Considerações preliminares

O modelo que o Profeta de toda a humanidade, Muhammad (que a paz esteja com ele), apresentou às pessoas do mundo é, em uma palavra, a Sunnah; e tudo o que se opõe a ela é considerado bid‘ah. A sociedade que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) construiu por meio de vinte e três anos de esforço e luta incessantes foi libertada por ele dos tentáculos de toda espécie de bid‘ah e jahiliyyah, e estabelecida sobre o grandioso modelo iluminado pela Sunnah. Para toda a humanidade, isso foi uma grande bênção.

Com o passar do tempo, por diversas razões, a sociedade muçulmana desviou-se do modelo da Sunnah, e inúmeras bid‘ahs penetraram em sua ‘aqidah e em suas práticas. Houve até dias em que os muçulmanos começaram a considerar e seguir como modelo islâmico um conjunto confuso de normas, resultante da mistura entre a Sunnah e a bid‘ah. Como consequência, suas vidas foram tomadas por uma ruína e uma calamidade generalizadas. Nos dias atuais, esse ambiente e essa situação calamitosos engolfaram todo o mundo muçulmano.

Entretanto, essa situação não é desejável para os muçulmanos. O desvio desse modelo não pode ser desejado por ninguém. Por isso, hoje é indispensável apresentar novamente às pessoas uma ampla explicação e análise do ideal islâmico, para que desperte nos muçulmanos a consciência e se acenda neles um intenso desejo de mudar sua condição, de se revitalizar e de se tornarem novamente idealistas. Nesta etapa, entre tudo aquilo em que minha modesta capacidade de escrever pôde atuar, a presente obra constitui um acontecimento digno de nota. O único objetivo fundamental da composição desta obra é apresentar claramente a explicação e a análise básicas da Sunnah e da bid‘ah, bem como os pontos em que ocorreu o afastamento da Sunnah e a infiltração da bid‘ah na ‘aqidah e na crença, na vida e na sociedade. Os leitores é que avaliarão até que ponto esse objetivo foi alcançado, ou se posso de fato reivindicar algum sucesso. O que tenho a dizer é apenas isto: tudo o que escrevi foi escrito depois de profunda reflexão e compreensão; escrevi para apresentar claramente a verdade; escrevi com base no Alcorão e no hadith, no fiqh e nas opiniões dos grandes sábios universalmente respeitados. Sou pessoalmente o único responsável pelas opiniões discutidas neste livro; e, se alguém tiver de ser responsabilizado, somente eu posso sê-lo, e não outra pessoa. Se cometi algum erro nesta discussão, ele pode ser apontado com base no Alcorão e no hadith, e não invocando a autoridade de alguém. Estou plenamente preparado para corrigir qualquer erro desse tipo.

Apesar disso, se este meu esforço for capaz de contribuir, ainda que minimamente, para tornar o modelo mais luminoso e dissipar as trevas da bid‘ah, considerarei meu trabalho recompensado e, por considerá-lo um meio de alcançar a salvação no Além diante de Allah, Lhe prestarei agradecimento.

Muhammad Abdur Rahim

 

Prefácio da segunda edição

A obra “Sunnah e Bid‘ah”, que escrevi, foi publicada pela primeira vez em setembro de 1967. Depois disso, todas as suas cópias se esgotaram em pouco tempo. Já naquele momento era possível perceber claramente que a obra havia sido bem recebida pela comunidade erudita e que havia causado uma agitação especial no mundo das ideias. Na realidade, essa obra desferiu um golpe poderoso contra a bid‘ah que havia sido irrigada e acumulada em nossa sociedade ao longo de gerações, e os adoradores da bid‘ah e os grupos que dela dependiam ficaram aturdidos e feridos por esse golpe. Por todos os lados, ressoavam gritos de “está tudo perdido!”. Isso foi um desafio meu à bid‘ah vigente. Naturalmente, eu esperava que viesse algum protesto da parte dos seguidores da bid‘ah.

Mas, na prática, constatou-se que, em resposta ao golpe incontestável, afiado e decisivo desta obra, os adeptos da bid‘at não tinham nada de significativo a dizer. Embora não tenham deixado de espalhar calúnias contra mim. Depois disso, os setores envolvidos não encontraram outro caminho senão permanecer em silêncio. Senti grande alívio ao ver que nenhum grupo tinha capacidade de refutar, com qualquer prova incontestável, aquilo que eu havia dito contra a bid‘at, semelhante a uma montanha. Agradeço ao Deus Altíssimo por me ter sido possível, ainda que de maneira tão modesta e limitada, cumprir a Sunnah de Hazrat Ibrahim (A.S.) contra as bid‘at acumuladas desta época e seguir o exemplo do Imam Ibn Taymiyya e do Mujaddid Alfesani (R.A.).

A este respeito, quero recordar que provei que o sistema pir-muridi é contrário à ‘Sunnah’ e constitui bid‘at; contudo, reconheci plenamente o enorme serviço que os alim e os pirsahib prestaram ao Islã neste país ao longo dos tempos, bem como a contribuição incomensurável que deram para que ainda existam neste país vestígios da religião do Islã.

Durante quase dez anos, não foi possível realizar uma reimpressão completa da obra, pois não se encontrou nenhum editor suficientemente arrojado. Atualmente, ela foi publicada novamente pelo senhor Md. Ataur Rahman. Foram acrescentados vários temas novos, e muitas passagens da primeira edição foram reescritas de forma mais vigorosa e com argumentação. Em comparação com a edição anterior, esta edição está consideravelmente enriquecida em termos de teoria e informação.

Assim, posso esperar facilmente que, em comparação com a primeira edição, esta edição seja muito mais bem recebida pelo círculo de leitores eruditos. Ao ver que pude apresentar novamente esta obra ao público leitor, ofereço infinitos agradecimentos ao Deus Altíssimo.

Muhammad Abdur Rahim

بِسْمِ اللَّهِ الرَّحْمَٰنِ الرَّحِيمِ

‘Sunnah’ e ‘bid‘at’ são ambas palavras árabes. Apesar disso, essas duas palavras são amplamente conhecidas na sociedade muçulmana e muito utilizadas na história cultural do Islã. Contudo, pelo que se pode compreender, muitas pessoas não são capazes de apreender o verdadeiro significado desses dois termos. Entretanto, entre todos os termos fundamentais da cultura islâmica, dos quais depende a plena compreensão do sistema de vida islâmico, estas duas palavras estão entre os mais importantes. Portanto, é absolutamente necessário analisar o verdadeiro significado desses dois termos e, à luz deles, examinar e avaliar a crença, a prática e a moral dos muçulmanos de todo o mundo na atualidade, embora o tema exija uma discussão detalhada.

A necessidade de discutir este tema torna-se ainda mais urgente quando constatamos que, na sociedade muçulmana atual, na prática, não se faz nenhuma distinção entre Sunnah e bid‘at. Além disso, muitos tipos de ações apoiadas pela Sunnah e consideradas, à luz da Sunnah, indispensáveis e obrigatórias continuam hoje geralmente abandonados na sociedade muçulmana, enquanto numerosos tipos de bid‘at conquistaram importância igual à da Sunnah, criaram raízes firmes e permanecem instalados, adornados com ramos, folhas, flores e frutos. A situação chegou a tal ponto que, observando a aparência da sociedade muçulmana atual, suas atividades pessoais e sociais em conjunto e seu papel efetivo nos diversos campos da vida, não há maneira de compreender qual é Sunnah e qual é bid‘at. Na vida muçulmana de hoje, o brilho puro e abrangente da luz da Sunnah tornou-se obscurecido; em seu lugar, a escuridão negra da bid‘at espalhou-se por toda parte e devorou toda a vida muçulmana. Enquanto não se conseguir libertar da influência devoradora da bid‘at, de modo algum será possível — nem poderá ser — iluminar a vida muçulmana com o fluxo límpido da luz da Sunnah. Foi precisamente inspirados por esse objetivo que empreendemos esta discussão.

Sunnah e bid‘ah explicação e significado

Primeiramente, queremos apresentar uma explicação detalhada e fundamental desses dois termos, compreender o que significa “Sunnah” como termo islâmico e quem são os ahl al-Sunnah; e o que é a bid‘ah e de quantas maneiras ela, consciente ou inconscientemente, tomou conta da sociedade muçulmana.

‘Sunnah’ do termo explicação

O significado lexical do termo “Sunnah” é “caminho”.

No Alcorão Majid, o termo “Sunnah” foi utilizado em muitos contextos.

Um dos versículos diz:

 سُنَّةَ اللَّهِ الَّتِي قَدْ خَلَتْ مِن قَبْلُ ۖ وَلَن تَجِدَ لِسُنَّةِ اللَّهِ تَبْدِيلًا [٤٨:٢٣]

A Sunnah de Allah, que já está em vigor desde antes. E jamais encontrarás qualquer mudança na Sunnah de Allah. (Al-Fath: 48)

Em outro versículo, é dito:فَلَن تَجِدَ لِسُنَّتِ اللَّهِ تَبْدِيلًا ۖ وَلَن تَجِدَ لِسُنَّتِ اللَّهِ تَحْوِيلًا

—Jamais encontrarás qualquer mudança ou exceção na Sunnah de Allah. (Al-Fátir: 42)

Na Surata Bani Isra’il, a palavra ‘Sunnah’ também foi usada duas vezes no mesmo versículo.

O versículo é—سُنَّةَ مَن قَدْ أَرْسَلْنَا قَبْلَكَ مِن رُّسُلِنَا ۖ وَلَا تَجِدُ لِسُنَّتِنَا تَحْوِيلًا [١٧:٧٧]

—Esta é a Sunnah relativa aos mensageiros que enviamos antes de ti, e jamais encontrarás qualquer mudança na Sunnah de Allah.

O significado literal e lexicográfico da palavra ‘Sunnah’ usada nesses versículos é caminho, modo e método. Mas qual é o significado de ‘Sunnatullah’, a Sunnah de Allah?

O Imam Raghib al-Isfahani escreveu: A Sunnah de Allah é o modo prático de Sua atuação e a regra e o método de obedecer-Lhe.

Assim, vê-se que a palavra ‘Sunnah’ está relacionada a um assunto fundamental e que foi aplicada tanto a Allah quanto aos profetas e mensageiros. No Alcorão Sagrado, também se encontra o uso dessa palavra para compreender a condição prática das pessoas comuns.

Este é o uso literal da palavra “Sunnah” e seu significado lexicográfico. É sob essa perspectiva que iniciamos aqui a análise da palavra “Sunnah”. Diante de nós está seu significado original e puro.

Nas palavras do Imam Rāghib: a Sunnah do Profeta é a regra, o caminho e o método que ele seguia na prática e em suas ações.

E, nas palavras do Allāma Muhammad Bashīr Sahsawānī, “Sunnah” é o caminho, a via e o método específicos que, desde a época do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), são seguidos concretamente no Islã, no que diz respeito a fazer ou não fazer algo — o caminho pelo qual se anda. No capítulo “Kitābul Qāzī”, de “Kitābul Maqsūd”, a palavra “Sunnah” é explicada da seguinte forma: “Sunnah” é um método de prática seguido no Din do Islã, cuja observância é obrigatória ou um dever em todas as circunstâncias.

O Allāma Abd al-Azīz al-Hanafī escreveu: a palavra “Sunnah” significa as palavras e as ações do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ela também é usada para compreender a prática concreta do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) e dos nobres Companheiros.

O Allāma Safī al-Dīn al-Hanbalī escreveu: tudo aquilo que, além do Alcorão, é transmitido como palavra, ação ou aprovação do Mensageiro constitui a Sunnah.

É preciso ter em mente que, aqui, não está em discussão o significado de Sunnah usado pelos estudiosos da ciência do Hadith como termo técnico; tampouco o significado adotado na ciência do fiqh. Na terminologia dos estudiosos do Hadith, “Sunnah” é o relato das palavras, ações e aprovações do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) — aquilo que, na linguagem corrente, é chamado de “Hadith”. Já na ciência do fiqh, chama-se “Sunnah” uma ação que não é fard nem wajib, mas que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) praticava frequentemente. Nenhuma dessas duas acepções de Sunnah é o tema desta obra. O tema aqui é “Sunnah” em seu sentido original: aquilo que significa os princípios e normas fundamentais, o ideal, o caminho, a via e o método. Na realidade, nesse sentido, “Sunnah” é o ideal fundamental que Allah, o Altíssimo, revelou para toda a humanidade e que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) seguiu pessoalmente em sua vida prática, no vasto campo do cumprimento de suas responsabilidades religiosas, apresentando-o às pessoas do mundo para que o seguissem. “Sunnah” é um termo alternativo para o próprio Islã original, que estamos discutindo aqui. Isso porque a fonte daquilo que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) seguiu concretamente é a Wahy — a revelação que recebeu de Allah. Essa “Wahy” divide-se em duas partes. Uma delas são as normas e instruções comunicadas por Allah. A vida prática do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) é a combinação dessas duas, na qual tudo isso se refletiu plenamente. Ao analisar a vida prática do Mensageiro, será possível encontrar claramente todos esses elementos. E isso é a “Sunnah”; isso é o Din do Islã em sua plenitude. Para tornar clara, no Alcorão Majīd, a verdadeira forma dessa vida prática do Mensageiro, foi dito por sua própria boca: “Não sigo nenhum ideal; faço apenas aquilo que me é revelado por meio da Wahy.”

O ideal revelado por meio da Wahy, que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) seguiu na prática e em suas ações, é justamente a “Sunnah” que discutimos. Outro nome dessa Sunnah é Islã.

No Alcorão Majīd, essa própria Sunnah é chamada de “Sirāt al-Mustaqīm”. No Alcorão Majīd, foi proclamado pelas palavras do Mensageiro:

Certamente, este é o Meu caminho reto e firme. Portanto, segui somente este caminho; não sigais outros caminhos. Se o fizerdes, eles vos separarão deste caminho e vos levarão para longe dele. Allah vos ordenou isso para que andeis com temor.

Neste versículo, por “Sirat al-Mustaqim” entende-se aquilo que o termo “Sunnah” indica. O Imam Shatibi escreveu sobre a definição de “Sirat al-Mustaqim”: “Sirat al-Mustaqim” é o caminho de Allah para o qual Ele convocou as pessoas a fim de que o sigam. E isso é a Sunnah; quanto aos outros caminhos, referem-se aos caminhos dos que seguem a oposição e a divisão, que afastam as pessoas de “Sirat al-Mustaqim”. E eles são os adeptos da bid‘ah. Deve-se lembrar também que Sunnah é aquilo que é usado em oposição à bid‘ah. Pois o oposto desta Sunnah é precisamente a bid‘ah.

‘Bid‘ah’ da palavra explicação

O Imam Raghib escreveu o significado da palavra “bid‘ah”:

Criar algo de maneira nova, sem observar qualquer modelo anterior e sem imitar ou seguir qualquer outra coisa.

E, quanto à bid‘ah no âmbito da religião, ele escreveu como sua definição: árabe (*********)

No âmbito da religião, bid‘ah é apresentar uma afirmação cujo crente e seguidor não se espelham no modelo de nenhum legislador ou pregador da Sharia, e que também não tem qualquer correspondência com os princípios fundamentais da Sharia nem com um modelo sólido e puro.

Isto é, dizer algo que o Legislador da Sharia não disse e adotar como modelo uma prática que ele não realizou: isso é a bid‘ah.

O imã Nawawi escreveu o significado da palavra bid‘ah: em árabe:

— Fazer qualquer ato que não tenha precedente é bid‘ah.

E o erudito Mulla Ali al-Qari escreveu: em árabe:

— Introduzir de maneira totalmente nova um princípio ou caminho que não existia na época do Mensageiro.

O imã al-Shatibi escreveu: em árabe:

— Em árabe, diz-se que determinada pessoa praticou bid‘ah. Com isso, entende-se que essa pessoa inventou um caminho novo, que anteriormente não havia sido seguido por ninguém.

Ele também escreveu: em árabe:

— Só se chama bid‘ah quando alguém que pratica bid‘ah considera determinado ato conforme à sharia, embora, na realidade, ele não seja conforme à sharia. Não há nenhum outro significado além desse.

Isso significa que, na realidade, bid‘ah é crer, como questão de ‘aqidah, que uma prática que não está de acordo com a Shariah está de acordo com a Shariah. Em outro lugar, escreveu: árabe(*********)

É por isso que também se chamou bid‘ah a qualquer prática que não tenha respaldo em nenhuma prova da Shariah.

Em suma, bid‘ah consiste em estabelecer, na religião islâmica, um sistema ou método de prática contrário à Shariah, cujo objetivo é cometer excessos e exageros na adoração de Allah.

Além disso, ao explicar a diferença entre a bid‘ah genuína e a bid‘ah relativa, o Imam ash-Shatibi escreveu: árabe(*********)

A bid‘ah genuína e verdadeira é aquela para a qual não existe nenhuma prova na Shariah que a sustente ou respalde: nem no Livro de Allah, nem nos hadiths do Mensageiro, nem em qualquer prova de ijma‘, nem em qualquer outra prova aceitável para os eruditos. Nem de modo geral, nem em seus pormenores e detalhes. Por isso foi chamada bid‘ah, pois é inventada e fruto da imaginação humana, sem qualquer precedente na Shariah.

O célebre especialista em hadith, Imam al-Khattabi, definiu bid‘ah da seguinte maneira: árabe(*********)

Qualquer opinião ou princípio que seja introduzido sem estar fundamentado nos princípios básicos da religião e sem o apoio de qualquer precedente ou qiyas é bid‘ah. Porém, aquilo que está de acordo com os princípios básicos da religião e é construído sobre eles não é bid‘ah nem desvio.

Hafiz Ibn Rajab também escreveu exatamente isso: árabe(*********)

‘Bid‘ah’ significa aquilo que é inovado e para o qual não há na Shariah qualquer evidência ou prova que o justifique.

 

No Alcorão e nos hadiths ‘‘bid‘ah’’ é mencionada

No Alcorão Sagrado, a palavra ‘bid‘ah’ é mencionada de três maneiras em três contextos.

Primeiro: esta palavra foi usada em dois versículos a respeito de Allah. Um dos versículos:

بَدِيعُ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ ۖ وَإِذَا قَضَىٰ أَمْرًا فَإِنَّمَا يَقُولُ لَهُ كُن فَيَكُونُ [٢:١١٧]

– O Originador absoluto dos céus e da terra, o Criador sem precedentes. Quando decreta algo, diz-lhe apenas: “Sê!” E imediatamente isso acontece. (Al-Baqarah: 117)

O outro versículo

بَدِيعُ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ ۖ أَنَّىٰ يَكُونُ لَهُ وَلَدٌ وَلَمْ تَكُن لَّهُ صَاحِبَةٌ ۖ وَخَلَقَ كُلَّ شَيْءٍ ۖ وَهُوَ بِكُلِّ شَيْءٍ عَلِيمٌ [٦:١٠١

– Ele é o Criador originário dos céus e da terra. De onde poderia ter um filho, e como poderia ter uma esposa? Ele criou todas as coisas e tem pleno conhecimento de tudo. (Al-An‘am: 101)

Em ambos esses versículos, Allah Ta‘ala é chamado de “Badīʿ dos céus e da terra”, isto é, “Aquele que cria sem modelo anterior, sem matéria-prima anterior e sem preparação prévia”.

Segundo: esta palavra foi empregada em um versículo proferido pelo nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a respeito de si mesmo, da seguinte maneira:

          قُلْ مَا كُنتُ بِدْعًا مِّنَ الرُّسُلِ وَمَا أَدْرِي مَا يُفْعَلُ بِي وَلَا بِكُمْ ۖ

– Dize, ó Profeta! Não vim como um Mensageiro que anuncia algo inédito e palavras novas. Eu mesmo não sei como serei tratado, nem sei o que será feito convosco. (Al-Ahqaf: 9)

E, em terceiro lugar, esta palavra foi empregada ao se mencionar um tipo especial de prática de uma parte do povo dos Filhos de Israel.

O versículo é este: وَرَهْبَانِيَّةً ابْتَدَعُوهَا مَا كَتَبْنَاهَا عَلَيْهِمْ إِلَّا ابْتِغَاءَ رِضْوَانِ اللَّهِ

– E o monasticismo e o ascetismo, adotados por excessivo temor, foram eles mesmos que os inventaram. Nós não lhes prescrevemos nem tornamos obrigatório esse caminho. Antes, havíamos prescrito para eles apenas a busca da satisfação de Allah. (Al-Hadid: 27)

Aqui, a “rahbaniyyat” é chamada de bid‘ah, algo que Allah não estabeleceu, mas que as pessoas inventaram por conta própria. A bid‘ah mencionada aqui, como palavra oposta a sunnah, é precisamente o tema que discutiremos nesta obra. O que fica claro neste versículo é o seguinte: aquilo que Allah não prescreveu nem regulamentou para os servos, mas que eles inventaram conforme a própria vontade, é justamente a bid‘ah. Por outro lado, aquilo que Allah determinou, regulamentou e ordenou que fosse feito não é bid‘ah. A partir daqui já se obtém uma indicação clara da definição e da concepção fundamental relacionadas à bid‘ah.

Em um versículo da surata Al-Kahf, o significado da palavra bid‘ah é indicado em uma linguagem completamente diferente.

O versículo é o seguinte:قُلْ هَلْ نُنَبِّئُكُم بِالْأَخْسَرِينَ أَعْمَالًا [١٨:١٠٣]

الَّذِينَ ضَلَّ سَعْيُهُمْ فِي الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَهُمْ يَحْسَبُونَ أَنَّهُمْ يُحْسِنُونَ صُنْعًا [١٨:١٠٤]

— Dize, ó Profeta! Quereis que vos fale sobre os que sofrerão a maior perda em suas obras? São aqueles cujos esforços e empenhos se perderam na vida mundana, enquanto imaginam, no íntimo, que fizeram algo muito bom. (Al-Kahf: 102–103).

Em outras palavras, os mais prejudicados são aqueles que, embora tenham realizado todas as suas ações com base no erro, consideram suas obras muito boas, muito justas e muito meritórias. Os adeptos da bid‘ah são exatamente assim. As obras que praticam, na realidade, não se baseiam nos princípios dados por Allah. Assim, esta é a verdadeira caracterização da bid‘ah. Ao comentar o versículo acima da surata Al-Kahf, o erudito Ibn Kathir escreveu: Este versículo se aplica, de modo geral, a todas as pessoas que adoram Allah por meios e métodos contrários àqueles que agradam a Allah. Embora pensem que agiram corretamente e esperem que suas obras sejam reconhecidas e aceitas por Allah, na realidade seguem princípios equivocados e, nessa condição, suas obras são rejeitadas por Allah.

Em outras palavras, todas as ações de adoração e devoção — aquelas que se considera que serão recompensadas quando praticadas e que acarretarão pecado quando não praticadas — devem ser realizadas segundo os meios e métodos que agradam a Allah. Isso é a sunnah. Se forem realizadas segundo costumes e regras opostos a ela, serão uma bid‘ah manifesta, pois são contrárias à sunnah. Por isso, o Imam Al-Qurtubi chamou de bid‘ah tudo aquilo que é incompatível com o Livro de Allah, com a sunnah do Mensageiro ou com as práticas dos Companheiros, e que não se assemelha a eles.

Uma explicação ainda mais clara sobre isso foi apresentada no versículo a seguir: o versículo é o seguinte:

وَمَن يُشَاقِقِ

 الرَّسُولَ مِن بَعْدِ مَا تَبَيَّنَ لَهُ الْهُدَىٰ وَيَتَّبِعْ غَيْرَ سَبِيلِ الْمُؤْمِنِينَ نُوَلِّهِ مَا تَوَلَّىٰ وَنُصْلِهِ جَهَنَّمَ ۖ وَسَاءَتْ مَصِيرًا [٤:١١٥

-Aquele que se opuser ao Nobre Mensageiro, mesmo depois de o caminho da orientação correta se tornar claro e luminoso, e seguir outro caminho e outro modelo, abandonando o modelo da Sunna da comunidade dos crentes, deixá-los-emos seguir esse caminho e, no Dia da Ressurreição, conduzi-los-emos ao Inferno. De fato, o Inferno é um lugar péssimo. (An-Nissá: 115)

Este versículo é uma das provas corânicas da Sunna. A orientação cuja manifestação clara é mencionada aqui é, essencialmente, a própria “Sunna”. Esta Sunna é a única estrada principal da orientação. Pois foi por meio de suas palavras e ações, de acordo com a Palavra de Allah e com a revelação oculta de Allah (wahy khafi), que ele tornou luminoso esse modelo da Sunna. Os crentes da sociedade formada pelo Mensageiro seguiam esse caminho. Se alguém nutrir uma atitude hostil em relação ao Mensageiro, não estiver disposto a seguir seu modelo e, por isso, abandonar o modelo seguido pela comunidade dos crentes para seguir outro modelo, seu destino não poderá ser outro senão o Inferno. Portanto, seguir a “Sunna” do Mensageiro é o único meio de alcançar o bem e a salvação.

Nos hadiths, nas palavras do Nobre Profeta, a própria “Sunna” é chamada de “al-amr”. Em um hadith narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Nobre Profeta declarou:

Árabe(*********)

Quem introduzir ou inventar nesta minha questão algo que não faça originalmente parte dela, isso será rejeitado.

Neste hadith, por “al-amr” (a questão), ele se referiu à religião fundamental do Islã, que o Nobre Profeta apresentou ao mundo. Pois esta religião — o Islã — está plenamente ligada à sua conduta, à sua dignidade e à sua condição.

O Allama Qadi Iyad explicou o significado deste hadith nestes termos:

Quem introduzir no Islã alguma opinião ou parecer e o apresentar como islâmico, sem que haja em seu favor qualquer prova clara, explícita ou implícita, ou passível de ser explicitada, no Alcorão e no hadith, deverá rejeitá-lo. E o outro nome para isso é “bid‘ah”. No hadith acima, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao dizer “nesta minha questão”, referiu-se ao próprio Islã. Com isso, fica provado que, aos olhos do Mensageiro, esta religião é completa, perfeita e plenamente equilibrada, conhecida por todos, amplamente difundida e manifesta em todos os aspectos, de modo perceptível. Nenhum aspecto fundamental ou secundário desta religião, ou da própria religião, é desconhecido, estranho ou oculto para qualquer pessoa dotada de discernimento. Agora, se alguém quiser acrescentar-lhe algo estranho à religião, ou apresentar como religioso algum assunto ou prática não religiosa, estará destruindo toda a religião. Isso porque, na realidade, não conseguiu conhecer nem compreender a própria religião em sua essência. Por isso, ao definir a bid‘ah, o Allama Kandhelvi escreveu: bid‘ah é aquilo que é inovador no âmbito da religião e que não possui fundamento nem apoio básico na Shariah. Na terminologia da Shariah, isso se chama bid‘ah.

A partir desta definição de “bid‘ah”, ficou claro que a invenção de novos meios para as atividades da vida prática e material, bem como a fabricação de equipamentos recém-inventados, não tem qualquer relação com a bid‘ah segundo a Shariah. Isso porque nada disso é feito como ato de adoração nem com a intenção de obter recompensa de Allah. Naturalmente, também aqui a condição é que nada disso contrarie os princípios fundamentais da Shariah. Do mesmo modo, os atos de adoração comprovados de forma clara ou por indicação, mediante relatos de palavras ou ações, provenientes do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ou dos Companheiros, também não são bid‘ah. Com isso, ficou igualmente claro que uma prática que não foi necessária na época do Profeta, mas cuja necessidade venha a surgir posteriormente para realizar alguma atividade religiosa e alcançar um objetivo religioso, também não pode ser considerada bid‘ah. Por exemplo, estabelecer, segundo os métodos correntes, escolas religiosas, organizações de divulgação e departamentos de pregação religiosa; elaborar a gramática árabe para compreender o Alcorão e o hadith, ou a lógica e a filosofia para responder aos opositores do Islã; ensinar armas, equipamentos e técnicas modernas de guerra para a jihad; e usar meios de transporte rápidos e convenientes: todas essas coisas, de certo modo, também são atos de adoração, embora não existissem em sua forma atual na época do Mensageiro e dos Companheiros. Ainda assim, não se pode chamá-las de bid‘ah, pois naquela época não havia necessidade de organizá-las dessa maneira. Posteriormente, porém, essa necessidade surgiu, e por isso foram adotadas; além disso, tornaram-se necessárias para a religião. Na verdade, todas essas coisas já existiam naquela época sob formas e modalidades adequadas e necessárias ao seu tempo. Portanto, hoje nenhuma delas é “bid‘ah”.

Também se pode dizer a respeito dessas coisas que, em essência, elas não são atos de adoração. Ninguém as realiza com a intenção de obter recompensa por fazê-las. Elas são meios, instrumentos ou pré-requisitos para a adoração. Isso significa que não são aquilo que se poderia chamar de “introdução de algo novo na religião”. Pelo contrário, são “coisas inovadas com o objetivo de praticar e efetivar a religião”. O que o Alcorão e o hadith proíbem é introduzir na religião, como parte da própria religião, algo novo. Inovar algo para efetivar a religião não é de modo algum proibido. Portanto, não se pode chamar essa coisa de bid‘ah, nem ela deve necessariamente ser considerada indispensável.

Versículo do Alcorão — em árabe (*********)

—Aqueles que dividiram a essência de sua religião, abriram caminhos em várias direções e se separaram em diversos grupos, nada têm a ver com você, ó Profeta.

Ao comentar este versículo, o Allama Khazen escreveu que, segundo o relato de Abu Hurayra, ele se refere às pessoas desviadas desta comunidade muçulmana. E, de acordo com outro hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que este versículo se refere aos adeptos da bid‘ah, aos céticos e aos desviados da comunidade muçulmana.

Esta discussão prova que a religião que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu de Allah, que ele próprio seguiu em sua vida prática, apresentou ao povo e ordenou que fosse seguida, em uma palavra, como termo técnico, é a Sunnah. E tudo o que lhe é contrário — seja em matéria de crença, convicção, prática ou caráter — é bid‘ah, em qualquer âmbito. Sob esse ponto de vista, “Sunnah” e “bid‘ah” são duas ideologias opostas e contraditórias, dois conjuntos de pensamentos e crenças completamente divergentes, bem como dois modos e sistemas de vida que seguem direções opostas. Elas avançam em sentidos contrários, como duas linhas retas. O que é Sunnah não é bid‘ah; o que é bid‘ah não é Sunnah. Do mesmo modo, a Sunnah jamais pode ser bid‘ah, e a bid‘ah, de nenhuma forma nem pelas palavras de ninguém, pode ser aceita como Sunnah.

 

No Alcorão da Sunna as provas

No Alcorão Sagrado, foi dito a respeito do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele):

 يَأْمُرُهُم بِالْمَعْرُوفِ وَيَنْهَاهُمْ عَنِ الْمُنكَرِ

– Ele ordena o que é reconhecido como bom (‘ma‘ruf’) e proíbe o que é reprovável (‘munkar’).

(Al-A‘raf: 157)

Os exegetas expressaram diferentes opiniões sobre o que significam “ma‘ruf” e “munkar”. Contudo, segundo uma interpretação, “ma‘ruf” significa “Sunna”, e “munkar” significa “bid‘a”. O Allama Haddadi escreveu em seu tafsir: “ma‘ruf” é a “Sunna”, e “munkar” é a “bid‘a”.

Dos hadiths da Sunna a evidência

Hazrat Imran ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Alcorão foi revelado, e o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu a Sunna. Em seguida, disse: ‘Segui-me. Juro por Allah: se não o fizerdes, certamente vos perdereis.’”

Em outras palavras, a regra, o caminho e o modelo de vida de acordo com o Alcorão são precisamente a Sunnah. O Mensageiro nobre, que a paz esteja sobre ele, apresentou e estabeleceu essa Sunnah e ordenou a todas as pessoas que a seguissem. Por fim, disse que, se essa Sunnah não for seguida, nada restará além de evidente desvio e extravio. Na realidade, esse desvio é a bid‘ah — aquilo que se opõe à Sunnah.

Hazrat Jabir ibn Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Certa vez, estávamos sentados junto do Mensageiro nobre, que a paz esteja sobre ele. Ele traçou uma linha diante de si e disse: “Este é o caminho de Allah, o Senhor dos mundos.” Depois, traçou duas linhas à direita e à esquerda dela e disse: “Estes são os caminhos de Satanás.” Então, colocou a mão sobre a linha do meio e recitou este versículo do Alcorão, cujo significado é: “Este é o Meu caminho, firme, reto e claro; portanto, segui-o. E não sigais nenhum dos outros caminhos e linhas que vedes além dele. Caso contrário, vos afastareis do caminho de Allah e vos separareis dele. Allah vos ordenou isso, para que talvez, temendo a Allah, cumprais certamente essa ordem.”

Este hadith também foi transmitido por Hazrat Abdullah ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele. Contudo, há alguma diferença entre as formulações dos dois relatos. (Darimi, Musnad Ahmad)

Em um longo hadith narrado por Hazrat Ibráz ibn Sariyata, o Mensageiro nobre, que a paz esteja sobre ele, disse: Deveis necessariamente seguir a minha Sunnah e a Sunnah dos califas bem guiados e verdadeiros. Deveis agarrar-vos firmemente a ela e permanecer seguros, mordendo-a com os dentes, para que em nenhuma circunstância ela vos escape e para que não vos desvieis nem vos separeis dela.

Explicação: No hadith acima, o Profeta nobre, que a paz esteja sobre ele, além de insistir no seguimento da sua própria Sunnah, também enfatizou o seguimento da Sunnah dos califas bem guiados. Isso porque eles seguiram plenamente a Sunnah do Mensageiro, agiram de acordo com ela e jamais fizeram algo contrário à Sunnah do Mensageiro em qualquer situação. Então, por que essa Sunnah foi chamada de “Sunnah dos califas bem guiados”? Isso foi dito porque eles agiram de acordo com a Sunnah do Mensageiro; compreenderam, a partir das palavras e ações dele, aquilo que deveriam compreender, e foi isso que adotaram. Em todas as questões, tinham grande zelo em agir segundo a Sunnah do Mensageiro e todos se mantinham afastados de contrariá-la. Faziam isso não apenas nas questões importantes, mas também nas pequenas. Quando encontravam alguma prova sobre um assunto no Alcorão e na Sunnah do Mensageiro, agarravam-se a ela e jamais a abandonavam. Naturalmente, quando não encontravam uma orientação clara sobre determinado assunto, refletiam profundamente, analisavam a questão, consultavam-se mutuamente, chegavam a uma opinião e agiam de acordo com ela. Pode surgir aqui a pergunta: se os califas bem guiados agiram segundo seu próprio entendimento, que sentido pode haver em falar da “Sunnah dos califas bem guiados”? A resposta é que havia muitas pessoas que não estavam vivas na época do Mensageiro, mas estavam na época dos califas, ou que viveram em ambas as épocas; entretanto, como posteriormente surgiram muitas situações novas, os califas bem guiados tiveram de estabelecer uma orientação para essas questões. Ao observarem isso, as pessoas daquele período poderiam ter várias dúvidas. Por essa razão, o Mensageiro nobre, que a paz esteja sobre ele, eliminou essa dúvida ao fazer essa declaração. Disse que, nas ações que eles realizassem, deveríeis aceitar que a minha própria Sunnah havia sido seguida.

A insistência em apegar-se firmemente à Sunnah e segui-la de modo constante e inabalável é extremamente intensa e firme. Isso porque essa Sunnah é o modelo prático de conduta do Profeta nobre, que a paz esteja sobre ele. Segui-la é, na prática, cumprir o Islã; e, se ela for abandonada, nada restará além de evidente extravio. Foi dito: quando a verdade fundamental é abandonada, o que resta além do extravio?

Por isso, a declaração do Mensageiro nobre, que a paz esteja sobre ele, é extremamente significativa. A última frase de um longo hadith narrado por Hazrat Abdullah ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele, é: “Se abandonardes a Sunnah do vosso Profeta, certamente vos perdereis.” Em outro hadith, ele disse: “Aquele que se afastar da minha Sunnah e não a seguir não será contado entre a minha comunidade, nem será um seguidor do meu caminho.”

Um homem começou a abater um camelo enquanto este estava sentado. Então, Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse-lhe: “Amarra o camelo e faze-o ficar de pé; depois realiza o nahr. Esta é a Sunnah de Hazrat Abu al-Qasim Muhammad, que a paz esteja sobre ele.”

Na sociedade muçulmana, as normas de conduta vigentes de acordo com a Sharia também são chamadas de Sunnah nos hadiths. O Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: aquele que, após realizar a oração do Eid al-Adha, abateu o animal, completou seu sacrifício e manteve corretamente os costumes dos muçulmanos. A “Sunnah do Mensageiro” significa o modelo e as normas de conduta do Mensageiro. Não segui-la significa adotar um modelo de conduta contrário ao seu. Portanto, aquele que pratica e segue um modelo de conduta contrário ao Mensageiro Nobre não pode, de modo algum, ser praticante do Islã; não pode ser muçulmano. De fato, este hadith prova de maneira ainda mais contundente que essa “Sunnah” não é o termo técnico da jurisprudência islâmica, nem o termo técnico dos especialistas em hadith. Nesses hadiths, “Sunnah” significa o modelo de vida apresentado pelo Mensageiro Nobre e seguido por ele na prática. E é justamente essa Sunnah que constitui o objeto de nossa discussão.

 

Significado da bid‘ah

Tudo o que é contrário a essa Sunnah é bid‘ah. O que é bid‘ah? Saiyid Jamaluddin al-Qasimi escreveu: bid‘ah significa o surgimento de algo novo na religião depois de ela ter alcançado sua plena completude. Trata-se de coisas cuja existência não estava presente na época do Nobre Profeta, nem sob a forma de uma ação prática, palavra, aprovação ou consentimento; e sobre as quais também não se encontra, à luz das normas e regulamentos da Sharia, qualquer permissão ou proibição.

Segundo essa definição, também é bid‘ah aquilo cuja existência, no âmbito das palavras, ações ou aprovações dos Companheiros, não pode ser comprovada por nenhum consenso.

Pois ninguém pode ter o direito de introduzir algo novo na religião. Na verdade, depois que a religião foi aperfeiçoada, acrescentar-lhe qualquer coisa, considerar algo novo como parte da religião e agir de acordo com isso — acreditando que se receberá recompensa por praticá-lo e temendo o castigo de Allah caso não se pratique — constitui a essência da bid‘ah. Qualquer assunto em que ocorra tal situação é bid‘ah. Pois, ao proceder assim, fica claro que se considera a religião não completa, mas incompleta, como se lhe faltassem muitas coisas. E essa concepção é completamente contrária à seguinte declaração do Alcorão.

No Alcorão Majid, Allah, o Altíssimo, declarou a respeito da religião do Islã:

Árabe

Hoje aperfeiçoei para vocês a sua religião, completei plenamente a Minha graça sobre vocês e escolhi — e elegi — o Islã como religião para vocês.

Este versículo prova de modo irrefutável que a religião do Islã é completa. Nela não há incompletude nem falta de coisa alguma. Portanto, ela é plenamente capaz de satisfazer para sempre todas as necessidades religiosas da humanidade, e os que creem nesta religião e a seguem não precisam olhar para nenhuma outra direção além dela, nem acrescentar-lhe algo externo ou retirar algo de seu interior. Pois, assim como nela foram estabelecidos meios para atender a todas as necessidades fundamentais da humanidade, nela também não há nada inútil, desnecessário ou supérfluo. Portanto, nada pode ser acrescentado a ela, nem se pode retirar dela coisa alguma. Ambas as atitudes contradizem a perfeição da religião e se opõem claramente à declaração acima de Allah. Inventar, no âmbito da adoração islâmica, cerimônias consideradas atos meritórios, que não eram praticadas na época do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e dos companheiros, ainda que pareçam extremamente esplêndidas, é claramente uma bid’ah e contraria inteiramente a declaração corânica sobre a perfeição da religião do Islã. Elas não foram instituídas naquela época justamente porque não agradavam a Allah e a Seu Mensageiro, nem eram de Seu agrado. Por isso, o Imame Malik disse: aquilo que naquela época não foi declarado e definido como ato religioso não pode hoje ser considerado ato religioso.

A introdução de bid’ahs na religião contém em si a causa da distorção e do desaparecimento da própria religião original. Se hoje forem toleradas, nos atos de adoração, regras, condições e cerimônias inventadas, tantas coisas novas serão incorporadas que, posteriormente, será impossível determinar o que é original e foi instituído pelo Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e o que é imitação, acrescentado por pessoas de épocas posteriores. Essa foi também a única causa de a religião apresentada pelos profetas ter sido distorcida e desaparecido entre as comunidades dos profetas anteriores. Elas incorporaram coisas novas, inventadas por si mesmas, à adoração instituída pelo profeta. Depois de algum tempo, não restou nenhum meio de compreender qual era a religião original.

A religião é algo concedido por Allah e apresentado pelo Mensageiro. Quando alguém acrescenta algo a ela, isso significa que Allah ou o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aparentemente não compreendiam como a religião deveria ser, enquanto essas pessoas agora compreendem — que Allah nos proteja! Assim, segundo seu próprio entendimento, querem acrescentar-lhe todas as coisas novas, corrigir suas falhas e completar sua suposta incompletude. E querem retirar dela algumas coisas para adaptá-la aos tempos. Quem lhes deu o direito de fazer isso? Foi Allah? Foi Seu Mensageiro? Ninguém lhes deu esse direito; elas o fazem por vontade própria. Tendo exatamente isso em vista, o venerável Hudhayfah ibn al-Yamān (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Não pratiqueis a adoração que os Companheiros não praticaram. (Não a considereis adoração, nem acrediteis que haja recompensa nela.) Pois os antigos não deixaram nada para os que viessem depois que estes tivessem de completar. Portanto, ó comunidade muçulmana, temei Allah e adotai e segui os costumes dos predecessores.

Nessas circunstâncias, acrescentar algo à religião ou retirar algo dela significa intrometer-se indevidamente nas determinações da Shariah, interferir ilegalmente, opor-se à declaração de Allah e insultá-Lo. A audácia de tal intromissão indevida é imperdoável.

Praticam a bid’ah e a toleram aqueles que não conseguiram submeter-se sinceramente a Allah, nem tornar-se obedientes ao Mensageiro. Na verdade, a origem da bid’ah está nos desejos do ego, no arbítrio desenfreado, na cobiça e na desobediência. São aqueles que consideram a decisão de Allah e a orientação do Mensageiro um obstáculo à satisfação dos desejos do ego que fazem, dentro da religião, acréscimos e reduções conforme sua própria vontade. Depois desses acréscimos e reduções, conferem dignidade religiosa ao resultado. E, como também consideram esse ato uma obra religiosa, não percebem sua falsidade e gravidade. Por isso, os adeptos da bid’ah jamais têm a oportunidade de arrepender-se dela. Essa bid’ah é uma coisa tão grave que chega a distorcer até as obrigações e deveres prescritos pela Shariah. No coração, deixa de existir qualquer sentimento de respeito ou consideração pelas obrigações da Shariah. À medida que as pessoas se habituam a transgredir os limites da Shariah, sua natureza original se corrompe e sua mente se torna tão tortuosa que, depois, não sentem hesitação nem constrangimento algum em destruir todos os limites e fronteiras da Shariah. Então, os atos contrários à Shariah passam a parecer-lhes muito bons.

Convém lembrar, neste contexto, qual é o verdadeiro significado de a religião do Islã ser uma legislação completa e perfeita. Na realidade, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) transmitiu detalhadamente todas as questões relacionadas à religião. Quanto a todas as questões relacionadas ao mundo, ele apresentou regras e disposições gerais. Também estabeleceu certos princípios fundamentais.

Do ponto de vista da administração prática, o sistema de shura do Islã inclui obedecer ao governante do Estado muçulmano dentro dos limites da Shariah, seguir as decisões e determinações que eles deduzirem por meio do ijtihad, facilitar as coisas, remover as dificuldades e atender às necessidades. Essas disposições são tais que, em qualquer fase de uma época em transformação, suas regras podem estruturar de modo inteiramente novo a vida e a sociedade humanas. Neste ponto, são dignas de menção as palavras de alguns hadiths. Um deles é o hadith narrado por Irbāḍ ibn Sāriyah: Árabe (********)

—Certa vez, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez diante de nós uma importante exortação e nos aconselhou. Sob seu efeito e impacto, lágrimas começaram a escorrer dos olhos dos presentes. O coração das pessoas se enterneceu e estremeceu. Dissemos: Ó Mensageiro de Allah! Fizeste uma exortação como alguém que se despede. Que instrução nos dás, então? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Estou deixando-vos estabelecidos sobre um modelo luminoso, à luz do qual até a noite é tão radiante quanto o dia. Depois da minha partida, quem quer que se oponha a ele perecerá.

Neste hadith, por exemplo luminoso entende-se o modelo, os exemplos e as orientações da vida prática e ativa do Mensageiro. E, de fato, trata-se de algo tão luminoso e evidente que, à sua luz, mesmo na escuridão repleta dos mais graves problemas da vida humana, é possível encontrar a orientação do caminho como à luz do dia. A escuridão não pode surgir em lugar algum para bloquear o caminho, nem pode tornar a vida paralisada e sobrecarregada de problemas. Isso porque o nobre Profeta veio ao mundo justamente para deixar à humanidade universal a orientação de um caminho tão luminoso. E cumpriu plenamente essa responsabilidade. Nela não restou sombra alguma de incompletude. Neste contexto, também deve ser lida a seguinte afirmação do Imam Malik:

Quem introduzir alguma inovação no Islã e a considerar boa e excelente terá presumido que o Profeta não cumpriu a responsabilidade da missão profética e da profecia, tendo traído essa confiança. Pois, se ele de fato a tivesse cumprido, então não haveria necessidade de nada além do Islã e da Sunnah. Todo o bem já se encontra neles.

Ibrahim Nakha’i afirmou: “Deus Altíssimo não lhes concedeu benefício algum que tivesse permanecido oculto ou desconhecido pelos Companheiros. E os Companheiros eram os companheiros do Seu Mensageiro e os melhores entre Suas criaturas.”

O significado das palavras de Ibrahim Nakha’i é que não se deve cometer excessos na questão da religião. Todos os muçulmanos devem seguir exatamente a religião verdadeira recebida do Mensageiro. Não é correto diminuir nada dela, nem é apropriado acrescentar-lhe coisa alguma.

É precisamente isso que é dito no seguinte versículo do Alcorão, dirigido ao Povo do Livro:

يَا أَهْلَ الْكِتَابِ لَا تَغْلُوا فِي دِينِكُمْ وَلَا تَقُولُوا عَلَى اللَّهِ إِلَّا الْحَقَّ ۚ

“Ó Povo do Livro! Não cometam excessos em relação à sua religião e não digam sobre Deus senão o que é verdadeiramente devido a Ele.”

Sobre esse ‘Povo do Livro’, foi dito:

وَرَهْبَانِيَّةً ابْتَدَعُوهَا مَا كَتَبْنَاهَا عَلَيْهِمْ إِلَّا ابْتِغَاءَ رِضْوَانِ اللَّهِ فَمَا رَعَوْهَا حَقَّ رِعَايَتِهَا  [٥٧:٢٧]

—E o monasticismo, eles mesmos o instituíram; Nós não lhes prescrevemos essa prática. Nós lhes havíamos prescrito apenas que buscassem a satisfação de Allah, mas eles não observaram essa prescrição como deveria ser observada. (Surata Al-Hadid: 27).

À luz desses dois versículos, o dever do crente é aceitar a religião exatamente como ela é. Acrescentar-lhe algo por iniciativa própria ou diminuí-la, omitindo alguma coisa, é totalmente proibido. Além disso, não atribuir às coisas e às ações da religião de Allah exatamente o grau de importância que lhes foi atribuído, dar maior importância ao que tem menor importância e menor importância ao que é mais importante — tudo isso é puro exagero. Apresentar como parte da religião algo que de modo algum faz parte dela é claramente uma prática censurável e um ato criminoso.

Portanto, se alguém praticar algo que, em sua opinião, seja uma prática da Sharia ou conforme à Sharia, embora não seja de modo algum uma prática da Sharia, terá introduzido algo novo na religião; e isso é a inovação religiosa (bid‘ah). Essa pessoa está falando com a própria boca sobre Allah de maneira completamente injustificada. Está atribuindo, em nome de Allah, aquilo que Allah não disse.

Certa pessoa perguntou a Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele):

—De que lugar devo entrar no ihram? Ele respondeu: —Entre no ihram exatamente do lugar onde o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o fez. O homem perguntou: —Se eu entrar no ihram sentado deste lado daquele lugar, haverá algum problema? Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: —Não faça isso. Temo que você seja submerso pela fitna. O homem perguntou: —Então, até mesmo exagerar um pouco numa boa ação se torna fitna?

Então Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) recitou este versículo:

فَلْيَحْذَرِ الَّذِينَ يُخَالِفُونَ عَنْ أَمْرِهِ أَن تُصِيبَهُمْ فِتْنَةٌ أَوْ يُصِيبَهُمْ عَذَابٌ أَلِيمٌ[ ٢٤:٦]

—Aqueles que se opõem às ordens e às normas do Mensageiro devem temer. A fitnah pode devorá-los ou pode alcançá-los um tormento doloroso.

Disse: “Que fitnah maior poderia haver do que considerares uma ação virtuosa algo que o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não determinou como ação virtuosa?”

Desta conversa obteve-se uma concepção clara sobre a bid‘ah, e soube-se que não se pode realizar qualquer ação adicional, mesmo considerando-a uma “ação virtuosa” ou uma “ação meritória”, se não houver fundamento para ela na Sharia original.

Como a bid‘ah é introduzida ??

Na origem e na disseminação da bid‘ah podem ser observadas quatro causas. A primeira é que o inovador a inventa por iniciativa própria e a introduz na sociedade. Depois, ela se torna geralmente difundida na sociedade. A segunda é que talvez uma pessoa erudita tenha praticado algo contrário à Sharia, mesmo sabendo que era contrário a ela; ao ver isso, pessoas ignorantes começam a pensar que tal prática não poderia deixar de ser conforme à Sharia. Assim, por causa de uma pessoa, a bid‘ah se espalha por toda a sociedade. A terceira é que pessoas ignorantes começam a praticar algo contrário à Sharia. Então os eruditos da sociedade permanecem completamente em silêncio a esse respeito; não protestam nem as proíbem de praticá-lo—não dizem que essa prática é contrária à Sharia e que elas não podem, de modo algum, realizá-la. Em tal situação, embora os eruditos tenham responsabilidade, oportunidade e capacidade, por não protestarem nem se oporem à bid‘ah ou à prática contrária à Sharia, nasce na mente das pessoas comuns a ideia de que essa prática certamente não pode ser ilícita nem ser uma bid‘ah. Se fosse, os eruditos não protestariam contra ela? Ou então dizem: “Essa prática foi realizada em determinada reunião, e tal coisa foi dita; nela estavam presentes grandes eruditos. Como eles não protestaram, deve-se entender que essa prática ou afirmação certamente é conforme à Sharia; caso contrário, eles teriam protestado.” Desse modo, na sociedade, uma prática completamente inovadora ou ilícita passa a ser conhecida e difundida como uma prática “conforme à Sharia”. A quarta é que talvez uma prática seja originalmente boa, conforme à Sharia ou semelhante à Sunnah. Porém, durante muito tempo, ela não foi mencionada nem divulgada perante as pessoas da sociedade. Então surge entre o público a ideia de que essa prática certamente não é boa: “Se fosse boa, os eruditos não a teriam mencionado até agora?” Assim, as pessoas acabam considerando uma prática conforme à Sharia como contrária à Sharia; e isso também é uma grande bid‘ah.

Há também uma causa psicológica para a disseminação da bid‘ah. Ela é que o ser humano, por natureza, deseja alcançar a paz e a felicidade eternas—o Paraíso. Por isso, esforça-se para realizar muitas ações virtuosas. Embora considere difícil cumprir devidamente os mandamentos e as determinações da religião, anseia intensamente por realizar ações meritórias fáceis. É então que cai na conspiração de Satanás. Por causa dessa cobiça e da conspiração satânica, decide apressadamente realizar algumas ações meritórias fáceis. Ele próprio passa a considerar que elas são ações muito virtuosas, ações meritórias. Pensa que, praticando-as, receberá tanta recompensa que alcançar a paz e a felicidade eternas do Paraíso não será nem um pouco difícil. Contudo, nesse momento, não possui capacidade islâmica nem demonstra especial interesse em examinar se as ações que passou a considerar meritórias são, segundo a Sharia ou na realidade, ações que trazem recompensa. Isso porque há o temor de que, com tal exame, o doce sonho de alcançar a felicidade eterna se desfaça. É disso que eles têm medo.

A propósito, pode-se dizer que não é algo anormal que a bid‘ah seja introduzida em uma sociedade religiosa em nome da religião, nem isso é algo inédito na história da humanidade. Quando a religião foi inicialmente pregada, sua base foi estabelecida sobre o conhecimento. Mais tarde, quando a maioria das pessoas da sociedade ou as pessoas influentes perderam esse conhecimento, por meio da devoção, do respeito e da atração que o povo ainda mantinha pela religião, práticas não religiosas e antirreligiosas passaram a infiltrar-se em nome da religião. As pessoas continuaram a realizar essas práticas espontaneamente, considerando-as religiosas. Como exemplo histórico, pode-se dizer que os árabes eram descendentes de Ibrahim e Ismail (que a paz esteja sobre ambos). A crença no Tawhid havia se difundido amplamente entre eles. Durante vários séculos seguintes, a religião do Tawhid prevaleceu ali; porém, depois de transcorrido um longo período, o verdadeiro e o falso misturaram-se em sua crença e em suas práticas. Com o tempo, até a idolatria e a adoração de pedras e montanhas passaram a ser amplamente praticadas como boas ações. Quando chegou o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sua condição religiosa e moral havia decaído profundamente.

Crenças e fiqh à luz da bid‘ah

Os livros de crenças e fiqh também discutiram detalhadamente a “bid‘ah”. Isso porque a bid‘ah é um ato profundamente abominável no Islã, e é dever do crente evitá-la em todos os aspectos. Em geral, foi justamente para proteger os muçulmanos dessa grande transgressão que surgiu a necessidade de discutir detalhadamente a bid‘ah nesses livros. Apresentamos aqui as declarações de algumas dessas obras.

No livro “Kashf Bajdūbī”, é dito: “Bid‘ah é algo novo introduzido na religião que não existia na época dos nobres Companheiros e dos tābi‘īn”.

No livro “Sharḥ al-Maqāṣid”, é dito: “Por bid‘ah abominável entende-se algo que foi introduzido na religião, embora não existisse na época dos Companheiros e dos tābi‘īn, nem houvesse qualquer prova da Shariah em seu apoio.”

Na obra ‘Majālis al-Abrār’, escrita pelo Allamah Shihābuddīn Afandī, é dito: Saiba que a palavra bid‘ah tem dois significados. Um é lexical, isto é, qualquer coisa nova, seja algo relacionado à adoração ou uma questão habitual. O segundo é o significado técnico segundo a Shariah. Nesse sentido, bid‘ah consiste em acrescentar ou subtrair algo da religião do Islã depois dos nobres Companheiros, sem que haja qualquer autorização, explícita ou implícita, proveniente do Nobre Profeta (s), seja por palavras ou ações.

Hadith sobre a explicação

Na parte final de um longo hadith, depois de exortar à observância da ‘Sunnah’, o Nobre Mensageiro (s) advertiu sobre a bid‘ah e disse:

 Árabe (********)

Afastai-vos das coisas continuamente novas e inventadas na vossa religião. Pois toda coisa nova e inventada na religião é bid’ah, e toda bid’ah é a origem da extrema perdição. (Ahmad)

Ao explicar a expressão deste hadith, “muhdathāt al-umūr”, o erudito Ahmadul Banna escreveu: “Muhdathāt al-umūr” refere-se às coisas e assuntos que não são reconhecidos pela shariah sob nenhum aspecto — nem pelo Alcorão, nem pela Sunnah, nem pelo ijmā‘. E isso é a bid’ah.

O hadith anteriormente mencionado, narrado por Aisha, foi citado na obra Sahih Muslim com estas palavras: “Quem praticar algo que não esteja de acordo com a shariah que apresentei e que não tenha o meu apoio — isto é, que não esteja conforme a shariah — terá certamente essa prática rejeitada.”

O Imam Shatibi disse sobre este hadith: segundo os especialistas, este hadith possui o mérito de representar um terço do Islão. Isso porque nele foram reunidos todos os aspectos da oposição aos preceitos apresentados pelo nobre Profeta, e, em contraposição a eles, está aquilo que constitui bid’ah ou desobediência.

Hazrat Umar Faruq e Hazrat Abdullah ibn Masud disseram: “Ó comunidade dos muçulmanos! Vós inventareis muitas coisas, e também serão inventadas para vós muitas coisas novas na religião do Islão. Sabei que toda coisa nova e inventada é uma perdição manifesta, e que o destino final de toda perdição é o Inferno.”

O nobre Profeta declarou:

Árabe(*******)

— Segui somente o modelo deixado pelo Mensageiro e, em hipótese alguma, pratiqueis bid’ah.

Em um discurso, ele disse:

Árabe(******)

—Saibam que a melhor palavra é o Livro de Allah. E a melhor conduta é o modo de vida apresentado por Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por outro lado, a pior coisa são as doutrinas inovadas, e toda doutrina inovada é um desvio evidente.

Na explicação da palavra «muhdathat» deste hadith, o erudito Mulla Ali al-Qari escreveu: «Muhdathat» refere-se às inovações introduzidas recentemente no âmbito da crença, da fala e das ações.

O Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele) disse: O Mensageiro Honorável (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e, depois dele, os responsáveis pelos muçulmanos estabeleceram a Sunna. Portanto, basta agarrar-se a ela e segui-la para confirmar a veracidade do Livro de Allah e cumprir plenamente a obrigação de obedecer a Allah. Esta Sunna é uma força especialmente grandiosa em defesa da religião de Allah. Ninguém tem o direito de alterá-la ou substituí-la, introduzindo outra coisa em seu lugar, nem se pode voltar a atenção para algo contrário a ela. Pelo contrário, aquele que agir de acordo com esta Sunna será guiado. Aquele que desejar obter força por meio dela será auxiliado; mas aquele que se opuser a ela perderá o modelo seguido pelos muçulmanos. Allah fará com que essas pessoas se voltem para a direção para a qual elas próprias se voltarem e as fará chegar ao Inferno. E o Inferno é, sem dúvida, o pior lugar.

A conduta seguida pelo nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é a Sunna. Também é Sunna aquilo que os dirigentes da sociedade islâmica após ele, os Califas Bem-Guiados, instituíram. Eles instituíram apenas aquilo que o Mensageiro Honorável (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia ordenado e mostrado como caminho. Não se opuseram ao modelo mostrado pelo Mensageiro, nem introduziram qualquer coisa nova na religião do Islam. Estes são os Califas Bem-Guiados.

A esse respeito, o Imam al-Shatibi escreveu: A Sunna —o método prático de conduta— estabelecida pelos responsáveis pela sociedade muçulmana após o Mensageiro Honorável (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), isto é, pelos Califas Bem-Guiados, também deve ser aceita como uma Sunna que deve ser seguida. Ela não pode ser uma inovação, e nela não há inovação, ainda que não seja conhecida de forma explícita no Alcorão e no hadith. Isso porque o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também mencionou especificamente esta Sunna.

Hazrat Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) possuía verdadeira competência no Alcorão e na Sunna. O próprio nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) testemunhou isso.

Hazrat Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) acreditava que o shirk é a negação do tawhid, e que a bid‘ah é o oposto da Sunnah. O shirk é a negação da primeira parte da fórmula “la ilaha illallah”. Já a bid‘ah é o oposto da parte final da fórmula, “Muhammadur Rasulullah”, e a sua negação no coração. Mujaddidi Al-Fasani (que Allah tenha misericórdia dele) explicou essa doutrina de maneira muito bela. Segundo ele, o shirk e a bid‘ah eliminam a Sunnah. Por isso, o destino de ambos não pode ser outro senão o fogo do Inferno.

O senhor Mujaddid não disse isso por iniciativa própria. Isso foi citado no Musnad de Ahmad, na narração de Ghaib ibn al-Harith al-Shimali: “Quando as pessoas introduzem uma bid‘ah, uma Sunnah equivalente é eliminada entre elas. Portanto, é melhor apegar-se à Sunnah do que introduzir uma bid‘ah.”

No livro de hadith Musnad al-Darimi, foi citada uma declaração de Hazrat Hisn:

Sempre que as pessoas introduzem uma bid‘ah na sua religião, Allah, o Altíssimo, retira delas uma Sunnah correspondente. Depois, não a restaura mais até o Dia da Ressurreição.

Qualquer ato sobre o qual passemos a pensar que, ao praticá-lo, Allah, o Altíssimo, ficará satisfeito, que seremos considerados servos queridos por Allah ou pelo Mensageiro, que a nossa popularidade aumentará, que por meio desse ato o sustento de nossos filhos aumentará de maneira sobrenatural, que haverá bênção nele, ou que, por meio da bênção desse ato, as nossas dificuldades e calamidades serão afastadas de modo sobrenatural: todas essas coisas são conhecidas como “religiosas”. Contudo, se não houver prova da Shariah em seu apoio, ou se os grandes Companheiros não as tiverem praticado durante a própria vida, serão bid‘ah. Do mesmo modo, se um ato permitido puder ser realizado de várias maneiras segundo a Shariah, mas escolhermos especificamente apenas uma delas e acreditarmos que somente praticando-o dessa maneira receberemos recompensa, isso também será bid‘ah.

