Nossa palavra

Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi (r.). Ele não pôde concluir sua célebre obra Sīrat de Sarwar-e Alam. Depois de escrever até a Hégira, faleceu. Ela foi publicada em dois volumes na língua urdu. Publicamos em bengali, em cinco volumes, os dois volumes em urdu que abrangem até a Hégira: o primeiro volume em urdu foi dividido em dois volumes em bengali, e a terceira parte do segundo volume em urdu.

No primeiro volume em bengali, foi apresentada principalmente uma discussão teórica sobre a profecia e o apostolado. O segundo volume trata da história da destruição dos povos do passado. A partir do terceiro volume, começa a discussão da história da vida de Muhammad, o Mensageiro de Allah (s.a.w.),

A Academia de Pesquisa Sayyid Abul A‘la Maududi planejou apresentar aos leitores de língua bengali todas as obras do Maulana. Enquanto isso, quase todas as suas obras já foram traduzidas e publicadas em bengali. A presente obra foi traduzida pelo senhor Abbas Ali Khan, um renomado escritor e colaborador próximo do Maulana. Quanto à excelência de seu trabalho de tradução, à precisão no emprego das palavras e à força de sua linguagem, não julgamos necessário dizer algo novo aos estimados leitores.

Agradecemos a Allah Todo-Poderoso por nos ter permitido publicar esta obra em nome da Academia. Que Ele conceda a todos os leitores desta obra a capacidade de compreender a verdadeira missão da profecia. Amém.

Abdus Shahid Nasim

Diretor

Academia de Pesquisa Sayyid Abul A‘la Maududi

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O Islã é, na realidade, o nome do movimento que deseja construir todo o edifício da vida humana sobre a concepção e a crença na soberania do Deus Único. Desde tempos imemoriais, esse movimento vem prosseguindo sobre a mesma base e pelo mesmo método. Foram os homens chamados profetas e mensageiros de Allah, o Altíssimo, que o lideraram. Se tivermos de conduzir esse movimento, será inevitável seguir o método de ação desses líderes. Pois, além desse, não existe nem pode existir outro método adequado a um movimento dessa natureza. Quando tentamos investigar os passos dos nobres profetas (que a paz esteja com eles) a esse respeito, deparamo-nos com enormes dificuldades. Não podemos saber muita coisa sobre as atividades dos profetas que viveram na antiguidade. Encontram-se no Alcorão algumas indicações breves, mas não é possível extrair delas todo o plano. No Novo Testamento da Bíblia encontram-se algumas palavras não confiáveis atribuídas a Jesus (que a paz esteja com ele), que lançam alguma luz sobre um aspecto: como o movimento islâmico pode ser conduzido em sua fase absolutamente inicial e que problemas ele precisa enfrentar. Contudo, Jesus (que a paz esteja com ele) não teve de enfrentar a etapa seguinte, e também não se encontra nenhuma indicação a esse respeito. Sobre esse assunto, recebemos uma orientação clara e completa de uma única fonte: a vida do Profeta Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nosso retorno a ele não se deve apenas ao respeito que lhe temos; na realidade, somos obrigados a retornar a ele para adquirir conhecimento sobre as subidas e descidas desse caminho. Entre todos os líderes do movimento islâmico, somente o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o único líder cuja vida nos permite conhecer, desde o convite inicial desse movimento até o estabelecimento do Estado Islâmico e, depois, a estrutura do Estado, sua constituição, suas políticas interna e externa e os princípios e métodos de sua administração, uma descrição completa de cada etapa, extremamente confiável.

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Introdução

Ao reunir de maneira excelente, em uma só obra, as discussões sobre a missão profética e a Sira do Profeta presentes em meus diversos escritos, o senhor Na’im Siddiqi e o senhor Abdul Wakil Alavi prepararam o primeiro volume desta obra (os volumes 1 e 2 em bengali). Não senti ali grande necessidade de acréscimos ou revisões.

Entretanto, nos escritos que eles compilaram para este volume, às vezes restaram lacunas. Com essas lacunas, de modo algum seria possível elaborar uma obra de Sira. Por isso, fiz nela acréscimos e ampliações em larga escala. Agora ela se transformou em uma obra de Sira contínua e coerente.

Este segundo volume (original) chega ao fim com a narrativa da Hégira. Logo depois começará o capítulo madanita. Esse capítulo é, em essência, como um oceano sem margens. Rogo ao Deus Altíssimo que me conceda força e tawfiq para concluir esta obra e que a torne benéfica para Seus servos.

Abul A’la

Sétimo capítulo

O início da da‘wah pública

Do que foi dito nos dois capítulos anteriores, pode-se compreender claramente por que, quando o Mensageiro de Allah (S.A.W.) começou a propagar o Islã publicamente, após três anos de da‘wah secreta, os coraixitas e os árabes em geral ficaram tão enfurecidos com ele, e por que se entregaram a tanta oposição, hostilidade e comportamento insolente contra o Profeta. Esta discussão também deixa claro com que poderosa arma de argumentos e caráter a da‘wah do Islã foi apresentada, a ponto de a antiga jahiliyyah se tornar impotente diante dela, apesar de todas as suas artimanhas, trapaças, opressão e perseguição. Agora retomamos a sequência da narrativa histórica exatamente do ponto em que a havíamos deixado no quarto capítulo.

A primeira manifestação pública do Islã

Embora os historiadores e os autores de obras de sira não tenham explicado nem analisado este assunto, ao refletirmos sobre a maneira como, após os cinco primeiros versículos da Surata Al-‘Alaq no Alcorão Sagrado, os versículos 6 a 21 narram repentinamente o episódio de um homem que proíbe um servo de Allah de orar e tenta impedi-lo por meio de ameaças, fica claro que, segundo a explicação desse episódio nos livros confiáveis de hadith, o homem que orava era o próprio Profeta (S.A.W.), e aquele que o impedia era Abu Jahl. Isso mostra claramente que o Profeta (S.A.W.) manifestou pela primeira vez sua religião realizando a oração segundo o método islâmico no Haram da Caaba. Até então, os muçulmanos oravam secretamente. Ninguém ousava orar publicamente nem mesmo em um lugar aberto, quanto mais no Haram da Caaba. Apenas uma vez, os politeístas viram alguns muçulmanos orando com Hazrat Sa‘d ibn Abi Waqqas (R.A.) em um vale deserto de Meca, o que provocou um grande tumulto, conforme relatamos anteriormente. Porém, quando Allah Todo-Poderoso quis que o Islã fosse propagado abertamente, o Mensageiro de Allah (S.A.W.) foi ao Haram e começou a orar sem medo nem hesitação. Ninguém além dele poderia ter tido essa coragem. (Acréscimo do autor.)

Com isso, o povo comum dos coraixitas percebeu pela primeira vez que a religião de Muhammad (S.A.W.) havia se tornado diferente da religião deles. Os que presenciaram aquilo ficaram atônitos. Mas as emoções da jahiliyyah de Abu Jahl inflamaram-se, e ele tentou várias vezes impedir o Profeta (S.A.W.) de orar, ameaçando-o. Hazrat Abu Hurayra (R.A.) relata que Abu Jahl perguntou aos coraixitas: “Muhammad (S.A.W.) coloca o rosto no chão diante de vocês?” Eles responderam: “Sim.” Então Abu Jahl disse: “Juro por Al-Lat e Al-‘Uzza: se eu o vir orando assim, pisarei em seu pescoço e esmagarei seu rosto contra o chão.” Depois, por acaso, ao ver o Mensageiro (S.A.W.) orando, avançou para pisar em seu pescoço. Mas, de repente, as pessoas o viram recuar e tentar proteger o rosto com alguma coisa. Perguntaram-lhe o que havia acontecido. Ele respondeu: “Entre mim e ele havia um fosso de fogo, uma coisa terrível e também asas.”

O Mensageiro de Allah (S.A.W.) disse: “Se ele tivesse se aproximado de mim, os anjos teriam arrancado sua cabeça” (Ahmad, Muslim, Nasai, Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, Ibn al-Mundhir, Ibn Marduyah, Nu‘aym, Isfahani, Bayhaqi).

Ibn Abbas (R.A.) relata que Abu Jahl disse: “Se eu vir Muhammad (S.A.W.) orando perto da Caaba, esmagarei seu pescoço sob meus pés.” Quando essa notícia chegou ao Profeta (S.A.W.), ele disse: “Se eles fizerem isso, os anjos o agarrarão publicamente” (Bukhari, Tirmidhi, Nasai, Ibn Jarir, Abd al-Razzaq, Abd ibn Hamid, Ibn al-Mundhir, Ibn Marduyah).

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) estava rezando no Maqam Ibrahim. Abu Jahl passava por ali. Ele disse: “Muhammad (que a paz esteja sobre ele), acaso eu não havia proibido você?” E começou a repreendê-lo. Em resposta, o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) o censurou severamente. Então Abu Jahl disse: “Ó Muhammad (que a paz esteja sobre ele)! Com o apoio de quem você está tentando me intimidar? Juro por Allah! Nesta região, meus apoiadores são mais numerosos do que os de qualquer outro.” (Ibn Jarir, Ahmad, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Abi Shaybah, Ibn al-Mundhir, Tabarani, Ibn Mardawayh.) (Tafhimul Qur’an, volume 6, introdução à surata Al-‘Alaq.)

Depois, os demais membros dos coraixitas também se reuniram e impediram o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) de rezar no Haram da Caaba. Contudo, fracassaram. O Alcorão diz:

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E quando o servo de Allah se levantou para invocá-Lo, as pessoas quase se lançaram sobre ele (Al-Jinn: 19).

Também aqui os exegetas entenderam que “servo de Allah” se refere ao próprio Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele). O versículo prova que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) não deixou de rezar publicamente, embora, além de Abu Jahl, outros membros dos coraixitas também começassem a se preparar para lançar-se sobre ele.

O convite à própria família

A segunda medida que o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) tomou foi esta: ele recebeu esta ordem de Allah, o Altíssimo:

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De acordo com isso, convidou seus próprios familiares para sua casa. Entre eles, além dos Banu Abd al-Muttalib e dos Banu Hashim, havia também algumas pessoas dos Banu al-Muttalib e dos Banu Abd Manaf. Baladhuri e Ibn Kathir dizem que, ao todo, quarenta e cinco pessoas participaram desse convite. Antes que o Profeta (s) dissesse qualquer coisa, Abu Lahab começou a falar: “Aqui estão seus tios e seus primos. Pode dizer o que quiser, mas não fale em abandonar a religião. Você deve ter em mente que seu povo não tem força para lutar contra toda a Arábia. Os membros de sua família são os mais aptos a segurá-lo e impedi-lo. Se permanecer firme no que está fazendo, todos os coraixitas se lançarão contra você, e os árabes avançarão para ajudá-los. Nunca vi alguém trazer para sua própria família um perigo maior do que aquele que você trouxe.”

Assim, Abu Lahab fez fracassar a primeira reunião. No dia seguinte, o Profeta (s) voltou a convidar os membros de sua família e apresentou-lhes sua mensagem religiosa. Abu Talib disse: “Não quero abandonar a religião de Abd al-Muttalib. Contudo, continue realizando a tarefa que lhe foi ordenada. Eu lhe darei apoio e proteção.”

Abu Lahab disse: “Por Deus, isso é uma coisa muito ruim. Segure a mão dele antes que outra pessoa a segure.” Abu Talib disse: “Por Deus! Enquanto eu estiver vivo, eu o protegerei.” Baladhuri e Ibn Amir citam este relato com base na autoridade de Jafar ibn Abd al-Walid ibn Abi al-Hakam, que era um narrador confiável (Ansab al-Ashraf de Baladhuri, volume 1, páginas 118–119; Tarikh al-Kamil, de Ibn Amir, volume 2, páginas 49–41). (Acréscimo do autor.)

Fontes confiáveis informam que o sermão proferido pelo Profeta (s) foi dirigido a cada pessoa pelo nome: “Ó filhos de Abd al-Muttalib, ó Abbas, ó Safiyya (tia paterna do Mensageiro de Deus), ó Fatima (filha do Profeta), salvai-vos do fogo do Inferno. Pois não tenho autoridade para vos salvar da punição de Deus. Contudo, podeis pedir-me o que quiserdes dos meus bens.” Seu sermão foi o seguinte:

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Esse sermão não foi apenas um convite à verdade dirigido aos seus familiares. Ele também revelou que a religião de Deus é imparcial. Nela não há nenhuma concessão especial para a pessoa do Profeta (s), nem para seus parentes mais próximos. Aqui, qualquer tratamento dispensado a alguém será baseado em suas qualidades. Além disso, a honra da linhagem e o parentesco de uma pessoa com outra não lhe servirão de nada. O temor do castigo de Deus por causa do desvio e das más ações é igual para todos. Não é que todos os demais sejam punidos, enquanto os parentes do Profeta sejam poupados. Como era necessário tornar esse princípio perfeitamente claro, o próprio Profeta (s) mencionou em seu sermão o nome de sua filha, a honorável Fatima (ra), embora naquela época ela não tivesse mais de dois anos e meio. É evidente que ela de modo algum estava abrangida pela responsabilidade em relação à qual poderia surgir a questão de punição ou recompensa. O objetivo, porém, era estabelecer esta verdade: no Islã, não há privilégios especiais para o Profeta e sua família dos quais os demais sejam privados. Aquilo que é um veneno mortal é veneno para todos. A função do Profeta é, antes de tudo, manter-se afastado desse veneno e advertir seus parentes mais próximos contra ele. Depois, deve alertar o público em geral de que quem o ingerir morrerá. E aquilo que é benéfico é benéfico para todos. A função do Profeta é, antes de todos, adotá-lo pessoalmente e aconselhar seus entes queridos a adotá-lo, para que todos possam ver que esse conselho benéfico não se destina apenas aos outros. Pelo contrário, o Profeta (s) é absolutamente sincero em sua mensagem, pois ele próprio a segue e aconselha os outros a segui-la. (Tafhim al-Qur’an, volume 3, Ash-Shuara, nota 35.)

O convite ao Islã dirigido a todas as famílias dos coraixitas

Em seguida, o terceiro passo que ele tomou foi este: certa manhã, muito cedo, pôs-se no ponto mais alto do monte Safa e bradou em voz alta: “Ya Sabaha” (ó perigo da manhã!). “Ó povo dos coraixitas! Ó descendentes de Kaab ibn Lu’ayy! Ó Banu Murra, ó povo de Qusayy! Ó Abd Manaf, ó Abd Shams, ó povo de Abd al-Muttalib!” Assim, chamou cada tribo e cada família dos coraixitas pelo nome. Era costume entre os árabes que, quando havia de repente, ao amanhecer, o temor de um ataque, aquele que tomasse conhecimento dele bradasse dessa maneira, e as pessoas, ao ouvirem sua voz, corressem de todos os lados em sua direção. De fato, ao ouvirem um chamado assim do Profeta (s), todos saíram de suas casas. Quem não pôde vir enviou outra pessoa para obter informações. Depois que todos se reuniram, o Profeta (s) disse: “Ó povo! Se eu vos disser que há um enorme exército do outro lado da montanha, prestes a lançar-se contra vós, acreditareis na minha palavra?” Todos responderam em uníssono: “Nossa experiência é que você nunca mentiu.” O Profeta (s) disse: “Então, estou vos advertindo antes que chegue o castigo de Deus. Pensai em proteger-vos dele. Não vos poderei ser de nenhuma utilidade diante de Deus. No Dia da Ressurreição, meus parentes serão apenas aqueles que temerem a Deus. Que não aconteça que outros venham trazendo boas ações, enquanto vós compareçais carregando todas as aflições e sofrimentos do mundo. Nesse momento, chamareis: ‘Ó Muhammad!’, mas eu serei obrigado a desviar o rosto de vós. Naturalmente, no mundo, tendes comigo laços de sangue, e aqui tratarei convosco com a consideração própria dos parentes.” (Relatado no Bukhari, no Muslim, no Musnad de Ahmad, em Tirmidhi, Nasa’i e no Tafsir de Ibn Jarir, com base na autoridade de Aisha (ra), Abu Hurayra (ra), Abdullah ibn Abbas (ra), Zubayr ibn Amr (ra), Qabisa ibn al-Mukhariq (ra), entre outros.) (Tafhim al-Qur’an, volume 3, Ash-Shuara, nota 35.)

Os muhaddithun transmitiram, por diversas cadeias, esta narrativa de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): quando o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a ordem de convidar o público em geral, e foi revelada no próprio Alcorão a orientação de que ele deveria primeiro advertir os parentes mais próximos sobre o castigo de Allah, ele subiu bem cedo ao monte Safa e chamou em voz alta: “Ya Sabaha!” (Ai da calamidade da manhã!). Na Arábia, esse chamado era feito por alguém que, ao perceber de manhã a aproximação veloz de algum perigo, queria saber quem estava fazendo tal chamado. Foi dito: “É Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quem está chamando.” Então, todos os membros das famílias dos coraixitas correram em sua direção. Quem não pôde ir enviou alguém em seu lugar. Depois que todos se reuniram, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou, mencionando uma por uma as famílias dos coraixitas: “Ó Banu Hashim, ó Banu Abd al-Muttalib, ó Banu Fihr, ó Banu fulano, ó Banu fulano. Se eu lhes dissesse que um grupo de soldados está preparado atrás desta montanha para atacá-los, vocês acreditariam em minhas palavras?” Todos responderam: “Sim, acreditamos em você”, pois não tinham experiência alguma de que ele dissesse mentiras. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Eu os advirto de que um severo castigo se aproxima no futuro.” Então, antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, seu tio Abu Lahab disse:

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“Que pereças! Foi por isso que nos reuniste aqui?”

Há outra versão segundo a qual Abu Lahab chegou a pegar uma pedra para arremessá-la contra o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). (Musnad Ahmad, Bukhari, Muslim, Tirmidhi, Ibn Jarir e outros.) (Tafhim al-Qur’an, volume seis, introdução à surata Al-Lahab.)

Entre as palavras que Ibn Sa‘d transmitiu ao citar a narrativa de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), estavam também estas: dirigindo-se aos coraixitas, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah ordenou-me que advertisse os parentes próximos, e vocês, coraixitas, são meus parentes próximos. Não tenho o poder de mostrar-lhes algo da parte de Allah nem de garantir-lhes qualquer quinhão na Vida Futura. Contudo, se aceitarem ‘La ilaha illallah’, testemunharei em seu favor perante o seu Senhor. E, por causa desta profissão de fé, os árabes lhes obedecerão e os não árabes serão subjugados.” Em resposta, Abu Lahab disse: “Que pereças! Foi por isso que nos chamaste?”

A conduta de Abu Lahab

Assim, Abu Lahab [O seu nome verdadeiro era Abd al-Uzza ibn Abd al-Muttalib. Sua kunya era Abu Utba. Porém, devido ao seu rosto resplandecente, da cor do leite e do açafrão, ganhou fama pelo nome de Abu Lahab (beleza resplandecente). Ibn Sa’d afirma que o próprio Abd al-Muttalib o chamava de Abu Lahab. Por isso, o seu verdadeiro nome caiu no esquecimento — o autor. ] decidiu-se, desde o primeiro dia, a opor-se ao Profeta e, até o fim da vida, manteve contra o Profeta e, por causa dele, contra a própria família, uma inimizade como somente um inimigo implacável poderia manter. Embora outro membro dos Banu Hashim, Abu Sufyan ibn al-Harith ibn Abu al-Muttalib, também tivesse se tornado opositor do Profeta, sua oposição, em primeiro lugar, não era maior que a de Abu Lahab. Durante vinte anos, Abu Lahab escreveu e recitou poemas satíricos contra o Profeta e seus Companheiros, e combateu contra o Profeta nas guerras após a Hégira. A grande diferença entre Abu Lahab e Abu Sufyan era que o coração deste último se inclinou ao Islã. Na verdade, ainda antes da conquista de Meca, ele prestou o juramento de fidelidade ao Profeta no lugar chamado Abwa. [Segundo os Tabaqat de Ibn Saad, volume 4, páginas 49–50, ele era primo paterno do Profeta. Por ter mamado do leite de Halima Sa’diyya, também era seu irmão de leite. Na época da Jahiliyya, tinha profundo amor pelo Profeta, mas, após o início da profecia, tornou-se seu ferrenho opositor. Al-Baladhuri, em Ansab al-Ashraf, volume 1, página 361, diz o mesmo. Acrescenta apenas que o Profeta o perdoou por intercessão de al-Abbas. Afirma que a presença dele em Abwa é um relato fraco. Dá preferência ao relato segundo o qual ele compareceu ao lugar chamado ‘Niql al-Uqab’ (um lugar próximo de Juhfa, entre Meca e Medina), para apresentar o pedido de perdão. ‘Mu’jam al-Buldan’ também menciona isso. O autor]

Mas o caso de Abu Lahab era inteiramente diferente: ele não apenas transgrediu todos os limites da humanidade, mas também os de toda a tradição moral universalmente reconhecida pelos árabes e, em sua inimizade contra o Profeta, em vez de humanidade e civilidade, desceu à extrema baixeza. E, no entanto, havia entre ambos um vínculo de sangue. Por causa desse parentesco, sua oposição tornou-se um enorme obstáculo no caminho da religião, em comparação com a oposição dos demais. (Adendo.)

Essa é a razão pela qual, entre todos os inimigos do Islã daquela época, Abu Lahab foi a única pessoa cuja condenação foi pronunciada no Alcorão mencionando-se o seu nome. No entanto, tanto em Meca quanto, depois da Hégira, em Medina, havia muitas pessoas que, em sua inimizade contra o Islã e Muhammad, não eram inferiores a ele em nenhum aspecto. A questão é: que característica havia nesse homem para que o Alcorão expressasse indignação mencionando o seu nome? Para compreender isso, é necessário conhecer a sociedade árabe daquela época e observar o comportamento de Abu Lahab nesse contexto.

A razão pela qual o Alcorão condenou Abu Lahab mencionando o seu nome

Nos tempos antigos, como a insegurança, a desordem, os assassinatos, os saques e outros males estavam espalhados por toda a Arábia, e durante centenas de anos a situação era tal que ninguém tinha qualquer garantia de proteção para sua vida, bens e honra sem o apoio de sua própria família e de seu clã, dava-se especial importância, entre os valores morais da sociedade árabe, ao bom tratamento dos parentes. Romper os laços de parentesco era considerado um grande pecado. O efeito dessas tradições árabes era que, quando o Mensageiro de Allah (s) surgiu com o chamado islâmico, as outras famílias e chefes dos coraixitas começaram a opor-se ferozmente ao Profeta (s). Mas os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib (os descendentes de al-Muttalib, irmão de Hashim) não se opuseram a ele; pelo contrário, continuaram a apoiá-lo publicamente. Isso apesar de a maioria deles não ter acreditado na missão profética do Profeta (s). As outras famílias dos coraixitas consideravam o apoio dado ao próprio Profeta (s) por esses seus parentes como parte dos costumes da tradição moral árabe. Por isso, jamais censuraram os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib, dizendo que, ao apoiarem um pregador de uma religião diferente, haviam abandonado a religião de seus antepassados. Sabiam e reconheciam que, em nenhuma circunstância, poderiam entregar um membro de sua própria família às mãos do inimigo, e que ajudar e apoiar os próprios parentes era algo natural e instintivo para todos.

Mesmo na época da ignorância, os árabes olhavam com respeito para esse valor moral. Apenas um homem, cegado pela hostilidade ao Islã, destruiu todas as tradições e valores morais.

E esse homem era Abu Lahab ibn Abd al-Muttalib. Ele era tio do Profeta (s). O pai do Profeta (s) e o pai de Abu Lahab eram a mesma pessoa, embora suas mães fossem diferentes. Na Arábia, considerava-se que o tio ocupava o lugar do pai, especialmente quando o pai do sobrinho falecia. Esperava-se, na sociedade árabe, que o tio considerasse o sobrinho como seu próprio filho. Mas esse homem, por sua hostilidade ao Islã e seu amor pela descrença, destruiu todas as tradições árabes.

O pior vizinho do Profeta (s)

Em Meca, Abu Lahab era o vizinho mais próximo do Profeta (s). As casas dos dois ficavam em lados opostos do mesmo muro. Além deles, al-Hakam ibn Abi al-As (pai de Marwan), Uqbah ibn Abi Mu’ayt, Sa’d ibn Hamraya al-Thaqafi e Ibn al-Asdayl al-Hudhali também eram vizinhos do Profeta (s).[Ibn Sa’d diz que, entre eles, Abu Lahab e Uqbah eram os vizinhos mais próximos. Citando um relato de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ele diz que o Profeta (s) afirmou: “Eu vivia entre dois’vizinhos extremamente maus. Um era Abu Lahab e o outro, Uqbah. Isso mostra que a casa do Profeta (s) ficava entre as casas desses dois’.” — Autor] Eles não deixavam o Profeta (s) viver em paz em sua casa. Às vezes, quando ele estava rezando, jogavam de cima as entranhas de uma cabra. Outras vezes, quando se preparava comida no pátio, jogavam lixo e imundície sobre a panela. O Profeta (s) saía e lhes dizia: “Ó filhos de Abd Manaf, que tipo de comportamento é esse para com um vizinho?”

Umm Jamil, esposa de Abu Lahab (irmã de Abu Sufyan), havia transformado em hábito permanente deixar, à noite, feixes de arbustos espinhosos diante da porta da casa do Profeta, para que, quando o Profeta ou seus filhos saíssem, seus pés fossem feridos pelos espinhos.

— (al-Bayhaqi, Ibn Abi Hatim, Ibn Jarir, Ibn Asakir, al-Baladhuri, Ibn Hisham).

Abu Lahab obrigou seus filhos a divorciarem-se das filhas do Profeta (s)

Antes da missão profética, as duas filhas do Mensageiro de Allah (s) haviam se casado com Utbah e Utaybah, os dois filhos de Abu Lahab. [Em uma narração de Qatadah, transmitida por al-Tabarani, consta que Hadrat Umm Kulthum (ra) se casou com Utaybah, e Hadrat Ruqayyah (ra), com Utbah. Ibn Qutaybah também afirmou isso em al-Ma’arif, assim como Suhayli em Rawd al-Unuf. Contudo, Ibn Ishaq disse que há dúvida quanto a saber se Utbah se casou com Hadrat Ruqayyah, e não com Hadrat Umm Kulthum (ra)–sobre esse assunto. Ibn Qutaybah, em al-Ma’arif, al-Zurqani, em seu comentário de al-Mawahib, e al-Tabari, em sua História, escreveram que a casaram com Hadrat Uthman (ra). — O autor.] Depois do início da missão profética, quando o Profeta (s) começou a convocar as pessoas ao Islam, Abu Lahab disse aos seus dois filhos: “Se vocês não se divorciarem das filhas de Muhammad (s), será proibido para mim sequer ver seus rostos.” Assim, ambos se divorciaram. Utaybah ultrapassou tanto os limites da ignorância que foi até o Profeta (s) e disse: “Não acredito em ********************* e *********************.” Depois de dizer isso, cuspiu na direção do Profeta (s), mas a saliva não atingiu seu corpo. O Profeta (s) disse: “Ó Deus! Envia um de Teus cães contra ele.” Então Utaybah partiu com seu pai em uma viagem à Síria para fins comerciais. Durante a viagem, acamparam em um lugar cujos habitantes locais disseram que feras costumavam circular ali à noite. Abu Lahab disse aos coraixitas que o acompanhavam: “Garantam a segurança do meu filho, pois temo a maldição de Muhammad (s).[Isso significa que aquele miserável reconhecia, no íntimo, a grandeza do Profeta (s) e temia que a maldição proferida por sua boca não pudesse deixar de se cumprir.– — O autor.] Os homens da caravana colocaram camelos ao redor de Utaybah e foram dormir. Durante a noite, um leão avançou por entre os camelos e devorou Utaybah. (Al-Isti’ab, de Ibn Abd al-Barr; al-Isabah, de Ibn Hajar; Ansab al-Ashraf, de al-Baladhuri; Dala’il al-Nubuwwah, de Abu Nu’aym al-Isfahani; Rawd al-Unuf, de al-Suhayli).

Há alguma divergência sobre esse assunto. Alguns dizem que o divórcio ocorreu antes da missão profética; outros dizem que ocorreu depois da revelação de *********************. Também há divergência quanto a saber se aquele que foi devorado pelo leão era Utaybah ou Utbah. Contudo, está comprovado que, após a conquista de Meca, Utbah aceitou o Islam e prestou pessoalmente o juramento de lealdade nas mãos do próprio Nobre Profeta (s). Portanto, a verdade é que o filho mencionado acima era Utaybah.

Alegria com a morte do filho do Profeta

Sua baixeza e vileza eram tamanhas que, depois da morte de Hadrat Qasim (ra), filho do Profeta (s), seu segundo filho, Hadrat Abdullah (ra), também faleceu. Em vez de compartilhar o luto pelo próprio sobrinho, ele, tomado de alegria, correu até os líderes dos coraixitas e disse: “Hoje, o nome e a descendência de Muhammad (s) foram apagados.”

Criação de obstáculos à convocação islâmica

Para onde quer que o Profeta (que a paz esteja com ele) fosse para transmitir o convite islâmico, ele o seguia e impedia as pessoas de ouvirem suas palavras. Rabi’a ibn ‘Abbad (‘Ebad) [Ibn Ishaq ‘‘Ebad’ e Ibn Hisham ‘‘Abbad’ escreveram isso.– Autor da obra] al-‘Adili disse: Quando eu era pequeno, fui com meu pai ao mercado de Zulmajaz. Ali ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) dizer: “Ó gente! Dizei: não há divindade além de Allah; assim, tereis sucesso.” Atrás dele, um homem dizia: “Este é um mentiroso que abandonou a religião de seus antepassados.”

“Perguntei: Quem é esse homem? As pessoas responderam: É o tio dele, Abu Lahab.”

(Musnad Ahmad, Tabarani, Bayhaqi)

Em outro relato do mesmo Rabi’a, é dito: Vi o Profeta (que a paz esteja com ele) chegar ao acampamento de uma tribo e dizer: “Ó Banu Fulano, vim até vós como o Mensageiro de Allah. Exorto-vos a adorar somente Allah e a não associar ninguém a Ele. Aceitai-me como alguém que diz a verdade e ajudai-me, para que eu possa realizar a tarefa para a qual Allah me enviou.”

Atrás dele vinha outro homem, dizendo: “Ó Banu Fulano! Ele quer afastar-vos de al-Lat e al-‘Uzza e conduzir-vos à inovação que trouxe consigo. Nunca o escuteis nem o sigais.” Perguntei a meu pai: “Quem é esse homem?” Ele respondeu: “É o tio dele, Abu Lahab.” (Musnad Ahmad, Tabarani, Ibn Hisham, Tabari.)

Tariq ibn Abdullah al-Muharibi relatou algo semelhante. Ele disse: Vi o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) no mercado de Zul Majaz, proclamando em voz alta: “Ó gente! Dizei: não há divindade além de Allah; tereis sucesso.” Atrás dele caminhava um homem que atirava pedras contra o Profeta, fazendo seus pés sangrarem. Ele dizia: “Este é um mentiroso; não o escuteis.” Perguntei às pessoas: “Quem é esse homem?” Elas responderam: “É o tio dele, Abu Lahab.” (Ibn Abi Shaybah, Abu Ya’la, Ibn Hibban, Hakim, Tabarani, Nasa’i e Ibn Majah registraram esse relato de forma resumida.)

A conduta de Abu Lahab durante o cerco de Shi’b Abi Talib

No sétimo ano da missão profética, quando todas as famílias dos coraixitas romperam suas relações sociais e econômicas com os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib, e essas duas famílias, permanecendo firmes no apoio ao Profeta (que a paz esteja com ele), ficaram sitiadas em Shi’b Abi Talib, Abu Lahab foi o único que, em vez de permanecer com sua própria família, se aliou aos coraixitas incrédulos. O cerco durou três anos, durante os quais os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib passaram os dias em fome. Mas a conduta de Abu Lahab era tal que, quando uma caravana de comerciantes chegava a Meca e alguém dos sitiados em Shi’b Abi Talib vinha à cidade para comprar algum alimento, Abu Lahab dizia aos comerciantes: “Cobrai deles um preço tão alto que não possam comprar de modo algum. Se tiverdes algum prejuízo com isso, eu o compensarei.” Os comerciantes pediam preços exorbitantes, e os compradores, famintos, voltavam de mãos vazias para junto de seus filhos. Depois, Abu Lahab comprava daqueles comerciantes as mercadorias pelo preço de mercado.

Sua oposição criava todo tipo de obstáculo ao trabalho da pregação islâmica

Os árabes de fora de Meca iam a Meca para o hajj ou se reuniam nos mercados que funcionavam em vários lugares. Quando, diante deles, o próprio tio do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o seguia continuamente e se opunha a ele, segundo a célebre tradição árabe, não se podia esperar que um tio, sem motivo, dissesse algo ruim sobre o próprio sobrinho diante de outras pessoas, atirasse pedras contra ele e apresentasse acusações contra ele. Por isso, influenciados pelas palavras de Abu Lahab, eles ficavam desconfiados do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e diziam: “Os seus próprios familiares conhecem-no melhor que ninguém.” (Tafhim al-Qur’an, volume 6, introdução à Surata al-Lahab.)

A conduta de sua esposa

A esposa de Abu Lahab era irmã de Abu Sufyan, do clã dos Banu Umayya. No Alcorão, ela é chamada de ********************* (a carregadora de lenha, a caluniadora). Seu nome verdadeiro era Arwa, e Umm Jamil era sua kunya. Em sua inimizade contra o Profeta, ela não era inferior ao marido em nenhum aspecto. Asma, filha de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), relata: quando a Surata al-Lahab foi revelada e Umm Jamil a ouviu, saiu furiosa à procura do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Tinha na mão um punhado de pedras que atiraria contra o Profeta. Ia recitando alguns versos satíricos contra ele. Ao chegar ao Haram da Caaba, viu o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentado com Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Abu Bakr disse: “Ó Mensageiro de Allah, veja, ela está vindo. Temo que diga algo ofensivo contra o senhor.” O Profeta disse: “Ela não conseguirá ver-me.” E assim aconteceu: apesar da presença do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ela não conseguiu vê-lo e disse a Abu Bakr: “Ouvi dizer que o seu companheiro zombou de mim?” Abu Bakr respondeu: “Juro pelo Senhor desta Casa: ele não zombou de você.” Então ela voltou. (Ibn Abi Hatim, Ibn Hisham e al-Bazzar narraram relatos semelhantes, com base em Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele).) (Tafhim al-Qur’an, volume 6, nota 3.)

O destino de Abu Lahab

Embora Abu Lahab e sua esposa tenham ficado extremamente perturbados quando a Surata al-Lahab foi revelada no Alcorão Majestoso, o que nela foi dito era uma sentença gravada em pedra. Foi dito: “Que se arruínem as mãos de Abu Lahab.” Essa era uma profecia que foi expressa no passado perfeito porque sua realização era absolutamente certa — e assim aconteceu. A quebra das mãos não significa a fratura física das mãos, mas o fracasso dos objetivos de uma pessoa, pelos quais ela emprega todas as suas forças. De fato, poucos anos depois de começar a se opor ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Lahab enfrentou um fracasso extremamente exemplar. Na batalha de Badr, a maioria dos principais líderes dos coraixitas, que eram seus aliados na inimizade contra o Islã, foi morta. Quando a notícia dessa derrota chegou a Meca, ele ficou tão esmagado pela tristeza que não conseguiu permanecer vivo nem por uma semana. Morreu de uma doença chamada pústula maligna (MALIGNANT PUTULE), semelhante à peste. Seus familiares mantiveram-se afastados dele no momento de sua morte, por medo de contraírem a doença. Mesmo depois de sua morte, ninguém foi até ele durante três dias. Seu cadáver começou a apodrecer e a exalar mau cheiro. Por fim, os moradores do bairro começaram a repreender seus filhos; segundo um relato, eles pagaram a alguns trabalhadores abissínios para retirar e sepultar o cadáver. Outro relato diz que cavaram uma cova e, empurrando o cadáver com um pedaço de madeira, fizeram-no cair nela e o cobriram com terra e pedras. Sua derrota final ocorreu da seguinte maneira: a religião que ele havia empregado todas as suas forças para exterminar foi aceita por seus próprios filhos. Primeiro, sua filha Durra (que Allah esteja satisfeito com ela) migrou de Meca para Medina e aceitou o Islã. Depois, após a conquista de Meca, seus dois filhos, Utba (que Allah esteja satisfeito com ele) e Mu’attab (que Allah esteja satisfeito com ele), compareceram perante o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por intermédio de Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e prestaram juramento de lealdade em suas mãos abençoadas.

A propagação do Islã entre o povo em geral

Depois de transmitir a mensagem de Deus à sua própria família e à sua tribo, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) iniciou a pregação geral entre os habitantes de Meca e da Arábia. Durante os dez anos em que permaneceu em Meca, continuamente, em toda circunstância e em todo lugar, recitava o Alcorão às pessoas e as convidava a aceitar a religião de Allah. Ele realizava esse trabalho em reuniões privadas, em assembleias públicas e no Haram da Caaba. Prosseguiu nesse trabalho, e nenhuma força pôde impedi-lo. Também se encontrava com aqueles que vinham de fora a Meca para negócios, para a Umra, para a visita ou com qualquer outro propósito. Ele ia às feiras de Ucaz, Majanna e Dhu al-Majaz [Além de Mina, esses três lugares eram locais onde vinham pessoas de todas as regiões da Arábia e onde se realizavam grandes feiras. A maior era a de Ucaz: viajando à velocidade de um camelo, levava-se um dia para chegar ali desde Taife e três dias desde Meca. Do início ao fim de Xaual, reunia-se ali uma enorme multidão. Não havia apenas comércio; também vinham poetas, oradores e emires. Realizavam-se concursos de poesia e de discursos. As disputas entre as tribos também eram resolvidas. Arrecadava-se o resgate para libertar os prisioneiros. As reivindicações de uns contra outros eram igualmente apresentadas ao conselho. Depois, a partir do primeiro dia de Zulcaada,‘Marr al-Zahran’(atual vale de Fátima), as pessoas começavam a se reunir. Nos últimos dez dias de Zulcaada, realizava-se uma feira junto à montanha chamada Majanna. Depois, nos primeiros oito dias de Zul-Hijja, realizava-se a feira de Dhu al-Majaz no local entre Mina e Arafa. Em seguida começavam os dias do Hajj. Pessoas de toda a Arábia reuniam-se em Mina para o Hajj. — O autor] e convidava os membros das tribos, nessas feiras, para a religião da verdade. Durante o Hajj, quando as pessoas permaneciam em Mina, ele também ia aos acampamentos de cada tribo e não poupava esforços para transmitir o convite à verdade diante de pessoas importantes e do povo em geral. Aceitassem ou não, ouvissem em silêncio ou respondessem com dureza, viessem com hostilidade ou os perversos coraixitas criassem obstáculos, em todas as circunstâncias ele continuava realizando a sua missão. Ninguém pôde impedi-lo.

Ibn Jarir Tabari escreveu em sua História, e Ibn al-Amir também escreveu, que, mesmo na difícil situação de rompimento das relações econômicas e sociais dos coraixitas e de confinamento no desfiladeiro de Abu Talib, o Profeta (que a paz esteja com ele) não abandonou o trabalho de convite e pregação. Pelo contrário, continuou pregando pública e secretamente, de dia e de noite. Ele recitava publicamente as suratas e os versículos do Alcorão que desciam como uma chuva torrencial. Respondia de modo contundente aos argumentos e debates dos incrédulos e continuava tentando convencê-los a aceitar a verdade.

Ibn Saade disse que, depois de terminado o período da pregação secreta, durante dez anos ele seguiu este método: ia aos acampamentos de cada tribo em Mina, Ucaz e Dhu al-Majaz e dizia:

******************************************************

— Dizei: “Não há divindade além de Allah”; alcançareis o sucesso. Por meio desta fórmula, tornar-vos-eis governantes da Arábia, e os persas vos obedecerão. Quando tiverdes abraçado a fé, sereis reis no Paraíso.

Enquanto isso, quando Abu Lahab ia atrás dele e se opunha a ele, as pessoas diziam: “A tua família, a tua tribo e os habitantes da tua cidade conhecem-te bem. Se eles não aceitaram obedecer-te, como poderemos nós fazê-lo?” Depois de ouvir essa resposta, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) limitava-se a dizer:

******************************************************

— Ó Senhor! Se tivesses querido, eles não teriam sido assim.

At-Tabari citou relatos de Haris ibn al-Haris e Mumbati Azdi que são praticamente semelhantes, nos quais se afirma: “Vimos o Mensageiro de Deus convidando as pessoas ao tawhid e dizendo: ‘Dizei: não há divindade senão Deus, e alcançareis o sucesso.’”

Víamos as pessoas atormentá-lo de várias maneiras. Algumas cuspiam nele, outras jogavam terra e outras o insultavam. Depois, quando chegou o meio-dia, todas foram embora. Então vimos uma menina chegar trazendo um grande recipiente de água e um lenço. Seu pescoço estava descoberto na parte da frente. O Mensageiro de Deus bebeu água e fez a ablução. Depois disse à menina: “Minha filha, cubra o pescoço.” Ao perguntarmos, descobrimos que a menina era sua filha, Hazrat Zaynab (que Deus esteja satisfeito com ela).

Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, afirma que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) apresentava seu convite em todas as feiras e assembleias. Assim, sempre que alguma personalidade importante da Arábia chegava a Meca, ele se encontrava com ela e lhe transmitia o convite para a religião de Deus.

Ibn Kathir escreveu em Al-Bidaya wa’n-Nihaya que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) continuou a convidar as pessoas, de dia e de noite, em segredo e abertamente, sem se deixar impedir por ninguém. Ele fazia seu convite nas reuniões públicas. Ia às feiras e aos lugares onde os peregrinos permaneciam durante o Hajj, apresentando-lhes o convite. Encontrava-se com pessoas de todas as classes — livres e escravizadas, fracas e fortes, ricas e pobres — e convidava-as para Deus.

O pleno apoio a esses relatos históricos encontra-se nas suratas mecânicas do Alcorão Sagrado, repletas de respostas às diversas objeções e acusações dos coraixitas. É evidente que, se o Alcorão não lhes tivesse sido recitado publicamente e se Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) não os tivesse convidado abertamente a aceitar sua profecia, por que e como teriam eles desencadeado contra ele uma tempestade de objeções, acusações, dúvidas e suspeitas contra o Alcorão, a vida futura e os ensinamentos do Islã? E que sentido teria responder-lhes no Alcorão, se isso não tivesse sido recitado aos opositores?

A influência moral do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele)

A questão é: que motivo havia para que os coraixitas não conseguissem impedir o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) de rezar no Santuário nem de recitar publicamente o Alcorão? Na verdade, essas duas coisas eram insuportáveis para eles. Nenhum outro muçulmano ousava fazer sequer uma delas. E quem ousasse fazê-lo sofreria uma surra violenta. O fato é que a verdadeira razão não era apenas que os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib estavam dispostos a dar a vida em apoio ao Profeta, e que os coraixitas tinham medo disso; era também a enorme influência do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), que mantinha os coraixitas subjugados. Eles ficavam descontrolados diante de seu convite, insultavam-no, atiravam-lhe pedras e o magoavam de diversas maneiras. Contudo, essa influência moral havia os tornado tão vazios por dentro que não conseguiam impedi-lo de cumprir a missão profética.

Havia várias razões para essa influência que inspirava temor. Uma delas era que, por meio do conhecimento, da observação e da experiência contínuos que tinham dele desde a infância, haviam compreendido esta verdade; por isso, toda a nação sabia desde o início que uma personalidade extraordinária havia nascido entre eles. Por essa razão, mesmo antes da profecia, ele era visto com respeito em Meca. A segunda razão era que ninguém jamais ouvira uma palavra errada de sua boca sagrada. As pessoas acreditavam que aquilo que saía de sua boca se tornava realidade. Por isso, temiam que ele dissesse algo a respeito delas que lhes trouxesse alguma desgraça. Pouco acima foi narrado o episódio em que um inimigo como Abu Lahab, ao ouvir a maldição do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) contra seu filho, ficou apavorado. Durante uma viagem à Síria, pediu aos companheiros que o ajudassem a proteger seu filho, pois temia pela vida dele em razão das palavras que o Profeta Muhammad pronunciara a seu respeito. Porém, todas as suas medidas de precaução fracassaram. Aquele filho foi despedaçado e devorado por um “cão de Deus”, depois que o animal atravessou o cercado dos camelos.

A terceira razão era o caráter imaculado do Santo Profeta (S), ao qual não havia qualquer possibilidade de fazer acusação. Toda a nação conhecia esse seu nobre caráter e também o reconhecia. Centenas de pessoas de Meca e das regiões circundantes ficaram profundamente impressionadas com seu comportamento cativante; por sua honestidade, fidelidade e zelo em guardar os depósitos, até seus inimigos depositavam confiança nele. Tanto que, até o momento de sua migração para Medina, segundo o relato de Ibn Jarir, a situação era tal que não havia em Meca uma única pessoa que desejasse confiar a guarda de seus bens valiosos a alguém e pudesse depositar confiança em qualquer outro além do Profeta Muhammad (S). Foi justamente por causa dessa influência moral que até seu mais ferrenho inimigo perdia toda a coragem ao enfrentá-lo e não ousava falar diante dele. Dois acontecimentos envolvendo o Profeta (S) e Abu Jahl comprovam a veracidade disso. (Adendo.)

O episódio em que Abu Jahl ficou aterrorizado

Ibn Ishaq relata que certa vez um homem do lugar chamado ‘Irash [Este é o nome de um lugar mencionado no Mu’jam al-Buldan. É provável que também fosse o nome da tribo que vivia ali — o autor.] veio a Meca com alguns camelos para vendê-los. Abu Jahl comprou seus camelos. Quando o vendedor veio cobrar o pagamento, Abu Jahl começou a apresentar toda sorte de desculpas e evasivas. Desesperado, o homem de Irash foi finalmente, certo dia, aos líderes dos coraixitas no Haram da Caaba, contou-lhes tudo e suplicou aos presentes que lhe fizessem justiça. Enquanto isso, o Profeta (S) estava sentado num canto do Haram. Os líderes dos coraixitas disseram ao homem: “Não podemos fazer nada. Vá até aquele homem sentado no canto e diga-lhe que ele fará com que sua dívida seja paga.”

O homem de Irash dirigiu-se ao Profeta (S). Enquanto isso, os líderes dos coraixitas começaram a dizer uns aos outros: “Hoje veremos algo divertido.” Assim que o homem apresentou sua queixa ao Profeta (S), ele se levantou e partiu com o homem em direção à casa de Abu Jahl. O Santo Profeta (S) foi diretamente à porta de Abu Jahl e começou a bater. De dentro, ele perguntou: “Quem é?” O Profeta (S) respondeu: “Muhammad (S).” Atordoado, ele saiu. O Profeta (S) disse-lhe: “Pague a dívida deste homem.” Sem dizer palavra, ele entrou, trouxe o preço dos camelos e o entregou ao homem.

Depois de testemunhar essa cena, o espião dos coraixitas correu rapidamente em direção ao Haram da Caaba e relatou o ocorrido aos líderes dos coraixitas. Ele disse: “Juro por Deus, nunca vi nada igual ao que vi hoje. Assim que Abu Jahl saiu e viu Muhammad (S), seu rosto perdeu a cor. Depois, quando Muhammad (S) lhe disse que pagasse sua dívida, pareceu que seu corpo havia perdido a vida.” (Ibn Hisham, vol. 2, pp. 29–30; al-Baladhuri, Ansab al-Ashraf, vol. 1, pp. 128–129.) (Tafhim al-Qur’an, vol. 3, Surata al-Ma’un, nota 5.)

O segundo acontecimento

O segundo acontecimento foi narrado pelo cádi Abu al-Hasan al-Mawardi em sua obra ‘A’lam al-Nubuwwa’ *******************. Ele diz que Abu Jahl era o tutor de uma criança órfã. Essa criança veio até Abu Jahl completamente nua e disse: “Dê-me uma parte dos bens deixados por meu pai.” Mas o opressor não lhe deu a menor atenção. Depois de permanecer ali por algum tempo, ela voltou desesperada. Os líderes dos coraixitas, por brincadeira maldosa, disseram-lhe: “Vá queixar-se a Muhammad (S). Ele recomendará você a Abu Jahl e conseguirá algo para você.” A pobre criança não sabia qual era a relação entre Abu Jahl e Muhammad (S), nem com que propósito aquelas pessoas vis faziam tal sugestão; foi diretamente até o Profeta (S) e contou-lhe sua situação. Ele imediatamente levou a criança consigo à casa de Abu Jahl. Abu Jahl recebeu cordialmente o Profeta (S). Ele disse: “Entregue a este menino o que lhe é de direito.” Abu Jahl concordou imediatamente, trouxe os bens de que a criança necessitava e os entregou ao órfão.

Enquanto isso, os líderes dos coraixitas aguardavam para ver se ocorreria algum incidente desagradável entre os dois. Mas, quando souberam o que realmente havia acontecido, aproximaram-se de Abu Jahl, espantados, e começaram a censurá-lo, dizendo: “Você abandonou sua própria religião?” Ele respondeu: “Juro por Deus, não abandonei minha religião. Mas tive a impressão de que havia uma arma terrível à sua direita e outra à sua esquerda. Se eu fizesse qualquer coisa contra a vontade dele, elas dividiriam meu corpo em dois.”

Esses acontecimentos mostram até que ponto a influência do Profeta (S) mantinha seus inimigos aterrorizados. (Tafhim al-Qur’an — volume 6 — Al-Ma’un, nota 5.)

Terceiro acontecimento

Segundo o relato de Baladhuri, certo dia o Profeta (S) estava sentado na Mesquita Sagrada com Abu Bakr (R), Umar (R) e Sa’d ibn Waqqas (R). Nesse momento, chegou um homem dos Banu Zubayda. Ele disse: “Ó povo dos coraixitas! Quem, entre vocês, traz mercadorias para cá? Pois vocês saqueiam aqueles que vêm de fora.” O Profeta (S) perguntou: “Quem lhe fez injustiça?” Ele respondeu: “Abu al-Hakam, isto é, Abu Jahl. Ele quis comprar meus três melhores camelos e fixou para eles um preço extremamente baixo. Agora ninguém está disposto a pagar mais do que isso. E, se eu os vender por esse preço, sofrerei um prejuízo terrível.” O Profeta (S) comprou os três camelos. Abu Jahl observava tudo em silêncio, de longe. O Profeta (S) aproximou-se dele e disse: “Cuidado! Não torne a tratar ninguém da maneira como tratou este beduíno. Caso contrário, tratarei você da mesma maneira.” Ele continuou dizendo: “Jamais farei algo assim novamente.” Umayyah ibn Khalaf e os demais politeístas que estavam presentes começaram a censurar Abu Jahl, dizendo: “Você demonstrou tamanha fraqueza diante de Muhammad (S) que começamos a suspeitar que se tornou seu seguidor.” Ele respondeu: “Juro por Deus! Jamais obedecerei a ele. Mas vi vários homens armados com lanças posicionados à sua direita e à sua esquerda. Tive a impressão de que, se desobedecesse minimamente à ordem de Muhammad (S), eles cairiam sobre mim.” (Ansab al-Ashraf, volume 1, página 13.)

Os opositores reconheciam a honestidade e a veracidade do Profeta (S)

Além disso, havia também esta importante razão: até mesmo os mais ferrenhos opositores do Profeta (S) reconheciam, no íntimo, sua honestidade e veracidade, e consideravam a si mesmos mentirosos. Contudo, opunham-se a ele por causa de suas más intenções, da ignorância, do orgulho, do fanatismo pela religião dos antepassados e dos interesses pessoais. Aqueles que abrigavam essa fraqueza não tinham coragem de enfrentá-lo diretamente, embora recorressem a todos os meios para obstruir seu caminho. Mencionaremos vários acontecimentos históricos a esse respeito. Aqui, quero falar apenas de Abu Jahl: como o maior inimigo do Profeta (S) reconheceu repetidamente sua honestidade e veracidade, e de que maneira repugnante explicou a verdadeira razão de sua oposição.

Bayhaqi, citando o relato de Mughirah ibn Shu’bah, transmitido por Zayd ibn Aslam, diz como ocorreu seu primeiro encontro com o Profeta (S), na época do politeísmo. Ele relata: “Eu e Abu Jahl caminhávamos por uma rua de Meca. Nesse momento, encontramos o Profeta (S). Ele disse a Abu Jahl: ‘Ó Abu al-Hakam! Vem para junto de Deus e de Seu Mensageiro. Estou convidando-te para junto de Deus.’ Ele respondeu: ‘Ó Muhammad (S)! Você não vai parar de insultar nossos deuses? Você quer apenas que testemunhemos que transmitiu sua mensagem. Pois bem, testemunhamos que você transmitiu sua mensagem. Mas, por Deus, se eu soubesse que você está sobre a verdade, eu o seguiria.’”

Depois, o Profeta (S) seguiu adiante. Então Abu Jahl voltou-se para mim e disse: “Juro por Deus! Sei que tudo o que este homem diz é verdade. Mas há uma coisa que me impede. Os descendentes de Qusayy disseram: ‘A responsabilidade de alimentar os peregrinos ficará conosco na época do Hajj, não ficará?’ Respondi: ‘Sim.’”

Eles disseram: “A responsabilidade de fornecer água ficará conosco, não ficará?”

Eu disse: — Sim.

— A Nadwa é nossa?

— Sim.

— A bandeira ficará conosco, não é?

— Sim.

Depois, eles nos ofereceram comida. Nós também lhes oferecemos comida. Então nossos joelhos tocaram os joelhos deles, e eles disseram: — Entre nós há um profeta.

Eu disse: — Juro por Deus, não aceitarei isso.

Ibn Abi Hatim, citando Yazid Madani, relata que certa vez Abu Jahl encontrou-se com o Profeta (S) e apertou sua mão. Alguém lhe disse: — Como é que estou vendo você apertar a mão de um sábir (alguém que se afastou da religião)? Abu Jahl chamou-o à parte e disse em voz baixa: — Juro por Deus, sei que ele é de fato um profeta. Mas quando foi que nós nos tornamos subordinados aos Banu Abd Manaf?

O Imame Sufyan al-Thawri, al-Tirmidhi e al-Hakim, citando o relato de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), dizem que Abu Jahl disse ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Não te consideramos mentiroso; contudo, consideramos falsa a mensagem que trouxeste.”

Al-Bayhaqi e Ibn Hisham, por intermédio de Ibn Ishaq, que por sua vez o transmitiu de Imam al-Zuhri, relatam este episódio interessante: certa noite, Abu Jahl, Abu Sufyan e Akhnas ibn Shurayq saíram separadamente para ouvir o Alcorão que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava durante a oração noturna. Nenhum dos três sabia da presença dos outros. Ao amanhecer, encontraram-se, censuraram-se mutuamente e juraram que não fariam aquilo novamente, pois, se as pessoas os vissem ouvindo o Alcorão daquela maneira, ele acabaria ocupando um lugar em seus corações. O mesmo aconteceu na segunda noite. Depois de se encontrarem, tornaram a jurar que não fariam aquilo novamente. Na terceira noite, quando o mesmo ocorreu e eles novamente fizeram aquilo que haviam jurado não fazer, Akhnas foi até Abu Sufyan com um bastão na mão e disse: “Ó Abu Hanzala! Dize-me sinceramente: qual é a tua opinião sobre o que ouviste de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?”

Ele respondeu: “Ó Abu Tha’laba! Por Allah, ouvi algumas coisas que consigo compreender e cujo significado também entendo, e outras cujo significado não consegui compreender.” Akhnas disse: “A minha situação é a mesma.” (Hafiz Ibn Hajar ‘‘al-Isaba’’), na narrativa de Imam al-Zuhri sobre este episódio, transmitida de Hazrat Sa’id ibn al-Musayyab, afirma que Abu Sufyan perguntou a Akhnas: “Qual é a tua opinião?” Ele respondeu: “Eu considero-o verdadeiro.” Há apoio adicional para esta afirmação no relato de Hazrat Mu’awiya (que Allah esteja satisfeito com ele), citado por al-Tabarani em ‘‘al-Awsat’’. Ele diz: “Certa vez, meu pai, Abu Sufyan, levava minha mãe, Hind, montada num jumento, dirigindo-se para uma região desértica. Eu ia à frente deles, montado em outro jumento. No caminho, encontramos o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Meu pai disse-me: ‘Mu’awiya, desce, para que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) possa montar no teu jumento.’ Então desci, e o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) montou. Depois, dirigindo-se a meu pai e à minha mãe, disse: ‘Ó Abu Sufyan e ó Hind bint Utba! Por Allah, todos vós morrereis um dia; depois sereis ressuscitados. Então, aquele que for virtuoso entrará no Paraíso, e aquele que for pecador entrará no Inferno.’ Em seguida, recitou-lhes os primeiros onze versículos da surata Ha-Mim al-Sajdah. Depois desceu do jumento, e eu montei. No caminho, minha mãe disse a meu pai: ‘Tu fizeste meu filho descer do jumento para colocares nele este mentiroso e feiticeiro?’ Meu pai respondeu: ‘Por Allah, este homem não é feiticeiro nem mentiroso.’ — AutorDepois, ele foi até Abu Jahl e disse: “Ó Abu al-Hakam, qual é a tua opinião sobre tudo o que ouviste de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?” Ele respondeu: “O que ouvi? Havia entre nós e os Banu Abd Manaf uma competição para saber quem era superior em dignidade. Eles ofereciam comida, e nós também. Eles suportavam o peso das responsabilidades, e nós também. Eles doavam riquezas e bens, e nós também. Por fim, quando nos tornámos iguais em tudo, começaram a dizer: ‘Há entre nós um profeta que recebe revelação do céu.’ De onde obteremos algo assim? Por Allah, não acreditaremos nele nem reconheceremos a sua veracidade.” Abu Jahl disse praticamente as mesmas palavras a Akhnas ibn Shurayq quando este o encontrou a sós durante a batalha de Badr. Ibn Jarir al-Tabari cita, no seu tafsir, sob a autoridade de al-Suddi, que Akhnas disse a Abu Jahl: “Neste momento, não há aqui ninguém além de mim e de ti. Diz-me sinceramente: Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é mentiroso ou veraz?” Ele respondeu: “Por Allah, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é veraz. Ele nunca mentiu. Mas, quando os Banu Qusay assumiram também o estandarte, a administração da Caaba e o fornecimento de água aos peregrinos, o que restou aos coraixitas?”Depois de a autoridade sobre a Caaba passar para os Banu Qusay, eles tinham de desempenhar certas funções durante o Hajj. Um deles era escolhido como porta-estandarte; esse cargo chamava-se liwa. Uma das suas responsabilidades era fornecer água aos peregrinos, o que se chamava siqaya. As chaves da Caaba também ficavam em suas mãos, e cabia-lhes abri-la e fechá-la para os peregrinos; isso se chamava hijaba. Esta questão foi mencionada neste livro. — TradutorSe eles levavam também a profecia, então o que restava aos coraixitas?”

