sobre onde o espírito ou alma permanece. Em seguida, depois de mencionar a opinião que deve ser preferida, disse: Diz-se que há uma grande diferença entre os lugares onde os espíritos permanecem no Barzakh.

Alguns espíritos permanecerão no mais elevado nível de Illiyyin, junto aos espíritos das pessoas de mais alta dignidade. Esses são os espíritos dos profetas. Os lugares onde os profetas permanecem também diferem uns dos outros, como o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) testemunhou na noite da Ascensão.

Alguns espíritos estarão entre as aves verdes que percorrem livremente o Paraíso. Parte desses espíritos pertence aos mártires. Além disso, há alguns mártires cujo espírito não será autorizado a entrar no Paraíso por causa de suas dívidas. Conforme foi narrado no Musnad de Ahmad por Muhammad ibn Abdullah ibn Jahsh: um homem perguntou ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): «Ó Mensageiro de Allah, se eu for morto no caminho de Allah, qual será a minha recompensa?» Ele respondeu: «O Paraíso.» Quando o homem se preparava para partir, ele disse: «Mas não se tiver dívidas.» Jibril acaba de me dizer isso secretamente ao ouvido.

Alguns mártires serão retidos sobre o portão do Paraíso. Conforme foi relatado em um hadith, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) informou ter visto uma cena semelhante de retenção.

Alguns mártires também serão retidos no túmulo. Certa vez, um homem roubou uma capa valiosa e, depois, foi morto. As pessoas disseram: «Parabéns a ele! Ele é um dos habitantes do Paraíso.» O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «Por Allah, a capa que ele roubou arderá como fogo em seu túmulo.» Alguns mártires terão sua morada junto ao portão do Paraíso. Conforme consta no hadith narrado por Ibn Abbas: «Os mártires estarão dentro de uma cúpula verde, à margem de um rio, junto ao portão do Paraíso. Sua comida virá do Paraíso pela manhã e à tarde.» — Ahmad. O caso de Ja‘far ibn Abi Talib será exatamente o oposto. Pois Allah lhe concederá duas asas em lugar de suas duas mãos, e com elas ele voará pelo Paraíso para onde quiser. (As duas mãos de Ja‘far foram cortadas na batalha de Mu’ta, e depois ele alcançou o martírio.)

Alguns espíritos ficarão retidos na própria Terra. Por isso, não poderão alcançar o lugar onde permanecem os anjos mais elevados, pois esses espíritos eram inferiores e voltados para o mundo. Um espírito voltado para o mundo não pode encontrar-se com um espírito voltado para o céu. Do mesmo modo, eles também não podem encontrar-se na vida terrena. O espírito que, durante a vida terrena, não consegue conhecer, amar, recordar, agradar-se de seu Senhor nem alcançar Sua proximidade é um espírito inferior e voltado para o mundo. Depois de separar-se do corpo, ele permanece na Terra. Quanto ao espírito elevado, que durante a vida mundana se dedica a alcançar o amor, a lembrança, a proximidade e a satisfação de Allah, depois de separar-se do corpo permanece junto aos espíritos elevados semelhantes a ele. Portanto, no Barzakh e na Outra Vida, cada pessoa estará com aquele a quem ama. Allah estabelecerá, no Barzakh e no Dia da Ressurreição, pares entre os espíritos, e unirá o espírito do crente aos espíritos puros semelhantes a ele. Depois de separar-se do corpo, o espírito se unirá aos espíritos de sua espécie, semelhantes a irmãos e dotados de obras semelhantes.

Alguns espíritos estarão no forno dos adúlteros; alguns nadarão em um rio de sangue e serão atingidos por pedras. Assim, a morada dos espíritos não será a mesma, sejam eles bons ou maus. A morada de alguns estará no nível mais elevado de Illiyyin, enquanto outros espíritos serão voltados para o mundo e inferiores, incapazes de elevar-se acima da Terra.

Ao estudar os livros de hadith sobre esse assunto e refletir profundamente sobre ele, encontrar-se-ão provas irrefutáveis em favor do que foi mencionado, e não parecerá haver contradição entre esses hadiths. Isso porque todos são autênticos e corroboram uns aos outros. Contudo, é necessário compreender e conhecer o espírito, bem como conhecer suas regras. Também é necessário saber que a condição do corpo e a condição do espírito são completamente distintas. Embora o espírito esteja no Paraíso, ele também está no céu, permanece junto ao túmulo e está ligado ao corpo que se encontra dentro do túmulo. Ele se move, desloca-se, sobe e desce com mais rapidez do que todas as outras coisas. Alguns espíritos se movem livre e desimpedidamente, enquanto outros permanecem retidos. Alguns espíritos são elevados e outros são inferiores. Depois de separar-se do corpo, o espírito adoece e também permanece saudável; desfruta de alegria e de bênçãos. Por outro lado, depois da morte, pode sofrer dores e aflições muito maiores do que durante a vida. Ali, experimenta retenção, angústia, punição, doença e tristeza; e também desfruta de alegria, felicidade, abundância e conforto. Há grande diferença entre a permanência do espírito no corpo atual e sua permanência no corpo enquanto estava no ventre materno, e entre a separação do espírito do corpo atual e sua separação do corpo após sair do ventre materno, embora exteriormente haja semelhança entre essas situações.

Os quatro mundos do espírito

Um. O ventre materno. Suas características são a limitação, a estreiteza, a angústia e três camadas de escuridão.

Dois. O lugar onde nasceu, praticou boas e más ações e criou as causas de sua felicidade e infelicidade. (Ou seja, a vida terrena.)

Três. O Barzakh. Ele é mais amplo e espaçoso do que a morada terrena.

Quatro. A morada eterna da Vida Futura, que inclui o Paraíso e o Inferno. Depois dela, nenhuma outra morada será criada. Allah transfere o espírito sucessivamente por esses lugares e, por fim, conduz-o à morada eterna que lhe corresponde, para a qual foi criado e para cujas obras apropriadas recebeu capacidade.

Para o espírito ou alma, há uma posição distinta reservada em cada uma dessas moradas. Portanto, infinitos louvores sejam para Allah, o Criador, Sustentador, Doador da vida, Causador da morte, Doador da felicidade e Causador da infelicidade do espírito. Ele estabeleceu diferenças entre os graus de sua felicidade e infelicidade, bem como entre os níveis de seu conhecimento, ações, força e caráter. Por isso, quem conhecer corretamente a própria alma certamente testemunhará que não há nenhuma divindade além de Allah. Ele é Único, não tem associado; a soberania inteira pertence a Ele, todos os louvores pertencem a Ele, todo o bem está em Suas mãos, todas as coisas retornam a Ele, todo o poder pertence a Ele, toda a autoridade pertence a Ele, toda a honra e dignidade pertencem a Ele, toda a sabedoria pertence a Ele, e a perfeição absoluta em todos os aspectos pertence exclusivamente a Ele. Quem conhecer a própria alma acreditará nos profetas e mensageiros e reconhecerá que foram os profetas que trouxeram a grande verdade, testemunhada pela razão e pela ordem do universo. E tudo o que se opõe a essa grande verdade é falso.

Sexto capítulo: Zikr

Zikr

Declarar com a língua e o coração a glória e a pureza de Allah, louvá-Lo, recordar Seus atributos de perfeição e compreender e mencionar Sua grandeza e beleza chama-se dhikr.

1. Allah, o Altíssimo, ordenou que se faça muito dhikr. Ele disse:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا اذْكُرُوا اللَّهَ ذِكْرًا كَثِيرًا، وَسَبِّحُوهُ بُكْرَةً وَأَمِيلاً .

Significado: Ó crentes, recordai muito Allah e proclamai Sua glória pela manhã e ao entardecer.”

2. Allah, o Altíssimo, também informou que quem O recorda é por Ele recordado. Ele disse:فَاذْكُرُونِی اذكركز “Recordai-Me, e Eu vos recordarei.”
No hadith qudsi narrado por Bukhari e Muslim, Allah diz: Sou para Meu servo conforme ele pensa de Mim [isto é, se ele crê que Allah aceitará sua súplica e suplica com essa convicção, Ele aceita sua súplica. E se ele crê que Ele o perdoará e pede perdão, Ele o perdoa. E assim por diante].

E quando ele Me recorda, Eu estou com ele. Se ele Me recorda em seu íntimo, Eu também o recordo em Meu íntimo. E se ele Me recorda diante de um grupo, Eu o recordo diante de um grupo melhor que o dele. Se ele se aproxima de Mim um palmo, Eu Me aproximo dele um côvado. Se ele se aproxima de Mim um côvado, Eu Me aproximo dele uma braça. Se ele vem a Mim caminhando, Eu vou até ele correndo [isto é, quanto mais o servo se aproxima de Allah, mais rapidamente Allah lhe estende toda espécie de bondade e benefício].

3. Allah descreveu aqueles que O recordam constantemente como devotados e avançados. O Mensageiro de Allah disse: “Os devotados são os que tomam a dianteira.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, a quem te referes por ‘devotados’?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Os homens e as mulheres que recordam muito Allah.” Muslim.

4. Na verdade, os que fazem dhikr são muçulmanos vivos e vigorosos. Pois foi narrado por Abu Musa que o Mensageiro de Allah disse: “Aquele que recorda Allah e aquele que não O recorda são, respectivamente, como um vivo e um morto.” Bukhari.

5. O dhikr ou lembrança de Allah é a melhor de todas as boas ações. Foi garantido que aquele a quem foi concedida a oportunidade de fazer dhikr será acolhido por Allah como amigo. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permanecia constantemente ocupado com o dhikr de Allah. At-Tirmidhi, Ahmad e Al-Hakim relatam que um homem disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “As normas do Islã parecem-me numerosas. Informe-me sobre uma norma à qual eu possa me apegar firmemente.” Ele lhe disse: “Que a tua língua permaneça sempre ocupada com o dhikr de Allah.” Ele disse aos seus companheiros: “Quereis que vos indique uma ação que é melhor do que todas as vossas ações, mais pura diante do vosso Rei Allah, mais elevadora da vossa posição, mais benéfica para vós do que dar ouro e prata e melhor para vós do que enfrentar o inimigo, matá-lo e serdes mortos?” Eles disseram: “Ó Mensageiro de Allah, dizei-nos.” Ele disse: “É o dhikr de Allah.”

6. O dhikr de Allah é o caminho para a salvação do castigo. Foi relatado por Mu‘adh, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Nenhuma pessoa jamais praticou uma ação mais capaz de salvá-la do castigo de Allah do que o dhikr de Allah.” Ahmad.

7. Ahmad também relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Os dhikrs com os quais proclamais a grandeza e a excelência de Allah — Lā ilāha illā Allāh, Allāhu akbar, al-hamdu lillāh e semelhantes — continuarão circulando, inclinando-se e balançando ao redor do Trono. E continuarão lembrando o praticante do dhikr, emitindo um zumbido como o das abelhas. Não gostaríeis de ter, naquele dia, algo que vos lembre?”

A quantidade de dhikr

Allah, o Altíssimo, ordenou que se faça muito dhikr. Depois de qualificar como inteligentes aqueles que aprendem observando a criação de Allah, Ele os descreveu da seguinte maneira:

الَّذِينَ يَذْكُرُونَ اللَّهَ قِيَامًا وَقُعُودًا وَعَلَى جُنُوبِهِمْ، وَالذَّاكِرِينَ اللَّهَ كَثِيرًا وَالذَّاكِرَاتِ أَعَنَّ اللَّهَ لَهُ مَغْفِرَةً وَأَجْرًا عَظِيمًا .

“Aqueles que fazem dhikr de Allah em pé, sentados e deitados.” “Quanto aos homens e mulheres que fazem muito dhikr de Allah, Allah preparou para eles perdão e uma magnífica recompensa.” Mujahid disse: ninguém pode ser considerado homem ou mulher que faz muito dhikr de Allah sem fazer dhikr em todas as situações: deitado, sentado e em pé.

Quando Ibn as-Salah foi questionado sobre quanto dhikr é necessário para que alguém seja considerado alguém que faz muito dhikr, respondeu: basta praticar regularmente, pela manhã e à tarde, e em diversos momentos do dia e da noite e em diferentes situações, os dhikrs e as súplicas autenticamente comprovados e transmitidos. Ao explicar os versículos mencionados, Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Allah estabeleceu um limite para cada ato de adoração que tornou obrigatório aos Seus servos e concedeu-lhes dispensa dele em tempos de desculpa e dificuldade. Quanto àquele que faz dhikr, há uma exceção. Allah não estabeleceu para o dhikr um limite ao qual, uma vez alcançado, ele deva cessar, nem concedeu dispensa do dhikr a ninguém, exceto àquele que seja incapaz de fazê-lo. Pelo contrário, foi ordenado fazer dhikr deitado, sentado e em pé; de dia e de noite; na água e em terra; na pátria e no estrangeiro; na pobreza e na prosperidade; na doença e na saúde; em segredo e publicamente — em suma, em todas as situações.

Todo esforço para cumprir os mandamentos de Allah está incluído no dhikr de Allah: Sa‘id ibn Jubayr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Todo aquele que se dedica à adoração de Allah e se empenha em cumprir Seus mandamentos é alguém que pratica o dhikr de Allah. Alguns dos antigos sábios quiseram especificar essa expressão, que é ampla. Por isso, denominaram dhikr algumas formas específicas de recordação. Entre eles estava ‘Ata’. Ele disse que todas as reuniões e assembleias nas quais se ensinam e se explicam os métodos prescritos pela sharia para o lícito e o ilícito, as transações de compra e venda, a oração e o jejum, o hajj, o casamento e o divórcio, entre outros assuntos, são consideradas assembleias de dhikr. Al-Qurtubi disse: A assembleia de dhikr é aquela em que se dissemina o conhecimento do Islã e se recordam os ensinamentos islâmicos. Isto é, são as reuniões e assembleias nas quais se discutem, praticam e estudam a Palavra de Allah e a Sunna do Mensageiro; nas quais se relatam as vidas dos antigos justos e virtuosos; e nas quais se divulgam as palavras daqueles antigos imames dedicados, livres de toda espécie de inovação religiosa, costumes inventados, más intenções e cobiça.

A etiqueta e o método do dhikr: O objetivo do dhikr é purificar o coração, aperfeiçoar os impulsos e livrar a consciência da corrupção. Foi aludindo a isso que Allah disse:

واقي الصَّلاةَ إِنَّ الصَّلاةَ تَنْهَى عَنِ الْفَحْشَاءِ وَالْمُنْكَرِ، وَلَذِكْرُ اللَّهِ أَكْبَرُ.

“Estabelece a oração. Certamente, a oração impede a obscenidade e o mal. E o dhikr de Allah é o maior.” (Surata Al-‘Ankabut: versículo 45)
Isto é, no que diz respeito a impedir a obscenidade e o mal, o dhikr de Allah é superior à oração. Isso porque, quando o coração e a mente daquele que pratica o dhikr de Allah se abrem para Allah e sua língua proclama a Sua lembrança, Allah o auxilia com a Sua luz. Consequentemente, sua fé aumenta muitas vezes e seu coração passa a confiar plenamente na verdade. Allah disse:

الَّذِينَ آمَنُوا وَتَطْمَنِي قُلُوبَم بذكر الله، أَلَا بِذِكْرِ اللَّهِ تَطْمَئِنُّ الْقُلُوبُ .

“Aqueles que creem e cujos corações encontram tranquilidade na lembrança de Allah — são esses servos obedientes que Allah guia até Ele. Sabei que é na lembrança de Allah que os corações encontram tranquilidade.” (Surata Ar-Ra‘d: versículo 28)

E, quando o coração se convence da verdade e encontra tranquilidade, prepara-se para elevar-se a estágios ainda mais altos e esforça-se para avançar em Seu caminho. Então, nenhuma tentação da natureza nem qualquer apelo dos desejos mundanos consegue impedi-lo de seguir adiante. É por isso que se atribuiu extrema importância ao dhikr, que ocupa um lugar tão importante na vida humana. Não é razoável pensar que a simples pronúncia de uma palavra com a língua possa produzir um resultado tão amplo. Pois o benefício da pronúncia é muito pequeno enquanto o coração não a apoiar. Por isso, Allah orientou sobre que tipo de etiqueta, costume e método devem ser seguidos durante o dhikr. Ele disse:

وَاذْكُرْ رَبُّكَ فِي نَفْسِكَ تَضَرُّعًا وَخِيفَةً وَدُونَ الْعَمْرِ مِنَ الْقَوْلِ بِالْغُدُوِّ وَالْأَصَالِ وَلَا تَكُن مِّنَ الغفلين .

“Lembra-te do teu Senhor em teu íntimo, com súplica e humildade, com temor e em voz baixa, pela manhã e ao entardecer. E não sejas negligente.” (Surata Al-A‘raf: versículo 205)

Este versículo mostra que é recomendável fazer dhikr em segredo e em voz baixa. Certa vez, durante uma viagem, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu um grupo de pessoas fazendo súplicas em voz alta e disse: “Ó gente, sede bondosos para convosco mesmos, pois não estais invocando um Senhor surdo ou ausente. Aquele a quem invocais é Oniouvinte e está próximo. Ele está mais próximo de vós do que o pescoço de vossa montaria.” Do mesmo modo, sabe-se que se deve fazer dhikr com grande entusiasmo e temor. Um dos adab do dhikr é que o corpo e as roupas daquele que o pratica estejam puros e perfumados, pois isso torna o coração mais alegre e ativo. Também é recomendável voltar-se para a qibla durante o dhikr, pois a ação realizada voltado para a qibla é a melhor das ações.

É recomendável participar das reuniões de dhikr. Eis alguns hadiths a esse respeito:

1. Foi narrado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando passardes pelos jardins do Paraíso, colhei seus frutos.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, o que são os jardins do Paraíso?” Ele respondeu: “As reuniões de dhikr. Pois Allah possui grupos de anjos que procuram as reuniões de dhikr. Quando encontram uma reunião, imediatamente permanecem ao redor dela.”

2. Muslim narrou, de Mu‘awiya, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até uma reunião de Companheiros e perguntou: “Com que objetivo organizastes esta reunião?” Eles responderam: “Estamos lembrando Allah e louvando-O porque Ele nos agraciou ao nos conduzir ao Islã.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Juro por Allah: é realmente por isso? Reunistes-vos somente por isso? Escutai: não vos fiz esta pergunta, fazendo-vos jurar, por alguma acusação contra vós. Na verdade, Jibril veio até mim e informou-me que Allah se vangloria de vós diante dos anjos.”

3. Muslim também narrou, de Abu Sa‘id al-Khudri e Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ambos), que os dois testemunharam o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Sempre que um grupo se reúne para fazer dhikr de Allah, os anjos o cercam. A misericórdia e a tranquilidade de Allah descem sobre eles, e Allah menciona-os diante dos anjos que estão junto d’Ele.”

O mérito de dizer “la ilaha illallah” com sinceridade:

1. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sempre que um servo diz ‘la ilaha illallah’ com sinceridade, as portas do céu se abrem para ele, para que essa sua palavra chegue até o Trono, enquanto ele evitar os pecados maiores.” — Tirmidhi.

2. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Renovai a vossa fé.» Perguntaram: «Ó Mensageiro de Allah, como renovaremos a nossa fé?» Ele respondeu: «Dizei frequentemente: “Lā ilāha illā Allāh.”» — Ahmad.

3. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «O melhor dhikr é Lā ilāha illā Allāh, e a melhor súplica é Alhamdu lillāh.» — An-Nasa’i, Ibn Majah, Al-Hakim.

As virtudes de alguns dhikrs

1. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse:

سبحان اللهِ وَبِحَمْدِهِ، سُبْحَانَ اللهُ الْعَظِيمِ

«Estas duas frases são muito leves sobre a língua (isto é, na pronúncia), muito pesadas na balança e sumamente amadas pelo Misericordioso.» — Al-Bukhari, Muslim, At-Tirmidhi.

2. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse:

سُبْحَانَ اللهِ ، وَالْحَمْدُ لِلَّهِ، وَلَا إله إلا الله، والله أكبر.

Declarar estas palavras é mais amado por mim do que tudo aquilo sobre o qual brilham os raios do sol (toda a terra e tudo o que há dentro dela). — Muslim, Tirmidhi.

3. É narrado por Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Ó Abu Dharr! Queres que eu te diga qual é a palavra mais amada por Allah? Eu disse: Ó Mensageiro de Allah, diga. Ele disse: A palavra mais amada por Allah é سُبْحَانَ اللَّهِ وَبِحَمْدِهِ Muslim, Tirmidhi. A versão de Tirmidhi diz: A palavra mais amada por Allah é aquilo que Allah escolheu para os Seus anjos:

سبحان ربي وبحمده سبحان رَبِّي وَبِحمدِهِ .

4. É narrado por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quem disser:

سبْحَانَ اللهُ الْعَظِيمِ وَبِحَمْدِهِ .

para ele será plantada no Paraíso uma muda de tamareira. — Tirmidhi.

5. É narrado por Abu Sa’id (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Dizei frequentemente as boas palavras que não se esgotam. Perguntaram: Ó Mensageiro de Allah! Quais são essas palavras? Ele respondeu: Dizer Allahu Akbar, la ilaha illallah, subhanallah, alhamdulillah e la hawla wa la quwwata illa billah. — Nasa’i, Hakim. Hakim disse que a cadeia de transmissão é autêntica.

6. É narrado por Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Na noite em que fui levado (isto é, na noite do Miraj), encontrei-me com Ibrahim (que a paz esteja com ele). Ele disse: Ó Muhammad, transmite a saudação de paz da minha parte à tua comunidade e informa-os de que o Paraíso é uma terra muito bela e um lugar de água doce. O Paraíso é uma planície extensa e ampla. E suas plantas são:

سُبْحَانَ اللهِ وَالْحَمْدُ لِلَّهِ، وَلَا إِلَهَ إِلَّا الله، والله اكبر

Também foi acrescentada esta expressão: «Lá hawla wa lá quwwata illá billah».

7. Foi narrado por Muslim que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Há quatro expressões que são as mais amadas por Allah. Não há problema com qual delas você começar. Elas são:

سُبْحَانَ اللهِ ، وَالْحَمْدُ لِلَّهِ، وَلَا إِلَهَ إِلَّا الله، والله اكبر

8. Foi narrado por Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Quem recitar as duas últimas ayat da surata Al-Baqarah em uma noite, isso lhe será suficiente.» — Bukhari e Muslim. Isto é, recitar essas duas ayat equivalerá, para ele, a passar toda aquela noite em oração. Alguns dizem que o significado de «ser suficiente» é que isso será suficiente para protegê-lo de todas as calamidades e aflições daquela noite. Antes de mencionar as duas últimas ayat da surata Al-Baqarah em sua coletânea autêntica, Ibn Khuzaymah colocou o seguinte título: «Explicação da quantidade mínima de Alcorão cuja recitação é suficiente para a oração noturna.» 9. Foi narrado por Abu Sa‘id (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Acaso sois capazes de recitar um terço do Alcorão em uma noite?» A resposta pareceu difícil aos companheiros. Eles disseram: «Ó Mensageiro de Allah, quem dentre nós conseguiria recitá-lo?» O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «A surata “Dize: Ele é Allah, Único” equivale a um terço do Alcorão.» — Bukhari e Muslim.

10. Foi narrado por Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Quem disser cem vezes todos os dias

إله إلا الله وحده لا خَرِيكَ لَهُ، لَهُ الملك ولهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ

isso será equivalente a libertar dez escravos. Serão registradas para ele cem recompensas. Cem de seus pecados serão apagados. Isso será para ele uma proteção contra Satanás até o anoitecer daquele dia, e ninguém terá realizado uma obra melhor do que ele, exceto quem fizer mais do que isso em boas ações.» — Bukhari, Muslim, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah.

Foi acrescentado nas narrações de Muslim, Tirmidhi e Nasa’i: “Quem disser cem vezes por dia: ‘Subhanallahi wa bihamdihi’, terá seus pecados perdoados, mesmo que sejam tantos quanto a espuma do mar.”

A excelência do istighfar (pedido de perdão): Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: Allah diz: “Ó filho de Adão, sempre que Me invocares e esperares o perdão da Minha parte, perdoarei tudo o que tiveres cometido, sem me importar com nada disso. Ó filho de Adão, ainda que teus pecados alcancem as nuvens do céu, se depois pedires Meu perdão, perdoar-te-ei, sem me importar com nada disso. Ó filho de Adão, se vieres a Mim com pecados que preencham toda a Terra, mas vieres sem associar ninguém a Mim, virei a ti com uma quantidade de perdão que preencherá toda a Terra.” — Tirmidhi.

Foi narrado por Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): quem perseverar constantemente no istighfar (pedido de perdão), Allah afastará todas as suas preocupações, livrá-lo-á de todas as dificuldades e prover-lhe-á sustento por meios que ele jamais poderia imaginar. — Abu Dawud, Nasa’i, Ibn Majah e Hakim.

Alguns dhikrs que possuem significado abrangente e são causa de recompensa multiplicada:

1. Foi narrado por Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela): o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu de junto dela e voltou quando já era meio-dia. Juwayriya ainda estava sentada no mesmo lugar. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou-lhe: “O quê? Ainda estás na mesma condição em que te deixei?” Ela respondeu: “Sim.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Depois de te deixar, repeti quatro frases três vezes. Se elas fossem pesadas, seriam mais pesadas do que todas as palavras (boas) que disseste durante todo esse tempo. Elas são: ‘Subhanallahi wa bihamdihi, adada khalqihi, wa rida nafsihi, wa zinata arshihi, wa midada kalimatihi’.” (Declaro a pureza de Allah e O louvo, na medida do número de Suas criaturas, da Sua satisfação, do peso do Seu Trono e da quantidade de tinta necessária para escrever Suas palavras.) — Muslim e Abu Dawud.

2. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encontrou uma mulher diante da qual havia algumas contas ou pedrinhas, com as quais ela glorificava Allah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: “Queres que te ensine uma súplica que seja mais fácil e melhor para ti do que isso?” Então disse: “É esta:”

سبحانَ اللَّهَ عَدَدَ مَا خَلَقَ فِي السَّمَاءِ، وَسُبْحَانَ الله عَدَدَ مَا خَلَقَ فِي الْأَرْضِ، وَسُبْحَانَ اللَّهَ عَدَدَ مَا خَلَقَ بَيْنَ ذَلِكَ، وَسُبْحَانَ اللهُ عَدَدَ مَا هُوَ خَلِقٌ، وَاللَّهُ أَكْبَرُ مِثْلُ ذلِكَ، وَالْحَمْدُ لِللَّهِ مِثْلَ ذَلِكَ، وَلَا إِلَهَ إِلَّا اللَّهُ مِثْلُ ذَلِكَ، وَلَا

حَوْلَ وَلا قُوَّةَ إِلَّا بِاللَّهِ مِثْلِ ذلِكَ. رَوَاهُ أَصْحَابُ السَّنَنِ وَالْعَاكِرُ .قَالَ : مَعِيحٍ عَلَى شَرْهِ سَلِي, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah. —

3. Foi narrado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Um servo de Allah disse: “Ó meu Senhor, para Ti é o louvor que convém à Tua majestade e à vastidão do Teu reino.” Isso pareceu complicado para os dois anjos que o acompanhavam. Eles não conseguiram entender como deveriam registrar aquilo. Então, ambos ascenderam ao céu e disseram: “Ó nosso Senhor, o Teu servo proferiu uma frase que não sabemos como registrar.” Embora Allah soubesse melhor do que todos o que o Seu servo havia dito, perguntou: “O que disse o Meu servo?” Os anjos responderam: “Ó nosso Senhor, ele disse: Ó meu Senhor, para Ti é o louvor que convém à Tua majestade e à vastidão do Teu reino.” Allah disse aos dois anjos: “Registrem exatamente o que o Meu servo disse. Quando ele se encontrar Comigo, Eu o recompensarei por isso.” — Ahmad e Ibn Majah.

Contar o tasbih com os dedos é melhor do que usar contas de tasbih:

1. Foi narrado por Busaira (que Allah esteja satisfeito com ela) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Ó mulheres, digam “Subhanallah”, digam “La ilaha illallah”, glorifiquem a santidade de Allah e não sejam negligentes, caso contrário sereis privadas da misericórdia. Contai com os dedos, pois eles serão interrogados e farão testemunho. — Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah e Hakim. (Isso prova que contar com a mão é melhor do que contar com contas de tasbih. Contudo, também é permitido contar usando contas de tasbih.)

2. Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) contar o tasbih com a mão direita. — Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah.

Advertência contra participar de uma assembleia na qual Allah não é lembrado nem se pronunciam bênçãos sobre o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: A assembleia em que as pessoas não lembram de Allah nem pronunciam bênçãos sobre o Mensageiro será, no Dia da Ressurreição, motivo de arrependimento para elas. — Tirmidhi.

A versão da narração de Ahmad diz que a assembleia na qual Allah não é lembrado será prejudicial; a viagem durante a qual Allah não é lembrado será prejudicial; e o leito no qual alguém se deita sem lembrar de Allah será prejudicial. Em outra narração, isso será motivo de remorso para as pessoas da assembleia, ainda que entrem no Paraíso em razão da recompensa. Em Fathul Allam é dito: Este hadith prova que lembrar-se de Allah e pronunciar bênçãos sobre o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) são obrigatórios em toda assembleia. Alguns disseram que isso é comprovadamente obrigatório, pois não se faz uma advertência de castigo senão pelo abandono de algo obrigatório ou necessário, ou pela prática de algo proibido. Este hadith deixa claro que tanto a lembrança de Allah quanto as bênçãos sobre o Mensageiro são obrigatórias.

Expiação pelas conversas fúteis da assembleia. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quem se sentar em uma assembleia onde houver muitas conversas e, depois de deixar essa assembleia, disser:

سبحانك اللهم وبحمدِكَ، أَحْمَدُ أَنْ لَا إِلَهَ إِلَّا أَنسَ، اسْتَغْفِرُكَ وَأَتُوبُ إِلَيْكَ .

Isso servirá de expiação por tudo o que tiver sido dito de fútil e injusto naquela reunião. O que se deve fazer depois de caluniar um irmão muçulmano: o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: pedir a Allah perdão pelos pecados daquele que caluniaste é a expiação por isso. Dirás: «Ó Allah, perdoa os meus pecados e os dele.»

Pedir perdão pelos pecados daquele que foi caluniado e mencionar as suas boas qualidades constitui expiação pela calúnia. Não é necessário informá-lo nem pedir-lhe perdão.

Sétimo capítulo: Fazer súplicas

Fazer súplicas

1. A ordem de fazer súplicas

Allah, o Altíssimo, ordenou às pessoas que Lhe façam súplicas e Lhe supliquem humildemente, e prometeu atender às súplicas e conceder aquilo que Lhe for pedido. Ele disse:

1. Abu Dawud, At-Tirmidhi, An-Nasa’i, Ibn Majah e Ahmad narraram, de Nu’man ibn Bashir, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «A súplica é adoração.» Em seguida, recitou este versículo

ادعوني استجب لكم، إن الذين يستكبرون عن عِبَادَتِي سَيد خُلُونَ جَهَنَّمَ دَاخِرِينَ .

Sentido: Invocai-Me, e Eu vos atenderei. Aqueles que, por arrogância, abandonam a Minha adoração entrarão no Inferno humilhados.

2. Abdurrazzaq relatou que os companheiros do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — lhe perguntaram: “Onde está o nosso Senhor?” Então Allah revelou:

وَإِذَا سَأَلَكَ عِبَادِي عَنِّي فَإِنِّي قَرِيبٌ أُجِيبُ دَعْوَةَ الدَّاعِ إِذَا دَعَانِ .

Sentido: Quando os Meus servos perguntarem sobre Mim, dize-lhes: “Estou próximo. Atendo à súplica de quem Me invoca.”

3. At-Tirmidhi e Ibn Majah relataram, sob a autoridade de Abu Huraira — que Allah esteja satisfeito com ele —, que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Nada é mais honroso diante de Allah do que a súplica.”

4. At-Tirmidhi relatou que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Aquele que deseja que Allah atenda às suas súplicas nos momentos de grandes aflições, calamidades e dificuldades deve suplicar frequentemente também nos dias de felicidade.”

5. Foi narrado por Anas — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse, em um hadith qudsi, que Allah afirmou: “Existem quatro coisas: uma pertence a Mim, outra pertence a ti, outra é comum a Mim e a ti, e outra é comum a ti e aos Meus servos. O que pertence exclusivamente a Mim é que não associes ninguém a Mim. O que pertence a ti é que, por tudo de bom que fizeres, Eu te recompensarei. O que é comum a Mim e a ti é que tu suplicarás e Eu atenderei. E o que é comum a ti e aos Meus servos é que desejes para os outros aquilo que desejas para ti.” — Abu Ya‘la.

6. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Aquele que não suplica a Allah provoca a ira de Allah.”

7. Relatado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Nenhuma precaução pode proteger contra o destino. E a súplica ajuda contra as calamidades e aflições, tanto as que já chegaram quanto as que ainda não chegaram. Às vezes, a súplica encontra a calamidade depois que ela já desceu. Então, a súplica e a calamidade continuam lutando entre si até o Dia da Ressurreição. — Al-Bazzar, At-Tabarani.

8. Relatado por Salman, o Persa (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Nada além da súplica muda o destino, e nada além da benevolência prolonga a vida. At-Tirmidhi.

9. Abu ‘Awana e Ibn Hibban narram que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando suplicardes a Allah, pedi coisas grandiosas, pois nada é grande diante de Allah.

2. A etiqueta da súplica

A súplica possui algumas etiquetas e condições que convém observar. Mencioná-las-ei a seguir:

1. Ganhar o sustento lícito. Hafiz Ibn Mabduya relatou, por intermédio de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Este versículo foi recitado diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele):

يَا أَيُّهَا النَّاسُ كُلُوا مِمَّا فِي الْأَرْضِ حَلَالًا طَيِّبًا .

“Ó humanidade, comei de tudo o que é lícito e puro na terra.” Imediatamente, Sa‘d ibn Abi Waqqas levantou-se e disse: Ó Mensageiro de Allah, suplica a Allah para que me torne uma pessoa cuja súplica seja certamente aceita. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Ó Sa‘d, certifica-te de comer alimento lícito, e tua súplica será certamente aceita. Juro por Allah, em cuja mão está a vida de Muhammad, que aquele que introduzir no estômago sequer um grão de alimento ilícito nada terá aceito durante quarenta dias. E aquele cujo corpo se formar com carne proveniente de usura e suborno, o Fogo do Inferno é o que mais lhe convém.”
No Musnad de Ahmad e no Sahih Muslim, Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Ó humanidade, Allah é Puro. Ele não aceita nada além do que é puro. E Allah ordenou aos crentes o mesmo que ordenou aos Mensageiros. Ele disse:

يا أَيُّهَا الرُّسُلُ كُلُوا مِنَ الطَّيِّبَاتِ وَاعْمَلُوا صَالِحًا إِنِّي بِمَا تَعْمَلُونَ عَلِيمٌ

“Ó mensageiros, comei dos alimentos lícitos e praticai boas ações. Estou ciente de tudo o que fazeis.” Allah também disse:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُلُوا مِن طَيِّبَاتِ مَا رَزَقْنَاكُمْ.

“Ó crentes, comei dos alimentos lícitos que vos concedi.” Em seguida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionou um homem que empreende uma longa viagem, com os cabelos desgrenhados e o corpo coberto de poeira. Contudo, o alimento que consome é ilícito, a roupa que veste é ilícita e ele foi nutrido com coisas ilícitas. Ele ergue as mãos para o céu e diz: “Ó meu Senhor, ó meu Senhor!” Como, então, sua súplica será atendida?”

2. Fazer a súplica voltado para a qibla, quando possível: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu para realizar a oração de istisqa, voltou-se para a qibla, fez súplicas e pediu chuva.

3. Fazer súplicas levando em consideração os momentos virtuosos e as circunstâncias e os ambientes sagrados: como o Dia de Arafat, o mês de Ramadan, a sexta-feira, o último terço da noite, o horário do suhur, durante a prostração, quando chove, entre o adhan e a iqama, durante a luta entre a verdade e a falsidade e nos momentos de temor a Allah e de coração enternecido. Abu Umama (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Qual súplica Allah ouve mais?” Ele respondeu: “Na última parte da noite e depois das orações obrigatórias.” — Tirmidhi

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O servo encontra-se mais próximo de seu Senhor quando está em prostração. Portanto, fazei muitas súplicas nesse momento, pois elas têm maior probabilidade de serem atendidas.” — Muslim

Há ainda muitos outros hadiths sobre esse assunto, espalhados nas principais coletâneas.

4. Erguer ambas as mãos até a altura dos ombros: Abu Dawud narrou, sob autoridade de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que

a maneira de pedir algo a Allah é erguer ambas as mãos à altura dos ombros ou próximo disso. A maneira de pedir perdão é fazer um gesto com um dedo. E a maneira do ibtihal é estender ambas as mãos. (Ibtihal é reunir as esposas e os filhos de ambas as partes num mesmo lugar e fazer com que uma parte invoque a maldição sobre a outra, acusando-a de mentir, como último recurso para resolver uma acusação.)

Foi narrado por Malik ibn Yasar que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando pedirdes algo a Allah, pedi com as palmas das mãos voltadas para cima; não pedi com o dorso das mãos voltado para cima.” E foi narrado por Salman que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Vosso Senhor é sumamente Benéfico e Majestoso; Ele é muito modesto e misericordioso. Quando o servo ergue as mãos diante d’Ele, Ele se envergonha de devolvê-lo de mãos vazias.”

5. Começar a súplica louvando a Allah e enviando bênçãos ao Mensageiro de Allah: Abu Dawud, an-Nasa’i e at-Tirmidhi narraram, sob autoridade de Fudalah ibn Ubayd, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu um homem fazer súplica durante a oração sem louvar Allah nem enviar bênçãos ao Mensageiro. Ele disse: “Este homem se apressou ao fazer a súplica.” Então chamou-o e disse a ele ou a outra pessoa: “Quando algum de vós rezar, que primeiro louve e glorifique Allah, depois envie bênçãos ao Mensageiro e, em seguida, peça em súplica o que deseja.”

6. Fazer súplica a Allah com concentração, humildade e súplica fervorosa, usando uma voz entre o completo silêncio e a voz alta. Allah diz:

وَلَا تَجْهَرْ بِصَلَاتِكَ وَلَا تُخَافِتْ بِمَا وَابْتَغِ بَيْنَ ذلِكَ سَبِيلاً .

“Não faças tua súplica em voz demasiadamente alta, nem a faças em completo silêncio; adota um meio-termo entre ambos.” Ele também disse:

ادْعُوا رَبَّكُمْ تَضَرُّعًا وَخُفْيَةً إِنَّهُ لَا يُحِبُّ الْمُعْتَدِينَ .

“Invocai vosso Senhor com súplica humilde e em segredo. Allah não ama os transgressores.”

Ibn Jarir disse: تضرعا significa demonstrar extrema humildade, súplica e submissão a Allah. E في significa concentração do coração, acompanhada de uma fé firme na unicidade e no senhorio de Allah, de modo que isso permaneça restrito apenas entre Allah e o servo, e não seja feito com o desejo de se exibir às pessoas.

Al-Bukhari e Muslim narraram, segundo Abu Musa al-Ash‘ari, que as pessoas fizeram súplicas em voz alta. Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah disse: “Ó gente, tratai-vos com suavidade. Aquele a quem invocais não é surdo nem está ausente. Estais invocando Allah, o Onio­uvidor e o Onividente. Aquele a quem invocais está mais próximo de vós do que o pescoço de vossa montaria. Ó Abdullah ibn Qays, quereis que vos ensine uma súplica que é um dos tesouros do Paraíso? Ela é: ‘Não há poder nem força senão em Allah.’” Ahmad narrou, segundo Abdullah ibn Umar, que o Mensageiro de Allah disse: “Os corações são como recipientes; alguns são maiores que outros. Portanto, ó gente, sempre que suplicardes a Allah, fazei-o com a firme convicção de que a súplica será atendida. Pois Allah não atende a súplica daquele que suplica com o coração desatento.”

7. A súplica não deve ser feita por um pecado nem pelo rompimento dos laços de parentesco: Ahmad narrou, segundo Abu Sa‘id, que o Mensageiro de Allah disse: “Quando um muçulmano faz a Allah uma súplica que não contém pecado nem intenção de romper os laços de parentesco, Allah lhe concede, em resposta à sua súplica, uma de três coisas: ou lhe concede prontamente aquilo que pediu, ou o reserva para ele na Outra Vida, ou afasta dele um mal semelhante.” As pessoas disseram: “Então devemos fazer mais súplicas?” O Mensageiro disse: “Allah tem ainda mais para conceder.”

8. Não se deve apressar o atendimento da súplica: Foi narrado por Abu Hurayra que o Mensageiro de Allah disse: “A súplica de uma pessoa é atendida enquanto ela não se apressa nem diz: ‘Fiz tantas súplicas, mas não foram atendidas.’”

9. Deve-se suplicar com firme determinação: Abu Dawud narrou, segundo Abu Hurayra, que o Mensageiro de Allah disse: “Não supliqueis assim: ‘Ó Allah, se quiseres, perdoa-me; e, se desejares, tem misericórdia de mim.’” Pelo contrário, pedi o que desejais com firmeza, pois ninguém pode obrigar Allah.

10. Escolher palavras de significado abrangente na súplica. Por exemplo:

رَبَّنَا آتِنَا فِي الدُّنْيَا حَسَنَةً، وَفِي الْآخِرَةِ حَسَنَةً وَقِنَا عَذَابَ النَّارِ.

“Ó nosso Senhor, concede-nos o bem neste mundo e o bem no Além, e livra-nos do castigo do Inferno.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, gostava das súplicas de significado abrangente e rejeitava as demais. Foi narrado por Ibn Majah que um homem foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, qual é a melhor súplica?” Ele respondeu: “Pedir a Allah o perdão dos pecados e a segurança neste mundo e no Além.” Então, o homem voltou até o Mensageiro de Allah no segundo e no terceiro dia, fez-lhe a mesma pergunta, e recebeu a mesma resposta acima. Depois, o Mensageiro de Allah disse: “Quando teus pecados forem perdoados e te for concedida segurança neste mundo e no Além, então serás bem-sucedido.” Também foi narrado por Ibn Majah que o Mensageiro de Allah disse: “Não há súplica melhor do que aquela por meio da qual o servo pode suplicar a Allah:”

اللهم إني أسألك الْمُعَافَاةَ فِي الدُّنْيَا وَالْآخِرَةِ .

“Ó Allah! Peço-Te segurança e salvação neste mundo e no Além.”

11. Não fazer súplicas de maldição contra si mesmo, seus filhos e seus bens: Foi narrado por Jabir que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não façais súplicas de maldição contra vós mesmos, vossos filhos, vossos empregados domésticos ou vossos bens. E não façais coincidir vossas súplicas de maldição com um momento em que as dádivas de Allah estejam sendo concedidas. Caso contrário, essa súplica de maldição será atendida.”

12. Fazer a súplica três vezes: Abdullah ibn Masud disse que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, gostava de fazer a súplica três vezes e pedir perdão pelos pecados três vezes. — Abu Dawud.

13. Ao fazer uma súplica por outra pessoa, deve-se primeiro fazê-la por si mesmo. Allah disse:

رَبَّنَا اغْفِرْ لَنَا وَلِإِخْوَانِنَا الَّذِينَ سَبَقُونَا بِالْإِيمَانِ .

“Ó nosso Senhor, perdoa-nos e perdoa os nossos irmãos crentes que nos precederam.”

Ubayy ibn Ka’b disse: Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se lembrava de alguém e suplicava por essa pessoa, primeiro suplicava por si mesmo. — Tirmidhi.

14. Todas as narrações e declarações relativas a limpar o rosto com as duas mãos ao término da súplica são fracas.

15. As súplicas do pai, do jejuador, do viajante e do oprimido são aceitas: Ahmad, Abu Dawud e Tirmidhi narraram que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Três súplicas são indubitavelmente aceitas: a súplica do pai, a súplica do viajante e a súplica do oprimido. Tirmidhi narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: As súplicas de três pessoas não são rejeitadas: a do jejuador quando quebra o jejum, a do líder e governante justo, e a do oprimido. Allah eleva a súplica do oprimido acima das nuvens, abre para ela todas as portas do céu, e o Senhor diz: Por Minha honra e poder, certamente te ajudarei, ainda que isso ocorra depois de algum tempo.

16. A súplica de um irmão muçulmano por outro irmão muçulmano na sua ausência: Muslim e Abu Dawud narraram, sob a autoridade de Safwan ibn Abdullah, que Safwan disse:
Fui à Síria e dirigi-me à casa de Abu al-Darda, mas não o encontrei. Encontrei sua esposa, Umm al-Darda. Ela disse: Você pretende realizar o Hajj este ano? Respondi: Sim. Ela disse: Então, suplique pelo nosso bem, pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava dizer: Quando um muçulmano suplica por outro irmão muçulmano na sua ausência, essa súplica é aceita. Um anjo é designado para ficar junto à sua cabeça. Sempre que ele suplica por seu irmão, o anjo designado diz: Amém; e eu também suplico por você de modo semelhante. Safwan disse: Depois, fui ao mercado. Lá encontrei Abu al-Darda. Ele também me transmitiu a mesma declaração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Foi narrado por Abu Dawud e Tirmidhi que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: A súplica que uma pessoa ausente faz por outra pessoa ausente é a que é aceita mais rapidamente.

Foi narrado por Abu Dawud e Tirmidhi, sob a autoridade de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que ele disse: Pedi ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permissão para realizar a Umrah. Ele me deu permissão e disse: Ó meu irmão, não te esqueças de mim durante as tuas súplicas. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Essas palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) — nas quais ele se dirigiu a mim chamando-me de irmão — proporcionaram-me tanta alegria que, mesmo que eu tivesse recebido o mundo inteiro, não teria ficado mais feliz do que fiquei com elas.

17. Eis as palavras com as quais, segundo vários hadiths, é recomendado iniciar a súplica, na esperança de que ela seja aceita: Foi narrado por Buraidah (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu um homem dizer:

الله إلى أَسْأَلُكَ بِأَتِي أَحْمَدُ أَنَّكَ أَنت الله لا إله إلا أنت الأحَدُ الصَّمَدُ الَّذِي لَمْ يَلِدْ وَلَمْ يُولَدْ وَلَمْ يَكُن لَهُ كُفُوًا أَحَدٌ .

«Ó Allah, peço-Te, em nome deste testemunho, que Tu és Allah; não há divindade além de Ti. Tu és Único e Incomparável. É a Ti que todas as necessidades são apresentadas. Tu és Allah, que não tem filho nem progenitor, e ninguém é igual a Ti.» O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Estás suplicando a Allah em nome do Seu Ism al-A‘zam (Nome Supremo), pelo qual, quando algo é pedido, Ele concede, e quando se suplica, Ele atende.» — Abu Dawud e at-Tirmidhi.

Foi narrado por Mu‘adh ibn Jabal, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ouviu um homem dizer: «Ó Possuidor da Majestade e da Honra!» Ele disse: «Tua invocação foi atendida. Agora, pede o que quiseres.» — at-Tirmidhi.

Foi narrado por Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passou por Abu Ayyash Zayd ibn Samit az-Zurqi. Ele estava rezando e dizia:

اللهمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ بِأَنَّ لَكَ الْحَمْدُ، لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ، يَا حَنَّانَ، يَامَنَّانُ، بَابَدِيعَ السَّمَوَاسِ وَالْأَرْضِ، يَاذَا الْجَلَالِ وَالْإِكْرَامِ، يَا حَيُّ يَا قَيُّوم .

«Ó Allah, a Ti pertence todo louvor; não há divindade além de Ti. Ó Afetuoso, ó Generoso, ó Criador dos céus e da terra, ó Possuidor da Majestade e da Honra, ó Vivente, ó Subsistente.» O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Invocaste Allah usando o Seu Nome Supremo, pelo qual, quando Ele é invocado, responde, e pelo qual, quando algo Lhe é pedido, Ele concede.» — Ahmad.

Foi narrado por Mu‘awiyah, que Allah esteja satisfeito com ele: ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: «A quem invocar Allah por meio destas cinco frases, Ele concederá aquilo que pedir.»

لا إله إلا الله، والله أكبر، لا إله إلا الله وَحدَهُ لا شَريكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْكَ وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ، لَا إِلَهَ إِلَّا اللهُ وَلَا حَوْلَ وَلَا قُوَّةَ إِلَّا بِاللَّهِ.

3. Súplicas da manhã e da tarde

O horário da súplica da manhã vai do fajr ao nascer do sol, e o horário da súplica da tarde vai do asr ao maghrib.

1. Muslim narra, segundo Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quem disser, de manhã e à tarde: انَ اللَّهِ وَبِحَمْدِcem vezes, no Dia da Ressurreição ninguém chegará com provisão melhor do que a sua, exceto aquele que tiver recitado a mesma súplica ou mais do que isso.”

2. Muslim narrou, segundo Ibn Mas‘ud, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia à tarde:

أَمْسَيْنَا وَأَمْسَى الْمُلْكَ وَالْحَمْدُ لِلَّهِ، لَا إِلَهَ إِلَّا اللَّهَ وَحْدَهُ لا شَريكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْكُ وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ رَبِّ أَسْأَلُكَ غَيْرَ مَا فِي مَلِيهِ اللَّيْلَةِ وَغَيْرَ مَا بَعْدَمَا وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ شَرِّ مَا فِي هَذِهِ

اللَّيْلَةِ وَشَرِّ مَا بَعْدَهَا ، رَبِّ أَعُوذُبِكَ مِنَ الْكَسَلِ وَسُوءِ الْكِبْرِ، رَبِّ أَعُوذُ بِكَ مِنْ عَذَابِ فِي النَّارِ وَعَذَابِ فِي الْقَبْرِ .

“Entrei na noite pertencendo a Allah, e o reino de Allah entrou na noite. Todo louvor pertence a Allah. Não há divindade além de Allah. Ele é Único e não tem associado. A soberania pertence somente a Ele, e o louvor pertence somente a Ele. Ele é onipotente. Ó meu Senhor, peço-Te todo o bem desta noite e o bem que virá depois dela, e busco refúgio em Ti contra todo o mal desta noite e o mal que virá depois dela. Ó meu Senhor, busco refúgio em Ti contra a preguiça e a decrepitude debilitante, e busco refúgio em Ti contra o castigo do Inferno e o castigo do túmulo.” Pela manhã, ele dizia algo semelhante.

3. Abu Dawud narra, segundo Abdullah ibn Habib, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) me disse: “Diga.” Eu perguntei: “Ó Mensageiro de Allah, o que devo dizer?” Ele respondeu: “De manhã e à tarde, قلمو1. e recite as suratas An-Nas e Al-Falaq. Isso será suficiente para tudo o que lhe diz respeito.”

4. Abu Dawud narrou, de Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ensinava seus Companheiros a dizer pela manhã:

اللهم بك أصْبَحْنَا وَبِكَ أَسْتَيْنَا ، وَبِكَ نَحْيا وبك نموت، وَإِلَيْكَ النشور.

“Ó Allah, com a Tua ajuda amanhecemos, com a Tua ajuda anoitecemos, com a Tua ajuda vivemos, com a Tua ajuda morremos, e com a Tua ajuda seremos ressuscitados.”

اللَّهُ بِكَ أَسْسَيْنَا وَبِكَ أَصْبَعْنَا، وَبِكَ نَحْيا وَبِكَ نَمُوتُ وَإِلَيْكَ الْمَصِير :

“Ó Allah! Com a Tua ajuda anoitecemos, com a Tua ajuda amanhecemos, com a Tua ajuda vivemos, com a Tua ajuda morremos, e para Ti será o nosso retorno.”

5. Foi narrado no Sahih al-Bukhari, por Shaddad ibn Aws, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: a Sayyid al-Istighfar, isto é, a melhor súplica para pedir perdão pelos pecados, é:

اللهم أنت ربي لا إله إلا أنت عَلَقْتَنِي وَأَنَا عَبَدُكَ، وَأَنَا عَلَى عَهْدِكَ وَوَعْدِكَ مَا اسْتَطَعْتُ، أَعُوذُ بِكَ مِنْ قَوْ مَا مَنَعَت، أبوء لَكَ بِنِعْمَتِكَ عَلَى، وَأَبُوهُ بِذَنْبِي لِي فَإِنَّهُ لا يَغْفِرُ الذُّنوب إلا أنت .

“Ó Allah, Tu és o meu Senhor; não há divindade além de Ti. Tu me criaste e eu sou Teu servo. Cumprirei, tanto quanto puder, o Teu compromisso. Busco refúgio em Ti contra o mal das minhas ações. Reconheço diante de Ti as Tuas bênçãos sobre mim e reconheço diante de Ti os meus pecados. Portanto, perdoa-me, pois ninguém perdoa os pecados senão Tu.”

Quem recitar isto pela manhã e morrer nesse dia entrará no Paraíso. E quem o recitar à noite e morrer naquela noite entrará no Paraíso.

6. Foi narrado no Tirmidhi, sob a autoridade de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele): Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ensina-me uma súplica para recitar de manhã e à noite.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Dize:”

اللَّهُ عَالِمِ الْغَيْبِ وَالشَّهَادَةِ فَاطِرِ السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ، رَبِّ كُلِّ شَيْءٍ وَمَلِيْكَهُ أَشْهَدُ أَنْ لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ، أَعُوذُ بِكَ مِنْ قَرْ نَفْسِي وَقَرِّ الشَّيْطَانِ وَعِرَكِهِ، وَأَن تَقْتَرى سُوءًا عَلَى أَنْفُسِنَا أَوْ تَجَرَهُ إِلَى مثلي

“Ó Allah, Conhecedor do oculto e do manifesto, Criador dos céus e da terra, Senhor e Soberano de todas as coisas, testemunho que não há divindade além de Ti. Busco refúgio em Ti contra as más sugestões da minha alma e contra as más sugestões e as armadilhas de Satanás. E busco refúgio em Ti para não atrair um mau desfecho sobre mim ou sobre qualquer muçulmano.” Esta súplica deve ser recitada pela manhã, à noite e ao deitar-se na cama. (O hadith é حسن صحيح.)

7. Também foi narrado no Tirmidhi, sob a autoridade de Uthman ibn Affan (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não há servo que recite esta súplica três vezes pela manhã e três vezes à noite sem que, ainda assim, alguma coisa lhe cause dano:”

بسم الله الَّذِي لَا يَضُرُّ مَعَ اسْمِهِ شَيْءٌ فِي الْأَرْضِ وَلَا فِي السَّمَاءِ وَهُوَ السَّمِيعُ الْعَلِيمُ .

“Em nome de Allah, com cujo nome nada nos céus nem na terra pode causar dano; e Ele é o Oniouvinte, o Onisciente.”

8. Também foi narrado no Tirmidhi, sob a autoridade de Thawban e de outros, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

رَضِيتُ بِاللهِ رَبَّا وَبِالْإِسْلَامِ دِينًا، وَبِعَمَلٍ نَبِيًّا

“Aceitei Allah como Senhor, Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como Profeta, e o Islã como religião, com plena satisfação. Quem fizer esta declaração pela manhã e à noite, será responsabilidade de Allah torná-lo satisfeito.”

9. At-Tirmidhi narrou, segundo Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Quem disser uma vez pela manhã e à noite:

اللمَرْ إِنِّي أَصْبَحْتُ أَعْمِدُكَ وَأَحْمِلُ حَمَلَةَ عَرْشِكَ وَمَلَائِكَتِكَ وَجَمِيعَ خَلْقِكَ أَنَّكَ أَنْتَ اللَّهَ لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ وَحْدَكَ لا شَرِيكَ لَكَ، وَأَنْ مُحَمَّدًا عَبْدُكَ وَرَسُولُكَ .

“Ó Allah, tomo-Te como testemunha, tomo como testemunhas os portadores do Teu Trono, tomo como testemunhas os Teus anjos e tomo como testemunha toda a Tua criação de que Tu és Allah; não há divindade além de Ti. Tu és Único, não tens sócio, e Muhammad é Teu servo e Mensageiro.” Allah o libertará de um quarto do Inferno. Quem fizer esta declaração duas vezes, Allah o libertará de metade do Inferno; quem a fizer três vezes, Allah o libertará de três quartos do Inferno; e quem a fizer quatro vezes, Allah o libertará completamente do Inferno.

10. Abu Dawud narrou, segundo Abdullah ibn Ghanam, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

الله مَا أَصْبَحَ بي مِنْ نِعْمَةٍ أَوْ بِأَحَدٍ مِنْ خَلْقِكَ فَيَنَّكَ وَحدَكَ لا فَرِيكَ لَكَ، لَكَ الْحَمْدُ وَلَكَ الفكر .

“Ó Allah, qualquer bênção que eu ou qualquer outra criatura Tua tenha recebido nesta manhã, recebemo-la somente de Ti. Não tens sócio; a Ti pertence todo louvor e a Ti pertence toda gratidão.” Quem disser estas palavras pela manhã terá cumprido o agradecimento a Allah por aquele dia; e, semelhantemente, quem as disser à noite terá cumprido o agradecimento a Allah por aquela noite.

11. Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah e Hakim narraram, de Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): a súplica que o Mensageiro de Allah nunca deixava de recitar pela manhã e à tarde era:

اللَّهُمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ الْعَافِيَةِ فِي الدُّنْيَا وَالْآخِرَةِ ، اللهمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ الْعَفْوَ وَالْعَافِيَةَ فِي دِينِي وَدُنْيَايَ وَأَهْلِى وَمَالِي، اللهم استر عوراتي وآمن روعاتي، اللهم احْفَظْنِي مِن بَيْنِ يَدَيَّ وَمِنْ خلفي وعن يميني وعن شمالي

ومن فوقي، وأعوذ بعظمَتِكَ أن أغتال من تحتي.

“Ó Allah, peço-Te paz e segurança neste mundo e no Além. Ó Allah, peço-Te perdão e segurança para minha religião, minha vida mundana, minha família e meus bens. Ó Allah, cobre minhas partes íntimas e protege minha honra e meu prestígio. Ó Allah, protege-me pela frente, por trás, pela direita, pela esquerda e por cima. E busco refúgio em Tua grandeza para não ser tragado pela terra abaixo de mim.”

12. Abdur-Rahman ibn Abu Bakra disse a seu pai: “Pai, ouço-te recitar isto três vezes todas as manhãs e três vezes todas as tardes:”

اللَّهُ عَافِنِي فِي بَدَنِي، اللَّهُ عَافِنِي فِي سَعِي، اللهُ عَافِنِي فِي بَصْرِي، لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ.

“Ó Allah, concede-me segurança no meu corpo; concede-me segurança nos meus ouvidos; concede-me segurança nos meus olhos. Não há divindade além de Ti.”

Abu Bakra disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah recitar essas súplicas. Por isso, gosto de seguir sua Sunna.” — Abu Dawud.