Qiyas e Ijtihad são bid‘ah??

As fontes fundamentais da Shariah islâmica são o Alcorão e os hadiths. É com base nesses dois que se devem conhecer as decisões da Shariah sobre as novas necessidades da vida islâmica e oferecer soluções adequadas para os problemas que surgem continuamente. Por isso, na Shariah islâmica, o qiyas e o ijtihad são considerados fontes importantes da Shariah. Com a ajuda deles, o Islam consegue alcançar a capacidade e a aptidão para ser um código de vida completo para todas as épocas e para todas as pessoas, oferecendo orientação correta em todos os níveis e em todas as circunstâncias da vida muçulmana. Portanto, esses dois não são bid‘ah. Não são bid‘ah porque não constituem, de modo algum, algo novo no sistema islâmico. O próprio Mensageiro nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os Califas Bem-Guiados utilizaram plenamente ambos na formulação e na aplicação da lei islâmica.

Allama Alusi escreveu: “O qiyas e o ijtihad não são de modo algum contrários à completude da religião. Pois a completude da religião significa que ela é plenamente amadurecida e definitiva em si mesma e nas questões necessárias a ela relacionadas. Dela serão extraídas as leis, os regulamentos e os princípios necessários. Serão estabelecidos os princípios fundamentais das crenças, e serão formulados os princípios da Shariah e as regras do ijtihad. Nada disso será contrário à completude do Alcorão, isto é, da religião.”

Mujaddedi Alfesani, Shaykh Ahmad Sirhindi, disse: De modo algum se pode considerar o qiyas e o ijtihad como bid’a. Isso porque ambos apenas manifestam as provas fundamentais do Alcorão e dos hadiths, sem estabelecer no din qualquer coisa nova e adicional.

Na realidade, o qiyas e o ijtihad são concretizados por meio do ijma. O ijma também não é algo recentemente introduzido no din do Islã, e por meio dele não se comprova nenhuma opinião nova incompatível com os princípios fundamentais do Islã. Portanto, o ijma não é bid’a, e nenhuma decisão comprovada pelo ijma pode ser considerada bid’a. A base do ijma é claramente reconhecida nos hadiths.

Hazrat Ibn Mas’ud, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

– Em árabe (***)

– Aquilo que a comunidade muçulmana, em sua totalidade, decidir segundo a Sharia será aceito por Allah como bom e excelente; e aquilo que os próprios muçulmanos considerarem mau e abominável será considerado mau e abominável perante Allah. (Ibn Nazim mencionou este hadith como uma declaração de Ibn Mas’ud. Ainda assim, ele é considerado uma prova em apoio ao ijma, pois a declaração de um companheiro também é uma prova da Sharia.)

 

Ahl al- Sunna e Ahl al- Bid’a

Após esta discussão sobre a Sunna e a bid’a, a questão a considerar é: quem pertence à Ahl al-Sunna e quem pertence à Ahl al-Bid’a?

Quem são os membros da Ahl al-Sunna — isto é, quem são os seguidores da Sunna? Quem se apega à Sunna e estabelece seu modo de vida sobre ela? E quem são os membros da Ahl al-Bid’a — isto é, quem não segue a Sunna, quem segue a bid’a? Quem são os inovadores?

É necessário discutir também esta questão. Com efeito, observa-se que algumas pessoas, apesar de praticarem atos de extrema inovação e de agirem, em vários aspectos da vida, contra a Sunna, reivindicam ser exclusivamente elas próprias o “Ahl al-Sunna”. E aqueles que não apoiam suas inovações, que desejam permanecer firmemente na Sunna e estabelecê-la na vida e na sociedade, são por elas declarados inovadores (adeptos da fitra). Portanto, é necessário esclarecer, mediante análise e julgamento fundamentados em provas, quem é verdadeiramente, à luz do Alcorão e dos hadiths, Ahl al-Sunna e quem é Ahl al-Bid’a, bem como qual é o lugar de Ahl al-Sunna e onde se encontra o lugar de Ahl al-Bid’a.

Em resposta à pergunta sobre quem são Ahl al-Sunna, foi mencionada a declaração do Allama Abdur Rahman Ibn al-Jawzi. Ele disse: Não há dúvida de que os verdadeiros Ahl al-Sunna são aqueles que seguem o modelo do Nobre Profeta (s) e de seus nobres Companheiros. Isso porque foram eles que seguiram na prática o modelo da Sunna, no qual nenhuma inovação foi introduzida. Pois a introdução de novidades e o surgimento das inovações ocorreram somente após o Profeta Nobre (s) e seus nobres Companheiros.

Ele também disse: A partir da discussão anterior, tornou-se claro que Ahl al-Sunna são as pessoas que seguem a Sunna. Já Ahl al-Bid’a são aqueles que introduziram coisas que antes não existiam e que não possuem qualquer fundamento.

Em outras palavras, aqueles que praticam efetivamente a Sunna, sem diminuí-la nem acrescentar-lhe coisa alguma, seguindo exatamente o que o Mensageiro e os nobres Companheiros fizeram, disseram e praticaram, podem ser chamados de Ahl al-Sunna. Quanto àqueles que lhe fazem qualquer redução ou acréscimo, introduzem na religião muitas coisas inventadas e as apresentam como práticas religiosas, não podem ser Ahl al-Sunna. Eles são inteiramente Ahl al-Bid’a, adeptos da inovação.

De fato, não havia inovação na época dos nobres Companheiros. Eles praticavam a Sunna pura; praticavam-na na vida pessoal e seguiam-na em todos os aspectos da vida coletiva. Além disso, sempre que surgia alguma inovação, resistiam-lhe com todas as suas forças. Eles comprovaram ser verdadeiros em relação à declaração do Nobre Profeta (s). O Nobre Profeta (s) disse:

Árabe (************)

—Meus Companheiros são os depositários da confiança em relação à minha comunidade. Quando meus Companheiros partirem, sobre minha comunidade recairá a condição que lhes foi prometida.

Estabelecimento da Sunna e responsabilidade de resistir à inovação

Esta foi a advertência antecipada do nobre Mensageiro (S). Mencionando os perigos ideológicos e os conflitos que, segundo ele imaginava, poderiam sobrevir à sua ummah, o nobre Mensageiro proferiu previamente uma advertência, para que os membros da ummah permanecessem atentos a esse respeito e não permitissem que qualquer coisa desse tipo penetrasse em sua fé e crença, em suas práticas e em seu caráter. Outro hadith relacionado a este tema foi narrado por Hadrat Abdullah ibn Mas‘ud (R).

O nobre Mensageiro (S) disse: Árabe (*********)

— Cada profeta enviado antes de mim teve, entre os membros de sua ummah, hawariyyun e companheiros que adotaram e preservaram a sunnah desse profeta, cumprindo devidamente suas ordens e instruções. Depois, sucederam essa ummah pessoas que diziam coisas que não faziam e faziam coisas que de modo algum lhes haviam sido ordenadas. Nessas circunstâncias, aqueles que combaterem essas pessoas com sua força são crentes; os que as combaterem com a linguagem e a eloquência de sua fala também são crentes; e os que as combaterem com o coração também são crentes. Mas, depois disso, não se pode considerar que exista sequer um átomo de fé.  

Os sucessores posteriores contra os quais este longo hadith advertiu são precisamente os ahl al-bid‘ah. Isso porque não há concordância entre suas palavras e suas ações, e eles praticam coisas que não lhes foram ordenadas. Contudo, na sharia islâmica, ninguém pode receber autorização para praticar tal coisa como uma ação religiosa. Do contrário, a sunnah do Mensageiro não terá qualquer valor nem importância para ninguém. Por isso, foi ordenado combater precisamente essas pessoas. Portanto, combater os adeptos da bid‘ah é dever de todo crente. Quem não o fizer, segundo este hadith, não possui sequer o menor vestígio de fé.

A ordem do Islã para declarar o jihad dirige-se essencialmente contra o kufr e o shirk. Mas a razão pela qual aqui se enfatizou com tanta força a importância de combater a bid‘ah é que, embora a bid‘ah não seja kufr evidente nem shirk manifesto, não há dúvida de que ela é o início do kufr e do shirk, a semente na origem do kufr e do shirk.

Quando a bid‘ah aparece uma vez na sociedade islâmica e consegue estabelecer um espaço para si, não há absolutamente dúvida de que, em pouco tempo, ela conduzirá ao shirk e ao kufr propriamente ditos. É por isso que foi ordenado destruir ainda no broto essa semente do kufr e do shirk na sociedade islâmica; e é justamente por isso que se declarou que a fé depende da proclamação do jihad contra a bid‘ah e seus adeptos. Na verdade, considerar uma ação religiosa e praticar uma ação que não foi ordenada na religião do Islã constitui uma espécie de kufr, e nisso está contida a mentalidade do shirk. A esse respeito, os hadiths seguintes também são especialmente dignos de menção.

O nobre Profeta (S) disse:

Árabe (********)

– Quem reviver uma sunnah que morreu depois de mim receberá uma recompensa equivalente à recompensa que se obteria ao praticar essa sunnah; contudo, nada será diminuído da recompensa daquele que a praticar. Por outro lado, quem instituir uma inovação de desvio — uma inovação que Allah e Seu Mensageiro de modo algum aprovam — terá um pecado equivalente ao pecado que se cometeria ao praticá-la; contudo, nada será diminuído do pecado daquele que a praticar.

O objetivo principal deste hadith é incentivar a proteção da sociedade muçulmana contra tudo quanto aqui foi dito sobre a recompensa de reviver uma sunnah abandonada e o pecado de instituir uma inovação de desvio, bem como incentivar o estabelecimento e a consolidação da sunnah na sociedade — não permitindo que ela morra — e não permitindo, de modo algum, que a inovação seja instituída.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Árabe (**********)

– Assim como o din do Islão era inicialmente desconhecido e sem influência, a mesma situação será vista posteriormente. Boas-novas para esses desconhecidos daquele tempo. Esses desconhecidos são aqueles que, depois de mim, se esforçarão para eliminar todas as ações que corrompem a minha sunnah e restabelecerão a sunnah. (At-Tirmidhi).

Se a sunnah não estiver geralmente estabelecida na sociedade muçulmana e a inovação tiver dominado a sociedade muçulmana, então o verdadeiro din do Islão tornar-se-á ali algo desconhecido; e as pessoas que praticam o verdadeiro Islão — caso ainda reste alguma — tornar-se-ão completamente desconhecidas e sem influência na sociedade. A autoridade e o domínio sobre a sociedade passarão às pessoas da inovação e aos seus partidários. Nessa situação, aqueles que se esforçarem para restabelecer a sunnah e formar uma sociedade saudável segundo a perspectiva do din receberão boas-novas da parte de Allah e do Mensageiro de Allah. Isso porque são, na realidade, portadores de uma fé firme.

Com efeito, quando a sunnah se torna apagada e enfraquecida na sociedade, e as trevas da inovação se acumulam e dominam toda a sociedade, a única tarefa dos crentes é lutar para eliminar a inovação e estabelecer a sunnah. Ainda assim, aqueles que demonstram respeito pela inovação e pelos seus partidários cometem extrema hostilidade contra o Islão.

O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou:

Árabe (********)

– Quem demonstrar respeito por um adepto da bid’ah ou por alguém que a segue estará ajudando a destruir o Islã.

Pois a conduta do adepto da bid’ah é contrária ao Islã. Ele permanece continuamente empenhado no propósito de eliminar o Islã. Em tal situação, demonstrar-lhe respeito ou reverência significa apoiar as ações desse adepto da bid’ah e aprovar a bid’ah. Com isso, o adepto da bid’ah e seus seguidores ganharão mais coragem e determinação para destruir o Islã, tornando-se destemidos e audaciosos. É por isso que o Nobre Mensageiro declarou que essa atitude ajuda a destruir o Islã.

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Nobre Profeta declarou:

Árabe (********)

– Perante Allah, há três categorias de pessoas que são extremamente detestáveis: primeiro, aqueles que praticam atos contrários à Sharia no Haram Sagrado; segundo, aqueles que desejam introduzir, no ideal islâmico, as regras, os princípios e os costumes da jahiliyyah; e terceiro, aqueles que, sem qualquer motivo, se atrevem a derramar o sangue de um muçulmano. (Bukhari).

No hadith, são mencionados a Sunnah, as regras e os costumes da jahiliyyah, isto é, a Sunnah da jahiliyyah. E ela é totalmente oposta à “Sunnah do Mensageiro”. Portanto, que dúvida poderia haver de que aquele que deseja introduzir, entre as Sunnahs do Islã, a Sunnah ou as regras e os costumes da jahiliyyah, como se fossem uma Sunnah integrante do Islã, será extremamente detestável perante Allah e extremamente amaldiçoado por Ele?

Nesse ponto, Hazrat Hasan al-Basri (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Juro, pelo nome d’Aquele além de quem não há divindade, que o princípio da vossa Sunnah é o princípio intermediário entre os dois extremos da transgressão excessiva e da redução excessiva. Portanto, permanecei firmes nele com paciência; Allah terá misericórdia de vós. Pois os Ahl al-Sunnah — os seguidores da Sunnah — sempre foram poucos no passado e assim continuarão sendo no futuro. São aqueles que jamais se juntaram aos que cometem excessos, nem acompanharam os adeptos da bid’ah em suas inovações. Pelo contrário, permaneceram firmes na Sunnah até morrerem para encontrar Allah. Se Allah quiser, vós também sereis assim.” Hazrat Abdullah ibn Abbas disse:

Sempre que as pessoas inventaram uma bid‘ah, eliminaram uma sunnah. Assim, a bid‘ah se tornou viva e poderosa, enquanto a sunnah desapareceu.

Esses poucos hadiths apresentaram aos muçulmanos um programa de ação claro, a saber: onde quer que estejam e em qualquer situação em que se encontrem, os muçulmanos devem esforçar-se para erguer uma resistência intransponível contra a bid‘ah e seus seguidores, e para estabelecer e preservar a sunnah em sua forma e espírito originais. Se a “sunnah” desaparecer e a bid‘ah puder tornar-se dominante, então a própria existência do crente e do muçulmano perderá o sentido.

A comunidade‘ dos Companheiros é o modelo

O mundo recebeu o modelo desta sunnah do Islã do último Profeta, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Foi Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quem estabeleceu esta sunnah na prática, e seus Companheiros também permaneceram firmes sobre ela. Depois dos Companheiros, durante as épocas dos Tabi‘in e dos Tabi‘ al-Tabi‘in, a sunnah também prevaleceu e se estabeleceu na sociedade. Mas, depois disso, diversas fraquezas começaram gradualmente a surgir na comunidade muçulmana, assim como novas bid‘ahs. A condição geral da sociedade mudou profundamente. A bid‘ah tornou-se dominante e evidente, enquanto a sunnah ficou fraca e derrotada; na verdade, as pessoas passaram a aceitar a bid‘ah como sunnah e a evitar a sunnah como se fosse bid‘ah. Isso aconteceu há cerca de mil e duzentos ou mil e trezentos anos. Depois disso, a vida muçulmana começou a afastar-se gradualmente do modelo da sunnah, e, em lugar desse modelo, a bid‘ah começou a criar raízes. Sob esse aspecto, os muçulmanos de hoje ficaram presos no próprio interior do dragão da bid‘ah. Ainda hoje, porém, o modelo a ser imitado e seguido diante deles são o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus nobres Companheiros. Todos os muçulmanos devem seguir o exemplo deles. Na época do Mensageiro e dos Companheiros, a sunnah era, para todo o mundo muçulmano, um farol no mar tenebroso por toda a eternidade. Ainda hoje, é dali que se deve receber a luz e obter a orientação. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixou uma orientação para os muçulmanos desviados ao fazer uma profecia desse tipo.

A parte final de um hadith do Mensageiro é a seguinte:

Árabe (************)

— Os Filhos de Israel dividiram-se em setenta e dois grupos, e minha ummah dividir-se-á em setenta e três firqas. Todas as firqas, exceto uma, estarão no Inferno. Os Companheiros perguntaram: “Quem é essa única firqa, ó Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” Ele respondeu: “São aqueles que seguirão o meu modelo e o modelo dos meus Companheiros”.

Com base neste hadith, o sentido das palavras ditas pelo Imam Tirmidhi e pelo Imam Ibn al-Jawzi é o seguinte: este hadith prova que, por “um grupo”, entende-se a comunidade dos Companheiros. Isto é, não se trata de um Companheiro específico; aqueles que, mesmo em circunstâncias modificadas e numa época de declínio, seguirem a sunnah que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e, de modo geral, a comunidade dos Companheiros praticaram, serão os que terão direito a entrar no Paraíso. Serão aqueles que tomarão da ijma‘ dos Companheiros todos os princípios e práticas relativos à crença, às palavras e às ações exteriores.

Abu al-Aliya, o tabi‘i, disse: “Esforcem-se para preservar e manter firmemente o estado em que a sociedade muçulmana se encontrava antes de se dividir em seitas.”

Também aqui se faz referência precisamente à época dos Companheiros, pois essa foi a época em que a sociedade muçulmana era unida e indivisa.

Assim disse Asim ao transmitir a Hasan al-Basri o conselho de Abu al-Aliya: “Por Allah, ele te aconselhou corretamente e te disse exatamente a verdade.”

O Imam al-Awza‘i disse: “Permaneçam firmes na Sunnah. Adotem o mesmo princípio que adotaram aqueles que sustentam a Sunnah; digam o que eles disseram e afastem-se daquilo de que eles se afastaram. Sigam também o caminho trilhado pelos piedosos que vieram antes de vocês. Assim, vocês também receberão a capacidade de fazer aquilo que eles fizeram.”

É preciso lembrar que o Imam al-Awza‘i era um tabi‘i e que, ao falar dos salaf صالحین, referia-se à comunidade dos Companheiros. Portanto, assim como os ilustres Companheiros foram a sociedade ideal da Sunnah depois do Mensageiro, também foram eles, depois do Mensageiro, o modelo e a referência a serem seguidos por todos os muçulmanos de todas as épocas. Para os muçulmanos do mundo, são eles os reconhecidos como os salaf صالحین. Isso porque o próprio Allah testemunhou, no Alcorão, sua adesão aos ideais, e o próprio Nobre Profeta testemunhou, nos hadiths, sua qualidade de seguir o Mensageiro. Eles foram plenamente aprovados pelo verdadeiro critério do Mensageiro.

Na verdade, depois do Mensageiro, além dos ilustres Companheiros, nenhuma outra pessoa, de qualquer época ou país, por mais venerável que seja, pode ser considerada pelos muçulmanos como modelo e referência a ser seguida. Sobre tomar alguém como modelo, o venerável Abdullah ibn Mas‘ud disse: “Se alguém tiver necessariamente de seguir a Sunnah de uma pessoa, deve seguir a Sunnah de alguém que já morreu, pois não há garantia de que aquele que ainda está vivo não cairá em tribulação no futuro. E os que morreram são os Companheiros de Muhammad, que foram as melhores pessoas desta Ummah, cujos corações eram os mais virtuosos e cujo conhecimento era o mais profundo. Não havia artificialidade neles. Allah os escolheu para serem os Companheiros de Seu Profeta e para estabelecerem Sua religião. Portanto, compreendam e reconheçam corretamente sua posição. Sigam seus passos e, tanto quanto possível, adotem e absorvam seu caráter e sua conduta, pois eles estavam firmemente estabelecidos na orientação correta e sólida.”

Este é também um discurso extremamente importante de um Companheiro como Abdullah ibn Mas‘ud. Seu significado é que os ilustres Companheiros são, para as pessoas de todas as épocas, o modelo completo, perfeito e plenamente confiável. Do ponto de vista da crença, das obras e do caráter, eles alcançaram o mais elevado nível e ocuparam a mais nobre posição. Aqui, porém, não se fala de nenhum Companheiro em particular; fala-se coletivamente da comunidade dos Companheiros. É essa comunidade dos Companheiros que o muçulmano deve seguir.

Compreende-se, portanto, que, exceto o Nobre Mensageiro, de modo algum pode ser benéfico tomar uma única pessoa da sociedade humana como alguém a ser seguido exclusivamente. O Islam não ordenou isso a ninguém, seja qual for sua época e por mais venerável ou amigo de Allah que seja. Não apenas isso: no Islam também foi pronunciada uma clara proibição a esse respeito. Foi narrado por Abdullah ibn Mas‘ud: “Ninguém deve vincular sua religião a uma pessoa de tal maneira que, se ela crer, ele também creia, e, se ela cometer kufr, ele também cometa kufr. Se vocês forem necessariamente obrigados a seguir alguém, sigam aqueles que já morreram, pois uma pessoa viva, enquanto estiver viva, não pode estar livre da tribulação.”

Também aqui, por “pessoas que morreram” entende-se a comunidade dos Companheiros, e não nenhum Companheiro em particular. No Islã, a imitação cega de qualquer pessoa, exceto o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não é de modo algum apoiada. Trata-se da declaração de um Companheiro de grande dignidade, como Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud. Ele era, por um lado, um Companheiro da primeira geração e, por outro, um servo especial do Mensageiro. Portanto, para os muçulmanos em geral, o correto e confiável princípio de conduta só pode ser este: seguir apenas Allah, o Mensageiro de Allah, o Alcorão e o Hadith — em uma palavra, a Sunnah. Além disso, jamais devem apegar-se à opinião pessoal de qualquer indivíduo, nem ao seu modo de vida, caráter, costumes e comportamento, como se fossem o único modelo. Não devem reconhecer obediência incondicional a nenhuma pessoa, viva ou morta. Na sociedade humana, a obediência incondicional pode e deve ser prestada somente ao Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e a ninguém mais.

Neste ponto, é absolutamente necessário esclarecer um grande equívoco. O equívoco gira em torno de um hadith famoso.

O hadith é o seguinte: Árabe(**********)

— Meus Companheiros são brilhantes como as constelações. Qualquer um deles que seguirdes, alcançareis a orientação.

Com base neste hadith, alguns querem dizer que é possível seguir pelo caminho da orientação simplesmente seguindo, à sua própria vontade, qualquer um dos Companheiros. Contudo, por várias razões, não é razoável apresentar este hadith como prova. A primeira razão é que este hadith foi transmitido por três cadeias diferentes. Uma cadeia é: de al-A‘mash, por intermédio de Abu Sufyan, de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele). Outra é: de Sa‘id ibn al-Musayyib, por intermédio de Ibn ‘Amr. E a terceira é: de Hamza al-Jaz‘i, por intermédio de Nafi‘, de Ibn ‘Umar. Porém, segundo os especialistas em hadith, nenhum hadith foi comprovado por qualquer dessas cadeias. Citando Ibn ‘Abd al-Barr, o erudito Ibn al-Qayyim escreveu: “Ibrahim, filho de Sa‘id, narrou-nos que Muhammad, seu filho, narrou-lhe que Hamd ibn Ayyub al-Samut lhe narrou que al-Bazzar nos disse: ‘Meus Companheiros são como as constelações; qualquer um deles que seguirdes, alcançareis a orientação’”. O hadith transmitido com esse sentido é uma declaração que não foi comprovada como autêntica, proveniente do próprio Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). (A partir da narração de Hazrat Ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), citada por al-Khatib al-Baghdadi, conhece-se o contrário.)

Na avaliação dos hadiths, a importância da cadeia de transmissão é fundamental. E ninguém tem o direito de apresentar como prova da Sharia um hadith que, segundo a análise de sua cadeia de transmissão, não tenha sido comprovado como autêntico.

A Sunnah — difícil e fácil

Nós, que reivindicamos ser Ahlus Sunnah e sentimos grande orgulho ao pensar que não somos pessoas de uma seita desviada, mas sim membros da comunidade estabelecida pelo Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seguidora da Sunnah, precisamos refletir profundamente sobre até que ponto essa nossa convicção é realmente correta.

Somos ahl al-sunna, isto é, seguidores da Sunnah. A questão é: de qual Sunnah do nobre Mensageiro (s) somos seguidores? Da Sunnah difícil e penosa, ou da Sunnah fácil, suave e docemente agradável?

Não há como negar que, na vida e no caráter do nobre Mensageiro (s), reuniram-se esses dois tipos de Sunnah. Ele era um ser humano. Portanto, como ser humano, teve de realizar muitas ações necessárias para viver neste mundo, como comer, vestir-se e levar uma vida conjugal e familiar. Nesse aspecto, tudo o que fez conforme as determinações da sharia também é Sunnah. Contudo, trata-se de uma Sunnah muito fácil, suave e agradável. Praticá-la não causa sofrimento algum; pelo contrário, proporciona muito conforto e felicidade. Por exemplo: comer abóbora, comer doces, vestir roupas limpas, usar miswak, utilizar perfume e fragrâncias, casar-se, tomar mais de uma esposa, usar uma túnica longa e amarrar um turbante, deixar crescer a barba, entre outras coisas.

Mas, na vida do nobre Mensageiro (s), a verdadeira Sunnah foram aquelas ações difíceis e penosas que ele teve de realizar ao lado de seus esforços para propagar o chamado ao tawhid e estabelecer o Islã naquela sociedade politeísta e rebelde contra Deus. Nesse período, teve de sofrer com a fome, amarrar pedras ao estômago e trabalhar fisicamente sem descanso, dia e noite. Teve de suportar as torturas e os sofrimentos infligidos pelos inimigos, ferir os pés com espinhos e, ao ir a Ta’if, ter o corpo abençoado dilacerado pelas pedras lançadas pelos arruaceiros, molhar as roupas com o fluxo de sangue e, exausto, fatigado e abatido, cair inconsciente à beira da estrada. Em certa ocasião, após os habitantes de Meca romperem relações e imporem um boicote ao clã Banu Hashim, teve de permanecer continuamente por três anos na caverna de Abu Talib. Por fim, teve de abandonar a casa paterna e emigrar para Medina. Teve de combater com todo o vigor, junto dos mujahidin, contra as forças inimigas dos incrédulos, ter um dente martirizado e cavar a trincheira.

Essas ações do nobre Mensageiro (s) também são Sunnah, e seguir essa Sunnah é igualmente um dever indispensável da Ummah. No entanto, é a Sunnah de ações extremamente difíceis, árduas e que exigem esforços até o limite da resistência.

Surge naturalmente a pergunta: estamos praticando essa Sunnah? Se não a estivermos praticando — e pode-se afirmar sem dúvida que não a estamos praticando —, pode ser considerada verdadeira a nossa alegação de seguir a Sunnah do Mensageiro? O máximo que se pode dizer é: sim, de fato seguimos a Sunnah do Mensageiro, mas a Sunnah agradável, fácil e suave. Quanto à prática de qualquer Sunnah difícil, que cause sofrimento e atinja a vida e os bens, não lhe damos a menor atenção; parece até que temos medo de lembrar que também somos obrigados a cumpri-la e que, se não o fizermos, teremos de prestar contas severamente diante de Deus no Dia do Juízo.

 

Das inovações acumulado monte

A história dos muçulmanos após a época dos Companheiros prova, de modo irrefutável e indubitável, que as palavras anteriormente mencionadas de Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (ra) são verdadeiras em cada letra. Nos períodos posteriores, várias inovações passaram a prevalecer na sociedade muçulmana; a Sunnah foi gradualmente abandonada e desapareceu por completo do coração e da vida. Mas, sempre que se iniciou uma tentativa de restabelecer a Sunnah, o intenso ódio ao seguimento cego de indivíduos constituiu um obstáculo poderoso em seu caminho.

Invoca-se o nome de uma pessoa especial que, durante sua vida, talvez tenha alcançado entre o povo a fama de grande alim, pir ou wali de Deus, e diz-se, apelando para sua autoridade: “Tal venerável ou tal pir disse isto; portanto, não há nada de errado nisso.” Fazer dessa maneira o critério da verdade e da falsidade, e do certo e do errado, com base em indivíduos, é algo inteiramente novo no Islã — uma inovação manifesta. No entanto, no Islã, além do nobre Profeta (s), não é de modo algum aceitável invocar as palavras ou ações de qualquer outra pessoa. Assim, pouco a pouco, o ideal da Sunnah do nobre Mensageiro (s) foi submergindo na sociedade muçulmana, enquanto ali se ergue o monte de inovações e lixo. Essa inovação surgiu tanto nas crenças e na ‘aqidah, no pensamento e no coração, quanto nas ações e no caráter, em todos os aspectos e campos da vida prática. Esse monte quase alcança o céu. É impossível sequer enumerá-lo item por item. Contudo, se essas inovações não forem identificadas e determinadas, não haverá outro meio de proteger os muçulmanos delas e resgatá-los de sob o monte de inovações. Por isso, apresentaremos, tão resumidamente quanto possível, uma discussão sobre algumas das grandes inovações. Mostraremos como cada inovação entrou entre os muçulmanos e criou raízes, e a que extremos remotos de desorientação os levou, à luz do Islã original.

Ao final desta etapa da discussão, mencionaremos aquele famoso discurso do ‘califa bem-guiado’, Hazrat Umar ibn Abd al-Aziz, que ele proferiu diante das pessoas reunidas imediatamente após ser nomeado califa.

Eis o discurso: Sabei que, depois do vosso Profeta, não haverá outro profeta; depois do vosso Livro — o Glorioso Alcorão — não haverá outro livro; depois da Sunnah estabelecida para vós, não haverá outra Sunnah; e depois desta vossa ummah não haverá outra ummah de um profeta. Sabei que halal é somente aquilo que Allah tornou halal em Seu Livro, pela palavra de Seu Mensageiro, e assim permanecerá halal até o Dia da Ressurreição. Sabei que haram é somente aquilo que Allah proibiu em Seu Livro, pela palavra de Seu Mensageiro, e assim permanecerá haram até o Dia da Ressurreição. Sabei que não sou adepto da bid‘ah nem alguém que introduz novidades; sou apenas um seguidor do din. Sabei que não sou o árbitro final; sou apenas o executor. Sabei que não sou um acumulador de tesouros; pelo contrário, colocarei cada coisa no lugar em que fui ordenado a colocá-la. Sabei também que não sou o melhor entre vós; fui imposto sobre vós como um fardo. E, por fim, sabei que não se pode obedecer a nenhuma criatura desobedecendo ao Criador.

Na verdade, este discurso é precisamente o discurso apropriado à mais alta autoridade de um Estado regido pelos ideais islâmicos. A mensagem central deste discurso é também a mensagem central da nossa presente discussão.

Quantos tipos de bid‘ah ??

Ao final desta discussão fundamental sobre a bid‘ah, é absolutamente necessário abordar uma questão importante: a classificação da bid‘ah. A pergunta é: a bid‘ah está realmente dividida em várias categorias?

A concepção geralmente difundida na sociedade muçulmana é que existem dois tipos de bid‘ah. Uma é a ‘bid‘ah hasanah’, ou ‘boa bid‘ah’, e a segunda é a ‘bid‘ah sayyi’ah’, ou bid‘ah má. Alguns deram à segunda o nome de ‘bid‘ah mustaqbihah’, ou ‘bid‘ah repugnante e abominável’. Mas essa classificação da bid‘ah também parece ser uma bid‘ah inédita. Pois, ao dividir a bid‘ah em ‘boa’ e ‘má’, um grande número de ‘bid‘ahs’ infiltrou-se sorrateiramente no vasto sistema da crença e da prática islâmicas, portando uma licença para ser considerado boa bid‘ah. Como resultado, hoje os próprios monoteístas praticam tranquilamente atos que são, na realidade, contrários ao tawhid — atos que são claramente bid‘ah e que nenhum monoteísta deveria tolerar nem sequer por um instante.

Nesta questão, um sábio como o Allamah Badr al-Din al-Ayni também apresentou uma definição, afirmando que a bid‘ah é de dois tipos. Ele disse: a bid‘ah é de dois tipos. Se uma bid‘ah for considerada uma boa ação conforme à Sharia, então será uma ‘bid‘ah hasanah’ — uma boa bid‘ah. Mas, se for uma ação má e abominável aos olhos da Sharia, então será uma ‘bid‘ah mustaqbihah’, ou ‘bid‘ah repugnante e abominável’.

O famoso muhaddith e autor de obras, Imam al-Shawkani, escreveu: ‘Bid‘ah’ é, na realidade, o termo usado para atos e palavras recém-inventados dos quais não se encontra nenhum exemplo nas sociedades anteriores. Na terminologia da Sharia, aquilo que é contrário à Sunnah é chamado de bid‘ah. Portanto, será necessariamente condenável.

Em outras palavras, tudo o que se opõe à Sunnah é inovação. Portanto, tudo na inovação é condenável e deve ser abandonado; nada nela pode ser digno de elogio ou ser considerado bom. Por outro lado, dividir a inovação em duas partes, chamando uma de inovação boa e a outra de inovação má, é completamente infundado.

A lógica dessa afirmação é incontestável. Aquilo para o qual se pode encontrar algum fundamento ou precedente na Shariah não pode, de modo algum, ser contrário à Sunnah. E aquilo que não é contrário à Sunnah não é inovação. Quanto àquilo para o qual não se encontra nenhum precedente na era áurea do Islã nem qualquer fundamento na Shariah, não é de modo algum conforme à Shariah; pelo contrário, é justamente contrário à Sunnah e, portanto, é inovação. Nenhum aspecto disso é bom, louvável ou aceitável. Em suma, é irracional dividir a inovação em hasanah e sayyi’ah — boa e má.

Na época do Mensageiro, não se encontrou nenhum aspecto bom na inovação. Tampouco na época dos Companheiros e dos Tabi‘in; nem nos ensinamentos do Mensageiro a inovação foi dividida dessa maneira.

Como, então, essa classificação da inovação se tornou corrente na sociedade muçulmana? A resposta pode ser encontrada por meio de uma explicação detalhada de uma declaração de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele). Isso foi mencionado em um hadith. Abd al-Rahman ibn Abd al-Qari disse: Fui à mesquita com Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) durante o mês do Ramadã. Lá vi as pessoas rezando individualmente, dispersas e separadas. Em outro lugar, um homem rezava, enquanto algumas pessoas rezavam junto com ele. Então Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Penso que seria muito melhor reunir essas pessoas para rezarem atrás de um bom recitador. Depois, ele providenciou isso e organizou a oração em congregação sob a liderança de Ubayy ibn Ka‘b. Certa noite, saí novamente com Umar al-Faruq. Vi então as pessoas rezando a oração de Tarawih em congregação atrás de um imã. Ao ver isso, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que excelente inovação!” (Imam Bukhari e outros compiladores de hadith mencionaram este hadith precisamente no contexto da oração de Tarawih em congregação. Este hadith é a prova de que é permitido rezar Tarawih em congregação durante o mês do Ramadã.)

A declaração de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), mencionada no final do hadith, é justamente o argumento de muitos a favor da divisão da inovação em duas partes. A tradução literal da frase é: “Isto é uma excelente inovação”. Se uma inovação é excelente, entende-se naturalmente que outra inovação deve ser má. Pode-se, então, pensar que algumas inovações são boas e outras são más. Essa é a história básica dessa questão. Parece que, posteriormente, ao escreverem comentários sobre os hadiths, as pessoas apresentaram essas duas categorias de inovação. E foi a partir de Bukhari que essa ideia se espalhou pela sociedade em geral e se fixou na mente das pessoas. A situação agora é tal que, quando qualquer inovação é criticada ou contestada, e se exige que seja abandonada por ser uma inovação, responde-se imediatamente: “Sim, é uma inovação, mas não é uma inovação sayyi’ah; é uma inovação hasanah. Portanto, não é necessário abandoná-la.” Talvez, sob o manto da hasanah dessa inovação, uma inovação grave, completamente contrária à Sunnah, tenha sido incluída entre a Sunnah e entre as obras meritórias, adquirindo status religioso na sociedade muçulmana. Na verdade, esse é precisamente o aspecto mais perigoso da inovação. Por isso, à luz da realidade, a declaração do Mensageiro — “Toda inovação é desvio” — torna-se sem sentido. Pois, se toda inovação é desvio, nenhuma inovação pode ser orientação. Mas a divisão da inovação prova exatamente o contrário. Seu significado seria que algumas inovações também são boas. Assim, a declaração do Mensageiro — “Toda inovação é desvio” — não estaria correta (que Allah nos proteja de tal afirmação). Não pode haver exemplo mais grave de audácia do que oferecer uma interpretação contrária às palavras do Mensageiro.

Minha afirmação é que, em essência, é errado dividir a inovação nessas duas categorias: hasanah e sayyi’ah. E essa divisão também não é provada pelas palavras de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele). Isso porque o significado das palavras de Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) não é de modo algum aquilo que se imaginou. A razão é que Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) não chamou a oração de Tarawih em congregação de inovação no sentido em que inovação significa algo contrário à Sunnah. Ele não poderia tê-la chamado assim. Quem saberia melhor do que Hazrat Umar que rezar Tarawih em congregação não é de modo algum uma inovação? Isso foi praticado na época do Mensageiro. Está comprovado por hadiths autênticos que o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conduziu pessoalmente a oração de Tarawih durante duas ou três noites.

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: em árabe (*******)

— O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava rezando sozinho na mesquita. Muitas pessoas rezaram com ele; na segunda noite aconteceu o mesmo. Como resultado, um número cada vez maior de pessoas começou a participar dessa oração. Na terceira ou quarta noite, quando as pessoas se reuniram novamente como antes, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não saiu de casa. Na manhã seguinte, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse às pessoas: “Observei o que fizestes. Não fui à mesquita para a oração por uma única razão: temi que, se rezásseis essa oração em congregação dessa maneira, ela pudesse tornar-se obrigatória para vós.”

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Isto dizia respeito ao mês de Ramadan.”

Este hadith prova de forma incontestável que foi o próprio nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quem primeiro conduziu a oração de Tarawih em congregação. Ele a conduziu durante três noites consecutivas. As pessoas participavam da oração atrás dele, e ele não as proibia. Depois, deixou de conduzi-la apenas por temer que, se essa oração não obrigatória fosse realizada sob a liderança do Mensageiro, Allah pudesse torná-la obrigatória. Isso porque a revelação ainda estava descendo e a Sharia ainda estava sendo estabelecida. E a prática do Profeta é Sunnah. Como poderia ser bid’ah? [Embora o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tenha deixado de liderar a oração de Tarawih, ela não deixou de ser realizada em congregação. Ela continuou sendo realizada, embora ele soubesse disso e não a proibisse. O hadith narrado por Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) é a prova disso. Ela disse: Quando, na terceira ou quarta noite, ele não veio liderar a oração de Tarawih, na manhã seguinte dirigiu-se aos Companheiros e disse: “Vi o que vocês fizeram durante a noite — estavam realizando a oração de Tarawih. Mas apenas um temor me impediu de me juntar a vocês: o temor de que a oração de Tarawih em congregação se tornasse obrigatória para vocês.”]

[Que o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), embora desejasse realizar determinada prática, não a realizava apenas por temer que, se a praticasse regularmente, as pessoas também começassem a praticá-la regularmente e, ao ver isso, Allah pudesse torná-la obrigatória para Ele e para Seus servos, é claramente comprovado pelas palavras de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela disse: O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) gostava de realizar certas práticas, mas, apesar disso, não as realizava, apenas por temer que, se continuasse a praticá-las regularmente, elas pudessem se tornar obrigatórias para as pessoas.]

Então, por que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chamou de bid’ah a realização da oração em congregação? Ele a chamou assim no sentido literal e lexical de bid’ah, não como termo técnico. Já foi mencionado anteriormente que o sentido literal e lexical de bid’ah é “novo”. E ela não foi chamada de nova por ser uma oração que jamais tivesse sido realizada antes; foi chamada assim porque, durante a época do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a oração de Tarawih em congregação foi interrompida após dois ou quatro dias, e muitos anos se passaram depois disso. Durante o califado de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), não foi possível reintroduzir essa oração. Depois, no período de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), essa oração foi novamente instituída. Nesse sentido, não foi errado chamá-la de bid’ah, e, por isso, ela não se tornou aquela bid’ah que é contrária à Sunnah e da qual não existe nenhum exemplo na época do Mensageiro. Ainda assim, permanece a pergunta: qual é, então, o verdadeiro significado das palavras de Hazrat Umar? Segundo os muhaddithin, o significado é o seguinte: realizar a oração em congregação é uma prática excelente e magnífica, iniciada pelo nobre Mensageiro, mas que, posteriormente, durante o período de Hazrat Abu Bakr, havia sido abandonada porque as pessoas estavam ocupadas com diversas dificuldades.

Mulla Ali Qari disse o seguinte ao explicar essas palavras de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele):

Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) chamou essa prática de bid’ah considerando seu aspecto exterior. Isso porque, depois do nobre Profeta, foi a primeira vez que a oração de Tarawih em congregação foi instituída novamente. Caso contrário, considerando a realidade da questão, realizar essa oração em congregação de modo algum é bid’ah.

Aqui, é importante recordar a célebre afirmação do Imam Malik (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: Quem cria uma bid’ah no Islam e a considera muito boa declara, na prática, que Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) traiu a missão de transmitir a mensagem (que Allah nos proteja). Pois Allah disse: “Hoje aperfeiçoei e completei para vocês a sua religião.” Portanto, aquilo que não fazia parte da religião na época do Mensageiro também não faz parte dela hoje.

Minha última palavra sobre este assunto é que dividir a bid’ah em duas partes também é uma bid’ah, e, por meio dessa divisão da bid’ah, inúmeras bid’ahs graves entraram no recinto do Islam e adquiriram dignidade religiosa. Sob o pretexto de serem grandes atos de recompensa, criaram raízes profundas no seio da sociedade. Quanto mais cedo essa árvore venenosa for arrancada, maior será o benefício para o Islam e para os muçulmanos.

Bid‘ah em apoio ao pir e ao wali invocação

Os adeptos da bid‘ah geralmente invocam os sufis do Qiyam e os mestres das ordens espirituais para apoiar as práticas que eles próprios inventaram. Eles fazem passar até mesmo práticas de bid‘ah grandes e evidentes como não sendo ‘bid‘ah’, mas atos de grande recompensa. E dizem: ‘Tal wali de Allah, tal Hazrat Pir Qibla, praticou pessoalmente este ato e ordenou que fosse praticado. E, se um wali de Allah como ele praticou este ato e ordenou que fosse praticado, então ele não pode ser uma bid‘ah; certamente será um ato de grande recompensa. Caso contrário, ele o teria praticado? Portanto, deve-se considerá-lo uma sunnah.’

Como resultado de invocarem esse tipo de pir em apoio à bid‘ah, surgiram dois tipos de reação na sociedade. Uma delas é que, para saber de modo preciso e indubitável o que é sunnah e o que é bid‘ah, o que é permitido e o que é proibido, não se consulta nem o Alcorão, nem os hadiths, nem as práticas e biografias dos companheiros. Consulta-se apenas se determinado Hazrat Qibla praticou ou não esse ato. Se ele o praticou, não se sente mais qualquer hesitação em praticá-lo. Nesse caso, nem sequer se considera se aquele ou aqueles cuja autoridade é invocada agem de acordo com o Alcorão e os hadiths, ou se praticaram esse ato com base na sharia ou segundo os próprios desejos.

Tais palavras são semelhantes às palavras dos habitantes da sociedade árabe incrédula. Quando lhes foi apresentada a دعوتa para a verdadeira religião do tawhid, disseram: ‘Encontramos nossos antepassados como seguidores unidos de um determinado caminho. Ao seguirmos continuamente seus passos, alcançaremos a orientação.’

Ou seja, para eles, a única prova do que era ou não era verdadeiro consistia na autoridade dos antepassados. Não os seguiam porque tivessem seguido algum bom modelo; seguiam-nos apenas porque eram seus antepassados. Também aqui se vê o mesmo: em apoio a uma prática de bid‘ah, invoca-se apenas a autoridade do Hazrat Qibla. A base dessa invocação não é nenhuma prova da sharia; a única prova é que, segundo a sua opinião, ele é um grande wali de Allah, e o ato que praticou é o principal certificado da sharia.

Naquele tempo, em resposta às palavras acima dos árabes, foi dito no Alcorão Sagrado, pela boca dos profetas:

Dize: Se eu vos trouxer uma orientação melhor do que a orientação segundo a qual encontrastes vossos antepassados, continuareis ainda a seguir esses antepassados?

Ou seja, é espantoso que não estejam dispostos a seguir aquilo que for considerado bom e melhor como princípio. Nem sequer estão dispostos a examinar qual é o melhor princípio. Assim como, mesmo quando lhes era apresentado o melhor princípio e modelo, estavam determinados a seguir os antepassados, estes também, mesmo quando se prova com base nas evidências da sharia que determinada prática é uma bid‘ah, continuarão a praticar justamente essa prática de bid‘ah, invocando a autoridade do Hazrat Qibla.

O resultado disso é que a religião e a fé das pessoas passam a ser subordinadas aos costumes e às práticas de algum wali de Allah ou do chamado pir. Nesse caso, não se aceita qualquer argumento baseado na palavra de Allah, nem em qualquer ato ou palavra do Mensageiro. À luz do Alcorão e da Hadith, tal princípio é shirk manifesto e proibido. Esse tipo de princípio é a fonte primordial do desvio. Em tal situação, a pessoa se torna uma seguidora cega de outra pessoa; e, em vez de ser serva de Allah, torna-se serva daquele ser humano. Assim, essas pessoas não têm em sua vida qualquer oportunidade de serem servas de Allah.

Entretanto, sob a perspectiva do Islã, o papel do verdadeiro mu’min muçulmano foi plenamente descrito no Alcorão, na Hadith e na história. Em sua sociedade, somente se aceitavam argumentos baseados no Alcorão e na Hadith. Invocar qualquer indivíduo como autoridade era considerado shirk naquela sociedade. Em todas as situações difíceis, invocava-se apenas o Alcorão e a Hadith; e, quando alguma prova do Alcorão e da Hadith era apresentada diante deles, todas as disputas desapareciam, as rebeliões eram reprimidas e todas as divergências de opinião se dissipavam. Eles aceitavam isso curvando a cabeça. Não ousavam agir de modo contrário, nem consideravam que alguém tivesse esse direito. Após o falecimento do Rasule Karim, surgiram divergências e discussões entre os muçulmanos durante o período do califado. Mas, assim que uma Hadith do Rasule Karim (s.a.w.) era apresentada diante deles, todos imediatamente a aceitavam. O primeiro califa, Hazrat Abu Bakr (r.a.), declarou guerra contra aqueles que se recusavam a pagar o zakat. Houve divergência entre os Sahaba sobre essa questão. Quando, nessa ocasião, foi apresentada uma prova do Alcorão, todos aceitaram que a política adotada pelo califa era razoável. Quando se decidiu enviar uma expedição sob o comando do escravo Usama ibn Zayd, surgiu divergência entre os Sahaba. Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse: “Não posso retirar a expedição cuja decisão de envio o próprio Rasule Karim (s.a.w.) havia tomado.”

Todos aceitaram a razoabilidade dessa decisão. Na verdade, esse é o papel do muçulmano exemplar. E esse pode e deve ser o ideal permanente dos muçulmanos.

A segunda reação que se manifestou foi que o povo começou a pensar que a Shariah e a Ma’rifat (ou Tariqat) eram duas coisas completamente diferentes e independentes. Aquilo que é proibido pela Shariah seria permitido sob a perspectiva da Ma’rifat ou da Tariqat. Isso porque, por um lado, uma prova da Shariah afirma: “Isto é bid‘ah”, mas, invocando um pir como autoridade, a mesma coisa é apresentada e praticada como permitida. Como resultado, tornou-se evidente a ideia de que a Shariah e a Ma’rifat possuem normas mutuamente opostas.

É difícil expressar plenamente quão perigosa é tal concepção para a religião do Islã. Pode-se afirmar claramente que, depois disso, não há qualquer bem para a religião e a fé. Isso porque o único meio de salvar as pessoas de toda forma de desvio é a Shariah. Se até a oposição manifesta a essa Shariah for considerada permitida e puder ser apresentada como permitida, quem poderá impedir que a inundação do desvio arraste tudo para a ruína?

Por isso, queremos dizer que, no que diz respeito à Shariah, não se pode aceitar como autoridade ninguém além do Mensageiro e dos Sahaba. Além do Alcorão, da Hadith e do ijma’ dos Sahaba, nenhuma outra prova pode ser reconhecida. Nenhum muçulmano está disposto a aceitar tal autoridade. Se a aceitar, isso não será o Islã, mas alguma outra coisa.

Algumas grandes grandes bid‘ahs

Concluindo aqui a discussão principial sobre a Sunnah e a bid‘ah, na segunda etapa apresentaremos uma discussão detalhada sobre algumas grandes bid‘ahs. O fato de apresentarmos aqui alguns assuntos como bid‘ah não significa de modo algum que somente estes sejam bid‘ahs, que não existam outras bid‘ahs além deles ou que, uma vez eliminadas estas bid‘ahs, todas as bid‘ahs terão chegado ao fim e começará a era dourada da Sunnah. Não, não é isso. O significado é, antes, que, entre todas as bid‘ahs que atualmente entraram em nossa sociedade muçulmana, estas são bid‘ahs fundamentais e grandes. Mas isso não é tudo. Existem ainda outras bid‘ahs acumuladas em nossa vida. Após esta discussão principial sobre a bid‘ah, a discussão apresentada aqui pode ser considerada um exemplo. Isto é, estas poucas bid‘ahs foram discutidas aqui a título de exemplo; sob essa perspectiva, veremos que existem muitas outras bid‘ahs desse tipo em nossa vida e em nossa sociedade. É igualmente necessário extirpá-las.

Tawhídica na crença shirk das inovações

Não é apenas algo que os muçulmanos devem saber; ninguém no mundo deveria desconhecer que a crença fundamental do Islã é o tawhíd. “Tawhíd” significa a unicidade de Allah. A unicidade de Allah é universal, plena e abrangente. Sob essa perspectiva, Allah não é somente o Criador: Ele é também o único Sustentador, Proprietário, Provedor, Protetor e Legislador. Portanto, o ser humano temerá somente a Allah e prestará culto, adoração e servidão exclusivamente a Allah. Reconhecerá somente Allah como Criador, Provedor e Sustentador. Sob todos esses aspectos, somente Ele é o “Ilah”. Além d’Ele, não há nenhum ilah, ninguém é ilah e ninguém pode tornar-se ilah; e somente Ele é o Rabb. Além d’Ele, não há outro Sustentador, Desenvolvedor, Protetor ou Atendedor das necessidades. Somente Ele é o Ma‘bud. Ninguém além d’Ele tem o direito de receber culto, adoração e obediência. Portanto, somente a lei e a legislação de Allah prevalecerão sobre os seres humanos. Em resumo: quanto à Sua condição de Rabb, Ele é uno, único e incomparável; e quanto à Sua condição de Ilah, também é uno e sem associado. Allah é uno em Sua rububiyyah e Ele é uno em Sua uluhiyyah. Em nenhum desses aspectos há alguém associado a Ele, semelhante a Ele ou igual a Ele.

Isso não termina aqui. Ele é uno e incomparável em Sua essência — Sua própria realidade. Ele também é único e sem associado em Seus atributos. Sobre as criaturas — e, portanto, sobre os seres humanos — somente Ele possui, sem rival, o direito e a autoridade. Também nesse aspecto dos direitos ninguém é associado a Ele. E somente Ele possui poder e autoridade sobre a criação e sobre estes seres humanos. Também nesses aspectos Ele não tem associado algum, nem coisa alguma. Ninguém pode receber a dignidade de ser associado a Ele.

Essa crença tawhídica do Islã é comprovada pelo Alcorão e também pelos hadiths. O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), como último Profeta e Mensageiro, apresentou exatamente essa crença ao mundo. Convocou as pessoas a aceitarem esse tawhíd como crença fundamental. Todos os que aceitaram o Islã naquele tempo tornaram-se muçulmanos somente depois de crerem nesse conceito islâmico. Portanto, os Companheiros do Mensageiro também eram crentes nessa crença. Jamais demonstraram fraqueza nesse assunto e nunca concordaram em fazer qualquer concessão ou compromisso com quem quer que fosse a esse respeito. Portanto, esta é a crença tawhídica da Sunna. Esta é a Sunna da crença.

Entretanto, na crença sunita do Islã — ou, pode-se dizer, na Sunna dessa crença — surgiram atualmente muitas inovações do shirk. Na sociedade muçulmana, em geral, reconhece-se que Allah é uno e incomparável. Mas, na prática, vê-se que, embora haja crença no tawhíd da uluhiyyah de Allah, não se reconhece o tawhíd de Sua rububiyyah. Mesmo quando é reconhecido verbalmente, na prática está sendo negado. Aceitam-se muitas outras forças como Rabb — não verbalmente, mas nas ações concretas. E isso é shirk. Embora, como crença expressa em palavras, reconheçam somente Allah como Provedor, Doador da vida, Doador da morte, Criador, Possuidor de influência, Autoridade, Administrador do universo e Rabb, essas mesmas pessoas suplicam aos “santos” mortos, temem somente a eles em vez de Allah e esperam obter algo deles. Quando caem em aflição, buscam somente junto deles a libertação e esperam obter deles o progresso. Acreditam que eles podem, de modo sobrenatural, ouvir e aceitar as súplicas das pessoas, ajudar e conceder bênçãos espirituais; podem fazer e causar o bem e o mal. Com esse objetivo, buscam sua satisfação. E, para obter sua satisfação, fazem votos em seu nome, sacrificam animais, depois de sua morte prostram a cabeça em sajdah sobre seus túmulos e consideram seu dever gastar com eles uma parte de seus bens. Por todas essas razões, vê-se que os túmulos dessas pessoas são honrados e reverenciados de várias maneiras; com grandes gastos, constroem-se cúpulas sólidas sobre eles. Gradualmente, fazem-se viagens de terras distantes com o propósito de visitar os túmulos. Em um dia e horário determinados, devotos chegam de todos os lados e se reúnem, exatamente como as nações idólatras se dirigem aos seus santuários nacionais.

Do ponto de vista da crença tawhídica do Islã, dirigir súplicas a qualquer outro além de Allah — dirigindo-se a qualquer pessoa — é shirk explícito. No Islã, isso é expressamente proibido. Inúmeros versículos do Alcorão Sagrado constituem prova irrefutável disso. Em alguns versículos do Alcorão, essa proibição foi dirigida aos idólatras; em outros, foi apresentada de forma geral; e em muitos, foi pronunciada especificamente para os muçulmanos monoteístas.

Neste ponto, serão apresentados alguns versículos do Alcorão. Em um versículo, foi dito:

وَمَنْ أَضَلُّ مِمَّن يَدْعُو مِن دُونِ اللَّهِ مَن لَّا يَسْتَجِيبُ لَهُ إِلَىٰ يَوْمِ الْقِيَامَةِ وَهُمْ عَن دُعَائِهِمْ غَافِلُونَ [٤٦:٥]
-Quem pode ser mais desviado do que aqueles que invocam — fazem súplicas a — outros além de Allah, que não poderão responder-lhes nem até o Dia da Ressurreição, e que nada sabem sobre suas súplicas? (Al-Ahqaf)

O teor de outro versículo é o seguinte:

وَأَنَّ الْمَسَاجِدَ لِلَّهِ فَلَا تَدْعُوا مَعَ اللَّهِ أَحَدًا [٧٢:١٨]

-Todas as mesquitas pertencem a Allah. Portanto, não invoqueis ninguém além de Allah. (Al-Jinn: 17)

Neste versículo, o próprio Nobre Mensageiro e os muçulmanos são interpelados. Em sua exegese deste versículo, o erudito Ibn Kathir escreveu: Allah ordena a Seus servos que, nos lugares designados para Sua adoração, invoquem somente a Ele, mantenham firme Sua unicidade e não invoquem ninguém juntamente com Ele, nem cometam qualquer forma de shirk associando alguém a Ele.

Em um versículo, o próprio Nobre Profeta ﷺ é interpelado nos seguintes termos:

Não invoques nem associes outra divindade a Allah. Se fizeres isso, serás contado entre os que sofrerão o castigo.

A palavra “tu”, no versículo, dirige-se ao próprio Nobre Profeta ﷺ. Está escrito no Tafsir Fath al-Bayan: Quando Allah estabeleceu a veracidade do Alcorão e provou que ele é um Livro revelado por Ele, ordenou a Seu Profeta Muhammad ﷺ que invocasse exclusivamente a Ele e dirigisse súplicas somente a Ele. A explicação da parte final do versículo foi registrada na mesma exegese da seguinte maneira:

Foi dito ao nobre Mensageiro que, se ele fizesse isso, seria castigado. Aqui, essas palavras foram dirigidas a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Embora ele próprio fosse completamente inocente e puro do pecado do shirk, isso lhe foi dito com o objetivo de incentivar os servos crentes quanto ao tawhid e mantê-los afastados de todo tipo de shirk. Portanto, o sentido da afirmação é o seguinte: Allah disse: “Tu és o mais honrado de toda a criação, o mais elevado em dignidade diante de Mim e o mais amado; mas, apesar disso, se acreditares que existe outro ilah além de Mim, Eu também te castigarei. Portanto, reflete: qual será o destino dos demais servos se fizerem algo semelhante?”

Invocar qualquer outro além de Allah é shirk; fazer dua a qualquer outro é shirk — portanto, é completamente proibido. Isso também é comprovado pelos seguintes versículos do Alcorão.

وَلَا تَدْعُ مِن دُونِ اللَّهِ مَا لَا يَنفَعُكَ وَلَا يَضُرُّكَ ۖ فَإِن فَعَلْتَ فَإِنَّكَ إِذًا مِّنَ الظَّالِمِينَ [١٠:١٠٦]

Não invoques, além de Allah, alguém que não pode beneficiar-te nem causar-te dano algum. E, se fizeres isso, serás contado entre os injustos.

Este versículo da Surata Al-Mu’min é especialmente importante neste ponto. Ele orienta positivamente sobre a dua.

Allah, o Altíssimo, declarou:

هُوَ الْحَيُّ لَا إِلَٰهَ إِلَّا هُوَ فَادْعُوهُ مُخْلِصِينَ لَهُ الدِّينَ ۗ الْحَمْدُ لِلَّهِ رَبِّ الْعَالَمِينَ [٤٠:٦٥]

Ele é o Vivente eterno; não há ilah além d’Ele. Portanto, invocai somente a Ele, com devoção sincera e obediência exclusiva a Ele. E todo louvor pertence a Allah, o Rabb de todos os mundos.

Dizer que Allah é Vivo e Eternamente Vivente significa precisamente que, além d’Ele, todos os demais ma‘bud — aqueles que reconheceis como divindades e a quem, na prática, adorais e servis como escravos — estão, na realidade, mortos. Não há neles qualquer sinal de vida. E que benefício poderia haver em chamar os mortos, sem vida, e suplicar-lhes em tom aflitivo? Pois os mortos não têm capacidade de ouvir a du‘a, nem de aceitá-la depois de ouvi-la, nem de realizar qualquer coisa de acordo com a súplica. Somente Allah é Vivo e Eternamente Vivente; n’Ele não há extinção, decadência ou qualquer tipo de incapacidade. Portanto, somente a Ele se deve invocar; somente a Ele se deve dirigir a du‘a e a súplica — em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Não pode haver qualquer exceção a isso.

Por este versículo, ficou ainda mais claro que a du‘a somente pode ser dirigida Àquele que é o verdadeiro Ilah; e, àquele a quem a du‘a é dirigida, deve-se prestar, com dedicação sincera, obediência prática — somente a Ele. Para que a du‘a seja aceita, é necessário dedicar a Allah todos os louvores e elogios. Se não se obedecer sinceramente a Allah na vida prática e não se louvá-Lo com autenticidade, verbalmente, não haverá sentido algum em fazer du‘a a Ele. Se não estás disposto a obedecer Àquele a quem fazes a du‘a, e se o louvor e a gratidão por Ele não ressoam em teus lábios, não podes ter sequer o direito de fazer-Lhe du‘a. E por que Ele haveria de aceitar tal du‘a?

Por isso, na surata Al-A‘raf, Allah, o Altíssimo, deu uma instrução clara:

المُعتَدينَ ا يُحِبُّ ل إِنَّهُ وَخُفيَةً  تَضَرُّعً رَبَّكُم ادعوا  ۗ  العٰلَمينَ رَبُّ اللَّهُ تَبارَكَ وَالأَمرُ الخَلقُ لَهُ أَلا

— Atenção, lembrai-vos: a criação pertence a Ele, e somente o Seu mandamento prevalecerá. Allah, o Altíssimo, pleno de bênçãos, é o Senhor de todos os mundos. Invocai o vosso Senhor com voz suplicante e em segredo. Certamente, Ele não ama os transgressores. (Al-A‘raf: 55)

A profunda verdade que este versículo revela claramente diante de nós é a seguinte: sendo Allah o Criador, somente a Sua lei e o Seu mandamento devem vigorar no mundo. Este Allah, Criador e Legislador, é grandioso e possui bênçãos infinitas. Somente a este vosso Senhor deveis invocar. Deveis invocá-Lo com voz chorosa, com a cabeça humildemente inclinada e em tom aflito. E deveis invocá-Lo em segredo, com voz baixa. Por fim, afirma-se que aqueles que não reconhecem somente Allah como Criador e Legislador, que não O reconhecem como o Grandioso e Abençoado, e que não fazem du‘a somente a Ele nem O invocam exclusivamente nas aflições e dificuldades, são os transgressores. E os transgressores não alcançam o amor de Allah.