Se essa era a situação de um inimigo tão obstinado do Islão como Abu Jahl, pode-se facilmente imaginar qual seria a situação dos demais.

As convicções e crenças dos coraixitas acerca do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Também é digno de menção que justamente aqueles coraixitas que se opunham abertamente a ele estavam convencidos da excelência do Profeta (s). Quando o violento conflito entre eles, o Profeta (s) e os muçulmanos estava em curso, uma terrível fome atingiu Meca. Então todos os habitantes começaram a clamar. Os chefes de Meca pediram ao Profeta (s) que suplicasse para que sua comunidade fosse salva daquela calamidade. O imame Bukhari e Bayhaqi, com algumas diferenças de redação, citam, por intermédio de Masruq, o relato de Abd Allah ibn Masud (que Deus esteja satisfeito com ele): quando o Mensageiro de Deus (s) viu que os coraixitas estavam determinados a rebelar-se contra ele, suplicou: “Ó Deus! Castiga também estas pessoas com uma fome de sete anos, como a fome de sete anos de José (que a paz esteja com ele).” Então ocorreu uma fome tão terrível que as pessoas passaram a comer carcaças, ossos e até peles de animais. Por fim, Abu Sufyan e várias pessoas de Meca foram até o Profeta (s) e rogaram: “Ó Muhammad (s)! Você afirma que foi enviado como misericórdia; mas agora sua comunidade está prestes a perecer. Suplique por ela.”

Depois desse pedido, o Profeta (s) suplicou, e caiu uma chuva tão abundante que as pessoas voltaram a pedir-lhe que suplicasse para protegê-las do excesso de chuva. Ele suplicou: “Ó Deus! Que ela caia ao nosso redor, e não sobre nós.” Então o céu se desanuviou.

O imame Bukhari cita, com base no relato de Ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele), que Abu Sufyan foi até o Profeta (s) para pedir que as pessoas fossem salvas da fome. Por meio da súplica do Profeta, a calamidade da fome foi afastada.

Esses acontecimentos deixam claro por que os chefes dos coraixitas não ousavam entrar em confronto direto com o Profeta nem tentar impedir à força a sua pregação. Ao mesmo tempo, porém, não toleravam que sua pregação continuasse, que a religião de seus antepassados fosse eliminada, que se difundisse um sistema de vida completamente contrário ao deles e que as pessoas continuassem a aceitar o Islã. Por isso, decidiram que seu convite jamais deveria se expandir e que deveria ser obstruído a qualquer custo. Movidos por esse ressentimento, às vezes chegavam a maltratá-lo. (Acréscimo.)

Oitavo capítulo

As maquinações dos coraixitas para impedir o convite islâmico

Antes de iniciar esta discussão, é preciso saber que o comportamento de todas as tribos dos coraixitas em relação ao Islã e ao Mensageiro de Deus (s) não era igual. Pelo contrário, eles estavam divididos em diferentes grupos.

Havia um grupo que era extremamente hostil. Ele era composto pelos grandes notáveis e chefes da sociedade. Ibn Saad, em seu Tabaqat, menciona seus nomes da seguinte forma: Abu Jahl; Abu Lahab; Aswad ibn Abd Yaghuth (era dos Banu Zuhrah e primo materno do Profeta (s)); Harith ibn Qays ibn Adi (era dos Banu Sahm e conhecido como Ibn al-Ghaytalah); Walid ibn Mughirah (Banu Makhzum); Umayyah ibn Khalaf e Ubayy ibn Khalaf (Banu Jumah); Abu Qays ibn Faqih ibn Mughirah (Banu Makhzum); As ibn Wa’il al-Sahmi (pai de Amr ibn al-As); Nadr ibn al-Harith (dos Banu Abd Allah); Munabbih ibn Sayfi ibn Abid (Banu Makhzum); Aswad ibn Abd al-Asad al-Makhzumi; As ibn Said ibn al-As (Banu Umayyah); Abu al-Bakhtari As ibn Hisham (Banu Asad); Uqbah ibn Abi Muayt (Banu Umayyah); Ibn al-Asadi al-Hudhali, Hakam ibn Abi al-As (Banu Umayyah); e Sadi ibn Hamra al-Thaqafi.

A segunda categoria era composta por aqueles chefes coraixitas que, embora fossem certamente inimigos, não eram inimigos que se opunham ao Profeta (S) e aos muçulmanos com todas as suas forças, como o grupo mencionado acima. Naturalmente, esses inimigos apoiavam qualquer medida tomada contra o Islã. Ibn Sa‘d incluía Utba ibn Rabia, Shayba ibn Rabia e Abu Sufyan entre esse tipo de inimigos. Contudo, o comportamento daqueles que eram os mais hostis de todos é descrito assim no Alcorão:

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Vede! Eles inclinam o peito para trás, a fim de se esconderem dele (Hud: 6).

Em outras palavras, eles estavam tão avessos à pregação do Profeta (S) que queriam evitá-lo. Se o vissem sentado em algum lugar, afastavam-se. Se o vissem vindo de frente, desviavam-se para outro lado ou cobriam o rosto com a ponta do manto, temendo que, caso se encontrassem face a face, ele lhes dirigisse a palavra e lhes dissesse alguma coisa.

Quanto ao povo comum de Meca, alguns eram neutros e alguns apoiavam secretamente o Islã, mas mantinham sua adesão ao Islã em segredo. Outros aceitavam o Islã. Um grande número de pessoas, porém, inspirado por seus chefes e para preservar a dignidade da religião ancestral, envolvia-se nas atividades hostis que eram empreendidas contra o Islã.

Agora descreveremos separadamente as diversas manobras adotadas para bloquear o caminho da pregação islâmica.

1. Tentativas de conciliação com o Profeta (S)

Como os opositores sentiam a personalidade extraordinária do Profeta (S) e a influência irresistível do Alcorão, tentavam repetidamente conversar com ele para ver se conseguiriam convencê-lo, de alguma forma, a chegar a um acordo sobre a religião. Para esse fim, várias delegações se encontraram com ele, e também pessoas específicas conversaram com ele.

O encontro de Utba bin Rabia com ele

Entre esses encontros, o encontro com Utba bin Rabia foi importante, e vários muhaddithun o narraram de diferentes maneiras. Contudo, não houve muita divergência quanto ao resultado. Ibn Abi Shaybah cita uma narração de Ibn Umar (que Deus esteja satisfeito com ele), e Abdullah bin Hamid, Abu Ya’la e Baihaqi citam uma narração de Jabir bin Abdullah Ansari (que Deus esteja satisfeito com ele), segundo a qual, certo dia, alguns homens dos coraixitas se reuniram e disseram uns aos outros: «Vejam, quem entre vocês é o mais hábil em magia, adivinhação e composição de poesia? Ele irá até esse homem que provocou divisão em nosso grupo, causou desgraças e calamidades em nossos assuntos e negócios e maculou nossa religião. Falemos com ele e vejamos o que responde». Disseram: «Em nossa opinião, não há ninguém assim além de Utba bin Rabia». Então todos disseram: «Abu’l-Walid! Faça você isso». E ele foi até o Profeta (que a paz esteja com ele). (Acréscimo do autor.)

A segunda versão foi citada por Muhammad bin Ishaq e Baihaqi, com base em Muhammad bin Ka’b al-Qurazi. Nela se afirma que, certa vez, alguns chefes dos coraixitas estavam reunidos na Mesquita Sagrada, enquanto, do outro lado da mesquita, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) estava sentado sozinho. Isso ocorreu quando Hazrat Hamza (que Deus esteja satisfeito com ele) havia abraçado a fé, e os coraixitas estavam muito preocupados ao ver que o número de muçulmanos aumentava continuamente. Nessa situação, Utba bin Rabia (sogro de Abu Sufyan) disse aos chefes dos coraixitas: «Se vocês acharem bom, falarei com Muhammad (que a paz esteja com ele) e lhe farei algumas propostas. Talvez ele aceite alguma delas, e nós também possamos aceitá-la. Assim, talvez ele deixe de se opor a nós». Todos os presentes concordaram e disseram: «Abu’l-Walid! Confiamos plenamente em você; certamente fale com ele».

Utba levantou-se, foi até o Profeta e sentou-se. Quando este lhe deu atenção, ele disse: «Meu sobrinho, você sabe que era objeto de nosso respeito e que, em termos de linhagem, é filho de uma família nobre. Que calamidade você trouxe agora sobre nosso povo? Você provocou divisão em nosso grupo. Considera toda a nossa gente insensata. Insulta nossa religião e nossos ídolos. Considera incrédulos nossos pais e antepassados mortos. Agora, escute algumas palavras minhas. Vou fazer-lhe algumas propostas. Pense bem nelas. Talvez você aceite uma delas».

O Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) disse: «Abu’l-Walid! Fale, eu o escutarei».

Ele disse: «Meu sobrinho! Se o objetivo do trabalho que você iniciou é obter riqueza, nós todos lhe daremos tanto que você se tornará o mais rico entre nós. Se deseja alcançar distinção, faremos de você nosso chefe e não tomaremos nenhuma decisão sem você. E, se deseja o reinado, faremos de você nosso rei. Se algum jinn o afetou, de modo que você não consegue livrar-se disso e vê certas coisas durante o sono e a vigília, chamaremos os melhores médicos e todos nós arcaremos com as despesas de seu tratamento». Utba continuava falando, e o Profeta (que a paz esteja com ele) ouvia tudo em silêncio.

Depois, ele disse: «Abu’l-Walid! Você terminou tudo o que tinha a dizer, ou ainda tem algo mais a dizer?» Ele respondeu: «Não, já disse tudo o que tinha a dizer». O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: «Muito bem! Então agora escute o que tenho a dizer». Em seguida, pronunciou «Bismillahir-Rahmanir-Rahim» e começou a recitar a surata Ha-Mim, As-Sajda. Utba escutou atentamente, apoiando as duas mãos para trás. Quando chegou ao versículo da prostração (versículo 38), o Profeta (que a paz esteja com ele) prostrou-se e, depois de erguer a cabeça, disse: «Abu’l-Walid! Você ouviu minha resposta. Agora, você sabe, e sua responsabilidade é sua».

Utba levantou-se e dirigiu-se à reunião dos chefes dos coraixitas. De longe, ao vê-lo, as pessoas comentaram: «Por Deus! Houve uma mudança no rosto de Utba. Já não tem o mesmo rosto com que foi». Depois, quando ele chegou e se sentou entre eles, disseram: «O que você foi ouvir?»

Ele disse: “Juro por Deus! Ouvi uma fala como nunca havia ouvido antes. Juro por Deus, isto não é poesia, nem magia, nem adivinhação. Ó coraixitas! Escutem-me e deixem-no seguir o seu caminho. Creio que estas palavras se tornarão realidade. Imaginem: se os árabes o vencerem, vocês ficarão livres de levantar a mão contra o próprio irmão; outros cuidarão dele. Mas, se ele vencer os árabes, então o seu reinado será o vosso reinado, e a sua honra e dignidade serão a vossa honra e dignidade.”

Ao ouvirem suas palavras, os líderes coraixitas disseram: “Ó pai de Walid! Afinal, a magia dele também fez efeito sobre você?”

Utba disse: “Eu lhes expus a minha opinião. Agora façam o que quiserem.”

Entre os relatos sobre este acontecimento reunidos por Baihaqi, havia ainda o seguinte: quando o Profeta (S) chegou ao versículo 13 de Ha-Mim-Sajdah—

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“Se eles se voltarem, dize-lhes: ‘Eu vos advirto de um castigo repentino, semelhante ao que se abateu sobre Ad e Samud’”, Utba, espontaneamente, colocou a mão sobre o rosto do Profeta (S) e, invocando o laço de parentesco, começou a dizer: “Não diga uma coisa dessas.” Mais tarde, ao explicar às pessoas por que havia dito isso, afirmou: “Vocês sabem que, quando Muhammad (S) diz algo, isso não deixa de acontecer. Por isso temi que o castigo me atingisse.” (Tafhim, vol. 3, Al-Anbiya, nota 5; vol. 4, introdução a Ha-Mim-Sajdah.)

O encontro com outra delegação

Muhammad ibn Ishaq, citando um relato de Ibn Abbas (R.A.), diz que certa vez Utba ibn Rabi’a, Shayba ibn Rabi’a, Abu Sufyan ibn Harb, Nadr ibn Harith, Abu al-Bakhtari ibn Hisham, Aswad ibn al-Muttalib, Umayya ibn Khalaf, As ibn Wa’il e Nubayya e Munabbih, filhos de Hajjaj ibn Shiham, reuniram-se após o pôr do sol perto da parede da Caaba e começaram a dizer uns aos outros: “Chamemos Muhammad (S), falemos com ele e apresentemos-lhe uma decisão final.” Enquanto isso, informaram também o Profeta (S) de que os homens nobres de seu povo haviam se reunido para conversar com ele. Como ele estava extremamente desejoso de guiá-los ao caminho correto, apresentou-se imediatamente diante deles. Eles disseram: “Ó Muhammad (S)! Nós te chamamos para dar uma decisão final sobre o teu caso. Juro por Deus! Não conhecemos nenhum homem entre os árabes que tenha provocado em seu povo uma discórdia como a que provocaste entre a tua gente. Insultaste os antepassados, encontraste defeitos na religião, consideraste as pessoas tolas, falaste contra os deuses e deusas, provocaste divisão entre o grupo e não há nada desagradável que não tenhas causado entre ti e nós. Se fizeste tudo isso com o objetivo de obter riqueza, reuniremos dinheiro e te daremos tanto que te tornarás o mais rico entre nós. Se desejas alcançar superioridade sobre nós, faremos de ti o nosso líder. Se queres o reinado, faremos de ti um rei. E, se algum jinn se apoderou de ti, gastaremos o nosso próprio dinheiro para te tratar, a fim de que possas libertar-te da influência desse jinn. Depois de fazermos tudo isso, ao menos teremos cumprido a nossa justificativa diante de ti.”

Em resposta, o Profeta (S) disse: «Eu não sofro de nenhuma das doenças de que falais. Também não vos peço qualquer pagamento pelo que vos trouxe. Tampouco desejo obter superioridade sobre vós ou tornar-me vosso rei. Pelo contrário, Allah enviou-me a vós como Mensageiro. Ele está a revelar-me um Livro e ordenou-me que fosse, para vós, um anunciador de boas-novas (por aceitardes a fé) e um admoestador (por não aceitardes a fé). Portanto, transmiti-vos a mensagem do meu Senhor e aconselhei-vos. Agora, se aceitardes aquilo que trouxe, isso será para vós causa de felicidade neste mundo e no Além. Mas, se o rejeitardes, continuarei a perseverar, por ordem de Allah, até que Allah decida entre mim e vós.» Em resposta, os líderes dos incrédulos exigiram dele diversos tipos de milagres.[Nota — como exemplo, diz-se no Alcorão:

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— Se tivéssemos feito descer sobre ti um Livro escrito em papel, e estas pessoas o tivessem tocado e visto com as próprias mãos, os que não creram teriam dito: «Isto não passa de magia evidente.» (Al-An’am: 7)

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— E, se abríssemos para eles uma porta do céu e eles começassem a subir por ela, diriam: «Os nossos olhos foram enganados; pelo contrário, fomos enfeitiçados.» (Al-Hijr: 14–15).]

No relato deste acontecimento que Ibn Hisham transmitiu de Ibn Ishaq, acrescenta-se que, depois de exigirem milagres, o Profeta (S) disse: «Não vim até vós para realizar todas essas coisas. Transmiti-vos aquilo para cuja apresentação Allah me enviou.»

Por fim, ameaçaram o Profeta (S), dizendo: «Por Deus! Não te deixaremos impune por todas essas tuas ações. Ou nós acabaremos contigo, ou tu acabarás conosco.» (Acréscimo do autor.)

Mais algumas tentativas de conciliação

Além disso, em diferentes ocasiões, os coraixitas continuaram apresentando várias propostas ao Profeta (s), na esperança de que, se ele aceitasse alguma delas, o conflito e a contenda entre ambos os lados pudessem ser eliminados. O eminente Abdullah ibn Abbas (r.a.) relata que os coraixitas disseram ao Profeta (s): “Nós lhe daremos tanta riqueza que você se tornará a pessoa mais rica de Meca. Nós o casaremos com a moça que você escolher. Estamos dispostos a seguir você. Aceite apenas uma coisa que lhe pedimos: abstenha-se de insultar nossas divindades. Se não quiser aceitar isso, temos ainda outra proposta, que será benéfica tanto para você quanto para nós.”

O Profeta (s) perguntou: “Qual é?”

Eles disseram: “Durante um ano, adore as nossas divindades, Lat e Uzza, e durante um ano nós adoraremos o seu Deus.”

O Profeta (s) disse: “Está bem, esperem um pouco; vou ver que ordem vem da parte do meu Senhor.” (Isso não significa que o Mensageiro de Allah (s) considerasse essa proposta aceitável ou digna de consideração de alguma maneira, nem — Deus nos livre — que tenha dado essa resposta aos incrédulos na esperança de que talvez viesse sua aprovação da parte de Allah. Na realidade, suas palavras foram como quando uma proposta absurda é apresentada a um funcionário subordinado que sabe que seu governo jamais poderá aceitar tal exigência. Em vez de rejeitar a exigência diretamente, ele diz aos que a apresentaram: “Enviarei seu pedido às autoridades e lhes comunicarei a instrução que vier.” A diferença é que, se o funcionário inferior rejeitar pessoalmente a exigência, as pessoas continuarão insistindo; mas, se disser que a resposta das autoridades foi contrária à exigência, elas perderão a esperança. — O autor.) Então foi revelada a revelação:

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(Dize:) “Ó incrédulos! Eu não adoro aquilo que adorais. E vós não adorais Aquele a quem adoro. Eu jamais adorarei aquilo que adorastes, nem vós adorareis Aquele a quem adoro. Para vós, a vossa religião; e, para mim, a minha religião.”

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Dize-lhes: “Ó ignorantes! Quereis então dizer-me que adore alguém além de Allah?” (Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, Tabarani).

Segundo uma narração de Ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele), os coraixitas disseram ao Mensageiro (que a paz esteja com ele): “Ó Muhammad (que a paz esteja com ele)! Se você beijar nossas divindades, adoraremos o seu Deus.” Em resposta, foi revelada a surata Al-Kafirun (Abd ibn Hamid).

É narrado por Sa’id ibn Sina (o escravo liberto de Abu al-Bakhtari) que al-Walid ibn al-Mughira, al-As ibn Wa’il, al-Aswad ibn al-Muttalib e Umayyah ibn Khalaf encontraram-se com o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) e disseram: “Ó Muhammad (que a paz esteja com ele)! Venha, vamos torná-lo nosso sócio em todos os nossos negócios. Se aquilo que você trouxe for melhor do que o que temos, participaremos dele e receberemos nossa parte. E, se o que temos for melhor do que aquilo que você trouxe, você será nosso sócio nisso e receberá a sua parte.” Em resposta, foi revelada a revelação ************************************************* (Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, Ibn Hisham e al-Baladhuri também citaram esta narração).

Wahab ibn Munabbih narra que os coraixitas disseram ao Profeta (que a paz esteja com ele): “Se você quiser, durante um ano entraremos na sua religião e, durante um ano, você continuará entrando na nossa religião” (Abd ibn Hamid, Ibn Abi Hatim).

Essas narrações mostram que eles apresentaram propostas desse tipo ao Profeta (que a paz esteja com ele) não uma única vez, na mesma reunião, mas em diferentes ocasiões e circunstâncias; e era necessário dar-lhes uma resposta definitiva de uma vez, frustrando para sempre a esperança de que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) adotasse, no tocante à religião, uma política de dar e receber (GIVE AND TAKE POLICY) e chegasse a algum compromisso com eles. (Introdução à surata Al-Kafirun, Tafhim, volume 6.)

Tentativas de pressionar Abu Talib

A segunda estratégia dos coraixitas para impedir a pregação do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) consistia em visitar continuamente Abu Talib, pressioná-lo e dizer-lhe: “Retire seu apoio a Muhammad (que a paz esteja com ele) e também exerça pressão sobre ele, para que abandone sua missão.”

A primeira delegação

Muhammad ibn Ishaq diz que, quando os coraixitas viram que Abu Talib apoiava o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e não o impedia de fazer aquilo que lhes era intolerável, uma delegação dos homens proeminentes dos coraixitas foi até ele. Entre eles estavam Utbah ibn Rabi’ah e Shaybah ibn Rabi’ah, dos Banu Abd Shams ibn Abd Manaf; Abu Sufyan, dos Banu Umayyah; Abu al-Bakhtari, As ibn Hisham e al-Aswad ibn al-Muttalib, dos Banu Asad ibn Abd al-Uzza; Abu Jahl e al-Walid ibn al-Mughira, dos Banu Makhzum; Nubayha e Munabbih, filhos de al-Hajjaj, dos Banu Sahm. Al-As ibn Wa’il também fazia parte deles. Disseram: “Ó Abu Talib! Seu sobrinho insultou nossas divindades. Censurou nossa religião, considerou nossa inteligência uma tolice e declarou que nossos antepassados estavam extraviados. Agora impeça-o de ferir nossos sentimentos; caso contrário, afaste-se da disputa entre nós e ele. Pois você também, assim como nós, é contrário à religião que ele trouxe. Depois, nós cuidaremos dele.”

Abu Talib acalmou-os, falando-lhes com muita brandura, e eles partiram (Ibn Hisham, Tabari, Al-Bidaya wa’n-Nihaya).

A segunda delegação

Depois, quando o Mensageiro de Allah (S) continuou a realizar sua missão, a paciência dos coraixitas chegou ao limite. Então, uma segunda delegação foi até Abu Talib. Eles disseram: “Ó Abu Talib! O senhor é o mais velho e mais respeitado entre todos nós. Nós lhe pedimos que se abstivesse de apoiá-lo, mas o senhor não se absteve. Nós não toleraremos de modo algum que se insulte nossos antepassados, que se despreze nossa inteligência e nosso discernimento, nem que se apontem defeitos em nossos deuses. Ou o impeça, ou teremos de enfrentá-lo até que um dos lados seja destruído.” Depois, há divergências nas narrações.

Na história do Imame Bukhari e na narração de Aqil ibn Abu Talib citada por Hafiz Abu Ya‘la em seu Musnad, consta que, na presença deles, meu pai (Abu Talib) me disse: “Chame Muhammad (S).” Fui procurá-lo em meio ao calor intenso e trouxe-o comigo. Quando ele chegou, Abu Talib lhe disse: “Meu sobrinho, teu povo está se queixando de ti, dizendo que feres seus sentimentos em suas reuniões e na Mesquita Sagrada. Pare com isso.”

Ao ouvir isso, o Profeta (S) olhou para o céu e disse aos líderes dos coraixitas: “Vocês estão vendo este sol?” Eles responderam: “Sim.” O Profeta (S) disse: “Assim como este sol não é capaz de deixar de emitir seus raios de luz, eu também não sou capaz de abandonar esta missão.” Dito isso, levantou-se. Então Abu Talib disse: “Meu sobrinho jamais mentiu. Portanto, vocês podem partir.” At-Tabarani citou esta narração em Al-Awsat e Al-Kabir, e Abu Ya‘la a mencionou brevemente.

Ibn Hisham, Tabari, Bayhaqi e Baladhuri registraram este acontecimento da seguinte maneira: depois que as pessoas partiram, Abu Talib chamou o Profeta (S) e disse: “Meu sobrinho, teu povo veio falar-me dessas coisas. Deixa alguma possibilidade de sobrevivência tanto para mim quanto para ti. Não coloques sobre mim um fardo que eu não tenho forças para suportar, nem tu. Portanto, deixa de dizer coisas que lhes são insuportáveis.” Ao ouvir as palavras de Abu Talib, o Profeta (S) pensou que ele estava prestes a deixá-lo entregue à própria responsabilidade. Então disse: “Meu tio! Mesmo que o sol fosse colocado em minha mão direita e a lua em minha mão esquerda, eu não abandonaria esta missão. Allah há de fazê-la triunfar, ou eu perecerei.” Em seguida, o Profeta (S), profundamente angustiado, começou a chorar e preparou-se para partir. Abu Talib percebeu quanta dor suas palavras haviam causado ao Profeta (S). Então chamou-o e, quando ele voltou, disse: “Continua com tua missão e faze o que quiseres. Juro por Allah! Por motivo algum te entregarei nas mãos dos inimigos.”

Abu Jahl decide assassinar o Profeta (S)

Muhammad ibn Ishaq relata que Abu Jahl disse aos coraixitas: “Ó grupo dos coraixitas! Vocês viram como Muhammad (S) declarou claramente que não deixará de insultar nossa religião, chamar nossos antepassados de desviados e insultar nossos deuses, entre outras coisas? Pois juro por Allah que amanhã me sentarei com uma pedra e, quando ele se prostrar na oração, esmagarei sua cabeça. Depois disso, que os Banu Abd Manaf façam o que quiserem.”

No segundo dia, ele ficou à espera do Profeta (s) com uma pedra. Como de costume, o Profeta (s) veio e ocupou-se da oração. Os coraixitas também se reuniram para ver o que aconteceria. Depois que o Profeta (s) se prostrou, Abu Jahl avançou em sua direção com a pedra. Mas, ao aproximar-se dele, voltou subitamente para trás. Ficou terrivelmente amedrontado e aterrorizado. Seu rosto empalideceu, e a pedra também caiu de sua mão. Os coraixitas levantaram-se, foram até ele e disseram: “Abu al-Hakam! O que aconteceu com você?” Ele respondeu: “Avancei para fazer aquilo de que lhes havia falado. Mas, quando me aproximei, surgiu diante de mim um camelo enorme. Nunca tinha visto um camelo com uma cabeça tão grande, um pescoço assim e uma corcova dessas. Ele estava prestes a mastigar-me e devorar-me.”

Mais tarde, o Profeta (s) disse que Gabriel (a) havia aparecido sob essa forma.

A terceira delegação

Ibn Sa‘d relata que os líderes dos coraixitas foram novamente até Abu Talib e disseram: “Você é o mais velho e o líder de todos nós. Viemos pedir-lhe justiça. Faça também justiça entre nós e ele. Mande chamar seu sobrinho e diga-lhe que abandone as palavras ofensivas contra nossas divindades. E nós deixaremos tanto ele quanto seu Deus entregues à sua própria condição.” Então Abu Talib mandou chamar o Profeta (s) e disse-lhe: “Sobrinho! Eis que seus tios, os nobres líderes de seu povo, vieram e desejam chegar com você a um acordo justo.”

O Profeta (s) disse: “Falem, estou ouvindo.” Eles disseram: “Deixe-nos e nossas divindades em nossa própria condição e cesse de insultá-las. Nós deixaremos você e seu Deus em sua própria condição.”

Abu Talib disse: “Eles estão dizendo algo realmente justo; aceite isso.”

O Profeta (s) disse: “Meu tio! Devo convidá-los para algo melhor do que isso?” Abu Talib disse: “O que seria?”

O Profeta (s) disse: “Então digam: ‘Não há divindade senão Allah’.”

Com isso, enfurecidos, afastaram-se com desprezo e partiram—

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Permaneçam firmes na adoração de seus próprios ídolos. Essas palavras, porém, têm outro significado. (Acréscimo do autor.)

Há divergências nas narrações sobre este acontecimento. Ibn Sa‘d, em sua Tabaqat, e at-Tabari, em sua História, narraram-no sem especificar quando ocorreu. Ibn Ishaq narrou-o como um acontecimento posterior à aceitação do Islã por Hazrat Hamza (que Deus esteja satisfeito com ele) e Hazrat Umar (que Deus esteja satisfeito com ele). Esta é também a opinião adotada por exegetas como Zamakhshari, Razi e Nishapuri. Porém, outras narrações afirmam que o acontecimento ocorreu quando Abu Talib jazia em seu leito de morte. O Imam Ahmad, an-Nasa’i, at-Tirmidhi, al-Bayhaqi, Ibn Abi Shaybah e Ibn Jarir at-Tabari relataram em seus comentários e histórias o acontecimento, resumidamente, da seguinte forma:

Quando Abu Talib adoeceu e os líderes dos coraixitas perceberam que aquele era seu momento final, consultaram-se e decidiram que era necessário falar com ele. Seria bom que ele resolvesse a disputa entre nós e seu sobrinho. Não deveríamos esperar que ele morresse e, depois, tomássemos alguma medida severa contra Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), para então os árabes começarem a nos censurar, dizendo: ‘Enquanto o ancião estava vivo, eles o respeitavam; agora, depois de sua morte, interferiram contra seu sobrinho.’ Todos concordaram com isso, e cerca de vinte e cinco líderes dos coraixitas compareceram à presença de Abu Talib. Entre eles estavam, destacadamente, Abu Jahl, Abu Sufyan, Umayya ibn Khalaf, ‘As ibn Wa’il, Aswad ibn al-Muttalib, ‘Uqba ibn Abi Mu‘ayt, ‘Utba e Shayba. Primeiro, levantaram muitas acusações contra o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Depois disseram: ‘Viemos falar-lhe de uma proposta justa. Seu sobrinho deve deixar-nos seguir nossa religião, e nós também o deixaremos seguir a dele. Que ele adore qualquer divindade que queira; não temos objeção a isso. Mas que não critique nossos ídolos, nem continue tentando fazer com que rompamos nossa relação com eles. Nessas condições, faça a paz entre nós e ele.’

Abu Talib mandou chamar o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e disse: ‘Meu sobrinho, os homens de teu povo vieram falar comigo. Eles desejam que concordes com eles em uma proposta justa, para que termine a disputa entre ti e eles.’ Então relatou ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) o que os líderes dos coraixitas lhe haviam dito.

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) respondeu: ‘Meu tio, apresentei-lhes uma palavra que, se aceitarem, fará com que a Arábia lhes obedeça e que os não árabes lhes paguem tributo. [Os diversos narradores transmitiram estas palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) usando diferentes formulações. Apesar dessas diferenças verbais, todos tinham um único propósito. Isto é, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse-lhes: ‘Se eu vos apresentar uma palavra e vós a aceitardes, a Arábia e os não árabes ficarão submetidos a vós. Dizei-me, então: isto não seria melhor do que a proposta que me apresentais em nome da justiça? O vosso bem-estar reside em aceitar esta palavra, ou em que eu vos deixe permanecer na condição em que vos encontrais, enquanto eu adoro somente a Deus?’](Tafhim, volume 4 — introdução à Surata Sad.) Ao ouvirem isso, ficaram inicialmente um tanto desconcertados. Não conseguiam imaginar que palavras usar para rejeitar uma palavra tão benéfica. Depois de se recomporem um pouco, disseram: ‘Falas de uma única palavra? Estamos dispostos a dizer até dez palavras como essa. Mas dize-nos: qual é essa palavra?’

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Lā ilāha illā Allāh”. Então todos se levantaram de uma só vez e saíram repetindo as palavras mencionadas no início da Surata Sad. (Tafhim, volume 4 — introdução à Surata Sad.)

A quarta delegação

Ibn Hisham, Ibn Jarir at-Tabari, Ibn Sa’d, Baladhuri e Ibn Kathir dizem que, quando os coraixitas viram que Abu Talib não estava de modo algum disposto a abandonar o Profeta (S), e que estava pronto a correr, por causa de seu sobrinho, o risco de enfrentar a hostilidade de seu povo e de finalmente romper com ele, levaram-lhe Umarah ibn al-Walid, filho de Walid ibn Mughirah, e disseram: “Ó Abu Talib, este é Umarah ibn al-Walid, um jovem famoso e belo dos coraixitas. Adote-o como filho e, em troca, entregue-nos este seu sobrinho. Pois ele se opôs à religião sua e de seus antepassados, provocou divisão entre seu povo e considera todos nós tolos. Estamos dando-lhe um homem em troca de outro, para que possamos matá-lo.”

Abu Talib respondeu: “Por Deus! Vocês fizeram comigo a pior das negociações. Estão me dando seu próprio filho para que eu o crie, enquanto querem meu filho para matá-lo. Isso jamais poderá acontecer.” Mut’im ibn Adi, descendente de Nawfal, irmão de Hashim, disse: “Por Deus, ó Abu Talib, seu povo foi justo com você e tentou livrá-lo da dificuldade em que se encontra. Mas vejo que você não aceita palavra alguma deles.”

Abu Talib respondeu: “Por Deus, eles não foram de modo algum justos comigo; mas você me abandonou e se juntou a eles contra mim. Está bem, faça o que quiser.”

Ibn Ishaq diz que, depois dessa discussão, a questão chegou ao ponto de uma luta, e eles decidiram enfrentar-se mutuamente.

Abu Talib reúne os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib

Ibn Ishaq diz que, então, Abu Talib reuniu os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib e os exortou a que, unidos, apoiassem e protegessem o Mensageiro de Deus (S). Todos aceitaram isso e se prepararam para ajudar Abu Talib, exceto Lahab, que adotou uma posição contrária.

A ameaça de Abu Talib aos coraixitas

Ibn Sa‘d diz que, quando a oposição ao Santo Profeta (s) estava no auge, mas a Hégira para a Abissínia ainda não havia começado, Abu Talib e outros membros da família foram certa vez à casa do Profeta (s), mas não o encontraram. Abu Talib suspeitou que o Profeta (s) tivesse sido assassinado. Imediatamente, reuniu os jovens dos Banu Hashim e dos Banu al-Muttalib. Em seguida, disse-lhes: “Cada um esconda uma espada ou outra arma sob as roupas e venha atrás de mim. Quando eu entrar na Mesquita Sagrada, vocês verão Ibn al-Hanzaliyya (Abu Jahl) sentado em alguma reunião dos líderes dos coraixitas. Então não deixaremos nenhum dos presentes vivo, pois certamente eles assassinaram Muhammad (s).”

Com esse propósito, Abu Talib partiu e, no caminho, encontrou Zayd ibn Haritha (r.a.). Soube por ele que o Profeta (s) estava bem.

No dia seguinte, Abu Talib foi pela manhã à casa do Profeta (s) e, segurando-o pela mão, apresentou-se, juntamente com os jovens e anciãos dos Banu Hashim e dos Banu al-Muttalib, à reunião dos líderes dos coraixitas. Disse-lhes: “Ó coraixitas! Vocês sabem o que eu pretendia fazer?” Eles responderam: “Não, não sabemos.” Abu Talib relatou todo o ocorrido e disse aos jovens: “Afastem suas capas.” Depois que eles afastaram as capas, todos viram que cada um segurava uma arma afiada. Abu Talib disse: “Por Deus! Se vocês matarem Muhammad (s), não deixarei nenhum de vocês vivo. Depois, morreremos todos lutando.”

Depois desse acontecimento, ficou claro para os coraixitas que não era fácil interferir de qualquer maneira contra Muhammad (s). E esse acontecimento foi especialmente frustrante para Abu Jahl.

3. A conduta infantil e vil dos coraixitas

A conduta dos coraixitas contra o Profeta (s) era extremamente vil e infantil, e seu objetivo era desencorajá-lo e mantê-lo em situação embaraçosa.

Tentativa de fazer Hazrat Zaynab (r.a.) se divorciar

Uma de suas iniciativas consistia em pressionar Abu al-As ibn al-Rabi, genro do Profeta (s), para que se divorciasse de Hazrat Zaynab (r.a.), a filha mais velha do Profeta (s), assim como Abu Lahab obrigara seus dois filhos a se divorciarem das filhas do Profeta (s), Hazrat Ruqayya (r.a.) e Hazrat Umm Kulthum (r.a.). Abu al-As pertencia à tribo dos Banu Abd al-Uzza ibn Abd Shams. Sua mãe, Hala bint Khuwaylid, era irmã de Hazrat Khadija (r.a.). Ele era um dos homens ricos de Meca. Em termos de riqueza, comércio e honestidade na custódia de bens, era uma das poucas pessoas de destaque em Meca. Ele se casara com Hazrat Zaynab (r.a.) antes de o Profeta (s) ser investido na missão profética. Hazrat Khadija (r.a.) considerava-o como um filho. Embora, após o início da missão profética, ele não tenha se tornado muçulmano e continuasse envolvido no politeísmo, não cedeu à pressão dos coraixitas e também não se divorciou de Hazrat Zaynab (r.a.).É importante observar que Hazrat Zaynab (r.a.) aceitou o Islã juntamente com sua mãe. Contudo, como até então ainda não havia sido estabelecida a proibição do casamento entre um crente e um politeísta, ela continuou casada com Abu al-As.–O autor.Al-Baladhuri afirmou em Ansab al-Ashraf que os líderes dos coraixitas disseram a Abu al-As: “Divorcie-se de Zaynab. Depois, casaremos você com qualquer mulher dos coraixitas que escolher.”

Ele diz, citando Tabari e Ibn Hisham, que por sua vez citam Muhammad ibn Ishaq. Eles acrescentam ainda que os coraixitas foram até Utba, filho de Abu Lahab, e disseram-lhe: “Divorcia-te da filha de Muhammad (s). Casaremos contigo com qualquer moça dos coraixitas que escolheres.” Ele respondeu: “Se puderdes escolher para mim a filha de Sa‘id ibn al-‘As ou a filha de seu filho Aban, aceitarei a vossa proposta.” Depois de lhe conseguirem a moça que ele desejava, ele divorciou-se da filha do Huzur (s), e isso antes mesmo da rukhsati, ou seja, antes da partida da noiva.

Alegria com a morte do filho do Profeta

O comportamento deles foi ainda mais mesquinho e vil: depois que o primeiro filho do Huzur (s), Hazrat Qasim (s), faleceu ainda na infância, e quando seu segundo filho, Hazrat Abdullah (ra), também faleceu na infância, os coraixitas não demonstraram sequer a compaixão pelo luto do Huzur (s) que constituía o mínimo exigido pela cortesia e pela humanidade. Pelo contrário, regozijaram-se e começaram a chamá-lo de sem descendência, isto é, diziam que, depois dele, não haveria ninguém para perpetuar seu nome. (Aditamento.)

Ibn Sa‘d e Ibn ‘Asakir, citando Hazrat Abdullah ibn Abbas (ra), dizem que o filho mais velho do Profeta (s) era Hazrat Qasim (ra). Depois dele vinha Hazrat Zaynab (ra), e depois dela, Hazrat Abdullah (ra). Em seguida vieram, uma após outra, as três filhas: Umm Kulthum (ra), Fatimah (ra) e Ruqayyah (ra). Entre eles, primeiro faleceu Hazrat Qasim (ra), e depois também faleceu Hazrat Abdullah (ra). Então ‘As ibn Wa’il disse: “A descendência dele chegou ao fim. Agora ele está sem descendência; suas raízes foram cortadas.”

Algumas narrações acrescentam que ‘As disse: “Muhammad (s) é abtar, sem descendência. Ele não tem filho que possa sucedê-lo. Quando morrer, ficareis livres dele.” ‘Abd al-Hamid ibn ‘Abbas (ra) relata que, após a morte de Abdullah (ra), filho do Huzur (s), Abu Jahl também fez um comentário desse tipo.

Ibn Abi Hatim, citando Shamir ibn ‘Atiyyah, diz que, ao manifestar alegria e regozijo pelo luto do Huzur (s), ‘Uqbah ibn Abi Mu‘ayt também expressou uma mentalidade tão vil. ‘Ata diz que, após a morte do segundo filho do Profeta (s), seu próprio tio Abu Lahab — cuja casa era vizinha à casa do Huzur (s) — correu até os idólatras e deu-lhes a “boa notícia” (?): naquela noite, Muhammad (s) havia ficado sem filhos, isto é, havia ficado sem descendência.

Foi em uma situação tão profundamente dolorosa que a Surata Al-Kawthar foi revelada. Os coraixitas haviam se enfurecido com o Profeta porque ele adorava somente Allah e rejeitava abertamente o seu shirk. Por isso, privaram-no da honra e da posição que ele havia desfrutado entre todo o seu povo antes da profecia. Era como se o tivessem separado de seus próprios parentes e clãs. Seus poucos companheiros também haviam ficado desamparados e sem apoio, e eram submetidos a agressões. Além disso, por ter perdido os filhos um após outro, uma montanha de sofrimento desabara sobre ele. Nessas circunstâncias, em vez de receber condolências de amigos, parentes, membros de sua tribo e de seu clã, bem como dos vizinhos, ele era alvo de alegria e regozijo. Eles faziam comentários que eram extremamente dolorosos para um homem tão nobre, que tratava com grande bondade não apenas os seus, mas também os outros.

Em resposta a tudo isso, Allah, o Altíssimo, disse na Surata Al-Kawthar:

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  • Ou seja, os verdadeiros sem raízes eram vocês, inimigos.

Isso não foi apenas um ataque de retaliação; na realidade, foi uma das importantes profecias do Alcorão, que se concretizou literalmente. Quando essa profecia foi feita, as pessoas consideravam o Profeta (S) sem raízes, e ninguém poderia sequer imaginar como esses grandes líderes dos coraixitas, que eram famosos e bem-sucedidos não apenas na cidade de Meca, mas em toda a Arábia, acabariam sem raízes. Eles não eram apenas afortunados por possuir riqueza e filhos; além disso, tinham aliados e apoiadores espalhados por todo o país. Por desfrutarem de vantagens monopolistas no comércio e por serem os administradores do Hajj, mantinham relações profundas com todas as tribos árabes. Contudo, em poucos anos, a situação mudou completamente.

Quando, no quinto ano da Hégira, durante a Batalha de Ahzab, os coraixitas sitiaram Medina juntamente com numerosas tribos árabes e judaicas, o Profeta (S) foi obrigado, estando sitiado, a cavar uma trincheira e organizar a resistência; contudo, apenas três anos depois, quando chegou o momento, no oitavo ano da Hégira, em que o Profeta (S) atacou Meca, os coraixitas não tinham nenhum aliado e, em sua situação de desamparo, tiveram de depor as armas. Depois, no espaço de apenas um ano, toda a Arábia ficou sob o domínio do Profeta (S). Delegações de várias tribos, vindas de diferentes partes do país, prestavam o juramento de fidelidade ao Profeta. O inimigo permaneceu completamente impotente e sem amigos. Seu nome e seus vestígios foram apagados de tal maneira que, mesmo que algum de seus descendentes exista hoje em algum lugar do mundo, nenhum deles sabe que é descendente de inimigos do Islã como Abu Jahl, Abu Lahab, As ibn Wa’il ou Uqbah ibn Abi Mu’ayt, entre outros. E, mesmo que saiba, ninguém está disposto a dizer que seus antepassados eram essas pessoas. Em contrapartida, hoje são proferidas bênçãos sobre a família e os parentes do Mensageiro de Allah (S) em todo o mundo. Milhões e milhões de muçulmanos orgulham-se de manter uma relação com ele. Milhares e milhares de pessoas consideram motivo de honra serem descendentes não apenas dele, mas também de sua família e das famílias de seus companheiros. Alguns são chamados Sayyid, outros Alawi, Abbasid, Hashimi, Siddiqi, Faruqi, Uthmani, Zubairi ou Ansari. Mas não se encontra ninguém chamado Abu Jahli ou Abu Lahabi. A história comprova que o Mensageiro (S) não era sem raízes; ao contrário, eram e são seus inimigos que o são. (Tafhim, vol. 6 — introdução à Surata Al-Kawthar, nota 4.)

Fazer algazarra assim que se ouvia a voz do Alcorão

Outro comportamento vil e abominável que adotaram foi o seguinte: quando o Alcorão era recitado, faziam algazarra e fugiam correndo de todas as direções, para que eles próprios não pudessem ouvi-lo e para que os outros também não pudessem ouvi-lo. No Alcorão, foi dito:

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Esses negadores da verdade dizem: “Não escuteis este Alcorão e, quando ele for recitado, começai a fazer algazarra; talvez assim sejais vitoriosos.” (Ha-Mim As-Sajdah, 26)

Este era um dos planos dos incrédulos de Meca. Por meio dele, queriam frustrar a da‘wah e o tabligh do Profeta (que a paz esteja com ele). Eles sabiam muito bem que havia uma influência mágica no Alcorão e que aquele que o recitava para as pessoas era alguém de posição muito elevada. Além disso, sua personalidade e seu modo de recitá-lo eram extremamente cativantes. Eles pensavam que quem ouvisse, da boca de uma pessoa tão eminente, aquelas palavras incomparáveis, proferidas de maneira tão encantadora, ficaria hipnotizado. Por isso, elaboraram o plano de que não ouviriam eles próprios aquela Palavra, nem permitiriam que outros a ouvissem. Sempre que Muhammad (que a paz esteja com ele) começasse a recitá-la, fariam algazarra, bateriam palmas, gritariam, apresentariam forte oposição e elevariam tanto a voz que a sua voz fosse abafada. Adotando essa estratégia, esperavam derrotar o Mensageiro de Allah. (Tafhim, vol. 4 — Ha-Mim Sajdah — nota 30)

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Então, que acontece com estes incrédulos, que correm em grupos em direção a ti, pela direita e pela esquerda, ó Profeta?

Fala-se aqui daqueles que corriam de todos os lados ao ouvir a da‘wah, o tabligh e a recitação do Alcorão pelo Profeta (que a paz esteja com ele), para zombar e fazer algazarra. (Tafhim, vol. 6 — Al-Ma‘arij — nota 124.)

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Não recites a tua oração em voz demasiado alta, nem demasiado baixa; recita-a com uma voz moderada entre ambas.

No Musnad de Ahmad encontra-se uma narração de Ibn Abbas segundo a qual, em Meca, quando o Profeta (que a paz esteja com ele) recitava o Alcorão em voz alta durante a oração, em sua própria casa ou em Dar al-Arqam, os incrédulos começavam a fazer algazarra e, às vezes, também o insultavam. Por isso, foi dada a orientação: não recites em voz tão alta que os incrédulos te ouçam e se reúnam ao teu redor, nem tão baixa que os teus companheiros também não possam te ouvir. (Tafhim, vol. 2 — Bani Isra’il — nota 24.)

Desviar as pessoas deturpando o significado do Alcorão

A menção dessa estratégia dos incrédulos de Meca encontra-se no Alcorão—

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Não nos são ocultos aqueles que apresentam interpretações distorcidas dos Nossos versículos. Pensa por ti mesmo: será melhor aquele que será lançado no Fogo ou aquele que comparecerá em segurança no Dia da Ressurreição? Fazei o que quiserdes. Allah vê tudo quanto fazeis.

“Ilhad” significa desviar-se do caminho, afastar-se do caminho reto para um caminho tortuoso e adotar a tortuosidade. Nas ayat de Allah, “ilhad” significa que a pessoa tenta extrair alguma distorção de palavras simples e claras. Ela não aceita o significado correto e claro do versículo divino; ao contrário, interpreta-o de maneira perversa, desviando-se e desviando também os outros. Entre as artimanhas adotadas pelos incrédulos de Meca para impedir o convite do Alcorão estava também esta: eles continuavam ouvindo os versículos do Alcorão. Depois, separavam algum versículo de seu contexto anterior e posterior, davam a outro uma interpretação literal perversa, atribuíam um significado errado a alguma palavra ou frase, levantavam vários tipos de objeções e confundiam as pessoas, dizendo: “O que foi que este ‘senhor Profeta’ disse?”. (Tafhim, volume 4, Hā-Mīm Sajdah, nota)

Envolver os muçulmanos em debates fúteis e sem propósito

Esse comportamento dos incrédulos é mencionado no Alcorão da seguinte forma—

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Depois de responderem ao convite de Allah, aqueles que se envolvem em discussões e debates com os que responderam, acerca da religião de Allah, têm sua apresentação de argumentos e provas considerada inválida perante o seu Senhor.

Isso faz alusão à situação que ocorria diariamente em Meca. Quando se descobria que alguém havia se tornado muçulmano, todos se empenhavam em persegui-lo. Sua vida era tornada insuportável. Ele não podia viver tranquilo nem em casa, nem no bairro, nem entre seus parentes.

Onde quer que fosse, começava uma discussão interminável, com o objetivo de fazê-lo, de algum modo, romper sua relação com os Banū Muḥammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e retornar àquela jahiliyyah da qual havia saído. (Tafhīm, vol. 4 — Sūrah Ash-Shūrā — nota 31.)

Zombar dos muçulmanos e humilhá-los

Sobre isso, o Alcorão diz:

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Os criminosos costumavam zombar dos crentes e, ao passarem por eles, piscavam os olhos e faziam sinais em sua direção. Quando retornavam para junto dos seus, voltavam exultantes de alegria. Ao vê-los, diziam: “Estes são todos desviados.” No entanto, não foram enviados para vigiá-los. (Al-Muṭaffifīn: 29–33)

O significado de retornar exultantes de alegria é o seguinte: quando voltavam para casa, pensavam: “Hoje nos divertimos bastante. Zombamos muito de certo muçulmano, divertimo-nos ridicularizando-o em voz alta, e isso causou uma boa reação entre as pessoas.” (Tafhīm, vol. 4 — Sūrah Ash-Shūrā — nota 31.)

Al-Balādhurī, citando em Ansāb al-Ashrāf o relato de ʿUrwah ibn az-Zubayr, diz que, quando os coraixitas viam o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sentado na Mesquita Sagrada com pessoas como ʿAmmār ibn Yāsir (que Allah esteja satisfeito com ele), Khabbāb ibn al-Aratt (que Allah esteja satisfeito com ele), Ṣuhayb ibn Sinān (que Allah esteja satisfeito com ele), Bilāl ibn Rabāḥ (que Allah esteja satisfeito com ele), Abū Fukayhah (que Allah esteja satisfeito com ele) e ʿĀmir ibn Fuhayrah (que Allah esteja satisfeito com ele), diziam: “Então, todas essas pessoas são beneficiárias da graça de Allah?”

Lançar os ignorantes na confusão

A respeito disso, o Alcorão diz:

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Quando alguém dentre eles pergunta: «O que o vosso Senhor revelou?», respondem: «Ora, são apenas histórias desgastadas dos tempos antigos» (An-Nahl: 24).

Quando o convite do Profeta (S) se espalhou por toda parte, onde quer que fossem, perguntavam aos habitantes de Meca: «Qual é o ensinamento daquele que surgiu entre vós como profeta? Que tipo de livro é o Alcorão? Qual é o seu conteúdo?», e assim por diante.

Os incrédulos de Meca sempre respondiam a esse tipo de pergunta usando uma linguagem que fazia surgir na mente do interlocutor algum tipo de dúvida sobre o Profeta (S) e o Livro que ele trouxera, ou, pelo menos, fazia com que não restasse em seu coração nenhuma afeição pelo Profeta e por sua profecia. (Tafhim, volume 2 — An-Nahl — nota 22.)

4. Programa cultural

Além dessas vis artimanhas, adotavam ainda outra estratégia para resistir ao convite do Profeta (S). Também se havia pensado em manter as pessoas absortas em histórias, música, canto e prazeres, paralisando-as no pensamento e na reflexão, para que não pudessem prestar atenção a nenhum assunto importante que o Alcorão e Muhammad (S) lhes apresentavam.

Ibn Hisham, citando o relato de Muhammad ibn Ishaq em sua Sira, diz que Nadr ibn al-Harith ibn Alada, dos Banu Abd al-Dar, declarou em uma reunião dos coraixitas: “A maneira como vocês estão enfrentando Muhammad (s) não produzirá resultado algum. Quando Muhammad (s) era jovem, ele era o mais afável, o mais veraz e o mais digno de confiança entre vocês. Agora, quando seus cabelos se tornaram brancos, ele lhes trouxe algo por causa do qual vocês o chamam de feiticeiro, adivinho, poeta e louco. Por Deus! Ele não é feiticeiro. Nós já vimos feiticeiros e testemunhamos seus encantamentos. Por Deus! Ele não é adivinho. Nós já ouvimos as falas insípidas e rimadas dos adivinhos. Também conhecemos as palavras incoerentes que ele profere. Seu discurso não se enquadra em nenhuma dessas categorias. Por Deus! Ele tampouco é louco. Acaso não conhecemos o estado de um louco e o tipo de palavras sem sentido que ele murmura? Ó chefes dos coraixitas! Pensem em algum outro meio. Aquilo que vocês terão de enfrentar é muito mais importante do que isso: vocês querem inventar algo para derrotá-lo.”

Então ele propôs que fossem recolhidas em terras não árabes as histórias lendárias de Rustam e Isfendiyar e que elas fossem divulgadas, para que as pessoas se afeiçoassem a elas e as considerassem mais maravilhosas do que o Alcorão. Esse trabalho prosseguiu por algum tempo, e o próprio Nadr passou a contar essas histórias. (Tafhim, vol. 3 — Al-Anbiya — nota 7.)

Esse mesmo relato foi citado em Asbab al-Nuzul, com referência a Wahidi, Kalbi e Muqatil. Ibn Abbas (ra) acrescentou que, para esse fim, Nadr também comprara uma escrava cantora. Sempre que ouvia que determinada pessoa havia sido influenciada pelas palavras de um profeta (s), enviava atrás dela uma escrava e dizia-lhe: “Cuide muito bem dele, dê-lhe comida e continue cantando para ele, para que, entretido com você, seu coração se afaste daquilo.” (Tafhim, vol. 4 — Luqman — nota 6.)

5. A campanha de mentiras e seus efeitos

Juntamente com a adoção dessas estratégias, os coraixitas iniciaram, assim que começou o convite público do Profeta (s), uma campanha de propaganda mentirosa para provocar aversão contra ele. Como nessa campanha não havia o menor vestígio de verdade, pois seu único objetivo era difamá-lo e afastar as pessoas dele, diziam tudo o que lhes vinha à boca. Alguns diziam que ele era poeta; outros, adivinho; outros, feiticeiro. Alguns diziam que ele fora enfeitiçado. Outros ainda o chamavam de louco. Em suma, não havia uma única acusação que não fizessem contra ele. Essa difamação não era praticada apenas em todos os cantos de Meca; a qualquer pessoa que chegasse a Meca, fosse para visitar, comerciar ou por qualquer outro motivo, diziam essas coisas. Com isso, tentavam impedir que alguém sequer ouvisse suas palavras (as do Profeta), pois temiam que essa pessoa fosse influenciada por elas. (Acréscimo.)

A deliberação dos coraixitas durante o Hajj

Assim, depois de transcorridos alguns meses, chegou o período do Hajj. O povo de Meca começou a preocupar-se, pensando que, nessa época, caravanas de peregrinos viriam de toda a Arábia. Se Muhammad (s) fosse ao encontro dos peregrinos nos locais onde essas caravanas estivessem e, nas reuniões do Hajj, permanecesse em vários lugares recitando e fazendo-os ouvir aquele discurso incomparável e influente, semelhante ao Alcorão, então seu convite alcançaria todos os recantos da Arábia. E sabe-se lá quantos seriam influenciados por ele. Ibn Ishaq, Hakim e Bayhaqi relatam este acontecimento com uma excelente cadeia de transmissão:

Com esse objetivo, os chefes dos coraixitas realizaram uma conferência e decidiram que, assim que os peregrinos chegassem, iniciariam entre eles uma campanha contra o Profeta (s). Depois que todos concordaram, Walid ibn al-Mughira disse aos presentes: “Se vocês disserem às pessoas coisas diferentes sobre Muhammad (s), nossa credibilidade será destruída. Portanto, escolham uma única versão, que todos nós possamos afirmar de comum acordo.”

Alguns disseram: “Chamaremos Muhammad (que a paz esteja com ele) de adivinho”. Al-Walid respondeu: “Não, por Deus, ele não é adivinho. Nós já vimos adivinhos. O modo como ele murmura suas palavras e o tipo de frases que compõe não têm a menor relação com o Alcorão”. Alguns disseram: “Chamemo-lo de louco”. Al-Walid respondeu: “Ele também não é louco. Nós já vimos loucos. Ninguém desconhece como um louco fala como um embriagado e faz gestos e movimentos desconexos. Quem acreditaria que o discurso apresentado por Muhammad (que a paz esteja com ele) é o delírio de um louco, ou que uma pessoa, em estado de loucura, pudesse falar assim?” As pessoas disseram: “Então, está bem; chamemo-lo de poeta”. Al-Walid respondeu: “Ele também não é poeta. Conhecemos todos os tipos de poesia, e este discurso não se assemelha à poesia sob aspecto algum”. As pessoas disseram: “Então, chamemo-lo de mágico”. Al-Walid respondeu: “Ele também não é mágico. Conhecemos os mágicos e também conhecemos os métodos que empregam para fazer magia. Isso tampouco se aplica a Muhammad (que a paz esteja com ele). Qualquer coisa que disserem entre essas acusações, as pessoas considerarão uma injustiça. Por Deus! Há grande doçura neste discurso. Suas raízes são profundas e seus ramos são frutíferos”.

Ibn Jarir acrescenta em seu tafsir, citando ‘Ikrimah, que depois Abu Jahl pressionou Al-Walid, dizendo: “Enquanto você não disser alguma coisa sobre Muhammad (que a paz esteja com ele), seu povo não ficará satisfeito com você”. Al-Walid respondeu: “Está bem, deixem-me pensar”. Depois de refletir, disse: “No mínimo, pode-se dizer o seguinte: digam aos árabes que este homem é um mágico. Ele apresenta um discurso que separa as pessoas de seus pais, irmãos, esposas, filhos e de toda a sua família”. Todos aceitaram o que Al-Walid dissera. Então, de acordo com um plano, durante a peregrinação, os representantes dos coraixitas espalharam-se entre os peregrinos. Começaram a advertir os recém-chegados, dizendo que ali havia surgido um homem que era um grande mágico. Sua magia provoca rupturas nas famílias. Era preciso precaver-se dele. (Tafhim, volume 6 — Introdução à surata Al-Muddaththir.)

Uma análise do Alcorão sobre este acontecimento

A respeito dessa proposta de Al-Walid ibn al-Mughirah, há uma análise nos versículos 11–25 da surata Al-Muddaththir: “Deixa-Me com aquele que criei. Isto é: Eu mesmo cuidarei dele; você não precisa preocupar-se com ele. Eu o criei sozinho e desamparado. Isto é: ele não trouxe nada consigo para este mundo. Dei-lhe muita riqueza e também muitos filhos para estarem presentes com ele. Isto é: dei-lhe dez ou doze filhos jovens, todos notáveis, que costumavam acompanhá-lo nas reuniões (entre eles havia também filhos capazes, como Khalid ibn al-Walid, que Allah esteja satisfeito com ele). Facilitei-lhe o caminho da liderança e da autoridade. Apesar disso, ele ambicionava que Eu lhe desse ainda mais. Nunca! Eu o farei subir uma encosta íngreme. Ele refletiu e tentou compor algumas palavras. Que a maldição de Allah caia sobre ele! Como tentou compor tais palavras! Sim, que a maldição de Allah caia sobre ele! Como tentou compor tais palavras! Depois olhou para as pessoas, franziu a testa, fez uma careta, virou as costas e caiu no orgulho. Por fim, disse: ‘Isto não passa de nada além de um Alcorão; uma magia transmitida desde os tempos antigos. Isto é apenas uma palavra composta por um ser humano’”.