E Ibn al-Sunni narrou, sob a autoridade de Ibn Abbas, que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quem disser três vezes pela manhã e à tarde:”

اللَّهُمَّ إِنِّي أَصْبَحْتُ مِنْكَ فِي نِعْمَةٍ وَعَافِيَةٍ وَسِتْرٍ، فَاتِيرٌ نِعْمَتَكَ عَلَيَّ وَعَافِيَتَكَ وَسِتْرَكَ فِي الدُّنْيَا والأخيرة.

“Ó Allah! Recebi de Ti bênçãos, segurança e proteção. Portanto, completa sobre mim as Tuas bênçãos, a Tua segurança e a Tua proteção neste mundo e no Além.” Assim, torna-se responsabilidade de Allah completar essas coisas para ele. E foi narrado, sob a autoridade de Anas, que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Nenhum de vós pode ser como Abu Zamzam?” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah ﷺ, quem é Abu Zamzam?” O Mensageiro ﷺ respondeu: “Ele dizia todas as manhãs:”

اللَّهم وَمَبْتُ نَفْسِي وَعِرْضِي لَكَ.

“Ó Allah! Entreguei a Ti a minha vida e a minha honra.”

Depois disso, ele não insultava quem o insultava; não cometia injustiça contra quem o oprimia; e não golpeava quem o golpeava. E foi narrado, sob a autoridade de Abu Darda, que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quem disser sete vezes, todas as manhãs e todas as tardes:”

حَسْبِيَ اللَّهُ لَا إِلَهَ إِلَّا هُوَ عَلَيْهِ تَوَكَّلْتُ، وَهُوَ رَبُّ الْعَرْشِ الْعَظِيمِ

“Allah é suficiente para mim. Não há divindade além d’Ele. Nele deposito a minha confiança. Ele é o Senhor do Trono grandioso e sublime”, Allah lhe será suficiente para atender a todas as suas necessidades neste mundo e no Além.

Talq ibn Habib disse: um homem foi até Abu Darda e disse: “Ó Abu Darda, a tua casa pegou fogo.” Abu Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Não pegou. Allah não faria algo assim. Aprendi algumas súplicas com o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Quem as recitar no início do dia estará protegido de qualquer calamidade até a noite; e quem as recitar no final do dia estará protegido de qualquer calamidade até a manhã. A súplica é:

اللهم أنت رَبِّي لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ، وَعَلَيْكَ تَوَكَّلْت وَأَنْتَ رَبِّ الْعَرْشِ الْعَظِيرِ، مَا شَاءَ اللَّهُ كَانَ، ومَا لَمْ يَهَا لَمْ يَكُن، لا حَوْلَ وَلَا قُوَّةَ إِلَّا بِالله العلي العظيم، أَعْلَمُ أَنَّ اللَّهَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ وَأَنَّ اللَّهَ قَدْ أَحَاطَ بِكُلِّ شَيْءٍ عِلْمًا،

اللهم إنِّي أَعُوذُبِكَ مِنْ هَر نَفْسِي، وَمِنْ شَرِّ كُلِّ دَابَّةٍ أَنْتَ أَمِنْ بنَاصِيَتِها ، إن ربي على صراط مستقيم.

“Ó Allah! Tu és o meu Senhor; não há divindade além de Ti. Em Ti confio. Tu és o Senhor do Trono Magnífico. O que Allah quer acontece, e o que Ele não quer não acontece. Ninguém possui força nem poder senão com a ajuda de Allah, o Altíssimo. Sei que Allah é Poderoso sobre todas as coisas e que Allah tem conhecimento de todas as coisas. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra as más sugestões da minha alma e contra o mal de toda criatura que Tu manténs sob o Teu controle. Certamente, o meu Senhor guia pelo caminho correto.”

Em algumas narrações consta: Abu Darda disse: “Vinde comigo.” Então ele e seus companheiros partiram e chegaram à sua casa. Verificou-se que tudo ao redor da casa havia sido queimado e destruído, enquanto nada havia acontecido à sua casa.

4. Súplicas para diferentes momentos e ocasiões

Súplica para dormir:

1. Al-Bukhari narrou, segundo Hudhayfa e Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ambos), que, quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ia dormir em sua cama, dizia:

بِاسْمِكَ اللهم احيا وأموت .

“Ó Allah! Em Teu nome vivemos e morremos.” E, ao acordar, dizia:

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي أَحْيَانًا بَعْدَ مَا أَمَاتَنَا وَإِلَيْهِ النُّعُورُ .

“Todo louvor pertence a Allah, que nos deu vida depois de nos fazer morrer, e a Ele é o retorno.” Seu costume era dormir colocando a mão direita sob a face e dizer três vezes:

الله فنِي عَنْ أَبَكَ يَوْمَ تَبْعَثُ عِبَادَكَ .

“Ó Allah, protege-me do Teu castigo no dia em que ressuscitares os Teus servos.” Também dizia:

الله رَبِّ السَّمَوَاتِ وَرَبِّ الْأَرْضِ وَرَبِّ الْعَرْشِ الْعَظِيرِ، رَبَّنَا وَرَبِّ كُلِّ شَيْءٍ، فَالِقَ الْحَبِّ وَالنَّوى مُنْزِلَ التَّوْرَاةِ وَالْإِنْجِيلِ وَالْقُرْآنِ، أَعُوذُ بِكَ مِنْ شَرِكُل ذِي مَنْ أَنْتَ أَخِلٌ بِنَاصِيَتِهِ، أَنْتَ الْأَوَّلُ فَلَيْسَ قَبْلَكَ شَيْءٌ، وَأَنْتَ الْأَخِرُ فَلَيْسَ

بَعْدَكَ شَيْءٌ، وَأَنْتَ الظَّاهِرُ فَلَيْسَ فَوْقَكَ في وأَنْتَ الْبَاطِنُ فَلَيْسَ دُونَكَ شَيْءٌ، أَقْضِ عَنَّا الدِّينَ وَأَغْنِنَا مِنَ الْفَقْرِ .

“Ó Allah! Senhor dos céus, da terra e do Trono Magnífico, nosso Senhor e Senhor de todas as coisas, Aquele que faz germinar as sementes, Revelador da Torá, do Evangelho e do Alcorão. Busco refúgio em Ti contra o mal de todo perverso que está sob o Teu domínio. Tu és o Primeiro; nada existia antes de Ti. Tu és o Último; nada existirá depois de Ti. Tu és o Vitorioso; nada está acima de Ti. Tu és o Oculto; nada está além de Ti. Quita as nossas dívidas e livra-nos da pobreza.” Ele também costumava dizer:

الحَمدُ لِلَّهِ الَّذِي أَطْعَمَنَا وَسَقَانَا وَكَفَانَا ، وَأَوَانَا ، فَكَمْ، مِن لَا كَانِي وَلَا مُؤْوِي.

“Todo louvor pertence a Allah, que nos alimenta, nos dá de beber, nos basta e nos dá abrigo. Pois há muitos que não têm quem lhes dê abrigo nem quem lhes seja suficiente.”

Todas as noites, quando ia para a cama, juntava as palmas das mãos, recitava as suratas Al-Ikhlás, An-Nás e Al-Falaq e soprava nelas. Depois passava as duas mãos sobre o corpo, tanto quanto pudesse alcançar, começando pela cabeça e pelo rosto e, em seguida, pela parte da frente do corpo, repetindo isso três vezes.

Ele ordenava àquele que fosse dormir que recitasse esta súplica: “Ó meu Senhor! Em Teu nome deito o meu corpo nesta cama e em Teu nome o levantarei. Se preservares a minha alma, tem misericórdia dela; e, se a levares, preserva-a com aquilo com que preservas os Teus servos virtuosos.” Ele disse a Fátima (r.a.): dirás trinta e três vezes «Subhán Allah», trinta e três vezes «Alhamdulillah» e trinta e quatro vezes «Allahu Akbar». Também recomendou a recitação do Ayat al-Kursi e disse: quem o recitar terá continuamente um guardião designado por Allah para protegê-lo.

Ele disse a Al-Barrá (r.a.): quando fores para a cama, faze a ablução como a ablução para a oração; depois deita-te sobre o lado direito e diz:

اللهم أَسْلَمْتُ نَفْسِي إِلَيْكَ وَوَجْهت وجهي إليك ، وفوضت أمري إِلَيْكَ، وَأَلْجَأْبَ ظَهْرِي إِلَيْكَ رغبَةً وَرَهْبَةً إِلَيْكَ، لا مَلْهَا وَلَا مَنهي مِنْكَ إِلَّا إِلَيْكَ، أَمَنتُ بِكِتَابِكَ الَّذِي أَنْزَلْتَ وَنَبِيِّكَ الَّذِي أَرْسَلْت .

“Ó Allah! Entreguei-me a Ti e voltei o meu rosto para Ti. Confiei-Te todos os meus assuntos. Voltei as minhas costas para Ti, temendo-Te e esperando em Ti. Não há refúgio nem salvação de Ti senão junto de Ti. Creio no Livro que revelaste e no Mensageiro que enviaste.” Então disse: depois disso, se morreres, morrerás sobre o Islã; e faz destas palavras as tuas últimas palavras.

Súplica ao despertar do sono: O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, ordenou àquele que despertasse do sono que recitasse esta súplica:

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي رَدْ عَلَى رُوحِي، وَعَافَانِي فِي جَسَدِي، وَأَذِنَ لِي بِذِكْرِهِ .

«Todo louvor pertence a Allah, que me devolveu a minha alma, preservou o meu corpo e me concedeu a permissão e a capacidade de recordá-Lo.» Ele próprio, ao despertar do sono, dizia:

لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ سُبْحَانَكَ اللَّه اسْتَغْفِرُكَ لِذَنْبِي، وَأَسْأَلُكَ رَحْمَتَكَ، اللهم زِدْنِي عِلْمًا، وَلَا تُنع قَلْبِي بَعْدَ إِذْ هَدَيْتَنِي، وَهَبْ لِي مِنْ لَدُنْكَ رَحْمَةً إِنَّكَ أَنْتَ الْوَهَّابُ .

«Não há divindade além de Ti; glorificado sejas! Ó Allah! Peço-Te perdão pelos meus pecados e imploro a Tua misericórdia. Ó Allah! Aumenta o meu conhecimento e, depois de me teres guiado ao caminho reto, não desvies o meu coração. Concede-me misericórdia da Tua parte. Certamente, Tu és o Magnânimo Doador.»

Foi narrado por uma cadeia autêntica que o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: aquele cujo sono for interrompido durante a noite e que não conseguir voltar a dormir, ficando apenas a virar-se de um lado para o outro, se disser e depois disser:

لا إِلَهَ إِلَّا اللهُ وَحْدَهُ لَا شَرِيكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْكَ، وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ الْحَمْدُ لِلَّهِ وَسُبْحَانَ اللهِ، وَلَا إِلهَ إِلَّا اللهِ، وَالله أَكْبَر، وَلَا حَوْلَ وَلا قُوَّةَ إِلَّا بِاللَّهِ اللَّهُ اغْفِرْ لِي ، أَوْ دَعَا، استجيب لَهُ، فَإِن تَوَمَا وَصَلَّى قَبِلَت

سَلَاتُهُ .

“Ó Allah, perdoa-me”, ou faça outra súplica, e ela será aceita. E, se ele fizer a ablução e rezar, sua oração será aceita.

Súplica contra a insônia, o pânico e o medo: Amr ibn Shuʿayb narrou de seu pai, e seu pai narrou de seu avô, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando algum de vós sentir medo durante o sono, deve dizer:

أعُوذُ بِكَلِمَاتِ اللهِ التَّامَّاتِ مِنْ غَضَبِهِ وَعِقَابِهِ وَشَرِّ عِبَادِهِ، وَمِنْ هَمَزَاتِ الشَّيَاطِينِ.

“Busco refúgio nas palavras perfeitas de Allah contra a Sua ira, o Seu castigo, o mal dos Seus servos, as insinuações malignas dos demônios e a presença dos demônios junto a mim”; então, nenhum mal lhe acontecerá. Ibn Umar ensinava isso aos seus filhos já adultos; e, para os que ainda eram menores, escrevia essas palavras em um amuleto e o pendurava em seus pescoços. Quando Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) sofreu de insônia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: “Não devo ensinar-te algumas palavras que, se as disseres, farão com que durmas?” Ele dirá:

اللهم رب السموات السبع وما أظلت، ورَبُّ الْأَرْضِينَ وَمَا أقلت، وَرَبِّ الشَّيَاطِينَ وَمَا أَضَلَّ كُن لِي جَارًا مِن شَرِّ خَلْقِكَ كُلِّهِ جَمِيعًا. أن يفرط عَلَى أَحَد مِنهُ، أَوْ أَن يَبْغِي عَلَيَّ، عَنْ جَارَكَ وَجَلَّ ثَنَاؤُكَ وَلَا إِلَهَ غَيْرُكَ .

“Ó Allah, Senhor dos sete céus e de tudo o que neles existe, Senhor das terras e de tudo o que nelas existe, protege-me contra o mal e o dano de todas as Tuas criaturas, para que nenhuma delas possa transgredir contra mim ou agredir-me. Teu refúgio é poderoso, Teu louvor é grandioso, e não há divindade além de Ti.” At-Tabarani. At-Tabarani e Ibn as-Sunni narraram, de al-Bara ibn Azib (que Allah esteja satisfeito com ele), que um homem foi ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) queixando-se de sofrer de medo causado pela solidão. Ele lhe disse: “Deves recitar:

سُبْحَانَ اللَّهَ الْمَلِكِ الْقُدُّوسُ رَبِّ الْمَلَائِكَةِ والرُّوحِ، جَلَلْت السَّمَوَاتِ وَالْأَرْضِ بِالْعِزَّةِ وَالْجَبَرُوتِ .

“Glorifico e proclamo a santidade de Allah, o Grande Rei, Senhor dos anjos e de Gabriel; Tu magnificaste os céus e a terra com poder e força.” Depois que o homem pronunciou essas palavras, Allah afastou dele o seu medo.

Ao ter um sonho ruim: Jaber (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando algum de vocês tiver um sonho de que não goste, deve cuspir levemente três vezes para o lado esquerdo e dizer:عوذ بِاللَّهِ مِنَ الشَّيْطَانِ الرَّحِيم (Peço refúgio a Allah contra Satanás)”, e mudar de lado ao deitar-se. — Muslim, Abu Dawud, An-Nasa’i, Ibn Majah.

Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que ouviu o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: “Quando algum de vocês tiver um sonho de que goste, ele será um sonho vindo de Allah. Por isso, deve louvar e agradecer a Allah e contar o sonho que teve. Mas, se tiver um sonho desagradável e indesejado, será um sonho mostrado por Satanás. Deve buscar refúgio em Allah contra seus efeitos nocivos e não contá-lo a ninguém. Assim, esse sonho não lhe causará nenhum dano.” — At-Tirmidhi.

Súplica ao vestir uma roupa: Ibnus-Sunni narrou que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) vestia qualquer roupa, camisa, manto ou turbante, dizia:

الله إلى أَسْأَلُكَ مِنْ غَيْرِهِ وَخَيْرِ مَا هُوَلَهُ. وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ قَرْهِ وَقَرْ مَا هُوَلَهُ .

“Ó Allah! Peço-Te o bem desta roupa e de seu dono, e busco refúgio em Ti contra o mal desta roupa e de seu dono.”

Foi narrado por Bin Anas que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem vestir uma roupa nova e depois disser:

الحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي كَسَانِي عَذَا وَرَزَقَنِيهِ مِنْ غَيْرِ حَوْلِ مِنِّي وَلَا قُوَّة .

“Todo louvor pertence a Allah, que me vestiu e me concedeu isto, embora eu não tivesse força nem capacidade para obtê-lo”, Allah perdoará seus pecados passados. Também é mustahabb dizer Bismillah, pois qualquer ação iniciada sem dizer Bismillah é defeituosa.

Oração para vestir uma roupa nova: Abu Sa‘id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: sempre que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, comprava uma roupa nova, dava-lhe o nome correspondente, como turbante, camisa ou manto. Depois dizia:

الله لَكَ الْحَمْدُ أَنتَ كَسَوْتَنِيْهِ، أَسْأَلُكَ غيرَهُ وَخَيْرَ مَا صَنَعَ لَهُ وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ شَرِهِ وَشَرِّ مَا صُنعَ لَهُ.

«Ó Allah! Louvor-Te por me teres vestido com ela. Peço-Te o bem que há nela e o bem para o qual foi feita. E busco refúgio em Ti contra o mal que há nela e o mal para o qual foi feita. — Abu Dawud, at-Tirmidhi.

At-Tirmidhi narrou, de ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: quem vestir uma roupa nova

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي كَسَانِي مَا أَوَارِي بِهِ مَوْرَتِي وَأَتَعْمَلْ بِهِ فِي حَيَاتِي :

«Todos os louvores pertencem a Allah, que me vestiu com esta roupa para cobrir as partes íntimas do meu corpo e para me embelezar durante a minha vida», e depois doar a roupa velha. Ele permanecerá sob a proteção e a guarda de Allah. E será considerado como estando no caminho de Allah em todas as circunstâncias, vivo ou morto.

O que dizer ao ver alguém vestindo uma roupa nova: foi narrado em um hadith autêntico que, depois de o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, vestir Umm Khalid com um manto preto, disse: «Usa-o até que fique velho». E os Companheiros costumavam dizer: «Aquele que usa uma roupa até que ela fique velha, Allah lhe dará uma roupa nova.»

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ao ver ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, vestindo uma roupa nova, disse: «Veste uma roupa nova, vive de modo louvável e morre como mártir e afortunado.» — Ibn Majah, Ibn as-Sunni.
Oração ao tirar a roupa: Ibn as-Sunni narrou, de Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ao pretender tirar a roupa, para ocultar as partes íntimas do corpo dos filhos de Adão dos olhos dos gênios, deve dizer:يشرِ اللهِ الَّذِي لَا إِلَهَ إِلَّا مَوَ«Em nome de Allah, além de Quem não há outra divindade.»

Súplica ao sair de casa: Abu Dawud narrou, por meio de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando a pessoa que sai de casa disser:

بسْمِ اللهِ تَوَكَّلْتُ عَلَى اللَّهِ، وَلَا حَوْلَ وَلَا قُوَّةَ إِلَّا بِاللَّهِ .

«Comecei minha jornada em nome de Allah, confiei em Allah; não há força nem poder senão em Allah». É-lhe dito: «Allah é suficiente para ti; foste protegido e foste guiado ao caminho reto». Então Satanás se afasta dele, e um satanás diz a outro: «Como é possível desviar aquele para quem o próprio Allah é suficiente, que foi guiado ao caminho reto e que foi protegido?»

Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou no Musnad de Ahmad esta súplica para sair de casa:

يسر الله أمنت باللهِ، اعْتَصَمْ بِاللَّهِ تَوَكَّلْتُ عَلَى اللهِ لَا حَوْلَ وَلَا قُوَّةَ إِلَّا بِاللهِ .

«Saí em nome de Allah, creio em Allah, apego-me a Allah, confio em Allah; não há força nem poder senão em Allah.

Abu Dawud, at-Tirmidhi, an-Nasa’i e Ibn Majah narraram de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Sempre que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saía de minha casa, erguia o olhar para o céu e dizia:

الله إِنِّي أَعُوذُ بِكَ أَنْ أَهلُ أَوْ أَمَل أَوْ أَزِلَ أَوْ أَزَلْ، أَوْ أَعْلِمَ أَوْ أَعْلَى، أَوْ أَجمَل أَوْ يُعْمَلْ عَلَى .

“Ó Allah! Busco refúgio em Ti para não desviar ninguém e para que ninguém me desvie; para não fazer ninguém tropeçar e para que ninguém me faça tropeçar; para não cometer injustiça contra ninguém e para que ninguém cometa injustiça contra mim; para não tratar ninguém de maneira indecorosa e para que ninguém me trate de maneira indecorosa.”

A súplica ao entrar em casa: foi narrado no Sahih Muslim. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: quando uma pessoa se lembra de Allah ao entrar em sua casa e ao comer, Satanás diz aos seus companheiros: «Não há lugar para vocês passarem a noite aqui, nem há jantar para vocês». Mas, quando ela não se lembra de Allah ao entrar em casa, Satanás diz aos seus companheiros: «Vocês podem passar a noite aqui». E, se ela não se lembra de Allah ao comer, Satanás diz: «Vocês podem passar a noite aqui e também terão comida».”

Malik al-Ash‘ari (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou em Abu Dawud que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quando alguém entra em sua casa, deve dizer:

الله إِلى أَسْأَلُكَ غَيْرَ الْمَوْلعِ وَغَيْرَ الْمَخْرج، بِسْمِ اللهِ وَلَعْنَا وَبِسْرِ اللَّهِ خَرَجْنَا وَعَلَى اللَّهِ ربنا توكلنا .

“Ó Allah! Peço-Te a melhor entrada e a melhor saída. Em nome de Allah entrei e em nome de Allah saí. E confiei em Allah, nosso Senhor.” Depois, deverá cumprimentar sua família com a saudação de paz.

Em At-Tirmidhi, Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-me: «Ó filho! Quando fores ter com tua família, saúda-os com a saudação de paz. Isso será uma bênção para ti e para os moradores da tua casa».

O que se deve dizer quando ocorre algo alegre: ao ver algo alegre acontecer em seus bens e entre seus filhos, deverá dizer: (مَا شَاءَ اللَّهُ لَا قُوَّةَ إِلَّا بِال ) Allah fez acontecer aquilo que quis. Não há poder para ninguém além de Allah. Assim, não verá nisso nada desagradável. E, se vir algo desagradável, deverá dizer: (الْحَمْدُ لِلَّهِ عَلَى كُلِّ مالِ ) «Louvado seja Allah em todas as circunstâncias». Allah disse: «Quando entraste em teu jardim, por que não disseste: “Aquilo que Allah quis aconteceu. Não há poder para ninguém senão com a ajuda de Allah”?»

Foi narrado de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) em Ibn as-Sunni que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quando Allah concede a um servo uma bênção relacionada à sua família, aos seus bens e aos seus filhos, se ele disser: (مَا شَاءَ اللَّهُ لَا تَوْةَ y) (Aquilo que Allah quis aconteceu. Não há poder para ninguém além de Allah), não verá nisso nenhuma calamidade além da morte». Também foi narrado de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) via algo alegre, dizia:

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي بِنِعْمَتِهِ تَيْرٌ الصالحات

«Todo louvor pertence a Allah, por cuja graça todas as boas ações alcançam a perfeição.» E, quando via algo triste, dizia:

الْمَدُ لِلَّهِ عَلَى كُلِّ حَالٍ

«Em todas as circunstâncias, os agradecimentos e louvores pertencem a Allah.» Ibn Majah.

O que dizer ao olhar o rosto no espelho. Foi narrado por Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, que, quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, olhava para o espelho, dizia:

الْحَمْدُ لِلَّهِ اللَّهُ كَمَا حَسَنْتَ خَلْقِي نَحَسَنَ خَلْقِي .

«Todo louvor pertence a Allah. Ó Allah! Assim como tornaste belo o meu rosto, torna belo também o meu caráter e a minha conduta.»

Foi narrado por Anas, que Allah esteja satisfeito com ele: ao olhar-se no espelho, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia:

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي سَوَّى خَلْقِي فَعَدَّ لَهُ ، وَكَرَّمَ سُورَة وَجْمِي فَحَسْنَهَا، وَجَعَلَنِي مِنَ الْمُسْلِمِينَ .

“Louvado seja Allah, que tornou harmoniosas as proporções do meu corpo, embelezou e honrou o meu rosto e me incluiu entre os muçulmanos.
O que dizer ao ver uma pessoa afligida: At-Tirmidhi narrou, sob autoridade de Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: quem disser o seguinte ao ver uma pessoa afligida não será atingido por aquela aflição:

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي عَافَانِي مِمَّا ابْتَلَاكَ بِهِ، وَفَضْلَنِي عَلَى كَثِيرٍ مِنْ خَلَقَ تَفْضِيلاً،

“Todo louvor pertence a Allah, que me protegeu da calamidade que te atingiu e me deu preferência sobre muitas de Suas criaturas.”

O Profeta disse, e os sábios disseram: esta súplica deve ser feita em segredo, de modo que somente a própria pessoa a ouça, e não se deve permitir que a pessoa aflita a ouça, para que não se entristeça. Contudo, se a calamidade que a atingiu for punição por algum delito ou resultar de um ato pecaminoso, e não houver possibilidade de surgir qualquer problema ao fazê-la ouvi-la, pode-se fazê-la ouvi-la.

O que dizer ao ouvir o canto do galo, o zurro do jumento e o latido do cão: Bukhari e Muslim narraram, de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah disse: “Quando ouvirdes o zurro do jumento, buscai refúgio em Allah contra Satanás, pois ele viu Satanás. E quando ouvirdes o canto do galo, pedi a Allah o Seu favor, pois ele viu um anjo.” No hadith de Abu Dawud é dito: quando, à noite, ouvirdes o latido de cães conhecidos e o zurro de jumentos, buscai refúgio em Allah contra eles, pois eles veem o que vós não vedes.

O que dizer durante o vento e a tempestade: Abu Dawud narrou, de Abu Huraira, que o Mensageiro de Allah disse: o vento provém da misericórdia de Allah. Porém, ele pode trazer misericórdia ou castigo. Portanto, quando o virdes soprando, não o amaldiçoeis. Pedi a Allah o seu bem e buscai refúgio em Allah contra o seu mal.

Foi narrado no Sahih Muslim, por Aisha, que, quando soprava uma tempestade, o Mensageiro de Allah dizia:

الله إِنِّي أَسْأَلُكَ خَيْرَهَا وَخَيْرَ مَا فِيهَا وَخَيْرَ مَا أَرْسَلَت بِهِ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ قَوْمًا وَهَرَ مَا أَرْسَلَتْ بِهِ.

“Ó Allah! Peço-Te o benefício dela, o benefício que há nela e o benefício do propósito para o qual a enviaste. E busco refúgio em Ti contra o mal dela e contra o mal do propósito para o qual a enviaste.”

O que se deve dizer ao ouvir o trovão

At-Tirmidhi narrou, sob a autoridade de Ibn Umar, que, quando o Mensageiro de Allah ouvia o estrondo das nuvens e o trovão, dizia:اللَّهم لَا تَقْتُلْنَا بِغَضَبِكَ وَلا تُمْلِكْنَا بِعَذَابِكَ، وَعَافِنَا قَبْلَ ذَلِكَ. “Ó Allah! Não nos destruas com a Tua ira, não nos destruas com o Teu castigo e concede-nos segurança antes disso.
A súplica ao ver a lua nova

At-Tabarani narrou, sob a autoridade de Abdullah ibn Umar, que, ao ver a lua nova, o Mensageiro de Allah dizia:

الله أكبر، اللهم أَمِلَّهُ عَلَيْنَا بِالأمن والإِيمَانِ، وَالسَّلَامَةِ وَالْإِسْلامِ، وَالتَّوْفِيقِ لِمَا تُحِب وترسى رَبَّنَا وَرَبُّكَ الله .

“Allah é o Maior! Ó Allah, faze desta lua nova, para nós, uma fonte de segurança, fé, paz, submissão ao Islã e inspiração para aquilo que Te agrada. (Ó lua nova,) nosso Senhor e o teu Senhor é Allah.”

Foi narrado por Qatadah, em Abu Dawud, que, quando o Mensageiro de Allah via a lua nova, dizia:

هلالُ خَيْرٍ وَرُهْ حِلَالُ خَيْرٍ وَرُهُ، أَمَنْتُ بِاللَّهِ الَّذِي خَلَقَكَ .

Esta é a lua nova da bondade e da orientação, esta é a lua nova da bondade e da orientação. Cremos n’Aquele que te criou”, três vezes. Depois, dizia:

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي ذَهَبَ بِشَمْرٍ كَذَا وَجَاءَ بِشَمْرٍ كَلَّا …

“Todo louvor pertence a Allah, que levou embora tal mês e trouxe tal mês.”

O que se deve dizer em momentos de grande calamidade, aflição, preocupação e desastres:

1. Al-Bukhari e Muslim narram, com base em Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele —, que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, quando era acometido por uma calamidade e preocupação, dizia:

لَا إِلَهَ إِلَّا اللهُ الْعَظِيمُ الْحَلِيمُ، لا إله إلا الله رب العرش العظيم، لا إلهَ الْأَرَبُّ السَّمَوَاتِ ورب الأرضِ، وَرَبُّ الْعَرْشِ الْكَرِيمِ.

“Não há divindade além de Allah, o Magnífico, o Clemente. Não há divindade além de Allah, Senhor do Trono Magnífico. Não há divindade além de Allah, Senhor dos céus e da Terra e Senhor do Trono Magnífico.”

2. Foi narrado por Hasan (que Allah esteja satisfeito com ele), em At-Tirmidhi, que, quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se deparava com uma calamidade difícil, uma crise ou uma tarefa extremamente urgente, dizia:

يَا مَنْ يَا قَيُّومُ بِرَحْمَتِكَ أَسْتَغِيه .

“Ó Vivente, ó Subsistente, por meio da Tua misericórdia, busco auxílio e libertação.”

3. Foi narrado por Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele), em At-Tirmidhi, que, quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enfrentava uma crise difícil, erguia a cabeça para o céu e dizia:

سبحان الله العظيم. يَا حَيُّ يَا قَيُّومُ .

E, quando fazia uma súplica com grande humildade e insistência, dizia:

4. Foi narrado por Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), em Abu Dawud, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “A pessoa angustiada deverá suplicar, dizendo:”

اللَّه رَحْمَتَكَ أَرْجُو، فَلَا تَكِلْنِي إِلى نَفْسِي طَرْفَةَ عَيْنِ، وَأَصْلِحْ لِي مَانِي كُلَّهُ، لَا إِلَهَ إِلَّا أَنْتَ.

“Ó Allah, espero na Tua misericórdia; não me entregues a mim mesmo nem por um instante. Corrige todas as minhas dificuldades. Não há outro que socorra além de Ti.”

5. Foi narrado por Asma bint Umays, em Abu Dawud, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Queres que te ensine algumas palavras para recitares em momentos de preocupação?»

اللَّهُ اللَّهُ رَبِّي لَا أَمْرِكَ بِهِ عَيْنًا .

“Allah, Allah; Ele é o meu Senhor, e não associarei ninguém a Ele.” Deverá dizê-lo sete vezes.

6. Foi narrado por Sa’d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele, em Tirmidhi, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: quando o homem do peixe — o Profeta Yunus, que a paz esteja com ele — se encontrava no ventre do peixe, suplicou:

لا إلهَ إِلَّا أَنتَ سُبْحَانَكَ إِلى كُنتُ مِنَ الظَّالِمِينَ .

“Não há outro que socorra além de Ti; glorificado és Tu! Eu fui injusto.” Nunca aconteceu de alguém fazer esta súplica sem que ela fosse aceita. Em outra narração consta: «Conheço uma palavra que, se qualquer pessoa aflita e angustiada a disser, Allah certamente a libertará dessa aflição. É a súplica do meu irmão Yunus, que a paz esteja com ele.»

7. Ahmad e Ibn Hibban narraram, com base em Ibn Mas’ud, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: se algum servo for acometido por uma preocupação e disser:

الله إِنِّي عَبْدُكَ ابْن عَبْدِكَ ابْن أُمَتِكَ نَاصِيَتِي بِيَدِكَ، مَاضٍ فِي حُكْمُكَ، عَدْلٌ فِي قَضَاؤُكَ، أسألك بكل اسم هو لك سميت بِهِ نَفْسَكَ، أَوْ أَنْزَلْتَهُ فِي كِتَابِكَ، أَوْ عَلَيْتَهُ أَحَدًا مِنْ خَلْقِكَ، أَوْ استاثرت بِهِ فِي عِلْمِ الْغَيْبِ عِنْدَكَ،

أَن تَجْعَلَ الْقُرْآن ربيع قلبي، وَنُورَ صَدْرِي وَجَلاءَ حُزْنِي و ذهاب هیں.

Ó Allah! Sou Teu servo, filho do Teu servo e filho da Tua serva; minha testa está prostrada diante de Ti, e o Teu decreto sobre mim se cumpre. O Teu julgamento é inteiramente justo. Suplico-Te por cada um dos Teus nomes: aqueles com os quais Te nomeaste, que revelaste no Teu Livro, que ensinaste a alguma das Tuas criaturas ou que reservaste, em Teu conhecimento do oculto. Faze do Alcorão a primavera do meu coração, a luz do meu peito, o meio de remover minhas preocupações e a solução dos meus problemas.» Então Allah removerá sua tristeza e suas preocupações e lhe concederá alegria em seu lugar.

O que dizer ao enfrentar o inimigo e ao temer um governante

Abu Dawud e An-Nasa’i narraram, de Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, quando temia sofrer algum dano por parte de alguém, dizia:

اللهم إِنَّا نَجْعَلُكَ فِي نَصُورِهِمْ، ونعوذ بك من شرورهم :

«Ó Allah! Coloco-Te diante deles e busco refúgio em Ti contra o mal que possam causar.»

Ibn as-Sunni narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu para uma expedição militar e disse:

يَا مَالِكَ يَوْمِ الدِّينِ إِيَّاكَ أَعْبُدُ وَإِيَّاكَ أَسْتَعِينُ .

“Ó Soberano do Dia do Juízo, somente a Ti adoramos e somente a Ti pedimos ajuda.” Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Então vi os anjos matando as pessoas pela frente e por trás.

Foi narrado por Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quando temeres algum governante ou outra pessoa, dize:

لَا إِلَهَ إِلَّا الْعَلِيمُ الْكَرِيرُ، سُبْحَانَ اللهِ رَبِّي سُبْحَانَ اللهِ رَبِّ السَّمَوَاتِ السَّبْع وَرَبِّ الْعَرْه العظيم، لا إلهَ إِلَّا أَنْتَ مَنْ جَارَكَ، وَجَلْ تَنَاؤُكَ .

“Não há divindade além de Allah, o Misericordioso, o Clemente. Glorificado seja o meu Senhor Allah; glorificado seja Allah, Senhor dos sete céus e Senhor do Trono grandioso. Não há divindade além de Ti; o Teu protegido é honrado e o Teu louvor é sublime.”

Al-Bukhari narrou, por intermédio de Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que, quando Ibrahim, que a paz esteja com ele, foi lançado ao fogo, disse:

.سَبْنَا اللهُ وَنِعْرَ الْوَكِيل

“Allah é suficiente para mim, e Ele é o melhor dos protetores.” Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também disse essas palavras quando as pessoas disseram: “Os inimigos reuniram um enorme exército contra vós.” Awf ibn Malik, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pagou as dívidas de duas pessoas. Quando uma delas estava partindo, disse: “Allah é suficiente para nós, e Ele é o melhor dos protetores.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah, o Altíssimo, censura a contração de dívidas. No entanto, deves certamente agir. E, quando uma aflição ocorrer, dirás:

نا الله .وَيَعْرَ الْوَكِيل

Allah é suficiente para mim, e que excelente Protetor Ele é.

Quando alguma tarefa parece difícil: Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia:

اللهم لا سهل إِلَّا مَا جَعَلْتَهُ سَهْلاً، وَأَنتَ تَجْعَلُ الْحَزْن سَهْلاً .

“Ó Allah, nada é fácil exceto aquilo que Tu tornas fácil. Somente Tu podes tornar fácil o que é difícil.

Quando se torna difícil ganhar o sustento, Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quando o sustento de qualquer um de vocês se torna difícil, que diga ao sair de casa:

بِسْمِ اللَّهِ عَلَى نَفْسِي وَمَا لِي وَيَهْنِي الله رَبِّنِي بِقَضَائِكَ ، وَبَارِكْ لِي فِيهَا قَدر حَتَّى لَا أُحِب تفصيل ما أَمْرُسَ، وَلَا تَأخِيرَ مَا عَلى .

“Saio em nome de Allah no que diz respeito à minha vida, aos meus bens e à minha religião. Ó Allah, faze-me satisfeito com o Teu decreto e abençoa para mim aquilo que foi determinado para mim, para que eu não goste de me apressar para obter aquilo que Tu atrasaste, nem de atrasar aquilo que Tu adiantaste.”

O que dizer quando se está endividado: 1. At-Tirmidhi narrou, por intermédio de Ali (r.a.), que certo mukatab (escravo a quem foi prometida a liberdade mediante o pagamento de um resgate determinado) foi até ele e disse: “Não consigo pagar meu resgate; portanto, ajude-me.” Ali (r.a.) disse: “Quer que eu lhe ensine uma súplica que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) me ensinou? Mesmo que você tenha uma dívida do tamanho de uma montanha, Allah providenciará seu pagamento por você.” Você deverá dizer:

الله الفني بحلالك عن حَرَامِكَ، وَأَغْنِنِي بِفَضْلِكَ عمن سواك .

“Ó Allah, torna-me independente do ilícito por meio do Teu sustento lícito e, por Tua graça, torna-me independente de todos além de Ti.”

2. Abu Sa’id (r.a.) disse: Certo dia, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) entrou na mesquita. Lá, encontrou um companheiro ansari chamado Abu Umama. Ele disse: “Ó Abu Umama, o que está acontecendo? Por que o vejo na mesquita fora do horário da oração?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, estou sendo afligido por dívidas e preocupações.” Ele disse: “Quer que lhe ensine uma súplica que, se você a recitar, Allah removerá suas preocupações e pagará suas dívidas?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, ensine-me.” O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Recite pela manhã e à tarde:”

اللهم إني أعوذ بك من الهم والحزن، وأعوذ بك من العجز وَالْكَسَلِ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنَ الْعين والبغل، وأعوذ بك من علبة الدين وقهر الرجال .

“Ó Allah, busco refúgio em Ti contra as preocupações e a ansiedade, contra a incapacidade e a preguiça, contra a covardia e a avareza, e contra o peso das dívidas e o domínio das pessoas.” Abu Umama disse: “Depois, recitei-a, e Allah me livrou das preocupações e das dívidas.”

O que dizer ao se deparar com uma situação desagradável:

Ibn as-Sunni narrou, por intermédio de Abu Huraira (r.a.), que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: Sempre que ocorrer algo indesejado em qualquer situação, até mesmo com relação ao cadarço do sapato, diga إنا الله وإنا إلزامون“Somos de Allah e a Ele retornaremos”, pois, se algo indesejado ocorrer até mesmo com o cadarço do sapato, isso também será uma calamidade.

Muslim relatou, com base em Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O crente determinado e forte é melhor que o crente fraco, embora haja bem em ambos. Esforça-te por aquilo que te é benéfico, busca a ajuda de Allah e não te mostres incapaz. Quando fores atingido por uma calamidade, não digas: ‘Se eu tivesse feito isso, tal coisa não teria acontecido’. Em vez disso, diz: ‘Allah assim determinou para mim, e Ele faz o que quer’. Pois a palavra ‘se’ abre o caminho para Satanás.”

Quando Satanás suscitar dúvidas sobre a fé: 1. Bukhari e Muslim relataram, com base em Abu Huraira

que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Satanás vem a alguns de vós e lhes lança estas sugestões: ‘Quem criou isto? Quem criou aquilo?’ Até que chega a dizer: ‘Quem criou o teu Senhor?’ Nesse ponto, a pessoa deve parar e buscar refúgio em Allah, dizendo:أعوذُ بِاللَّهِ مِنَ الشَّيْطَانِ الرَّحِيم .

2. Há um hadith autêntico no qual o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “As pessoas continuarão fazendo perguntas, até que chegarão a perguntar: ‘Allah criou o universo; mas quem criou Allah?’ Quando esse tipo de pensamento surgir na mente de alguém, que diga:اس بِالله ورسلهEu creio em Allah e em Seus Mensageiros.”

O que dizer no momento da ira — Bukhari e Muslim relataram, com base em Sulaiman ibn Surad, que ele disse: “Eu estava sentado junto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), enquanto dois homens trocavam insultos. O rosto de um deles ficou vermelho de raiva e as veias de seu pescoço incharam. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Conheço uma palavra que, se ele a disser, sua ira se acalmará. Se ele disser:عُوْذُ بِاللَّهِ مِنَ الشَّيْطَانِ الرَّحِيرِentão sua ira desaparecerá.”

5. Algumas súplicas de significado abrangente

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: ‘O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) gostava de súplicas de significado abrangente.’ Entre essas súplicas, mencionarei algumas das mais importantes:
Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: A súplica que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazia com maior frequência era:

الله رَبَّنَا آتِنَا فِي الدُّنْيَا حَسَنَةً وَفِي الْآخِرَةِ حَسَنَةً وَقِنَا عَذَابَ النَّارِ .

“Ó nosso Senhor, concede-nos o bem neste mundo e também o bem na Outra Vida, e salva-nos do castigo do Inferno.” Muslim relata que um homem, consumido pela doença, definhou tanto que ficou leve como um filhote de pássaro. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi visitá-lo. Perguntou-lhe: “Fazes alguma súplica?” Ele respondeu: “Sim. Eu costumava suplicar: ‘Ó Allah, se desejas castigar-me na Outra Vida, apressa esse castigo e aplica-o a mim já neste mundo.’” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Subhanallah! Tu não serias capaz de suportar isso. Em vez disso, diz: ‘Ó Allah, concede-nos o bem neste mundo e também o bem na Outra Vida, e salva-nos do castigo do Inferno.’”

Ahmad e An-Nasa’i relatam que Sa‘d ouviu um de seus filhos dizer: “Ó Allah, peço-Te o Paraíso, peço-Te os seus aposentos, peço isto e aquilo, e busco refúgio em Ti contra o Inferno, peço proteção contra as suas correntes, contra os seus grilhões e assim por diante.” Ao ouvir isso, Sa‘d disse: “Pediste a Allah muitas coisas boas e buscaste refúgio n’Ele contra muitas coisas más. Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: ‘Surgirão pessoas que excederão os limites nas súplicas. É suficiente dizer a Allah apenas isto:”

الله إِنِّي أَسْأَلُكَ مِنَ الْخَيْرِ كَلِّهِ مَا عَلَيْهُ مِنْهُ وَمَا لَمْ أَعْلَمْ، وَأَعُوْذُبِكَ مِنَ الشَّرِّ كُلِهِ مَا عَلِمْتُ مِنْهُ وما لم أعلى.

“Ó Allah, peço-Te todo tipo de bem, tanto o que conheço quanto o que não conheço. E busco refúgio em Ti contra todo tipo de mal, tanto o que conheço quanto o que não conheço.”

Ahmad e An-Nasa’i relatam, a partir de Ibn Abbas, que uma das súplicas do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era esta:

رب أَعِنِّي وَلَا تَعِنْ عَلَى وَانْصُرْنِي وَلا تَنْصُرْ عَلَى، وَاشْكُرْ لِي وَلَا تَمْكُرْ عَلَى، وَاهْدِنِي وَيَسْرَ الْهُدَى لي وَانْصُرْنِي عَلَى مَن بَغَى عَلَى، رَبِّ اجْعَلْنِي لَكَ مَكَارًا ، لَكَ ذكارًا، لَكَ رَهَابًا ، لَكَ مِطْوَاعًا ، لَكَ أواما ، إِلَيْكَ مُنِيبًا، رَبِّ

تَقَبلُ تَوْبَتِي، وَاغْسِلْ حَوْبَتِي، وَاحِبْ دَعْوَتِي، وَثَبت مُجْتِي، وَسَدد لِسَانِي، وَاهْدِ قَلْبِي، وَاسْأَلْ سَخِيمَةٌ صَدْرِي .

Ó Allah, ajuda-me e não ajudes contra mim. Concede-me a vitória e não permitas que eu seja derrotado. Planeja a meu favor e não contra mim. Guia-me pelo caminho reto e torna-o fácil para mim. Ajuda-me contra quem me hostiliza. Ó Allah, faze de mim alguém profundamente grato a Ti, que Te recorda abundantemente; concede-me a capacidade de temer-Te intensamente, obedecer-Te plenamente, dedicar-me inteiramente a Ti e voltar-me para Ti com todo o meu ser. Ó meu Senhor, aceita o meu arrependimento, apaga os meus pecados, aceita a minha súplica, estabelece a minha argumentação, torna a minha fala eloquente e clara, guia o meu coração à retidão e ao caminho correto e, se houver no meu peito inveja ou rancor contra alguém, remove-os.

Muslim narrou, citando Zayd ibn Arqam, que ele disse: «Eu só vos transmito aquilo que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse.» Ele costumava dizer:

اللَّهُ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنَ الْعِجْزِ وَالْكَسَلِ، وَالْعُبْنِ وَالْبَخْلِ وَالْمَرَةِ، وَعَذَابِ الْقَبْرِ اللَّهُ أَسِ نَفْسِي تَقْوَامًا، وَزَيْهَا أَنْتَ خَيْرٌ مَن زَكَاهَا ، إِنَّكَ وَلِيُّهَا وَمَوْلَاهَا ، اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنْ عِلْمٍ لَا يَنفَعُ، وَمِن قَلْبِ لا يَخْتَعُ، وَمِنْ نَفْسٍ لا

تقبع ، وَمِن دَعوة لا يَسْتَجَابَ لَهَا .

«Ó Allah, busco refúgio em Ti contra a incapacidade, a preguiça, a covardia, a avareza, a decrepitude extrema e o tormento da sepultura. Ó Allah, concede à minha alma autocontrole e temor a Ti; purifica-a, pois Tu és o melhor dos purificadores, e és o seu Protetor e Guardião. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra o conhecimento que não traz benefício, o coração que não é humilde, a alma que não se contenta e a súplica que não é atendida.»

Foi narrado no Mustadrak de al-Hakim que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Ó povo, desejais fazer uma súplica abrangente?» Eles responderam: «Ó Mensageiro, sim.» Ele disse: «Então dizei:

اللهم أعِنَّا عَلَى ذِكْرِكَ وَمُكْرِكَ وَحُسْنِ عِبَادِنِكَ .

«Ó Allah, ajuda-nos a recordar-Te, agradecer-Te e adorar-Te da melhor maneira.» Ahmad narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Dizei sempre:باذَا الْجَلَالِ والإكرام». Ahmad também narrou: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, costumava dizer:يَا مُقَلْبَ الْقُلُوبِ تَيْن قَلْبِي عَلَى دِيْنِكَ Ó Transformador dos corações, firma o meu coração na Tua religião. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, costumava dizer:

الله إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنْ زَوَالِ نِعْمَتِكَ، وَتَصَوَّلِ عَافِيَتِكَ، وَفَجَاةٍ نَقْمَتِكَ وَجَمِيعِ سَخَطِكَ .

“Ó Allah, busco refúgio em Ti contra a perda das Tuas dádivas, o desaparecimento do Teu favor e da Tua proteção, a Tua vingança súbita e toda a Tua ira.” Foi narrado por At-Tirmidhi que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia:

اللَّهُمَّ انْفَعْنِي بِمَا عَلَّمْتَنِي، وَعَلَنِي مَا يَنْفَعْنِي وَزِدْنِي عِلْمًا، وَالْحَمْدُ لِلَّهِ عَلَى كُلِّ حَالٍ، وَأَعُوذُ بِاللَّهِ مِنْ حَالِ أَهْلِ النَّارِ.

“Ó Allah, beneficia-me com o conhecimento que me concedeste, concede-me o conhecimento que é benéfico, aumenta o meu conhecimento, faze com que Te louve em todas as circunstâncias e busco refúgio em Ti contra o sofrimento dos habitantes do Inferno.”

Foi narrado por Muslim que Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e pediu-lhe um servo. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse-lhe: “Dize:”

اللَّهُ رَبِّ السَّمَوَاتِ السبع العَرْشِ الْعَظِيمِ، رَبَّنَا وَرَبِّ كُلِّ شَيْءٍ، مَنْزِلَ التَّوْرَاةِ وَالإِنْجِيلِ والقُرْآنِ، فَالِقَ الْحَب وَالنَّوَى، أَعوذُبِكَ مِنْ شَرِّ كُلِّ شَيْءٍ أَنْتَ أَخِذٌ بِنَاصِيَتِهِ، أَنْتَ الْأَوَّلُ فليس قَبْلَكَ شَيْءٌ، وَأَنْتَ الأخرَ فَلَيْسَ بَعْدَكَ

شَيْءٌ، وَأَنْتَ الظَّامِرُ فَلَيْسَ فَوْقَكَ شَيْءٌ، وَأَنْتَ الْبَاطِنُ فَلَيْسَ دُونَكَ شَيْءٌ، وأنت الأخرَ فَلَيْسَ بَعْدَكَ شَيْءٌ، وَأَنتَ الظَّاهِرُ فَلَيْسَ فَوْقَكَ في وانت البَاطِنُ فَلَيْسَ دُونَكَ شَيْءٌ، اقْضِ عَلى الدين، وَأَغْنِنِي مِنَ الفقر.

Ó Allah, Senhor dos sete céus e do Trono Magnífico, nosso Senhor e Senhor de todas as coisas, Revelador da Torá, do Evangelho e do Alcorão, Germinador das sementes. Busco refúgio em Ti contra o mal de tudo aquilo que Tu submeteste ao Teu domínio. Tu és o Primeiro; nada existia antes de Ti. Tu és o Último; nada existirá depois de Ti. Tu estás acima de todos; nada está acima de Ti. Tu és o Oculto; nada é mais oculto do que Tu. Paga a minha dívida e livra-me da pobreza, tornando-me rico.”

Também foi narrado que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia: اللَّمَرْ إِنِّي أَسْأَلُكَ الْهُدَى وَالتَّقَى وَالْعَقاف والفنى

“Ó Allah, peço-Te orientação pelo Teu caminho reto, temor a Deus, autocontrole e prosperidade.”

At-Tirmidhi e al-Hakim narram, com base em Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) frequentemente, ao se levantar de uma reunião, fazia a seguinte súplica por seus companheiros:

اللَّهُمَّ اقْسِرْ لَنَا مِنْ خَشْيَتِكَ مَا تَقُولُ بِهِ بَيْنَنَا وَبَيْنَ مَعْصِيَتِكَ ، وَمِنْ طَاعَتِكَ مَا تُبَلِّقْنَا بِهِ جَنَّتَكَ، ومِنَ الْيَقِينِ مَا تَمَوْنَ بِهِ عَلَيْنَا مَصَالِبَ الدُّنْيَا، وَمَتِّعْنَا بِأَسْمَانَا وَأَبْصَارِنَا، وَقُوَّتِنَا مَا أَحْيَيْتَنَا، وَاجْعَلْهُ الْوَارِثُ مِنَّا وَاجْعَلْ قَارَنَا

عَلَى مَنْ ظَلَمَنَا، وَالْمُرْنَا عَلَى مَنْ عَادَانَا، وَلَا تَجْعَلْ مُصِيبَتَنَا فِي دِينِنَا ولا تجعل الدُّنْيَا أَكْبَرَ مَيْنَا، وَلَا مَبْلَغَ عِلْمِنَا، وَلَا تُسَلَّمَ عَلَيْنَا مَنْ لَا يَرْحَمْنَا .

“Ó Allah, concede-nos um temor de Ti que se interponha entre nós e a desobediência a Ti. Concede-nos obediência e adoração a Ti que nos conduzam ao Teu Paraíso, e uma fé firme que torne leves para nós, neste mundo, todas as calamidades. Permite que nos beneficiemos de nossos olhos, ouvidos e forças durante toda a vida. E permite que também se beneficiem disso aqueles dentre nós que nos sucederão. Toma vingança por nós daquele que nos injustiçou. Concede-nos vitória sobre nossos inimigos. Não nos submetas a provações em nossa religião. Não faças do mundo nossa maior prioridade nem o limite do nosso conhecimento. E não concedas autoridade sobre nós àquele que não terá misericórdia de nós.”

6. Enviar salat e salam sobre o Mensageiro

O Deus Altíssimo disse:

إِنَّ اللَّهَ وَمَلَائِكَتَهُ يُصَلُّونَ عَلَى النَّبِيِّ يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا صَلُّوا عَلَيْهِ وَسَلَّمُوا تَسْلِيمًا.

«Certamente, Allah e Seus anjos enviam salat ao Profeta. Ó crentes, enviai salat e saudação sobre ele.»

Bukhari relatou: Abu al-‘Aliya disse que o envio de salat por Allah significa elogiá-lo diante dos anjos, enquanto o envio de salat pelos anjos significa fazer súplicas. Segundo Tirmidhi, Sufyan al-Thawri e vários outros eruditos, o salat de Allah significa misericórdia, e o salat dos anjos significa pedir perdão pelos pecados.

Ibn Kathir disse: O objetivo deste versículo é informar quão elevada é a posição de Seu Profeta diante dos anjos mais próximos de Allah. Ele informa que Allah o elogia diante de Seus anjos mais próximos, e que os anjos enviam salat e saudação sobre ele. Ele ordenou aos crentes que enviassem salat e saudação sobre ele, para que se reunissem as bênçãos e saudações de todos os habitantes da Terra e do céu. Há muitos hadiths sobre esse assunto. Citarei aqui alguns deles:

1. Foi relatado por Muslim que Abdullah ibn Amr ibn al-‘As ouviu o Mensageiro dizer: «Quem enviar salat sobre mim uma vez, Allah enviará salat sobre ele dez vezes.»

2. Tirmidhi relatou, segundo Ibn Mas‘ud: «No Dia da Ressurreição, a pessoa mais próxima de mim será aquela que mais enviava salat sobre mim.» Tirmidhi disse: «Este é um hadith bom.» Ou seja, ela será a mais merecedora de obter minha intercessão e a que ocupará a posição mais próxima de mim.

3. Abu Dawud relatou, segundo Abu Hurayra, que o Mensageiro de Allah disse: «Não transformeis meu túmulo em lugar de lamento. Enviai salat sobre mim, pois, onde quer que estejais, vosso salat chegará até mim.»

4. Abu Dawud e Nasa’i relataram, segundo Aws, que o Mensageiro de Allah disse: «A sexta-feira é um dos vossos melhores dias. Portanto, enviai mais salat sobre mim nesse dia, pois vosso salat é apresentado a mim.» As pessoas perguntaram: «Ó Mensageiro de Allah, como nosso salat será apresentado a vós? Vós já tereis morrido então.» O Mensageiro de Allah disse: «Allah, o Altíssimo, proibiu que a terra consumisse os corpos dos profetas.»

5. Foi relatado por Abu Dawud, segundo Abu Hurayra, que o Mensageiro de Allah disse: «Sempre que alguém me envia uma saudação, Allah devolve minha alma a mim, para que eu possa responder à sua saudação.»

6. O Imã Ahmad narrou, através de Abu Talha al-Ansari, que certa manhã o Mensageiro de Allah foi visto muito alegre e bem-humorado. As pessoas disseram: “Ó Mensageiro de Allah, esta manhã o senhor apareceu alegre e bem-humorado.” Ele respondeu: “Sim. Hoje veio até mim um mensageiro da parte do meu Senhor e disse: ‘Quem, dentre a sua comunidade, invocar bênçãos sobre você uma vez, Allah registrará para ele dez boas ações, perdoará dez de seus pecados, elevará sua posição dez graus e invocará bênçãos semelhantes sobre aquele que as invocou’ — isto é, fará descer misericórdia sobre ele.”

7. Foi narrado por Abu Hurayra que o Mensageiro de Allah disse: “Quem desejar receber uma grande recompensa depois de invocar bênçãos sobre mim, minha família e meus parentes seguidores, que recite esta invocação:”

اللَّهُمَّ مَل عَلَى مُحَمَّدِ النَّبِيِّ وَأَزْوَاجِهِ أَمْهَاتِ الْمُؤْمِنِينَ وَذُرِّيَّتِهِ وَأَهْلِ بَيْتِهِ كَمَا صَلَّيْتَ عَلَى آلِ إِبْرَاهِيرَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَعِي — Abu Dawud e al-Nasa’i.

8. Foi narrado por Ubayy ibn Ka’b que, depois de passados dois terços da noite, o Mensageiro de Allah se levantava e dizia: “Ó povo, lembrai-vos de Allah. Lembrai-vos de Allah; chegou o acontecimento estremecedor” — isto é, ocorreu o primeiro toque da trombeta. “Logo depois virá o acontecimento seguinte” — isto é, o segundo toque da trombeta. “A morte vem trazendo tudo o que há dentro dela. A morte vem trazendo todos os seus benefícios.” Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, desejo aumentar minhas invocações de bênçãos sobre você. Quanto devo invocar?” Ele disse: “O quanto quiseres.” Eu disse: “Um quarto?” Ele disse: “O quanto quiseres. Porém, se aumentares além de um quarto, será melhor para ti.” Eu disse: “A metade?” Ele disse: “O quanto quiseres. Se aumentares mais, será melhor para ti.” Eu disse: “Então, dois terços?” Ele disse: “O quanto quiseres. Contudo, se puderes aumentar ainda mais, será melhor.” Eu disse: “Invocarei bênçãos sobre você durante toda a minha reunião.” Ele disse: “Então isso será suficiente para afastar todas as tuas preocupações e teus pecados serão perdoados.” — Al-Tirmidhi.

É obrigatório invocar bênçãos e saudações sempre que se ouve o nome do Mensageiro de Allah: Um grupo de eruditos, entre eles al-Tahawi e al-Halimi, considera obrigatório invocar bênçãos sobre o Mensageiro sempre que seu nome for ouvido. A prova disso é o hadith narrado por Abu Hurayra em al-Tirmidhi. O Mensageiro de Allah disse: “Que seja humilhado aquele diante de quem meu nome é mencionado e que não invoca bênçãos sobre mim. Que seja humilhado aquele que alcança o mês do Ramadan, mas não consegue obter o perdão de seus pecados enquanto o Ramadan ainda está presente. Que seja humilhado aquele que encontra seus pais em idade avançada, mas eles não o fazem entrar no Paraíso” — isto é, não consegue assegurar para si a entrada no Paraíso por meio do serviço aos pais. Foi narrado por Abu Dharr que o Mensageiro de Allah disse: “Aquele diante de quem meu nome é pronunciado, mas não invoca bênçãos sobre mim, é o mais avarento.”

Segundo outros, é obrigatório invocar bênçãos uma vez em uma reunião. Depois disso, durante o restante da reunião, não há problema em não fazê-lo novamente. Contudo, fazê-lo é recomendável. Foi narrado por Abu Hurayra que o Mensageiro disse: “Sempre que um grupo ou comunidade se reúne em uma reunião e nela não se faz a recordação de Allah nem se invocam bênçãos sobre o Mensageiro, essa reunião se tornará para eles uma causa de prejuízo no Dia da Ressurreição. Se Allah quiser, Ele os castigará, ou os perdoará.” — Al-Tirmidhi. Al-Tirmidhi disse que o hadith é hasan.

É recomendável mencionar bênçãos e saudações sempre que o nome do Mensageiro de Allah for mencionado: Embora os eruditos considerem recomendável invocar bênçãos e saudações sobre o Mensageiro sempre que seu nome é escrito, não há nenhum hadith autêntico que possa servir como prova disso. Al-Khatib al-Baghdadi mencionou: “Vi muitos escritos de próprio punho do Imã Ahmad ibn Hanbal nos quais ele mencionou o nome do Mensageiro sem escrever bênçãos sobre ele. Contudo, ouvi dizer que ele as invocava oralmente.”