Alguns grupos consideram que a palavra ‘du‘a’ mencionada nestes versículos do Alcorão significa adoração, e que o sentido destes versículos é: não adoreis ninguém além de Allah; fazê-lo é shirk. Portanto, fazer du‘a a alguém além de Allah não seria proibido, nem seria shirk. Mas é desnecessário dizer quão errada e contrária à verdade é essa afirmação. A verdade é que, nestes versículos do Nobre Alcorão, a palavra du‘a foi usada em seu sentido real: emitir um som, chamar e dirigir uma súplica a alguém de tal modo que não haja dúvida ou incerteza quanto à aceitação da du‘a ou à obtenção daquilo que se pede. Adoração não é o sentido real desta palavra; é seu sentido ‘majazi’, ou indireto. Nem nos dicionários árabes nem na sharia seu significado é ‘adoração’, sob qualquer aspecto. Em nenhum dicionário da língua árabe seu significado foi registrado como adoração. Até mesmo nos escritos de poetas e literatos da época da Jahiliyyah não se encontra o uso desta palavra com esse sentido. Aqui apresentamos algumas citações de antigos e autorizados dicionários árabes.

Al-Jawhari escreveu em seu dicionário:

Árabe(*********)

Eu chamei fulano de tal, isto é, pronunciei seu nome em voz alta e o convidei. Fiz du’a a Allah por ele e fiz uma maldição contra ele. Da’wat significa chamar uma vez. Du’a é uma palavra no singular. Seu plural é da’wat ou du’as.

Aqui são mostradas as diferentes formas e aplicações da palavra “du’a”. Em todos os casos, o significado é súplica, chamar e convocar.

E no Al-Qāmūs foi dito:

Du’a significa uma convocação sincera em direção a Allah, inclinação e tendência. Invocai-O como é necessário invocá-Lo. Quanto aos outros, a da’wat, isto é, a du’a em favor deles, começará por eles próprios. Chamai-os, isto é, reuni-os. O nobre Profeta é aquele que convoca para Allah. O mu’azzin também é chamado de convocador.

Em suma, em nenhum livro de dicionário árabe está escrito que du’a significa adoração.

Contudo, o erudito Ibn Hajar disse: a palavra du’a também é usada no sentido de adoração. Mas esse certamente não é o sentido direto e original da palavra; será um sentido indireto.

O xeique Abu al-Qasim al-Qushayri escreveu: no Alcorão, a palavra du’a foi usada em vários sentidos, a saber: adoração, súplica angustiada, prece, fala, voz, som, louvor, entre outros.

O Allama Taqiuddin al-Subki escreveu: Apesar disso, é melhor tomar o sentido aparente da palavra ‘du‘a’ neste versículo.

Pois, em nenhum dos versículos onde a palavra du‘a é usada se encontra qualquer motivo que torne necessário adotar um sentido indireto em vez do sentido original e aparente da palavra. Todos os comentaristas do Alcorão sustentaram essa opinião. Portanto, interpretar a palavra du‘a usada no Alcorão como adoração e, aproveitando essa oportunidade, considerar permitido dirigir du‘a a qualquer poder além de Allah não é senão extrema insensatez e uma inovação manifesta.

Versículo do Alcorão:

Árabe(********)

-wa lā tad‘u min dūnillāhi mā lā yanfa‘uka wa lā yaḍurruka fa-in fa‘alta fa-innaka idhan minaẓ-ẓālimīn.

Na exegese deste versículo, o Imam Fakhruddin al-Razi escreveu:

O significado da palavra du‘a no versículo é buscar obter benefício e buscar proteção contra o dano. O significado do versículo é: se dirigires a tua súplica a alguém além de Allah, buscando benefício ou proteção contra dano, serás injusto. Pois injustiça significa colocar algo num lugar que não é o seu lugar original. E, visto que ninguém além de Allah possui qualquer poder, atribuir a alguém além de Allah a execução de qualquer poder, considerando que outro possui a capacidade de exercer poder, é indubitavelmente injustiça.

E, mesmo que o sentido real da palavra du‘a não seja ‘adoração’, a du‘a também é uma forma de adoração. Portanto, ela não pode ser dirigida a ninguém além de Allah.

Então, o que dizer das súplicas dirigidas, de várias maneiras, a diferentes poderes e pessoas além de Allah, das preces feitas para obter livramento das adversidades e prosperidade neste mundo, e dos pedidos de cura? Não há dúvida de que tudo isso constitui um politeísmo manifesto. E esse politeísmo é uma grande inovação na Sunnah monoteísta do Islã. Pois uma pessoa chama outra e dirige-lhe súplicas por algo que ninguém, além de Allah, tem — nem pode ter — poder para realizar. Chamá-la dessa maneira significa considerá-la possuidora de poderes sobrenaturais e acreditar que ela tem capacidade para realizar alguma coisa. Se não pensasse assim, de modo algum a chamaria nem lhe dirigiria súplicas. Consequentemente, em seu coração, ela não se contenta nem se tranquiliza dirigindo-lhe apenas súplicas; ao contrário, passa a desejar adorá-la também. E isso é um politeísmo manifesto.

A declaração clara do Alcorão é:

وَإِن يَمْسَسْكَ اللَّهُ بِضُرٍّ فَلَا كَاشِفَ لَهُ إِلَّا هُوَ ۖ وَإِن يَمْسَسْكَ بِخَيْرٍ فَهُوَ عَلَىٰ كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ [٦:١٧]

— Se alguma aflição ou adversidade te atingir, ninguém poderá removê-la senão Allah. Da mesma forma, se alcançares algum benefício, Ele é, certamente, Todo-Poderoso. (Al-An’am: 15)

Ou seja, somente Ele tem o poder de conceder esse benefício, e foi por Sua graça que o alcançaste. Ninguém além d’Ele poderia conceder-te esse benefício. Pois ninguém mais tem poder ou capacidade para fazer coisa alguma.

Em outro versículo, é dito:

وَإِن يَمْسَسْكَ اللَّهُ بِضُرٍّ فَلَا كَاشِفَ لَهُ إِلَّا هُوَ ۖ وَإِن يُرِدْكَ بِخَيْرٍ فَلَا رَادَّ لِفَضْلِهِ ۚ يُصِيبُ بِهِ مَن يَشَاءُ مِنْ عِبَادِهِ ۚ وَهُوَ الْغَفُورُ الرَّحِيمُ [١٠:١٠٧]

— Se Allah te infligir algum dano ou adversidade, ninguém além d’Ele poderá removê-lo. E, se Ele desejar conceder-te algum benefício, ninguém poderá impedir esse benefício que Ele te concede. Ele concede benefícios a quem deseja entre Seus servos; Ele é o Perdoador, o Misericordioso. (Yunus: 107)

Estes dois versículos — assim como inúmeros outros versículos do Alcorão e os hadiths do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) — declararam claramente que ninguém além de Allah pode causar uma aflição, e que ninguém além de Allah é capaz de afastá-la. Do mesmo modo, ninguém além de Allah pode conceder benefício a alguém. Se Ele deseja conceder benefício a alguém, ninguém pode repeli-lo nem privar essa pessoa desse benefício. Ele é o Único Soberano de todos os poderes. Portanto, é obrigatório fazer súplicas somente a Allah. É obrigatório suplicar para ser salvo de todos os tipos de aflição e é obrigatório suplicar para obter todo tipo de benefício. E essa súplica deve ser dirigida diretamente a Allah, não por meio ou em nome de qualquer outra pessoa, nem através de qualquer outro intermediário. Essa é também a exigência absoluta da crença no tawhid. Pois não há resultado nem proveito algum em suplicar a qualquer outro além de Allah.

Allah, o Altíssimo, declarou nesta passagem de maneira ainda mais clara e enfática:

وَالَّذِينَ تَدْعُونَ مِن دُونِهِ مَا يَمْلِكُونَ مِن قِطْمِيرٍ [٣٥:١٣]

إِن تَدْعُوهُمْ لَا يَسْمَعُوا دُعَاءَكُمْ وَلَوْ سَمِعُوا مَا اسْتَجَابُوا لَكُمْ[٣٥:١٤]

— Aqueles a quem invocais além de Allah não possuem nem sequer a menor coisa. Ainda assim, se os invocardes e suplicardes a eles, eles não poderão ouvir a vossa invocação. (Al-Fatir: 13–14)

Mesmo que eles ouçam a vossa súplica, é certo que não responderão à vossa invocação nem poderão aceitar a vossa súplica.

Na verdade, também aprendemos, através das numerosas súplicas citadas no Nobre Alcorão, que a súplica deve ser dirigida exclusivamente a Allah, com sinceridade, e não em nome de qualquer outra pessoa, nem fazendo de alguém um intermediário junto a Ele. Qualquer súplica mencionada no Alcorão pode ser apresentada como prova disso. Aqui, como exemplos, serão citadas algumas súplicas específicas do Alcorão.

Na primeira surata do Alcorão, Al-Fatiha, foi citada esta súplica:

اهْدِنَا الصِّرَاطَ الْمُسْتَقِيمَ [١:٦]

—Ó Allah, somente Tu nos mostras e conduzes pelo caminho reto, correto e firme.

Não fomos ensinados a fazer uma súplica assim: “Ó Allah! Por intermédio de tal pir, mostra-nos o caminho reto, correto e firmemente estabelecido.”

As últimas aias da Surata Al-Baqara também são súplicas ensinadas por Allah. Nelas, em nenhum momento se ensina a suplicar diretamente a alguém além de Allah, nem a suplicar a Allah por intermédio de alguém. Nesse contexto, também é significativa a súplica de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele). Quando construíam a Caaba, ele e Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) fizeram a seguinte súplica:

رَبَّنَا تَقَبَّلْ مِنَّا ۖ إِنَّكَ أَنتَ السَّمِيعُ الْعَلِيمُ [٢:١٢٧

رَبَّنَا وَاجْعَلْنَا مُسْلِمَيْنِ لَكَ وَمِن ذُرِّيَّتِنَا أُمَّةً مُّسْلِمَةً لَّكَ وَأَرِنَا مَنَاسِكَنَا وَتُبْ عَلَيْنَا ۖ إِنَّكَ أَنتَ التَّوَّابُ الرَّحِيمُ [٢:١٢٨]

—Ó Allah! Aceita a nossa súplica. Tu ouves tudo e sabes tudo. Ó nosso Allah, faz de nós dois muçulmanos, submissos a Ti. E faz surgir, entre os nossos descendentes, uma comunidade que seja submissa a Ti. Ó Allah, ensina-nos as regras e os procedimentos de todos os nossos atos de adoração — do hajj e do sacrifício — e aceita o nosso arrependimento. Certamente, Tu és Aquele que aceita o arrependimento.

Na verdade, o servo só pode expor a Allah as tristezas, dores e sofrimentos que traz no coração; deve dirigir-se exclusivamente a Ele. Pois, assim como essas tristezas e sofrimentos surgiram por permissão de Allah, somente Ele tem o poder de removê-los. Quando Hazrat Yaqub (que a paz esteja com ele) perdeu o filho, não apresentou sua profunda dor a ninguém neste mundo, nem a algum pir ou ocupante de um assento espiritual; falou somente com Allah.

Suas palavras naquela ocasião foram citadas no Alcorão Majid nestes termos:

Árabe (****)

—Apresento e exponho minhas aflições, dores e preocupações somente diante de Allah.

A súplica do profeta Moisés foi proferida nos seguintes termos:

—Árabe (******)

—Ó Allah! A Ti pertence todo louvor; a Ti somente apresento todas as queixas; somente a Ti peço ajuda; somente a Ti suplico. Somente em Ti confio. Pois ninguém, além de Ti, possui capacidade, poder ou força para fazer qualquer coisa.

O próprio Allah elogiou o profeta Zacarias e sua esposa, dizendo:

—Árabe (******)

-Eles eram entusiastas, diligentes e ativos em toda boa obra. Eles invocavam somente a Mim — somente a Mim dirigiam suas súplicas — com interesse, entusiasmo, temor e apreensão. Na verdade, estavam sempre temerosos diante de Mim.

A política do próprio último Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), também era essa. Não havia nenhuma exceção a isso. Ao ver o pequeno número de seus companheiros na Batalha de Badr, ele voltou-se para Allah, ergueu ambas as mãos e fez esta súplica:

-Árabe (******)

-Ó Allah! Cumpre hoje a promessa que me fizeste. Ó Allah! Se destruíres este pequeno exército, portador do Islã, então não haverá ninguém no mundo para Te adorar.

Logo depois disso, foi revelado o versículo de Allah:

إِذْ تَسْتَغِيثُونَ رَبَّكُمْ فَاسْتَجَابَ لَكُمْ أَنِّي مُمِدُّكُم بِأَلْفٍ مِّنَ الْمَلَائِكَةِ مُرْدِفِينَ [٨:٩]

-Quando implorastes socorro ao vosso Senhor, Ele vos respondeu, aceitando vossa súplica e vosso clamor. E disse: Sim, Eu vos ajudarei enviando sucessivamente mil anjos. (Al-Anfal: 9)

Este versículo também prova que Ele só aceita a súplica quando o clamor é dirigido exclusivamente a Allah, sem qualquer intermediário, meio ou intercessor; caso contrário, Ele não tem obrigação alguma de aceitar a súplica de ninguém. Ninguém pode obrigá-Lo a isso. Para esclarecer ainda mais a quem se deve dirigir a súplica, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou: Cada um de vós deve pedir somente a Allah todas as suas necessidades. Mesmo que a tira do sapato de alguém se rompa, deve pedir isso somente a Ele. Se Ele não conceder, ninguém poderá concedê-lo.

O ensinamento de Allah e o ensinamento do Mensageiro também são estes: em tempos de aflição pessoal e coletiva, deve-se suplicar unicamente a Allah; tomar outra pessoa como meio ou invocar alguém é completamente contrário a este ensinamento e à Sunnah do Islam. Se os profetas e mensageiros suplicavam unicamente a Allah em todos os seus assuntos e não buscavam ajuda de ninguém mais nesse sentido, por que nós, muçulmanos comuns, haveríamos de depender de outra pessoa, tornar-nos dependentes dela ou tomá-la como meio? Afinal, esses profetas e mensageiros são nosso modelo eterno. Assim como suas ações devem ser seguidas por nós, também devem ser seguidos seus princípios e métodos de atuação. Além disso, Allah, ao ensinar-nos essas súplicas, ordenou-nos igualmente que nos voltássemos para Allah e que suplicássemos somente a Allah.

É claro que não se pode negar que, durante a vida do Profeta (que a paz esteja com ele), os muçulmanos daquele tempo suplicavam a Allah, tomando-o como meio, para serem salvos das dificuldades. Há uma menção clara disso nos hadiths. Mas isso ocorreu durante a vida do Mensageiro, quando o próprio Mensageiro estava presente entre as pessoas como alguém que suplicava. Disso fica provado apenas que, durante a vida do Mensageiro, era permitido suplicar tomando-o como meio. Contudo, depois do falecimento do nobre Mensageiro, os companheiros jamais o tomaram como meio ao fazer súplicas. Não se tomou como “meio” uma pessoa que havia morrido e que não participava pessoalmente da ocasião da súplica. Neste ponto, há ainda dois outros versículos do Alcorão Sagrado que devem ser considerados. Ao descrever os servos virtuosos, Allah disse na Surata As-Sajdah:

تَتَجَافَىٰ جُنُوبُهُمْ عَنِ الْمَضَاجِعِ يَدْعُونَ رَبَّهُمْ خَوْفًا وَطَمَعًا وَمِمَّا رَزَقْنَاهُمْ يُنفِقُونَ [٣٢:١٦]

— Seus flancos e costas permanecem afastados dos leitos confortáveis; eles invocam seu Senhor, mantendo temor e esperança n’Ele. E gastam, no Meu caminho, daquilo que lhes concedemos.

Neste versículo, a expressão “yad‘una rabbahum khawfan wa tama‘an” merece atenção especial. Aqui se afirma claramente que aqueles que realmente creem nos versículos de Allah temem somente Allah e depositam esperança unicamente n’Ele, que é seu Senhor. Em sentido contrário, eles não temem ninguém além de Allah nem depositam esperança em ninguém. Mesmo quando há motivo para temer, invocam somente Allah, suplicam unicamente a Allah e não suplicam a ninguém além de Allah. Do mesmo modo, esperam obter qualquer coisa somente de Allah e, por isso, suplicam a Ele. Eles não esperam obter coisa alguma de ninguém além de Allah; quando necessitam de algo, suplicam e rogam unicamente a Allah por isso.

Além disso, na primeira parte foi mencionada a oração, e na parte final, a súplica. O Imam Fakhruddin Razi escreveu: a súplica e a oração são, em seu sentido verdadeiro, a mesma coisa.

Ou seja, assim como a oração não é realizada para ninguém nem dirigida a ninguém além de Allah, também não se pode fazer súplica a ninguém além de Allah.

Há ainda outro versículo:

Árabe(*******)

— Poderá o destino daquele que é obediente a Allah — que cumpre somente a ordem de Allah —, que se prostra diante de Allah à noite, teme a Outra Vida e espera unicamente a misericórdia de Allah, ser como o dos mushriks?

Isso significa que aquele que possui essas qualidades não é mushrik, mas monoteísta. E aquele que não possui essas qualidades, ou que carece de qualquer uma delas, tornar-se-á mushrik na realidade. Por exemplo, se alguém, em vez de obedecer a Allah, obedece a alguma força criada por Allah; se não teme a Outra Vida; se não espera a misericórdia de seu Senhor; ou se, em lugar de Allah, alimenta a esperança de alcançar a misericórdia e o favor de outra pessoa — segundo a declaração deste versículo do Alcorão, esse será um mushrik. Portanto, pedir ajuda a qualquer outro além de Allah não pode, de modo algum, ser permitido segundo o Alcorão.

Nesta etapa final da discussão, considero necessário citar aqui, como prova, duas ou três palavras do Shaykh Abd al-Qadir al-Jilani (que Allah tenha misericórdia dele). Logo no início de sua obra ….., ele escreveu: “Todo louvor pertence somente a Allah, com cujo louvor todos os livros começam e com cuja recordação todas as palavras devem começar. Pelo mérito de Seu louvor, os habitantes do Paraíso entrarão no Paraíso. Ele é Aquele por cuja menção todos os males são curados; em Seu nome, toda preocupação, tristeza e aflição desaparecem. Nos momentos de felicidade e tristeza, de alegria e pesar, é diante d’Ele que se fazem súplicas em tom aflito e entre lágrimas. Sua essência é tal que, apesar da diversidade das palavras e das línguas, Ele ouve o chamado de todos os que suplicam; somente Ele aceita a súplica dos aflitos atingidos pela adversidade.”

Em sua obra ‘Fath al-Ghayb’, ele escreveu: “Nosso choro e lamento, nossas súplicas e nosso retorno, em todas as situações, devem dirigir-se somente a Allah, que é nosso Senhor, nosso Criador e nosso Sustentador. Ele nos alimenta; somente Ele nos dá de beber; somente Ele nos beneficia; somente Ele é nosso protetor; somente Ele é nosso guardião. Nossa vida está em Suas mãos.”

“Portanto, tua súplica deve ser dirigida e, para satisfazer tua necessidade, deves chamar somente Allah, somente a Allah; Ele será teu único Doador e será teu objetivo.”

“É amaldiçoado aquele que deposita sua confiança em uma criatura semelhante a si mesmo.”

Enquanto o Shaykh Jilani jazia em seu leito de morte, seu filho Abdul Wahhab disse-lhe: “Dê-me algum conselho que eu possa seguir e praticar depois de sua morte.”

Então ele disse: é vosso dever temer Allah e não temer ninguém além de Allah; não pedir nada a ninguém além de Allah, nem esperar receber algo de qualquer pessoa. Confiai todas as necessidades somente a Allah. Não depositareis a menor confiança em ninguém além desse único Allah, nem tomareis ninguém como apoio ou dependência. Desejareis receber tudo somente Dele. Não depositareis confiança em ninguém além de Allah. Apegai-vos somente ao tawhid, apegai-vos somente ao tawhid, apegai-vos somente ao tawhid. Todos estão plenamente de acordo quanto a isso.

A palavra final nesta questão é que, se o único que atende às súplicas é Allah, o Altíssimo, e se Ele mesmo ordenou que se Lhe suplique diretamente, então suplicar a qualquer outro ou fazer de outra pessoa um intermediário na súplica não é senão uma afronta contra Allah. Aqueles que ordenam isso não são apenas inovadores; estão claramente envolvidos no shirk e são propagadores do shirk. Introduzem o shirk na crença tawhídica do Islã.

Com efeito, a exigência inequívoca do Islã é negar claramente que qualquer outro além de Allah seja objeto de adoração ou realizador sobrenatural das necessidades, e firmar a convicção de que somente Allah, o Altíssimo, é o único e incomparável objeto de adoração, sem atribuir-Lhe qualquer associado. Esta é a verdadeira crença tawhídica e o significado da primeira parte da kalima tayyiba: “la ilaha illallah”. Depois, deve-se reconhecer Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como Mensageiro de Allah, o Altíssimo. Isto é, no modo de viver, a única e última pessoa por meio de quem se pode conhecer a satisfação de Allah, o Altíssimo, é Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Portanto, também se deve recusar aceitar quaisquer outras regras e métodos de vida que não tenham sido transmitidos por Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Esse é o significado da segunda parte da kalima.

Os profetas e mensageiros anteriores também ensinaram isso às suas comunidades. Mas é indubitável que, posteriormente, elas se desviaram e mergulharam no shirk. Por isso, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu advertências muito severas contra o desvio para o shirk e a inovação, que contradizem essas duas partes da kalima. Pois, se alguém mergulhar no shirk por qualquer um desses aspectos, inevitavelmente irá para o Inferno.

A lei da observância do shirk–— inovação

Na crença tawhídica do Islã, reconhece-se a unicidade e a incomparabilidade de Allah em aspectos como a criação do universo, seu sustento e cuidado, a provisão e o direito de receber súplicas e adoração. Do mesmo modo, em todos os níveis e áreas da vida prática humana, deve-se obedecer irrestritamente somente a Allah. O único que tem o direito de receber essa obediência dos seres humanos é Allah, o Altíssimo; ninguém além de Allah possui esse direito, assim como tudo no universo, até suas menores partículas, obedece somente a Allah. Além disso, assim como as leis e os decretos sobre tudo no universo pertencem exclusivamente a Allah, também o direito absoluto de estabelecer leis para a vida humana, em todos os seus aspectos e áreas, pertence somente a Allah. Ninguém além de Allah tem o direito de impor leis sobre os seres humanos criados por Allah. E o ser humano não pode aceitar nem cumprir a lei de ninguém além de Allah. Se o fizer, isso será inteiramente uma usurpação de autoridade, uma injustiça e uma opressão; será claramente shirk.

Na verdade, somente Ele deve estabelecer as leis para os seres humanos, e estes devem cumprir, em todos os aspectos e áreas de suas vidas, apenas as leis dadas por Ele. De modo algum devem praticar algo contrário às leis que Ele deu. Pois ninguém além de Allah tem, nem pode ter, o direito de governar os seres humanos — em outras palavras, de criar e impor leis. A questão fundamental é: a quem você concede o direito de elaborar leis para você, que você as cumpra e esteja disposto a cumpri-las, e a quem você não concede esse direito?

Se você concede esse direito somente a Allah, então sua crença no tawhid de Allah está completa; mas, se concede esse direito a qualquer outro — a uma pessoa ou a uma instituição — ou considera que ele possui esse direito, então, na realidade, esse outro é o seu deus, e você é seu servo e escravo. Porém, este último estado é, sem dúvida, o estado do shirk. É exatamente isso que foi declarado no Nobre Alcorão nos versículos a seguir.

Na ayah da Surata Al-An’am, foi dito pela boca do Nobre Mensageiro:

مَا عِندِي مَا تَسْتَعْجِلُونَ بِهِ ۚ إِنِ الْحُكْمُ إِلَّا لِلَّهِ ۖ يَقُصُّ الْحَقَّ ۖ وَهُوَ خَيْرُ الْفَاصِلِينَ [٦:٥٧]

—Aquilo por que vos apressais tanto não está comigo. Ninguém tem o direito de decidir e decretar em todos os assuntos, exceto Allah. Ele declara a verdade e é o melhor dos que decidem.

A ayah da Surata Yusuf diz:

Árabe(*********)

—Ninguém, exceto Allah, possui o direito supremo de governar e elaborar leis e normas. Esse mesmo Allah decretou: “Ó seres humanos, não sereis servos de ninguém; sereis servos somente d’Ele.”

Na exegese desta ayah, o Allamah Ibn Kathir escreveu: Dar ordens, intervir, querer e possuir ou exercer autoridade absoluta — tudo isso pertence exclusivamente a Allah. Ele ordenou definitivamente aos Seus servos que não prestassem culto, adoração ou servidão a ninguém além de Allah, o Único.

Na ayah acima mencionada, por um lado, fala-se do ato de governar e, por outro, da servidão. Aquele cuja ordem é obedecida é, na prática, aquele a quem se presta servidão. Obedecer, aceitar e seguir a lei, as ordens e proibições, e o halal e haram de alguém é, na terminologia da Shariah, ibadah. Portanto, reconhecer somente Allah como o Único Legislador nesse assunto é crença e prática do Tawhid. Conceder esse direito a qualquer outro, nesse aspecto, seria shirk manifesto.

O versículo a seguir também declarou exatamente isso.

مَا لَهُم مِّن دُونِهِ مِن وَلِيٍّ وَلَا يُشْرِكُ فِي حُكْمِهِ أَحَدًا [١٨:٢٦]

—Para as pessoas, não há nenhum wali além de Allah, e Ele não associa ninguém a Si na elaboração e aplicação de Seu mandamento.

Aqui, a palavra ‘wali’ foi usada precisamente no sentido de ‘ordenador’ e ‘legislador’. E o significado de “não há nenhum wali além de Allah” é que, além de Allah, não existe nem pode existir ninguém que ordene, legisle ou possua senhorio e autoridade. É isso que foi declarado neste versículo. Essa afirmação foi reforçada de modo ainda mais definitivo no final do versículo, com estas palavras: no que diz respeito ao Seu mandamento, Ele não associa ninguém a Si. Ou seja, como legislador, Allah é Único, singular e incomparável. Ele não concedeu a ninguém o direito, por si próprio, de dar ordens às pessoas e promulgar leis para elas. Da mesma forma, às pessoas também não foi concedido o direito de aceitar alguém como ordenador e de cumprir leis dadas por qualquer outro. Se as pessoas concederem a alguém tal direito, estarão cometendo shirk contra Allah. Isso será uma usurpação de um direito. Pois Ele próprio não concedeu a ninguém, além de Allah, esse direito sobre a criação de Allah; então, que direito poderia ter qualquer outro de dar ordens à criação de Allah ou de ser aceito como ordenador? Allah jamais perdoa o pecado do shirk. Os demais pecados constituem uma questão distinta.

Foi dito:

إِنَّ اللَّهَ لَا يَغْفِرُ أَن يُشْرَكَ بِهِ وَيَغْفِرُ مَا دُونَ ذَٰلِكَ لِمَن يَشَاءُ ۚ

—Se houver shirk contra Allah, Ele não o perdoará; quanto aos demais pecados, perdoará aquele a quem quiser. (An-Nisá: 116)

Na realidade, na aqidah tawhidista do Islã, isto é a Sunna. As trinta partes do Alcorão Sagrado estão inteiramente dedicadas à explicação dessa crença. O Nobre Profeta (s) pregou precisamente essa crença e, com base nela, conduziu todo o seu movimento de da‘wah e de estabelecimento do Islã. As pessoas daquela época compreenderam exatamente isso a partir da crença que ele pregava e, ao aceitarem essa crença, tornaram-se muçulmanas. Em uma palavra, esta é a crença fundamental do Islã e, com base nela, o Nobre Profeta (s) edificou uma sociedade e um Estado completos.

Foi declarado em um versículo:

Árabe(********)

-O direito de elaborar e promulgar mandamentos, leis e normas é exclusivamente de Allah, o Altíssimo.

Allah ordenou ao Seu amado Profeta:

إِنَّا نَحْنُ نَزَّلْنَا عَلَيْكَ الْقُرْآنَ تَنزِيلًا [٧٦:٢٣]

فَاصْبِرْ لِحُكْمِ رَبِّكَ وَلَا تُطِعْ مِنْهُمْ آثِمًا أَوْ كَفُورًا [٧٦:٢٤]

-Certamente, Nós revelamos o Alcorão. Portanto, persevera na observância do mandamento de Allah; não obedeças a nenhum pecador ou incrédulo em detrimento disso, nem sigas a ordem que ele der.

O significado de, logo após mencionar a revelação do Alcorão, ordenar que se persevere na observância do mandamento de Allah é que o Alcorão é o Livro que contém os mandamentos de Allah. Somente seguindo este Livro é que se obedecerá ao mandamento de Allah. E perseverar em cumpri-lo significa limitar-se a obedecer ao mandamento de Allah e não obedecer ao mandamento de mais ninguém.

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse com suas próprias palavras:

Árabe(*******)

— ninguém tem o direito de desobedecer a Allah ao obedecer à criação.

Isso significa que, fundamentalmente, a obediência é devida pelos seres humanos somente a Allah. O ser humano foi ordenado a obedecer somente a Ele. Mas, se em algum caso for necessário obedecer a outra pessoa, ou surgir a necessidade de seguir a lei e as normas de outra pessoa, o que se poderá fazer? A resposta está nestas palavras do Mensageiro. O significado disso é que se pode obedecer a alguém além de Allah somente sob uma condição: quando se obedece a outra pessoa, isso não deve transformar o verdadeiro e fundamental direito de ser obedecido em desobediência a Allah. Se isso ocorrer, de modo algum será permitido obedecer a outra pessoa.

A ciência do fiqh também nos apresenta exatamente essa mesma ideia, de várias formas e em diferentes expressões. No livro de usul al-fiqh ‘Nur al-Anwar’, está escrito:

O que se compreende da análise do livro Tawjih é que, para cada ordem, são necessários três elementos: (1) o legislador, (2) aquele a quem a ordem é dada e (3) o assunto sobre o qual a ordem é dada. Portanto, o legislador é Allah, a ordem é dada ao ser humano obrigado a cumprir a Sharia, e a ordem é cumprir a Sharia.

No livro ‘Tawjih’, a questão é apresentada de forma ainda mais clara, da seguinte maneira:

Na segunda parte do livro, será discutida a questão da ordem. Para uma ordem, é indispensável um legislador, e o legislador é Allah, o Altíssimo, não o conhecimento, a razão e a consciência do ser humano.

Foi declarado: o حکم só pode pertencer a Allah. Sobre isso, todos os imames estão plenamente de acordo.

É isso que se prova pelas três evidências fundamentais da Sharia islâmica: o Alcorão, o Hadith e o ijma. Isto é: ninguém, além de Allah, tem o direito de emitir حکم. Uma pessoa que crê no tawhid de Allah não pode reconhecer ninguém, além do Deus único, como صاحب do حکم, legislador ou determinador do que é permitido e proibido. Se o fizer, isso será shirk. Este também era o credo e a prática dos muçulmanos durante o período dos Khulafa Rashidun, depois do Mensageiro nobre.

Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu a Hazrat Abu Musa Ash‘ari uma carta estabelecendo a política relativa à condução da administração islâmica:

Estabelecer um sistema judicial baseado na Sharia é uma obrigação religiosa incontestável e uma Sunnah que deve ser seguida.

Contudo, posteriormente, essa concepção fundamental do tawhid na sociedade muçulmana — que, em nossa língua, podemos chamar de significado político do credo do tawhid — começou a enfraquecer. Por fim, chegou um dia em que os muçulmanos começaram a considerar, no Din do Islã, a religião e a política como duas coisas separadas e sem qualquer relação entre si; como consequência dessa atitude, aceitaram a autoridade dos líderes religiosos no campo da religião. Passaram a considerar necessário obedecer não somente ao حکم de Allah, mas também ao حکم do líder religioso, isto é, do pir sahib. Começaram a considerar que os aspectos mais importantes da vida — a política, a organização social e as atividades econômicas — estavam fora do âmbito do Islã. Nesses campos, aceitaram também as normas dos governantes políticos. Dava-se importância ao fato de que somente uma pessoa religiosa deveria dirigir a oração, mas, na sociedade, no Estado e em outros campos, não se hesitava nem um pouco em reconhecer a liderança dos fasiq-fajir, isto é, dos inimigos do Islã; isso não era considerado contrário ao Islã. Além disso, aqueles que, em sua vida pessoal, praticavam a religião com grande seriedade — e consideravam que isso era necessário —, quando começavam a atuar na política, praticavam nela uma política extremamente não islâmica, uma sociabilidade extremamente contrária à Sharia e negócios e transações comerciais realizados de modo claramente haram. Isso acontecia porque, nesses campos, não estavam dispostos a conceder a Allah o direito de emitir حکم, nem conseguiam considerar que deveriam obedecer ao حکم de Allah também nessas questões. Considerar a religião e a política, ou a religião e a economia, etc., como separadas e sem relação entre si é a essência do secularismo moderno; e, no aspecto social e político do credo tawhidi do Islã, isso constitui uma inovação extremamente perigosa. Nesse estágio, as pessoas religiosas da sociedade começaram a propagar que era uma obrigação estabelecer uma relação de pir para alcançar Allah. A outra classe de pessoas começou a considerar compatíveis com o Islã até mesmo a monarquia, o reinado e o sistema de governo ditatorial. Na vida prática, colocaram os líderes fasiq-fajir, os reis e monarcas e os ditadores exatamente no lugar de Allah no que diz respeito ao governo e à aplicação das leis. Por isso, divulgaram o hadith do Mensageiro: “Os sultões são semelhantes à sombra de Allah”. Estabeleceram os reis, monarcas e líderes fasiq-fajir como dignos de honra igual à de Allah sobre a sociedade humana. No que diz respeito à obediência efetiva dos muçulmanos, tornaram o alim e o pir, no âmbito religioso, e o rei, o monarca, o líder político e o ditador, nos assuntos mundanos, equivalentes a Allah. Assim como Allah promulga Suas próprias leis e normas para o povo, passaram a considerar que os líderes religiosos ou pirs-buzurg, assim como os reis, monarcas e autoridades do Estado, também tinham o direito de promulgar leis e normas conforme sua própria vontade. Assim, foi possível a infiltração de uma grande inovação tanto no sistema religioso islâmico quanto no campo da política mundana. Como resultado, ao reconhecerem a autoridade absoluta dos líderes religiosos, isto é, dos pirs e buzurg, na religião tawhidi de Allah, e dos políticos nas organizações políticas e sociais, estabeleceram uma inovação enormíssima de shirk. Mais tarde, gradualmente, chegou um dia em que começaram a considerar obrigatório obedecer às leis e normas elaboradas pelos reis, monarcas e autoridades do Estado, assim como é obrigatório obedecer à lei de Allah, e passaram a considerar que obedecer ao حکم do pir era tão obrigatório quanto obedecer ao حکم de Allah. Começaram também a acreditar que desobedecer-lhes era um pecado do mesmo modo que desobedecer a Allah. (Precisamente por essa razão, também não é permitido reconhecer simultaneamente dois imames — um chefe religioso e um chefe de Estado. Reconhecer um imam-pir religioso e um imam-rei ou ditador estatal é contrário à Sharia.)

Entretanto, de acordo com as instruções da Sharia, seu dever era estabelecer um sistema de Estado islâmico e, para isso, nomear um imam idealista islâmico, isto é, um governante do Estado. Com base no versículo do Alcorão “Farei um khalifa na Terra”, o Imam Qurtubi escreveu:

É obrigatório nomear um imam e um khalifa — cuja palavra será ouvida e a quem se obedecerá — para que a unidade da nação seja estabelecida e as leis e ordens do khalifa sejam plenamente aplicadas. Neste ponto, o versículo acima é a principal evidência. Não há divergência sobre isso entre os imames e os imames mujtahid. Portanto, ficou provado que essa ação é wajib. Ficou provado que nomear um imam ou khalifa desse tipo é um dos pilares do próprio Din do Islã, que é a base da vida social e coletiva dos muçulmanos.

Foi provado, na discussão anterior, com base nas evidências incontestáveis da Sharia, que obedecer a qualquer lei além do حکم e da lei de Allah é shirk.

Mas há algumas pessoas que se intitulam alim e que, caindo no engano de pirs ignorantes, não estão dispostas a reconhecer somente Allah como o único Legislador e Autor das leis. Pois, se for preciso reconhecer somente Allah como o único que ordena e legisla, onde ficará o lugar de ‘Huzur Qibla’? Portanto, não há alternativa senão reconhecer, juntamente com Allah, também ‘Huzur Qibla’ como alguém que tem o direito de dar ordens. Por isso, em resposta à afirmação — conforme a doutrina tawhídica do Islã — de que obedecer à ordem de qualquer outro além de Allah é shirk, começaram a dizer, com extrema ignorância:

“Leitores! Pensem um pouco: nas escolas, faculdades, madraças, maktabs e instituições semelhantes; em organizações, comitês e associações políticas e sociais diversas; na operação e no transporte por barcos, navios a vapor, ônibus, trens e assim por diante; e em inúmeras questões mundanas e materiais, pessoas de todas as raças e religiões não precisam obedecer a alguma lei criada pelos seres humanos? Sim, certamente precisam; que dúvida poderia haver nisso? Então é necessário reconhecer Allah como o único que dá ordens? À luz da longa discussão anterior, qualquer pessoa pode compreender quão ridícula é a afirmação acima feita por essa pessoa que se intitula alim. Antes de tudo, ele próprio diz: ‘É preciso obedecer às leis criadas pelos seres humanos nas questões mundanas e materiais.’ Quem lhe disse que, mesmo nas questões puramente materiais, onde não há nenhuma regra ou modelo estabelecido por Allah e pelo Mensageiro, não se pode obedecer à ordem de ninguém? O ponto principal é que dividir a vida humana em duas partes — material e religiosa — é o seu grave erro. No Islã, essa divisão foi completamente destruída. Portanto, não somente nas questões mundanas, mas também naquilo que você considera uma questão puramente religiosa, pode-se obedecer à ordem de outro além de Allah; porém, não sem condições, mas com base em uma condição específica. Primeiro, essa ordem deve estar de acordo com a ordem de Allah. Segundo, ela não deve contrariar a ordem de Allah. Com base nessas condições, pode-se obedecer, em qualquer área, à ordem de qualquer pessoa, pois, na realidade, ela é a própria ordem de Allah. Mas, senhor, não é permitido obedecer à ordem de Huzur Qibla incondicional e indiscriminadamente, como se fosse a ordem de Allah; isso seria shirk manifesto, e você continuaria a debater-se no abismo desse shirk.”

Política não praticar bid‘ah

Abandonar a política e viver sem manter qualquer tipo de relação com ela é outro grande tipo de bid‘ah, que tomou conta de uma classe específica da atual sociedade muçulmana. Na visão dessas pessoas, a política é, em sua totalidade e essencialmente, uma questão mundana. Somente as pessoas mundanas fazem política. E a única prova de que todos os que fazem política são mundanos é justamente o fato de fazerem política. Entre as pessoas dessa classe, ouve-se frequentemente que elas dizem: ‘Eu não faço política’, ou ‘Fiz política durante muitos anos, mas agora não faço mais’; e algumas outras dizem: ‘Somos pessoas religiosas; não temos nenhuma relação com a política.’

A razão pela qual tal visão é uma bid‘ah é que ela é completamente contrária ao modelo, à política de ação e à crença do próprio Rasul-e-Karim (que a paz esteja sobre ele). A vida do Rasul-e-Karim (que a paz esteja sobre ele) durante sua missão profética prova inequivocamente que ele fez política, que seu trabalho entrou em conflito com o Estado e que, por fim, ele pôs fim a todos os Estados falsos e à política não islâmica, estabeleceu plenamente um Estado Islâmico e implantou na sociedade a política e o sistema estatal baseados no ideal islâmico. Durante a vida do Mensageiro e depois dela, os Sahabah-e-Kiram praticaram essa política, governaram o Estado e cumpriram todos os deveres relacionados ao Estado. Os Tabi‘in e os Tabi‘ al-Tabi‘in também fizeram política.

A política está presente no Alcorão Majid, está presente nos hadiths e está presente nas questões da jurisprudência elaboradas com base em ambos. Portanto, fazer política é sunnah. É plenamente compatível com o ideal islâmico.

A política é sunnah e está de acordo com o ideal islâmico — mas não apenas isso: ela é a própria essência do Islã. A razão fundamental do envio dos profetas ao mundo foi estabelecer a religião de Allah sobre a terra. Os profetas realizaram essa tarefa no mundo com toda a força, dando a vida e o próprio ser; e, na linguagem moderna, isso é precisamente política.

O único sistema de vida escolhido por Allah para a humanidade é o Islã, e nada mais. Esta é a declaração de Allah:

Certamente, a religião perante Allah é o Islã.

Esse é também o seu significado. E foi precisamente com o propósito de estabelecer esta religião e instituir a justiça na sociedade humana segundo a legislação de Allah que Allah enviou os nobres profetas.

O próprio Allah declarou:

لَقَدْ أَرْسَلْنَا رُسُلَنَا بِالْبَيِّنَاتِ وَأَنزَلْنَا مَعَهُمُ الْكِتَابَ وَالْمِيزَانَ لِيَقُومَ النَّاسُ بِالْقِسْطِ ۖ وَأَنزَلْنَا الْحَدِيدَ فِيهِ بَأْسٌ شَدِيدٌ وَمَنَافِعُ لِلنَّاسِ

— Com efeito, enviamos os profetas e mensageiros com provas e evidências irrefutáveis. E fizemos descer com eles o Livro e a balança da justiça, para que as pessoas pudessem viver com verdade e justiça. E concedemos o ferro, no qual há grande e poderosa força, bem como benefícios extraordinários para a humanidade.

O ponto fundamental que se apreende deste versículo é que Allah enviou os profetas e mensageiros com o propósito de proporcionar às pessoas do mundo a oportunidade de viverem com base em uma justiça correta e impecável. Para que os profetas e mensageiros pudessem estabelecer no mundo a justiça correta e a equidade, Allah lhes concedeu principalmente duas coisas como características e sinais de Sua missão direta. Uma delas é o milagre — provas e evidências irrefutáveis — que demonstram às pessoas a veracidade da profecia e da missão dos profetas e mensageiros. A segunda é a Palavra de Allah — o Livro Celestial — que foi revelada como um código prático para a vida humana.

Além disso, foram concedidas outras duas coisas. Uma delas é o “Mizan”, que significa balança e critério; por meio dela podem ser demonstrados o justo e o injusto, o bem e o mal, e a verdade e a falsidade. O erudito Ibn Kathir escreveu, em seu tafsir deste versículo, ao explicar a palavra “Mizan”: segundo Mujahid e Qatada, “Mizan” significa “justiça correta e equidade imparcial”. E isso é uma verdade comprovada pelo conhecimento, pela razão e pela consciência saudáveis, puras e firmes. A segunda coisa é Al-Hadid. “Hadid”, na linguagem corrente, significa “ferro”. Segundo o Imam Raghib, seu significado literal é algo afiado, agudo e capaz de exercer uma influência poderosa. A palavra foi utilizada nesses diversos sentidos em diferentes versículos do Alcorão.

Portanto, podemos compreender que seu significado é, em primeiro lugar, o metal ferro; em segundo, algo forte, afiado, de influência irresistível e capaz de exercer poder. No contexto dos profetas e mensageiros, podemos compreender facilmente seu significado: “força coercitiva”. Em inglês, isso é chamado de Coercive Power ou, em outras palavras, “poder estatal”.

Os profetas e mensageiros estabeleciam, com base na lei de Allah, sistemas de governo dotados de força intensa, rigorosa e eficaz; com a ajuda deles, utilizando armas de ferro, fechavam todos os caminhos da injustiça e da opressão e estabeleciam justiça imparcial sobre todas as pessoas, sem exceção. Portanto, assim como os profetas e mensageiros foram enviados ao mundo com o objetivo de estabelecer a justiça, depois do encerramento da profecia é responsabilidade e dever da comunidade do Profeta estabelecer essa justiça e, para isso, instituir um poder estatal forte e influente. Esforçar-se para adquirir esse poder e, depois de adquiri-lo, utilizá-lo para estabelecer a justiça é chamado, na linguagem moderna, de política. Isso mesmo foi ecoado nas palavras do Nobre Mensageiro:

Certamente, Allah, o Altíssimo, realiza por meio do poder estatal muitas coisas que não realiza por meio do Alcorão. (Segundo alguns sábios, estas palavras pertencem a Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, e não a Muhammad, que a paz esteja com ele. Isso é possível; talvez ele as tenha ouvido do Mensageiro. Mesmo que não seja assim, a importância das palavras dos Companheiros é inegável. Elas também são consideradas hadith. Os Companheiros adquiriram todo o conhecimento relacionado ao dīn diretamente do Nobre Mensageiro.)

Isso significa que, para alcançar o objetivo supremo de Allah, o poder estatal é indispensável juntamente com o Alcorão. Se o poder estatal não for empregado com o objetivo de tornar o Alcorão efetivo, o Alcorão não poderá tornar-se efetivo na sociedade humana apenas por sua própria força.

Além disso, o Nobre Alcorão contém a seguinte instrução:

شَرَعَ لَكُم مِّنَ الدِّينِ مَا وَصَّىٰ بِهِ نُوحًا وَالَّذِي أَوْحَيْنَا إِلَيْكَ وَمَا وَصَّيْنَا بِهِ إِبْرَاهِيمَ وَمُوسَىٰ وَعِيسَىٰ ۖ أَنْ أَقِيمُوا الدِّينَ وَلَا تَتَفَرَّقُوا فِيهِ ۚ كَبُرَ عَلَى الْمُشْرِكِينَ مَا تَدْعُوهُمْ إِلَيْهِ ۚ اللَّهُ يَجْتَبِي إِلَيْهِ مَن يَشَاءُ وَيَهْدِي إِلَيْهِ مَن يُنِيبُ [٤٢:١٣]

— Allah, o Altíssimo, determinou para vós, quanto ao dīn, o mesmo caminho que havia ordenado a Noé; e, por meio da revelação, enviamos agora a ti, ó Muhammad, e concedemos a Abraão, Moisés e Jesus a orientação, com a recomendação: estabelecei este dīn e não vos dividais nem sigais caminhos diferentes a respeito dele. Ó Profeta, aquilo para o qual convidas tornou-se extremamente difícil e intolerável para os idólatras. Allah escolhe e faz Seu aquele que deseja e guia para Si e para o caminho que conduz a Ele aquele que se volta para Ele. (As-Shura: 13).

Este versículo afirma claramente que, desde Noé até o último profeta, Muhammad, também foi dada a ordem de estabelecer completamente este dīn concedido por Allah. Muhammad convocava as pessoas de sua época a destruir todos os sistemas de governo estabelecidos sobre ideais falsos, estabelecer este dīn e construir a sociedade, a vida e o sistema de governo com base no dīn. E justamente isso era extremamente intolerável para os idólatras. O convite e o esforço para estabelecer o dīn eram difíceis de suportar para os idólatras porque, como resultado, até os vestígios do shirk desapareceriam da vida humana. E, se o shirk deixasse de existir, a própria existência dos idólatras seria eliminada; eles não poderiam mais ser encontrados em lugar algum. Aqui, a ordem de estabelecer o dīn foi dada já no início da vida profética do Nobre Mensageiro. Em nenhum lugar do Nobre Alcorão há apenas a ordem de divulgar o dīn. Estabelecer o dīn significa formar, com base no dīn, a mente, a vida, a aqidah e as políticas e estruturas sociais, políticas, econômicas e internacionais das pessoas; aplicar e tornar efetivas, na prática, as leis e normas concedidas por Allah; e, com base nelas, concretizar plenamente o governo, a justiça, a educação, a civilização e a cultura.

(No Nobre Alcorão, a lei penal determinada por Allah é chamada de “dīn de Allah”. Na surata An-Nur, depois de ordenar que o homem e a mulher adúlteros sejam açoitados como punição prescrita pela sharia, é dito: que a compaixão e a misericórdia por esses dois não vos dominem no cumprimento e na aplicação do dīn de Allah, se credes em Allah e no Último Dia. Neste versículo, a lei penal que prescreve açoitamento é chamada de “dīn de Allah”.)

Portanto, estabelecer o dīn e esforçar-se para estabelecê-lo é um dever religioso de todo muçulmano que tenha fé no Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), assim como é obrigatório cumprir a oração prescrita, pagar o zakat e outras coisas semelhantes. Também há menção clara ao estabelecimento do dīn nos hadiths.

Em um hadith, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se alguém confessar diante de nós o crime de fornicação que cometeu, aplicaremos sobre ele o Livro de Allah.”

A expressão “aplicaremos sobre ele o Livro de Allah” significa que faremos cumprir sobre ele a punição pela fornicação prescrita no Livro de Allah; aplicaremos a punição nele que está escrita no Livro de Allah. Aqui, estabelecer o Livro de Allah significa promulgar leis de acordo com o Livro de Allah. Do mesmo modo, estabelecer o dīn significa reorganizar toda a vida de acordo com o dīn. O Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu essa ordem já na fase inicial de sua profecia. O versículo mencionado anteriormente pertence à surata Ash-Shura. Ela foi revelada justamente em Meca. Nessa surata, pouco antes do versículo citado anteriormente, encontra-se este versículo:

وَكَذَٰلِكَ أَوْحَيْنَا إِلَيْكَ قُرْآنًا عَرَبِيًّا لِّتُنذِرَ أُمَّ الْقُرَىٰ وَمَنْ حَوْلَهَا وَتُنذِرَ يَوْمَ الْجَمْعِ لَا رَيْبَ فِيهِ ۚ [٤٢:٧]

“Assim, ó Muhammad! Revelamos a ti este Alcorão, um Livro em língua árabe, com o propósito de que advirtas, por meio dele, os habitantes de Meca e os que vivem ao seu redor; adverte-os sobre o Dia da Reunião, cuja chegada não deixa qualquer dúvida.”

Neste versículo, foi ordenado ao Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que realizasse a tarefa de advertir; e, com base nisso, posteriormente foi dada a ordem de estabelecer o dīn. Isso significa que estabelecer o dīn, ou esforçar-se para esse fim, é uma exigência indispensável da fé na Vida Futura. Se isso não for feito, será necessário prestar contas perante Allah naquele Dia. E essa foi a pregação e o esforço do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na fase inicial de sua profecia. Esse foi o jihad cuja realização lhe foi ordenada ainda durante sua vida em Meca, neste versículo:

فَلَا تُطِعِ الْكَافِرِينَ وَجَاهِدْهُم بِهِ جِهَادًا كَبِيرًا [٢٥:٥٢]

“Ó Profeta, jamais reconhecerás, em circunstância alguma, a obediência aos incrédulos. Pelo contrário, combaterás os incrédulos com todas as tuas forças e de maneira total, conforme a ordem do Alcorão.”

Desde o primeiro dia, o empenho do Profeta universal consistiu em não reconhecer a obediência aos incrédulos — rejeitá-la e desobedecer-lhe — e em destituir do poder esses seguidores da falsidade, empregando toda a força disponível. (A esse respeito, o Allama Ibn al-Qayyim escreveu: no mesmo dia em que Deus o nomeou pela primeira vez como profeta, ordenou-lhe que fizesse jihad.)

E, a respeito do versículo anteriormente mencionado do Alcorão, ele escreveu: esta surata foi revelada em Meca. Nela, Deus, o Altíssimo, ordenou ao Mensageiro que combatesse os incrédulos (e os hipócritas).)

Na linguagem de hoje, isto é a política de estabelecer o Dīn. O resultado concreto desse empenho do Profeta foi o sistema estatal islâmico centrado em Medina, estabelecido depois da Hégira.

Sob essa perspectiva, ficam provadas como equivocadas as afirmações daqueles que dizem que “o nobre Profeta não convocou ao estabelecimento do Dīn — à fundação de um sistema estatal islâmico — nem se empenhou para isso”. O Estado islâmico de Medina teria sido apenas uma dádiva de Deus. Mas a verdadeira questão é que o convite ao estabelecimento da religião de Deus foi o convite fundamental de todos os profetas, e o empenho do último Profeta também foi voltado para isso.

Hoje, isso não é conhecido apenas por meio da explicação e análise do Alcorão e dos hadiths; os próprios Companheiros acreditavam firmemente que o nobre Mensageiro havia sido enviado ao mundo precisamente com o grandioso propósito de estabelecer o Dīn, e que os nobres Companheiros eram seus companheiros e auxiliares justamente para essa tarefa. A afirmação de Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud já foi citada anteriormente.

Sobre os Companheiros, ele disse: Deus, o Altíssimo, escolheu e selecionou, escolheu e selecionou-os para que fossem companheiros e auxiliares de Seu Profeta e para o propósito de estabelecer Sua religião.

Aqui foram mencionadas duas coisas. A primeira demonstra que a única base da excelência, dignidade e superioridade dos nobres Companheiros foi obter a companhia do nobre Mensageiro, sendo seus companheiros e auxiliares. Em que tarefa eles eram companheiros e auxiliares do Mensageiro? Todos sabem que eram companheiros e auxiliares do Mensageiro precisamente no cumprimento da responsabilidade fundamental de sua missão profética. E esta é uma dignidade e superioridade tão grandiosas que nem mesmo os mais altos graus de fé, prática, temor a Deus e pureza podem igualá-las.

A segunda coisa mencionada é que Deus escolheu os Companheiros do Mensageiro precisamente com o propósito de estabelecer Sua religião. Esse foi o segundo propósito de Deus em relação aos Companheiros, e tal propósito complementava o primeiro. Pode-se até dizer que o objetivo principal de torná-los companheiros e auxiliares do Profeta era estabelecer a religião de Deus. Com isso, tornou-se igualmente claro o propósito da própria vinda do nobre Profeta. Soube-se que o objetivo da vida do Profeta era estabelecer a religião de Deus, e que o objetivo dos Companheiros era o mesmo. Não se pode sequer imaginar que a vinda e o objetivo do Profeta, por um lado, e o propósito da vida dos Companheiros, por outro, fossem de naturezas diferentes ou opostas entre si. O grandioso propósito para o qual Deus, o Altíssimo, fez dos nobres Companheiros os companheiros e auxiliares do nobre Profeta era estabelecer a religião de Deus; por isso, essa responsabilidade dos Companheiros não terminou com a morte do nobre Profeta. Pelo contrário, permaneceu um dever eterno até os últimos momentos de suas vidas. Com isso também se compreende que o propósito pelo qual Deus escolheu e selecionou os Companheiros não se limitava a Medina: também devia ser cumprido em Meca. Pelo contrário, aqueles que se tornaram companheiros do nobre Mensageiro desde o período de Meca ocupavam entre os Companheiros a posição de maior honra e dignidade. Isso prova conclusivamente que o objetivo da vida do nobre Profeta e dos Companheiros, também no período de Meca, era o mesmo que no período de Medina. Ao chegar a Medina, não foi adotado nenhum objetivo novo, assim como, depois da ida para Medina, o objetivo do período de Meca também não mudou. Não aconteceu que o nobre Profeta e os nobres Companheiros tivessem trabalhado em Meca com um tipo de objetivo e, ao irem para Medina, tivessem adotado objetivos e metas diferentes. Portanto, o objetivo e a responsabilidade de toda a ummah muçulmana eram os mesmos do próprio nobre Mensageiro e dos nobres Companheiros. Seguir seus passos não pode significar cumprir esse dever apenas oferecendo orientação à nação e ao governo enquanto se permanece acima da política partidária. Pelo contrário, todo aquele que crê no Islã tem o dever de lançar-se diretamente na política de estabelecer o Dīn. (Aqui deve-se ter em mente que aqueles que apenas pregam a kalima e dizem: “Estamos realizando o trabalho do período mequense do Profeta” não estão dizendo a verdade de modo algum. Pelo contrário, ao apresentar de forma tão distorcida o trabalho do Profeta no período de Meca, cometem um grave delito. No período mequense, o modelo de política islâmica e de sistema estatal que o Mensageiro apresentou foi precisamente o que estabeleceu no período medinense. Portanto, seu trabalho constitui um modelo único e indivisível; não pode ser dividido em duas partes. Se for dividido, isso será sem dúvida uma bid‘ah.)

Se isto é política, então esta política está mesclada com a própria medula do Din do Islã e ligada à sua essência. Todos os profetas trouxeram este mesmo Din, e foi da parte de Allah que todos receberam a ordem de praticar esta política. Hoje, aqueles que acusam esta política de ser ganância pelo poder e manifestam aversão por ela não compreendem que, na realidade, essa acusação recai sobre o próprio Mensageiro Nobre (S). Recai sobre os nobres Sahabah, modelos exemplares, e sobre os mujaddidins e mujahidins do Islã de todo o mundo. Sem esta política, o Din não é, de modo algum, o Din do Islã; não é o Din trazido pelo último Profeta. Abandonar esta política, odiá-la e insultá-la sob o pretexto de ser “ganância pelo poder” é uma enorme bid‘ah. Se esta bid‘ah não for eliminada, o Islã não poderá ser preservado. Quem pode negar que rejeitar tal política, ignorá-la e, “mantendo-se acima da política partidária, limitar-se a orientar o povo e o governo, ou permanecer completamente indiferente à política e divulgar apenas algumas partes da religião”, equivale, sem dúvida, a negar a declaração fundamental do Alcorão e do Hadith, isto é, a própria força vital do Islã?

Foi por acreditar no Mensageiro Nobre (S) que pudemos tornar-nos muçulmanos. Ele é o nosso único modelo. E os seus Sahabah foram a primeira caravana dos que seguiram esse modelo; foram também os nossos pioneiros. Eles praticaram política? Ou limitaram-se a orientar, mantendo-se acima da política partidária, ou mergulharam eles próprios no oceano da política, libertando as pessoas da servidão a outros além de Allah e conduzindo-as ao caminho da adoração do Deus Único? Quem conhece a história de vida do Mensageiro e as atividades diurnas e noturnas dos Sahabah não pode ter qualquer dúvida a esse respeito. Essas pessoas sabem, sem dúvida, que o Mensageiro Nobre (S) e os nobres Sahabah conquistaram o poder estatal, implementaram por meio dele o sistema de vida islâmico, resistiram à injustiça e à opressão e estabeleceram a justiça. Portanto, a política praticada com o objetivo de estabelecer o Din de Allah, de acordo com as leis de Allah e pelo caminho e método indicados pelo Mensageiro, é verdadeiramente a Sunnah. Abandoná-la e acreditar que a política de abandoná-la é a Sunnah ou o “modo do Islã” é claramente uma bid‘ah. Essa bid‘ah transformou o Islã numa religião ascética. E não apenas isso: estabeleceu um sistema permanente de autoridade, opressão e exploração dos muçulmanos pelos pecadores e transgressores. Na verdade, se o Mensageiro Nobre (S) tivesse seguido uma política como a deles, se tivesse adotado em relação a Abu Jahl e Abu Lahab, os líderes da sociedade árabe daquele tempo, apenas a política de “orientá-los”, então não teria havido tanta oposição por parte dos idólatras e kafirs; o Mensageiro jamais teria sido obrigado a emigrar, a quebrar os dentes no jihad, nem os Sahabah teriam sido martirizados. Pelo contrário, adotando tal política, eles poderiam ter recebido centenas de milhares de moedas, como uma classe de alim e pirs da atualidade recebe dos Abu Jahl e Abu Lahab desta época. E, se tivessem feito isso, o Islã não teria qualquer existência nesta época; não haveria história do Islã, nem qualquer relato vivo e glorioso.

Segundo os imames mujtahidins, e também do ponto de vista do fiqh e da aqidah, praticar diretamente a política de estabelecer o Din de Allah é uma exigência da fé e um dever absolutamente obrigatório.

Allamah Mulla Ali al-Qari foi um grande comentarista da aqidah islâmica do Imam Abu Hanifah (que Allah tenha misericórdia dele). Ele escreveu: todos os especialistas estão plenamente de acordo que é wajib nomear um imam — o dirigente do Estado islâmico.

Ao explicar quão importante é a nomeação de um imam, ele escreveu ainda: os nobres Sahabah também deram a máxima importância à nomeação de um imam. Tanto que concluíram a nomeação do imam antes mesmo de sepultarem o Mensageiro Nobre (S). Mas por quê? Porque, para os muçulmanos, é absolutamente indispensável um imam — um dirigente do Estado — que faça cumprir as suas leis, aplique as penas hudud, feche as suas brechas e fissuras, mantenha os seus soldados sempre preparados e equipados, preserve a sua honra e o seu tempo, reprima pela força os seus rebeldes e agressores, controle os ladrões e assaltantes, mantenha estabelecidos o Jumu‘ah, o Hajj e os Eid, providencie o casamento de meninos e meninas sem tutores, distribua os espólios de guerra e os bens nacionais e realize devidamente todas as demais tarefas necessárias de acordo com a Shariah. (Sharh Fiqh Akbar)

Neste ponto, a última e extremamente importante questão é a seguinte: tudo o que foi dito aqui, no contexto de que “não praticar política é bid‘ah”, refere-se apenas a não praticar a política de estabelecer o Din; não significa que não se deva praticar a política de estabelecer, em nome da política, ideologias contrárias ao Din do Islã — praticar essa política é, precisamente, uma enorme bid‘ah dos nossos tempos. É motivo de grande tristeza e vergonha que a política geralmente praticada hoje pelos diversos grupos, partidos e jama‘ats que se identificam como muçulmanos e islâmicos não seja a política de estabelecer o Din; eles praticam a política de estabelecer o secularismo, o socialismo ou o capitalismo, contrários ao Din do Islã — e isso é totalmente bid‘ah e haram. Praticar, sob a identidade muçulmana ou islâmica, a política de estabelecer o kufr é, na linguagem do Alcorão, a hipocrisia extrema; isso os coloca diante da seguinte pergunta de Allah: Árabe(****)

Ó vós que credes, por que dizeis com a boca aquilo que não fazeis?