Do acontecimento mencionado acima fica claro que Al-Walid estava convencido, no íntimo, de que o Alcorão era a palavra de Allah. A luta que travou com a própria consciência para preservar sua liderança, autoridade e honra entre seu povo, bem como o conflito psicológico em que permaneceu envolvido por longo tempo antes de formular uma única declaração contra o Alcorão, foram retratados nestes versículos. (Tafhim, volume 6 — Exegese da surata Al-Muddaththir.)

Uma campanha de propaganda mentirosa, permanente e generalizada

Essa campanha de mentiras não se limitava ao período da peregrinação. Pelo contrário, era conduzida durante os doze meses do ano e durante todos os trinta dias e noites de cada mês. O povo de Meca também era constantemente incitado contra o Profeta (que a paz esteja com ele). Os forasteiros eram advertidos a manter-se atentos e instados a não se aproximarem do Profeta. Nas feiras da Arábia, como ‘Ukaz, Majannah e Dhu al-Majaz, os representantes dos coraixitas espalhavam-se e faziam todo tipo de incitação contra o Profeta (que a paz esteja com ele). Especialmente todos os anos, durante a peregrinação, seus representantes iam de acampamento em acampamento entre os peregrinos e espalhavam toda sorte de acusações contra o Profeta (que a paz esteja com ele), para que as pessoas se mantivessem afastadas de suas palavras e o considerassem um perigo para si mesmas.

A propagação do Islamismo fora de Meca

Os coraixitas pensavam que, dessa maneira, impediriam o Profeta Muhammad (S) e o Alcorão. Mas, na realidade, assim fizeram com que o seu nome chegasse aos mais remotos recantos da Arábia. Em pouco tempo, a campanha dos coraixitas tornou possível aquilo que os muçulmanos não haviam conseguido realizar, apesar de anos de esforços: divulgar o seu nome e o seu convite. Embora o povo em geral tenha formado uma opinião negativa por causa disso, na mente de muitos surgiu espontaneamente a pergunta: seria preciso saber que tipo de homem era aquele contra quem se levantara essa tempestade. Alguns começaram também a pensar: já que nos fazem ter tanto medo dele, ao menos ouçamos o que ele tem a dizer. Desse modo, abriu-se o caminho para que o Islam chegasse também a outras regiões fora de Meca.

A aceitação do Islam por Tufail ibn Amr al-Dawsi

Ele era um respeitado chefe da tribo de Daws. Ibn Ishaq e Ibn Sa’d citaram detalhadamente o relato da sua conversão ao Islam, conforme a sua própria narração. Al-Dawsi disse: “Eu era poeta da tribo de Daws. Fui a Meca por alguma razão. Logo depois de chegar, alguns coraixitas me cercaram e encheram meus ouvidos de acusações contra o Profeta (S). Como resultado, passei a sentir profunda aversão por ele. Decidi manter-me completamente afastado dele. No dia seguinte, compareci ao Haram e vi-o orando. Assim que algumas das palavras que ele recitava chegaram aos meus ouvidos, senti: ‘Que belas palavras!’ Pensei comigo mesmo: ‘Sou poeta, sou jovem e tenho conhecimento e discernimento; não sou uma criança incapaz de distinguir o bem do mal. Por que não encontro esse homem e descubro o que ele diz?’ De fato, quando o Profeta (S) terminou a oração e voltava para casa, segui-o. Quando chegou à sua casa, disse-lhe: ‘Seu povo me falou coisas desse tipo a seu respeito, a ponto de eu ter formado uma opinião tão negativa sobre você que coloquei algodão nos ouvidos para não ouvir nenhuma das suas palavras. Mas as poucas palavras que acabei de ouvir da sua boca pareceram-me muito boas. Explique-me um pouco mais: o que você quer dizer?’ Em resposta, o Profeta (S) recitou para mim uma parte do Alcorão. Fiquei tão profundamente impressionado que aceitei o iman naquele mesmo instante. Quando voltei para casa, meu pai idoso veio ao meu encontro. Eu lhe disse: ‘Pai, mantenha-se afastado de mim. Eu não sou seu e você não é meu.’ Ele perguntou: ‘Por quê?’ Respondi: ‘Tornei-me muçulmano e adotei a obediência à religião de Muhammad.’ Ele disse: ‘Meu filho, a sua religião também é a minha religião.’ Eu disse: ‘Então tome um banho, vista roupas puras e limpas e venha. Depois lhe ensinarei essa religião que vim aprender.’ Ele fez isso e tornou-se muçulmano. Em seguida, minha esposa veio, e eu lhe disse o mesmo que havia dito ao meu pai. Ela respondeu: ‘Que meus pais sejam sacrificados por você, o que está dizendo?’ Eu disse: ‘O Islam estabeleceu uma separação entre mim e você. Tornei-me seguidor da religião de Muhammad.’ Ela disse: ‘Diga-me qual é a sua religião.’ Respondi: ‘Vá ao recinto sagrado de Yaghuthara (o ídolo da tribo de Daws) e tome banho na nascente que desce da montanha.’ Ela perguntou: ‘Não há perigo de Yaghuthara para os meus filhos?’ Respondi: ‘Não, eu assumo essa responsabilidade.’ Ela foi, tomou banho e voltou. Apresentei-lhe o Islam, e ela se tornou muçulmana. Depois comecei a transmitir o Islam à tribo de Daws. No entanto, eles hesitavam em aceitá-lo. Voltei a Meca e fui ter com o Mensageiro (S), dizendo: ‘Daws foi vítima da negligência e está criando obstáculos ao meu trabalho.’ Ele fez uma súplica por eles e disse: ‘Ó Deus, guia Daws!’ Em seguida, aconselhou-me: ‘Volte e continue a transmitir-lhes a mensagem, tratando-os com gentileza.’ Continuei, então, o trabalho de convite entre os dawsitas e, por fim, durante a expedição de Khaybar, compareci acompanhado de setenta ou oitenta famílias dali.”

A aceitação do Islam por Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele)

Ele pertencia à tribo de Banu Ghifar. Essa tribo era famosa por assaltar viajantes nas estradas. Houve um tempo em que o próprio Abu Dharr era um assaltante tão destemido que atacava sozinho uma caravana como se fosse um ataque de uma fera. Porém, três anos antes de aceitar o Islam, ocorreu uma mudança em seu coração, e ele começou a realizar orações de uma forma ou de outra. Nas narrações de Musnad Ahmad e de Ibn Sa’d consta que ele dizia: ‘Já fazia três anos que eu orava voltando o rosto para qualquer direção por Allah.’

Seu nome verdadeiro era Jundub ibn Junadah. É narrado em Bukhari que, quando chegou ao seu conhecimento a aparição do Mensageiro (S), ele enviou seu irmão Unays a Meca — segundo a narração de Musnad Ahmad — para investigar o homem que dizia: ‘Eu sou um profeta.’ Ele foi e, ao retornar, disse: ‘Ele ensina uma moral de altíssimo nível e apresenta palavras que não são poesia.’ Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Você não conseguiu descobrir o que eu queria saber.’ Então ele próprio foi a Meca e começou a procurar o Mensageiro (S) na Mesquita Sagrada. Porém, como não conhecia o Profeta e também não queria perguntar a ninguém, não conseguiu encontrá-lo. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), ao vê-lo, pensou que fosse algum viajante desconhecido. Não houve conversa entre eles. No terceiro dia, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou-lhe: ‘Por que você veio?’ Ele respondeu: ‘Se você prometer que, caso me conduza até aquele que procuro, eu lhe direi por que vim.’ Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) prometeu. Então ele explicou o seu propósito. Ali disse: ‘Ele está certamente estabelecido na verdade e é o Mensageiro de Allah. Amanhã de manhã, venha atrás de mim. Se eu continuar andando, você continuará também. Onde eu entrar, você entrará. Se eu perceber algo que me pareça perigoso para você, pararei como se estivesse despejando água. Ao ver isso, você também parará.’ Assim, Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou até o Mensageiro (S). Assim que ouviu suas palavras, tornou-se muçulmano. O Mensageiro (S) disse: ‘Volte para o seu povo e continue informando as pessoas sobre a religião, até que você tome conhecimento da minha situação.’ Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Juro por Aquele que o enviou: certamente proclamarei a verdade aos habitantes de Meca.’ Então chegou à Mesquita Sagrada e declarou em voz alta: “Ashhadu alla ilaha illallah wa ashhadu anna Muhammadan rasulullah”. Assim que ouviram isso, as pessoas avançaram contra ele e bateram-lhe com tanta violência que ele caiu. Vendo essa situação, Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) interpôs-se entre ele e aquelas pessoas, dizendo: ‘Ó grupo de miseráveis, vocês não sabem que este homem pertence à tribo de Banu Ghifar? Não sabem que eles ficam no caminho de vocês quando viajam para a Síria a negócios?’ Desse modo, Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) o protegeu. No segundo dia, eles fizeram com ele a mesma coisa, e Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) novamente o libertou.

O Imam Ahmad citou em seu Musnad este relato do próprio Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele (Abu Dharr) disse: ‘Eu, meu irmão Unays e minha mãe estávamos fora. Unays disse: “Vou dar uma volta pela cidade de Meca. Esperem por mim.”’ Depois, ele demorou muito para voltar. Perguntei-lhe: ‘Onde você esteve para demorar tanto?’ Ele respondeu: ‘Encontrei um homem que afirma ser o Mensageiro de Allah, e Allah o enviou com a mesma religião que a sua — isto é, a rejeição do politeísmo e o reconhecimento da unicidade de Allah.’

“Perguntei: ‘O que as pessoas dizem a respeito dele?’ Ele respondeu: ‘Dizem que ele é poeta, adivinho e feiticeiro.’ Unais era ele próprio um poeta. Ele disse: ‘Também ouvi as palavras dos adivinhos e sei compor poesia. Mas as palavras dele não têm absolutamente nenhuma relação com nada disso. Juro por Deus: ele é veraz, e são aquelas pessoas que mentem.’”

Eu disse: “Você poderia ficar um pouco no meu lugar, para que eu mesmo possa ir até lá?” Ele respondeu: “Está bem, mas tome cuidado com os habitantes de Meca, pois eles se empenham intensamente em se opor a ele.” Cheguei a Meca. Então, julgando que certo homem parecia mais fraco, perguntei-lhe: “Onde está aquele homem a quem as pessoas chamam de ‘sābi’ (aquele que abandonou a religião)?” Assim que esse homem apontou para mim, as pessoas se lançaram sobre mim. Jogaram contra mim tudo o que tinham nas mãos. Depois disso, perdi a consciência. Quando recobrei os sentidos, fui ao Santuário, bebi água de Zamzam e lavei os ferimentos. Fiquei escondido durante trinta dias atrás das cortinas da Caaba. Nesse período, além da água de Zamzam, não tive nenhum outro alimento. Ainda assim, fiquei bem nutrido e robusto.

Então Hazrat Abu Dharr (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Certo dia, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) chegaram ao Santuário, beijaram a Pedra Negra, fizeram a circunvolução e rezaram.”

Saí e, pela primeira vez, cumprimentei-o à maneira islâmica. Ele respondeu: “E sobre você esteja a paz.” Perguntou: “Quem é você?” Respondi: “Sou um homem dos Banu Ghifar.” Ele perguntou: “Há quanto tempo está aqui?” Respondi: “Há trinta dias e noites.” Ele perguntou: “Quem lhe forneceu alimento?” Respondi: “Além de Zamzam, não tive nenhum outro alimento. Graças a ela, não apenas saciei a fome, como também ganhei um pouco de peso e vigor.” Ele disse: “É uma água muito abençoada. Não é apenas água; é também alimento.”

Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Se for permitido, ele comerá esta noite em minha casa.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) deu permissão. Então ele partiu, e eu fui à casa de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele). Ele me ofereceu passas de Taife. Permaneci algum tempo em sua casa. Depois, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Foi-me indicado um território onde há pomares de tamareiras, e penso que esse lugar não pode ser outro senão Yathrib. Você transmitirá minha mensagem ao seu povo? Talvez isso lhes seja benéfico e você também receba uma recompensa.”

Hazrat Abu Dharr (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Então voltei para minha mãe e meu irmão. Eles perguntaram: ‘Como você voltou?’ Respondi: ‘Voltei com o Islã e também testemunhei a veracidade dele.’ Unais disse: ‘Também não quero manter-me afastado da sua religião.’ Aceitei o Islã e testemunhei sua veracidade. Nossa mãe disse: ‘Também não quero permanecer separada da religião de vocês dois.’ Ela também aceitou o Islã e testemunhou sua veracidade. Depois, retornamos ao nosso povo, os Ghifar. Alguns deles aceitaram o Islã antes de o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) emigrar para Medina. Khufaf ibn Aymā ibn Rahādat al-Ghifari conduzia-os na oração, pois era o chefe do povo. Depois da Hégira, os demais membros dos Ghifar também aceitaram o Islã. (O Imam Muslim também narrou a história dessa maneira. At-Tabarani apresentou em seu Al-Awsat um relato detalhado dessa história.)

Na versão de Ibn Sa’d — embora essa história esteja registrada praticamente da mesma forma acima — também foi acrescentada a seguinte declaração de Abu Dharr al-Ghifari (que Deus esteja satisfeito com ele). Ele disse:

‘Quando eu estava escondido atrás das cortinas da Caaba, no local da circunvolução não havia ninguém além de duas mulheres. Ouvi-as mencionar Isaf e Na’ila. Não consegui suportar aquilo e disse: “Então casem estes dois um com o outro.” Elas ficaram furiosas e começaram a dizer: “Ah, se algum dos nossos homens estivesse aqui!” Enquanto isso, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) desciam da montanha e vinham naquela direção. Essas duas mulheres provavelmente não os conheciam. Eles perguntaram: “Por que estão tão irritadas?” Elas responderam: “Há um companheiro escondido atrás das cortinas da Caaba.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) perguntou: “O que ele lhes disse?” Elas responderam: “Disse algo que não pode ser expresso em palavras.”’

A aceitação do Islã por Amr ibn Abasa al-Sulami

Ele pertencia à tribo de Banu Sulaym. Ele acreditava ser o quarto muçulmano. Contudo, pelo relato que ele próprio fez sobre sua conversão ao Islã, sabe-se que também se tornou muçulmano por meio do convite do Profeta (s), depois do início do convite geral. Em um relato de Ibn Sa‘d, afirma-se que ele encontrou o Profeta (s) no mercado de Ukaz. Foi ali que se tornou muçulmano. Isso significa que, naquela época, o Mensageiro (s) havia começado a sair para realizar o trabalho de pregação. No segundo relato, citado por Ibn Sa‘d e Muslim sob a autoridade de Abu Umamah al-Bahili, Amr ibn Abasa conta: “Na época da ignorância, eu considerava as pessoas desviadas e os ídolos sem valor. Então ouvi dizer que havia em Meca um homem que transmitia algumas notícias e dizia certas coisas. Por isso fui a Meca e vi que o Mensageiro (s) estava oculto, e que seu povo havia se dividido em dois grupos por causa dele. Encontrei-me com ele cautelosamente e perguntei: ‘Quem é você?’ Ele respondeu: ‘Um profeta.’ Perguntei: ‘O que é um profeta?’ Ele respondeu: ‘O Mensageiro de Allah.’ Perguntei: ‘Foi Allah quem o enviou?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Perguntei: ‘Com que ensinamento foi enviado?’ Ele respondeu: ‘Que se reconheça somente Allah como digno de adoração e que ninguém seja associado a Ele; e que se trate bem os parentes.’ Perguntei: ‘Quem está com você?’ Ele respondeu: ‘Tanto pessoas livres quanto escravos.’ Naquele momento, Hazrat Abu Bakr (ra) e Hazrat Bilal (ra) estavam presentes.” (Disso surgiu sua concepção equivocada de que era o quarto.)

Eu disse: “Ficarei com você.” Ele respondeu: “Neste momento, você não pode fazer isso. Quando ouvir que comecei a pregar publicamente, venha juntar-se a mim.”

“Então voltei para o meu povo.”

A aceitação do Islã por Dimad al-Azdi (ra)

Ele pertencia à tribo de Azd Shanua. Sua profissão era realizar encantamentos e exorcismos. Hafiz Ibn Abd al-Barr, Hafiz Ibn Hajar e Hafiz Ibn Hibban dizem que, na época da ignorância, ele era amigo do Mensageiro (s). Muslim, Nasa’i, Bayhaqi e Ibn Sa‘d dizem que, quando ele chegou a Meca, os habitantes de Meca disseram que o Mensageiro havia enlouquecido. O azdi perguntou: “Digam-me onde ele está. Talvez Allah possa curá-lo por meu intermédio.”

Então ele foi até o Mensageiro (s) e disse: “Eu realizo encantamentos e exorcismos. Pelas minhas mãos, Allah cura quem Ele quer. Venha, deixe-me tratá-lo.”

O Mensageiro (s) recitou primeiro a Kalima da Shahada. Depois louvou Allah e recitou algumas palavras. Essas palavras agradaram muito a Dimad al-Azdi. Ele disse: “Repita-as.” O Mensageiro (s) repetiu-as três vezes. Dimad disse: “Jamais ouvi palavras assim. Ouvi as palavras dos adivinhos, ouvi as palavras dos poetas, ouvi as palavras dos feiticeiros, mas jamais ouvi algo assim. Isso alcança até as profundezas do mar.” Então ele aceitou o Islã e prestou bai‘ah ao Profeta em seu próprio nome e em nome de seu povo.

A aceitação do Islam por Hazrat Abu Musa al-Ash’ari (que Allah esteja satisfeito com ele)

Ele veio do Iêmen e aceitou o Islam em Meca. Depois, ao retornar à sua terra, conduziu ao Islam seu irmão Abu Burda, Abu Rahm e aproximadamente cinquenta outras pessoas. Em seguida, esses muçulmanos partiram numa embarcação, e o vento os levou até a costa da Abissínia. Ali se encontraram com Hazrat Ja’far ibn Abi Talib e outros Muhajirun. Esta é a versão transmitida por Ibn Sa’d e Ibn Abd al-Barr. Ibn Hajar afirma que eles não foram para a Abissínia; pelo contrário, quando partiram de Meca em direção a Medina, sua embarcação encontrou a embarcação daqueles Muhajirun, que também se dirigia a Medina. Depois, chegaram juntos a Khaybar, à presença do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

A aceitação do Islam por Mu’ayqib ibn Abi Fatima al-Dawsi

Ibn Sa’d afirma que ele também pertencia à tribo de Daws e aceitou o Islam em Meca. Segundo uma versão, depois de aceitar o Islam, ele retornou à sua terra. De acordo com outra versão, participou da segunda Hijra para a Abissínia. Ibn Hajar e Ibn Abd al-Barr afirmam que ele estava entre aqueles que aceitaram o Islam em Meca e participaram da segunda Hijra para a Abissínia.

Ju’al ibn Suraqa (que Allah esteja satisfeito com ele)

Ele pertencia aos Banu Damra. Ibn Sa’d e Ibn Abd al-Barr afirmam que ele também aceitou o Islam em Meca.

Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abd al-Rahman al-Kinani (que Allah esteja satisfeito com ele)

Segundo a versão transmitida por Ibn Sa’d, esses dois irmãos eram filhos de Luhaib, um homem dos Banu Misan. Eles também aceitaram o Islam em Meca.

A aceitação do Islã por Buraida bin al-Musayyib

Segundo Ibn Sa‘d e Ibn Abd al-Barr, ele era originário de um ramo dos Banu Khuzaya, ramo esse que havia se separado dos clãs de Khuzaya. Durante a Hégira, quando o Profeta (S) ia de Meca para Medina, esse homem encontrou-se com o Huzur (S) num lugar chamado Ghamim, e, juntamente com ele, oitenta famílias aceitaram o Islã. É isso que Ibn Hajar escreveu em sua obra al-Isaba. Isso significa que essas pessoas já haviam sido influenciadas pelo Islã anteriormente. Caso contrário, tantas pessoas não poderiam ter se tornado muçulmanas simplesmente em consequência de um encontro repentino durante a viagem.

Estes são alguns exemplos pelos quais se pode compreender que, embora os coraixitas não tenham deixado de fazer nenhum esforço para realizar uma campanha de mentiras contra o Profeta (S) e tornar os árabes avessos a ele, mediante esse procedimento eles não apenas tornaram o próprio Profeta conhecido entre os árabes, mas também atraíram para ele a atenção de muitas almas puras. Pessoas de diferentes regiões e tribos foram atraídas ao Profeta por causa dessa campanha, em busca da verdade, e assim o Islã chegou a outras tribos fora de Meca. É por isso que foi dito na surata Alam Nashrah *********************** ou seja: por que você fica abatido com essa propaganda mentirosa? Nós fizemos com que sua fama se espalhasse justamente por meio dos seus inimigos.

6. Perseguição e tortura infligidas aos muçulmanos

Juntamente com os demais métodos de oposição e obstrução, os incrédulos coraixitas adotavam uma conduta extremamente cruel: assim que descobriam que alguém havia se tornado muçulmano, ou que qualquer pessoa havia revelado de algum modo sua aceitação do Islã, começavam a submetê-la a uma perseguição e tortura extremas. Não deixavam de fazer qualquer tentativa para pressioná-la a abandonar o Islã. No início, adotavam o seguinte método: aqueles entre os que haviam aceitado o Islã que gozavam de alguma consideração, prestígio familiar e apoio eram repreendidos com estas palavras: “Você abandonou a religião de seus antepassados, embora eles tivessem mais conhecimento do bem e do mal do que você. Agora, se não voltar, nós o desonraremos e humilharemos, o consideraremos um tolo e reduziremos sua honra e prestígio a pó”.

Aos que exerciam atividades comerciais, ameaçava-se dizendo: “Abandonem o Islã; caso contrário, destruiremos seus negócios e tornaremos impossível o exercício de sua profissão. Depois, vocês terão de morrer de fome”.

Depois, os que eram desamparados, sem recursos e fracos tinham de suportar torturas cruéis. A situação chegou a tal ponto que até pessoas nobres eram presas e submetidas a castigos físicos.

Perseguição e tortura contra os dependentes das famílias

Ibn Ishaq e At-Tabari relatam, citando Urwa ibn Az-Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele), que os chefes dos coraixitas se reuniram e decidiram que deveriam perseguir e tentar obrigar a abandonar o Islã os filhos, irmãos e membros de suas tribos que tivessem aceitado obedecer ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Assim, os seguidores do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram submetidos a uma terrível prova.

Uma pessoa tão respeitada como Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi amarrada juntamente com Hazrat Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) por Nawfal ibn Khuwaylid ibn Al-Adawiyya, conhecido como o leão dos coraixitas. A família deles, Banu Taym, não fez qualquer tentativa para salvá-los. Por isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicou: “Ó Deus, assume Tu a responsabilidade de nos proteger do mal de Ibn Al-Adawiyya” (Al-Bayhaqi, Ibn Sa’d). O tio de Hazrat Zubair ibn Al-Awwam (que Allah esteja satisfeito com ele) enrolava-o numa esteira e suspendia-o. Depois, fazia-o sofrer com fumaça por baixo, dizendo: “Abandona o Islã.” Ele respondia: “Jamais cometerei kufr” (Ibn Sa’d, At-Tabarani). O tio de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), Hakam, pai de Marwan, amarrou-o e disse: “Abandonaste a religião de teus antepassados e aceitaste a religião de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)? Não te soltarei de modo algum enquanto não abandonares essa religião.” Ele respondia: “Aconteça o que acontecer comigo, jamais abandonarei esta religião” (Ibn Sa’d). O primo de Hazrat Mus’ab ibn Umair (que Allah esteja satisfeito com ele), Uthman ibn Talha, guardião das chaves da Caaba, submeteu-o a terríveis torturas. Sua família manteve-o preso. Ele conseguiu escapar de algum modo e emigrou com o primeiro grupo de emigrantes para a Abissínia (Ibn Sa’d). A mãe de Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) e de seu irmão Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) submeteu-os a diversas torturas, mas não conseguiu desviá-los da religião do Islã (Ibn Sa’d). É relatado no Musnad de Ahmad, em Muslim, At-Tirmidhi, Abu Dawud e An-Nasa’i que a mãe de Hazrat Sa’d ibn Waqqas, Hamna bint Sufyan ibn Umayya, sobrinha de Abu Sufyan, disse-lhes: “Enquanto vocês não abandonarem a religião de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não comerei nem beberei, nem me sentarei à sombra. Cumprir o direito da mãe é uma ordem de Allah. Se não obedecerem às minhas palavras, estarão também desobedecendo a Allah.” Com isso, Hazrat Sa’d, muito angustiado, foi à presença do Profeta e expôs toda a situação. Em resposta, este versículo foi revelado por parte de Allah:

****************************************************

“E ordenámos ao ser humano que tratasse bem seus pais. Mas, se eles te pressionarem para que associes a Mim aquilo de que não tens conhecimento, não lhes obedeças.” (Al-Ankabut: 8)

Relato de Hazrat Khalid ibn Sa’id (que Allah esteja satisfeito com ele)

Quando Hazrat Khalid ibn Sa’id ibn Al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) soube que seu pai, Abu Uhayha, tinha descoberto que ele havia aceitado o Islã, escondeu-se por medo. Depois que seu pai o encontrou, repreendeu-o e passou a golpeá-lo com tanta violência que o pedaço de madeira usado para bater nele se quebrou. Então disse: “Aceitaste obedecer a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), embora tenhas visto que ele se opõe ao seu próprio povo, aponta os defeitos da religião ancestral e chama de desviados os antepassados que continuam seguindo essa religião.”

Hazrat Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Por Deus, ele é veraz, e eu sou seu seguidor.”

Abu Uhayha voltou a espancá-lo e repreendê-lo, dizendo: “Imprestável, vai para onde quiseres; não terás mais comida em minha casa.” Ele respondeu: “Se me tirares o sustento, Allah me dará sustento.” Depois, permaneceu junto do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Certo dia, estava orando num lugar isolado nos arredores de Meca. Seu pai, Uhayha, ficou sabendo disso. Chamou-o e disse: “Abandona a religião de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Ele respondeu que jamais abandonaria essa religião enquanto vivesse. Enfurecido, Uhayha começou a golpeá-lo na cabeça com um pedaço de madeira, até que este se quebrou. Depois, manteve-o preso durante três dias sem alimento. Em meio ao calor extenuante de Meca, ele continuou sofrendo esse castigo. Então, numa oportunidade, conseguiu escapar. Passou a perambular pelos arredores de Meca. Por fim, emigrou com o primeiro grupo que partiu de Meca para a Abissínia. Ibn Sa’d e Al-Bayhaqi também mencionam resumidamente esse acontecimento.

A perseguição desumana contra Hazrat Abu Bakr (ra)

Certo dia, o nobre Profeta (s) e Hazrat Abu Bakr (ra) saíram de Dar al-Arqam e foram à Mesquita Sagrada. Ali, de repente, Abu Bakr (ra) levantou-se e começou a fazer um discurso. Ele convocou as pessoas para Allah e para o Seu Mensageiro. Esta foi a primeira vez que, após uma proclamação pública, se fez o convite islâmico na Mesquita Sagrada. Assim que os politeístas ouviram o discurso, lançaram-se sobre ele, derrubaram-no ao chão e começaram a pisoteá-lo. Utba bin Rabi’a golpeou repetidamente o seu rosto com o calçado, até que todo o seu rosto inchou e o nariz ficou coberto de sangue. Ao verem essa situação, os membros da sua tribo, Banu Taym, avançaram, resgataram-no e levaram-no para casa. Não tinham a menor dúvida de que ele morreria. Por isso, voltaram à mesquita e disseram: “Por Allah, se Abu Bakr (ra) morrer, não deixaremos Utba vivo.” Hazrat Abu Bakr (ra) permaneceu inconsciente até a noite. Ao recuperar a consciência, a sua primeira pergunta foi: “Como está o Mensageiro de Allah (s)?” Ao ouvir isso, Banu Taym insultou-o e censurou-o. Depois, foram embora. Antes de partir, disseram à mãe de Hazrat Abu Bakr (ra), Umm al-Khayr, que lhe desse comida e bebida. Quando já não havia ninguém além da mãe e do filho, Hazrat Abu Bakr (ra) fez novamente a mesma pergunta. Ele disse: “Vá perguntar a Umm Jamil, irmã de Hazrat Umar (ra) [al-Tabarani explica detalhadamente que Umm Jamil era a kunya de Fatima bint Khattab, irmã de Hazrat Umar (ra). Abd al-Razzaq relata, citando o Imam al-Zuhri em al-Musannaf, que Hazrat Umar (ra) ouviu o Alcorão na casa de sua irmã Umm Jamil e abraçou a fé. Em outro relato, o nome dessa mulher é dado como Fatima bint Khattab. Isso prova que o nome da irmã de Hazrat Umar era Fatima, e sua kunya era Umm Jamil.] Fatima bint Khattab.” Naquela época, ela já havia se tornado muçulmana, mas mantinha sua conversão em segredo. Quando a mãe de Hazrat Abu Bakr lhe disse: “Abu Bakr (ra) quer saber como está Muhammad (s), filho de Abdullah”, ela respondeu: “Eu não conheço Muhammad (s), filho de Abdullah, nem conheço Abu Bakr. Contudo, se quiser, posso ir até Abu Bakr.” Ela disse: “Está bem, vamos.”

Ela foi e viu que Hazrat Abu Bakr (ra) jazia em estado muito grave. Assim que o viu, exclamou: “Por Allah, aqueles que fizeram isso com você são incrédulos e transgressores. Espero que Allah se vingue deles.”

Abu Bakr perguntou: “Como está o Mensageiro de Allah (s)?” Ela respondeu em voz baixa: “Sua mãe está ouvindo.” Abu Bakr (ra) disse: “Não há motivo para temer por ela.” Então Umm Jamil disse: “O Mensageiro (s) está completamente bem.” Abu Bakr (ra) perguntou: “Onde ele está?” Ela respondeu: “Está em Dar al-Arqam.” Hazrat Abu Bakr (ra) disse: “Por Allah, não comerei nem beberei até ir ao Mensageiro (s).” Umm Jamil disse: “Tenha um pouco de paciência.” Depois, quando a situação na cidade se acalmou, ela e Umm al-Khayr ajudaram-no, conduzindo-o até Dar al-Arqam. Ao ver o seu estado, o Mensageiro de Allah (s) ficou profundamente comovido. Inclinou-se sobre ele e examinou a sua condição.

Hazrat Abu Bakr (ra) disse: “Que meus pais sejam sacrificados por você; não sofri muito. Além da dor que aquele pecador me causou ao golpear meu rosto com o seu calçado, não tenho outra queixa. Esta é minha mãe, que está aqui com o filho. Você é extremamente benevolente: convide-a para Allah e suplique para que Allah a salve do Inferno.” Então o Mensageiro (s) suplicou por ela, convidou-a para Allah, e ela se tornou muçulmana. Este acontecimento foi relatado pelo hafiz Ibn Kathir em Al-Bidaya wa al-Nihaya; o hafiz Abu al-Hasan Khaysan bin Sulayman al-Atba o citou detalhadamente do livro Fada’il al-Sahaba, de Bulsi. E o hafiz Ibn Hajar descreveu brevemente a situação de Umm al-Khayr em Al-Isaba. (Acréscimo.)

Hazrat Abdullah bin Mas’ud foi espancado cruelmente

Ibn Ishaq, ao citar este acontecimento a partir de Hazrat Urwa bin al-Zubayr, diz que certo dia os nobres Companheiros (ra) conversavam entre si: “Os coraixitas nunca ouviram nenhum de nós recitar o Alcorão em voz alta e publicamente. Quem dentre nós poderia fazê-los ouvir uma vez esta Palavra Sagrada?”

Hazrat Abdullah bin Mas’ud (ra) disse: “Eu farei isso.” Os nobres Companheiros disseram: “Tememos que eles cometam excessos contra você. Em nossa opinião, se alguém interferir injustamente contra uma pessoa dessas, os membros da sua família avançarão em seu apoio.”

Hazrate Abdullah disse: “Deixem-me fazer isso. Por Deus, Ele é o meu protetor.”

Depois, quando já era um pouco mais tarde, ele chegou ao Haram, enquanto os chefes dos coraixitas estavam sentados em suas respectivas assembleias. Hazrate Abdullah chegou ao Maqam Ibrahim e começou a recitar em voz alta a Surata Ar-Rahman. Inicialmente, os coraixitas tentaram entender o que Abdullah estava recitando. Mas, quando compreenderam que aquelas eram as palavras que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentava como a Palavra de Deus, lançaram-se sobre ele e começaram a esbofeteá-lo violentamente. Abdullah, porém, permaneceu firme, sem se importar. Quanto mais eles o golpeavam, mais ele continuava a recitar. Enquanto teve forças, continuou fazendo-os ouvir o Alcorão. Por fim, quando voltou com o rosto coberto de ferimentos, seus companheiros disseram: “Nós temíamos que isso acontecesse.” Ele respondeu: “Nunca, em nenhum outro dia, esses inimigos de Deus foram tão impotentes contra mim quanto hoje. Se quiserem, amanhã posso fazê-los ouvir novamente o Alcorão.” Todos disseram: “Já chega. Você lhes fez ouvir aquilo que não queriam ouvir” (Ibn Hisham, volume 1, página 336). (Tafhim, volume 5 — Introdução à Surata Ar-Rahman.)

Perseguição e tortura dos escravos e escravas indefesos

As perseguições e torturas mais dolorosas foram infligidas àqueles escravos e escravas que aceitaram o Islã e não tinham nenhum protetor em Meca. Eis alguns exemplos:

Hazrate Bilal

Um deles era Hazrate Bilal ibn Rabah. Ele era escravo de um homem dos Banu Jumah e nascera na casa dele, em condição de escravidão. Era conhecido como abissínio. Quando se tornou público que havia aceitado o Islã, Umayya ibn Khalaf al-Jumahi passou a torturá-lo de várias maneiras. Ibn Hisham e Baladhuri dizem que, sob o sol escaldante do meio-dia, ele o tirava de casa, deitava-o sobre a areia ardente de Meca e colocava uma grande pedra sobre seu peito. Depois dizia: “Por Deus, você permanecerá assim até renegar Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e adorar Lat e Uzza.” Mas ele (Bilal) continuava respondendo apenas: “Ahad! Ahad!”

Baladhuri, citando o relato de Hazrate Amr ibn al-As, diz: “Vi Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) deitado sobre uma terra tão quente que, se nela se colocasse carne, ela seria cozida. Mesmo nessa situação, ele dizia claramente: ‘Renego Lat e Uzza.’

Hazrate Hassan ibn Thabit, descrevendo o que viu com os próprios olhos, diz: “Fui a Meca para o Hajj ou para a Umrah e vi que Bilal havia sido amarrado com uma corda, enquanto um grupo de garotos o arrastava de um lado para outro. Mas ele continuava dizendo: ‘Renego Lat, Uzza, Hubal, Isaf, Na’ila e Buana — a todos eles.’ Baladhuri citou assim o relato do próprio Hazrate Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele): ‘Certa vez, deixaram-me com sede durante um dia e uma noite e depois me lançaram sobre a areia ardente.’

Ibn Sa‘d relata que lhe amarravam uma corda ao pescoço e o entregavam aos meninos. Eles o arrastavam pelos vales de Meca. Depois, deitavam-no de bruços sobre a areia escaldante e colocavam pedras sobre ele. Mas ele dizia apenas: «Ahad, Ahad». A casa de Hazrat Abu Bakr (ra) ficava justamente no bairro de Banu Jumah. Ao ver aquela opressão e aquele sofrimento, ele ficou profundamente agitado. Então comprou Hazrat Bilal em troca de um escravo abissínio forte e lhe concedeu a liberdade.

Hazrat Ammar ibn Yasir (ra)

Ibn Sa‘d relata que Yasir era habitante do Iêmen. De lá, veio para Meca e estabeleceu uma relação de amizade com Abu Hudhayfa ibn al-Mughira al-Makhzumi. Abu Hudhayfa casou-o com sua escrava Sumayya. Após o advento do Islã, Yasir, Sumayya, Ammar e seu irmão Abdullah tornaram-se todos muçulmanos. Como consequência, toda a família foi submetida a severos castigos. Al-Baladhuri cita um relato de Umm Hani, e al-Tabarani cita um relato de Hazrat Uthman (ra), segundo os quais certa vez o Mensageiro de Allah (s) passava pelo lugar onde eles estavam sendo castigados. Ele ficou profundamente entristecido e disse:

*********************************************

  • Ó família de Yasir, tende paciência. Para vós há a promessa do Paraíso.

O Imam Ahmad e Ibn Sa‘d relatam, com base no testemunho de Hazrat Uthman (ra), que certa vez ele passava com o Profeta (s) pelo lugar onde aquela família estava sendo castigada. O Profeta (s) disse: «Tende paciência. Ó Allah, concede perdão à família de Yasir. E Tu já lhes concedeste o perdão.»

Ibn Sa‘d cita o relato de Muhammad ibn Ka‘b al-Qurazi: um homem viu Hazrat Ammar sem a camisa e constatou que suas costas estavam cobertas apenas por marcas de queimaduras. Perguntou: «O que são estas marcas?» Ele respondeu: «São as marcas do castigo que me foi infligido sobre a terra escaldante de Meca.»

Com base no relato de Amr ibn Maymun, Ibn Sa‘d afirma que os politeístas marcaram Hazrat Ammar com brasas ardentes, e o Profeta (s) disse: «Ó fogo, torna-te frio para Ammar, assim como te tornaste para Hazrat Ibrahim (a).» Seu pai, Yasir, morreu por não conseguir suportar aqueles castigos desumanos. Depois, Abu Jahl matou sua mãe, Sumayya. Seu irmão Abdullah também foi morto. Apenas Hazrat Ammar permaneceu. Ele era submergido na água. Seu limite de paciência foi ultrapassado, e, para salvar a vida, negou o Profeta e louvou os ídolos deles. Depois, compareceu chorando diante do Profeta e contou-lhe tudo. O Profeta perguntou: «Qual era o estado do teu coração?» Ele respondeu: «Estou absolutamente firme na fé.» O Profeta (s) disse: «Se voltares a ser submetido a uma situação como essa, dirás essas mesmas palavras.» Al-Bayhaqi, Ibn Sa‘d, Ibn Jarir, al-Baladhuri, Awfi e outros sábios narraram esse acontecimento e citaram a declaração de vários comentaristas de que o versículo 104 da Surata An-Nahl foi revelado a esse respeito. Nele se afirma: «Quem, depois de crer, negar a fé — exceto aquele que for compelido a isso enquanto seu coração estiver tranquilo na fé — será perdoado. Mas aquele que voluntariamente adotar a descrença terá sobre si a ira de Allah e para ele haverá um castigo severo.»

Hazrat Khabbab ibn al-Aratt

Ele era originalmente iraquiano. Um grupo da tribo de Rabi’a capturou-o, escravizou-o e levou-o para Meca, onde o vendeu a ‘Al-e-Saba’, uma família dos Banu Khuzaya, que mantinha um pacto amistoso com os Banu Zuhra. Ele era um artesão habilidoso. Exercia a profissão de ferreiro e fabricava espadas. Como punição por ter-se tornado muçulmano, primeiro arruinaram-no financeiramente. O Musnad de Ahmad, Bukhari e Muslim citam um relato transmitido pelo próprio. Ele disse: “Eu tinha uma dívida a receber de As ibn Wa’il al-Sahmi. Quando fui até ele para cobrá-la, dizia: ‘Não te darei nada se não negares Muhammad (s).’ Eu lhe respondia: ‘Jamais o negarei, mesmo que morras e depois tornes a viver — ainda assim, não o negarei.’ Ibn Sa’d diz que, em resposta, As dizia: ‘Está bem. Quando eu morrer e voltar novamente para junto dos meus bens e filhos, pagarei a tua dívida.’

Ibn Hisham narrou o episódio da seguinte maneira: As encomendava a ele muitas espadas, e a dívida continuava aumentando. Quando ele insistia no pagamento, As dizia: “O teu companheiro Muhammad (s), cuja religião adotaste, afirma que no Paraíso há muito ouro, prata, roupas e servos.”

Khabbab disse: “Sim, é verdade.” Ele respondeu: “Então concede-me prazo até o Dia da Ressurreição. Lá pagarei a dívida, pois lá tu e o teu companheiro Muhammad (s) não sereis mais queridos do que eu.”

Quando os opressores não se deram por satisfeitos mesmo depois de o terem arruinado financeiramente, começaram a submetê-lo a castigos severos. Ibn Sa’d e al-Baladhuri, citando um relato de al-Sha’bi, dizem que certa vez, durante o califado de Hazrat Umar (r), ele (Khabbab) mostrou as costas, que pareciam inteiramente acometidas de lepra branca. Ele disse: “Os politeístas acendiam uma fogueira e arrastavam-me sobre ela; um deles ficava de pé sobre o meu peito. Então a minha gordura derretia-se e apagava o fogo.” (Acréscimo.)

A queixa de Hazrat Khabbab diante do Profeta (s) e sua resposta

Foi durante a continuidade desse tipo de perseguição que ocorreu o episódio citado pelo Imam Ahmad ibn Hanbal, por Bukhari, Abu Dawud e al-Nasa’i, com base no relato do próprio Hazrat Khabbab. Ele disse: “Quando estávamos exaustos devido à perseguição e às torturas dos politeístas, certo dia vi o Profeta (s) sentado à sombra da parede da Caaba. Aproximei-me e disse: ‘Ó Mensageiro de Deus! A opressão chegou agora ao extremo. Não suplicas a Deus por nós?’”

Ao ouvir isso, o rosto do Profeta (s) ficou rubro, e ele disse: “Antes de vós, aqueles dentre os crentes que já partiram foram submetidos a torturas ainda maiores. Alguns eram colocados num buraco cavado para esse fim e depois eram serrados ao meio, da cabeça para baixo. Em outros, pentes de ferro eram cravados, articulação após articulação, para que renunciassem à fé. Ainda assim, não abandonavam a religião. Crede: Deus certamente concluirá esta obra. Por fim, chegará um dia em que uma pessoa viajará de Sana’a até Hadramaut sem qualquer hesitação e não temerá ninguém além de Deus. Mas vós estais sendo impacientes.” (Tafhim, vol. 3 — Introdução à Surata Maryam — Surata al-Ankabut — nota 1.)

A compra e libertação dos escravos oprimidos por Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele)

Durante esse período de opressão e perseguição, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) gastou uma grande quantia, comprou e libertou numerosos escravos e escravas oprimidos. Ibn Hisham mencionou os nomes de sete deles. Contudo, os nomes enumerados por al-Bayhaqi, Ibn Ishaq, Ibn Abd al-Barr, Ibn Hajar e outros totalizam nove pessoas.

1. Hazrat Bilal (já mencionado anteriormente).

2. Sua mãe — Hamama. Ibn Abd al-Barr diz que ela também era submetida a torturas pela causa de Deus.

3. Amir ibn Fuhayra. Ibn سعد, al-Tabari e al-Baladhuri dizem que ele era escravo de Tufayl ibn al-Harith, irmão de sangue de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), e estava entre os oprimidos que eram torturados.

4. Abu Fukayha. Sobre ele, Ibn Ishaq diz que Umayya ibn Khalaf o submetia a severas torturas. Nas Tabaqat de Ibn سعد e em Usd al-Ghaba consta que alguns membros dos Banu Abd al-Dar, de quem ele era escravo, deitavam-no sob o calor intenso do meio-dia. Também colocavam uma pedra pesada sobre suas costas. Por fim, ele perdia a consciência.

5. Lubayna ou Lubaiba. Al-Baladhuri mencionou seu nome, enquanto Ibn Hisham, sem mencionar seu nome, afirmou que ela era uma escrava dos Banu Mu’ammal, um ramo dos Banu Adi. Ele diz que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) a espancava severamente enquanto ela ainda estava na incredulidade e, quando se cansava de bater nela, dizia: “Só parei de bater em você porque me cansei.” Ela respondia: “Que Allah trate você da mesma forma.”

6 e 7. Nahdiyya e sua filha. Ambas eram escravas de uma mulher dos Banu Abd al-Dar. Sua senhora também as oprimia.

8. Zinnira (em Ibn Hisham, seu nome é mencionado como Zambura). De acordo com um relato de Ibn Asir, ela era uma escrava dos Banu Adi, e Umar ibn al-Khattab (r.a.) costumava castigá-la. Segundo outro relato, ela era escrava dos Banu Makhzum, e Abu Jahl costumava castigá-la. Por fim, ela perdeu a visão. Abu Jahl disse: “Al-Lat e Al-Uzza fizeram você ficar cega.” Ela respondeu: “Al-Lat e Al-Uzza nem sequer sabem quem as adora. Esta decisão vem do céu, e meu Senhor tem o poder de devolver-me a visão.” E, de fato, na manhã seguinte, quando ela acordou, viu-se que Allah, o Altíssimo, havia-lhe devolvido a visão. Al-Baladhuri registrou este relato.

Ibn Hisham, por outro lado, afirmou que, quando Hazrat Abu Bakr (r.a.) a comprou, dizia: “Al-Lat e Al-Uzza fizeram-na ficar cega.” Ele disse: “Pelo Senhor da Caaba, elas estão mentindo. Al-Uzza não pode beneficiar nem prejudicar ninguém.” Depois, Allah, o Altíssimo, devolveu-lhe a visão.

9. Umm Ubaïs. Alguns disseram Unaïs, e outros, Umaïs. Al-Baladhuri afirma que ela era escrava dos Banu Zuhra. Aswad ibn Abd Yaghuth costumava maltratá-la. (Aditamento.)

A objeção do pai de Hazrat Abu Bakr (r.a.) e sua resposta

Citando o relato de Hazrat Amir ibn Abd Allah ibn Zubair (r.a.), Ibn Ishaq, Ibn Jarir e Ibn Asakir dizem que, ao ver Hazrat Abu Bakr (r.a.) gastar grandes somas de dinheiro libertando daquela maneira escravos e escravas desafortunados, seu pai, Abu Quhafa (que ainda era um idólatra naquela época), disse-lhe: “Meu filho, vejo que estás libertando pessoas fracas. Se gastasses esse dinheiro para libertar jovens fortes, eles seriam teu poderoso braço direito.” Hazrat Abu Bakr (r.a.) respondeu: “Meu pai, busco apenas a recompensa que está junto de Allah.”

Este acontecimento constitui um belo testemunho daqueles versículos da Surata Al-Layl, nos quais se diz: “E será afastado desse fogo do Inferno aquele que é sumamente temente a Deus, que gasta seus bens para alcançar a purificação. Ele não tem obrigação alguma para com ninguém, cuja retribuição deva pagar. Ele faz isso unicamente para buscar a satisfação de seu Senhor, o Altíssimo” (versículos 17–20).

Isto é, aquelas pessoas em favor das quais ele gastava seus bens não lhe haviam prestado anteriormente nenhum favor, e ele tampouco lhes oferecia presentes para obter delas, no futuro, benefícios ou vantagens adicionais. Pelo contrário, buscava a satisfação de seu grandioso Senhor ajudando pessoas que nunca lhe haviam prestado qualquer favor e de cuja benevolência futura ele também não esperava nada. (Aditamento.)

As consequências da opressão e da perseguição

Os coraixitas, ao infligirem perseguições e torturas aos muçulmanos, queriam obter publicamente a vantagem de criar terror entre eles e, assim, impedir a propagação e a expansão do Islã. Mas, na realidade, o resultado disso foi algo que estava além de suas expectativas. Primeiro, ficou claro que, diante do caráter e das provas racionais trazidos pelo Islã, a incredulidade não tinha nenhuma resposta, exceto artifícios contrários à humanidade. Segundo, depois de presenciarem tamanha crueldade, todas as pessoas de natureza íntegra começaram a olhar com ódio para a incredulidade e para os porta-bandeiras dela. E, em consequência da paciência e da firmeza com que os muçulmanos suportavam aquela injusta opressão, surgiu no coração de todos os imparciais simpatia por eles, juntamente com respeito e admiração. Na verdade, isso estabeleceu a dignidade do Islã de tal maneira que, da própria sociedade de Meca, surgiram pessoas firmes, determinadas e fortalecidas pelo poder da fé, que suportavam enormes perigos e calamidades não por qualquer interesse mundano, mas somente pela verdade. Além disso, todos esses estratagemas dos incrédulos não conseguiram impedir a propagação e a expansão do Islã. Apesar de todas essas perseguições, saíram em defesa do movimento servos de Deus que aceitaram o Islã contra a vontade dos incrédulos; muitos outros abraçaram a fé em seus corações, mas não a declararam. Por isso, os inimigos do Islã não conseguiram ter uma noção precisa de quantas pessoas entre eles apoiavam essa religião em segredo. Esse apoio oculto poderia abrir brechas na fortaleza da incredulidade.

O maior benefício que o Islã obteve com toda essa opressão e perseguição foi este: aqueles que acompanharam o Nobre Profeta (s) através dessa prova de fogo eram as melhores pessoas da humanidade. Em tais circunstâncias, nenhuma pessoa de caráter fraco teria sequer ousado aproximar-se deste caminho. (Acréscimo)

O período de interrupção da revelação

As obras repletas de sabedoria de Allah são de uma natureza tão extraordinária que a razão não consegue compreendê-las. Num momento em que o confronto e o conflito entre a incredulidade e o Islã haviam chegado ao extremo, e cada instante da vida do Profeta (s) e dos muçulmanos se tornara insuportável, era natural esperar que a revelação continuasse a descer sobre o Profeta (s). Por meio dela, seriam dadas orientações para as novas situações que surgiam diariamente; o Profeta (s) e seus companheiros seriam consolados e encorajados; e os incrédulos seriam advertidos por causa de sua opressão e perseguição. Porém, justamente nesse período, a revelação deixou de descer da parte de Allah. Por isso, o próprio Profeta (s) ficou profundamente angustiado, e os incrédulos tiveram a oportunidade de zombar e escarnecer.

Não se sabe exatamente quando ocorreu o período de interrupção da revelação. Entretanto, a partir dos relatos encontrados nos hadith e do próprio conteúdo das duas suratas que foram reveladas após o fim dessa interrupção, fica claramente estabelecido que esse acontecimento ocorreu depois do início da pregação pública e do agravamento do conflito entre o Islã e a incredulidade. Diferentes relatos apresentam durações distintas para essa interrupção da revelação. Ibn Jurayj mencionou doze dias; Kalbi, quinze dias; Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), vinte e cinco dias; e Suddi e Muqatil, quarenta dias. Seja como for, esse período foi suficientemente longo para deixar o Profeta (s) profundamente entristecido. Os opositores também continuaram a zombar dele, pois, sempre que uma nova surata lhe era revelada, ele a recitava para as pessoas. Assim, quando durante algum tempo não conseguiu recitar uma nova revelação ao povo, os opositores imaginaram que a fonte de onde vinha aquele Discurso Sagrado havia secado. Jundub ibn Abdullahi al-Bajali disse que, quando a vinda de Jibril (a) foi interrompida, os politeístas começaram a dizer que seu Senhor havia abandonado Muhammad (s) (Ibn Jarir, Tabari, Tabarani, Abd ibn Hamid, Said ibn Mansur, Ibn Marduya).

Há outros relatos segundo os quais Umm Jamil, esposa de Abu Lahab — tia do Profeta (s) e sua vizinha muito próxima — disse ao Profeta (s): “Parece que o seu demônio o abandonou.”

Awfi e Ibn Jarir, citando um relato de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), dizem que, como a vinda de Jibril ficou interrompida durante alguns dias, o Profeta (s) ficou angustiado, e os politeístas começaram a dizer que seu Senhor estava descontente com ele e o havia abandonado. Um relato mursal de Qatadah e Dahhak apresenta praticamente as mesmas palavras. Vários relatos também mencionam o estado de tristeza e dor do Profeta (s) nessa situação. E como poderia ser diferente? Depois que o conflito entre a incredulidade e a fé havia começado, a indiferença da parte do Ser amado, a privação daquela fonte de força — que era seu único apoio em meio à corrente impetuosa de um conflito tão extenuante — e, além disso, as zombarias dos inimigos, tudo isso se reuniu e se tornou causa de terrível angústia para o Profeta (s). Por isso, ele pensava: “Quem sabe não terá ocorrido algum erro meu, pelo qual Ele ficou descontente comigo e me deixou sozinho na luta entre a verdade e a falsidade?”

A revelação da surata ad-Duha

Nessa situação, foi revelada a surata ad-Duha, na qual se diz:

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  • Pelo dia resplandecente e pela noite, quando ela se cobre de tranquilidade, ó Profeta: teu Senhor jamais te abandonou, nem Se irou.

Isto é, o resplandecer do dia e o cobrir-se da noite de escuridão e tranquilidade não se baseiam no fato de Allah estar satisfeito com as pessoas durante o dia e descontente com elas à noite. Ao contrário, ambas as condições ocorrem com base numa grande sabedoria e utilidade. Isso não tem relação alguma com a ideia de que, quando Allah estiver satisfeito contigo, Ele enviará a revelação, e, quando não a enviar, isso significará que está descontente contigo e que, por isso, te abandonou. Se a luz do dia incidisse continuamente sobre as pessoas, isso as deixaria exaustas e fatigadas. Por isso, é conforme à razão que a noite venha depois do dia, para que as pessoas possam descansar. Do mesmo modo, se a luz da revelação incidisse incessantemente sobre ti, tuas veias e nervos não poderiam suportá-la. Por essa razão lógica, Allah também determinou períodos em que a revelação seria interrompida, para que desaparecesse o efeito do grande peso da revelação que recaía sobre ti e tu pudesses descansar. (Pode-se perceber, pelos relatos encontrados nos hadiths a esse respeito, quão difícil e doloroso era para o Profeta (que a paz esteja com ele) suportar o peso da revelação. Hazrat Zayd ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: certa vez, a revelação desceu sobre o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) enquanto ele estava sentado, apoiando seu joelho sobre o meu. Então, meu joelho sofreu uma pressão tão forte que pensei que seria esmagado.)

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: vi a revelação descer sobre o Profeta em meio ao frio intenso. Naquele momento, o suor caía gota a gota de sua testa — (Bukhari, Muslim, Muwatta do Imam Malik, Tirmidhi, Nasai). Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) também disse: quando a revelação descia sobre ele enquanto estava sentado sobre uma camela, a camela apoiava o peito no chão e não se movia até que a revelação terminasse (Musnad Ahmad, Hakim, Ibn Jarir). (Tafhim, volume 6 — nota sobre Muzammil.)

Depois, foi dito:

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  • Certamente, o que virá será melhor para ti do que o que passou.

Esta boa-nova foi dada por Allah Ta’ala ao Profeta (S) num momento em que apenas um pequeno grupo estava com ele. A lâmpada do Islã tremeluzia na própria Meca. Tempestades se levantavam de todos os lados para apagá-la. Toda a nação estava decidida a opor-se, e não se via, até onde a vista alcançava, nenhum sinal aparente do sucesso dos muçulmanos. Naquele momento, Allah Ta’ala disse ao Profeta (S): não se aflija com as dificuldades, sofrimentos e tribulações do período inicial. Cada período posterior provará ser melhor que o anterior. Sua força, honra, influência e posição continuarão a aumentar, e sua influência também seguirá crescendo. E esta promessa não se limita a este mundo; pelo contrário, a Outra Vida também será melhor para você do que este mundo.

Em seguida, é dito:

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  • E em breve o seu Senhor lhe dará tanto que você ficará satisfeito. (versículo 5)

Isto é, embora haja alguma demora em conceder isso, não está distante o momento em que as dádivas de seu Senhor serão derramadas sobre você de tal modo que ficará satisfeito. Esta promessa foi cumprida ainda durante a vida do Santo Profeta (S), de tal maneira que todo o território árabe — desde a costa marítima do sul até a Síria do Império Romano, ao norte, e a fronteira iraquiana do Império Persa, e desde o Golfo Pérsico, a leste, até o Mar Vermelho, a oeste — ficou submisso a ele. Pela primeira vez na história da Arábia, esse território ficou sob uma única lei e ordem. Toda força que veio enfrentá-lo foi completamente esmagada. Em todo o território ressoou o testemunho: não há divindade além de Allah, e Muhammad é o Mensageiro de Allah. Os politeístas e o Povo do Livro da região, embora empregassem todas as suas forças para manter elevado o seu falso testemunho, fracassaram. Na obediência, não apenas suas cabeças se curvaram, mas também seus corações foram subjugados. Uma grande revolução ocorreu em sua fé, suas práticas e sua moral. Em toda a história da humanidade não há exemplo de uma nação mergulhada na ignorância que tenha mudado tanto em apenas vinte e três anos. Depois, o movimento fundado pelo Santo Profeta (S) tornou-se tão poderoso que se expandiu por grande parte da Ásia, da África e da Europa, e sua influência se espalhou pelas aldeias remotas e pelos caminhos e recantos do mundo. Isso é o que Allah Ta’ala concedeu ao Seu Mensageiro neste mundo. Não se pode sequer imaginar a grandeza daquilo que Ele lhe concederá na Outra Vida.

Revelação da Surata Alam Nashrah

Pouco tempo depois, foram reveladas as dificuldades que surgiram no início do movimento islâmico e que deixaram o Profeta (S) extremamente aflito. Então, para consolá-lo, foi revelada a Surata Alam Nashrah. As passagens relacionadas são citadas aqui com explicação.

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  • Ó Profeta! Acaso não abrimos o teu peito para ti? (versículo nº 1)

O início do discurso por meio dessa pergunta e o conteúdo subsequente deixam claro, por si mesmos, que, naquela época, o Mensageiro de Allah (S) havia ficado extremamente angustiado ao enfrentar todas aquelas dificuldades, isto é, os obstáculos e as adversidades que encontrou nos primeiros tempos, depois de iniciar publicamente a missão de الدعوة islâmica. Nessa situação, Allah Ta’ala dirigiu-se a ele para consolá-lo, dizendo: Ó Profeta! Acaso não te concedi tais favores? Então, por que estás angustiado com todas essas dificuldades do período inicial?

Ao observar os contextos em que a expressão “abrir o peito” é usada no Alcorão Sagrado, pode-se compreender que ela possui dois significados.

1. Na Surata Al-An’am, versículo 125, é dito:

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  • Portanto, àquele a quem Allah Ta’ala conceder orientação, Ele abrirá o peito para o Islã. Na Surata Az-Zumar, versículo 22, é dito:

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  • Então, aquele cujo peito Allah abriu para o Islã caminha sobre uma luz proveniente de seu Senhor.

Nestes dois lugares, “abrir o peito” significa libertar-se de toda espécie de ansiedade, hesitação e conflito interior, e ter a certeza de que o caminho do Islã é verdadeiro; que a crença, os princípios morais, a civilização, a cultura, as orientações e a guia que o Islã ofereceu à humanidade são absolutamente verdadeiros e corretos.

2. Nos versículos 12 e 13 da Surata Ash-Shu‘ara é mencionado que, quando Allah, o Altíssimo, conferiu a Moisés (que a paz esteja sobre ele) a dignidade da profecia e lhe ordenou que enfrentasse o Faraó e seu enorme poder estatal, ele suplicou:

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—Ó meu Senhor! Temo que eles me desmintam e rejeitem. (Por medo e desespero,) meu peito está ficando apertado.