A invocação conjunta de bênçãos e saudações: O Profeta disse: Quando alguém invocar bênçãos sobre o Mensageiro, deve invocar tanto bênçãos quanto saudações. Não se deve limitar a dizer apenas bênçãos ou apenas saudações. Portanto, deve dizer: “Que as bênçãos e a paz estejam sobre ele.” (No Alcorão Sagrado, Allah disse: “Ó crentes, invocai bênçãos e saudações sobre o Profeta.”)

Proferir bênçãos sobre os profetas: é recomendado proferir bênçãos separadamente sobre os profetas e sobre os anjos. É permitido proferir bênçãos sobre outras pessoas, associando-as aos profetas. Essa é a opinião consensual dos sábios. A seguinte declaração do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, já foi citada anteriormente:

اللَّهُ مَل عَلَى مُحَمَّدِ النَّبِيِّ وَأَزْوَاجِهِ أَمْمَاتِ الْمُؤْمِنِينَ الع .

“Ó Allah, envia bênçãos ao Profeta Muhammad e às suas esposas, as Mães dos Crentes.” É makruh proferir bênçãos separadamente sobre aqueles que não são profetas. Portanto, não se deve dizer “Sallallahu alaihi wa sallam” em relação a Umar.

A fórmula das bênçãos e da saudação: Muslim narra, por intermédio de Abu Masud Ansari, que Bashir ibn Sa‘d disse: “Ó Mensageiro de Allah, Allah nos ordenou que proferíssemos bênçãos sobre ti.”

“Como devemos proferir as bênçãos?” Ao ouvir isso, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em silêncio por tanto tempo que pensamos: “Teria sido melhor se Bashir não tivesse feito essa pergunta.” Depois de algum tempo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Deveis proferir as bênçãos desta forma:”

اللَّهُ مَنْ عَلَى مُحَمَّدٍ وَعَلَى آلِ مُحَمَّدٍ كَمَا صَلَّيْتَ عَلَى آلِ إِبْرَاهِيمَ وَبَارِكْ عَلَى مُحَمَّدٍ وَعَلَى آلِ مُحَمَّدٍ كَمَا بَارَكْتَ عَلَى آلِ إِبْرَاهِيرَ فِي الْعَالَمِينَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَجِيلٌ .

Além disso, a saudação já é conhecida por vós. Ibn Majah narra, por intermédio de Abdullah ibn Masud: “Quando proferirdes bênçãos sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proferi as melhores bênçãos, pois não sabeis; talvez elas lhe sejam apresentadas.” As pessoas disseram a Ibn Masud: “Então, ensina-nos.” Ele disse: “Dizei:”

اللهمَّ اجْعَلْ صَلَوَاتِكَ، وَرَحْمَتَكَ وَبَرَكَاتِكَ عَلَى سَيِّدِ الْمُرْسَلِينَ، وَإِمَامُ الْمُتَقَدِّمِينَ، وَخَاتَمَ النبيين محمد عبدك ورسولك إمَامِ الْخَيْرِ وَقَائِلِ الْخَيْرِ وَرَسُولِ الرَّحْمَةِ اللَّه ابْعَثْهُ مَقَامًا يَغْبِطُهُ بِهِ الأولون اللهم صَلِّ عَلَى مُحَمَّدٍ،

وَعَلَى آلِ مُحَمَّدٍ كَمَا صَلَّيْتَ عَلَى إِبْرَاهِيمَ وَآلِ إِبْرَاهِيرَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَجِيدٌ، اللَّهُمَّ بَارِكْ عَلَى مُحَمَّدٍ وَعَلَى آلِ مُحَمَّدٍ كَمَا بَارَكْتَ عَلَى إِبْرَاهِيمَ وَآلِ إِبْرَاهِيمَ إِنَّكَ حَمِيدٌ مَجِيدٌ .

Significado: Ó Allah, envia todas as Tuas bênçãos, misericórdia e graças sobre Muhammad, o líder dos profetas, o líder de todos os sábios do passado, o último dos profetas, Teu servo e Mensageiro, o imam do bem, o guia para o bem e o profeta da misericórdia. Ó Allah, concede-lhe uma posição tão elevada que todos os que vieram antes o invejarão ao vê-la. Ó Allah, envia bênçãos sobre Muhammad, como enviaste sobre Ibrahim e sua família. Certamente, Tu és Digno de todo louvor.

7. As bênçãos e a súplica da viagem

Relatado por Abu Huraira: o Mensageiro de Allah disse: “Viajai, e tereis saúde; saí em expedição, e alcançareis prosperidade.” — Ahmad.

Relatado por Abu Huraira: o Mensageiro de Allah disse: sempre que alguém sai de casa com o propósito de viajar, duas bandeiras aparecem à porta de sua casa: uma fica nas mãos de um anjo e a outra nas mãos de Satanás. Se ele tiver saído para realizar algo que agrada a Allah, o anjo portador da bandeira o acompanha. Assim, permanecerá continuamente sob a bandeira desse anjo até retornar para casa. Mas, se tiver saído para realizar algo que desagrada a Allah, Satanás, portador da bandeira, o acompanha. Portanto, permanecerá sob a bandeira de Satanás até retornar para casa. — Ahmad e At-Tabarani.

Consultar-se e fazer istikhara antes de partir para uma viagem: antes de partir, o viajante deve consultar pessoas honestas e sábias. Pois Allah disse: وقاورمربي1. “Consultai-os nos assuntos.” Ao descrever as características dos crentes, disse: وامرمر شوری بینمر“Seu princípio é a consulta mútua.”

Qatada disse: quando um povo se consulta mutuamente buscando a satisfação de Allah, Allah os conduz à orientação mais correta.

Ahmad narrou, de Sa‘d ibn Abi Waqqas, que o Mensageiro de Allah disse: um sinal da felicidade do filho de Adão é que ele busca de Allah a oportunidade e a ajuda para realizar ações corretas e benéficas, isto é, faz istikhara. É sinal da felicidade do filho de Adão que ele esteja satisfeito com aquilo que Allah decreta. É sinal da infelicidade do filho de Adão que ele abandone a istikhara junto a Allah. E é sinal da infelicidade do filho de Adão que ele fique insatisfeito com o decreto de Allah. Ibn Taymiyya disse: aquele que faz istikhara — buscando de Allah a oportunidade e a ajuda para realizar ações corretas e benéficas — e consulta o Criador jamais se arrepende.

Modo de realizar a istikhārah: deve-se rezar duas rak‘ahs, exceto as orações obrigatórias, sejam elas a tahiyyat al-masjid (oração voluntária) ou uma oração sunnah habitual. Essa oração pode ser realizada em qualquer momento do dia ou da noite. Depois da Surata al-Fātiḥah, pode-se recitar qualquer versículo ou surata. Em seguida, deve-se louvar a Allah e enviar bênçãos ao Mensageiro (que a paz esteja com ele). Depois, deve-se recitar a súplica narrada por al-Bukhārī através de Jābir (que Allah esteja satisfeito com ele). Jābir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) nos ensinava a fazer istikhārah em todos os assuntos exatamente como nos ensinava as suratas do Alcorão” [Al-Shawkānī disse: “Isto se refere a todos os tipos de assuntos. Também prova que é inadequado negligenciar um assunto ou abandonar a istikhārah por considerá-lo pequeno e insignificante. Pois pode haver muitos assuntos que as pessoas julgam sem importância, embora, ao realizá-los, possam sofrer perdas terríveis. Às vezes, abandoná-los também pode causar grandes prejuízos. Por isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Pedi a vosso Senhor o bem, mesmo que seja em relação ao cordão de vossos sapatos’].

Ele dizia: “Quando algum de vós pretender realizar algo, que reze duas rak‘ahs, exceto as orações obrigatórias, e depois diga:

الله إِنِّي أَسْتَخِيرُكَ بِعِلْمِكَ. وَاسْتَقْدِرُكَ بِقُدْرَتِكَ، وَأَسْأَلُكَ مِنْ فَضْلِكَ الْعَظِيرِ، فَإِنَّكَ تَقْدِيرُ وَلَا أَقْدِرُ، وَتَعْلَمُ وَلَا أَعْلَمُ، وَأَنْتَ علام الغيوب، اللهم إن كُنتَ تَعْلَمُ أَن هَذا الأمر غير لِي فِي بيني وَمَعَاشِي وَعَاقِبَةِ أَمْرِى وَعَاجِلِ

أَمْرِي وَاجِلِهِ فَاقْدره لي، ويسره لي، ثم بارك لي فِيهِ. وَإِن كُنتَ تَعْلَمُ أَنْ هَذَا الْأَمْرَ شَرْ لِي فِي دِينِي وَمَعَاشِي وَعَاقِبَةِ أَمْرِي، وَعَامِل أَمْرِي وَأَجِلِهِ -فاصرفه عني واصرفني عنه، واقدر لِي الْخَيْرَ حَيْثُ كَانَ، ثُمَّ أَرْضِنِي

“Ó Allah, peço-Te ajuda para realizar aquilo que, segundo o Teu conhecimento, é bom. Peço-Te um pouco do Teu poder e uma pequena parcela da Tua imensa graça. Na verdade, Tu és o Possuidor de todo o poder, e eu não tenho poder algum. Tu és o Possuidor de todas as virtudes, e eu não possuo virtude alguma. Tu és o Conhecedor do invisível. Ó Allah, se sabes que este assunto (aqui mencionará o seu objetivo) é bom para mim no que diz respeito à minha religião, à minha vida material e ao meu desfecho, então torna-o possível para mim, facilita-o para mim e concede bênção nele. Mas, se sabes que ele é mau e prejudicial para mim em relação à minha religião, à minha vida material e ao meu desfecho, então afasta-o de mim e afasta-me dele. Depois, determina para mim o bem onde quer que ele esteja e faze-me satisfeito com ele.”
Nesta oração, não é necessário recitar nenhum versículo ou surata específica, assim como não há prova de que seja recomendável recitar algum versículo ou surata mais de uma vez.

Al-Nawawī disse: depois da istikhārah, deve-se realizar o ato para o qual surgir uma inclinação com plena disposição e satisfação interior. Não é adequado permanecer dependente da preferência e da aprovação que se tinha antes da istikhārah. Pelo contrário, deve-se abandonar completamente o caminho que se havia escolhido. Caso contrário, fazer istikhārah a Allah se tornaria inútil. Nela, a pessoa pede a Allah a orientação correta e reconhece que não possui conhecimento nem poder. Além disso, sem essa atitude, sua declaração de que Allah é o Possuidor de todo poder e conhecimento se provaria falsa. Se for sincera nessas declarações, deve abandonar seu próprio conhecimento, sua capacidade e força, e sua própria preferência.

É recomendável viajar na quinta-feira. Al-Bukhārī narra que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) pretendia empreender uma viagem, raramente partia em outro dia que não fosse quinta-feira.
É recomendável rezar antes de partir para uma viagem. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: “Quando alguém pretende empreender uma viagem e reza duas rak‘ahs, essa oração se torna o melhor representante que ele deixa junto de sua família.” Al-Ṭabarānī.

Deve-se viajar acompanhado: Aḥmad narrou, através de Ibn ʿUmar, que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) proibiu permanecer sozinho. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) proibiu passar a noite sozinho ou viajar sozinho.

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Um cavaleiro é um demônio, dois cavaleiros são dois demônios, e três formam uma caravana.” Relatado por Amr ibn Shu‘ayb.

É recomendável despedir-se da família, suplicar por ela e pedir-lhe que suplique: 1. Ibn as-Sunni e Ahmad relataram, sob a autoridade de Abu Hurayrah, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando alguém decide empreender uma viagem, deve dizer à sua família: ‘Deixo vocês sob a proteção de Allah, junto a Quem nenhum depósito confiado se perde.’”

2. Ahmad relatou, sob a autoridade de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando algo é confiado em nome de Allah, Allah o protege.”

3. Também foi relatado por Abu Hurayrah, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando decidirem empreender uma viagem, despeçam-se de seus irmãos, pois Allah colocou bênção nas súplicas deles.”

4. É sunnah que os familiares, os amigos e aqueles que vêm despedir-se do viajante recitem esta súplica: اسْتَوْدِعُ اللَّهَ بِيْنَكَ، وَأَمَاتَتَكَ وَخَوَاتِيْرَ عَمَلِكَ“Confio a Allah a proteção da sua religião, daquilo que lhe foi confiado e das suas últimas ações.”

Em outra narração, consta que, quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se despedia de alguém, segurava-lhe a mão. Ele não soltava a mão até que a outra pessoa a soltasse. — At-Tirmidhi.

5. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Um homem foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, pretendo viajar; portanto, dê-me alguma provisão.” Ele disse: “Que Allah lhe dê como provisão a taqwa.” O homem disse: “Diga-me algo mais.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Seus pecados serão perdoados.” Ele disse: “Diga-me algo mais.” Ele disse: “Onde quer que você esteja, que Allah lhe facilite a prática de boas ações.”

6. Abu Hurayrah relatou: Um homem disse: “Ó Mensageiro de Allah, pretendo viajar; dê-me algum conselho.” Ele disse: “Tema a Allah e, ao subir a um lugar elevado, diga ‘Allahu Akbar’.” Quando o homem partiu, ele disse: “Ó Allah, encurte a distância do caminho desse homem e facilite sua viagem.”

Pedir ao viajante que faça súplicas: ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Pedi ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permissão para realizar a ʿumrah. Ele me deu permissão e disse: “Ó meu irmão, não te esqueças de fazer súplicas por nós quando fizeres súplicas por ti mesmo.” ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Essas palavras — ‘ó meu irmão’ — me deixaram tão feliz que, mesmo que o mundo inteiro me fosse dado em troca delas, eu não preferiria isso.” A súplica da viagem: É recomendável que o viajante recite a seguinte súplica ao sair de casa:

بشر الله، تَوَكَّلْتُ عَلَى اللهِ، وَلا حول ولا قوة إلا بالله، اللهم إنِّي أَعُوذُ بِكَ أَنْ أَضِلَّ أَوْ أَمَل أَوْ أَزِل أَوْ أَزَلٌ، أَوْ أَظْلِم أَوْ أَقْلَى، أَوْ أَهْمَلَ أَوْ يَعْمَلَ عَلَى.

“Em nome de Allah, confiei-me a Allah; não há força nem poder senão em Allah. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra eu mesmo me desviar e desviar outros; contra eu mesmo tropeçar e fazer outros tropeçarem; contra eu mesmo cometer injustiça e sofrer a injustiça de outros; e contra tratar alguém mal ou ser vítima dos maus-tratos de alguém.” O viajante deve recitar, entre as súplicas narradas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aquela que considerar melhor. Algumas de suas súplicas são apresentadas a seguir:

1. Foi narrado por Ibn ʿAbbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que, quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, desejava empreender uma viagem, dizia:

اللهم أَنْتَ الصَّاحِبُ فِي السَّفَرِ، وَالْخَلِيفَةً فِي الأمل، اللهُمَّ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنَ الضَّبْنَةِ فِي السفر، وَالْكَابَةِ فِي المُنقَلبِ الله أطولَنَا الْأَرْضِ، وَمَوْنَ عَلَيْنَا السَّفَرَ .

“Ó Allah, Tu és meu companheiro durante a viagem e meu representante junto à minha família. Busco refúgio em Ti contra um companheiro de viagem sem provisões. Busco refúgio contra as calamidades no retorno. Ó Allah, reduz a minha distância e torna a viagem fácil para nós.” E, quando desejava retornar, dizia: “Somos os que retornam, os arrependidos, os adoradores e os que louvam o nosso Senhor.” E, quando entrava em casa, dizia: “Retornei e me arrependi perante o nosso Senhor; Ele não deixará nenhum de nossos pecados.” — Ahmad, al-Tabarani e al-Bazzar.

2. ʿAbdullah ibn Sarjas disse: Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saía em viagem, dizia:

اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُبِكَ مِنْ وَعَشَاءِ السَّفَر وَكَابَةِ المُنقَلبِ، وَالْحَوَر بَعْدَ الْكَوْرِ وَتَقْوَةِ الْمَظْلُومِ، وَسُوءِ المنظر فِي الْمَالِ والأمل .

“Ó Allah, busco refúgio em Ti contra as dificuldades e o cansaço da viagem, contra os acidentes no momento do retorno, contra a aflição e a desordem após a purificação, contra a súplica de maldição do oprimido e contra ver algo desagradável nos bens e na família. —Ahmad, Muslim.

A súplica que o viajante deve recitar ao montar seu meio de transporte: Ali ibn Rabi‘ah disse: Vi Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, quando lhe trouxeram um animal para montar. Quando colocou o pé no estribo, disse: «Bismillah». Então montou nele e disse:

الْحَمْدُ لِلَّهِ سُبْحَانَ الَّذِي سَخَّرَ لَنَا هَذَا وَمَا كُنَّا لَهُ مُقْرِنِينَ وَإِنَّا إِلَى رَبَّنَا لَمُنْقَلِبُونَ .

“Alhamdulillah! Glorificado seja Allah, que o submeteu a nós, embora não tivéssemos capacidade de submetê-lo. Certamente retornaremos ao nosso Senhor.” Em seguida, disse três vezes «Alhamdulillah» e três vezes «Allahu Akbar». Depois disse:

سُبْحَانَكَ ، لَا إِلَهَ إِلَّا أَنتَ قَدْ ظَلَمْتُ نَفْسِي فَاغْفِرْ لِي ، إِنَّهُ لَا يَغْفِرُ الذُّنُوبَ إِلَّا أَنْتَ

“Glorificado és Tu. Não há outra divindade além de Ti. Fui injusto comigo mesmo; portanto, perdoa-me. Ninguém além de Ti pode perdoar os pecados.” Então ele riu. Eu lhe perguntei: «Ó Comandante dos Crentes, por que riste?» Ele respondeu: «Vi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazer o mesmo que fiz.» Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, riu. Eu perguntei: «Ó Mensageiro de Allah, por que riste?» Ele respondeu: «Quando um servo diz: “Ó meu Senhor, perdoa-me”, Allah Se maravilha e diz: “Meu servo sabe que ninguém além de Mim pode perdoar os pecados.”» —Ahmad, Ibn Hibban, Hakim.

Al-Azadi disse: Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, informou-lhe que, quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, montava seu camelo para partir em alguma viagem, dizia «Allahu Akbar» três vezes e depois dizia:

سُبْحَانَ الَّذِي سَخَّرَ لَنَا هَذَا، وَمَا كُنَّا لَهُ مُقْرِنِينَ، وَإِنَّا إِلَى رَبَّنَا لَمُنقَلِبُونَ اللَّهُ إِنَّا نَسْأَلُكَ فِي سَفَرنَا هذا البر والتقوى، وَمِنَ الْعَمَلِ مَا تَرْضي، اللهم مُون عَلَيْنَا سَفَرْنَا هَذَا وَاطُوعَنَا بَعْدَهُ اللَّهُ أنتَ الصَّاحِبُ فِي السَّ

فَرِ، وَالْخَلِيفَةُ فِي الْأَهْلِ اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُ بِكَ مِنْ وَعُشَاءِ السَّفَرِ وَكَابَةِ المنقلب، وسُوءِ الْمَنْظَرِ فِي الْأَهْلِ وَالْمَالِ .

“Glorificado seja Aquele que submeteu isto a nós, embora não tivéssemos sido capazes de submetê-lo. Retornaremos ao nosso Senhor. Ó Allah, pedimos-Te, nesta viagem, taqwa e retidão, e a capacidade de realizar aquilo que Te agrada. Ó Allah, facilita-nos esta viagem e encurta para nós a sua distância. Ó Allah, Tu és o Companheiro nesta viagem e o Representante da minha família.

Ó Allah, refugiamo-nos em Ti das dificuldades da viagem e da tristeza e preocupação do momento do retorno.” Quando retornava, além das palavras mencionadas acima, dizia: “Retornamos arrependidos, adorando e louvando o nosso Senhor.” — Ahmad e Muslim.

O que o viajante deve dizer ao anoitecer: Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava viajando ou em uma expedição e anoitecia, dizia:

يَا أَرْضِ، رَبِّي وَرَبُّكَ اللَّهُ، أَعُوذُ بِاللَّهِ مِنْ هَرَكَ وَقَرِّ مَا فِيكَ وَقَرِّ مَا خَلِقَ فِيكَ وَمَرْ مَادَبٍ عَلَيْكَ أَعُوذُ بِاللَّهِ مِنْ شَرِّ كُلِّ أَسَدٍ وَأَسْوَدَ وَحَيَّةِ وَعَقْرَبِ، وَمِنْ شَرِّ سَاكِنِ الْبَلَدِ، وَمِنْ قَرٍ وَالِدِ وَمَا وَلَدَ .

“Ó terra, Allah é o meu Senhor e o teu Senhor. Refugio-me em Allah contra o teu mal, contra o mal das coisas ocultas no teu interior, contra o mal de tudo o que foi criado dentro de ti, contra o mal de tudo o que se move sobre ti, contra o mal de todo leão e animal predador, contra o mal das serpentes venenosas e dos escorpiões, e contra o mal dos habitantes das cidades e de todo pai e filho. Refugio-me em Allah.” — Ahmad e Abu Dawud.

O que o viajante deve dizer ao fazer uma parada: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Quando o viajante fizer uma parada em algum lugar, deverá dizer:

أَعْوَذُ بِكَلِمَاسِ اللَّهِ التَّامَّاتِ كَلِهَا مِنْ شَرِّ مَا خَلَقَ لَمْ يَضُرُهُ شَيْءٌ

“Busco refúgio nas palavras perfeitas de Allah contra o mal de tudo quanto Ele criou.” Então, nada o prejudicará naquele lugar até partir dele. —Todos os livros autênticos de hadith, exceto os de Bukhari e Abu Dawud.

A súplica que o viajante deve recitar quando avista um lugar ou uma aldeia e deseja entrar nela: Ata disse: Ka’b jurou pelo Allah que abriu o mar para Musa e disse: Suhayb informou-lhe que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sempre que avistava uma localidade e desejava entrar nela, olhava para ela e dizia:

اللهم رب السموات السبع وما أقلَلْنَ، وَرَبُّ الأَرضين السبع ومَا أَقْلَلْنَ، وَرَبِّ الشَّيَاطِينِ وَمَا أَضْلَلْنَ، وَرَبُّ الرِّيَاحِ وَمَا ذَرَيْنَ أَسْأَلُكَ خَيْرَ هَذِهِ الْقَرْيَةِ وَخَيْر أَهْلِهَا وَخَيْرَ مَا فِيهَا وَنَعُوذُ بِكَ مِنْ شَرِّمًا وَشَرِّ أَهْلِهَا وَشَرِّ مَا فِيهَا .

“Ó Allah! Senhor dos sete céus e de tudo o que está sob eles, Senhor das sete terras e de tudo o que elas carregam, Senhor dos demônios e daqueles a quem eles desencaminham, Senhor dos ventos e de tudo o que eles carregam, peço-Te o bem desta localidade e de tudo o que nela existe, e busco refúgio em Ti contra o mal dos habitantes desta aldeia e contra o mal de tudo o que nela existe.” —Nasa’i, Ibn Hibban e Hakim.

Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Estávamos viajando com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Sempre que ele avistava uma localidade e desejava entrar nela, dizia três vezes:

اللهم بارك لَنَا فِيهَا اللَّهمَّ ارْزُقْنَا جَنَاهَا، وَحَيْنَا إِلَى أَهْلِهَا وَحَيْبُ صَالِحِي أَهْلِهَا إِلَيْنَا.

“Ó Allah, concede-nos bênção e prosperidade nesta aldeia (três vezes). Ó Allah, alimenta-nos com os frutos desta aldeia, torna-nos queridos para os seus habitantes e torna os seus habitantes virtuosos queridos para nós.” —Tabarani.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Sempre que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) avistava uma localidade na qual desejava entrar, dizia:

الله إِنِّي أَسْأَلُكَ مِنْ غَيْرِ مُلوهِ وَغَيْرِ مَا جَمَعْتَ فِيهَا ، وَأَعُوذُ بِكَ مِنْ قَرْهَا وَقَرْ مَا جَمَعْتَ فِيهَا اللَّه ارزَقْنَا جَنَاهَا وَأَعِلْنَا مِنْ وَبَاهَا ، وَحَبِبْنَا إِلَى أَهْلِهَا، وَحَيْب صَالِحِي أَهْلِهَا إِلَيْنَا .

“Ó Allah, pedimos-Te o bem desta localidade e de tudo o que guardaste nela, e buscamos refúgio em Ti contra todo o mal desta localidade e contra o mal de tudo o que guardaste nela. Ó Allah, alimenta-nos com os frutos desta localidade. Protege-nos de suas calamidades, aflições e doenças. Torna-nos queridos para seus habitantes e torna seus habitantes virtuosos queridos para nós.” — Ibnus-Sunni.

O que o viajante deve dizer no final da noite: Abu Huraira relatou: quando o Mensageiro estava no estrangeiro e caía a noite, ele dizia:

سمعَ سَامِع بِحَمْدِ اللهِ وَحَسَى بَلَالِهِ عَلَيْنَا رَبَّنَا صَاحِبْنَا وَأَفْضِلُ عَلَيْنَا، عَائِنَا بِاللَّهِ مِنَ النَّارِ .

“Há uma testemunha de nosso louvor a Allah e de nosso louvor por Suas melhores bênçãos. Ó nosso Senhor, permanece conosco e concede-nos Tua graça. Buscamos refúgio em Allah contra o Inferno.” — Muslim.

O que o viajante deve dizer ao subir a um lugar elevado, descer a um lugar baixo ou retornar: Bukhari relatou, sob a autoridade de Jabir: quando subíamos, dizíamos: «Allahu akbar». E quando descíamos, dizíamos: «Subhanallah».

Bukhari relatou, sob a autoridade de Ibn Umar, que, quando o Mensageiro de Allah retornava do hajj ou de uma viagem, ao subir uma passagem montanhosa elevada ou descer para um lugar baixo, dizia «Allahu akbar» três vezes. Em seguida, dizia:

لا إلهَ إِلَّا اللَّهَ وَحدَهُ لا شَرِيكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْكُ وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ، أَيبُونَ تَالِبُونَ عَابِدُونَ سَاجِدونَ، لِرَبِّنَا حَامِدُونَ صَدَقَ الله وعده، ونَصَرَ عَبْدَهُ، وَهَزَمَ الْأَحْزَاب وحده .

“Não há nenhuma divindade além de Allah. Ele é Único e Incomparável. Não há parceiro algum para Ele. A soberania pertence somente a Ele. O louvor pertence somente a Ele. Ele é Poderoso sobre todas as coisas. Retornamos, arrependemo-nos, adoramos, prostramo-nos e louvamos o nosso Senhor. Allah cumpriu Sua promessa, ajudou Seu servo e, sozinho, derrotou todas as hostes inimigas.

O que o viajante deve dizer ao embarcar numa embarcação: Ibn al-Sunni narrou, através de Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando minha comunidade embarcar numa embarcação, esta é a súplica que pode protegê-la de se afogar:

يسى اللهِ مَجْر مَا وَمَرْسَامًا إِن ربى الغفور رحيم

Em nome de Allah, é o seu curso e o seu ancoradouro. Certamente, meu Senhor é Perdoador e Misericordioso.) Em seguida, recitava este versículo:

وَمَا قَدَرُوا اللهَ حَقَّ قَدْرِهِ، وَالْأَرْضِ جَمِيعًا قَبْضَتُهُ يَوْمَ الْقِيَامَةِ وَالسَّمَوَاتِ مَطْوِيَّاتِ بِيَمِينِهِ سُبْحَانَهُ وتَعَالَى عَمَّا يُشْرِكُونَ .

“Eles não atribuíram a Allah a consideração que Lhe é devida. No Dia da Ressurreição, toda a terra estará em Sua mão, e os céus serão enrolados por Sua mão direita. Glorificado e Exaltado seja Ele! Ele está livre do que Lhe associam.”

É proibido viajar pelo mar quando ele está agitado: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Se alguém subir, durante a noite, ao terraço de uma casa que não tenha muro ao redor e cair dele morrendo, Allah se exime da responsabilidade por sua proteção. E aquele que morrer viajando num mar revolto, Allah também se exime de qualquer responsabilidade por ele. — Ahmad.

Capítulo Oito: Hajj

Hajj

1. A dignidade e a obrigatoriedade do Hajj

Allah, o Altíssimo, disse:

إن أَوَّلَ بَيْرٍ وَضعَ لِلنَّاسِ الذِي بِمَكَّةَ مُبَارَكًا وَهُدًى لِلْعَالَمِينَ فِيْهِ أَيَا بَيِّنَاتٍ مَقَامَ إِبْرَاهِيمَ وَمَن تَعْلَهُ كَانَ أَمِنَا. وَلِلَّهِ عَلَى النَّاسِ مِع الْبَيْتِ مَنِ اسْتَطَاعَ إِلَيْهِ سَبِيلًا، وَمَنْ كَفَرَ فَإِنَّ اللَّهَ غَنِي عن العالمين .

“A primeira Casa estabelecida para a humanidade é a que se encontra em Bakkah (Meca). É abençoada e uma fonte de orientação para todos os mundos. Nela há sinais claros, entre os quais o Maqam Ibrahim. Quem nela entrar estará seguro. É dever dos homens para com Allah peregrinar a esta Casa, para aqueles que têm meios de chegar até ela. E quem rejeitar, saiba que Allah é independente de todos os mundos.”

Hajj é o nome dado à ida a Meca para realizar o tawaf, o sa‘i, a permanência em Arafat e todos os demais atos de adoração, com o objetivo de cumprir a ordem de Allah e alcançar a Sua satisfação. É uma das cinco obrigações fundamentais e incontestáveis do Islã. Se alguém negar que o Hajj é obrigatório, será considerado um incrédulo e alguém que abandonou o Islã. Segundo a maioria dos sábios, o Hajj tornou-se obrigatório no sexto ano da Hégira, pois foi nesse ano que este versículo foi revelado:

وَأَتِمُوا الْحَجَّ وَالْعُمْرَةَ لِلَّهِ .

“Cumpri o Hajj e a Umrah por Allah.”

Segundo Ibn al-Qayyim, o Hajj tornou-se obrigatório no nono ou no décimo ano da Hégira.

A excelência do Hajj: em diversos hadiths do Mensageiro de Deus, as pessoas foram incentivadas a realizar o Hajj. Alguns desses hadiths são mencionados a seguir:

Abu Hurayra relatou que perguntaram ao Mensageiro de Deus: qual é a melhor ação? Ele respondeu: a fé em Deus e em Seu Mensageiro. Perguntaram: e depois? Ele respondeu: o jihad no caminho de Deus. Perguntaram: e depois? Ele respondeu: um Hajj digno de aceitação. O Hajj digno de aceitação (Hajj Mabrur) é aquele ao qual nenhum pecado se mistura. Hasan disse: o Hajj Mabrur é aquele após o qual a pessoa retorna desapegada deste mundo e desejosa da Vida Futura.

Foi relatado que o Hajj Mabrur é aquele em que se oferece comida às pessoas e se fala com humildade e gentileza.

Em diversos hadiths, o Hajj foi considerado equivalente ao jihad. Por exemplo: foi relatado por Hasan ibn Ali que um homem foi até o Mensageiro de Deus e disse: sou covarde e fraco. O Mensageiro de Deus respondeu: venha participar de um jihad no qual não há o fio de nenhuma arma. Esse jihad é o Hajj. — At-Tabarani.

Abu Hurayra relatou que o Mensageiro de Deus disse: o jihad adequado aos fracos, aos idosos e às mulheres é o Hajj. — An-Nasa’i.

Aisha disse: ó Mensageiro de Deus, o senhor considera o jihad a melhor ação. Então, por que nós, mulheres, não fazemos jihad? Ele respondeu: o melhor jihad para vocês é o Hajj Mabrur. — Al-Bukhari e Muslim.

Aisha disse: ó Mensageiro de Deus, não podemos fazer jihad e lutar junto com vocês? Ele respondeu: o melhor e mais excelente jihad para vocês é o Hajj Mabrur. Aisha disse: depois de ouvir isso do Mensageiro de Deus, nunca mais deixei de realizar o Hajj. — Al-Bukhari e Muslim.

Foi transmitido em diversos hadiths que o hajj apaga os pecados. Por exemplo, Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem realizar o hajj e não cometer nenhuma obscenidade nem pecado, ao retornar para casa voltará como uma criança recém-nascida (isto é, em estado de inocência).” — Bukhari e Muslim.

Amr ibn al-As disse: “Quando Allah introduziu o Islã em meu coração, fui até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse-lhe: ‘Estenda sua mão, pois prestarei o juramento de fidelidade a você.’ Ele estendeu a mão, mas eu recolhi a minha. Ele perguntou: ‘O que aconteceu, Amr?’ Respondi: ‘Peço que meus pecados passados sejam perdoados.’ Ele disse: ‘Não sabes que o Islã apaga tudo o que o precedeu? A hégira também apaga tudo o que a precedeu. E o hajj também apaga tudo o que o precedeu.’” Muslim.

Foi narrado por Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Realizai o hajj e a umra consecutivamente, pois ambos eliminam os pecados assim como o fole do ferreiro remove a ferrugem do ferro, do ouro e da prata. A recompensa pelo hajj mabrur não é outra senão o Paraíso.” — Nasa’i, Tirmidhi.

Os peregrinos são representantes e hóspedes de Allah. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os que realizam o hajj e a umra são representantes e hóspedes de Allah. Se suplicarem, Allah atenderá às suas súplicas; e, se pedirem perdão, Ele os perdoará.” — Nasa’i, Ibn Majah; Ibn Khuzaima, Ibn Hibban. Segundo a formulação de Ibn Khuzaima e Ibn Hibban: “Os representantes de Allah são três: o peregrino do hajj, o peregrino da umra e aquele que luta no caminho de Allah.”

A recompensa do hajj é o Paraíso. A esse respeito, há vários hadiths.

Bukhari e Muslim narraram, por intermédio de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Uma umra serve de expiação pelos pecados cometidos entre ela e a umra seguinte. E a recompensa pelo hajj mabrur não é outra senão o Paraíso.”

Foi narrado por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Esta Casa (a Caaba) é um pilar do Islã. Quem partir com o objetivo de realizar o hajj ou a umra nesta Casa estará sob a proteção especial de Allah. Se Allah lhe decretar a morte durante esse período, fará com que entre no Paraíso. E, se o fizer retornar à sua casa, fará com que retorne com grande recompensa e despojos.”

A recompensa por gastar dinheiro no hajj é grande. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Gastar dinheiro no hajj é como gastar dinheiro no caminho de Allah. Por cada dirham, serão obtidas setecentas vezes mais recompensas.” Ibn Abi Shayba, Ahmad, Tabarani e Bayhaqi.

A obrigatoriedade do Hajj

Os eruditos concordam que não é necessário realizar o Hajj repetidamente. O Hajj torna-se obrigatório apenas uma vez na vida. Porém, se alguém fizer um voto, a situação é diferente: cumprir o voto é obrigatório. E, se alguém realizar voluntariamente um Hajj adicional, este será um Hajj nafl. Abu Huraira — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — proferiu diante de nós o seguinte sermão: “Ó pessoas, Allah tornou o Hajj obrigatório para vós. Portanto, realizai o Hajj.” Então alguém perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, todos os anos?” O Mensageiro de Allah permaneceu em silêncio. O homem repetiu a pergunta três vezes. Então o Mensageiro de Allah disse: “Se eu dissesse ‘sim’, ele se tornaria obrigatório todos os anos, e vós não teríeis capacidade para isso.” Depois disse: “Não me pergunteis sobre aquilo que não mencionei. Os povos que vos precederam foram destruídos por fazerem perguntas excessivas aos seus profetas e mensageiros. Foram destruídos por divergirem dos seus profetas. Portanto, quando vos ordeno algo, cumpri-o tanto quanto puderdes; e, quando vos proíbo algo, abstende-vos dele.” — Bukhari e Muslim.

Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — proferiu um sermão diante de nós. Ele disse: “Ó pessoas, o Hajj foi tornado obrigatório para vós.” Aqra ibn Habis levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Allah, todos os anos?” Ele respondeu: “Se eu dissesse isso, tornar-se-ia obrigatório todos os anos; e, mesmo que fosse obrigatório, não teríeis capacidade para realizá-lo. O Hajj é uma única vez; se alguém fizer mais, será nafl.” — Ahmad, Abu Dawud, Nasa’i e Hakim.

Obrigatório imediatamente ou com possibilidade de adiamento? Segundo a opinião de Shafi‘i, Sauri, Awza‘i e Muhammad, o Hajj pode ser realizado em qualquer momento da vida. Quem tiver o Hajj tornado obrigatório para si não pecará por adiá-lo. Se o realizar em qualquer momento antes da morte, terá cumprido a obrigação. Isso porque o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — adiou o Hajj até o décimo ano da Hégira. Suas esposas e muitos Companheiros também o realizaram com ele. Entretanto, o Hajj havia sido tornado obrigatório no sexto ano da Hégira. Se tivesse sido obrigatório imediatamente, ele não o teria adiado.

O Imam Shafi‘i disse: “Com isso, provamos que o Hajj é obrigatório apenas uma vez durante toda a vida. Ele começa a ser obrigatório ao atingir a maturidade, e basta realizá-lo antes da morte.” Abu Hanifa, Malik, Ahmad, alguns imames da escola de Shafi‘i e Abu Yusuf, por sua vez, afirmam que o Hajj se torna obrigatório imediatamente. Isso porque foi narrado por Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah disse: “Quem decide realizar o Hajj deve apressar-se em cumpri-lo, pois pode adoecer, sua montaria pode perder-se ou podem surgir novas ocupações.” — Ahmad, Bayhaqi, Tahawi e Ibn Majah.

O Mensageiro de Allah também disse: “Apressai-vos a cumprir o Hajj obrigatório, pois não sabeis o que poderá acontecer a alguém nem quando isso ocorrerá.” — Ahmad e Bayhaqi. No hadith de Bayhaqi, consta: “Ninguém sabe quando uma doença ou uma necessidade poderá atingir alguém.” Aqueles que consideram que o Hajj se torna obrigatório imediatamente interpretam este hadith como prova de que é mustahabb realizá-lo prontamente. Segundo eles, para quem o Hajj se tornou obrigatório, é mustahabb apressar-se tanto quanto possível para cumpri-lo.

2. Condições para que o Hajj se torne obrigatório

Os juristas concordam que, para que o Hajj se torne obrigatório, é necessário que sejam preenchidas as seguintes condições:

1. Ser muçulmano; 2. Ter atingido a maturidade; 3. Possuir razão e discernimento (não ser insano); 4. Ser livre (não ser escravo); 5. Possuir capacidade financeira e física.

Para quem não reunir essas condições, o Hajj não será obrigatório. Ser muçulmano, ter atingido a maturidade e possuir razão e discernimento são condições indispensáveis para a prática de todos os atos de adoração.

Consta no hadith que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não são registrados pecados nem boas ações para três pessoas: o adormecido, até que desperte; a criança, até que atinja a maturidade; e o insano, até que recupere a razão e o discernimento.”

Ser livre é uma condição para que o Hajj se torne obrigatório, pois se trata de uma adoração que requer um longo período de tempo. É necessário possuir capacidade para isso. Entretanto, o escravo está ocupado com o cumprimento das responsabilidades para com seu senhor e não possui a capacidade necessária. A capacidade é uma condição, pois Allah diz:

وَلِلَّهِ عَلَى النَّاسِ حَجَّ الْبَيْتِ مَنِ اسْتَطَاعَ إِلَيْهِ سَبِيلاً .

“É dever das pessoas, para com Allah, peregrinar à Caaba, para quem tiver meios de chegar até ela.”

Como determinar a capacidade: uma das condições para que o Hajj seja obrigatório é possuir capacidade, a qual será determinada pelos seguintes fatores:

1. A pessoa em questão deve estar fisicamente saudável. Ou seja, se estiver incapaz de realizar o Hajj devido à velhice, deficiência ou invalidez, ou a uma doença da qual não haja esperança de cura, é obrigatório que faça outra pessoa realizar o Hajj em seu nome, desde que disponha dos recursos financeiros necessários. Esse assunto será tratado mais adiante, no capítulo sobre o Hajj em nome de outra pessoa.

2. A rota de ida e volta para o Hajj deve ser segura, de modo que a segurança da vida e dos bens dos peregrinos esteja assegurada. Se houver risco de vida devido a assaltantes ou a uma epidemia, ou se houver temor de que o dinheiro e os bens sejam roubados, considerar-se-á que não há capacidade para realizar o Hajj.

Há divergência quanto a saber se os impostos, contribuições e semelhantes cobrados ao longo do caminho constituem uma desculpa válida para isentar alguém do Hajj. Segundo ash-Shafi‘i e outros, isso é uma desculpa válida para ficar isento do Hajj, por menor que seja a quantia cobrada. De acordo com a escola maliquita, isso não é considerado uma desculpa. Contudo, se isso colocar em risco a própria existência do peregrino, tornar impossível sua passagem ou continuar sendo cobrado repetidamente, será considerado uma desculpa.

3, 4. O peregrino deve possuir os recursos financeiros necessários e um meio de transporte. A quantia deve ser suficiente para manter sua saúde e, depois de atender às suas necessidades básicas, permitir-lhe custear as despesas daqueles cuja manutenção está sob sua responsabilidade, utilizando o excedente. Isso se aplica ao período até que ele cumpra o Hajj obrigatório e retorne para casa. Por necessidades básicas entendem-se as roupas, a moradia, o meio de transporte e os instrumentos necessários ao exercício de sua profissão. (As roupas de uso, os móveis necessários e a casa onde mora — por maior e mais além das necessidades que sejam — não podem ser vendidos por causa do Hajj.)

Quanto ao meio de transporte, deve-se considerar que ele seja adequado para atender às necessidades tanto da ida quanto da volta, seja por via terrestre, marítima ou aérea. Isso se aplica àquele cuja casa fica tão distante que ele é incapaz de fazer o trajeto a pé. Para quem mora tão perto de Meca que pode ir e voltar a pé, não é condição dispor de um meio de transporte próprio, pois, dada a curta distância, é possível fazer o trajeto a pé. Alguns hadiths mostram que o Mensageiro de Allah entendeu por capacidade de viajar para o Hajj um meio de transporte e recursos suficientes para custear o Hajj. Anas narrou que foi perguntado: “Ó Mensageiro de Allah, o que significa capacidade de viajar?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Um meio de transporte e os recursos para custear todas as despesas do Hajj.” — ad-Daraqutni.

Foi narrado por Ali que o Mensageiro de Allah disse: “Quem, por possuir os recursos necessários para custear o Hajj e um meio de transporte, é capaz de chegar à Casa de Allah, mas não realiza o Hajj, tanto faz que morra como judeu ou como cristão. Pois Allah disse: ‘Para quem tiver capacidade de viajar até a Casa de Allah, o Hajj é obrigatório, da parte de Allah.’” — at-Tirmidhi.

Embora todos estes hadiths relativos à montaria e às provisões sejam fracos, a maioria dos eruditos estabeleceu como condição para que o Hajj seja obrigatório aos que vivem longe a disponibilidade de uma montaria para a viagem e de recursos para custear as despesas do Hajj. Portanto, o Hajj não é obrigatório para quem não dispõe de uma montaria nem de recursos para custear as despesas.

Ibn Taymiyya disse: Alguns destes hadiths foram transmitidos com cadeias de transmissão impecáveis, e outros, com cadeias defeituosas. Contudo, expressam corretamente que a obrigatoriedade do Hajj depende da montaria e das provisões — isto é, dos meios de transporte e dos recursos para custear as despesas do Hajj — embora o Mensageiro de Allah soubesse que muitas pessoas poderiam realizar o Hajj a pé.

Além disso, com as palavras de Allah, o Altíssimo, “quem tiver condições de viajar até a Casa de Allah”, ou Ele quis dizer que no Hajj se exige o mesmo tipo de capacidade exigida em todos os atos de adoração, isto é, a capacidade comum, ou então quis dizer uma capacidade adicional. Se a primeira interpretação fosse pretendida, não haveria necessidade de estabelecer essa condição, assim como ela não foi estabelecida nos versículos relativos à oração e ao jejum. Portanto, compreende-se que se trata de uma capacidade adicional. E ela não pode ser outra senão a capacidade financeira.

Há ainda outro ponto que merece ser mencionado. O Hajj é um ato de adoração cuja realização exige percorrer uma distância considerável. Portanto, a sua obrigatoriedade depende das provisões e da montaria, assim como ocorre com o jihad. Sobre o jihad, Allah diz:

وَلَا عَلَى الَّذِينَ لَا يَجِدُونَ مَا يُنْفِقُونَ حَرَجٌ إِلَى قَوْلِهِ : وَلَا عَلَى الَّذِينَ إِذَا مَا أَتُوكَ لِتَحْمِلَمُ قلت لَا أَجِلُ مَا أَحْمِلُكُمْ عَلَيْهِ .

“Não há culpa (por permanecerem em casa em vez de partirem para o jihad) para os fracos, os doentes e os que não têm condições de arcar com as despesas, desde que sejam sinceros na sua lealdade a Allah e ao Mensageiro. Não há motivo para censurar os virtuosos. Allah é Perdoador, Misericordioso.”

“Não há culpa para aqueles que vieram até você para que lhes providenciasse montarias, e você lhes disse: ‘Não tenho montaria alguma para vos fazer montar…’”

No livro al-Muhadhdhab, afirma-se que, mesmo que alguém disponha de recursos suficientes para obter uma montaria e provisões, se precisar desse dinheiro para pagar uma dívida, o Hajj não será obrigatório para ele, seja a dívida de pagamento imediato ou de pagamento diferido. Isso porque é obrigatório para ele pagar imediatamente a dívida exigível, enquanto o Hajj pode ser realizado posteriormente. Assim, o pagamento da dívida tem precedência sobre o Hajj. Quanto à dívida de pagamento diferido, ela também continua vinculada a ele. Se gastar esse dinheiro no Hajj, não terá mais os recursos necessários para pagar a dívida. E, se precisar desse dinheiro para comprar uma casa, sendo indispensável para ele uma casa desse tipo, ou se a família precisar de um empregado doméstico, o Hajj também não será obrigatório para ele. Se precisar casar-se e temer cair em adultério caso não o faça, deverá igualmente casar-se primeiro, pois essa necessidade é imediata. Se precisar desse dinheiro para adquirir mercadorias para o comércio, a fim de obter, por meio do negócio, os recursos necessários para as despesas, há divergência sobre o assunto. Segundo Abu al-Abbas, o Hajj não será obrigatório para ele, pois isso é indispensável, assim como o empregado doméstico e a casa. Em al-Mughni, afirma-se que, se alguém tiver a receber uma dívida de longo prazo e o devedor lhe pagar uma quantia suficiente para realizar o Hajj, o Hajj se tornará obrigatório para ele, pois terá capacidade. Porém, se tiver um crédito contra uma pessoa necessitada ou se for impossível cobrar a dívida, o Hajj não será obrigatório. Segundo os shafiitas, quando alguém se dispõe a oferecer gratuitamente uma montaria a outra pessoa, esta não é obrigada a aceitá-la, pois, ao aceitá-la, ficaria sujeita ao risco de o doador lembrá-la da sua generosidade. E suportar esse risco é difícil. Contudo, se seu filho estiver disposto a lhe dar dinheiro suficiente para que possa realizar o Hajj, então o Hajj será obrigatório para ele, pois nesse caso poderá realizá-lo sem receio de que lhe seja lembrada a generosidade. Os hanbalitas dizem: Não é obrigatório realizar o Hajj aceitando uma doação de outra pessoa, nem isso torna alguém capaz de realizá-lo, seja o doador um parente ou um estranho, e quer lhe ofereça uma montaria, provisões ou dinheiro em espécie.

5. Que não ocorra algo que impeça a ida ao Hajj, como a prisão e a opressão por parte de algum governo ou autoridade, por exemplo.

O Hajj do menor e do escravo
O Hajj não é obrigatório para o escravo nem para o menor. Porém, se eles realizarem o Hajj, ele será válido. Mas isso não os isentará do Hajj quando este se tornar obrigatório no Islã. Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se uma criança ou um menino realizar o Hajj e depois atingir a puberdade, deverá realizar o Hajj novamente quando este se tornar obrigatório para ele. E se um escravo realizar o Hajj e depois for libertado, deverá realizá-lo novamente.” — At-Tabarani. Sa’ib ibn Yazid disse: “Meu pai realizou o Hajj junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) durante o Hajj de Despedida. Naquela época, eu tinha sete anos.” Ahmad, Al-Bukhari e At-Tirmidhi. At-Tirmidhi acrescentou: “Os sábios concordam que, se uma criança realizar o Hajj antes de atingir a puberdade, então, após atingir a puberdade,

deverá realizar o Hajj novamente. Do mesmo modo, se um escravo realizar o Hajj enquanto ainda estiver em escravidão e depois for libertado, deverá realizá-lo novamente quando adquirir condições para o Hajj. Foi relatado por Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele): Uma mulher levou uma criança ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e perguntou: “Esta criança pode realizar o Hajj?” Ele respondeu: “Sim” [esta é a opinião da maioria dos sábios; se um menor realizar atos de adoração e boas ações, receberá sua recompensa, que será registrada em seu registro de obras. Porém, suas más ações não serão registradas, nem será punido por elas. A opinião de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) é a mesma]. “E tu receberás a recompensa por isso” [isto é, por ajudá-la a realizar o Hajj e ensiná-la].

Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: “Realizamos o Hajj junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Havia mulheres e crianças conosco. Recitamos a talbiyah em nome delas e deles, e lançamos as pedras por eles.” Ahmad e Ibn Majah.

Se a criança ou o menino tiver algum discernimento e capacidade de distinguir entre o certo e o errado, ele próprio vestirá o ihram e cumprirá pessoalmente todos os ritos do Hajj. Caso contrário, seu responsável assumirá o ihram em seu nome, recitará a talbiyah por ele, realizará o tawaf e o sa’i, permanecerá em Arafat e lançará as pedras em seu nome.

Se ele atingir a puberdade antes de permanecer em Arafat, ou enquanto estiver em Arafat, não terá de realizar o Hajj novamente. O mesmo se aplica ao escravo quando é libertado. Segundo Malik e Ibn al-Mundhir, ele deverá realizar o Hajj novamente, pois o ihram havia sido assumido voluntariamente e não se transformará em obrigatório.

O Hajj da mulher: Assim como para o homem, o Hajj também é obrigatório para a mulher quando todas as condições para sua obrigatoriedade estiverem plenamente presentes. Essas condições já foram mencionadas anteriormente. No caso da mulher, há uma condição adicional: seu marido ou algum homem mahram deve acompanhá-la no Hajj. (Mahram significa aqueles com quem o casamento é permanentemente proibido, como irmão, irmã, pai, filha, mãe e filho; o próprio pai, a própria tia paterna, o próprio sobrinho e a própria sobrinha, o próprio sobrinho e a própria sobrinha por parte da irmã, e assim por diante.)

Foi relatado por Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nenhum homem deve ficar a sós com uma mulher sem a companhia de um mahram, e nenhuma mulher deve viajar sem um mahram.” Um homem se levantou e disse: “Ó Mensageiro de Allah, minha esposa partiu para realizar o Hajj, enquanto eu me alistei para participar de determinada batalha.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Vai e realiza o Hajj com tua esposa.” Al-Bukhari e Muslim [esta ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) indica uma recomendação, pois não é obrigatório que o marido ou o mahram viaje com sua esposa. Isso porque a viagem do Hajj exige grande esforço e despesas. Ninguém é obrigado a gastar seu próprio dinheiro e esforço para ajudar outra pessoa a cumprir uma obrigação].

Yahya ibn Ubad disse: uma mulher de Ray escreveu a Ibrahim al-Nakha’i: “Ainda não realizei o hajj, uma das principais adorações do Islã. Tenho recursos suficientes, mas não tenho nenhum acompanhante mahram.” Ele respondeu-lhe: “Você é uma daquelas para quem Allah não deixou aberto o caminho para realizar o hajj.”

Segundo Abu Hanifa e seus discípulos, Ibrahim al-Nakha’i, Hasan, Sufyan al-Thawri, Ahmad e Ishaq, ter um marido ou acompanhante mahram é uma condição indispensável para que o hajj seja obrigatório para as mulheres e para que elas tenham capacidade de realizá-lo.
Hafiz Ibn Hajar disse: a opinião conhecida na escola jurídica Shafi’i é que é condição ter um marido, um mahram ou uma acompanhante confiável. Alguns disseram que basta uma única acompanhante, se ela for confiável. Em al-Qarabisi e al-Muhadhdhab, afirma-se que, se o caminho for seguro, é permitido à mulher viajar sozinha. Contudo, tudo isso se aplica ao hajj e à umrah obrigatórios ou necessários.
No livro Subul al-Salam, afirma-se: um grupo de imames disse que é permitido à mulher idosa viajar sem um acompanhante mahram. Como prova da opinião de que é permitido à mulher viajar sem marido ou acompanhante mahram quando dispõe de uma acompanhante confiável ou quando o caminho é seguro, cita-se no Sahih al-Bukhari o hadith narrado por Adi ibn Hatim. Adi disse: “Eu estava na presença do Mensageiro de Allah, quando um homem veio até ele e queixou-se de sua fome. Pouco depois, chegou outro homem e queixou-se de que havia sido assaltado. O Mensageiro de Allah disse: ‘Ó Adi, já viste Hira?’” — uma aldeia próxima de Kufa. Adi respondeu: “Não a vi, mas já ouvi esse nome.” O Mensageiro de Allah disse: “Se viveres por muito tempo, certamente a verás: uma mulher viajará sozinha de Hira até Meca e circundará a sagrada Caaba, sem temer ninguém além de Allah.”
Também se apresenta como prova o fato de que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, depois de realizar seu último hajj, permitiu que as esposas do Mensageiro de Allah realizassem o hajj e enviou Uthman e Abd al-Rahman ibn Awf com elas. Uthman anunciou: “Atenção! Que ninguém se aproxime das Mães dos Crentes nem olhe para elas.” Naquela ocasião, elas estavam em suas próprias liteiras sobre os camelos.

Quando uma mulher viaja sozinha e realiza o hajj sem marido ou mahram, seu hajj será válido. Em Subul al-Salam, afirma-se que Ibn Taymiyyah disse: o hajj da mulher sem mahram e o hajj da pessoa sem capacidade são válidos. Em suma, aqueles sobre quem o hajj não se tornou obrigatório por falta de capacidade — como o pobre, o doente, o aleijado, aquele cujos bens foram todos saqueados por assaltantes e a mulher que não encontrou um acompanhante mahram, entre outros —, quando cumprem todos os deveres do hajj, isso lhes será suficiente. Entre eles, há alguns que realizam o hajj de maneira perfeitamente correta, como aqueles que o realizam a pé. Há também outros que realizam o hajj com recursos financeiros, como aquele que o realiza mendigando e a mulher que o realiza sem acompanhante mahram. O hajj de todos eles será válido, pois possuem aptidão para o hajj. Se houver algum pecado, ele pode ter ocorrido no caminho, não no ato em si. Em al-Mughni, afirma-se: se uma pessoa incapaz partir com dificuldade, sem provisões nem montaria, e realizar o hajj, seu hajj será válido e suficiente.

A permissão do marido para a esposa realizar o hajj: mesmo quando o hajj é obrigatório para a esposa, é recomendável que ela peça a permissão do marido para realizá-lo. Se ele permitir, não há problema: ela partirá para realizar o hajj. Mas, se ele não permitir, ela irá ao hajj mesmo sem sua permissão, pois o marido não tem o direito de impedir o hajj obrigatório. Isso porque o hajj é uma adoração que se tornou obrigatória para a esposa, e não é permitido obedecer a uma criatura desobedecendo ao Criador. Quando a esposa pretende realizar uma adoração, deve cumprir prontamente o hajj. Assim como lhe cabe rezar no primeiro horário, também lhe cabe realizar o hajj. Ninguém pode impedi-la nem obrigá-la a adiá-lo. O hajj decorrente de um voto segue a mesma regra, pois também é obrigatório para a esposa como o hajj obrigatório. Contudo, o marido tem o direito e a autoridade de impedir o hajj voluntário. Em um relato de Ibn Umar transmitido por al-Daraqutni, uma mulher tinha marido e recursos. O marido não lhe permitia ir ao hajj. A respeito dela, o Mensageiro de Allah disse: “Ela não poderá ir ao hajj sem a permissão do marido.”

Se alguém morrer sem realizar o hajj obrigatório ou necessário — isto é, alguém para quem o hajj era obrigatório ou que havia feito um voto de realizá-lo, mas morreu antes de concluí-lo —, cabe ao seu responsável contratar, com recursos deixados pelo falecido, alguém que realize o hajj em seu nome, assim como cabe ao responsável pagar suas dívidas.

Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que uma mulher da tribo de Juhaynah foi até o Mensageiro de Allah e disse: “Minha mãe havia feito um voto de realizar o hajj, mas morreu antes de cumpri-lo. Posso completar o hajj em nome dela?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Sim, realiza o hajj em nome dela. Dize-me: se tua mãe tivesse uma dívida, não a pagarias? Pagai a dívida para com Allah; Allah tem maior direito de que Sua dívida seja quitada.” — al-Bukhari.

Este hadith prova que, se o falecido tinha um hajj obrigatório ou necessário pendente, é indispensável realizá-lo em seu nome, tenha ele deixado testamento ou não. Isso porque o pagamento de qualquer dívida é incondicionalmente obrigatório. Do mesmo modo, é obrigatório quitar obrigações financeiras como expiações, zakat e votos. Esta é a opinião de Ibn Abbas, Zayd ibn Thabit, Abu Hurayrah e al-Shafi’i. Quando o hajj e uma dívida se acumularem, mas a herança não for suficiente para quitar ambos, deve-se dar prioridade ao hajj, pois o Mensageiro de Allah disse: “Quitar o que é devido a Allah tem precedência.”

Segundo o Imam Malik, somente quando o falecido deixa um testamento é obrigatório realizar o hajj em seu nome. Isso porque o hajj é uma adoração na qual predomina o esforço físico; portanto, não se aceita representação para realizá-lo. Se ele deixar um testamento, o hajj deverá ser realizado com um terço de seus bens.

Hajj por delegação: é obrigatório que seja realizado o hajj em nome daquele que alcançou a capacidade de fazê-lo, mas posteriormente ficou incapacitado devido a doença ou velhice. Isso porque, por causa de sua incapacidade, ele abandonou a esperança de realizar o hajj. Portanto, ele é equiparado a uma pessoa falecida. Outra pessoa realizará o hajj em seu nome. Com efeito, é narrado no hadith de Fadl ibn Abbas que, durante o Hajj de Despedida, uma mulher da tribo de Khath’am disse: “Ó Mensageiro de Allah, Allah tornou o hajj obrigatório para os Seus servos. Porém, meu pai envelheceu tanto que já não consegue permanecer sentado firmemente sobre um camelo. Nesse caso, posso realizar o hajj por delegação em seu nome?” O Mensageiro de Allah

respondeu: “Sim.” — Todas as coleções de hadith autênticos.