Dizeis aquilo que não fazeis; portanto, não fazeis aquilo que dizeis. À luz do vosso nome e identidade, não fazeis o que deveríeis fazer e fazeis o que não deveríeis fazer. Ao verem o vosso nome e a vossa identidade, as pessoas naturalmente esperam de vós uma determinada política; mas vós não praticais essa política, e sim uma política secularista, socialista ou capitalista. Como resultado, toda a vossa existência se tornou uma hipocrisia intensa. Sois mentirosos e enganadores.

Esta vossa política é uma clara bid‘ah; é vosso dever abandoná-la imediatamente e empenhar-vos diretamente na política de estabelecer a religião de Allah. Isso também está de acordo com o vosso nome e com a vossa conhecida reivindicação fervorosa. Afirmar que o Islã pode ser estabelecido por meio da democracia é uma bid‘ah evidente. Pois a democracia é uma ideologia de kufr. O Islã não pode ser estabelecido por meio do kufr. O Islã só pode ser estabelecido por meio do convite à aceitação direta da servidão a Allah; além disso, um caminho intermediário não é aceitável no Islã e, portanto, deve ser abandonado.

Para alcançar a proximidade de Allah, a wasila’ é uma inovação

A doutrina abrangente do tawhid apresentada pelo Alcorão e pelos hadiths implica que somente Allah ta‘ala é o proprietário absoluto, o Senhor e o administrador de todo o universo. O ser humano adorará, servirá e obedecerá somente a Allah; em todos os aspectos da vida, seguirá as leis e normas estabelecidas por Allah e, em todas essas questões, seguirá exclusivamente o Mensageiro de Allah. Receberá orientação do Mensageiro. O ser humano realizará todas as suas ações de acordo com o caminho, os métodos, os meios e a conduta que ele apresentou. Se quiser pedir alguma coisa, pedirá somente a Ele; e, se esperar obter alguma coisa, esperará obtê-la somente d’Ele.

No Alcorão Majid, foi dito em linguagem eloquente:

قُلْ إِن كُنتُمْ تُحِبُّونَ اللَّهَ فَاتَّبِعُونِي يُحْبِبْكُمُ اللَّهُ وَيَغْفِرْ لَكُمْ ذُنُوبَكُمْ ۗ وَاللَّهُ غَفُورٌ رَّحِيمٌ [٣:٣١]

– Se amais Allah, segui-me (o Profeta). Então Allah vos amará e perdoará os vossos pecados.

De acordo com este versículo, seguir o Mensageiro é, por um lado, a consequência inevitável de amar Allah e de despertar no coração do servo o desejo de adorá-Lo; por outro, na prática, sem seguir o Mensageiro, nenhuma alegação de amar Allah pode ter sentido. Além disso, o único meio de obter o amor de Allah é seguir o Mensageiro.

Allama Alusi escreveu, ao explicar este versículo: Allah é perdoador e misericordioso para com aquele que demonstra amor por Ele obedecendo-Lhe e alcança proximidade d’Ele seguindo o Seu Profeta.

O Alcorão Sagrado apresentou o nobre Mensageiro (S) como o único modelo exemplar a ser seguido pelos muçulmanos.

Foi declarado:

لَّقَدْ كَانَ لَكُمْ فِي رَسُولِ اللَّهِ أُسْوَةٌ حَسَنَةٌ لِّمَن كَانَ يَرْجُو اللَّهَ وَالْيَوْمَ الْآخِرَ وَذَكَرَ اللَّهَ كَثِيرًا [٣٣:٢١]

—Certamente, tendes no caráter do Mensageiro de Allah um excelente modelo e exemplo a ser seguido. Isso será proveitoso para aqueles que desejam encontrar Allah, anseiam pela salvação na Outra Vida e lembram-se muito de Allah.

Também de acordo com este versículo, para aquele que deseja encontrar Allah, deseja a salvação na Outra Vida e lembra-se cada vez mais de Allah, o caráter exemplar a ser seguido na prática é o do nobre Mensageiro (S). Aquele que o seguir plenamente encontrará Allah e alcançará a salvação na Outra Vida; do mesmo modo, a sua lembrança de Allah ganhará forma prática por meio do seguimento do Profeta, sendo realizada e refletida nele próprio.

De acordo com essas sublimes declarações do Alcorão, o ser humano é obrigado a obedecer unicamente a Allah e a seguir unicamente o nobre Mensageiro (S). Com efeito, segundo a crença islâmica do tawhid, não há outro meio de encontrar Allah senão seguir concretamente o Mensageiro. Na época do Mensageiro, no tempo dos Companheiros e também no período dos tabi‘in e dos tabi‘ tabi‘in, essa era a realidade da sociedade islâmica. Eles não conheciam nenhum outro caminho para encontrar Allah, nem adotavam qualquer outro meio. Porém, mais tarde, a bid‘ah do pirismo impôs-se sobre as pessoas. Uma classe de pessoas passou a ocupar a posição de pirs na sociedade e a alegar que era um meio ou intermediário para levar os servos até Allah. Afirmam que, se forem aceitos, será possível encontrar Allah, mas, se não forem aceitos, não será possível encontrá-Lo (que Allah nos livre).

Entretanto, está inequivocamente comprovado pelo Alcorão que, para encontrar Allah, não há qualquer espaço nem necessidade de um segundo meio além da observância da Shariah mediante o seguimento do Mensageiro. A súplica do servo chega diretamente a Allah, e Allah aceita diretamente a súplica do servo; por isso, Ele não ordenou que se adotasse qualquer intermediário, nem estabeleceu como condição para a aceitação da súplica a adoção de algum intermediário. Ao contrário, removendo toda a confusão e toda a crença errônea nesse assunto, Ele declarou claramente:

وَإِذَا سَأَلَكَ عِبَادِي عَنِّي فَإِنِّي قَرِيبٌ ۖ أُجِيبُ دَعْوَةَ الدَّاعِ إِذَا دَعَانِ ۖ فَلْيَسْتَجِيبُوا لِي وَلْيُؤْمِنُوا بِي لَعَلَّهُمْ يَرْشُدُونَ [٢:١٨٦]

—Ó Profeta! Se os Meus servos perguntarem a teu respeito, dize-lhes: Estou muito próximo. Quando aquele que suplica Me invoca, respondo à sua súplica e a atendo. Portanto, é dever deles buscar a resposta somente junto a Mim, e devem crer somente em Mim. Assim, talvez sigam o caminho reto.

O versículo citado afirma que somente Allah atende as súplicas de todos os que suplicam; por isso, deve-se suplicar somente a Ele e buscar receber d’Ele a resposta. Esse versículo elimina pela raiz a concepção criada pelos adeptos da bid‘ah de que não se pode chegar a Allah sem um intermediário. Ao dizer: “Eu mesmo atendo a súplica daquele que suplica”, Allah, o Altíssimo, deixou claro que não é necessária nenhuma wasila para suplicar a Allah e para que a súplica seja atendida. Quando alguém suplica corretamente a Allah, Ele a atende diretamente. Ao dizer: “É dever buscar somente a Minha resposta”, Allah esclareceu que aquele que suplica deve ter em seu coração especial interesse, entusiasmo e fervor para que sua súplica seja atendida. Isso não pode ser obtido por meio de outra pessoa; a wasila nada pode fazer. E, por meio da frase “devem crer somente em Mim”, Ele declarou que é obrigatório, tendo em mente esta declaração, acreditar que Allah está muito próximo de vós. Não se deve, enganado por qualquer intermediário, abandonar a súplica direta a Allah e cair no equívoco de recorrer a um intermediário. Até as palavras finais do versículo declararam que este é o verdadeiro caminho contra a bid‘ah, afirmando que o único meio de alcançar a proximidade de Allah é suplicar-Lhe humildemente e manter no coração a crença de que somente Allah atenderá à minha súplica.

Em outro versículo, Allah, o Altíssimo, fez uma declaração ainda mais enfática:

وَقَالَ رَبُّكُمُ ادْعُونِي أَسْتَجِبْ لَكُمْ ۚ إِنَّ الَّذِينَ يَسْتَكْبِرُونَ عَنْ عِبَادَتِي سَيَدْخُلُونَ جَهَنَّمَ دَاخِرِينَ [٤٠:٦٠]

—Vosso Senhor disse: Invocai somente a Mim; suplicai somente a Mim; Eu vos responderei e atenderei às vossas súplicas. Todos aqueles que, por arrogância, se recusarem a adorar-Me serão reunidos no Inferno. (Al-Mu’min: 60)

Também aqui há uma ordem para invocar Allah diretamente e suplicar-Lhe diretamente. E, na segunda parte do versículo, essa mesma súplica foi declarada como adoração a Allah. Isso significa que aqueles que não suplicam diretamente a Allah e desejam avançar por meio de uma wasila não estão dispostos a adorar Allah exclusivamente; não pode haver dúvida de que irão para o Inferno. Os incrédulos de Meca tinham precisamente esse pecado, pelo qual foi declarado que seriam destinados ao Inferno.

Fica claramente comprovado, a partir desses versículos do Alcorão Sagrado, que não há absolutamente nenhuma necessidade de uma “wasila” para alcançar a proximidade de Allah, para que nossas súplicas sejam atendidas e para adorar e servir a Allah de acordo com a Sharia islâmica; além disso, isso não é agradável a Allah. Pelo contrário, Allah quer que o servo se volte diretamente para Ele, se submeta somente a Ele e abandone o ato de prostrar a testa diante de qualquer outro em vez d’Ele. Contudo, posteriormente, a “wasila” foi introduzida na sociedade muçulmana sob o pretexto do próprio Islã. Propagou-se a ideia de que, sem a wasila, não haveria absolutamente nenhum outro meio de alcançar Allah. A introdução dessa “wasila” no sistema tawhídico do Islã é uma enorme bid‘ah, e essa bid‘ah acabou mergulhando os defensores do tawhíd em um grave shirk. Nos círculos dos adeptos da bid‘ah foi emitida uma fatwa: recorrer à wasila para alcançar Allah ou obter a graça de Allah não é apenas permitido; em alguns casos, seria também obrigatório e necessário.

Na realidade, declarar obrigatório ou necessário aquilo que não é comprovado pelo Alcorão, nem pelas palavras, ações ou aprovações do Mensageiro, é precisamente uma bid‘ah. O trecho acima mencionado é uma fatwa específica em defesa dessa bid‘ah. Essa bid‘ah já tomou conta de uma parte da população. Alguns deles pensam: “Não fazemos as orações nem jejuamos, pois damos arroz ao pir” (Que Allah nos livre).

Isso significa que, se der arroz ao pīr, ele ficará satisfeito. E, se o pīr ficar satisfeito, Allah também ficará satisfeito. Então, que necessidade resta de adorar e servir a Allah? Para alcançar Allah, dar arroz ao pīr — fazer-lhe oferendas — seria, ao que parece, suficiente.

Além disso, algumas pessoas acreditam que é absolutamente certo que o pīr irá para o Paraíso — como se tivessem sabido por meio de Allah que o pīr já é um habitante do Paraíso. Contudo, essa crença não passa de extrema tolice. Pois, quanto àquele a quem se atribui tal posição e cuja mão se toma em juramento de fidelidade, nem sequer se sabe ao certo se ele próprio irá para o Paraíso, quanto mais se poderá levar outros para lá.

Os defensores da wasila também apresentam, em apoio à sua opinião, um trecho de um versículo do Alcorão. Esse trecho é o seguinte:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا اتَّقُوا اللَّهَ وَابْتَغُوا إِلَيْهِ الْوَسِيلَةَ

— Ó crentes, temei Allah e buscai a wasila junto d’Ele.

O versículo ordena temer a Allah e esforçar-se para alcançar Sua proximidade. Contudo, esse versículo foi usado numa tentativa de provar algo completamente contrário à sua mensagem principal. Em primeiro lugar, os defensores da wasila não aceitaram o versículo por inteiro; usaram apenas uma parte dele para provar sua própria opinião. Ora, o sentido do versículo completo é um só, mas, apresentando apenas uma parte, também se pode tentar transmitir algo completamente diferente, conforme o próprio propósito. Foi exatamente isso que aconteceu aqui.

O versículo completo é o seguinte:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا اتَّقُوا اللَّهَ وَابْتَغُوا إِلَيْهِ الْوَسِيلَةَ وَجَاهِدُوا فِي سَبِيلِهِ لَعَلَّكُمْ تُفْلِحُونَ [٥:٣٥]

—Ó crentes, temei a Allah, buscai o meio de aproximação junto d’Ele e empenhai-vos em Seu caminho. Talvez alcanceis a prosperidade. (Al-Ma’idah: 35)

É preciso provar claramente qual é o significado da palavra ‘wasila’ e em que sentido ela foi usada neste versículo do Alcorão. Somente então será possível compreender a verdadeira mensagem deste versículo. Vemos, portanto, que no Alcorão Sagrado a palavra ‘wasila’ foi usada em apenas dois lugares: neste versículo e em mais um.

O outro versículo é o seguinte:

قُلِ ادْعُوا الَّذِينَ زَعَمْتُم مِّن دُونِهِ فَلَا يَمْلِكُونَ كَشْفَ الضُّرِّ عَنكُمْ وَلَا تَحْوِيلًا [١٧:٥٦]

أُولَٰئِكَ الَّذِينَ يَدْعُونَ يَبْتَغُونَ إِلَىٰ رَبِّهِمُ الْوَسِيلَةَ أَيُّهُمْ أَقْرَبُ وَيَرْجُونَ رَحْمَتَهُ وَيَخَافُونَ عَذَابَهُ ۚ إِنَّ عَذَابَ رَبِّكَ كَانَ مَحْذُورًا [١٧:٥٧]

—Dize: Invocai aqueles que considerais divindades além de Allah; eles não têm poder algum para afastar de vós a adversidade e o sofrimento, nem para transformá-los. Aqueles que estes invocam buscam, eles próprios, um meio de aproximação junto de seu Senhor, procurando saber qual deles está mais próximo de Allah; esperam por Sua misericórdia e temem Seu castigo. Certamente, o castigo de Allah é digno de ser temido.

(Bani Israel: 56–57)

Qual é o significado da palavra ‘wasila’ usada nesses dois lugares? O ilustre erudito universalmente reconhecido, Allama Ragib Isfahani, autor de uma obra sobre a explicação das palavras do Alcorão Sagrado, registrou o significado dessa palavra da seguinte maneira: wasila significa aproximar-se de algo com anelo. Como contém a ideia de anelo, wasila transmite um significado um pouco mais específico do que simplesmente aproximar-se ou alcançar.

Ele escreveu em sua obra intitulada Khatib: “Wasila”, substantivo, significa proximidade, aproximação, meio de alcançar a proximidade, isto é, obediência.

Allama Qurtubi escreveu, ao explicar este versículo em seu Tafsir: “A palavra ‘Wasila’ significa proximidade.” Este significado também foi transmitido por Abu Wa’il, Hasan, Mujahid, Qatadah, Ata, Suddi, Ibn Zayd e Abdullah ibn Kathir, entre outros sábios dos tabi‘in e estudiosos do Alcorão.

Ele também escreveu: Wasila é uma proximidade em virtude da qual não é apropriado pedir algo a alguém. Pode-se pedir a Allah; portanto, essa proximidade também deve ser de Allah.

O Imam Suyuti escreveu, ao explicar o primeiro versículo mencionado: Wasila é a obediência e a adoração que vos aproximam d’Ele.

Maulana Abdur Rashid Nomani escreveu em ‘Lughatul Qur’an’: Há duas opiniões a respeito dessa palavra. Segundo Khatib e o Imam Razi, significa o meio de alcançar a proximidade. Já o Imam Suyuti apresentou dois significados: um é o meio de alcançar a proximidade, isto é, a adoração; o outro é a própria proximidade, que pode ser alcançada por meio da adoração.

O Imam Shawkani escreveu: ‘Wasila’ significa proximidade, que se deve buscar.

Abu Wa’il, Hasan, Mujahid, Qatadah, Suddi, Ibn Zayd e outros sábios expressaram essa mesma opinião, e a mesma opinião também foi transmitida por Ibn Abbas, Ata e Abdullah ibn Kathir.

O Tafsir Fathul Bayan também afirma isso. Nele está escrito: Wasila é uma posição especial no Paraíso, especificamente destinada ao Mensageiro.

No Sahih al-Bukhari, é narrado por Jabir que o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quem, ao ouvir o azan, disser: “Ó Allah! Senhor desta chamada perfeita e da oração estabelecida, concede a Muhammad a wasila e a dignidade, e envia-o ao maqam mahmud que lhe prometeste”, terá garantida a intercessão no Dia da Ressurreição.

No Sahih Muslim, é narrado por Abdullah ibn Amr que ele ouviu o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: quando ouvirdes o azan do mu’azzin, repeti também tudo o que ele disser. Depois, enviem bênçãos sobre mim. Com efeito, quem enviar uma bênção sobre mim, Allah enviará dez bênçãos sobre ele.

Depois, pedi a Allah a wasila para mim, pois esta é uma posição especial do Paraíso.

Na obra Fath al-Bayan, ao explicar o primeiro significado da palavra wasila, está escrito: é evidente que wasila — cujo significado é proximidade — pode ser usada no sentido de taqwa; além da taqwa, também pode significar todas as qualidades por meio das quais os servos buscam aproximar-se de Allah. Alguns disseram que wasila significa amor e afeição, isto é, que deveis nutrir amor por Allah. Porém, o primeiro significado é o melhor.

Esta é a tradução do que o erudito Ibn Kathir escreveu em seu tafsir ao explicar o primeiro versículo: Allah, o Altíssimo, ordenou a Seus servos crentes que adotassem a taqwa em relação a Ele. Se a taqwa for associada à obediência a Ele, seu significado será abster-se dos atos ilícitos e abandonar todas as ações proibidas. E logo depois disse: buscai a wasila junto d’Ele.

Depois, escreveu: Sufyan al-Thawri narrou de Talha, Talha narrou de Ata, e Ata narrou de Ibn Abbas que esta wasila significa proximidade.

Abu Wa’il, Hasan, Mujahid, Qatadah, al-Suddi, Ibn Zayd, Abdullah ibn Kathir e outros eminentes sábios antigos também expressaram essa mesma opinião, e Qatadah traduziu este versículo da seguinte forma:

Ou seja: aproximai-vos d’Ele, obedecei-Lhe e praticai aquilo que Lhe agrada.

Em seguida, Allama Ibn Kathir escreveu: não há divergência entre os exegetas quanto a tudo o que esses imames do conhecimento do Alcorão disseram sobre o significado da palavra «wasila».

Ele registrou ainda dois outros significados da palavra «wasila».

Um deles é: wasila, aquilo por meio do qual se alcança o objetivo principal.

O segundo: «wasila» também é o nome de uma posição elevada no Paraíso. E ela é a posição do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Em apoio a esse significado de «wasila», o Imam Ibn Kathir citou numerosos hadiths. O texto de um hadith desse tipo, narrado por Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), é o seguinte: no Paraíso existe um lugar especialmente honrado chamado «wasila». Quando pedirdes algo a Allah, rogai por «wasila» para mim.

E, no tafsir da parte final deste versículo, escreveu:

Quando Allah ordenou abandonar os atos proibidos e cumprir os atos de adoração e obediência, ordenou também combater as forças inimigas de incrédulos e politeístas que estão fora da Sīrat al-Mustaqim.

O Imam Baydawi escreveu no tafsir deste versículo:

Isto é, procurai aquilo por meio do qual podeis obter a Sua recompensa e aproximar-vos d’Ele. Isso consiste em praticar atos de obediência a Allah e abandonar os atos de desobediência.

O Allama Zamakhshari escreveu: Wasila é aquilo por meio do qual se pode alcançar algum tipo de proximidade, ou uma ação ou qualquer outra coisa semelhante. Depois, o termo passou a ser usado para designar aquilo por meio do qual se pode chegar até Allah, o Altíssimo. Isso consiste em praticar atos de adoração e obediência e abandonar a desobediência. O Allama Abu al-Saud também disse o mesmo, em suas próprias palavras, ao explicar este versículo.

Sobre a wasila, foi dito: wasila é aquilo por meio do qual se alcança a proximidade de Allah — se chega até Allah. Isso consiste em praticar atos de adoração e obediência e abandonar a desobediência.

Ele também escreveu: Foi dada a seguinte interpretação ao versículo: na primeira frase, ao ordenar “temei Allah”, foi ordenado abandonar os pecados e a desobediência. Na segunda frase, ao ordenar “procurai o meio de alcançar a proximidade de Allah”, foi ordenado adotar a adoração e a obediência a Allah. E todo aquele que abandonar os atos de desobediência e realizar algo difícil para si terá necessariamente algum sofrimento e esforço. Por isso, logo após essas duas ordens, a ordem de Allah é: “Empenhai-vos no caminho de Allah”, combatendo os Seus inimigos declarados e poderosos.

O Allama Sayyid Mahmud Alusi também discutiu detalhadamente muitos aspectos na explicação deste versículo. Ao explicar o versículo anteriormente mencionado da surata Al-Ma’idah, ele disse: “E procurai — buscai — para vós mesmos a Sua recompensa e a Sua proximidade.”

E escreveu que o significado de wasila é: aquilo por meio do qual se alcança e se aproxima de Allah; isto é, praticar atos de adoração e devoção e abandonar os atos de desobediência.

O Allama Ibn Jarir Tabari escreveu: Procurai alcançar a proximidade de Allah por meio de ações que Lhe agradem; wasila é uma palavra formada no padrão de fadila. Assim, alguém diz: “Aproximei-me dele”; nesse caso, tawassul foi usado no sentido de taqarrub. “Tawassaltu ilayhi” significa: “Aproximei-me dele.”

Ele também escreveu: Como dissemos, os intérpretes das palavras e os estudiosos de seus significados adotaram precisamente esta interpretação. Bashshar e Sufyan narraram de Abu Wa’il que, com a expressão “wabtaghu ilayhi al-wasilah”, foi ordenado alcançar a proximidade por meio das ações. Sufyan, Abu Talha, Ata e outros também interpretaram o termo, neste contexto, como proximidade. Foi narrado de Qatadah que ele traduziu este versículo assim: “Aproximai-vos de Allah por meio da obediência a Allah e da prática daquilo que Ele aprova.” Foi narrado de Hudhayfah que Mashid Abu Najih disse que Mujahid interpretou “wabtaghu ilayhi al-wasilah” como proximidade.

O erudito Fakhruddin Razi escreveu: “Buscai a wasila junto de Allah”, isto é, buscai a proximidade de Allah por meio das boas obras.

O erudito Alusi disse: Ibn al-Anbari, citando Ibn Abbas, afirmou que wasila significa necessidade, algo indispensável.

De acordo com esse significado, o sentido do versículo seria: Voltai-vos para Allah e buscai satisfazer as vossas necessidades. Pois todas as chaves dos céus e da terra estão em Sua mão; portanto, não busqueis satisfazer as vossas necessidades dependendo de qualquer outro.

Pode-se dizer que este significado da palavra “wasila” é novo. Ou seja, nenhum outro exegeta o mencionou. Ainda assim, pode-se afirmar que os dicionários árabes originais, todos os Companheiros, os tabi‘ins e todas as obras reconhecidas de exegese indicam que esse, e não outro, pode ser o significado da palavra “wasila”. Atribuir-lhe qualquer outro significado seria uma invenção de pessoas de épocas posteriores. Isso não tem relação alguma com o Alcorão original, os hadiths ou a língua árabe. Com base neste versículo, soube-se que a ordem dada por Allah, neste versículo, para buscar a “wasila” a fim de alcançar Sua proximidade significa obedecer somente a Allah, prestar somente a Ele adoração e culto, e não desobedecê-Lo. Ou então desejar satisfazer as próprias necessidades somente por meio da proximidade de Allah, e não por intermédio de qualquer outra pessoa. Não é permitido tomar outra pessoa como wasila ou intermediário; se isso for feito, será shirk e bid‘ah. Foi justamente para fechar para sempre o caminho desse shirk que Allah revelou este versículo. Mas é lamentável que este mesmo versículo esteja sendo apresentado com o propósito perverso de provar que o shirk da wasila é correto, permitido, obrigatório e obrigatório por lei. E, neste contexto, tenta-se distorcer e destruir esta crença eterna e perene do tawhid, apresentando o que está escrito em livros como “Husn-e Hasin”, “Al-Muhannad” e “Shifa’us-Siqam”.

Todos os exegetas concordam que, nos dois versículos do Alcorão em que esta palavra é usada, pretende-se exatamente este significado, e não qualquer outro. Considerando a discussão detalhada, o significado completo do versículo é: “Ó vós que credes! Temei a Allah, buscai a proximidade de Allah ou os meios de alcançar Sua proximidade e, por isso mesmo, combatei no caminho de Allah.” (O Imam Qurtubi, o Imam Ibn Kathir, o Imam Shawkani e outros disseram a mesma coisa em seus tafsirs; a tradução bengali disso foi mencionada acima.)

Já o significado da palavra “wasila” usada nos hadiths é uma posição especial junto de Allah. É esse significado que foi adotado na sharia. Agora é preciso examinar quais são as formas e métodos conformes à sharia para estabelecer uma wasila junto de Allah. Neste ponto, serão apresentados alguns aspectos.

Em primeiro lugar: adotar uma wasila para alcançar a proximidade de Allah está plenamente de acordo com o Alcorão e os hadiths. O próprio Allah declarou:

وَلِلَّهِ الْأَسْمَاءُ الْحُسْنَىٰ فَادْعُوهُ بِهَا ۖ

—Allah possui belíssimos nomes. Portanto, invocai-O por esses nomes. (Al-A‘raf, 180).

É narrado no hadith que Abdullah relatou, por intermédio de seu pai, Burayda (que Allah esteja satisfeito com ele): o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu um homem suplicando com as seguintes palavras.

—Ó Allah, suplico-Te em virtude de que Tu és Allah; não há divindade além de Ti; Tu és absolutamente independente, não gerado nem gerador, e ninguém é igual ou semelhante a Ti.

Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Este homem suplicou a Allah invocando o Seu grandioso e sublime nome; quando se pede dessa maneira, certamente algo é concedido, e quando se suplica, a súplica é certamente aceita.”

Também se encontra apoio para isso em hadiths narrados por Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) e por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).

Segundo: o wasila das boas ações. Também nesta questão existem provas do Alcorão e do hadith. A prova corânica são os dois versículos nos quais aparece a palavra wasila. Pois há consenso de todos os exegetas de que, em ambos os versículos, o significado da palavra “wasila” é “proximidade”. A terceira prova desta questão é o versículo da Surata Al-Fatiha إِيَّاكَ نَعْبُدُ وَإِيَّاكَ نَسْتَعِينُ“Somente a Ti adoramos e somente a Ti pedimos ajuda, ó Allah!” Nele, mencionar a adoração antes de pedir ajuda teve como objetivo fazer da primeira a wasila da segunda.

A prova disso no hadith é a história mencionada no Sahih al-Bukhari, segundo a qual três homens se refugiaram numa caverna da montanha para se proteger da chuva. De repente, uma enorme pedra rolou e bloqueou a entrada da caverna. Pensando que não havia meio de escapar, cada um deles começou a mencionar as suas próprias boas ações e a suplicar a Allah por libertação. Depois, as suas súplicas foram aceitas por Allah e eles foram libertados. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionou esse acontecimento como elogio e ao descrever as suas virtudes.

Sobre este hadith, pode-se dizer: na sexta-feira, quando o sol já tiver declinado consideravelmente para o oeste, alcançai a proximidade de Allah realizando duas rak‘ahs de oração. Com isso fica claro que também se alcança a proximidade de Allah realizando a oração de sexta-feira.

Também é dito no hadith: esta narrativa prova que cada pessoa pode fazer de suas próprias ações uma wasila; porém, nela não há prova alguma para tomar como wasila as ações de outros — dos profetas e dos awliya de Allah.

Especialmente quando o servo faz de suas próprias boas ações uma wasila e suplica a Allah, por meio disso ele se aproxima ainda mais de Allah. E essa prática é legítima segundo as evidências tanto do Alcorão quanto do ijma. Com isso, o nafs da pessoa se purifica e ela se torna apta a alcançar a satisfação de Allah.

Terceiro: reconhecer o Profeta — que ele é veraz no que diz respeito à sua profecia e à sua missão — e fazê-lo uma “wasila”. Crer na religião que ele trouxe e tomá-la como wasila. Fazer da obediência às ordens e proibições do Profeta, bem como do auxílio a ele, uma wasila. Reviver sua sunna, manter seu chamado em vigor e estudar e pesquisar esse assunto também podem ser wasila. Fazer dessas coisas uma wasila está de acordo com a religião fundamental, pois isso está incluído precisamente em fazer das boas ações uma wasila.

Quarto: durante a vida do Profeta, fazer de sua súplica uma wasila, incluí-lo no ato da súplica, pedir que ele suplique a Allah e, após seu falecimento, pedir a qualquer pessoa virtuosa daquele tempo que faça uma súplica ou incluí-la na súplica, considerando sua súplica uma wasila.

A evidência disso no hadith é que, certa vez, durante uma seca, Umar incluiu Abbas como wasila e fez a seguinte súplica:

Ó Allah, antes costumávamos tomar nosso Profeta como wasila diante de Ti, e então Tu nos regavas com água. Agora tomamos o tio dele como wasila diante de Ti para que nossa súplica seja aceita. Portanto, rega-nos com água.

Aqui está claro que, na súplica coletiva realizada nessa ocasião, Abbas participou e esteve presente entre aqueles que suplicavam. Eles o tomaram como wasila na súplica porque, entre os companheiros, ele era o mais idoso. Sua posição era superior à de todos. Muawiya e seus companheiros tomaram Yazid ibn al-Aswad al-Jurashi como wasila por causa de suas boas ações, seu temor a Allah e sua piedade. Teria sido difícil para todos eles ir à Rawda Sagrada e tomar o Mensageiro como wasila, mas eles não o fizeram. Portanto, do ponto de vista da sunna tawhídica, não pode haver nada de errado em uma súplica desse tipo, nem ela pode ser uma bid’a. Além disso, após o falecimento do Profeta, os nobres companheiros não tomaram o próprio Mensageiro como wasila no contexto da súplica, pois consideravam bid’a e shirk tomar como wasila uma pessoa morta, ainda que fosse um profeta. Na súplica de Umar, em vez de tomar o Mensageiro como wasila, foi tomado como wasila seu tio Abbas, que estava vivo e presente para fazer a súplica. E é justamente o fato de ele ter sido tomado como wasila que deixa isso claro. Grandes companheiros também estavam presentes nessa súplica, mas nenhum deles se opôs. Se ainda fosse permitido tomar o Mensageiro como wasila, os demais companheiros teriam lhe dito que fizesse isso. Porém, ninguém disse tal coisa; ao contrário, todos participaram dessa súplica. E se tomar o próprio Mensageiro como wasila após sua morte é uma bid’a, então tomar como wasila qualquer um dos supostos awliya de Allah que já morreram será uma bid’a cem vezes maior. Pois tomar alguém como wasila em uma súplica específica mesmo depois de sua morte significa supor que, embora tenha morrido, ele ainda possui poder suficiente para salvar os aflitos ou participar com Allah do ato de salvá-los. E tal crença, do ponto de vista da sharia tawhídica, é shirk evidente.

É narrado no hadith que, durante uma severa seca, um beduíno se dirigiu ao Mensageiro e disse: Árabe (******)

—Ó Mensageiro de Allah, os bens e as riquezas foram destruídos; nossas famílias estão famintas. Portanto, suplique por nós.

Também há prova disso no glorioso Alcorão de Allah. O próprio Allah declarou:

وَلَوْ أَنَّهُمْ إِذ ظَّلَمُوا أَنفُسَهُمْ جَاءُوكَ فَاسْتَغْفَرُوا اللَّهَ وَاسْتَغْفَرَ لَهُمُ الرَّسُولُ لَوَجَدُوا اللَّهَ تَوَّابًا رَّحِيمًا [٤:٦٤]

—Quando eles, tendo cometido injustiça contra si mesmos, viessem a ti, ó Profeta, e pedissem perdão a Allah, e o Mensageiro pedisse perdão por eles, certamente encontrariam Allah como Aquele que aceita o arrependimento e é Misericordioso. (An-Nisā’: 64)

Neste versículo, menciona-se que as pessoas devem pedir perdão por si mesmas antes que o Mensageiro peça perdão por elas. Isso significa que, se elas próprias não pedirem perdão, o pedido de perdão do Mensageiro por elas não terá nenhum valor perante Allah.

Não há divergência alguma quanto à aceitação desse tipo de wasila; não pode haver. Porém, após a morte do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), fazer de sua pessoa uma wasila para alcançar a proximidade de Allah é uma bid‘ah evidente.

Quinto: Suplicar a Allah invocando Sua relação com Seus servos piedosos. Conforme foi narrado no hadith por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela):

—Ó nosso Allah, Senhor de Jibril, Mikail e Israfil.

Embora alguns considerem permitido fazer uma súplica desse modo, muitos o declararam ilícito.

Sexto: fazer do envio de durud ao nobre Profeta um meio de intercessão. Foi narrado por Abdullah ibn Abu Aufa — que Allah esteja satisfeito com ele — que o nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse:

— Quando alguém tiver uma necessidade diante de Allah ou de alguma pessoa, que faça a ablução muito bem, reze duas rak‘at, louve devidamente a Allah e envie durud ao Profeta; depois diga: Allah é paciente e cheio de graça; não há ninguém digno de adoração além d’Ele.

Em suma, estas são as formas de suplicar a Allah de acordo com o Islam e a Sunnah. Além delas, não é permitido aos crentes suplicar de qualquer outra forma ou por qualquer outro método.

Sétimo: fazer uma súplica deste modo:

Ó Allah, invoco-Te pelo Teu servo virtuoso fulano, ou suplico-Te pela honra dele.

Contudo, esse tipo de súplica não tem qualquer apoio na Shariah. Segundo Izz ibn Abdus Salam e seus seguidores, tal invocação pode ser permitida somente em nome do Profeta; em nome de qualquer outra pessoa, não é permitida. Na escola jurídica hanbali, fazer uma súplica desse modo é makruh tahrimi. Os juristas da escola hanafi, como al-Quduri, narraram de Imam Abu Yusuf:

Imam Abu Hanifa — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: Não é apropriado que ninguém suplique a Allah invocando alguém que não seja Allah, em vez de invocá-Lo pelo nome de Allah.

“Ó Allah, suplico-Te invocando a dignidade do Teu Trono; faço súplica invocando fulano; faço súplica invocando os Teus profetas e mensageiros, ou faço súplica invocando a Tua Casa Sagrada”; considero makruh fazer súplica dessa maneira.

Citando o Imam Abu Hanifa no Tatarkhaniya e, a partir dele, no livro Al-Alai, foi dito: de modo algum é apropriado fazer súplica a Allah, o Sublime e Santíssimo, invocando alguém além d’Ele como meio.

O Imam Badalji disse: é makruh fazer súplica a Allah por meio de alguém além de Allah. E jamais se deve dizer: “Ó Allah, suplico-Te por meio dos Teus anjos e dos Teus profetas”.

Foi mencionado em todos os livros da escola jurídica hanafita que fazer súplica tomando como meio os profetas e mensageiros, os santos e pirs, ou a Casa de Allah, entre outros, é makruh tahrimi. E, no que diz respeito ao castigo do Inferno, makruh tahrimi é equivalente ao haram.

Por que é haram fazer súplica a Allah invocando alguém além d’Ele ou tomar outra pessoa como meio? É haram porque nenhuma criatura tem qualquer direito sobre o Criador. Portanto, essa invocação não pode ser aceita. Invocar alguém dessa maneira ou tomá-lo como meio será algo sem sentido. Assim, praticar isso na sociedade muçulmana é claramente bid‘ah.

Embora os incrédulos politeístas de Meca soubessem e reconhecessem que Allah existe, que Ele é Um e Único, eles adoravam diversos ídolos e divindades. O objetivo principal deles também não era adorar e prestar culto a esses ídolos; seu objetivo principal era unicamente alcançar a proximidade de Allah, aproximar-se d’Ele e obter uma posição mais elevada. Eles adotaram a adoração dos ídolos e das divindades precisamente como um meio, ou uma forma de alcançar esse objetivo. Apesar disso, Allah chamou esse ato deles de shirk e qualificou-os como incrédulos desviados e mentirosos. É justamente isso que foi dito no versículo citado abaixo:

أَلَا لِلَّهِ الدِّينُ الْخَالِصُ ۚ وَالَّذِينَ اتَّخَذُوا مِن دُونِهِ أَوْلِيَاءَ مَا نَعْبُدُهُمْ إِلَّا لِيُقَرِّبُونَا إِلَى اللَّهِ زُلْفَىٰ إِنَّ اللَّهَ يَحْكُمُ بَيْنَهُمْ فِي مَا هُمْ فِيهِ يَخْتَلِفُونَ ۗ إِنَّ اللَّهَ لَا يَهْدِي مَنْ هُوَ كَاذِبٌ كَفَّارٌ [٣٩:٣]

(Az-Zumar: 3)

—Saibam que a devoção deve ser exclusivamente e puramente para Allah. Quanto àqueles que tomam outros, além de Allah, como amigos e protetores, alegando crer que, na realidade, não os adoramos — tudo o que fazemos por eles é com o propósito de que eles nos aproximem muito de Allah —, essa afirmação é falsa e infundada. Allah decidirá definitivamente entre eles sobre aquilo em que divergem. Lembrem-se: Allah jamais guia o mentiroso que é um incrédulo extremo.

À luz deste versículo, vê-se claramente que, antigamente, os árabes tratavam os ídolos e as divindades com o objetivo de alcançar Allah e obter Sua proximidade; hoje, pessoas desse tipo adotaram exatamente o mesmo comportamento em relação aos pīrs e dervixes, com o objetivo de alcançar a proximidade de Allah. Não há diferença fundamental entre as duas coisas. Portanto, se a ação dos árabes foi considerada shirk e Allah julgou falsa a sua alegação fundamental, chamando-os claramente de mentirosos, por que os atuais adeptos do tawassul não seriam chamados de mentirosos perante Allah? E, se eles foram chamados de kafirs apenas por isso, por que esses grandes adeptos atuais do tawassul não seriam chamados de ‘kafirs’?

Existe acaso alguma diferença ou distinção, perante Allah, entre as pessoas daquela época e as de hoje, ou entre os árabes e o povo deste país?

Que coisa extremamente vil é essa que eles dizem ou pensam.

Pīr–mūrīdismo bid‘ah

No modelo da Sunnah do Islã, surgiu ainda outro tipo grave de bid‘ah: o pīr-mūrīdismo. A ‘silsila’ do pīr-mūrīdismo que se vê atualmente é algo inteiramente novo e inventado pela imaginação. Essa prática não existia na época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); ele jamais praticou o pīr-mūrīdismo. No sentido atual, ele próprio não era pīr, nem os Companheiros eram seus mūrīds. Os Companheiros também jamais praticaram esse pīr-mūrīdismo. Nenhum deles era pīr de outro, e nenhum era mūrīd de outro. Na época dos tābi‘īn e dos tābi‘ at-tābi‘īn, tampouco se encontra qualquer vestígio ou menção ao pīr-mūrīdismo.

Não apenas isso. Mesmo examinando minuciosamente o Alcorão e os hadiths, não se encontrará nenhuma prova desse pīr-mūrīdismo. Apesar disso, atualmente, um grupo de pessoas ignorantes, autodenominadas pīrs, e seus mūrīds, ainda mais ignorantes, promove o pīr-mūrīdismo como uma das bases fundamentais da religião do Islã. Por meio disso, transformaram pessoas ignorantes e incultas em mūrīds e montaram enormes negócios. Embora não tenha sido necessário investir capital algum, tampouco pagam imposto de renda sobre o capital acumulado nesses negócios altamente lucrativos. E jamais pagam o zakat sobre o enorme dinheiro acumulado em espécie.

Sharī‘ah Ma‘rifah

Nesta questão, a inovação mais fundamental consiste em considerar a sharia e a tariqa como duas coisas completamente distintas, independentes e sem qualquer relação entre si. A decadência chegou a tal ponto que a sharia foi denominada ‘ilm al-zahir’, e a tariqa ou ma‘rifa, ‘ilm al-batin’, dividindo assim a própria religião do Islã em duas partes. Um grupo de ignorantes seguidores da tariqa começou a afirmar que a essência do Islã é a tariqa ou a ma‘rifa, e que esta é a haqiqah. Se alguém alcançou essa haqiqah, então não precisa cumprir a sharia, pois já encontrou Allah. Segundo eles, há um tipo de sábio da sharia e outro tipo de sábio da ma‘rifa ou da tariqa. No subcontinente, esses sábios da tariqa são chamados de pirs. Propaga-se a ideia de que, se alguém é um sábio da sharia, mas não conhece o conhecimento da tariqa — isto é, não se torna murid de algum pir —, então é um fasiq.

O tasawwuf é geralmente chamado de ma‘rifa. O ilustre wali de Allah, Hazrat Junayd al-Baghdadi, ao discutir a falta de valor dessa ma‘rifa, disse:

O ‘ilm é muito superior, mais completo e mais abrangente do que a ma‘rifa. O próprio Allah foi designado pelo nome de ‘ilm, e não pelo nome de ma‘rifa. E Ele disse que são aqueles que adquiriram o ‘ilm que possuem a mais elevada posição. Além disso, quando se dirigiu ao Nobre Profeta, dirigiu-se a ele mencionando o atributo mais excelente, mais abrangente em bondade e mais completo.

E disse:فَاعْلَمْ أَنَّهُ لَا إِلَٰهَ إِلَّا اللَّهُ

— “Sabei que não há divindade alguma além de Allah.”

E disse ainda:فَاعْلَمْ أَنَّمَا يَتَّبِعُونَ أَهْوَاءَهُمْ ۚ وَمَنْ أَضَلُّ مِمَّنِ اتَّبَعَ هَوَاهُ بِغَيْرِ هُدًى مِّنَ اللَّهِ

— “Então, sabei que essas pessoas seguem os próprios desejos. E quem pode ser mais desviado do que aqueles que seguem os próprios desejos?”

Este versículo aplica-se perfeitamente à relação entre pir e murid. Contudo, Ele não disse em parte alguma: “Adquiri a ma‘rifa”. Isso porque uma pessoa pode reconhecer uma coisa, mas não lhe é possível obter conhecimento completo sobre ela. Porém, quando adquiriu ‘ilm sobre essa coisa e passou a conhecê-la plenamente, também foi capaz de reconhecê-la.

O sentido essencial das palavras de Hazrat Junaid é que o ‘ilm é superior à ma‘rifat. Portanto, não se deve buscar a ma‘rifat de Allah, mas sim o conhecimento sobre Allah. Somente quando se adquire o ‘ilm é possível alcançar a ma‘rifat. E quem não possui ‘ilm também não pode obter ma‘rifat. A única fonte desse ‘ilm é o Alcorão de Allah e os hadiths do Mensageiro. É por meio do Alcorão e dos hadiths que se deve conhecer o Mensageiro; e é mediante a aquisição do conhecimento sobre Allah que o ser humano pode conhecê-Lo e reconhecê-Lo — não por qualquer outro meio.

Mas os adeptos do tasawwuf construíram, em torno dessa ma‘rifat, um palácio labiríntico. Segundo eles, a ma‘rifat, ou ‘ilm al-batin, é um método de prática bem estruturado e organizado, completamente distinto da Sharia islâmica. Segundo eles, o Mensageiro honorável ensinou essa ma‘rifat a alguns companheiros, mas não a muitos outros. Também acreditam que o ‘ilm al-batin chegou de Hazrat Ali a Hasan Basri. E, a partir dele, essa prática foi transmitida, de boca em boca, até os pirs da época atual.

Tudo isso é completamente infundado. Pois o Mensageiro honorável não ensinou a ninguém aquilo que os pirs atuais ensinam aos seus murids. Ele também não ordenou a ninguém que fizesse tal coisa. Ensinar algum conhecimento necessário a certos companheiros e privar dele os demais seria inteiramente contrário à política e ao modelo do Profeta honorável. Além disso, Hasan Basri não encontrou Hazrat Ali; quanto a ter recebido dele ensinamentos de ma‘rifat e a khirqa da khilafat, isso está ainda mais distante da verdade.

Allama Mulla Ali al-Qari escreveu, citando Allama Ibn Hajar al-Asqalani:

— Os métodos e regras que os sufis e os adeptos da ma‘rifat tentam comprovar não têm qualquer base que permita comprová-los. Em nenhum hadith — sahih, hasan ou da‘if — se afirma que o Profeta honorável tenha vestido algum de seus companheiros com a khirqa da khilafat do tipo usado pelos adeptos do tasawwuf. Ele também não ordenou a ninguém que fizesse isso. Tudo o que é narrado a esse respeito é claramente falso. Além disso, a alegação de que Hazrat Ali vestiu Hasan Basri com a khirqa — concedendo-lhe a khilafat da ma‘rifat — é uma mentira inteiramente inventada. Com efeito, os imames do hadith nem sequer conseguiram provar que Hasan Basri tenha ouvido algo de Hazrat Ali, quanto mais que este lhe tivesse vestido a khirqa.

Mulla Ali al-Qari escreveu ainda:

— Do mesmo modo, a prática introduzida entre os adeptos do tasawwuf de fazer talqin ao murid e conceder-lhe fayz espiritual não tem qualquer base na Sharia que permita vinculá-la a Hazrat Ali por intermédio de Hasan Basri.

Na realidade, isso é apenas uma concepção infundada dos adeptos do tasawwuf. Shah Waliullah Dehlawi escreveu a esse respeito:

— A resposta à afirmação dos sufis ou seguidores do tasawwuf de que a silsila dessas tariqas remonta a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) é que essa é uma afirmação repetida e célebre entre pirs e murids. Contudo, após investigação, descobriu-se que ela não possui qualquer fundamento ou veracidade.

Neste ponto, ele escreveu ainda que há dois tipos de coisas célebres. Um tipo consiste nas afirmações célebres entre todos os sábios e eruditos. O outro tipo são as afirmações célebres apenas entre um determinado grupo de pessoas. A afirmação de que o conhecimento da ma’rifat começou com Hazrat Ali é célebre somente entre esses pirs sufis; ninguém mais conhece tal afirmação. Na realidade, essa afirmação é falsa ou, pode-se dizer, totalmente inaceitável. As pessoas das épocas posteriores a inventaram e aceitaram. E uma afirmação desse tipo não pode ser aceita de modo algum. Shah Dehlavi também declarou que os métodos de ma’rifat, a muraqabah-mushahadah e o zikr que os pirs atuais ensinam aos seus murids não existiam na época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nem na época dos Sahaba.

Ele disse:

Deve-se saber que os costumes e práticas do tasawwuf dos pirs sufis não existiam na época dos Sahaba e dos tabi’un. Abandonar os meios de sustento, vestir roupas remendadas, não se casar nem constituir família e permanecer sentado na khanqah não eram práticas correntes naquela época.

Os seguidores da ma’rifat acreditam que, seguindo completamente esse método da ma’rifat, o viajante, o salik, pode conhecer a realidade oculta (haqiqah). E, finalmente, essa ma’rifat o conduz à compreensão de que, embora essas coisas exteriormente visíveis sejam, por definição, distintas de Allah, na realidade essencial elas são o próprio Allah. A diferença que parece existir entre Allah e as coisas exteriores é uma ilusão nossa. Em outras palavras, a diversidade e a vastidão das coisas atualmente visíveis no exterior são um engano ou uma ilusão da criação. Pode-se dizer, de outro modo, que, seguindo esse método, a pessoa pode finalmente libertar-se da ilusão da visão. Então parece que se está vendo o Único Allah na forma dessa imensa multiplicidade. Segundo essas pessoas, isso é a ma’rifat do tawhid.

Mas, ao observar um pouco mais atentamente, verá que todas essas afirmações metafísicas são a filosofia dos Vedas e dos Upanishads, o vedanta. A designação correta dessa filosofia é monismo. Isto é, Allah e o universo, ou o Criador e a criação, são, na realidade, um só e a mesma coisa. O que é criado é o Criador, e aquele que é o Criador é a criação. Esse é o princípio fundamental do ideal monista. E essa é precisamente a doutrina da religião hindu, que, na atual tradição de pirs e murids, passou a circular na sociedade muçulmana sob o nome de ma’rifat do Islam; e não há a menor dúvida de que isso é shirk manifesto.

Na realidade, o Islam é uma religião abrangente. Nele foram estabelecidas disposições detalhadas para todos os aspectos e áreas da vida prática, para todas as ações e assuntos, começando pelo modo de purificar exclusivamente para Allah a mente, o coração e o íntimo de uma pessoa. Nele, a sharia e a tariqa não são coisas separadas, independentes nem mutuamente contrárias. Assim como o corpo e a mente de uma pessoa não são duas coisas opostas. Do mesmo modo que o ser humano resulta da integração do corpo e da mente, a sharia, a tariqa e a ma’rifat são apenas diferentes aspectos da mesma coisa — o exterior e o interior — e todas emanam do mesmo Alcorão e da mesma hadith.

É no Alcorão que se encontra o conhecimento correto e abrangente de Allah, por meio da análise dos nomes relacionados à Sua Essência e aos Seus Atributos, bem como das variadas descrições do Seu poder. É também no Alcorão que se conhecem as disposições da sharia relativas a crer em Allah, aceitar a Sua adoração e cumprir com devoção sincera as Suas ordens e proibições. Quando a realidade profunda, a grandeza e o significado interior dessas coisas se estabelecem no íntimo da pessoa, isso se torna tariqa ou ma’rifat. Quando a pessoa pratica de acordo com a sharia, isso é a prática da sharia. E quando essa prática se torna impregnada e vivificada pela sinceridade, pelo temor de Allah e pelo amor a Allah, permitindo-lhe sentir Allah sempre presente e observando-a, então isso se torna ma’rifat ou tariqa. Enquanto houver conflito na mente entre o conhecimento e a prática, isso permanecerá no nível da sharia. Mas, quando a mente e o coração se tranquilizarem desse conflito, se submeterem completamente à prática e a vida se tornar repleta de prática, então se poderá dizer que a tariqa ou a ma’rifat foi alcançada. Shaykh Abd al-Haqq Muhaddith Dehlavi escreveu: “Não considere a haqiqah algo separado da sharia.” Na realidade, a haqiqah é a verdadeira essência e o espírito fundamental da sharia. E a sharia é a forma e a aparência exterior da haqiqah.

A Sharia consiste em crer em tudo o que Allah e o nobre Mensageiro disseram e agir de acordo com isso. Já a haqiqah consiste em que a crença naquilo que se tem como certo se torne maximamente firme e direta.

O xeique Muhyi al-Din Abd al-Qadir Jilani, que Allah santifique seu segredo, disse: “A haqiqah que a Sharia rejeitar é zandaqa — oposição à religião”. O significado desta frase é que, se alguém alcançar um kashf que não esteja de acordo com a religião e a Sharia, e fizer dele sua própria aqidah, tornar-se-á um kafir e um zindiq.

Abu Sulayman al-Darani disse: “Muitas vezes, alguma verdade sobre o wujud e o shukr do caminho do suluk apresenta-se diante de mim revestida de plena beleza; mas não a aceito. Digo: ‘Enquanto duas testemunhas fiéis e confiáveis não testemunharem a veracidade e a validade disso, de modo algum poderei aceitá-lo’. E quem são essas duas testemunhas fiéis? … São o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro.” (Xeique Abd al-Haqq Muhaddith Dehlavi, carta nº 13)

Na realidade, não há diferença entre essas duas coisas, nem oposição ou conflito, nem qualquer dualidade. A verdade, antes, é que a descrição aqui apresentada da tariqa ou da ma’rifah é, na realidade, a própria religião do Islã. Foi este Islã integral que Allah, o Altíssimo, revelou; foi esta religião do Islã que o Alcorão apresentou; e foi esta mesma religião indivisível que o nobre Profeta tornou luminosa diante do mundo por meio de sua vida, caráter, ações e todas as suas obras. E o conjunto inteiro disso é chamado, na linguagem do Alcorão, de Sharia. Portanto, nenhum muçulmano pode negar esta Sharia, nem esta tariqa ou ma’rifah. Segundo os sábios especialistas em tasawwuf, tasawwuf é: o bom caráter é o tasawwuf. Porém, posteriormente, a Sharia e a tariqa tornaram-se duas coisas separadas e passaram a fluir em duas correntes opostas. A Sharia permaneceu — e permanecerá para sempre — íntegra e inalterada, fundamentada no Alcorão e na Sunnah; mas a coisa independente, não escrita e transmitida “de peito a peito” que se ergueu em nome da tariqa e da ma’rifah não deu importância alguma ao caráter bom e puro; nela acumularam-se os detritos de várias formas de shirk. E isto, neste caso, é a bid’ah.

Quando a ma’rifah ou tariqa se separou da Sharia e passou a fluir numa corrente inteiramente independente, nela se acumularam coisas que não foram extraídas da Sharia, isto é, do Alcorão e da Sunnah. Nela foram incluídas a filosofia grega, a filosofia egípcia antiga e a filosofia vedanta indiana. Da combinação de tudo isso formou-se este conhecimento independente da ma’rifah ou tariqa, que recebeu o nome de “conhecimento do tasawwuf”, ou simplesmente tasawwuf. Contudo, em nenhuma época anterior existira no Islã um conhecimento com esse nome; por isso, os muçulmanos não sabiam que a ideia de uma dualidade entre a Sharia e a ma’rifah no Islã é uma grande bid’ah. Do mesmo modo, é uma grande bid’ah considerar a religião e a política no Islã como duas coisas separadas. Separando a religião da política e tornando-as mutuamente desvinculadas, estabeleceu-se, no campo político, o domínio de pessoas fasiq, kafir e opressoras. E a religião foi restringida apenas à oração, ao jejum, à peregrinação e ao zakat. Da mesma forma, ao separar a Sharia da tariqa, criou-se uma classe de pires ignorantes. Na sociedade muçulmana funciona, sob o nome de pirismo, uma instituição idólatra inteiramente independente. Esse pirismo sempre foi criado, alimentado e adornado em todos os seus ramos sob a proteção de governantes fasiq, fajir e opressores — reis e monarcas. Em geral, os pires sempre apoiaram esse tipo de governante. Jamais disseram sequer uma palavra contra governantes opressores e fasiq. Pelo contrário, sempre ergueram as duas mãos em oração por eles, dizendo: “Que Allah prolongue a sua vida”.

O tasawwuf segue em direção oposta ao Islã

Embora a fonte principal da espiritualidade islâmica tenha sido, no início, o Alcorão e a Sunnah, posteriormente, ao entrar em questões detalhadas e minuciosas, ela assumiu o nome de tasawwuf, e seu ideal e objetivo tornaram-se inteiramente distintos do ideal e objetivo do Alcorão e da Sunnah. O estudo comparativo de ambos deixa claro que, no âmbito do ideal do tasawwuf, alguns ideais e objetivos fundamentais do Islã se tornaram obscuros e foram negligenciados, enquanto certas questões minuciosas receberam uma importância excessiva. Algumas correntes de pensamento tornaram-se mais intensas e evidentes no tasawwuf, ao passo que outras se tornaram relativamente mais fracas e menos importantes. Algumas concepções islâmicas, ao ingressarem no tasawwuf, assumiram um significado completamente novo. Em outras, iniciou-se uma alteração parcial de seu significado e importância. Além disso, o tasawwuf ignorou completamente muitos aspectos essenciais do Islã e, por alguns meios, muitas coisas externas foram incorporadas a ele.

Embora não haja aqui oportunidade para discutir detalhadamente essas questões, estou tentando explicá-las brevemente, para que ninguém imagine que estas palavras estão sendo ditas por hostilidade ao tasawwuf. Isso, de modo algum, é verdade. Apresentam-se aqui alguns exemplos.

Na fase inicial do Islã, ‘amal’ era utilizado em sentido amplo. Mas, ao chegar ao tasawwuf, seu campo tornou-se extremamente estreito e limitado. O objetivo do Islã é encontrar soluções corretas e eficazes para a vida social das pessoas, para a organização social e para as complexidades de suas necessidades; porém, os adeptos do tasawwuf não demonstram qualquer interesse ou curiosidade por essas questões. Elas estão inteiramente fora do âmbito de suas atividades. No período inicial do Islã, havia uma relação profunda e um equilíbrio pleno entre ‘fikr’, ‘jazba’ e ‘amal’; porém, os adeptos do tasawwuf atribuem tanta importância à emoção e à qalbi-kaifiyat que, por causa disso, a importância do amal — especialmente do pensamento ou fikr — diminuiu ou deixou de existir por completo. O amor a Allah é a essência fundamental do dīn do Islã. Na primeira época do Islã, esse amor não era algo separado ou desligado do ‘amal’, nem jamais foi reconhecido como tal; pelo contrário, o amor a Allah era uma força espiritual vivificante que fluía e se manifestava justamente naqueles atos que era indispensável ao ser humano realizar, por ser o khalifa de Allah na Terra. Mais tarde, porém, o ideal e o objetivo dos adeptos do tasawwuf não apenas se tornaram estreitos no que diz respeito ao amal; para fortalecer a ‘muhabbat’ junto ao ‘amal’, eles adotaram diversos métodos. Por exemplo, passou-se a acreditar que a fé se fortalece por meio de reuniões de canto, da prática musical e coisas semelhantes. Mas poderão os adeptos do tasawwuf provar que, na época inicial, a ‘muhabbat por Allah’ levava as pessoas a realizar essas coisas?

Aqui também ‘zikr’ é utilizado em sentido restrito. Considera-se que zikr consiste apenas em sentar-se com a cabeça inclinada e pronunciar com a boca ‘Allah’, ‘Allah’ ou a fórmula ‘La ilaha illallah’, em voz baixa ou alta; e acredita-se que, ao fazer isso, já se cumpriu o dever de recordar Allah. Porém, não há dúvida de que essa é uma concepção extremamente estreita e uma distorção de um princípio fundamental do ideal islâmico. No Alcorão Sagrado, foi dada uma ordem clara para fazer o zikr de Allah. Na Surata Al-Baqara, foi dito:

فَاذْكُرُونِي أَذْكُرْكُمْ وَاشْكُرُوا لِي وَلَا تَكْفُرُونِ [٢:١٥٢]

— Lembrai-vos de Mim, e Eu Me lembrarei de vós; agradecei-Me e não sejais ingratos para Comigo.

O erudito Ragib Isfahani escreveu o significado da palavra ‘zikr’:

*******

Zikr é um estado da mente pelo qual a pessoa consegue conservar o conhecimento que deseja preservar. Assim como significa manter na memória, recordar ou conservar, também significa isso.

Em outro sentido, foi dito que “dhikr” significa a presença de algo na mente. Ele também escreveu: “O dhikr pode ser de duas formas: o dhikr do coração e o dhikr da língua. Recordar aquilo que se esqueceu, mantê-lo na memória sem esquecê-lo, mantê-lo sempre desperto na lembrança e preservá-lo: em ambas essas situações, aplica-se a palavra dhikr.”

O Allama Qurtubi escreveu: estar sempre consciente e informado no coração acerca de algo, mantendo a mente desperta a esse respeito.

E traduziu o versículo da seguinte forma:

Lembrai-vos de Mim obedecendo-Me; então, Eu me lembrarei de vós, concedendo recompensa e perdoando os pecados.

Em outras palavras, dhikr consiste em adorar Allah, obedecer-Lhe e cumprir os Seus mandamentos, mantendo-O na lembrança e com sincero interesse do coração.

Em outro versículo, foi dito:

إِنَّمَا الْمُؤْمِنُونَ الَّذِينَ إِذَا ذُكِرَ اللَّهُ وَجِلَتْ قُلُوبُهُمْ[٨:٢]

– Os verdadeiros crentes são aqueles cujos corações estremecem quando Allah é mencionado ou lembrado.

Na exegese deste versículo, o Imam Ibn Kathir escreveu: Portanto, ó crentes, cumpri devidamente as obrigações prescritas por Allah.

Posteriormente, este exegeta escreveu: O dever daquele cujo coração estremece quando Allah é mencionado é temer Allah, cumprir Seus mandamentos e abster-se continuamente do que Ele proibiu.

Fica claro a partir desta discussão que o significado da ordem de fazer o zikr de Allah é adorá-Lo, obedecer-Lhe constantemente, considerá-Lo como o seu único Ma‘bud, considerar-se unicamente Seu servo, jamais ser negligente quanto a isso, lembrar-se de Allah o tempo todo e nunca esquecê-Lo.

Além disso, segundo a declaração do Alcorão, o zikr não é a única ação a ser realizada. Juntamente com ele, o fikr também é indispensável. Para explicar a importância e a continuidade tanto do zikr quanto do fikr, Allah disse:

الَّذِينَ يَذْكُرُونَ اللَّهَ قِيَامًا وَقُعُودًا وَعَلَىٰ جُنُوبِهِمْ وَيَتَفَكَّرُونَ فِي خَلْقِ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ[٣:١٩١]

—Aqueles que fazem o zikr de Allah em pé, sentados e deitados de lado, e refletem e investigam a respeito da criação dos céus e da terra (na verdade, esses são os sensatos).

(Al ‘Imran: 191)

Neste versículo, é ordenado fazer o zikr de Allah sentado, em pé e deitado, isto é, em todas as situações. Isso porque a pessoa se encontra sempre em uma dessas três posições. Em nenhum momento ela está em alguma posição diferente dessas três: ou está sentada, ou em pé, ou deitada. Portanto, deve fazer o zikr de Allah em todas as situações. Ou seja, deve mantê-Lo na lembrança; em nenhuma situação é permitido esquecer Allah.