Nos versículos 22 a 25 da Surata Ta-Ha, é dito que, naquela ocasião, Moisés (que a paz esteja sobre ele) suplicou a Allah:

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  • Meu Senhor, abre o meu peito para mim e facilita para mim a minha tarefa.

Aqui, o aperto do peito significa não ter coragem para suportar o pesado fardo de uma tarefa difícil como a profecia e para enfrentar, sozinho, uma enorme força de incredulidade. Em contrapartida, abrir o peito significa o aumento da coragem, do entusiasmo e da disposição da pessoa; significa não recuar diante da condução de uma campanha extremamente árdua nem diante da realização de uma tarefa terrivelmente difícil. Como resultado, surge coragem para cumprir a grandiosa responsabilidade da profecia.

Ao refletir, pode-se perceber que, neste versículo (Alam Nashrah), estão contidos ambos os sentidos acima em relação ao Mensageiro de Allah (S) e à abertura do peito. Se adotarmos o primeiro sentido, seu significado será que, antes de receber a profecia, o Mensageiro de Allah (S) considerava falsos todos os credos dos politeístas árabes, dos cristãos, dos judeus e dos adoradores do fogo. Além disso, ele também não se sentia satisfeito com aquela orientação para Allah encontrada entre alguns monoteístas árabes. Isso porque ela constituía uma crença ambígua, na qual não havia nenhuma descrição do caminho correto (ver a nota 5 da surata Ha Mim Sajdah, no Tafhim al-Qur’an). Contudo, como ele próprio (o Profeta) também não conhecia a busca pelo caminho correto, sofria de uma intensa hesitação e conflito interior. Ao conceder-lhe a profecia, Allah removeu sua hesitação e seu conflito e tornou claro para ele o caminho verdadeiro e correto; por isso, ele alcançou plena certeza.

Se adotarmos o segundo sentido, seu significado será que, depois de lhe conceder a profecia, Allah lhe deu o entusiasmo, a energia, a coragem, a firmeza de determinação e a amplidão de espírito necessários para cumprir a pesada responsabilidade desse cargo. Ele se tornou possuidor de um conhecimento amplo e vasto, que nenhum ser humano poderia abarcar. Obteve a sabedoria e o discernimento capazes de remover a extrema decadência e organizar e regularizar tudo de modo ordenado. Adquiriu tal capacidade que, mesmo numa sociedade mergulhada na jahiliyyah e incivilizada e bárbara em razão da ignorância, sem recursos nem meios e tendo de enfrentar abertamente as tempestades e turbulências de forças que o apoiavam, não ficou perplexo. Suportou com paciência as dores, dificuldades e calamidades que encontrou nesse caminho. Nenhuma força pôde desviá-lo de sua posição. Portanto, o significado da declaração de Allah é: Ó Profeta! Quando Allah te concedeu o tesouro inesgotável da Sharh al-Sadr (abertura do peito), por que te afliges com as dificuldades que surgem nesta fase inicial da missão que estás empreendendo? [1. Alguns exegetas entenderam Sharh al-Sadr no sentido de fender o peito e consideraram este versículo uma prova do milagre da abertura do peito mencionado nas narrações dos hadiths. Contudo, a realidade é que a prova desse milagre depende das narrações dos hadiths. Não é correto tentar prová-lo a partir do Alcorão. Do ponto de vista da língua árabe, de modo algum se pode entender ‘Sharh al-Sadr’ como fender o peito. O erudito Alusi afirma em Ruh al-Ma‘ani:

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Aos olhos dos pesquisadores, interpretar ‘sharh’ neste versículo como fender é uma opinião fraca.]

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  • E elevamos, especialmente para ti, a tua menção.

Isso foi dito numa época em que todos os inimigos do Islã entre os coraixitas estavam empenhados em difamar o Profeta (S). Especialmente durante o Hajj, seguindo o plano proposto por Walid ibn al-Mughira, eles iam a cada acampamento dos peregrinos e divulgavam todo tipo de coisas sobre o Profeta, fazendo com que as pessoas formassem uma opinião negativa a respeito dele e fugissem para longe. Como, então, nessas circunstâncias, poderia haver a boa-nova de que a menção do Profeta seria elevada?

Em primeiro lugar, o próprio Allah fez com que a tarefa de elevar sua menção fosse realizada pelos próprios inimigos. Precisamente por causa dos métodos adotados pelos incrédulos de Meca para humilhá-lo, seu nome chegou a todas as partes da Arábia, às cidades e aldeias, e os próprios inimigos, tirando-o do isolamento de Meca, tornaram-no conhecido entre todas as tribos do país. Era perfeitamente natural que as pessoas quisessem saber quem era aquele homem: o que dizia? Que tipo de pessoa era? Como eram aqueles que haviam sido influenciados por sua magia? Que efeito sua magia tinha exercido sobre eles? Quanto mais aumentava a propaganda dos incrédulos de Meca, mais crescia entre as pessoas essa curiosidade investigativa. Então, como resultado dessa investigação, quando as pessoas conheceram o caráter e o comportamento dele (do Profeta), quando ouviram o Alcorão e descobriram que ensinamento ele transmitia, e quando os observadores viram quão elevada e pura havia se tornado a vida daqueles que tinham sido influenciados pelo que se chamava magia, em comparação com a vida das pessoas comuns da Arábia, aquela má fama começou a transformar-se em boa reputação. Por fim, quando chegou o momento da Hégira para Medina, a situação havia chegado a tal ponto que, entre as tribos árabes próximas e distantes, não havia nenhuma que não tivesse algum indivíduo ou família que tivesse aceitado o Islã, nem nenhuma entre cujos membros alguns não tivessem desenvolvido simpatia pelo Profeta (S) e por seu convite. Esta é a primeira fase da elevação da menção do Profeta (S), que estava transcorrendo quando esta surata foi revelada e cuja reação todos observavam.

Alguns anos depois, começou sua segunda etapa, que ninguém podia ver nem imaginar naquele momento. Somente Allah Todo-Poderoso tinha conhecimento dela, e foi Ele quem deu ao Profeta suas boas-novas. Após a Hégira, os hipócritas, os judeus e todos os influentes politeístas da Arábia, por um lado, empenhavam-se em difamar o Profeta; por outro, o Estado Islâmico de Medina apresentava exemplos concretos de devoção a Deus, temor a Deus, pureza moral, uma vida social feliz e harmoniosa, justiça, igualdade, generosidade dos ricos, cuidado com os pobres, preservação de tratados e compromissos e honestidade nas ações, conquistando assim os corações das pessoas. Os inimigos tentaram impedir essa influência crescente por meio da guerra. Porém, o grupo de crentes formado sob a liderança do Profeta demonstrou sua superioridade de tal maneira, graças à sua disciplina, bravura, ausência de medo da morte e observância dos limites morais mesmo em estado de guerra, entre outras qualidades, que toda a Arábia reconheceu essa superioridade. Em dez anos, a lembrança do Profeta foi exaltada de tal forma que, no próprio país onde seus adversários haviam empregado todas as forças para difamá-lo, em cada recanto daquele país ressoava o chamado de *************************************. Depois, na era dos Califas Bem-Guiados, seu santo nome começou a ser elevado por todo o mundo. Esse processo vem crescendo até hoje e, se Allah quiser, continuará crescendo até o Dia da Ressurreição. Não existe lugar no mundo onde haja uma comunidade de muçulmanos em que, cinco vezes por dia, a missão de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não seja proclamada em voz alta no adhan; onde não se recitem bênçãos sobre ele durante a oração; onde seu nome não seja lembrado no sermão de sexta-feira; e não há nenhum dia, entre os doze meses do ano, nem qualquer momento, entre as vinte e quatro horas do dia, em que seu nome não seja mencionado em algum lugar do mundo. Portanto, o sentido do versículo é: ó Profeta, por que estás aflito diante das severas provações e calamidades deste período? Eu providenciei um meio de elevar tua lembrança que ninguém poderia sequer imaginar em sonhos. Narra-se no hadith de Abu Sa’id al-Khudri que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Jibril veio até mim e me disse: “Meu Senhor e teu Senhor perguntam: como elevei tua lembrança?” Respondi: “Allah sabe melhor.” Ele disse: “A declaração de Allah Todo-Poderoso é que, quando Eu sou lembrado ou mencionado, tu também és lembrado comigo” — (Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, Abu Ya’la, Ibn al-Mundhir, Ibn Hibban, Ibn Mardawayh, Abu Nu’aym).

****************************************

Portanto, a verdade é que, com a dificuldade, também há facilidade. Sem dúvida, com a dificuldade há facilidade.

Isso foi repetido duas vezes para consolar plenamente o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), mostrando-lhe que a situação difícil pela qual estava passando não duraria muito. Pelo contrário, logo depois viria uma situação melhor. À primeira vista, parece contraditório dizer que, com a dificuldade, haverá facilidade, pois essas duas situações não podem ocorrer simultaneamente. Porém, em vez de dizer “depois da dificuldade, haverá facilidade”, as palavras “com a dificuldade, haverá facilidade” foram usadas para indicar que o momento da facilidade está tão próximo que parece estar chegando junto com o primeiro. (Tafhim, vol. 6 — Alam Nashrah — notas 1, 3 e 4.)

Nono capítulo

A Hégira para a Abissínia

A importância da Hégira na religião do Islã

Depois do jihad, a segunda coisa importante e digna de destaque mencionada no Alcorão é a Hégira. Por que a Hégira tem tanta importância no Islã? A razão é que, para um muçulmano, as coisas mais importantes não são sua própria terra natal, sua nação, nem seu pão ou seu estômago. Pelo contrário, o mais importante para ele é viver de acordo com os princípios nos quais crê, para obter a satisfação de Allah. Se não puder viver segundo esses princípios, sua liberdade — e até mesmo sua própria vida — tornar-se-á sem sentido. Os princípios dos quais depende sua fé, e sobre os quais tem a firme convicção de que são a verdade absoluta, concedida por Deus e pelo Mensageiro, ele preferirá abandonar a própria vida no caminho de Deus a renunciar a esses princípios.

Os seguidores do Mensageiro que emigraram da Arábia para a Abissínia fizeram isso porque, por serem árabes, coraixitas e habitantes de Meca, tinham plena liberdade em seu próprio país, tribo e cidade. Mas a liberdade da qual estavam privados era a liberdade de ser muçulmanos. Por isso, abandonaram sua terra natal e foram para outro país. Quando o Mensageiro de Allah (s) emigrou de Meca para Medina, por que o fez? Ele era habitante de Meca. Em Meca, possuía todos os direitos que qualquer cidadão de Meca teria. Seus companheiros também possuíam todos os direitos que lhes cabiam por serem coraixitas. Mas a razão pela qual ele e seus companheiros abandonaram suas casas, parentes e bens, e partiram levando apenas as roupas que vestiam, era que não tinham liberdade de ser muçulmanos. Foi por essa liberdade que abandonaram sua terra natal e partiram levando apenas as roupas que vestiam, pois não tinham liberdade de ser muçulmanos. Foi por essa liberdade que abandonaram sua terra natal e se estabeleceram em outra cidade. (Folheto — Azadi (do autor), pp. 11–12.)

No Alcorão, os muçulmanos são preparados para a Hégira

Quando a opressão e a perseguição contra os muçulmanos em Meca chegaram ao extremo, começou no Alcorão o processo de prepará-los para a Hégira. Foi declarado:

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— Ó Meus servos, que crestes! Na verdade, Minha terra é ampla. Adorai-Me, pois, somente a Mim — e obedecei aos Meus mandamentos e governo. Toda alma provará a morte. Depois, todos sereis reconduzidos a Mim. Quanto aos que creem e praticam boas ações, alojá-los-emos nas elevadas mansões do Paraíso, sob as quais correm rios, onde permanecerão eternamente. Que excelente recompensa para os que praticam o bem! Isso é para aqueles que perseveram e confiam em seu Senhor. E quantos animais existem que não transportam consigo o próprio sustento! Allah lhes provê o sustento, bem como a vós. E Ele é Oniouvinte, Onisciente. (Al-Ankabut, 56–60)

No primeiro versículo, há uma indicação à Hégira. O objetivo é este: se for difícil adorar a Deus em Meca, abandonai o país e parti — a terra de Deus não é estreita. Ide para onde quer que possais viver como servos de Deus. Deveis adorar a Deus, não servir à vossa tribo e à vossa terra natal. Com isso, ensina-se que a realidade essencial não é a tribo, a terra natal ou o país, mas sim a adoração de Allah. Se alguma vez as exigências do amor à tribo, à terra natal e ao país entrarem em conflito com as exigências da adoração de Allah, esse será o momento da prova da fé do crente. O verdadeiro crente adorará somente a Allah e rejeitará a tribo, a terra natal e o país. Já aquele que falsamente reivindica a fé abandonará a fé e permanecerá agarrado à sua própria nação e país. Explica-se detalhadamente aos muçulmanos que uma pessoa verdadeiramente devotada a Deus pode também amar sua nação e seu país, mas não pode adorá-los. Para ela, a adoração de Deus é mais querida do que tudo, e por ela sacrificará todas as coisas do mundo; porém, jamais abandonará a adoração de Deus por qualquer coisa deste mundo.

No segundo versículo, diz-se: não vos preocupeis com a vossa vida. Ela terminará a qualquer momento. Ninguém veio ao mundo para permanecer eternamente. Portanto, a questão que deve preocupar-vos não é como preservar a vida neste mundo. A verdadeira preocupação é como preservar a fé e como cumprir a exigência da devoção a Deus. Se, para salvar a vida, abandonardes a fé, o resultado será um só. Assim, preocupai-vos apenas com isto: quando retornardes a Mim, o que levareis? Uma fé sacrificada pela vida ou uma vida sacrificada pela fé?

No terceiro e no quarto versículos, diz-se: suponhamos que, por seguir o caminho da fé e das boas ações, ficastes privados de todas as bênçãos do mundo e, do ponto de vista mundano, fostes malsucedidos; crede, então, que essa perda será certamente compensada. Não apenas será compensada — ao contrário, recebereis a melhor das recompensas. A recompensa dos servos crentes e virtuosos que permanecem firmes na fé diante de toda espécie de sofrimento, adversidade e perda; que assumiram sobre os ombros todos os riscos de abraçar a fé e não lhe deram as costas; que viram com os próprios olhos as oportunidades, facilidades e benefícios mundanos de abandonar a fé, mas não demonstraram por eles o menor apego; que viram diante dos olhos os incrédulos e os ímpios enriquecerem enormemente, mas depositaram sua confiança não neles, nem nos negócios e no comércio, nem na tribo, e sim em seu próprio Senhor; que desprezam os meios e recursos mundanos e confiam exclusivamente em seu Senhor; que estão prontos a suportar toda adversidade por causa da fé, a resistir a todo poder e, quando o momento exige, a abandonar suas casas e partir — a recompensa desses servos crentes e virtuosos jamais será perdida junto ao seu Senhor. Ele os protegerá e ajudará também neste mundo, e, na Outra Vida, conceder-lhes-á a melhor recompensa por suas ações.

Por fim, é transmitido este incentivo: durante a Hégira, assim como não deveis preocupar-vos com a vida, também não deveis angustiar-vos com o sustento. Entre os incontáveis animais, aves e criaturas aquáticas que se movem pelos ares, pela terra e pelas águas, quem se desloca levando consigo o próprio sustento? Somente Allah é que os alimenta e cuida deles. Aonde quer que vão, de uma forma ou de outra, recebem o sustento da graça de Allah. Portanto, os que creem não devem perder a coragem pensando: se abandonarmos nossas casas por causa da fé e partirmos para outro lugar, de onde obteremos alimento? Allah, de onde provê o sustento de Suas incontáveis criaturas, também proverá o deles.

No caminho da pregação da verdade, chega-se também a um ponto em que, para uma pessoa verdadeiramente correta, não resta outra opção senão desviar o olhar de todos os apoios e recursos do mundo dos meios materiais e arriscar a vida confiando unicamente em Allah. Em tal situação, nada podem fazer aqueles que calculam, examinam as possibilidades futuras e, antes de dar qualquer passo, procuram garantir a segurança da vida e o sustento. Na realidade, uma situação desse tipo só muda mediante o sacrifício daqueles que se levantam como se tivessem a mortalha sobre a cabeça e se preparam resolutamente para suportar todos os perigos e calamidades. É o sacrifício deles que, por fim, traz aquele momento auspicioso em que a Palavra de Allah se eleva, enquanto todas as palavras da falsidade são humilhadas e rebaixadas diante dela. (Tafhim al-Qur’an, vol. 3, Al-‘Ankabut, notas 94–99.)

Em outro lugar, foi dito:

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(Ó Profeta,) dize: “Ó Meus servos que crestes, temei vosso Senhor. Para aqueles que praticaram boas ações neste mundo haverá o bem. E a terra de Allah é ampla. Aos pacientes será concedida sua recompensa sem conta.” (Az-Zumar: 10)

Também aqui é dada orientação aos crentes: se algum lugar se tornou estreito para a adoração de Allah, a terra d’Ele é ampla. Partam para algum outro lugar a fim de preservar sua religião. Junto com isso, é-lhes dada também a boa-nova de que haverá bem para eles tanto neste mundo quanto no Além. Sua vida terrena será organizada, assim como sua vida futura. Isso porque deram prioridade à religião sobre o mundo e seus prazeres. Unicamente por causa da religião, migraram de casa em casa, tornando-se sem lar, e de país em país, tornando-se sem pátria, partindo para outra cidade ou região. Quando uma cidade, região ou país se tornou estreito para a adoração de Allah, eles partiram para outro lugar. Portanto, haverá recompensa sem conta para aqueles que suportaram todo tipo de perigo, calamidade, sofrimento e dor para seguir o caminho da devoção a Allah e da virtude, sem se desviarem do caminho da verdade. A promessa dessa recompensa sem conta não foi feita somente aos emigrantes; foi feita também àqueles que permanecem firmes em terras de opressão e perseguição, enfrentando cada adversidade. (Tafhim al-Qur’an, vol. 4, introdução a Az-Zumar, notas 30–32.)

Orientações durante a Hégira

No Alcorão Majid, aos muçulmanos oprimidos de Meca não foi dado apenas o incentivo à Hégira; foram dadas também duas formas de orientação. Como os muçulmanos estavam emigrando para um país cristão, nesse contexto foi revelada a surata Maryam, cujos dois primeiros rukus narram as histórias do profeta Yahya e do profeta Isa, que a paz esteja com ele. Isso significa que, embora estivessem indo para lá como requerentes de asilo oprimidos, Allah Altíssimo não lhes ensinou, nessa situação, a demonstrar a menor flexibilidade em relação à sua religião. Pelo contrário, deu-lhes essa surata como provisão para a viagem, para que, no país dos cristãos, pudessem apresentar a verdadeira identidade e a dignidade de Isa (a paz esteja com ele) e negar claramente que ele fosse “o filho de Deus”, qualquer que fosse a consequência disso.

A segunda orientação foi dada assim:

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— E não discutais com o Povo do Livro senão da melhor maneira, exceto com aqueles que cometem injustiça. E dizei-lhes: “Cremos no que foi revelado para nós e no que foi revelado para vós. Nosso Deus e vosso Deus é um só, e a Ele somos submissos.” (Al-Ankabut: 46)

Isto é, quando vos encontrardes com o Povo do Livro (os cristãos), evitai discutir com os injustos e conversai com os sensatos de maneira inteiramente racional, usando uma linguagem cortês e digna, numa forma que toque o coração. Dizei-lhes: não somos um grupo fanático que aceita o Livro enviado a nós, mas não aceita o Livro enviado a vós. Também seguimos a verdade, isto é, aceitamos a verdade. Tudo quanto veio até nós da parte de Deus, aceitamos como verdade; da mesma forma, cremos no que veio até vós. O nosso Deus e o vosso Deus não são diferentes; ao contrário, é o mesmo Deus, a Quem nós adoramos e vós também adorais. Adotamos o caminho de adorar e obedecer a esse mesmo Deus. (Tafhim, volume 6 — introdução à Surata Al-Haqqah.)

A primeira Hégira para a Abissínia

Quando a situação rompeu os limites da paciência, no mês de Rajab do quinto ano da profecia, o Profeta (S) disse aos seus companheiros:

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— Seria melhor que partísseis e fôsseis para Habasha, isto é, a Abissínia. Lá há um rei sob cujo governo ninguém é oprimido. É uma terra de bondade. Permanecei lá até que Allah, o Altíssimo, providencie alguma forma de afastar de vós esta provação.

De acordo com essa orientação, realizou-se a primeira Hégira para a Abissínia, da qual participaram onze homens e quatro mulheres. Os coraixitas perseguiram-nos até a costa marítima. Porém, felizmente, no porto marítimo de Shuaybah, encontraram a tempo um barco com destino à Abissínia e conseguiram escapar de serem capturados.

Aqueles que participaram da primeira Hégira

Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, diz que a lista dos muhajirun nesta Hégira é a seguinte:

1. Do clã dos Banu Umayya, Hazrate Uthman ibn Affan (r.a.).

2. Sua esposa, Hazrate Ruqayya, filha do Mensageiro de Deus (s.a.w.).

(Ibn Abd al-Barr diz que Umm Ayman também estava com eles.)

3. Do clã dos Banu Abd Shams ibn Abd Manaf, Hazrate Abu Hudhayfa ibn Utba ibn Rabi’a (r.a.).

4. Sua esposa, Hazrate Sahl bint Suhayl ibn Amr.

5. Do clã dos Banu Asad ibn Abd al-Uzza ibn Qusayy, Hazrate al-Zubayr ibn al-Awwam (r.a.).

(Ele era sobrinho de Hazrat Khadija (r.a.) e primo, filho de sua tia paterna, do Profeta (s.a.w.).)

6. De Banu Abduddar bin Qusay: Hazrat Musab bin Umair (r.a.).

7. De Banu Zuhra bin Kilab: Hazrat Abdur-Rahman bin Auf (r.a.).

8. De Banu Makhzum: Hazrat Abu Salama bin Abdul-Asad (r.a.).

9. Sua esposa, Umm Salama (r.a.) (prima paterna de Abu Jahl).

10. De Banu Jumah: Usman bin Mazun (r.a.) — tio materno de Hazrat Hafsa (r.a.), Mãe dos Crentes.

11. Dos aliados de Banu Adi: Hazrat Amir bin Rabia al-Anzi (r.a.).

12. Sua esposa, Layla bint Abi Hasma (r.a.).

13. De Banu Amir ibn Lu’ayy: Abu Sabra ibn Abi Ruhm (r.a.).

14. De Banu al-Harith ibn Fihr: Suhail ibn Bayda (r.a.).

Ibn Sa’d acrescenta mais dois nomes, citando al-Waqidi: Hatib ibn Amr ibn Abd Shams e Abdullah ibn Mas’ud (r.a.) (aliado de Banu Zuhra por meio de um pacto). Ibn Ishaq afirma que, posteriormente, Hazrat Ja’far ibn Abi Talib também se juntou a eles. Contudo, Musa ibn Uqba afirma em al-Maghazi que ele se juntou não na primeira Hégira, mas na segunda. Ibn Ishaq diz que Hazrat Abdullah ibn Mas’ud (r.a.) esteve na segunda Hégira, e não na primeira. Além disso, al-Zurqani, citando alguns autores de sira, afirma que Umm Kulthum, esposa de Abu Sabra (r.a.), também estava com ele; ela era a segunda filha de Suhail ibn Amr. Hazrat Uthman (r.a.) foi o primeiro a partir. (Al-Bayhaqi)

A conduta para com os emigrantes na Abissínia

Ibn Jarir al-Tabari afirma que a Abissínia era um antigo centro comercial dos coraixitas. Ali, eles obtinham grande quantidade de sustento e lucravam muito com o comércio. Por isso, os emigrantes não tiveram de enfrentar qualquer dificuldade ali. Os próprios emigrantes declararam: “Vivemos ali muito bem. Tínhamos plena segurança quanto à nossa religião. Adorávamos a Deus. Não nos era infligida espécie alguma de sofrimento. Também não tivemos de ouvir qualquer palavra que nos fosse desagradável.”

A ida da delegação dos coraixitas atrás deles

Quando os coraixitas viram que aquelas pessoas haviam ido para a Abissínia e estavam vivendo ali em segurança, enviaram Amr ibn al-As e Abdullah ibn Abi Rabi’a a al-Najashi, levando muitos presentes valiosos, para que eles fossem trazidos de volta a Meca. Em al-Bukhari, o nome desse rei é mencionado como Ashama (*************). Contudo, al-Najashi não deu qualquer atenção às suas palavras e os enviou de volta a Meca, frustrados. Há divergência nas narrações sobre essa delegação. Segundo algumas narrações, Umara ibn al-Walid ibn al-Mughira foi enviado com esses dois representantes. Outras narrações afirmam que Amr ibn al-As foi enviado a al-Najashi tanto na época da primeira quanto da segunda Hégira. Porém, Umara acompanhou a primeira delegação, enquanto Abdullah acompanhou a segunda; Ibn Ishaq, contudo, menciona o nome de Abdullah em ambas as delegações. (Acréscimo do autor.)

O retorno dos emigrantes e sua causa

Nesse ano, durante o mês de Ramadã, ocorreu um acontecimento cuja notícia chegou à Abissínia da seguinte forma: os incrédulos de Meca haviam se tornado muçulmanos.

O acontecimento foi o seguinte:

Certo dia, quando os coraixitas estavam reunidos no Santuário Sagrado, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) levantou-se subitamente para discursar, e Deus Altíssimo fez com que, por sua boca, fosse recitada a surata An-Najm. O impacto da Palavra de Deus foi tão intenso e poderoso que, enquanto o Profeta (que a paz esteja com ele) continuava a recitá-la, todo o alvoroço dos opositores perdeu a força e cessou. Ao terminar a recitação, quando ele se prostrou, todos os presentes também se prostraram. Segundo o relato de Hazrat Abdullah ibn Masud (que Deus esteja satisfeito com ele), registrado por Bukhari, Muslim, Abu Dawud e Nasa’i, esta foi a primeira surata do Alcorão Sagrado que o Profeta (que a paz esteja com ele) recitou numa assembleia pública dos coraixitas. Segundo o relato de Ibn Marduyah, tanto incrédulos quanto crentes estavam presentes na assembleia do Santuário. Por fim, quando o Profeta (que a paz esteja com ele) recitou o versículo da prostração e se prostrou, todos os presentes imediatamente se prostraram. Nem mesmo os líderes influentes dos politeístas, que desempenhavam papel de destaque na oposição, conseguiram deixar de se prostrar. Entre os incrédulos, viu-se apenas Umayya ibn Khalaf pegar um punhado de terra, passá-la no rosto e dizer: “Isto basta.”

A segunda testemunha ocular desse acontecimento foi Hazrat Mutalib ibn Abi Wada’a, que ainda não havia se tornado muçulmano. Seu próprio relato é citado da seguinte forma em Nasa’i e no Musnad de Ahmad:

Quando o Profeta (que a paz esteja com ele) recitou a surata An-Najm e se prostrou, e todos os presentes caíram em prostração, eu não me prostrei. Agora compenso isso da seguinte maneira: nunca deixo de fazer a prostração da recitação quando recito essa surata.

Ibn Sa’d, citando a cadeia de transmissão de Waqidi, diz que Walid ibn Mughirah também passou um punhado de terra no rosto, pois não conseguiu prostrar-se por causa da idade avançada. Abu Uhayha Sa’id ibn al-As também passou terra no rosto devido à velhice.

Assim, esse acontecimento transformou-se em um relato popular e chegou à Abissínia da seguinte forma: todos os politeístas coraixitas haviam se tornado muçulmanos. Mas a realidade era diferente. Influenciados pelo poder do Alcorão, os que se prostraram de fato o fizeram naquele momento; porém, depois, ficaram tão constrangidos que passaram a pensar: “Que fraqueza foi essa que demonstramos?” As pessoas começaram a repreendê-los, dizendo: “Vocês proibiam os outros de ouvir essa Palavra, mas vocês mesmos não apenas escutaram atentamente, como também se prostraram com Maomé (que a paz esteja com ele).” Então inventaram uma história para se livrar da situação. Diziam: “Ora, nós…”

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—Depois disso, ouvimos da boca de Muhammad (s) estas palavras—

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—Estas deusas de elevada posição, e sua intercessão certamente pode ser esperada—.

Por isso, pensamos que Muhammad (s) havia vindo para o nosso caminho. Contudo, poderia algum louco sequer imaginar que essas palavras pudessem ter lugar no contexto anterior e posterior da Surata An-Najm? E eles alegavam ter ouvido essas palavras diretamente, com os próprios ouvidos, da boca do Profeta (s). (Tafhim, vol. 5 — Resumo e introdução — An-Najm.)

O mistério da história dos Gharaniq

É lamentável que, entre os nossos próprios exegetas e estudiosos do hadith, alguns relatos desse tipo tenham se tornado célebres. O resultado é que aquilo que os incrédulos alegam ter ouvido da boca do Profeta (s), na realidade, teria saído da própria boca do Profeta (s). E teria saído desse desejo de que, de algum modo, desaparecesse a aversão e a hostilidade existentes entre ele e os incrédulos. E Satanás, aproveitando-se desse desejo, teria feito essas palavras saírem de sua boca.

A história é contada da seguinte maneira: surgiu no coração do Profeta (s) o desejo de que, ah, se fossem reveladas no Alcorão palavras que removessem a aversão dos incrédulos coraixitas contra o Islã e os aproximassem um pouco. Pelo menos, que não houvesse uma crítica tão severa à sua religião a ponto de provocá-los. Enquanto esse desejo permanecia em seu coração, certo dia, quando se realizava uma grande assembleia dos coraixitas, a Surata An-Najm foi revelada a ele, e ele começou a recitá-la. Quando ele—

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Quando chegou a esse ponto, de repente estas palavras saíram de sua boca:

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Depois, ele continuou recitando os versículos seguintes da surata. Então, quando terminou a surata e se prostrou, todos, tanto os idólatras quanto os muçulmanos, caíram em prostração. Os incrédulos coraixitas disseram: “Que divergência resta agora entre nós e Maomé (S)? Nós sempre dizíamos que o Criador e o Provedor são certamente Allah; naturalmente, estas nossas divindades são nossas intercessoras perante Ele.” À noite, Gabriel (A) veio e disse: “O que você fez? Eu não trouxe estas duas frases.” Com isso, ele (o Profeta (S)) ficou profundamente triste. Então Allah, o Altíssimo, revelou este versículo, que se encontra na 8.ª seção da surata Bani Israil: [Um orientalista do mundo ocidental fez a afirmação infundada e desonesta de que, depois de se revogarem aqueles versículos satânicos, foram revelados em seu lugar os versículos 21 e 22 da surata Najm. No entanto, isso é uma afirmação absolutamente desprovida de provas e argumentos: ele não mencionou nenhuma cadeia de transmissão nem foi capaz de apresentar qualquer informação confiável — o autor.]

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— isto é, ó Profeta, essas pessoas não pouparam nenhum esforço para lançar você na provação e afastá-lo da revelação que enviei a você, a fim de que inventasse, em Meu nome, alguma coisa de sua própria autoria… Então, você não encontraria nenhum ajudante contra Mim.

Esse assunto mantinha continuamente o coração do Profeta carregado de tristeza. Por fim, foi revelado o versículo 52 da surata Hajj, no qual o Profeta (S) foi consolado assim: “O mesmo aconteceu também com os profetas anteriores a você: quando algum profeta concebeu um desejo, Satanás interferiu nele. Porém, Allah elimina tudo aquilo em que Satanás interfere e firma ali os Seus versículos.”

Enquanto isso, a notícia de que os coraixitas, depois de ouvirem o Alcorão, haviam se prostrado junto com o Profeta foi transmitida à Abissínia de tal maneira, com tantos acréscimos, que se espalhou que o Profeta (S) e os incrédulos de Meca haviam firmado um acordo de paz. Por isso, muitos emigrantes retornaram a Meca. Mas, ao chegarem, descobriram que a notícia do acordo era falsa. O conflito e o confronto entre o Islã e a incredulidade continuavam como antes.

Esta história foi citada por Ibn Jarir e muitos exegetas em seus tafsirs; por Ibn Saad em seu Tabaqat; por Aluahidi em Asbab an-Nuzul; por Musa ibn Uqba em seu Maghazi; por Ibn Ishaq em sua Sira; e por Ibn Abi Hatim, Ibn al-Mundhir, Bazzar, Ibn Marduyah e Tabarani em suas coleções de hadiths. As cadeias de transmissão com base nas quais ela foi citada remontam a Muhammad ibn Qays, Muhammad ibn Kaab Qurazi, Urwah ibn Zubair, Abu Salih, Abu al-Aliyah, Said ibn Jubair, Dahhak, Abu Bakr ibn Abd ar-Rahman ibn al-Harith, Qatada, Mujahid, Suddi, Ibn Shihab Zuhri e, por último, Ibn Abbas (R). (Com exceção de Ibn Abbas (R), nenhum deles era Companheiro.) Além de pequenas divergências nos relatos detalhados da história, há duas divergências muito importantes. A primeira é que cada relato difere dos demais quanto às palavras atribuídas ao Profeta em louvor às divindades. A segunda grande divergência é que, segundo alguns relatos, enquanto a revelação estava sendo transmitida, Satanás lançou essas palavras sobre o Profeta ou as impôs à sua mente, e ele julgou que haviam sido trazidas por Gabriel (A). Segundo outro relato, essas palavras saíram involuntariamente de sua boca como reação de seu estado interior. Há ainda quem relate que ele as pronunciou intencionalmente, mas em frases interrogativas, com sentido de negação. Segundo outro relato, Satanás misturou sua voz à voz do Profeta, e pensou-se que ele (o Profeta) havia pronunciado essas palavras. E, conforme outro relato, alguém entre os idólatras pronunciou essas palavras.

Grandes eruditos como Ibn Kathir, Bayhaqi, Qadi Iyad, Ibn Khuzayma, Qadi Abu Bakr Ibn al-Arabi, Imam Razi, Qurtubi, Badr al-Din Ayni, Shawkani e Alusi declararam que esta história é absolutamente falsa. Ibn Kathir afirma: todas as cadeias de transmissão nas quais este relato foi registrado são mursal e munqati. Não encontrei esta história em nenhuma cadeia de transmissão muttasil autêntica. Bayhaqi afirma que, do ponto de vista da transmissão, esta história não está comprovada. Quando Ibn Khuzayma foi questionado a esse respeito, respondeu: “Esta é uma história inventada pelos zindiq; sua fragilidade fica demonstrada pelo fato de que nenhum dos compiladores das Sihah Sittah a citou em suas obras. Tampouco ela foi narrada por transmissores confiáveis, com uma cadeia muttasil sahih e íntegra.” Imam Razi, Qadi Abu Bakr e Imam Alusi rejeitaram-na, após uma discussão detalhada e com argumentos sólidos. Por outro lado, um muhaddith de alto nível como Hafiz Ibn Hajar, um célebre jurista como Abu Bakr al-Jassas, além de Zamakhshari e Ibn Jarir, consideram-na correta e a classificam como uma exegese do versículo 52 da Surata al-Hajj. O argumento de Ibn Hajar é o seguinte:

Além da via de Sa’id ibn Jubayr, as demais vias pelas quais este relato é encontrado são ou fracas ou munqati. Contudo, a multiplicidade das vias prova que ele necessariamente possui uma base.

Além disso, ele foi transmitido por uma via com cadeia sahih e muttasil, registrada por Bazzar (a saber: Yusuf ibn Hammad, de Umayya ibn Khalid, de al-Shu’ba, de Abi Bishr, de Sa’id ibn Jubayr, de Abu Abbas). Por duas outras vias, embora seja mursal, os transmissores satisfazem as condições de Bukhari e Muslim. Al-Tabari registrou essas duas narrações: uma pela via de Yunus ibn Yazid, de Ibn Shihab; e a outra pela via de Mu’tamir ibn Sulayman e Hammad ibn Salama, de Dawud ibn Abi Hind, de Abul Aliya. Quanto aos que compartilham dessa opinião, eles aceitaram-na como correta. Os opositores, em geral, também não cumpriram seu dever de verificar e criticar devidamente esta questão. Um grupo a rejeita porque sua cadeia de transmissão não é sahih segundo seus critérios. Isso significa que, se a cadeia fosse forte, esses senhores aceitariam a história como verdadeira. Outro grupo a rejeita porque, a partir dela, toda a religião se tornaria sujeita a dúvidas e surgiriam dúvidas sobre cada aspecto da religião, sob o pretexto de que talvez tenha havido, em algum lugar, uma instigação satânica ou a interferência de desejos perversos. Contudo, esse tipo de argumento só pode convencer aqueles que estão firmemente decididos a crer. Mas as outras pessoas, que desde o início nutriam dúvidas ou que agora desejam examinar a questão para decidir se devem ou não crer, não serão levadas a rejeitar os assuntos pelos quais a religião é considerada duvidosa. Elas dirão: quando um acontecimento é comprovado pelo relato de pelo menos um ilustre Companheiro, de numerosos tabi’in, tabi’ al-tabi’in e de vários narradores confiáveis de hadith, por que rejeitá-lo simplesmente porque ele tornou a sua religião duvidosa? Em vez disso, por que a sua religião não deveria ser considerada duvidosa, quando este acontecimento é que a torna duvidosa?

Agora é preciso investigar qual pode ser o método correto de crítica ou verificação pelo qual, após examiná-la, esta narrativa possa ser considerada inaceitável, por mais forte que seja a sua cadeia de transmissão.

A primeira coisa é a própria evidência interna, que prova que ela é falsa. A história afirma que este acontecimento ocorreu quando a primeira Hégira para a Abissínia havia terminado e um grupo de muhajirun retornara a Meca ao tomar conhecimento dele. Observemos agora a diferença entre as datas:

—Segundo relatos confiáveis, a Hégira para a Abissínia ocorreu no mês de Rajab do quinto ano da missão profética. Um grupo de muhajirun retornou a Meca três meses depois, ao ouvir a falsa notícia de um acordo — isto é, provavelmente no mês de Shawwal daquele mesmo ano. Disso se conclui que este acontecimento ocorreu no quinto ano da missão profética.

—Afirma-se que um versículo da Surata Bani Isra’il foi revelado para expressar o desagrado por este ato do Profeta (que a paz esteja com ele), e que isso ocorreu depois do Mi’raj. Segundo relatos confiáveis, o Mi’raj ocorreu no décimo primeiro ou décimo segundo ano da missão profética. Isso significa que Allah manifestou Seu desagrado por este acontecimento cinco anos depois.

—Depois, o contexto anterior e posterior do versículo 52 da Surata al-Hajj mostra que ele foi revelado no primeiro ano da Hégira. Isto é, dois anos e meio depois de ser manifestado o desagrado pelo Profeta, declarou-se que, como essa inserção havia sido feita por Satanás, ela fora anulada ou revogada.

Pode alguma pessoa dotada de bom senso acreditar que a interpolação ocorreu hoje, a manifestação de descontentamento seis anos depois e o anúncio da revogação da interpolação nove anos depois?

Em seguida, afirma-se nesta narrativa que a interpolação ocorreu na sura An-Najm, da seguinte maneira: desde o início, o Profeta (s) recitava as palavras da sura original. De repente, ao chegar a ******************************, esta frase foi acrescentada por iniciativa própria ou por instigação satânica. Depois, ele continuou a recitar os versículos seguintes da sura An-Najm. Afirma-se a esse respeito que os incrédulos de Meca ficaram muito felizes ao ouvi-la e disseram: agora terminou a divergência entre nós e Muhammad (s). Mas incluam esta frase acrescentada na sequência do discurso da sura An-Najm e observem.

— Então, já refletistes sobre Al-Lat, Al-Uzza e Manat, a terceira outra deusa? Estas são deusas de elevada posição. Certamente se pode esperar a sua intercessão. Para vós, os filhos homens, e para Ele (Allah), as filhas? Que divisão tão injusta! Na realidade, tudo isso não passa de nomes que vós e vossos antepassados inventastes; Allah não enviou nenhuma autoridade que comprovasse a sua veracidade. As pessoas seguem apenas conjecturas e ideias inventadas. No entanto, chegou-lhes a orientação correta da parte do seu Senhor.

Vejam como, no discurso acima, as duas frases sublinhadas criam uma contradição manifesta. Num só fôlego, afirma-se que as vossas deusas são realmente de elevada posição e que certamente se pode esperar a sua intercessão. No fôlego seguinte, desfere-se um golpe contra elas: ó insensatos! Como estabelecestes para Allah filhas? Que caminho ilegítimo é esse, segundo o qual vós ficareis com os filhos homens e caberão a Allah as filhas? Tudo isso são palavras inventadas por vós, sem qualquer autoridade da parte de Allah. Deixemos por um momento a questão de saber se palavras tão absurdas poderiam sair da boca de uma pessoa sábia. Admitamos que Satanás tenha obtido poder e feito essas palavras saírem da boca dele. Mas será que toda a assembleia dos coraixitas, que as ouvia, estava louca, para que, mesmo depois de ouvir a clara refutação dessas palavras elogiosas nas frases seguintes, continuasse a pensar que, na realidade, suas deusas haviam sido elogiadas? Até ao final da sura An-Najm, todo o contexto é inteiramente contrário a essa frase elogiosa. Como se pode acreditar que os coraixitas, mesmo depois de a ouvirem até ao fim, tenham gritado de alegria: vamos, hoje terminou a divergência entre nós e Muhammad (s)?

Esta é a evidência interna da narrativa, que indica precisamente que ela é fabricada e sem sentido. Depois, a segunda coisa a verificar é se a sequência contínua do Alcorão aceita a ocasião da revelação dos três versículos tal como é narrada. A narrativa afirma que a interpolação ocorreu na sura An-Najm, revelada no quinto ano da missão profética. Por causa dessa interpolação, o descontentamento foi manifestado na sura Bani Isra’il. Em seguida, a sua refutação e explicação foram apresentadas nos versículos da sura Al-Hajj. Agora, necessariamente, uma de duas situações terá ocorrido. Ou os versículos que manifestam o descontentamento e os que fazem a refutação foram revelados também no momento em que ocorreu a interpolação; ou então, posteriormente, o versículo que manifesta o descontentamento foi revelado juntamente com a sura Bani Isra’il, e o versículo que faz a refutação, juntamente com a sura Al-Hajj.

Se foi a primeira situação, que coisa extraordinária é esta: esses dois versículos não foram incluídos na própria sura An-Najm; ao contrário, o versículo que manifesta o descontentamento foi deixado de lado durante seis anos e, quando a sura Bani Isra’il foi revelada, foi colocado num ponto dela. Depois, os versículos que refutavam a interpolação foram deixados de lado durante dois anos e meio, e em nenhum lugar foram inseridos até à revelação da sura Al-Hajj. Será que a sequência cronológica do Alcorão ocorreu assim, de modo que os versículos revelados numa mesma época permanecessem separados e dispersos, e, anos depois, alguns fossem ligados a uma sura e outros a uma sura diferente?

Mas, se foi a segunda situação — isto é, se o versículo que manifesta o descontentamento foi revelado seis anos depois do acontecimento e o versículo que faz a refutação, oito ou nove anos depois —, além da falta de pertinência que mencionámos anteriormente, surge a pergunta: que espaço havia para a sua revelação nas suras Bani Isra’il e Al-Hajj?

Ao chegarmos a este ponto, apresenta-se diante de nós o método correto de crítica e verificação. Isto é: deve-se examinar a interpretação apresentada para um versículo e verificar se o contexto anterior e posterior do Alcorão a aceita. Leiam a oitava seção da sura Bani Isra’il e observem também o discurso anterior e posterior. Há, na continuidade desse discurso, alguma possibilidade de que o Profeta esteja sendo repreendido a propósito de um acontecimento ocorrido seis anos antes? (É claro que também se deve verificar se, no versículo *****************************, o Profeta (s) é repreendido e se as palavras do versículo contestam o envolvimento do Profeta na sedição criada pelos incrédulos ou reconhecem a sua veracidade.) Do mesmo modo, leiam a sura Al-Hajj: leiam o discurso anterior ao versículo 52 e também o posterior. Conseguem encontrar alguma razão lógica para que, no meio desse contexto anterior e posterior, tenha surgido subitamente o seguinte: “Ó Profeta! Não te preocupes com a interpolação que foi feita por ti no Alcorão nove anos atrás. Satanás também fez com que os profetas anteriores realizassem esse ato; e, quando os profetas o fizeram, Allah o anulou e tornou novamente firmes os Seus versículos.”

Já dissemos repetidas vezes e voltamos a repetir que nenhuma tradição (narração), por mais brilhante que seja quanto à sua cadeia de transmissão, pode ser aceita quando se verifica que o seu texto (matn) apresenta testemunho claro de que é falso e que as palavras do Alcorão, sua sequência, o contexto das declarações e todos os demais elementos se recusam a aceitá-la. Esses argumentos certamente também convencerão firmemente a mente de um pesquisador cético e imparcial de que esta história é inteiramente falsa. Resta o caso do crente. Ele de modo algum pode aceitá-la quando vê claramente que essa narração entra em conflito não com um, mas com muitos versículos do Alcorão. Para um muçulmano é muito fácil aceitar que os autores dessa narração foram levados ao erro. Por outro lado, ele jamais pode acreditar que o Mensageiro de Allah (S) pudesse acrescentar ao Alcorão sequer uma palavra segundo a sua própria vontade. Ou que, por um instante, pudesse surgir na mente do Profeta (S) a ideia de misturar algo de shirk ao tawhid para agradar aos incrédulos. Ou que pudesse alimentar, a respeito dos mandamentos de Allah Todo-Poderoso, o desejo de que Allah não proferisse algo que desagradasse aos incrédulos. Ou ainda a ideia de que a revelação lhe chegasse por um meio desprotegido e duvidoso, de modo que Satanás, juntamente com Jibril (A.S.), inserisse alguma palavra na revelação recebida por ele, e ele imaginasse equivocadamente que também aquilo havia sido trazido por Jibril (A.S.). Cada uma dessas afirmações é contrária às explicações claras do Alcorão. Além disso, é contrária às crenças comprovadas que mantemos acerca do Alcorão e de Muhammad (S). Buscamos refúgio em Allah contra uma tal veneração cega das narrações, que, simplesmente por observar a continuidade da cadeia de transmissão, a confiabilidade dos narradores e a abundância dos métodos de transmissão, prepara um muçulmano para aceitar até mesmo palavras tão graves sobre o Livro de Allah e o Seu Mensageiro.

Considero apropriado também esclarecer a dúvida que surge ao se observar um número tão grande de narradores envolvidos na transmissão desta história. Alguém poderia perguntar: se esta história não tem fundamento algum, como uma falsidade tão grande contra o Profeta (S) e o Alcorão veio a ser divulgada por meio de narradores tão confiáveis de hadith? A resposta é que as suas causas podem ser encontradas no próprio acervo de hadith. Em Bukhari, Muslim, Abu Dawud, Nasa’i e no Musnad de Ahmad, o acontecimento real é narrado da seguinte maneira:

O Profeta (S) recitou a Surata An-Najm e, ao prostrar-se no final, todos os presentes, muçulmanos e politeístas, caíram em prostração. O acontecimento foi apenas isso. E não havia nada de extraordinário nele. Primeiro, havia o poderoso discurso do Alcorão e o seu estilo comovente; depois, ele era recitado pela boca do Profeta (S) com a dignidade da revelação. Depois de ouvi-lo, se toda a assembleia se emocionou e todos se prostraram juntamente com o Profeta (S), não havia nada de surpreendente nisso. Era justamente por isso que os coraixitas diziam que aquele homem era um feiticeiro. Sabe-se, porém, que mais tarde os coraixitas se envergonharam dessa reação coletiva, e um ou alguns deles explicaram a causa de seu ato dizendo: “Ouvimos com os nossos próprios ouvidos, da boca de Muhammad (S), algumas palavras elogiando as nossas divindades; por isso nos prostramos com ele.” [Yaqut escreveu, em Mu‘jam al-Buldan, sob o verbete “Uzza”, que os coraixitas, enquanto circundavam a Caaba, diziam:

*******************************************

A partir disso pode-se supor que, depois de ouvirem da boca do Profeta (S) a menção a Lat e Uzza, alguém tenha pronunciado essas palavras, fazendo coincidir a sua voz com a dele, e que os que ouviram à distância tenham formado uma impressão equivocada por causa disso — o autor.]

Por outro lado, o acontecimento chegou aos ouvidos dos emigrantes da seguinte forma: havia ocorrido uma trégua entre o Profeta (S) e os coraixitas, pois os espectadores tinham visto o Profeta (S) e os politeístas prostrarem-se juntos. Esse rumor provocou tal comoção que todos os emigrantes, ou a maioria deles, retornaram a Meca. Em pouco tempo, essas três coisas — a prostração dos coraixitas, a causa dessa prostração e o retorno dos emigrantes — combinaram-se e assumiram a forma desta história, e alguns homens confiáveis acabaram envolvidos na sua transmissão. Afinal, o ser humano continua sendo humano. Até pessoas de grande piedade e inteligência muitas vezes cometem erros. Os erros delas são mais prejudiciais que os dos homens comuns. Aqueles que excedem os limites na veneração aceitam cegamente, junto com as palavras corretas desses anciãos, também as incorretas. Já os que são movidos pela hostilidade selecionam os seus erros e os reúnem, apresentando-os como prova de que tudo o que chegou até nós por meio deles deve ser rejeitado. (Tafhim, vol. 3, Hajj, nota 99.)

A situação dos emigrantes que retornaram

Ao ouvirem que os habitantes de Meca haviam se tornado muçulmanos, os emigrantes retornaram da Abissínia a Meca, no mês de Shawwal do quinto ano da missão profética. Ibn Sa‘d diz que todos os emigrantes retornaram a Meca. Ibn Ishaq, porém, diz que alguns retornaram e outros não. Al-Baladhuri não apenas menciona o retorno de todos os primeiros emigrantes para a Abissínia; ele também apresenta a lista de todos eles e informa sob a proteção de quem cada um entrou em Meca. Quando chegaram perto de Meca, encontraram um homem da tribo de Banu Kinana. Perguntaram-lhe sobre a situação dos coraixitas. Ele respondeu que Muhammad (S) havia feito menções elogiosas às suas divindades e que, por isso, todos haviam passado para o lado de Muhammad (S). Quando, depois disso, os emigrantes continuaram a censurar as suas divindades como antes, eles também passaram a tratá-los com severidade.

Nessa situação, os Muhajirun consultaram-se entre si e disseram: “Devemos voltar novamente para a Abissínia ou, já que chegamos até aqui, por que não entramos em Meca? Depois veremos o que pode ser feito.” Assim, cada um deles entrou em Meca sob a proteção de alguém. A única exceção foi Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele), que entrou em Meca sem a proteção de ninguém e, depois de permanecer ali por algum tempo, partiu para a Abissínia. É isso que Ibn Sa‘d, Baladhuri e outros dizem a respeito de Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, Ibn al-Qayyim afirmou em Zad al-Ma‘ad que ele permaneceu em Meca. Por outro lado, já citamos anteriormente a declaração de Ibn Ishaq de que ele de modo algum emigrou.

Baladhuri relatou em detalhes quem concedeu proteção a cada um dos Muhajirun que retornaram ao entrarem em Meca.

1. Abu Wuhayha Sa‘id ibn al-‘As concedeu proteção a Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele).

2. Umayya ibn Khalaf concedeu proteção a Hazrat Abu Hudhayfa ibn ‘Utba ibn Rabi‘a (que Allah esteja satisfeito com ele).

3. Hazrat al-Zubayr ibn al-‘Awwam (que Allah esteja satisfeito com ele) — aquele que lhe concedeu proteção foi Zam‘a ibn al-Aswad.

4. Hazrat Mus‘ab ibn ‘Umayr (que Allah esteja satisfeito com ele) — aquele que lhe concedeu proteção foi al-Nadr ibn al-Harith ibn Kalada (ou Abu ‘Aziz ibn ‘Umayr).

5. Hazrat ‘Abd al-Rahman ibn ‘Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) — aquele que lhe concedeu proteção foi al-Aswad ibn ‘Abd Yaghuth.

6. Hazrat ‘Amir ibn Rabi‘a (que Allah esteja satisfeito com ele) — aquele que lhe concedeu proteção foi al-‘As ibn Wa’il al-Sahmi.

7. Hazrat Abu Sabra ibn Abi Ruhm — seu protetor: Ukhnas ibn Shurayq.

8. Hazrat Hatib ibn Amr — seu protetor: Huwaytib ibn Abd al-Uzza.

9. Hazrat Suhayl ibn Bayda — seu protetor: um homem de sua tribo. (Segundo outro relato, ele permaneceu escondido em Meca e depois partiu para a Abissínia.)

Al-Baladhuri, citando al-Waqidi, e Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, com algumas divergências, afirmam que Hazrat Uthman ibn Maz’un buscou a proteção de al-Walid ibn al-Mughira. Porém, quando viu que os demais muçulmanos estavam sofrendo uma perseguição extrema, enquanto ele vivia e circulava em grande tranquilidade sob a proteção de al-Walid, sentiu vergonha e começou a pensar: “Quando meus companheiros e irmãos na fé estão em perigo, e eu me encontro sob a proteção de um idólatra — isto é uma grande fraqueza de espírito da minha parte.” Então disse a al-Walid: “Liberte-me da sua proteção.” Al-Walid respondeu: “Meu filho, acaso viste sob a minha proteção algo além de segurança? Alguém te tratou mal?” Hazrat Uthman respondeu, sem apresentar queixa alguma: “Busco a proteção de Allah. Não gosto de permanecer sob a proteção de ninguém além d’Ele.” Al-Walid disse: “Nesse caso, vai ao Santuário e anuncia que estás livre da minha proteção, assim como eu anunciei que te concedia proteção.” Hazrat Uthman preparou-se de bom grado. Ele e al-Walid foram juntos ao Santuário. Al-Walid disse: “Este é Uthman, que veio devolver-me a proteção.” Hazrat Uthman respondeu: “É verdade. Encontrei na proteção de al-Walid a proteção de um homem nobre e digno de confiança. Contudo, agora não quero permanecer sob a proteção de ninguém além de Allah. Por isso, devolvi-lhe a proteção.” Naquela época, o célebre poeta árabe Labid ibn Rabi’a havia chegado a Meca. Ao recitar sua poesia, ele também pronunciou este verso:

*******************************************

“Cuidado! Tudo, exceto Allah, é falso.”

Hazrat Uthman ibn Maz’un exclamou: “Disseste a verdade.”

Então, quando ele recitou o segundo verso —

***************************************

“E toda dádiva é certamente perecível.”

Hazrat Uthman (r.a.) disse: “Isso é uma mentira. As dádivas do Paraíso não perecerão.”

Labid ficou furioso com isso e disse, dirigindo-se aos coraixitas: “Nunca foi humilhante sentar-se convosco, e a insolência e a falta de educação nunca vos foram apropriadas.” Então, um homem dos Banu Mughira levantou-se e deu um forte tapa no rosto de Hazrat Uthman, fazendo com que seu olho ficasse azul. Walid zombou, dizendo: “Meu rapaz, que proveito tiveste com isso?” Uthman respondeu: “Meu segundo olho também espera receber o golpe que seu companheiro recebeu.” Walid disse: “Estavas sob a proteção de alguém que era teu protetor.” Hazrat Uthman (r.a.) disse: “Juro por Deus! Agora não aceitarei a proteção de ninguém além da proteção de Allah.” Durante essa conversa, Abdullah bin Abi Umayya bin Mughira golpeou e feriu o nariz do homem que havia dado um tapa em Hazrat Uthman.

Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, diz que Hazrat Abu Salama buscou a proteção de seu tio materno, Abu Talib. Isso porque ele era filho de Barra bint Abd al-Muttalib, irmã de Abu Talib. Os Banu Makhzum disseram a Abu Talib: “O senhor colocou seu sobrinho sob sua proteção, mas que relação tem com o nosso homem para também mantê-lo sob sua proteção?” Ele respondeu: “Muhammad (s.a.w.) é meu sobrinho, e Abu Salama é filho de minha irmã. Se posso proteger meu sobrinho, por que não poderia proteger o filho de minha irmã?” Os Banu Makhzum estavam prestes a discutir, quando Abu Lahab se levantou e disse: “Ó coraixitas! Vós já fizestes muitas coisas contra o nosso ancião e continuais a pressioná-lo para que ele retire de sua proteção qualquer pessoa de sua própria tribo a quem tenha concedido abrigo. Juro por Deus! Ou cessais de perturbá-lo, ou eu também me colocarei ao lado dele.”

Ao ouvirem isso de Abu Lahab, os Banu Makhzum ficaram assustados e disseram: “Ó Abu Utba, não queremos desagradá-lo.”

Al-Tabari diz que, entre os que retornaram, Hazrat Uthman (r.a.) bin Affan e sua esposa, Hazrat Ruqayya (r.a.), filha do Mensageiro de Allah (s.a.w.), e Hazrat Abu Hudhayfa (r.a.) e sua esposa, Sahla bint Suhayl bin Amr, permaneceram em Meca e ficaram ali até migrarem para Medina. Contudo, há dúvidas quanto a esse relato. Isso porque Ibn Ishaq menciona seu nome entre os que fizeram a segunda migração para a Abissínia e o inclui no grupo de trinta e três homens e oito mulheres que vieram da Abissínia para Meca antes de o Profeta (s.a.w.) migrar para Medina. Dentre eles, dois morreram, sete foram feitos prisioneiros e vinte e quatro participaram da batalha de Badr.

A segunda migração para a Abissínia

Quando a perseguição e a opressão contra os muçulmanos de Meca chegaram ao extremo, e o Profeta (s.a.w.) viu que a Abissínia havia se mostrado um refúgio seguro para os muçulmanos, ele ordenou novamente que os oprimidos partissem para a Abissínia. Assim, no sexto ano da profecia (615 d.C.), ocorreu a segunda Hégira. Embora os coraixitas tenham feito todos os esforços para impedir a Hégira e tenham importunado os emigrantes de várias maneiras, desta vez mais de oitenta homens e dezoito ou dezenove mulheres chegaram em segurança à Abissínia. Ibn Sa’d afirmou que havia 83 homens e mencionou 11 mulheres coraixitas e 7 não coraixitas. Entre os 83 homens também foi mencionado o nome de Ammar ibn Yasir (r.a.). Contudo, Ibn Ishaq expressou dúvidas quanto à sua participação. Os historiadores Waqidi, Ibn Uqba e outros afirmaram categoricamente que ele não estava entre eles. Por outro lado, Ibn Abd al-Barr declarou com firmeza que ele estava entre eles. Do mesmo modo, o nome de Hazrat Abu Musa al-Ash’ari (r.a.) também foi mencionado entre esses emigrantes. Mas a verdade é que ele não emigrou de Meca. Pelo contrário, ele foi primeiro a Meca, tornou-se muçulmano, voltou ao Iêmen e continuou ali o trabalho de propagação do Islã. Depois, partiu do Iêmen em um barco com alguns membros de seu povo, cujo número é indicado como 52 ou 53. Entretanto, o vento levou o barco até a costa da Abissínia. Assim, eles se juntaram aos emigrantes. Em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, a própria narração de Abu Musa (r.a.) é apresentada assim. Ele disse: “Quando ouvimos o anúncio da missão profética do Mensageiro de Allah (s.a.w.), e enquanto estávamos no Iêmen, partimos em um barco. Contudo, nosso barco nos levou à Abissínia. Ali encontramos Hazrat Ja’far ibn Abi Talib. Depois, chegamos com ele a Khaybar no momento da conquista de Khaybar.” Ibn Sa’d cita a seguinte declaração de Hazrat Abu Musa: “Partimos do Iêmen com mais de cinquenta pessoas de nosso povo, e nosso barco nos levou ao território de Najashi, o rei da Abissínia. Hazrat Ja’far ibn Abi Talib (r.a.) já se encontrava ali desde o início.”