At-Tirmidhi disse: Sobre este assunto, foram narrados vários hadiths do Mensageiro de Allah com cadeias de transmissão autênticas. A maioria dos sábios, incluindo os Companheiros, age de acordo com este hadith e considera obrigatório realizar o hajj por delegação em nome do falecido. Ath-Thawri, Ibn al-Mubarak, Ash-Shafi’i, Ahmad e Ishaq também são dessa opinião.

Malik disse: O hajj por delegação só será realizado quando ele tiver deixado uma recomendação para que o hajj seja feito em seu nome. Ahmad, os hanafitas, Ash-Shafi’i, Ibn al-Mubarak e alguns outros disseram que, se uma pessoa viva ficar incapaz de realizar o hajj devido à velhice, será permitido realizar o hajj por delegação em seu nome. O hadith acima demonstra que as mulheres podem realizar o hajj em nome de uma mulher ou de um homem. Nada foi dito no Alcorão ou no hadith contra isso.

Quando uma pessoa deficiente, incapacitada ou acometida por uma doença crônica recupera a saúde e a capacidade: se uma pessoa doente mandar alguém realizar o hajj por delegação em seu nome e depois se recuperar, ficará desobrigada de seu hajj obrigatório. Não terá de realizar o hajj uma segunda vez, pois isso resultaria na obrigação de realizar o hajj duas vezes. Esta é a opinião de Ahmad.

Contudo, segundo a maioria dos sábios, esse hajj por delegação não será suficiente para desobrigá-lo, pois ficou claro que ele não havia perdido completamente a esperança de se recuperar. Deve-se considerar a situação final. Ibn Hazm considerou a primeira opinião mais forte. Ele disse: Quando o Mensageiro de Allah ordenou que fosse realizado o hajj por delegação em nome de uma pessoa capaz de realizar o hajj a pé ou montada, e garantiu que, por meio disso, ela seria desobrigada da dívida que tinha para com Allah, deve-se sem dúvida reconhecer que sua dívida foi quitada e que ela ficou desobrigada. Também se pode afirmar sem dúvida que, quando uma obrigação já foi cumprida e a pessoa foi dela desobrigada, não se pode impor a realização repetida dessa obrigação sem um texto inequívoco do Alcorão ou do hadith. Neste caso, não há absolutamente nenhum texto no Alcorão ou no hadith que indique a necessidade de repetir o hajj. Se isso fosse necessário, o Mensageiro de Allah certamente o teria declarado abertamente. Com efeito, embora seja sabido que um idoso que em certo momento não consegue montar um animal pode recuperar essa capacidade a qualquer momento, o Mensageiro de Allah não informou que seria necessário realizar novamente o hajj obrigatório. Portanto, não há base válida para impor a repetição desse hajj obrigatório. O hajj por delegação que já foi realizado em seu nome cumpriu devidamente sua obrigação.

Condição do hajj por delegação: a condição para quem realiza o hajj em nome de outra pessoa é que já tenha realizado anteriormente o seu próprio hajj. Com efeito, foi narrado por Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele — que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ouviu um homem dizer: “Aqui estou, ó Allah, em nome de Shubrumah.” Imediatamente perguntou-lhe: “Você já realizou o seu próprio hajj?” Ele respondeu: “Não.” Então o Mensageiro de Allah disse: “Realize primeiro o seu próprio hajj; depois, o hajj de Shubrumah.” — Abu Dawud e Ibn Majah.

Esta é a opinião da maioria dos sábios: quem ainda não realizou o próprio hajj não pode validamente realizar o hajj em nome de outra pessoa.

Fazer o voto de realizar o hajj apesar de o hajj já ser obrigatório: Ibn Abbás e Ikrima emitiram o parecer jurídico de que, se alguém, tendo a obrigação do hajj obrigatório sobre si, realizar antes dele o hajj ao qual fez voto, tanto o hajj obrigatório quanto o hajj do voto serão considerados cumpridos, ficando livre da obrigação de ambos. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ata emitiram o parecer de que a pessoa deve realizar primeiro o hajj obrigatório e depois o hajj do voto.

Não é permitido pela lei islâmica deixar de realizar o hajj e não se casar apesar de ter capacidade: Narra-se de Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No Islã, não é permitido a ninguém permanecer celibatário para sempre nem viver sem realizar o hajj.” Isto é, não é uma prática permitida no Islã passar a vida sem realizar o hajj apesar de ter capacidade para fazê-lo, nem permanecer celibatário para sempre, seguindo o ascetismo dos cristãos, apesar de ter capacidade para se casar. Este hadith é usado como prova em favor da opinião de que quem ainda não realizou o hajj não pode realizar um hajj em nome de outra pessoa. Se tal pessoa realizar um hajj em nome de outra, ele será considerado como seu próprio hajj. Assim, ficará livre de seu próprio dever obrigatório e será desobrigada dele. Dessa forma, será aplicada a norma de não permanecer sem realizar o hajj. Esta é a opinião de Awzai, Shafii, Ahmad e Ishaq. Malik e Sauri, porém, dizem: seu hajj será válido de acordo com sua intenção. Hasan al-Basri, Ata, Nakhai e os ashab al-ra’y (racionalistas) também sustentam essa opinião.

Tomar um empréstimo para o hajj: Abd Allah ibn Abi Awfa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Perguntei ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a respeito de uma pessoa que ainda não havia realizado o hajj: ela poderia tomar um empréstimo para realizá-lo? Ele respondeu: Não. — Al-Bayhaqi.

Hajj realizado com dinheiro ilícito: Segundo a maioria dos sábios, se alguém realizar o hajj com bens ilícitos, o hajj será realizado, mas o peregrino será pecador. O imã Ahmad, por outro lado, diz: o hajj não será realizado. Na realidade, esta é a opinião mais correta. Pois consta em um hadith autêntico: “Allah é Puro e não aceita senão o que é puro.” Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando alguém parte para realizar o hajj com bens lícitos e, colocando o pé no estribo, diz: “Labbayka Allahumma labbayk” (Aqui estou, ó Allah, aqui estou), um anunciador do céu diz: “Allah aceitou repetidamente o teu hajj, pois tua provisão é lícita, tua montaria é lícita e teu hajj é puro e livre de pecados.” Mas quando alguém parte para realizar o hajj com bens ilícitos e, colocando o pé no estribo, diz: “Labbayk”, um anunciador do céu diz: “Allah não aceitará o teu hajj. Tua provisão é ilícita, teus bens são ilícitos, teu hajj está maculado pelo pecado e não receberás recompensa alguma por ele.”

Qual hajj é melhor: a pé ou montado? Hafiz Ibn Hajar escreveu em Fath al-Bari: Ibn al-Mundhir disse: Há divergência sobre se é melhor realizar o hajj a pé ou montado. Segundo a maioria, é melhor realizá-lo montado, pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazia isso; além disso, assim é mais fácil fazer súplicas e rogar humildemente, e os benefícios também são maiores. Ishaq ibn Rahawayh disse: É melhor realizar o hajj a pé, pois isso envolve maior dificuldade. Também se pode dizer que, conforme a pessoa e as circunstâncias, a excelência do hajj a pé e do hajj montado pode variar. Al-Bukhari narrou, de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu um ancião realizando o hajj apoiado nos ombros de seus dois filhos. Ele perguntou: “O que aconteceu com este homem?” As pessoas responderam: “Ele fez o voto de realizar o hajj a pé.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “É contrário à grandeza e à dignidade de Allah que alguém rico como ele submeta a si mesmo a esse sofrimento.” Então ordenou que o ancião realizasse o hajj montado.

Comércio entre os peregrinos durante o hajj, obtenção de ganhos e aluguel de diversos bens: Não há mal algum em os peregrinos realizarem compras e vendas entre si, alugarem bens e obterem ganhos durante o hajj e a umrah. Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Nos primeiros tempos do Islã, durante a temporada do hajj, os muçulmanos compravam e vendiam diversos bens em Mina, em Arafat e no mercado de Dhu al-Majaz, situado próximo a Arafat. Porém, temiam que negociar enquanto estavam em ihram prejudicasse o hajj. Por isso Allah revelou: “Não há pecado algum sobre vós se procurardes o favor de Allah” — isto é, se obtiverdes ganhos. — Al-Bukhari, Muslim e al-Nasai. Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: As pessoas não negociavam em Mina; isto é, haviam abandonado o comércio por medo do pecado. Por isso, através do versículo “Não há pecado algum sobre vós se procurardes o favor de Allah”, foi-lhes ordenado negociar depois de partirem de Arafat. — Abu Dawud. Abu Umama al-Taymi disse a Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Alugo animais de montaria durante o hajj. Várias pessoas me dizem: ‘Teu hajj não será válido.’” Ibn Umar respondeu-lhe: “Tu não vestes o ihram e recitas a talbiya? Não circundas a Casa de Allah, não partes de Arafat e não atiras as pedras?” Ele respondeu: “Sim, certamente faço tudo isso.” Ibn Umar disse: “Então teu hajj é válido.” Ibn Umar acrescentou: “Certa pessoa foi até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e fez uma pergunta semelhante à que me fizeste. Ele não lhe respondeu. Pouco depois, foi revelado o versículo: ‘Não há pecado algum sobre vós se procurardes o favor de Allah’. Então o Mensageiro de Allah ordenou que chamassem aquele homem. Quando ele veio, recitou-lhe o versículo e disse: ‘Teu hajj é válido.’” — Abu Dawud. Um homem disse a Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele): “Presto diversos serviços às pessoas mediante pagamento e também realizo o hajj com elas. Receberei recompensa?” Ibn Abbás respondeu: “Sim. ‘Eles terão uma parte da recompensa por aquilo que fizeram, e Allah é rápido no ajuste de contas.’” — Al-Bayhaqi e al-Daraqutni.

3. O hajj do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Muslim relata que Muhammad ibn Ali ibn Husayn disse: Fomos até Jábir ibn Abdullah (que Deus esteja satisfeito com ele). Ele perguntou sobre as condições das pessoas reunidas e, em determinado momento, perguntou também a mim. Respondi: “Sou Muhammad ibn Ali ibn Husayn.” Imediatamente, ele estendeu a mão até a minha cabeça e passou-a sobre o meu peito. Depois disse: “Ó sobrinho, seja bem-vindo! Pergunte o que quiser.” Naquela época, ele já havia ficado cego. Fiz-lhe uma pergunta. Então chegou o horário da oração, e ele nos conduziu na oração. Depois eu disse: “Diga-me, como o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) realizava o Hajj?” Então ele começou a falar fazendo gestos com a mão; isto é, contou com os dedos. Depois disse: “O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) passou nove anos em Medina sem realizar o Hajj. No décimo ano, anunciou-se que o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) havia decidido realizar o Hajj. Assim que o anúncio foi feito, muitas pessoas se reuniram em Medina. Cada uma desejava realizar o Hajj junto com o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Partimos em viagem com ele e chegamos a Zul-Hulayfa. Nesse período, Asma bint Umais, esposa de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), deu à luz um menino, que recebeu o nome de Muhammad ibn Abu Bakr. Ela enviou um mensageiro ao Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) para perguntar o que deveria fazer. O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Tome banho, cubra as partes íntimas com um pano largo para conter o sangramento, amarre suas duas extremidades, dianteira e traseira, e entre no ihram.” Em seguida, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) fez a oração. Depois da oração, montou sua camela, Al-Qaswa. Quando sua camela começou a levá-lo, ao chegarmos ao deserto, olhei à sua frente, à direita, à esquerda e atrás, até onde minha vista alcançava, e vi uma multidão enorme de pessoas viajando montadas ou a pé. O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) avançava entre nós, enquanto o Alcorão lhe era revelado. Ele explicava e esclarecia os versículos revelados. Nós também praticávamos conforme ele praticava. Ele recitava a talbiyah em voz alta:

لبيك اللهم لبيك لبيك لا شَريكَ لَكَ لبيك إن الحمد والنِّعْمَةَ لَكَ وَالْمُلْكَ، لَا شَرِيكَ للقه

“Ó Deus! Aqui estamos atendendo ao Teu chamado; aqui estamos, aqui estamos diante de Ti. Tu não tens parceiro algum; aqui estamos. Todo louvor, toda graça e todo o reino pertencem a Ti. Tu não tens parceiro algum.”

As pessoas começaram a recitar a talbiyah em uníssono. O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) não rejeitava nenhuma parte da talbiyah delas; ele recitava a sua própria talbiyah. Jábir (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Nós não pretendíamos realizar nada além do Hajj. Nem sequer sabíamos o que era a Umrah. Finalmente, quando chegamos com ele à Casa Sagrada, ele tocou a Pedra Angular Iemenita com a mão, fez ramal três vezes e caminhou normalmente quatro vezes. Depois foi até o Maqam Ibrahim e recitou: “Tomai o Maqam Ibrahim como local de oração.” Colocou o Maqam Ibrahim entre si e a Caaba Sagrada e fez ali duas rak‘ahs, nas quais recitou a Surata Al-Ikhlas e a Surata Al-Kafirun. Depois voltou à Pedra Angular Iemenita, tocou-a com a mão e saiu pela porta, dirigindo-se a Safa. Quando se aproximou de Safa, disse:إن الصفَا وَالْمَرْوَةَ مِنْ شَعَائِرِ اللَّهِ“Safa e Marwa estão entre os símbolos de Deus.” Depois disse: “Deus começou por Safa, e eu começo por Safa.” Então começou por Safa. Subiu até Safa e, de lá, avistou a Caaba. Voltou-se na direção da qibla, proclamou a unicidade de Deus e disse “Allahu akbar”. Depois disse:

لا إله إلا الله وحده، أَنْجَزَ وَعَدَه، وَنَصَرَ عَبْدَهُ، وَهَزَمَ الأَحْزَابَ وَحْدَهُ .

“Não há divindade além de Deus. Ele não tem parceiro algum. A soberania pertence a Ele, e o louvor também pertence a Ele. Ele é poderoso sobre todas as coisas. Não há divindade além de Deus. Ele é Único e sem igual. Cumpriu a promessa que fez, ajudou o Seu servo e derrotou sozinho as facções inimigas.” Depois fez uma súplica. Fez essa súplica três vezes. Então desceu em direção a Marwa. Quando seus dois pés chegaram ao fundo do vale, fez o sa‘i. Depois, quando subimos, ele começou a caminhar. Quando chegou a Marwa, fez ali tudo o que havia feito em Safa. Após completar a última volta em Marwa, disse: “Se eu soubesse antes o que soube depois, não teria trazido o animal para o sacrifício e teria transformado isto em Umrah. Portanto,

quem dentre vós não tiver consigo um animal para o sacrifício deve sair do ihram e transformar isto em Umrah.” Ao ouvir isso, Suraqa ibn Malik, da tribo de Khath‘am, levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), essa determinação vale somente para este ano ou para sempre?” Então o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) entrelaçou os dedos de uma mão nos dedos da outra e disse: “A Umrah entrou no Hajj” — duas vezes. “Não, mas isso vale para sempre.”

Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) veio do Iêmen trazendo consigo uma manada de camelos destinados ao sacrifício para o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e juntou-se a ele no Hajj. Então vimos Fátima (que Deus esteja satisfeito com ela) sair do ihram e vestir roupas coloridas. Ela também aplicou kohl nos olhos. Quando Ali manifestou desagrado por isso, Fátima disse: “Meu pai ordenou-me que fizesse isso.” Mais tarde, no Iraque, Ali costumava dizer: “Fui ao Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) para informá-lo do que Fátima havia feito e perguntar-lhe se era correta a declaração que Fátima fizera a respeito do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Eu disse ao Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele): ‘Não gostei do que Fátima fez.’ O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: ‘Fátima disse a verdade, disse a verdade? Quando assumiste a intenção do Hajj, o que disseste?’ Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Respondi: ‘Ó Deus, entro no ihram com a mesma intenção com que o Teu Mensageiro entrou no ihram.’ O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: ‘Tenho comigo um animal para o sacrifício; portanto, não sairemos do ihram.’” Jábir (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “A manada de camelos enviada por Ali continha cem camelos. Depois, todos os Companheiros saíram do ihram e cortaram os cabelos. Porém, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e aqueles que haviam trazido animais para o sacrifício não saíram do ihram. No oitavo dia do mês de Zul-Hijjah, todos partiram em direção a Mina e entraram no ihram para o Hajj. O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) montou um camelo e, ao chegar a Mina, fez as orações do meio-dia, da tarde, do pôr do sol e da noite. Depois de esperar algum tempo, o sol nasceu. O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) ordenou que uma tenda fosse montada para ele em Namira. Em seguida, partiu. Os coraixitas não tinham dúvida de que o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) permaneceria em Al-Mash‘ar al-Haram, como os coraixitas faziam no período da ignorância [no período da ignorância, os coraixitas permaneciam no monte de Muzdalifa, em Al-Mash‘ar al-Haram, e não chegavam à planície de Arafat. Os demais árabes, porém, atravessavam Muzdalifa e permaneciam em Arafat. Os coraixitas pensavam que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) permaneceria em Muzdalifa, imitando-os. Mas ele atravessou Muzdalifa e permaneceu em Arafat, pois Deus disse: “Ide ao lugar para onde foram todas as pessoas”, isto é, para onde foi o povo em geral: Arafat. Os coraixitas permaneciam em Muzdalifa porque Muzdalifa fazia parte do recinto sagrado. Orgulhavam-se, dizendo: “Somos os habitantes do recinto sagrado de Deus; portanto, não sairemos daqui”.].

Em seguida, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deixou Muzdalifah e chegou a Arafat. Ao chegar lá, viu que uma tenda havia sido armada para ele em Namirah. Ele permaneceu ali. Quando o sol começou a declinar, ordenou que trouxessem sua camela, Qaswa, e chegou ao vale de Batnul Wadi, na planície de Arafat. Dali, dirigiu-se à multidão, dizendo:

“Vosso sangue e vossos bens são sagrados para vós, assim como são sagrados este vosso dia, esta vossa cidade e este vosso mês. Sabei que tudo o que pertencia à época da ignorância foi abolido; todo homicídio da época da ignorância foi abolido — isto é, a retaliação foi abolida. O primeiro caso de homicídio pelo qual aboli a retaliação é o de Rabi‘ah ibn al-Hárith. Ele era amamentado entre os Banu Sa‘d e foi morto pelos Hudhail. A usura da época da ignorância foi abolida. A primeira usura que aboli é a nossa usura, a usura de Abbas ibn Abdul-Muttalib. Essa usura está completamente abolida. Temei a Allah no que diz respeito às mulheres, pois vós as tomastes sob a garantia de Allah. Tornastes lícitas para vós as suas partes íntimas com base na palavra de Allah. Vossos direitos sobre elas são que elas não permitam que ninguém de quem não gostais entre em vossos leitos. Se o fizerem, podeis golpeá-las de modo que não lhes cause sofrimento. É vosso dever assegurar-lhes adequadamente alimento e vestuário. Deixo entre vós algo ao qual, se vos apegardes, jamais vos desviareis: o Livro de Allah. Sereis questionados a meu respeito; o que direis então?” As pessoas responderam: “Testemunharemos que transmitistes a mensagem de Allah, cumpristes a vossa missão e nos aconselhastes sinceramente.” Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) levantou o dedo indicador em direção ao céu e, logo depois, apontou-o para a multidão, dizendo três vezes: “Ó Allah, sê testemunha! Ó Allah, sê testemunha!” Em seguida, foi feita a adhan. Depois, foi feita a iqamah, e ele conduziu a oração do meio-dia. Em seguida, foi feita novamente a iqamah, e ele conduziu a oração da tarde. Não ofereceu nenhuma outra oração entre essas duas. [Isso comprova que, no dia de Arafat, as orações do meio-dia e da tarde devem ser combinadas na planície de Arafat. Há consenso de toda a ummah sobre isso. Entretanto, há divergência quanto à razão. Segundo o Imam Abu Hanifah e alguns imams shafi‘itas, a razão é uma regra específica do culto. Segundo a maioria dos imams shafi‘itas, a razão são as dificuldades relacionadas à viagem].

Depois, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) montou em sua camela e chegou ao local de permanência. Virou o ventre de sua camela, Qaswa, em direção às montanhas, manteve diante de si o local onde a multidão se reunira e voltou-se para a qiblah.

Ele permaneceu em Arafat até antes do pôr do sol. Depois, quando o amarelo do sol foi gradualmente desaparecendo, colocou Usamah atrás de si. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) cutucou a camela, puxou firmemente as rédeas e, erguendo a mão direita, disse: “Ó gente, tranquilidade, tranquilidade!” Quando chegava perto de alguma montanha durante o caminho, soltava as rédeas. Assim, prosseguiu até chegar a Muzdalifah.

Ali, rezou as orações do pôr do sol e da noite com uma adhan e duas iqamahs, e não ofereceu nenhuma oração entre as duas. Depois, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deitou-se. Por fim, amanheceu; quando teve certeza de que já era manhã, conduziu a oração da alvorada com uma adhan e uma iqamah. Em seguida, montou novamente Qaswa e chegou a Al-Mash‘ar al-Haram, em Muzdalifah, onde suplicou a Allah e recitou: “Allahu akbar, la ilaha illallah.” Permaneceu em Al-Mash‘ar al-Haram até que a alvorada se tornasse completamente clara. Quando a manhã ficou mais luminosa, antes do nascer do sol, cutucou a camela e colocou Fadl atrás de si. Fadl era um jovem muito belo. Quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) cutucou a camela para indicar a partida, algumas mulheres passaram perto dele, e Fadl começou a olhar para elas. Então o Mensageiro de Allah colocou a mão sobre o rosto de Fadl. Fadl imediatamente virou o rosto para o outro lado, mas continuou olhando. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltou a colocar a mão sobre o rosto dele e virou-lhe o rosto para o outro lado. Assim, chegou a Batn Muhassir. Ali, deu um ligeiro impulso à camela. Depois, seguiu pela estrada intermediária, que passa sobre a grande jamrah — isto é, uma estrada diferente daquela usada para ir a Arafat. Assim como no Eid, é sunnah usar caminhos diferentes para ir a Arafat e retornar de lá. Chegou à jamrah situada junto à árvore e lançou contra ela sete pedrinhas. Lançava cada pedrinha dizendo “Allahu akbar” e fazia os lançamentos a partir de Batnul Wadi — isto é, mantendo Mina, Arafat e Muzdalifah à direita e Meca à esquerda. Depois, dirigiu-se ao local do sacrifício. Ali, sacrificou com as próprias mãos sessenta e três animais. Em seguida, encarregou Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Ali realizou os sacrifícios restantes e associou o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ao seu sacrifício. Depois, retirou-se um pouco de carne de cada camelo e tudo foi cozido em uma panela. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e Ali comeram a carne e beberam o caldo. Em seguida, o Mensageiro de Allah montou na camela, realizou o tawaf al-ifadah na Sagrada Caaba e rezou a oração do meio-dia em Meca. Depois, foi até os Banu Abdul-Muttalib, que ofereciam água de Zamzam, e disse: “Ó Banu Abdul-Muttalib, tirai água com baldes e cordas. Se eu não temesse que as pessoas considerassem oferecer água de Zamzam parte do Hajj, se aglomerassem e vos impedissem de realizar essa tarefa, eu tiraria água e a ofereceria convosco. Isso é, de fato, uma obra de grande recompensa.” Então, os Banu Abdul-Muttalib deram ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) um balde de água, e ele bebeu dele.”

Os sábios disseram: este é um hadith abrangente, importante e repleto de informações. O Cadi Iyad disse: houve muitos estudos sobre as normas de fiqh contidas neste hadith. Ibn al-Mundhir escreveu uma grande obra sobre este hadith, na qual formulou mais de cento e cinquenta normas jurídicas. Ele disse: se fosse realizada uma investigação mais detalhada, seria possível formular ainda mais normas.

Os sábios disseram: este hadith comprova que

(1) O banho ritual para o ihram é uma sunnah também para as mulheres menstruadas e em período pós-parto, e com maior razão para as demais.
(2) Para manter o corpo e as roupas purificados do sangramento menstrual e pós-parto, elas devem amarrar na entrada vaginal um tecido apropriado.
(3) O ihram de ambas é válido.
(4) Deve-se assumir o ihram após uma oração obrigatória ou voluntária.
(5) Aquele que está em ihram deve recitar a talbiyah em voz alta.
(6) Deve-se limitar à talbiyah que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recitava. Contudo, não há mal em acrescentar algo. Por exemplo, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, dizia: “Ó Senhor das graças abundantes, ó Senhor da excelente generosidade, eis-me presente diante de Ti; estou presente por temor a Ti e estou presente desejando-Te.”
(7) O peregrino deve ir primeiro a Meca e realizar o tawaf al-qudum.
(8) Tocar a Pedra Negra com a mão antes do tawaf.
(9) Fazer ramal nas três primeiras voltas do tawaf al-qudum, isto é, caminhar relativamente depressa entre os dois cantos iemenitas e, depois, caminhar em ritmo normal.
(10) Após o tawaf, ir ao Maqam Ibrahim e recitar o versículo:وَاتَّخِذُوا مِن مقام إبرام مصلى “Fazei do Maqam Ibrahim um lugar de oração.” Depois, deve-se realizar duas rak‘ahs mantendo o Maqam Ibrahim entre si e a Caaba. É preferível recitar a surata al-Kafirun após a surata al-Fatihah na primeira rak‘ah, e a surata al-Ikhlas na segunda.
(11) Este hadith também mostra que, assim como é sunnah tocar a Pedra Negra ao entrar na Mesquita Sagrada, também o é ao sair. Os sábios concordaram que tocar a Pedra Negra é sunnah. Da mesma forma, deve-se realizar o sa‘i após o tawaf, começando por Safa e subindo até ela. Deve-se permanecer voltado para a qiblah, recordar Allah e fazer súplicas três vezes. Deve-se fazer ramal entre as duas colunas demarcadas. Esse ramal deve ser feito em todas as sete voltas do sa‘i, e não apenas nas três primeiras, como no tawaf al-qudum. Assim como se sobe Safa, deve-se também subir Marwah e fazer recordação e súplicas. Com a conclusão dessas práticas, a umrah estará completa. Depois, ao aparar ou raspar os cabelos, o ihram será encerrado. Os Companheiros também realizaram o hajj dessa maneira. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou-lhes combinar o hajj e a umrah. Contudo, aquele que realiza o hajj qiran não deve aparar nem raspar os cabelos; deve permanecer em ihram. Em seguida, aquele que encerrou o ihram após realizar a umrah (isto é, que pretende realizar o hajj tamattu‘) assumirá o ihram com a intenção do hajj no oitavo dia de Dhu al-Hijjah, o Yawm al-Tarwiyah. Ele e o peregrino que realiza o hajj qiran assumirão o ihram e irão para Mina. É sunnah rezar as cinco orações e passar a noite em Mina, desde o dhuhr desse dia até o fajr do dia seguinte. Esta é a noite do nono dia de Dhu al-Hijjah.

O nono dia de Dhu al-Hijjah é o Dia de Arafah. É sunnah não sair de Mina antes de realizar as cinco orações desse dia e não entrar na planície de Arafat antes que o sol comece a declinar. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu em Namirah, que se situa fora de Arafat, depois de realizar as orações do dhuhr e do asr. Antes dessas duas orações, ele não entrou no local de permanência na planície de Arafah. É sunnah realizar algumas orações entre essas duas orações e o imam fazer um sermão dirigido às pessoas. Este é um dos sermões sunnah do hajj. O segundo sermão sunnah é o proferido diante da Caaba após a oração do dhuhr no sétimo dia de Dhu al-Hijjah. O terceiro sermão sunnah é o sermão do Dia do Sacrifício. O quarto sermão sunnah é o sermão do décimo terceiro dia de Dhu al-Hijjah.

No hadith são mencionadas algumas sunnahs e etiquetas relacionadas a Arafat. Entre elas estão:

– Ir ao local de permanência na planície de Arafat depois de realizar as orações do dhuhr e do asr.
– É preferível permanecer em Arafat montado em uma montaria.
– Permanecer próximo ao local onde o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu, perto das colinas.
– Permanecer voltado para a qiblah.
– Permanecer ali até o pôr do sol.
– Durante a permanência, suplicar continuamente a Allah, levantando as mãos até o peito ao suplicar; partir de Arafat lenta e tranquilamente depois de ter certeza de que o sol se pôs; e ordenar aos demais que permanecem ali que façam essas coisas, caso sigam sua orientação.

Ao chegar a Muzdalifah, fazer uma pausa; realizar as orações do maghrib e do isha no horário do isha, com um único adhan e duas iqamahs; e não realizar nenhuma oração voluntária entre essas duas orações. Todos os sábios concordam quanto à realização conjunta dessas duas orações. A divergência existe apenas quanto à sua causa. Segundo alguns, isso é um ato de adoração; segundo outros, a causa é estar em viagem. Uma das sunnahs da permanência em Muzdalifah é passar a noite ali. Não há divergência quanto ao fato de isso ser um ato de adoração; a divergência é se constitui uma sunnah ou uma obrigação. Outra sunnah é realizar a oração do fajr em Muzdalifah e, depois, partir dali. Após partir, fazer uma pausa em al-Mash‘ar al-Haram e suplicar. Permanecer ali por algum tempo também é um ato de adoração.

Depois, partir dali quando a manhã já estiver plenamente clara. Ao chegar a Batn al-Muhassir, apressar o passo, pois esse é o local onde o castigo de Allah atingiu o exército de elefantes do rei Abraha. Também não se deve parar ali, nem é recomendável caminhar lentamente.

Depois, ao chegar a Jamarat al-‘Aqabah, permanecer em Batn al-Wadi e lançar contra a jamrah sete pedrinhas do tamanho de sementes de mostarda. Ao lançar cada uma, dizer “Allahu Akbar”.

Depois, dirigir-se dali ao local do sacrifício e, caso tenha consigo um animal para o sacrifício, sacrificá-lo ali. Após o sacrifício, raspar os cabelos da cabeça. Em seguida, ir a Meca e realizar o tawaf al-ziyarah. Depois disso, tudo o que lhe era proibido por causa do ihram se tornará permitido, inclusive as relações conjugais.

Contudo, depois de atirar as pedras contra Jamrat al-Aqaba, se ainda não tiver realizado o tawaf az-ziyarah, todas as coisas, exceto as relações sexuais com a esposa, se tornarão lícitas. Este é o hajj do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Quem realizar este hajj deverá segui-lo, pois o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Tomai de mim os vossos atos de adoração.” Somente quando o hajj é concluído imitando-o e seguindo-o, ele será correto e perfeito.

Agora serão discutidas, em todos os aspectos, as opiniões dos sábios sobre cada rito do hajj e as normas de todas as escolas jurídicas.

4. Miqat

Há dois tipos de miqat: o miqat temporal e o miqat espacial.

Miqat temporal: por miqat temporal entendem-se os períodos durante os quais é obrigatório realizar todos os ritos do hajj, e fora dos quais nenhum rito do hajj será válido. Allah explicou isso no Glorioso Alcorão:

يَسْأَلُونَكَ عَنِ الْأَهِلَّةِ قُلْ هِي مَوَاقِي لِلنَّاسِ وَالْحَقِّ وَقَالَ الْحَجَّ أَعْمر معلومات .

“Perguntam-te acerca das luas novas. Dize: elas são períodos determinados para as pessoas e para o hajj.” Ele também disse: “O hajj ocorre em alguns meses determinados.” Isto é, o período do hajj compreende alguns meses conhecidos.

Os sábios concordam que os meses do hajj são os meses de Shawwal e Dhu al-Qi’dah. Há uma pequena divergência quanto ao mês de Dhu al-Hijjah. O período do hajj abrange todo o mês de Dhu al-Hijjah ou apenas os seus dez primeiros dias?

A primeira é a opinião do Imam Malik, e a segunda é a opinião de Ibn Umar, Ibn Abbas, Ibn Masud, dos hanafitas, dos shafi’itas e dos eruditos. Ibn Hazm considera a opinião de Malik mais forte. Ele diz: no versículo foi dito: “Alguns meses determinados.” Não é possível que alguns meses específicos, empregados no plural, signifiquem dois meses. Além disso, o apedrejamento das jamarat é uma das ações do hajj, realizada no âmbito de Dhu al-Hijjah. Ele é feito no dia treze de Dhu al-Hijjah. Da mesma forma, o tawaf az-ziyarah, que é uma das obrigações do hajj, pode, por consenso, ser realizado durante todo o mês de Dhu al-Hijjah. Portanto, não há mais espaço para dúvida de que o miqat temporal são três meses. O resultado dessa divergência ficará evidente nas ações do hajj realizadas depois do dia dez de Dhu al-Hijjah. Segundo os que dizem que todo o mês de Dhu al-Hijjah é miqat, não será necessário oferecer dam por esse atraso. Já segundo os que dizem que o miqat se limita até o dia dez de Dhu al-Hijjah, será necessário oferecer dam pelo atraso.

Assumir o ihram antes do início dos meses do hajj: segundo Ibn Abbas, Ibn Umar, Jabir e ash-Shafi’i, não é válido assumir o ihram fora dos meses do hajj. (Se alguém assumir o ihram do hajj fora dos meses do hajj, ele será considerado ihram da umrah — não será suficiente para o hajj.)

O Imam Bukhari disse: segundo Ibn Umar, os meses do hajj são Shawwal, Dhu al-Qi’dah e os primeiros dez dias de Dhu al-Hijjah. Já segundo Ibn Abbas, é sunnah não assumir o ihram do hajj senão durante os meses do hajj. Ibn Jarir narrou, a partir de Ibn Abbas: não é válido assumir o ihram do hajj fora dos meses do hajj.

Segundo as escolas hanafita, maliquita e hambalita, é válido assumir o ihram antes do início dos meses do hajj, porém isso é makruh. Ash-Shawkani deu preferência à primeira opinião. Ele disse: Allah, o Altíssimo, determinou alguns meses conhecidos para a realização dos atos do hajj. Devido a essa determinação, assumir o ihram antes do início dos meses do hajj tornou-se estritamente proibido. O ihram é um dos atos do hajj. Quem afirmar que é permitido assumir o ihram antes do início desses meses deverá necessariamente apresentar uma prova em apoio à sua afirmação.

Miqat espacial: o miqat espacial são os lugares a partir dos quais a pessoa que deseja realizar o hajj ou a umrah

deve assumir o ihram, e não é permitido a nenhum peregrino do hajj ou da umrah ultrapassar esse lugar sem ihram. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) designou esses lugares. O miqat dos habitantes de Medina é Dhu al-Hulayfah, que fica 450 km ao norte de Makkah. Para os habitantes da Síria, ele designou al-Juhfah, situada 187 km a noroeste de Makkah. Esse lugar fica próximo de Rabigh, situado a 204 km de Makkah. Depois que os vestígios de al-Juhfah desapareceram, Rabigh tornou-se o miqat dos egípcios, dos sírios e daqueles que transitam entre o Egito e a Síria. O miqat dos habitantes de Najd é Qarn al-Manazil (uma montanha situada a leste de Makkah, de onde se pode ver Arafat. Sua distância de Makkah é de 94 km). O miqat dos habitantes do Iêmen é Yalamlam. Esse é o nome de uma montanha situada 54 km ao sul de Makkah. O miqat dos habitantes do Iraque é Dhat Irq. Esse lugar está situado 94 km a nordeste de Makkah.

Esses são os miqats designados e determinados pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles são obrigatórios para todos os que passam por esses lugares, sejam seus habitantes ou habitantes de qualquer outra região. (Por exemplo, se um sírio que deseja realizar o hajj entrar em Medina, seu miqat será Dhu al-Hulayfah, pois ele terá de passar por Dhu al-Hulayfah. Não lhe será permitido adiar o ihram até chegar ao seu miqat original, Rabigh. Se o fizer, pecará e, segundo a maioria dos eruditos, deverá oferecer dam — um sacrifício.) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse em termos inequívocos: “Esses miqats são para os habitantes dessas regiões e para aqueles que passam por elas, dentre os que desejam realizar o hajj e a umrah.” Se alguém, não sendo habitante dessas regiões, desejar ir a Makkah para o hajj ou a umrah, assumirá o ihram a partir desses lugares. Quanto àquele que reside em Makkah, seu miqat é sua própria residência em Makkah. Se quiser realizar o hajj, assumirá o ihram dali. Se quiser realizar a umrah, seu miqat é fora dos limites do Haram. Ele deverá sair do Haram e dirigir-se até lá, assumir o ihram e retornar. No mínimo, deverá ir até Tan’im. Já aquele que reside entre Makkah e o miqat tem sua própria residência como miqat. Ibn Hazm disse: aquele cujo caminho para Makkah não passa por nenhum desses miqats assumirá o ihram de qualquer lugar, por via marítima ou terrestre.

Assumir o ihram antes do miqat: Ibn al-Mundhir disse: os eruditos concordam que o ihram daquele que o assume antes do miqat é válido, porém makruh. Isso porque a declaração dos Companheiros: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) determinou Dhu al-Hulayfah como miqat para os habitantes de Medina” impõe a obrigação de assumir o ihram a partir desses miqats e proíbe alterá-los, aumentando-os ou diminuindo-os. Portanto, mesmo que a alteração não seja haram, certamente é preferível evitá-la.

5. Ihram

Definição de ihram: ihram significa ter a intenção de realizar o hajj ou a umrah, ou de realizar ambos. Ele é um dos pilares do hajj, isto é, uma obrigação e parte inseparável dele. Pois Allah, o Altíssimo, disse:

وَمَا أَمِرُوا إِلَّا لِيَعْبُدُوا اللهَ مُخْلِصِينَ لَهُ الدِّين .

“Foi-lhes ordenado apenas que adorassem a Allah, devotando-Lhe sinceramente a sua obediência.” E o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “As ações são determinadas pelas intenções. Cada pessoa obterá somente aquilo que intencionou.” A realidade ou o significado da intenção já foi discutido anteriormente (ver o capítulo sobre wudu). Foi dito ali que o lugar da intenção é o coração. Ibn al-Humam disse: nenhum narrador ouviu o Mensageiro de Allah dizer: “Tenho a intenção de realizar a umrah ou o hajj.”

Há determinadas regras e etiquetas relativas ao ihram que devem ser observadas. A seguir, mencionamos essas regras:

1. Limpeza e higiene: cortar as unhas, aparar o bigode, arrancar os pelos das axilas, raspar os pelos abaixo do umbigo e realizar wudu ou ghusl. O ghusl é preferível. Também se deve limpar a barba e os cabelos. Essas ações proporcionam a purificação. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “É sunnah tomar banho ao pretender entrar no ihram e ao desejar entrar em Meca.” — al-Bazzar, ad-Daraqutni e al-Hakim.

Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “As mulheres menstruadas e as que estão em estado de nifas devem tomar banho com a intenção do banho do ihram. Com isso, será permitido que entrem no ihram e realizem todos os atos do hajj ou da umrah. Contudo, não poderão realizar o tawaf da Caaba até que estejam purificadas da menstruação e do nifas.” — Ahmad, Abu Dawud e at-Tirmidhi. (Este hadith prova que o ihram é válido mesmo em estado de impureza que exige wudu, isto é, em estado de hadath.

2. Abandonar as roupas costuradas e vestir as duas peças de roupa do ihram. Uma dessas duas peças é um manto que cobre a parte superior do corpo, exceto a cabeça, e a outra é um izar sem costura que cobre a parte inferior do corpo. É recomendável que ambas sejam brancas, pois as roupas brancas são as mais queridas por Allah. Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seus Companheiros partiram depois de desmontarem de suas montarias, usarem óleo e vestirem o manto e o izar.” — al-Bukhari.

3. Aplicar perfume no corpo e nas roupas, quer seu efeito permaneça após entrar em ihram, quer não. Embora alguns sábios considerem isso makruh, este hadith refuta sua opinião. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Ainda parece que estou vendo a risca dos cabelos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, brilhando por causa do perfume enquanto ele estava em estado de ihram.” — Bukhari e Muslim.

Bukhari e Muslim também narram de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela: “Antes de ele entrar em ihram, eu perfumava o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para o ihram; e, depois de ele lançar as pedras, eu o perfumava para sair do ihram, antes do tawaf da Caaba.” Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Fomos a Meca com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Durante o ihram, perfumávamos nossas testas com almíscar. Quando alguma de nós suava, o almíscar escorria pelo seu rosto. O Mensageiro de Allah via isso, mas não nos proibia.” — Ahmad e Abu Dawud.

4. Duas rak‘ahs de oração. Deve-se formular a intenção como uma sunnah do ihram. Na primeira rak‘ah, após a Surata Al-Fatiha, recita-se “Al-Kafirun”; e, na segunda, a Surata Al-Ikhlas.

Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, costumava rezar duas rak‘ahs em Zul-Hulaifa.” — Muslim.

Se nesse momento a pessoa realizar uma oração obrigatória, não será necessário realizar outra oração, assim como, se alguém rezar uma oração obrigatória ao entrar na mesquita, não precisará realizar a oração de saudação à mesquita.

Quantos tipos de ihram existem e quais são? O ihram é de três tipos: 1. qiran; 2. tamattu‘; e 3. ifrad. Todos esses três tipos de ihram são unanimemente considerados válidos.

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “No ano da Peregrinação de Despedida, partimos com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Alguns de nós entraram em ihram para a umrah; outros, para o hajj e a umrah juntos; e outros, apenas para o hajj. O Mensageiro de Allah entrou em ihram apenas para o hajj. Aquele que havia entrado em ihram somente para a umrah saiu do ihram após realizar o tawaf de chegada, isto é, ao chegar a Meca. Já aquele que havia entrado em ihram somente para o hajj, ou para o hajj e a umrah juntos, não saiu do ihram por meio do tawaf de chegada. Ele só saía do ihram mediante o sacrifício e o corte dos cabelos no dia 10 de Zul-Hijjah.” — Ahmad, Bukhari, Muslim e Malik.

Qiran e seu significado: entrar em ihram, a partir do miqat, com a intenção tanto do hajj quanto da umrah, e dizer, durante a talbiyah: “Labbayka bi-hajjin wa ‘umratin” (Aqui estou, ó Allah, para o hajj e a umrah). Por causa desse ihram, torna-se obrigatório que a pessoa permaneça em estado de ihram até realizar todos os ritos do hajj e da umrah.

Tamattu‘ e seu significado: realizar a umrah durante os meses do hajj e completar o hajj no mesmo ano em que se realizou a umrah chama-se tamattu‘. Foi chamado tamattu‘ (obter benefício) porque, por esse método, a pessoa em ihram pode completar os dois atos de adoração — o hajj e a umrah — durante os meses do hajj do mesmo ano, sem retornar ao seu país. Além disso, após a umrah, ela pode sair do ihram e usar roupas costuradas, perfume e outras coisas como uma pessoa comum. O método do tamattu‘ consiste em entrar em ihram, a partir do miqat, somente para a umrah e dizer, durante a talbiyah: “Labbayka bi-‘umratin” (Aqui estou, ó Allah, para a umrah).

Por causa deste ihram, o peregrino deve permanecer em estado de ihram até chegar a Meca, circumambular a Caaba, realizar o sa‘i entre Safa e Marwa (dar as voltas), raspar ou aparar os cabelos, sair do estado de ihram, tirar as roupas do ihram e vestir roupas comuns, tornando lícito tudo aquilo que anteriormente lhe havia sido proibido por causa do ihram. Então, quando chegar o dia 8 de Zul-Hijja, deverá entrar em ihram em Meca para realizar o hajj.

Está escrito em Fath al-Bari que, segundo a maioria dos sábios, tamattu‘ significa que uma pessoa realiza o hajj e a ‘umra na mesma viagem, durante os meses do hajj do mesmo ano, realizando primeiro a ‘umra. Se uma dessas condições não for cumprida, não será tamattu‘.

O significado de ifrad: quando a pessoa que pretende realizar o hajj entra em ihram, a partir do miqat, somente para o hajj, e recita a talbiya dizendo: “Labbaika bi-hajj” (Eis-me aqui, ó Senhor, para o hajj), isso se chama ifrad. Aquele que entra em ihram para o ifrad permanece nesse estado até concluir todos os ritos do hajj. Depois, se quiser, poderá realizar a ‘umra.

Há divergência entre os juristas sobre qual dos três tipos de ihram é o melhor. (A razão dessa divergência é a diferença de opiniões sobre qual modalidade o Mensageiro realizou. Contudo, a opinião correta é que ele realizou o qiran, pois levou consigo o animal destinado ao sacrifício.) Segundo a escola chafeíta, ifrad e tamattu‘ são melhores que qiran, pois aquele que realiza tamattu‘ ou ifrad consegue cumprir plenamente tanto o hajj quanto a ‘umra, enquanto aquele que realiza qiran cumpre apenas os ritos do hajj. Os chafeítas também disseram que há duas opiniões sobre tamattu‘ e ifrad: segundo uma, tamattu‘ é melhor; segundo a outra, ifrad é melhor. Os hanafitas dizem que qiran é melhor que tamattu‘ e ifrad, e que tamattu‘ é melhor que ifrad. Segundo os malekitas, ifrad é melhor que tamattu‘ e qiran. Para os hambalitas, tamattu‘ e qiran são melhores que ifrad. A opinião dos hambalitas é mais fácil e mais flexível para o público em geral. Essa era também a preferência do Mensageiro para si mesmo, e ele ordenava aos Companheiros que a adotassem.

Muslim narra, com base em Jabir, que Jabir disse: Nós, os Companheiros do Mensageiro, entrávamos em ihram somente para o hajj. Na manhã do dia 4 de Zul-Hijja, o Mensageiro de Allah chegou e ordenou-nos que saíssemos do estado de ihram. Disse: “Tornai-vos lícitos e aproximai-vos de vossas esposas.” Ele não tornou isso obrigatório, mas tornou lícitas as esposas para seus maridos. Dissemos: “Por que nos ordenas isso quando faltam apenas cinco dias para o dia de ‘Arafa? Nós nos aproximaremos de nossas esposas e depois compareceremos a ‘Arafa ainda em estado de impureza?” Ao ouvir isso, o Mensageiro falou diante de nós: “Sabeis que temo a Allah mais do que vós, sou mais veraz do que vós e mais virtuoso do que vós! Se eu não tivesse comigo um animal destinado ao sacrifício, também teria saído do estado de ihram como vós. Se eu desejasse facilidades para mim mesmo, não teria trazido comigo um animal destinado ao sacrifício. Portanto, saí do estado de ihram.” Então saímos do estado de ihram e ouvimos e obedecemos à ordem.

Também é permitido entrar em ihram de maneira geral. Aquele que, por não conhecer as diferentes modalidades de ihram e seus detalhes, entra em ihram simplesmente com a intenção de cumprir a obrigação imposta por Allah, sem mencionar nenhuma das três modalidades, terá um ihram válido e correto. Os sábios dizem: se alguém entra em ihram e recita a talbiya com a intenção de adorar, apenas imitando os outros, sem mencionar nenhuma modalidade e sem conceber mentalmente qualquer tipo específico de ihram, sem mencionar ifrad, qiran ou tamattu‘, seu hajj também será válido. Ele poderá realizar qualquer uma das três modalidades.
A circumambulação e o sa‘i daquele que realiza qiran e tamattu‘, e somente ifrad para os habitantes do Santuário:

Ibn ‘Abbas foi questionado sobre o hajj tamattu‘. Ele respondeu: Durante o Hajj de Despedida, os Ansar, os Muhajirun e as esposas do Mensageiro de Allah entraram em ihram. Nós também entramos em ihram. Quando chegamos a Meca, o Mensageiro disse: “Transformai o vosso ihram feito para o hajj em ihram para a ‘umra também.” Contudo, a situação daquele que trouxe consigo um animal destinado ao sacrifício era diferente. Circumambulamos a Casa de Allah, realizamos o sa‘i entre Safa e Marwa, aproximamo-nos de nossas esposas e vestimos roupas comuns. O Mensageiro disse: “Aquele que trouxe consigo um animal destinado ao sacrifício não sairá do estado de ihram até que o animal chegue ao local designado para o sacrifício.” Depois, na noite do dia 8 de Zul-Hijja, foi-nos ordenado entrar em ihram para o hajj. Após concluirmos os ritos do hajj, fomos a Meca, circumambulamos a Caaba e realizamos o sa‘i entre Safa e Marwa. Até esse ponto havíamos concluído o hajj, mas permanecia sobre nós a obrigação do sacrifício. Como Allah disse:

فَمَنْ تَمَتَّعَ بِالْعُمْرَةِ إِلَى الْحَقِّ فَمَا اسْتَيْسَرَ مِنَ الْهَدْيِ، فَمَنْ لَمْ يَجِدْ فَصِيَامُ ثَلَاثَةِ أَيَّامٍ فِي الْحَجِّ وسَبْعَةِ إِذَا رَجَعْتُمْ إِلَى أَمْصَارِكُمْ.

“Quem usufruir da Umrah até o Hajj deverá oferecer um sacrifício conforme suas possibilidades. E quem não tiver condições de oferecer o sacrifício deverá jejuar três dias durante os dias do Hajj e sete dias quando retornar ao seu país.” Uma cabra é suficiente como sacrifício. Assim, eles realizaram, em um único ano, os dois atos de adoração: o Hajj e a Umrah. Allah revelou isso em Seu Livro e na Sunnah de Seu Mensageiro, e tornou-o lícito para todas as pessoas, exceto os habitantes de Meca. Allah disse:

ذلك لِمَنْ لَمْ يَكُن أَهْلَهُ حَاضِرِي الْمَسْجِدِ الْحَرَامِ .

“Este sistema é para aqueles cujas famílias não são residentes da Mesquita Sagrada.” E os meses que Allah designou como meses do Hajj são Shawwal, Dhu al-Qi’dah e Dhu al-Hijjah. Quem realizar tamattu’ nesses meses estará sujeito à determinação de oferecer um sacrifício ou jejuar. — Bukhari.

1. Este hadith prova que os residentes do Território Sagrado não podem realizar nem tamattu’ nem qiran. Quer realizem o Hajj, quer realizem a Umrah, deverão fazer ifrad. (Entretanto, segundo Malik, Shafi’i e Ahmad, os habitantes de Meca podem realizar tamattu’ e qiran. Isso não é makruh para eles.)

Esta é a opinião de Ibn Abbas e Abu Hanifa. Eles a fundamentam no versículo mencionado anteriormente. Há divergência quanto ao significado de “residentes da Mesquita Sagrada”. Segundo Malik, trata-se dos habitantes de Meca. Al-Tahawi dá preferência a essa opinião. Segundo Ibn Abbas, Tawus e outros, significa os residentes da menor distância a partir da qual se deve encurtar a oração ao sair do Território Sagrado. Ibn Jarir apoiou essa opinião. Segundo os hanafitas

significa aqueles cujas famílias residem no miqat ou a uma distância inferior a ele. Deve-se observar que o local de residência é o que conta, e não o local de nascimento.

Também se sabe pelo hadith que aquele que realiza tamattu’ deve, primeiramente, fazer o tawaf e o sa’i da Umrah. Assim, não precisará realizar o tawaf de chegada. Depois de permanecer em Arafah, deverá fazer o tawaf de visita e, em seguida, o sa’i.

Quanto ao qiran, a opinião da maioria dos sábios é que os ritos do Hajj são suficientes para quem o realiza. Depois de permanecer em Arafah, ele deverá fazer apenas um tawaf de visita e um sa’i. Esse único tawaf e esse único sa’i são suficientes tanto para o Hajj quanto para a Umrah, como ocorre no caso daquele que realiza o Hajj ifrad. (A única diferença é que, no qiran, deve-se ter a intenção tanto do Hajj quanto da Umrah; já no ifrad, somente a intenção do Hajj.)

Narrado por Jābir, o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Para quem entra em ihram para o Hajj e a Umrah, um tawaf e um sa‘i são suficientes.” — At-Tirmidhi.

Narrado por Ibn Umar, o Mensageiro ﷺ disse: “Para quem entra em ihram para o Hajj e a Umrah, um tawaf e um sa‘i são suficientes.” — At-Tirmidhi.

Muslim narrou que o Mensageiro de Allah ﷺ disse a Aisha: “O teu tawaf da Caaba e de Safa e Marwa é suficiente para o teu Hajj e a tua Umrah.”

Segundo Abu Hanifa, são necessários dois tawafs e dois sa‘is para o Hajj e a Umrah. Contudo, a primeira opinião é mais preponderante, pois as suas provas são mais fortes.

Este hadith também mostra que tanto aquele que faz qiran quanto aquele que faz tamattu‘ devem oferecer um sacrifício.

Deve-se oferecer, no mínimo, o sacrifício de uma cabra. Se não puder fazê-lo, deverá jejuar três dias durante o Hajj e sete dias depois de retornar ao seu país. Quanto aos três dias de jejum durante o Hajj, é melhor jejuá-los nos primeiros dez dias de Dhu al-Hijjah, antes do Dia de Arafah. Alguns sábios, como Tawus e Mujahid, julgaram lícito jejuá-los no início de Shawwal. Segundo Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, esses três jejuns devem ser observados da seguinte forma: um dia antes do dia 8 de Dhu al-Hijjah, no dia 8 e no dia 9 de Dhu al-Hijjah. Se deixar de jejuar um dia ou jejuar parte deles antes do Eid, será lícito completar os jejuns restantes durante os Dias de Tashriq. Isso porque Aisha e Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ambos, disseram: “Não é permitido jejuar durante os Dias de Tashriq; porém, isso é permitido àquele que não pode oferecer o sacrifício.” — Al-Bukhari.

Quando não for possível observar os três dias de jejum durante o Hajj, eles deverão ser compensados posteriormente. Os sete jejuns restantes deverão ser observados depois de retornar ao país. Alguns dizem que se pode jejuar ao retornar para junto da própria caravana. Segundo esta última opinião, é permitido jejuar durante o caminho. Não é necessário observar esses dez jejuns consecutivamente. E, quando fizer a intenção e entrar em ihram, deverá recitar a talbiyah.

6. Talbiyah (dizer labbayka)

Definição e norma da talbiya: Os sábios são unânimes em afirmar que a talbiya é uma norma da šariah no hajj. Foi narrado por Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó descendentes de Muhammad, quem dentre vós realizar o hajj deve recitar a talbiya durante o seu hajj.” Ahmad e Ibn Hibban. (Segundo Zamakhshari, a palavra labbayka significa que o servo permanece continuamente obediente a Ti.) Há divergência quanto à necessidade de dizer labbayka segundo a šariah, ao momento em que deve ser recitada e ao que ocorre se houver atraso, entre outras questões. Segundo al-Shafi‘i e Ahmad, ela é uma sunna, e é recomendável dizê-la juntamente com a entrada no ihram. Se alguém intencionar realizar o hajj ou a umra e não pronunciar a talbiya, seu hajj e sua umra serão válidos. Não será necessário oferecer nenhuma expiação ou algo semelhante, pois, segundo al-Shafi‘i e Ahmad, o ihram se torna válido somente pela intenção.

Segundo os hanafitas, a talbiya, ou aquilo que a substitui, ou uma súplica ou tasbih de significado próximo, bem como levar consigo o animal destinado ao sacrifício, são algumas das condições do ihram. Portanto, o ihram não é válido sem a talbiya ou o tasbih e sem levar o animal destinado ao sacrifício. A base da afirmação dos hanafitas é que, para eles, o ihram consiste na combinação da intenção com alguma prática do hajj. Assim, quando alguém formular a intenção de entrar no ihram e realizar alguma prática do hajj — como recitar o tasbih ou a talbiya, ou levar consigo o animal destinado ao sacrifício sem recitar a talbiya — terá completado o ato de entrar no ihram. Contudo, por deixar de recitar a talbiya, deverá oferecer um dam (sacrifício). A opinião mais conhecida na escola maliquita é que recitar a talbiya é obrigatório. Quem abandonar a talbiya ou não a recitar imediatamente após entrar no ihram, tendo condições de oferecer um sacrifício, deverá fazê-lo.

A fórmula da talbiya: Foi narrado por Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que a talbiya do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era assim:

لبيك اللهم لبيك لبيك لا شريك لك لبيك إن الحمد والنِّعْمَةَ لَكَ وَالْمُلْكَ، لَا خَرِيكَ لَكَ.

Nafi‘ disse: Abdullah ibn Umar acrescentava a isto: “Labbayka, labbayka, labbayka, wa sa‘dayka, wal-khayru bi-yadayka, labbayka war-raghbā’u ilayka wal-‘amalu.” Os sábios consideram recomendável limitar a talbiya à fórmula da talbiya do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Há divergência entre eles quanto a acrescentar palavras além dela. Contudo, segundo a maioria dos sábios, não há problema em acrescentá-las, pois muitos Companheiros, incluindo Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), faziam acréscimos, e o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao ouvi-los, nada disse. Abu Dawud e al-Bayhaqi.

Malik e Abu Yusuf consideram makruh acrescentar algo à talbiya do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

A virtude da talbiya: Ibn Majah narrou, por intermédio de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se alguém em estado de ihram passar todo o dia recitando a talbiya até o pôr do sol, seus pecados desaparecerão. Assim, tornar-se-á tão inocente quanto uma criança recém-nascida.”

Al-Tabarani narrou, por intermédio de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sempre que aquele que recita a talbiya a recita, recebe boas-novas; e sempre que aquele que pronuncia o takbir pronuncia o takbir (diz ‘Allahu akbar’), recebe boas-novas.” Perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, boas-novas do Paraíso?” Ele respondeu: “Sim.”

Foi narrado por Sahl ibn Saad que o Mensageiro de Allah disse: Quando um muçulmano recita a talbia, todas as árvores, pedras e pedrinhas à sua direita e à sua esquerda recitam a talbia com ele, até que a terra, daqui até ali, seja interrompida. — Ibn Majah, al-Bayhaqi, al-Tirmidhi e al-Hakim.

É recomendável recitar a talbia em voz alta. Foi narrado por Zayd ibn Khalid, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Jibril veio até mim e disse: Ordene aos seus companheiros que recitem a talbia em voz alta. Isso é um dos sinais do Hajj. — Ibn Majah, Ahmad, Ibn Khuzaymah e al-Hakim.

Foi narrado por Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele: Perguntaram ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: Que tipo de Hajj é melhor? Ele respondeu: Aquele em que se recita a talbia em voz alta e se oferece um animal em sacrifício. — al-Tirmidhi, Ibn Majah.
Abu Hazim disse: Quando os companheiros do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entravam no ihram, suas vozes se tornavam extremamente fortes antes mesmo de chegarem a Rawha. Com base nesses hadiths, a maioria dos sábios prefere a recitação da talbia em voz alta.

O Imam Malik disse: Nas pequenas mesquitas, a talbia não deve ser recitada em voz alta. É suficiente que a própria pessoa consiga ouvi-la. Somente na Mesquita dos Minaretes e na Mesquita Sagrada a talbia deve ser recitada em voz alta. Isso se aplica aos homens.