Em segundo lugar, o versículo não menciona apenas o zikr; juntamente com ele, também menciona o fikr. Segundo as palavras do Imã Ragheb, fikr significa: a força empregada para conhecer alguma coisa. Foi dito que o significado original dessa palavra é examinar minuciosamente os assuntos com o objetivo de conhecer sua essência sutil e sua verdade profunda.

Em uma palavra, o mero zikr não é o que Allah deseja, nem é a prática de uma pessoa sensata. O fikr também é indispensável. O zikr sem fikr é obra de pessoas insensatas. E o fikr sem zikr é obra dos ateus e daqueles que se rebelam contra Allah.

Mas no tasawwuf de hoje há apenas zikr; não há fikr. Se alguém fizer fikr juntamente com o zikr, na linguagem corrente isso já não será tasawwuf. Se um murid de algum pir quiser fazer isso, perderá sua condição de murid. Além disso, esse zikr foi ali aceito em um sentido muito positivo e limitado a fechar os olhos em um horário determinado e pronunciar “Allah”, “Allah” com a boca; e isso continua também em outros momentos, fora do horário determinado. E, fora desse vasto processo, em nenhum lugar do amplo campo da vida se vê qualquer sinal do zikr de Allah na vida dessas pessoas. Esse método do zikr e a determinação de seu horário constituem uma grave bid‘ah do Islã. Essa bid‘ah impediu que o Islã fosse um ideal revolucionário abrangente e o transformou em uma religião ascética de prática iogue.

O zikr verbal também é zikr, se a ele se juntar o zikr do coração. Por isso, o Imã Qurtubi escreveu: o zikr verbal também foi chamado de zikr porque é um sinal do zikr do coração.

Ou seja, é o zikr do coração que assume a forma do zikr fundamental. Mas no tasawwuf foi introduzido um tipo de zikr completamente diferente. Ali não há lugar para o zikr do coração. O objetivo do zikr do coração é completamente ignorado nesse contexto. Aqui, o zikr verbal é considerado a principal questão. Limpar o qalb por meio de seu impacto e ativar as seis lata’if é apresentado como o objetivo central do zikr. Por isso, diz-se que esse zikr é algo completamente diferente do zikr mencionado no Alcorão. Não há qualquer prova dele no Alcorão ou no hadith. As lata’if também são apenas uma concepção inovadora. Não são reconhecidas no Alcorão nem no hadith, nem foram encontradas neles.

Em outro versículo, foi dito: Árabe(*******)

Ó vocês que creem! Lembrem-se de Allah muitíssimo.

O Allama Qurtubi escreveu em seu tafsir: a ordem de fazer zikr mencionada no versículo significa fazer zikr com o coração de tal maneira que seja possível mantê-lo em todas as circunstâncias e permanentemente. Em nenhum momento você o perderá nem o esquecerá.

Nesta etapa, também é digno de consideração o seguinte versículo:

إِلَيْهِ يَصْعَدُ الْكَلِمُ الطَّيِّبُ وَالْعَمَلُ الصَّالِحُ يَرْفَعُهُ ۚ

— Até Allah ascendem todas as palavras puras e santas; e as boas ações fazem-nas ascender. (Al-Fatir: 10)

Ou seja, todas as palavras boas e puras — a crença no tawhid, o zikr de Allah, a recitação do Alcorão, entre outras — chegam até Allah; porém, são as boas ações que as fazem chegar. Sem boas ações, somente palavras, somente zikr ou somente a crença no tawhid são destituídos de sentido. Não serão aceitos por Allah.

Por essa razão, embora muitos méritos do zikr tenham sido mencionados nos hadiths, também foi explicado em termos claros em que consiste sua forma prática para que seja o zikr de Allah, ou qual é o método prático do zikr de Allah.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: Árabe(*******)

— Aquele que obedeceu a Allah, esse praticou o zikr de Allah, ainda que suas orações (voluntárias), jejuns e boas ações tenham sido muito poucos.

Ou seja, a forma prática correta do zikr de Allah é obedecer a Allah e cumprir Seus mandamentos e prescrições. Pois, quando se cumprem os mandamentos de Allah, o zikr de Allah ocorre naturalmente. Isso porque, se Allah não estiver presente na lembrança, não será possível cumprir Seus mandamentos. Portanto, limitar o zikr de Allah a uma forma específica, a horários determinados e a um número definido é bid‘ah. No tasawwuf, isto é, na relação entre pír e murid, essa bid‘ah constitui o principal elemento. É realizando cerimônias desse tipo de zikr que os pírs mantêm pessoas tolas transformadas em ovelhas e o anunciam sob a forma de presentes e oferendas. Na realidade, esse tipo de zikr é praticado entre os ascetas e os vaisnavas hindus. Não seria de modo algum exagero dizer que esse método dos pírs foi tomado dos ascetas hindus.

O Alcorão Sagrado sempre se levantou contra o ascetismo. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ergueu a voz contra isso durante toda a sua vida e eliminou as inclinações e tendências ascéticas das pessoas. Contudo, o tasawwuf fortaleceu esse fenômeno; entre os principais expoentes do tasawwuf, observa-se atualmente uma forte tendência negativa em relação ao desfrute dos prazeres materiais e aos vínculos e relações sociais. Entretanto, isso não existia no período inicial do Islã. Quando tal tendência surgia entre os companheiros na época do Mensageiro, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) protestava contra ela em termos severos. No Alcorão e no hadith, foi dada ênfase especial ao dhikr de Allah — à recordação de Allah — no que diz respeito à tazkiyah. Porém, na perspectiva do Islã, esse não era o único meio. Juntamente com o dhikr de Allah, havia muitos outros meios e instrumentos que eram empregados com o objetivo de alcançar a tazkiyat an-nafs dos muçulmanos. Nesse contexto, merece especial menção o jihad fi سبيل الله. Com efeito, para que a tazkiyat an-nafs alcance as elevadas e grandiosas virtudes da paciência, tawakkul, submissão a Allah, satisfação com a determinação de Allah e outras semelhantes, a importância do jihad é máxima. É essa a posição que lhe foi conferida pelo Alcorão e pelo hadith. (Consulte-se especialmente o Alcorão Sagrado, surata Al-Baqara, versículos 152, 153 e 154, e surata Al-Ahzab, versículos 22 e 23.) Mas os adeptos do tasawwuf abandonaram o jihad, deixaram o campo extenuante do jihad e, entregando a autoridade social e estatal nas mãos de pessoas satânicas, permaneceram ocupados com o dhikr de Allah e a muraqabah e mushahadah, refugiados na segurança da khanqah. Além disso, adotaram essa prática como o único meio de tazkiyat an-nafs e convidaram também outras pessoas a fazê-lo. Como resultado, foram inventados novos métodos e formas de dhikr.

Foram inventados termos completamente novos e métodos e formas inéditos de muraqabah-mushahadah, dos quais não havia qualquer vestígio na época do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e dos nobres Companheiros.

A mujahadah dos adeptos do tasawwuf é uma guerra intensa e contínua contra os desejos do nafs. Contudo, ela não tem a menor relação com lutar contra os inimigos de Allah. Nesse contexto, os adeptos do tasawwuf apresentam um hadith como prova. Ei-lo: árabe(*********)

— Retornamos do pequeno jihad para o grande jihad. Perguntaram: O que é o grande jihad? Ele respondeu: Lutar contra o coração ou contra o nafs.

Essa afirmação é divulgada como sendo uma palavra do Mensageiro ou um hadith. Baseando-se nela, os adeptos do tasawwuf primeiro consideraram a mujahadah contra o próprio nafs superior e como um jihad maior, em comparação com lutar ou enfrentar os inimigos da religião. Depois, determinaram que isso seria sua única atividade. E abandonaram completamente o jihad contra os inimigos da religião, chamando-o de mundanismo, política e coisas semelhantes. Mas, na realidade, isso é um enorme engano. A respeito da afirmação acima, o especialista em hadith e comentarista do Sahih al-Bukhari, o imã Ibn Hajar al-Asqalani, disse: isso não é um hadith. É, antes, uma frase muito famosa, repetida de boca em boca. Na verdade, é uma declaração de Ibrahim ibn Ablah, não um hadith do Mensageiro.

É verdade que essa afirmação foi citada por Bayhaqi e Khatib al-Baghdadi, mas sua cadeia de transmissão é extremamente fraca. Portanto, não se pode basear nela para tomar uma decisão sobre uma questão tão importante do Islã. Por essa razão, a paciência — cuja elevada posição foi proclamada no Alcorão Sagrado — de permanecer firme, forte, resoluto e inabalável na luta e no combate contra os inimigos de Allah não tem qualquer importância para os adeptos do tasawwuf. O mesmo aconteceu com o tawakkul e com outras práticas virtuosas da religião.

Como pode ser lícita a mudança que os adeptos do tasawwuf introduziram no objetivo e no ideal da vida? É uma questão difícil; eles de fato tentaram respondê-la, mas essa resposta é inaceitável e sem sentido à luz do Alcorão e da Sunnah. Para provar a legitimidade de suas práticas, adotaram o princípio do “istikhab” e do “ikhtiyar” — “selecionar, escolher e aceitar”. Assim, entre os milhares de Companheiros do nobre Profeta, adotaram como seus modelos apenas os Companheiros de Ahl as-Suffah, pois viram uma correspondência entre a vida deles e seu ideal geral. E, na vida dos demais Companheiros, deram destaque apenas aos aspectos particulares dos quais podiam obter apoio para sua própria tendência. Perguntaram a Hazrat Junayd: O que é o tasawwuf? Ele respondeu: A base do tasawwuf está estabelecida sobre oito coisas. Essas oito coisas manifestaram-se claramente, de forma individual, na vida de oito profetas. São elas: a generosidade, a liberalidade e a hospitalidade de Hazrat Ibrahim; o esforço de Hazrat Ismail para alcançar a satisfação de Allah e sua submissão; a paciência de Hazrat Yaqub; os sinais de Hazrat Zakariya; o anonimato de Hazrat Yahya; as viagens de Hazrat Isa pelo país; o uso do khirqa por Hazrat Musa; e o faqr — a pobreza — de Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

É fácil compreender que, entre a vasta e completa vida de cada profeta e a abundância de suas virtudes, foi escolhida separadamente uma única virtude como “modelo”, embora Allah e Seu Mensageiro não tenham dado permissão para isso. Allah, o Altíssimo, ordenou que Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fosse tomado como modelo de maneira completa e abrangente — não apenas uma de suas virtudes, mas que todas elas fossem assimiladas.

Disse: لَّقَدْ كَانَ لَكُمْ فِي رَسُولِ اللَّهِ أُسْوَةٌ حَسَنَةٌ

-Para vós, na pessoa do Mensageiro de Allah, há um modelo excelentemente digno de ser seguido. (Al-Ahzab: 21)

E o próprio nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou: árabe(*******)

-Enquanto vossas mentes e mentalidades não se submeterem completamente à religião que trouxe, nenhum de vós poderá ser crente.

Isso significa que não se deve aceitar apenas uma palavra ou um princípio do Mensageiro; é preciso aceitar integralmente a religião completa e o modelo completo recebidos dele.

No caso dos “Califas Bem-Guiados”, esse mesmo princípio foi seguido. Os adeptos do tasawwuf dão importância apenas às correntes de pensamento relacionadas ao zuhud, à generosidade e à disciplina espiritual de suas vidas, e quiseram esquecer completamente suas atividades e seus esforços de jihad. Contudo, toda a vida deles transcorreu na luta e no combate contra as forças da falsidade, no esforço para organizar a sociedade islâmica e estabelecer o Estado, promulgar e fazer cumprir a lei da Sharia na sociedade, estabelecer a justiça e esmagar as cabeças dos inimigos de Allah. Mas, para os adeptos atuais do tasawwuf, nenhuma dessas grandes virtudes tem qualquer importância. Como resultado, a sociedade muçulmana, arrastada hoje pela corrente do ascetismo, perdeu as características da vida, sua força, vitalidade e talento, e tornou-se desprovida de tudo.

Também é apresentado um hadith em apoio à alegação de que o conhecimento da Sharia e o conhecimento da ma‘rifa são duas coisas distintas. O hadith foi citado na Mishkat Sharif da seguinte forma: árabe(******)

-É narrado de Hasan Basri que ele disse: O conhecimento é de dois tipos. Um conhecimento se reflete no interior do coração; e este é o verdadeiro conhecimento benéfico. E outro conhecimento é apenas pronunciado pela boca; e este é a prova irrefutável de Allah contra as pessoas.

Mas isso não pode de modo algum servir como prova nesse nível. Primeiro, porque não é uma palavra do Mensageiro, nem de qualquer Companheiro. Trata-se de uma declaração de Hasan Basri, que era apenas um tabi‘ī.

Em segundo lugar, o conhecimento mencionado aqui não é, na realidade, constituído por dois conhecimentos distintos. Trata-se de dois aspectos de um mesmo conhecimento — o exterior e o interior. Um não está separado do outro. O que é chamado de conhecimento da boca é precisamente o conhecimento do Alcorão e da Sunnah; é preciso aprendê-lo lendo e recitando. E o efeito dessa leitura sobre o coração é o ‘ilmun fil-qalb’, o conhecimento do coração. Portanto, não há dualidade entre os dois, nem podem ser adquiridos por meios diferentes; ao contrário, ambos devem ser aprendidos do mesmo Alcorão e dos mesmos hadiths. Quando se acende uma lâmpada, uma coisa é o fogo e outra é a luz e o calor desse mesmo fogo. É possível separar o calor da luz do fogo? Assim também é neste caso. Abu Talib al-Makki, ao explicar a afirmação acima, disse:

— Ambos são conhecimentos fundamentais. Um não existe sem o outro, assim como a fé e o Islã. E os dois estão intimamente ligados, exatamente como o corpo e a alma. Um não pode ser separado do outro.

O ‘ilm al-batin’, ou ‘conhecimento batiniano’, também não é reconhecido no Islã como algo válido. Embora outro hadith, chamado ‘Musallal’, seja citado para provar a existência desse conhecimento.

Eis o seu teor: é narrado por Hasan Basri, que o narrou de Huzayfa: Huzayfa disse: Perguntei ao Profeta: o que é o conhecimento batiniano? O Mensageiro respondeu: Quando perguntei a Jibril sobre isso, ele disse: Allah afirmou: o conhecimento batiniano é algo especial entre Mim e Meus amigos e queridos, Meus wali e Meus sinceros amigos; deposito-o como uma confiança no interior de seus corações, e nenhum anjo próximo de Mim pode conhecê-lo, nem qualquer profeta ou mensageiro.

Mas, infelizmente, isso não é hadith algum. O Imam Ibn Hajar al-Asqalani, autor de Fath al-Bari, não aceitou reconhecê-lo como hadith.

Ele disse: Esta afirmação foi forjada deliberadamente; não é uma palavra do Mensageiro. Hasan Basri não se encontrou com Huzayfa. Não teve qualquer oportunidade de narrar hadith a partir dele.

Portanto, o que foi dito aqui — que Hasan Basri narrou esse hadith de Huzayfa — é inteiramente falso. Isso deixa claro que, muito depois do Profeta e da era dourada do Islã que se seguiu, foram amplamente inventadas e divulgadas, em nome de hadiths, essas falsas afirmações sobre o comércio de pīr-murīd sob o nome de ‘conhecimento batiniano’. Na realidade, essa é a crença da seita batiniana. Foram eles que dividiram a Shariah em duas partes: batiniana e zahiriana. A seita batiniana não é considerada parte da Ahl al-Sunnah wa al-Jama‘ah. É uma seita inválida. Eles não reconheciam a profecia nem a Shariah. Consideravam lícitas todas as coisas ilícitas.

Com efeito, essa ma‘rifah dissociada do Alcorão e da Sunnah afasta a pessoa da fé monoteísta do Islã e a mergulha no grande pântano do shirk vedantista. Foi exatamente isso que ocorreu na vida de muitos adeptos dos pīrs e dos chamados seguidores do tasawwuf nos tempos atuais. Portanto, esse tasawwuf não pode ter lugar no Islã.

É obrigatório seguir um pīr ??

Indo ainda mais longe, certo tipo de pīr semialim começou a afirmar que seguir um pīr é obrigatório. Para isso, apresentam como prova o versículo do wasīlah no Alcorão Sagrado. Dizem: “Foi o próprio Allah quem ordenou, no Alcorão Sagrado, que se buscasse o wasīlah — e esse wasīlah é o pīr. Portanto, fica provado que seguir um pīr é obrigatório.” No entanto, já apresentamos anteriormente uma explicação detalhada desse versículo do wasīlah. Citando cerca de dez ou doze tafsīrs antigos e autorizados, mostramos que o wasīlah cuja busca Allah, o Altíssimo, ordenou nunca significa “pīr”; seguir um pīr não significa obedecer à ordem de buscar esse wasīlah. Além disso, citando famosos e confiáveis dicionários árabes, mostramos que ninguém definiu a palavra “wasīlah” como “pīr”. O falecido Mawlānā Ashraf Ali Thanvi (que Allah tenha misericórdia dele) era um grande erudito do tasawwuf, universalmente reconhecido em sua época. Mas ele também não traduziu wasīlah como “pīr”; traduziu-a como “proximidade”. Por isso, é indispensável consultar a tradução do Alcorão que ele escreveu. Pelo contrário, ele afirmou que somente os ignorantes tentam provar, a partir desse versículo, que seguir um pīr é obrigatório; ninguém mais.

Outra prova que apresentam é este versículo do Alcorão:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا اتَّقُوا اللَّهَ وَكُونُوا مَعَ الصَّادِقِينَ [٩:١١٩]

— Ó vós que credes, temei a Allah e permanecei com os verazes. (At-Tawbah: 119).

Ao apresentar este versículo, os adeptos dos pīrs querem dizer que por “os verazes” se entendem precisamente eles, e que foi ordenado tornar-se seu murīd e escolher sua companhia. No entanto, nenhuma pessoa no mundo, nem nenhum dos exegetas, desde os primeiros tempos até os dias atuais, jamais entendeu deste versículo uma ordem para tornar-se murīd de um pīr, nem poderia entendê-la assim. Se alguém quiser entendê-lo dessa maneira, estará usando o Alcorão conforme sua própria vontade, empregando-o caprichosamente para defender sua própria posição. E isso é um crime muito grave — tão grave que nem mesmo a descrença manifesta pode ser considerada equivalente a ele.

Ao explicar este versículo, Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu: “Por ‘os verazes’ entendem-se aquelas pessoas que se mostraram sinceras na fé e no cumprimento da promessa de obediência feita a Allah e ao Seu Mensageiro.”

Além disso, pode-se empregá-la também em sentido geral. Nesse caso, seu significado será: todas aquelas pessoas que, na prática da religião, demonstraram ser verazes em todos os aspectos — na intenção, nas palavras e nas ações.

Allama Ibn Kathir escreveu, em seu tafsir deste versículo: Sede verazes e apegai-vos à verdade; então podereis ser portadores da verdade e sereis salvos da destruição. Isso trará facilidade às vossas obras.

Segundo Allama Talusi, o significado pode referir-se especialmente também àqueles que, tendo-se separado do exército muçulmano, se refugiaram em um lugar elevado.

Assim, o significado de todo o versículo será: assim como aqueles três falaram a verdade, com veracidade e intenção sincera, sede também vós dessa mesma forma. (Imam dos exegetas, Abu Abdallah Muhammad ibn Ahmad al-Ansari al-Qurtubi, apresentou em seu célebre tafsir uma explicação detalhada deste versículo; contudo, não mencionou que ele significasse seguir um pir ou que ordenasse acompanhar um pir.)

A explicação correta da palavra sadiqin também pode ser encontrada em outro versículo do Alcorão Sagrado. O versículo é o seguinte:

Árabe(**********)

— Para os pobres emigrantes que foram expulsos de suas casas e privados de seus bens, que buscam a graça e a satisfação de Allah e ajudam Allah e o Mensageiro. Na verdade, estes são os sadiqin, os verazes.

Aqui, ao identificar os sadiqin, ou seja, os verazes, afirma-se que eles foram expulsos de suas casas e privados de seus bens por causa da religião do Islã; desejam sempre obter a graça e a satisfação de Allah e, por isso, buscam constantemente a ajuda de Allah e de Seu Mensageiro para estabelecer a religião. Isso não é a descrição de nenhum pir.

Penso que é esse tipo de pessoa que se pode entender pela palavra Sadiqin. Nafi‘ disse que aqui se faz referência aos três homens que se separaram dos mujahidin na batalha de Tabuk. Além disso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e seus Companheiros também podem ser compreendidos por esse termo, disse Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Sa‘id ibn Jubayr disse que, neste versículo, por “Sadiqin” se entendem Hazrat Abu Bakr Siddiq e Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ambos). Surge então a pergunta: com base em que prova se afirma que Sadiqin significa pir e que neste versículo foi dada a ordem de seguir um pir?

Pir Muridismo sobre Mujaddid-e Alfasani declaração

Sobre este assunto, desejaremos ouvir mais de Mujaddid-e Alfasani, o xeque Ahmad Sirhindi, e conheceremos sua opinião. Pois, enquanto no subcontinente indo-paquistanês ele é, por um lado, uma autoridade fundamental do tasawwuf ou do conhecimento da ma‘rifat, por outro, diante da disseminação da fitna do “Dīn-i Ilahi” de Akbar e da hostilidade contra o Islã, ele reavivou o verdadeiro Dīn do Islã. Portanto, sua opinião sobre o tasawwuf é muito mais importante do que a de “você, eu ou ele”. Apresentar sua opinião é ainda mais importante porque os pirs deste país geralmente afirmam que ele é a origem de todos os pirs.

Sobre a sharia e a ma‘rifat, ele escreveu em seu “Maktubat”:

No Dia da Ressurreição, seremos questionados somente sobre a sharia; nada será perguntado sobre o tasawwuf. A entrada no Paraíso e a salvação do Inferno dependem do cumprimento das prescrições da sharia. Os profetas e mensageiros — os melhores de toda a criação — convocaram as pessoas a aceitar a sharia e declararam que ela é o único meio de alcançar a salvação na Outra Vida. O objetivo da vinda desses grandes homens ao mundo foi propagar e estabelecer a sharia. A maior das boas ações é pôr a sharia em prática. E dar vida a pelo menos uma das determinações da sharia, especialmente numa época em que os sinais do Islã foram destruídos, é uma grande virtude. Gastar milhões e milhões no caminho de Allah jamais pode equivaler à recompensa de pôr em prática uma única questão da sharia.

Nesta questão, Mujaddid-e Alfasani (que Allah tenha misericórdia dele) também deu uma resposta detalhada e clara a outra pergunta. Os pirs ignorantes e seus murids andam divulgando a opinião difundida entre o povo de que a sharia é a casca exterior do Dīn, enquanto o verdadeiro núcleo é a tariqa ou a ma‘rifat. Com base nisso, chamam de pecadores e inovadores, entre outras coisas, os sábios da sharia que não dão importância à tariqa, à ma‘rifat etc. e consideram a sharia suficiente; criticam-nos e espalham seus defeitos. Ouçam, como resposta, a contundente refutação de Mujaddid-e Alfasani — que é também a autoridade fundamental da verdadeira ma‘rifat neste país.

Ele disse: “A sharia possui três partes: ilm (conhecer a sharia), amal (agir de acordo com a sharia) e ikhlas (sinceridade). A tariqa e a haqiqa são ambas apenas servas da sharia, como complemento do Islã, sendo esta sua terceira parte. Essa é a verdade, mas nem todos são capazes de compreendê-la até esse ponto. A maioria dos homens eruditos está absorta nos felizes sonhos da imaginação e considera suficiente falar coisas vãs, sem sentido e inúteis. O que essas pessoas sabem ou compreenderão sobre a observância da sharia? E o que compreenderão da realidade da tariqa? Elas passaram a considerar a sharia uma casca ou algo exterior, e a haqiqa, o fundamento, o núcleo e a essência. De modo algum compreendem qual é a verdadeira questão. Permanecem mergulhadas na arrogância por causa das conversas vãs e sem sentido dos sufis e dos pirs, e vagueiam loucamente entre os ahwal e os maqamat da ma‘rifat. Rogo a Allah, o Altíssimo, que guie essas pessoas ao caminho correto.”

Aqueles que consideram a Shariah e a ma‘rifah duas coisas distintas e se entregam a conversas sem sentido e desnecessárias sobre a tariqah foram chamados por Mujaddid-e Alf-e Sani (que Allah tenha misericórdia dele) de ignorantes e desviados. Entre os sábios da Shariah, pelo menos, não há divergência de que essa afirmação de Mujaddid-e Alf-e Sani é inteiramente verdadeira e absolutamente correta. Na realidade, desde o início existe divergência entre os sábios da Shariah, de um lado, e os pirs ignorantes e seus murids cegos, de outro. Os sábios da Shariah jamais apoiaram a divisão entre a Shariah islâmica e a tariqah; sempre se opuseram a ela e declararam que essa divisão era uma inovação extremamente perigosa, importada de fora da religião do Islam. Mas hoje os pirs ignorantes, visando seus interesses materiais e para encenar a prática de uma Sunnah fácil e barata dentro das quatro paredes da khanqah sharif, afastados da responsabilidade de praticar e estabelecer a Shariah, introduziram uma nova coisa chamada ‘tariqah’, separada da Shariah. Em tal situação, de quem se deve aceitar a palavra como digna de confiança: dos sábios ou dos sufis e pirs? Mujaddid-e Alf-e Sani (que Allah tenha misericórdia dele) deu a resposta. Ele disse: “É importante saber que, quando há divergência entre sufis, pirs e os sábios da Shariah, uma reflexão e um estudo cuidadosos mostrarão que, nessa questão, a opinião dos sábios é a verdade. Isso porque os sábios, seguindo os profetas e mensageiros, puderam alcançar a profunda excelência da profecia e o conhecimento dela derivado. Já a visão dos pirs sufis permanece limitada às palavras e especulações da wilayah.”

O maior capital do negócio de transformar pessoas em murids dos pirs é o pretexto do kashf e do ilham. Quando os pirs dizem: “Tive um kashf — descobri isso por meio do ilham”, os murids ignorantes, arrebatados pela devoção, começam a beijar-lhes os pés. Mas esses pirs tolos não têm capacidade de compreender que tais coisas são usadas para manter o negócio de pirs e murids. O ilham pode ocorrer, e o kashf também; ambos acontecem pela misericórdia de Allah. Se alguém os alcançar, deve agradecer a Allah sem contar isso a outras pessoas. Porém, os pirs ignorantes não dão a menor importância à Shariah. Invocando o ilham, determinam o que é permitido e proibido, halal e haram, fard e wajib. E os murids cegos aceitam tudo de cabeça baixa, sem sequer pensar em consultar as determinações da Shariah. Sobre isso, são precisamente as palavras de Mujaddid-e Alf-e Sani que podem nos oferecer uma orientação correta. Ele disse:

Qiyas e ijtihad estão entre os princípios fundamentais da Shariah. Fomos ordenados a segui-los. Contudo, não recebemos nenhuma instrução para aceitar o kashf e o ilham. Além disso, o ilham não constitui prova contra outra pessoa. O ijtihad é uma prova para o muqallid, que é obrigado a segui-lo. Portanto, deve-se seguir os sábios mujtahids e procurar os princípios da religião com base em suas opiniões. E não se deve, de modo algum, seguir aquilo que os sufis dizem ou reivindicam em oposição à opinião dos sábios mujtahids.

O mais lamentável é que os pirs e os ignorantes, sendo geralmente ignorantes, querem manter os murids igualmente ignorantes e jamais os orientam a adquirir conhecimento sobre a religião do Islam, a Shariah islâmica, o Alcorão e os hadiths. O Pir Qibla dirá ao murid que faça muraqabah, que pratique o dhikr de Allah e que recite mil vezes o “wazifah de durood sharif inventado”; mas jamais lhe dirá para recitar o Kalam de Allah, o Alcorão Majid, fonte fundamental da religião do Islam, compreender sua tradução e seu tafsir, e familiarizar-se profundamente com as palavras de Allah. Na verdade, isso é algo surpreendente. Mas Mujaddid-e Alf-e Sani (que Allah tenha misericórdia dele) afirmou claramente:

O conselho mais urgente é que você não cometa nenhum erro no estudo e na leitura do Alcorão Sagrado. Será bom se todo o seu tempo for gasto nesse estudo. Não obterá nenhum benefício com o zikr e a muraqabah.

Quando, durante o governo anti-islâmico dos mongóis, Mujaddid-e Alf-e Sani começou a propagar o Din do Islã e a se opor à falsidade, os pirs da falsidade se tornaram um dos principais obstáculos ao seu trabalho. Ele compreendeu claramente que, sem eliminar esses pirs seguidores da falsidade e corrigir o tasawwuf, não seria possível propagar e estabelecer corretamente o Din do Islã. Por isso, ele também corrigiu consideravelmente o tasawwuf e o libertou dos pensamentos e caminhos falsos.

A verdade é que o pirismo de modo algum é algo islâmico. Ele não se difundiu no ambiente luminoso do Islã. Seu surgimento ocorreu justamente na época do declínio do Islã. É verdade que muitos sábios do Islã também tentaram conduzir o povo ao Din do Islã por meio do conhecimento do tasawwuf; contudo, a semente dos defeitos fundamentais existentes no pirismo permaneceu e criou uma árvore venenosa. Atualmente, ela se transformou em uma árvore gigantesca, desviando profundamente o povo e envenenando sua ‘aqidah e suas práticas. Para estabelecer a Sunnah fundamental do Din do Islã, ainda é indispensável arrancar pela raiz essa falsa comunidade de pirs, assim como era indispensável durante a vida de Mujaddid-e Alf-e Sani.

Pirismo ou bay‘‘ah aceitação prática

No atual sistema de pir e murid, fazer a bay‘ah do murid, receber a bay‘ah do murid e fazer bay‘ah ao pir em nome do murid são questões fundamentais. Na verdade, fazer bay‘ah é uma prática conforme à Sunna; porém, a bay‘ah do sistema pir-murid é inteiramente bid‘ah, assim como o próprio sistema pir-murid é bid‘ah.

“Bay‘ah” é uma palavra árabe. Literalmente, significa comprar ou vender. Ao se mencionar essa palavra, vêm à mente duas partes. Uma parte faz a bay‘ah e a outra aceita a bay‘ah. Um é vendedor e o outro, comprador. Essa questão de compra e venda é muito séria. Precisamos saber detalhadamente qual é o seu lugar no Islã, em que consiste realmente e qual é, nesse caso, o método conforme à Sunna.

Ao explicar a palavra “bay‘ah”, o Imam Raghib Isfahani escreveu:

Quando alguém reconhece a autoridade de um soberano e declara sua disposição de obedecer-lhe, esse ato é chamado de “fazer bay‘ah” ou de aceitar mutuamente a bay‘ah. Por isso, diz-se: ele fez bay‘ah ao soberano, ou os dois fizeram bay‘ah mutuamente.

O Alcorão Majestoso menciona, em vários lugares, que os companheiros fizeram bay‘ah ao Mensageiro de Allah. Em primeiro lugar, aqueles que foram os primeiros a crer e aceitar o Islã faziam bay‘ah ao Mensageiro, e o Mensageiro aceitava a bay‘ah deles. Ao mencionar, no versículo da Surata Al-Fath, a bay‘ah realizada em Hudaybiyyah, foi dito:

إِنَّ الَّذِينَ يُبَايِعُونَكَ إِنَّمَا يُبَايِعُونَ اللَّهَ يَدُ اللَّهِ فَوْقَ أَيْدِيهِمْ ۚ فَمَن نَّكَثَ فَإِنَّمَا يَنكُثُ عَلَىٰ نَفْسِهِ ۖ وَمَنْ أَوْفَىٰ بِمَا عَاهَدَ عَلَيْهُ اللَّهَ فَسَيُؤْتِيهِ أَجْرًا عَظِيمًا [٤٨:١٠]

— Ó Profeta, aqueles que fazem bay‘ah contigo, na realidade fazem bay‘ah com o próprio Allah. A mão de Allah está sobre as mãos deles. Portanto, quem romper esta bay‘ah arcará apenas com o prejuízo dessa ruptura; e quem cumprir o que prometeu a Allah receberá certamente uma enorme recompensa.

Este versículo deixa claro que a bay‘at é uma questão fundamental do modo de vida islâmico. Contudo, essa bay‘at é realizada, por intermédio do Mensageiro, com o próprio Allah; é a bay‘at de aceitar, de modo sincero e pleno, a servidão a Allah, de permanecer obediente a Allah e ao Seu Mensageiro, de oferecer a própria vida com o objetivo de estabelecer a Sua religião no caminho de Allah e de participar da jihad.

Esta é a bay‘at em sentido geral. Também é mencionada outra bay‘at nesse nível, que o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebia das mulheres crentes.

Na Surata al-Mumtahana, foi dito:

يَا أَيُّهَا النَّبِيُّ إِذَا جَاءَكَ الْمُؤْمِنَاتُ يُبَايِعْنَكَ عَلَىٰ أَن لَّا يُشْرِكْنَ بِاللَّهِ شَيْئًا وَلَا يَسْرِقْنَ وَلَا يَزْنِينَ وَلَا يَقْتُلْنَ أَوْلَادَهُنَّ وَلَا يَأْتِينَ بِبُهْتَانٍ يَفْتَرِينَهُ بَيْنَ أَيْدِيهِنَّ وَأَرْجُلِهِنَّ وَلَا يَعْصِينَكَ فِي مَعْرُوفٍ ۙ فَبَايِعْهُنَّ وَاسْتَغْفِرْ لَهُنَّ اللَّهَ ۖ إِنَّ اللَّهَ غَفُورٌ رَّحِيمٌ [٦٠:١٢]

—Ó Profeta, se as mulheres crentes vierem até ti e te prestarem bay‘at sob estas condições: que não associarão nada a Allah, não roubarão, não cometerão zina nem adultério, não matarão os seus filhos, não atribuirão publicamente a ninguém uma acusação falsa e infundada, e não te desobedecerão em algo reconhecidamente bom, então aceita delas esta bay‘at e pede a Allah o perdão para elas. Certamente, Allah é Perdoador, Misericordiosíssimo. (Al-Mumtahana: 12)

Este versículo esclarece em que assuntos o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu bay‘at das mulheres muçulmanas. Vê-se claramente que esses assuntos são absolutamente fundamentais para a fé e a prática islâmicas, e que a bay‘at foi recebida mediante o compromisso de não cometer pecados maiores. Portanto, segundo a Sunnah, bay‘at é somente aquela que é prestada ou recebida sobre esses assuntos e outros assuntos fundamentais semelhantes. Em suma, a bay‘at prestada ou recebida mediante a promessa de cumprir integralmente os mandamentos e as determinações do Islã e de não praticar nada contrário à Shariah é a bay‘at conforme a Sunnah. Somente aceitar esse tipo de bay‘at pode ser Sunnah; nenhuma outra forma de bay‘at.

Em segundo lugar, conforme circunstâncias e necessidades específicas, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu bay‘at dos muçulmanos. A bay‘at desse tipo é a Bay‘at al-Ridwan. Sobre isso, foi dito no Alcorão Majid:

لَّقَدْ رَضِيَ اللَّهُ عَنِ الْمُؤْمِنِينَ إِذْ يُبَايِعُونَكَ تَحْتَ الشَّجَرَةِ فَعَلِمَ مَا فِي قُلُوبِهِمْ فَأَنزَلَ السَّكِينَةَ عَلَيْهِمْ وَأَثَابَهُمْ فَتْحًا قَرِيبًا [٤٨:١٨]

– Allah está satisfeito com os crentes que, sentados sob a árvore, prestaram bay‘ah a ti, ó Profeta. Ele conhecia muito bem os sentimentos e a devoção de seus corações, fez descer sobre eles uma profunda tranquilidade e agraciou-os com uma vitória próxima. (Al-Fath: 18)

Está comprovado pelos hadiths que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) convocou todos os Companheiros para prestarem uma bay‘ah desse tipo. Sobre essa bay‘ah, as pessoas daquela época diziam: o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia recebido das pessoas uma bay‘ah de aceitação da morte.

E Hadrat Jabir ibn Abdullah disse:

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não recebeu exatamente uma bay‘ah para aceitar a morte. Pelo contrário, prestamos bay‘ah sob a condição de que nenhum de nós fugiria do campo de batalha. Assim, as pessoas prestaram bay‘ah, e, entre os presentes, ninguém fugiu, exceto Jadd ibn Qays, chefe da tribo Banu Salama. (Tafsir de Ibn Kathir, volume 4).

Ficou claramente demonstrado nesta discussão em que momento difícil a ‘Bay‘at ar-Ridwan’ foi realizada e a respeito de que assunto grave ela foi assumida. Do mesmo modo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também recebia bay‘ah no contexto do jihad.

Hadrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Os ansar costumavam dizer: no dia da Trincheira, prestamos bay‘ah ao Profeta para o jihad, por todo o tempo que permanecêssemos vivos.

Também há evidências em outros hadiths de que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebia igualmente uma bay‘ah geral de obediência, e as pessoas a prestavam. Hadrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: árabe (********)

– Prestávamos bay‘ah ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para ouvir e obedecer (para prestar obediência). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebia essa bay‘ah. Contudo, nessa bay‘ah, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) impunha-nos a condição: ‘na medida de nossa capacidade’.

Na época do Mensageiro (s), esse era o significado e o uso da bay‘ah. Mais tarde, a bay‘ah também foi praticada na época dos Companheiros. Porém, era feita somente para prestar o juramento ou o compromisso de obedecer ao califa em assuntos de Estado. Assim, após o falecimento do nobre Profeta (s), na assembleia para a eleição do califa, Hazrat Umar Faruq (r.a.) foi o primeiro a prestar bay‘ah a Hazrat Abu Bakr (r.a.).

A respeito disso, o hadith diz: árabe (*********)

Hazrat Umar, dirigindo-se a Abu Bakr, disse: “Não; nós prestaremos bay‘ah a você. Você é o nosso líder, o melhor entre nós e aquele que era mais querido pelo nobre Profeta entre nós.” Então Umar Faruq (r.a.) segurou sua mão e prestou bay‘ah; juntamente com ele, todas as pessoas presentes também prestaram bay‘ah.

Esse acontecimento prova que prestar e receber bay‘ah continua sendo uma sunnah na sociedade muçulmana. Mesmo depois do nobre Profeta (s), essa bay‘ah era feita ou para ingressar no jihad, ou para expressar lealdade ao Estado.

Mas, no caso da relação pīr-murīd — nas tariqas Chishtiyya, Naqshbandiyya Mujaddidiyya e Muhammadiyya — de onde surgiu essa prática atualmente difundida de prestar bay‘ah nas mãos de um faqir-haqir? Qual é a relação entre essa bay‘ah e a bay‘ah do nobre Profeta (s) e dos Companheiros? Onde está a semelhança? Na realidade, trata-se de usar uma coisa boa para um objetivo mau e num contexto inadequado. A coisa é boa, mas está sendo usada para um objetivo mau. É por isso que, no caso da relação pīr-murīd, prestar bay‘ah mão a mão, segurando o turbante, ou encostando o corpo ao corpo daquele que segura o turbante, e praticar murāqabah de várias maneiras como forma de bay‘ah é inteiramente bid‘ah. Uma bid‘ah ainda maior é abandonar o Alcorão e ocupar-se da recitação de um livro que contém salawat inventadas, chamado ‘Dalā’il al-Khayrāt’, do murīd e do pīr. Parece que sua recitação é absolutamente obrigatória. Mas, segundo a shariah, considerar a recitação de qualquer coisa além do Alcorão uma obra de grande recompensa e considerar qualquer livro humano mais importante que o Alcorão é claramente uma grande bid‘ah.

Não é só isso: o significado lexicográfico da palavra bay‘ah é vender. Todo aquele que recitou e acreditou em ‘lā ilāha illā Allāh’ já se vendeu a Allah; com que direito, então, pode vender-se novamente a algum pīr?

Allah declarou:

إِنَّ اللَّهَ اشْتَرَىٰ مِنَ الْمُؤْمِنِينَ أَنفُسَهُمْ وَأَمْوَالَهُم بِأَنَّ لَهُمُ الْجَنَّةَ

–Certamente, Allah comprou dos crentes suas vidas e seus bens, com a condição de lhes conceder o Paraíso em troca. (At-Tawbah: 111)

(De acordo com este versículo, o comprador é o próprio Allah, e o vendedor é o crente. Os bens vendidos são a própria pessoa do crente, e seu preço é a promessa de concessão do Paraíso. Essa compra e venda é devidamente concluída sempre que uma pessoa recita conscientemente: La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah.)

Portanto, depois de vender sua vida e seus bens a Allah, se alguém os vender novamente a um pir, por meio da bai‘at, isso será uma prática indevida e um shirk manifesto.

(Além disso, as palavras seguintes do versículo deixam claro que o objetivo da bai‘at a Allah e ao Mensageiro é lutar pela religião. Já o objetivo da bai‘at aos pirs é meditar e contemplar de olhos fechados, fazer zikr e vagar pelo mundo da imaginação. Entre esse tipo de bai‘at e a outra há uma diferença tão grande quanto a existente entre o céu e a terra.)

Apesar disso, não está solidamente comprovado que Sayyid Ahmad Shahid tenha praticado a relação pir-murid. Pelo contrário, estas palavras são citadas de modo contundente em sua biografia fidedigna.

Quando ele, depois de receber oralmente o ensino do Alcorão e dos hadiths de Shah Abdul Aziz Muhaddis Dehlavi — filho digno de Shah Waliullah Dehlavi, que vivia em Délhi, e versado em todos os conhecimentos sutis das ciências do Alcorão, dos hadiths e de sua época — voltou para Bareilly, em vez de morar em sua própria casa, instalou-se numa mesquita e começou a aconselhar e exortar o povo com base no Alcorão e nos hadiths. Então, um grande número de pessoas manifestou intenso desejo de prestar bai‘at em sua mão e tornar-se seu murid, e começou a tentar obrigá-lo a isso. Ele recusou-se categoricamente a fazer murids e disse: “Para os muçulmanos, é suficiente serem murids de Allah e de Seu Mensageiro. Não mintam, não enganem e não prejudiquem os outros por causa de seus próprios interesses — esta é a exortação que lhes dirijo. Mesmo que se tornem murids de alguém e continuem praticando essas ações, essa relação de murid não lhes trará benefício algum. Mas, se praticarem essas boas ações com intenção sincera e perseverança, não terão necessidade de se tornar murids de ninguém. Então vocês mesmos serão seus próprios pirs e farão de seu nafs rebelde um murid. Prestem bai‘at ao próprio nafs, para que ele jamais siga os sussurros satânicos. Esse é um meio suficiente para alcançar a salvação na Vida Futura.”

Com efeito, é fácil compreender a semelhança entre as palavras acima de Sayyid Ahmad Shahid e a essência fundamental subjacente à bai‘at prestada pelo nobre Mensageiro. Por natureza, ele não gostava da relação pir-murid. Desagradava-lhe profundamente que as pessoas se sentassem diante dele com a cabeça baixa, o venerassem e demonstrassem devoção e respeito por ele. Por isso, rejeitou tudo isso, ingressou no exército e partiu para muito longe. Mais tarde, é inegável que ele recebia bai‘at para o jihad.

gaddinashin tornar-se inovação

Neste ponto, surge ainda uma grande questão: essa prática de tornar-se um «pīr gadīnashīn» que existe no sistema pīr-murīd tem alguma base na sharia islâmica? De acordo com essa concepção, se alguém uma vez se torna conhecido como pīr, imediatamente seu filho mais velho deverá ser seu gadīnashīn. Mas qual é o trono do pīr sobre o qual o «grande senhor» se senta? O pīr é um zamindar, para que, depois de sua morte, seu filho mais velho ocupe seu lugar e se torne zamindar? A relação pīr-murīd é uma questão de rei e súditos — o pīr seria o rei e os murīds, seus súditos, e, depois do desaparecimento desse rei, seu filho mais velho ocuparia imediatamente o trono? Ou o pīr é um grande comerciante, para que, depois de sua morte, seu filho mais velho se torne o proprietário do assento comercial desse comerciante? … Qual dessas coisas é? Seja como for, é evidente que nenhuma delas tem a menor relação com o Islã. No Islã não há zamindariado nem monarquia; tampouco há espaço para exercer um comércio baseado na religião.

Além disso, quando alguém se torna conhecido como pīr, seus filhos imediatamente começam a ser chamados de «Shah». «Shah» significa rei. Chamar o filho do pīr de «Shah» ou «rei» pode significar que o próprio pīr é um rei, e seus filhos são pequenos reis — príncipes. Assim que o velho rei parte, o mais velho entre seus filhos imediatamente se senta como pīr-gadīnashīn, e seus próprios filhos começam, por sua vez, a receber o título de Shah. Essa regra perene vem sendo seguida desde tempos imemoriais; nunca se viu uma exceção, em caso algum.

Assim, pode-se compreender claramente que o próprio sistema pīr-murīd é um costume da jahiliyyah. Pelo menos, está claro que ele se difundiu numa época em que um sistema monárquico extremamente poderoso estava estabelecido na sociedade e no Estado. A influência desse sistema totalizante nos campos social e político tornou-se tão forte até mesmo no campo propriamente religioso que a liderança religiosa também passou a ser considerada uma espécie de monarquia. Segundo o princípio monárquico de que «o filho do rei será rei», consolidou-se igualmente a ideia de que «o filho do pīr também será pīr».

O filho do rei é chamado de shahzada — uso correto em seu sentido literal (em inglês, Prince); por isso, o filho do pīr também passou a ser chamado de Shah — num sentido artificial. Pois o pīr, na realidade, não é rei, e seu filho tampouco é um príncipe. O curioso aqui é que os filhos do pīr são considerados tudo: são eles que recebem o nome de Shah, e o mais velho entre eles torna-se gadīnashīn. Mas, coitadas das filhas, nenhum direito lhes é reconhecido, nem é reconhecido qualquer direito aos filhos delas. Tudo funciona numa continuidade ininterrupta: o filho do pīr torna-se pīr, e o filho dele torna-se pīr. Essa sucessão jamais se dirige às filhas do pīr. O sistema monárquico funciona exatamente da mesma maneira. Ali, o direito ao trono — isto é, ao trono real — pertence exclusivamente aos filhos; não a todos eles, mas somente ao filho mais velho e aos seus descendentes. No sistema monárquico existente entre os muçulmanos, muitas vezes acontece que, quando o filho mais velho se torna rei, um irmão mais novo ou outra pessoa se torna «wali ahmad». Isso significa que, depois desse rei, não será seu filho, mas seu irmão, quem se tornará gadīnashīn. Contudo, no sistema pīr-murīd, esse sistema monárquico assumiu uma forma tão deformada que aqui o filho mais velho é tudo. Assim que o filho mais velho consegue sentar-se como gadīnashīn, ele se torna o único senhor e árbitro de tudo. Ele não toma apenas o assento de seu pai: os murīds de seu pai transformam-se automaticamente em seus murīds, assim como os súditos de um zamindar ou de um rei se tornam automaticamente súditos de seu filho. E, se houver bens e propriedades, esse «grande senhor» que se senta como gadīnashīn torna-se também seu único usufrutuário e possuidor. Se houver irmãos mais novos, eles ficam completamente desamparados, ignorados, privados de seus direitos e expulsos do vasto círculo de murīds de seu pai.

Mas a questão é: tudo isso é religioso? Talvez este seja o princípio da religião bramânica. Ali, o filho mais velho de um brâmane certamente será brâmane, e receberá automaticamente os yajmans de seu pai. Até então, eles eram os yajmans do velho brâmane; agora serão os yajmans desse filho de brâmane. Será que esse sistema bramânico foi implantado, letra por letra, também na sociedade muçulmana?

Ninguém pode ter sequer a menor dúvida de que essa prática não tem absolutamente nenhuma relação com o Islã. Essa prática não é islâmica em medida alguma. No Islã, não há lugar para tornar-se gadīnashīn, nem oportunidade para tornar-se Shah. Esse sistema de usurpar os direitos dos irmãos e das irmãs mais novos e devorar sozinho tudo não pode de modo algum ser apoiado pelo Islã.

Recebemos o Islã de Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele). Ele não apresentou o Islã apenas por meio de exortações verbais; por meio de sua vida prática, concretizou o ideal integral do Islã e o refletiu na sociedade. Após vinte e três anos de devoção e luta, estabeleceu um grande Estado. Mas, depois de sua morte, a linhagem da profecia não continuou em sua família, nem alguém se tornou um profeta gadīnashīn. Tampouco foi estabelecida, no Estado que ele fundara, a autoridade dos membros de sua família. Pelo contrário, os muçulmanos escolheram livremente, entre si, como califa, de acordo com os preceitos do Islã, a pessoa mais temente a Deus. Esse califa não foi sua amada filha Fátima, nem seu genro, nem seus amados netos. A linhagem profética também não continuou em sua família. Do mesmo modo, nenhum de seus honrados genros se tornou califa depois do Mensageiro por essa razão. Se algum deles se tornou califa posteriormente, não foi por ser genro do Mensageiro; tornou-se califa por causa de sua posição moral e de suas qualidades de competência na sociedade de então. Este é o sistema islâmico. Nele, a sucessão hereditária é completamente inadmissível. Se este sistema pīr-murīd realmente tivesse vindo do próprio Mensageiro — como se afirma —, de onde teria surgido então o costume de tornar-se gadīnashīn ou «Shah»? Na vida do Mensageiro e na sociedade que ele estabeleceu, não se vê sequer o menor vestígio disso. Nem no tempo dos califas corretamente guiados existia o costume de o filho do califa tornar-se califa. Pelo contrário, todos eles se opuseram à sucessão hereditária. Nenhum filho de califa pôde tornar-se califa: nem o filho de Hazrat Abu Bakr, nem o de Umar Faruq, nem o de Uthman Zinnurain, nem o de Ali Haidar (que Deus esteja satisfeito com ele). Portanto, ficou provado que essa prática não foi recebida do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Assim, ela não é sunnah; é claramente bid‘ah. Mas é surpreendente que justamente as pessoas que obtiveram o assento por meio dessa prática bid‘ah tenham se apresentado na sociedade como os maiores seguidores da sunnah e seus maiores guardiões e transmissores. Segundo sua perspectiva, aparentemente ninguém além dele está no caminho da verdade. No entanto, tornar-se gadīnashīn por meio de um sistema inteiramente «bid‘ah», apresentar-se como ahl al-sunnah e reivindicar ser o maior seguidor da sunnah é bid‘ah — nada além da descarada insolência da bid‘ah.

E isso não termina aqui. Mesmo que esse gadinashin se baseasse na opinião pública e na aptidão, talvez se pudesse encontrar algum exemplo disso entre os salaf صالحين. Mas aqui não há lugar para a opinião pública, nem avaliação de competência ou incompetência. Basta ser o filho mais velho: esse é o grande argumento para ter direito ao gadi. Como resultado, esse gadinashin tornou-se um repugnante bramanismo. Após a morte do pir, não se avalia quem, entre seus murids e califas, é realmente o mais temente a Deus e o mais apto a ser o próximo pir; tampouco se observa qualquer tendência de fazer gadinashin, conforme o método da Sunnah, a pessoa mais temente a Deus e mais competente. Nem sequer se procura entre eles alguém assim. Aqui se presume permanentemente — o próprio pir sabe, os murids sabem e o povo em geral sabe — que o filho mais velho do huzur será o próximo pir, o gadinashin. Quer esse filho saiba alguma coisa dos estudos, quer não saiba nada; por pior que seja seu caráter moral; por mais tolo que seja em conhecimento e inteligência, ele será o próximo pir. E, mesmo que haja na corte alguém tão qualificado quanto o pir falecido, não lhe será dado lugar ali. Mais do que isso: até mesmo a pessoa competente e mais temente a Deus terá de tornar-se murid desse pir gadinashin incompetente, ignorante, sem conhecimento religioso, de caráter indigno e tolo. Caso contrário, não terá lugar naquela corte e será imediatamente expulsa dela.

Isso ultrapassou até mesmo todos os métodos da jahiliyyah, como o sistema feudal, a monarquia e o bramanismo. Pode haver qualquer relação, ainda que remotamente, entre isso e a Sunnah do Islã?

Não pode haver relação alguma. Além disso, esse pir e seus murids — os apoiadores desse pir — e todos aqueles que oferecem presentes, dádivas e dinheiro são, segundo a declaração do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), amaldiçoados por Allah. O terceiro dos quatro ensinamentos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), conforme o hadith narrado por Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), é: Árabe(*******)

— Allah Todo-Poderoso amaldiçoou aquele que acolheu, honrou ou ajudou e apoiou um inovador ou um adepto da inovação.

Pir Muridi sobre minha última palavra

Sobre Pir-Muridi, se o ilustre leitor observar tudo o que escrevi acima, reconhecerá que não escrevi nada inventado por mim. Escrevi isso com base nas provas do Alcorão, da Sunnah e das palavras de sábios universalmente reconhecidos; além disso, tenho também experiência prática própria nesse assunto.

Mas essa experiência não diz respeito apenas aos pirs envolvidos em inovação ou ao fato de Pir-Muridi ser uma inovação. Tenho também a experiência oposta: mesmo após a morte da silsila e do pir, e depois de se tornarem ocupantes do gadi, há algumas pessoas que retiraram Pir-Muridi da escuridão supersticiosa da inovação e do mero comércio e estabeleceram efetivamente uma relação correta de mestre-discípulo, de professor-aluno. Reconstruíram a prática da marifat sobre a base da Shariah. Adotaram a Shariah como fundamento e passaram a ensinar marifat; e, estabelecendo uma relação entre toda essa atividade e o jihad, avançam rumo a uma revolução religiosa. Ao ver isso, meu coração se encheu de alegria e nasceu em mim a esperança de que talvez aqui se estabeleça a religião revelada por Allah e pregada e estabelecida pelo último Profeta e Mensageiro, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Na realidade, os esforços iniciados no começo, após o fim do Califado Rashidun, para estabelecer a religião combinavam uma corrente revolucionária de marifat baseada na religião e de jihad; a atual forma comercial de Pir-Muridi adepta da inovação é o remanescente desses esforços. Transformar radicalmente a situação atual e, por meio de uma organização popular original e idealista baseada na relação mestre-discípulo, restabelecer a combinação entre a religião e a Shariah, a marifat e o jihad, para estabelecer a religião, é o único meio de salvar a atual sociedade muçulmana moribunda e tornar brilhante o futuro da religião. A política sem religião, a religião sem política e, além disso, o teoricismo seco da religião são grandes obstáculos no caminho de estabelecer a religião. É indispensável reconstruir Pir-Muridi por meio de atividades de jihad, vivificando a doutrina correta da religião do Islã com a emoção da fé no coração.

voto fazer shirk da inovação

No Islã, é permitido fazer um voto de realizar alguma ação ou dar alguma coisa por determinado propósito. Esse voto é chamado de nazr em árabe. Sobre o significado de “nazr”, o Imam Raghib escreveu:

— Voto é o ato pelo qual, para que algo aconteça, você assume sobre si a responsabilidade de realizar — tornando obrigatório para si — algum ato que, na realidade, não lhe é obrigatório. Por exemplo, dizer: “Fiz um voto de realizar esta ação por Allah.”

A respeito da definição de voto, Ibnul Arabi escreveu:

— Impor a si mesmo, por meio das próprias palavras, a obrigação de realizar uma ação que seja exclusivamente um ato de obediência a Allah e por meio da qual se possa alcançar proximidade com Allah.

No Tafsir de Abu al-Su’ud, está escrito:

— Voto é comprometer a mente com a realização de uma ação e concluí-la de modo obrigatório.

O erudito Badruddin Ayni escreveu:

—Os estudiosos de nossa escola disseram: chama-se voto fazer voluntariamente obrigatório para si mesmo algum ato de adoração ou alguma caridade. No Alcorão Sagrado, a observância de votos é mencionada em vários lugares. Na surata Al-Baqara, versículo 270, é dito:

وَمَا أَنفَقْتُم مِّن نَّفَقَةٍ أَوْ نَذَرْتُم مِّن نَّذْرٍ فَإِنَّ اللَّهَ يَعْلَمُهُ ۗ وَمَا لِلظَّالِمِينَ مِنْ أَنصَارٍ                              [٢:٢٧٠]

—Tudo o que gastais ou os votos que fazeis, Allah certamente os conhece. E não há ajudador para os injustos. (Al-Baqara: 270).

No Tafsir Mazhari, a explicação deste versículo foi apresentada assim: voto é quando assumis como obrigatória para vós mesmos uma ação que pretendeis realizar por Allah, seja sob condição ou sem condição.

A citação deste versículo e do tafsir deixa claro que o voto deve ser feito exclusivamente por Allah. Segundo a declaração do Alcorão, somente é permitido o voto que seja exclusivamente por Allah; o voto que não for sinceramente por Allah não é de modo algum aprovado à luz do Alcorão. O exemplo do tipo de voto aprovado pelo Alcorão é o voto da esposa de Imran.

Na surata Al Imran, versículo 35, é dito:

إِذْ قَالَتِ امْرَأَتُ عِمْرَانَ رَبِّ إِنِّي نَذَرْتُ لَكَ مَا فِي بَطْنِي مُحَرَّرًا فَتَقَبَّلْ مِنِّي ۖ

—A esposa de Imran disse: «Ó Allah! Dedico exclusivamente a Ti, como voto, o filho que está em meu ventre; livra-o das preocupações mundanas. Aceita, pois, este meu voto. (Al Imran: 35).

O voto da esposa de Imran foi exclusivamente para Allah. Ao fazer esse voto, ela não tinha em vista qualquer benefício mundano, nem associou ninguém a Allah. Este versículo oferece uma orientação clara de que o voto deve ser feito somente para Allah. As palavras da esposa de Imran — “fiz um voto somente para Ti” — deixam isso explícito. Outro exemplo encontra-se no versículo 26 da surata Maryam. O próprio Allah, dirigindo-se a Maryam, disse:

فَقُولِي إِنِّي نَذَرْتُ لِلرَّحْمَٰنِ صَوْمًا

— Portanto, dize: “Fiz um voto de jejuar somente para Allah.” (Maryam: 26)

O próprio Allah ensinou, por meio deste versículo, que o voto deve ser feito somente para Allah, e não para qualquer outra pessoa nem com qualquer outro propósito.

Neste ponto, podem ser citados ainda dois trechos de versículos do Alcorão. Um deles diz: “Para que cumpram seus votos.”

E, elogiando os companheiros do Mensageiro, o Alcorão diz: “Eles cumprem seus votos.”

Além disso, há muitos outros versículos no Alcorão que ordenam o cumprimento dos votos e das promessas feitas a Allah. E, como o voto é um tipo especial de compromisso feito com Allah, ele deve necessariamente ser cumprido.

À luz do Alcorão, da hadith e da jurisprudência islâmica, a condição fundamental para fazer um voto é que ele seja feito exclusivamente para Allah e visando alcançar Sua satisfação. O voto que não for feito visando alcançar a satisfação de Allah não é, em essência, um voto, e seu cumprimento não é obrigatório. Além disso, o voto deve referir-se à realização de uma ação de obediência a Allah, e não de qualquer ato de desobediência a Ele.

Isto está claramente mencionado nos hadiths. Foi citado no livro de Abu Dawud: Hazrat Ibn Amr narrou: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) dizer: em árabe (*********)

—O voto pelo qual não se buscou obter o agrado de Allah não é, em essência, um voto.

Ou sua tradução seria: “Voto é somente aquilo por meio do qual se busca obter o agrado de Allah.”

O Imam Ahmad, em seu Musnad, e at-Tabarani narraram:

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) estava discursando diante das pessoas num dia de calor intenso. Naquele momento, viu um homem (possivelmente um beduíno) de pé sob o calor escaldante do sol. Perguntou-lhe: “O que está acontecendo? Por que o vejo de pé ao sol?” O homem respondeu: “Fiz um voto de permanecer de pé ao sol até que seu discurso terminasse.” Então o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: em árabe (******)

—Sente-se; isso não é um voto. Voto é somente aquilo que tem por objetivo obter o agrado de Allah por meio de sua realização.

Foram narrados numerosos hadiths com esse sentido. Todos eles provam que o objetivo e a finalidade essencial do voto devem ser exclusivamente obter o agrado de Allah; não obter algum benefício material para a pessoa, nem obter o agrado de qualquer outro além de Allah. E o voto que não for assim não é um voto, nem é obrigatório cumpri-lo.

Não basta que o voto tenha como único objetivo obter o agrado de Allah; ele deve ser um voto para realizar um ato que, por sua própria natureza, constitua obediência a Allah. Mesmo que alguém faça um voto de realizar um ato que não seja de obediência a Allah, isso não será considerado um voto, e não será obrigatório cumpri-lo. Há numerosas provas disso nos hadiths. No hadith narrado por Hazrat Imran ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele), afirma-se que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

—Os votos são de dois tipos. O voto que consiste em algum ato de obediência a Allah é por Allah e, portanto, deve ser cumprido. Já o voto que consiste em um ato de desobediência a Allah é dedicado a Satanás. Não há qualquer obrigação nem dever de cumpri-lo.