Lista dos emigrantes

A partir desta lista dos emigrantes, pode-se compreender a importância desta Hégira, que Ibn Hisham compilou citando Ibn Ishaq.

Dos Banu Hashim

1. Hazrat Ja’far ibn Abi Talib (r.a.).

2. Sua esposa, Asma bint Umays al-Khath’amiyya.

Dos Banu Umayya

3. Hazrat Uthman ibn Affan (r.a.).

4. Sua esposa, a venerável Ruqayya (que Allah esteja satisfeito com ela), filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

5. Amr ibn Sa‘id ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele).

6. Sua esposa, Fátima bint Safwan.

7. Seu irmão, Khalid ibn Sa‘id ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele).

8. Sua esposa, Umayna Khalaf.

Do povo ligado por um pacto aos Banu Umayya

9. O venerável Abdullah ibn Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ele). (Dos Banu Ghanm ibn Dudan e irmão da Mãe dos Crentes, a venerável Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela))

10. Seu irmão, Ubaydullah ibn Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ele).

11. Sua esposa, Umm Habiba.

12. Qays ibn Abdullah.

13. Sua esposa, Baraka bint Yasar.

14. Mu’ayqib ibn Abi Fatima.

Da tribo Banu Abd Shams ibn Abd Manaf

15. Abu Hudhayfa (r.a.), filho de Utba ibn Rabi’a.

16. Utba ibn Ghazwan (r.a.).

17. Zubayr (r.a.), filho de al-Awwam ibn Khuwaylid.

18. Aswada (r.a.), filha de Nawfal bin Khuwaylid,

(Zubair e Aswad eram sobrinhos de Hazrat Khadija (r.a.).)

19. Yazid (r.a.), filho de Umayya bin Harith bin Asad.

Dos Banu Abd bin Qusay

21. Tulaib (r.a.), filho de Umayr bin Wahab (ele era primo de Huzur (s.a.w.)).

Dos Banu Abdud-Dar bin Qusay

22. Mus’ab (r.a.), filho de Umayr bin Hashim.

23. Suwaybit (r.a.), filho de Sa’d.

24. Jahm (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Qays.

25. Sua esposa, Umm Harmala (que Allah esteja satisfeito com ela), filha de Abd al-Aswad.

26. Seu filho Amr (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Jahm.

27. Seu outro filho, Khuzayma (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Jahm.

28, Abu al-Rum (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Umayr, filho de Hashim.

29. Kiram (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Nadar, filho de Harith, filho de Kalada.

30. Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele).

31. Amir ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele).

(irmão de Saʿd bin Abi Waqqas)

32. Muttalib bin Azhar (que Allah esteja satisfeito com ele).

33. Sua esposa, Ramla bint Awf.

Aliado por tratado aos Banu Zuhrah

34. Abdullah bin Masud (que Allah esteja satisfeito com ele).

35. Seu irmão, Utba Masud (que Allah esteja satisfeito com ele).

36. Miqdad bin Amr (que Allah esteja satisfeito com ele).

Dos Banu Taym

37. Harith ibn Khalah (r.a.).

38. Sua esposa, Rayta bint al-Harith ibn Habala (r.a.).

39. Amr ibn Uthman (r.a.).

Dos Banu Makhzum

40. Abu Salama ibn Abd al-Asad (r.a.).

41. Sua esposa, Uthman (r.a.).

42. Shammās ibn Uthman (r.a.).

43. Habbar ibn Sufyan (r.a.).

44. Seu irmão, Abdullah ibn Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele).

45. Hisham ibn Abi Hudhaifa ibn Mughirah (que Allah esteja satisfeito com ele).

46. Salama ibn Hisham ibn Mughirah (que Allah esteja satisfeito com ele).

47. Ayyash ibn Abi Rabia (que Allah esteja satisfeito com ele).

Aliado por tratado a Banu Makhzum.

48. Mu’attib ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele).

De Banu Jumah

49. Uthman ibn Maz’un (que Allah esteja satisfeito com ele).

50. Seu filho, Sa’ib bin Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele).

51. Qudama bin Maz’un (irmão de Uthman) (que Allah esteja satisfeito com ele).

52. Seu segundo irmão, Abdullah bin Maz’un (que Allah esteja satisfeito com ele).

53. Hatib bin al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ele).

54. Sua esposa, Fátima bint Mujallal al-Amiriyya.

55. Seu filho, Muhammad bin Hatib (que Allah esteja satisfeito com ele).

56. Seu segundo filho, Harith bin Hatib (que Allah esteja satisfeito com ele).

57. Seu irmão, Khattab bin Harith (que Allah esteja satisfeito com ele).

58. Sua esposa, Fukaiha bint Yasar.

59. Sufyan bin Ma’mar (que Allah esteja satisfeito com ele).

60. Seu filho, Jabir bin Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele).

61. Seu segundo filho, Junada bin Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele).

62. Sua esposa, Hasana (que Allah esteja satisfeito com ela) — mãe de Jabir e Junada.

63. Shur Jabil Hasana (que Allah esteja satisfeito com ele), filho do segundo marido de Hasana.

64. Uthman bin Rabia bin Uhbān (que Allah esteja satisfeito com ele).

Da tribo de Banu Sahm

65. Khunays bin Huzafa (r.a.), (genro de Hazrat Omar (r.a.)).

66. Abdullah bin Harith (r.a.).

67. Hisham bin As bin Wa’il (r.a.).

68. Qays bin Huzafa (r.a.).

69. Abu Qays bin Harith (r.a.).

70. Abdullah bin Husafa (r.a.).

71. Harith bin Harith bin Qays (r.a.).

72. Mu’ammar bin Harith bin Qays (r.a.).

73. Bishan bin Harith Ban Qays (r.a.).

74. Seu meio-irmão paterno, Sa’id bin Amr (r.a.).

75. Sa’id bin Harith bin Qays (r.a.).

76. Sa’ib bin Harith bin Qays (r.a.).

77. Umair bin Riyab (r.a.).

Aliado por um pacto a Banu Sahm

78. Mahmiya bin al-Jazya (r.a.).

79. Muammar bin Abdullah bin Nadla (r.a.).

80. Urwah (r.a.), filho de Abd al-Uzza.

81. Adi ibn Nadla (r.a.).

82. Seu filho, Nu’man ibn Adi (r.a.).

83. Amir ibn Rabia al-Anzi (r.a.).

84. Sua esposa, Layla bint Abi Hasma (r.a.).

Dos Banu Amir ibn Lu’ayy

85. Abu Sabra ibn Abi Ruhm (r.a.).

86. Sua esposa, Umm Kulthum bint Suhayl ibn Amr.

87. Abdullah bin Makhrama (que Allah esteja satisfeito com ele).

88. Abdullah bin Suhail bin Amr (que Allah esteja satisfeito com ele).

89. Sulait bin Amr (que Allah esteja satisfeito com ele).

90. Seu irmão, Sakram bin Amr (que Allah esteja satisfeito com ele).

91. Sua esposa, Sawda bint Zam’a (que Allah esteja satisfeito com ela).

(Mais tarde, ela teve a honra de se tornar uma das Mães dos Crentes).

92. Malik bin Zam’a (que Allah esteja satisfeito com ele) (irmão de Sawda).

93. Sua esposa, Amra bint as-Sa’di (que Allah esteja satisfeito com ela).

94. Hatib bin Amr (que Allah esteja satisfeito com ele).

Vinculado por um pacto aos Banu Amr

95. Sa’d bin Khawla (que Allah esteja satisfeito com ele).

Dos Banu Harith bin Fihr

96. Abu Ubaidah bin al-Jarrah (que Allah esteja satisfeito com ele).

97. Suhail bin Baida (que Allah esteja satisfeito com ele).

98. Amr bin Abi Sarh (que Allah esteja satisfeito com ele).

99. Iyad bin Zuhair (que Allah esteja satisfeito com ele).

100. Amr ibn al-Harith ibn Zuhair (que Allah esteja satisfeito com ele).

101. Uthman ibn Abid Ghanam ibn Zuhair (que Allah esteja satisfeito com ele).

102. Sa‘d ibn Abd Qays (que Allah esteja satisfeito com ele).

103. Al-Harith ibn Abd Qays (que Allah esteja satisfeito com ele). (Acréscimo do autor.)

As repercussões desta Hégira em Meca

Como resultado desta Hégira, começaram os lamentos e prantos em todas as casas de Meca. Isso porque não havia família, grande ou pequena, entre os coraixitas, que não tivesse um filho querido entre aqueles que emigraram. O filho de uns partira; o genro de outros. A filha de uns partira; o irmão ou a irmã de outros. Salama ibn Hisham (que Allah esteja satisfeito com ele), irmão de Abu Jahl; seus primos Hisham ibn Abi Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ayyash ibn Abi Rabi‘a (que Allah esteja satisfeito com ele); sua prima paterna, a nobre Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela); Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), filha de Abu Sufyan; Abu Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Utba ibn Rabi‘a e irmão legítimo de Hind, a devoradora de fígados; e os filhos, filhas e genros de Suhayl ibn Amr. Do mesmo modo, os próprios filhos de outros chefes coraixitas e célebres inimigos do Islã abandonaram suas casas em favor da religião. Por isso, não havia casa que não tivesse sido dolorosamente afetada por esse acontecimento. Alguns se tornaram ainda mais hostis ao Islã do que antes. Já em outros, isso produziu tal efeito que se converteram ao Islã. (Tafhim, volume 3, introdução à surata Maryam.)

A intenção de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) de emigrar

Depois, os coraixitas sofreram outro golpe quando um homem honrado como Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) deixou Meca, após pedir permissão ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), para juntar-se aos demais emigrantes. Segundo o relato de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) em Bukhari, quando ele chegou a um lugar chamado Barq al-Ghimad [Há diferenças na pronúncia. A pronúncia que registramos foi extraída de Fath al-Bari. No Mu‘jam al-Buldan, está escrito ‘Birq al-Ghimad’ **************. Uma das pronúncias é ‘Birq al-Ghumad’ *************** — o autor.] (a cinco dias de viagem de Meca em direção ao Iêmen), encontrou Ibn al-Dughunna, chefe da tribo de Qara. Ibn Ishaq narra, pela cadeia de Zuhri, depois Urwa, e depois Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que Abu Bakr encontrou Ibn al-Dughunna depois de percorrer uma ou duas jornadas a partir de Meca. Naquela época, ele era o chefe dos Ahâbish. Ele perguntou: “Abu Bakr, para onde vais?” Ele respondeu: “Meu povo expulsou-me. Fizeram-me sofrer muito e tornaram minha vida insuportável.” O outro perguntou: “Por quê? Dize-me.” Então disse: “Um homem como Abu Bakr não pode sair por vontade própria, nem pode ser expulso por alguém. Juro por Deus, tu és um ornamento da sociedade: ajudas os incapazes a obter seu sustento, tratas bem os parentes, carregas o fardo dos fracos, acolhes os hóspedes e auxilias nas boas ações. Volta comigo; eu te darei minha proteção. Adora o teu Senhor em tua própria cidade.” Em seguida, ele voltou a Meca acompanhado de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e foi até os nobres chefes dos coraixitas, dizendo: “Um homem como Abu Bakr não pode partir, nem pode ser expulso. Podeis expulsar alguém que possui tais virtudes?” Segundo o relato de Ibn Ishaq, ele proclamou em Meca: “Concedi proteção ao filho de Quhafa; portanto, ninguém deve tratá-lo senão com bondade.” Os coraixitas não rejeitaram essa proteção, mas impuseram a condição de que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) adorasse seu próprio Senhor em sua casa como quisesse e recitasse o que desejasse, contanto que não os incomodasse recitando em voz alta nem começasse a recitar fora de casa. Temiam que, por causa disso, suas mulheres e crianças fossem levadas à tentação. Então Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) construiu uma mesquita dentro dos limites de sua casa e começou ali a realizar as orações e a recitar o Alcorão. Havia tanta intensidade, calor emocional e poder de atração em sua recitação que mulheres, meninos e jovens dos politeístas, sem distinção, afluíam em grande número para ouvir o Alcorão. Enquanto recitava, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) começava a chorar, e os ouvintes também ficavam profundamente comovidos. Com isso, os chefes politeístas ficaram perturbados. Mandaram chamar Ibn al-Dughunna e disseram: “Nós lhe concedemos proteção por consideração a ti, para que ele pudesse adorar seu Senhor em sua casa. Mas ele construiu uma mesquita dentro do recinto de sua casa e começou a realizar as orações e a recitar o Alcorão publicamente. Tememos que, por causa disso, nossas mulheres e crianças se desviem. Impede-o de fazer isso. Ou ele adorará silenciosamente seu Senhor em sua própria casa, ou devolve-lhe a proteção. Nós, porém, não queremos violar tua garantia.”

Então, Ibnud Dughunna foi até Hazrat Abu Bakr (ra) e disse-lhe isso. Ele disse: “Não quero que se espalhe pela Arábia que eu dei proteção a um homem e que essa minha proteção foi violada.” Em resposta, Hazrat Abu Bakr (ra) disse: “Está bem; então devolvo-lhe a sua proteção e fico satisfeito com a proteção de Allah.” Ibnud Dughunna levantou-se, foi até os coraixitas e disse: “Abu Bakr (ra) devolveu-me a minha proteção. Agora, vocês e o seu povo ficam por conta própria.” (Acréscimo.)

Os representantes dos politeístas diante do Negus para trazer de volta os emigrantes

Após a Hégira, os líderes dos coraixitas reuniram-se e decidiram enviar à Abissínia Abdullah ibn Abi Rabi’a [muitos escreveram Abdullah ibn Rabi’a. Contudo, Ibn Hisham escreveu ibn Abi Rabi’a. Ele era irmão uterino de Hazrat Ayyash ibn Abi Rabi’a (ra) — o autor] (meio-irmão de Abu Hal) e Amr ibn al-As, levando muitos presentes valiosos, para que persuadissem de algum modo o Negus (rei da Abissínia) a enviar os emigrantes de volta a Meca.

Relato de Hazrat Umm Salama (ra)

Umm al-Mu’minin Hazrat Umm Salama (ra), uma das emigrantes, forneceu um relato detalhado desse acontecimento, citado por Ibn Ishaq e pelo Imam Ahmad. Ela disse que esses dois experientes enviados políticos chegaram à Abissínia à nossa procura e ofereceram muitos presentes aos cortesãos do Negus. Eles concordaram em exercer, todos juntos, uma enorme pressão sobre o Negus para que enviasse os emigrantes de volta ao seu país. Depois, encontraram-se com o Negus, ofereceram-lhe presentes valiosos e disseram: “Alguns jovens tolos da nossa cidade fugiram e vieram para o seu país, e os nobres da nossa comunidade enviaram-nos até você para solicitar que os mande de volta. Esses jovens também abandonaram a nossa religião. Tampouco adotaram a sua religião; pelo contrário, inventaram uma religião estranha.”

Assim que ele terminou de falar, os membros do conselho real exclamaram de todos os lados: “Essas pessoas devem certamente ser mandadas de volta. O próprio povo delas conhece melhor quais são suas falhas e defeitos. Não é correto mantê-las aqui.”

O Negus irritou-se e disse: “Não posso simplesmente entregá-los às mãos dessas pessoas. Não posso trair aqueles que abandonaram outro país, confiaram em meu país e vieram buscar refúgio aqui. Primeiro, vou convocá-los e interrogá-los para saber até que ponto é verdade o que essas pessoas estão dizendo a respeito deles.” Então, o Negus mandou chamar à sua corte os Companheiros do Mensageiro de Allah (ra).

Depois de ouvirem a mensagem do Negus, todos os emigrantes consultaram-se sobre o que deveriam dizer diante do rei. Por fim, decidiram por unanimidade que diriam exatamente aquilo que o Profeta (saas) havia ensinado, quer o Negus lhes permitisse permanecer ali, quer os expulsasse.

Assim que chegaram à corte, Najashi perguntou:

O que fizeram vocês, para abandonarem a própria religião e também não adotarem a minha religião? E tampouco adotaram qualquer outra religião do mundo? Afinal, o que é essa nova religião de vocês?

Em resposta, por parte dos emigrantes, Hazrat Ja‘far ibn Abi Talib proferiu de improviso um discurso no qual descreveu as falhas religiosas, sociais e morais da ignorância árabe. Depois, mencionando a vinda do Profeta (que a paz esteja com ele), explicou o que ele ensinava. Em seguida, mencionou as injustiças e perseguições infligidas aos seguidores do Profeta. Concluiu seu discurso dizendo que, em vez de irmos para outro país, viemos para o seu país porque aqui não seríamos vítimas de nenhuma injustiça. [A seguir, apresenta-se o discurso literal de Hazrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele), citado por Ibn Ishaq com base no relato de Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela):

Ó majestoso rei! Éramos um povo mergulhado na ignorância. Adorávamos ídolos e comíamos animais mortos. Estávamos acostumados a práticas obscenas, rompíamos os laços de parentesco, tratávamos mal os vizinhos e não cumpríamos as promessas. Os fortes matavam os fracos. Encontrávamo-nos nessa situação quando Allah, o Altíssimo, enviou para nós um Mensageiro dentre nós mesmos. Conhecíamos sua linhagem, sua confiança, sua honestidade e seu caráter imaculado. Ele nos convidou a voltar-nos para Allah, para que acreditássemos na unicidade divina e O adorássemos somente a Ele, e para que abandonássemos os ídolos de pedra que nós e nossos antepassados adorávamos. Ele nos ordenou dizer a verdade, honrar os depósitos confiados, tratar bem os parentes, ajudar e demonstrar compaixão aos vizinhos, cumprir as promessas e abster-nos de atos proibidos e de assassinatos. Proibiu-nos toda espécie de obscenidade, as palavras mentirosas, consumir os bens dos órfãos e fazer falsas acusações contra mulheres castas e virtuosas. Ordenou-nos adorar somente o Deus Único e não associar nada a Ele. Também nos orientou a realizar a oração, observar o jejum e pagar o zakat. (Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que, desse modo, Hazrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) também expôs ao rei os demais mandamentos e disposições do Islã.) Assim, reconhecemos sua veracidade e cremos nele. Seguimos tudo o que ele trouxe da parte de Allah. Adoramos somente a Allah e não associamos ninguém a Ele. Consideramos proibido aquilo que ele proibiu para nós e consideramos lícito tudo o que ele tornou lícito para nós. Por causa disso, nosso povo se lançou contra nós. Começaram a nos castigar e a nos oprimir por causa da religião, como se, em vez de adorarmos a Allah, estivéssemos adorando ídolos. E nós deixamos de considerar lícitas aquelas coisas abomináveis que anteriormente havíamos considerado lícitas. Finalmente, quando, com sua tirania e perseguição, tornaram nossa vida insuportável e nos impediram de seguir nossa religião, partimos em direção ao seu país. Preferimos o seu país a qualquer outro e viemos buscar refúgio, na esperança de que aqui não sofreríamos nenhuma injustiça. — O autor

Recitai para mim as palavras que, segundo dizeis, foram reveladas da parte de Deus ao vosso Profeta.

Em resposta, Hazrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) recitou para ele o trecho inicial da Surata Maryam, referente a Hazrat Yahya e Hazrat Isa (que a paz esteja com eles). Najashi continuou ouvindo e derramando lágrimas. Sua barba chegou a ficar molhada de lágrimas. Seu sacerdote também chorou, e os cortesãos igualmente choraram. Quando Hazrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) terminou a recitação, Najashi disse: “Certamente, estas palavras e aquilo que Isa (que a paz esteja com ele) trouxe provêm ambos da mesma fonte. Juro por Deus! Não vos entregarei a eles.” Então disse aos enviados dos coraixitas: “Retornai. Jamais vos entregarei estas pessoas; isso nunca poderá acontecer.”

Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Abdullah ibn Abi Rabi‘a tinha certa simpatia por nós e queria que fôssemos salvos. Mas Amr ibn al-As disse: “Juro por Deus, amanhã direi algo que os destruirá pela raiz. Direi a Najashi que eles consideram Isa ibn Maryam (que a paz esteja com ele) apenas um servo.” Abdullah disse: “Não faças isso. Embora sejam nossos adversários, são nossos próprios parentes. Eles também têm algum direito sobre nós.” Amr ibn al-As não deu atenção às suas palavras e, no dia seguinte, disse a Najashi: “Mande chamá-los e pergunte também qual é a sua crença a respeito de Isa ibn Maryam. Eles dizem coisas muito graves sobre ele.” Najashi mandou chamar novamente os emigrantes. Eles já estavam cientes da conspiração de Amr ibn al-As. Reuniram-se e consultaram-se sobre o que responder caso Najashi lhes perguntasse a respeito de Isa. A situação era extremamente delicada e todos ficaram muito preocupados. Contudo, os Companheiros do Mensageiro decidiram: “Aconteça o que tiver de acontecer. Diremos aquilo que Allah disse e que Seu Mensageiro ensinou.” Por fim, quando chegaram à corte do rei, Najashi apresentou-lhes a pergunta de Amr ibn al-As. Ja‘far ibn Abi Talib levantou-se e disse, sem hesitação:

****************************************

—Ele é servo de Allah, Seu Mensageiro, um espírito e uma palavra provenientes d’Ele, que Allah lançou sobre a virgem Maria.

Depois de ouvir isso, o Najashi pegou do chão uma folha de capim e disse: “Juro por Deus! Jesus (a.s.) não foi nada além do que você acaba de dizer.” Ao ouvirem isso, os sacerdotes começaram a sibilar como serpentes. Mas o Najashi disse: “Juro por Deus, é exatamente isso, por mais que vocês continuem a sibilar.” Então ele nos disse: “Vão e permaneçam em segurança no meu país. Se alguém falar mal de vocês, será punido. Mesmo que alguém me ofereça uma montanha de ouro, eu não gostaria de lhes causar qualquer sofrimento em troca disso.” Em seguida, ordenou: “Devolvam a esses dois enviados os presentes deles; não preciso deles. Quando Allah me devolveu o meu reino, não aceitou suborno de mim; portanto, não aceitarei suborno em nome de Allah.” (Tafhim, volume 3, introdução à Surata Maria.)

Relato de Hazrat Abdullah ibn Masud

Outro testemunho ocular desse acontecimento foi dado por Hazrat Abdullah ibn Masud (r.a.). Ele estava presente naquela reunião. Seu relato é citado da seguinte forma no Musnad de Ahmad e no Tabarani:

Quando o Najashi convocou os muhajirun à sua corte e ouviu da boca de Jafar ibn Abi Talib (r.a.) os ensinamentos do Profeta (s.a.w.), disse: “Juro por Deus! Eles não dizem nada além do que dizemos sobre Jesus (a.s.). Bem-vindos, vocês e Aquele de quem vieram. Dou testemunho de que ele é o Mensageiro de Allah, e é ele a pessoa cuja menção encontramos no Injil. Ele é o Mensageiro cuja boa-nova foi anunciada por Jesus, filho de Maria (a.s.).” (Tafhim, volume 5, Surata As-Saff, nota 8.)

No relato de Abdullah ibn Masud (r.a.), menciona-se também que os dois enviados dos coraixitas chegaram à corte do Najashi, prostraram-se primeiro diante dele e depois se sentaram à sua direita e à sua esquerda. Eles disseram: “Algumas pessoas do nosso povo vieram até o senhor e se separaram de nós e da nossa religião. Por isso, falaremos em nome de todos.” Todos os outros os seguiram. Ao entrar na corte, Hazrat Jafar (r.a.) cumprimentou-o com a saudação. Os membros do conselho disseram: “Por que você não se prostrou?”

Jafar (r.a.) disse: “Nós não nos prostramos diante de ninguém além de Deus.” Em seguida, mencionou o Profeta (s.a.w.) e seus ensinamentos, e depois explicou a crença dos muçulmanos a respeito de Jesus, filho de Maria. Nesse relato, também é citada esta declaração do Najashi: depois de reconhecer a veracidade do Profeta (s.a.w.), ele disse: “Juro por Deus! Se eu não estivesse preso às responsabilidades do reino, iria até ele para servi-lo, carregaria seus sapatos e faria sua ablução.”

Relato de Hazrat Abu Musa al-Ashari

Hafiz Abu Nu‘aym e al-Bayhaqi transmitiram uma narração quase idêntica, citada por Hadrat Abu Musa al-Ash‘ari. Há nela ainda o seguinte: antes de os emigrantes chegarem à corte real, o representante dos coraixitas disse ao Najashi, para incitá-lo contra eles: “Verá que eles não se prostrarão diante de você.” Quando chegamos à corte, os cortesãos disseram: “Prostrem-se diante do rei.” Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Nós não nos prostramos diante de ninguém além de Allah.” Avançamos e, quando chegamos diante do Najashi, ele perguntou: “O que vos impediu de vos prostrardes diante de mim?” Ele deu a mesma resposta: “Nós não nos prostramos diante de ninguém além de Allah.” O restante do acontecimento foi como relatado por Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele). Por fim, o Najashi disse-nos: “Permanecei em meu território pelo tempo que desejardes.” Ele também ordenou que fossem providenciados nosso alimento e nossas roupas.

A própria narração de Hadrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele)

Hafiz Ibn ‘Asakir e al-Tabarani transmitiram a narração de Hadrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele), por intermédio de seu filho, ‘Abdullah ibn Ja‘far. Essa narração acrescenta que, ao respondermos às acusações dos representantes dos coraixitas, explicando a diferença religiosa entre nós e eles, o Najashi perguntou aos representantes dos coraixitas: “Eles são vossos escravos?” Eles responderam: “Não.” Ele perguntou: “Eles têm alguma dívida convosco?” Eles responderam que não. Ele disse: “Então deixai-os em paz.” Em seguida, Hadrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) disse também aquilo que os outros haviam dito: que ‘Amr ibn al-‘As apresentou diante do Najashi nossa crença acerca de Hadrat ‘Isa ibn Maryam (que a paz esteja com ele). O Najashi reconheceu sua veracidade e perguntou-nos: “Há aqui alguém que vos esteja maltratando?” Respondemos: “Sim.” Então ele anunciou que quem nos maltratasse seria multado em quatro dirhams. Depois, o Najashi perguntou-nos: “Isso é suficiente?” Respondemos: “Não.” Então ele duplicou a multa. (Aditamento.)

O papel veraz dos emigrantes

Assim, os emigrantes para a Abissínia não provaram apenas que, pelo bem da verdade na qual haviam acreditado, estavam prontos a abandonar seus lares, parentes, negócios, propriedades e pátria, suportando a pena do exílio. Provaram também que, mesmo durante esse exílio e em uma situação de desamparo, não estavam dispostos a demonstrar qualquer fraqueza em relação à verdade. Sua força de fé era tão extraordinária que, mesmo num ambiente delicado como uma corte real, expressaram claramente sua crença acerca de Hadrat ‘Isa (que a paz esteja com ele), quando todo o conselho do Najashi, após aceitar subornos, estava prestes a entregá-los nas mãos dos inimigos. Naquele momento, havia o risco de que, depois de ouvir o comentário inequívoco do Islã sobre a crença fundamental do cristianismo, o próprio Najashi se enfurecesse e entregasse os muçulmanos oprimidos aos carniceiros dos coraixitas. Apesar disso, não hesitaram nem por um instante em apresentar a verdade. Esse fato mostra ao mundo que tipo de pessoas de caráter firme e alma devotada levam a mensagem islâmica.

A chegada de uma delegação cristã da Abissínia

Pode-se avaliar, por este acontecimento, até que ponto o caráter dos emigrantes e o efeito de sua pregação haviam se disseminado entre os habitantes da Abissínia: de lá, uma delegação de cerca de vinte pessoas veio a Meca e encontrou-se com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Ibn Hisham, al-Bayhaqi e outros narraram este acontecimento, por intermédio de Muhammad ibn Ishaq, da seguinte forma: depois da migração para a Abissínia, quando a chegada do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a propagação de sua mensagem começaram na Abissínia, uma delegação de cerca de vinte pessoas veio de lá e encontrou-se com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na Mesquita Sagrada (uma narração diz que eles se encontraram com ele e lhe fizeram algumas perguntas). Muitos coraixitas também se reuniram ao redor para observar o acontecimento. Quando a delegação fez algumas perguntas, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu-lhes. Depois, convidou-os ao Islã e recitou diante deles versículos do Alcorão. Ao ouvirem o Alcorão, lágrimas escorreram de seus olhos. Eles reconheceram a veracidade de que aquilo era a Palavra de Allah e creram no Profeta. Ao fim da reunião, Abu Jahl e alguns de seus companheiros encontraram-se com eles no caminho e os repreenderam, dizendo: “Que vossa vida seja arruinada! Vossos correligionários vos enviaram para que verificásseis a situação desse homem e lhes trouxésseis informações exatas. Contudo, mal vos sentastes diante dele, abandonastes vossa religião e crestes nele. Nunca vimos pessoas mais tolas do que vós.” Em resposta, eles disseram: “Irmãos, a paz esteja convosco. Não podemos discutir convosco à maneira dos ignorantes. Deixai-nos seguir nosso caminho, e continuai seguindo o vosso. Não podemos, conscientemente, privar-nos do bem.” Este acontecimento é mencionado na Surata al-Qasas:

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-Aqueles a quem havíamos concedido o Livro antes dele creem neste Alcorão e, quando ele lhes é recitado, dizem: «Cremos nele. Na verdade, ele é a verdade proveniente de nosso Senhor. Já antes dele éramos submissos ao Islã.» (Al-Qasas: 52–53)

****************************************************

-Quando ouvem palavras vãs, afastam-se delas e dizem: «Nossas obras são para nós, e vossas obras são para vós. Que a paz esteja convosco! Não podemos adotar o caminho dos ignorantes.» (Al-Qasas: 55) (Tafhim, volume 3 — Al-Qasas, nota 72.)

Primeira lista dos emigrantes que retornaram da Abissínia

Convém observar que um grupo dos Muhajirun permaneceu na Abissínia com o nobre Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) e retornou na época da batalha de Khaybar. Segundo o relato de Ibn Ishaq, os emigrantes abaixo relacionados retornaram em diferentes ocasiões, antes da Hégira do Profeta para Medina.

1. O nobre Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e sua esposa, a nobre Ruqayya bint Rasul (que Allah esteja satisfeito com ela).

2. O nobre Abu Hudhayfa ibn Utba ibn Rabi‘a (que Allah esteja satisfeito com ele) e sua esposa, Sahla bint Suhayl ibn Amr.

3. Hazrat Abdullah bin Jahsh (r.a.)

4. Hazrat Utba bin Ghazwan (r.a.)

5. Hazrat Zubair bin al-Awwam (r.a.)

6. Hazrat Musab bin Umair (r.a.)

7. Hazrat Suwaybit bin Sa’d bin Hamala (r.a.)

8. Hazrat Tulaib bin Umair (r.a.)

9. Hazrat Abd al-Rahman bin Awf (r.a.)

10. Hazrat Miqdad bin Amr (r.a.)

11. Hazrat Abdullah bin Masud (que Allah esteja satisfeito com ele)

12. Hazrat Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele) e sua esposa, Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela)

13. Hazrat Shammas bin Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele)

14. Hazrat Salama bin Hisham (que Allah esteja satisfeito com ele)

15. Hazrat Ayyash bin Abi Rabia (que Allah esteja satisfeito com ele)

16. Hazrat Muattib bin Awf (que Allah esteja satisfeito com ele)

17. Hazrat Uthman bin Maz’un (que Allah esteja satisfeito com ele), seu filho Hazrat Saib (que Allah esteja satisfeito com ele) e seus dois irmãos, Hazrat Qudama (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele)

18. Hazrat Khunays bin Hudhafa (que Allah esteja satisfeito com ele)

19. Hazrat Hisham ibn As ibn Wa’il (r.a.)

20. Hazrat Amir ibn Rabi‘a (r.a.) e sua esposa Layla bint Abi Hasma.

21. Hazrat Abdullah ibn Makhzama (r.a.)

22. Hazrat Abdullah ibn Suhail ibn Amr (r.a.). Depois que foi feito prisioneiro em Meca, seu pai espancou-o com tamanha crueldade que ele se tornou aparentemente incrédulo, mas continuou muçulmano em seu íntimo. Na batalha de Badr, foi com os incrédulos e, precisamente no momento do combate, juntou-se aos muçulmanos.

23. Hazrat Abu Sabra ibn Abi Ruham (r.a.) e sua esposa Umm Kulthum bint Suhail ibn Amr.

24. Hazrat Sakran ibn Amr (r.a.). Ibn Ishaq e Waqidi dizem que ele retornou a Meca e faleceu. Musa ibn Uqba e Abu Ma‘shar dizem que ele faleceu na Abissínia.

25. Hazrat Sawda bint Zam‘a (r.a.)

26. Hazrat Sa‘d ibn Khawla (r.a.)

27. Hazrat Abu Ubaidah ibn al-Jarrah (r.a.)

28. Hazrat Amr ibn Harith (r.a.)

29. Hazrat Suhail ibn Baida (r.a.)

30. Hazrat Amr ibn Abi Sarh (r.a.). (Acréscimo.)

A profecia da Surata ar-Rum

Durante a Hégira para a Abissínia, ocorreu um acontecimento importante que, por fim, se tornou uma prova irrefutável da veracidade do Mensageiro de Deus (s.a.w.) e do Alcorão. Não era possível apresentar qualquer argumento contra o fato de que o Alcorão é, na realidade, a sagrada Palavra de Deus Todo-Poderoso, revelada ao Profeta (s.a.w.) por meio da revelação. Os primeiros versículos desta Surata ar-Rum eram aqueles em que se dizia:

Os romanos foram derrotados na terra mais próxima, mas, depois de sua derrota, vencerão dentro de poucos anos. A decisão, antes e depois, pertence exclusivamente a Deus. E esse será o dia em que os muçulmanos se alegrarão (versículos 2 a 4). Relataremos brevemente esse acontecimento.

O acontecimento de oito anos antes da missão profética do Profeta (s.a.w.) foi o seguinte: ocorreu uma rebelião contra o rei dos romanos, Maurício (MARICE). Então, um homem chamado Focas (PHOCAS) subiu ao trono. Primeiro, ele matou os cinco filhos do imperador Maurício diante dos olhos do próprio imperador e, depois, matou também o imperador. Em seguida, pendurou em um lugar público de Constantinopla as cabeças decepadas do pai e dos filhos. Alguns dias depois, matou também sua esposa e suas três filhas. Com isso, o imperador persa Cosroes Parviz encontrou um pretexto moral para invadir o Império Romano, pois o imperador Maurício havia sido seu protetor. Foi com a ajuda dele que Parviz conquistou o trono do Irã. Ele o considerava seu pai. Com base nisso, declarou: “Quero vingar, de Focas, que chegou ao poder pela força, a opressão que ele infligiu ao meu pai em sentido figurado e aos filhos dele.” Em 603 da era cristã, declarou guerra ao Império Romano e, em poucos anos, derrotou sucessivamente os exércitos de Focas, avançando vitorioso, de um lado, até a atual Urfa, na Ásia Menor, e, de outro, até Alepo e Antioquia, na região da Síria. Quando os altos funcionários do Império Romano viram que Focas não seria capaz de defender o país, pediram ajuda ao governante da África. Este enviou seu filho Heráclio a Constantinopla com um forte regimento militar. Assim que ele chegou, Focas foi deposto e, em seu lugar, Heráclio foi feito César, isto é, imperador romano. Depois que assumiu o poder, Focas recebeu o mesmo tratamento que ele havia dado a Maurício. Esse acontecimento ocorreu em 610 da era cristã, e foi nesse mesmo ano que o Profeta Maomé (s.a.w.) foi investido da missão profética.

A justificativa moral com que Cosroes Parviz declarou guerra chegou ao fim após a deposição e o assassinato de Focas. Se o verdadeiro objetivo tivesse sido vingar-se das injustiças e da opressão cometidas por Focas, que havia tomado o poder à força, então, depois de matá-lo, ele deveria ter feito a paz com o novo imperador. Contudo, Cosroes continuou a guerra. Ele revestiu essa guerra com as cores de uma guerra religiosa entre os adoradores do fogo e os cristãos. As seitas dos cristãos que a Igreja oficial do Império Romano declarava heréticas e que, durante anos, vinha esmagando sob o jugo da perseguição e da opressão, tornaram-se aliadas dos invasores adoradores do fogo. A comunidade judaica também se uniu a eles. Duzentos e seis mil judeus foram alistados no exército de Cosroes Parviz. Heráclio foi incapaz de enfrentar essa inundação. A primeira notícia que chegou até ele logo após sua ascensão ao trono foi a da conquista de Antioquia pelos iranianos; depois, em 613 d.C., eles conquistaram Damasco. Em seguida, em 614 d.C., conquistaram Bayt al-Maqdis, provocando uma calamidade extrema sobre o mundo cristão. Noventa mil cristãos foram mortos nessa cidade, e sua igreja mais venerada, a ‘Igreja do Santo Sepulcro’, foi destruída. Os iranianos também tomaram a verdadeira ‘Cruz’, sobre a qual os cristãos acreditam que o Messias deu a vida, e levaram-na a Madain, a capital iraniana; capturaram também o sacerdote Zacarias e destruíram as grandes igrejas da cidade. Pode-se avaliar o quanto Cosroes se enfureceu com essa vitória pela carta que escreveu a Heráclio a partir de Bayt al-Maqdis. Nela, dizia-se:

‘De Cosroes, o maior de todos os deuses e senhor dos mundos, para Heráclio, o vil e insensato servo’.

Dizes que confias no teu próprio Senhor; então por que o teu deus não pôde proteger Jerusalém das minhas mãos?

Após essa vitória, no espaço de um ano, o exército iraniano conquistou toda a região da Jordânia, da Palestina e do vale do Sinai, chegando ao Egito. Isso aconteceu precisamente no período em que, em Meca, se desenrolava um conflito histórico muitas vezes mais importante: uma guerra, ou melhor, um confronto, de grande dimensão. Ali, sob a liderança de Sayyiduna Muhammad (que a paz esteja com ele), portador da bandeira do tawhid, e sob as ordens dos chefes coraixitas seguidores do shirk, os dois lados estavam envolvidos em luta um contra o outro. A situação chegou a tal ponto que, em 615 d.C., no quinto ano da missão profética, um grande número de muçulmanos foi obrigado a abandonar suas casas e buscar refúgio no reino cristão da Abissínia. Naquela época, a Abissínia estava ligada a Roma por uma aliança de amizade. Todos falavam da vitória do Irã sobre o Império Romano. Os politeístas de Meca celebravam isso com alegria e júbilo. Diziam aos muçulmanos: ‘Vejam: os politeístas adoradores do fogo do Irã estão vencendo, enquanto os cristãos que creem no tawhid e na mensagem profética só estão sofrendo derrota. Assim, nós, árabes pagãos, eliminaremos vocês e a sua religião.’

Foi nesse contexto que esta surata do Alcorão foi revelada e se fez a profecia de que os romanos haviam sido derrotados na terra mais próxima. Mas, dentro de alguns anos após essa derrota, eles seriam vitoriosos; e esse seria o dia em que os muçulmanos se alegrariam com a vitória concedida por Allah.

Há aqui duas profecias, e não uma só. Primeiro: os romanos seriam vitoriosos. Segundo: os muçulmanos também obteriam a vitória naquela época. Aparentemente, não havia, até onde a vista alcançava, nenhum sinal de que qualquer uma dessas duas profecias se cumpriria em poucos anos. De um lado, havia um pequeno grupo de muçulmanos que era esmagado sob o jugo da perseguição e da opressão. E, durante oito anos após essa profecia, não se vislumbrava qualquer possibilidade de vitória para eles. Do outro lado, a derrota de Roma aumentava dia após dia. Até 619 d.C., todo o Egito passou para o domínio do Irã. As tropas iranianas chegaram às proximidades de Trípoli e ergueram sua bandeira. Na Ásia Menor, as tropas iranianas, golpeando os romanos continuamente, chegaram às margens do Bósforo. Em 617 d.C., tomaram Calcedônia (CHALCEDON), diante de Constantinopla. O imperador enviou um representante a Cosroes, apresentando uma proposta de paz a qualquer preço. Ele respondeu: ‘Não concederei segurança ao imperador enquanto ele não comparecer acorrentado diante de mim e abandonar o deus da cruz, aceitando adorar o deus do fogo.’ Por fim, o imperador ficou tão abatido pela derrota que desejou abandonar Constantinopla e transferir-se para Cartago. O historiador Gibbon afirma que, mesmo após essa profecia do Alcorão, durante sete ou oito anos a situação era tal que ninguém podia sequer imaginar que o Império Romano venceria o Irã. Muito menos se falava em vitória; naquela época, ninguém alimentava sequer a esperança de que esse império permanecesse vivo (Gibbon, On the Decline and Fall of the Roman Empire, vol. II, p. 788, Modern Library, Nova York).

Quando estes versículos do Alcorão foram revelados, os incrédulos de Meca começaram a zombar e escarnecer intensamente, e Ubay ibn Khalaf fez esta aposta com Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): se os romanos fossem vitoriosos dentro de três anos, ele daria dez camelos; caso contrário, Abu Bakr teria de dar-lhe dez camelos. Quando o Profeta (que a paz esteja com ele) soube disso, disse que no Alcorão haviam sido usadas as palavras **********************. Na língua árabe, esse significado é considerado como dez ou mais. Portanto, faça a aposta por dez anos e aumente o número de camelos para cem. Assim, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) voltou a falar com Ubay, e foi feita uma nova aposta: a parte cuja afirmação se provasse falsa deveria dar cem camelos à outra.

Enquanto isso, em 622 d.C., o Profeta (que a paz esteja com ele) fez a Hégira e foi para Medina; por outro lado, Heráclio partiu secretamente de Constantinopla em direção a Trebizonda, pela rota do Mar Negro, onde se preparou para lançar um ataque contra o Irã pela retaguarda. Para preparar esse contra-ataque, o imperador pediu ajuda financeira às igrejas, e o arcebispo Sérgio (SERGIUS) emprestou, a juros, as enormes riquezas acumuladas nas igrejas como oferendas, a fim de proteger o cristianismo da religião dos adoradores do fogo. Heráclio iniciou seu ataque pela Armênia e, no ano seguinte (624 d.C.), entrou no Azerbaijão, destruiu Urmia, local de nascimento de Zoroastro, e arrasou o maior templo do fogo dos iranianos. Vejam a manifestação extraordinária do poder de Allah: aquele foi o mesmo ano em que, no campo de Badr, os muçulmanos, pela primeira vez, decidiram enfrentar os idólatras e obtiveram a vitória. Assim, as duas profecias feitas no Alcorão cumpriram-se simultaneamente antes de transcorridos dez anos.

Depois disso, o exército romano começou a derrotar continuamente os iranianos. Na batalha decisiva de Nínive (627 d.C.), eles destruíram a espinha dorsal do Império Iraniano. Em seguida, Dastagard, residência do imperador iraniano, foi destruída, e as tropas romanas avançaram até chegar aos arredores de Ctesifonte, que naquela época era a capital do Irã. Em 628 d.C., eclodiu uma rebelião dentro da própria casa contra o próprio Khosrow Parviz. Ele foi preso. Diante de seus olhos, seus dezoito filhos foram mortos. Um de seus filhos, Sheroya, ascendeu ao trono. Nesse mesmo ano, foi assinado o tratado de Hudaybiyyah, que o Alcorão classificou como uma grande vitória. Também nesse ano, o imperador iraniano renunciou à sua autoridade sobre todos os territórios ocupados de Roma e fez a paz com Roma. Em 629 d.C., o César foi pessoalmente a Jerusalém para recolocar a Grande Cruz em seu lugar; nesse mesmo ano, o Profeta (que a paz esteja com ele) entrou em Meca pela primeira vez após a Hégira, para realizar a ‘Umrat al-Qada’.

Depois disso, não restou margem para ninguém duvidar de que a profecia do Alcorão era absolutamente verdadeira. Muitos politeístas abraçaram a fé nela. Tendo perdido uma aposta para os herdeiros de Ubayy ibn Khalaf, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) teve de lhes entregar o camelo estipulado. Ele levou-o ao Profeta (que a paz esteja com ele), que ordenou que fosse dado como caridade. Isso porque a aposta havia sido feita numa época em que o jogo ainda não fora proibido pela sharia. Nesse período, veio a ordem de sua proibição. Por isso, foi permitido aceitar dos incrédulos combatentes os bens obtidos na aposta, mas ordenou-se que não fossem usados pessoalmente e sim dados como caridade. (Tafhim, volume 3, introdução à surata Ar-Rum.)

Décimo capítulo

Do sexto ano da missão profética até depois do décimo ano

Após a Hégira para a Abissínia, permaneceram em Meca apenas poucas pessoas com o Profeta (que a paz esteja com ele), entre as quais havia também algumas mulheres. Além de terem sido colocados numa situação extremamente embaraçosa por causa da Hégira, os inimigos do Islã ficaram ainda mais furiosos porque os emigrantes haviam encontrado na Abissínia um refúgio muito seguro e a delegação dos politeístas havia retornado frustrada. Nessas circunstâncias, eles não hesitaram sequer em atacar o Profeta (que a paz esteja com ele). (Acréscimo do autor.)

A perseguição dos coraixitas ao Profeta (que a paz esteja com ele)

Em Bukhari, é citada uma narração de Urwah ibn az-Zubayr, segundo a qual foi perguntado a Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele): “Qual foi o comportamento mais cruel dos politeístas para com o Profeta (que a paz esteja com ele) que você presenciou?”

Em resposta, ele disse: “Certo dia, o Profeta (que a paz esteja com ele) estava realizando a oração no pátio da Caaba (segundo outra versão, no Hijr da Caaba). De repente, Uqbah ibn Abi Muayt avançou, enrolou um pano em torno do pescoço dele e começou a torcê-lo, para sufocá-lo até a morte. Exatamente nesse momento, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou ao local. Ele o empurrou e o afastou. Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, enquanto Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) lutava com ele, estas palavras saíam de sua boca:”

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Queres matá-lo apenas por este crime: ele diz: “Meu Senhor é Allah”? Ibn Jarir relatou este acontecimento em sua História, com base no relato de Abu Salama ibn Abd al-Rahman. Porém, al-Nasa’i e Ibn Abi Hatim transmitiram este acontecimento, com algumas alterações nas palavras, com base no relato de seu pai, Amr ibn al-As, em vez de Hazrat Abdullah; e, no lugar de Uqba ibn Abi Mu‘ayt, disseram que foram os coraixitas que cometeram tal ato. E Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), chorando, continuava a proteger o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a pronunciar estas palavras. (Tafhim, volume 4 — Introdução à Surata al-Mu’min.)

O Imam Bukhari citou este acontecimento em seu livro em vários lugares. Em alguns, transmitiu-o com base no relato de Hazrat Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele); em outros, com base no relato de Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As. (Parece correto que o relato original seja o de Hazrat Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele), pois Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) faleceu no ano 64 da Hégira, aos setenta e dois anos. Sob esse aspecto, ele não poderia ter sido testemunha ocular desse acontecimento, pois nasceu sete anos antes da Hégira, isto é, no sexto ano da missão profética — Autor.) Em um lugar, o relato de Hazrat Amr ibn al-As diz o seguinte: “Nunca vi os coraixitas desejarem matar o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), exceto uma vez. Eles estavam sentados à sombra da Caaba, enquanto o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rezava no Maqām Ibrahim. Então começaram a incitar-se uns aos outros contra o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por fim, Uqba ibn Abi Mu‘ayt levantou-se, enrolou seu manto em torno do pescoço do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e começou a puxá-lo. Finalmente, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) caiu de joelhos, e começou um tumulto entre as pessoas. Nesse momento, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) correu até lá, segurou-o por trás pelos dois braços e o levantou, dizendo: ‘Quereis matar um homem apenas por este crime: ele diz: “Meu Senhor é Allah”?’”

Então aquelas pessoas afastaram-se dele. Depois de terminar a oração, quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passou por aqueles coraixitas, disse: “Juro por Aquele em cuja mão está minha vida: fui enviado contra vós com a ordem de vos degolar.” Abu Jahl respondeu: “Ó Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tu nunca foste insensato.” (Abu Ya‘la, Ibn Hibban, al-Tabarani e al-Bayhaqi transmitiram este acontecimento com base no relato de Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele).)

Outro relato do Sahih de Bukhari diz que os idólatras arrancaram a barba e os cabelos da cabeça do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou para ajudá-lo e, chorando, continuava a dizer: “Quereis matar um homem apenas por este crime: ele diz: ‘Meu Senhor é Allah’?”

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Abu Bakr, deixa-o. Juro por Aquele em cuja mão está minha vida: fui enviado contra eles com a ordem de os degolar.” Ao ouvirem isso, as pessoas que se haviam aglomerado dispersaram-se.

Ibn Hisham, Jarir al-Tabari e al-Bayhaqi, com base no relato de Ibn Ishaq, transmitiram este acontecimento da seguinte maneira: Urwa ibn al-Zubayr perguntou a Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As: “Entre as manifestações de hostilidade dos coraixitas contra o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), qual foi o episódio mais cruel que viste?” Ele respondeu: “Certa vez fui a uma reunião dos coraixitas, e seus chefes estavam reunidos no Hijr. Eles falaram a respeito do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): ‘Nunca vimos ninguém suportar, em relação a este homem, o que temos suportado. Ele considera nossa inteligência como tolice, critica nossos antepassados, censura nossa religião e provocou divisão entre nós. Na verdade, temos demonstrado muita paciência; mesmo assim, ele continua a dizer todas essas coisas.’ Nesse momento, viram o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele avançou, beijou a Pedra Negra e, ao realizar a circunambulação da Caaba, passou por eles. Então lançaram-lhe um insulto. Notei uma reação de desagrado em seu rosto. Quando passou por eles pela segunda vez, voltaram a zombar dele, e também notei nele a reação de desagrado. Na terceira vez, quando repetiram o mesmo comportamento, ele parou e disse: ‘Ó coraixitas, ficai sabendo: juro por Aquele em cuja mão está minha vida que vim até vós com a ordem de vos degolar.’”

Hazrat Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ao ouvirem essas palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), todos ficaram atônitos. Parecia que havia pássaros pousados sobre suas cabeças; isto é, pareciam fulminados por um raio. Então, aquele entre eles que mais havia falado de modo insolente dirigiu-se educadamente ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a fim de acalmá-lo, e disse: ‘Ó Abu al-Qasim, segue teu caminho em paz. Juro por Allah que nunca foste insensato.’ O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afastou-se dali.”

No dia seguinte, eles voltaram a se reunir no Hijr, e eu também estava com eles. Disseram entre si: “Lembrais quanto este homem tem exagerado contra vós? Ontem mesmo ele declarou isso claramente. Ainda assim, vós o deixastes ir.” Nesse momento, viram o Profeta (S) aproximar-se pela frente. Assim que ele chegou, todos se lançaram sobre ele, cercaram-no e começaram a dizer: “És tu que dizes isto e aquilo?” Ele respondeu: “Sim, sou eu quem diz isto e aquilo.” Então vi um deles agarrar o manto do Profeta (S) junto ao pescoço e apertá-lo com o punho. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) levantou-se para ajudá-lo. Chorando, dizia: “Quereis matar um homem apenas porque diz: ‘Meu Senhor é Allah’?”

Depois, as pessoas o deixaram e foram embora. Esse foi o tratamento extremamente duro e cruel que vi os coraixitas dispensarem ao Mensageiro de Allah (S) (essa narrativa também é transmitida dessa forma no Musnad de Ahmad).

A aceitação do Islã por Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele)

Foi nessa época que ocorreu um acontecimento que levou Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) para dentro dos limites do Islã. Há divergência entre os historiadores quanto à data de sua conversão. Ibn Hajar escreveu em Al-Isabah que ocorreu no segundo ano da missão profética. Ibn Abd al-Barr, depois de mencionar inicialmente o segundo ano, escreveu novamente que ele se tornou muçulmano no sexto ano da missão profética, após o Profeta (S) entrar na Casa de al-Arqam. Ibn Sa’d, Ibn al-Jawzi e al-Utbi, porém, afirmam categoricamente que foi no sexto ano da missão profética. Ibn al-Qayyim também menciona isso em Zad al-Ma’ad, depois da segunda migração para a Abissínia, e é essa também a afirmação presente em Tarikh al-Kamil, de Ibn Kathir. Além disso, o próprio acontecimento que levou Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) a aceitar o Islã mostra que isso não poderia ter ocorrido no segundo ano da missão profética. Pelo contrário, só poderia ter acontecido depois que o conflito entre os coraixitas e o Profeta (S) atingiu seu ponto culminante. No segundo ano, como Abu Jahl teria podido sequer insultar o Profeta, quanto mais falar olhando-o nos olhos?

O acontecimento foi o seguinte: certo dia, o Profeta (S), segundo a narrativa de Ibn Ishaq, passava perto do monte Safa — segundo outra versão, perto de Hajun. Nesse momento, Abu Jahl o insultou severamente e dirigiu palavras ofensivas contra ele e contra a religião que pregava. O Profeta, porém, não respondeu a nenhuma de suas palavras. A notícia chegou a Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) por intermédio de uma escrava liberta por Abdullah ibn Jud’an, um dos líderes dos Banu Taym, segundo a narrativa de Ibn Ishaq; segundo outros, por Safiyyah (que Allah esteja satisfeito com ela), irmã de Hamza; e, segundo a narrativa de Ibn Abi Hatim, por duas mulheres. Ele era um homem forte, corajoso e orgulhoso entre os coraixitas. Era tio do Profeta (S) e seu irmão de leite. Sua mãe era prima de Bibi Amna. Era dois ou quatro anos mais velho que o Profeta (S), a quem amava profundamente. Tinha grande paixão pela caça. Estava voltando com arco e flechas quando soube do ocorrido. Dominado pela ira, chegou ao Haram, onde Abu Jahl estava sentado. Assim que chegou, golpeou-lhe a cabeça com o arco com tanta força que ela se abriu. Disse: “Tu o insultas? Eu sigo a religião dele e digo o mesmo que ele diz. Se tens coragem, insulta-me uma vez.”

Então, alguns membros dos Banu Makhzum se levantaram para apoiar Abu Jahl. Mas Abu Jahl disse: “Deixai Abu Umara ir. De fato, eu havia insultado gravemente o filho de seu irmão.” Al-Tabarani e Ibn Abi Hatim relatam que Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Minha religião também é a religião de Muhammad (S); tentai impedir-me dela, se puderdes.”

Yunus ibn Bukayr, autor de obras sobre as campanhas militares, transmitiu de Ibn Ishaq um relato mais detalhado: Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) realizou esse ato tomado pelo sentimento de honra. Mas, ao voltar para casa, sua consciência o repreendeu assim: “Tu és um dos líderes dos coraixitas; tornaste-te seguidor deste homem que abandonou a religião e abandonaste a religião de teus antepassados? Depois do que fizeste, a morte seria melhor para ti do que isso.”

Então suplicou a Allah: “Ó Deus! Se isto é o caminho correto, faze com que sua verdade penetre em meu coração. Caso contrário, abre para mim um caminho para dele sair.” Passou toda a noite em extrema ansiedade e inquietação, atormentado pelos sussurros de Satanás. Pela manhã, foi até o Profeta (S) e disse: “Meu sobrinho! Envolvi-me numa questão da qual não vejo nenhum meio de sair. Para um homem como eu, permanecer firme em algo sem saber se é correto ou incorreto é extremamente grave.”

Depois de ouvir suas palavras, o Huzur (s) aconselhou-o, advertiu-o a temer a Deus e anunciou-lhe boas-novas para que aceitasse a fé. Por fim, Allah fez nascer a fé em seu coração, e Hazrat Hamza (ra) disse: “Testemunho que você é veraz.” Este acontecimento foi citado com referência a Bayhaqi e Yunus ibn Bukayr.

A conversão de Hazrat Umar (ra) ao Islã

Depois, o segundo e enorme golpe devastador contra os coraixitas foi o fato de que, certo dia, eles descobriram que Umar ibn Khattab também havia depositado sua fé no Profeta (s). Ele era um dos pilares da oposição dos coraixitas ao Islã. Tivera papel de liderança na opressão e perseguição daqueles que aceitavam a fé. Gozava de importante posição entre os coraixitas. Era um renomado erudito na ciência da genealogia árabe. Também era enviado como representante dos coraixitas. Nas disputas e desavenças entre as tribos, era aceito como árbitro, e suas decisões eram acatadas. Era um herói forte e corajoso. Era extremamente eloquente e um excelente orador, capaz de deixar os ouvintes enfeitiçados. Os coraixitas jamais poderiam imaginar que um homem como ele um dia se levantaria contra eles como portador da bandeira do Islã. Contudo, havia nele um processo de desenvolvimento gradual em ação, que por fim o atraiu para o Islã. (Adição do autor.)

Sua reação inicial

Sua reação inicial foi citada a partir de seu próprio relato no Musnad de Ahmad e no Tabarani. Ele disse: “Certo dia, antes de aceitar o Islã, saí de casa com a intenção de importunar o Mensageiro de Allah (s). Porém, ele havia entrado no Haram antes de mim. Quando cheguei, ele estava recitando a surata Al-Haqqah durante a oração. Fiquei de pé atrás dele e comecei a escutar. Fiquei maravilhado com a eloquência das palavras do Alcorão, e de repente pensei que aquele homem certamente era um feiticeiro, como diziam os coraixitas. Imediatamente, estas palavras saíram da boca do Huzur (s):”

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“Estas são as palavras de um Mensageiro honrado, não as palavras de um poeta. Quão pouco credes!” (versículos 40–41)

Pensei comigo mesmo: “Se este homem não é poeta, então certamente é um adivinho.” Imediatamente, estas palavras saíram de sua boca:

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—Tampouco são palavras de algum adivinho. Ponderai.

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—Foi revelado pelo Senhor dos Mundos.

Ao ouvir isso, o Islã penetrou no fundo do coração de Amr. (Acréscimo do autor.)