As mulheres recitarão a talbia de modo que somente elas mesmas e a pessoa que estiver ao lado possam ouvi-la. Recitá-la mais alto do que isso é makruh. Ata disse: Os homens recitarão a talbia em voz alta, e as mulheres a recitarão de modo que somente elas mesmas possam ouvi-la.
Há diversas situações e circunstâncias em que é recomendável recitar a talbia. Por exemplo, ao montar na montaria, ao descer dela, sempre que se subir a um lugar elevado, ao descer a um lugar baixo ou ao encontrar outro cavaleiro; ao término de cada oração e no fim da noite. Segundo o Imam al-Shafi‘i, é recomendável recitá-la em todas as circunstâncias.

O momento da talbia: aquele que está no ihram começará a recitar a talbia desde o início do ihram e continuará até lançar a primeira pedrinha na última Jamrat al-Aqaba, no Dia do Sacrifício. Depois da primeira pedrinha, cessará a talbia, pois o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recitava continuamente a talbia até chegar à jamrah. — Todas as coletâneas de hadiths autênticos.

Essa é a opinião de Abu Hanifah, al-Shafi‘i, al-Thawri e da maioria dos sábios.

Ahmad e Ishaq disseram: Ele recitará a talbia até lançar todas as pedrinhas e então cessará. Malik disse: Recitará a talbia até o sol começar a declinar, no dia de Arafah, e então cessará. Isso se refere ao Hajj. Quanto àquele que realiza a Umrah, recitará a talbia até tocar a Pedra Negra, pois foi narrado por Ibn Abbas que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, cessava a recitação da talbia na Umrah ao tocar a Pedra Negra. — al-Tirmidhi.

A maioria dos sábios agia de acordo com isso [At-Tirmidhi disse: quando alguém assume o ihram a partir do miqat, deve interromper a recitação da talbiyah assim que entrar no Santuário Sagrado. E quando assume o ihram a partir de Jarana ou Tan’im, deve interromper a talbiyah assim que entrar na área residencial de Meca].

Enviar salat ao Mensageiro e fazer súplicas após a talbiyah: Foi narrado por Qasim ibn Muhammad ibn Abu Bakr que, quando uma pessoa termina de recitar a talbiyah, é mustahabb enviar salat ou durud ao Mensageiro. Após a talbiyah, o Mensageiro de Allah pedia a Allah perdão e Sua satisfação, e buscava refúgio em Allah contra as pessoas más. — At-Tabarani.

7. Atos permitidos para o muhrim:

1. Tomar banho e trocar as roupas do ihram: Ibrahim An-Nakha’i narrou que disse: quando nossos imames chegavam ao poço de Maymun, tomavam banho e vestiam boas roupas. Quando Ibn Abbas entrava na casa de banho de Juhfah, estava em estado de ihram. Disseram-lhe: “Você entra na casa de banho estando em estado de ihram?” Ele respondeu: “Allah, o Altíssimo, não necessita da sujeira e das impurezas dos nossos corpos.”

Foi narrado por Jabir que o muhrim deve tomar banho e lavar suas próprias roupas. Abdullah ibn Hunayn disse: Ibn Abbas e Al-Miswar discutiram em Abwa. Ibn Abbas disse: “O muhrim deve lavar a cabeça.” Al-Miswar disse: “O muhrim não deve lavar a cabeça.” Então Ibn Abbas enviou-me a Abu Ayyub Al-Ansari. Eu o vi tomando banho entre as duas extremidades de um tanque, usando uma peça de roupa. Cumprimentei-o com salam. Ele perguntou: “Quem é você?” Respondi: “Sou Abdullah ibn Hunayn. Ibn Abbas enviou-me até você. Ele lhe pergunta como o Mensageiro tomava banho quando estava em estado de ihram.” Abu Ayyub colocou a mão sobre a roupa e a afastou da cabeça; assim, sua cabeça ficou descoberta diante de mim. Depois disse: “Uma pessoa simplesmente derrama água sobre o próprio corpo. Eu estou derramando.” Então derramou água sobre a cabeça e esfregou-a com as mãos, levando-as uma vez para a frente e outra para trás. Depois disse: “Foi assim que vi o Mensageiro tomar banho.” — Todas as coletâneas de hadith sahih, exceto At-Tirmidhi.

Al-Bukhari acrescentou em sua narração: depois voltei para Ibn Abbas e Al-Miswar. Então Al-Miswar disse a Ibn Abbas: “Nunca mais discutirei com você.” Ash-Shawkani disse: este hadith prova que é permitido ao muhrim tomar banho. Também é permitido cobrir a cabeça com a mão durante o banho. Ibn Al-Mundhir disse: todos concordam que, se o muhrim se tornar impuro devido à ejaculação, é obrigatório que tome banho; quanto ao banho em outras situações, há divergência. Malik narrou em seu Muwatta, por meio de Nafi’, que Ibn Umar não lavava a cabeça durante o ihram por nenhuma razão além de uma emissão noturna. Foi narrado de Malik: é makruh para o muhrim mergulhar a cabeça na água. É permitido usar sabão e produtos semelhantes para remover a sujeira. Segundo os shafi’itas e os hanbalitas, é permitido ao muhrim tomar banho com sabão perfumado. Do mesmo modo, é permitido soltar os cabelos, desfazer o coque e penteá-los. O Mensageiro disse a Aisha: “Solta os teus cabelos e penteia-os.” — Muslim.

An-Nawawi disse: segundo nossa opinião, é permitido ao muhrim soltar os cabelos e penteá-los. Contudo, deve cuidar para que nenhum fio seja arrancado. Pentear-se sem necessidade é makruh. Não há problema em carregar os próprios pertences sobre a cabeça.

2. Usar calções: Al-Bukhari narrou, por meio de Aisha, que ela não considerava haver problema em o muhrim usar calções. (Esta é a opinião pessoal de Aisha. A opinião da maioria é que não há diferença entre calças e calções como roupas costuradas; ambas são proibidas para o muhrim. Fath al-Bari.)

3. Cobrir o rosto: Ash-Shafi‘i e Sa‘id ibn Mansur narraram, de Qasim, que Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), Zayd ibn Thabit e Marwan cobriam o rosto enquanto estavam em ihram. Tawus disse: aquele que está em ihram pode cobrir o rosto para se proteger da poeira. Mujahid disse: quando soprava um vento forte durante o ihram, os Companheiros cobriam o rosto ao caminhar. Ninguém se opunha a isso.

4. A mulher usar meias: Abu Dawud e Ash-Shafi‘i narraram, de ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela), que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permitiu às mulheres usar meias.

5. Cobrir a cabeça por engano: os shafi‘itas dizem: se alguém cobrir a cabeça por engano ou vestir uma roupa por engano, não há problema nisso. ‘Ata disse: não terá de oferecer expiação ou algo semelhante; porém, deverá pedir perdão a Allah. Segundo os hanafitas, deverá oferecer uma fidyah. Há divergência semelhante quanto ao uso de perfume por ignorância ou por engano. O princípio dos shafi‘itas é que a ignorância e o erro são considerados desculpas válidas em qualquer ato proibido, razão pela qual não é necessário oferecer fidyah. Contudo, se disso resultar algum dano, como caçar, raspar os cabelos ou cortar as unhas, então o caso é diferente. Isso será discutido posteriormente.

6. Sangria, lancetar furúnculos, extrair dentes e cortar veias: o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi submetido a uma sangria no centro da cabeça enquanto estava em ihram. Há prova disso [Ibn Taymiyyah disse: não é possível fazer a sangria sem raspar parte dos cabelos].

Malik disse: quando necessário, não há problema em abrir um furúnculo, enfaixar uma ferida ou cortar uma veia. Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: aquele que está em ihram pode extrair um dente e lancetar um furúnculo.
An-Nawawi disse: se aquele que está em ihram quiser fazer uma sangria sem necessidade, deve-se verificar se isso implica cortar os cabelos. Se implicar, esse tipo de sangria é proibido por envolver o corte dos cabelos. Caso contrário, segundo a maioria dos sábios, não é proibido. Malik, porém, considerou-o makruh. Segundo Al-Hasan, mesmo que não envolva cortar os cabelos, será necessário oferecer fidyah por isso. Se a sangria for necessária, será permitido cortar os cabelos, mas será necessário oferecer fidyah. Segundo a escola zahirita, só será necessário oferecer fidyah se forem cortados os cabelos da cabeça.

7. Coçar a cabeça e o corpo: foi narrado de ‘A’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) que, quando lhe perguntaram se aquele que está em ihram pode coçar e esfregar o corpo, ela respondeu: sim; pelo contrário, deve coçá-lo e esfregá-lo bem. Al-Bukhari, Muslim e Malik. Malik acrescentou que ‘A’ishah disse: se minhas mãos estivessem amarradas, eu coçaria e esfregaria com os pés. Hadices semelhantes também foram narrados de Ibn ‘Abbas, Jabir, Sa‘id, ‘Ata e Ibrahim an-Nakha‘i.

8–9. Olhar-se no espelho e cheirar perfume: Al-Bukhari narrou, de Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele):

Aquele que está em ihram pode cheirar perfume, olhar-se no espelho e cuidar da saúde comendo óleo e ghee.

Foi narrado por Omar ibn Abd al-Aziz (que Allah esteja satisfeito com ele) que, enquanto estava em estado de ihram, ele se olhava no espelho e usava o miswak.

Ibn al-Mundhir disse: Os eruditos concordam que é permitido ao muhrim consumir óleo, gordura e manteiga clarificada, mas é proibido perfumar todo o corpo. Segundo os hanafitas, é makruh permanecer numa casa onde haja substâncias perfumadas, quer se pretenda sentir o seu aroma, quer não. Segundo os hanbalis e os shafiitas, isso é haram quando há intenção de aspirar o aroma; caso contrário, não é haram.

Segundo a escola shafiita, é permitido sentar-se junto a um vendedor de perfumes, num local onde o perfume se espalhe pelo ar. Isso não se enquadra no uso intencional de perfume. Contudo, é mustahabb evitá-lo. Mas, em determinados lugares onde se pode aproximar de Allah, não é mustahabb evitá-lo, como sentar-se perto da Caaba, que é perfumada. Ali, isso não é makruh, pois sentar-se perto da Caaba contribui para a aproximação de Allah. Portanto, nesse caso apropriado, não é mustahabb evitar o perfume. É permitido transportar substâncias perfumadas amarradas num frasco, garrafa ou recipiente, e não é necessário oferecer fidya.
10–11. Usar um porta-moedas preso à cintura durante o ihram: Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Não há problema em o muhrim carregar um porta-moedas e usar um anel.

12. Aplicar kohl: Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O muhrim pode usar um kohl que não contenha perfume, quer os seus olhos lacrimejem, quer não. É consensualmente permitido usar kohl para tratamento, e não para ornamentação.

13. O guarda-sol e a tenda do muhrim; Abdullah ibn Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse, enquanto estava amarrado à árvore com uma correia de couro: Abu Shayba. Permanecer à sombra de um teto ou de qualquer objeto semelhante: Saí com Omar (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele armou uma cobertura de ihram e se abrigou à sua sombra. Ibn

Umm Husayn (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Realizei o Hajj de despedida com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Naquela ocasião, vi Usama e Bilal. Um deles segurava as rédeas da camela do Mensageiro de Allah, enquanto o outro erguia uma peça de sua roupa para protegê-lo do sol escaldante. Foi assim que ele apedrejou os jamarat. Ahmad e Muslim.

Ata disse: O muhrim deve proteger-se do sol permanecendo à sombra e proteger-se da chuva e do vento. Ibrahim al-Nakha’i disse: Aswad ibn Yazid colocou um cobertor sobre a cabeça para se proteger da chuva. Naquela ocasião, ele estava em estado de ihram.

14. Tingir-se com hena: Segundo os hanbalis, não é haram para o muhrim, seja homem ou mulher, tingir com hena qualquer parte do corpo, exceto a cabeça. Segundo a escola shafiita, enquanto estiver em ihram, é permitido ao homem aplicar hena em todas as partes do corpo, exceto nos dois pés e nas duas mãos. É haram aplicar hena nas mãos e nos pés sem necessidade. Não se deve aplicar uma cor intensa de hena na cabeça. Para a mulher em estado de ihram, aplicar hena é makruh. Contudo, durante o período de idda após a morte do marido, é haram aplicar hena.

É proibido aplicar hena formando desenhos semelhantes. Segundo as escolas hanafita e maliquita, não é permitido que o muhrim, seja homem ou mulher, aplique a cor da hena em qualquer parte do corpo. Isso porque ela é um perfume, que é proibido ao muhrim. A mãe de Mawla bint Hakim disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela): “Enquanto estiveres em ihram, não uses perfume. Não toques na hena, pois ela é um perfume.” — At-Tabarani e Al-Bayhaqi.

15. Bater no servo com o propósito de ensiná-lo: Asma bint Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Saímos com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para realizar o hajj. Quando chegamos a Aráz, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e nós fizemos uma parada. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sentou-se ao lado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e eu me sentei ao lado de Abu Bakr. Os equipamentos de viagem do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de Abu Bakr estavam juntos e encontravam-se com um servo de Abu Bakr. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) aguardava seu servo. Ele chegou, mas não estava com seu camelo. Abu Bakr perguntou: “Onde está o teu camelo?” Ele respondeu: “Perdi-o na noite passada.” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Era apenas um camelo, e ainda assim o perdeste?” Ao dizer isso, bateu nele. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao ver aquilo, começou a sorrir. Disse: “Vede este muhrim! O que ele fez?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apenas repetia: “Vede este muhrim! O que ele está fazendo?”, enquanto sorria. Não disse mais nada. — Ahmad, Abu Dawud e Ibn Majah.

16. Matar moscas, carrapatos e formigas: Um homem perguntou a Ata se era permitido matar, durante o ihram, os carrapatos e as formigas que sobem pelo corpo. Ele respondeu: “Remove aquilo que não faz parte do teu corpo.” Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o muhrim pode matar carrapatos de todos os tamanhos, grandes ou pequenos. É permitido remover os carrapatos do corpo do camelo do muhrim. Ikrima disse que, enquanto estava em ihram, Ibn Abbas ordenou-lhe que removesse um carrapato de um camelo. Ikrima não gostou dessa ordem. Ibn Abbas disse: “Vai e abate o camelo.” Ikrima imediatamente o abateu. Ibn Abbas repreendeu-o suavemente, dizendo: “Agora, quantos carrapatos, grandes e pequenos, mataste nesse camelo?”

17. Matar cinco animais excepcionais e todo animal nocivo: Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Há cinco animais excepcionais. É permitido matá-los durante o ihram, tanto dentro como fora do Santuário Sagrado: o corvo, o milhafre, o escorpião, o rato e o cão mordedor.” — Muslim e Al-Bukhari. Al-Bukhari acrescentou a cobra a esses animais.

É permitido, segundo o consenso dos sábios, matar durante o ihram até mesmo o pequeno corvo que se alimenta das plantações. Por “cão mordedor” entende-se qualquer animal que morda, assuste e ataque as pessoas, como o leão e o tigre.

Allah, o Altíssimo, disse:

يَسْأَلُونَكَ مَاذَا أَحِلَّ لَمْ ؟ قُلْ أَحِلَّ لَكُمُ الطَّيِّبَاتِ، وَمَا عَلَّمْتُم مِنَ الْجَوَارِحِ مُكَذِّبِينَ تَعْلَمُونَهُنَّ ما علمكم الله .

“Perguntam-te o que lhes foi tornado lícito. Dize: Foram-vos tornadas lícitas as coisas boas e os animais e aves de caça que treinastes para a caça, conforme Allah vos ensinou.” Por animais e aves de caça entendem-se os animais e as aves predadores treinados para capturar e trazer a caça, como os cães e os falcões. A opinião da escola hanafita é que a palavra “cão” se refere apenas ao cão e ao tigre, e a nenhuma outra coisa. Ibn Taymiyyah disse: É permitido ao muhrim matar os animais que, por sua natureza, causam sofrimento às pessoas, como a serpente e Vishnu, o rato, o corvo e o cão mordedor.

Além disso, é permitido repelir as pessoas e os animais que o maltratam e oprimem. Se algum deles o atacar e só se afastar caso seja combatido, também é permitido combatê-lo. Pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem for morto ao defender seus bens é um mártir; quem for morto ao defender sua vida é um mártir; quem for morto ao defender sua religião é um mártir; e quem for morto ao defender sua honra é um mártir.” Quando os piolhos e os mosquitos picam o muhrim, é permitido que ele os mate, e não terá de oferecer nenhuma expiação por isso. Contudo, é melhor afastá-los do que matá-los. Segundo a maioria dos sábios, também não há expiação por matar animais predadores, como tigres e leões. Catar piolhos, mesmo sem haver qualquer incômodo na cabeça, é uma forma de entretenimento e não é apropriado fazê-lo. Entretanto, se alguém o fizer, não terá de oferecer nenhuma expiação.

8. O que é proibido ao muhrim

A Shariah proibiu e tornou ilícitas certas ações para o muhrim, ou seja, para aquele que está em estado de ihram. Apresentamo-las a seguir:

1. Manter relações sexuais com a esposa, bem como praticar qualquer ato que provoque a incitação ou a excitação sexual para a relação sexual, como beijar, tocar com desejo sexual e o marido falar com a esposa sobre relações sexuais.
2. Cometer qualquer pecado que leve a pessoa para fora da obediência a Allah.

3. Discutir e usar palavras ofensivas com companheiros de viagem, servos e outros semelhantes. Pois Allah disse:

فمن فَرَضَ فِيهِنَّ الْحَجِّ فَلَا رَفَتْ وَلَا فُسُوقَ وَلَا جِدَالَ فِي الحج .

Quem decidir realizar o Hajj, que não profira palavras obscenas, não pratique atos pecaminosos nem se envolva em discussões durante o Hajj. (Por discussões entende-se a disputa injusta. Debater em defesa da verdade e da justiça é recomendável ou obrigatório.)

Al-Bukhari e Muslim narraram, sob a autoridade de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem realizar o Hajj sem cometer obscenidade nem praticar atos proibidos retornará sem pecados, como no dia em que nasceu do ventre de sua mãe.”

4. Vestir qualquer roupa costurada, como camisa, calça, chapéu etc. Do mesmo modo, vestir roupas coloridas e ornamentadas, sapatos e meias.

Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O muhrim não deve vestir camisa, turbante, chapéu, roupa perfumada nem meias. Contudo, quem não tiver sapatos poderá cortar das meias a parte que chega aos tornozelos e usá-las, de modo que fiquem abaixo dos tornozelos.” Bukhari e Muslim. Os sábios são unânimes em que esta regra se aplica somente aos homens. Ela não se aplica às mulheres, que podem usar essas roupas. Entretanto, não podem usar roupas perfumadas, niqab nem luvas. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu as mulheres, enquanto estivessem em ihram, de usar luvas, niqab e roupas perfumadas.” Elas podem usar roupas de qualquer cor, inclusive amarelas, seda, joias, camisas, calças ou meias. Abu Dawud, Bayhaqi e Hakim.

Bukhari disse: Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) usava roupas amarelas enquanto estava em ihram. Ela disse: “As mulheres não devem cobrir o nariz e a boca, nem usar roupas com açafrão ou qualquer outro perfume.” Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Não considero as roupas amarelas perfumadas.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) não considerava censurável que as mulheres usassem joias, roupas pretas, roupas perfumadas de cor rosa e meias. Bukhari narrou isso de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele). O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A mulher em ihram não deve usar niqab nem luvas.”

Este hadith prova que o ihram da mulher se relaciona ao rosto e às palmas das mãos. Os sábios disseram que não há problema em cobrir o rosto com qualquer coisa. Ibn al-Qayyim disse que a exigência de manter o rosto descoberto é fraca e sem fundamento. É permitido ocultar o rosto do olhar dos homens usando um guarda-sol ou algo semelhante. Porém, se houver receio de fitnah (provocação para o pecado), é obrigatório ocultar o rosto dos olhares.

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Nós viajávamos em estado de ihram com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então, cavaleiros montados em camelos passavam por nós. Quando se deparavam conosco, baixávamos nossos véus sobre o rosto. Quando iam embora, descobríamos novamente o rosto.” Abu Dawud e Ibn Majah. Ata, Malik, Thawri, Shafi‘i, Ahmad e Ishaq são favoráveis a deixar um tecido pendurado sobre o rosto.

Quem não conseguir obter o izar, o manto e os sapatos deverá vestir o que encontrar. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez um sermão em Arafat. No sermão, disse: ‘Quem não conseguir obter um izar (manto sem costura), que vista calças; e, quando não conseguir obter sapatos, que vista meias.’” Ahmad, Bukhari e Muslim. Em outro hadith narrado por Ahmad, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem não conseguir obter um izar, mas conseguir obter calças, que vista as calças. E quem não conseguir obter sapatos, mas conseguir obter meias, que vista as meias.” Este hadith não ordena que as meias sejam encurtadas.

Esta é a opinião de Ahmad. Ele permitiu que o muhrim vestisse calças e meias quando fosse incapaz de obter sapatos e izar. Nessa situação, ele também não terá de oferecer nenhuma expiação. A opinião seguida pela maioria dos sábios é que quem não tiver sapatos deve usar meias cortadas até os tornozelos, pois assim elas se tornam semelhantes a sapatos. Segundo os hanafitas, quem não tiver izar deverá rasgar as calças e desfazer suas costuras antes de usá-las. Se as usar com as costuras, deverá oferecer fidyah. Malik e Shafi‘i disseram: não é necessário desfazer as costuras das calças; ele deve usá-las como estão e não terá de oferecer fidyah. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou, de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando não se conseguir obter um izar, deve-se vestir calças; e, quando não se conseguirem obter sapatos, deve-se vestir meias, deixando-as abaixo dos tornozelos e cortando a parte superior das meias.” — Nasa’i.

Se, depois de vestir as calças, conseguir obter um izar, deverá tirar as calças. Porém, se não conseguir obter o manto, não poderá vestir uma camisa, pois, ao vestir a camisa, não poderá usar o izar juntamente com as calças.

5. Contratar o próprio casamento ou o casamento de outra pessoa: se esse tipo de contrato for celebrado durante o ihram, o contrato será anulado e não produzirá nenhum efeito jurídico. Muslim narra, com base em Uthman, que o Mensageiro de Allah disse: “Aquele que está em ihram não deve casar-se, nem casar outra pessoa, nem fazer uma proposta de casamento.” Em Tirmidhi, não consta a parte “nem fazer uma proposta de casamento”. Com base neste hadith, Malik, Shafi‘i, Ahmad e Ishaq proibiram o casamento para quem está em ihram e consideraram-no inválido caso fosse celebrado. O hadith que relata: “O Mensageiro de Allah casou-se com Maymunah enquanto estava em ihram” é contradito pelo hadith narrado por Muslim. O hadith de Muslim afirma que o Mensageiro de Allah casou-se com ela quando já havia saído do ihram. Tirmidhi disse: há divergência sobre o episódio do casamento do Mensageiro de Allah com Maymunah, pois ele se casou com ela no caminho para Meca. Por isso, alguns disseram que ele se casou com ela depois de sair do ihram. Contudo, a notícia desse casamento foi divulgada enquanto ele estava em ihram. Depois, ele consumou o casamento em Saraf, já livre do ihram.

Segundo os hanafitas, é permitido celebrar o contrato de casamento durante o ihram, pois o ihram não proíbe o contrato de casamento da mulher; ele proíbe as relações sexuais. A validade do contrato de casamento não é impedida pelo ihram.

6 e 7. Cortar as unhas, raspar ou aparar os pelos — sejam os cabelos da cabeça ou quaisquer outros pelos. Pois Allah disse:

ولا تُعلِقوا رؤوسكم حتى يبلغ الهدي محله .

“Não raspeis a cabeça até que o animal destinado ao sacrifício chegue ao local do sacrifício.” Todos os sábios concordam que é haram cortar as unhas da pessoa em ihram sem uma justificativa. Contudo, se uma unha estiver quebrada, pode-se removê-la, sem que seja necessário pagar qualquer fidya. Se manter os cabelos causar sofrimento, é permitido removê-los, mas será necessário pagar fidya. Porém, se as sobrancelhas causarem sofrimento à pessoa em ihram, podem ser removidas sem fidya. Segundo os malekitas, contudo, deve-se pagar fidya. Allah, o Altíssimo, disse:

فَمَن كَانَ مِنكُم مَرِيضًا أَوْ بِهِ أَذًى مِنْ رَأْسِهِ فَفِدْيَةٌ مِنْ صِيَامٍ أَوْ صَدَقَةٍ أَوْ نُسُكِ .

“Se algum de vós estiver doente ou sofrer de algum incômodo na cabeça, deverá oferecer uma fidya por meio de jejum, caridade ou sacrifício.”

8. Aplicar perfume nas roupas ou no corpo de um homem ou de uma mulher. Ibn Umar narrou que Umar sentiu o cheiro de perfume no corpo de Muawiyah, embora Muawiyah estivesse então em ihram. Ele lhe disse: “Vai e lava isso.” Pois ouvi o Mensageiro de Allah dizer: “Aquele que realiza o hajj permanece empoeirado e sem perfume.” — Al-Bazzar.

O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) também disse três vezes a outro homem: “Lave o perfume que está em seu corpo.”

Se alguém morrer enquanto estiver em estado de ihram, não se deve usar perfume ao banhá-lo e envolvê-lo na mortalha. Pois o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), referindo-se a um homem que morreu em estado de ihram, disse: “Não cubram sua cabeça nem passem perfume nele. No Dia da Ressurreição, quando for ressuscitado, continuará dizendo: labbayka, labbayka.” Contudo, não há problema se permanecerem no corpo ou nas roupas alguns vestígios de perfume que já estivessem presentes antes do ihram. É permitido sentir o aroma de plantas que não são cultivadas com a finalidade de produzir perfume, como as macieiras e outras semelhantes. Isso porque as macieiras e plantas semelhantes não são cultivadas nem utilizadas para a obtenção de perfume. Quanto ao caso de o perfume aplicado à Kaaba atingir o corpo de alguém em estado de ihram, Saleh ibn Kaisan disse: “Vi Anas ibn Malik em estado de ihram, e o perfume da Kaaba havia atingido suas roupas, mas ele não as lavou.” Ata disse: “Não é necessário lavá-las, nem é preciso oferecer fidya ou kaffara.” Entretanto, segundo a opinião da escola shafi’ita, se alguém aplicar deliberadamente o perfume da Kaaba em suas roupas ou no corpo, ou se ele aderir involuntariamente e a pessoa não o remover apesar de ter condições de fazê-lo, estará cometendo um pecado e deverá oferecer fidya.

9. Vestir roupas tingidas com substâncias perfumadas. Vestir roupas tingidas com substâncias perfumadas é unanimemente proibido. Para vestir esse tipo de roupa, é necessário lavá-la antes, de modo que nenhum perfume exale dela.

Pois Ibn Abd al-Barr e al-Tahawi narraram, por intermédio de Nafi, que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) disse: “Não vistam, enquanto estiverem em estado de ihram, roupas tingidas com açafrão ou com qualquer perfume semelhante sem antes lavá-las.”

Para as pessoas que são seguidas e servem de exemplo para os outros, não é recomendável usar esse tipo de roupa, mesmo depois de lavada. Isso porque o povo em geral pode ser levado a usar roupas perfumadas proibidas. Malik narrou, por intermédio de Nafi, que Aslam, o liberto de Umar ibn al-Khattab, disse: Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) viu Talha ibn Ubaydullah usando uma roupa tingida. Talha estava então em estado de ihram. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Talha, por que esta roupa tingida?” Talha respondeu: “Ó Comandante dos Crentes, ela foi tingida com pérolas de cor vermelha.” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vocês são líderes, a quem o povo em geral segue. Se um ignorante vir esta roupa, certamente dirá: ‘Talha ibn Ubaydullah usava roupas tingidas durante o ihram.’ Portanto, não usem esse tipo de roupa tingida.”

Se algo perfumado for acrescentado a uma comida cozida ou a uma bebida, mas nela não restar qualquer sabor, aroma ou cor, o muhrim não terá de oferecer fidya se a consumir.

Mas, se o aroma permanecer, segundo a escola shafi’ita, ele deverá oferecer fidya após consumi-la. Segundo os hanafitas, não terá de oferecer fidya, pois não teve a intenção de desfrutar do perfume.

10. Caça: é permitido ao muhrim caçar animais aquáticos, indicar a caça e comer sua carne. Mas é proibido caçar, matar ou abater animais terrestres; apontá-los quando estiverem à vista; indicar seu paradeiro quando não estiverem à vista; ou assustá-los e fazê-los fugir. Também é proibido destruir os ovos dos animais terrestres, comprá-los ou vendê-los e ordenhá-los. (Os animais que nascem em terra e dão à luz filhotes são animais terrestres, ainda que vivam na água. Os animais aquáticos são o oposto disso. Essa é a opinião da maioria dos sábios. Segundo os shafi’itas, o animal que vive somente em terra, ou tanto na água quanto em terra, é um animal terrestre; já o animal que não vive senão na água é aquático.) Allah, o Altíssimo, disse:

أحِلَّ لَكُم ميْنَ الْبَحْرِ وَطَعَامُهُ مَتَاعًا لَكُمْ وَلِلسَّيَّارَةِ وَحَرَّمَ عَلَيْكُمْ مِينَ البَر ما دمتم حرما .

“Foi-vos permitido caçar e comer animais aquáticos, para vosso proveito e o dos viajantes. E foi-vos proibido caçar animais terrestres enquanto estiverdes em estado de ihram.” (É importante observar que, segundo as escolas shafiita e hanbalita, é proibido caçar apenas animais terrestres lícitos e aves lícitas. Quanto aos demais animais terrestres, é permitido caçá-los e matá-los. Contudo, segundo a maioria dos outros sábios, com exceção dos cinco animais proibidos no hadith — o corvo, a pipa, o escorpião, o rato e o cão mordedor — é proibido matar qualquer outro animal, dentro ou fora do Santuário Sagrado, seja ele lícito ou ilícito.)

11. É proibido ao muhrim comer a carne de um animal caçado para ele, com sua ajuda ou por sua indicação. Al-Bukhari e Muslim narraram, com base em Qatada, que certa vez o Mensageiro de Allah saiu em viagem com a intenção de realizar o hajj, acompanhado por um grupo de Companheiros. Ele separou um grupo, no qual estava Abu Qatada, e disse: “Segui pela costa marítima até nos encontrarmos.” Eles seguiram pela costa. Quando partiram, todos, exceto Abu Qatada, entraram em estado de ihram. Durante o caminho, avistaram alguns jumentos selvagens. Abu Qatada atacou-os e matou uma jumenta. Todos pararam para descansar e comeram a carne daquele animal. Então perguntaram: “Estamos em estado de ihram; será correto comermos carne de caça?” Levaram consigo a carne restante da jumenta. Quando chegaram diante do Mensageiro de Allah, disseram: “Ó Mensageiro de Allah, havíamos entrado em estado de ihram, mas Abu Qatada não o fez. Depois, quando encontramos uma manada de jumentos selvagens, Abu Qatada atacou-os e matou uma jumenta. Em seguida, paramos para descansar e comemos a carne do jumento. Então perguntamos se era lícito comermos carne de caça enquanto estávamos em estado de ihram. Trouxemos conosco a carne restante.” O Mensageiro de Allah perguntou: “Algum de vocês ordenou ou indicou a Abu Qatada que atacasse?” Eles responderam: “Não.” O Mensageiro de Allah disse: “Então comei a carne restante.”

É lícito ao muhrim comer a carne de uma caça que ele próprio não caçou, que não foi caçada para ele, que ele não indicou e para cuja captura não ajudou. Jabir narrou que o Mensageiro de Allah disse: “Os animais terrestres são lícitos para vós comerdes enquanto estiverdes em estado de ihram, desde que não os tenhais caçado pessoalmente nem tenham sido caçados para vós.” — Ahmad e At-Tirmidhi. Alguns sábios afirmam que, segundo este hadith, é lícito ao muhrim comer carne de caça quando ele próprio não a tiver caçado nem ela tiver sido caçada para ele. Ash-Shafi‘i, Ahmad, Ishaq, Malik e a maioria dos imames sustentam essa opinião. Contudo, se o muhrim caçar pessoalmente ou se a caça for feita para ele, isso será proibido, tenha sido feito com sua autorização ou sem ela. Se uma pessoa que não está em estado de ihram caçar para si mesma, sem fazê-lo com a intenção de beneficiar o muhrim, e depois lhe oferecer a carne ou vendê-la a ele, isso não será proibido ao muhrim.

Abdur-Rahman At-Taymi disse: “Saímos em viagem com Talha. Todos estávamos em estado de ihram. Nessa ocasião, ofereceram a Talha uma ave, enquanto ele dormia. Alguns de nós comeram dela e outros se abstiveram. Quando Talha acordou, aprovou os que haviam comido e disse: ‘Comemos algo semelhante com o Mensageiro de Allah.’” — Ahmad e Muslim.

Também foram narrados alguns hadiths indicando que é proibido ao muhrim comer carne de caça. Por exemplo, no hadith de Sa‘b ibn Jaththama, é relatado que ele ofereceu ao Mensageiro de Allah um jumento selvagem. Naquele momento, o Mensageiro de Allah estava em Al-Abwa ou Waddan. O Mensageiro de Allah devolveu-lhe o presente. Quando percebeu a reação no rosto de Sa‘b, disse: “Só o devolvemos porque estamos em estado de ihram.” Ao reunir todos os hadiths, compreende-se que o presente foi devolvido porque o animal havia sido caçado por uma pessoa que não estava em estado de ihram com a intenção de oferecê-lo ao muhrim.

Ibn Abd al-Barr disse: “O argumento dos defensores desta opinião é que, segundo essa interpretação, todos os hadiths narrados sobre o assunto são considerados autênticos. Ao aceitarmos essa interpretação, não haverá contradição nem conflito entre os hadiths. Eles devem ser interpretados dessa maneira, para que, enquanto houver alguma possibilidade de aplicá-los, nenhum hadith seja declarado contrário a outro. Ibn al-Qayyim considerou esta opinião a mais forte e disse: ‘Todas as palavras e ações dos Companheiros confirmam somente a correção desta interpretação.’

9. A norma para quem pratica atos proibidos durante o ihram

Aquele que, por uma desculpa, isto é, por uma necessidade inevitável, sentir necessidade de praticar alguma das coisas proibidas durante o ihram, exceto a relação sexual — como raspar a cabeça para se proteger do frio ou do calor, vestir roupas costuradas etc. — deverá sacrificar uma cabra, ou alimentar seis necessitados, dando a cada um meio sa‘, ou jejuar durante três dias. Ele pode escolher qualquer uma dessas três opções. A prática de qualquer outra coisa proibida durante o ihram, além da relação sexual, não invalida o Hajj.

Foi narrado por Ka‘b ibn ‘Ujrah que, durante o período de Hudaybiyyah, o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — passou por ele e disse: “Parece que os piolhos da tua cabeça estão te causando muito sofrimento.” Ele respondeu: “Sim.” O Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Raspa a cabeça e depois sacrifica uma cabra, ou jejua durante três dias, ou alimenta seis necessitados com três sa‘ de tâmaras.” — Bukhari, Muslim e Abu Dawud. Em outra narração, esse Companheiro disse: “A dor causada pelos piolhos da minha cabeça estava me atormentando. Era o ano de Hudaybiyyah e eu estava com o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. A ponto de eu temer perder a visão por causa disso. Então Allah, o Altíssimo, revelou: ‘Se algum de vós estiver doente ou tiver algum problema na cabeça, deverá oferecer sua expiação por meio de jejum, caridade ou sacrifício.’ Depois, o Mensageiro de Allah chamou-me e disse: ‘Raspa a cabeça; depois jejua três dias, ou dá dezesseis ratl de passas a seis necessitados, ou sacrifica uma cabra.’ Eu raspei a cabeça e depois ofereci o sacrifício.”

Segundo o Imam Ash-Shafi‘i, tanto aquele que tem uma desculpa quanto aquele que não tem devem oferecer a fidya. Segundo Abu Hanifah, para quem não tem desculpa, se tiver condições, oferecer o sacrifício é obrigatório, não sendo isso uma transgressão.

Ao cortar parte do cabelo: ‘Ata disse que, se aquele que está em ihram arrancar três ou mais pelos, deverá oferecer um sacrifício. Ash-Shafi‘i disse que, por um pelo, deve oferecer um mudd; por dois pelos, dois mudd; e por três pelos, deverá sacrificar uma cabra.

Ao aplicar óleo: no livro Al-Musawwa, afirma-se que, segundo Abu Hanifah, se a pessoa massagear o corpo com óleo puro ou com sebo puro, deverá oferecer um sacrifício, independentemente da parte do corpo em que o fizer. Segundo a escola de Ash-Shafi‘i, se massagear o cabelo da cabeça e a barba com óleo que não contenha perfume, deverá oferecer a fidya. Porém, se massagear qualquer outra parte do corpo, não precisará oferecer a fidya.

Não há penalidade se alguém vestir roupas proibidas ou usar perfume por engano ou por ignorância: quando aquele que está em ihram veste uma roupa proibida ou usa perfume sem saber que isso é proibido, ou esquecendo-se de que está em ihram, não precisa oferecer a fidya. Pois ‘Umar ibn al-Walid disse: um homem foi ter com o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — em Ji‘ranah. Ele vestia uma túnica, e sua barba e seus cabelos estavam tingidos de amarelo. Disse: “Ó Mensageiro de Allah, entrei no ihram para uma ‘umrah. Como podes ver, estou com esta aparência.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Lava a tinta amarela, tira a túnica e faz na ‘umrah tudo aquilo que fizeste no Hajj.” — Todos os livros autênticos de hadith, exceto Ibn Majah. ‘Ata disse: “Quem vestir uma roupa proibida ou usar perfume por ignorância ou por engano não terá de oferecer expiação.” — Bukhari.

Mas a caça é proibida: se alguém matar uma caça por desconhecer essa proibição ou por esquecê-la, deverá oferecer uma compensação equivalente a ela (isto é, deverá oferecer um sacrifício). Isso porque sua compensação é uma compensação financeira. Nas compensações financeiras, não há diferença entre fazê-lo sabendo ou sem saber, por engano ou intencionalmente. Assim, quando alguém causa um dano financeiro a outra pessoa, deve pagar uma compensação.

A relação sexual invalida o Hajj: ‘Ali, ‘Umar e Abu Hurayrah — que Allah esteja satisfeito com eles — emitiram uma fatwa sobre um homem que teve relação sexual com sua esposa enquanto estava no ihram do Hajj: ambos deveriam concluir devidamente o Hajj e, no ano seguinte, realizar novamente o Hajj e oferecer um sacrifício. Abul-‘Abbas At-Tabari disse: se aquele que está em ihram tiver relação sexual antes de realizar a primeira liberação do ihram, seu Hajj será invalidado, quer isso ocorra antes ou depois de permanecer em ‘Arafah. Apesar da invalidação, ele deverá completar os demais ritos do Hajj, sacrificar um camelo e realizar, no ano seguinte, o Hajj de reposição. Se a esposa tiver entrado em um ihram voluntário, deverá continuar o Hajj, realizá-lo como reposição no ano seguinte e oferecer também um sacrifício. Essa é a opinião da maioria dos sábios. Alguns sábios dizem que ambos devem oferecer apenas um sacrifício. ‘Ata também sustentava essa opinião. Al-Baghawi disse: assim como se deve oferecer uma expiação por ter relação sexual durante o dia no Ramadan, o homem também deve oferecer expiação neste caso. Quando, no ano seguinte, ambos saírem para realizar o Hajj de reposição, será obrigatório, segundo Malik e Ahmad, que permaneçam em locais separados no lugar onde ocorreu a relação sexual no ano anterior; segundo os hanafitas e os shafi‘itas, isso é recomendado. Devem fazer isso como precaução para evitar a repetição do ocorrido. Se não puder sacrificar um camelo, deverá sacrificar uma vaca; se não puder oferecer uma vaca, deverá oferecer sete cabras. Se também não puder fazer isso, deverá calcular o valor do camelo em dinheiro e o valor do dinheiro em alimentos, e dar caridade a cada necessitado na medida de um mudd. Se ainda assim não puder, deverá jejuar um dia para cada mudd. Essa é a opinião dos adeptos do raciocínio analógico. Se tiver relação sexual antes de permanecer em ‘Arafah, o Hajj será invalidado, e ele deverá oferecer uma cabra ou um sétimo de um camelo. Se tiver relação sexual depois de permanecer em ‘Arafah, o Hajj não será invalidado, mas deverá sacrificar um camelo. Quando aquele que realiza o Hajj qiran invalida seu Hajj, tudo aquilo que é obrigatório para quem realiza o Hajj ifrad também se torna obrigatório para ele. Deverá realizar como reposição o Hajj qiran e não ficará isento do sacrifício do qiran. Segundo a maioria dos sábios, se tiver relação sexual depois da primeira liberação do ihram, o Hajj não será invalidado e ele não precisará realizá-lo como reposição. Alguns dizem que a reposição é obrigatória e que ele deverá oferecer a fidya. Essa é a opinião de Ibn ‘Umar, Al-Hasan e Ibrahim. Há divergência quanto a saber se a fidya deve ser um camelo ou uma cabra. Segundo Ibn ‘Abbas e ‘Ata, o camelo é obrigatório. Essa é a opinião de ‘Ikrimah e uma das duas opiniões de Ash-Shafi‘i, adotada, entre os hanafitas, pelos autores de Al-Mabsut e Al-Bada’i. Segundo a outra opinião de Ash-Shafi‘i, é obrigatório oferecer uma cabra. Essa também é a opinião do Imam Malik. Quando aquele que está em ihram tem uma emissão seminal durante o sono, ou ejacula por pensar em relações sexuais ou por se excitar ao olhar para uma mulher, segundo a escola de Ash-Shafi‘i nada lhe será obrigatório. Outros dizem que aquele que toca ou beija com desejo sexual deve sacrificar uma cabra, tenha ejaculado ou não. Segundo Ibn ‘Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele —, o sacrifício é obrigatório para ele. Mujahid disse: um homem foi ter com Ibn ‘Abbas e disse: “Entrei no ihram. Nessa situação, certa mulher veio até mim adornada. Como resultado, não consegui me controlar e o desejo sexual tomou conta de mim.” Ao ouvir isso, Ibn ‘Abbas rolou de rir e depois disse: “Tu és um homem dominado pelo desejo. Não há problema algum contigo. Oferece um sacrifício e pronto; o teu Hajj está concluído.” — Sa‘id ibn Mansur.

Compensação pela morte de uma caça: Allah, o Altíssimo, disse no versículo 95 da Surata Al-Ma’idah:

يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لَا تَقْتُلُوا الصَّيد وانتى حرم ، ومَن قَتَلَهُ مِنْكُمْ مُتَعَمِّدًا فَجَزَاء مِثْلَ مَا قَتَلَ مِنَ النَّعَرِ يَحْكُمُ بِهِ ذَوَا عَدْلٍ مِنكُمْ مَديَا بَلغَ الْكَعْبَةِ أَوْ كَفَّارَةٌ طَعَامُ مَسْكِينَ أَوْ عَدْلُ ذَلِكَ مِيَامًا لِيَذُوقَ وَبَالَ أَمْرِهِ مَا عَفَا اللَّهُ عَمَّا

سَلَفَ مَا وَمَنْ عَادَ فَيَنْتَقِمُ اللَّهُ مِنْهُ ، وَاللَّهُ عَزِيزٌ ذو انتقامه

“Ó crentes, não mateis a caça enquanto estiverdes em estado de ihram. Se algum de vós matar deliberadamente uma caça, deverá oferecer, como compensação, um animal equivalente ao que matou. Dois homens justos dentre vós decidirão sobre isso. O animal deverá ser levado à Caaba como oferenda. Ou deverá alimentar alguns necessitados como expiação, ou jejuar um número equivalente de dias, para que prove o castigo de sua ação. Allah perdoou o que já passou. Porém, quem reincidir, Allah se vingará dele. Allah é Poderoso e capaz de aplicar a vingança.”

Ibn Kathir disse: Segundo a maioria dos sábios, é obrigatório oferecer compensação, quer a caça tenha sido morta por engano, quer deliberadamente. Zuhri disse: Quanto àquele que mata deliberadamente uma caça, o Alcorão já estabeleceu sua sentença. Quanto àquele que a mata por engano, a Sunnah se aplica a ele. Isto é, o Alcorão tornou obrigatória a compensação para quem mata deliberadamente e o qualificou como pecador mediante estas palavras: “para que prove o castigo de sua ação”. Já a Sunnah, contendo as decisões do Mensageiro de Allah e dos nobres Companheiros, estabeleceu a compensação para quem mata uma caça por engano, tal como o Alcorão a estabeleceu para quem a mata deliberadamente. Além disso, matar uma caça é um dano. E todo dano deve ser reparado, seja causado deliberadamente ou por engano. A diferença é que quem mata deliberadamente uma caça também é pecador, enquanto quem a mata por engano não é censurado como pecador. Na obra Mustafya foi dito: “Deverá oferecer, como compensação, um animal equivalente ao que matou.” Abu Hanifa explica que o caçador deverá oferecer, como compensação, um animal de valor equivalente ao animal morto. Para que a compensação seja equivalente em valor, ela deverá ser determinada por dois homens justos. Ou deverá oferecer um animal semelhante como compensação, providenciando que seja levado à Caaba como oferenda; ou deverá oferecer alimento aos necessitados como expiação. A explicação do Imam Shafi’i é: será obrigatório ao caçador oferecer uma compensação que seja semelhante ao animal morto em forma e aparência e que pertença à mesma espécie. Dois homens justos decidirão se ela é equivalente nesse aspecto. Essa compensação será levada à Caaba como oferenda; caso contrário, será uma expiação ou um jejum equivalente à expiação.

A decisão de Umar e dos antigos sábios: Muhammad ibn Sirin narrou: Um homem foi até Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e disse: “Eu e um companheiro meu perseguimos dois cavalos por uma passagem montanhosa e matamos uma gazela. Naquele momento, nós dois estávamos em estado de ihram. O que o senhor pensa sobre isso?” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse a um homem que estava ao seu lado: “Vem, vamos nós dois decidir este caso.” Então ambos decidiram que o homem deveria oferecer uma cabra fêmea. Ao ouvir isso, o homem começou a afastar-se, dizendo: “Este é o Emir dos Crentes, que nem consegue decidir sobre o caso de uma gazela e precisa chamar outro homem para decidir com ele.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, ouviu o que o homem disse e chamou-o para perto. Disse-lhe: “Tu lês a Surata Al-Ma’idah?” Ele respondeu: “Não.” Ele perguntou: “Reconheces este homem que participou comigo da decisão?” Respondeu: “Não.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Se tivesses me informado que leste a Surata Al-Ma’idah, eu teria te dado uma surra dolorosa.” Então disse: “Allah, o Altíssimo, disse em Seu Livro:”

يَحْكُرُ بِهِ ذَوَا عَدْلٍ مِنْكُمْ عَنْيا بَالِغَ الْكَعْبَةَ .

“Dois homens justos decidirão sobre isso…” E este é Abd al-Rahman ibn Awf.

Os antigos sábios determinaram que, quando se mata um avestruz, deve-se oferecer um camelo; quando se mata um asno selvagem, um boi selvagem ou uma cabra-montesa, deve-se oferecer uma vaca; e quando se mata um coelho, uma pomba, uma rola, um galo selvagem ou uma ave chamada dabsi, deve-se oferecer uma cabra como sacrifício. Para a morte de uma hiena, deve-se oferecer uma ovelha. Para a morte de um cervo, uma cabra fêmea; para a morte de um coelho, uma cabra fêmea com mais de quatro meses; para a morte de uma raposa, uma cabra de um ano; e para a morte de um animal semelhante a um rato chamado yarbu, deve-se oferecer uma cabra fêmea de quatro meses.

O que fazer quando não for possível obter a compensação: Sa‘id ibn Mansur narrou, sob a autoridade de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que, de acordo com o versículo 95 da surata Al-Ma’idah, quando alguém mata uma caça estando em estado de ihram, deve-se determinar uma compensação equivalente a ela. Se ele tiver essa compensação, deverá sacrificá-la e distribuir sua carne como caridade. Se não tiver a compensação, deverá avaliar seu valor em dinheiro; depois, determinar uma quantidade de alimento equivalente a esse valor e jejuar um dia para cada meio sa‘ de alimento. Suponhamos que ele mate um cervo ou um animal semelhante: deverá oferecer uma cabra, que será sacrificada em Meca; caso contrário, alimentará seis necessitados. Se não puder fazer isso, jejuará três dias. Se matar uma cabra-montesa, deverá oferecer uma vaca. Se não puder oferecer a vaca, alimentará vinte necessitados; e, se também não puder fazê-lo, jejuará vinte dias. Se matar um avestruz, um asno selvagem ou um animal semelhante, deverá oferecer um camelo. Se não puder oferecer o camelo, alimentará trinta necessitados; e, se também não puder fazê-lo, jejuará trinta dias. Ibn Abi Hatim; Ibn Jarir.

O método de alimentar e jejuar: Malik disse: “O melhor que ouvi sobre a oferta da compensação por parte daquele que matou uma caça é que se deve avaliar o preço da caça morta e verificar quanto alimento pode ser obtido com esse valor. Depois, alimentará cada necessitado com uma quantidade de um mudd. Ou jejuará um dia por cada mudd, observando o número de necessitados. Se forem dez necessitados, jejuará dez dias; e, se forem vinte, jejuará vinte dias.”

Matar uma caça coletivamente: quando um grupo mata intencionalmente uma caça por iniciativa conjunta, deverá oferecer apenas uma compensação. Pois Allah disse que se deve oferecer uma compensação equivalente ao animal morto. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi questionado sobre um grupo que havia matado uma hiena, estando todos em estado de ihram. Ele respondeu: “Ofereçam juntos uma ovelha em sacrifício.” Perguntaram-lhe: “Uma para cada membro do grupo?” Ele respondeu: “Não, uma por todos.”

A caça e o corte de árvores no santuário: é proibido a todos, estejam ou não em estado de ihram, caçar no santuário, afugentar a caça assustando-a, cortar árvores que não tenham sido cultivadas normalmente pelo esforço humano, cortar plantas e até mesmo cortar árvores espinhosas. É permitido cortar, arrancar e destruir apenas as plantas aromáticas izkhir e sanamaki. Al-Bukhari narrou, sob a autoridade de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse no dia da conquista de Meca: “Esta cidade é sagrada e honrada; nenhuma de suas árvores espinhosas ou plantas deve ser cortada. Nenhuma de suas caças deve ser afugentada, e nenhum objeto perdido deve ser recolhido, exceto por aquele que o anunciar publicamente.” Abbas disse: “Exceto o izkhir, pois ele é indispensável para as pessoas; é necessário para as casas e para os ferreiros.” Então o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Sim, exceto o izkhir.”

Al-Shawkani disse, e Al-Qurtubi disse: os juristas limitaram as árvores proibidas àquelas criadas por Allah naturalmente, sem intervenção humana. Quanto às árvores que são produzidas pelo esforço e pelo cuidado das pessoas, há divergência. Segundo a maioria dos sábios, é permitido cortá-las. Al-Shafi‘i disse: é obrigatório oferecer uma compensação por tudo. Ibn Qudamah considerou essa opinião mais correta.

Há divergência quanto à compensação pelo corte das árvores da primeira categoria, isto é, aquelas que crescem naturalmente, sem intervenção humana. Malik disse: não há compensação; haverá apenas pecado. Ata disse: deverá pedir perdão. Abu Hanifah disse: deverá oferecer, proporcionalmente ao seu valor, uma dádiva, isto é, um animal. Al-Shafi‘i disse: se for uma árvore grande, deverá oferecer uma vaca; e, se for uma árvore pequena, uma cabra. Os sábios decidiram que é permitido utilizar galhos que se quebraram naturalmente, árvores que tombaram naturalmente e folhas caídas.

Ibn Qudamah disse: há consenso entre os sábios quanto à permissão de colher, cortar e cuidar, dentro dos limites do santuário, das plantações, hortaliças e plantas aromáticas cultivadas pelas pessoas. Na obra Rawdat al-Nadiyyah, consta que, no santuário de Meca, a pessoa que não esteja em estado de ihram pecará ao caçar e cortar árvores, mas não terá de oferecer qualquer compensação. Quanto à pessoa que esteja em estado de ihram, é obrigatório que ofereça a compensação pela caça determinada por Allah, o Altíssimo. Contudo, não terá de oferecer compensação pelo corte das árvores de Meca, pois não há prova autêntica a esse respeito. Em seguida, Ibn Qudamah disse: em suma, não existe relação indissociável entre a proibição de matar caça e a proibição de cortar árvores, por um lado, e a obrigação de oferecer uma compensação ou pagar um valor, por outro. Essa proibição apenas demonstra que caçar e cortar árvores é ilícito. A compensação e o pagamento de um valor não se tornam obrigatórios sem prova. Além do versículo 95 da surata Al-Ma’idah mencionado acima, não há outra prova disso; e essa prova menciona uma compensação específica. Portanto, nada além da compensação deve ser oferecido.

10. Os limites do santuário sagrado de Meca

O santuário sagrado de Meca possui limites bem definidos. Esses limites circundam toda a cidade de Meca. Há cinco marcos em seus cinco lados. Esses marcos são algumas pedras colocadas a um metro de altura, nos dois lados das estradas. Ao norte, seu limite é Tan’im, situado a seis quilômetros de Meca. Ao sul, seu limite é Adah, situado a doze quilômetros. A leste, seu limite é Ji’ranah, situado a dezesseis quilômetros. A nordeste, o limite é Wadi Nakhlah, situado a quatorze quilômetros. A oeste, o limite é Shumaysi, situado a quinze quilômetros; seu antigo nome era Hudaybiyah. Foi ali que ocorreu a Bay’at al-Ridwan.

Muhibbuddin at-Tabari narrou, através de Ubaidullah, que estes marcos dos limites do santuário sagrado de Meca foram estabelecidos por Ibrahim (que a paz esteja sobre ele), e que Jibril (que a paz esteja sobre ele) os mostrou a ele. Depois disso, ninguém mais alterou esses limites. Quando Qusay chegou, ele os restaurou. Depois disso, ninguém mais alterou os limites. Finalmente, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou, no ano da conquista de Meca, enviou Tamim ibn Usayd al-Khuza’i, que restaurou os marcos dos limites. Depois disso, ninguém mais alterou esses limites. Finalmente, quando Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou, enviou quatro líderes dos coraixitas: Mahrama ibn Nawfal, Sa’id ibn Yarbu, Huwaytib ibn Abd al-Uzza e Azhar ibn Abd Awf. Eles restauraram esses marcos. Depois, Mu’awiyah também os restaurou. Em seguida, Abd al-Malik ordenou que fossem restaurados.

11. O santuário sagrado de Medina

Assim como a caça e as árvores são proibidas no santuário sagrado de Meca, também são proibidas a caça e as árvores de Medina.

Foi narrado por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) estabeleceu Meca como uma cidade inviolável e segura, e eu estabeleci Medina como uma cidade inviolável e segura, entre suas duas áreas pedregosas. Nenhuma de suas árvores espinhosas será cortada, e nenhum animal será caçado.” Muslim.

Ahmad e Abu Dawud também narraram, através de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse sobre Medina: “Ninguém cortará suas árvores, ninguém afugentará sua caça, ninguém recolherá um objeto perdido encontrado nela, exceto aquele que anunciará publicamente que o encontrou. Ninguém carregará armas nela para lutar, e ninguém cortará nela uma árvore, exceto aquele que quiser alimentar seu camelo.” Em um hadith narrado por Bukhari e Muslim, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Medina é uma cidade honrada, desde o monte Eir até o monte Thur.” Foi narrado por Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele): o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou Medina honrada entre suas duas áreas pedregosas e tornou protegida uma área de doze milhas ao redor de Medina. Considera-se que a extensão do santuário sagrado de Medina, entre as duas áreas pedregosas — a área pedregosa oriental e a área pedregosa ocidental — é de doze milhas, estendendo-se de Eir até Thur. Eir é um monte próximo ao miqat, enquanto Thur é um monte ao norte, adjacente a Uhud.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permitiu aos habitantes de Medina cortar árvores para fabricar ferramentas agrícolas, equipamentos para montaria e outros artigos indispensáveis. Também lhes permitiu cortar a grama necessária para alimentar seus animais.

Ahmad narrou, por intermédio de Jábir, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Medina é uma cidade sagrada entre seus dois campos pedregosos; toda ela é protegida, e nenhuma de suas árvores pode ser cortada, exceto para alimentar animais protegidos.”

A situação do Santuário Sagrado de Meca é diferente. Isso porque os habitantes de Meca são autossuficientes em tudo de que necessitam. Já os habitantes de Medina não são autossuficientes quanto aos bens de que necessitam. Não é necessário oferecer qualquer compensação por matar caça ou cortar árvores no Santuário de Medina, mas isso constitui pecado.

Foi narrado no Sahih al-Bukhari, por intermédio de Anas, que o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, disse: “Medina é uma cidade sagrada e honrada, protegida desde este lugar até aquele. Nenhuma de suas árvores será cortada, nem nela será introduzida qualquer inovação. Sobre aquele que nela introduzir qualquer inovação recairá a maldição de Allah, dos Seus anjos e de todas as pessoas. Quem encontrar uma árvore de Medina cortada pode tomar a parte cortada.” Foi narrado por Sa‘d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele: ele foi à sua residência em Al-Aqiq. Lá, viu um escravo cortando uma árvore ou arrancando suas folhas com um bastão. Então, tomou dele aquilo. Depois, os familiares do escravo foram até Sa‘d e pediram-lhe que devolvesse o que havia tomado do escravo. Sa‘d disse: “Jamais devolverei aquilo que o Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, me concedeu. Busco refúgio em Allah contra isso.” Por fim, não o devolveu. Muslim, Abu Dawud e Al-Hakim narraram que o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, disse: “Se virdes alguém caçando no Santuário de Medina, podeis tomar dele aquilo que caçou.”

— Existe algum outro santuário protegido?

Ibn Taymiyyah disse: além destes dois Santuários Sagrados de Meca e Medina, não há outro Santuário Sagrado em toda a Terra. Bayt al-Maqdis ou qualquer outro lugar não é um santuário inviolável. Fora de Meca e Medina, nenhum outro lugar da Terra é denominado Santuário Sagrado. Embora pessoas ignorantes chamem Bayt al-Maqdis de Haram al-Maqdis e a cidade de Khalil de Haram al-Khalil, esses dois lugares, ou qualquer outro, não são, segundo o consenso dos muçulmanos, santuários invioláveis nem lugares seguros. O Santuário Sagrado reconhecido por consenso é o Santuário Sagrado de Meca. Segundo a maioria dos sábios, Medina também é um santuário inviolável, e numerosos hadith foram narrados nesse sentido pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Al-Uzza de Taif (جاء3) é o único terceiro lugar cuja condição de santuário inviolável é objeto de divergência entre os muçulmanos. Alguns, entre eles al-Shafi‘i e al-Shawkani, consideram-no um santuário inviolável. Contudo, a maioria dos sábios, imames e grandes eruditos não o considera como tal.