No Sahih al-Bukhari são mencionados alguns hadiths que provam claramente que o Islam não incentivou de modo algum a prática de fazer votos. O hábito de fazer votos por qualquer coisa, comum entre os ignorantes, e o fato de as pessoas se envolverem em diversas formas de shirk por não conhecerem o método islâmico de fazer votos, jamais foram incentivados pelo Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), que declarou ser isso uma prática totalmente sem sentido. O venerável Ibn Umar disse:

—Por acaso vocês não proíbem as pessoas de fazer votos? No entanto, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: o voto não traz nem leva coisa alguma (ou seja, o voto não adianta nem atrasa nada). Seu único efeito é fazer com que parte da riqueza do avarento seja gasta.

Abu Huraira narrou que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: o voto não traz benefício algum ao ser humano. Ele apenas obtém aquilo que foi escrito para ele em seu destino. Pelo contrário, o voto conduz a pessoa precisamente ao seu destino. Então Allah faz com que algo seja gasto pelas mãos do avarento. Assim, ele Me dá (a Allah) algo que jamais havia dado antes.

No hadith de Abdullah ibn Umar, narrado no Sahih Muslim, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) proferiu uma declaração clara contra a prática de fazer votos.

Foi dito em árabe:

—Certo dia, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) nos proibiu de fazer votos. Ele disse que o voto não pode afastar coisa alguma; apenas faz com que parte do dinheiro do avarento seja gasta.

Em outro hadith, é dito claramente: o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) proibiu a prática de fazer votos. Em outra narração, é dito: não façam votos, pois esse voto não pode mudar nem afastar sequer um mínimo do destino.

Esses hadiths mostram que a prática de fazer votos não é apreciada no Islã; pelo contrário, é uma forma particular de inovação completamente contrária à Sunnah do Mensageiro. Pode-se dizer com ainda maior clareza que fazer votos envolvendo dinheiro ou bens é completamente haram, qualquer que seja o propósito. O Imame Muhammad Ismail al-Kahlanī as-San‘ānī escreveu o seguinte:

Que fazer votos é haram está comprovado pelo próprio hadith. A afirmação de que isso é haram torna-se ainda mais forte porque, ao proibir os votos, foi apresentada como razão o fato de que deles não resulta benefício algum. O dinheiro gasto nisso é desperdiçado inutilmente, e desperdiçar dinheiro é haram. Portanto, também é haram fazer votos de oferecer bens ou riquezas.

A maioria dos seguidores das escolas Shafi‘ī e Malikī acredita que fazer votos é makruh. Na escola Hanbalī, isso também é considerado makruh tahrīm. A razão apresentada é que um voto nunca é exclusivamente por Allah; nele permanece o objetivo de obter “alguma forma de retribuição”. Muitas vezes se faz um voto, mas, por ser difícil cumpri-lo, ele acaba não sendo cumprido. O Allamah Qadi ‘Iyad disse: “O voto pretende vencer o destino, e os ignorantes pensam que, ao fazer um voto, o destino será alterado.” É mencionado que o Imame at-Tirmidhi e alguns Companheiros também consideravam fazer votos makruh. E ‘Abdullah ibn al-Mubarak escreveu: “O voto — seja de obediência a Allah ou de desobediência — será necessariamente makruh em ambos os casos.”

E, nesses casos, makruh significa makruh tahrīm. Ibn al-‘Arabī escreveu: “Fazer um voto é semelhante a fazer uma súplica; por meio dele, o destino não é alterado.” Isso é o destino. No entanto, fazer súplicas foi considerado algo apreciável, enquanto fazer votos foi proibido. Isso porque a súplica é uma adoração presente: nela, o coração e a mente do servo se voltam diretamente para Allah; ele se torna humilde, aflito e devotado diante do próprio Allah. Mas, ao fazer um voto, não se vê uma adoração presente; pelo contrário, surge uma dependência direta do próprio voto, em vez de Allah. E isso chega ao ponto do shirk.

Nesse contexto, vê-se que a onda de fazer votos a todo momento que atualmente se espalhou entre o povo em geral e entre os discípulos de uma classe de pīres ignorantes, bem como o incentivo a fazer votos dado nos sermões e exortações, não é, seja lá o que for, o ideal do Islã nem a Sunnah estabelecida pelo Mensageiro; pelo contrário, é claramente uma inovação. E essa inovação, em alguns casos, transforma-se em shirk. Isso ocorre quando se fazem votos em nome do túmulo de um pīr morto. Pois, nesses casos, por mais que se diga que o voto é “pela causa de Allah”, na realidade ele deixa de ser “pela causa de Allah”. O pīr, a madrassa e coisas semelhantes tornam-se predominantes diante da pessoa, e acredita-se que eles possuem certas particularidades e poderes sobrenaturais, graças aos quais ela poderá ser salva do perigo presente por causa desse voto ou obter algum benefício desejado. E, na perspectiva do Islã, isso é shirk evidente. Ao fazer esse tipo de voto, Allah é deixado para trás, enquanto aquele em cujo nome o voto é feito se torna o principal. Estabelece-se no coração uma relação exclusiva com ele, e agradá-lo torna-se o objetivo principal. Portanto, essa prática é proibida por Allah e contradiz a palavra de Allah:

فَلَا تَجْعَلُوا لِلَّهِ أَندَاد ا

— “Não tomeis ninguém como igual e rival de Allah” (Al-Baqarah: 22).

Pode acaso haver qualquer muçulmano que tenha sequer a menor dúvida de que fazer esse tipo de voto é haram?

Também se sabe, a partir do hadith mencionado anteriormente, que, se o voto for feito sinceramente e exclusivamente por Allah, ele deve ser cumprido e é permitido. Mas, infelizmente, pouquíssimas pessoas são capazes de fazer um voto sinceramente de acordo com as regras permitidas. Portanto, para os monoteístas, o caminho mais seguro é não fazer votos de gastar dinheiro ou oferecer algum bem. Se for absolutamente necessário fazer um voto, que seja o voto de realizar algum ato como a oração, o jejum ou a peregrinação à Casa de Allah. Isso porque, nesse caso, ninguém além de Allah se apresenta diante do servo, nem há qualquer possibilidade de que outro se apresente. Porém, nos votos de bens e riquezas, o coração tende mais a voltar-se para algo ou alguém além de Allah; especialmente quando uma classe de pires ignorantes, exploradores, ávidos por dinheiro e ocupantes de tronos espalhou por toda a sociedade uma rede de votos, os tolos e ignorantes podem facilmente ser apanhados por essa rede e mergulhar no sombrio abismo do shirk grave. A esse respeito, é preciso saber que, se alguém fizer um voto de gastar dinheiro ou algum bem em favor de pessoas específicas de um lugar específico, não existe no Islam qualquer condição obrigatória de que esse dinheiro ou bem tenha de ser gasto justamente ali.

Está escrito nos livros de fiqh hanafi:

Se alguém disser: “É obrigatório para mim fazer uma doação em nome de Allah em determinado dia”, ou disser: “É obrigatório oferecer caridade aos necessitados de determinado lugar”, não será obrigatório observar a restrição do dia ou do lugar.

Ou seja, o voto será cumprido com uma doação aos pobres em qualquer dia e em qualquer lugar.

Visita aos túmulos é bid‘ah

No Islam, visitar os túmulos é permitido e está de acordo com a Sunnah. Porém, tudo o que atualmente vem sendo feito há muito tempo em torno dos túmulos, especialmente dos chamados pires e awliya, é inteiramente bid‘ah, contrário ao Islam e shirk evidente; não pode haver qualquer dúvida quanto a isso.

Os hadiths relacionados à visita aos túmulos mostram que, nos primeiros tempos do Islam, não era permitido visitá-los. Mais tarde, essa permissão foi concedida. Nesse contexto, uma declaração do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) constitui uma grande prova. Ele disse:

“Eu havia proibido vocês de visitarem os túmulos, mas agora digo: visitem-nos.”

Em outra narração, foi dito: Árabe(*******)

—Se alguém dentre vós quiser visitar as sepulturas, poderá fazê-lo, pois visitar as sepulturas faz a pessoa lembrar-se da Vida Futura.

O Imam Nawawi escreveu, ao explicar este hadith: Todos concordam que visitar as sepulturas é uma Sunnah estabelecida para os muçulmanos.

No hadith narrado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), foi apresentada uma explicação mais detalhada sobre este assunto. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Árabe(********)

—Eu vos havia proibido inicialmente de visitar as sepulturas, mas depois ficou claro para mim que essa visita torna o coração sensível, faz os olhos derramarem lágrimas e lembra a pessoa da Vida Futura. Portanto, visitai as sepulturas. Contudo, ao fazê-lo, não digais palavras obscenas, reprováveis ou fúteis.

Ibn Hajar al-Asqalani escreveu: É proibido falar excessivamente nos cemitérios palavras obscenas e conversas adicionais indesejáveis, isto é, palavras obscenas, desnecessárias e indesejáveis.

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançou a maldição sobre as mulheres que visitam as sepulturas e também sobre aqueles que constroem mesquitas, cúpulas ou mausoléus e semelhantes sobre as sepulturas.

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), enquanto jazia em seu leito de morte, disse: Allah, o Altíssimo, amaldiçoou os judeus e os cristãos porque fizeram das sepulturas de seus profetas e mensageiros mesquitas.

A razão pela qual as cúpulas ou qubbas são proibidas é que elas acarretam desperdício de riqueza e não proporcionam benefício algum a ninguém. Além disso, quando se constrói uma mesquita em um cemitério, demonstra-se um respeito excessivo pelos túmulos. O objetivo dessa proibição é impedir tais práticas.

Outro hadith afirma:

Allah Todo-Poderoso amaldiçoou as mulheres que visitam os túmulos e aqueles que acendem lâmpadas sobre eles.

E outro hadith foi transmitido da seguinte forma:

O Profeta Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu claramente tornar os túmulos revestidos, firmes e resistentes, realizar qualquer tipo de construção sobre eles, sentar-se sobre eles e escrever qualquer coisa neles.

De acordo com a ordem do Profeta Karim, pode-se dizer que realizar essas práticas em torno dos túmulos é uma grande injustiça e algo repreensível. E aqueles que as praticam são as pessoas mais vis. O próprio Profeta Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez uma súplica a respeito de si mesmo, dizendo:

Ó Allah! Não transformes o meu túmulo em um ídolo adorado. De fato, a ira de Allah está se intensificando contra os povos que transformaram os túmulos de seus profetas e mensageiros em mesquitas.

O significado deste hadith é claro. Prostrar-se voltado para um túmulo e rezar colocando o túmulo na direção da qibla são atos claramente proibidos pela Sharia. Hazrat Jundub ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Profeta Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dirigiu-se aos muçulmanos, dizendo:

—Cuidado! Os povos que vos precederam transformaram os túmulos dos profetas, mensageiros e pessoas virtuosas em mesquitas. Portanto, tende cuidado: jamais transformeis um túmulo em mesquita. Eu vos proíbo isso claramente.

As celebrações e feiras realizadas em torno dos túmulos são proibidas no Islã. Hadrat Abu Huraira (ra) disse: Árabe(*********)

—Ouvi o Mensageiro Honorável (s) dizer: Não transformeis as vossas casas em cemitérios (pelo menos, realizai as orações voluntárias em vossas próprias casas). Não organizeis uma feira em torno do meu túmulo; enviai bênçãos sobre mim. De onde quer que as envieis, elas certamente chegarão até mim.

Por essa razão, também foi proibido construir os túmulos de modo evidente e elevado. O Profeta Honorável (s) enviou Hadrat Ali (ra) com esta incumbência: Árabe(*********)

—Destruirás completamente todas as estátuas e demolirás todos os túmulos altos e elevados, nivelando-os e deixando-os no mesmo nível do solo. Que nenhuma imagem e nenhum túmulo permaneça protegido disso. (Este hadith foi citado no Sahih Muslim Sharif. Seu narrador foi Abul Hayyaj al-Asadi. Hadrat Ali (ra) disse-lhe: “Não deverei enviar-te com a mesma incumbência com que o Mensageiro (s) me enviou?” Foi como Califa dos Muçulmanos que Hadrat Ali (ra) o designou para essa tarefa.)

Ficou claramente comprovado por esses poucos hadiths que, nos primórdios do Islã, visitar os túmulos era proibido aos muçulmanos em geral. A razão da proibição não foi explicitada aqui. Contudo, entre as outras razões, certamente havia também esta importante: a adoração dos túmulos era amplamente praticada na sociedade árabe como um ato politeísta na época da Jahiliyyah. Mesmo depois de se tornarem muçulmanos, se houvesse ampla oportunidade para visitar os túmulos, havia grande risco de que essas pessoas monoteístas mergulhassem no shirk da adoração dos túmulos. Mais tarde, porém, quando a doutrina islâmica foi amplamente divulgada e firmemente estabelecida na mente de um grande número de pessoas, e o modo de vida islâmico foi plenamente implementado, foi concedida permissão para visitar os túmulos. Mas essa permissão era somente para os homens; as mulheres foram excluídas dela. Não apenas isso: do ponto de vista do Islã, foi declarado que as mulheres que fossem visitar os túmulos praticariam um ato amaldiçoado.

Neste ponto, Shah Waliullah Dehlawi escreveu: Árabe(*********)

—Digo que, no início, visitar os túmulos era proibido, pois isso abria a porta para a adoração dos túmulos. Mais tarde, porém, quando o ideal islâmico foi estabelecido e suas mentes se firmaram na convicção de que a adoração de qualquer coisa além de Allah era ilícita, foi concedida permissão para visitar os túmulos.

Entretanto, alguns juristas sustentaram uma opinião ligeiramente diferente quanto às mulheres irem visitar os túmulos. Com o objetivo de conciliar a proibição, de um lado, e a permissão, de outro, disseram que é permitido às mulheres idosas visitar os túmulos de pessoas virtuosas e obter bênção com isso, não havendo nisso qualquer problema. Já para as mulheres jovens, é makruh tahrimi.

O motivo para permitir a visita aos túmulos foi mencionado no hadith: isso amolece o coração das pessoas, faz os olhos derramarem lágrimas e faz lembrar a vida futura. Lembra-se que todos os sepultados um dia estiveram vivos como elas. Mas hoje não têm qualquer existência sobre a face da terra. Do mesmo modo, todas as pessoas terão um destino semelhante. Ninguém poderá escapar disso. Assim, desperta no coração de quem visita uma disposição necessária para se preparar para a vida futura. E isso é especialmente desejável no Islã.

Contudo, nestes hadiths foram citadas duas proibições severas acerca da construção de túmulos. Uma delas é que não é permitido construir mesquitas nos cemitérios. Pois, se isso for feito, as pessoas poderão passar a venerar os túmulos como veneram as mesquitas e demonstrar-lhes respeito e reverência sinceros. E isso é precisamente a origem do shirk. A prática de construir mesquitas junto aos túmulos há muito tempo está difundida na sociedade muçulmana. Hoje não se encontra em lugar algum o túmulo de alguém conhecido como wali de Allah junto ao qual não tenha sido construída uma mesquita. Esses cemitérios tornaram-se centros de propagação do shirk e da bid’ah. Centenas de tipos de bid’ah espalharam-se na sociedade muçulmana a partir deles. Na realidade, tudo isso constitui a infiltração da bid’ah do shirk na crença tawhidista do Islã.

Segundo os hadiths, é haram construir qualquer coisa sobre um túmulo. O Imam Shawkani escreveu, ao explicar o hadith mencionado anteriormente:

—Este hadith fornece a prova de que é haram construir qualquer coisa sobre um túmulo.

Não apenas isso: também é haram escrever qualquer coisa sobre um túmulo. No hadith narrado no Tirmidhi Sharif, juntamente com outras afirmações, encontra-se também este trecho: —É proibido escrever qualquer coisa sobre um túmulo.

Isso significa que é proibido escrever no túmulo o nome do falecido, o ano e a data de seu nascimento e morte, ou qualquer elegia fúnebre ou poema de lamento. A Sharia não faz distinção entre escrever o nome e escrever qualquer outra coisa: tudo é considerado haram.

Mawlana Idris Kandhalvi escreveu, ao explicar este assunto: Esta afirmação pode ter dois significados: o primeiro é realizar sobre o túmulo alguma construção com tijolos e pedras, ou qualquer outra obra desse tipo; o segundo é estender sobre o túmulo algum cobertor, tenda ou coisa semelhante. Ambos os tipos de prática são proibidos. A razão pela qual o primeiro é proibido já foi mencionada. O segundo também é proibido porque, tal como o primeiro, é uma prática inútil e sem sentido. Isso implica desperdício de dinheiro e é uma prática do povo da jahiliyyah.

Como o povo em geral não conhece os princípios fundamentais da Sharia, ao ver que sobre os túmulos de todas as pessoas conhecidas como santos de Allah foram construídas cúpulas e que em cada uma delas estão escritos nomes e outras coisas, pensa que isso deve ser uma prática conforme à Sharia, ou pelo menos que não há nada de errado nisso segundo a Sharia. No entanto, tudo isso é proibido no Islã. Há numerosos relatos sobre esse assunto transmitidos do Mensageiro (s) nos hadiths e citados nos livros. Sobre esses hadiths, o Imam Hakim escreveu:

— Todos os hadiths que proíbem escrever qualquer coisa sobre os túmulos são absolutamente autênticos. Contudo, não se age de acordo com eles, pois em toda parte se vê alguma coisa escrita sobre os túmulos dos imames muçulmanos. As gerações posteriores aprenderam isso com as anteriores (e passaram a considerá-lo permitido).

Na realidade, essa prática não é comprovada nem pelo Profeta (s), nem pelos Companheiros. Foram as gerações posteriores que a introduziram. Eram, porém, pessoas cujas palavras e ações não são aceitas como provas na Sharia. A esse respeito, o Imam Zahabi escreveu: as palavras acima mencionadas do Imam Hakim não têm valor. Na verdade, nenhum dos Companheiros praticou esse ato proibido. Trata-se de uma prática inventada pelas gerações posteriores — uma inovação. Alguns tabi’un e as pessoas das gerações seguintes é que a inventaram. Essa proibição do Profeta (s) não lhes havia chegado.

E o célebre erudito da Índia, Qazi Sanaullah Panipati, escreveu:

— Quanto aos túmulos dos santos, elevar seus túmulos, construir cúpulas sobre eles, realizar celebrações de urs e acender lâmpadas são inovações completamente condenáveis. Algumas dessas práticas são haram e makruh (tahrim). O Profeta (s) amaldiçoou aqueles que acendem lâmpadas nos túmulos e fazem votos. Ele disse: não celebrareis festividades sobre o meu túmulo, não o fareis lugar de prostração, nem rezareis em uma mesquita desse tipo. Tampouco vos reunireis ali em uma data determinada. O Profeta (s) enviou Hazrat Ali (r.a.) com a instrução de demolir e nivelar os túmulos elevados e apagar as imagens onde quer que as encontrasse.

Há provas em hadiths autênticos de que construir mesquitas nos cemitérios de santos virtuosos é um costume perpétuo das pessoas comuns e ignorantes. Hazrat Aisha (r.a.) disse: quando o Profeta (s) estava em seu leito de morte, sua esposa Maria mencionou ao Mensageiro (s) uma igreja que havia visto na Abissínia. Naquela ocasião, Umm Salama e Umm Habiba (r.a.) também mencionaram a beleza das igrejas que haviam visto e todas as imagens e figuras nelas conservadas. Ao ouvir isso, o Profeta (s) levantou a cabeça e disse: Árabe(********)

— A história dessas imagens e figuras é a seguinte: quando uma pessoa virtuosa entre eles (na nossa linguagem, alguém chamado pir ou santo de Allah) morreu, construíram uma mesquita sobre seu túmulo. Depois, instalaram nela essas imagens e figuras. Na verdade, essas são as pessoas mais desprezíveis perante Allah.

Este hadith também prova que é proibido no Islã construir uma mesquita em torno do túmulo de alguém. Existe o temor de que as pessoas comuns tratem os túmulos da mesma maneira que tratam esses amaldiçoados, como fazem estes.

De fato, ainda hoje é muito raro encontrar o mausoléu de algum ‘wali’(?) erudito famoso ou de algum pír renomado sobre o qual não tenha sido construída uma cúpula ou um domo, e no qual não tenham sido inscritos o nome, as datas de nascimento e morte, além de um poema fúnebre. Tais práticas, assim como constituem uma clara violação dos hadiths, também são totalmente contrárias à crença tawhídica. O Mensageiro de Deus as proibiu justamente para preservar devidamente a crença tawhídica, a orientação fundamental do Islã. Contudo, desobedecendo sem temor a essa proibição explícita do Mensageiro, cúpulas, domos, memoriais, minaretes e outras estruturas foram e continuam sendo construídos sobre os túmulos de pessoas tidas como pír ou wali de Deus, líderes políticos e personalidades famosas; e sobre elas são inscritos seus nomes, datas de nascimento e morte, bem como homenagens ou poemas fúnebres. Entretanto, nenhum crente pode ter a menor dúvida de que tudo isso é bid‘at e uma prática totalmente contrária ao Islã.

Da discussão fundamentada nas provas acima ficou irrefutavelmente demonstrado que elevar os túmulos, construir domos sobre eles, determinar neles uma mesquita ou um local de oração, transformá-los em lugares de visitação pública e construir varandas ao lado dos túmulos para que as pessoas ali permaneçam de pé — tudo isso são práticas claramente proibidas e extremamente graves. A esse respeito, o Mensageiro de Deus chegou a lançar maldição sobre aqueles que praticam tais atos.

Em outra ocasião, ele disse em árabe:

— A ira de Deus tornou-se extremamente intensa e terrível contra aqueles que transformaram os túmulos de seus profetas e mensageiros em mesquitas.

Por isso, em certa ocasião, ele próprio suplicou para que a ira de Deus caísse de modo intenso e severo sobre aqueles que praticam tais atos. Isso é mencionado em hadiths autênticos.

Em outra ocasião, enviou pessoas encarregadas de destruir todos os túmulos desse tipo, com seus domos e semelhantes. Às vezes, classificou essa prática como uma prática dos judeus e dos cristãos. Em outra ocasião, disse: “Não transformeis o meu túmulo em um ídolo nem procedais de modo semelhante.” E em outra ocasião disse em árabe:

— Não transformeis o meu túmulo em um centro de festividades, como o Eid.

Isto é, não determineis uma estação ou ocasião específica para reunir novamente as pessoas no cemitério e realizar festividades. É assim que procedem os adoradores de túmulos. Ali, realizam diversos rituais e permanecem junto aos túmulos. Na realidade, abandonam completamente a adoração a Deus e entregam-se à adoração do túmulo ou da pessoa sepultada. O Profeta resistiu a tudo isso com palavras veementes e extrema severidade. E hoje, sob o disfarce de wali de Deus, pír, xeique e outros títulos semelhantes, pessoas que reivindicam ser membros de sua ummah transformam as pessoas em adoradoras de túmulos. Em alguns lugares, afastaram Deus e sentaram-se eles próprios como objetos de adoração das pessoas. Ali, seus murids e devotos lhes demonstram a devoção, a reverência e os rituais que pertencem exclusivamente a Deus.

Isto não é apenas bid‘ah; é shirk gravíssimo. Em todo o mundo muçulmano existem santuários que, em nome do Islã tawhídico, se tornaram fortalezas do shirk.

Túmulos visitação regras

O Imam An-Nawawi escreveu: “É dever do visitante, ao chegar ao cemitério, começar por saudar e suplicar a Allah para que faça descer perdão e misericórdia sobre as almas de todos os que estão no cemitério.” Essa saudação e súplica devem ser aquelas transmitidas nos hadiths. Além disso, podem ser recitados versículos e suratas do Alcorão, ou súplicas transmitidas pelo Mensageiro (s).

O Imam Ash-Shafi‘i e todos os seus companheiros e sábios correligionários mencionaram unanimemente essa mesma regra. O Imam Abu al-Hasan Muhammad ibn Marzuq al-Ja‘farani era um faqih investigador. Ele disse: “Não se deve abraçar o túmulo com as mãos, nem tocá-lo, nem beijá-lo; esta é a regra sunnita para a visitação dos túmulos.”

Abu al-Hasan também disse: “Segurar o túmulo, tocá-lo e beijá-lo — práticas que as pessoas comuns dos tempos atuais realizam — são, sem dúvida, bid‘ah, proibidas pela sharia e detestáveis. É absolutamente obrigatório evitá-las e impedir que quem as pratica continue a fazê-lo.”

Abu Musa e os eminentes juristas do Khurasan disseram que tocar e beijar os túmulos é um costume dos cristãos. É completamente proibido aos muçulmanos. Pois foi comprovado de modo irrefutável que demonstrar qualquer forma de veneração aos túmulos é totalmente proibido.

Hafiz Ibn Qayyim escreveu que o Profeta (s) visitava os túmulos com o propósito de suplicar pelos que ali estavam, demonstrar misericórdia para com eles e pedir a Allah que lhes concedesse istighfar.

Em seguida, escreveu: “Foi essa forma de visitação que o Mensageiro (s) apresentou como sunnah para sua comunidade, e foi essa que ele estabeleceu para eles como método e regra da sharia.”

A Sharia também estabelece o que os muçulmanos devem dizer e fazer ao chegar ao cemitério. Hafiz Ibn al-Qayyim escreveu: em árabe

Quando um muçulmano visitar um cemitério, dirá: A paz esteja convosco, ó crentes muçulmanos habitantes deste cemitério. Nós também, se Allah quiser, nos juntaremos a vós. Agora pedimos a Allah o bem e a paz para vós e para nós mesmos.

Em seguida, ele escreve: Os politeístas, porém, recusam-se a fazer isso. Eles cometem politeísmo nos cemitérios, invocam os mortos diante de Allah, fazem deles intermediários e juram por eles. Suplicam aos mortos para que atendam às suas necessidades, pedem-lhes ajuda e voltam-se para eles. Ao fazer tudo isso, opõem-se à orientação do Mensageiro. Pois a orientação do Mensageiro é o tawhid e a demonstração de misericórdia para com os mortos. Já o caminho dos politeístas é o politeísmo e a prática de toda espécie de injustiça contra si mesmos e contra os mortos.

Na sepultura de Khwaja Muinuddin Chishti, em Ajmer Sharif, a súplica dirigida a ele coloca Khwaja Baba precisamente no lugar de Allah — Deus nos livre.

Nela se diz: Ó amado de Allah, ó túmulo do amado, ó chama ardente, ó grandeza da chama ardente, conceda bênçãos a partir da sua porta. Tu és o amado servo de Allah, o Senhor de todo este universo. Allah ouve as tuas palavras. Por isso, nesta tarde, os teus dois filhos ingênuos vieram apresentar-se diante de ti. Pai, dá-lhes conhecimento, dá-lhes inteligência, dá-lhes riqueza, honra, fama e prestígio.

Que, como o fluxo da tua infinita misericórdia, o amor e a retidão permaneçam firmes para sempre na vida deles. Meu pai. Meu Khwaja Sahib, como o bastão de um cego, tu és a única esperança deles, tu és a luz na escuridão deles e o único auxílio em todas as dificuldades.

Tu és o rei do mundo, o único protetor dos pobres; aqueles que se afundam em teu nome vêm à tona e atravessam, rindo, o imenso oceano de tristeza e escuridão.

Diz-se: Não há medo, não há preocupação; Baba certamente os deixará felizes. Baba é muito afetuoso. Ele não consegue suportar ver o sofrimento dos meninos e meninas que correm para cá.

………..voltará novamente amanhã. O pai ficará feliz. (Que Allah nos livre).

Depois de concluído o sepultamento do falecido, fazer súplica pedindo o perdão de Allah para ele é comprovadamente permitido segundo a prática do Mensageiro de Allah.

Foi narrado no hadith: Árabe(********)

—Quando o nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) concluía o sepultamento de um falecido, permanecia de pé ali e dizia às pessoas: “Peçam perdão para este vosso irmão. Suplicai a Allah que ele possa permanecer firme e estável no túmulo, pois agora está sendo interrogado.”

Deve-se lembrar que isso se refere à súplica feita depois de concluído o sepultamento. Isso é totalmente permitido. Porém, atualmente, é comum ver que, assim que a oração fúnebre é realizada, levantam-se imediatamente as mãos para fazer uma súplica após recitar alguma coisa. Contudo, na lei islâmica, esse ato é makruh! O jurista imame Abu Bakr ibn Hamid, do terceiro século (que Allah tenha misericórdia dele), disse: Fazer uma súplica separadamente logo após a oração fúnebre é makruh (tahrim).

Shamsul-A’immah al-Hawani e o Shaykh al-Islam, o erudito Magdi, disseram: Ninguém deve permanecer de pé para fazer uma súplica depois da oração fúnebre.

Da mesma forma, isso está registrado em obras como Fatawa Sirajiyya (vol. 1, p. 14), Jam‘ al-Rumuz (vol. 1, p. 174), Bahr al-Ra’iq (vol. 2, p. 183), entre outras.

Mulla Ali al-Qari disse: Não se deve fazer uma súplica pelo falecido imediatamente depois de realizada a oração fúnebre, pois isso equivaleria a acrescentar algo à própria oração fúnebre.

Ficou então comprovado que, ao visitar os túmulos, o crente muçulmano que os visita não tem outra coisa a fazer senão suplicar pelo bem dos que estão sepultados; não há nenhum outro ato que possa realizar, nem quaisquer palavras que possa proferir. Sob esse aspecto, compreende-se claramente que tudo o que os muçulmanos fazem atualmente ao visitar os cemitérios não é apenas bid‘ah, mas também shirk. Do mesmo modo, mantendo no coração a certeza e a crença de que “Allah, o Altíssimo, é a fonte de todo o poder”, pedir a qualquer criatura, seja durante sua vida ou após sua morte, ajuda para realizar qualquer coisa de natureza sobrenatural é, segundo a perspectiva de Ahl al-Sunnah wa al-Jama‘ah, shirk absoluto; e a sua prática na sociedade muçulmana é uma bid‘ah de shirk, contrária à crença tawhidista.

A recitação do Alcorão está comprovadamente entre os atos de grande recompensa, com base tanto no Alcorão quanto no hadith. À primeira vista, também não parece haver qualquer problema em recitar o Alcorão sentado junto ao túmulo. Contudo, nos livros de fiqh afirma-se o seguinte: há divergência entre os juristas quanto à recitação do Alcorão junto ao túmulo. O Imam al-Shafi‘i e Muhammad ibn al-Hasan disseram que é mustahabb recitá-lo. Com isso, o falecido pode receber a bênção da companhia do Alcorão. Qadi ‘Iyad e os qurrā’ do madhhab maliquita também concordaram com eles. Porém, o Imam Malik e o Imam Abu Hanifah (que Allah tenha misericórdia deles) consideram esse ato makruh, pois não foi encontrada nenhuma prova da Sunnah que o apoie.

 Pedir ajuda aos mortos é uma bid‘ah

Pedir qualquer tipo de ajuda aos mortos — sejam eles awliya’ ou profetas — por parte dos vivos é, na terminologia dos adeptos da bid‘ah, aquilo que se chama istimdad ruhani, uma bid‘ah manifesta.

Na realidade, ninguém além de Allah possui poder para causar qualquer benefício ou dano, nem para realizar coisa alguma. Por isso, de diversas maneiras, Allah, o Altíssimo, ensinou no Alcorão Sagrado que se deve pedir ajuda somente a Ele. Na Surah al-Fatihah, que é essencialmente uma surah de súplica, assim como se afirma que a adoração deve ser prestada exclusivamente a Allah, também se ensina que a ajuda deve ser buscada somente junto a Allah. Foi dito: Árabe(*********)

— Ó Allah! Somente a Ti adoramos e somente a Ti pedimos ajuda.

Este versículo ordena que a adoração, a servidão e o cumprimento da lei sejam dedicados exclusivamente a Allah; do mesmo modo, declara que todo tipo de ajuda, em todos os assuntos e circunstâncias, pode e deve ser solicitado somente a Allah. Nas palavras do Imam al-Razi: “Ó Allah, não peço qualquer tipo de ajuda a ninguém. Pois, a quem quer que eu peça ajuda além de Ti, não lhe é de modo algum possível ajudar-me, salvo com a Tua ajuda. Se, sem a Tua ajuda, ninguém além de Ti pode de modo algum ajudar-me, por que haveria eu de pedir ajuda a alguém além de Ti? Que necessidade poderia haver de aceitar essa intermediação e de recorrer a ele, deixando-Te de lado?”

Além disso, a orientação que as palavras do Nobre Profeta nos dão neste assunto é justamente que se deve pedir ajuda somente a Allah, e não a qualquer outra pessoa. O Nobre Profeta, dirigindo-se a ‘Abdullah ibn ‘Abbas, disse:

Se quiseres fazer uma súplica, faze-a a Allah. E, se precisares de alguma ajuda, pede ajuda a Allah.

E, sendo essa a realidade, é obrigatório pedir ajuda somente a Allah em todos os assuntos. Pedir ajuda a qualquer outro é extrema tolice; é a máxima insensatez, baixeza e indignidade.

Pedir ajuda especialmente aos mortos é ainda mais grave. Enquanto uma pessoa está viva neste mundo, pedir-lhe ajuda em questões materiais tem algum sentido. Tem uma relevância material e não é proibido; mas que sentido pode haver em pedir ajuda aos mortos? Será que os habitantes dos túmulos ouvem os apelos dos habitantes deste mundo? E, mesmo que os ouvissem, teriam eles capacidade para fazer alguma coisa? Que eles não ouvem está comprovado pela declaração do Alcorão. Allah, o Altíssimo, disse ao Seu Profeta:

— Tu não podes fazer os mortos ouvirem coisa alguma.

Em outro lugar, disse:

— Certamente, ó Profeta, tu não podes fazer os mortos ouvirem coisa alguma.

Se alguém acreditar que os mortos, depois de morrerem, continuam tão poderosos que, mesmo nesse estado, podem fazer tudo o que desejarem, e que podem fazer tudo isso de modo sobrenatural, então isso equivale a considerá-los iguais a Allah — dotados de poder equivalente ao de Allah. E não pode haver dúvida de que tal crença é shirk.

O Imam Baghawi escreveu: Suplicar ajuda é uma forma de adoração. Adoração é realizar algo com humildade e submissão. E o servo é chamado de servo precisamente por causa da sua humildade, submissão e indignidade diante de Allah.

-Aquele que, ao visitar os túmulos de profetas, mensageiros e pessoas virtuosas, for até seus túmulos para realizar a oração, sentar-se ali e fazer súplicas, e pedir aos sepultados que atendam às suas necessidades, não terá, segundo a opinião de nenhum dos sábios muçulmanos, praticado algo de modo algum permitido. Isso porque a adoração, a súplica para atender às necessidades e o pedido de ajuda são direitos exclusivos de Allah (somente a Ele se pode pedir, e não a qualquer outro).

Na parte final de um longo hadith do Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), referente precisamente a este assunto, foi dito: Árabe(*******)

-Saiba que, mesmo que todas as pessoas se reunissem para tentar beneficiar você, elas não poderiam fazê-lo, exceto na medida que Allah determinou e escreveu para você. Da mesma forma, mesmo que todas as pessoas se unissem para causar-lhe o menor dano, ainda assim não poderiam fazer nada, salvo aquilo que Allah determinou para você. Com efeito, a pena já foi levantada e a tinta do papel já secou.

Ou seja, aquilo que deve acontecer conforme o decreto de Allah certamente acontecerá, e somente isso acontecerá; nada mais acontecerá, nem poderá acontecer. Ninguém possui sequer o mínimo poder para fazer algo desse tipo. Portanto, não pode haver sentido algum em pedir qualquer coisa a alguém além de Allah — seja um profeta ou mensageiro falecido, um santo, um pir ou um ghawth ou qutb. Pelo contrário, isso será shirk manifesto — uma inovação do shirk.

Foi solicitado ao mufti de Meca, Abdullah ibn Muhammad Mir Ghani al-Hanafi, um parecer jurídico sobre o assunto seguinte:

Qual é a opinião dos sábios sobre os vivos pedirem ajuda aos mortos para obter honra e respeito, abundância no sustento e filhos? Ao ir ao cemitério, dizer: “Ó habitantes dos túmulos, rogai a Allah por nós, para que remova nossa pobreza, amplie nosso sustento, nos conceda mais filhos, cure nossos enfermos e nos conceda o bem em ambos os mundos. Pois sois os salaf صالحين, e vossas súplicas são aceitas por Allah.” É permitido pedir ajuda aos mortos dessa maneira? Responda com base no Alcorão, na Sunnah e na opinião dos mujtahids.

A essência do parecer jurídico emitido pelo estimado mufti em resposta foi a seguinte: pode-se clamar aos profetas e santos; contudo, fazê-lo nas circunstâncias e no local mencionados na pergunta não é prescrito pela Sharia. Muitos sábios da época deram suas assinaturas em concordância com esse parecer.

Maulana Rashid Ahmad Gangohi (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu, em resposta a outra pergunta: se alguém acreditar que o xeique Abd al-Qadir al-Jilani (que Allah tenha misericórdia dele) conhece o invisível e pode, de forma independente e por seu próprio poder, exercer tasarruf (influência) sobre o mundo, isso será shirk manifesto. Neste ponto, ele citou primeiramente um versículo do Alcorão. Árabe(******)

—As chaves do mundo do invisível estão nas mãos de Allah; ninguém além d’Ele as conhece.

Mais tarde, citando livros de fatwas, como o Bazzaziya, ele disse:

Aquele que acreditar que os espíritos dos shaykhs, isto é, dos pirs e dos santos, estão presentes e sabem tudo, tornar-se-á kafir.

Nesse livro também está escrito que quem acreditar que uma pessoa falecida, por si mesma e sem Allah, exerce autoridade sobre todos os assuntos e questões, e quem possuir semelhante crença e convicção, tornar-se-á kafir. (Isso também é mencionado na obra Bahr al-Ra’iq e na obra Mi’at Masa’il.)

Maulana Nawab Qutbuddin Khan, discípulo de Maulana Shah Muhammad Ishaq, escreveu em resposta a uma pergunta sobre se é permitido pedir ajuda aos habitantes das sepulturas:

—Pedir ajuda aos habitantes das sepulturas, seja de que tipo for, não é permitido. O Shaykh Abd al-Haqq escreveu no seu comentário árabe de Mishkat: muitos faqihs declararam não permitido pedir qualquer tipo de ajuda — fazer istimdad espiritual — aos habitantes das sepulturas, exceto aos profetas e mensageiros. Tata disse: além de fazer súplicas pelos mortos, pedir a Allah o perdão para eles e transmitir-lhes algum benefício por meio de súplicas e da recitação do Alcorão, nada mais deve ser feito durante a visita às sepulturas.

Neste ponto, um engano consiste em considerar permitido pedir algo ao espírito de algum wali em nome de Allah e por amor a Allah, sem considerar que haja nisso qualquer erro. Pensa-se que ele está sendo tomado apenas como uma واسila, e que não há problema em adotar semelhante واسila.

Mas isso é, na realidade, um engano que faz com que muitos muçulmanos sinceros e adeptos do tawhid caiam, sem se dar conta, no shirk evidente. Quando, ao pedir algo, se menciona o nome de alguém além de Allah, isso significará ou que, na realidade, o pedido está sendo dirigido a outra pessoa — em vez de se pedir a Allah —, ou que se questiona se Allah concederá aquilo quando se Lhe pedir, ou se somente Allah tem o poder de concedê-lo. Sob ambos os aspectos, o assunto é inteiramente considerado shirk.

Shah Waliullah Muhaddith Dehlavi escreveu nesta passagem:

Entre os casos em que se suspeita de shirk está também este: as pessoas fazem súplicas a outros além de Allah para satisfazer necessidades como curar a doença de um enfermo e dar riqueza aos pobres; fazem votos em nome deles, esperam realizar seus desejos por meio desses votos e recitam em seus nomes na esperança de obter bênçãos. Por isso, Allah tornou obrigatório que as pessoas digam na oração: “Ó Allah! Somente a Ti adoramos e somente a Ti pedimos ajuda.” Allah também disse: “Não invoqueis ninguém além de Allah.” A proibição dessa invocação não significa apenas a proibição de adorá-los — como pensam alguns exegetas. Pelo contrário, significa que é proibido pedir ajuda a qualquer outro.

Pois Allah disse em outro versículo: “Invocai somente a Allah; então Ele vos concederá aquilo que pedis.”

A insensatez da divulgação de falsidades

As pessoas que acreditam no culto aos túmulos e no istimdād espiritual apresentam, em apoio à sua opinião, uma frase como prova. A frase é a seguinte, em árabe.

Quando estiverdes extremamente aflitos e desorientados com os assuntos mundanos, pedireis ajuda aos habitantes dos túmulos.

Eles fazem passar essa frase por um hadith. Na realidade, não é um hadith; dizer que é um hadith é uma mentira completa. Os especialistas escreveram sobre essa frase: os especialistas afirmaram unanimemente que ela é inteiramente inventada e falsa.

E Shah Waliullah Dehlavi escreveu sobre essa frase: essa afirmação, difundida como hadith, é uma invenção dos mujāwir (servidores encarregados). Com o objetivo de obter oferendas e dádivas votivas, eles atribuíram falsamente essa frase ao Nobre Profeta.

Na realidade, esta afirmação não é sequer um hadith. Os muhaddiths e os sufis investigadores também declararam que se trata de uma afirmação inventada e forjada. Na verdade, a razão para apresentar uma afirmação forjada desse tipo como prova em questões de crença é a extrema ignorância e estupidez.

O versículo da surata Al-Baqarah:فَلَا تَجْعَلُوا لِلَّهِ أَندَادًا وَأَنتُمْ تَعْلَمُونَ

Em seu tafsir, Shah Abdul Aziz (que Allah tenha misericórdia dele) mencionou diversos tipos e categorias de “rivais”. Entre eles, o quarto tipo é o rival inventado pelos adoradores de túmulos. Sobre eles, escreveu: Os adoradores de pīres dizem: como os homens santos praticam muita riyāḍah, devoção e mujāhadah, suas súplicas e intercessões são aceitas perante Allah; por isso, depois de partirem deste mundo, seus espíritos adquirem poder ilimitado e grandeza imensa. Se suas formas e aparências forem tomadas como barzakh, ou se alguém se prostrar diante delas em sua sala de reuniões e em seus túmulos, com humildade e submissão, seus espíritos, devido à vastidão de seu conhecimento, podem tomar conhecimento disso e intercedem pelo bem do prostrado neste mundo e no além. (Allah nos proteja disso.)

Com isso, ficou claro que Shah Abdul Aziz (que Allah tenha misericórdia dele) considera explicitamente esse tipo de istimdād e a adoração de túmulos como a adoção de rivais de Allah. E essa adoção é o shirk — algo que o Alcorão proibiu claramente.

Se alguém pensa que há necessidade de adotar esse tipo de intermediário entre Allah e os servos e de obter intercessão, então caluniou Allah. O erudito Ibn Qayyim escreveu: Quem pensar que Allah tem um filho, ou que possui algum associado, ou que alguém pode interceder junto a Ele sem Sua permissão, ou que existe algum intermediário entre a criação e o Criador que apresente a Allah as necessidades da criação, ou ainda que, além de Allah, existem certos santos de Allah que servem de intermediários e meios de proximidade entre Allah e essas pessoas, colocando-se como intermediários entre o Criador e a criação — e por isso elas lhes suplicam, vivem temendo-os e esperam muitas coisas deles — quem tiver essa crença estará mantendo sobre Allah uma opinião extremamente vil e má.

Qadi Sanaullah Panipati (que Allah tenha misericórdia dele) foi um grande erudito do madhhab hanafi e um sábio de orientação sufi. Devido ao seu profundo conhecimento do Alcorão e dos hadiths, era digno de honra e respeitado em todos os círculos. Sobre o versículo do Alcorão:إِنَّ الَّذِينَ تَدْعُونَ مِن دُونِ اللَّهِ عِبَادٌ أَمْثَالُكُمْ ۖ

–Aqueles a quem invocais além de Allah não passam de servos como vós.

Sobre isso, escreveu: este versículo não se refere especificamente apenas aos adoradores de ídolos; pelo contrário,

مِن   دُونِ اللَّهِSeja quem for, de modo geral, além de Allah, está incluído nisso; e invocá-lo será shirk explícito. Pois aqueles que estão sendo invocados têm acaso o poder de satisfazer alguma necessidade dos seres humanos? Se alguém disser que este versículo se aplica aos incrédulos, pois são eles que costumam invocar os ídolos, responderei:

دُونِ اللَّهِnão se deve admitir que a palavra usada em sentido geral indique alguma coisa específica.

Na verdade, é algo realmente surpreendente apresentar provas do Alcorão e dos hadiths em apoio às crenças e práticas politeístas. É ainda mais surpreendente que se tente separar algumas declarações dos grandes eruditos — que durante toda a vida escreveram e empreenderam ações contra o shirk e a bid‘ah — de seu contexto anterior e posterior, para fazê-las servir de apoio ao shirk e à bid‘ah. Esses adeptos e propagadores da bid‘ah não sentem sequer o receio de que sua fraude nesse assunto possa ser descoberta por pessoas experientes. Parece que, além da bid‘ah, não há mais nada em suas mentes e corações. A bid‘ah é seu gosto, e a bid‘ah é sua profissão, assim como certos tipos de insetos apreciam apenas a sujeira e o lixo! Que Allah os guie.

Fraude com os versículos do Alcorão

Não é permitido pedir ajuda a alguém além de Allah; pelo contrário, isso é shirk. Isso foi comprovado na discussão anterior com base em provas decisivas do Alcorão, dos hadiths e da jurisprudência islâmica. Contudo, na parte final desta discussão, seria um erro não dizer brevemente algumas palavras sobre as três provas dos eruditos devotos aos pirs; sem isso, a correção do erro e a refutação do falso não estarão completas.

Esses senhores eruditos afirmam que é permitido buscar istimdad e ajuda de uma força além de Allah — isto é, de um wali de Allah, vivo ou morto. Para provar isso, apresentam três versículos do Alcorão Sagrado. O primeiro versículo é da surata As-Saff.

مَنْ أَنصَارِي إِلَى اللَّهِ ۖ قَالَ الْحَوَارِيُّونَ نَحْنُ أَنصَارُ اللَّهِ ۖ

— O Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele) disse: “Quem será meu auxiliar na causa da religião de Allah?” Os discípulos responderam: “Nós somos seus auxiliares na causa de Allah.” (As-Saff: 14)

E o segundo versículo é o da Surata Al-Kahf.

قَالَ مَا مَكَّنِّي فِيهِ رَبِّي خَيْرٌ فَأَعِينُونِي بِقُوَّةٍ أَجْعَلْ بَيْنَكُمْ وَبَيْنَهُمْ رَدْمًا [١٨:٩٥]

—Não há necessidade de me dardes ajuda financeira, pois os bens que meu Senhor me concedeu são suficientes; porém, podeis ajudar-me fisicamente. Então erguerei uma sólida barreira entre vós e eles. (Al-Kahf: 95)

E o terceiro versículo é o da Surata Yusuf. O versículo diz:

اذْكُرْنِي عِندَ رَبِّكَ فَأَنسَاهُ الشَّيْطَانُ ذِكْرَ رَبِّهِ فَلَبِثَ فِي السِّجْنِ بِضْعَ سِنِينَ [١٢:٤٢]

—Menciona o meu caso diante do teu senhor (o Aziz do Egito). Porém, Satanás fez com que ele se esquecesse de mencionar o caso dele diante do seu senhor. Assim, Yusuf permaneceu na prisão por mais alguns anos.

Ao apresentarem esses três versículos, os eruditos autodenominados religiosos que veneram os pirs querem dizer que, assim como o profeta Isa (que a paz esteja com ele) pediu ajuda aos discípulos, assim como Zulqarnain disse ao povo: “Ajudai-me com a vossa força na construção da barreira”, e assim como o profeta Yusuf (que a paz esteja com ele) pediu ao companheiro libertado que intercedesse por ele diante do rei para que fosse libertado da prisão, da mesma forma é completamente permitido pedir súplicas a qualquer wali de Allah, vivo ou morto, para ser salvo de alguma dificuldade ou na esperança de obter libertação material. Porém, é lamentável que os três versículos do Alcorão Majestoso sejam apresentados para provar essa afirmação, embora ela não seja comprovada por nenhum deles. Se cada versículo for analisado e ponderado individualmente, a veracidade do que digo ficará comprovada. É necessário lembrar que a discussão diz respeito ao istimdad ruhani, isto é, pedir a alguém ajuda por meios espirituais. A crença de Ahl as-Sunnat wa-l-Jama’at é que esse tipo de ajuda só pode ser solicitado a Allah. Isso porque ninguém além de Allah possui — nem pode possuir — o poder de conceder esse tipo de ajuda. A instrução clara de Allah, o Altíssimo, é que, em tal situação, se deve pedir ajuda somente a Allah. É isso também que determina a crença do tawhid. Pedir ajuda a qualquer outro, do ponto de vista da crença, seria shirk e, segundo a crença do tawhid, seria bid’ah. Ao examinar os três versículos nesse contexto, verá que nenhum deles fala de pedir ajuda nesse sentido. No primeiro versículo da Surata As-Saff, ao mencionar o pedido de ajuda feito pelo profeta Isa (que a paz esteja com ele), com as palavras: “Quem será meu auxiliar na causa da religião de Allah?”, essa ajuda não é a ajuda solicitada por alguém que se encontra em dificuldade. O profeta Isa (que a paz esteja com ele) não pediu ajuda aos discípulos por estar em alguma dificuldade. Tampouco pediu ajuda para realizar algum trabalho seu. Ali não se fez nenhum apelo para que lhe fosse prestada ajuda por meios espirituais. A expressão do versículo corânico مَنْ أَنصَارِي إِلَى اللَّهِ“Quem será meu auxiliar na causa da religião de Allah?” prova precisamente que o objetivo principal desse pedido de ajuda era apenas convocá-los a avançar e trabalhar pela divulgação e pelo estabelecimento da religião de Allah. Isso porque esforçar-se pelo estabelecimento da religião não era responsabilidade exclusiva de Isa (que a paz esteja com ele); era também responsabilidade de todos os demais muçulmanos. O próprio início do versículo contém a ordem de ser auxiliar de Allah.

Foi dito: “Ó vós que credes! Sede auxiliares de Allah.”

Agora, na prática, era responsabilidade do profeta convocar as pessoas a ajudar na causa de Allah. Hadrat Isa (que a paz esteja sobre ele) cumpriu precisamente essa responsabilidade ao pedir essa ajuda. Por isso, em todos os tafsirs reconhecidos, incluindo o de Allamah Alusi, este versículo foi interpretado da seguinte maneira:

Ou seja: quem está disposto a tornar-se meu soldado com o propósito de ajudar na causa de Allah? Isso certamente não significa pedir ajuda por algum meio espiritual. Trata-se de um apelo para ajudar o profeta no cumprimento de sua responsabilidade profética. Esse trabalho não é uma tarefa pessoal do profeta. É o trabalho de ajudar direta e explicitamente na causa de Allah. A maior prova disso encontra-se na própria resposta deles, mencionada nesta mesma surata do Alcorão. Eles avançaram não para ajudar Isa (que a paz esteja sobre ele), mas para trabalhar na causa de Allah. Por isso disseram: نَحْنُ أَنصَارُ اللَّهِ— Nós somos os ajudantes de Allah. Allamah Alusi escreveu precisamente neste ponto: dizer “minha ajuda” significa atribuir, em favor de uma das duas partes associadas, o trabalho da outra. E, quando ambas as partes participaram igualmente do trabalho de ajudar na causa de Allah, estabeleceu-se uma relação entre elas, legitimando assim essa maneira de falar.

Assim, ficou claro que Hadrat Isa (que a paz esteja sobre ele) não pediu ajuda a nenhum morto para realizar qualquer ato milagroso. O resumo de suas palavras é: é preciso construir a barreira; eu tenho o dinheiro. Ajudem-me concretamente, colaborando neste trabalho. Trata-se de pedir uma cooperação inteiramente prática numa obra material. Este mundo é, afinal, o mundo das causas e efeitos concretos. Pedir ou receber neste mundo esse tipo de ajuda mútua não tem absolutamente nada a ver com ajuda espiritual. É uma necessidade indispensável da vida social humana e é totalmente permitido. Por isso, o Imam Ibn Kathir escreveu, em seu tafsir deste versículo:

— Ou seja: aquilo que Allah me concedeu em termos de reino e autoridade é melhor para vós do que todas as coisas. Mas ajudai-me com força, isto é, trabalhando e fornecendo materiais para a construção.

O terceiro versículo também trata de uma questão de providência material. Hadrat Yusuf (que a paz esteja sobre ele) ficou detido por muito tempo, sem julgamento. Pensou que talvez o rei já tivesse esquecido dele. Por isso, quando o companheiro de prisão foi libertado e estava prestes a sair da prisão, disse-lhe que mencionasse o seu caso ao seu senhor. Se isso também fosse um ato pertencente à categoria de pedir ajuda espiritual, então seria preciso dizer que um profeta pode pedir ajuda a um não profeta por meios milagrosos. Mas é desnecessário dizer quão humilhante seria tal coisa para um profeta. (Neste ponto, o Imam Ibn Kathir citou um hadith. O hadith é o seguinte: o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: se Hadrat Yusuf (que a paz esteja sobre ele) não tivesse pronunciado essas palavras — isto é, se não tivesse procurado a libertação junto de alguém que não fosse Allah — não teria permanecido na prisão por todo o tempo que permaneceu. Mais tarde, Ibn Kathir escreveu: este hadith é extremamente fraco e inaceitável.) O mais importante é isto: um profeta pediu ajuda por meios milagrosos ou espirituais(?), Satanás fez com que ele esquecesse isso e frustrou sua tentativa de libertação! Somente os devotos dos pirs podem acreditar em algo assim; nenhuma pessoa monoteísta pertencente à Ahl al-Sunnah pode estar disposta a dar a tal crença sequer um lugar no canto mais remoto do coração.

Em suma, os poucos versículos citados pelos devotos dos pirs não provam de modo algum aquilo que eles querem provar. Servem apenas para enganar.

Neste ponto, devemos necessariamente manter sempre em mente o versículo do Alcorão citado a seguir.

Árabe(********)

—Aqueles que existem além de Allah não podem trazer-vos benefício algum nem causar-vos dano algum; portanto, não os invoqueis de modo algum. Se os invocardes, sereis considerados entre os injustos.

A pessoa invoca alguém na esperança de obter dele algum benefício ou para se proteger de algum dano. E que proveito há em invocar aquele que não pode causar benefício nem dano? O poder absoluto para fazê-lo pertence unicamente a Allah; portanto, em todas as circunstâncias e para tudo, deve-se invocar somente a Ele. Buscar proteção ou refúgio só é possível junto d’Ele, pois ninguém além de Allah possui sequer um mínimo de poder para conceder proteção ou refúgio. Por isso, o próprio Allah ordenou: buscai proteção ou refúgio somente junto desse Allah Único.

Túmulos visitar com o propósito de estrangeiro viajar

É permitido visitar túmulos, mas isso deve ser feito de acordo com a Sharia. Assim como, ao ir ao cemitério, não se pode praticar qualquer ato contrário à Sharia nem dizer palavras indesejáveis, também não é permitido viajar para o estrangeiro com o propósito de visitar o túmulo de qualquer profeta, wali ou pessoa virtuosa. Neste ponto, a primeira prova é a proibição severa e enfática proferida pelo Nobre Profeta ﷺ.

Ele declarou: em árabe (******)

—Uma viagem com o propósito de alcançar a proximidade de Allah só pode ser feita para visitar três mesquitas: a Mesquita Sagrada (a Caaba), a Mesquita do Profeta e a Mesquita de Al-Aqsa. Fora isso, não se pode viajar para nenhum outro lugar com o propósito de alcançar a proximidade de Allah.

O Imam Nawawi escreveu na explicação deste hadith: este hadith comprova a virtude dessas três mesquitas e da viagem feita para visitá-las. Segundo os sábios de todas as correntes, seu significado é que não há virtude em viajar para qualquer mesquita além dessas três.

Em outro trecho de sua explicação do hadith, o Imam Nawawi escreveu: estas três são as mesquitas dos profetas. A virtude de realizar a oração nelas é muito maior que nas demais mesquitas.

Portanto, é permitido viajar com a intenção de realizar oração e adoração ali. Não é permitido viajar para adorar qualquer outro além de Allah. Pois, se alguém fizer um voto de viajar até a Mesquita Sagrada, é obrigatório cumpri-lo com o propósito de realizar o hajj ou a umra. Quanto a fazer um voto de viajar até as duas últimas mesquitas, uma das opiniões do Imam Shafi’i é que viajar com a intenção de visitá-las é recomendável, não obrigatório. A segunda opinião é que será obrigatório cumprir esse voto. Muitos sábios sustentam esta opinião. Em seguida, ele escreveu:

—Se alguém fizer um voto de viajar para qualquer mesquita além destas três, não será obrigatório cumpri-lo, e o próprio voto não será válido. Esta é a opinião nossa e de todos os sábios. Muhammad ibn Muslim al-Maliki, contudo, sustenta uma opinião diferente.

Foi dito na explicação deste hadith: a expressão do hadith “shaddur-rihal” significa viajar para longe. Ou seja, não se deve viajar para nenhum lugar, além destas três mesquitas, com a intenção e o propósito de alcançar a proximidade de Allah. Isso porque estas três mesquitas são as mais dignas de honra; fora elas, todas as demais mesquitas são iguais em dignidade. Portanto, não importa em que mesquita se faça a oração: em todas se receberá a mesma recompensa. A honra destas três mesquitas, porém, é de natureza diferente. O significado deste hadith é que não se deve viajar com a intenção de visitar um lugar específico. Mas, se houver ali alguma necessidade, como aprender a ler e escrever ou algo semelhante, isso é uma questão distinta. O sentido aparente do hadith é que foi proibido viajar para qualquer lugar além destes três. Alguns disseram que, se alguém fizer um voto de viajar para qualquer lugar além destas três mesquitas, não será obrigatório cumpri-lo. Esse voto não será considerado um voto válido, nem será obrigatório cumpri-lo. Esse voto não será considerado um voto válido, nem será necessário cumpri-lo. Há divergência quanto a viajar para visitar os awliya e as pessoas piedosas ou lugares sagrados; na realidade, porém, isso é haram.

É preciso ter em mente que aqui não se proibiu simplesmente a visita, nem é disso que se trata. A proibição refere-se apenas a viajar para longe com esse único propósito. Este hadith do Mensageiro é a Sunnah, e foi de acordo com esta Sunnah que os Companheiros praticaram. De fato, segundo alguns relatos, eles nem sequer viajaram apenas para visitar o túmulo do Mensageiro, e também não aprovaram que se fizesse isso. Como prova neste ponto, podem ser mencionadas as duas afirmações seguintes:

Não se sabe que qualquer dos Companheiros — como Mu’adh, Abu Ubayda, Ubada ibn as-Samit e Abu ad-Darda, entre outros — tenha viajado com o propósito de visitar sequer um cemitério no mundo.

Além disso, tampouco há prova de que os Companheiros tenham viajado apenas com o propósito de visitar o túmulo de algum profeta. Foi dito: até o fim da época de Abu Bakr, Umar, Uthman, Ali e dos que vieram depois deles, nenhum Companheiro viajou para longe a fim de visitar o túmulo de um profeta ou de uma pessoa piedosa.

Neste ponto, concluirei nossa exposição sobre o assunto mencionando o que escreveu o universalmente respeitado sábio indiano Shah Waliullah, o Muhaddith de Délhi. Este hadith foi narrado na obra Muwatta do Imam Malik com as seguintes palavras: Abu Huraira disse: encontrei Busra ibn Abi Ghifari. Ele perguntou: “De onde vieste?” Respondi: “Do Tur.” Ele disse: “Se eu tivesse encontrado você uma vez antes de sua ida ao Tur, você não teria ido. Pois ouvi o Nobre Profeta dizer: não vos prepareis para viajar para nenhuma mesquita além da Mesquita Sagrada, da minha mesquita e da Mesquita de Ilya, ou Bayt al-Muqaddas.”

Shah Waliullah escreveu na explicação deste hadith: este hadith prova que é proibido viajar para qualquer lugar além destas três mesquitas com a intenção de alcançar a proximidade de Allah (ou obter recompensa), bem como escolher especificamente algum lugar para esse propósito.

Ao explicar a razão disso, ele escreveu: “Possivelmente, o objetivo principal dessa proibição é impedir que as pessoas pratiquem aquilo que os povos da época da Jahiliyyah costumavam fazer. Por exemplo, eles inventavam e designavam, conforme seus próprios desejos, lugares específicos de veneração.”

Com base neste hadith, ele escreveu ainda: “Eu diria que os povos da época da Jahiliyyah consideravam vários lugares como locais de veneração, com base em diversas fantasias; visitavam-nos e buscavam bênçãos neles. Assim, a própria religião original acabava sendo distorcida e ocorriam numerosas calamidades. Por isso, por meio do hadith em questão, o Profeta ﷺ fechou o caminho para essa corrupção, para que os ideais e símbolos islâmicos da Sunnah não se misturassem e se confundissem completamente com ideais não islâmicos, nem fossem tomados como motivo para inventar formas de adoração de outro que não Allah. Na minha opinião, a posição correta é que os túmulos, os locais de adoração de qualquer wali de Allah e o ‘Tur’ estão todos igualmente incluídos nesta proibição.”