A reação em sua mente à Hégira para a Abissínia

Sua segunda reação foi citada por Ibn Hisham, em sua Sira, com base em Ibn Ishaq; por Tabari, em sua História; e por Ibn Athir, em Usd al-Ghaba, a partir do relato de Hazrat Laila bint Abi Hasma. Ela era uma parente próxima de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e emigrou para a Abissínia com seu marido, Hazrat Amer bin Rabiatul Anzi. Ela disse: “Eu estava amarrando a bagagem para a Hégira, e meu marido havia saído para tratar de algum assunto. Nesse momento, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou; ainda estava imerso no politeísmo. Sofremos muita perseguição às suas mãos. Contudo, naquela ocasião, ele ficou de pé, observando minha azáfama. Depois disse: ‘Mãe de Abdullah, então vocês estão mesmo partindo?’

Eu disse: “Sim. Como vocês nos atormentaram profundamente e nos oprimiram, partiremos para algum lugar na terra de Allah, onde Ele nos mostrará uma saída para nos salvar desta aflição.” Então Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que Allah esteja convosco.” Naquele momento, vi-o com os olhos tão marejados de lágrimas como jamais o havia visto antes. Ao ver que estávamos deixando o país, ele partiu profundamente contristado.

Então, quando Amir voltou trazendo os mantimentos de que necessitávamos, eu disse: “Ó pai de Abdullah! Ah, se você tivesse visto, naquele momento, Umar e seu rosto angustiado por causa da nossa situação. Ele saiu daqui há pouco.” Amir disse: “Você espera que ele aceite o Islã?” Respondi: “Sim.” Ele disse: “Aquele que você viu agora não aceitará o Islã enquanto o asno de Khattab não aceitar o Islã.”

A história de sua aceitação do Islã

Por fim, esse conflito interior levou-o, certo dia, a decidir assassinar o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), para pôr fim ao conflito em que estava imerso. Ibn Ishaq relata que ele saiu com a espada desembainhada, decidido a cumprir esse propósito. No caminho, porém, encontrou-se com Nu’aym ibn Abdullah an-Nahham. Ele era um dos nobres da própria tribo de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e havia aceitado o Islã secretamente. Perguntou-lhe: “Aonde você vai?” Ele respondeu: “Quero matar esse renegado que provocou divisão entre os coraixitas, nos considera todos tolos, apontou as falhas da nossa religião e insultou os nossos ídolos.” Nu’aym disse: “Juro por Deus, ó Umar, tua própria mente te prendeu numa rede de engano. Você pensa que, depois do assassinato de Muhammad (que a paz esteja com ele), os Banu Abd Manaf deixarão vocês vivos? Primeiro, informe-se sobre os membros da sua própria casa.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “De quais familiares meus você está falando?” Nu’aym respondeu: “De seu cunhado e primo, Sa’id ibn Zayd, e de sua irmã, Fatimah. Ambos aceitaram o Islã e se submeteram a Muhammad (que a paz esteja com ele).” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) voltou-se imediatamente e chegou direto à casa de sua irmã. Khabbab ibn al-Aratt estava ali, com uma folha na mão na qual estava escrita a surata Ta-Ha. Ele a ensinava a Hazrat Fatimah. Ao perceber a chegada de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Khabbab escondeu-se num canto da casa. Hazrat Fatimah escondeu a folha sob a coxa. Mas Hazrat Umar ouviu, ainda da porta, a recitação de Khabbab. Entrou e disse: “O que vocês estavam murmurando que eu ouvi?” Sa’id respondeu: “Você não ouviu nada.” Ele disse: “Não, eu ouvi. Juro por Deus, descobri que ambos aceitaram seguir a religião de Muhammad (que a paz esteja com ele).” Então começou a espancar o cunhado. Quando Hazrat Fatimah avançou para salvar o marido, também foi espancada de tal modo que sua cabeça se abriu. Então ambos, marido e mulher, disseram: “Sim, tornamo-nos muçulmanos e cremos no Mensageiro de Allah. Faça agora o que quiser.” Quando Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) viu o sangue escorrendo da irmã, envergonhou-se de sua atitude e abandonou sua ignorância. Disse à irmã: “Mostre-me a folha que vocês estavam lendo há pouco. Quero ver o que é isso que Muhammad (que a paz esteja com ele) trouxe.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) era um homem instruído e, por isso, queria lê-la. Sua irmã disse: “Tenho medo de que você a destrua.” Ele respondeu: “Não tenha esse medo.” Jurou por seu ídolo que a leria e a devolveria. Então surgiu no coração de sua irmã alguma esperança de que ele aceitasse o Islã. Ela disse: “Irmão, você está impuro por causa do politeísmo, e somente uma pessoa pura pode tocar esta folha.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) levantou-se e tomou banho. Então Fatimah colocou a folha em suas mãos. Ele leu o início da surata Ta-Ha e disse: “Que palavra bela e sublime!” Assim que ouviu essas palavras, Hazrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu e disse: “Ó Umar, espero que Allah tenha escolhido você para torná-lo digno da súplica do Profeta. Ontem mesmo ouvi o Profeta (que a paz esteja com ele) suplicar: ‘Ó Deus, fortalece o Islã por meio de Abu al-Hakam ibn Hisham (Abu Jahl) ou de Umar ibn al-Khattab.’ Portanto, ó Umar, venha para Allah, venha para Allah.”

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Leve-me até Muhammad (que a paz esteja com ele), para que eu me torne muçulmano.” Hazrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Ele está numa casa perto de Safa (Dar al-Arqam), com seus companheiros.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) cingiu a espada e chegou à residência do Profeta (que a paz esteja com ele) e de seus companheiros, batendo à porta. Um dos companheiros do Profeta viu, pela fresta da porta, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) parado com a espada. Assustado, voltou e informou o Profeta (que a paz esteja com ele). Hazrat Hamzah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Deixem-no entrar. Se ele veio com boa intenção, também o trataremos bem; caso contrário, acabaremos com ele usando a própria espada.” O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Deixem-no entrar.” Conforme a ordem, foi permitido a Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) entrar. Assim que ele entrou, o Profeta (que a paz esteja com ele) avançou, agarrou sua capa com o punho, puxou-a vigorosamente e disse: “Filho de Khattab! O que o trouxe aqui? Juro por Deus que penso que você não sairá daqui enquanto Allah não fizer descer sobre você uma grave calamidade.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah! Vim para crer em Allah, em Seu Mensageiro e nos ensinamentos trazidos pelo Mensageiro.” Ao ouvir isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) proclamou em voz alta: “Allahu akbar!”, fazendo com que todos na casa soubessem que Umar havia aceitado o Islã. Isso aumentou enormemente a coragem dos muçulmanos, pois, depois de Hazrat Hamzah (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) também havia aceitado o Islã. Agora, os dois se tornaram pilares de força para os muçulmanos. Ibn Ishaq disse: “Este é o relato dos narradores medinenses sobre a aceitação do Islã por Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Hafiz Abu Ya’la o transmitiu de Hazrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), e al-Bazzar, do próprio Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).”

O relato de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele)

Al-Bazzar, at-Tabarani, al-Bayhaqi, Ibn Asakir, Abu Nu’aym, ad-Daraqutni e outros autores de biografias proféticas transmitiram, com base em Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), Aslam e outros, além do próprio relato de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), diferentes versões sobre esse episódio. Embora apresentem algumas divergências nos detalhes, elas coincidem em grande parte com o relato acima de Ibn Ishaq. Abu Nu’aym e Ibn Asakir, contudo, ao transmitirem de Hazrat Abdullah ibn Abbas o relato de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), acrescentam que Hazrat Umar disse: “Perguntei: ‘Ó Mensageiro de Allah! Não estamos firmes na verdade, tanto na vida quanto na morte?’ O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: ‘Juro por Deus, vocês estão na verdade, tanto na vida quanto na morte.’ Eu disse: ‘Então, por que devemos ocultá-la? Se estamos na verdade e eles estão na falsidade, por que esconderemos a nossa religião?’”

O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Ó Umar! Somos muito poucos em número, e você vê a situação pela qual estamos passando.”

“Eu disse: ‘Juro por Aquele que o enviou como Profeta com a verdade: não deixarei uma assembleia na qual anteriormente me sentava com a incredulidade, nem me sentarei numa assembleia com o Islã.’”

“Então saímos divididos em dois grupos. Eu estava em um e Hamza — que Allah esteja satisfeito com ele — no outro. Por fim, entramos na Mesquita Sagrada. Quando os coraixitas nos viram, ficaram tão aflitos como nunca antes haviam ficado. Esse episódio foi narrado de diferentes formas por Ibn Majah, Hakim e Ibn Sa‘d. Ibn Hisham cita esta declaração de Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — na qual Umar diz: ‘Na noite em que aceitei o Islã, pensei que deveria informar sobre minha conversão justamente o maior inimigo do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Assim, fui diretamente à casa de Abu Jahl e bati à porta. Ele saiu, viu-me e disse: “Seja bem-vindo, meu sobrinho! O que o traz aqui?”’

Eu disse: ‘Vim informar que aceitei o Islã.’ Ele respondeu: ‘Que o resultado disso, para você e para essa sua notícia, seja ruim!’ Então fechou a porta.

Relato de Ibn Umar

Ibn Ishaq cita, por intermédio de Nafi‘, o relato de Abdullah ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — segundo o qual, depois de aceitar o Islã, Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — perguntou: ‘Quem, entre os coraixitas, é o mais capaz de espalhar uma notícia?’ Responderam: ‘Jamil ibn Ma‘mar ibn Habib al-Jumahi.’ Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — saiu à sua procura, e eu também o acompanhei. Naquela época, eu já tinha idade suficiente para compreender tudo o que via. Ibn Sa‘d cita a declaração de Abdullah ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — na qual ele diz: ‘Eu tinha então seis anos.’ Hafiz Ibn Hajar afirma em Fath al-Bari que ele tinha cinco anos naquela época (nota do autor). Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — foi até Jamil e disse: ‘Aceitei o Islã e adotei a religião de Muhammad.’ Ele não respondeu nada; apenas saiu, arrastando sua capa pelo chão. Umar foi atrás dele, e eu fui atrás de Umar. Ao chegar à porta da Mesquita Sagrada, Jamil começou a gritar: ‘Ó coraixitas! Ó líderes dos coraixitas!’ Os líderes dos coraixitas estavam reunidos junto à Caaba. Ao ouvirem sua voz, voltaram sua atenção para ele. Jamil disse: ‘Ouçam! Umar abandonou a religião.’ Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — gritou em voz alta, atrás dele: ‘Ele está mentindo! Eu aceitei o Islã e testemunho que não há divindade além de Allah e que Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — é Seu servo e Mensageiro.’

Então as pessoas começaram a espancá-lo, e ele também começou a golpeá-las. Por fim, chegou o meio-dia. Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — sentou-se, exausto. As pessoas estavam ao seu redor, e ele dizia: ‘Façam o que quiserem.’ Nesse momento, um ancião dos coraixitas avançou e perguntou à multidão: ‘O que está acontecendo?’

Eles responderam: ‘Umar abandonou a religião.’ Ele disse: ‘E daí? Um homem fez o que queria. Agora, o que vocês querem? Querem que os Banu Adi entreguem assim um dos seus homens em suas mãos? Afastem-se dele.’ Então eles se dispersaram. Mais tarde, perguntei ao meu pai: ‘Quem era aquele homem?’

Ele respondeu: ‘Meu filho, era As ibn Wa’il al-Sahmi, isto é, o pai de Amr ibn al-As.’ Al-Tabarani e al-Bazzar citaram resumidamente esse relato de Ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele.

Em Sahih al-Bukhari há um relato semelhante de Abdullah ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — segundo o qual, quando Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — estava sentado em sua casa, assustado e apreensivo, As ibn Wa’il — que, na época da ignorância, era nosso aliado — foi até ele e perguntou: ‘Por que você está sentado com o rosto tão abatido?’ Umar respondeu: ‘Seu povo quer me matar, porque aceitei o Islã.’ As disse: ‘Ninguém poderá tocar em você, pois você está sob minha proteção.’ Então, quando As saiu, viu o vale tomado por uma multidão. Perguntou: ‘O que vocês querem?’ Eles responderam: ‘Queremos cuidar do assunto de Ibn al-Khattab, que abandonou a religião.’ Ele disse: ‘Ninguém poderá tocar em Umar.’ Então todos voltaram para suas casas.

A data da conversão de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ao Islã

O episódio da conversão de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ao Islã ocorreu no sexto ano da missão profética. É o que escreveram o imame Nawawi, em “Tahzib al-Asma wa al-Lughat”, e Mulla Ali Qari, em seu comentário de “Arba’in Nawawi”. Alguns dizem que ele abraçou a fé três dias depois de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornar muçulmano; outros dizem que foi três meses depois. Entretanto, Abu Nu’aym al-Isfahani cita o relato de Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: “Eu mesmo perguntei a Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre o episódio de sua conversão ao Islã.” Em resposta, ele disse: “Saí três dias depois de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornar muçulmano.” Ibn Sa’d, citando Aslam, servo de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), diz que isso ocorreu no mês de Dhu’l-Hijjah do sexto ano da missão profética. Contudo, provavelmente o acontecimento ocorreu bem antes disso. Mas’udi diz que, naquela época, havia pouco mais de quarenta pessoas com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Wahidi acrescenta dez mulheres a esse número. Porém, Hafiz Ibn Hajar, em “Manaqib Umar”, citando Ibn Abi Khaythama, relata a declaração de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Havia trinta e nove homens com o Mensageiro de Allah; comigo, tornamo-nos quarenta.” É provável que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) conhecesse apenas esse número de pessoas naquele momento, pois muitos muçulmanos mantinham sua fé em segredo.

Enquanto estavam confinados em Shi’b Abi Talib

Nesse período, a ira dos coraixitas contra o Islã e contra o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aumentava dia após dia. Eles perceberam que, apesar de todos os seus esforços, o Islã continuava a se espalhar silenciosamente dentro da cidade de Meca. Pessoas de tribos externas também se convertiam ao Islã uma após outra. Além disso, o assunto já não se limitava apenas à Arábia; pelo contrário, sua influência se estendera até a Abissínia. O Negus tornou-se publicamente um apoiador dos muçulmanos. De lá, começaram a chegar delegações ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para abraçar o Islã. Ademais, o fato de chefes corajosos e influentes como Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) se juntarem ao grupo dos muçulmanos, fortalecendo a coragem daqueles que haviam permanecido em Meca após a migração para a Abissínia, atiçava ainda mais o fogo de sua ira. Ibn Abi Shaybah e al-Tabarani citam a declaração de Hazrat Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele): “Por Allah, não podíamos rezar junto à Casa de Allah até que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornasse muçulmano.” Em Bukhari também consta esta declaração do mesmo Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele):

***************************************

— Desde que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornou muçulmano, permanecemos sempre fortes.

A combinação dessas circunstâncias acabou por exaltar tanto a ignorância dos coraixitas que, por unanimidade, redigiram um documento no qual juraram por Allah que não manteriam com eles qualquer relação de convivência, casamento, conversação, compra e venda ou qualquer outra espécie, enquanto a situação não mudasse. Os líderes de todas as famílias coraixitas ratificaram esse documento e penduraram-no na Caaba. Ibn Sa’d e Ibn Abd al-Barr dizem que isso ocorreu no primeiro dia de Muharram do sétimo ano da missão profética.

Musa ibn Uqbah escreve em sua obra Maghazi, citando o imame al-Zuhri [Ibn Abd al-Barr cita este relato em sua Sirah, além de Murrah ibn Uqbah, com base também nas autoridades de Muhammad ibn Abd al-Rahman Abu al-Aswad e Ya’qub ibn Hamid ibn Kasib (autor)], que, quando Abu Talib soube que os coraixitas estavam determinados a assassinar o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), convocou os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib e disse: “Que todos se reúnam com Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Shi’b Abi Talib [Shi’b significa fortaleza. Shi’b Abi Talib era uma das passagens montanhosas de Meca onde Abu Talib residia. Atualmente, chama-se Shi’b Ali. Também é chamado de Sukul Layl — autor.] e o protejam até o fim.” As duas famílias aceitaram a proposta, e todos os seus membros, tanto os incrédulos quanto os muçulmanos, reuniram-se em Shi’b Abi Talib. Depois disso, as demais famílias dos coraixitas fizeram entre si o pacto mencionado anteriormente. [Ibn Abd al-Barr, citando Musa ibn Uqbah, relata esta estranha narrativa do imame al-Zuhri: depois do cerco em Shi’b Abi Talib, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teria ordenado aos muçulmanos oprimidos de Meca que migrassem para a Abissínia. Isso contradiz o relato amplamente conhecido — autor.]

Por outro lado, Ibn Sa’d citou uma narração de Waqidi, e Ibn Hisham, de Ibn Ishaq, segundo a qual, primeiro, os coraixitas redigiram um pacto jurando romper relações com os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib; depois, essas duas famílias, por ordem de Abu Talib, retiraram-se e permaneceram sitiadas no desfiladeiro de Abu Talib. Ibn Abd al-Barr também mencionou isso em sua Sira. Abu Lahab, nessa época, separou-se de sua própria família e juntou-se aos sitiadores. As duas famílias restantes dos Banu Abd Manaf — os Banu Abd Shams e os Banu Nawfal — também abandonaram seus parentes pelo lado materno e se juntaram aos inimigos sitiadores.

Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, menciona que o cerco durou dois ou três anos. Mas Ibn Sa’d e Musa ibn Uqba afirmaram com certeza que sua duração foi de três anos. Durante todo esse período, o cerco dos coraixitas permaneceu extremamente rigoroso. Eles foram confinados de tal maneira que todas as vias pelas quais alimentos e bebidas poderiam chegar até eles foram bloqueadas. Musa ibn Uqba afirma que, quando algum comerciante vindo de fora chegava a Meca, os coraixitas rapidamente compravam todas as suas mercadorias, para que os sitiados não pudessem comprar nada. Abu Lahab dizia aos comerciantes: “Peçam preços tão altos que eles não possam comprar; depois eu comprarei tudo de vocês e não permitirei que tenham qualquer prejuízo.” Ibn Sa’d e al-Bayhaqi dizem que a situação dos sitiados chegou a tal ponto que se ouviam, do lado de fora do desfiladeiro de Abu Talib, os choros das crianças devido à fome e à sede. Eles só saíam durante o Hajj e permaneciam confinados em seu bairro até o Hajj seguinte.

Naquela época, somente Hakim ibn Hizam, sobrinho de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), e Hisham ibn Amr al-Amiri, sobrinho de Nadla ibn Hashim ibn Abd Manaf, continuavam secretamente a cumprir os direitos de parentesco. Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, afirma que certa vez Abu Jahl surpreendeu Hakim ibn Hizam quando ele levava alimentos para sua tia paterna e disse: “Você está levando comida para os Banu Hashim? Muito bem. Não o deixarei até humilhá-lo e desonrá-lo por toda Meca.” Nesse momento, chegou Abu al-Bakhtari ibn Hisham — dos Banu Asad ibn Abd al-Uzza ibn Qusayy e parente próximo de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) — e perguntou: “O que está acontecendo?” Abu Jahl respondeu: “Ele está levando alimentos para os Banu Hashim.” Abu al-Bakhtari disse: “Deixe-o. Ele está levando para sua tia os alimentos dela. Você não permitirá que os bens dela cheguem até ela?” Abu Jahl não aceitou. Então começou uma discussão e uma briga entre os dois. Em certo momento, Abu al-Bakhtari golpeou a cabeça de Abu Jahl com um osso da mandíbula de um camelo, partindo-lhe a cabeça. Hazza (que Allah esteja satisfeito com ele) observava o acontecimento. Com isso, os dois politeístas descrentes, envergonhados, interromperam a disputa entre si, para que os Banu Hashim não se alegrassem. A respeito de Hisham ibn Amr al-Amiri, Ibn Hisham cita a narração de Ibn Ishaq, segundo a qual ele também continuou secretamente a tratar os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib com benevolência própria de parentes. Seu método era carregar mercadorias nas costas de camelos durante a noite e conduzi-los para dentro do desfiladeiro de Abu Talib. Os sitiados agarravam os camelos, descarregavam as mercadorias e os mandavam de volta para fora. Os coraixitas também o repreendiam. Mas Abu Sufyan dizia: “Deixem-no; ele está demonstrando compaixão por seus parentes.”

O acontecimento da divisão da Lua

Esse cerco prosseguia com grande rigor. Contudo, como dissemos no capítulo “O Convite Geral” (no início deste volume), apesar disso o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não deixou, nem por um único dia, o trabalho de transmitir a mensagem, e ninguém tinha poder para impedi-lo de fazê-lo. Pouco depois de o cerco completar dois anos, ocorreu o grandioso acontecimento da divisão da Lua. Os descrentes em Meca viram-no com os próprios olhos. Os especialistas em hadith e os exegetas estão de acordo que esse acontecimento ocorreu cinco anos antes da Hégira. O acontecimento ocorreu em Mina. No Alcorão, ele é mencionado da seguinte forma:

************************************************

A Hora se aproximou, e a Lua se fendeu. (Mas a condição deles é tal que), qualquer sinal que vejam, afastam-se dele e dizem: “Isto é uma magia recorrente.” (Al-Qamar: 1–2)

Alguns racionalistas consideram impossível a divisão de um astro como a Lua e dão a ******************* o sentido de que “a Lua se dividirá”. Se, em vez de traduzir “fendeu-se”, traduzirmos “se fenderá”, o significado dos dois versículos se torna irracional. No primeiro versículo, a divisão da Lua é apresentada como um sinal da proximidade da Hora. Se for entendido que isso ocorrerá no futuro, como se pode considerar o fendilhamento da Lua um sinal de que a Hora está próxima? Além disso, ao adotar esse significado, o versículo seguinte se torna completamente sem sentido, pois afirma que eles são tão obstinados que, qualquer sinal que vejam, afastam-se dele e o consideram uma manifestação extraordinária de magia. O contexto anterior e posterior de ***************** confirma esse significado e deixa claro que, naquele momento, a Lua realmente havia se dividido. As narrações autênticas dos hadiths reconhecem justamente a veracidade desse significado. (Acréscimo do autor.)

As narrações sobre a divisão da Lua foram citadas por Bukhari, Tirmidhi, Ahmad, Abu Awama, Abu Dawud, Tiyalisi, Abd al-Razzaq, Ibn Jarir, Bayhaqi, Tabarani, Ibn Mardawayh e Abu Nuaym. Eles transmitiram-nas, com várias cadeias de transmissão, a partir de Hazrat Abdullah bin Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abdullah bin Masud (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Hudhayfa bin al-Yaman (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Anas bin Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Jubayr bin Mut’im (que Allah esteja satisfeito com ele). Três desses veneráveis — Hazrat Abdullah bin Masud, Hazrat Hudhayfa e Jubayr bin Mut’im (que Allah esteja satisfeito com eles) — explicaram e analisaram o assunto, afirmando que haviam sido testemunhas oculares do referido acontecimento.

Ao reunir todas as narrações, obtém-se o seguinte relato detalhado: o acontecimento ocorreu aproximadamente cinco anos antes da Hégira. Era a noite do décimo quarto dia do mês lunar. A Lua acabara de nascer quando, de repente, dividiu-se em duas partes: uma foi vista de um lado da montanha diante deles e a outra, do lado oposto. Essa situação durou apenas um instante, e então as duas partes se reuniram. O Profeta (que a paz esteja com ele) encontrava-se então em Mina. Ele disse às pessoas: “Vejam e testemunhem.” Os incrédulos disseram: “Muhammad (que a paz esteja com ele) pode ter feito magia sobre nós, mas não pode fazê-lo sobre todos. Deixem que os forasteiros cheguem. Perguntar-lhes-emos se também observaram esse acontecimento.” Quando chegaram algumas pessoas de fora, testemunharam que também haviam visto aquela cena.

Há algumas narrações transmitidas por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) que deram origem ao equívoco de que o acontecimento da divisão da Lua ocorreu não uma, mas duas vezes. Primeiro, nenhum dos Companheiros afirmou tal coisa. Segundo, em algumas narrações do próprio Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), encontram-se as palavras ************ (duas vezes) e as palavras “duas partes”. Terceiro, o Alcorão fala apenas de uma divisão. Com base nisso, a posição correta é que esse acontecimento ocorreu somente uma vez. Além disso, é completamente infundada a história corrente segundo a qual, ao sinal do dedo do Profeta (que a paz esteja com ele), a Lua se dividiu em duas, uma parte entrou por dentro de sua veste e saiu por uma das mangas.

A questão agora é: qual foi a verdadeira natureza desse acontecimento? Foi um milagre que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) realizou em Meca, diante dos incrédulos, como prova de sua missão profética? Ou foi um fenômeno que ocorreu na Lua pelo poder de Allah, e Ele atraiu a atenção das pessoas para isso com o propósito de mostrar que era um sinal da possibilidade e da proximidade da Ressurreição? Um grande grupo de sábios inclui esse acontecimento entre os milagres do Profeta (que a paz esteja com ele). Sua opinião é que esse milagre foi mostrado para atender à exigência dos incrédulos. Contudo, essa opinião baseia-se em algumas narrações transmitidas por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). Nenhum outro Companheiro afirmou isso. Ibn Hajar diz em Fath al-Bari que, entre todas as formas pelas quais essa história foi transmitida, exceto o hadith de Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), não encontrou nenhuma menção de que a divisão da Lua tivesse ocorrido em resposta à exigência dos politeístas. Abu Nuaym al-Isfahani transmitiu em Dala’il al-Nubuwwah uma narração sobre isso, atribuída a Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, sua cadeia de transmissão é fraca. Em nenhuma das narrações atribuídas a Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) nos livros de hadith com cadeias confiáveis há qualquer menção a isso. Além disso, Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abdullah bin Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) não eram contemporâneos desse acontecimento. Por outro lado, nenhum dos Companheiros que estavam presentes naquela época — como Hazrat Abdullah bin Masud (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Jubayr bin Mut’im (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abdullah bin Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) — afirmou que, em Meca, os politeístas haviam exigido um sinal como prova da veracidade do Profeta (que a paz esteja com ele), e que, por causa disso, lhes fora mostrado o milagre da divisão da Lua. O ponto mais importante é que o próprio Sagrado Alcorão apresenta esse acontecimento não como um sinal da missão de Muhammad, mas como um sinal da proximidade da Ressurreição. Naturalmente, sob esse aspecto, ele era sem dúvida uma prova clara da veracidade do Profeta (que a paz esteja com ele), pois esse acontecimento comprovava a veracidade da notícia que ele havia dado às pessoas sobre a chegada da Ressurreição.

Os opositores levantam dois tipos de objeção a esse respeito. Primeiro, segundo eles, de modo algum seria possível que um enorme corpo celeste como a Lua se dividisse, com uma parte se separando da outra, e que, depois de uma das partes se afastar centenas de quilômetros da outra, ambas se unissem novamente. Em segundo lugar, dizem que, se isso tivesse acontecido, o acontecimento teria se tornado conhecido em todo o mundo, teria sido mencionado na história e também na astronomia. Na realidade, porém, ambas as objeções são insignificantes. No passado, talvez fosse possível discutir se isso era de todo possível. Mas, com base no conhecimento que o homem adquiriu na era moderna sobre a constituição dos corpos celestes, é perfeitamente possível que um corpo celeste se rompa devido a uma erupção vulcânica em seu interior e que, nessa terrível erupção, suas duas partes se afastem para muito longe e, pela força magnética de seu próprio centro, voltem a se unir. Resta agora a segunda objeção. Ela é insignificante porque esse acontecimento não ocorreu senão por um instante. Não houve sequer o som de uma explosão que atraísse a atenção das pessoas para aquele ponto. Também não havia sido divulgada previamente nenhuma notícia que levasse as pessoas a olhar para o céu. Além disso, não era possível que ele fosse visto no mundo inteiro. Na verdade, naquela ocasião, a Lua havia surgido apenas na Arábia e nos países situados a leste dela. Naquela época, o interesse das pessoas pela escrita da história não era tão grande, nem a arte da historiografia era tão desenvolvida, a ponto de aqueles que tivessem visto o fenômeno nos países orientais o registrarem, e de algum historiador reunir esses testemunhos e citá-los em uma obra histórica. Ainda assim, a história de Malabar menciona que, naquela noite, um de seus reis contemplou essa cena. Resta agora a astronomia e os livros de calendários. Somente se fosse detectada alguma diferença no movimento da Lua, em sua órbita ou entre os horários de seu nascimento e ocaso, haveria motivo para que isso fosse mencionado na astronomia ou nos calendários. Não surgiu nenhuma irregularidade desse tipo; por isso, a atenção dos astrônomos antigos não foi atraída para o assunto. Naquela época, os instrumentos telescópicos tampouco eram tão desenvolvidos que qualquer acontecimento no alto céu pudesse ser imediatamente registrado e preservado. (Tafhim, volume 5 — Al-Qamar, nota 1.)

Como terminou o cerco

Embora os líderes fanáticos e obstinados dos incrédulos de Meca, dominados por uma ira momentânea, tenham mantido duas grandes famílias da cidade sob cerco, não havia em Meca uma única família que não tivesse algum parentesco com os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib. Por isso, desde o início, para muitas pessoas era insuportável ver seus próprios irmãos e parentes submetidos ao cerco. Quanto mais o cerco se prolongava, mais amargurados se tornavam contra ele. Isso porque os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib haviam sido reduzidos à fome. Os gritos e lamentos de suas crianças podiam ser ouvidos nos bairros vizinhos. Seus parentes de outras famílias, que moravam nas proximidades, ficavam perturbados ao ouvir todos aqueles gemidos e lamentos. Musa bin Uqba diz que, no fim do terceiro ano, os Banu Abd Manaf, os Banu Qusayy e aqueles cujas filhas haviam se casado com os Banu Hashim começaram a censurar uns aos outros e a declarar abertamente: “Cometemos um crime ao romper esses laços de parentesco. Com essa atitude, violamos os direitos familiares.”

At-Tabari e Ibn Hisham, citando Ishaq, e al-Baladhuri, citando al-Waqidi, dizem que, por fim, Hisham ibn Amr al-Amiri assumiu a responsabilidade por essa tarefa e declarou que não descansaria até pôr fim ao boicote. Primeiro, encontrou-se com az-Zubayr ibn Abi Umayya, líder dos Banu Makhzum, que era irmão de Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) e filho de Atika bint Abd al-Muttalib, tia paterna do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse: “Ó Zubayr! Tu te alegras por poderes comer e beber tranquilamente, casar-te, enquanto os parentes do lado materno de teu avô morrem de fome? Serão rompidas com eles as relações comerciais e matrimoniais? Juro por Allah que, se essa situação dissesse respeito a Abu Jahl e tu lhe pedisses que tratasse os parentes do lado materno de seu avô como ele te pediu que tratasses os do lado materno do teu avô, ele jamais faria isso.” Az-Zubayr respondeu: “Hisham, o que posso fazer sozinho? Se mais alguém nos ajudasse, eu não desistiria até rasgar o documento do boicote.” Hisham disse: “Eu sou um.” Az-Zubayr respondeu: “Procura outro.”

Depois, Hisham encontrou-se com Mut’im ibn Adi, líder dos Banu Nawfal ibn Abd Manaf. Disse-lhe: “Ó Mut’im! Tu te alegras por duas famílias dos Banu Abd Manaf serem destruídas enquanto ficas assistindo? Se apoiares os coraixitas contra eles e os abandonares dessa maneira para que sejam exterminados, em breve chegará o dia em que a mesma situação será a tua.” Ele respondeu: “O que posso fazer sozinho? Leva mais alguém contigo.” Hisham disse: “Eu sou um, e o segundo é az-Zubayr ibn Abi Umayya.” Mut’im respondeu: “Procura outro.”

Depois, Hisham encontrou-se com Abu al-Bakhtari, Wahb ibn Hashim, líder dos Banu Asad ibn Abd al-Uzza, e falou-lhe as mesmas coisas que havia dito a Mut’im. Ele perguntou: “Há mais alguém que ficará conosco?” Hisham respondeu: “Eu, az-Zubayr ibn Abi Umayya e Mut’im ibn Adi.” Ele disse: “Está bem, procura mais um.” Então Hisham conversou com Zam’a ibn al-Aswad ibn al-Muttalib. Ele era um dos líderes dos Banu Asad ibn Abd al-Uzza, e também foi convencido a participar dessa ação.

Depois, esses cinco — Hisham, az-Zubayr, Mut’im, Abu al-Bakhtari e Zam’a — reuniram-se em Hajun, nas alturas de Meca, e decidiram como tentar destruir o documento do boicote. Az-Zubayr disse: “Eu começarei a falar, e vocês me apoiarão.” Na manhã do dia seguinte, foram à reunião dos coraixitas. Az-Zubayr deu sete voltas em torno da Caaba e dirigiu-se ao povo de Meca, dizendo: “Ó habitantes de Meca! Nós comeremos e viveremos confortavelmente enquanto os Banu Hashim serão destruídos? Não se pode comprar deles nem vender-lhes coisa alguma. Juro por Allah que não me sentarei de modo algum até que o documento do boicote seja rasgado.”

Abu Jahl levantou-se e disse: “Estás mentindo; ele jamais será rasgado.” Zam’a disse: “Juro por Allah que tu és o maior mentiroso. Quando esse documento foi escrito, nós já não estávamos de acordo.” Abu al-Bakhtari apoiou suas palavras, dizendo: “Zam’a está certo. Não estávamos de modo algum de acordo com nada do que foi escrito nesse documento, nem o reconhecemos.” Mut’im ibn Adi disse: “Vocês dois disseram a verdade; mentiroso é aquele que diz o contrário. Diante de Allah, declaramo-nos livres de qualquer responsabilidade por este documento e pelo que está escrito nele.” Hisham ibn Amr também o apoiou. Abu Jahl disse: “Esta é uma conspiração tramada à noite em algum lugar.”

Uma manifestação extraordinária do poder de Allah

Ibn Sa’d, Ibn Hisham e al-Baladhuri dizem que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi informado por Allah de que os cupins haviam devorado tudo o que estava escrito no documento de rompimento das relações — as palavras de injustiça e opressão e as relativas ao rompimento dos laços de parentesco —, restando apenas o nome de Allah.

A versão de Ibn Ishaq, Musa ibn Uqba e Urwa é contrária a essa: os cupins teriam devorado o nome de Allah, enquanto as palavras sobre injustiça, opressão e outras semelhantes permaneceram intactas. Porém, essa versão não parece aceitável. A verdade é o que disseram Ibn Sa’d, al-Baladhuri e Ibn Hisham. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionou isso a seu tio Abu Talib. Ele perguntou: “Teu Senhor te informou disso?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Sim.” Abu Talib mencionou isso a seus irmãos, e eles disseram: “Qual é a tua opinião?” Abu Talib respondeu: “Juro por Allah, Muhammad jamais nos disse uma mentira.”

Então Abu Talib disse: “O que devemos fazer agora?” O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “Na minha opinião, vocês devem vestir suas melhores roupas, dirigir-se aos coraixitas e dizer-lhes isto.” Assim, todos saíram e foram ao Hijr, onde os homens importantes dos coraixitas se reuniam. Ao vê-los chegar, todos voltaram os olhos para eles e começaram a pensar no que, afinal, eles pretendiam dizer.

Embora os historiadores não tenham explicado nem analisado esse episódio, quando se consideram conjuntamente o relato anterior e este, fica claro que Abu Talib e seus companheiros chegaram ao Haram justamente quando az-Zubair e seus companheiros discutiam com Abu Jahl, enquanto os chefes dos coraixitas refletiam sobre aquela controvérsia. Assim que chegou, Abu Talib dirigiu-se a todos e disse: “Viemos tratar de uma questão; que responda a ela aquele entre vocês cuja resposta considerem correta.”

Os chefes dos coraixitas disseram: “Sejam bem-vindos, ahlan wa sahlan. Temos conosco aquilo que os deixará satisfeitos. Portanto, diga: o que deseja?” Abu Talib respondeu: “Meu sobrinho me informou disso, e, por Deus, ele jamais mentiu. Agora mandem trazer o documento do pacto e verifiquem: se as palavras de meu sobrinho forem verdadeiras, cessem o rompimento das relações conosco e apaguem o que está escrito nele. Mas, se suas palavras forem falsas, eu o entregarei em suas mãos. Então caberá a vocês matá-lo ou deixá-lo vivo.” Eles disseram: “Você falou com justiça.”

Em seguida, trouxeram o documento do pacto e, ao abri-lo, verificou-se que era verdade exatamente o que Deus havia dito ao Seu Mensageiro. Com isso, todas as conspirações dos coraixitas incrédulos fracassaram e eles ficaram humilhados. Abu Talib disse: “Agora está claro para vocês que são vocês mesmos os responsáveis por esta injustiça, opressão e ruptura dos laços. Por que crime continuaremos sitiados?” Então Abu Talib levou seus companheiros para trás da cortina da Caaba, encostou o corpo na parede da Casa Sagrada e fez esta súplica: “Ó Deus! Ajuda-nos contra aqueles que nos oprimiram, romperam os laços de parentesco conosco e consideraram lícito para si aquilo que proibiste para eles em relação a nós.” Depois dessas palavras, partiu com seus companheiros em direção ao seu próprio desfiladeiro. Assim que eles se foram, muitos coraixitas censuraram as injustiças e opressões cometidas contra os Banu Hashim. Entre os mais notáveis estavam Mut’im ibn Adi, Adi ibn Qays, Zam’a ibn al-Aswad, Abu al-Bakhtari ibn Hashim e az-Zubair ibn Abi Umayya. Em seguida, esses homens, armados, foram ao desfiladeiro de Abu Talib e disseram aos Banu Hashim e aos Banu al-Muttalib: “Agora voltem e vivam em suas próprias casas.”

Ibn Sa’d, al-Baladhuri, Ibn Abd al-Barr e outros afirmam que o cerco terminou no décimo ano da missão profética.

O falecimento de Khadija (que Deus esteja satisfeito com ela) e do senhor Abu Talib

A alegria e a tranquilidade que o Profeta (que a paz esteja com ele) havia alcançado após o fim do cerco transformaram-se em tristeza quando ocorreram, sucessivamente, dois acontecimentos dolorosos. Com o falecimento de seu tio Abu Talib, seu principal apoiador e auxiliar, e de sua esposa Khadija (que Deus esteja satisfeito com ela), extremamente fiel e consoladora nos momentos de dificuldade, ele ficou profundamente entristecido. Esses dois acontecimentos dolorosos ocorreram no décimo ano da missão profética, o mesmo ano em que o cerco terminou.

Alguns historiadores afirmaram que Khadija (que Deus esteja satisfeito com ela) faleceu antes de Abu Talib. Al-Waqidi diz que ela morreu trinta e cinco dias antes. Contudo, a opinião mais difundida e confiável é que Abu Talib morreu primeiro e que, pouco tempo depois, Khadija (que Deus esteja satisfeito com ela) faleceu. Al-Bayhaqi e Ibn Hisham, citando o breve relato de Muhammad ibn Ishaq, afirmam que ambos morreram no mesmo ano, três anos antes da Hégira.

Ibn Abd al-Barr afirma que Abu Talib faleceu seis meses depois de saírem do vale de Shi‘b. Três dias depois, faleceu Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Sa‘d afirma que Abu Talib faleceu no mês de Shawwal do décimo ano da profecia. Naquele momento, tinha 80 anos. Um mês e cinco dias depois, faleceu Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), que então tinha 65 anos. Ibn Athir situou a morte de Abu Talib no décimo ano da profecia, no mês de Shawwal ou Dhu al-Qa‘dah. Entre as diversas opiniões, deu-se preferência à de que o intervalo entre os falecimentos de Abu Talib e Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi de apenas 35 dias. O hafiz Abu al-Faraj Ibn al-Jawzi afirmou que o intervalo entre as duas mortes foi de cinco dias, enquanto Qutayba afirmou que foi de três dias. Al-Mu’ahib al-Ladunniyya, de Qastallani, afirma que a verdade é que Hazrat Khadija faleceu no Ramadan (no décimo ano da profecia). Baladhuri, citando Hakim ibn Hizam, registrou como data do falecimento o dia 10 de Ramadan (do décimo ano da profecia).

A perseguição dos incrédulos contra os muçulmanos

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava chamar este ano de ano da tristeza. Após esses dois acontecimentos, uma montanha de pesar e tristeza desabou sobre o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por outro lado, como de repente o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou sem um protetor, os coraixitas tornaram-se muito ousados. Começaram então a infligir-lhe perseguições e opressões que não podiam praticar enquanto Abu Talib estava vivo. Bayhaqi, citando o relato de Urwa ibn al-Zubayr, afirma que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Até a morte de Abu Talib, os coraixitas eram covardes.” Hakim também citou o mesmo relato de Urwa ibn al-Zubayr, atribuindo-o a Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), com estas mesmas palavras: ela ouviu o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer isso.

Ibn Ishaq citou, por intermédio de Urwa ibn al-Zubayr, um exemplo da crescente ousadia dos coraixitas: certo dia, um homem dos coraixitas atirou terra sobre a cabeça do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no mercado, e ele voltou para casa naquele estado. Uma de suas filhas lavava-lhe a cabeça e chorava. Para consolá-la, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia: “Minha filha, não chores; Allah é o protetor de teu pai.”

O Imam Bukhari citou, em diversos trechos de Kitab al-Taharah, Kitab al-Jizya, Kitab al-Jihad e Kitab al-Maghazi, um relato transmitido por Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele): certo dia, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazia a oração perto da Caaba. Os coraixitas estavam sentados em suas respectivas reuniões. Um deles — segundo a explicação transmitida por Muslim, era Abu Jahl — disse: “Quem entre vocês irá à casa de fulano, pegar as entranhas, o sangue e o cesto de restos de um camelo abatido, e colocá-los sobre suas costas enquanto ele estiver prostrado?” Ao ouvir isso, Uqba ibn Abi Mu‘ayt, o mais perverso e depravado entre eles, levantou-se, pegou aqueles restos imundos e os colocou sobre as costas do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ou entre seus dois ombros, enquanto ele estava prostrado. Sob aquele peso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu prostrado e não conseguiu levantar a cabeça. Ao verem aquilo, os coraixitas começaram a rir às gargalhadas, caindo uns sobre os outros. Nesse ínterim, alguém foi até a casa do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e levou a notícia. Hazrat Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela), ao ouvir isso, veio correndo e retirou aqueles restos imundos, arrastando-os para longe. Depois, dirigiu-se aos coraixitas e repreendeu-os severamente, lançando maldições contra os que haviam cometido aquele ato. O hafiz Bazzar acrescenta que nenhum dos incrédulos coraixitas respondeu sequer uma palavra a Hazrat Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela). Ao terminar a oração, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Deus, decide a questão dos coraixitas!” Alguns afirmam que ele repetiu isso duas vezes; outros, três vezes. No relato de Bukhari consta que os coraixitas consideraram extremamente desagradável essa maldição do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em Muslim é dito que, diante de suas palavras, eles pararam de rir e, por causa da maldição, ficaram assustados e apreensivos. Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud afirma que, depois disso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou nominalmente Abu Jahl, Utba ibn Rabi‘a, Shayba ibn Rabi‘a, al-Walid ibn Utba ibn Rabi‘a, Umayya ibn Khalaf, Uqba ibn Abi Mu‘ayt e Umara ibn al-Walid. Além de Bukhari e Muslim, este hadith também foi citado pelo Imam Ahmad, Nasa’i, Bazzar, Tabarani, Abu Dawud al-Tayalisi e outros. Na versão de al-Tayalisi também foi citada esta declaração de Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele): “Além daquele dia, nunca mais ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoá-los.”

Embora os muhaddithin que transmitiram este hadith não tenham informado em que época ocorreu o acontecimento, nele se encontra uma informação que permite determinar aproximadamente esse período. Quando as entranhas de uma camela foram colocadas sobre o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enquanto ele estava prostrado, e a notícia chegou a Hazrat Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela), ela veio correndo e retirou as entranhas da cabeça do pai, puxando-as para longe. Sobre ela, Ibn Abd al-Barr registrou em Al-Isti‘ab que, quando nasceu, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha quarenta e um anos. Al-Zurqani declarou em seu comentário de Al-Mawahib que essa informação é correta. Portanto, é certo que, no momento desse acontecimento, Hazrat Fatima deveria ter nove anos. Com efeito, seria muito difícil para uma menina mais nova puxar e retirar as entranhas de uma camela. Por isso, pensamos que os incrédulos cometeram esse ato absurdo no período em que Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e Abu Talib já haviam falecido.

O testamento de Abu Talib

Allama Qastallani, em Al-Mawahib al-Ladunniyya, e Allama Zurqani, em seu comentário, citando Hisham ibn Muhammad ibn al-Sa’ib al-Kalbi, afirmam que, nos últimos momentos de Abu Talib, os chefes dos coraixitas foram visitá-lo. Depois de mencionar diante deles as virtudes e a grandeza dos coraixitas, ele lhes disse: “Vede: preservai intacta a honra desta Casa da Caaba. Nisso está a satisfação do Senhor. Cumpri os direitos dos parentes. Não transgredi uns contra os outros nem usurpeis os direitos alheios. Aceitai o convite daquele que convida. Satisfazei as necessidades de quem pede ajuda. Adotai a honestidade e a fidelidade. A esse respeito, recomendo-vos Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): tratai-o bem, pois ele é o Amin (confiável) entre os coraixitas e o mais verdadeiro de toda a Arábia. Ele possui todas as qualidades que vos mencionei. Trouxe algo que o coração deseja, mas as pessoas o negam verbalmente por medo da inimizade. Juro por Deus! É como se eu estivesse vendo com meus próprios olhos que os necessitados da Arábia e os fracos de todas as partes avançarão, aceitarão seu convite e proclamarão a veracidade de sua kalima. Eles fortalecerão sua missão, e ele, acompanhado deles, lançará-se nos campos repletos de perigos. Os chefes dos coraixitas permanecerão sentados, com o rabo entre as pernas.”

Ibn Sa‘d relata que, no momento de sua morte, Abu Talib recomendou a seus filhos: “Enquanto continuardes a ouvir Muhammad (que a paz esteja com ele) e obedecerdes às suas ordens, estareis sempre bem. Portanto, obedecei-lhe e ajudai-o; assim permanecereis no caminho reto.”

O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Meu tio, o senhor aconselhou estas pessoas, mas por que se mantém fora disso?”

Ele respondeu: “Mas não gosto da ideia de ser considerado desviado por ter perdido a razão no momento da morte. Nem quero que os coraixitas digam que Abu Talib rejeitou isso enquanto estava em plena saúde, mas, tomado pelo pânico no momento da morte, acabou por adotá-lo.”

Ibn Sa‘d relata, citando o imame Muhammad ibn Sirin, que, quando Abu Talib estava morrendo, chamou o Profeta (que a paz esteja com ele) e disse: “Quando eu morrer, vai para Medina, junto da família de teu avô materno, os Banu Najjar, pois eles são muito rigorosos na proteção dos membros de sua própria família.”

Essas recomendações mostram quão sábio e previdente era Abu Talib: três anos antes da Hégira, ele expressou uma opinião sobre Medina que acabou se tornando realidade. Naquela época, porém, ninguém poderia imaginar que Medina se tornaria uma cidade cujos habitantes dariam a vida pelo Islã e pelo Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). A partir dali, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) obteria uma força que subjugaria toda a Arábia. Assim, tudo o que ele havia dito naquela época aos chefes dos coraixitas tornou-se realidade, em todos os detalhes, apenas alguns anos depois. Outras pessoas se beneficiaram ao apoiar o Mensageiro (que a paz esteja com ele), enquanto esses chefes dos coraixitas foram relegados às últimas fileiras. Ibn Abd al-Barr relata, em Al-Isti‘ab, um episódio ocorrido durante o governo de Umar. Certo dia, os chefes dos coraixitas, entre os quais se destacavam Suhayl ibn Amr e Abu Sufyan, estavam sentados do lado de fora, aguardando permissão para se encontrarem com o Comandante dos Crentes. Naquele momento, o venerável Bilal (que Deus esteja satisfeito com ele), Suhayb (que Deus esteja satisfeito com ele) e outros participantes de Badr foram chamados para entrar. Abu Sufyan disse a seus companheiros, em tom de reclamação: “Chegou o momento em que nossos homens ficam sentados do lado de fora, enquanto os escravos são chamados para entrar?” Suhayl ibn Amr respondeu: “Fazei essa reclamação a vós mesmos. Quando o convite ao Islã foi feito, eles avançaram, enquanto vós ficastes para trás.”

Abu Lahab avança para apoiar o Mensageiro (que a paz esteja com ele), mas depois recua

Ibn Sa‘d relata que, quando a perseguição ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) em Meca chegou ao extremo, Abu Lahab foi certa vez até ele e disse: “Ó Muhammad! Continua fazendo o que desejas. Continua fazendo o que fazias enquanto Abu Talib estava vivo. Juro por al-Lat e al-Uzza: enquanto eu estiver vivo, ninguém poderá pôr a mão em ti.”

Depois, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) saiu de casa, e Ibn al-Ghaytalah começou a insultá-lo no mercado público (o nome verdadeiro desse homem era al-Harith ibn Qays Adi al-Sahmi. A esposa de Qays ibn Adi era uma prostituta chamada Ghaytalah, da tribo Banu Murrah. Todos os seus filhos eram chamados Ghayatila — autor). Então Abu Lahab saiu de casa e repreendeu Ibn al-Ghaytalah. Este fugiu gritando: “Ó coraixitas, ficai sabendo: Abu Utbah também abandonou a religião de seus antepassados.” Ao ouvirem aquele tumulto, algumas pessoas foram até Abu Lahab e perguntaram o que havia acontecido. Ele respondeu: “Não abandonei a religião de Abd al-Muttalib. Mas agora vou apoiar meu sobrinho, pois ele já não tem nenhum protetor.” Os chefes dos coraixitas disseram: “Fizeste bem em te preparares para cumprir os direitos do parentesco.” Durante alguns dias, o Profeta (que a paz esteja com ele) permaneceu seguro, e as pessoas, por consideração a Abu Lahab, deixaram de importuná-lo. Por fim, certo dia, Abu Jahl e Utbah ibn Abi Muayt, depois de se consultarem, foram até Abu Lahab e disseram: “Pergunta ao teu sobrinho para onde irão seu avô e teu pai, Abd al-Muttalib.” Quando Abu Lahab fez essa pergunta ao Profeta (que a paz esteja com ele), ele respondeu: “Ele irá para onde for seu povo, e eu também irei para lá.” Abu Lahab transmitiu essa resposta do Mensageiro (que a paz esteja com ele) a seus amigos. Eles disseram: “Homem, entendeste alguma coisa? Isso significa que teu pai também irá para o Inferno.”

Abu Lahab foi até o Profeta (s) e perguntou: “Ó Muhammad! Abd al-Muttalib irá para o Inferno?” Ele respondeu: “Sim. E qualquer pessoa que morrer seguindo a mesma religião em que Abd al-Muttalib morreu irá para o Inferno.” Assim que ouviu isso, Abu Lahab ficou furioso e disse abruptamente: “Juro por Deus, serei sempre teu inimigo. Tu pensas que Abd al-Muttalib está condenado ao Inferno?”

Assim, aquele inimigo de Deus que, por alguns dias, havia apoiado a verdade voltou à sua posição original.

O casamento com Sawda (r.a.)

Após o falecimento de Khadija (r.a.), surgiu para o Profeta (s) o delicado problema de permanecerem em casa apenas as duas filhas ainda jovens — Umm Kulthum (r.a.) e Fatima (r.a.). Não havia ninguém para cuidar delas. Se, naquele período perigoso, ele saísse de casa para cumprir a missão da Mensagem, suas duas filhas ficariam desamparadas. Por isso, poucos dias após o falecimento de Khadija (r.a.), ele se casou com Sawda bint Zam‘a. (Ibn Sa‘d, citando al-Waqidi, afirma que esse casamento ocorreu no mês de Ramadan do décimo ano da profecia. al-Qastallani, em Mawahib al-Ladunniyya, afirma que Khadija (r.a.) faleceu no mês de Ramadan e que o casamento com Sawda (r.a.) ocorreu no mês de Shawwal. — O autor.) Ela era uma mulher de idade avançada e muito adequada para cuidar das meninas. Pertencia à tribo de Banu Amir ibn Lu’ayy. Seu marido anterior, Sakran ibn Amr, era seu primo paterno e irmão de Suhayl ibn Amr. Ambos, marido e mulher, estavam entre os primeiros muçulmanos e participaram da segunda migração para a Abissínia. Musa ibn ‘Uqba e Abu Ma‘shar dizem que Sakran (r.a.) faleceu na própria Abissínia. Muhammad ibn Ishaq e al-Waqidi, porém, afirmam que ele retornou da Abissínia a Meca e morreu ali. (Al-Tabari e Ibn Kathir escreveram em suas histórias que ele partiu novamente de Meca para a Abissínia e morreu como cristão. Al-Baladhuri, entretanto, reconheceu como verdadeira a versão de Ibn Ishaq e al-Waqidi. O próprio Ibn al-Athir explicou em sua obra Usd al-Ghaba que ele permaneceu muçulmano até o momento de sua morte. Hafiz Ibn Hajar escreveu “que Allah esteja satisfeito com ele” junto ao seu nome em al-Isaba. — O autor.) Na narração de Ibn Sa‘d, transmitida por al-Waqidi, menciona-se que, quando o Profeta (s) lhe enviou uma proposta de casamento, ela respondeu: “O senhor tem autoridade para tomar qualquer decisão a meu respeito.” O Profeta (s) mandou-lhe dizer: “Nomeia alguém de tua parte para realizar teu casamento comigo.” Para esse propósito, ela nomeou Hatib ibn Amr, irmão de Suhayl ibn Amr e um dos primeiros muçulmanos; e ele realizou o casamento dela com o Profeta (s).

A maioria das narrativas indica que, depois de Khadija (r.a.), ela foi a primeira mulher a se casar com o Profeta, e que esse casamento ocorreu antes de seu casamento com Aisha (r.a.). Ibn Abd al-Barr, citando Qatada, Abu Ubayda e também o Imam al-Zuhri, afirmou o mesmo. Ibn Sa‘d também explicou dessa maneira. Ibn Ishaq, citando Ali ibn Husayn (r.a.), diz que a primeira mulher com quem o Profeta se casou depois de Khadija (r.a.) foi Sawda bint Zam‘a (r.a.).

O casamento com Aisha (r.a.)

Em oposição a isso, uma narrativa detalhada foi transmitida pelo Imam Ahmad, al-Tabarani, Ibn Jarir al-Tabari e al-Bayhaqi. Nela se menciona que, quando Khadija (r.a.) faleceu, Khawla bint Hakim al-Sulamiyya, esposa de Uthman ibn Ma‘un, foi à presença do Profeta (s) e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! O senhor se casará novamente?” Ele perguntou: “Com quem me casarei?” Khawla respondeu: “Se quiser uma virgem, poderá tê-la; e, se quiser uma viúva, também poderá tê-la.” O Profeta (s) perguntou: “Quem é a virgem?” Ela respondeu: “A filha da pessoa que lhe é mais querida entre toda a criação, isto é, Aisha bint Abi Bakr (r.a.).” Então o Profeta (s) perguntou: “E quem é a viúva?” Ela respondeu: “Sawda bint Zam‘a, que creu em ti e te obedeceu.” O Profeta (s) disse: “Vai falar com ambas.”

Primeiro, ela foi até Abu Bakr (r.a.) e disse à sua esposa, Umm Ruman: “Que imensa bondade e bênção Allah lhes concedeu!”

Ele perguntou: — O que é?

Khawla disse: — O Mensageiro de Allah enviou-me para pedir Aisha em casamento. Umm Ruman disse: — Deixe Abu Bakr vir. Quando Abu Bakr chegou, Umm Ruman disse-lhe: — Que grande bem e bênção Allah lhe concedeu! Ele perguntou: — O que é? Umm Ruman respondeu: — O Mensageiro de Allah enviou-me uma proposta de casamento para Aisha. Ele perguntou: — Ela seria lícita para ele? Ela é sua sobrinha!

Khawla foi até o Profeta e contou-lhe isso. Ele disse: — Diga-lhe: ele é meu irmão na religião; sua filha é lícita para mim. Khawla transmitiu essa resposta a Abu Bakr. Ele disse: — Espere um pouco. Dito isso, retirou-se.

Umm Ruman disse a Khawla: — Mut’im ibn Adi havia pedido Aisha em casamento para seu filho. Por Allah! Abu Bakr jamais deixou de cumprir uma promessa feita a alguém. Enquanto isso, Abu Bakr foi até Mut’im. A esposa deste estava sentada com ele; fora para o filho dela que Mut’im havia feito o pedido. Ela disse: — Abu Bakr, tememos que, se casarmos nosso filho com alguém da sua família, vocês o afastem da religião dele. Abu Bakr disse a Mut’im: — O que sua esposa está dizendo também é o que você pensa, não é? Ele respondeu: — Ela está dizendo exatamente isso. Depois de ouvir essa resposta, Abu Bakr saiu dali, e Allah o livrou da dificuldade em que se encontrava por causa da promessa feita a Mut’im. Em seguida, disse a Khawla: — Traga o Mensageiro de Allah à minha casa. Quando ela o trouxe, Abu Bakr casou Aisha com o Mensageiro de Allah. Naquela ocasião, ela tinha seis anos.

Depois, Khawla saiu dali e foi até Sawda bint Zam’a, dizendo: — Que grande bem e bênção Allah lhe concedeu! Ela perguntou: — O que é? Khawla respondeu: — O Mensageiro de Allah enviou-me até você para lhe fazer uma proposta de casamento. Ela disse: — Fale disso ao meu pai. Ele era muito idoso. Khawla foi até ele, cumprimentou-o à maneira da época da ignorância e primeiro se apresentou. Depois disse: — Muhammad enviou-me para fazer uma proposta de casamento para Sawda. Ele disse: — Que excelente pretendente! Mas o que sua amiga diz? Khawla respondeu: — Ela também aprova isso. Ele chamou Sawda e perguntou-lhe qual era sua vontade. Quando ela expressou seu consentimento, ele chamou o Profeta à sua casa e celebrou o casamento com ele. Ao ouvir que sua irmã se casara com o Profeta, começou a jogar terra sobre a cabeça. Mais tarde, quando ele próprio se tornou muçulmano, dizia: — Naquela época eu era tolo por jogar terra sobre a cabeça porque minha irmã se casara com o Profeta.

A data do casamento de Aisha

Este relato não esclarece apenas que o casamento de Aisha ocorreu antes do casamento de Sawda; ele também deixa claro que, quando Aisha se casou com o Profeta no mês de Shawwal do décimo ano da missão profética, ela tinha seis anos. Pode-se perguntar: se ela tinha seis anos no mês de Shawwal do décimo ano da missão profética, então deveria ter nove anos no momento da Hégira e, segundo relatos confiáveis, deveria ter onze anos quando foi levada para a casa do marido, no mês de Shawwal do segundo ano da Hégira. Alguns sábios responderam a essa pergunta dizendo que Aisha foi levada para a casa do marido sete meses após a Hégira. Hafiz Ibn Hajar deu preferência a essa opinião. Entretanto, o Imam Nawawi, em Tahdhib al-Asma wa al-Lughat, Hafiz Ibn Kathir, em Al-Bidaya, e o erudito Qastallani, em Mawahib al-Ladunniyya, afirmaram categoricamente que isso ocorreu no segundo ano da Hégira. Hafiz Badr al-Din al-Ayni escreveu em Umdat al-Qari que Aisha foi levada para a casa do marido no mês de Shawwal do segundo ano da Hégira, depois de o Profeta retornar da batalha de Badr.