12. A superioridade de Meca sobre Medina

Segundo a maioria dos sábios, Meca é superior a Medina. Ahmad, Ibn Majah e al-Tirmidhi narraram, por intermédio de Abdullah ibn Adi, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dirigindo-se a Meca, disse: “Por Allah, tu és a melhor terra de Allah e a terra mais amada por Allah. Se eu não tivesse sido expulso de ti, jamais teria partido.” Al-Tirmidhi narrou, por intermédio de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dirigindo-se a Meca, disse: “Não há cidade melhor nem mais querida para mim do que tu. Se o meu povo não me tivesse expulsado de ti, eu não teria habitado em nenhum outro lugar além da tua terra.”

13. Entrada em Meca sem ihram

É permitido entrar em Meca sem ihram para quem não pretende realizar o hajj ou a umrah, quer sua entrada se dê por uma necessidade frequente, como no caso dos fornecedores e coletores de madeira, capim e água, dos caçadores e semelhantes, quer por uma necessidade não frequente, como no caso dos comerciantes, viajantes e semelhantes; e quer seja uma pessoa segura, quer esteja amedrontada. Esta é a opinião mais correta entre as duas opiniões do Imame Axafi‘i. Seus discípulos emitem fatwas de acordo com essa opinião. No hadith de Muslim consta que o Mensageiro de Allah entrou em Meca usando um turbante preto, sem ihram. Relata-se a respeito de Ibn Umar que, ao retornar de uma viagem, entrou em Meca sem ihram.

Ibn Shihab disse: Não há impedimento em entrar em Meca sem ihram. Ibn Hazm disse: É permitido entrar em Meca sem ihram, pois o Mensageiro de Allah estabeleceu o miqat apenas para quem pretende realizar o hajj ou a umrah. Para quem não pretende realizar o hajj ou a umrah, ele não estabeleceu miqat. Allah e Seu Mensageiro não ordenaram em parte alguma que não se possa entrar em Meca sem ihram. Tornar o ihram obrigatório para todos seria uma regra alheia à Sharia.

14. O que é recomendável fazer para entrar na Nobre Meca e na Mesquita Sagrada — Para entrar em Meca, é recomendável realizar os seguintes atos:

1. Tomar um banho ritual. Relata-se que Ibn Umar tomava um banho ritual para entrar em Meca.

2. Passar a noite em Dhu Tuwa, na região de Az-Zahir, pois o Mensageiro de Allah passou ali a noite. Nafi‘ disse: Ibn Umar também fazia isso. — Bukhari e Muslim.

3. Entrar pela passagem montanhosa mais elevada, a Thaniyyat Kida. O Mensageiro de Allah entrou pelo lado de Al-Mu‘alla. Quem puder fazê-lo com facilidade deve entrar por esse caminho; caso contrário, deve entrar pelo lado que lhe for possível. Não há impedimento nisso.

4. Deixar os pertences em um lugar seguro, dirigir-se à Casa de Allah, entrar pela porta de entrada dos Banu Shaybah, Bab as-Salam, e dizer com concentração e súplica humilde:

أَعُوذُ بِاللَّهِ الْعَظِيمِ، وَيَوَجْهِهِ الكَرِيرِ، وَسُلْطَانِهِ الْقَدِينِي مِنَ الشَّيْطَانِ الرَّحِيمِ، بِسْمِ اللهِ، اللهم مَلَ عَلَى مُحَمَّدٍ وَآلِهِ وَسَلَّمَ

“Busco refúgio junto a Deus, o Magnificentíssimo, junto à Sua Majestosa Essência, junto ao Seu poder eterno e sem princípio, contra Satanás banido. Em nome de Deus. Ó Deus, envia bênçãos e paz sobre Muhammad, sobre sua família e seus seguidores. Ó Deus, perdoa os meus pecados e abre para mim as portas da Tua misericórdia.”

5. Assim que avistar a Casa de Deus, levantará as mãos e dirá:

هذا البيت تشريفًا، وَتَعْظِيمًا وَتَكْرِيمًا وَمَمَابَةً، وَزِدْ مَنْ عَرفه وكرمه من حجه، أو اعتمرة وَتَفْرِيفًا وَتَكْرِيمًا وَتَعْظِيمًا وَبَرًا .

“Ó Deus, aumenta a honra e a dignidade desta Casa, aumenta a sua majestade e aumenta também a honra e as boas obras de todos os peregrinos do Hajj e da Umrah que honrarem esta Casa.” — Narrado por Ash-Shafi‘i. Em seguida, dirá:

اللهم انت السلام، ومِنْكَ السَّلام، فَعَيْنَا رَبَّنَا بِالسَّلام

“Ó Deus, Tu és a paz, e de Ti provém a paz. Ó nosso Senhor, faze-nos viver em paz.”

6. Em seguida, dirigir-se-á ao Hajar al-Aswad e o beijará sem emitir som. Se não puder beijá-lo, tocará o Hajar al-Aswad com a mão e beijará a mão. Se nem isso puder fazer, fará um gesto com a mão na direção do Hajar al-Aswad.

7. Depois, colocar-se-á diante do Hajar al-Aswad e iniciará o tawaf.

8. Não se deve realizar a oração de saudação à mesquita (Tahiyyat al-Masjid), pois aqui o tawaf é a saudação à mesquita (uma demonstração de respeito e reverência à mesquita). Contudo, se a oração obrigatória já tiver começado ou estiver prestes a começar, deve-se realizá-la com o imã. Isso porque o Mensageiro de Allah ﷺ disse: «Quando a oração em congregação começa, não há outra oração além da obrigatória.» Da mesma forma, se houver receio de que o horário da oração termine, deve-se primeiro realizar a oração obrigatória e depois fazer o tawaf.

15. Tawaf

O método do tawaf:

a. Envolver o pano sob a axila e sobre o ombro esquerdo (se estiver usando um pano), levantar a mão, posicioná-la na direção do Hajar al-Aswad e voltar-se para ele; tocá-lo com a mão ou apontar para ele com a mão; deixar a Caaba à esquerda e iniciar o tawaf recitando a seguinte súplica:

بِسْرِ اللهِ، وَالله اكبر، اللهم إيْمَانًا بِكَ، وَتَصْرِيقًا بِكِتَابِكَ، وَوَفَاء بِعَهْدِكَ، وَإِنْبَاعًا لِسُنَّةِ النَّبِيِّ مَن

Em nome de Allah. Allah é o Maior. Ó Allah, com fé em Ti, reconhecendo a autoridade do Teu Livro, cumprindo o pacto firmado Contigo e seguindo a sunnah do Teu Profeta, inicio o tawaf.

b. Ao iniciar o tawaf, é recomendável fazer ramal nas três primeiras voltas. O modo de fazer ramal é caminhar dando passos firmes e rápidos, tentando aproximar-se da Caaba. Nas quatro voltas restantes, deve-se caminhar em ritmo normal. Se não for capaz de fazer ramal ou não puder aproximar-se da Caaba devido à multidão dos que fazem tawaf, deverá realizar o tawaf da maneira que lhe for mais fácil. É recomendável tocar o Rukn al-Yamani em cada uma das sete voltas e beijar ou tocar o Hajar al-Aswad.

c. Durante o tawaf, deve-se fazer o máximo possível de súplicas e dhikr. É recomendável fazer as súplicas e o dhikr que forem do agrado da pessoa e não se limitar a uma súplica ou dhikr específico, nem às súplicas e ao dhikr ensinados pelos guias do tawaf. Isso porque o Legislador não nos impôs nenhuma súplica ou dhikr determinado e específico. Não há fundamento para a orientação dada por alguns, segundo a qual se devem fazer certas súplicas e dhikr específicos na primeira volta e outros na segunda. Nenhuma súplica ou dhikr desse tipo foi transmitido pelo Mensageiro de Allah ﷺ. A pessoa que faz tawaf tem plena liberdade para suplicar, por si mesma e por seus irmãos e amigos, por todos os bens deste mundo e da outra vida, da maneira que desejar. Algumas súplicas conhecidas através dos hadith serão mencionadas aqui.

1. Foi narrado como marfu‘ do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: quando se voltar para a Pedra Negra, dirá:

اللَّهُ إِيْمَانًا بِكَ وَتَصْرِيقًا بِكِتَابِكَ، وَوَفَاء بِعَهْدِكَ، وَإِنْبَاعًا لِسُنَّةِ نَبِيِّكَ بِسْمِ اللَّهِ وَاللَّهُ أَكْبَرُ .

«Ó Allah, com fé em Ti e em confirmação do Teu Livro, com o propósito de cumprir o compromisso assumido Contigo e de seguir a sunnah do Teu Profeta: em nome de Allah, Allahu Akbar.»

2. Foi narrado por Ibn Majah que, ao iniciar o tawaf, dirá:

3. Ao chegar ao Rukn al-Yamani, dirá:

سبْحَانَ اللهِ، وَالْحَمْدُ لله ولا إله إلا الله، والله الخبر، ولا حول ولا قوة إلا بالله . رَبَّنَا آتِنَا فِي الدُّنْيَا حَسَنَةً وَفِي الْآخِرَةِ حَسَنَةً وَقِنَا عَذَابَ النَّارِ .

«Ó nosso Senhor, concede-nos o bem nesta vida e o bem na Vida Futura, e salva-nos do castigo do Inferno.» Abu Dawud, al-Shafi‘i.

4. O Imam al-Shafi‘i disse: sempre que chegar diante da Pedra Negra, dirá «Allahu Akbar»; durante o ramal, dirá: «Ó Allah, faze que esta peregrinação seja uma peregrinação mabrur (que liberta de todos os pecados). Perdoa todos os pecados e aceita todos os esforços.» E, em cada volta do tawaf, dirá: «Ó Allah, perdoa e tem misericórdia. Perdoa todos os pecados que conheces. Tu és, certamente, o mais poderoso e o mais nobre. Ó Allah, concede-nos o bem nesta vida e o bem na Vida Futura, e salva-nos do castigo do Inferno.» Foi narrado por Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele: entre os dois pilares, ele (Ibn ‘Abbas) dizia:

“Ó Allah, faze-me satisfeito com o sustento que me concedeste, abençoa-o para mim e compensa tudo o que perdi com algo melhor.” Hafiz Sa‘id ibn Mansur e al-Hakim.
Ele fará a oração e continuará recitando este trecho do Sagrado Alcorão:

وَاتَّخِلُوا مِنْ مَقَامِ إِبْرَامِيرَ لی

5. Depois, ao concluir as sete voltas do tawaf, fará duas rak‘at junto ao Maqam Ibrahimعلى “Tomai o Maqam Ibrahim (o lugar onde Ibrahim se pôs de pé) como lugar de oração.” Com isso, o tawaf é concluído. Se aquele que realiza o tawaf estiver fazendo o Hajj ifrad, este tawaf é chamado de Tawaf al-Qudum (tawaf da chegada), Tawaf at-Tahiyyah (tawaf de saudação ou reverência) e Tawaf ad-Dukhul (tawaf da entrada). Este tawaf não é um pilar do Hajj, isto é, não é uma parte indispensável, nem é obrigatório. Para quem realiza o Hajj qiran ou tamattu‘, este tawaf é considerado o tawaf da ‘umrah. Com este tawaf, também se cumprem o Tawaf at-Tahiyyah e o Tawaf al-Qudum. Depois, quem realiza o Hajj qiran ou tamattu‘ deve concluir a ‘umrah realizando o sa‘i entre Safa e Marwah.

A recitação do Alcorão por quem realiza o tawaf: quem realiza o tawaf pode recitar o Alcorão durante o tawaf, pois o tawaf foi legislado para a recordação de Allah, e o Alcorão é recordação.

Foi narrado por ‘A’ishah, que o Mensageiro de Allah disse: “O objetivo do tawaf na Casa de Allah, entre Safa e Marwah, e do lançamento de pedras é unicamente estabelecer a recordação de Allah.” — Abu Dawud e at-Tirmidhi.

A virtude do tawaf: al-Bayhaqi narrou de Ibn ‘Abbas que o Mensageiro de Allah disse: “Allah destinou cento e vinte porções de misericórdia aos peregrinos que chegam à Sua Casa Majestosa para realizar o Hajj: sessenta para os que realizam o tawaf, quarenta para os que oram e vinte para os que contemplam (isto é, para os que olham para a Casa de Allah).”

Quantos tipos de tawaf existem e quais são? O tawaf é de quatro tipos: 1. Tawaf al-Qudum; 2. Tawaf al-Ifadah; 3. Tawaf al-Wada‘; e 4. tawaf voluntário. É dever de todo peregrino realizar esses tawafs. Deve-se aproveitar a oportunidade de estar em Meca para realizar o máximo possível de tawaf voluntário e rezar na Mesquita Sagrada, pois a recompensa da oração na Mesquita Sagrada é cem mil vezes maior que nas demais mesquitas. No tawaf voluntário, não é necessário fazer ramal nem passar o manto por baixo da axila e colocá-lo sobre o ombro esquerdo. É sunnah honrar a Mesquita Sagrada com o tawaf sempre que se entra nela. Quanto às demais mesquitas, deve-se honrá-las com duas rak‘at voluntárias de Tahiyyat al-Masjid.

O tawaf possui algumas condições, algumas sunnahs e algumas etiquetas, que serão mencionadas a seguir:

Condições do tawaf: é obrigatório cumprir as seguintes condições para o tawaf:

1. Purificar-se de todos os tipos de impureza: da impureza menor (por meio do wudu), da impureza maior (por meio do ghusl) e do sangue impuro (lavando a área correspondente). Pois o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O tawaf é uma espécie de oração. A única exceção é que Allah tornou permitido falar durante ele. Portanto, quem falar, que não fale senão sobre algo bom.” — Tirmidhi, Dar Qutni. Foi narrado por Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até ela e a encontrou chorando. Ele perguntou: “Você está menstruada?” Aisha respondeu: “Sim.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Isso é algo que Allah determinou inevitavelmente para as filhas de Adão. Portanto, faça tudo o que os demais peregrinos fazem; apenas não faça o tawaf da Caaba Sagrada até tomar banho ritual.” — Muslim.

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, também disse: “Sempre que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vinha a Meca, primeiro fazia o wudu e depois realizava o tawaf da Casa de Allah.” — Bukhari e Muslim. Aquele que sofre de uma impureza que não pode ser removida, como a doença de micção contínua ou a istihada das mulheres, que provoca sangramento contínuo, pode realizar o tawaf. Não terá de oferecer nenhuma expiação. Esta é a opinião unânime.

Malik narra: uma mulher pediu uma fatwa a Abdullah ibn Umar. Ela disse: “Vim com a intenção de realizar o tawaf da Casa de Allah. Quando cheguei à porta da Mesquita Sagrada, começou o meu sangramento. Por isso, voltei. Depois fiquei livre dele e vim novamente para realizar o tawaf. Porém, sempre que chegava à porta da Mesquita Sagrada, o sangramento começava imediatamente. Isso aconteceu três vezes.” Abdullah disse: “Isso é um golpe de Satanás. Portanto, toma um banho ritual, coloca um pano e amarra-o como um absorvente na saída do sangue, e realiza o tawaf.” (Segundo os hanafitas, purificar-se da impureza menor não é uma condição do tawaf; é obrigatório, e sua falta é compensada por um sacrifício de expiação (dam). Se alguém realizar o tawaf sem wudu, estando em estado de impureza menor, o tawaf será válido, mas será obrigatório sacrificar uma cabra. Se realizar o tawaf em estado de impureza maior ou durante a menstruação, também será válido, mas deverá sacrificar um camelo e compensá-lo posteriormente enquanto permanecer em Meca. Já purificar-se da impureza presente na roupa ou no corpo é apenas sunna.)

2. Cobrir as partes íntimas do corpo: Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: no hajj anterior ao Hajj de Despedida, no qual o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nomeou Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, como emir do hajj, Abu Bakr enviou-me a Meca como membro de um grupo. A responsabilidade desse grupo era anunciar que, depois daquele ano, nenhum politeísta poderia realizar o hajj e que ninguém poderia realizar o tawaf da Caaba Sagrada nu. — Bukhari e Muslim. (Segundo os hanafitas, cobrir as partes íntimas não é uma condição, mas é obrigatório. Se alguém realizar o tawaf nu, ele será válido, mas deverá ser repetido. Contudo, se sair de Meca, deverá sacrificar uma cabra.)

3. Completar sete voltas no tawaf. Se faltar sequer um passo em alguma volta, o tawaf não será válido. Se houver dúvida quanto ao número de voltas, deve-se considerar o número menor, para ter certeza de completar sete voltas. Se a dúvida surgir depois de concluir o tawaf, nada mais será necessário fazer; o tawaf será válido.

4. Começar o tawaf a partir da Pedra Negra e terminá-lo ao chegar à Pedra Negra.

5. Realizar o tawaf deixando a Casa de Allah (a Caaba) à esquerda. Se for realizado deixando-a à direita, o tawaf não será válido. Pois foi narrado por Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, que, quando o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Meca, dirigiu-se à Pedra Negra e tocou-a. Depois, começou a caminhar mantendo-a à sua direita; fez ramal nas três primeiras voltas e caminhou normalmente nas quatro restantes. (Ramal é caminhar vigorosamente, inclinando o pescoço. Segundo os hanafitas, o pilar do tawaf, isto é, a quantidade mínima indispensável, são quatro voltas. As três voltas restantes são obrigatórias, e sua omissão pode ser compensada pelo sacrifício de uma cabra.) — Muslim.

6. O tawaf deve ser realizado pelo lado de fora da Baytullah (a Caaba). Se o tawaf for realizado dentro do Hajr Ismail, ele não será válido, pois o Hajr Ismail e o Shadharwan fazem parte da Baytullah. (O Hajr Ismail está circundado por uma estrutura semicircular ao norte da Caaba. Nem todo o Hajr Ismail faz parte da Baytullah; aproximadamente três metros dele fazem parte da Baytullah. Shadharwan é o nome da estrutura adjacente à base da Caaba, sobre a qual são colocados os anéis da cortina da Caaba.) Allah, o Altíssimo, ordenou que se faça o tawaf ao redor da Baytullah, não dentro dela. Ele disse: “Que eles circundem a Antiga Casa.” (O próprio significado da palavra tawaf é circular pelo lado externo de algo.) É recomendável, se possível, realizar o tawaf próximo à Baytullah.

7. Segundo Malik e Ahmad, realizar o tawaf sem interrupção é uma condição. Não há problema em fazer uma breve pausa sem uma justificativa, ou uma pausa um pouco mais longa quando houver uma justificativa. Segundo os hanafitas e os shafitas, realizar o tawaf sem interrupção é uma sunna, não uma condição. Se alguém fizer uma longa pausa durante o tawaf sem justificativa, o tawaf não será invalidado. Deve completar, após a pausa, o restante do tawaf que havia iniciado antes dela. Sa’id ibn Mansur narra que Hamid ibn Zayd disse: “Vi Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, descansar depois de realizar três ou quatro voltas ao redor da Baytullah, enquanto um de seus servos lhe fazia vento. Depois de algum tempo, ele se levantou e completou a parte restante do tawaf.” Segundo os shafitas e os hanafitas, se a ablução for anulada durante o tawaf, a pessoa deverá fazer a ablução e completar a parte restante do tawaf. Não é necessário recomeçar, por mais longa que tenha sido a pausa.

É relatado que Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, estava realizando o tawaf da Baytullah quando a oração congregacional começou. Ele rezou com a congregação e depois completou o restante do tawaf. Ata disse: “Se, depois de alguém completar uma parte do tawaf, for trazido um funeral, deverá interromper o tawaf, realizar a oração fúnebre, retornar depois ao tawaf e completar o que restava.”

As sunnas do tawaf: O tawaf possui algumas sunnas, que serão mencionadas a seguir:

1. No início do tawaf, deve-se voltar o rosto para o Hajr al-Aswad, levantar ambas as mãos como na oração e dizer “Allahu akbar” e “La ilaha illallah”. Deve-se colocar ambas as mãos sobre o Hajr al-Aswad, tocá-lo, beijá-lo sem emitir som e encostar a testa nele. Se não for possível encostar a testa, deve-se tocá-lo e beijá-lo apenas com a mão; ou tocá-lo com algum objeto que se tenha consigo e beijar esse objeto; ou apontar para ele com um bastão ou algo semelhante. Há vários hadiths sobre esse assunto. Mencionaremos aqui alguns deles:

Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah voltou o rosto para o Hajr al-Aswad e tocou-o. Depois colocou os lábios sobre ele e chorou por muito tempo. Umar também chorou por muito tempo. Então o Mensageiro disse: ‘Ó Umar, é neste lugar que se deve derramar muitas lágrimas.’” — Al-Hakim.

Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, inclinou-se sobre o Hajr al-Aswad e disse: ‘Sei que és apenas uma pedra. Se eu não tivesse visto o meu amado Profeta beijar-te e tocar-te, não te tocaria nem te beijaria. Allah disse: لقن كان . لَكُرْ فِي رَسُوْلِ اللَّهِ أَسْوَةٌ حَسَنَةٌ“No Mensageiro de Allah há para vós um excelente modelo.” — Ahmad e outros.

Nafi disse: “Vi Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, tocar primeiro o Hajr al-Aswad com a mão. Depois beijou a mão e disse: ‘Desde que vi o Mensageiro fazer isso, nunca deixei de fazê-lo.’” — Bukhari e Muslim.

Suwaid ibn Ghafala, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Vi Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, beijar a Pedra Negra e manter esse ato continuamente, dizendo: ‘Vi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, demonstrar por ti grande afeição e respeito.’” Muslim.

Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Assim que chegava à Casa de Allah, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tocava a Pedra Negra e dizia: ‘Em nome de Allah, Allah é o Maior.’” Ahmad.

Abu at-Tufail disse: “Vi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, circundar a Casa de Allah e tocar a Pedra Negra com um bastão de ponta curva que trazia consigo. Depois, beijou o bastão.” Muslim.

Bukhari, Muslim e Abu Dawud narraram que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, beijava a Pedra Negra. Depois dizia: “Sei que és apenas uma pedra; não podes causar dano nem benefício. Se eu não tivesse visto o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, beijar-te, não te beijaria.”

Al-Khattabi disse: “Este hadith mostra que é obrigatório seguir a Sunnah, mesmo quando não se conhece a sua razão ou justificativa. Sempre que alguém tomar conhecimento de uma Sunnah, é indispensável que a pratique, ainda que não compreenda a sua justificativa. Naturalmente, é de modo geral conhecido por todos que o objetivo de o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, beijar a Pedra Negra era apenas honrá-la, conceder-lhe o devido status e buscar bênção por meio dela. Allah, o Altíssimo, concedeu a algumas pedras superioridade sobre outras pedras, a algumas cidades e lugares superioridade sobre outras cidades e lugares, e a algumas noites, dias e meses superioridade sobre outras noites, dias e meses. A base de tudo isso é a obediência incondicional à prática demonstrada pelo Mensageiro de Allah.”

Alguns hadiths mencionam algo que é extremamente razoável: “A Pedra Negra é a mão direita de Allah na Terra.” Isso significa que quem tocar a Pedra Negra com a mão obterá de Allah um compromisso. É semelhante ao fato de reis e soberanos apertarem a mão de alguém quando desejam tê-lo como aliado ou estabelecer com ele uma relação próxima, expressando assim um compromisso; ou ao fato de se prestar lealdade apertando a mão dos reis e soberanos. Do mesmo modo, assim como servos beijam as mãos de pessoas ilustres para obter a sua proximidade, isso também é semelhante. Contudo, al-Muhallab disse: “A Pedra Negra é a mão direita de Allah na Terra; por meio dela Ele aperta a mão do servo que deseja.” Entretanto, este hadith citado foi rejeitado por Umar e pelo hadith que ele narrou. Deve-se buscar refúgio em Allah de tal afirmação, pois ela implica que Allah possa ter uma mão. Ele ordenou que se beijasse a Pedra Negra apenas para que se tornasse visualmente evidente quem é mais obediente a Allah. Há um precedente disso no episódio em que Iblis foi ordenado a prostrar-se diante de Adão. Deve-se observar que não se sabe com certeza se, entre as pedras que Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, colocou na Caaba, resta alguma outra além da Pedra Negra.

É permitido disputar espaço junto à Pedra Negra. Não há problema em fazê-lo, desde que não se cause sofrimento a ninguém junto à Pedra Negra. Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, chegou a ferir o próprio nariz e fazê-lo sangrar ao disputar espaço. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: “Ó Abu Hafs, és um homem muito forte. Não disputes espaço junto à Pedra Negra, pois ferirás os fracos. Porém, quando encontrares o local desimpedido, toca a Pedra Negra; caso contrário, pronuncia o takbir e segue adiante.” Sunan de ash-Shafi’i.

2. Outra Sunnah do tawaf é fazer idtiba (colocar a parte central do manto sob a axila direita e as duas extremidades do manto sobre o ombro esquerdo). Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os seus Companheiros fizeram a umrah partindo de Ji’rana. Eles colocaram os seus mantos sob as axilas e as extremidades dos mantos sobre o ombro esquerdo.” Ahmad, Abu Dawud.

Esta é a opinião da maioria dos sábios. Os sábios mencionaram como justificativa que o idtibāʿ auxilia na prática do ramal durante o tawāf. Mālik disse: “Isso não é recomendável, pois não sei de ninguém que o tenha praticado, nem o vi sendo praticado. No que diz respeito à oração do tawāf, há consenso de que o idtibāʿ não é recomendável.”

3. Outra Sunnah é praticar o ramal nas três primeiras voltas do tawāf e caminhar normalmente nas quatro voltas restantes. (Ramal é caminhar rapidamente, balançando os ombros e dando passos curtos e firmes, de modo a demonstrar força e coragem.)

Ibn ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou três voltas, desde a Pedra Negra até a Pedra Negra, praticando o ramal, e quatro voltas caminhando normalmente.” — Ahmad e Muslim.

Se alguém deixar de praticar o ramal nas três primeiras voltas, não terá de compensá-lo nas quatro voltas seguintes. O idtibāʿ e o ramal devem ser praticados somente pelos homens no tawāf da ʿumrah e naquele tawāf do Hajj após o qual se realiza o saʿi entre Safā e Marwah. Segundo os Shāfiʿitas, se a pessoa praticar o ramal no tawāf al-qudūm e depois realizar o saʿi, não será necessário repetir o idtibāʿ e o ramal no tawāf al-ifāḍah. Porém, se não tiver realizado o saʿi após o tawāf al-qudūm e o tiver adiado até depois do tawāf az-ziyārah, deverá praticar o ramal e o idtibāʿ no tawāf az-ziyārah.

As mulheres não praticam o idtibāʿ, pois há o risco de que partes íntimas de seus corpos fiquem expostas. Elas também não precisam praticar o ramal, pois Ibn ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “As mulheres não precisam praticar o ramal nem ao redor da Casa de Allah nem entre Safā e Marwah.”

Qual é a justificativa do ramal? A justificativa aparece no hadith narrado por Ibn ʿAbbās. Ele disse: “Certa vez, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Makkah quando a febre de Madinah havia enfraquecido os muçulmanos. Os idólatras espalharam o rumor de que chegaria até eles um grupo de pessoas que havia sido enfraquecido pela febre e sofrido um destino muito ruim. Allah, o Altíssimo, informou o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre esse rumor dos idólatras. Então o Mensageiro de Allah ordenou aos muçulmanos que praticassem o ramal nas três primeiras voltas e caminhassem normalmente entre os dois pilares, isto é, entre o Rukn al-Yamānī e a Pedra Negra. Quando os idólatras os viram praticando o ramal, disseram uns aos outros: ‘São estes aqueles sobre os quais vocês diziam que a febre os havia deixado debilitados? Eles parecem mais fortes do que nós!’ Ibn ʿAbbās disse: ‘Ele não ordenou que praticassem o ramal em todas as voltas, para que as forças dos muçulmanos não se esgotassem excessivamente e eles não fossem prejudicados.’” Bukhārī, Muslim e Abū Dāwūd.

Quando a causa mencionada acima deixou de existir, ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, pensou que já se poderia abandonar o ramal, pois Allah havia concedido aos muçulmanos vitória, liberdade e firme estabelecimento na terra. Contudo, depois decidiu que, assim como o ramal havia sido mantido durante a vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, deveria continuar sendo praticado, para que essa inspiração permanecesse viva nas gerações posteriores. Muhibb ad-Dīn at-Tabarī disse: “Uma norma da Sharīʿah pode entrar em vigor por uma causa específica; porém, mesmo que essa causa desapareça posteriormente, a norma permanece vigente.”

Zayd ibn Aslam narrou, de seu pai, que ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ainda hoje praticamos o ramal e deixamos os ombros descobertos, embora Allah tenha estabelecido o Islã sobre uma base sólida e expulsado a descrença e seus seguidores? Pois jamais abandonaremos aquilo que fazíamos na época do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.”

4. Tocar com a mão o Rukn al-Yamānī é uma das sunnahs do tawāf. Ibn ʿUmar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Desde o dia em que vi o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tocar a Pedra Negra e o Rukn al-Yamānī, nunca deixei de tocar esses dois, em nenhuma situação, seja na prosperidade ou na adversidade.” Al-Bukhārī e Muslim.

Aquele que realiza o tawāf toca esses dois pilares porque eles possuem grande mérito e características especiais. A Pedra Negra possui duas características: primeiro, está assentada sobre a estrutura construída por Ibrāhīm (que a paz esteja com ele); segundo, é o ponto de início e de término do tawāf. O Rukn al-Yamānī, situado exatamente em frente a ela, também foi construído sobre os alicerces de Ibrāhīm (que a paz esteja com ele). Abū Dāwūd narrou, através de Ibn ʿUmar (que Allah esteja satisfeito com ele), que ʿĀ’ishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Uma parte da Pedra Negra pertence à Casa de Allah.” Ibn ʿUmar disse: “Juro por Allah que penso que ʿĀ’ishah deve ter ouvido isso diretamente do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).” Creio que foi por essa razão que o Mensageiro não deixou de tocar esses dois. Contudo, eles não estão assentados sobre os alicerces da Casa de Allah. É por isso que as pessoas realizam o tawāf passando ao lado da Pedra Negra. Toda a comunidade muçulmana concorda que é mustahabb tocar o Rukn al-Yamānī e a Pedra Negra, e que aquele que realiza o tawāf não deve tocar os outros dois pilares.

Ibn Ḥibbān narrou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “A Pedra Negra e o Rukn al-Yamānī removem abundantemente os pecados.”

Após o tawāf, é sunnah realizar duas rakʿahs depois de cada tawāf, seja ele obrigatório ou voluntário, no Maqām Ibrāhīm ou em qualquer outro local da mesquita. Segundo Abū Ḥanīfah, essa oração é wajib.

Foi narrado por Jābir (que Allah esteja satisfeito com ele) que, quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegou a Meca, realizou sete voltas de tawāf em torno da Casa de Allah e, ao chegar ao Maqām Ibrāhīm, recitou: “Tomai o Maqām Ibrāhīm como lugar de oração.” Depois, rezou atrás do Maqām Ibrāhīm. Em seguida, foi até a Pedra Negra e tocou-a. At-Tirmidhī.

É sunnah recitar a surata al-Kāfirūn após al-Fātiḥah na primeira rakʿah dessa oração, e a surata al-Ikhlāṣ na segunda rakʿah. Isso está comprovado com base no Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Muslim.

Essas duas rakʿahs podem ser realizadas a qualquer momento, inclusive nos horários proibidos, pois foi narrado por Jubayr ibn Muṭʿim que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ó Banu ʿAbd Manāf, não impeçais ninguém de realizar o tawāf nesta Casa nem de rezar aqui em qualquer hora do dia ou da noite.” Aḥmad, Abū Dāwūd e At-Tirmidhī. Essa é a posição de Ash-Shāfiʿī e de Aḥmad.

Embora seja sunnah realizar a oração após o tawāf na Mesquita Sagrada, também é permitido realizá-la fora dela. Al-Bukhārī.

Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, narrou que Umm Salama fez o tawaf montada em um camelo e não rezou até sair daquele local. Malik narra que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi a Dhu Tuwa e rezou essas duas rak‘ahs. Al-Bukhari disse: Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, rezou também fora do Santuário Sagrado. Se, após o tawaf, a pessoa rezar uma oração obrigatória, não será necessário que reze essas duas rak‘ahs. Essa é a opinião mais conhecida da escola de ash-Shafi‘i e a opinião de Ahmad. Malik e os hanafitas disseram: nenhuma outra oração substitui essas duas rak‘ahs.

Passar diante de alguém que reza no Santuário Sagrado de Meca. É completamente permitido que um fiel reze na Mesquita Sagrada enquanto homens e mulheres passam diante dele. Isso sequer é makruh. Essa é uma particularidade da Mesquita Sagrada. Kuthayr ibn Kuthayr ibn al-Muttalib ibn Wida‘ah narrou que viu o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, rezando numa área próxima aos Banu Tuham, enquanto as pessoas passavam diante dele, sem que houvesse qualquer sutrah — uma barreira — à sua frente.

Sufyan ibn Uyaynah disse: não havia nenhuma sutrah entre o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e a Caaba. Abu Dawud, an-Nasa’i e Ibn Majah.

O tawaf das mulheres com os homens. Al-Bukhari narra de Ibn Jurayj. Ibn Jurayj disse: ‘Ata informou-me que, quando Ibn Hisham proibiu as mulheres de fazerem o tawaf com os homens, ele — ‘Ata — disse: Como você pode proibir as mulheres, quando as esposas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, faziam o tawaf com os homens?’

Perguntei: ‘Isso foi antes ou depois da instituição do véu?’ Ele respondeu: ‘Eu as encontrei depois da instituição do véu.’

Perguntei: ‘Como as mulheres se misturavam com os homens?’

Ele respondeu: ‘As mulheres não se misturavam com os homens. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, fazia o tawaf separadamente dos homens; ela não se misturava com eles.’ Certa mulher disse: ‘Ó mãe dos crentes, vamos tocar a Pedra Negra.’ Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, respondeu: ‘Vá você.’ Com essas palavras, recusou-se a acompanhá-la.

As mulheres saíam à noite disfarçadas e faziam o tawaf com os homens. Porém, quando entravam na Casa de Allah, ficavam de pé esperando. Assim que entravam, os homens eram retirados, para que elas pudessem tocar a Pedra Negra sozinhas e separadas dos homens. Isso porque foi narrado que Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, aconselhou certa mulher: ‘Não se aglomere junto à Pedra Negra. Quando a encontrar sem aglomeração, toque-a. Se houver aglomeração, venha até o alinhamento da Pedra Negra e diga, à distância, Allahu Akbar e La ilaha illallah, sem causar sofrimento a ninguém.’

Montar uma montaria durante o tawaf: se, apesar de ter capacidade para realizar o tawaf a pé, surgir alguma necessidade de montar uma montaria, isso é permitido. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que, durante a Peregrinação de Despedida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou o tawaf montado em um camelo e tocou a Pedra Negra com um bastão curvo. — Al-Bukhari e Muslim. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: durante a Peregrinação de Despedida, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou o tawaf da Casa Sagrada e o tawaf entre Safa e Marwa montado em sua camela, para que as pessoas pudessem vê-lo. Ele as observava, e elas podiam perguntar-lhe aquilo de que necessitavam, pois as pessoas se aglomeravam ao seu redor.

O tawaf de uma leprosa junto com os demais praticantes do tawaf: Malik narrou que Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) viu uma leprosa realizando o tawaf da Casa Sagrada. Ao vê-la, disse-lhe: “Ó serva de Allah, não cause incômodo às pessoas. Seria melhor que você permanecesse sentada em sua casa.” Então, a mulher voltou para casa e permaneceu ali. Mais tarde, um homem passou por ela e lhe disse: “Aquele que a proibiu morreu. Agora saia.” A mulher respondeu: “Não estou disposta a obedecê-lo enquanto estava vivo e desobedecê-lo depois de sua morte.”

16. Beber a água de Zamzam

Quando o praticante do tawaf concluir o tawaf e realizar duas rak‘ahs de oração junto ao Maqam Ibrahim, é recomendado para ele beber a água de Zamzam.

Foi narrado por Al-Bukhari e Muslim que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) bebeu a água de Zamzam e disse: “Ela é abençoada, sacia e cura as doenças.” Jibril lavou o coração do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com essa água na noite da Ascensão. Al-Tabarani e Ibn Hibban narraram, de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A melhor água da Terra é a água de Zamzam.”

É sunnah ter a intenção, ao beber a água de Zamzam, de obter a cura das doenças e todo o bem deste mundo e do Além. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A água de Zamzam serve para aquilo para que é bebida.” Suwayd ibn Sa’id disse: “Vi em Meca Abdullah ibn al-Mubarak aproximar-se do poço de Zamzam. Bebeu de sua água e, voltado para a qibla, disse: ‘O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A água de Zamzam serve para aquilo para que é bebida.” Estou bebendo-a para a sede do Dia da Ressurreição.’ Então bebeu.” — Ahmad e Al-Bayhaqi. Também foi narrado, de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A água de Zamzam serve para aquilo para que é bebida. Se a beberes com a intenção de obter a cura de uma doença, Allah te curará. Se a beberes para te saciares, Allah te saciará. E se a beberes para apagar a tua sede, Allah apagará a tua sede. Este poço foi escavado por Jibril, e Allah fez sua água surgir para saciar Ismail.” — Al-Daraqutni e Al-Hakim. Al-Hakim acrescentou: “Se beberes esta água buscando refúgio junto a Allah, Ele te dará refúgio.” É recomendado beber a água de Zamzam em três respirações, voltado para a qibla e até se saciar; dizer “Alhamdulillah” depois de beber e recitar a súplica de Ibn Abbas.

Abu Mulayka disse: um homem foi até Ibn Abbas, que lhe perguntou: “De onde vieste?” Ele respondeu: “Venho de beber a água de Zamzam.” Ibn Abbas disse: “Bebeste-a da maneira como se deve beber a água de Zamzam?” O homem perguntou: “Como?” Ele respondeu: “Quando quiseres beber a água de Zamzam, voltar-te-ás para a qibla, mencionarás Allah e beberás até te saciares, em três respirações. Depois, louvarás Allah. Pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘A diferença entre nós e os hipócritas é que eles não bebem da água de Zamzam até se saciarem.’” — Ibn Majah e Al-Daraqutni. Ibn Abbas costumava fazer esta súplica ao beber a água de Zamzam:

اللهم إلَى أَسْأَلُكَ عِلْمًا نَافِعًا، وَرِزْقًا وَاسِعًا، وَشِفَاءٌ مِن كُلِّ دَاءٍ .

“Ó Allah! Peço-Te conhecimento benéfico, provisão abundante e cura de todas as doenças.”

A história do poço de Zamzam: Al-Bukhari narrou, com base em Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): Quando Hajar e seu filho sentiram uma sede intensa, Hajar subiu ao monte Marwa. Então ouviu uma voz. Ela disse a si mesma: “Cala-te”, e tentou ouvir novamente aquela voz. Então voltou a ouvi-la. Hajar disse: “Ouvi-te. Se tens alguma ajuda, mostra-a.” De repente, viu um anjo no local de Zamzam. O anjo cavou a terra com o calcanhar ou com a asa, e imediatamente a água brotou. Hajar começou então a fazer uma bacia para represar a água e a encher seu odre, levando a água com as mãos em concha. Quanto mais água recolhia com as mãos, mais ela transbordava. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Que Allah tenha misericórdia da mãe de Ismael! Se ela tivesse deixado Zamzam correr, ou se não tivesse recolhido água com as mãos em concha, Zamzam não teria se tornado uma fonte corrente.” Depois, Hajar bebeu da água e deu de beber ao filho. Em seguida, o anjo disse-lhe: “Não temas que vós pereçais. Aqui está a Casa de Allah. Esta criança e seu pai a reconstruirão. Allah não destruirá os habitantes desta Casa.” Naquela época, a Casa de Allah era como uma elevação. As enxurradas avançavam em sua direção e depois passavam pelo seu lado direito e pelo seu lado esquerdo.

É recomendável suplicar junto ao Multazam: Depois de beber a água de Zamzam, é recomendável ir ao Multazam e fazer súplicas. Al-Bayhaqi narrou, com base em Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que Ibn Abbas costumava permanecer junto à Caaba, entre a porta da Caaba e a Pedra Negra, abraçando-a, e dizia: “Deveis abraçar a parede da Caaba e suplicar entre a Pedra Negra e a porta. Quem abraçar a Caaba entre essas duas coisas e pedir algo a Allah, certamente Allah lhe concederá.” O avô de Amr ibn Shuayb disse: “Vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encostar o rosto e o peito no Multazam.”

Alguns dizem que o Hatim é o próprio Multazam. Segundo Al-Bukhari, a Pedra Negra é o Hatim. Como prova disso, citam o hadith da Ascensão, no qual o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando eu estava dormindo no Hatim” — ou talvez tenha dito: “estava dormindo junto à Pedra Negra”. Al-Bukhari disse: “A Pedra Negra é o Hatim.”

É recomendável entrar no interior da Caaba e no Hateem de Ismael: Al-Bukhari e Muslim narraram, com base em Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): Após a conquista de Meca, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou no interior da Caaba com Usama e Uthman ibn Talha. Eles fecharam a porta. Quando a abriram, Bilal informou-me que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia rezado dentro da Caaba entre as duas colunas iemenitas. Os sábios concluíram disso que entrar na Caaba e rezar em seu interior é uma sunnah. Contudo, também disseram que, embora seja uma sunnah, isso não faz parte do Hajj. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó pessoas, entrar no interior da Casa de Allah não faz parte do vosso Hajj.” — Al-Hakim. Quanto àquele que não tiver oportunidade de entrar na Caaba, é recomendável entrar no Hateem de Ismael e rezar ali, pois uma parte dele pertence à Caaba.

Ahmad narrou, com base em Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Aisha disse: “Ó Mensageiro, todos os membros da sua família entraram no interior da Casa de Allah; somente eu não entrei.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Manda chamar Shayba, filho de Uthman ibn Talha, o guardião das chaves da Caaba; ele abrirá a porta para ti.” Aisha enviou alguém até Shayba. Shayba disse: “Não conseguimos abri-la nem na época da ignorância nem na época do Islam.”

Então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Reza no Hateem de Ismael, pois, quando o teu povo restaurou a Casa de Allah, não conseguiu restaurá-la completamente. Deixou uma parte dela — o Hateem de Ismael — do lado de fora.”

17. O sa’i entre Safa e Marwa

Como isso foi estabelecido pela sharia: Al-Bukhari narrou, de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que Ibrahim (que a paz esteja com ele) trouxe para cá sua esposa Hajar e seu filho lactente Ismail. Em seguida, deixou ambos junto à Casa de Allah, sob uma enorme árvore, acima de Zamzam. Naquela época, não havia habitantes nem água em Meca. Ibrahim (que a paz esteja com ele) deixou com ambos uma bolsa cheia de tâmaras e um odre cheio de água, despediu-se e começou a partir. A mãe de Ismail o seguiu e disse: “Ó Ibrahim, para onde você vai, deixando-nos nesta terra desabitada e sem plantações?” Ela repetiu isso várias vezes, mas Ibrahim nem sequer olhou para ela. Então Hajar perguntou: “Allah ordenou que você fizesse isso?” Ibrahim respondeu: “Sim.” Hajar disse: “Nesse caso, Ele não nos destruirá.” Em outro hadith, consta que Hajar perguntou: “Aos cuidados de quem você nos deixa?” Ibrahim (que a paz esteja com ele) respondeu: “Aos cuidados de Allah.” Hajar disse: “Estou satisfeita.” Então Hajar voltou.

Depois, Ibrahim continuou seu caminho. Quando chegou perto da passagem entre as montanhas, onde ninguém podia vê-lo, voltou-se em direção à Casa de Allah, ergueu as mãos e fez esta súplica:

ربنا إلى أسكنت من ذُرِّيَّتِي بِوَادٍ غَيْرِ ذِي زرع عِندَ بَيْتِكَ المحرم . رَبَّنَا لِيُقِيمُوا الصَّلاةَ فَاجْعَلْ أَفْئِدَةٌ من الناس تهوي إليهم، وارزقه من الثمرات لعلهم يشكرون .

“Ó nosso Senhor, deixei parte da minha descendência em um vale sem cultivo, junto à Tua Casa Sagrada. Ó nosso Senhor, fiz isso para que eles estabeleçam a oração. Faze, portanto, com que os corações das pessoas se inclinem para eles e provê-os de alguns frutos e colheitas, para que Te agradeçam.”

A mãe de Ismail permaneceu sentada sob a árvore, mantendo o filho ao seu lado e pendurando seu pequeno e velho odre de água, para que pudesse beber dele quando necessário e amamentar o filho. Quando a água do odre acabou, seu leite também secou e parou de sair. A fome de seu filho se intensificou. Desnorteada e aflita, Hajar olhou para o filho e começou a afastar-se. Não suportava sequer olhar para ele. Por isso, deixou o filho e partiu para outro lugar. Subiu ao monte mais próximo, Safa, e olhou para o vale, para ver se avistava alguém. Não, não viu ninguém. Depois desceu de Safa. Quando chegou ao vale, levantou a bainha da roupa e começou a correr desesperadamente, como uma pessoa extremamente cansada e angustiada. Atravessou o vale correndo e voltou a chegar a Marwah. Parada sobre Marwah, começou a olhar ao redor, para ver se avistava alguém. Mas não viu ninguém. Assim, percorreu sete vezes o trajeto entre Safa e Marwah. Ibn Abbas disse: “É por isso que as pessoas percorrem o trajeto entre essas duas montanhas.”

A norma da sharia sobre percorrer o trajeto entre Safa e Marwah: Há três opiniões dos sábios sobre a norma da sharia referente a percorrer o trajeto entre Safa e Marwah:

1. Entre os Companheiros, Ibn Umar, Jabir e Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), e entre os imames, Malik, al-Shafi‘i e, segundo uma narração, Ahmad, disseram que realizar o sa‘i entre Safa e Marwah é um dos pilares do hajj, isto é, uma obrigação. Se algum peregrino o deixar de realizar, seu hajj será inválido, e isso não poderá ser compensado por um sacrifício ou qualquer outra coisa. Em apoio à sua opinião, apresentaram as seguintes provas:

Al-Bukhari narrou, de al-Zuhri, que Urwah perguntou a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Você refletiu sobre este versículo?”

إنَّ الصَّفَا وَالْمَرْوَةَ مِنْ شَعَائِرِ اللَّهِ فَمَنْ حَجَّ الْبَيْت أَوِ اعْتَمَرَ فَلَا جُنَاحَ عَلَيْهِ أَن يَطُونَ بِهِمَا .

“De fato, Safa e Marwa estão entre os símbolos de Allah. Portanto, quem realizar o hajj ou a umra não cometerá pecado ao fazer o tawaf entre ambos.” Por Allah, isso dá a entender que não haveria problema em não fazer o tawaf entre Safa e Marwa. Aisha disse: “Ó meu sobrinho, você se enganou. Da maneira como interpretou este versículo, conclui-se que não haveria problema em não fazer o tawaf. Contudo, este versículo foi revelado a respeito dos Ansar. Antes de aceitar o Islam, eles adoravam a deusa Manat e recitavam a talbia em seu nome. Depois de aceitarem o Islam, aqueles que recitavam essa talbia sentiam constrangimento em realizar o saí entre Safa e Marwa. Após aceitarem o Islam, perguntaram ao Mensageiro de Allah sobre isso. Disseram: ‘Ó Mensageiro de Allah, sentíamos constrangimento em fazer o tawaf (saí) entre Safa e Marwa.’ Então Allah revelou: ‘Safa e Marwa estão entre os símbolos de Allah…’

Aisha disse: “O Mensageiro de Allah instituiu o tawaf entre Safa e Marwa. Portanto, ninguém tem o direito de abandonar o tawaf (completá-lo) entre Safa e Marwa.”

Muslim narrou, por intermédio de Aisha, que o Mensageiro de Allah e os muçulmanos fizeram o tawaf entre Safa e Marwa. Assim, isso se tornou uma sunna. Allah não completará o hajj daquele que não fizer o tawaf entre Safa e Marwa.

Uma mulher dos Banu Abd ad-Dar, chamada Habiba, disse: “Fui à casa de Abu Husayn com um grupo de mulheres coraixitas. Vi o Mensageiro de Allah fazendo o saí entre Safa e Marwa. Devido à intensidade de sua corrida, sua tanga se enrolava em torno de sua cintura. Ao ver isso, eu disse: ‘Estou vendo os joelhos do Mensageiro de Allah.’ Ouvi-o dizer: ‘Façam o saí, pois Allah o tornou obrigatório para vocês.’” Ibn Majah, Ahmad e ash-Shafi‘i.

E, uma vez que o saí está incorporado como ato de adoração tanto no hajj quanto na umra, assim como o tawaf da Casa de Allah, ele também é um pilar — isto é, uma parte inseparável — e um dever indispensável ou obrigação de ambos, do hajj e da umra.

2. Por outro lado, a opinião de Ibn Abbas, Anas, Ibn az-Zubair, Ibn Sirin e, segundo uma transmissão, de Ahmad, é que ele é uma sunna. Por ser uma sunna, não é obrigatório oferecer fidya ou expiação caso seja abandonado.

A prova apresentada pelos defensores dessa opinião é a declaração corânica mencionada: “Não há problema em fazer o tawaf entre Safa e Marwa.” Dizer ao praticante de uma ação: “Não há problema em realizar esta ação” demonstra naturalmente que essa ação não é obrigatória nem compulsória. Portanto, isso indica que a ação é mubaha, isto é, que realizá-la ou abandoná-la é equivalente: não há pecado em realizá-la nem em não realizá-la. Contudo, a declaração “Safa e Marwa estão entre os símbolos de Allah” prova que a ação é uma sunna.

Como se trata de um ato de adoração com um número determinado, que não está ligado à Casa de Allah, ele não se tornou um pilar, tal como o apedrejamento dos pilares.

3. Segundo Abu Hanifa, Sauri e Hassan, isto é obrigatório, mas não constitui um pilar nem um dever fundamental. Se for deixado de cumprir, o hajj ou a umra não serão invalidados. Contudo, nesse caso, será necessário oferecer um dam, isto é, sacrificar uma cabra. O autor de Al-Mughni considerou esta opinião a mais preponderante. Ele disse: «Esta é a opinião mais preponderante, pois a prova apresentada por quem considera isso obrigatório demonstra que se trata de uma obrigação condicionada, e não de uma obrigação cuja omissão implique que o dever principal não tenha sido cumprido.»

A declaração de Aisha foi contrariada pelas declarações de outros companheiros.

Embora o hadith de Habiba, uma mulher dos Banu Abdud Dar, seja controverso, ele prova que isso é obrigatório.

O versículo relativo a Safa e Marwa foi revelado para eliminar a hesitação de algumas pessoas quanto ao sa’i. Isso porque, na época da jahiliya, elas faziam o sa’i entre aquelas duas colinas para adorar os dois ídolos que nelas estavam colocados. Por isso, temiam que fazer o sa’i naquele local fosse pecado.

Condições do sa’i: para que o sa’i seja válido, é necessário cumprir algumas condições:

1. O sa’i deve ser sempre realizado depois do tawaf.
2. O sa’i deve completar sete voltas.
3. Cada volta deve começar em Safa e terminar em Marwa.
4. O sa’i deve ser sempre realizado pelo caminho entre Safa e Marwa. Isso porque o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — fez assim e disse: «Aprendei de mim os vossos ritos de adoração.» Portanto, se alguém fizer o sa’i antes do tawaf, ou começar o sa’i em Marwa e terminá-lo em Safa, ou fizer o sa’i em outro lugar que não seja o caminho designado entre Safa e Marwa, o sa’i não será válido. (Segundo a escola hanafita, os atos 3 e 4 não são condições, mas sim obrigações. Se alguém fizer o sa’i antes do tawaf, ou começar uma volta em Marwa e terminá-la em Safa, o sa’i não será invalidado. Contudo, deverá oferecer um dam.)

Subir em Safa: subir em Safa e Marwa não é uma condição para a validade do sa’i. Contudo, é obrigatório incluir ambas as colinas no percurso do sa’i. Portanto, ao ir e ao voltar, deve-se tocar ambas as colinas. Se alguma parte delas não for incluída no sa’i, este não será válido até que ela seja incluída.

Realizar as voltas do sa’i sem interrupção: não é condição realizar as voltas do sa’i continuamente e sem interrupção. (Contudo, segundo o imã Malik, é condição realizá-las sem longas pausas entre as voltas.) Se surgir algum problema que impeça a realização contínua do sa’i, ou se a oração começar, será permitido interromper o sa’i por esse motivo. Quando o impedimento desaparecer, deverá completar o sa’i acrescentando as voltas restantes às que já foram realizadas. Foi narrado que Ibn Umar estava fazendo o sa’i entre Safa e Marwa quando, de repente, sentiu necessidade de urinar. Afastou-se para um lado, pediu água, fez a ablução e depois completou as voltas restantes. — Sa’id ibn Mansur.

Da mesma forma, não é condição manter uma continuidade ininterrupta entre o tawaf e o sa’i. Em Al-Mughni, foi dito: o Imame Ahmad afirmou: não há problema em adiar o sa’i até depois de descansar após o tawaf ou até a tarde. Ata e Hasan consideravam que aquele que realizasse o tawaf da Casa de Deus na primeira parte do dia poderia adiar o sa’i entre Safa e Marwa até a tarde, se quisesse. Sa’id e Qasim fizeram isso. Pois, quando não é obrigatório manter uma continuidade ininterrupta entre as voltas do sa’i, é ainda mais apropriado que isso também não seja obrigatório entre o sa’i e o tawaf. Sa’id ibn Mansur narrou que Sawda, esposa de Urwa ibn Zubair, realizou o sa’i entre Safa e Marwa. Depois, realizou o tawaf como compensação no prazo de três dias, pois era muito corpulenta.

A pureza para o sa’i: a maioria dos sábios afirma que a pureza não é condição para o sa’i entre Safa e Marwa. Isso porque o Mensageiro de Deus disse a Aisha, que estava menstruada: “Podes fazer tudo o que os demais peregrinos fazem; apenas não realizes o tawaf da Casa de Deus até tomares o banho ritual.” — Muslim. Aisha e Umm Salama também disseram: quando uma mulher conclui o tawaf da Casa de Deus e as duas rak’ahs de oração após o tawaf, e depois fica menstruada, deve completar o sa’i entre Safa e Marwa. Sa’id ibn Mansur. Contudo, é recomendável manter-se em estado de pureza em todos os atos de adoração, pois a pureza é algo muito desejável na lei religiosa.

Caminhar e utilizar uma montaria durante o sa’i: o sa’i pode ser realizado caminhando ou montado, mas fazê-lo caminhando é melhor. Sabe-se, por um hadith de Ibn Abbas, que ele realizava o sa’i caminhando. Depois, quando a multidão aumentou, começou a fazê-lo montado, para que as pessoas pudessem vê-lo e fazer-lhe perguntas. Abu Tufail disse a Ibn Abbas: “Dize-me: realizar o tawaf (sa’i) entre Safa e Marwa montado é uma sunna? Pois o teu povo afirma que isso é uma sunna.”

Ibn Abbas respondeu: “A afirmação deles é verdadeira e falsa.” Abu Tufail perguntou: “O que estás dizendo: verdadeira e falsa?” Ibn Abbas respondeu: “A multidão aumentou em torno do Mensageiro de Deus. As pessoas vinham dizendo: ‘Eis Muhammad, eis Muhammad’, a ponto de até as moças saírem de suas casas. O Mensageiro de Deus não empurrava nem afastava as pessoas que se aglomeravam diante dele. Quando a multidão aumentou, ele montou.” Caminhar e correr são melhores. (Deve-se correr no trecho plano entre os dois marcos e caminhar no restante do percurso.) Embora seja permitido realizar o sa’i montado, isso é makruh. At-Tirmidhi disse: um grupo de sábios considerou censurável realizar, sem uma justificativa, o tawaf da Casa de Deus e o sa’i entre Safa e Marwa montado. Essa também é a opinião do Imame Ash-Shafi’i. Segundo os malikis, quem realizar o sa’i montado sem justificativa deve repeti-lo, se ainda houver tempo. Se não houver tempo, deverá oferecer um dam, pois, para eles, é obrigatório que aquele capaz de caminhar realize o sa’i caminhando. Abu Hanifa também representa essa opinião e afirma: a razão pela qual o Mensageiro de Deus montou foi que as pessoas se aglomeravam excessivamente ao seu redor e o cercavam. Isso constituía uma justificativa; por isso, montar era permitido. É recomendável correr entre os dois marcos identificados.

É recomendável realizar caminhando o sa’i entre Safa e Marwa, exceto no trecho entre os dois marcos identificados. É recomendável fazer ramal nesse trecho entre os dois marcos. Já foi mencionado anteriormente, no hadith de Habiba: “O Mensageiro de Deus corria tão vigorosamente que o tecido que vestia girava intensamente.”

Contudo, se alguém realizar o sa’i ou o tawaf sem correr vigorosamente, será válido. Sa’id ibn Jubair disse: “Vi Ibn Umar caminhando lentamente entre Safa e Marwa. Então ele disse: ‘Se eu caminhar calmamente, isso será permitido, pois vi o Mensageiro de Deus caminhar lentamente. E, se eu correr rapidamente, também vi o Mensageiro de Deus correr rapidamente. Eu sou um homem muito idoso.’” Abu Dawud e At-Tirmidhi.

Isso é recomendável somente para os homens. Para as mulheres, é recomendável caminhar em ritmo normal, e não caminhar rapidamente.

Ash-Shafi’i narrou que, ao ver algumas mulheres caminhando rapidamente, Aisha disse: “Acaso não temos um modelo para as vossas mulheres? Não é necessário que caminheis vigorosamente.”

Voltar-se para a Caaba, subir a Safa e a Marwa e fazer súplicas. É recomendável subir a Safa e a Marwa, voltar-se em direção à quibla e suplicar pelo bem deste mundo e do Além. Foi narrado que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu pela direção da porta da Safa. Ao aproximar-se da Safa, recitou o versículo referente à Safa e à Marwa: «De fato, Safa e Marwa estão entre os símbolos de Allah». Então disse: «Começarei da mesma forma que Allah começou». Em seguida, começou pela Safa e subiu até o seu topo. Quando, do alto, avistou a Casa de Allah, voltou-se em direção à quibla e disse três vezes (لَّا اللَّهُ اللَّهُ أَكْبَرُ وَالْحَمْدُ لِلَّهِ) e então disse:

لا إله إلا الله وحده لا شَرِيكَ لَهُ الْمُلْكُ وَلَهُ الْحَمْدُ يُحْيِي وَيُمِيتُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ، لَا إِلَهَ إِلَّا اللهُ وَحْدَهُ أَنْجَزَ وَعَدَه، وَنَصَرَ عَبْدَهُ، وَمَزَمَ الْأَحْزَابَ وَحْدَهُ .

Depois, fez súplicas entre eles e recitou esta súplica três vezes. Em seguida, desceu e dirigiu-se à Marwa. Subiu-a e olhou para a Casa de Allah. Assim como havia feito na Safa, fez também na Marwa.