Ao explicar este hadith, o eminente estudioso Qastallani escreveu:

“Viajar para visitar quaisquer lugares além destas três mesquitas — como viajar para visitar pessoas piedosas, enquanto estão vivas ou depois de sua morte, para praticar adoração nesses locais ou buscar bênçãos neles — sobre isso Abu Muhammad Juwayni afirma que, caso se siga o sentido aparente do hadith, tais atos serão haram. Qadi Husayn, Qadi ‘Iyad e outros sábios também adotaram esta opinião. Contudo, segundo o Imam al-Haramayn, da escola Shafi‘i, e outros, tal ato é permitido. (É evidente que, de um lado, é permitido e, de outro, é haram.) Para evitar o haram, não se pode adotar a opinião que o considera permitido.”

Mulla ‘Ali al-Qari escreveu, ao explicar este hadith: “Alguns estudiosos, usando este hadith como prova, afirmaram que é proibido viajar para visitar lugares de bênção e os túmulos de estudiosos e pessoas piedosas (awliya, pirs e dervixes).”

Ao comentar o referido hadith, Shah ‘Abdul ‘Aziz Muhaddith Dehlawi (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu: “Não se deve, de modo algum, considerar uma viagem igual ou superior à viagem do Hajj e, tomando-a conscientemente ou não como tal, vestir o ihram como se veste o ihram do Hajj.”

Com base nos hadiths sahih, em suas explicações e nas valiosas palavras anteriormente citadas dos salaf salihin, especialistas do Islam, fica claramente comprovado que considerar, conforme a própria vontade, um túmulo ou determinado lugar como sagrado, abençoado, sharif etc.; viajar para visitá-lo, suplicar ao wali, pir ou dervixe sepultado ali, tomá-lo como wasilah e desejar obter bênçãos dele — tudo isso são práticas dos idólatras da época da Jahiliyyah e estão totalmente em desacordo com a religião do Islam. Isso corrompe tanto a ‘aqidah quanto as ações. Por essa razão, por meio deste hadith, o Profeta ﷺ proibiu para sempre tais práticas. Portanto, tudo o que atualmente se faz em torno dos túmulos de pirs ou awliya inventados e imaginários em vários lugares; os urs e outras cerimônias realizados em Ajmer Sharif, Baghdad Sharif, Dataganj Bakhsh, Sharshina Sharif, Maizbhandar e Sureshwar Sharif; e as multidões de murids ignorantes que se reúnem com o objetivo de receber fayd do túmulo de um pir falecido — tudo isso está totalmente em desacordo com as instruções do Mensageiro, é contrário à Sunnah e constitui uma clara bid‘ah. Em muitos casos, devido à intensidade e ao excesso da devoção aos pirs, isso acaba se tornando shirk.”

Além disso, aqueles que consideram obrigatório ir a Madinah ao viajar para Makkah a fim de realizar o Hajj na Caaba devem viajar com a intenção de rezar na Mesquita do Profeta; não se deve viajar unicamente com o objetivo de enviar saudações ao túmulo do nobre Mensageiro.

Diante de todas essas provas decisivas, não demorará nada para que, ao se apresentarem as falas dos inovadores, a relação pir–murid desapareça no vazio.

Que Allah guie esses inovadores.

Busca de auxílio espiritual

Depois de ler a discussão detalhada acima sobre a visita aos túmulos, não pode restar dúvida alguma na mente de ninguém de que, ao ir ao cemitério, não se deve fazer nada além de suplicar por eles. Tentar expor aos mortos no túmulo alguma aflição pessoal, pedir-lhes ajuda para satisfazer alguma necessidade ou tentar obter deles benefício espiritual é shirk absoluto. Na verdade, esse é precisamente o ato que os idólatras praticam diante de seus deuses e divindades inventados. Neste ponto, é absolutamente necessário mencionar um episódio do comentário da Surata Fátir, na obra de exegese Jame‘ut Tafsir. O episódio foi narrado por Hazrat Shah Ishaq Dehlavi, transmitindo-o de Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele).

O episódio é o seguinte: Imam Abu Hanifa viu um homem chegar ao cemitério de pessoas virtuosas e saudá-las, dirigindo-se a elas e dizendo: “Ó habitantes dos túmulos! Vocês têm alguma notícia? Vocês têm algum poder? Já venho até vocês há vários meses, chamando-os repetidamente. Não tinha nenhum pedido para vocês em meu favor; tinha apenas o pedido de uma súplica. Mas vocês perceberam alguma coisa ou ficaram completamente desatentos?”

Imam Abu Hanifa ouviu essas palavras. Chamou o homem e perguntou-lhe: “Os mortos no túmulo responderam de algum modo ao seu chamado?” O homem respondeu: “Não, não obtive resposta alguma.” Então Imam Abu Hanifa disse: “Que grande tristeza, que grande vergonha! Que ambas as suas mãos pereçam. Você está falando com corpos que não podem responder de modo algum, que não têm poder para fazer coisa alguma — nem sequer conseguem ouvir qualquer voz.” Em seguida, recitou o versículo 22 da Surata Fátir: “Você não pode fazer ouvir aqueles que estão nos túmulos.”

Essa declaração de Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) prova que ele sustentava a opinião de que é completamente ilícito ir aos túmulos dos santos e das pessoas virtuosas, dirigir-se a eles e falar com eles ou pedir-lhes qualquer coisa. Em segundo lugar, o morto não ouve nem pode responder. Eles não têm — nem podem ter — qualquer capacidade de livrar os devotos das dificuldades, conceder filhos aos estéreis ou proporcionar progresso no emprego, nos negócios e coisas semelhantes. A opinião de Imam Abu Hanifa reflete perfeitamente a declaração do Alcorão. Os judeus, os cristãos e os idólatras costumavam invocar Jesus, Uzair e os anjos. Pediam-lhes ajuda para serem salvos das dificuldades. Foi nesse contexto que Allah, o Altíssimo, declarou:

— Não, eles jamais poderão remover de vocês as dificuldades nem afastar para outro lado a calamidade que se abateu sobre vocês.

Nesta etapa, é especialmente digno de menção um versículo do Alcorão Majid. Allah, o Altíssimo, declarou:

وَمَنْ أَضَلُّ مِمَّن يَدْعُو مِن دُونِ اللَّهِ مَن لَّا يَسْتَجِيبُ لَهُ إِلَىٰ يَوْمِ الْقِيَامَةِ وَهُمْ عَن دُعَائِهِمْ غَافِلُونَ [٤٦:٥]

– Quem invocar alguém além de Allah, este não responderá à sua invocação até o Dia da Ressurreição. E quem pode ser mais extraviado do que ele? Eles estão completamente alheios à sua própria súplica. (Al-Ahqaf: 5)

Nesta etapa, para conhecer corretamente a questão, deve-se verificar primeiro qual é a dignidade do próprio Nabi Karim (s) declarada no Alcorão Majid. A dignidade do Nabi Karim que foi declarada no Alcorão será, nesta etapa, a base para manter correta a ‘aqidah e adquirir o conhecimento correto da Sunnah. Todo leitor do Alcorão sabe que, em diversos lugares do Alcorão Majid, a própria dignidade do Rasul foi declarada por sua própria língua. Um dos versículos pertinentes a esta etapa é o seguinte:

قُل لَّا أَمْلِكُ لِنَفْسِي نَفْعًا وَلَا ضَرًّا إِلَّا مَا شَاءَ اللَّهُ ۚ وَلَوْ كُنتُ أَعْلَمُ الْغَيْبَ لَاسْتَكْثَرْتُ مِنَ الْخَيْرِ وَمَا مَسَّنِيَ السُّوءُ ۚ إِنْ أَنَا إِلَّا نَذِيرٌ وَبَشِيرٌ لِّقَوْمٍ يُؤْمِنُونَ [٧:١٨٨]

– Dize, ó Nabi! Não tenho poder sobre nenhum benefício para mim, nem sobre qualquer dano, exceto aquilo que Allah quiser. E, se eu conhecesse o invisível, certamente teria obtido muitos e muitos benefícios, e nenhuma tristeza ou aflição me teria atingido. Sou apenas um admoestador e um anunciador de boas-novas para os crentes. (Al-A‘raf: 188)

Ao explicar este versículo, o Allamah Alusi escreveu: Este versículo mostra que o Nabi Karim (s) não possui o conhecimento do invisível que seja útil para obter benefícios e evitar danos. Isso porque tal conhecimento não tem relação com ele, nem com as determinações religiosas e as normas da Shariah. Por isso, o Nabi Karim (s) não possui esse tipo de conhecimento do invisível. E o fato de não possuir esse conhecimento não causa absolutamente nenhum prejuízo nem constitui qualquer defeito para a grandiosa dignidade de sua profecia.

Nesta etapa, também se prova por um acontecimento real que o Rasul não possui conhecimento do invisível. Hazrat Aisha (ra) disse: As pessoas polinizavam as palmeiras, unindo as partes masculina e feminina. O Nabi Karim (s) disse: “Seria melhor se vocês não fizessem isso.” Porém, na época seguinte da colheita, como não haviam realizado essa prática, a produção de tâmaras não foi boa. Ao ouvir isso, o Nabi Karim (s) disse: “Vocês conhecem melhor estes assuntos mundanos de vocês.” Em outra narração, isso foi dito da seguinte forma: “Vejam: se o assunto estiver relacionado às questões mundanas de vocês, então ele diz respeito a vocês; mas, se estiver relacionado à religião, então ele está sob minha responsabilidade.”

Na crença apoiada pelo madhhab hanafita, afirma-se claramente que, se alguém sustentar a crença de que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conhecia o invisível, será inequivocamente um kafir. Pois tal crença é totalmente contrária ao Alcorão — (ao anteriormente mencionado e) a este versículo. O versículo é:

قُل لَّا يَعْلَمُ مَن فِي السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ الْغَيْبَ إِلَّا اللَّهُ ۚ

— Dize: ninguém nos céus e na terra conhece o invisível, exceto Allah.

Ou seja, entre todas as criaturas dos céus e da terra, ninguém além de Allah conhece, nem pode conhecer, aquilo que está fora do alcance das percepções e do conhecimento humanos.

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Árabe (********)

— Quem acreditar que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conhece ou informa às pessoas assuntos mundanos que acontecerão amanhã terá atribuído a Allah uma mentira extremamente grave.

Com base nestas provas irrefutáveis e claras relativas ao conhecimento do invisível, pode-se afirmar que, se nem mesmo o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conhecia o invisível, não se pode sequer questionar que algum pir, wali ou dervixe pudesse conhecê-lo. Se alguém acreditar nisso, será um grande shirk no campo da crença, totalmente contrário às declarações claras do Alcorão e do Hadith, e uma bid‘ah manifesta, oposta à crença da Sunnah.

A prática de atos milagrosos é uma bid‘ah

Allah é o Criador de todo o universo. Somente Allah exerce autoridade sobre tudo isso. Além d’Ele, ninguém neste mundo tem poder para fazer coisa alguma. Enquanto está vivo, o ser humano só pode fazer aquilo para o qual Allah Ta‘ala lhe concede oportunidade. Essa oportunidade também não é ilimitada nem algo anormal. Contudo, aquele a quem Allah concede poder para fazer alguma coisa só pode fazê-la na medida em que Allah lhe dá permissão. Por isso, pode-se dizer que, às vezes, Allah permite que Seus servos prediletos realizem certas ações desse tipo, as quais chamamos de “ações milagrosas”. Algumas dessas ações são realizadas pelos profetas e mensageiros. Na terminologia islâmica, elas são chamadas de “muʿjiza”. As muʿjizat dos profetas e mensageiros são verdadeiras. Elas constituem provas decisivas da veracidade da missão profética. Entretanto, essas “muʿjizat” ocorrem para promover o bem das criaturas e proporcionar certos benefícios específicos, e acontecem pelo poder e pela vontade do próprio Allah, não pela vontade dos profetas e mensageiros. O poder de realizá-las não é próprio dos profetas e mensageiros; é um poder concedido exclusivamente por Allah.

Assim como Allah Ta‘ala concedeu aos demais profetas e mensageiros muʿjizat e provas decisivas com o objetivo de estabelecer irrefutavelmente a veracidade de sua missão profética, também concedeu a Hazrat Isa (A.S.) o poder de realizar muitas ações extraordinárias. Porém, ao verem esses sinais, os cristãos concluíram que o poder de realizá-los pertencia ao próprio Hazrat Isa (A.S.) e que esse poder e essa força eram exatamente o poder e a força de Allah. Por isso, esses ignorantes concluíram que o próprio Allah, o Magnífico, teria se incorporado em Hazrat Isa. Assim, Allah e Isa teriam se tornado uma única essência; Allah e Isa teriam se fundido numa só entidade. (Que Allah nos preserve!) E esse é o fundamento da crença politeísta adotada pelos cristãos.

Quanto às pessoas conhecidas entre os muçulmanos como awliya de Allah, alguns, por excesso de devoção e extrema ignorância, imaginaram que Allah teria vindo parar na palma de suas mãos ou que eles próprios teriam se tornado Allah (que Allah nos preserve!), e que, por isso, teriam adquirido o poder de realizar o impossível e produzir acontecimentos extraordinários e milagrosos. Isso também é o resultado da extrema ignorância, tal como a dos cristãos mergulhados no shirk. Assim como os cristãos não compreenderam que todos os poderes de Hazrat Isa (A.S.) lhe foram concedidos por Allah na qualidade de profeta, não sendo nada de seu próprio, esses ignorantes entre os muçulmanos também não compreendem — nem estão dispostos a compreender — que aqueles a quem consideram awliya de Allah talvez, na realidade, não sejam awliya de Allah. E, mesmo que sejam, não possuem poder algum para realizar algo milagroso nem para alterar as leis naturais estabelecidas por Allah, que estão em constante funcionamento. Também estão, exatamente por essa razão, mergulhados no extremo shirk, assim como os cristãos.

Entretanto, se pessoas que não são profetas nem mensageiros realizarem ações extraordinárias, elas podem ser de três tipos.

Primeiro: se disso resultar algum benefício religioso, será considerado uma das boas ações.

Segundo: se disso resultar algo permitido, será uma bênção material concedida por Allah. Por isso, a pessoa envolvida deve agradecer a Allah.

Terceiro: se ocorrer algo anormal que seja de natureza proibida ou alcance o nível do haram, isso será causa do castigo de Allah. Como consequência, a ira de Allah se manifestará.

É preciso lembrar que, assim como acontecimentos extraordinários ocorrem em torno dos servos virtuosos de Allah neste mundo, também podem ocorrer em torno de outros servos. Portanto, do ponto de vista da religião, eles não são necessariamente bons nem maus. Há também casos que não são nem bons nem maus.

Se algo extraordinário acontece tendo pessoas piedosas como centro, isso não é motivo de glória para a própria pessoa, nem constitui prova de sua santidade. Tampouco há qualquer evidência no Alcorão e nos hadiths de que aquele em torno de quem algo assim aconteça deva ser considerado dotado de poderes sobrenaturais ou um servo amado por Allah. Com base nos versículos do Alcorão, pode-se saber quem é o wali de Allah e quem é Seu amado, a partir do versículo seguinte. Allah declarou:

أَلَا إِنَّ أَوْلِيَاءَ اللَّهِ لَا خَوْفٌ عَلَيْهِمْ وَلَا هُمْ يَحْزَنُونَ [١٠:٦٢]

الَّذِينَ آمَنُوا وَكَانُوا يَتَّقُونَ [١٠:٦٣]

—Sabei que os walis de Allah não terão medo, nem haverá motivo para que se aflijam. São aqueles que creem e adotam a taqwa. (Yunus: 62–63)

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que, ao relatar um hadith qudsi, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) transmitiu estas palavras de Allah: Árabe(**********)

—Quem demonstrar inimizade contra um dos Meus walis, declarar-me-á guerra. Meu servo não pode aproximar-se de Mim por nada que Me seja mais querido do que cumprir os deveres obrigatórios que lhe impus. Meu servo também se aproxima de Mim por meio das obras voluntárias. Por fim, começo a amá-lo. E, quando começo a amar um servo, torno-me o ouvido com que ele ouve, o olho com que vê, a mão com que segura e o pé com que caminha. Assim, ele ouve por intermédio de Mim, vê por intermédio de Mim, segura por intermédio de Mim e caminha por intermédio de Mim.

Está comprovado pelos versículos do Alcorão e pelos hadiths que wali de Allah é aquele que é crente e possui taqwa, e somente a ele se pode chamar assim. Ter fé e taqwa significa possuir uma fé completa e uma taqwa perfeita e genuína. Também se soube pelo hadith que ele cumpre devidamente os deveres obrigatórios prescritos por Allah. Contudo, não há no Alcorão nem nos hadiths qualquer afirmação de que ele necessariamente deva possuir karamat. A menção seguinte do versículo corânico citado também não fala dessa karamat. O que consta é o seguinte: لَهُمُ الْبُشْرَىٰ فِي الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَفِي الْآخِرَةِ ۚ

—Para eles há boas-novas na vida terrena e na Derradeira Vida.

بُشْرىPor “boa-nova” entende-se, originalmente, uma notícia tal que, ao ouvi-la, sinais de alegria aparecem no rosto. Daí vem “bashārat”, que significa boa-nova. E a notícia cuja transmissão produz tal alegria também se chamaبُشْرى assim. E o significado correto é este: para eles há uma boa-nova, tanto enquanto permanecem neste mundo quanto depois de partirem para a Outra Vida. Ou seja, tanto imediata quanto futura.

O Allama Alusi escreveu: numerosos relatos de hadith comprovam que, no Alcorão, o significado destaبُشْرى palavra é um sonho bom e auspicioso na vida terrena, que corresponde a uma quadragésima sexta parte da profecia.

Esta exegese é conhecida de modo decisivo pelas próprias palavras do Mensageiro. Quanto à Outra Vida, é isto: no momento da morte, será dada ao crente a boa-nova de que Allah perdoou a ti e àqueles que te levarão até o teu túmulo.

Isso também é conhecido pela narração de Hazrat Abu Huraira, cujo significado é o Paraíso.

E foi narrado de Ata: quanto à vida terrena, é queبُشْرى os anjos lhes trarão misericórdia no momento da morte. Quanto à vida futura, é queبُشْرى então os anjos levarão a esses muçulmanos a boa-nova de seu sucesso, honra e dignidade. Eles verão seus rostos radiantes, receberão seus registros de ações na mão direita e os lerão, além de outras boas-novas desse tipo.

Então, qualquer karamat dos amigos de Allah que venha a ocorrer — em torno da qual os pirs verdadeiros e os pirs falsos de hoje fazem reivindicações, atraindo ainda mais os murids cegos e ignorantes para os pirs autênticos e os pirs impostores por meio dessas histórias absurdas —

Esses dons concedidos aos amigos de Allah são, na realidade, uma grande graça de Allah. Porém, essa graça é pessoalmente destinada a eles. Se alguém a recebeu, deve agradecer a Allah. Mas será que há alguma prova de que, por meio de sua divulgação, se possa manter o negócio de pir e murid com sinceridade em nome de Allah? As karamat mencionadas nos livros de crença são estas. Karamat significa honra e dignidade; e estas também são honras e dignidades concedidas por Allah. Nenhum muçulmano pode negar essas karamat comprovadas pelas declarações do Alcorão e dos hadiths. Mas a karamat mencionada aqui não é essa. Trata-se de algum pir ou amigo de Allah ter realizado um prodígio, ter deixado os murids atônitos ao fazer algo extraordinário: um ter voado no ar, outro ter atravessado o mar caminhando sobre a água, outro ter ido diariamente à Caaba rezar mesmo estando preso numa cadeia. Qual é o significado dessas divulgações? Qualquer pessoa de bom senso reconhecerá que tudo isso não passa de palavras vazias, ditas e divulgadas apenas entre ignorantes e tolos.

Em suma, é infundada a ideia de que, por ser amigo de Allah, alguém necessariamente tenha de possuir karamat ou capacidade de realizar milagres; de que, se alguém possui “karamat”, deve ser considerado amigo de Allah; e de que, sem karamat, não se pode considerá-lo amigo de Allah. Não há nenhuma prova dessas afirmações no Alcorão e nos hadiths.

Os pires ignorantes exibem diante de discípulos ainda mais ignorantes as suas supostas karamat e revelam feitos miraculosos(?) de vários tipos; ou afirmam que, mesmo após a morte, podem realizar milagrosamente algum tipo de tasarruf na administração do mundo e nas atividades sociais, que os espíritos dos xeques se fazem presentes, que conhecem ou ouvem o estado do mundo, e coisas semelhantes. O que podem ser tais afirmações, senão palavras claramente kufri ou de shirk? Esse poder não foi concedido sequer ao próprio Mensageiro. Neste ponto, serão mencionadas algumas provas.

Mulla Ali al-Qari escreveu: os imames hanafitas afirmaram claramente: quem sustenta a crença de que o Nobre Profeta conhece o invisível é um kafir. Pois tal crença contradiz a declaração de Allah: “Ninguém nos céus e na terra conhece o invisível, exceto Allah”. (قُل لَّا يَعْلَمُ مَن فِي السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ الْغَيْبَ إِلَّا اللَّهُ ۚO significado do versículo é: aquilo que está além das capacidades sensoriais e intelectuais dos seres humanos, o invisível, ninguém entre toda a criação dos céus e da terra conhece, exceto Allah. O Imam Ibn Kathir escreveu, em seu tafsir deste versículo: Allah, o Altíssimo, ordena ao Seu Mensageiro que declare, ao ensinar toda a criação, que ninguém entre os habitantes dos céus e da terra conhece o invisível; somente Allah, o Altíssimo, o conhece. Em seguida, escreveu: a expressão de Allah “exceto Allah” foi completamente separada e destacada da afirmação anterior. Isso significa que ninguém conhece o invisível além de Allah. Pois, nesse assunto, Ele é Um e Único, e ninguém é Seu associado. )

Da mesma forma, quem acreditar que os mortos exercem tasarruf sobre os assuntos do mundo — isto é, que provocam acontecimentos e realizam ações conforme a própria vontade —, sustentar tal crença, atribuindo isso a alguém além de Allah, é kufr.

Nos livros de fiqh hanafita, foi chamado de kafir aquele que toma o Mensageiro de Allah como testemunha em um casamento. Isso porque realizou tal ato acreditando que o Nobre Mensageiro era “Alim al-Ghayb”, conhecedor do invisível.

Mujaddid al-Fesani lutou durante toda a sua vida contra o shirk e as inovações praticados nos cemitérios. O que ele escreveu sobre esse assunto é citado aqui: buscar ajuda junto a ídolos, deuses e divindades falsas para afastar doenças e sofrimentos — prática que se difundiu entre muçulmanos ignorantes — é absolutamente shirk e desvio. Fazer súplicas a pedras, trabalhadas ou não, para satisfazer as próprias necessidades equivale a negar abertamente o Todo-Poderoso Allah e é absolutamente kufr. Allah, o Altíssimo, ao descrever a condição de alguns desviados, disse: “Eles desejam apresentar seus assuntos às forças taghut, embora Allah tenha ordenado que essas forças taghut fossem rejeitadas. E Satanás deseja desviá-los e lançá-los no desvio.”

Muitas mulheres, por extrema ignorância, envolvem-se nesse tipo de busca de ajuda. Algumas procuram libertação de doenças, sofrimentos e calamidades junto a nomes fictícios. Isso envolve os costumes e práticas dos idólatras. Pouquíssimas mulheres escaparam deste shirk sutil e deixaram de participar de cerimônias relacionadas a ele. Naturalmente, somente aquela que Allah salvou foi salva.

É claramente evidente, pela citação anteriormente apresentada das palavras de Mujaddid al-Fesani, que tudo o que atualmente ocorre nos túmulos daqueles que são chamados de amigos de Allah — tudo o que discípulos especiais de um pir especial fazem ao visitar a corte de um pir vivo ou o túmulo de um pir morto, buscando dele benefício espiritual e pedindo ajuda nas dificuldades e calamidades — é inteiramente uma prática de shirk e, na sociedade muçulmana, uma inovação de shirk. É profundamente lamentável, porém, que, depois dele, seus discípulos e os discípulos destes tenham praticado exatamente essas mesmas coisas e, apesar disso, reivindiquem ser “Ahl al-Sunnat wa al-Jamaat”. À luz dos argumentos acima apresentados por Mujaddid al-Fesani, em vez de chamá-los “Ahl al-Sunnat”, pode-se chamá-los “Ahl al-Sunnat wa al-Bidat”. Mujaddid al-Fesani chamou claramente tais atos de práticas de shirk e chamou essas pessoas de idólatras, pois somente os idólatras são capazes de praticá-los. Os idólatras são idólatras precisamente porque praticam essas coisas. Se não as praticassem, certamente não seriam idólatras. Então, se uma classe de muçulmanos ou de pessoas que se apresentam como pires e eruditos praticar tais atos, por que isso não seria uma prática de shirk e por que eles não seriam condenados perante Allah como “idólatras”? Ao fim desta longa discussão, desejo recordar aos pires, discípulos e às pessoas chamadas de “amigos de Allah” da nossa época o conselho de Hazrat Mujaddid al-Fesani, que ele dirigiu aos pires inovadores de seu tempo — ei-lo:

— Se os sufistas de hoje forem justos e observarem a situação debilitada do Islã e a ampla manifestação da falsidade, devem deixar de seguir seus pires naquilo que está fora da Sunnah. E não devem seguir as coisas inventadas apenas sob o pretexto de terem visto seus pires praticá-las.

Com efeito, seguir o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é, sem dúvida, um meio de salvação e uma fonte de bons e abençoados frutos. Seguir cegamente aquilo que está fora da Sunnah encerra perigo sobre perigo.

Talismãs tumar e sepulturas construir a inovação

Em nossa sociedade, observa-se entre as pessoas comuns e iletradas o costume amplamente difundido de usar talismãs e amuletos, e, entre uma classe de pessoas abastadas, especialmente durante viagens ao exterior, de amarrar o “Imame Jamen”. Essas pessoas não dão muita importância aos princípios fundamentais do Islã, nem os compreendem adequadamente. Apesar disso, quando enfrentam uma dificuldade, quando ela surge ou quando temem que ela ocorra, não conseguem deixar de amarrar talismãs e amuletos nas mãos e no pescoço, bem como o “Imame Jamen”. Pensam que, assim, a dificuldade será afastada ou que ela sequer poderá acontecer. Contudo, à luz do Alcorão e dos hadiths, não têm sequer tempo para refletir que essas práticas são totalmente contrárias à crença tawhídica do Islã e que, entre os muçulmanos, constituem uma completa inovação e uma prática de shirk. Ao examinar a questão mais profundamente, pode-se compreender que, na realidade, a culpa não é dessas pessoas; foram certos mulás e clérigos que se apresentam como eruditos que introduziram essa prática entre o povo comum e, com isso, ganham algum dinheiro para viver. Eles nem sequer tentaram incutir no coração dos ignorantes e iletrados qualquer noção da crença tawhídica. Pelo contrário, deram-lhes a ideia de que a dificuldade seria afastada e de que seriam salvos dela. Ou seja, em vez da crença tawhídica, uma crença claramente baseada no shirk foi implantada em suas mentes e corações. Em vez de ensiná-los a confiar em Allah em todas as circunstâncias e a suplicar a Allah para serem salvos das dificuldades, conduziram-nos pelo caminho evidente do shirk. Assim, por meio da disseminação do costume de amarrar talismãs, amuletos e o Imame Jamen na sociedade muçulmana, uma inovação manifesta foi estabelecida entre os muçulmanos.

No entanto, qualquer erudito que olhasse para o Alcorão poderia ver que, ao descrever a identidade dos muçulmanos, o Alcorão declarou em linguagem eloquente:

وَيَرْجُونَ رَحْمَتَهُ وَيَخَافُونَ عَذَابَهُ ۚ

— Os crentes muçulmanos esperam somente a misericórdia de Allah e temem somente o Seu castigo. (Bani Isra’il: 57).

Em outras palavras, eles não desejam obter nem a menor parcela de ajuda, paz ou segurança de ninguém além de Allah, nem de coisa alguma. Em nenhuma circunstância seus corações depositam esperança em outra pessoa ou coisa. Nem sequer o menor temor do dano causado por outrem surge em seus corações. Assim, não buscam refúgio em nenhum morto, ausente ou objeto inanimado — nem na esperança de obter algum benefício, nem com o propósito de afastar qualquer dificuldade ou dano. Com efeito, esta é a crença tawhídica, e esta é a identidade do crente monoteísta.

Mas amarrar talismãs, tumar e amuletos é completamente contrário a isso. É claramente contrário ao seguinte versículo do Alcorão Sagrado. Allah, o Altíssimo, declarou:

قُلْ أَفَرَأَيْتُم مَّا تَدْعُونَ مِن دُونِ اللَّهِ إِنْ أَرَادَنِيَ اللَّهُ بِضُرٍّ هَلْ هُنَّ كَاشِفَاتُ ضُرِّهِ أَوْ أَرَادَنِي بِرَحْمَةٍ هَلْ هُنَّ مُمْسِكَاتُ رَحْمَتِهِ ۚ

– Dize, ó Profeta: “Vedes aquele a quem invocais em vez de Allah? Se Allah quiser causar-me algum dano, poderão eles impedi-lo ou afastá-lo? Ou, se Allah quiser conceder-me alguma misericórdia, poderão eles impedir essa misericórdia de Allah?” (Az-Zumar, 38).

O único e absoluto Senhor do dano e da misericórdia é Allah; ninguém além de Allah. Se Allah quiser causar dano, Ele o causará, e ninguém poderá escapar desse dano. Do mesmo modo, se Allah quiser conceder misericórdia a alguém, essa pessoa não será privada dela, e ninguém poderá impedi-la de receber essa misericórdia. Quando uma misericórdia é destinada a alguém, ninguém poderá concedê-la a outra pessoa. Sendo assim, por que as pessoas sensatas procurariam obter algo de qualquer pessoa, força ou coisa além de Allah? Por que buscariam sua misericórdia e ajuda? Por que procurariam junto a ela livramento dos perigos? Em nosso país, o talismã, o amuleto e o “Imame Jamen” não são coisas desse tipo? Nos hadithes, foi proferida uma proibição clara a respeito dessas coisas. Qualquer sábio pode consultar este hadith. Ao consultá-lo, compreenderá que, segundo a perspectiva dos hadithes, essas são práticas de shirk. Aqui mencionaremos alguns hadithes.

Árabe(***********)

– Relata-se de Imran ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu um homem usando na mão um anel para se proteger da doença da bile. Perguntou-lhe, em tom de desagrado: “Por que usas isso?” Ele respondeu: “Coloquei-o para ser curado da doença.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Tira-o, pois, enquanto estiver em tua mão, ele apenas aumentará tua aflição, sem reduzi-la nem um pouco. E, se morreres enquanto o estiveres usando, jamais alcançarás o bem.”

Relata-se de Uqbah ibn Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Árabe(******)

– Quem pendurar um talismã, Allah não lhe concederá qualquer benefício. E quem pendurar um amuleto, Allah jamais afastará dele a aflição; ele nunca terá paz.

Em outra transmissão, foi dito: Árabe(********)

—Quem usar um amuleto com talismã terá cometido shirk.

Esses três hadiths mencionados consecutivamente provam claramente que usar um amuleto com talismã na esperança de escapar de algum dano, prejuízo ou perigo, ou de alcançar algum benefício ou objetivo, é shirk evidente. Essa prática é completamente contrária à sinceridade que o credo “la ilaha illallah”, fundamento da fé, exige do servo. Pois aquele que é verdadeiramente um crente sincero jamais voltará o coração para alguém além de Allah a fim de obter benefício de alguém ou proteger-se do prejuízo causado por alguém. Portanto, sem abandonar essas práticas, não se pode cumprir a exigência do tawhid completo. Muitos não percebem a gravidade do pecado desse ato por considerá-lo shirk menor; pelo contrário, negligenciam-no. Mas, na realidade, embora seja shirk menor, é extremamente perigoso. Os hadiths mostram que, durante a vida do Profeta, sua gravidade não era obscura nem desconhecida para nenhum dos companheiros. Então, é de admirar que isso permaneça oculto para as pessoas de pouco conhecimento e fé fraca dos tempos atuais, especialmente quando o shirk e a bid‘ah se espalharam amplamente por todos os lados?

Huzayfah viu um homem que, devido à intensidade da febre, havia amarrado um fio na mão como amuleto. Então, ele o arrebentou e recitou este versículo: “A maioria das pessoas não creu em Allah; ao contrário, são politeístas.”

Abdullah ibn Mas‘ud desempenhou um papel muito firme contra o shirk e a bid‘ah. Sempre que via alguma bid‘ah ou shirk, onde quer que fosse, imediatamente protestava contra isso e tomava medidas rápidas e eficazes. Certa vez, ao entrar em casa, viu um cordão pendurado no pescoço de sua esposa. Quando lhe perguntou, ela respondeu: “Amarrei-o ao pescoço como remédio popular para determinada doença.” Ele segurou o cordão e puxou-o com tanta força que ele se rompeu; caso contrário, sua esposa teria caído de bruços e se machucado. Ele não fez isso apenas por firmeza de caráter, mas para cumprir seu dever religioso contra o shirk e a bid‘ah.

Na época da jahiliyyah, havia uma árvore chamada “Dhat Anwat”. Uma vez por ano, os coraixitas e todos os árabes se reuniam junto a ela, penduravam suas espadas na árvore, sacrificavam animais perto dela e permaneciam ali durante um dia.

Após a conquista de Meca, o nobre Profeta avançava em direção a Hunayn acompanhado pelos muçulmanos recém-convertidos de Meca e pelos companheiros vindos de Medina. Ao avistarem aquela árvore no caminho, os novos muçulmanos de Meca exclamaram: “Ó Mensageiro! Faça para nós também uma ‘Dhat Anwat’, assim como eles têm uma ‘Dhat Anwat’.” Ao ouvir isso, o nobre Profeta disse: “Allahu akbar! Vocês estão dizendo exatamente o que os companheiros de Moisés disseram: ‘Faça para nós uma divindade semelhante às divindades que eles têm, ó Moisés!’”

Ou seja, assim como aquelas palavras eram contrárias à crença monoteísta do Islam, estas palavras de vocês também são contrárias à fé no tawhid. Pois, assim como as palavras deles, as palavras destes se assemelham às dos politeístas. Consequentemente, trata-se de uma fala de shirk muito grave. Como fazer uma “Dhat Anwat” semelhante à deles, pendurar nela espadas, sacrificar animais junto a ela e permanecer ali durante um dia equivalia a estabelecer outra divindade junto ao único Allah, o nobre Mensageiro rejeitou as palavras deles. (Tirmidhi, Musnad Ahmad, Ibn Jarir e Ibn Ishaq em sua Sira do Profeta).

Se este relato histórico for verdadeiro — e quem dirá que não é? — então por que seria não ser shirk evidente e rejeitável o fato de os muçulmanos de hoje permanecerem junto aos túmulos de grandes e famosos wali, pir e ghaws, fazerem súplicas junto a eles, chamá-los e pedirem suas súplicas?

Há plena semelhança entre essas duas práticas quanto ao aspecto de ambas constituírem shirk. Foi nesse contexto que Abu Bakr at-Tartushi, discípulo do imã Malik, ordenou às pessoas: onde quer que encontrassem uma árvore desse tipo, em torno da qual o povo se reunisse, demonstrasse respeito e veneração, buscasse junto a ela libertação de doenças e calamidades e realizasse urs, deveriam cortá-la imediatamente e destruir completamente esse ponto de reunião do shirk.

Ficou claro, portanto, que, na visão de Hudhayfa, amarrar amuletos para proteger-se da febre e de coisas semelhantes é shirk manifesto. Embora seja shirk menor, os Companheiros apresentavam, para condená-lo, versículos que foram revelados para condenar o shirk maior. Pois não há dúvida de que, embora menor, ele continua sendo shirk. Por isso, o Profeta disse: Árabe (*****)

— O que mais temo para vocês é o shirk menor.

Portanto, por menor que seja o shirk, na realidade ele de modo algum é pequeno. Pelo contrário, na visão dos Companheiros, o shirk menor era ainda mais grave e severo do que os grandes pecados.

Quando se pensa, à luz dos versículos do Alcorão e dos hadiths, no costume amplamente difundido em nosso país de amarrar talismãs, amuletos e Imame Jamen, o coração se parte de tristeza. Se apenas pessoas ignorantes praticassem essas coisas, ainda seria compreensível. Mas vemos também pessoas consideradas grandes eruditos mergulhadas nesse shirk. Quando, por ocasião da partida do chefe de Estado para o exterior, no aeroporto, durante a despedida, alguém considerado um erudito amarra pomposamente um Imame Jamen à sua mão; quando, no momento de despedir uma filha casada que parte para o exterior, a mãe amarra um Imame Jamen à mão da filha, e essa notícia é publicada em letras garrafais nos jornais, a cabeça de quem crê no tawhid não pode deixar de baixar-se de vergonha e tristeza.

Em nossa sociedade rural e ignorante, vê-se que todo tipo de objeto inútil é amarrado ao pescoço e às mãos dos recém-nascidos. Penduram-se sementes de jujuba, moedas de cobre, cápsulas de amuletos dadas por um mollah e folhas ou pedaços de raízes de diversas plantas. Colocam-se tornozeleiras e chocalhos nos pés de meninos e meninas que já conseguem andar, na esperança de perceber quando se dirigirem ao lago e, assim, salvá-los de morrer afogados. Mas, na realidade, aqueles cuja morte foi determinada na infância não podem ser protegidos por esse amontoado de lixo. Crianças que usam tornozeleiras ou chocalhos também morrem afogadas, pois a morte não depende dessas coisas. Na verdade, não há dúvida de que, no caso das pessoas, essas práticas constituem shirk e que todos esses costumes são bid‘ah. Assim como o Profeta fez declarações claras e pronunciou palavras de proibição a respeito dessas práticas, também se opôs, na prática, a esses costumes correntes na época da jahiliyyah. Ele chegou a proibir que essas coisas fossem amarradas até mesmo ao pescoço dos animais; quando as encontrava amarradas, ele as cortava.

Na época da jahiliyyah, havia um costume de amarrar diversos amuletos ao pescoço de camelos de boa qualidade, para protegê-los do mau-olhado das pessoas. Abu Bushair — Quraish ibn Ubaid — relata que certa vez acompanhava o Mensageiro numa viagem ao exterior. Antes da partida, o Profeta enviou um homem, dizendo: Árabe (*****)

— Que não reste nenhum fio desse tipo amarrado ao pescoço de qualquer camelo; se houver algum, que seja cortado.

O Imã Ahmad e Abu Dawud narraram que o Profeta (s) disse: Árabe(****)

— O uso de amuletos e objetos de dependência é shirk manifesto.

Ao final desta discussão, é necessário esclarecer uma dúvida. Ao ler a discussão anterior, alguém pode perguntar: será também shirk fazer um amuleto com versículos do Alcorão? A resposta breve é que alguns dos salaf صالحین consideraram permitido fazer amuletos com versículos do Alcorão. Mas outros declararam que até mesmo esse ato é haram. Hadrat Ibn Mas‘ud (r.a.) foi um dos que adotaram esta última posição. Entre os juristas, Qatadah, Sha‘bi, Sa‘id ibn Jubayr e um grande grupo disseram: o uso de amuletos é makruh (tahrim). Todo crente deve evitá-los, mantendo firme a fé em Allah e confiando n’Ele, com a convicção de que, se abandonar algo que não lhe traz benefício, nenhum dano lhe sobrevirá.

Penso que, se todos refletirem sobre o estado psicológico por trás dessas práticas, reconhecerão que elas não podem deixar de ser haram e contrárias ao tawhid — mesmo quando feitas com versículos do Alcorão. Pois, quando alguém pratica essas coisas temendo cair em alguma aflição, o foco de seu coração se desloca de Allah para algo que não é Allah. Em vez de Allah, ele passa a depender dessa coisa. E, do ponto de vista do tawhid, isso é precisamente shirk. Em segundo lugar, se versículos do Alcorão forem usados nessa prática, há alguma dúvida de que isso não é o uso correto do Alcorão, de que o Alcorão não veio ao mundo para permanecer como um amuleto e de que ele é desviado de seu propósito e usado para outra finalidade? Isso constitui uma evidente afronta ao Alcorão, um uso indevido do Alcorão e também uma forma de tahrif do Alcorão — tahrif prático (distorção). Para as pessoas experientes e crentes no tawhid do Alcorão, isso não é absolutamente obscuro. Portanto, quanto mais cedo essa prática for interrompida, quanto mais cedo as pessoas a abandonarem e se tornarem genuinamente monoteístas e seguidoras do tawhid, melhor será. Quero dizer com toda ênfase que, no mínimo, os ulemás da sociedade devem empenhar-se especialmente nisso e não devem dar o menor incentivo a essas coisas.

Naturalmente, isso não prova que, diante de uma calamidade repentina, não se possa buscar a misericórdia de Allah recitando versículos do Alcorão, nem que não se possa soprar sobre uma pessoa afligida para obter a cura de Allah. Que isso é permitido está comprovado pelos hadiths, e muitos juristas também manifestaram essa opinião.

Milad cerimônia bid‘ah

Há muitos anos, a prática de recitar o milad e realizar reuniões de milad vem sendo seguida na sociedade muçulmana. Em geral, os muçulmanos consideram isso uma obra de grande recompensa e a praticam com muita sinceridade. Contudo, parece que os muçulmanos — a parcela instruída e consciente da sociedade muçulmana — não estão dispostos sequer a refletir por um instante sobre se essa prática está de acordo com a sharia islâmica, se está de acordo com a sunnah que os muçulmanos receberam do Profeta Muhammad (s) por terem acreditado nele. Até mesmo os ulemás deste país estão sendo arrastados pela corrente desse costume que existe na sociedade desde tempos imemoriais. Nunca param para observar se estamos praticando algo conforme a sunnah ou se está sendo cometida uma bid‘ah. Por isso, tornou-se especialmente necessário que este livro apresente uma discussão um tanto detalhada sobre o assunto.

Todos sabem e reconhecem que nenhum costume do milad atualmente praticado existia durante a vida do Mensageiro (s), nem no tempo dos nobres companheiros, dos tabi‘in ou dos mujahidin das gerações posteriores. A breve história desse milad é a seguinte: cerca de duzentos anos depois do Profeta (s), um rei o introduziu; a história o menciona como uma pessoa fasiq. O Dr. Ahmad Sharbaqi, professor de Jamia al-Azhar, escreveu que os governantes fatímidas o introduziram no Egito no quarto século da Hégira. Também se diz que um homem chamado Shaykh Umar ibn Muhammad o introduziu na cidade de Mossul, no Iraque. Mais tarde, o rei al-Muzaffar Abu Sa‘id instituiu o milad na cidade de Irbil, no Iraque. Ibn Dahiya escreveu um livro sobre esse tema e ofereceu-o a ele. O rei lhe deu uma recompensa de mil dinares.

Diante disso, fica claro que, atualmente, o Mawlid não é uma prática da Sunna, nem é realizado de acordo com a Sunna. Pelo contrário, é manifestamente uma bidʿah.

A prova mais clara e incontestável de que isso é uma bidʿah é que essa prática não existia na época do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), nem, depois dele, foi instituída como uma obra meritória na época dos califas bem guiados, isto é, na época dos Companheiros. Ela tampouco era praticada na época seguinte, a dos sucessores e dos mujtahids. E qualquer prática que não tenha sido instituída como adoração ou obra meritória durante essas épocas islâmicas não pode ser instituída como obra meritória por ninguém de épocas posteriores; a ninguém foi concedido esse direito.

Em primeiro lugar, no Islã, as normas sobre o que é permitido e proibido, recompensa e pecado, e sobre aquilo que agrada ou desagrada a Allah e ao Mensageiro, só podem ser estabelecidas com base no Alcorão e na Sunna. Não há no Islã espaço algum para considerar uma prática uma grande obra meritória quando ela não está comprovada com base no Alcorão e na Sunna. Na realidade, uma prática desse tipo é precisamente uma bidʿah. E, quando uma prática é essencialmente uma bidʿah, esperar obter qualquer recompensa por meio dela é pura insensatez. O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) testemunhou pessoalmente a excelência de várias gerações, dizendo: árabe (******)

—A época islâmica mais virtuosa é a minha época, depois a época das pessoas que vierem depois dela e, em seguida, a época das pessoas que vierem depois dessas.

Em nenhuma dessas três gerações — isto é, na geração dos próprios Companheiros do Mensageiro e na dos sucessores — o costume de realizar essa cerimônia do Mawlid foi estabelecido na sociedade muçulmana; isso ocorreu muito tempo depois. Portanto, considerar que há algum benefício verdadeiro nessa prática é uma grande bidʿah. Em particular, por várias razões, essa cerimônia do Mawlid torna-se extremamente grave para a crença e a religião dos muçulmanos. Essas razões, resumidamente, são as seguintes:

(a)  A maneira como a narrativa do nascimento do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é discutida ou recitada nesta cerimônia, seja em pronúncia árabe, urdu ou bengali, é em si detestável. No entanto, as pessoas acreditam que justamente nesse momento o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aparece pessoalmente na reunião. Segundo a opinião de todos os especialistas, porém, esse tipo de crença é uma incredulidade manifesta. Com base na declaração explícita do Alcorão e na decisão firme da jurisprudência islâmica, está comprovado que tal crença é proibida.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu deste mundo para sempre. Acreditar que ele poderia retornar ao mundo é shirk. Isso só é possível para Allah. Atribuir a qualquer servo uma ação que pertence ao poder de Allah é shirk manifesto. Neste ponto, pode-se mencionar novamente o Fatāwā al-Bazzāziyya.

Nele está escrito: árabe (******)

—Está claramente mencionado no madhhab hanafita que aquele que mantiver a crença de que o nobre Profeta (s) conhece o conhecimento do oculto tornar-se-á um kafir. Isso porque tal crença é completamente contrária à declaração de Allah. Allah disse:

قُل لَّا يَعْلَمُ مَن فِي السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ الْغَيْبَ إِلَّا اللَّهُ ۚ

—Dize: ninguém, dentre os que estão nos céus e na terra, conhece o oculto além de Allah.

Está mencionado nos livros de fiqh que, se alguém disser numa cerimônia de casamento: “As testemunhas deste meu casamento são o próprio Allah e o Mensageiro”, tornar-se-á um kafir. Isso porque ele acreditou que o Mensageiro (s) é o ʿĀlim al-Ghayb.

(b) Considera-se absolutamente necessário distribuir doces e guloseimas na reunião de Milad. E o evento da reunião de Milad é considerado no nível de wajib. Quando algo não permitido é considerado wajib ou necessário dessa maneira, torna-se makruh. Foi dito nos livros de fiqh: qualquer ato mubah que seja considerado wajib será makruh (e makruh significa makruh tahrimi).

(c) Considera-se necessário realizar o Milad em um dia e data específicos. Contudo, quando a sharia não especificou nenhuma data para esse ato, fazê-lo dessa maneira equivale a acrescentar, por iniciativa própria, algo às normas da sharia.

O hadith diz claramente: Árabe(******)

—Não reserveis especialmente apenas a noite de sexta-feira, entre todas as noites, para a oração do tahajjud, nem apenas a sexta-feira, entre todos os dias, para o jejum voluntário.

Portanto, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu claramente, em termos explícitos, que se determinasse por conta própria alguma noite ou dia para o jejum voluntário, como poderia ser permitido determinar por conta própria uma ocasião especificamente para o Milad?

(d) Para a decoração da reunião do Milad, providenciam-se muitas luzes e lâmpadas, e há um grande consumo de velas e incenso. Tudo isso é um trabalho completamente inútil. E o dinheiro gasto nisso também é um desperdício inútil. Esse ato é proibido, e a declaração de Allah aplica-se a ele:

Não desperdicem dinheiro. Na verdade, os desperdiçadores são irmãos de Satanás.

Não é uma extrema tolice pensar que se pode obter recompensa realizando essas coisas numa cerimônia em que se contradiz claramente a palavra de Allah?

Maulana Rashid Ahmad Gangohi escreveu, em resposta a uma pergunta sobre o Milad: “A realização do tipo convencional de cerimônia do Milad é uma bid‘ah e makruh.”

Muitos eruditos eminentes da época apoiaram esta resposta, declarando-a “sahih”, e também assinaram a fatwa. Maulana Gangohi escreveu em outra ocasião: “Fazer condicional aquilo que na Shariah é incondicional, e tornar incondicional aquilo que é condicional, é bid‘ah. Um exemplo disso é a realização de uma reunião do Milad. Na realidade, recordar Allah ou narrar e discutir a biografia do Mensageiro é mustahabb e permitido segundo a Shariah. Contudo, realizar uma reunião especificamente com esse propósito é bid‘ah e haram. Falar sobre Allah e o Mensageiro é, de fato, mustahabb; mas estabelecer como condição uma discussão específica sobre o Milad é bid‘ah.”

O Imam, o erudito Ibn al-Hajj, escreveu:

Entre as bid‘ahs que eles inventaram está a sua crença de que tudo o que fazem nesse contexto é a maior forma de adoração e uma manifestação das ordens de Allah. Isso consiste em realizarem cerimônias do Milad no mês de Rabi‘ al-Awwal, nas quais praticam vários tipos de bid‘ah e cometem atos haram. Chegaram até a dizer que as calamidades surgidas são causadas por esses próprios Milads. Quer sejam entoadas canções de algum tipo, quer se formule a intenção do Milad e se convidem pessoas para isso, mesmo que nenhuma das práticas censuráveis mencionadas acima esteja presente, somente o fato de formular a intenção desse ato já o torna uma bid‘ah. Isso ocorre porque, em sua essência, essa prática é um acréscimo à religião do Islam. A prática dos piedosos e religiosos das gerações passadas não era assim, embora segui-los seja o melhor. Não há qualquer menção de que algum deles tenha formulado a intenção do Milad. Nós seguimos justamente a eles. Portanto, a amplitude das oportunidades e dos campos de ação que existia para eles deve ser exatamente a mesma que existe para nós.

Mawlana Abdur Rahman al-Maghribi al-Hanafi (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu em sua fatwa: realizar a celebração do Mawlid é uma inovação religiosa. O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os califas bem guiados e os imames não a realizaram nem ordenaram que fosse realizada. Isso também está escrito na obra ‘Shari‘at al-Ilahiya’.

Mawlana Nasiruddin al-Awdi al-Shafi‘i escreveu o seguinte em resposta a uma pergunta sobre esse assunto:

Não se deve realizar uma cerimônia de recitação do Mawlid. Pois não foi relatado que qualquer um dos salaf صالحos tenha feito isso. Pelo contrário, pessoas de uma época ruim inventaram essa prática depois de três gerações (na era posterior aos tabi‘in). Não podemos seguir as pessoas posteriores naquilo que os salaf صالحos não fizeram. Isso porque seguir os salaf صالحos é suficiente para nós. Qual é a necessidade de realizar esse ato inovador?

O xeique Sharafuddin (que Allah tenha misericórdia dele), da escola hanbalita, disse: a celebração do Mawlid do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), realizada todos os anos pelos governantes deste país, além de ser uma forma extremamente grave de exagero, é fundamentalmente uma prática inovadora. Eles mesmos inventaram essa prática, seguindo os desejos do ego. Não sabem o que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou fazer e o que proibiu fazer. No entanto, ele é o portador e instituidor da sharia.

O cádi Shihabuddin (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu em resposta a uma pergunta:

Não, isso não pode ser feito, pois é uma inovação religiosa. E toda inovação é um desvio evidente. O destino de todo desvio é o Inferno. Tudo o que os ignorantes fazem no início de cada ano, no mês de Rabi al-Awwal, não faz parte de nada da sharia. E quando mencionam o nascimento do Profeta Muhammad, eles se levantam, imaginando que o espírito do Profeta Muhammad veio e está presente; isso é apenas uma crença falsa. Essa crença é um shirk evidente. Os imames proíbem a realização de atos desse tipo.

O autor da obra biográfica de Shami escreveu: tornou-se hábito dos amantes do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que, quando ouvem o relato do nascimento do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), levantam-se para venerá-lo. Contudo, esse ato de se levantar é uma inovação e não tem fundamento.

Mawlana Fazlullah Jaunpuri disse: não há nenhuma prova para o qiyam que as pessoas comuns fazem ao ouvir o relato do nascimento do Profeta Muhammad; pelo contrário, isso é makruh.

Qadi Nasiruddin Gujarati escreveu: alguns pirs ignorantes introduziram muitas inovações religiosas, em apoio às quais não se encontra nenhum hadith nem qualquer princípio no Alcorão e na Sunnah. Uma delas é ficar de pé enquanto se narra o nascimento do Nobre Mensageiro.

O Mujaddid Alfesani, Shaykh Ahmad Sirhindi, escreveu: julguem e considerem com imparcialidade. Suponham que o Nobre Profeta estivesse presente nesta época, vivo neste mundo, e visse a realização de uma assembleia desse tipo; será que ele a aprovaria e apreciaria? É certo que ele de modo algum apreciaria tal prática. Pelo contrário, ele a repudiaria.

Sobre essas assembleias, este versículo do Nobre Alcorão é especialmente

وَقَدْ نَزَّلَ عَلَيْكُمْ فِي الْكِتَابِ أَنْ إِذَا سَمِعْتُمْ آيَاتِ اللَّهِ يُكْفَرُ بِهَا وَيُسْتَهْزَأُ بِهَا فَلَا تَقْعُدُوا مَعَهُمْ حَتَّىٰ يَخُوضُوا فِي حَدِيثٍ غَيْرِهِ ۚ إِنَّكُمْ إِذًا مِّثْلُهُمْ ۗ

aplicável: — Allah vos ordenou isto: quando ouvirdes que os versículos de Allah estão sendo negados e virdes que deles se zomba, não vos senteis com eles até que se ocupem de outro assunto. Caso contrário, nesse momento também sereis pecadores como eles. (An-Nisā’: 140)

Ao explicar este versículo, o Imam Qurtubi e o Imam Baghawi, o defensor da Sunnah, escreveram: Dahhak transmitiu, sob autoridade de Ibn Abbas, que estão abrangidas por este versículo todas as práticas recém-inventadas na religião do Islã, bem como todas as inovações que forem elaboradas até o Dia da Ressurreição.

A parte final do versículo:

إِنَّ اللَّهَ جَامِعُ الْمُنَافِقِينَ وَالْكَافِرِينَ فِي جَهَنَّمَ جَمِيعًا [٤:١٤٠]

–Certamente, Allah Todo-Poderoso reunirá todos os hipócritas e incrédulos no Inferno: um severo alerta tanto para os inovadores quanto para os incrédulos.

Neste ponto, minha última palavra é que o nobre Profeta (s) é o modelo dos muçulmanos do mundo, o mais amado e o único meio de obter a orientação e a misericórdia de Allah. Por isso, a biografia do nobre Mensageiro, seu caráter e seu exemplo de conduta são, neste mundo de trevas, o único farol de salvação. Portanto, é necessário discutir isso repetidamente para todas as pessoas, ler, conhecer e apresentar tudo detalhadamente aos outros; é necessário segui-lo passo a passo na vida prática, obedecê-lo, amá-lo e buscar junto dele o caminho e a orientação para prosseguir. Fora disso, o muçulmano não tem alternativa, nem pode tê-la. O resumo das orientações fundamentais dadas pelo Alcorão e pelos hadiths a respeito do Mensageiro (s) é justamente este. Contudo, não se pode adorar o nobre Mensageiro (s). Não se pode manter a respeito dele uma concepção que, segundo a Sharia, só pode ser mantida a respeito de Allah.

Amar o nobre Mensageiro é o maior sustento de uma pessoa crente em seu caminho pelo Islã. Esse amor certamente não deve ser excessivo a ponto de alcançar aquilo que deve ser reservado somente a Allah. Deve-se conceder ao Mensageiro (s) o grau de honra, a importância e o amor que Allah ordenou conceder e que o Mensageiro (s) aconselhou demonstrar.

Neste ponto, a maior orientação de Allah é seguir o nobre Mensageiro (s).

O versículo diz:

قُلْ إِن كُنتُمْ تُحِبُّونَ اللَّهَ فَاتَّبِعُونِي يُحْبِبْكُمُ اللَّهُ وَيَغْفِرْ لَكُمْ ذُنُوبَكُمْ ۗ وَاللَّهُ غَفُورٌ رَّحِيمٌ [٣:٣١]

–Dize: “Ó Profeta! Se amais Allah, então, ó muçulmanos, segui-me. Assim, Allah vos amará e perdoará os vossos pecados. E Allah é grandemente Perdoador e Misericordioso.” (Al Imran: 31)

A ideia central deste versículo é que, se alguém ama Allah, deve seguir o Profeta. Ao seguir o Profeta, obter o amor e o perdão de Allah é o maior e mais elevado objetivo do servo. E o único meio de alcançá-lo é seguir integralmente o nobre Mensageiro (s).

A segunda obrigação da ummah para com o Mensageiro (s) é recitar salawat. Foi dito no versículo do Alcorão Majid: Árabe(*******)

—Certamente, Allah e Seus anjos enviam bênçãos ao Profeta. Ó crentes! Enviai também bênçãos e saudações ao Profeta.

Enviar bênçãos ao Profeta é uma obra nobre, uma obra de imensa recompensa. Allah mesmo envia bênçãos ao Profeta, e os anjos também as enviam; quão abençoada é, portanto, a obra de enviar bênçãos a esse Profeta e quão grande recompensa se obterá por meio dela — não é possível terminar de explicar isso.

Além disso, que outra obrigação a ummah poderia ter para com o Profeta? Quem disse que haveria recompensa em discutir o relato do nascimento do Profeta e mencionar os acontecimentos ocorridos durante as dores do parto de sua mãe? Como se soube disso? E essa prática de permanecerem de pé, em grupo, dizendo: ‘Ó Profeta, a paz esteja contigo’, ‘Ó Amado, a paz esteja contigo’, considerando que isso proporciona grande recompensa, não é comprovada pelo Alcorão e pelo hadith. Segundo muitos, essas práticas são semelhantes a uma espécie de cerimônia de culto dos hindus. E, em qualquer ato do nível da adoração, assemelhar-se aos seguidores de outras religiões é algo que os muçulmanos devem evitar acima de tudo. Pois o Profeta (s) disse: Árabe(******)

—Aquele que se assemelha a outro povo será considerado parte dele no Dia da Ressurreição.

Mesmo que, para fins de argumentação, se aceite que o ‘espírito’ do Profeta esteja presente numa reunião de Milad, ainda assim surge a pergunta: por que todos devem se levantar na reunião ao se lembrarem disso? Durante a vida do Mensageiro, os Companheiros acaso se levantavam para honrá-lo quando ele chegava? O Mensageiro (s) ficava satisfeito com esse ato de se levantar? Ou alguma vez ordenou que se levantassem para honrá-lo? Nesse ponto, vemos algo completamente oposto aos hadiths autênticos. Foi narrado no Musnad de Ahmad que Anas (ra), referindo-se aos Companheiros, disse: Árabe(********)

—O Mensageiro (s) era a pessoa mais querida pelos Companheiros. Apesar disso, quando o viam presente, não se levantavam para ele, pois sabiam que ele não gostava que se levantassem com o propósito de honrá-lo.

Abu Majlaz disse: o honorável Muawiya (ra) entrou numa sala onde estavam presentes o honorável Ibn Amir e Ibn Zubair. Quando Muawiya chegou, Ibn Amir se levantou, mas Ibn Zubair permaneceu sentado. Então Muawiya (ra) disse-lhe: Árabe(******)

—Sente-se. Pois ouvi o Nobre Mensageiro de Allah (S) dizer: “Quem deseja e se alegra que as pessoas se levantem em sua honra, que construa para si uma morada no Inferno.”

O próprio Nobre Profeta (S) de modo algum apreciava ou desejava que as pessoas se levantassem em reverência a ele. A prova disso é o relato de Hazrat Abu Imamah. Ele disse: Árabe(******)

—O Nobre Profeta (S) veio até nós apoiado em um bastão. Então nos levantamos em sua reverência. O Nobre Profeta (S) disse: “Não vos levanteis como os não muçulmanos se levantam uns diante dos outros em reverência.”

Alguns podem chamar essas palavras do Nobre Mensageiro de Allah (S) de humildade natural de sua parte. Podem dizer que, por humildade, o Nobre Mensageiro de Allah (S) não permitia que alguém se levantasse em sua reverência ou, mesmo quando se levantavam, os proibia. Mas será que, por isso, não devemos nos levantar para demonstrar respeito por ele?

Essas pessoas não compreendem quão terrível é o verdadeiro significado de tal afirmação. Seu sentido seria que ele proibiu isso apenas por aparência; na realidade, apreciava que se levantassem, ficava contente quando se levantavam e isso também trazia recompensa. Entretanto, a questão é a seguinte: se qualquer ato pelo qual os muçulmanos pudessem obter recompensa — ou se levantar-se em reverência a eles realmente trouxesse recompensa, ou se isso fosse um dever dos muçulmanos para com o Profeta —, não haveria razão para ele proibir isso dessa maneira. Ele poderia tê-lo declarado abertamente, assim como declarou que se recitassem durud por ele e o seguissem; não havia absolutamente necessidade de fingimento nesse assunto. Além disso, considerar possível que o Profeta fingisse, ou pensar que ele tenha fingido, é desferir um golpe contra os próprios fundamentos da religião. Nenhum crente poderia sustentar tal ideia.

É necessário lembrar que o tema em discussão aqui é levantar-se em reverência ao Nobre Mensageiro de Allah, acreditando que seu espírito esteja presente no milad. De outro modo, levantar-se temporariamente para receber cordialmente e acolher sinceramente as pessoas honradas da sociedade por ocasião de sua chegada é uma questão diferente. Foi narrado em um hadith sahih que, quando Hazrat Sa’d ibn Mu’adh (R.A.) vinha montado em sua montaria, o próprio Nobre Profeta (S) ordenou aos ansar: “Levantai-vos para honrar o vosso líder.” Isso prova que não é proibido levantar-se para demonstrar respeito a uma pessoa de elevada posição. Pelo contrário, a maioria dos ulama considerou isso mustahabb. Não há nenhuma proibição a esse respeito.