Tanto o Imam Nawawi quanto o erudito al-Ayni consideraram sem fundamento a afirmação de que isso ocorreu sete meses após a Hégira. Surge então inevitavelmente uma segunda pergunta: se ela foi levada para a casa do marido no segundo ano da Hégira, qual foi a data do casamento, considerando que tinha seis anos quando se casou e nove quando, como noiva, foi para a casa do marido? Como essas datas podem se harmonizar? A resposta encontra-se no relato de Bukhari transmitido por Urwa ibn al-Zubayr. Nele, Urwa afirma que Khadija faleceu três anos antes da Hégira. Dois anos depois, ou pouco mais tarde, o Profeta casou-se com Aisha, quando ela tinha seis anos. Depois, ela foi levada para a casa do marido aos nove anos. Assim, o cálculo se ajusta: Aisha casou-se aos seis anos, aproximadamente um ano antes da Hégira, e foi para a casa do marido no segundo ano da Hégira. Embora esse relato de Urwa seja mursàl, Hafiz Ibn Hajar afirma que, como Urwa ouviu isso diretamente de Aisha — é sabido que Urwa ibn al-Zubayr era sobrinho de Aisha; portanto, o que ele diz sobre sua tia foi ouvido dela, quer ele mencione ou não sua autoridade na transmissão, isso não faz diferença —, ele deve ser considerado do grau de muttasil.

As críticas desfavoráveis ao casamento de Aisha (ra)

Como o casamento de Hazrat Aisha (ra) foi mencionado aqui, antes de prosseguir, parece apropriado responder às críticas que são feitas ao fato de ele ter-se casado com ela, tê-la deixado viúva aos dezoito anos e, segundo o Alcorão, não lhe ter sido possível contrair um segundo casamento em nenhum outro lugar. Isso não seria, que Allah nos livre, opressão e injustiça? E o casamento de um homem tão mais velho com uma menina tão jovem não se enquadraria, que Allah nos livre, na definição de culto às paixões? Nove anos é uma idade em que se pode impor o pesado fardo da vida conjugal a uma menina?

Na realidade, esse tipo de acusação só pode ser feito quando o casamento do Profeta (sa) com Hazrat Aisha (ra) é considerado como o casamento entre um homem comum e uma jovem comum. Contudo, o Profeta (sa) era o Mensageiro de Allah, e sua responsabilidade era realizar uma revolução abrangente na vida humana e preparar a sociedade para essa revolução. Hazrat Aisha (ra) era uma jovem de qualidades extraordinárias; com base em sua imensa capacidade intelectual, ela teve de realizar, juntamente com o Profeta (sa), um trabalho tão grandioso na formação da sociedade que nenhuma mulher, incluindo todas as esposas do Profeta, realizou. Na verdade, sem qualquer exagero, pode-se dizer que nenhuma esposa de qualquer líder do mundo prestou uma ajuda e uma cooperação tão abrangentes no cumprimento das responsabilidades e deveres de seu marido quanto Hazrat Aisha (ra) prestou ao Profeta (sa). Desde sua infância, ninguém além de Allah conhecia essas capacidades que ela possuía. Por isso, o próprio Allah a escolheu para a companhia de Seu Mensageiro. No capítulo “O casamento de Aisha (ra)”, de Bukhari, consta que o Profeta (sa) disse a Hazrat Aisha (ra): “Foste-me mostrada em sonho duas vezes, e foi-me dito: ‘Esta é a tua esposa’.” Em Tirmidhi, no Abwab al-Manaqib, consta que Jibril foi até o Mensageiro de Allah (sa) trazendo a imagem de Hazrat Aisha (ra) envolta em um tecido de seda e disse: “Esta é a sua esposa neste mundo e no Além.” Portanto, a escolha dessa companheira de vida não foi do Profeta (sa), mas de Allah, o Altíssimo. E somente Allah sabia quão grande serviço seria necessário que essa jovem de apenas seis anos prestasse à formação da sociedade islâmica, depois de ser educada e instruída pelo Seu Mensageiro Purificado.

Aqueles que, a esse respeito, acusam o Profeta (sa) de ser escravo das paixões deveriam perguntar à própria consciência: poderia algum dia ser dominado pelas paixões um homem que, dos vinte e cinco aos cinquenta anos de idade, se contentou com uma única esposa, quinze anos mais velha do que ele? Um homem que, após o falecimento da primeira esposa, casou-se com uma viúva muito idosa e se contentou com ela durante quatro ou cinco anos? Se ele quisesse casar-se para satisfazer os desejos da paixão, era tão imensamente popular na sociedade que, qualquer que fosse a jovem virgem e bela com quem desejasse casar-se, seus pais estariam dispostos a apresentá-la a ele, considerando isso uma honra para si mesmos. Além disso, com exceção de uma jovem virgem, todas as demais mulheres com quem se casou eram viúvas que já haviam passado da juventude ou haviam sido abandonadas por seus maridos. Na realidade, esses críticos só conseguem imaginar a satisfação da luxúria sexual. Sua mentalidade inferior não consegue elevar-se o suficiente para compreender o objetivo da vida conjugal desse grande homem, que escolheu algumas mulheres como companheiras de vida tendo em vista a utilidade de uma obra extremamente grandiosa.

Resta agora a acusação de injustiça. Também neste caso, os críticos apenas apresentam este simples fato: um homem idoso casou-se com uma menina de nove anos, deixou-a viúva aos dezoito, quando não havia possibilidade de um segundo casamento, e ela teve de passar toda a juventude na viuvez. Essas pessoas não tentam, nem desejam, compreender que, numa obra cuja bênção pode alcançar a humanidade não por um período limitado, mas por todos os tempos, e não uma região, mas o mundo inteiro, o sacrifício das vidas e dos bens de milhões de pessoas não é considerado uma perda; contudo, o fato de a juventude de uma mulher ter sido despendida nisso é chamado de injustiça, em vez de sacrifício. E, se essa juventude foi sacrificada, foi apenas no sentido de que ela teve de ser privada dos prazeres da vida conjugal. Além disso, não conseguem apontar qualquer outro prejuízo que essa mulher de elevado nível tenha sofrido. Por outro lado, observem o imenso serviço prestado por essa grande personalidade: liberta de todas as preocupações e ocupações da vida familiar, ela passou o restante de sua vida ensinando aos homens e às mulheres o Islã, seus mandamentos, suas normas e leis, sua moralidade e sua etiqueta. Todo aquele que estudou a ciência dos hadiths sabe que, por intermédio de Hazrat Aisha (ra), chegou aos muçulmanos uma quantidade de conhecimento religioso e de conhecimento da jurisprudência islâmica que, em comparação, pouquíssimos homens — quanto mais mulheres — da época do Profeta Purificado (sa) podem ser mencionados por seus serviços intelectuais. Se Hazrat Aisha (ra) não tivesse se casado com o Profeta (sa) e não tivesse tido a oportunidade de receber dele educação e instrução, pode-se imaginar que a Ummah muçulmana teria sido privada de uma grande parte do conhecimento islâmico. Foram narrados 2.210 hadiths por intermédio de Hazrat Aisha (ra). Ela não era apenas narradora de hadiths; era também jurista, exegeta, mujtahid e mufti. Entre as mulheres muçulmanas, era unanimemente considerada a mais versada em jurisprudência. Os Companheiros mais destacados consultavam-na para conhecer questões jurídicas. Até mesmo Hazrat Umar (ra) e Hazrat Uthman (ra) recorriam a ela sobre diversas questões da Sharia. Ela estava entre os poucos sábios de Medina Purificada em quem o povo depositava plena confiança. Comparado a esses inúmeros benefícios coletivos, o pequeno prejuízo pessoal sofrido por Hazrat Aisha (ra) após ficar viúva era, em suma, quase nada. E o surpreendente é que essa acusação é levantada por eruditos cristãos que, em sua visão, a vida de celibato sem propósito, vivida pelos renunciantes sem qualquer benefício coletivo, não é apenas louvável para eles, mas também indispensável aos que prestam serviço religioso.

Depois, aqueles que criticam o fato de que Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) tenha mantido relações com o marido aos nove anos de idade não sabem que o Islã é uma religião natural e que, do ponto de vista natural, se o desenvolvimento físico de uma menina for tão bom que, nessa idade, ela possa ser considerada púbere, então manter relações com o marido é absolutamente permitido e apropriado. Somente uma lei contrária à natureza e à moralidade poderia estabelecer uma idade específica para o casamento de meninos e meninas. Isso porque essa restrição é imposta apenas às relações conjugais lícitas, e não às relações sexuais entre homens e mulheres fora do casamento. E a questão não se limita ao fato de que esses legisladores não têm objeção ao ato de fornicação antes da idade para o casamento; na prática, em sua sociedade, meninos e meninas de nove ou dez anos envolvem-se em relações sexuais e, se, como consequência, alguma menina se torna mãe solteira, toda a sua simpatia é dirigida a ela. Naquele momento, não se faz objeção nem à menina por ter se tornado mãe antes do casamento, nem ao menino que tornou uma menina mãe antes da idade para o casamento. Como podem pessoas que defendem valores morais tão degradados acusar a lei islâmica, que estabelece que o casamento de meninos e meninas que atingirem a puberdade é permitido e que nenhuma condição de idade específica pode ser imposta para isso? Estabelecer legalmente uma idade para o casamento significa precisamente que, antes de atingir essa idade, um casamento halal não pode ocorrer de modo algum, por mais disseminada que seja a prática haram, isto é, a fornicação.

A viagem a Taife

Após esta discussão pertinente e necessária para a sequência dos acontecimentos, retornamos à continuidade dos eventos. Depois de se livrar de suas questões familiares, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), segundo os relatos de Ibn Sa’d e al-Baladhuri, dirigiu-se a Taife no mês de Shawwal, no fim do décimo ano da profecia. Taife ficava a cinquenta milhas a leste de Meca. O motivo dessa viagem era que ele estava exausto da opressão e da perseguição dos coraixitas. Depois de observar sua intensa oposição e obstrução, já não havia esperança de que aquelas pessoas, muito menos aceitassem o chamado à verdade, lhe permitissem sequer prosseguir com ele. Por isso, ele queria convidar o povo de Taife ao Islã e, pelo menos, convencer a poderosa tribo dos Banu Thaqif a dar-lhe proteção ali e a ajudá-lo e apoiá-lo na obra da pregação islâmica. Ibn Sa’d, citando Jubair ibn Mut’im ibn Adi, afirma que Hazrat Zayd ibn Harithah (que Allah esteja satisfeito com ele) acompanhou o Profeta (que a paz esteja com ele) nessa viagem. Ibn Qutaybah e al-Baladhuri também disseram o mesmo. Porém, Musa ibn Uqbah e Ibn Ishaq afirmam que ele foi sozinho. Fez essa viagem a pé, pois não conseguiu obter nenhum meio de transporte. Ibn Sa’d diz que ele permaneceu ali por dez dias. Já Hafiz al-Sakhawi afirma que ele continuou encontrando-se com o povo de Taife durante até vinte dias, permanecendo dez dias após o encontro com Abd Yalil.

A grande opressão dos habitantes de Taife contra o Profeta (que a paz esteja com ele)

Ibn Ishaq, al-Waqidi e outros dizem que, naquela época, a liderança de Taife estava nas mãos dos três filhos de Amr ibn Umayr ibn Awf: Abd Yalil, Mas’ud e Habib. Na casa de um deles vivia uma mulher dos coraixitas, Sufiya bint Ma’mar al-Jumahi. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) encontrou-se com eles, convidou-os para Allah e disse-lhes: “Vim até vocês para que me ajudem na causa do Islã e me apoiem contra aqueles do meu povo que se opõem a mim.” Então, um deles disse: “Se Allah te fez Mensageiro, eu rasgaria a cortina da Caaba.” O segundo disse: “Allah não encontrou ninguém além de ti para fazer Mensageiro?” O terceiro disse: “De modo algum falarei contigo. Pois, se realmente és o Mensageiro de Allah, és muito grandioso para que eu te responda; e, se estás mentindo em nome de Allah, não és digno de que se fale contigo.” Ao ouvir isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) levantou-se. Já não restava nenhuma esperança de bondade por parte deles. Antes de partir, disse-lhes: “Fizeram o que fizeram comigo, mas ao menos façam isto: mantenham em segredo o que lhes disse.”

Ele disse isso porque temia que, se essa notícia chegasse aos coraixitas, eles ganhariam ainda mais coragem. Mas eles não fizeram isso; em vez disso, instigaram contra ele seus arruaceiros, bandidos e escravos. Eles o conduziram até um jardim e o abandonaram ali. O jardim pertencia a Utbah ibn Rabi’ah e Shaybah ibn Rabi’ah.

Segundo o relato de Ibn Sa’d, transmitido por al-Waqidi, o Profeta (que a paz esteja com ele) foi procurar cada um dos chefes e nobres dos Banu Thaqif. Porém, ninguém deu atenção às suas palavras. Pelo contrário, eles temiam que ele corrompesse os jovens. Por isso disseram: “Ó Muhammad (que a paz esteja com ele), sai da nossa cidade. E, se tens algum amigo em qualquer lugar do mundo, vai juntar-te a ele.” Depois, instigaram contra ele seus vagabundos e escravos. Eles começaram a insultá-lo e a reunir pessoas aos gritos. Musa ibn Uqbah diz que eles atiravam pedras deliberadamente contra seus tornozelos e calcanhares. Ficavam alinhados dos dois lados da estrada e, enquanto o Profeta (que a paz esteja com ele) avançava levantando os pés, lançavam pedras contra ele.

Por fim, seus sapatos ficaram cheios de sangue. Sulayman al-Taymi afirma que, quando ele se sentava devido à dor dos ferimentos, eles o agarravam e o punham de pé, para que pudessem apedrejá-lo novamente. Quando, obrigado, ele começava a caminhar, atiravam pedras contra ele e continuavam zombando e escarnecendo. Ibn Sa’d, citando o relato de al-Waqidi, diz que, nessa situação, Hazrat Zayd ibn Harithah (que Allah esteja satisfeito com ele), para protegê-lo das pedradas, recebia sobre si as pedras que eram lançadas. Por fim, sua cabeça foi aberta.

A comovente súplica do Profeta (s)

Por fim, quando o Mensageiro (s) saiu de Taife e os homens perversos que o perseguiam retornaram, ele, coberto de feridas, sentou-se à sombra de uma videira junto ao muro do jardim de Utba e Xaiba. Profundamente abalado com o ocorrido, voltou-se para o seu Senhor e fez uma súplica cujas palavras comoventes foram citadas por Tabarani em Kitabud-Du‘a e Al-Mu‘jam al-Kabir, por Ibn Hisham e Muhammad ibn Ishaq em suas obras sobre a Sira, por Tabari em sua História, por Ibn al-Qayyim em Zad al-Ma‘ad e pelo hafiz Ibn Kathir em Al-Bidaya. Ela é a seguinte:

“Ó Deus! É somente diante de Ti que me queixo da minha impotência e da falta de consideração que tenho aos olhos das pessoas. A quem me entregas? A um estranho que me tratará com severidade? Ou a um inimigo a quem concedeste poder para prevalecer sobre mim? Se não estás irado comigo, não me importo com nenhuma calamidade. Contudo, se eu obtiver segurança da Tua parte, isso será para mim muito mais agradável. Busco refúgio na luz do Teu Ser, que ilumina as trevas e põe em ordem os assuntos deste mundo e do Além. Protege-me para que a Tua ira não desça sobre mim e eu não me torne merecedor do Teu castigo. Que eu me contente com a Tua vontade e que Tu fiques satisfeito comigo. Não há poder algum senão o Teu.”

A descrição do Profeta (s) como “Misericórdia para os mundos”

Bukhari, em “Bad’ al-Khalq” e “Dhikr al-Mala’ika”, Muslim, em “Maghazi”, e Nasai, em “Ba‘th”, citam um hadith de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), no qual ela pergunta ao Mensageiro (s): “O senhor já enfrentou alguma situação mais difícil do que a batalha de Uhud?” Em resposta, ele menciona o episódio de Taife e diz: “Eu estava tão aflito que, para onde quer que olhasse, dirigia-me naquela direção” (isto é, estava perturbado, sem saber para onde ir). “Não consegui livrar-me desse estado até que, de repente, percebi que estava em um lugar chamado ‘Qarnus-Sa‘alib’ [Este lugar também é chamado ‘Qarnul-Manazil’. É o miqat dos habitantes de Najd, de onde devem vestir o ihram para visitar a Caaba. Fica a um dia e uma noite de viagem, sobre o dorso de um camelo, a partir de Meca — autor.] Olhei para cima e vi uma nuvem fazendo sombra sobre mim. Vi que nela estava o anjo Jibril (a). Ele me chamou e disse: ‘Allah ouviu tudo o que o seu povo lhe disse e a resposta que deu à sua dawah. Ele enviou este anjo das montanhas. Dê-lhe a ordem que desejar’. Então o anjo das montanhas me cumprimentou e disse: ‘Ó Muhammad! Allah ouviu o que o seu povo disse e a resposta que deu à sua dawah. Eu sou o anjo das montanhas. O seu Senhor enviou-me até você para que me dê uma ordem’.” Estas palavras constam da narração de Muslim.

Em Tabarani consta: “Dê a ordem que desejar.” As palavras de Bukhari são: “Então ele disse: ‘Ó Muhammad (s)! O senhor tem autoridade para pedir o que quiser. Se desejar, reunirei sobre eles (sobre os coraixitas) as montanhas situadas nos dois lados de Meca — Abu Qubais e Qu‘ayqi‘an — e as lançarei sobre eles.’ [O anjo pediu ao Mensageiro (s) autorização para cobrir os coraixitas com as montanhas porque a calamidade que o Mensageiro (s) havia enfrentado ocorrera justamente por causa da opressão e da hostilidade deles. Se não o tivessem perseguido excessivamente, por que ele teria precisado ir a Taife? — autor.] O Profeta (s) respondeu: ‘Não, não. Espero que Allah faça surgir, da descendência deles, pessoas que adorem e obedeçam a Allah, o Único, sem associados.”}]},{

A aceitação do Islã por Addas, o cristão

Ibn Hisham, citando a narração de Ibn Ishaq, diz que, quando o Profeta (s), coberto de feridas, estava sentado à sombra de uma videira junto ao muro do jardim de Utba ibn Rabi‘a e Xaiba ibn Rabi‘a, esses dois chefes dos coraixitas o viram naquela condição e sentiram compaixão e respeito por ele. Também é mencionado que a mulher da tribo Banu Jumah que se encontrava na casa de um dos chefes de Taife foi encontrar-se com o Mensageiro (s). Ele lhe disse: “Como os membros da família do seu sogro puderam tratar-me dessa maneira?” Utba e Xaiba mandaram chamar um escravo cristão que possuíam e disseram-lhe: “Coloque um cacho de uvas em uma grande travessa e peça-lhe que coma.” Quando ele colocou a travessa diante do Profeta, este pronunciou “Bismillah” (segundo outra narração, “Bismillahir-Rahmanir-Rahim”) e estendeu a mão para ela. Addas disse: “Por Deus, neste país não há ninguém que pronuncie estas palavras.” O Mensageiro (s) perguntou-lhe: “De onde você é e qual é a sua religião?” Ele respondeu: “Sou cristão e venho de Nínive.” O Profeta disse: “Você é da cidade do justo Yunus ibn Matta?” Ele perguntou: “Como o senhor o conhece?” [Suhayli, citando At-Taymi, disse que, depois de ouvir o nome do profeta Yunus (a) sair da boca abençoada do Mensageiro (s), Addas afirmou: “Por Deus, quando deixei Nínive, as pessoas nem sequer sabiam quem era Matta! Como, então, ele poderia conhecê-lo, se era iletrado e nascera entre um povo iletrado?” — autor.] O Mensageiro (s) disse: “Ele é meu irmão. Ele também foi profeta, e eu também sou profeta.”

Assim que ouviu isso, Addas inclinou-se para ele e começou a beijar-lhe a cabeça, as mãos e os pés.

Sulaiman at-Taymi afirma em sua obra sobre a Sira que Addas disse: “Testemunho que você é servo de Allah e Seu Mensageiro.”

Quando os dois filhos de Rabi’a viram aquela cena, um disse ao outro: “Veja, esse homem também corrompeu o seu escravo.” Quando Addas voltou, eles lhe perguntaram: “O que aconteceu com você, para começar a beijar-lhe a cabeça, as mãos e os pés?” Ele respondeu: “Meu senhor! Não há, em toda a Terra, ninguém melhor do que ele. Ele me informou de algo que ninguém além de um profeta conhece.” Eles disseram: “Ó Addas, não abandone a sua religião! A sua religião é melhor do que a dele.” (Acréscimo do autor.)

A audição do Alcorão pelos jinn

Depois de retornar de Ta’if, o Profeta (que a paz esteja com ele) permaneceu por alguns dias num lugar chamado Nakhlah. Ele estava angustiado, preocupado com a maneira de retornar a Meca. Eles já haviam tomado conhecimento de tudo o que acontecera em Ta’if. Depois disso, a coragem dos incrédulos certamente aumentaria ainda mais. Certo dia, enquanto recitava o Alcorão durante a oração, um grupo de jinn passava por aquele lugar. Eles ouviram o Alcorão e abraçaram a fé. Ao retornar, começaram a transmitir o Islam entre seu povo. Allah Ta’ala deu a Seu Profeta a boa notícia de que, embora os seres humanos estivessem fugindo de seu convite, os jinn haviam sido atraídos por ele e o estavam difundindo entre sua própria gente. [Tratava-se dos versículos 29 a 32 da Surata al-Ahqaf, nos quais Allah Ta’ala informa ao Profeta (que a paz esteja com ele) que efeito os jinn haviam recebido ao ouvir o Alcorão de sua boca — autor.] (Tafhim, volume 4 — Al-Ahqaf — Introdução.)

Hazrat Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat az-Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Hasan al-Basri, Sa’id ibn Jubair, Zir ibn Hubaish, Mujahid, Ikrimah e outros sábios relataram a vinda dos jinn. Todos concordam que esse acontecimento ocorreu no interior de Nakhlah. Ibn Ishaq, Abu Nu’aim al-Isfahani e Waqidi dizem que o fato ocorreu quando o Profeta (que a paz esteja com ele), desiludido com Ta’if, retornava em direção a Meca. No caminho, ele parou em Nakhlah. Ali, durante a oração da noite, do fajr ou do tahajjud, recitava o Alcorão. Nesse momento, um grupo de jinn passava por aquele lugar. Eles permaneceram ali para ouvir sua recitação. Além disso, todas as narrativas concordam que, nessa ocasião, os jinn não se apresentaram diante do Profeta (que a paz esteja com ele), e ele tampouco percebeu a chegada deles. Pelo contrário, mais tarde Allah Ta’ala o informou, por meio da revelação, sobre a chegada deles e sua audição do Alcorão.

O local onde esse acontecimento ocorreu era chamado de ‘Azzaimah’ ou ‘as-Sail al-Kabir’, pois esses dois lugares ficam no vale de Nakhlah. Ambos tinham água e vegetação verde e viçosa. Se os que vinham de Ta’if precisassem acampar em algum ponto do vale, poderiam permanecer em qualquer um desses dois lugares. (Tafhim, volume 4 — Al-Ahqaf — nota 33.)

A surata do Alcorão que os jinn ouviram nessa ocasião da boca do Profeta (que a paz esteja com ele) foi a Surata ar-Rahman. Al-Bazzar, Ibn Jarir e Ibn Abdillah citam essa narração de Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e dizem que, certa vez, o Profeta (que a paz esteja com ele) recitou pessoalmente a Surata ar-Rahman, ou ela foi recitada diante dele; então perguntou às pessoas: “Por que não recebo de vocês uma resposta tão bela quanto aquela que os jinn deram ao seu Senhor?” As pessoas perguntaram: “Qual foi essa resposta?” Ele disse: “Quando recitei a declaração de Allah Ta’ala

******************************************************, quando terminei de recitá-lo, os gênios responderam:

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(Não negamos nenhuma das bênçãos de nosso Senhor.) Uma narração semelhante é citada por Tirmidhi, Hakim e Hafiz Abu Bakr al-Bazzar, sob a autoridade de Jabir ibn Abdullah (que Deus esteja satisfeito com ele). Segundo essa narração, certa vez, quando as pessoas permaneceram em silêncio ao ouvir a Surata Ar-Rahman, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) disse: “Eu recitei esta surata aos gênios na noite em que eles se reuniram para ouvir o Alcorão. Eles responderam a ela de modo mais belo que vós. Quando cheguei a este mandamento: ‘Ó gênios e humanidade! Qual das bênçãos de vosso Senhor negareis?’, eles responderam:

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— Ó nosso Senhor! Não negamos nenhuma das Tuas bênçãos. Portanto, a Ti pertence todo louvor.

Embora outras narrações afirmem que, naquela ocasião, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) não sabia que os gênios estavam ouvindo o Alcorão de sua boca, e que Allah, o Altíssimo, informou-o disso (Surata Al-Ahqaf, versículos 29–32), não seria descabido supor que, assim como Allah, o Altíssimo, informou o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) de que os gênios haviam escutado a recitação do Alcorão, também lhe informou o que eles haviam respondido ao ouvirem a Surata Ar-Rahman.

Como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) entrou em Meca após seu retorno

Ibn Sa’d, citando uma narração de Waqidi, diz que, quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) desejou ir de Nakhlah para Meca, Zayd ibn Harithah (que Deus esteja satisfeito com ele) perguntou: “Como entrará lá, se eles o expulsaram?” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) respondeu: “Ó Zayd! Allah encontrará uma saída para nos livrar da situação que vês. Ele é o apoiador e ajudante de Sua religião, e concede vitória ao Seu Profeta.” Waqidi resume os acontecimentos seguintes, mas Ibn Ishaq os relata em detalhes. Ele diz que, ao chegar a Hira, o Profeta enviou Abdullah ibn al-Urayqit a Akhnas ibn Shurayq [Este homem era politeísta, mas o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) e Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) consideravam-no digno de confiança. Por isso, durante a situação extremamente perigosa da Hégira para Medina, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) levou-o consigo para servir de guia. Ele cumpriu esse serviço com total fidelidade, embora pudesse ter obtido uma grande recompensa informando os coraixitas — Autor.] para pedir que este lhe concedesse proteção. Ele respondeu: “Estou vinculado por um pacto de amizade.” [Este homem pertencia, na realidade, à tribo de Banu Thaqif. Entretanto, em Meca mantinha relações amistosas com os Banu Zuhrah, parentes do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) pelo lado materno. Graças à sua capacidade, alcançou entre os Banu Zuhrah a posição honrosa de chefe — Autor.] Uma pessoa vinculada por um pacto não podia oferecer proteção contra as principais tribos dos coraixitas. Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) enviou Ibn al-Urayqit a Suhayl ibn Amr, que respondeu: “Os Banu Amir ibn Lu’ayy não podem conceder proteção contra os Banu Ka’b.” Depois, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) enviou-o a Mut’im ibn Adi, que pertencia aos Banu Nawfal, um ramo dos Banu Abd Manaf. Al-Urayqit foi até ele e disse: “Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) pergunta se estás disposto a conceder-lhe proteção, para que ele possa transmitir a mensagem de seu Senhor.” Ele respondeu: “Está bem; diga-lhe que venha a Meca.” Assim, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) entrou na cidade e passou a noite na casa de Mut’im. Pela manhã, Mut’im e seis ou sete de seus filhos, armados, acompanharam o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) até o Santuário e disseram-lhe: “Faze a circunambulação.” Durante a circunambulação, todos permaneceram de pé, protegendo-o. Abu Sufyan (segundo at-Tabarani, Abu Jahl) perguntou: “Sois seus protetores ou seus seguidores?” Mut’im respondeu: “Não, somos apenas seus protetores.” Ele disse: “Não se pode violar a vossa proteção. Aquele a quem concedestes proteção, nós também protegemos.” (Adição do autor.)

Foi essa benevolência de Mut‘im bin ‘Adi que serviu de base para o que o Profeta (S) disse a respeito dos prisioneiros da batalha de Badr:

*******************************************

Isto é: se Mut‘im bin ‘Adi estivesse vivo e falasse comigo sobre essas pessoas desprezíveis, eu as libertaria por consideração a ele. (Tafhim, volume 5, surata Muhammad, introdução.)

Décimo primeiro capítulo

A essência do Isra e do Mi‘raj

Antes de narrar a história dos três últimos anos da vida de Meca do Profeta Mustafa (S), considero apropriado apresentar um relato detalhado do acontecimento mais importante daquele período. Ele parecia adornar o caráter e a vida do Santo Profeta como uma brilhante coroa. Trata-se de uma coroa que não conseguiu iluminar a vida de nenhuma outra personalidade da história humana, incluindo os profetas. Esse acontecimento é o Isra e o Mi‘raj. Isra significa levar o Profeta, durante a noite, da Mesquita Sagrada até a Mesquita de Aqsa (Baitul Maqdis). Isso é mencionado no início da surata Bani Isra’il do Alcorão. Mi‘raj significa a ascensão do Santo Profeta (S) de Baitul Maqdis até Sidratul Muntaha. O relato completo encontra-se nos hadiths. Raramente também se afirma que os acontecimentos do Isra e do Mi‘raj ocorreram em momentos distintos. Entretanto, um grande número de sábios dos ulama da comunidade, dos juristas, dos muhaddiths e dos teólogos concorda que ambos ocorreram ao mesmo tempo. Na mesma noite, o Profeta Mustafa foi levado fisicamente, isto é, com corpo e alma, em estado de vigília, da Mesquita Sagrada até Baitul Maqdis. Naquela mesma noite, ele atravessou os níveis mais elevados do mundo celestial e chegou à presença do Senhor da Glória. E antes do amanhecer, retornou a Meca.

A data do Mi‘raj

Há divergência quanto à data em que esse acontecimento ocorreu. Ibn Sa‘d, citando a narração de Waqidi, afirma que ele ocorreu no dia 17 de Ramadã, doze anos após o início da profecia, isto é, dezoito meses antes da Hégira. Aqui é necessário esclarecer expressamente que a cronologia que estabelecemos para o período posterior ao início da profecia, antes da Hégira para Medina, baseia-se no hadith narrado por Bukhari e Muslim sob a autoridade de Hazrat Abdullah bin Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele). Ele afirma que, quando a revelação foi enviada ao Profeta (S), ele tinha quarenta anos. Depois, passou treze anos em Meca e dez anos em Medina. Com base nessa narração, entendemos que a Hégira ocorreu após treze anos do início da profecia — o autor. Em outra cadeia de transmissão, o próprio Ibn Sa‘d menciona que esse acontecimento ocorreu no dia 17 de Rabi‘ al-Awwal, treze anos após o início da profecia, isto é, um ano antes da Hégira. Bayhaqi, citando Musa bin ‘Uqba, que por sua vez cita o Imam Zuhri, também menciona essa como a data do Mi‘raj. A narração de ‘Urwa bin Zubair diz o mesmo. Ibn Lahia a transmitiu citando Abu al-Aswad. Com base nisso, o Imam Nawawi declarou que essa era a data correta do Mi‘raj. Ibn Hazm afirmou haver consenso sobre isso, embora tal afirmação não seja correta. Há duas opiniões atribuídas a Isma‘il al-Suddi. Na narração que Tabari e Bayhaqi transmitiram dele, o Mi‘raj é situado no mês de Shawwal do décimo segundo ano da profecia, um ano e cinco meses antes da Hégira. Segundo a narção de Hashim, o acontecimento ocorreu um ano e quatro meses antes da Hégira e, nessa perspectiva, é situado no mês de Dhu al-Qa‘dah. Ibn Abd al-Barr e Qutayba afirmam que ele ocorreu um ano e oito meses antes da Hégira, no mês de Rajab do décimo segundo ano da profecia. Ibn Faris o situa um ano e três meses antes da Hégira; Ibn al-Jawzi, oito meses antes; e Abu al-Rabi‘ bin Malik, seis meses antes. Há também uma opinião que o situa onze meses antes. Ibn al-Munir, em seu comentário à Sira de Ibn Abd al-Barr, deu preferência a essa opinião. Ibrahim bin Ishaq al-Harbi afirmou com certeza que essa é a data correta do Mi‘raj. Contudo, tornou-se célebre a opinião de que o Mi‘raj ocorreu no dia 27 de Rajab. Allama Zurqani afirma: quando não há provas e evidências suficientes para preferir uma opinião a outra, é melhor aceitar a opinião mais célebre.

Contexto histórico:

Este acontecimento ocorreu numa determinada etapa do movimento islâmico, quando já haviam transcorrido cerca de doze anos desde que o Profeta (s) elevou a voz do tawhid. Os opositores haviam empregado todos os esforços para bloquear seu caminho. Apesar de sua oposição, porém, a voz do Profeta chegou a cada lar da Arábia. Não havia tribo árabe em que pelo menos duas ou quatro pessoas não tivessem sido influenciadas por seu convite. Na própria Meca, formara-se um pequeno grupo de pessoas sinceras, prontas a correr qualquer risco na vida pelo êxito desse convite à verdade. Em Medina, um grande número de pessoas das poderosas tribos de Aws e Khazraj havia se tornado auxiliar e colaborador do Profeta. Aproximava-se então o momento em que surgiria a oportunidade de reunir num só lugar os muçulmanos que haviam migrado de Meca para Medina e se espalhado por diferentes regiões, estabelecendo um Estado baseado nos ideais e princípios do Islã. Foi em tal situação que ocorreu o Mi‘raj; e, ao retornar do Mi‘raj, o Profeta (s) transmitiu às pessoas a mensagem que está contida na Surata Bani Isra’il.

Breve relato do acontecimento

No primeiro versículo da Surata Bani Isra’il, menciona-se apenas que o Profeta (s) foi levado da Mesquita Sagrada (Baitullah) até a Mesquita de Aqsa (Baitul Maqdis). É dito que Allah, o Altíssimo, desejava mostrar a Seu servo alguns de Seus sinais. Nada mais detalhado é dito no Alcorão. Contudo, nos livros de hadith e de Sira, há relatos detalhados desse acontecimento transmitidos por numerosos companheiros, cujo número chega a vinte e cinco e, após pesquisa e investigação, até a quarenta e cinco. Entre eles, os relatos mais detalhados foram transmitidos por Hazrat Anas bin Malik (r), Hazrat Abu Huraira (r), Hazrat Abu Sa‘id Khudri (r), Hazrat Malik (r), Hazrat Malik bin Sa‘sa‘a (r), Hazrat Abu Dharr Ghifari (r), Hazrat Shaddad bin Aws (r), Hazrat Abdullah bin Abbas (r), Hazrat Abdullah bin Mas‘ud (r) e Hazrat Umm Hani (r).

O resumo do relato detalhado encontrado nos hadiths é o seguinte: durante a noite, Jibril (a) despertou o Profeta (s) e o levou montado no Buraq da Mesquita Sagrada até a Mesquita de Aqsa. Ali, em Baitul Maqdis, o Profeta (s) realizou a oração com os profetas, que a paz esteja sobre todos eles. Depois, Jibril (a) o conduziu aos mundos superiores. Em diferentes céus, ele encontrou diferentes profetas. Por fim, após alcançar uma altura extremamente elevada, apresentou-se diante de seu Senhor. Durante essa apresentação, além de outras orientações importantes, as cinco orações diárias foram impostas a ele como obrigação. Em seguida, retornou a Baitul Maqdis e dali voltou à Mesquita Sagrada. Muitos hadiths informam também que lhe foram mostrados o Paraíso e o Inferno. Além disso, relatos confiáveis informam que, no dia seguinte, quando ele mencionou esse acontecimento diante das pessoas, os incrédulos de Meca zombaram e escarneceram intensamente, e a fé de alguns muçulmanos ficou abalada.

Esse relato adicional dos hadiths não é contrário ao Alcorão; trata-se, antes, de algo acrescentado à narrativa corânica. É evidente que não se pode rejeitar um relato adicional alegando que ele é contrário ao Alcorão.

O Mi‘raj foi físico ou espiritual?

Como foi essa viagem do Mi‘raj? Aconteceu em sonho ou em estado de vigília? O Profeta (s) foi pessoalmente, ou permaneceu em seu lugar e tudo lhe foi mostrado espiritualmente? As respostas a todas essas perguntas podem ser encontradas nas próprias palavras do Alcorão.

O início da narração a partir de *********************************** indica precisamente que se tratava de um acontecimento extraordinário e miraculoso, ocorrido pelo infinito poder e pela onipotência de Allah. É certo que ver algo em sonho, ou vê-lo por meio de kashf, não possui uma importância tal que exigisse essa introdução para ser relatado. Assim como Aquele que está acima de toda falha, deficiência e incapacidade foi Quem mostrou Seu servo em sonho ou lhe mostrou tudo isso por meio de kashf. Além disso, estas palavras — “Numa única noite, Ele levou Seu servo” — indicam uma viagem física. De modo algum as palavras “levar” são apropriadas para uma viagem em sonho ou para uma viagem realizada por meio de kashf. Portanto, não temos alternativa senão aceitar que não se tratou de uma mera observação espiritual isolada, mas de uma viagem física e de uma observação ocular que Allah mostrou ao Profeta (s).

Ora, se pela onipotência de Allah foi possível ir e voltar de Meca a Bayt al-Maqdis numa única noite, sem avião, por que deveriam ser rejeitados como impossíveis os demais detalhes relatados no hadith? O debate sobre o possível e o impossível só pode surgir quando se trata de uma criatura realizar algo por sua própria capacidade. Mas, quando se diz que Deus realizou determinada ação, a questão da possibilidade só pode ser levantada por alguém que não tem fé no poder de Deus. Allah pode levar quem quiser, num instante, a um lugar ao qual a luz, o objeto mais veloz do mundo material, precisaria de bilhões de anos-luz para chegar. As limitações e restrições de tempo e espaço foram criadas para as criaturas, não para o Criador do universo.

Objeções e acusações dos que rejeitam o hadith

A respeito do relato detalhado da viagem do Mi’raj transmitido no hadith, os que rejeitam o hadith levantaram diversas objeções e acusações. Contudo, entre todas elas, há apenas duas que podem ser consideradas minimamente relevantes.

Primeira: disso decorreria necessariamente que Allah está localizado em algum lugar específico. Caso contrário, que necessidade haveria de fazê-lo viajar e levá-lo a um lugar determinado para que o servo estivesse diante dEle?

Segunda: como foi mostrado ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o Inferno e o Paraíso, bem como cenas de algumas pessoas sendo submetidas ao castigo, quando ainda não havia sido proferida a decisão final a respeito dos servos? Como se pode dizer que a decisão sobre castigo ou recompensa só deveria ocorrer depois do advento da Ressurreição, mas que algumas pessoas já haviam sido castigadas antecipadamente?

Na realidade, essas duas acusações são o resultado de um pensamento falho. A primeira acusação é equivocada porque o Criador, em Sua própria essência, possui sem dúvida o poder infinito. Porém, ao lidar com a criação, Ele adota meios limitados não por alguma fraqueza Sua, mas por causa da fraqueza da criação. Por exemplo, quando fala com a criação, emprega a forma limitada de comunicação que um ser humano pode ouvir e compreender. Na verdade, a palavra de Allah possui sua própria majestade soberana. Da mesma forma, quando deseja mostrar a Seu servo os grandiosos e magníficos sinais de Seu reino, Ele o leva até eles e, no local onde algo deve ser mostrado, mostra-o da maneira como Deus o vê. Para observar qualquer coisa, Deus não precisa ir a lugar algum, mas o servo precisa. O mesmo se aplica à apresentação diante do Criador. O próprio Criador não está situado em lugar algum. Contudo, o servo depende de um lugar para encontrar-se com Ele, um lugar onde a manifestação de Allah seja concentrada para ele. De outro modo, para um servo de poder limitado, encontrar-se com Ele em Sua majestade soberana seria impossível.

Quanto à segunda acusação, ela também é equivocada porque, durante o Mi’raj, foram mostradas ao Profeta muitas coisas. Algumas realidades foram apresentadas sob a forma de metáforas. Por exemplo, como representação de algo causador de fitna, viu-se um touro corpulento saindo por uma pequena fenda ou abertura e depois incapaz de voltar para dentro dela. Como representação dos adúlteros, viu-se alguém que, embora tivesse diante de si carne fresca e bela, a deixava de lado e comia carne apodrecida. Assim, os castigos pelos atos imorais que lhe foram mostrados eram uma visão antecipada, em forma metafórica, do castigo da Vida Futura.

A verdadeira questão que se deve compreender acerca do Mi‘raj é que Deus Altíssimo fez cada um dos profetas — que a paz esteja com eles — observar, de acordo com sua posição, o sistema de governo dos céus e da terra. Ao levantar a cortina material, foram-lhes mostradas diretamente aquelas realidades que lhes havia sido ordenado proclamar como objeto de fé, mesmo sem serem vistas, para que sua posição se distinguisse da de um filósofo. Tudo o que o filósofo diz, diz com base em estimativas e conjecturas. Se ele estiver consciente de sua própria condição, jamais testemunhará a veracidade de qualquer de suas opiniões. Os profetas, porém, tudo o que dizem, dizem com base em prova direta e observação. Eles podem dar este testemunho diante da criação: “Sabemos tudo isso, e tudo isso são realidades que vimos com nossos próprios olhos”. (Tafhim al-Qur’an, Bani Isra’il, introdução e nota 1.)

Análise dos argumentos daqueles que classificam o Mi‘raj como um sonho

Para classificar este acontecimento como um sonho, foram apresentados dois argumentos. O primeiro é que, no versículo 60 da surata Bani Isra’il, foi usada para ele a palavra ru’ya. O segundo é que foi narrada no hadith a seguinte declaração de Hazrat Aisha — que Deus esteja satisfeito com ela —:

*****************************************

O corpo abençoado do Profeta — que a paz esteja com ele — não saiu de seu lugar; o que foi levado foi seu espírito.

Quanto ao primeiro desses dois argumentos, o próprio Alcorão o rejeita. Vejamos a frase completa em que a palavra ru’ya foi usada em referência ao Mi‘raj.

************************************

E deixamos aquela ru’ya que te mostramos como uma provação para as pessoas.

Se nesta frase a palavra ***** for entendida no sentido de sonho, que motivo poderia haver para que isso fosse uma provação para as pessoas? Durante um sonho, uma pessoa pode ver todo tipo de coisa. Se o Mensageiro de Allah (S) tivesse dito diante do povo: “Na noite passada sonhei que fui de Meca a Bayt al-Maqdis”, nenhum muçulmano teria caído em apostasia por causa disso, e nenhum incrédulo teria zombado desse fato. Tampouco alguém perguntaria: “Dê provas de que sua viagem foi verdadeira.” Isso só poderia ser uma provação se o Profeta (S) dissesse ao povo que esse acontecimento havia ocorrido enquanto estava acordado e também afirmasse que sua viagem não fora espiritual, mas, ao contrário, corporal.

Além disso, também não é correto afirmar que, na língua árabe, a palavra ******* seja usada exclusivamente para sonho. Na realidade, no dicionário árabe, ***** e ***** têm o mesmo significado e são usados um no lugar do outro. Por exemplo, ********* e ********. Ao comentar este versículo do Alcorão, Hazrat Abdullah ibn Abbas (r.a.), considerado uma grande autoridade na língua árabe, disse:

*********************************************

Tratava-se de uma visão clara que foi mostrada ao Profeta (S) naquela noite, quando ele foi levado a Bayt al-Maqdis. Na narração da declaração de Ibn Abbas (r.a.) citada por Sa’id ibn Mansur, há ainda estas palavras: “*********** e não era ***** (ru’ya), semelhante a um sonho.”

Em outra cadeia de transmissão, Ibn Mansur narrou esta declaração de Ibn Abbas (r.a.):

***************************************

Com isso se pretende indicar a observação que foi proporcionada ao Profeta no caminho para Bayt al-Maqdis.

Resta agora a declaração de Hazrat Aisha (r.a.). Do ponto de vista da cadeia de transmissão, ela é extremamente fraca. Muhammad ibn Ishaq a narrou nestes termos: “Algumas pessoas da família de Abu Bakr disseram a alguém que Hazrat Aisha (r.a.) costumava dizer isso.” Como se pode provar, por meio de uma cadeia de transmissão desconhecida como essa, que aquilo que é atribuído a Hazrat Aisha (r.a.) era de fato uma declaração sua? Além disso, em oposição a essa narração fraca, os livros confiáveis de hadith registram, por meio de numerosas cadeias autênticas, o relato da viagem de Isra e Mi’raj narrado pelo próprio Profeta (S). Essas narrações foram transmitidas por Hazrat Anas (r.a.), Hazrat Malik ibn Sa’sa’a (r.a.), Hazrat Abu Hurayra (r.a.), Hazrat Abu Sa’id al-Khudri (r.a.), Hazrat Abu Dharr al-Ghifari (r.a.), Hazrat Shaddad ibn Aws (r.a.) e outros nobres Companheiros. Como se pode rejeitar tudo isso? E que explicação pode ser dada para a narração de Hazrat Aisha (r.a.) que al-Bayhaqi transmitiu com uma cadeia de transmissão totalmente contínua: ao amanhecer, depois da noite de Isra, o Profeta (S) contava ao povo o acontecimento da noite, e muitos daqueles que, depois de abraçarem a fé, haviam reconhecido a profecia do Profeta tornaram-se apóstatas. Então foram até Hazrat Abu Bakr (r.a.) levando essa notícia e disseram: “Verifique um pouco o que aconteceu com seu amigo. Ele afirma que, na noite passada, foi levado a Bayt al-Maqdis.”

Abu Bakr perguntou: “Ele realmente disse isso?” Eles responderam: “Sim.” Abu Bakr disse: “Se ele disse isso, então certamente disse a verdade.” Eles perguntaram: “Você acredita que ele foi a Bayt al-Maqdis na mesma noite e também retornou antes do amanhecer?” Abu Bakr respondeu: “Eu ouço dele notícias do céu de manhã e à noite e reconheço sua veracidade.”

Pode alguém aceitar que a afirmação atribuída a Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), por meio de uma cadeia de transmissão desconhecida — de que o corpo do Mensageiro permaneceu em seu lugar e somente o espírito foi levado — tenha sido realmente uma declaração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela)? (Acréscimo do autor.)

O verdadeiro significado do Mi’raj

O acontecimento do Mi’raj foi um dos maiores acontecimentos da história da humanidade; ele mudou o curso do tempo e deixou uma marca permanente na história. A verdadeira importância do Mi’raj não está em como ele ocorreu, mas em seu propósito e em seus resultados.

A verdade é que o mundo em que vivemos é apenas uma província minúscula do vastíssimo e grandioso império de Allah, o Altíssimo. A dignidade de todo profeta enviado por Deus a essa província era, em certa medida, semelhante à dos governadores ou vice-reis que os governos do mundo enviam aos países sob seu domínio. Em um aspecto, há uma grande diferença entre os dois. Os governadores e vice-reis nomeados pelos governos ou governantes terrenos são designados apenas para administrar o país. Já os governadores e vice-reis do Soberano do universo são nomeados para ensinar às pessoas os princípios da verdadeira civilização, do caráter puro e do conhecimento e das ações corretos — princípios que permanecem como faróis na estrada da vida humana e mostram o caminho reto ao longo dos séculos. Apesar disso, também se pode encontrar uma semelhança entre os dois. Os Estados terrenos confiam a responsabilidade de governador àqueles que são dignos de confiança. Quando os nomeiam para esse cargo, informam-lhes como funciona a administração interna do Estado e sobre que política ela se baseia. Também lhes revelam informações secretas que não são divulgadas ao povo em geral. A situação no império de Deus é semelhante. Ali também a responsabilidade da profecia, ou da missão profética, é confiada àqueles que são os mais fiéis e dignos de confiança. Depois de nomeá-los para esse cargo, Allah, o Altíssimo, faz com que observem pessoalmente a administração interna de todo o Seu império. Ele lhes revela os mistérios e conhecimentos ocultos da criação que não são divulgados às pessoas comuns. Assim, fez Ibrahim (que a paz esteja com ele) observar a administração interna dos céus e da terra (Surata al-An’am, versículo 75). Também lhe mostrou como Deus dá vida aos mortos (Surata al-Baqara, versículo 260). A Musa (que a paz esteja com ele) foi mostrada a manifestação de Allah no monte Tur (Surata al-A’raf, versículo 143). Ele o fez viajar por algum tempo com um servo distinto, para que pudesse ver e compreender como, pela vontade de Allah, funciona a administração do mundo (Surata al-Kahf, versículos 60–82). O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) também recebeu experiências concretas desse tipo. Às vezes, ele via claramente no mundo superior o anjo que havia alcançado a proximidade de Deus (Surata at-Takwir, versículo 23). Em outras ocasiões, esse anjo se aproximava tanto dele que entre os dois restava uma distância equivalente a dois arcos, ou ainda menor (Surata an-Najm, versículos 6–9). E, às vezes, ele via esse anjo junto ao Sidrat al-Muntaha, isto é, no limite extremo do mundo material, e ali contemplava os grandiosos e magníficos sinais de Deus (Surata an-Najm, versículos 13–18). Contudo, o Mi’raj não se limitou simplesmente à observação e à experiência; foi algo de dignidade ainda mais elevada. Imaginem algo semelhante ao seguinte: um governante dotado da mais alta autoridade convoca diretamente à capital um administrador subordinado por ele nomeado, confia-lhe uma tarefa especial em um assunto importante e também lhe dá as instruções políticas necessárias. Do mesmo modo, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) foi convocado à presença de Allah. Pois a mudança decisiva na direção do movimento islâmico estava muito próxima. Diante dessa situação, era desejável que ele recebesse uma orientação especial. (Discurso radiofônico de 20 de agosto de 1941, abreviado.)

Relato da viagem do Mi’raj

Primeiro apresentaremos um resumo dos hadiths nos quais é relatado o extraordinário relato da viagem do Mi’raj. Depois diremos que mensagem o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) transmitiu aos habitantes do mundo ao retornar do Mi’raj.

Haviam se passado cerca de doze anos desde que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) recebera a missão profética. Ele tinha cinquenta e dois anos. Estava deitado no recinto da Caaba. De repente, o anjo Jibril veio e o despertou. Em estado meio adormecido e meio desperto, levantou-o e levou-o para perto do poço de Zamzam. Abriu-lhe o peito, lavou-o com água de Zamzam e depois o encheu de tolerância, sabedoria, fé e certeza. [Relatos de Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Malik ibn Sa’sa’a, entre outros, registrados por Bukhari, Muslim, Musnad Ahmad, Ibn Jarir, Bayhaqi, Hafiz Ibn Abi Hatim, Tabarani e Bazzar. Algumas outras narrações dizem que o Isra começou na casa de Umm Hani (que Allah esteja satisfeito com ela), prima do Mensageiro e filha de Abu Talib. Ele havia rezado ali a oração de Isha e adormecido. Ibn Jarir, Abu Ya’la e Tabarani transmitiram esse relato da própria Umm Hani (que Allah esteja satisfeito com ela), enquanto Bayhaqi o transmitiu de Hazrat Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Nas Tabaqat de Ibn Sa’d, encontra-se o relato de Waqidi de que o Isra começou no desfiladeiro de Abu Talib. Em Bukhari e Muslim, por meio de Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele), e no Musnad Ahmad, por meio de Hazrat Ubayy ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ele), é relatado que Jibril (que a paz esteja com ele) entrou na casa atravessando o teto e levou o Profeta. Na realidade, não há contradição entre esses relatos. A casa de Umm Hani ficava no desfiladeiro de Abu Talib. Jibril desceu à casa atravessando o teto e, enquanto o Profeta dormia, levou-o à Mesquita Sagrada. O que aconteceu depois, em estado meio adormecido e meio desperto, foi mencionado acima. — Autor.]

Então, para a viagem, Jibril (que a paz esteja com ele) apresentou um animal. Sua cor era branca; sua estatura era um pouco maior que a de um jumento e menor que a de uma mula. Ele se movia à velocidade do relâmpago. Cada passo que dava alcançava o limite extremo da visão. Por isso, seu nome era Buraq. [Todas as narrações dos hadith sobre o Buraq e suas características são unanimemente aceitas — o autor.] Os profetas anteriores também utilizavam montarias desse tipo em viagens semelhantes. [Ibn Jarir, Bayhaqi, em seu Dalā’il, Ibn Abi Hatim, Ibn Ishaq, Ibn Mardawayh, Nasai, Maghazi de Ibn A’idh e Suyuti, em Rawd al-Unuf, escreveram que o profeta Ibrahim (que Allah esteja satisfeito com ele) foi a Meca montado no Buraq, levando Hajar e seu filho lactente, Ismail (que a paz esteja com ele). Contudo, não indicaram a fonte dessa narração — o autor.] Quando o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) ia montar nele, o animal se agitou. Jibril (que a paz esteja com ele) deu-lhe uma leve palmada no corpo e disse: “Veja o que você está fazendo! Até hoje, ninguém maior que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) montou sobre você.” Ao ouvir isso, ele começou a suar de vergonha. [Musnad Ahmad, Tirmidhi, Ibn Hibban, Ibn Jarir, Ibn Ishaq, Ibn Sa‘d — o autor.]

Então o Santo Profeta montou nele, e Jibril o acompanhou. [Nas narrações citadas por Ibn Jarir, Bayhaqi, Nasai, Ibn Hisham, Ibn Abi Hatim, Tabarani, Bazzar e Ibn Sa‘d, consta que Jibril (que a paz esteja com ele) esteve sempre com o Profeta durante essa viagem. Na narração de ‘Abd al-Rahman ibn Abi Layla, transmitida por Tabarani, consta que Jibril colocou o Profeta à sua frente sobre o Buraq. Abu Ya‘la e Ibn Hibban citam uma narração de ‘Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) segundo a qual Jibril ia à frente e colocou o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) atrás de si. Em Tirmidhi, Nasai e Musnad Ahmad, há uma narração de Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) segundo a qual o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e Jibril (que a paz esteja com ele) montaram juntos no Buraq, mas não se menciona quem estava à frente e quem estava atrás — o autor.] A primeira parada foi Medina, onde o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) desceu e realizou a oração. Jibril (que a paz esteja com ele) disse: “Aqui você virá para fazer a Hégira.” A segunda parada foi o Monte Sinai, onde Allah falou com Moisés (que a paz esteja com ele); a terceira foi Belém, onde Jesus (que a paz esteja com ele) nasceu. A quarta parada foi Bayt al-Maqdis, onde terminou a viagem do Buraq. [A narração de Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), em Nasai, e a de Shaddad ibn Aws (que Allah esteja satisfeito com ele), em Bayhaqi, são um pouco diferentes. Nelas, em vez do Monte Sinai, menciona-se que o Profeta rezou junto à árvore de Madiã, sob a qual Moisés (que a paz esteja com ele) se sentou depois de dar água aos animais de duas mulheres — o autor.]

Várias forças desviadas e desviadoras

Em certo ponto dessa viagem, alguém gritou: “Venha por aqui.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não lançou sequer um olhar naquela direção. Jibril (que a paz esteja com ele) disse: “Este está chamando para o judaísmo.” De outra direção veio uma voz: “Venha por aqui.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também não olhou para aquele lado. Jibril (que a paz esteja com ele) disse: “Este é um convocador ao cristianismo.” Depois, apareceu uma mulher com grande beleza, adornos e esplendor. Ela também chamou o Santo Profeta para junto de si. Ele desviou o rosto daquela direção. Jibril (que a paz esteja com ele) disse: “Esta é a vida mundana.” Então surgiu diante deles uma velha. Jibril (que a paz esteja com ele) disse: “Estime o tempo de vida restante do mundo pelo tempo de vida restante dessa velha.” Depois encontraram outro homem, que tentou atrair o Profeta para si. Mas ele também foi deixado para trás, e o Profeta prosseguiu. Jibril (que a paz esteja com ele) disse: “Este era Satanás, que queria desviá-lo do caminho.” [Várias partes desses acontecimentos estão reunidas em diferentes livros de hadith e de sira. Bayhaqi (Dalā’il), Tabarani (al-Awsat), Ibn Jabir, Ibn Hatim, Ibn Ishaq e Ibn Mardawayh — o autor.]

A oração em Bayt al-Maqdis

Ao chegar a Bayt al-Maqdis, o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) desceu do Buraq. O Buraq foi amarrado justamente no local onde os outros profetas costumavam amarrá-lo. [Musnad Ahmad, Muslim, Ibn Jarir, Bayhaqi, Ibn Abi Hatim, Ibn Ishaq, Ibn Sa‘d e Ibn Mardawayh. Algumas outras narrações também dizem que Jibril (que a paz esteja com ele) perfurou uma pedra com o toque de seu dedo e amarrou o Buraq nesse orifício (Tirmidhi, Hatim e Ibn Abi Hatim).] Quando entrou no Templo de Salomão — que, embora já estivesse destruído naquela época, ainda existia no local, onde o imperador Justiniano havia construído uma igreja —, viu todos os profetas que haviam nascido no mundo desde o início da humanidade até aquele momento. Assim que ele chegou, as fileiras para a oração se formaram, e todos ficaram esperando para ver quem conduziria a oração. Jibril (que a paz esteja com ele) segurou sua mão, levou-o à frente, e todos realizaram a oração atrás dele. [Ibn Jarir, Bayhaqi, Tabarani, Nasai, Ibn Abi Hatim, Musnad Ahmad e Ibn Sa‘d.]

Depois, três recipientes para bebidas foram colocados diante dele. Um continha água, o segundo leite e o terceiro vinho. Ele tomou o recipiente de leite e bebeu. Jibril (que a paz esteja com ele) felicitou-o, dizendo: “Você escolheu o caminho da natureza primordial.” [A narração de Tabarani, transmitida por Suhayb (que Allah esteja satisfeito com ele), as de Ibn Jarir, transmitidas por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele), e as de Ibn Ishaq, transmitidas por diversos sábios, são aquelas que citamos acima. Contudo, há muitas divergências entre as narrações sobre esse assunto. Nas narrações citadas por Ibn Jarir, Bayhaqi e Ibn Abi Hatim, transmitidas por Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele), mencionam-se duas taças: uma com água e outra com vinho. Na narração de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), em Musnad Ahmad e Muslim; na de Abu Hurayra, em Bukhari; e na de Sa‘id ibn al-Musayyib (que Allah esteja satisfeito com ele), em Bayhaqi, mencionam-se dois recipientes: um com leite e outro com vinho. Nas narrações de Shaddad ibn Aws, em Bayhaqi, Ibn Hatim, Bazzar e Tabarani, também se mencionam dois recipientes, mas um continha leite e o outro mel. Por outro lado, a narração de Malik ibn Sa‘sa‘a (que Allah esteja satisfeito com ele), em Musnad Ahmad, Bukhari e Muslim, diz que, perto de Sidrat al-Muntaha ou de Bayt al-Ma‘mur, foram apresentados ao Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) três recipientes: um com vinho, o segundo com leite e o terceiro com mel. Todas as narrações, porém, concordam que o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) escolheu o recipiente de leite — o autor.]