Nafi disse: Ouvi Abdullah ibn Umar fazer a seguinte súplica enquanto estava na Safa:

اللهم إنك قلت : ادْعُونِي أَسْتَجِبْ لَكُم وَإِنَّكَ لا تُخْلِفُ الْمِيعَادَ، وَإِلَى أَسْأَلُكَ – كَمَا مَدَيْتَنِي لِلْإِسْلَامِ – أن لا تنزعه مِنِّي حَتَّى تَتَوَفَّانِي وَأَنا مسلم .

«Ó Allah, Tu disseste: “Invocai-Me, e Eu vos responderei”. Tu jamais quebras a promessa. Peço-Te que, assim como me conduziste ao Islam, não me tires o Islam até a morte.»

A súplica recomendável entre a Safa e a Marwa. É recomendável fazer súplicas, recordar Allah e recitar o Alcorão entre a Safa e a Marwa. Foi narrado que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazia esta súplica durante o seu sa’i: رَبِّ اغْفِرْ وَارْحَرِ وَاهْدِنِي السَّبِيلَ الأقوم «Ó meu Senhor, perdoa-me, tem misericórdia de mim e guia-me pelo caminho mais reto.» Também foi narrada esta súplica: رَبِّ اغْفِرْ وَارْمَرَ إِنَّكَ الأعز الأكرم «Ó Allah, perdoa-me e tem misericórdia de mim. Tu és o Mais Honrado e o Mais Generoso.»

As atividades do Hajj e da Umrah são concluídas por meio do tawaf e do sa’i. Se a pessoa em ihram estiver realizando o Hajj tamattu’, depois disso sairá do ihram raspando ou cortando o cabelo. Se estiver realizando o Hajj qiran, permanecerá em ihram até o dia 10 de Zul-Hijjah. Quando a pessoa que realiza o qiran fizer este sa’i, não precisará fazê-lo novamente depois do tawaf obrigatório. Se estiver realizando o tamattu’, fará novamente o sa’i depois do tawaf obrigatório e permanecerá em Meca até o dia 8 de Zul-Hijjah.

18. Ida para Mina

É sunnah ir para Mina no dia 8 de Dhul-Hijjah. Se o peregrino estiver realizando qiran ou ifrad, irá para Mina mantendo o ihram que já havia assumido. Se estiver realizando tamattu‘, assumirá o ihram para o hajj e fará tudo o que havia feito no miqat. A sunnah é que ele assuma o ihram a partir do lugar onde estiver hospedado. Se estiver em Meca, fará isso em Meca; se estiver fora de Meca, fará isso a partir de onde estiver. Foi narrado no hadith: “Aquele cuja residência fica fora de Meca assumirá o ihram a partir de sua residência; e aquele cuja residência fica em Meca assumirá o ihram a partir de Meca.” Ao partir para Mina, é mustahabb fazer muitas súplicas e recitar a talbiyah, bem como rezar em Mina o zuhr, o asr, o maghrib e o isha e passar ali a noite. É mustahabb não sair de Mina até o nascer do sol do dia 9, para assegurar a imitação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz. Se deixar de cumprir qualquer uma dessas coisas, ou todas elas, terá deixado uma sunnah; por isso, não terá de oferecer nenhuma expiação. Segundo a narração de Ibn al-Mundhir, Aisha não saiu de Meca em direção a Mina até que tivesse passado um terço da noite do dia 8 de Dhul-Hijjah.

É permitido partir para Mina antes do dia 8 de Dhul-Hijjah: foi narrado que al-Hasan costumava ir de Meca para Mina um ou dois dias antes do dia 8 de Dhul-Hijjah. Malik, porém, considerava isso desagradável. Ele também considerava desagradável permanecer em Meca até a noite do dia 8 de Dhul-Hijjah. Contudo, se chegasse o horário da oração de sexta-feira em Meca, a situação seria diferente. Nesse caso, seria obrigatório realizar a oração de sexta-feira antes de sair de Meca.

19. Partida em direção a Arafat

É sunnah partir para Arafat após o nascer do sol do dia 9 de Dhul-Hijjah, seguindo pela estrada de Dabb, enquanto se recitam “Allahu akbar”, “la ilaha illa Allah” e a talbiyah.

Muhammad ibn Abu Barr al-Thaqafi disse: Quando íamos de Mina para Arafat, perguntei a Anas: “Como vocês recitavam a talbiyah na companhia do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz?” Ele respondeu: “Quem queria recitava a talbiyah, e ninguém o censurava por isso. Quem queria pronunciava o takbir, e ninguém o censurava por isso. Quem queria recitava a kalimah tayyibah, e ninguém o censurava por isso.” Hadith narrado por al-Bukhari e outros.

É mustahabb fazer uma parada em Namirah e banhar-se nas proximidades, com a intenção de permanecer em Arafat. O período de permanência em Arafat começa somente depois que o sol passa do meridiano. É mustahabb não entrar em Arafat antes disso.

20. Permanência em Arafat

A virtude do dia de Arafat: Foi narrado por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não há dias melhores para Allah do que os dez dias de Dhu al-Hijjah.” Um homem perguntou: “Esses dez dias são melhores até mesmo do que alguns dias passados no jihad pelo caminho de Allah?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Esses dez dias são melhores do que os dias passados no jihad pelo caminho de Allah. E não há dia melhor para Allah do que o dia de Arafat. Nesse dia, Allah desce ao céu mais baixo. Depois, orgulha-Se dos habitantes da Terra diante dos habitantes do céu e diz: ‘Vede os Meus servos. Eles vieram a Mim antes do meio-dia, com os cabelos desgrenhados e o corpo coberto de poeira. Vieram atravessando caminhos distantes. Esperam a Minha misericórdia, embora não tenham visto o Meu castigo.’ No dia de Arafat, nenhum outro dia liberta do Inferno um número tão grande de pessoas” — Abu Ya‘la, al-Bazzar, Ibn Khuzaymah e Ibn Hibban.

Ibn al-Mubarak narrou, de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em Arafat quando o sol já estava prestes a declinar (isto é, começara a dirigir-se para o poente). Ele disse: “Ó Bilal, pede às pessoas que guardem silêncio para que ouçam minhas palavras.” Bilal levantou-se e disse: “Fiquem em silêncio. O Mensageiro de Allah fará um sermão. Escutem com atenção.” As pessoas ficaram em silêncio. Então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó pessoas, Jibril veio há pouco até mim. Ele transmitiu-me a saudação do meu Senhor e depois disse: ‘Allah perdoou os que estão em Arafat. Também perdoou os que estão em al-Mash‘ar al-Haram e garantiu a reparação de todos os seus prejuízos.’” Ao ouvir isso, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) levantou-se e disse: “Ó Mensageiro, esta boa-nova é somente para nós?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “É para vós e para todos os que, depois de vós, vierem a Arafat até o Dia da Ressurreição.” Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “A generosidade de Allah é abundante e excelente.” Muslim narrou, de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No dia de Arafat, Allah liberta do Inferno mais servos Seus do que em qualquer outro dia. Allah, o Altíssimo, aproxima-Se nesse dia, orgulha-Se deles diante dos anjos e diz: ‘O que desejam estes?’” Foi narrado por Abu al-Darda que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nunca se viu Satanás tão pequeno, humilhado e enfurecido como no dia de Arafat, exceto no dia de Badr. Isso ocorre somente porque, nesse dia, ele vê a imensa misericórdia de Allah descendo e vê os grandes pecados de Seus servos sendo perdoados.” Somente no dia de Badr ele foi visto igualmente enfurecido e humilhado. Perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, o que ele viu no dia de Badr?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Viu Jibril liderando as tropas dos anjos.” — Malik.

A norma da Shariah sobre permanecer em Arafat: Os sábios são unânimes em que permanecer em Arafat é o pilar mais importante do Hajj. Ahmad, Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah narraram, de Abd al-Rahman ibn Ya‘mar, que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou a um anunciador que proclamasse: “O Hajj é Arafat.” (Isto é, o Hajj daquele que permanece em Arafat no Dia de Arafat é o Hajj válido.) Aquele que permanecer em Arafat na noite que antecede o dia 9 de Dhu al-Hijjah, antes do amanhecer, terá realizado o seu Hajj. (Isto é, deve permanecer em qualquer parte de Arafat, ainda que por um instante, durante o dia ou a noite do dia 9.)

O período de permanência em Arafat: Segundo a maioria dos sábios, o período para permanecer em Arafat vai desde o declínio do sol no dia 9 de Dhu al-Hijjah até o amanhecer do dia 10. Nesse período, é suficiente permanecer em qualquer parte da noite ou do dia. Contudo, se permanecer durante o dia, deve continuar até o pôr do sol. Se permanecer durante a noite, não há tal obrigação; pode permanecer pelo tempo que desejar. Segundo a escola shafi‘ita, é sunnah permanecer até a noite.

A finalidade da permanência: A finalidade da permanência é estar presente em qualquer parte de Arafat, seja dormindo ou acordado, deitado ou sentado, em pé ou caminhando, montado num meio de transporte, em estado de pureza ou de impureza — como as mulheres menstruadas ou os homens impuros devido à emissão de sêmen. Há divergência quanto àquele que permanece em Arafat inconsciente e não recupera a consciência até sair de Arafat. Abu Hanifa e Malik disseram: sua permanência é válida. Al-Shafi‘i, Ahmad, Hasan, Abu Dharr, Ishaq e Ibn al-Mundhir disseram: não é válida, pois esta é uma parte essencial do Hajj. Assim como nenhum outro pilar se torna válido por meio de uma pessoa inconsciente, este também não será válido.

Depois de citar o hadith acima de Ibn Ya‘mar, al-Tirmidhi disse que Sufyan al-Thawri afirmou: A prática de todos os sábios, incluindo os Companheiros, segue o hadith de Ibn Ya‘mar. Ou seja, quem não permanecer em Arafat antes do amanhecer do dia 10 de Dhu al-Hijjah não terá realizado o Hajj. Se chegar depois do nascer do sol, não terá realizado o Hajj; isso se converterá em Umrah, e deverá realizar o Hajj no ano seguinte. Essa é a opinião de al-Shafi‘i, Ahmad e outros. É mustahabb permanecer na área pedregosa de Arafat, embora permanecer em qualquer parte de Arafat seja suficiente e válido. Isso porque todo o campo de Arafat é lugar de permanência, exceto a área situada a oeste chamada Batn Arafat, pois permanecer ali é inválido por consenso. É mustahabb permanecer nos locais pedregosos ou próximo deles, pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu justamente nesse local e disse: “Eu permaneci aqui.” Contudo, todo o campo de Arafat é lugar de permanência — Ahmad, Muslim e Abu Dawud. É errado pensar que subir ao Jabal al-Rahmah e permanecer ali seja melhor do que permanecer em outros lugares. Isso não é sunnah.

É mustahabb tomar banho: É mustahabb tomar banho para permanecer em Arafat. Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) tomava banho à tarde para permanecer em Arafat. — Malik. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) tomou banho no campo de Arafat enquanto recitava a talbiyah.

Regras da permanência e súplicas: Deve-se manter plena pureza, voltar-se para a qiblah, fazer muitas súplicas de arrependimento e pedir perdão, praticar bastante dhikr e pedir a Allah tudo o que desejar para si, para os outros e para o bem-estar neste mundo e na Outra Vida. Deve-se suplicar a Allah, levantando ambas as mãos, com extremo temor e concentração.

Usama bin Zaid disse: “Eu era companheiro de montaria do Mensageiro de Allah em Arafat. Ele me ordenou que fizesse súplicas com as mãos erguidas. An-Nasa’i.

Amr bin Shu’ayb narrou de seu avô que, no dia de Arafat, a súplica que o Mensageiro de Allah fazia com maior frequência era:

لا إِلَهَ إِلَّا اللهُ وَحْدَهُ لا فَرِيكَ لَهُ، لَهُ الْمُلْكُ وَلَهُ الْحَمْدُ بِيَدِهِ الْخَيْرُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ عَيْءٍ قَدِيرٌ .

Ahmad e At-Tirmidhi. O Mensageiro de Allah disse: “A súplica do dia de Arafah é a melhor das súplicas. Entre as súplicas que eu e os profetas anteriores a mim fazíamos, a melhor é:

لا إله إلا الله وحدَهُ لا شَريكَ لَهُ لَهُ الْمُلْككَ وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ .

(“Não há divindade além de Allah. Ele é Único e não tem parceiro algum. A soberania pertence a Ele, e o louvor também pertence a Ele; Ele é poderoso sobre todas as coisas.”) Husayn ibn Hasan disse: “Perguntei a Sufyan bin Uyaynah: Qual é a melhor súplica do Yawm Arafah? Ele respondeu:

لا إِلَهَ إِلَّا اللَّهَ وَحدَهُ لَا شَرِيكَ لَهُ .

Eu disse: “Isso é louvor a Allah, não é uma súplica. (Isto é, nada foi pedido a Allah.)” Ele disse: “Você conhece o hadith de Malik bin Manzur? É nesse hadith que se encontra sua explicação.” Eu disse: “Por favor, conte-me o hadith.” Ele disse: “O hadith é o seguinte: Allah diz: ‘Quando Meu servo, ao Me louvar, não encontra oportunidade de pedir algo para si mesmo, então lhe concedo algo melhor do que aquilo que concedo aos que pedem.'” Ele disse: “Esta é a explicação do referido hadith.” Então Sufyan disse novamente: “Você não sabe o que Umayya ibn Abi as-Salt disse quando foi até Abdullah bin Jad’an para receber sua doação?” Husayn disse: “Não.” Ele respondeu: “Umayya disse: ‘Devo mencionar minha necessidade, ou sua vergonha já é suficiente para mim? A vergonha é uma de suas características, assim como a consciência dos direitos das pessoas, pois você é um homem nobre. Sua linhagem é extremamente nobre e excelente. Quando alguém o elogia por um dia, esse elogio já lhe é suficiente.'” Em seguida, Sufyan disse: “Ó Husayn, essa é a condição da criatura: ela se contenta apenas em louvar e não considera necessário pedir. Então, qual é a sua opinião sobre o Criador?”

Al-Bayhaqi narrou de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A súplica que meus predecessores, os profetas, mais faziam em Arafat, e que eu mais faço, é:”

لا إله إلا الله وحده لا شريك له له الملك وَلَهُ الْحَمْدُ وَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ اللَّهُ اجْعَلْ فِي بَصَرِي نورا، وفي سعي نورًا، وَفِي قَلْبِي نُورًا. اللهم اشْرَحْ لِي صَدْرِي، وَيَسر لي أمري، اللَّه أَعُوذُ بِكَ مِنْ وسواس الصِّدْرِ،

وَعَنَاسِ الْأَمْرِ، وَقَرْ فِتْنَةِ الْقَبْرِ، وَقَرْ مَا يَلِجُ فِي اللَّيْلِ، وَقَرْ مَا يَلِعُ فِي النَّهَارِ ، وَقَرْ ما تَعِبُ بِهِ الرِّيَاحُ وَقَرْ بَوَائِقِ النمر.

“Não há divindade além de Allah. Ele é Único e não tem parceiro. O reino pertence a Ele, e o louvor também pertence a Ele. Ele é onipotente. Ó Allah, concede luz aos meus olhos, luz aos meus ouvidos e luz ao meu coração. Ó Allah, abre o meu peito e facilita a minha tarefa. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra as más sugestões do coração, contra o tormento do túmulo, contra o mal daquele que entra durante a noite e contra o mal daquele que entra durante o dia, contra o mal dos ventos que sopram e contra o mal das coisas destrutivas dos tempos.”

At-Tirmidhi narrou que, no Dia de Arafah, a súplica que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mais fazia, sentado em seu lugar no campo de Arafat, era:

اللهم لَكَ الْحَمْدُ كَالَّذِي نَقُولُ، وَخَيْرًا مِمَّا تَقُولُ : الله لَكَ مَلَاتِي وَنُسُكِي وَمَحْيَايَ وَمَمَاتِي وإِلَيْكَ مَا بِي، وَلَكَ رَبِّ تَرَانِي، اللهم إِلى أَعُوذُبِكَ مِنْ عَذَابِ الْقَبْرِ، وَوَسْوَسَةِ الصَّدْرِ، وَهَتَابِ الأمر، اللهم إلى أعُوذُ بِكَ مِنْ شَرِّ مَا تَجِبُ بِهِ الريح .

“Ó Allah, o louvor pertence a Ti conforme Tu dizes, e Tu és mais digno de louvor do que aquilo que dizemos. Ó Allah, minha oração é para Ti, meu sacrifício é para Ti, minha vida é para Ti e minha morte é para Ti; a Ti será o meu retorno, a Ti será o meu retorno. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra o tormento do túmulo, contra as más sugestões no peito, contra as ações vãs e contra o mal dos ventos que sopram.”

Permanecer em Arafat: a sunnah de Ibrahim. Mirba Ansari disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Permanecei nos lugares destinados à vossa adoração, pois recebestes uma parte da herança de Ibrahim.” At-Tirmidhi.

Jejum no dia de Arafat: Está comprovado por uma cadeia de transmissão autêntica que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não jejuou no dia de Arafat. Além disso, ele disse: “O dia de Arafat, o dia do Eid e os dias de Tashriq são nossas festividades, ó muçulmanos. Estes são dias de comer e beber.” Também está comprovado que ele proibiu jejuar na planície de Arafat.

A partir desses hadiths, a maioria dos estudiosos apresentou como prova que é recomendável que os peregrinos não jejuem no dia de Arafat, para que tenham a força necessária para a súplica e o dhikr. Já os hadiths encontrados sobre a virtude de jejuar no dia de Arafat aplicam-se àqueles que não foram à planície de Arafat para realizar o Hajj.

Reunir as orações do meio-dia e da tarde: Foi relatado em um hadith autêntico que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reuniu as orações do meio-dia e da tarde em Arafat. Foi feito o chamado para a oração e a iqamah; então ele rezou a oração do meio-dia. Depois, fez-se novamente a iqamah, e ele rezou a oração da tarde. Al-Aswad e Alqamah disseram: “Rezar em Arafat as orações do meio-dia e da tarde com o imã completa o Hajj.” Ibn al-Mundhir disse: “Os estudiosos concordam que o imã deve rezar conjuntamente em Arafat as orações do meio-dia e da tarde, isto é, no mesmo horário da oração do meio-dia.” O mesmo farão aqueles que não rezarem com o imã. Se alguém não reunir essas duas orações com o imã, deverá reuni-las sozinho. Foi relatado sobre Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele residia em Meca. Então, quando ia para Mina, encurtava a oração. É narrado de Amr ibn Dinar: Jabir disse: “Encurtai a oração em Arafat.” Sa’id ibn Mansur.

21. Partida de Arafat em direção a Muzdalifah

É sunnah partir de Arafat calmamente após o pôr do sol. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixou Arafat com tranquilidade e lentamente. Ele segurava as rédeas de sua camela e então disse: “Ó pessoas, caminhai com passos tranquilos. Não há recompensa em andar depressa.” Al-Bukhari e Muslim. Al-Bukhari e Muslim também narraram que ele caminhava lentamente por ter o hábito de tratar as pessoas com gentileza. Sempre que encontrava a estrada um pouco livre, apressava-se um pouco.

Neste momento, são recomendáveis a talbiyah e o dhikr, pois ele recitava continuamente a talbiyah até lançar as pedras contra Jamarat al-Aqabah.

Ashyas ibn Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou, de seu pai: “Eu vim com Ibn Umar de Arafat para Muzdalifah. Ele continuou recitando a talbiyah até chegarmos a Muzdalifah. Não se cansou nem um pouco.” Abu Dawud.

Rezar o maghrib e o isha no mesmo horário em Muzdalifah: Depois de chegar a Muzdalifah, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) rezou o maghrib e o isha com um chamado para a oração e duas iqamahs. Não rezou nenhuma oração voluntária entre elas.

Foi narrado no hadith de Muslim: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao chegar a Muzdalifa, rezou o Maghrib e o ‘Ishā’ com um único adhān e duas iqāmas. Não realizou nenhuma oração entre ambas. Essa combinação é, por consenso, uma Sunnah.
Se alguém realizar cada oração em seu respectivo horário, há divergência a respeito. Segundo a maioria dos sábios, isso é permitido. Contudo, eles consideraram preferível a prática do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ath-Thawrī e os sábios racionalistas disseram: se o Maghrib for rezado em qualquer lugar que não seja Muzdalifa, deverá ser repetido. Eles consideraram permitido rezar o Dhuhr e o ‘Asr em seus respectivos horários, mas opinaram que isso é makrūh.
Permanência e pernoite em Muzdalifa: foi narrado no hadith de Jābir (que Allah esteja satisfeito com ele) que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Muzdalifa, rezou o Maghrib e o ‘Ishā’. Depois deitou-se e, quando amanheceu, levantou-se e rezou o Fajr. Em seguida, montou em Qaswā’ e foi até al-Mash‘ar al-Harām. Permaneceu ali até que a manhã clareasse bastante. Depois partiu antes do nascer do sol. Não há evidência de que tenha passado toda a noite em vigília ali. É isso que os hadiths informam sobre o pernoite e a permanência em Muzdalifa.
Ahmad opinou que o pernoite em Muzdalifa é obrigatório para todos, exceto os pastores e os encarregados de fornecer água. Para estes, não é obrigatório. Os demais imames disseram que a permanência em Muzdalifa é obrigatória para todos, mas o pernoite não é. Por permanência, entende-se estar presente de qualquer maneira: em pé, sentado, caminhando ou dormindo.

A opinião da escola hanafita é que é obrigatório estar presente em Muzdalifa antes do Fajr do dia 10 de Dhul-Hijjah. Quem não estiver presente deverá oferecer um dam. Se houver uma justificativa, porém, a situação é diferente. Nesse caso, a presença não é necessária, nem será preciso oferecer um dam. Já a opinião dos mâlikitas é que, na ausência de uma justificativa, é obrigatório fazer uma breve parada noturna em Muzdalifa, antes do Fajr, durante o trajeto de ‘Arafah para Mina, ainda que por pouco tempo. Havendo uma justificativa, a parada não é obrigatória.

Segundo os shāfi‘itas, depois da permanência em ‘Arafah, é obrigatório estar em Muzdalifa durante a segunda metade da noite que antecede o dia 10 de Dhul-Hijjah. Não é condição permanecer em Muzdalifa. Nem sequer é condição saber se o local é Muzdalifa. Basta passar por ali, quer se saiba ou não que o lugar é Muzdalifa. É Sunnah realizar a oração do Fajr no início de seu horário e, depois, permanecer em al-Mash‘ar al-Harām até o amanhecer. Também é Sunnah permanecer ali, fazendo muitas súplicas e dhikr, até que o céu clareie bastante antes do nascer do sol. Allah diz:

فإذا أَنفُرْ مِنْ عَرَفَاتِ فَاذْكُرُوا اللهَ عِنْدَ الْمَقْتَرِ الْحَرَامِ، وَاذْكُرُوا كَمَا مَنَ اكُمْ، وَإِن كُنتُمْ مِنْ قَبْلِهِ لَينَ الضالين . ثم أفيضوا من حيث أفاض النَّاسِ، وَاسْتَغْفِرُوا اللهَ إِنَّ اللهَ غَفُورٌ رَحِيرٌ .

“Quando partirdes de ‘Arafāt, recordai-vos de Allah junto de al-Mash‘ar al-Harām. Recordai-vos d’Ele conforme Ele vos ensinou, pois antes disso estáveis entre os extraviados. Depois, parti pelo caminho por onde partem as pessoas e pedi perdão a Allah. Certamente, Allah é Perdoador, Misericordioso.” Parti de Muzdalifa em direção a Mina ao amanhecer, antes do nascer do sol. Ao chegardes a Muhassir, atravessai-o rapidamente.

Quanto ao local de permanência em Muzdalifa, toda a Muzdalifa é apropriada para a permanência, exceto o vale chamado Muhassir. (Ele fica entre Mina e Muzdalifa.)

Foi narrado por Jubayr ibn Mut‘im (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Toda Muzdalifa é adequada para a permanência. Contudo, atravessai Muhassir rapidamente.” — Ahmad.

Permanecer próximo à montanha chamada Quzah é o melhor.

ʿAlī, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: Quando amanheceu para o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em “Quzā”, ele foi até Quzā e permaneceu ali. Ele disse: “Todo Quzā é lugar de permanência, e todo Quzā é lugar de permanência.” Abū Dāwūd e at-Tirmidhī. (Quzā é um local de Muzdalifa. Quando os coraixitas não permaneciam em ʿArafāt durante a época da ignorância, permaneciam aqui. Segundo al-Jawharī, é o nome de uma montanha de Muzdalifa. Para muitos juristas, este é o Mashʿar al-Ḥarām.)

22. As atividades do Yawm an-Naḥr (10 de Dhū al-Ḥijja)

As atividades do Yawm an-Naḥr (o dia do sacrifício) devem ser realizadas na seguinte ordem: primeiro, o apedrejamento; depois, o sacrifício; em seguida, raspar ou cortar o cabelo; e então realizar o tawāf da Casa de Allah. Essa ordem é uma sunnah. Contudo, se alguma dessas ações for realizada antes de outra, não será necessário oferecer kaffāra nem dam. Essa é a opinião da maioria dos sábios e da escola shāfiʿī.
ʿAbdullah ibn ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Minā durante a Peregrinação de Despedida. As pessoas lhe faziam diversas perguntas. Então, um homem veio e disse: “Ó Mensageiro! Por ignorância, raspei a cabeça antes do sacrifício.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Está bem; faça o sacrifício. Não há problema.” Depois, outro homem veio e disse: “Ó Mensageiro! Sem saber, realizei o sacrifício antes do apedrejamento.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Está bem; apedreje. Não há problema.” Assim, sempre que perguntavam ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre alguma ação que tivesse sido feita antes ou depois, ele dizia: “Faça-a; não há problema.”

Abū Ḥanīfa disse: Se alguém realizar uma ação antes de outra, não observando a ordem, deverá oferecer dam. Ao explicar a expressão “não há problema”, ele disse: Mesmo sem oferecer fidya ou dam, não haverá pecado.

As duas etapas de sair do iḥrām: No Yawm an-Naḥr, isto é, no dia 10 de Dhū al-Ḥijja, ao apedrejar o jamra e cortar ou raspar o cabelo, quase tudo aquilo que havia se tornado proibido para a pessoa em iḥrām por causa do iḥrām se torna lícito. Depois disso, tudo se torna permitido para ela, exceto as relações sexuais com a esposa, como usar perfume e vestir roupas costuradas. Esta é

a primeira etapa de sair do iḥrām. Depois, quando realizar o tawāf al-ifāḍa ou tawāf az-ziyāra, tudo, inclusive as relações sexuais com a esposa, se torna permitido para ela. Esta é a segunda e última etapa de sair do iḥrām.

23. O apedrejamento

As pedras que são lançadas contra Satanás em Minā são lançadas em três lugares:

1. Jamrat al-Aqabah: a primeira que se torna visível à esquerda ao entrar em Mina.
2. Jamrat al-Wusta ou a jamrah intermediária: situa-se a 11.677 metros da primeira.
3. Jamrat al-Sughra: situa-se a 15.604 m da segunda, nas proximidades da Mesquita de al-Khayf.

A origem do apedrejamento: Al-Bayhaqi narrou, por intermédio de Ibn Abbas, que o Mensageiro de Allah disse: “Quando Ibrahim, que a paz esteja com ele, foi a Mina para oferecer o sacrifício, Satanás apareceu diante dele, perto de Jamrat al-Aqabah. Imediatamente, ele atirou contra Satanás sete pedrinhas, e este afundou no solo e desapareceu. Depois, Satanás apareceu novamente na segunda jamrah. Ele imediatamente atirou contra ele sete pedrinhas, fazendo-o afundar no solo. Em seguida, Satanás apareceu novamente na terceira jamrah. Dessa vez também, ele atirou contra ele sete pedrinhas, fazendo-o afundar no solo e desaparecer. Ibn Abbas disse: ‘Atirem as pedrinhas contra Satanás e sigam o exemplo de Ibrahim.’” Ibn Khuzaymah; al-Hakim.

A sabedoria do apedrejamento: o Imam Abu Hamid al-Ghazali escreveu na obra Ihya’ Ulum al-Din:

A intenção durante o apedrejamento: a intenção daquele que atira deve ser cumprir a ordem de Allah e do Mensageiro, manifestar a servidão e a obediência a Allah, demonstrar a disposição e o estímulo para cumprir simplesmente a ordem e expressar a atitude de que, nesse ato, não há qualquer participação de seus desejos ou de sua razão. Além disso, deve desejar demonstrar, por meio desse ato, sua semelhança com Ibrahim, que a paz esteja com ele. Satanás, o amaldiçoado, apareceu diante dele e quis semear em sua mente dúvidas sobre o seu hajj ou fazê-lo cometer algum pecado. Por isso, Allah ordenou a Ibrahim, que a paz esteja com ele, que atirasse pedras contra Satanás.

Se lhe ocorrer o seguinte pensamento: “Satanás apareceu e esteve diante de Ibrahim, que a paz esteja com ele, e por isso ele atirou pedras. Mas Satanás não veio diante de mim. Por que eu deveria atirar pedras?”, saiba, quando esse pensamento surgir, que ele é uma sugestão de Satanás e veio da parte dele. Foi ele quem incutiu essa ideia em sua mente, para destruir seu estímulo e sua motivação para o apedrejamento e convencê-lo de que isso não traz benefício algum e é uma ação supérflua. “Por que você se envolveria nisso?” Apedreje-o com firme determinação, para expulsar essa linha de pensamento de sua mente. Assim, você poderá derrotar Satanás. Saiba que, embora aparentemente você esteja atirando pedras contra a jamrah de Aqabah, na realidade está atirando pedras no rosto de Satanás e quebrando sua espinha. Pois você não pode derrotar Satanás por nenhum meio além de cumprir a ordem do Altíssimo Allah e elevá-Lo acima de todas as coisas. Ao cumprir essa ordem, não permita que seus desejos o façam recuar nem um pouco; que a ordem de Allah seja suficiente para inspirá-lo a avançar, superando todos os obstáculos.

A determinação da shariah sobre o apedrejamento: segundo a maioria dos sábios, o apedrejamento é wajib, mas não é um pilar do hajj. Se for abandonado, é possível compensá-lo oferecendo um dam, isto é, sacrificando uma cabra. Isso porque Ahmad, Muslim e al-Nasa’i narraram, por intermédio de Jabir, que ele disse: “Vi o Mensageiro de Allah, montado em seu camelo, atirando pedras no Dia do Sacrifício (10 de Dhu al-Hijjah) e dizendo: ‘Aprendam comigo os procedimentos de seus atos de adoração, pois não sei se voltarei a realizar o hajj depois deste hajj.’” Abd al-Rahman al-Taymi disse: “Durante o Hajj de Despedida, o Mensageiro de Allah ordenou-nos que atirássemos pedrinhas pequenas, que pudessem ser lançadas com os dedos.” Al-Tabarani.

Qual deve ser o tamanho das pedras e de que tipo devem ser: o hadith mencionado acima afirma que as pedras para o apedrejamento devem ser pequenas, do tamanho de sementes de feijão, que possam ser lançadas com os dedos. Por isso, os sábios consideram mustahabb lançar pedras pequenas ou seixos desse tamanho. Se forem lançadas pedras grandes, segundo a maioria dos sábios, a obrigação será cumprida, mas o ato será makruh. Ahmad disse: a obrigação não será cumprida se não forem usadas pedrinhas pequenas, pois o Mensageiro de Allah ordenou que fossem lançadas precisamente essas pedras e proibiu o lançamento de pedras grandes.

Em um hadith narrado por Abu Dawud, o Mensageiro de Allah disse: “Ó gente, não mateis uns aos outros. Quando lançardes as pedras, lançai pedrinhas pequenas.” (Ou seja, se forem lançadas pedras grandes, elas podem atingir os peregrinos e até causar-lhes a morte.) Ibn Abbas disse: “O Mensageiro de Allah me disse: ‘Dê-me, apanhe pedras para mim.’” Então apanhei para ele seixos pequenos, do tamanho de sementes de feijão. Quando coloquei as pedras nas mãos do Mensageiro de Allah, ele disse: “É de pedras pequenas como estas que preciso. Cuidado! Não cometais excessos na religião, pois o excesso na religião foi o que destruiu os povos que vos precederam.” (Algumas pessoas lançam pedras grandes para manifestar sua intensa ira contra Satanás. Isso constitui excesso na religião.) Ahmad e al-Nasa’i. Segundo a maioria dos sábios, esses hadiths indicam preferência e recomendação. Eles concordam que é proibido lançar qualquer coisa que não seja pedra, como ferro, chumbo e semelhantes. A opinião dos hanafitas, porém, é contrária. Segundo eles, é permitido lançar qualquer coisa extraída da terra, como pedra, terra, tijolo ou cerâmica. Isso porque a linguagem dos hadiths sobre o lançamento de pedras é muito abrangente. O que o Mensageiro de Allah e seus Companheiros demonstraram por meio de suas ações é o melhor; contudo, não é obrigatório limitar-se somente a isso. A primeira opinião é a mais correta (isto é, devem ser lançados objetos de pedra, não sendo permitido lançar ferro, tijolos etc.), pois o Mensageiro de Allah lançou pedras pequenas e ordenou o lançamento de pedras pequenas que pudessem ser atiradas com os dedos. Portanto, qualquer classe ou tipo de pedra é válido, mas nada além de pedra é válido.

De onde devem ser recolhidas as pedrinhas ou pequenas pedras: Ibn Umar recolhia as pedrinhas em Muzdalifah. Sa‘id ibn Jubayr fazia o mesmo e dizia que elas eram obtidas em Muzdalifah. Al-Shafi‘i considera recomendável recolhê-las em Muzdalifah. Ahmad disse: “Recolham as pequenas pedras de onde quiserem.” Essa também é a opinião de Ata e de Ibn al-Mundhir. Isso porque, no hadith de Ibn Abbas mencionado anteriormente, o Mensageiro de Allah ordenou que se recolhessem as pedrinhas, mas não especificou de onde. É permitido lançar as pedrinhas recolhidas entre as pedras lançadas por outras pessoas na Jamrah, mas isso é makruh. Essa é a opinião de Abu Hanifah, al-Shafi‘i e Ahmad. Ibn Hazm disse: “Isso não é makruh.” Segundo ele, também é permitido lançar as pedrinhas montado num animal, sem que isso seja makruh. A razão pela qual é permitido recolher e lançar as pedrinhas lançadas por outra pessoa é que o Alcorão e a Sunnah não o proibiram. Ele também disse: “Alguém talvez diga que foi narrado de Ibn Abbas que, dentre as pedrinhas da Jamrah, as que são aceitas são elevadas, enquanto as que não são aceitas permanecem ali (portanto, não seria correto recolher e lançar as pedras não aceitas que ficaram no local). Se as pedras aceitas não fossem retiradas, teria se formado ali, ao longo dos anos, uma enorme montanha, bloqueando o caminho. Em resposta, digo: está bem, e daí? Se essas pedrinhas não forem aceitas de uma pessoa, serão aceitas de outra. Às vezes, a caridade de alguém não é aceita; porém, se aquele que a recebeu a der novamente como caridade, ela será aceita. É permitido lançar as pedrinhas montado num animal porque Qudamah ibn Abdallah disse: ‘Vi o Mensageiro de Allah lançar as pedrinhas no dia 10 de Dhul-Hijjah, montado no dorso de uma de suas camelas avermelhadas. Ninguém precisou ser golpeado ou afastado, nem houve gritos dizendo: “Saia daqui”, “Vá para lá” e coisas semelhantes.’”

Quantidade de pedrinhas: o número de pedrinhas a serem lançadas será setenta ou quarenta e nove. Dentre elas, sete serão lançadas na primeira Jamrah, isto é, em Jamrat al-Aqabah, no dia 10 de Dhul-Hijjah. Depois, no dia 11 de Dhul-Hijjah, serão lançadas sete em cada uma das três Jamrah, totalizando vinte e uma. Do mesmo modo, no dia 12 de Dhul-Hijjah, serão lançadas sete em cada uma das três Jamrah, totalizando vinte e uma pedrinhas. Da mesma forma, no dia 13 de Dhul-Hijjah, serão lançadas sete em cada Jamrah, totalizando vinte e uma. Assim, o número de pedrinhas será setenta. Contudo, se alguém não lançar pedrinhas no dia 13 depois de tê-las lançado nos dias 10, 11 e 12 de Dhul-Hijjah, isso será válido. Desse modo, o número de pedrinhas lançadas pelo peregrino será quarenta e nove. Segundo a escola jurídica de Ahmad, lançar sete pedrinhas é suficiente. Ata disse: “Lançar cinco pedrinhas é suficiente.” Mujahid disse: “Lançar seis pedrinhas é suficiente.” Nesse caso, não será necessário oferecer nenhuma kaffarah. Sa‘id ibn Malik disse: “Depois de participarmos do Hajj com o Mensageiro de Allah e retornarmos, alguns de nós diziam: ‘Lancei seis pedras’, e outros diziam: ‘Lancei sete’. Ninguém censurava ninguém por isso.”

Dias do lançamento das pedrinhas: os dias do lançamento das pedrinhas são três ou quatro: o dia 10 de Dhul-Hijjah e dois ou três dias dos Ayyam al-Tashriq. Allah disse:

واذْكُرُوا اللهَ فِي أَيَّامٍ مَعْدُودَاتٍ، فَمَن تَعَجَلَ فِي يَؤْمِين فَلا إثر عَلَيْهِ وَمَنْ تَأَخَّرَ فَلَا إِثْمَ عَلَيْهِ لِمَن التقى .

E recordai-vos de Allah durante determinados dias. Quem concluir o rito em dois dias não cometerá pecado; e quem desejar adiá-lo (até o dia 13) também não cometerá pecado.

Lançamento das pedrinhas no dia 10 de Dhul-Hijjah: o período preferível para lançar as pedrinhas é desde o nascer do sol do dia 10 de Dhul-Hijjah até o meio-dia. Isso porque o Mensageiro de Allah lançou as pedrinhas antes do meio-dia desse dia. Foi narrado por Ibn Abbas: o Mensageiro de Allah foi até os membros frágeis de sua família e disse: “Não lanceis as pedrinhas na pequena Jamrah (Jamrat al-Aqabah) antes do nascer do sol.” — Tirmidhi.
Também será válido adiar o lançamento até o final do dia. Ibn Abd al-Barr disse: “Os sábios são unânimes em que, se alguém lançar as pedrinhas antes do pôr do sol do dia 10 de Dhul-Hijjah, seu lançamento será válido.” Contudo, isso não é mustahabb.

Ibn Abbas disse: “Em Mina, no dia 10 de Dhul-Hijjah, faziam várias perguntas ao Mensageiro de Allah. Um homem disse: ‘Lancei as pedrinhas depois do entardecer.’ Ele respondeu: ‘Não há problema.’” — Bukhari

É permitido adiar o lançamento das pedrinhas até a noite? Quando, por alguma justificativa, não for possível lançar as pedrinhas durante o dia, é permitido adiá-lo até a noite. Malik narrou, através de Nafi‘, que uma filha de Safiyyah, esposa de Ibn Umar, entrou em trabalho de parto em Muzdalifah. Por isso, ela e Safiyyah permaneceram em Muzdalifah e chegaram a Mina depois do pôr do sol do dia 10 de Dhul-Hijjah. Ibn Umar ordenou-lhes que lançassem as pedrinhas e não lhes ordenou oferecer nenhuma kaffarah. No entanto, sem uma justificativa, é makruh adiar o lançamento. Se as pedrinhas forem lançadas à noite, segundo os hanafitas, al-Shafi‘i e uma das narrações de Malik, não será necessário oferecer dam. A prova disso é o hadith de Ibn Abbas mencionado anteriormente.

Segundo a opinião de Ahmad, se o apedrejamento dos jamarāt for adiado até que passe o dia 10 de Dhul-Hijjah, não se deve apedrejar durante a noite. Deve-se fazê-lo no dia seguinte, depois que o sol se inclinar para o poente.

Permissão para os fracos e os que têm uma justificativa válida apedrejarem depois da meia-noite do dia 10 de Dhul-Hijjah: é unanimemente ilícito apedrejar antes da primeira metade da noite. Contudo, mulheres, crianças, pessoas fracas com uma justificativa válida e pastores estão autorizados a apedrejar a Jamrat al-‘Aqabah a partir da meia-noite do dia 10 de Dhul-Hijjah.

É narrado por ‘Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) que o Mensageiro de Allah enviou Umm Salamah (que Allah esteja satisfeito com ela) para apedrejar na noite do dia 10 de Dhul-Hijjah. Umm Salamah apedrejou antes do fajr e partiu. — Abu Dawud, al-Bayhaqi. É narrado por Ibn ‘Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah permitiu aos pastores de camelos apedrejar durante a noite. Al-Bazzar. ‘Urwah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: no dia 10 de Dhul-Hijjah, o Mensageiro de Allah foi repetidamente até Umm Salamah e ordenou-lhe que apedrejasse rapidamente, partisse para Meca e realizasse a oração do fajr em Meca. Aquele era o dia de sua vez. Por isso, o Mensageiro de Allah queria que Umm Salamah o acompanhasse. Al-Shafi‘i e al-Bayhaqi. ‘Ata’ disse: um homem informou-me a respeito de Asma’ que ela havia apedrejado os jamarāt. Eu disse: “Nós apedrejamos os jamarāt durante a noite.” Asma’ respondeu: “Também fazíamos isso na época do Mensageiro de Allah.” Abu Dawud.

Al-Tabari disse: al-Shafi‘i apresentou como prova os hadiths de Umm Salamah e Asma’ para demonstrar que é permitido partir depois da meia-noite — e sua opinião está correta.

Ibn Hazm disse: o apedrejamento durante a noite é exclusivo das mulheres. Não se aplica aos homens, sejam eles fortes ou fracos.

Contudo, os hadiths comprovam que é permitido àqueles que têm uma justificativa válida viajar e apedrejar durante a noite. Ibn al-Mundhir disse: a Sunnah é não apedrejar antes do nascer do sol, como fazia o Mensageiro de Allah. Não é permitido apedrejar antes do fajr, pois isso contraria a Sunnah. Entretanto, quem apedrejar antes do fajr não terá de repetir o ato. Não conheço ninguém que tenha dito que isso não seria válido.

Apedrejamento a partir de cima do jamrah: al-Aswad disse: vi ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) apedrejar a partir de cima do jamrah. ‘Ata’ disse: é permitido apedrejar a partir de cima do jamrah.

Apedrejamento durante os três dias de Dhul-Hijjah: o melhor do apedrejamento realizado ao longo de três dias

O horário vai desde o momento em que o sol se inclina para o ocidente até o pôr do sol. Foi narrado por Ibn Abbás (que Allah esteja satisfeito com ele): o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançou as pedras quando o sol se inclinou ou depois disso. — Ahmad, Ibn Majah, At-Tirmidhi. Al-Bayhaqi narrou, por meio de Nafi‘, que Ibn Umar dizia: «Não lançamos pedras nestes três dias senão depois que o sol se inclina.»

Se alguém adiar o lançamento das pedras até a noite, isso será makruh. Contudo, se as lançar à noite, deverá fazê-lo até o nascer do sol seguinte, e não depois disso.

Esta é a opinião consensual de todos os imames, exceto do Imame Abu Hanifa. Segundo Abu Hanifa, é permitido lançar as pedras antes do declínio do sol no terceiro dia. Isso porque Ibn Abbás disse: «Quando o sol se torna quente no último dia da partida, é permitido lançar as pedras e partir de Mina.»

Permanecer após o lançamento das pedras nos dias de Tashriq: depois de lançar as pedras, deve-se permanecer voltado para a qibla. É mustahabb suplicar a Allah, louvá-Lo e pedir o perdão dos pecados para si mesmo e para todos os irmãos crentes.

Ahmad e Al-Bukhari narram, por meio de Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): quando ele lançava as pedras na primeira Jamara, junto à Mesquita de Al-Khayf, lançava sete pedras e dizia «Allahu Akbar» com cada pedra. Depois, dirigia-se para a esquerda, ao vale de Batn al-Wadi, onde permanecia por algum tempo voltado para a qibla, com as duas mãos erguidas. Em seguida, prosseguia até a Jamara intermediária, próxima de Aqaba, e lançava sete pedras, dizendo «Allahu Akbar» com cada uma; depois partia sem permanecer ali. Consta no hadith que ele não permanecia após lançar as pedras na Jamara de Aqaba; permanecia depois de lançar as pedras nas duas últimas Jamaras. Os sábios estabeleceram um princípio para a permanência: depois do lançamento que não será seguido por nenhum outro lançamento naquele dia, não há permanência; mas, se houver outro lançamento no mesmo dia, deve-se permanecer depois dele. Ibn Majah narrou, por meio de Ibn Abbás, que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançava as pedras na Jamara de Aqaba, avançava e não permanecia.

A ordem do lançamento das pedras: está comprovado por uma cadeia autêntica de transmissão que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começava lançando as pedras na primeira Jamara, junto a Mina; depois lançava as pedras na Jamara intermediária, adjacente a ela; e então lançava as pedras na Jamara de Aqaba. Ele disse: «Aprendei de mim os vossos ritos.» Com base nisso, três imames deduziram que manter a ordem entre as Jamaras é uma condição e que se deve lançar as pedras na mesma sequência em que o Mensageiro de Allah as lançou. Contudo, a opinião adotada pelos hanafitas é que a ordem é sunnah, não uma condição.

É mustahabb dizer o takbir e fazer uma súplica com cada pedra, bem como segurá-la entre os dedos: Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) costumavam dizer, ao lançar as pedras na Jamara de Aqaba: «Ó Allah, torna o meu Hajj um Hajj livre de pecados e perdoa os meus pecados.» Ibrahim disse: depois de realizar a Jamara de Aqaba, era apreciado que os homens recitassem esta súplica. Perguntaram a Ibrahim: «Fazes esta súplica em cada Jamara?» Ele respondeu: «Sim.» A súplica é:الله اجْعَلْ حَبًّا مَبْرُورًا وَذَنْبًا مَغْفُورًا

Ata disse: sempre que lançares uma pedra, dirás o takbir e, imediatamente depois do takbir, lançarás a pedra.

Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou no Sahih Muslim: O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizia o takbir ao lançar cada pedrinha.

Está escrito no Fath al-Bari: Todos concordam que, se o takbir não for pronunciado, nenhuma expiação será necessária.

A mãe de Salman ibn Ahwas disse: Vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) montado em um camelo, próximo à Jamarat al-Aqabah. Vi pedrinhas entre seus dedos; ele as lançou, e os demais também as lançaram junto com ele.

Se uma pessoa que designou outra como representante para lançar as pedrinhas tiver uma justificativa, como uma doença ou algo semelhante, que a impeça de fazê-lo, poderá autorizar alguém a lançar as pedras em seu nome.

Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Fizemos a peregrinação com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), juntamente com mulheres e crianças. Recitávamos a talbiyah em nome das crianças e lançávamos as pedrinhas por elas. — Ibn Majah.

Pernoite em Mina: Segundo os três imames — exceto Abu Hanifah —, é obrigatório passar em Mina as três noites de 10, 11 e 12 de Zul-Hijjah, ou as duas noites correspondentes aos dias 11 e 12 de Zul-Hijjah. Segundo os hanafitas, o pernoite é sunnah.

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando terminares de lançar as pedrinhas, passa a noite onde quiseres. — Ibn Abi Shaybah. Mujahid disse: É permitido passar a primeira parte da noite em Makkah e a última em Mina, ou a primeira parte em Mina e a última em Makkah. Ibn Hazm disse: Aquele que não passa em Mina as noites que devem ser passadas em Mina comete uma injustiça. Contudo, não há expiação por isso. É consenso que aqueles que têm uma justificativa, como os que fornecem água e os guardadores de camelos, não estão obrigados a pernoitar em Mina. Portanto, se deixarem de pernoitar, não lhes será devida nenhuma expiação. Al-Bukhari e outros narram que al-Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permissão para passar em Makkah as noites que deveriam ser passadas em Mina, a fim de cumprir a responsabilidade de fornecer água, e ele lhe concedeu permissão. É narrado por Asim ibn Adi: O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permitiu aos pastores deixar de pernoitar em Mina. — At-Tirmidhi, Abu Dawud, An-Nasa’i e Ibn Majah.

Quando e em que momento se deve retornar de Mina: Segundo os três imames, o período determinado para retornar de Mina a Makkah é depois de lançar as pedrinhas, no dia 12 de Zul-Hijjah, antes do pôr do sol. Segundo os hanafitas, é permitido retornar a Makkah até antes do amanhecer do dia 13 de Zul-Hijjah. Contudo, partir depois do pôr do sol é makruh. Isso contraria a sunnah, mas não exige nenhuma expiação.

24. Os animais do sacrifício ou hadi

Hadi: na terminologia da Sharia, o animal que é levado ao Santuário Sagrado como oferenda para ser sacrificado, com o objetivo de alcançar a proximidade de Allah, é chamado de al-hady ou hadi. Allah diz:

والْبُدْنَ جَعَلْنَاهَا لَكُمْ مِنْ شَعَائِرِ الله لكر فِيهَا خَيْرٌ، فَاذْكُرُوا اسْمَ اللَّهَ عَلَيْهَا سَوَافٌ، فَإِذَا وَجَبَتْ جنوبها فكلوا منها وأَطْعِمُوا الْقَائِع والمعتر كل لكَ سَخَّرَنَا مَا لَكُمْ لَعَلَّكُمْ تَشْكُرُونَ لَن يَنَالَ اللَّهَ لحومها، وَلَا دِمَاؤُهَا، وَلَكِن

يَنَالُهُ التَّقوى مِنْكُم.

“Fizemos os camelos uma das insígnias de Allah para vós. Neles há benefício para vós. Portanto, mencionai o nome de Allah sobre eles enquanto permanecem enfileirados. Depois, quando tombarem de lado, comei deles e alimentai deles o necessitado e o pobre que pede. Assim, submetemo-los a vós, para que sejais agradecidos. Nem sua carne nem seu sangue chegam a Allah; chega a Ele somente a vossa piedade.”

Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Enviai os animais do sacrifício como oferenda, pois Allah aprecia as oferendas. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou cem camelos como oferenda voluntária.

A melhor oferenda: Os sábios são unânimes em que, durante o Hajj, não é válido enviar como oferenda algo além dos animais destinados a esse fim. Podem ser enviados como oferenda camelos, bovinos, cabras ou ovelhas — sejam machos ou fêmeas. Entre eles, a melhor oferenda é o camelo, depois o bovino, e depois a cabra ou a ovelha. Isso porque, sendo o camelo o maior em tamanho, ele é mais benéfico para os pobres. Do mesmo modo, o bovino é mais benéfico que a cabra e a ovelha. Há divergência sobre o que é melhor para uma pessoa: uma sétima parte de um camelo, uma sétima parte de um bovino ou uma cabra. Contudo, não há divergência de que é melhor aquilo que traz maior benefício aos pobres.

O mínimo da oferenda: Qualquer animal das três espécies mencionadas pode ser enviado como oferenda ao Santuário Sagrado. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou cem camelos para serem sacrificados como oferenda voluntária. O mínimo que uma pessoa pode enviar como oferenda é uma cabra, uma sétima parte de um camelo ou uma sétima parte de um bovino, pois um bovino ou um camelo pode ser sacrificado em nome de sete pessoas.
Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Fizemos o Hajj com o Mensageiro de Allah. Naquela ocasião, sacrificamos camelos em nome de sete pessoas e bovinos em nome de sete pessoas. — Ahmad e Muslim. Não é condição que todos os participantes do sacrifício busquem a proximidade de Allah. Se alguns buscarem a proximidade de Allah e outros desejarem apenas a carne, o sacrifício ainda será válido. Porém, os hanafitas discordam dessa posição. Para eles, é condição que todos os participantes busquem a proximidade de Allah.

Quando se torna obrigatório oferecer um camelo como hady: o oferecimento de um camelo como hady torna-se obrigatório somente se a pessoa realizar o tawaf az-Ziyārah em estado de impureza decorrente de emissão seminal, menstruação ou puerpério; se tiver relações sexuais depois de permanecer em Arafat e antes de raspar os cabelos; ou se fizer um voto de sacrificar um camelo. Se não encontrar um camelo, deverá comprar sete cabras.

Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que um homem foi até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disse: “Tenho a obrigação de sacrificar um camelo. Tenho condições de comprar um camelo, mas não encontro nenhum para comprar.” Então, o Mensageiro de Allah ordenou-lhe que comprasse sete cabras e as sacrificasse. Ahmad; Ibn Majah.

Tipos de hady: há dois tipos de hady: o recomendado e o obrigatório. O hady recomendado é o hady do peregrino que realiza o hajj ifrad e do praticante da umrah ifrad. O hady obrigatório é de cinco tipos:

1 e 2. O hady sacrificial é obrigatório para quem realiza o hajj qiran e o hajj tamattu‘.

3. O sacrifício torna-se obrigatório para quem deixa de cumprir alguma obrigação do hajj. Por exemplo, torna-se obrigatório o sacrifício quando se deixa de lançar as pedras, de entrar em ihram no miqat, de reunir o dia e a noite durante a permanência em Arafat, de passar a noite em Muzdalifah, de passar a noite em Mina, de realizar o tawaf de despedida, entre outras obrigações.

4. Depois de entrar em ihram, o sacrifício torna-se obrigatório quando se pratica qualquer uma das ações proibidas, exceto as relações sexuais. Por exemplo, quando se usa perfume, raspa o cabelo ou pratica qualquer ação semelhante.

5. O sacrifício torna-se obrigatório quando se caça ou se corta uma árvore dentro dos limites do Haram. Cada uma dessas questões foi explicada detalhadamente em seu devido lugar.

Condições do hady: para enviar o hady, é necessário cumprir as seguintes condições:

1. Se o animal oferecido como hady for algo diferente de uma ovelha, deverá ser um sanī. No caso de uma ovelha, basta que seja um jazaʿ, isto é, um cordeiro bem desenvolvido de seis meses. O animal de camelo que tiver cinco anos, o bovino que tiver dois anos e a cabra fêmea que tiver completado um ano são chamados de sanī. Portanto, é válido enviar como hady qualquer um desses animais que seja sanī.

2. Deve ser fisicamente perfeito. Não é válido oferecer um animal caolho, manco, afetado por micose ou outra doença de pele, nem debilitado e excessivamente magro.

Hasan disse: Quando uma pessoa compra um animal saudável, mas, antes do dia do sacrifício, ele fica cego, manco ou debilitado e excessivamente magro, deve sacrificá-lo assim mesmo. Com isso, o sacrifício será válido. — Saʿīd ibn Manṣūr.

O método recomendado para escolher o hady: Mālik narrou de Hishām que seu pai dizia aos filhos: “Ó meus filhos, não enviem a Allah como hady um camelo que vocês teriam vergonha de dar a algum amigo querido. Lembrem-se de que Allah é mais amado e mais digno de honra do que todas as pessoas amadas e honradas.” Saʿīd narrou que Ibn ʿUmar montou no dorso de uma camela e percorreu toda a cidade de Meca. Depois, elogiou-a. A camela agradou-lhe; então ele desceu dela, marcou-a e a enviou como hady.

Marcação do animal destinado ao hady ou ao sacrifício: há dois métodos para marcar o animal do sacrifício. Ishʿār: quando o camelo ou o bovino possui uma corcova, faz-se uma incisão em um dos lados dela e deixa-se o sangue escorrer, criando uma marca para que o animal seja reconhecido como destinado ao hady ou ao sacrifício e ninguém possa interferir com ele.

Taqlīd: pendurar no pescoço do animal do sacrifício um pedaço de couro ou algum outro símbolo, para que ele seja reconhecido como destinado ao hady ou ao sacrifício. Certa vez, o Mensageiro de Allah enviou como hady um rebanho de ovelhas e marcou-o. Enviou esse rebanho com Abū Bakr para a peregrinação do nono ano da Hégira. No dia de Hudaybiyyah, ele entrou em iḥrām para a ʿumrah depois de pendurar um símbolo no pescoço do animal do sacrifício e marcá-lo fazendo uma incisão em sua corcova. Todos os sábios, exceto o imã Abū Ḥanīfah, consideram isso uma sunnah.

A razão para marcar o animal: a razão é honrar e manifestar os sinais de Allah, proclamando que esses são animais destinados ao sacrifício, enviados à Casa de Allah para serem sacrificados por Sua causa e para alcançar proximidade com Ele.

É permitido montar no dorso do animal destinado ao hady, montar no camelo do sacrifício e obter dele outros benefícios. Pois Allah disse:

لَكُمْ فِيهَا مَنَافِعُ إِلَى أَجَلٍ مُسَمَّى تَرْ سَعِلْهَا إِلَى الْبَيْتِ الْعَتيق

“Para vós, há nesses animais muitos benefícios até um prazo determinado; depois, eles chegarão à Casa Antiga.”

Ad-Dahhak e Ata disseram: Esses benefícios consistem em montá-los quando necessário e utilizar seu leite e sua lã. O prazo determinado é o período entre a colocação da marca e o momento em que se tornam animais de hady. E o fato de a marca chegar à Casa significa chegar a Mina no dia do sacrifício e serem abatidos.

Relatado por Abu Huraira: o Mensageiro de Deus viu um homem conduzindo um camelo e disse-lhe: “Monta nele.” O homem respondeu: “Ele é um camelo destinado ao sacrifício.” Ele disse: “E daí? Monta nele.” Disse isso uma segunda e uma terceira vez. Bukhari, Muslim, Abu Dawud e An-Nasa’i.

Essa é a posição de Ahmad, Ishaq e Malik. Ash-Shafi’i disse: Só se pode montar nele quando houver necessidade extrema.

O período do sacrifício: Os sábios divergiram quanto ao período do sacrifício. Segundo a escola de Ash-Shafi’i, ele começa no dia 10 de Dhu al-Hijjah e se estende pelos dias seguintes de Tashriq, 11, 12 e 13 de Dhu al-Hijjah. Isso porque o Mensageiro de Deus disse: “Todos os dias de Tashriq são dias de sacrifício.” — Ahmad. Se o período passar, o animal destinado ao sacrifício deverá ser abatido como reposição. Para Malik e Ahmad, o período do abate do animal de sacrifício são os dias do sacrifício, quer se trate de um sacrifício obrigatório ou voluntário. Essa é também a opinião dos hanafitas quanto aos animais de hady do tamattu‘ e do qiran. Quanto aos sacrifícios decorrentes de voto, expiação e os voluntários, podem ser abatidos a qualquer momento. Segundo Ibrahim an-Nakha’i e outros, o período vai do dia 10 de Dhu al-Hijjah até o final do mês de Dhu al-Hijjah.

O local do sacrifício: O animal de hady, seja obrigatório ou voluntário, não pode ser abatido fora do Santuário Sagrado. Pode ser abatido em qualquer local do Santuário Sagrado.

Relatado por Jabir: o Mensageiro de Deus disse: “Toda Mina é local de sacrifício, e toda Muzdalifa é local de permanência. Todos os vales e passagens entre as montanhas de Meca são vias de passagem e locais de sacrifício.” Abu Dawud e Ibn Majah.