O próprio Nobre Profeta (S), por excesso de carinho, também se levantou para sua filha, Hazrat Fatimah (R.A.). Esse ato de levantar-se não é proibido. Proibido, porém, é o levantar-se a respeito do qual o Nobre Mensageiro de Allah (S) disse: Árabe(********)

—Quem gostar que as pessoas se levantem para honrá-lo, que faça do Inferno o seu assento.

Nenhum verdadeiro crente pode gostar disso nem certamente alegrar-se quando as pessoas se levantam para honrá-lo. Portanto, levantar-se para agradar a algum líder ou indivíduo é completamente haram.

À luz desta discussão detalhada, não pode haver dúvida de que os atuais encontros formais de Milad Mahfil e a celebração anual, com grande pompa, no dia 12 de Rabi al-Awwal, do evento denominado “Fatiha-i-Dwazdahum”, como uma festividade nacional, constituem uma inovação evidente. Não se pode apontar nenhum exemplo de qualquer um deles na época dos Sahaba, dos Tabi’in ou dos Tabi’ al-Tabi’in. Tampouco é possível apresentar qualquer prova em seu favor proveniente do Alcorão ou dos hadiths. Portanto, esperar obter alguma recompensa de Allah por meio dessas celebrações é completamente infundado. Adotá-las como eventos nacionais e celebrá-las em âmbito nacional e estatal, depois vangloriar-se de ter cumprido um grande dever para com o Mensageiro, ou enganar o povo apresentando-se, por meio delas, como um grande seguidor do Mensageiro, não é apenas uma inovação: sem dúvida, é uma audácia ainda maior que a própria inovação.

A inovação da qadambusi

Hoje em dia, vê-se uma grande disseminação da qadambusi nas cortes dos pirs e dos sábios religiosos. Assim que alguém se torna murid, é obrigado a praticar a qadambusi diante do pir; assim que se torna aluno de uma madrasa, é obrigado a praticá-la diante do ustad huzur. Se não o fizer, nem o murid poderá receber benefício espiritual do pir, nem o aluno poderá adquirir conhecimento do ustad. Pelo contrário, em ambas as cortes ele é considerado culpado de desrespeito e, imediatamente, apresenta-se como prova uma passagem do “Grande Alcorão (?)”, dizendo:

—A pessoa desrespeitosa é privada da graça de Allah.

Se quem pratica a qadambusi é privado da graça de Allah, isso somente Allah sabe. Mas é uma realidade que esse tipo de murid ou aluno fica privado do olhar afetuoso do pir ou do ustad. A questão, porém, é: praticar a qadambusi é realmente um ato conforme à Sharia? De onde essa prática entrou na sociedade muçulmana? E qual é o seu resultado?

A honra e a dignidade que o Profeta nobre (que a paz esteja com ele) possuía diante dos nobres Sahaba, e a devoção e reverência que eles lhe dedicavam, não têm comparação em nenhum outro lugar, e ninguém pode demonstrar a qualquer outra pessoa uma honra e reverência semelhantes. Mas como esses Sahaba demonstravam exteriormente respeito pelo Profeta nobre? Sobre isso, os hadiths mencionam apenas que alguns Sahaba beijaram levemente as mãos e a testa do Profeta nobre. Nesses beijos, expressava-se muito mais amor do que devoção. Não se encontra, nos livros de hadith ou de biografia, nenhuma prova digna de nota de que algum deles tenha tocado os pés do Mensageiro nobre com as mãos e depois limpado o rosto com essas mãos, isto é, praticado a qadambusi.

Sobre isso, os hadiths mencionam apenas que alguns Sahaba, levados pelo excesso de amor, beijaram ocasionalmente as mãos e os pés do Profeta nobre (que a paz esteja com ele). Mas essa prática não era comum entre todos os Sahaba indistintamente. Tampouco se observava tal costume na sociedade muçulmana durante a época dos Tabi’in e dos Tabi’ al-Tabi’in. Nenhum vestígio dessa qadambusi é encontrado na história dessa era dourada do Islã. Portanto, é inegável que esse ato é totalmente contrário à tradição do ijma e do mutawatir.

Além disso, um dos princípios fundamentais da sharia islâmica é que, se até mesmo uma ação mubah ou conforme à sunnah se tornar causa de corrupção na crença ou na prática, então, em vez de realizá-la, torna-se obrigatório deixá-la. Foi por isso que Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) cortou a árvore sob a qual o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia celebrado a histórica Bay’at al-Ridwan. Pois, em sua época, as pessoas começaram a considerar a reunião junto daquela árvore uma prática da sunnah e a presença regular diante dela uma necessidade absoluta e uma ação meritória. No entanto, aquela era a época mais brilhante do Islã. Por isso, estabeleceu-se como princípio fundamental da ciência do fiqh: realizar uma ação mubah que chega ao nível de wajib é makruh.

Além disso, ao praticar o qadam-bosi, a pessoa chega exatamente à posição em que fica durante o ruku e a prostração da oração; e fazê-lo deliberadamente diante de alguém é absolutamente ilícito.

Qadi Iyad escreveu: assim como é proibido prostrar-se diante de alguém além de Allah, também é proibido inclinar a cabeça diante de alguém à maneira do ruku.

Al-Mujaddid al-Fasani (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu: inclinar a cabeça diante de alguém está próximo da kufr.

A opinião dos juristas é: inclinar a cabeça diante de um rei, governante ou qualquer outra pessoa é makruh. E makruh significa makruh tahrimi.

De tudo isso ficou inequivocamente provado que, na sharia islâmica, não existe nenhuma regra que exija o qadam-bosi de um pir, mestre ou qualquer outro ancião, seja ele quem for. E essa prática é completamente contrária à sunnah do Nobre Mensageiro — uma grande inovação religiosa.

Há ainda outro ponto sobre o qadam-bosi: esse costume é visto apenas nas cortes dos sábios e pirs da Índia muçulmana. Não há sequer vestígio de seu nome nas outras sociedades muçulmanas. Por isso, pode-se facilmente pensar que essa prática do qadam-bosi veio da sociedade hindu desta região para a sociedade muçulmana e assumiu uma forma muçulmana. O qadam-bosi atualmente praticado na sociedade muçulmana era, na realidade, a “prostração aos pés do brâmane”. Ainda hoje isso pode ser visto aqui e ali. Quando o yajman chega diante do brâmane, este ergue o dedão do pé esquerdo, e o yajman coloca a testa na ponta desse dedo. Depois, quando deseja, o brâmane retira o pé. Na religião brâmane, esse costume é antigo. Pois, segundo a visão brâmane da religião, somente os brâmanes são seres humanos, enquanto os demais são escravos dos escravos dos brâmanes. Portanto, é dever deles prostrar-se aos pés do brâmane.

Mais tarde, quando os hindus desta região se tornaram muçulmanos, transformaram esse costume brâmane hindu — essa “prostração aos pés” — em algo “muçulmano” e o converteram em qadam-bosi. Em uma palavra, todo o costume brâmane hindu foi introduzido na sociedade muçulmana — especialmente nas cortes dos estimados pirs, sábios e mestres — como uma ação de grande mérito.

Mas suas consequências nefastas, que se refletiram na sociedade muçulmana, são extremamente assustadoras do ponto de vista do tawhid. No ambiente do pir-muridi e do ustad-shagirdi, essa prática de beijar os pés difundiu amplamente uma mentalidade de shirk. O murid e o aluno consideram esse ato indispensável. Caso contrário, não obterão o olhar benevolente do huzur, nem o deixarão satisfeito. Em segundo lugar, o huzur possui uma posição tão elevada que tudo o que disser, ou aquilo que agradar ao seu coração, deve ser feito por obrigação. Até mesmo emitir um simples murmúrio diante dele seria extrema falta de respeito. E, com isso, Allah ficaria descontente. Contudo, segundo a crença tawhídica do Islã, no âmbito da fé essa posição só pode pertencer a Allah, e no âmbito das ações práticas, somente ao Mensageiro (s).

Por outro lado, o “Hazrat Pir Qibla” e o ustad huzur mantêm claramente em seu íntimo o desejo de que — eles não são anjos, mas seres humanos — o murid ou aluno certamente beije seus pés. Muitos huzurs são vistos tomando assento já preparados de tal modo que não haja qualquer dificuldade para o murid ou aluno tocar seus pés. Pelo contrário, para que esse ato possa ser realizado com toda facilidade. Isso não significa que eles digam verbalmente a alguém que beije seus pés; ao contrário, eles chegam a proibi-lo. Porém, essa proibição é pronunciada depois que o ato de beijar os pés já foi devidamente concluído, e não antes. E essa proibição é exatamente semelhante a uma ordem.

O mais importante é que a forma de beijar os pés é exatamente semelhante à prostração. Allama Shami, considerando a situação de sua época, chamou esse tipo de ato precisamente de “sajdah”.

Ele escreveu: “Do mesmo modo, o ato de as pessoas beijarem o chão diante de eruditos e pessoas de alta posição é totalmente haram. Tanto aquele que pratica esse ato quanto aquele que o aprova e se alegra com ele são pecadores. Isso porque esse ato é exatamente semelhante à adoração de ídolos.”

O mufti Maulana Rashid Ahmad Ludhianvi, de Deoband, também emitiu uma fatwa semelhante. (Consultar Ahsanul Fatawa.)

Na realidade, não há qualquer menção ao ato de beijar os pés no Alcorão e nos hadiths, e ele não possui lugar na civilização e na cultura islâmicas. Em seu lugar, no Alcorão e nos hadiths encontram-se menções e instruções claras sobre oferecer o salam e apertar as mãos.

No Alcorão Majid, foi dito sobre o salam:

وَإِذَا حُيِّيتُم بِتَحِيَّةٍ فَحَيُّوا بِأَحْسَنَ مِنْهَا أَوْ رُدُّوهَا ۗ إِنَّ اللَّهَ كَانَ عَلَىٰ كُلِّ شَيْءٍ حَسِيبًا [٤:٨٦]

—Quando receberdes qualquer saudação, saudai com uma saudação melhor ou retribuí-a de igual modo. Lembrai-vos de que Allah é Quem faz uma rigorosa prestação de contas de todas as coisas. (An-Nisā’: 46)

Disso se compreende claramente que, quando os muçulmanos se encontrarem, devem trocar saudações entre si. Essa saudação deve ser verbal; ao oferecê-la, devem demonstrar sinceridade e devoção uns para com os outros, sem qualquer avareza. Pelo contrário, cada um deve estar disposto, sem hesitação, a oferecer ao outro uma saudação melhor. A parte final do versículo destaca a importância dessa saudação e ordena que se tenha cuidado para que ela seja devidamente retribuída.

Nos hadiths, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) insistiu repetidamente, de diversas formas, na troca mútua do salām. Abū Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Texto árabe

—Juro por Aquele em cuja mão está a minha alma: não entrareis no Paraíso enquanto não crerdes, e não crereis enquanto não vos amardes uns aos outros. Em seguida, disse: “Quereis que vos indique uma ação que, se a praticardes, fará com que vos ameis uns aos outros? É esta: difundireis entre vós a prática de oferecer o salām uns aos outros.”

Quando o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Medina após a Hégira, os muçulmanos de Medina ofereceram-lhe uma calorosa recepção. Ao descrever essa recepção, ‘Abdullah ibn Salām disse: Texto árabe

—Quando o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Medina, o povo avançou apressadamente para recebê-lo. Eu estava entre os que avançaram naquele momento. …A primeira coisa que ouvi dele naquela ocasião foi: “Troca o salām entre vós.”

O hadith fornece uma orientação correta e clara sobre qual é a saudação indicada pelo versículo do Alcorão, como deve ser feita e com que palavras. Portanto, ao encontrar-se pela primeira vez, o primeiro dever essencial de um muçulmano para com outro muçulmano é oferecer o salām, dizendo: “As-salāmu ‘alaykum”. A outra parte responderá: “Wa ‘alaykumus-salām wa rahmatullāh”. Um hadith do Sahīh al-Bukhārī relata que, logo após a criação de Ādam (que a paz esteja sobre ele), ele trocou essa saudação com os anjos por ordem de Allah.

Do hadith mencionado por último, pode-se obter uma orientação clara sobre a maneira correta de receber um ilustre hóspede recém-chegado. Nesta etapa, outro hadith nos informa que tipo de comportamento deve ser adotado ao proferir o salām e qual comportamento é inadequado.

Considerando todos os hadiths narrados nesta etapa, compreende-se claramente que o salām consiste em pronunciá-lo verbalmente, por meio de palavras. Por isso, não é necessário fazer qualquer gesto, e isso tampouco é comprovado pelos hadiths.

A segunda prática que, segundo os hadiths, está comprovada como sunnah ao ser realizada com um muçulmano recém-chegado é o musāfaha, ou aperto de mãos. Em um hadith de Bukhari, sabe-se que o honorável Kaʿb ibn Mālik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: árabe(******)

Entrei na Mesquita do Profeta. De repente, vi que o nobre Profeta estava ali. Assim que me viu, Talha ibn ʿUbaydullah levantou-se e veio rapidamente em minha direção. Apertou minha mão e cumprimentou-me calorosamente antes de partir.

Em outro hadith de Bukhari, sabe-se que o tābiʿī Qatādah perguntou ao honorável Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): árabe(********)

Era amplamente difundido entre os Companheiros do nobre Profeta o costume de apertarem as mãos uns dos outros? O honorável Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: Sim, isso era praticado.

ʿAbdullah ibn Hishām disse: Estávamos na companhia do nobre Profeta, e ele segurava a mão de ʿUmar.

Nos hadiths desta etapa, encontra-se uma menção clara ao aperto de mãos com o recém-chegado após o salām, e fica inequivocamente comprovado que essa prática era plenamente difundida na sociedade dos Companheiros do Mensageiro.

A respeito disso, um hadith narrado no Tirmidhi Sharif é extremamente claro. Hadrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que um homem perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): Árabe(*******)

—Ó Mensageiro de Allah, quando um de nós encontra seu irmão ou amigo, deve inclinar a cabeça diante dele? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: Não. Perguntou: Então deve abraçá-lo e beijar-lhe o rosto? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: Não. Perguntou: Então deve apertar sua mão, fazendo musafaha? Ele respondeu: Sim.

Sobre este hadith, o Imam Tirmidhi disse: “Musafaha” significa segurar as mãos um do outro e fazer súplicas um pelo outro, dizendo: “Que Allah perdoe a nós e a vocês”.

Sobre a virtude disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou: Árabe(********)

—Se dois muçulmanos fizerem musafaha ao se encontrarem, ambos serão perdoados antes mesmo de separarem as mãos.

A terceira prática mencionada nos hadiths é a “mu‘anaqa”, o abraço. O único hadith narrado sobre isso no Tirmidhi Sharif é o seguinte; Hadrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

Árabe(********)

—Zayd ibn Harithah [filho adotivo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)] chegou a Medina. Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) veio à minha casa. Zayd veio encontrá-lo e bateu à porta. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou-se para recebê-lo, abraçou-o, envolvendo o pescoço um do outro, e beijou-o carinhosamente.

Nesta etapa, citando mais alguns hadiths, Allama Ahmadul Banna escreveu: Estes hadiths provam que a mu‘ānaqa (abraçar-se ou apertar-se num abraço) é permitida pela Shariah, especialmente no caso de alguém que chega.

A prática dos companheiros do nobre Profeta (s) era que, quando se encontravam uns com os outros, faziam musāfaha. E, quando retornavam de uma viagem ao estrangeiro, abraçavam-se.

Desta discussão, soube-se que a sunnah do Islã é que, quando dois muçulmanos se encontram, devem trocar o salām, fazer musāfaha e também abraçar-se — especialmente com quem chega de uma viagem ao estrangeiro. Todas essas práticas estão comprovadas por hadiths claros. O nobre Mensageiro (s) assim procedeu; na sociedade dos companheiros, essa era uma prática permanente; na realidade, isso é a sunnah. Mas de onde veio o beijar os pés? Quem ordenou que se beijassem os pés? Quem introduziu isso como costume na sociedade islâmica? Não foi o Alcorão, nem o hadith, nem o Mensageiro, nem a sociedade formada pelo Mensageiro. Portanto, não há dúvida de que isso é uma bid‘ah e um costume dos idólatras. Contudo, na sociedade dos chamados ahl al-sunnah (?) seguidores dos pīrs de nossa sociedade, o beijar os pés é uma prática indispensável. E por que não seria? Aqui, o Islã e a sunnah não são tomados do Alcorão, dos hadiths, do Mensageiro e das práticas dos companheiros; são tomados dos pīrs falecidos ou atuais. E, como esse sistema de pīr-murīd foi tomado do vedantismo e do bramanismo, o costume bramânico de beijar os pés também teve necessariamente de ser estabelecido aqui. Se alguém disser que essa prática foi instituída para venerar mestres, pīrs e anciãos, responderemos: a veneração de mestres, pīrs e anciãos deve ser feita por aquilo que está comprovado na sunnah como sua forma. Ninguém tem o direito de introduzir uma prática inventada por si mesmo, especialmente quando ela contém uma grave corrupção do ponto de vista da Shariah. Fazê-lo é justamente uma bid‘ah. Aqueles que, sob o pretexto do costume vigente, querem estabelecer como conforme à Shariah algo que está fora dela são os inovadores. Que Allah proteja a sociedade muçulmana de crentes e monoteístas da influência desses inovadores.

Se, na parte final da discussão sobre o beijar os pés, não mencionarmos uma questão e não respondermos a ela, esta longa discussão permanecerá incompleta. Com a aprovação de alguns pīrs, foram emitidas fatwas declarando permitido o beijar os pés relacionado ao tasawwuf — especialmente beijar os pés do pīr ou mestre. Como prova dessa fatwa, foram citados dois hadiths: um de Tirmidhi e outro de Abu Dawud. O primeiro hadith fala de dois judeus: eles ouviram do nobre Mensageiro a explicação da religião do Islã. Depois, beijaram ambas as mãos e ambos os pés do nobre Mensageiro e disseram: Damos testemunho de que você é um profeta.

Nossa primeira observação a esse respeito é que o Imam Tirmidhi de fato classificou o hadith como excelente e autêntico, mas o Imam Nasa’i disse sobre ele: hadith rejeitável. E al-Mundhiri disse que o hadith é fraco por causa de Abdullah ibn Salama, pois foram apontadas falhas nele como narrador de hadith. Além disso, o sentido claro do hadith é que foram dois judeus que beijaram as mãos e os pés. As ações dos judeus não podem servir de exemplo para os muçulmanos. No outro hadith narrado por Abu Dawud, é citada a fala de Umamat ibn Sharik (r): Árabe(******)

— no hadith citado por Abu Dawud, não se fala em beijar a mão ou o pé do nobre Mensageiro (s), mas em beijar a região lombar. (O hadith foi narrado por Usayd ibn Hudayr (r). A pedido de um ansari, o nobre Mensageiro (s) levantou, pela parte de trás, a camisa que vestia; então ele o abraçou e começou a beijar sua região lombar.)

Em segundo lugar, ao reunir e analisar todos os hadiths desta seção, compreende-se claramente que o tema central de todos eles não é exatamente o mesmo. Em alguns, fala-se apenas em beijar ambas as mãos; em outros, em beijar uma mão e um pé. Além disso, no hadith narrado por Ibn Umar (r), menciona-se apenas o beijo da mão. Foi dito: Árabe(*******)

— depois, beijamos sua mão. Ele disse: E Abu Lubaba, Ka‘b ibn Malik e os dois companheiros dele também beijaram a mão do nobre Profeta (s), quando Allah aceitou o arrependimento deles. Ibrahimi também mencionou isso.

Este hadith narrado por Ibn Umar foi mencionado pelo Imam Bukhari no livro intitulado ‘Adab al-Mufrad’. Em um hadith narrado por Hazrat Buraida ibn, é citado que, quando um homem tolo pediu ao Rasul permissão para beijar-lhe a cabeça e os dois pés, o Rasul concedeu-lhe permissão. Abdur Rahman ibn Ruzain disse: Salama ibn al-Akwa estendeu uma mão semelhante à pata de seu camelo, e nós a beijamos. Foi narrado por Thabit que ele beijou a mão de Hazrat Anas. E, ao que parece, Hazrat ‘Ali beijou as mãos e os pés de Hazrat Abbas.

Não se obtém uma compreensão clara dos hadiths narrados dessa forma. Na realidade, não fica definido se é correto beijar tanto as mãos quanto os pés, ou apenas as mãos. Portanto, de modo algum se pode dizer que, com base nesses hadiths, seja permitido praticar o qadambusi. Abu Malik al-Ashja‘i disse: Eu falei a Abu Awf (que Allah esteja satisfeito com ele): Mostre a mão com a qual você prestou bay‘ah ao Rasul. Ele mostrou essa mão. Então nós a beijamos.

É verdade que esses hadiths comprovam ser permitido beijar reverentemente a mão de uma pessoa devota e ascética; mas não comprovam o qadambusi. O Imam Nawawi também expressou esta opinião.

Além disso, mesmo que algum novo muçulmano, tomado de devoção e reverência, tenha beijado tanto as mãos quanto os pés do Rasul, os pirs e mestres de hoje não podem, com base nisso, fazer com que seus devotos murids e alunos beijem suas próprias mãos e pés. Será que eles se consideram investidos da posição do Rasul?

Na realidade, o costume atual do qadambusi é contrário à Sunnah do Rasul e extremamente humilhante para a humanidade. É necessário que essa prática seja interrompida sem demora.

Na sociedade das mulheres a predominância também é uma bid‘ah

Na sociedade islâmica, a dignidade da mulher está firmemente estabelecida, foi declarada pelo Alcorão e implementada pelo Rasul. Nela, a dignidade e os direitos das mulheres enquanto mulheres são plenamente reconhecidos. Contudo, a dignidade das mulheres não está acima da dos homens, mas abaixo; não é primeira, mas segunda; não é absoluta, mas condicionada.

Neste ponto, a declaração do Alcorão:

الرِّجَالُ قَوَّامُونَ عَلَى النِّسَاءِ بِمَا فَضَّلَ اللَّهُ بَعْضَهُمْ عَلَىٰ بَعْضٍ وَبِمَا أَنفَقُوا مِنْ أَمْوَالِهِمْ ۚ

– Os homens têm autoridade sobre as mulheres, com base na regra de que Allah concedeu a alguns seres humanos mais excelência do que a outros, e também porque são os homens que gastam seus bens com as mulheres. (An-Nissá: 34).

Uma das razões pelas quais os homens têm mais mérito que as mulheres são suas qualidades, características e aptidões naturais. Em segundo lugar, são os homens, e não as mulheres, os responsáveis pela administração da família e pelo atendimento de suas necessidades financeiras — são eles que assumem essa responsabilidade. Esta é a regra eficaz para estabelecer ordem e disciplina tanto no pequeno e estreito âmbito da vida familiar quanto nos campos social, político, econômico e cultural mais amplos. Se houver uma exceção a isso, a ordem social inevitavelmente será despedaçada. Por isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: árabe(********)

– Depois de mim, a maior provação prejudicial para a minha ummah poderá atingir os homens por causa do predomínio das mulheres.

Foi precisamente por causa do predomínio das mulheres que muitas sociedades e Estados foram arruinados; a história é uma prova irrefutável disso.

Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou estas palavras do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): O povo que confiar a uma mulher seus assuntos coletivos importantes e sua autoridade jamais alcançará qualquer bem.

Também foi narrado: árabe(***********)

– Quando os homens passam a obedecer às mulheres, considera que, nesse momento, os homens já caíram na destruição.

Assim como a situação da sociedade ocidental contemporânea comprova a veracidade disso, a situação de nossa sociedade e de nossas famílias neste país também comprova essa veracidade. Se for permitido a uma mulher assumir o leme de um barco, ou se, deixando o motorista sentado, for permitido dirigir o carro a alguém que não sabe dirigir ou não tem competência para isso, o resultado será exatamente o mesmo da predominância natural das mulheres. Isso é contrário à Sunnat do Mensageiro. (Esta é a verdade geral; não é impossível haver exceções.)

 

Vestuário indumentária do bid‘ah

Em nosso país, atualmente, usa-se, sob o nome de “vestimenta sunnita”, um tipo de kurta com corte específico e comprimento especialmente longo. Propaga-se que esta é a vestimenta sunnita. E quem não usar essa vestimenta sunnita será considerado fásico; e, se essa pessoa for um alim, não será permitido fazer a oração atrás dela. Por essa razão, um grupo específico da sociedade — os alims e os pirs — considera Sunnat usar esse tipo de kurta e também o divulga como “vestimenta sunnita”. Eles não apenas o usam, mas também obrigam seus alunos e murids a vestir kurtas com corte semelhante, de comprimento longo e com gola.

Mas a questão é: o que se entende por vestimenta sunnita? Usar uma roupa com algum corte específico ou de comprimento especialmente longo é realmente Sunnat? Com base em que prova essa Sunnat foi estabelecida? No Alcorão? No Hadith? Tentaremos compreender a questão à luz do Alcorão e do Hadith.

O versículo mais importante do Alcorão Sagrado sobre como deve ser a vestimenta é este.

يَا بَنِي آدَمَ قَدْ أَنزَلْنَا عَلَيْكُمْ لِبَاسًا يُوَارِي سَوْآتِكُمْ وَرِيشًا ۖ وَلِبَاسُ التَّقْوَىٰ ذَٰلِكَ خَيْرٌ ۚ ذَٰلِكَ مِنْ آيَاتِ اللَّهِ لَعَلَّهُمْ يَذَّكَّرُونَ [٧:٢٦]

— Ó filhos de Adão! Certamente, fizemos descer para vós uma vestimenta (a determinação de usá-la) que cobrirá as vossas partes íntimas e que será um adorno. E a vestimenta da taqwa, essa é a melhor. Este é um dos versículos de Allah; e isso é dito na esperança de que eles aceitem a admoestação. (Al-A‘raf: 26)

Deste versículo podem ser aprendidos vários princípios fundamentais. O primeiro é que a vestimenta é uma dádiva especial de Allah, o Altíssimo, para os seres humanos. Portanto, é preciso ter cuidado quanto à vestimenta. Sobre como deve ser essa vestimenta, podem ser aprendidos deste versículo dois pontos.

Uma coisa é que a roupa deve necessariamente cobrir as partes íntimas da pessoa. A roupa que não cobre as partes íntimas não pode ser considerada roupa humana. E a segunda coisa é que essa roupa deve ser um “adorno” (رِيشA palavra significa brilho, fulgor e aquilo que realça a beleza. Segundo os lexicógrafos, رِيشa palavra significa originalmente a pena de uma ave, que é brilhante e embelezadora. E, como a roupa humana também se assemelha às asas e às penas das aves, por isso, para explicar como a roupa humana deve ser exteriormente, رِيشfoi utilizada a palavra. Ao vestir uma roupa, deve-se cuidar para que a pessoa tenha uma boa aparência e não fique desfigurada. Na verdade, é a roupa que realça a beleza da pessoa; por meio da roupa manifestam-se o senso de beleza, a educação, a modéstia e o bom gosto da pessoa. E, se a roupa não for assim, será um desprezo pela bela ordem criada por Allah e uma ingratidão para com Allah. (A súplica que o Mensageiro nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recomendou recitar ao vestir uma roupa nova é: “Louvado seja Allah, que me vestiu com uma roupa por meio da qual cubro minhas partes íntimas e obtenho beleza e formosura em minha vida.” Essa súplica também menciona a cobertura das partes íntimas e o objetivo de obter louvor; não há outro objetivo fundamental em vestir roupas. É como se fosse exatamente uma explicação do versículo do Alcorão.)

Além disso, deve-se lembrar que o gosto das pessoas em matéria de adorno e beleza é mutável, e que, conforme o lugar, a época e o estado mental, podem surgir muitas diferenças e mudanças no gosto. Portanto, segundo o Alcorão, o estilo e o corte das roupas são variáveis. Nenhuma roupa de corte fixo pode ser chamada de roupa islâmica.

A terceira questão deste versículo é: a vestimenta da taqwa. Há diferentes opiniões sobre o que significa a vestimenta da taqwa. Qatadah disse que, por “libās al-taqwā”, entende-se aqui a fé. Ou seja, deve-se vestir uma roupa que reúna as duas características mencionadas anteriormente, mas o assunto mais benéfico e importante é manter a fé renovada e corretamente preservada. Hasan al-Basri explicou seu significado como vergonha, pudor e modéstia. Isso porque são justamente o pudor e a modéstia que incentivam a pessoa a adotar a taqwa. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que significa boas ações. Uthman ibn Affan (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que significa pureza moral.

E o significado do versículo é: a vestimenta da taqwa é boa e benéfica quando é escolhida entre as roupas e os meios de embelezamento criados por Allah.

Em suma, a roupa deve, прежде de tudo, cobrir as partes íntimas. Por isso, necessariamente há uma diferença fundamental entre as roupas de homens e mulheres, pois há uma diferença quanto à extensão das partes íntimas do homem e das partes íntimas do corpo feminino. Em segundo lugar, ela deve necessariamente ser um adorno, realçar a beleza e expressá-la. A roupa que torna a forma e a aparência da pessoa grotescas ou horríveis e desfigura seu rosto não é uma roupa apoiada pelo Alcorão e não pode ser usada por nenhum muçulmano.

Neste ponto, o segundo versículo que pode ser citado do Alcorão Sagrado é o seguinte:

قُلْ مَنْ حَرَّمَ زِينَةَ اللَّهِ الَّتِي أَخْرَجَ لِعِبَادِهِ

— Dize, ó Profeta! Quem proibiu a beleza de Allah, que Ele produziu para Seus servos? (Al-A‘raf: 32)

“A beleza de Allah” significa os meios de beleza que Allah criou para os seres humanos; isto é, as roupas e os demais elementos de beleza, os objetos que aumentam a beleza. Em outras palavras, as roupas e os artigos que aumentam a beleza são criação de Allah, e Ele os criou para os Seus servos. Ele os fez para que fossem desfrutados e utilizados; em sua essência, são lícitos para todos. Quem poderia tornar ilícita uma coisa lícita? Somente Allah tem autoridade para declarar ilícitas as coisas criadas por Allah. E foi Ele mesmo quem as tornou lícitas — não apenas as tornou lícitas, mas também ordenou que fossem adotadas e utilizadas, dizendo:

Árabe(*******)

— Adotai os vossos adornos — as roupas — em cada oração.

Neste versículo também se fala de adotar roupas que sejam zinat, adornadas e que aumentem a beleza. Portanto, ao vestir-se, de acordo com a orientação do Alcorão, deve-se prestar atenção fundamentalmente a três coisas: primeiro, que cubram as partes íntimas; segundo, que sejam adornos e aumentem a beleza; e terceiro, que sejam decorosas, sejam símbolo do sentimento de pudor e não expressem indecência.

Esta é a orientação encontrada no Alcorão Majid a respeito das roupas. Fora isso, nada mais se sabe do Alcorão sobre o vestuário. Pelo que se sabe do Alcorão, nada é dito, contudo, sobre o corte, o tipo, o formato, o tamanho, o comprimento ou a largura das roupas.

Depois, deve-se verificar o que se sabe sobre este assunto a partir dos hadiths. Em primeiro lugar, merece atenção o hadith citado no “Kitab al-Libas” do Bukhari Sharif. O Profeta, que a paz esteja com ele, disse: Árabe(********)

— Comei, bebei, vesti-vos e dai caridade. (Mas praticai todas essas coisas sob duas condições:) não desperdiceis nem as façais por arrogância.

Esta é a orientação do Mensageiro, que a paz esteja com ele, sobre comer, beber, vestir-se e dar caridade. Essas ações são livres e permitidas, estando sujeitas apenas a duas condições. A primeira é que nenhuma delas envolva desperdício, exagero ou transgressão dos limites. A segunda é que não sejam praticadas por arrogância. Gastar em excesso numa medida que não é necessária é israf. Também são proibidas a arrogância, as roupas muito caras e as roupas que expressem ostentação e pretensão de superioridade. Quanto às roupas, a orientação para nós é a seguinte: em primeiro lugar, usar uma roupa — de qualquer tipo ou tamanho — que envolva desperdício é contrário à Sunnah. A roupa deve estar necessariamente livre disso. Em segundo lugar, não se pode usar uma roupa por orgulho e arrogância, nem uma roupa cujo tipo, formato ou tamanho manifeste orgulho, arrogância, pretensão de superioridade ou ostentação, distinguindo e destacando a pessoa das demais pessoas comuns. Usá-la seria agir de modo contrário à Sunnah. Portanto, qualquer roupa, de qualquer formato, tipo, estilo, corte ou tamanho, desde que livre de desperdício e arrogância, é uma roupa aprovada pela Sunnah. A vestimenta conforme a Sunnah é aquela que possui essas características. Hazrat Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Árabe(*****)

—Come o que quiseres e veste o que desejares, desde que te abstenhas de duas coisas: extravagância, gastos inúteis e roupas que expressem orgulho e arrogância.

Isto é, qualquer vestimenta livre desses dois vícios é, segundo o hadith, uma vestimenta permitida, e vesti-la é totalmente lícito. O hadith não estabeleceu nenhuma instrução específica nem impôs qualquer obrigação quanto ao formato, estilo, corte ou comprimento da roupa.

Em seguida, o hadith citado no Sahih al-Bukhari é o seguinte:

Árabe

—O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah não olhará com misericórdia para nenhuma pessoa que fique privada da misericórdia de Allah.”

É preciso ter em mente que este hadith não oferece nenhuma orientação quanto ao formato, ao corte ou ao comprimento das roupas. Ele trata apenas da questão interior. Diz somente como deve ou não deve ser a aparência externa da maneira de vestir. E tudo o que for feito com arrogância, seja qual for a forma pela qual ela se manifeste, será proibido.

Depois, leia todos os hadiths do Sahih al-Bukhari: em nenhum deles encontrará a instrução de adotar um corte ou uma medida específica para as roupas. Contudo, pelos hadiths sabe-se que as mangas, ou braços, da túnica do nobre Profeta eram muito estreitas. Disso se comprova a licitude de vestir aqui roupas com mangas justas. Qual era o comprimento da camisão que o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) usava? Um hadith deixa claro que ela não era muito comprida. As palavras do hadith são estas:

—A camisão do nobre Profeta geralmente era feita de tecido de algodão, tinha uma bainha muito curta e mangas justas.

Disto se soube inequivocamente que aqueles que afirmam que o Nobre Profeta (s) usava uma túnica comprida até a metade da canela disseram uma mentira inventada. A verdade é que, quando usava um lungi, ele vestia uma túnica curta.

Entre os hadith citados no Tirmidhi Sharif sobre vestimentas, este é também o primeiro:

Árabe(*******)

— O Nobre Profeta (s) disse: Para os homens da minha ummah, as roupas de seda e o ouro foram proibidos, e para as mulheres foram permitidos.

Isto é, as roupas de seda são proibidas para os homens.

Além disso, um hadith do Musnad de Ahmad fornece uma compreensão clara de quão comprida deve ser a vestimenta usada. Hazrat Abu Huraira (ra) narra: Árabe(*********)

— O izar dos crentes pode descer até o meio das duas canelas. Pode chegar, abaixo disso, até acima dos tornozelos. Se descer além disso, será uma ação que conduz ao Jahannam.

No hadith, é usada a palavra izar. Ela significa uma vestimenta usada para cobrir a parte inferior do corpo, abaixo da cintura. Pode ser um lungi, um pijama, as calças usadas atualmente ou qualquer outra coisa. O comprimento dessas peças pode ir dos joelhos até os tornozelos, chegando ao meio desse trecho, o “nisf-e-saq”. Abaixo do “nisf-e-saq”, também pode descer até os tornozelos; mas, se passar abaixo disso, não pode ser permitido.

Com base nos hadiths do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre este assunto, Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: (*******)

— O castigo que o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionou por deixar o izar abaixo dos tornozelos, ele também mencionou em relação ao kamees.

“Kamees” é uma cobertura do corpo; tudo o que se veste para cobrir a parte superior do corpo é um kamees, qualquer que seja o seu corte ou modelo. Pode ser qualquer um dos trajes atuais: panjabi, camisa, casaco ou túnica com gola. O hadith nada diz sobre qual deve ser o seu corte. Diz apenas que ele não deve ser tão comprido a ponto de cobrir também os tornozelos. Das palavras de Hazrat Ibn Umar fica claro que, seja um izar ou um kamees, tudo o que pender abaixo dos tornozelos será haram. Deve-se lembrar que, na sociedade árabe daquela época, geralmente uma única peça de tecido cobria o corpo desde a parte superior até abaixo dos joelhos. Mesmo atualmente, as roupas dos árabes são assim. Vestem uma peça curta por baixo e, por cima dela, uma túnica comprida até os tornozelos — esse é o vestuário comum dos árabes de hoje. É precisamente contra deixar qualquer uma dessas peças pender para baixo e cobrir os tornozelos que estes hadiths advertem. Na realidade, se há alguma coisa indicada pela expressão “nisf al-saq” — a metade da canela —, é isso.

Mas, apesar de vestir um lungi ou um pijama, de onde se soube que também se deve deixar pender por cima uma túnica até a metade da canela e que vestir uma túnica assim é Sunnah? Não do Alcorão, nem do hadith. E aquilo que não é comprovado pelo Alcorão e pelo hadith tampouco pode ser comprovado pelos livros de fiqh. Também não é comprovado pelo costume dos árabes atuais. Portanto, a túnica com gola, comprida até “a metade da canela”, que atualmente alguns ulemás e pirs apresentam como “vestimenta da Sunnah”, não é algo comprovado pelas evidências fundamentais da Sharia. É uma invenção completa. E apresentar como “vestimenta da Sunnah” uma roupa que não é comprovada como Sunnah pela Sharia é uma inovação extremamente grave (dizer que a túnica com gola, até nisf al-saq, que alguns ulemás e pirs deste país vestem sobre o pijama ou o lungi é uma “vestimenta da Sunnah” é uma afirmação inventada. No máximo, essa roupa poderia ser chamada de vestimenta preferida dos ulemás e pirs devotos deste país — libas al-ulama —, e nada mais). Ela também é uma inovação porque implica gastos além do necessário. E, no vestuário, a primeira condição é manter-se afastado dos gastos inúteis. Atualmente, essa inovação se difundiu entre uma parcela da população. Essas pessoas imaginam: “Estamos usando a vestimenta da Sunnah; estamos seguindo os passos do Mensageiro”, mas não percebem isso. Na realidade, isso não passa de extrema cegueira.

Nesta minha discussão fundamentada em evidências, não se propagou qualquer aversão a essa roupa, nem se proibiu usá-la. Minha afirmação limita-se ao seguinte: chamar somente esse tipo de roupa de “vestimenta da Sunnah” é que constitui uma inovação. Eu não disse que usar exclusivamente essa roupa é uma inovação — e tampouco pretendo dizê-lo.

Dos sonhos as decisões aceitar a inovação

A maior característica das assembleias dos pirs é que nelas reina continuamente o mundo dos sonhos. Entre os murids e acompanhantes, há uma intensa competição para ver quem consegue ter mais sonhos e sonhos melhores. Assim, não se pode afirmar categoricamente que alguns deles não contem também sonhos inventados. Pois aquele que tiver os sonhos mais extraordinários e conseguir provar, por meio deles, a santidade e a elevada posição de Huzur Qibla será quem receberá em maior medida as orações, a graça e as bênçãos afetuosas de Huzur. Portanto, nessa assembleia é obrigatório sonhar — haverá alguma alternativa a não sonhar? As pessoas dessa assembleia conseguem sonhar assim que fecham os olhos; é como se os sonhos ficassem ali, enlouquecidos por elas, prontos para surgir diante de seus olhos a qualquer momento. Muitas vezes elas sonham mesmo estando acordadas e, para agradar Huzur Qibla, elaboram e organizam esses sonhos cuidadosamente antes de apresentá-los na assembleia. Não apenas isso: até mesmo as decisões sobre o que é bom ou mau, permitido ou proibido segundo a Sharia são tomadas aqui com base nos sonhos. Talvez alguém diga: “Vi certo Huzur em sonho, e ele me proibiu de realizar este ato”; imediatamente, o ato é abandonado. Ou diga que ele ordenou determinado ato; então, a pessoa começa a realizá-lo imediatamente.

Alguém diz: “Vi o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em sonho, e ele me ordenou realizar este ato”, e imediatamente se começa a realizá-lo. Ou o ato é interrompido porque ele teria proibido sua realização. Nesse assunto, nem sequer se examina qual é a decisão da Sharia; não sentem necessidade alguma de perguntar o que a Sharia diz.

Assim, depender dos sonhos, deixar-se conduzir por eles e fazer ou deixar de fazer algo com base neles é a prática dos adoradores de pirs, não a de quem segue a Shariah. Pois, ainda que alguém veja um sonho verdadeiramente autêntico, o sonho de uma pessoa comum não pode constituir uma norma da Shariah. Um sonho pode ser verdadeiro. Se alguém realmente tiver um sonho, poderá receber por meio dele uma boa notícia antecipada ou uma indicação para tomar precauções em algum assunto. Por isso, deve agradecer a Allah. Contudo, por meio desse sonho não se podem provar o fard e o wajib, o halal e o haram, o جائز e o proibido, nem o que se deve ou não se deve fazer. Se alguém descobrir, por meio de um sonho, algo conforme à Shariah, isso será certamente bom; mas, se descobrir algo contrário à Shariah, não poderá de modo algum segui-lo. Isso porque ninguém tem o direito de emitir uma ordem contrária à Shariah; que valor pode um sonho ter diante da Shariah?

Naturalmente, é correto dizer que, do ponto de vista do Islã, os sonhos não são algo a ser simplesmente rejeitado. Também está comprovado pelos hadiths que se pode obter, por meio de um sonho, a visão do Profeta (s). Mas a primeira questão é: se, em um sonho, Satanás assumir não a aparência própria do Profeta, mas qualquer outra aparência, e se apresentar como o “Profeta”, como poderá aquele que sonha saber que ele não é o verdadeiro Mensageiro?

Neste ponto, é importante observar a linguagem do hadith do Mensageiro (s) e as palavras nele empregadas. Abdullah (ra) narra do Profeta (s) que ele disse:

— Quem me viu em sonho viu precisamente a mim, pois Satanás não pode assumir minha forma e aparência. (Tirmidhi).

Como Satanás não pode assumir a forma e a aparência do Mensageiro, se alguém vir o Mensageiro (s) em sonho, deve acreditar que viu exatamente o Mensageiro, e não outra pessoa — isso é claramente comprovado pelas palavras e pela linguagem do hadith. Contudo, precisamente com base nessas palavras e nessa linguagem, permanecem dois pontos que precisam de uma resolução clara. O primeiro é o seguinte: o Mensageiro (s) disse: “Quem me viu, viu a mim”. Mas, se alguém vir outra pessoa e ficar com a impressão — se Satanás lhe incutir a impressão — de que se trata do Mensageiro (s), o que acontecerá? A linguagem desse hadith não deixa aberta a possibilidade de que isso ocorra?

O segundo ponto é: o Mensageiro (s) disse que Satanás não pode assumir minha forma e aparência; mas, se Satanás assumir a forma e a aparência de outra pessoa e incutir naquele que sonha a impressão de que se trata do Mensageiro (s), o que acontecerá?

Considerando a linguagem explícita desse hadith, é possível que isso aconteça? Penso que o hadith não fechou o caminho para essas duas possibilidades. É justamente tendo essa possibilidade em vista que se está tratando do assunto. A interpretação que estudiosos do hadith, como Al-Mazeri e Qadi Iyad, deram a esse hadith também oferece apoio a isso. (Veja o comentário de Tirmidhi, Tuhfatul Ahwazi, vol. 6, p. 555).

Portanto, no Islã não procede a ideia de que, basta ter um sonho, deve-se agir de acordo com ele. A segunda questão é que tudo o que o Profeta (s) tinha a dizer foi transmitido integralmente durante sua vida; foi durante sua vida que a religião alcançou sua plenitude. Agora, ele não pode ter nada de novo a dizer. É responsabilidade do Profeta declarar o halal e o haram, o جائز e o proibido. E essa responsabilidade do Profeta limitava-se ao período de sua vida. Depois do fim da vida do Profeta, ele não pode ter nenhuma responsabilidade desse tipo. Além disso, o último Profeta já era, durante sua própria vida, o “Khatam an-Nabiyyin”. A vida do Profeta chegou ao fim, e antes disso a responsabilidade da profecia já havia sido plenamente cumprida. Depois disso, não há necessidade de estabelecer, por meio de sonhos, nenhuma nova norma da Shariah. Portanto, mesmo que alguém veja o Profeta (s) em sonho e receba dele alguma instrução, nem aquele que sonhou tem a obrigação de cumpri-la, nem qualquer membro da ummah. A religião do Islã é completa. Agora, para toda a humanidade, ela é a única norma final. Tudo deve ser conhecido a partir dela, recebido a partir dela, e deve-se viver seguindo-a.

A posição atribuída aos sonhos na Shariah é comprovada pelo seguinte hadith. Nesta questão, podem ser mencionados dois ahadith. Um deles foi narrado por Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: Árabe(********)

— O Nobre Profeta ﷺ disse: nada da profecia permanece; tudo chegou ao fim. Agora restam apenas os “portadores de boas-novas”. Os Companheiros perguntaram: o que se entende por “portadores de boas-novas”? O Nobre Profeta ﷺ respondeu: são os bons sonhos.

O segundo hadith foi narrado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: Árabe(********)

— Um bom sonho é apenas uma quadragésima sexta parte da profecia.

Do primeiro hadith, sabe-se apenas que um bom sonho é um meio pelo qual o servo recebe boas-novas. E do segundo hadith, sabe-se que esse “sonho auspicioso” possui a posição de uma quadragésima sexta parte da profecia. Então, o que são as restantes quarenta e cinco partes? São o Alcorão e a Sunnah recebidos por meio da profecia. [Neste hadith, o sonho auspicioso foi chamado de uma quadragésima sexta parte da profecia. No hadith narrado por Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) em Sahih Muslim, foi dito que o “sonho auspicioso” é uma quadragésima quinta parte da profecia; no hadith narrado por Ibn Amr, foi dito que é uma septuagésima parte. Portanto, essas declarações não se referem a algo determinado. Em segundo lugar, chamar o sonho auspicioso de parte da profecia não significa que ele seja, tal como a profecia, algo que estabeleça veredictos infalíveis. Isso foi dito apenas para mostrar a semelhança entre a profecia e o sonho auspicioso. Caso contrário, o sonho auspicioso jamais pode ser igual à profecia. (Comentário de Muwatta, de Zurqani, volume quatro, p. 351.)]

Portanto, este Alcorão e esta Sunnah são a verdadeira e fundamental base da religião. Eles são a realidade; apresentar sonhos em oposição a eles é obra de pessoas dadas a fantasias. Aqueles que desejam conduzir corretamente os assuntos da vida real devem avançar tomando o Alcorão e a Sunnah como base, em vez de correr atrás dos sonhos. Aqueles que não agem com base nas determinações práticas do Alcorão e do hadith, nem delas extraem orientação e decisões para o caminho da vida, mas, ao contrário, tomam decisões sobre todas as questões baseando-se apenas nos sonhos, na realidade não são crentes; não são crentes na relação com o Alcorão de Allah e a Sunnah do Seu Mensageiro. Portanto, são seguidores da bid‘ah, pessoas inovadoras.

Bid‘ah Resistência e da Sunnah estabelecimento

Esta longa discussão sobre a Sunnah e a bid‘ah prova que a Sunnah é o ideal completo do Islã, e que o seu oposto é chamado de bid‘ah. A Sunnah é a “Uswah Hasanah” — o modelo perfeito, excelente e superior — que deve ser seguida necessariamente por toda pessoa crente em Allah e na Outra Vida. Na realidade, quem adota o ideal islâmico aceita e segue plenamente esse modelo no coração, na mente e em suas ações. E essa pessoa é o verdadeiro muçulmano.

Por outro lado, tudo aquilo que se adotar em termos de pensamentos, crenças e práticas reais contrários ao Islã será bid’ah. Essa era a jahiliyyah para cuja eliminação o Profeta universal, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), veio ao mundo. Ao longo de sua incansável dedicação durante toda a sua vida profética, ele, por um lado, destruiu os fundamentos da jahiliyyah e bloqueou para sempre o caminho da bid’ah; por outro, estabeleceu plenamente a sunnah. Ele também formou a sociedade dos Companheiros inteiramente sobre essa base. Deixou, nessa área, orientações tão numerosas e valiosas que é impossível descrevê-las por completo. Seu desejo sincero era que a sociedade que havia formado jamais desse espaço à bid’ah sob nenhuma circunstância, nem se desviasse da luminosa e ampla estrada da sunnah. Mais ainda, desejava ardentemente que sua sociedade permanecesse continuamente ocupada e dedicada à resistência à bid’ah e ao restabelecimento da sunnah. Aqui mencionaremos algumas de suas declarações sobre esse assunto.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou, dirigindo-se a Hazrat Bilal ibn Harith (que Allah esteja satisfeito com ele): Árabe(*****)

—Saiba que aquele que, depois de mim, revitalizar qualquer uma das minhas sunnahs que tenha morrido receberá uma recompensa e uma retribuição equivalentes às daquele que a praticar conforme ela. Contudo, nada será diminuído da recompensa daqueles que a praticarem. Em contrapartida, aquele que inventar e disseminar uma bid’ah de desvio, com a qual Allah e Seu Mensageiro não estejam de modo algum satisfeitos, receberá um pecado equivalente aos pecados daqueles que a praticarem. Entretanto, nada será reduzido dos pecados deles.

Nesta ocasião, há também outro hadith seu. Ele disse, dirigindo-se a Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): Árabe(*********)

—Meu querido filho! Se puderes passar todas as manhãs e todas as noites, o tempo todo, sem guardar no coração qualquer ressentimento contra ninguém, então certamente o farás. Meu querido filho! Esta é uma das sunnahs que apresentei. E aquele que revitaliza a minha sunnah demonstra que me ama; e aquele que me ama será meu companheiro no Paraíso na Outra Vida.

Fica claro, a partir do primeiro hadith mencionado, que o Mensageiro nobre sabia e compreendia muito bem que a sunnah apresentada e estabelecida por ele poderia, em algum momento, morrer e ser abandonada pela sociedade muçulmana. Contudo, ele não podia sequer imaginar que essa sunnah permaneceria morta para sempre e desapareceria, sem jamais ser revitalizada e restabelecida. Por isso, por meio desses hadiths, quis incentivar a ummah que havia formado a revitalizar as sunnahs que tivessem morrido. Ele também compreendia claramente que, se uma sunnah podia morrer, então certamente a invenção e a infiltração da bid’ah poderiam ocorrer entre a ummah que havia formado. Por essa razão, advertiu sua ummah sobre as terríveis consequências de inventar e disseminar a bid’ah.

No hadith mencionado por último, primeiramente foi apresentada a análise de uma Sunnah específica do nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Essa Sunnah consiste em não permitir que, no coração de qualquer membro da sociedade muçulmana, haja lugar para qualquer tipo de inveja ou inimizade contra outra pessoa. Este trecho do hadith torna claro quão grave é essa inveja e inimizade tanto para a fé e as obras quanto para as relações mútuas, a paz social e a ordem. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse que viver com um coração tão puro é o meu modelo e a minha Sunnah. Se, em algum momento, a sociedade e seus indivíduos perderem a virtude de praticar essa Sunnah tão elevada, isso será, em termos gerais, um desvio do modelo por parte dos membros da nação. E o desvio dos muçulmanos do modelo jamais poderia agradar ao Mensageiro (que a paz esteja com ele). Por isso, tomando essa pequena Sunnah como ocasião, ele transmitiu a toda a Ummah muçulmana uma orientação de imenso valor. Ei-la: aquele que ressuscitar alguma das minhas Sunnahs e colocar em prática uma Sunnah que deixou de ser praticada terá amado o Mensageiro. Em outras palavras, somente aquele que ama o Mensageiro pode ressuscitar a Sunnah do Mensageiro e dedicar-se ao esforço de fazê-la reviver; isso não é possível para ninguém mais. Além disso, somente ele poderá demonstrar a autenticidade e a sinceridade do seu amor pelo Mensageiro. Quem não fizer qualquer esforço para ressuscitar a sua Sunnah não poderá ter nenhuma prova de que possui sequer um mínimo de amor pelo Mensageiro. Tampouco terá o direito de alegá-lo. Contudo, possuir um amor sincero pelo Mensageiro é uma condição fundamental da fé. Portanto, todos os que amam o Mensageiro amam a Sunnah do Mensageiro; e todos os que amam a Sunnah do Mensageiro não podem negligenciá-la, não podem tolerar que ela morra e desapareça, nem podem permanecer calados, silenciosos e inativos depois que ela tiver desaparecido. A fé e o amor pelo Mensageiro o estimularão a lançar-se ao trabalho de estabelecer a Sunnah e a empregar todas as suas forças para combater a bid’ah; não lhe permitirão permanecer tranquilamente inativo nem por um instante. É absolutamente necessário que exista no coração de todo crente um amor tão profundo pelo Profeta e um afeto tão sincero pela Sunnah do Profeta. É ainda necessário um grupo formado por esses crentes, que seja forte no poder da fé, implacável no que diz respeito à Sunnah e firme na resistência à bid’ah. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) havia formado um grupo organizado assim. Enquanto esse grupo existiu no mundo, nenhuma bid’ah pôde entrar na sociedade muçulmana, nem qualquer Sunnah pôde ser abandonada. Porém, mais tarde, surgiu na história um período em que a bid’ah entrou na sociedade muçulmana e a Sunnah foi abandonada. Apesar disso, jamais se viu uma época em que faltassem, na sociedade muçulmana, pessoas empenhadas em protestar contra a bid’ah e estabelecer a Sunnah. No passado, o intenso conflito entre a Sunnah e a bid’ah desempenhou um papel histórico. Às vezes, os adeptos da bid’ah venceram aparentemente; em outras, triunfaram os que desejavam estabelecer a Sunnah. Essas vitórias e derrotas também constituem uma verdade eterna. Entretanto, há muito tempo se observa na sociedade muçulmana uma influência intensa da bid’ah, cuja entrada ocorreu aqui sem restrições. Não é que não haja protestos; porém, em comparação com a força avassaladora que a bid’ah vem adquirindo, os protestos são extremamente débeis, desorganizados e quase sempre limitados ao âmbito individual. O que se faz necessário, contudo, é uma resistência poderosa e organizada. Não apenas uma resistência negativa: é necessária também uma iniciativa abrangente e total para estabelecer positivamente a Sunnah. Somente uma iniciativa tão ampla e completa pode agora salvar a sociedade muçulmana da corrente dessa inundação de bid’ah. Caso contrário, essa sociedade poderá ser arrastada pela corrente da bid’ah para a perdição. Por isso, hoje esta longa discussão sobre “Sunnah e Bid’ah” foi apresentada à sociedade. Que a bid’ah seja repelida; não apenas parcialmente, não apenas algumas pequenas cerimônias da bid’ah, mas que ela seja repelida de modo completo e total; que seja arrancada pela raiz essa árvore venenosa e devoradora de tudo que é a bid’ah. E, juntamente com isso, que a Sunnah seja estabelecida: não apenas a Sunnah exterior, mas a Sunnah verdadeira, a Sunnah completa. Aquela Sunnah que o último Profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele), deixou no mundo para todos os tempos. Este é o meu único desejo pela humanidade inteira, o anseio mais profundo do meu coração. É esta convocação que hoje apresento diante de todos os muçulmanos em geral, especialmente diante dos estudiosos religiosos e, de modo ainda mais especial, diante da juventude que crê no ideal islâmico.

Nesta longa discussão sobre a Sunnah e a bid’ah, tornou-se claro, com base em provas e evidências, que bid’ah é fazer passar, em nome da religião, como boa obra e ato merecedor de recompensa qualquer ação, questão, assunto, regra, costume ou método que esteja fora do Alcorão e da Sunnah — algo para o qual não se pode apresentar qualquer prova do Alcorão e da Sunnah, nem encontrar qualquer precedente na época dos Califas Bem-Guiados.

Na realidade, elaborar por conta própria uma Sharia e considerar outra pessoa associada a Allah em Seu poder e em Sua divindade, aceitando-a como associada, é precisamente bid’ah. E ninguém desconhece quão grande é o pecado de atribuir associados a Allah ou considerar que Ele tenha algum associado. Neste ponto, é digno de menção o seguinte versículo do Alcorão. Allah, o Altíssimo, disse:

Árabe(*****)

أَمْ لَهُمْ شُرَكَاءُ شَرَعُوا لَهُم مِّنَ الدِّينِ مَا لَمْ يَأْذَن بِهِ اللَّهُ ۚ وَلَوْلَا كَلِمَةُ الْفَصْلِ لَقُضِيَ بَيْنَهُمْ ۗ وَإِنَّ الظَّالِمِينَ لَهُمْ عَذَابٌ أَلِيمٌ [٤٢:٢١]

— Acaso eles têm associados que lhes instituem, na religião, leis sobre aquilo que Allah não autorizou? Se não tivesse sido previamente decretada a decisão final, isso já teria sido decidido entre eles. E os injustos terão um castigo doloroso e severo. (Ash-Shura: 21).

O significado deste versículo é: aqueles que não consideram suficiente a Sharia de Allah, que consideram necessário seguir as leis e a Sharia elaboradas por outros e que creem que as leis e a Sharia inventadas pelos homens, fora da Sharia dada por Allah e em oposição a ela, são atos de recompensa aprovados por Allah, são injustos. E é para esses injustos que está reservado o severo castigo.

Praticar a Sharia e as leis inventadas pelos homens fora da Sharia de Allah é bid’ah. E, conforme a declaração deste versículo, essa bid’ah é shirk. Pois, na realidade, Allah não tem associado algum, nada nem ninguém. As pessoas não são obrigadas a seguir uma Sharia ou lei elaborada por qualquer outro além de Allah. Portanto, todos os que emitem fatwas, formulam questões jurídicas e estabelecem costumes e métodos sem prova da Sharia de Allah mergulham no shirk da bid’ah.

Ao praticar a bid‘ah, não se comete shirk somente contra Allah; também se comete shirk contra a missão profética do nobre Mensageiro. Pois foi o próprio Mensageiro quem apresentou integralmente a Shariah revelada por Allah — esse foi justamente o propósito do envio dos Mensageiros. O que é a religião de Allah foi indicado pelo próprio Mensageiro, com a permissão de Allah.

Foi por meio do Mensageiro que foram definidos os limites das ordens e proibições, do lícito e do ilícito, do permitido e do proibido, da recompensa e do castigo. Nessas circunstâncias, se alguém apresentar como parte da Shariah algo que esteja fora da Shariah do Mensageiro, e outra pessoa aceitar isso, ambas cometem shirk simultaneamente contra Allah e contra o Mensageiro. Essa pessoa pretende assumir para si a responsabilidade e a posição do Mensageiro, ou conferir essa posição a alguém que não seja o Mensageiro. Ao introduzir novos ritos e costumes na religião completa do Islã, ela própria usurpa o lugar do Profeta, ainda que não o reivindique verbalmente. E que, depois do nobre Mensageiro, o Profeta Muhammad, ninguém será nem poderá ser profeta — isso faz parte da crença fundamental do Islã.

É preciso mencionar aqui um hadith narrado no Sahih Muslim e no Musnad de Ahmad:

— No campo da Ressurreição, o nobre Mensageiro dará de beber à sua ummah, em cálices cheios, da água do Hawd al-Kawthar. As pessoas continuarão chegando de um lado, beberão até se saciarem e passarão para o outro lado. Então o Profeta dirá: “Será erguida uma barreira entre mim e eles. Eles não poderão chegar até mim.” Eu pedirei a Allah, dizendo: “Ó Allah! Eles são minha ummah; por que foram impedidos de chegar?” Então Allah responderá: “Tu não sabes que inovações essas pessoas introduziram depois da tua morte.” Será dito: “Eles alteraram e corromperam a religião que tu apresentaste.” Por isso, os adeptos da bid‘ah jamais poderão comparecer ao Hawd al-Kawthar. O nobre Profeta dirá então, dirigindo-se a eles: “Afastem-se! Afastem-se! Saiam da minha frente.”

Ficou claramente demonstrado por este hadith autêntico o destino doloroso da bid‘ah e de seus seguidores. Nessas circunstâncias, é evidente quão grande é o dever dos muçulmanos crentes de evitar completamente a bid‘ah e esforçar-se para eliminá-la por inteiro da sociedade e do Estado. Para isso, a política correta consiste em divulgar o ideal completo do Islã, livre da bid‘ah, formar a opinião pública e estabelecer um Estado Islâmico com a força dessa opinião pública. Depois, deve-se empregar plenamente o poder desse Estado Islâmico para apagar da vida e da sociedade até o último vestígio da bid‘ah restante. Se esse método for seguido, a bid‘ah será eliminada e a Sunnah será estabelecida. Na verdade, esta é a política de ação do Islã.

Por fim, quero citar aqui uma declaração do Imam al-Ghazali e anunciar com ela o encerramento desta obra. Ele disse, em árabe:

— Seja qual for a forma da bid‘ah, é preciso fechar todas as suas portas e lançar as suas inovações contra o rosto dos adeptos da bid‘ah, por mais que eles acreditem que sejam verdadeiras!

— Fim —