Entretanto, para os peregrinos do Hajj, o melhor local é Mina, e para os que realizam a Umrah, o melhor local é Marwah, pois é o local onde ambos saem do ihram.

Foi narrado por Malik que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Esta Mina é um local de abate; toda Mina é um local de abate. E, na Umrah, esta Marwah, bem como todas as passagens e vielas de Meca, são locais de abate.”

É recomendado abater os camelos no peito e os demais animais na garganta: é recomendado abater o camelo em pé, com a pata dianteira esquerda amarrada. Sobre isso, observem-se os seguintes hadices:
Muslim narrou, por intermédio de Ziyad ibn Jubair: Ibn Umar foi até um homem e viu que ele havia deitado sua camela para abatê-la. Então disse: “Faze-a levantar-se, põe-na em pé e amarra-a. Essa é a Sunnah do vosso Profeta.”

Foi narrado por Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seus Companheiros abatiam os camelos amarrando-lhes a pata esquerda e deixando-os em pé sobre as patas restantes. Abu Dawud.

Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, ao explicar o trecho do versículo “Invocai o nome de Allah sobre elas enquanto estão enfileiradas”, disse:فَاذْكَّرُوا إِسْرَ اللَّهِ عَلَيْهَا سَوَافٌisto é, enquanto estão em pé sobre três patas…” — al-Hakim.

Por outro lado, é recomendado abater as vacas e as cabras deitadas. Se o animal que deve ser abatido cortando-se a garganta for morto com uma punhalada no peito, ou se o animal que deve ser abatido com uma punhalada no peito for abatido cortando-se a garganta, alguns dizem que isso será makruh, enquanto outros dizem que não será makruh. Se puder realizar o abate habilmente, é recomendado que aquele que oferece o sacrifício o faça pessoalmente. Caso contrário, deverá estar presente e assistir ao abate.

Não se deve pagar o açougueiro com a carne do animal do sacrifício: não se deve dar ao abatedor qualquer remuneração proveniente do animal do sacrifício. Contudo, pode-se dar-lhe algo dele como caridade. Pois Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou-me que, durante o abate dos camelos do sacrifício, eu permanecesse diante deles, distribuísse suas peles e as cobertas que os revestiam, e não desse nada do animal ao açougueiro.” Ali disse: “Nós lhe dávamos [a remuneração] dos nossos próprios recursos.” Todas as coletâneas de hadices autênticos.

Também se comprova pelos hadices que é permitido nomear um representante para realizar o abate do animal do sacrifício, distribuir sua carne e distribuir sua pele e as cobertas que o revestem. Porém, não é permitido dar ao açougueiro qualquer parte dele como remuneração. Deve-se pagar sua remuneração com o próprio bolso. (É unanimemente proibido vender a pele do animal do sacrifício ou qualquer de suas partes.) Hasan narrou que não há problema em dar a pele ao açougueiro.

Comer da carne do animal do sacrifício: o próprio Allah ordenou que se comesse da carne do animal do sacrifício. Ele disse:فَكُلُوا مِنْهَا وَأَطْعِبُوا الْبَالِس الفقير“Comei dela e alimentai o necessitado pobre.” Essa ordem inclui claramente tanto o sacrifício obrigatório quanto o voluntário. Contudo, os juristas de diferentes regiões divergem a esse respeito. Segundo Abu Hanifa e Ahmad, é permitido comer a carne do sacrifício do Hajj tamattu‘ e qiran, bem como a carne do sacrifício voluntário. Além desses, não é permitido ao ofertante comer a carne de qualquer outro tipo de sacrifício. Segundo Malik, se o Hajj do ofertante for invalidado por alguma razão ou se ele perder o Hajj por ter passado o tempo determinado, poderá comer a carne do animal que havia enviado anteriormente. Também poderá comer a carne do sacrifício do Hajj tamattu‘. Exceto a carne do sacrifício oferecido como expiação por incapacidade decorrente de algum problema de saúde, como punição pela caça, e o sacrifício votado em favor dos necessitados, e antes de chegar ao Santuário Sagrado

Pode-se comer a carne de todos os sacrifícios, exceto a carne do sacrifício oferecido em razão de um animal que morreu por alguma causa. Segundo os shafiitas, não é permitido comer a carne do sacrifício expiatório pela caça, da fidya por invalidar o hajj, dos sacrifícios do tamattu‘ e do qiran, nem do sacrifício de um voto feito pela própria pessoa. Do mesmo modo, não é permitido comer a carne de qualquer sacrifício obrigatório. Contudo, pode-se comer a carne de um sacrifício voluntário, oferecê-la a outros e distribuí-la como caridade e presente.

Qual quantidade da carne do sacrifício é lícito comer: o peregrino que envia um animal para ser oferecido como presente pode comer quanto quiser da carne do animal que enviou; pode comer dele tanto quanto desejar. Do mesmo modo, pode distribuí-la quanto quiser como presente e caridade. Segundo alguns, deve comer metade e dar a outra metade em caridade. Segundo outros, deve comer um terço, oferecer um terço como presente e dar um terço em caridade.

25. Raspar ou aparar os cabelos da cabeça

A norma sobre cortar e aparar os cabelos está comprovada pelo Alcorão, pela hadith e pelo ijma‘, isto é, pelo consenso unânime da comunidade. Allah, o Altíssimo, disse:

لَقَدْ صَدَقَ اللهُ رَسُولَهُ الرُّؤْيَا بِالْحَقِّ لَتَدْ عَلَى الْمَسْعِيدُ الْحَرَامِ إِنْ مَاءَ اللَّهُ آمِينَ مُعَلِّقِينَ رَؤُوسَكُمْ و مقصرين لا تخافون .

“Allah confirmou plenamente a visão de Seu Mensageiro. Certamente entrareis na Mesquita Sagrada em segurança, se Allah quiser. Então, alguns de vós rasparão a cabeça e outros cortarão os cabelos. Não tereis medo algum.”

Al-Bukhari e Muslim relataram que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Que Allah tenha misericórdia dos que raspam a cabeça.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, e também dos que cortaram os cabelos?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Que Allah tenha misericórdia dos que raspam a cabeça.” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, e também dos que cortam os cabelos?” Ele disse: “Que Allah tenha misericórdia dos que raspam a cabeça.” Elas perguntaram novamente: “Ó Mensageiro de Allah, e também dos que cortaram os cabelos?” Ele respondeu: “Sim, que Allah tenha misericórdia também dos que cortaram os cabelos.” (A razão de o Mensageiro ter rogado três vezes pelos que raspam a cabeça foi incentivar a raspagem e enfatizar que ela é recomendável. Isso porque ela apresenta um exemplo completo de adoração e servidão, além de demonstrar maior humildade e sinceridade diante de Allah. Por outro lado, aquele que apenas encurta os cabelos preserva para si um pouco de beleza. Ainda assim, por fim, ele reservou uma parte de sua súplica para eles, para que nenhum peregrino do hajj ou da umra de sua comunidade fosse privado de sua boa súplica.)

Também foi relatado por Al-Bukhari e Muslim que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, raspou a cabeça; uma parte dos Companheiros também a raspou, enquanto outra parte cortou os cabelos.”

Raspar a cabeça significa remover o cabelo com uma navalha ou raspá-lo rente. Isso será válido até mesmo se forem raspados apenas três fios de cabelo da cabeça. Já cortar o cabelo significa aparar uma quantidade equivalente à largura de um dedo dos cabelos da cabeça. A maioria dos sábios divergiu acerca da norma religiosa sobre isso. Segundo a maioria deles, isso é obrigatório; e, se for omitido, será necessário oferecer um dam ou um sacrifício expiatório para compensar essa falta. Segundo os shafiitas, isso é um dos pilares do hajj (isto é, uma obrigação).

O momento de raspar a cabeça: para os peregrinos, o momento determinado é depois de lançar as pedras na Jamarat de Aqaba, no dia 10 de Zul-Hijjah. Se o animal do sacrifício estiver com ele (ou tiver sido levado anteriormente), deverá raspar o cabelo depois de abatê-lo.

É narrado num hadith transmitido por Muʿammar: quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sacrificou seu animal em Mina, disse: “Foi-me ordenado raspar o cabelo.” Ahmad e at-Tabarani.

No caso da umrah, o momento determinado é depois de realizar o sa’i entre Safa e Marwah; e, para aquele que tem consigo o animal do sacrifício, depois de abatê-lo. É obrigatório que isso seja feito dentro do Santuário Sagrado. Abu Hanifa, Malik e Ahmad são da opinião de que isso deve ser feito durante os dias do sacrifício. Por outro lado, segundo os shafiitas, Muhammad e a opinião mais conhecida de Ahmad, é obrigatório que raspar ou cortar o cabelo ocorra no Santuário Sagrado e durante os dias do sacrifício. É permitido adiar a raspagem até depois dos dias do sacrifício, sem que seja necessário oferecer qualquer expiação.

O que é recomendável fazer ao raspar o cabelo: começar pelo lado direito, depois passar ao lado esquerdo, voltar-se na direção da qiblah e, após terminar de raspar o cabelo, recitar o takbir e realizar a oração são atos recomendáveis. O imã Abu Hanifa disse: “Cometi erros em cinco aspectos do hajj. Quem me chamou a atenção para eles foi um barbeiro. Quando decidi raspar a cabeça, fui até um barbeiro. Perguntei-lhe: ‘Quanto você cobra para raspar a cabeça?’ Ele disse: ‘Você é iraquiano?’ Respondi: ‘Sim.’ Ele disse: ‘Não se deve negociar o preço de um ato de adoração. Sente-se.’ Sentei-me, mas não voltado para a qiblah. O barbeiro disse: ‘Vire o rosto na direção da qiblah.’ Depois, eu havia decidido começar a raspar minha cabeça pelo lado esquerdo. O barbeiro disse: ‘Vire o lado direito da sua cabeça para mim.’ Virei-o, e ele começou a raspar o cabelo. Permaneci sentado em silêncio. Em seguida, ele disse: ‘Recite o takbir.’ Comecei a recitar o takbir e preparei-me para me levantar. Ele disse: ‘Aonde você quer ir?’ Respondi: ‘Para minha caravana.’ Ele disse: ‘Primeiro faça uma oração de duas rakʿah e depois vá.’ Eu disse: ‘O que vi aqui não poderia ter sido realizado pela inteligência de um simples barbeiro. De onde você recebeu todas essas instruções que me deu?’ Ele respondeu: ‘É assim que ʿAta ibn Abi Rabah faz.’” At-Tabari.

É recomendável passar a navalha sobre a cabeça calva: segundo a maioria dos sábios, é recomendável que a pessoa calva, que não tem cabelo algum na cabeça, passe a navalha sobre ela. Ibn al-Mundhir disse: “Todos os sábios cujos nomes consigo recordar concordam que o calvo deve passar a navalha sobre a cabeça.” Abu Hanifa disse que passar a navalha sobre a cabeça é obrigatório. É recomendável cortar as unhas e aparar o bigode.

Para quem raspa ou corta o cabelo, é recomendável aparar o bigode e cortar as unhas. Quando Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, raspava o cabelo durante algum hajj ou alguma umrah, também aparava a barba e o bigode. Ibn al-Mundhir disse: Está inequivocamente comprovado que, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, raspava a cabeça, também cortava as unhas.

Ordem para que as mulheres cortem o cabelo e proibição de raspá-lo: Abu Dawud narrou, transmitindo de Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “As mulheres não devem raspar o cabelo; devem cortá-lo.” Ibn al-Mundhir disse: Há consenso entre os sábios sobre este assunto, pois, no caso das mulheres, raspar a cabeça é considerado uma forma de desfiguração.

Quanto devem as mulheres encurtar o cabelo da cabeça: Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quando uma mulher desejar encurtar o cabelo, deverá reuni-lo na parte dianteira da cabeça e, em seguida, cortar dele o equivalente ao comprimento de um dedo. Ata disse: quando uma mulher encurtar o cabelo, deverá cortá-lo a partir das pontas. Sa’id ibn Mansur.
Alguns dizem que não há uma medida fixa para quanto as mulheres devem cortar. Al-Shafi’i disse: cortar pelo menos três fios de cabelo é suficiente.

26. Tawaf al-Ifada ou Tawaf al-Ziyara
Toda a comunidade muçulmana chegou a um consenso de que o Tawaf al-Ifada é um pilar, isto é, uma parte inseparável do Hajj. Se algum peregrino deixar de realizá-lo, o seu Hajj será inválido.
Pois Allah diz:وليطوفوا بالبيس العتيق“Que eles circundem a Casa Antiga.” Segundo o Imam Ahmad, é necessário formular uma intenção específica para isso. Já segundo os outros três imames, a intenção do Hajj será suficiente para este tawaf; será válida e suficiente da parte do peregrino, ainda que ele não formule uma intenção específica para esse tawaf. Segundo a maioria dos sábios, todas as suas sete voltas são obrigatórias e constituem pilares. Segundo Abu Hanifa, das sete voltas, quatro constituem o pilar do Hajj. Se essas quatro forem deixadas, o Hajj será inválido. As três voltas restantes não são pilares, mas são obrigatórias. Quem deixar essas três, ou qualquer uma delas, terá deixado uma obrigação. O seu Hajj não será inválido, mas deverá oferecer um dam.

O período do Tawaf al-Ifada: segundo as opiniões de al-Shafi’i e Ahmad, o seu período começa à meia-noite da noite que antecede o dia 10 de Zul-Hijja, e não há um prazo final determinado para ele. Contudo, as relações sexuais não serão lícitas até que este tawaf seja realizado. Se ele for adiado para depois dos dias de Tashriq, nenhum dam ou sacrifício será obrigatório, embora isso seja makruh. O melhor momento para realizá-lo é antes do meio-dia do dia 10 de Zul-Hijja. Segundo Abu Hanifa e Malik, o seu período começa desde o fajr do dia 10 de Zul-Hijja. Há, porém, divergência quanto ao seu prazo final. Segundo Abu Hanifa, é obrigatório realizá-lo em qualquer um dos dias do sacrifício. Se for realizado depois desses dias, será necessário oferecer um dam. Malik disse que não há problema em adiá-lo até o último dia dos dias de Tashriq, embora seja melhor antecipá-lo. O seu período se estende até o fim do mês de Zul-Hijja. Se, mesmo depois disso, ele for ainda mais adiado, será necessário oferecer um dam, mas o Hajj continuará válido, pois, segundo ele, todo o mês de Zul-Hijja é um dos meses do Hajj.

Antecipar o Tawaf al-Ifada para as mulheres: se as mulheres temerem o início da menstruação, é mustahabb que o realizem no dia 10 de Zul-Hijja. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ordenava às mulheres que realizassem o Tawaf al-Ifada no próprio dia 10 de Zul-Hijja, para que o início repentino da menstruação não causasse complicações. Ata disse ainda: se as mulheres temerem a menstruação, devem realizar o Tawaf al-Ifada da Casa de Allah antes mesmo de apedrejarem os jamarat e antes de oferecerem o sacrifício. Não há problema em usar um medicamento que atrase a menstruação, permitindo a realização do tawaf.

Sa’id ibn Mansur narrou, segundo Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que foi perguntado a Ibn Umar se havia algum impedimento para uma mulher comprar um medicamento a fim de atrasar a menstruação, para que pudesse retornar ao seu país no momento adequado. Ele respondeu que não havia impedimento. Para isso, ele recomendava que as mulheres bebessem o suco da árvore de arak. Al-Tabari disse: quando se tomar uma medida para atrasar a menstruação em tal situação, deve-se também tomar medidas para prolongar o período de pureza e atrasá-la em outras situações. Do mesmo modo, quando necessário, é preciso tomar medidas para antecipar a menstruação.
Pausa em Muhassab

Muhassab é o nome do vale situado entre Jabal al-Nur e Hujun. Sabe-se que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez uma pausa no vale de Muhassab a caminho de Meca, vindo de Mina. Ali, ele rezou o zuhr, o asr, o maghrib e o isha e dormiu por algum tempo. Ibn Umar também fazia o mesmo. Há divergência quanto a ser mustahabb fazer uma pausa ali. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez uma pausa em Muhassab apenas para facilitar a sua viagem; isso não é uma sunnah. Quem quiser pode fazer uma pausa ali, e quem não quiser pode não fazê-lo.

Al-Khattabi disse: isso era feito certa época, mas depois foi abandonado. Al-Tirmidhi disse: alguns consideram mustahabb fazer uma pausa ali, mas não a consideram obrigatória. O objetivo dessa pausa é agradecer a Allah, pois foi ali que Ele concedeu ao Seu Profeta a vitória sobre aqueles inimigos que haviam reunido Banu Hashim e Banu Abd al-Muttalib numa única casa, fazendo um juramento de que as demais tribos árabes não manteriam comércio nem realizariam casamentos com eles enquanto não entregassem o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) às suas mãos. Ibn al-Qayyim disse: ao fazer uma pausa no vale de Muhassab, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) decidiu proclamar a vitória dos símbolos do Islam naquele mesmo lugar onde os inimigos haviam feito prevalecer a incredulidade e a hostilidade contra Allah e Seu Mensageiro. Essa era a prática do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): ele procurava estabelecer os símbolos do tawhid justamente nos locais onde predominavam os símbolos da incredulidade e do shirk. Assim, estabeleceu a mesquita de Ta’if no local onde se adoravam al-Lat e al-Uzza.

27. Umrah

O significado lexical de Umrah é ziyārah, isto é, visita ou viagem. Aqui, entende-se por ela todo o conjunto de atos que inclui a visita à Sagrada Caaba, o tawaf ao seu redor, o sa’i entre Safa e Marwa e o corte dos cabelos. Os sábios são unânimes em que ela é um ato de adoração instituído pela Sharia.

Foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Uma Umrah no Ramadan equivale a um Hajj.” (Isto é, a recompensa de realizar uma Umrah no Ramadan equivale à recompensa de um Hajj voluntário. Contudo, isso não isenta a pessoa da obrigação do Hajj obrigatório.) — Ahmad, Ibn Majah.

Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “De uma Umrah até a outra, todos os pecados cometidos nesse intervalo serão expiados. A recompensa de um Hajj mabrur (Hajj livre de pecados) não é outra senão o Paraíso.” — Ahmad, al-Bukhari e Muslim. Foi citado um hadith do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Realizai continuamente o Hajj e a Umrah, um após o outro.”

Realizar Umrah repetidamente: Nafi disse: Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, costumava realizar duas Umras por ano durante muitos anos, na época de Ibn al-Zubayr.

Al-Qasim disse: Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, realizou três Umras em um ano. Perguntaram-lhe: alguém a censurou por isso? Al-Qasim respondeu: “Subhanallah! Ela não é a Mãe dos Crentes?” Por isso, segundo a maioria dos sábios, não há nada de errado em realizar Umrah repetidamente. Contudo, o Imam Malik considera makruh realizar Umrah mais de uma vez por ano.

É permitido realizar Umrah antes do Hajj e durante os meses do Hajj: durante os meses do Hajj, é permitido realizar somente a Umrah, sem o Hajj. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, realizou a Umrah no mês de Shawwal e retornou a Medina sem realizar o Hajj. Do mesmo modo, é permitido realizar a Umrah antes do Hajj, como Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, costumava fazer. Tawus disse: as pessoas da época da ignorância consideravam realizar Umrah durante os meses do Hajj o maior dos pecados e diziam: “Quando o mês de Safar tiver terminado, as feridas nos pés dos camelos tiverem cicatrizado, os sinais do Hajj tiverem desaparecido das estradas e os peregrinos tiverem retornado, então será permitido realizar Umrah àquele que desejar fazê-lo.” Após a chegada do Islam, foi ordenado ao povo que realizasse Umrah durante os meses do Hajj. Assim, a Umrah durante os meses do Hajj permaneceu em vigor até o Dia da Ressurreição.

O número de Umras do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: foi narrado por Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou doze Umras: a primeira foi a Umrah de Hudaybiyyah, a segunda foi a Umrat al-Qada, a terceira foi a partir de Ji’rana e a quarta foi junto com o seu Hajj. — Ahmad, Abu Dawud e Ibn Majah. A regra da Sharia sobre a Umrah: segundo as escolas Hanafi e Maliki, a Umrah é sunnah. Isso porque Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: perguntaram ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre a Umrah: ela é obrigatória? Ele respondeu: “Não.”

Segundo al-Shafi’i e Ahmad, a Umrah é obrigatória. Isso porque Allah, o Altíssimo, disse: “Completai o Hajj e a Umrah por Allah.” Como foi dada uma ordem conjunta para o Hajj e a Umrah, ela é, portanto, obrigatória. Contudo, a primeira opinião é a mais preponderante (isto é, a de que é sunnah). Al-Tirmidhi citou a afirmação de al-Shafi’i de que não existe nenhum hadith autêntico sobre a Umrah que prove que ela seja voluntária.

O tempo da ‘umrah: segundo a maioria dos sábios, o período da ‘umrah abrange todo o ano. Portanto, é permitido realizá-la em qualquer época do ano. Contudo, segundo Abu Hanifa, é makruh realizar a ‘umrah no dia de ‘Arafah, no dia 10 de Dhu al-Hijjah e nos três dias de Ayyam at-Tashriq. Segundo Abu Yusuf, é makruh realizá-la no dia de ‘Arafah e nos três dias seguintes. Todos concordam quanto à validade da ‘umrah durante os meses do Hajj.
Al-Bukhari narrou de ‘Ikrimah: perguntei a ‘Abdullah ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, sobre realizar a ‘umrah antes do Hajj. Ele respondeu: não há impedimento em realizar a ‘umrah antes do Hajj. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele, realizava a ‘umrah antes do Hajj.

Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: ‘A’ishah, que Allah esteja satisfeito com ela, realizou todos os ritos do Hajj e da ‘umrah enquanto estava menstruada, exceto o tawaf da Casa Sagrada. Depois de se purificar, ela fez o tawaf e disse: “Ó Mensageiro de Allah, vós realizareis tanto o Hajj quanto a ‘umrah, enquanto eu realizarei apenas o Hajj?” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele, ordenou a ‘Abd ar-Rahman, irmão de ‘A’ishah, que a acompanhasse até Tan‘im. Depois, ela realizou a ‘umrah após o Hajj, ainda durante o mês de Dhu al-Hijjah. O melhor período para a ‘umrah é o mês de Ramadan. Isso já foi discutido anteriormente.

O miqat para o ihram da ‘umrah: primeiro, deve-se verificar se a pessoa que pretende realizar a ‘umrah está fora ou dentro dos miqats do Hajj mencionados anteriormente. Se estiver fora, não lhe é permitido atravessar esse miqat sem estar em ihram. Al-Bukhari narrou: Zayd ibn Jubayr foi até ‘Abdullah ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e perguntou-lhe: “De onde me é permitido realizar a ‘umrah?” Ele respondeu: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele, estabeleceu Qarn para os habitantes de Najd, Dhu al-Hulayfah para os habitantes de Medina e al-Juhfah para os habitantes da Síria.” Se, porém, a pessoa estiver dentro dos miqats, então o seu miqat para a ‘umrah é o local situado fora dos limites do Santuário Sagrado, mesmo que aquele que realiza a ‘umrah esteja dentro do Santuário Sagrado. Foi narrado em al-Bukhari: ‘A’ishah, que Allah esteja satisfeito com ela, foi até Tan‘im e entrou em ihram ali. Isso ocorreu por ordem do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele.

28. O tawaf de despedida

O tawaf de despedida também é chamado tawaf al-sadr, pois deve ser realizado pouco antes de os peregrinos deixarem Meca. Não há raml neste tawaf. Ele é o último ato que o peregrino deve realizar antes de sair de Meca. Deve realizá-lo quando desejar despedir-se de Meca. (O tawaf de despedida não se aplica àqueles que permanecem em Meca.)

Malik narrou em sua obra al-Muwatta’ que ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O último ato do Hajj é o tawaf da Casa Sagrada.” (Em ar-Rawdah an-Nadiyyah, afirma-se: o fundamento deste tawaf é honrar a Casa Sagrada. Isso porque o Hajj começa com um tawaf — o tawaf al-qudum — e também termina com um tawaf. Assim, é representado que o objetivo principal da viagem do Hajj é o tawaf da Casa Sagrada.) Este tawaf não se aplica aos habitantes de Meca nem às mulheres menstruadas. Por abandonarem este tawaf, elas não precisam oferecer qualquer expiação.

Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: quando uma mulher peregrina começa a menstruar, é-lhe permitido partir sem realizar o tawaf de despedida. — Al-Bukhari e Muslim.

Em outra narração, consta que as pessoas receberam a ordem de fazer da Casa de Allah o seu último compromisso. Contudo, a obrigação da mulher menstruada foi aliviada em certa medida. Também foi narrado por al-Bukhari e Muslim que Safiyyah, esposa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele, menstruou. Quando isso foi informado ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele, durante o Hajj, ele disse: “Será que Safiyyah nos fará ficar para trás?” As pessoas informaram que ela já havia partido. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele, disse: “Então não há problema.”

Disposição da Sharia: Os eruditos concordam que o tawaf de despedida é um ato de adoração estabelecido pela Sharia. Com efeito, Muslim e Abu Dawud narraram, sob autoridade de Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele —, que as pessoas costumavam partir em todas as direções. Ao ver essa situação, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não partais sem cumprir o último dever para com a Casa de Allah.”

Contudo, há divergência quanto à disposição da Sharia sobre o tawaf de despedida:

O imã Malik, Dawud e Ibn al-Mundhir disseram: “Ele é uma sunnah. Quem o abandonar não terá de oferecer nenhuma expiação.” Essa também é a opinião do imã Ash-Shafi‘i.

Já segundo os hanafitas, os hanbalitas e uma das opiniões atribuídas aos shafi‘itas, ele é obrigatório, e quem o abandonar deverá oferecer um damm.

Momento do tawaf de despedida: o momento do tawaf de despedida chega quando os peregrinos terminam todos os seus ritos e decidem iniciar a viagem de retorno, de modo que o tawaf da Casa de Allah seja seu último ato, conforme mencionado no hadith anterior.

Depois de concluir o tawaf de despedida, deve iniciar imediatamente a viagem de retorno. Depois disso, não deve realizar nenhuma compra ou venda, nem permanecer por algum tempo em Meca. Se fizer qualquer uma dessas coisas, deverá repetir o tawaf de despedida. Porém, se resolver alguma necessidade durante o caminho ou comprar alimento ou algum item indispensável semelhante, não precisará repetir o tawaf, pois isso não impedirá que o tawaf de despedida permaneça como seu último ato na Casa de Allah.

É recomendável que aquele que realiza o tawaf de despedida recite a seguinte súplica, transmitida por Ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele:

اللهم إِنِّي عَبْدُكَ، وَابْن عَبْدِكَ وَابْن أَمَتِكَ حَمَلْتَنِي عَلَى مَا سَخَّرْتَ لِي مِنْ خَلْقِكَ، وَسَتَرْتَنِي في بِلادِكَ حَتَّى بَلْفْتَنِي بِنِعْمَتِكَ إِلَى بَيْتِكَ، وَاعَنْتَنِي عَلَى أَدَاءِ تُسْلِي، فَإِنْ كُنْتَ رَضِينَ عَنِى فاندد على رضا، وَإِلا فَمِنَ الْآنَ فَارْضَ عَنِى قَبْلَ أَن تَنْأَى عَن بَيْتِكَ دَارِي فَهُذَا أَوَانُ الْصِرَانِي إن أذنت لِي غَيْرَ مُسْتَبْدِل بِكَ وَلَا بِبَيْتِكَ، وَلَا رَاغِبٍ عَنْكَ، وَلَا عَن بَيْتِكَ اللَّهُم فَاصْحَبْنِي العافية فِي بَدَلِي، وَالصَعَةَ فِي حِسْمِي، وَالْعِصْمَةَ فِي دِينِي، وَأَحْمِن مُنقَلبِي، وَارْزُقْنِي طَاعَتِكَ مَا أَبْقَيْتَنِي وَاجْمَعَ لِى بَيْنَ خَيْرَى الدُّنْيَا وَالْآخِرَةِ، إِنَّكَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ .

“Ó Deus, sou Teu servo, filho do Teu servo e filho da Tua serva. Tu me fizeste montar aquilo que, dentre as Tuas criaturas, submeteste a mim; fizeste-me viajar pela Tua terra e, por fim, chegar à Tua Casa. Isto é uma graça Tua. Também me ajudaste a cumprir a minha adoração. Se estás satisfeito comigo, então fica ainda mais satisfeito; caso contrário, fica satisfeito comigo a partir de agora, antes que eu me afaste da Tua Casa. Agora se aproxima o momento da minha partida, se me deres permissão. Não há ninguém nem nada mais querido para mim do que Tu e a Tua Casa; e não me afasto de Ti nem da Tua Casa. Ó Deus, concede plena saúde ao meu corpo e firmeza na minha religiosidade. Concede-me um bom desfecho e mantém-me obediente a Ti. Enquanto me mantiveres vivo, concede-me todo o bem deste mundo e do Além. Certamente, Tu tens poder sobre todas as coisas.”

O imã Axafi disse: Ao despedir-me da Casa Sagrada por meio da circunvolução de despedida, gosto de permanecer por algum tempo no Multazam (entre a Pedra Negra e a porta da Caaba).

29. O modo de realizar o hajj

Quando alguém que pretende realizar o hajj se aproximar do miqat, é recomendável aparar o bigode, cortar o cabelo, cortar as unhas, tomar banho, fazer a ablução, passar perfume e vestir as roupas do ihram. Ao chegar ao miqat, rezará duas rak‘at e assumirá o ihram: se quiser realizar o hajj ifrad, formulará a intenção apenas pelo hajj; se quiser realizar o tamattu, apenas pela umrah; e, se quiser realizar o qiran, formulará a intenção pelo hajj e pela umrah juntos. Este ihram é obrigatório e constitui um pilar do hajj. Sem ele, o hajj e a umrah não serão válidos. Entretanto, não é obrigatório determinar qual modalidade de hajj realizará: ifrad, qiran ou tamattu. Se formular a intenção de modo geral, sem mencionar a modalidade do hajj, o ihram será válido. Depois de formular uma intenção geral, poderá realizar qualquer uma das três modalidades de hajj mencionadas.

Assim que vestir o ihram, é prescrito que recite a talbiyah em voz alta. Sempre que subir a um lugar elevado ou descer a um vale baixo, ao encontrar alguém, no fim da noite e após cada oração obrigatória, recitará a talbiyah. É obrigatório que aquele que está em ihram se abstenha de relações sexuais, de qualquer ato que provoque excitação sexual e de brigas, discussões, disputas e conflitos com seus companheiros de viagem; também não deve casar-se nem casar outra pessoa. Aquele que está em ihram deve evitar vestir roupas costuradas e calçar sapatos que cubram qualquer parte acima dos tornozelos. Não poderá cobrir a cabeça, usar perfume, raspar qualquer cabelo ou pelo, cortar as unhas, capturar ou tentar abater qualquer animal de caça terrestre, nem cortar árvores, ervas ou folhagens do Santuário Sagrado.

Depois, ao entrar em Meca, é recomendável entrar por uma parte elevada da cidade. Se possível, é recomendável tomar banho antes disso no poço de Dhu Tuwa, situado em Zaher. Em seguida, dirigir-se-á à Caaba e entrará pela Bab as-Salam. Ao entrar, recitará a súplica para entrar na mesquita, observará a etiqueta e as regras de entrada na mesquita, recitará a talbiyah e entrará com concentração e humildade. Assim que avistar a Caaba, levantará ambas as mãos, pedirá a graça de Allah e recitará a súplica recomendada para essa ocasião.

Depois, dirigir-se-á diretamente à Pedra Negra, beijá-la-á silenciosamente ou a tocará com a mão e beijará a mão. Se nenhuma dessas opções for possível, fará um gesto em sua direção à distância. Em seguida, ficará de frente para a Pedra Negra, recitará as súplicas transmitidas nos hadiths e na Sunnah, recitará a súplica ma’thur e então iniciará o tawaf. Nas três primeiras voltas, fará idtiba e ramal, conforme o procedimento descrito anteriormente, e completará as quatro voltas restantes normalmente e com tranquilidade. Em cada volta, é Sunnah tocar o Canto Iemenita e a Pedra Negra.

Ao terminar o tawaf, dirigir-se-á ao Maqam Ibrahim recitando o versículo: “E tomai o lugar de Ibrahim como local de oração” (isto é, adotai o Maqam Ibrahim como lugar de oração); ali fará a oração do tawaf de duas unidades. Depois irá a Zamzam e beberá água até se saciar. Em seguida, irá ao Multazam e suplicará a Allah por tudo o que desejar, incluindo o verdadeiro bem-estar neste mundo e na Outra Vida. Depois tocará e beijará a Pedra Negra.

Em seguida, sairá pelo portão de Safa em direção a Safa. Ao partir, recitará: “Innas-Safa wal-Marwata min sha’a’irillah” (Safa e Marwa estão entre os símbolos de Allah). Subirá Safa, voltar-se-á dali em direção à Caaba e recitará as súplicas transmitidas nos hadiths. Depois descerá de lá e, em seguida, realizará o sa’i no pátio destinado a ele, fazendo dhikr e súplicas conforme desejar. Ao chegar entre os dois pilares assinalados, caminhará rapidamente. Depois seguirá para Marwa caminhando normalmente. Subirá os degraus, voltar-se-á em direção à Caaba e, voltado para ela, fará dhikr e súplicas. Assim completará uma volta. Do mesmo modo, completará sete voltas realizando o sa’i. Esse sa’i é wajib; se for abandonado, será necessário oferecer um dam, quer se abandone todo ele ou apenas parte dele.

Depois, se o peregrino em ihram estiver realizando tamattu’, raspará ou aparará o cabelo da cabeça. Com isso, sua umra estará completa. Então, tornar-se-ão lícitas para ele todas as coisas que lhe estavam proibidas por causa do ihram, inclusive as relações sexuais com a esposa. Contudo, o ihram daquele que realiza qiran ou ifrad permanecerá vigente.

Então, no dia 8 de Dhu al-Hijjah, aquele que realiza tamattu’ assumirá o ihram a partir de sua residência. Ele e os demais que ainda estiverem em seu ihram anterior partirão em direção a Mina e passarão a noite em Mina.
Depois, quando o sol nascer, partirão dali para Arafat, farão uma parada perto da Mesquita de Namira, tomarão banho e, junto com o imame e em congregação, juntarão as orações de zuhr e asr no horário de zuhr, rezando-as em forma abreviada. Se for possível rezar com o imame, fará dessa maneira. Caso contrário, juntará as duas orações e as rezará abreviadas no horário de zuhr, da maneira possível. Não permanecerá em Arafat antes de o sol começar a declinar para o oeste. Permanecerá no local pedregoso de Arafat ou próximo dele, pois esse é o local onde o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu. Permanecer em Arafat é o mais importante pilar do hajj. Subir ao Jabal ar-Rahmah não é sunnah nem recomendável. Permanecerá voltado para a qiblah e continuará fazendo dhikr e súplicas fervorosas até anoitecer.

Depois, quando a noite cair, partirá em direção a Muzdalifah; ali rezará maghrib e isha juntas no horário de isha e passará a noite. Assim que chegar o fajr, permanecerá em al-Mash’ar al-Haram e continuará fazendo bastante dhikr de Allah até que a manhã clareie completamente. Recolherá dali as pedrinhas, iniciará a partida e retornará a Mina. Permanecer em al-Mash’ar al-Haram é wajib; se isso for abandonado, será necessário oferecer um dam.

Após o nascer do sol, lançará sete pedrinhas contra a Jamrah de Aqabah. Em seguida, se possível, sacrificará seu animal. Depois raspará ou aparará o cabelo da cabeça. Ao raspar ou aparar o cabelo, tornar-se-ão lícitas todas as coisas que lhe estavam proibidas, exceto as relações sexuais com a esposa. Então retornará a Meca e realizará ali o tawaf al-ifadah. Esse é um tawaf que constitui um pilar e uma obrigação, semelhante ao tawaf al-qudum. Ele completará esse tawaf, que também é chamado tawaf az-ziyarah. Se estiver realizando tamattu’, fará o sa’i entre Safa e Marwa depois do tawaf al-ifadah. Porém, se estiver realizando ifrad ou qiran e já tiver feito o tawaf al-qudum, não precisará fazer o sa’i nesse momento. Depois desse tawaf, todas as coisas proibidas, inclusive as relações sexuais com a esposa, tornar-se-ão lícitas para ele.

Depois retornará novamente a Mina e passará a noite ali. Passar essa noite ali é wajib; se isso for abandonado, será necessário oferecer um dam. Quando, no dia 11 de Dhu al-Hijjah, o sol declinar para o oeste, lançará pedrinhas contra as três jamarat. Começará pela jamrah adjacente a Mina e, depois, lançará pedrinhas contra a jamrah intermediária. Após lançar as pedrinhas, permanecerá por algum tempo fazendo súplicas e dhikr. Depois lançará pedrinhas contra a Jamrah de Aqabah. Após esse lançamento, não permanecerá junto dela. É preferível concluir o lançamento de sete pedrinhas em cada jamrah antes do pôr do sol. Fará o mesmo no dia 12 de Dhu al-Hijjah. Depois terá liberdade para escolher uma de duas opções: ou partirá para Meca antes do pôr do sol do dia 12 de Dhu al-Hijjah, ou passará a noite em Mina e, no dia seguinte, 13 de Dhu al-Hijjah, lançará as pedrinhas. O lançamento das pedrinhas é wajib; se for abandonado, pode ser compensado oferecendo um dam. Quando retornar a Meca e desejar voltar à sua terra, realizará o tawaf al-wada’, ou tawaf de despedida. O tawaf de despedida é wajib. Se alguém abandonar o tawaf de despedida e deixar Meca, mas ainda não tiver ultrapassado o miqat e for possível retornar a Meca, deverá voltar e realizar o tawaf de despedida; caso contrário, deverá sacrificar uma cabra.

Do que foi dito até aqui, sabe-se que os ritos do hajj e da umra são assumir o ihram no miqat, realizar o tawaf e o sa’i e cortar o cabelo; com isso, a umra chega ao fim. A esses ritos acrescentam-se, no hajj, a permanência em Arafat, o lançamento das pedrinhas em Mina, o tawaf al-ifadah, passar a noite em Mina, passar a noite em Muzdalifah, o sacrifício e raspar ou aparar o cabelo. Esse é o resumo conciso do hajj e da umra.

É mustahabb retornar rapidamente à terra natal: Abu Hurayrah relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “A viagem é uma parte do tormento. Ela perturba o vosso alimento e a vossa bebida. Portanto, quando alcançardes o objetivo da viagem, deveis retornar rapidamente às vossas famílias.” — Bukhari e Muslim.

Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, narra que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quando qualquer um de vocês concluir seu hajj, deve retornar rapidamente para sua família, pois isso lhe garantirá uma recompensa maior.” — Darqutni. Muslim também narrou: “O muhajir permanecerá três dias depois de concluir todos os seus atos de adoração — hajj, umra, sacrifício e outros.”

30. Ihsar

A palavra ihsar significa impedir, deter. Allah, o Altíssimo, disse:

فإن أخبر تر تها استير من المدى .

“Completai o hajj e a umra por Allah. Porém, se fordes impedidos, oferecei em sacrifício aquilo que puderdes obter facilmente para esse fim.”

Quando, em Hudaybiyyah, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus Companheiros foram impedidos e detidos de ir à Mesquita Sagrada, este versículo foi revelado. Com isso, entende-se ser impedido, no caso da umra, de realizar o tawaf; e, no caso do hajj, de permanecer em Arafat ou realizar o tawaf al-ifada.

Houve divergência quanto às causas que, ao impedirem alguém de realizar o hajj e a umra, são consideradas ihsar.

Malik e ash-Shafi‘i disseram: o ihsar só será considerado ihsar segundo a sharia quando for causado pelo inimigo. Isso porque o versículo foi revelado justamente a propósito do impedimento imposto ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. A opinião de Ibn Abbas é semelhante. Ele disse: nenhum impedimento, exceto o causado pelo inimigo, é ihsar.

Contudo, segundo a opinião da maioria dos sábios, entre os quais estão Ahmad e os imames hanafitas, ihsar pode ocorrer devido a qualquer obstáculo que impeça aquele que pretende realizar o hajj de prosseguir até ele. Isso inclui um inimigo, seja ele incrédulo ou uma força rebelde; uma doença que obrigue a pessoa a retornar; uma revolta; o medo; a perda, durante o caminho, do dinheiro necessário para as despesas; a morte, durante a viagem, do companheiro mahram da esposa; e outras desculpas semelhantes que tornem a viagem impossível. Até mesmo a respeito de alguém que fosse picado no caminho por uma cobra, um escorpião ou algo semelhante, Ibn Mas‘ud emitiu a fatwa de que ele havia sido atingido por ihsar ou impedido. O argumento de Ibn Mas‘ud e da maioria dos sábios que compartilham sua opinião é que, na parte do versículo que diz: “Mas, se fordes impedidos”, não se especificou o tipo de impedimento; portanto, qualquer que seja a natureza do obstáculo, ele será considerado impedimento. Embora o versículo tenha sido revelado por ocasião do impedimento do Mensageiro de Allah, e ele tenha sido impedido por um inimigo, como a causa não foi especificada no versículo, a regra não ficará limitada nem circunscrita à circunstância que motivou sua revelação. Na realidade, esta opinião é mais forte que as demais.

A pessoa impedida deve sacrificar uma cabra: o versículo citado ordena claramente que a pessoa impedida sacrifique um animal sacrificial que esteja disponível. Foi narrado por Ibn ‘Abbas: quando o Mensageiro de Allah foi impedido, raspou a cabeça, teve relações com suas esposas e sacrificou o animal que havia levado consigo. No ano seguinte, realizou a ‘umrah. — Bukhari.

A maioria dos sábios deduziu deste hadith que é obrigatório para a pessoa impedida sacrificar uma cabra, uma vaca ou um camelo. Porém, o imame Malik disse que isso não é obrigatório. No livro Fath al-‘Allam, apresentou-se um argumento em apoio à opinião do imame Malik: nem todas as pessoas impedidas tinham consigo um animal sacrificial; somente o Mensageiro de Allah havia trazido de Medina um animal sacrificial como oferenda voluntária. É isso que Allah indicou em Suas palavras: “Eles vos impediram de fazer chegar os animais destinados ao sacrifício ao local determinado para seu abate.” Este versículo não prova a obrigatoriedade do sacrifício.

Onde a pessoa impedida deve realizar o sacrifício: no livro Fath al-‘Allam, foi dito que os sábios divergiram sobre se, no dia de Hudaybiyyah, os animais foram sacrificados dentro ou fora do Santuário Invio­lável. A parte do versículo que diz: “Eles vos impediram de fazer chegar os animais destinados ao sacrifício ao local determinado para seu abate” prova claramente que eles foram abatidos fora do Santuário Invio­lável.

Apesar disso, existem diferentes opiniões sobre o local do sacrifício da pessoa impedida. Primeira: segundo a opinião da maioria dos sábios, a pessoa impedida deve abater o animal onde estiver, seja dentro ou fora do Santuário Invio­lável. Segunda: segundo a opinião dos hanafitas, o sacrifício deve ser realizado somente no Santuário Invio­lável. Terceira: segundo Ibn ‘Abbas e um grupo de sábios, se a pessoa impedida puder enviar o animal ao Santuário, é obrigatório enviá-lo para lá, e ela não poderá sair do ihram até que o animal chegue ao Santuário Invio­lável e seja abatido ali. Se não puder enviá-lo ao Santuário, deverá abatê-lo onde estiver impedida ou detida.

A pessoa impedida não precisa repor o hajj se ele não lhe era obrigatório: ao explicar o versículo “Se fordes impedidos, então sacrificai um animal que esteja disponível”, Ibn ‘Abbas disse: quem assume o ihram para o hajj ou para a ‘umrah e depois é impedido de chegar à Casa de Allah deve sacrificar um animal disponível, uma cabra ou outro animal maior. Se tiver assumido o ihram para o hajj obrigatório, deverá repô-lo. Mas, se tiver assumido o ihram para outro hajj depois de já ter realizado o hajj obrigatório, não precisará repô-lo. O imame Malik disse: ele soube que o Mensageiro de Allah foi a Hudaybiyyah com seus companheiros; eles sacrificaram os animais que haviam levado consigo, rasparam a cabeça e saíram do ihram antes de circundar a Casa de Allah e antes de os animais sacrificiais chegarem à Casa de Allah. Depois, ele não mencionou se o Mensageiro de Allah ordenou a algum de seus companheiros ou a qualquer pessoa que o acompanhava que repusesse ou repetisse algo. Hudaybiyyah, entretanto, situa-se fora do Santuário Invio­lável. — Bukhari.

O imame al-Shafi‘i disse: portanto, onde quer que alguém seja impedido ou detido, poderá abater o animal ali mesmo e sair do ihram, sem precisar repor nada, pois Allah não mencionou nenhuma reposição. Além disso, sabemos com segurança que, no ano de Hudaybiyyah, havia muitos homens conhecidos com o Mensageiro de Allah; depois, eles também realizaram a ‘umrah da reposição, mas alguns deles deixaram de realizar a ‘umrah da reposição em Medina, embora não tivessem qualquer problema físico ou financeiro. Se a reposição fosse obrigatória, ele lhes teria ordenado que não deixassem de realizá-la. Al-Shafi‘i também disse: a ‘umrah do ano seguinte foi chamada de ‘umrah da reposição não porque fosse obrigatório repor a ‘umrah abandonada devido ao ihsar, mas porque aquela ‘umrah foi realizada com base no acordo firmado entre o Mensageiro de Allah e os coraixitas.

Assumir o ihram com a condição de sair dele caso surja uma doença ou uma desculpa semelhante: muitos sábios disseram que é permitido à pessoa que assume o ihram estabelecer, no momento de fazê-lo, a condição de que sairá do ihram caso adoeça. Muslim narrou de Ibn ‘Abbas que o Mensageiro de Allah disse a uma mulher: “Realiza o hajj e estabelece a condição de que, onde quer que uma doença me impeça, ali sairei do ihram.” Assim, quando alguém for impedido por uma doença ou por outra causa semelhante, e tiver estabelecido anteriormente uma condição desse tipo ao assumir o ihram, poderá sair do ihram. Nesse caso, não terá de oferecer nenhum dam nem jejuar.

31. A dignidade dos dois Santuários Invio­láveis

Aqueles que cobriam a Caaba Sagrada com uma cortina ou cobertura costumavam fazê-lo na época da ignorância. Quando o Islã surgiu, manteve essa prática. Al-Waqidi relatou que, na época da ignorância, a Caaba Sagrada era coberta com uma cortina estendida no chão, feita de couro tingido de vermelho. Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, cobriu-a com tecido iemenita. Umar e Uthman, que Allah esteja satisfeito com ambos, usavam um tecido egípcio chamado qabati. Depois, al-Hajjaj colocou uma cobertura de seda. Foi relatado que o primeiro a cobrir a Caaba com uma cobertura foi As’ad al-Himyari, da linhagem de Tubba.

Malik relatou: Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, vestia sua camela com um fino tecido egípcio branco, qabati, namat e tecido iemenita. Depois, enviava esses tecidos à Caaba e a cobria com eles. Al-Waqidi também relatou que as pessoas enviavam presentes de roupas para a Caaba e camelos cobertos com mantos de desenhos iemenitas; então esses mantos eram enviados à Casa Sagrada como cobertura. Mais tarde, Yazid ibn Muawiya colocou uma cobertura de seda. Ibn az-Zubayr seguiu o seu exemplo.

Todos os anos, uma cobertura de seda era enviada a Mus’ab ibn az-Zubayr para cobrir a Caaba. Ele a colocava no dia de Ashura. Sa’id ibn Mansur relatou: Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, retirava todos os anos a cobertura da Caaba, distribuía-a entre os peregrinos, e estes a penduravam nas árvores de Meca, usando-a para fazer sombra.

Perfumar a Caaba Sagrada: Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Perfumeis a Casa de Allah. Isso faz parte de purificá-la.” Ibn az-Zubayr perfumava completamente o interior da Caaba. Todos os dias, queimava uma ratl de madeira aromática e, todas as sextas-feiras, queimava duas ratl de madeira aromática para perfumá-la.

Proibição de praticar pecados no Santuário Sagrado: Allah, o Altíssimo, disse:

وَمَن يُرِدْ فِيهِ بِالْعَادِ بِقَرِ نَذِقَهُ مِنْ عَذَابِ اليْم .

“Quanto àquele que nele desejar cometer uma injustiça, fá-lo-ei provar um castigo doloroso.”

Abu Dawud relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Armazenar alimentos no Santuário Sagrado é um pecado.” Al-Bukhari relatou que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Armazenar alimentos é desobedecer a Allah.” Ahmad relatou: Ibn Umar foi até Ibn az-Zubayr, que estava sentado diante da Pedra Negra, e disse-lhe: “Ó Ibn az-Zubayr, cuidado com o pecado no Santuário Sagrado de Allah. Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: ‘Um homem dos coraixitas tornará lícito o Santuário Sagrado.’ (Isto é, criará oportunidade para que pecados sejam cometidos nele.) Em outra narração: ‘Um homem dos coraixitas cometerá pecado dentro dele; se os seus pecados fossem pesados com os pecados de todos os gênios e seres humanos, o peso deles seria maior.’ Portanto, cuidado, para que não sejas esse homem.”

Mujáhid disse: assim como a recompensa pelas boas ações é multiplicada em Meca, o pecado pelas más ações também é multiplicado. Perguntaram ao imã Ahmad: o pecado de uma má ação é registrado mais de uma vez? Ele respondeu: não, exceto em Meca. Isso é feito em consideração à santidade de Meca.

Profecia sobre a agressão contra a Caaba: Bukhari e Muslim narraram, sob autoridade de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: um exército atacará a Caaba. Quando estiverem no deserto, todos eles, do primeiro ao último, serão tragados para debaixo da terra. Eu disse: Ó Mensageiro de Allah, como pode ser isso, se entre eles haverá tanto pessoas más quanto pessoas boas? O Mensageiro de Allah disse: todos, do primeiro ao último, serão tragados. Depois, cada um será ressuscitado no Dia da Ressurreição de acordo com a sua intenção. (Aqueles que não tinham a intenção de atacar serão poupados do castigo da Vida Futura, mas não serão poupados do castigo deste mundo.)

É recomendável viajar em direção às três mesquitas. Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: não é permitido viajar com o propósito de visitar qualquer mesquita, exceto três: a Mesquita Sagrada, esta minha mesquita e a Mesquita de Al-Aqsa. — Bukhari, Muslim e Abu Dawud.

Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: perguntei: Ó Mensageiro de Allah, qual foi a primeira mesquita construída na Terra? Ele respondeu: a Mesquita Sagrada. Perguntei: e depois qual? Ele respondeu: a Mesquita de Al-Aqsa. Perguntei: quanto tempo houve entre as duas? Ele respondeu: quarenta anos. Depois, onde quer que chegue o horário da tua oração, reza ali, pois aí se encontra a benevolência de Allah.

A única razão pela qual é permitido viajar com o propósito de visitar essas três mesquitas é que elas possuem características e méritos que nenhuma outra possui.

Jابر (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: uma oração na minha mesquita é melhor do que mil orações em todas as outras mesquitas, exceto na Mesquita Sagrada. E uma oração na Mesquita Sagrada é melhor do que cem mil orações nas outras mesquitas. Ahmad.

Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: para aquele que rezar quarenta orações obrigatórias na minha mesquita, sem deixar de realizar sequer uma delas, será registrada a libertação do Inferno, a libertação do castigo e a libertação da hipocrisia. — Ahmad e At-Tabarani.

Também foi mencionado no hadith: a recompensa pela oração em Bayt al-Maqdis é quinhentas vezes maior do que a recompensa pela oração em todas as outras mesquitas, exceto a Mesquita Sagrada e a Mesquita do Profeta.

1. Regras e etiqueta para entrar na Mesquita do Profeta e visitar a Rawda Mubarak:

1. É recomendável entrar na Mesquita do Profeta com extrema calma e solenidade, usando perfume e roupas bonitas, introduzindo primeiro o pé direito. Também é recomendável recitar a seguinte súplica ao entrar:

أعوذ بالله العظيم، ويوجهِهِ الْكَرِيم وَسُلْطَانِهِ القَدِير من الشيطان الرجير، بسم الله اللهمَّ صَلِّ عَلَى محمد وَآلِهِ وَسَلَّم اللّه اغْفِرْ لِي ذنوبي، وانتح لي أبواب رحمتك .

“Busco refúgio junto a Allah, o Altíssimo, junto à Sua magnífica Essência e junto ao Seu reino eterno e sem princípio, contra Satanás, o amaldiçoado. Em nome de Allah. Ó Allah, envia bênçãos e paz sobre Muhammad e sua família. Ó Allah, perdoa os meus pecados e abre para mim as portas da Tua misericórdia.”

2. Primeiro, irá à Rawda Sharif e rezará ali a oração Tahiyyat al-Masjid, com plena reverência e concentração. Isso também é recomendável.

3. Depois de concluir a oração Tahiyyat al-Masjid, voltado para o túmulo sagrado e deixando a qibla atrás de si, saudará o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) da seguinte forma:

السَّلَامُ عَلَيْكَ يَا رَسُولَ اللَّهِ ، السَّلامُ عَلَيْكَ يَا رَبِّيَ اللهِ ، السَّلامُ عَلَيْكَ يَا خَلْقِ اللَّهِ مِنْ خَلْقِهِ، السَّلَامُ عَلَيْكَ يَا خَيْرَ خَلْقِ اللهِ ، السَّلامُ عَلَيْكَ يَا حَبِيبَ اللهِ ، السَّلامُ عَلَيْكَ يَا سَيِّدَ الْمُرْسَلِينَ السلامُ عَلَيْكَ يَا رَسُولَ رَبِّ

الْعَالَمِينَ، السَّلامُ عَلَيْكَ يَا قَائِنَ الْغَرِّ الْمُعَجَلِينَ . أَحْمَدُ أَنْ لَا إِلَهَ إِلَّا اللهُ، وَأَحْمَدُ أَنَّكَ عَبْدَهُ وَرَسُولَهُ وَأَمِينَهُ وَمِيرَتَهُ مِنْ خَلْقِهِ ، وَأَحْمَدُ أَنَّكَ مَنْ بَلْغَتَ الرِّسَالَةَ وَأَدِّيْتَ الأمانة، وتصحت الأمة، وَجَاهَلْت فِي اللَّهِ حَقَّ عِمَادِهِ.

«Ó Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre vós. Ó Profeta de Allah, que a paz esteja sobre vós. Ó melhor de toda a criação, que a paz esteja sobre vós. Ó amigo de Allah, que a paz esteja sobre vós. Ó líder dos profetas, que a paz esteja sobre vós. Ó Mensageiro do Senhor dos mundos, que a paz esteja sobre vós. Ó líder dos homens nobres, que a paz esteja sobre vós. Testemunho que não há outra divindade além de Allah. Testemunho que sois servo de Allah, Mensageiro, digno de confiança e o melhor da criação. Testemunho que transmitistes a mensagem de Allah, restituístes o que vos foi confiado, desejastes o bem da comunidade e lutastes devidamente no caminho de Allah.»

4. Em seguida, deverá afastar-se cerca de um côvado para a direita e saudar Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele. Depois, deverá afastar-se mais um côvado e saudar Umar Faruq, que Allah esteja satisfeito com ele.

5. Depois, voltado para a qibla, deverá fazer súplicas por si mesmo, por seus amigos, irmãos e por todos os demais muçulmanos. Em seguida, deverá partir dali.

6. O visitante não deve elevar a voz acima do necessário para que ele próprio possa ouvi-la. É dever do guardião impedi-lo gentilmente de falar em voz alta. Foi narrado que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, viu dois homens falando em voz alta na Mesquita do Profeta. Ele disse: “Se eu soubesse que vocês eram desta própria cidade, teria batido em vocês de tal modo que sentiriam dor.”

7. Não se deve tocar na sepultura com a mão nem beijá-la, pois o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibiu isso.
Abu Dawud narrou, segundo Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah disse: “Não transformeis vossas casas em sepulturas, nem minha sepultura em local de festividade. Enviai bênçãos sobre mim, pois, onde quer que estejais, as bênçãos que me enviardes chegarão até mim.” Abdullah ibn al-Hasan viu um homem fazendo súplicas junto à sepultura do Mensageiro de Allah em nome de outra pessoa. Então lhe disse: “Ó fulano, o Mensageiro de Allah disse: ‘Não transformeis minha sepultura em local de festividade; onde quer que estejais, enviai bênçãos sobre mim, pois as bênçãos que me enviardes chegarão até mim.’ Portanto, tu e aquele que está na Espanha sois iguais.”

É recomendável realizar muitas devoções voluntárias na Rawda Mubarak: Bukhari narrou, segundo Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah disse: “Entre minha casa e meu púlpito há uma rawda (jardim) do Paraíso. Meu púlpito está sobre o meu reservatório.” (Isto é, realizar muitas devoções e transmitir conhecimento islâmico na minha Rawda fará daquele local um jardim do Paraíso.)

É recomendável visitar a Mesquita de Quba e orar nela. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, vinha aqui todos os sábados e fazia duas rakʿat de oração. Ele incentivava todos a fazer o mesmo e dizia: “Quem sair de sua casa após realizar a purificação, vier à Mesquita de Quba e orar nela receberá uma recompensa equivalente à de uma ʿumra.” — Ahmad, Nasa’i e Ibn Majah.

As virtudes de Medina: Bukhari narrou, segundo Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah disse: “A fé se recolherá e se concentrará em Medina, assim como a serpente se recolhe em seu buraco.” Tabarani narrou, segundo Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah disse: “Medina é a cúpula do Islã, a morada da fé, a terra da Hégira e o refúgio do lícito e do ilícito.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O valor de Medina aumentou; por isso, o esforço por ela se tornou mais intenso.”

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Tende paciência e recebei as boas-novas. Eu busquei bênçãos para o vosso alimento; portanto, comei e não vos dividais. Pois o alimento de uma pessoa é suficiente para duas, o alimento de duas é suficiente para quatro, e o alimento de quatro é suficiente para cinco ou seis. A bênção está na união e na solidariedade. Serei intercessor, no Dia da Ressurreição, por aquele que suporta com paciência a tristeza e o sofrimento de seus parentes. E quem se afastar da congregação, Allah colocará em seu lugar, nessa congregação, alguém melhor do que ele. E quem nutrir más intenções contra a congregação, Allah o derreterá assim como o sal se dissolve na água.” Al-Bazzar.

A virtude de morrer em Medina: At-Tabarani narrou, por intermédio de uma mulher órfã da tribo de Saqif, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem dentre vós puder morrer em Medina, que o faça. Pois quem morrer em Medina terá a mim como testemunha e intercessor no Dia da Ressurreição.”

Zayd ibn Aslam narrou, por intermédio de seu pai, que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, costumava suplicar: “Ó Allah, concede-me o martírio em Teu caminho e faze-me morrer no santuário do Teu Profeta.” — Al-Bukhari.

— Fim do primeiro volume —