Em seguida, foi apresentada diante dele uma escada. Com a ajuda dela, Jibril (que a paz esteja com ele) conduziu-o em direção aos céus. Em árabe, escada se diz mi‘raj. Por isso, todo esse acontecimento é chamado de Mi‘raj. [Ibn Jarir, Bayhaqi, Ibn Abi Hatim, Ibn Ishaq e Ibn Mardawayh transmitiram essa narração de Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Hatim, contudo, cita uma narração de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) segundo a qual Jibril segurou a mão do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e subiu com ele em direção aos céus — o autor.]

no primeiro céu

Quando eles subiram ao primeiro céu, a porta do céu estava fechada.

O anjo guardião da porta perguntou: «Quem chegou?»

Hazrat Jibril (A) disse o próprio nome.

O anjo perguntou: «Quem está com você?»

Jibril — Muhammad (S).

O anjo — Ele foi chamado?

Jibril — Sim, foi.

Então a porta se abriu e o Venerável Profeta (S) foi calorosamente recebido. [É consenso quanto ao Mi‘raj que, ao entrar em cada céu, Jibril (A) era interrogado dessa maneira. Depois de se confirmar que o visitante era Jibril (A), que Muhammad (S) estava com ele e que ele havia sido convocado, a porta foi aberta e o Venerável Profeta foi recebido — autor.] Aqui, o Santo Profeta (S) foi apresentado às grandes personalidades entre os anjos e as almas humanas que se encontravam nesse nível. Entre elas havia uma personalidade venerável que era um modelo perfeito da forma humana. Não havia qualquer defeito ou imperfeição na constituição de seu rosto e de seu corpo. Jibril (A) disse: “Este é Adão (A), seu pai primordial.”

À direita e à esquerda desse venerável havia muitas pessoas. Quando ele olhava para a direita, alegrava-se; quando olhava para a esquerda, chorava. Perguntou-se: “O que está acontecendo?”

Foi dito: “Todos estes são descendentes de Adão. Adão alegrava-se ao ver seus descendentes virtuosos e chorava ao ver os perversos.” [Al-Bukhari, Muslim, Musnad Ahmad — narração de Malik ibn Sa‘sa‘ah; Al-Bukhari e Muslim — narração de Abu Dharr (RA); Ibn Jarir, Al-Bayhaqi, Ibn Abi Hatim, Ibn Marduyah, Ibn Ishaq — narração de Abu Sa‘id al-Khudri (RA); Ibn Jarir, Al-Bayhaqi, Hafiz Ibn Abi Hatim, At-Tabarani, Al-Bazzar — narração de Abu Hurayrah (RA); e Abdullah ibn Ahmad Hanbal transmitiu, em Zawa’id Musnad, a narração de Ubayy ibn Ka‘b (RA) — autor.]

Depois, foi dada ao Venerável Profeta (S) a oportunidade de observar tudo detalhadamente. Em certo lugar, ele viu algumas pessoas ceifando uma plantação. Quanto mais ceifavam, mais ela crescia. Perguntou-se: “Quem são estas?” Foi dito: “São os que combatem pela causa de Deus.”

Depois, viu-se que as cabeças de algumas pessoas eram esmagadas e reduzidas a pedaços por golpes de pedras. Perguntou-se: “Quem são estas?” Foi dito: “São aquelas pessoas cuja relutância e insatisfação não lhes permitiam levantar-se para a oração.”

Ele viu algumas pessoas cujas roupas tinham remendos na frente e atrás, e que comiam capim como animais. Perguntou-se: “Quem são estas?” Foi dito: “São aqueles que não davam de seus bens nada em zakat ou caridade.”

Depois, viu-se um homem que juntava lenha e tentava erguer seu fardo. Quando não conseguia levantá-lo, acrescentava ainda mais lenha. Perguntou-se: “Quem é este?” Foi dito: “É uma pessoa sobre a qual havia um fardo tão grande de responsabilidades que não conseguia carregá-lo. Porém, em vez de reduzi-lo, colocava ainda mais responsabilidades sobre os próprios ombros.”

Depois, viu-se que as línguas e os lábios de algumas pessoas eram cortados com tesouras. Perguntou-se: “Quem são estas?” Foi dito: “São pessoas que falavam sem responsabilidade, diziam tudo o que lhes vinha à boca e causavam discórdia na sociedade.”

Depois, viu-se num lugar uma pedra com uma pequena fenda. De dentro dela saiu um touro grande e corpulento. Em seguida, ele tentou entrar novamente nela, mas não conseguiu. Perguntou-se: “Qual é o problema?” Foi dito: “Este é o exemplo daquele que, de maneira irresponsável, profere palavras causadoras de tumulto e, depois, arrependido, quer remediar o que fez, mas não consegue.”

Em certo lugar, viram-se algumas pessoas cortando e comendo a própria carne. Perguntou-se: “Quem são elas?” Foi dito: “São aquelas que lançavam falsas acusações e proferiam insultos contra os outros.”

Perto delas havia algumas pessoas cujas unhas das mãos eram de cobre. Com elas, arranhavam o rosto e o peito. Quando se perguntou quem eram, foi dito: “São aquelas que, na ausência das pessoas, divulgavam suas más ações e feriam sua honra.”

Viram-se algumas pessoas cujos lábios eram como os lábios dos camelos e que comiam fogo. Perguntou-se: “Quem são essas pessoas?” Foi dito: “São aquelas que consumiam os bens dos órfãos.”

Viram-se algumas pessoas cujos ventres eram extraordinariamente grandes e estavam cheios de serpentes venenosas. As pessoas as pisoteavam e passavam por cima delas, mas elas não conseguiam sair do lugar. Quando se perguntou quem eram, foi dito: “Eram os que praticavam usura.”

Depois, viram-se algumas pessoas diante das quais havia, de um lado, carne fresca e apetitosa e, do outro, carne podre, da qual emanava um mau cheiro. Elas deixavam a carne boa e comiam a carne podre. Foi dito: “Eram pessoas que, apesar de terem esposas lícitas, satisfaziam ilegalmente seus desejos sexuais.”

Depois, viram-se algumas mulheres penduradas pelos seios. Quando se perguntou sobre elas, foi dito: “Eram mulheres que atribuíam aos maridos filhos que não eram deles.” [Há divergência quanto a saber se essas visões ocorreram no caminho para Baitul Maqdis ou no primeiro céu. Além disso, todas essas visões não foram mencionadas conjuntamente em todas as narrações. Pelo contrário, diferentes visões foram relatadas em diferentes hadiths. Aqui reunimos todas as referências num só lugar. Musnad Ahmad, Ibn Majah, Ibn Jarir, Bayhaqi, Ibn Hisham, Ibn Abi Hatim, Tabarani e Bazzar — relato de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele); Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, Ibn Ishaq e Ibn Marduyah — relato de Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele); Musnad Ahmad e Abu Dawud — relato de Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) — autor.]

Durante essas visões, o Profeta (S) encontrou um anjo que se apresentou com um temperamento extremamente severo. O Profeta (S) perguntou a Jibril (A): “Até agora, todos os anjos que encontrei vieram ao meu encontro alegres e sorridentes. Por que este tem um temperamento tão seco?” Jibril (A) respondeu: “Ele nada tem que ver com alegria. Ele é o guardião do Inferno.” Ao ouvir isso, o Profeta (S) expressou o desejo de ver o Inferno. Imediatamente, o véu foi retirado de sua visão, e o Inferno surgiu diante dele em toda a sua terrível aparência. [Sirat Ibn Hisham — com referência a Ibn Ishaq e Ibn Abi Hatim. Relato de Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) — autor.]

nos céus seguintes

Depois de atravessar esses níveis, o Santo Profeta (S.A.W.) chegou ao segundo céu. Entre os ilustres que ali se encontravam, havia dois jovens dotados de características especiais. Ao serem identificados, soube-se que eram o Hazrat Yahya (A.S.) e o Hazrat Isa (A.S.).

No terceiro céu, foi apresentado um venerável cuja beleza, em comparação com a das pessoas comuns, era como a lua cheia em relação às estrelas. Soube-se que ele era o Hazrat Yusuf (A.S.).

No quarto céu, o Hazrat Idris (A.S.); no quinto, o Hazrat Harun (A.S.); e no sexto, o Hazrat Musa (A.S.) encontraram-se com o Profeta Muhammad (S.A.W.). Ao chegar ao sétimo céu, ele viu um enorme palácio (Baitul Ma’mur), onde havia alguém que, em aparência, se parecia bastante com ele. Ao ser identificado, soube-se que era o Hazrat Ibrahim (A.S.). (Musnad Ahmad, Bukhari e Muslim — relato de Malik ibn Sa’sa’a. Musnad Ahmad, Muslim e Ibn Abi Hatim — relato de Anas ibn Malik (R.A.). Ibn Jarir, Baihaqi, Ibn Abi Hatim, Tabarani, Bazzar, Hakim e Ibn Ishaq — relato de Abu Huraira (R.A.). Em alguns relatos, há divergências quanto aos lugares ocupados pelos profetas. Segundo o relato de Hazrat Anas (R.A.) em Nasai e Muslim, o Hazrat Harun (A.S.) estava no quarto céu e o Hazrat Idris (A.S.), no quinto. Citando o relato de Hazrat Abu Sa’id Khudri (R.A.), Ibn Jarir, Baihaqi e Ibn Marduyah colocaram o Hazrat Yusuf (R.A.) no segundo céu e o Hazrat Yahya (A.S.) e o Hazrat Isa (A.S.) no terceiro — o autor.)

Sidratul Muntaha

Depois disso, o Santo Profeta (S.A.W.) iniciou a jornada para as regiões ainda mais elevadas e chegou à Sidratul Muntaha. Este lugar possui a dignidade de ser uma fronteira divisória entre a corte do grandioso Rabbul Izzat e o mundo material. Aqui termina o conhecimento de toda a criação. Tudo o que existe depois disso é oculto; seu conhecimento não pertence a nenhum profeta nem a nenhum anjo próximo — a menos que Allah deseje conceder a alguém algum conhecimento disso. Tudo o que sobe de baixo é levado até aqui, e tudo o que desce de cima é recebido aqui. Nas proximidades desse lugar, foi mostrada ao Profeta a contemplação do Paraíso. Ele viu que Allah Ta’ala havia preparado para os servos virtuosos bênçãos que nenhum olho jamais viu, nenhum ouvido jamais ouviu e que nenhuma mente jamais poderia imaginar. (Bukhari e Muslim — relato de Abu Dharr (R.A.). Muslim, Nasai, Tirmidhi e Baihaqi — relato de Abdullah ibn Mas’ud (R.A.). Ibn Jarir, Baihaqi, Ibn Abi Hatim e Ibn Marduyah — relato de Abu Sa’id Khudri (R.A.), segundo o autor.)

Jibril (A.S.) permaneceu na Sidratul Muntaha. Então o Profeta (S.A.W.) avançou sozinho. Depois, em um lugar elevado, amplo e aprazível, viu diante de si a corte do Majestoso. Em seguida, foi-lhe concedida a honra da conversação. (Ibn Hatim — relato de Anas ibn Malik (R.A.). Bukhari, Kitabus Salat — relato de Ibn Abbas (R.A.) e de Abu Habba Ansari. Qastallani disse em seu Mawahib, sem citar sua fonte, que o Huzur (S.A.W.) disse: “Quando Jibril chegou ao seu lugar, disse: ‘Agora, diante de você, está o assunto entre você e seu Senhor. Este é o meu lugar; não posso avançar além dele’.”) Entre o que lhe foi dito, encontrava-se o seguinte:

1. Foram prescritas cinquenta orações obrigatórias todos os dias.

2. Na Surata Al-Baqara, são ensinados os dois últimos versículos de súplica.

3. É expressa a intenção de perdoar todos os pecados, exceto o shirk.

4. É declarado que, quando uma pessoa tenciona praticar uma boa ação, um mérito lhe é registrado. Depois, quando ela a pratica, dez méritos lhe são registrados. Mas, quando tenciona praticar uma má ação, nada é registrado contra ela. Depois, quando a pratica, um pecado lhe é registrado.[Primeiramente, o relato consensual em todos os hadices sobre o Mi’raj é que cinquenta orações foram tornadas obrigatórias. Os demais assuntos são relatados nos seguintes livros de hadices:

Muslim, Nasa’i, Tirmidhi, Bayhaqi — relato de Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele); Musnad Ahmad e Muslim — relato de Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Jarir, Bayhaqi, Ibn Abi Hatim e Ibn Mardawayh — relato de Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) — autor.]

Ao descer para retornar, depois de comparecer perante Deus, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encontrou-se com o Profeta Moisés (que a paz esteja com ele). Depois de ouvir o relato, ele disse: “Tenho uma amarga experiência com os filhos de Israel. Creio que a sua comunidade não conseguirá cumprir cinquenta orações; peça que esse número seja reduzido.” Quando ele voltou, Allah, exaltado seja, reduziu dez orações.

O Profeta Moisés (que a paz esteja com ele) repetiu as mesmas palavras. Então o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) subiu repetidas vezes, e as orações foram sendo reduzidas de dez em dez. Por fim, cinco orações foram tornadas obrigatórias, e foi dito que elas equivaleriam às cinquenta.[É consensual em todos os hadices que, por conselho do Profeta Moisés (que a paz esteja com ele), o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi repetidas vezes à presença de Allah para pedir a redução, até que, por fim, permaneceram obrigatórias cinco orações. Allah as considerou equivalentes a cinquenta. Contudo, na maioria dos relatos menciona-se que foram reduzidas cinco de cada vez; em alguns relatos menciona-se apenas uma redução, e em outros, uma redução de cinco de cada vez — autor. (Alguns poucos, de orientação ocidental, especialmente os que rejeitam os hadices, levantam uma objeção a esse relato, dizendo: se a intenção de Deus era tornar obrigatórias apenas cinco orações, que sentido havia em começar com cinquenta e negociar gradualmente? A resposta é que Allah Todo-Poderoso esclareceu aos servos que, para agradecer Suas bênçãos, o ser humano deveria adorar em tal medida que, mesmo que rezasse cinquenta vezes por dia, isso não seria excessivo. Porém, levando em conta a fraqueza e a natureza humanas, essa facilidade foi concedida. Além disso, o fato de o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), seguindo o conselho do Profeta Moisés (que a paz esteja com ele), pedir repetidamente a redução, e de esse pedido ser aceito, elevou a dignidade do Profeta. Esse acontecimento é uma prova da intercessão que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os demais profetas exercerão na Vida Futura — autor.)]

Retorno

No caminho de volta, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) desceu por aquela escada e chegou a Baitul Maqdis. Ali, todos os profetas estavam novamente presentes. Ele os conduziu na oração, que provavelmente era a oração do fajr. Depois, montou em Buraq e retornou a Meca (Al-Bidaya wan-Nihaya, volume 3, pp. 112–113).

Ao amanhecer, antes de todos, ele contou os detalhes desse acontecimento à sua prima, Umm Hani (que Allah esteja satisfeito com ela). Em seguida, quis sair. Mas ela, Umm Hani, puxou seu manto e disse: “Pelo amor de Allah, não conte este acontecimento a ninguém; caso contrário, eles encontrarão mais um motivo para zombar e ridicularizá-lo.” Porém, o Profeta (que a paz esteja com ele) saiu, dizendo: “Eu certamente contarei.” (At-Tabarani, Ibn Ishaq, Ibn Sa‘d e Abu Ya‘la narraram isso com base no relato de Umm Hani, que Allah esteja satisfeito com ela.)

Ao chegar ao recinto sagrado da Caaba, o Profeta (que a paz esteja com ele) viu Abu Jahl à sua frente. Ele perguntou: “Há alguma novidade?” O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “Sim, certamente há.” Abu Jahl disse: “Diga-me, o que é?”

O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Esta noite fui a Baitul Maqdis.” Abu Jahl perguntou: “Baitul Maqdis? Você foi e voltou durante a noite? E está aqui presente pela manhã?”

O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “Sim, foi isso mesmo.”

Abu Jahl disse: “Então devo reunir as pessoas? Você contará isso diante de todos?”

O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “Certamente.”

Abu Jahl reuniu todos, gritando, e disse ao Profeta (que a paz esteja com ele): “Agora, conte.”

O Profeta (que a paz esteja com ele) contou todo o acontecimento diante de todos. As pessoas começaram a zombar e ridicularizá-lo. Algumas batiam palmas; outras, tomadas de espanto, levavam as mãos à cabeça. Diziam: “Uma viagem de dois meses em uma noite? Impossível, completamente irreal. Antes tínhamos apenas suspeitas, mas agora temos a firme convicção de que você é realmente louco.” (Musnad Ahmad, An-Nasa’i, Al-Bayhaqi, Al-Bazzar e At-Tabarani narraram isso com base no relato de Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele. Ibn Jarir, Al-Bayhaqi e Ibn Abi Hatim: relato de Abu Sa‘id Al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele.)

O reconhecimento da veracidade de Hazrat Siddiq (r.a.)

Em um instante, a notícia se espalhou por toda Meca. Ao ouvirem isso, alguns muçulmanos deram as costas ao Islã. (Musnad Ahmad, Bukhari, Tirmidhi, Bayhaqi; relato de Jabir, conforme transmitido por Bayhaqi, segundo Hazrat Aisha (r.a.).

Então, as pessoas foram até Hazrat Abu Bakr (r.a.) na esperança de que ele era a mão direita do Profeta Muhammad (s.a.w.). Se ele se afastasse do Profeta, esse movimento morreria. Depois de ouvir o ocorrido, Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse: “Se Muhammad (s.a.w.) disse isso, então certamente é verdade. O que há de surpreendente nisso? Eu ouço todos os dias que mensagens vêm até ele do céu. Também reconheço a veracidade disso.” (Ibn Jarir, Bayhaqi — relato de Abu Salama bin Abd al-Rahman; Ibn Abi Hatim — relato de Anas bin Malik; Bayhaqi — relato de Hazrat Aisha (r.a.).

Então Hazrat Abu Bakr (r.a.) foi ao Haram da Caaba, onde o Mensageiro de Allah (s.a.w.) estava presente, assim como a multidão que zombava e escarnecia. Ele perguntou ao Profeta (s.a.w.): “Foi realmente o senhor quem disse todas essas coisas?”

O Profeta (s.a.w.) respondeu: “Sim, fui eu.”

Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse: “Eu conheço Bayt al-Maqdis, pois já o vi. Descreva-o para nós.”

O Profeta (s.a.w.) começou imediatamente a descrevê-lo. Descrevia cada coisa de tal maneira que parecia que Bayt al-Maqdis estava diante dele e que ele relatava sua condição enquanto o observava. Ao verem Hazrat Abu Bakr (r.a.) assumir uma atitude desse tipo, os que negavam sentiram um golpe extremo em seus corações. Hafiz Ibn Kathir afirma em Al-Bidaya wa al-Nihaya que Abu Bakr (r.a.) pediu que a descrição de Bayt al-Maqdis fosse feita diante dos idólatras porque, se ele conseguisse descrevê-lo corretamente, fecharia a boca dos idólatras. Contudo, Abu Ya’la transmitiu, sob a autoridade de Umm Hani (r.a.), um relato segundo o qual foi Mut’im bin Adi quem perguntou sobre a descrição de Bayt al-Maqdis. Ibn Jarir e Ibn Abi Hatim transmitiram, sob a autoridade de Abu Sa’id al-Khudri (r.a.), que aquele que, entre a multidão, fez essa pergunta considerava o Profeta um mentiroso. Em um relato de Hazrat Abu Hurayra (r.a.), transmitido por Muslim, consta que as pessoas interrogavam o Profeta. A verdadeira razão dessa pergunta era que eles sabiam que, durante toda a sua vida, o Profeta (s.a.w.) jamais havia visto Bayt al-Maqdis. Por isso, seria difícil para ele descrevê-lo, especialmente porque o havia visto durante a noite. Então, durante o interrogatório deles, Allah Ta’ala colocou Bayt al-Maqdis diante de seus olhos, e ele respondia a cada uma de suas perguntas enquanto o observava. Por fim, eles tiveram de admitir que a descrição que ele fazia daquele lugar era absolutamente correta. Bukhari, Muslim, Musnad Ahmad, Ibn Jarir, Tirmidhi e Bayhaqi — relato de Jabir bin Abdullah (r.a.); Muslim e Ibn Sa’d — relato de Abu Hurayra (r.a.); Bayhaqi, Ibn Abi Hatim, Bazzar e Tabarani — relato de Ibn Abbas (r.a.), segundo o autor.

Mais testemunhas

Na assembleia havia muitos que viajavam a Bayt al-Maqdis com fins comerciais. Diziam interiormente que ele havia descrito exatamente o que acontecera. Então, para provar a veracidade desse relato, as pessoas começaram a exigir mais evidências.

O Profeta (s) disse: “Durante a ida, passei por determinada caravana, que levava tais e tais mercadorias. Os camelos dos membros da caravana assustaram-se ao ver Buraq. Um deles chegou a fugir correndo na direção de determinado vale. Eu informei aos membros da caravana onde ele havia ido.”

Durante o regresso, encontrei, em determinado lugar, a caravana de determinada tribo. Todos estavam dormindo. Bebi água de um recipiente deles e deixei também sinais de que havia bebido a água.

O Profeta (s) mencionou ainda alguns outros acontecimentos desse tipo. Mais tarde, sua veracidade foi reconhecida pelos membros das caravanas que chegaram posteriormente (Ibn Abi Hatim relata sob a autoridade de Anas bin Malik (ra); al-Bayhaqi, Ibn Abi Hatim, al-Bazzar e al-Tabarani relatam sob a autoridade de Shaddad bin Aws; e al-Tabarani reproduz a narração de Abu Ya’la sob a autoridade de Umm Hani (ra)).

Assim, os opositores ficaram sem argumentos. Mas continuaram pensando consigo mesmos: como isso poderia ser possível? Ainda hoje muitas pessoas se perguntam como isso foi possível.

Gabriel ensinou ao Profeta (s) as cinco orações diárias

Durante os dois dias seguintes à noite em que ocorreu o Mi’raj, Gabriel (a), enviado por Allah Todo-Poderoso, vinha no horário de cada oração para mostrar quando deveriam ser realizadas as cinco orações obrigatórias. No primeiro dia, ele conduziu o Mensageiro de Allah (s) em uma oração no início do respectivo horário e, no segundo dia, no final desse horário. Ele dirigiu a oração. Depois, disse: “O horário de cada oração situa-se entre esses dois momentos.” Essa narração foi transmitida pelo Imame Ahmad, al-Nasa’i, al-Tirmidhi, Ibn Hibban e al-Hakim sob a autoridade de Jabir bin Abdullah. O Imame al-Bukhari considerou-a a mais correta quanto aos horários das orações. O Imame Ahmad, al-Tirmidhi, Abu Dawud, Ibn Khuzaymah, al-Daraqutni, al-Hakim e Abd al-Razzaq transmitiram, com algumas diferenças, uma narração sobre esse assunto sob a autoridade de Abdullah bin Abbas (ra). Ibn Abd al-Barr e o cádi Abu Bakr bin al-Arabi consideraram-na correta.

O Imame al-Zuhri relata que, quando Urwah bin al-Zubayr disse diante de Umar bin Abd al-Aziz (rah) que Gabriel (a) havia conduzido o Mensageiro de Allah (s) na oração, este ficou extremamente surpreso e disse: “Urwah, pense uma vez no que está dizendo! Quer dizer que Gabriel (a) dirigiu a oração do Profeta (s)?”

Urwa diz: Ouvi isto de Bashir ibn Abi Masud. Ele disse que o ouvira de Abu Masud Ansari (r.a.). Este (Masud Ansari) disse: Eu próprio ouvi o Mensageiro de Deus (s.a.w.) dizer isto: “Jibril desceu e conduziu-me na oração. Rezei com ele as cinco orações diárias.” (Muwatta, Bukhari, Muslim, Abd al-Razzaq, Tabarani.)

A mensagem da Mi‘raj

Após o regresso da viagem da Mi‘raj, a mensagem que o Mensageiro de Deus (s.a.w.) transmitiu, da parte de Allah, aos habitantes do mundo está preservada palavra por palavra nos versículos 2 a 39 da décima sétima surata do Alcorão Majid, Bani Isra’il. Se ela for examinada e se se prestar atenção ao seu contexto histórico, saber-se-á que esta orientação foi transmitida um ano antes da Hégira. O leitor compreenderá claramente que essa orientação foi transmitida antes de ser lançada a pedra fundamental de um novo Estado baseado nos princípios do Islão, Estado esse segundo cujos princípios o Profeta (s.a.w.) e os Companheiros tiveram de trabalhar posteriormente.

Aprender com a história dos Bani Isra’il

Depois de mencionar a Mi‘raj nesta mensagem, em primeiro lugar ensinou-se através da história dos Bani Isra’il. Quando, após se libertarem da escravidão dos egípcios, os Bani Isra’il começaram a viver uma vida independente, o Senhor do Universo concedeu-lhes o Livro para os orientar. Ao mesmo tempo, foi-lhes dada esta advertência: “A partir de agora, em vossos assuntos e ações, não confieis na orientação de ninguém além de Mim.”

Contudo, em vez de agradecerem a Allah por essa bênção, os Bani Isra’il negaram-na e, em vez de serem reformadores na Terra, permaneceram causadores de desordem e rebeldes. O resultado foi que Allah os destruiu uma vez por meio dos babilónios e, na segunda vez, fez dos romanos os seus governantes. Ao mencionar esta história instrutiva, Allah, o Altíssimo, adverte os muçulmanos de que somente o Alcorão é um Livro que lhes mostrará o caminho correto. Se o seguirem, há para vós a boa-nova de uma grandiosa recompensa.

Cada pessoa é responsável

A segunda verdade importante para a qual se chama a atenção é que cada ser humano possui, por si mesmo, uma responsabilidade moral permanente. Os seus próprios atos são o juiz final em seu favor ou contra ele. Se seguir o caminho reto, o benefício será seu; se seguir o caminho errado, terá de enfrentar o prejuízo. Nessa responsabilidade pessoal, ninguém é sócio de ninguém. O peso da responsabilidade de uma pessoa não terá de ser carregado por outra. Portanto, cada pessoa de uma sociedade virtuosa deve prestar especial atenção à sua própria responsabilidade. Independentemente do que os outros façam, a primeira coisa que deve considerar é: o que estou eu próprio a fazer?

A decadência dos grandes e poderosos

O terceiro assunto sobre o qual se advertiu é o seguinte: aquilo que, por fim, destrói uma sociedade é a decadência dos grandes, dos influentes e poderosos. Quando a ruína do destino de uma nação se torna inevitável, seus indivíduos abastados e detentores do poder entregam-se à perversidade. Começam a praticar injustiça, opressão, iniquidade, depravação e toda espécie de maldade. Por fim, essa sedição mergulha toda a nação no abismo da destruição. Portanto, uma sociedade que não queira tornar-se inimiga de si mesma deve refletir sobre essa questão, para que as chaves do poder político e da riqueza material não caiam nas mãos de pessoas sem caráter.

A importância do Além em relação ao mundo

Em seguida, recorda-se aos muçulmanos aquilo que é repetido várias vezes no Alcorão. Diz-se: se o vosso objetivo é o mundo, com seu sucesso, felicidade e conforto, podeis obter tudo isso aqui. Mas o desfecho será extremamente terrível. O sucesso permanente e eterno, que começa nesta vida e se prolonga até a vida futura sem carregar em parte alguma a desonra do fracasso, só podereis alcançar quando, em todos os vossos esforços e empreendimentos, mantiverdes diante de vós o Além e a consciência da prestação de contas. A prosperidade dos adoradores do mundo parece, exteriormente, criativa. Contudo, dentro dessa criatividade ocultam-se as sementes do dano e da corrupção. Eles ficam privados daquela nobreza de caráter que nasce unicamente da consciência da prestação de contas no Além. Essa diferença podeis vê-la já neste mundo entre os dois tipos de pessoas. Nas etapas posteriores da vida, essa diferença tornar-se-á ainda mais evidente. Por fim, a vida de um será completamente fracassada, enquanto a do outro será coroada de pleno sucesso.

Os princípios fundamentais da civilização islâmica

Depois de apresentar, como introdução, todos esses conselhos, foram descritos os importantes princípios sobre os quais deveriam ser construídos o futuro Estado e a sociedade islâmicos. Esses princípios são quatorze. Nós os apresentamos na mesma ordem em que foram mencionados nesta mensagem da Ascensão.

1. Não se deve reconhecer o domínio e a autoridade de nenhuma força ou entidade além de Allah, o Único, sem parceiros. Ele é o vosso Senhor; portanto, prestai devoção e obediência exclusivamente a Ele. E seguir Seus mandamentos é o sinal da vossa distinção e identidade própria. Se reconhecerdes o domínio e a autoridade de qualquer outro além Dele, seja esse outro alguém ou os vossos próprios desejos, acabareis sofrendo a extrema humilhação e sereis privados das bênçãos que só podem ser obtidas com a ajuda de Deus. Isso não era apenas uma crença religiosa; era também o princípio fundamental do sistema político que o Profeta estabeleceu ao chegar a Medina. Todo o edifício desse sistema foi construído sobre a concepção de que o Senhor dos mundos é o proprietário e rei do país, e que Sua sharia é a lei do país — Autor.

2. Entre os direitos humanos, o mais importante e prioritário é o dos pais. Os filhos devem obedecer aos pais, servi-los e tratá-los com boas maneiras. A moral e as normas sociais da sociedade devem ser tais que os filhos não se tornem independentes dos pais nem desobedientes a eles; ao contrário, devem tratá-los com extrema bondade. Devem honrá-los e respeitá-los, cuidar deles na velhice e atender a todas as suas necessidades, assim como os pais fizeram durante a infância dos filhos. À luz deste princípio, ficou estabelecido que o sistema da sociedade islâmica seria fundamentado na família, e que a espinha dorsal da estrutura familiar seria a devoção e o respeito aos pais. Mais tarde, de acordo com este princípio, foram definidos os direitos dos pais reconhecidos pela sharia, cuja descrição detalhada encontramos nos livros de hadith e fiqh. Além disso, na formação mental e moral da sociedade islâmica e nas normas de civilidade dos muçulmanos, foram incluídos pensamentos e comportamentos que atribuem aos pais a maior importância depois de Deus e do Mensageiro. Tudo isso estabelece, para todos os tempos, o princípio de que o Estado islâmico, por meio de suas leis e diretivas administrativas, deve fortalecer e proteger a família, em vez de enfraquecê-la — Autor.

3. Na vida social, deve permanecer vigorosa a força vital da ajuda mútua, da solidariedade e do estabelecimento da justiça. Cada parente deve ser auxiliar de seus parentes. Cada pessoa deve ter direito a receber a ajuda dos outros. Quando um viajante chegar a alguma aldeia ou povoado, deve encontrar-se entre pessoas hospitaleiras. A compreensão dos direitos (haq) na sociedade deve ser tão intensa e abrangente que cada pessoa esteja plenamente consciente dos direitos daqueles entre os quais vive. Ao prestar-lhes algum serviço, deve considerar que está cumprindo um direito que lhes é devido, e não concedendo um favor. Se não houver ninguém para prestar o serviço, deve declarar humildemente sua incapacidade e implorar a misericórdia de Deus, para que possa ser útil aos outros. [Com base neste princípio, na sociedade de Medina foram estabelecidas a obrigação da sadaqa obrigatória e a recomendação da sadaqa voluntária. Foram determinados os procedimentos relativos aos testamentos em favor dos órfãos e ao waqf. Foram criadas medidas para proteger os direitos dos órfãos. Foi estabelecido, em cada povoado, o direito do viajante de receber hospitalidade por pelo menos três dias. Depois, por meio da educação moral, criou-se em toda a sociedade uma força vital de generosidade, solidariedade, ajuda e cooperação tão intensa que, além dos direitos legais, surgiu entre as pessoas uma ampla compreensão dos direitos morais. Com base nisso, as pessoas começaram espontaneamente a reconhecer esses direitos umas das outras e a cumpri-los — direitos que não poderiam ser exigidos pela força da lei, nem impostos por ela — Autor.]

4. As pessoas não devem desperdiçar seus bens e riquezas de maneira inadequada. Gastar com luxo e atos pecaminosos para demonstrar orgulho e ostentar-se, e empregar a riqueza por caminhos equivocados em vez de atender às necessidades reais das pessoas e às obras benéficas, significa negar as bênçãos de Deus. Aqueles que gastam seus bens dessa maneira são, na realidade, irmãos de Satanás, e impedir esse desperdício de riqueza por meio da educação moral e de restrições legais é um dever indispensável de uma sociedade reformadora.

5. Deve haver entre as pessoas equilíbrio suficiente para que não acumulem riquezas por avareza nem destruam sua capacidade financeira com gastos excessivos. Deve existir entre os membros da sociedade um senso correto de equilíbrio, para que, por um lado, não se abstenham de fazer despesas justas e, por outro, não se entreguem ao pecado de gastar por meios injustos. [Na sociedade de Medina, esses dois princípios foram explicados de diversas maneiras. Por um lado, muitos meios e formas de extravagância e luxo foram declarados legalmente haram; por outro, os caminhos para o gasto injusto e desmedido da riqueza foram bloqueados indiretamente com o auxílio da lei. Além disso, foi concedida ao governo a autoridade para impedir, por meio de determinações administrativas, atividades que revelassem excesso de gastos. As propriedades daqueles que continuassem a gastar seus bens injustamente seriam, de modo geral, colocadas sob a administração do governo. Para além dessas medidas, criou-se na sociedade uma opinião pública que, em vez de elogiar a ostentação, a condenava. Em seguida, por meio da educação moral, também se corrigiu a mentalidade das pessoas, para que pudessem compreender a diferença entre o gasto injusto e o gasto justo e se abstivessem espontaneamente do primeiro. Da mesma forma, a avareza foi impedida, tanto quanto possível, com o auxílio da lei. As medidas reformadoras contra práticas injustas foram implementadas sob a pressão da opinião pública e por meio da educação moral.]

6. As pessoas não devem interferir por meios artificiais no sistema de distribuição do sustento que Deus estabeleceu. Ele não tornou todos os Seus servos iguais quanto ao sustento; ao contrário, estabeleceu entre eles diferenças de quantidade e condição. Há muita sabedoria nisso, e Ele próprio a conhece melhor.

Portanto, um sistema econômico correto é aquele que se aproxima mais do caminho determinado por Deus. Tanto transformar a desigualdade natural em uma igualdade artificial quanto ampliar a desigualdade para além dos limites da natureza, fazendo-a chegar aos limites da injustiça, são erros do mesmo tipo. [Por causa do princípio da lei da natureza para o qual este princípio apontava, não havia lugar no programa reformador de Medina para a ideia de que as diferenças, desigualdades e superioridades naturais nos meios de subsistência e nos recursos para obtê-la fossem, por natureza, uma injustiça, nem para a ideia de que, a fim de estabelecer a justiça, fosse necessário eliminar a diferença entre ricos e pobres e tentar construir uma sociedade sem classes. Ao contrário, o caminho adotado em Medina para estabelecer a civilização humana sobre bases sólidas foi deixar exatamente em seu estado natural as diferenças que a fitra de Deus estabeleceu entre as pessoas e, conforme os princípios terceiro, quarto e quinto, fazer com que elas se tornassem causa de inúmeras oportunidades morais, espirituais e civilizacionais, em vez de causa de diferenças de caráter, costumes e maus costumes na sociedade. Na realidade, foi justamente por isso que o Criador do universo deixou essas diferenças entre Seus servos — Autor.]

7. É um erro gravíssimo praticar o controle da natalidade por receio de que, com o aumento dos filhos, os meios de vida e subsistência se tornem limitados. Aqueles que, por esse temor, destroem a futura descendência, isto é, praticam o controle da natalidade, incorrem no equívoco de pensar que o sistema de distribuição do sustento está em suas mãos. Contudo, o Provedor do sustento é Deus, que providenciou para que os seres humanos habitassem esta Terra. Foi Ele quem administrou o sustento das gerações anteriores, e também administrará o sustento das gerações futuras. Quanto mais a população aumenta, mais Deus amplia, na mesma proporção, os meios e recursos de vida e subsistência. Portanto, ninguém deve interferir injustamente no sistema que Deus estabeleceu para Sua criação, e em nenhuma circunstância deve surgir entre as pessoas a tendência de exterminar a descendência. [Este princípio elimina completamente a base econômica sobre a qual, desde a Antiguidade até os dias atuais, surgiram movimentos de controle da natalidade em diferentes épocas. Na Antiguidade, as pessoas eram levadas a matar crianças e fetos por medo da pobreza. Agora, o mundo está sendo conduzido para um terceiro caminho, o controle da natalidade. Mas este princípio da mensagem do Mi’raj orienta as pessoas a abandonar o esforço destrutivo de reduzir o número daqueles que se alimentam e a empregar sua força e capacidade em esforços construtivos para ampliar os meios e recursos de produção de alimentos — Autor.]

8. Por meio do adultério, estabelece-se entre a mulher e o homem uma relação completamente equivocada e ilícita. Não basta apenas proibi-lo; ao contrário, devem ser erradicados todos os meios e recursos que aproximam as pessoas do adultério. [Por fim, este princípio tornou-se a base de um capítulo detalhado do sistema de vida islâmico. De acordo com ele, o adultério e a acusação de adultério foram considerados crimes penais. Foram impostas restrições à divulgação da obscenidade. Também foram impostas restrições ao consumo de bebidas alcoólicas, à música, à dança e às estátuas e imagens de seres vivos. Em seguida, foi estabelecida uma legislação matrimonial que tornou o casamento extremamente acessível e eliminou da sociedade os meios e recursos normalmente utilizados para o adultério — Autor.]

9. Allah Ta‘ala considerou a vida humana digna de honra e dignidade. Ninguém pode cometer suicídio, nem matar outra pessoa. Esta proibição determinada por Deus só pode ser violada quando algum direito igualmente determinado por Deus se levantar contra essa pessoa. Depois de estabelecido esse direito, o derramamento de sangue deve limitar-se ao grau exigido por esse direito. Todas as formas de transgressão no caso de homicídio devem ser impedidas. Por exemplo, matar, sob o efeito da ira, alguém que não seja o criminoso e contra quem não tenha sido provado qualquer direito; ou matar o criminoso infligindo-lhe sofrimento; ou desonrar o cadáver depois do homicídio; ou cometer qualquer outro excesso vingativo desse tipo, que era comum no mundo. [Com base neste princípio, o suicídio foi proibido como haram na lei islâmica. O homicídio intencional foi considerado crime. Para os diversos casos de homicídio involuntário, foram estabelecidas a indenização pelo homicídio e a expiação. O homicídio legítimo foi limitado a cinco situações.

Primeira. Se alguém matar intencionalmente.

Segunda. Se algum grupo criar, no caminho da religião da verdade, um obstáculo tal que a guerra contra ele se torne indispensável.

Terceira. Se um homem ou uma mulher casados cometer adultério.

Quarta. Se algum grupo tentar derrubar o sistema de governo islâmico ou se rebelar armadamente contra o grupo que administra o sistema social islâmico.

Quinta. Se alguém se tornar apóstata depois de se tornar muçulmano. Em seguida, a autoridade para decidir sobre o homicídio legítimo foi concedida ao cádi da sharia. Também foram estabelecidas para isso regras e procedimentos decorosos — autor. ]

10. Os interesses dos órfãos devem ser protegidos até que sejam capazes de se sustentar por seus próprios meios. Seus bens não devem ser gastos de maneira que não lhes seja benéfica. [Isso também não era uma mera orientação moral. Pelo contrário, tanto medidas legais quanto administrativas foram adotadas pelo sistema estatal islâmico para proteger os direitos dos órfãos, cujos detalhes podem ser encontrados nas obras de hadith e de fiqh. A partir deste princípio, foi posteriormente extraído o amplo princípio de que o próprio Estado islâmico é o protetor dos interesses daqueles cidadãos que não são capazes de proteger os próprios interesses. O dito do Profeta (que a paz esteja com ele) —

************************************ (Sou o guardião daquele que não tem guardião) é justamente a indicação disso — autor. ]

11. Os acordos e compromissos assumidos com qualquer pessoa, ou com qualquer nação em favor de qualquer outra nação, devem ser cumpridos honestamente em todas as circunstâncias. Se um acordo for violado, será necessário prestar contas perante Deus. [Isto também não era apenas um ponto importante da ética islâmica. Pelo contrário, mais tarde, o Estado Islâmico considerou-o a pedra angular de sua política interna e externa — autor.]

12. Os instrumentos de medição das mercadorias devem ser mantidos em bom estado, para que as medidas possam ser fornecidas corretamente nas transações. [De acordo com este princípio, além de suas outras responsabilidades, o departamento de polícia do Estado Islâmico recebeu também o dever de fiscalizar os instrumentos de peso e medida nos mercados e, mediante o uso da força, impedir que se fornecesse menos do que o devido nas medidas e nos pesos. A partir disso, adotou-se este amplo princípio: é responsabilidade do governo erradicar toda forma de desonestidade, usurpação de direitos, fraude e engano nos negócios e nas transações — autor.]

13. Não te empenhes em assuntos sobre cuja veracidade não tens conhecimento. Perante Deus, terás de prestar contas detalhadas da audição, da visão e das intenções, opiniões e desejos do coração. [O objetivo deste princípio é que o muçulmano conduza sua vida pessoal e social pelo conhecimento, em vez de superstições, conjecturas e suposições. Esse objetivo foi amplamente concretizado de várias formas na moral, na lei, na ordem jurídica do país e no sistema educacional. A sociedade islâmica foi protegida das inúmeras injustiças que surgem em diversos aspectos da vida quando esta se baseia em conjecturas, em vez de conhecimento. No campo moral, determinou-se que se evitasse nutrir suspeitas e que não se apresentasse acusação alguma contra qualquer pessoa ou grupo sem uma verificação adequada. Na lei, estabeleceu-se como princípio permanente que prender, espancar ou manter alguém detido por mera suspeita é absolutamente injusto e ilegal. Também no tratamento dos estrangeiros foi estabelecido que nenhuma medida poderia ser tomada contra alguém sem investigação. Tampouco se poderiam espalhar rumores por mera suspeita. No sistema educacional, foram consideradas indesejáveis aquelas chamadas ciências cujo fundamento é apenas a conjectura e a fantasia ilusória. Assim, criou-se entre os muçulmanos uma mentalidade íntegra e fundamentada na verdade — autor.]

14. Não andes pela terra como os opressores e os arrogantes. Não podes fender a terra com tua arrogância e altivez, nem elevar tua cabeça acima das montanhas por causa de teu orgulho. [Isto também não é apenas uma exortação; na realidade, os muçulmanos foram advertidos de que, depois de se tornarem o grupo governante, seu povo não deveria entregar-se ao orgulho e à arrogância. Vemos a aplicação prática desta instrução no fato de que, de acordo com este manifesto ou declaração de quatorze pontos, os governantes, governadores e comandantes do governo estabelecido em Medina não disseram, de forma alguma, algo escrito ou fundamental que contivesse sequer o menor vestígio de orgulho ou arrogância. Mesmo em tempos de guerra, não proferiram palavras que expressassem orgulho ou arrogância. Em sua fala, conduta, comportamento e maneira de se levantar e sentar, manifestavam-se apenas humildade e modéstia. Quando entravam em alguma cidade como vencedores, não tentavam expandir sua influência e prestígio com orgulho, arrogância ou ostentação — autor.]

Estas eram as normas fundamentais sobre as quais o Profeta (que a paz esteja com ele) estabeleceu as bases do Estado Islâmico após a Hégira para Medina.

Ensino ao Profeta (que a paz esteja com ele) da súplica da Hégira

Nesta surata, Bani Israel, Deus Altíssimo ensinou a Seu Profeta uma súplica que, na realidade, pode ser chamada de súplica da Hégira. At-Tirmidhi e Al-Hakim, citando o relato de Ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele), dizem que, no versículo seguinte, foi concedida ao Profeta (que a paz esteja com ele) permissão para emigrar:

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E (ó Profeta) suplica: “Ó Senhor, leva-me para onde quer que me leves com verdade, e tira-me de onde quer que me tires com verdade, e concede-me, da Tua parte, uma força estatal que me auxilie.” (Bani Isra’il: 80)

A partir do ensinamento desta súplica, pode-se saber claramente que o momento da Hégira está próximo. Por isso, é dito que a tua súplica deve ser esta: que, em qualquer circunstância, não te afastes da verdade. De onde quer que saias, sai com verdade, e para onde quer que vás, vai sempre com verdade.

“E concede-me, da Tua parte, uma força estatal que me auxilie.”

Isto é: ou concede-me Tu próprio uma força estatal, ou faz de algum poder estatal ou governo meu auxiliar, para que, com a sua ajuda, eu possa eliminar do mundo esta decadência e injustiça, conter a inundação de obscenidade e pecado e fazer vigorar a Tua lei justa. Disso se sabe que a reforma e a correção que o Islão deseja no mundo não consistem apenas em pregação e exortação; pelo contrário, para a manifestação prática do Islão, também é necessária força política. Além disso, quando o próprio Allah ensinou esta súplica ao Seu Profeta e se encontra nos hadices que—

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Isto é: quando Allah Altíssimo, por meio do poder estatal, bloqueia o caminho daquilo que o Alcorão não consegue impedir, fica provado que pedir força estatal e esforçar-se para obtê-la, a fim de estabelecer a religião (iqamat al-din) e aplicar a sharia e as leis punitivas de Allah (hudud), não só é permitido, como também desejável. Aqueles que chamam isso de mundanismo ou culto ao mundo estão mergulhados no erro. O culto ao mundo só existe quando alguém busca obter o poder estatal para os seus próprios interesses. Já desejar o poder estatal para estabelecer a religião de Allah não é mundanismo; pelo contrário, é uma exigência da devoção a Allah.

Ensino de uma súplica aos muçulmanos oprimidos para obter auxílio

Foi durante o período do Mi’raj que as últimas aias da Surata Al-Baqara foram concedidas ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Anteriormente, citando a narração de Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele), já havíamos mencionado isso. Essas aias terminam com a seguinte súplica:

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Ó nosso Senhor! Não nos castigues se, por esquecimento, cometermos algum erro ou falha. Ó Deus! Não coloques sobre nós o fardo que colocaste sobre os que nos precederam. Ó nosso Sustentador! Não nos imponhas aquilo que não temos forças para suportar! Sê bondoso para conosco, perdoa-nos e tem misericórdia de nós. Tu és o nosso Senhor. Portanto, ajuda-nos contra os incrédulos. (Al-Baqara: 286)

Deve-se ter em mente que esta súplica foi ensinada numa situação em que o conflito entre o Islã e a incredulidade havia atingido o seu ponto culminante em Meca. Não havia lugar onde os muçulmanos não estivessem em perigo: sempre que algum servo de Deus começava a seguir a verdade religiosa, criava-se para ele uma situação sufocante sobre a terra. Nessa situação, ensinou-se aos muçulmanos que suplicassem assim ao seu Senhor. É evidente que, quando o próprio Doador ensina a maneira e o método de pedir, surge espontaneamente também a certeza de receber. Por isso, naquela época, esta súplica trouxe aos muçulmanos uma extraordinária tranquilidade mental. Além disso, nela foi transmitido, de passagem, o ensinamento de que não deveriam deixar que suas emoções fluíssem numa direção indesejável; ao contrário, deveriam moldá-las segundo o modelo desta súplica. De um lado, vejam aquela opressão e perseguição dilacerantes que lhes eram infligidas unicamente por sua adesão à verdade e sua retidão; e, de outro, vejam esta súplica, na qual não se encontra o menor vestígio de amargura contra os inimigos. De um lado, vejam as torturas físicas e os prejuízos financeiros de que foram vítimas; e, de outro, vejam a súplica, na qual não há sequer a mais ínfima menção à obtenção de qualquer interesse mundano. De um lado, vejam a extrema situação difícil daqueles que aderiam à verdade e eram sinceros; e, de outro, vejam os nobres e puros sentimentos de que esta súplica está repleta. Somente por meio desta verificação e análise comparativa pode-se formar uma concepção correta do tipo de formação moral e espiritual que estava sendo dada aos muçulmanos, o povo da fé, naquela época.

Outro aspecto da Ascensão

A propósito deste relato, será apropriado apresentar aos leitores também outro aspecto da Ascensão, por meio do qual se encontrarão respostas para muitas questões que surgem na mente ao se estudarem as diversas circunstâncias e descrições da Ascensão.

O primeiro encontro do Profeta (S) com Jibril (A) sobre a terra

No Alcorão Sagrado, na Surata An-Najm, menciona-se inicialmente o encontro do Profeta (S) com Jibril (A), quando este foi visto no horizonte em sua forma verdadeira. Depois, aproximando-se cada vez mais, chegou tão perto que entre o Profeta (S) e ele restou uma distância equivalente à de dois arcos, ou ainda menor. Naquele momento, ele transmitiu a revelação da parte de Allah, o Altíssimo. Depois de mencionar isso, é dito:

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O coração não desmentiu o que os olhos viram. Acaso discutis com ele sobre aquilo que ele vê com os próprios olhos? (An-Najm: 11-12)

Ou seja, a respeito do que o Profeta Muhammad (S) observou com os olhos abertos, em plena vigília e à luz do dia, seu coração não disse: “Isto é apenas uma ilusão de ótica”. Nem: “É algum jinn ou demônio que está sendo visto”. Nem: “É uma forma imaginária que apareceu diante de mim”. Nem: “Estou sonhando enquanto estou acordado”. Não, não foi assim. Pelo contrário, seu coração percebeu exatamente aquilo que seus olhos viam. Ele não tinha a menor dúvida de que, na realidade, aquele era Jibril (A) e que a mensagem que ele trazia era uma revelação de Deus.

A razão pela qual não surgiu dúvida no coração do Profeta após uma observação tão extraordinária

Aqui surge a pergunta: como é possível que, diante de uma observação tão inédita e extraordinária, não tenha surgido nenhuma dúvida no coração do Santo Profeta (S), e que ele tenha acreditado firmemente que tudo o que seus olhos haviam visto era verdade, e não algo imaginário e ilusório, nem um jinn ou demônio? Qual é a razão disso? Refletindo sobre essa questão, podemos compreender cinco razões.

A primeira é que as condições externas em que essa observação ocorreu asseguravam sua autenticidade. A observação do Mensageiro de Deus (S) não ocorreu na escuridão da noite, nem durante a meditação, em sonho ou em estado de semivigília. Pelo contrário, a brilhante luz da manhã havia se espalhado. O Profeta (S) estava completamente desperto. Em um céu aberto e claro, em plena luz do dia, ele viu a cena com os próprios olhos, exatamente como qualquer pessoa vê as demais cenas do mundo. Se houvesse espaço para dúvida nisso, então também tudo o que vemos durante o dia — o mar, as montanhas, as pessoas, as casas e tudo o mais — poderia ser duvidoso e uma ilusão de ótica.

A segunda razão é que o estado interior do Santo Profeta (S) também confirmava a autenticidade disso. Ele estava plenamente consciente. Antes disso, não havia em sua mente nenhum pensamento ou ideia de que tal observação deveria ocorrer ou estava prestes a ocorrer. Sua mente estava completamente vazia de tais pensamentos e investigações. Foi nessas condições que, de repente, esse acontecimento ocorreu diante dele. Assim, não havia espaço para a dúvida de que seus olhos não estivessem vendo uma cena real, mas que uma forma imaginária tivesse surgido diante dele.

A terceira é que o ser que apareceu diante do Profeta nessa ocasião era tão grandioso, venerável, belo e luminoso que ele jamais havia formado antes, em seu coração, qualquer concepção de um ser semelhante. Caso contrário, teria pensado que aquela cena era produto de sua própria imaginação e concepção. Um jinn ou demônio também não poderia possuir tamanha dignidade a ponto de ele não poder considerá-lo outra coisa senão um anjo.

Segundo uma narração de Hazrat Abdullah ibn Masud (RA), o Mensageiro de Deus (S) disse: “Vi Jibril (A) em uma forma que tinha seiscentas asas” (Musnad Ahmad). Em outra narração, Ibn Masud (RA) explica ainda que cada uma das asas de Jibril (A) era tão enorme e vasta que parecia cobrir o céu superior. (Musnad Ahmad)

A quarta razão é que o ensinamento que aquele ser transmitia também confirmava a veracidade dessa observação. O conhecimento que ele adquiriu subitamente por meio dela — o conhecimento relacionado à realidade de toda a ordem do universo — era algo de que ele não possuía anteriormente qualquer noção que lhe permitisse suspeitar que tudo não passava de ideias e concepções suas, que haviam assumido uma forma diante dele. Do mesmo modo, não havia qualquer possibilidade de suspeitar que Satanás estivesse enganando-o ao assumir aquela forma. Pois Satanás jamais poderia realizar tal feito: quando foi que ele ensinou às pessoas o puro monoteísmo, contra o politeísmo e a idolatria? Quando foi que as advertiu sobre o interrogatório na Vida Futura? Quando foi que lhes incutiu aversão à ignorância pré-islâmica e aos seus costumes? Quando foi que as convidou a alcançar a excelência moral? E quando foi que disse a uma pessoa: “Não basta que você aceite isto; pelo contrário, levante-se para estabelecer, em seu lugar, o monoteísmo, a justiça, a piedade e o bem-estar?”

A quinta razão, e a mais importante, é que, quando Allah Todo-Poderoso escolhe alguém para a profecia, Ele purifica seu coração de todas as dúvidas, incertezas e tentações, e nele estabelece convicção firme e confiança. Nessa condição, não pode surgir em seu coração a mínima dúvida quanto à veracidade de tudo o que seus olhos veem e seus ouvidos ouvem. Ele aceita com plena confiança cada verdade que lhe é revelada por seu Senhor. Isso pode ocorrer na forma de uma observação que lhe é mostrada com os próprios olhos, ou na forma de conhecimento islâmico que lhe é feito ouvir palavra por palavra. Em todas essas condições, o profeta tem plena consciência de que, assim como todas as percepções concedidas por Allah, a percepção profética é também uma realidade tão certa que nela não há possibilidade alguma de erro ou equívoco. Assim como a sensação do peixe de ser um peixe, a da ave de ser uma ave e a do ser humano de ser humano é inteiramente concedida por Allah, sem qualquer possibilidade de erro ou equívoco, do mesmo modo a percepção do profeta de que é um profeta também é concedida por Allah. A ideia de que surgiu em sua mente uma falsa concepção acerca de sua condição profética jamais pode ocupar seu coração, nem por um instante.

O segundo encontro com Jibril (que a paz esteja com ele) em Sidrat al-Muntaha

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E, uma segunda vez, ele o viu descendo junto a Sidrat al-Muntaha, perto da qual se encontra o Jardim de Morada. Naquele momento, cobria a árvore Loteira aquilo que a cobria. O olhar não se desviou nem ultrapassou o limite. E ele viu os maiores sinais de seu Senhor. (Al-Najm: 13–18)

Aqui é mencionado o segundo encontro do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) com Jibril (que a paz esteja com ele), no qual este apareceu diante do Profeta em sua forma original. O local desse encontro é chamado Sidrat al-Muntaha. Também é dito que, bem próximo dali, encontra-se o Jardim de Morada.

Sidrat al-Muntaha

Em árabe, sidra designa a árvore loteira. E muntaha significa o extremo final. O significado lexical de Sidrat al-Muntaha é “a árvore loteira situada no extremo último”. O erudito al-Alusi explicou-a desta maneira em seu tafsir Ruh al-Maʻani:

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Aqui termina o conhecimento de todos os sábios. Depois disso, ninguém sabe o que existe, exceto Deus. Ibn Jarir apresentou praticamente essa mesma interpretação em seu Tafsir, e Ibn Athir também a apresentou em “An-Nihaya fi Gharib al-Hadith wal-Athar”. É muito difícil para nós dizer como é aquela árvore de lote no limite extremo deste mundo material, e qual é sua verdadeira natureza e condição. Esse é um mistério da criação de Deus que de modo algum conseguimos compreender. Seja como for, trata-se de algo para o qual talvez Deus não tivesse encontrado, na linguagem humana, palavra mais apropriada do que sidra, ou árvore de lote.

Jannatul Ma’wa

O significado literal de Jannatul Ma’wa é um paraíso adequado para habitação. Hazrat Hasan al-Basri (que Deus tenha misericórdia dele) afirma que se trata do paraíso destinado, na Outra Vida, aos crentes e aos tementes a Deus. Ele apresenta como prova, a partir deste versículo, que esse paraíso está no céu. Qatadah afirma que é o paraíso onde são mantidas as almas dos mártires. Não se trata do paraíso que será obtido na Outra Vida. Ibn Abbas também afirma o mesmo e acrescenta que o paraíso que será concedido aos crentes na Outra Vida não está no céu; pelo contrário, sua localização é nesta terra.

A compostura e a paciência do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele)

Em seguida, ao elogiar o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), afirma-se que, depois de contemplar aquela manifestação, seu olhar não ficou ofuscado nem ultrapassou os limites. Em outras palavras, por um lado, sua extrema serenidade era tal que aquele fluxo de luz intensamente resplandecente não lhe queimou a visão; por outro, sua concentração era tamanha que manteve a mente e o olhar dirigidos exclusivamente ao propósito para o qual havia sido chamado. E não começou a olhar ao seu redor como um espectador de espetáculo, para contemplar as cenas maravilhosas que ali se encontravam. O exemplo disso é o de uma pessoa que tem a oportunidade de comparecer à corte de um rei dotado de grande poder e autoridade e ali vê todo tipo de esplendor e magnificência que jamais poderia ter imaginado. Se for alguém de classe inferior, assim que chegar ficará completamente desnorteado e atordoado. Se desconhecer as boas maneiras da corte, ficará andando de um lado para o outro, observando os adornos e as cenas do palácio para apreciá-los. Mas uma pessoa nobre, refinada, educada e responsável, ao chegar ali, não ficará estupefata nem se ocupará em contemplar os adornos e a magnificência da corte; ao contrário, apresentar-se-á com extrema dignidade e concentrará toda a sua atenção no propósito para o qual foi convocada à corte real. Essa era precisamente a qualidade do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) elogiada neste versículo.

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) viu Deus?

O último versículo afirma que ele viu os grandes sinais de seu Senhor.

Este versículo apresenta a explicação de que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não viu Allah, mas sim os Seus grandiosos sinais. E, uma vez que, à luz do contexto anterior e posterior, este segundo encontro também ocorreu com a mesma entidade com a qual havia ocorrido o primeiro, deve-se necessariamente reconhecer que Aquele que ele viu pela primeira vez no espaço acima e que, aproximando-se cada vez mais, chegou tão perto que entre ambos restou a distância de dois arcos, ou ainda menos, também não era Allah. Se ele tivesse visto Allah, o Altíssimo, em qualquer um desses dois acontecimentos, teria sido um evento tão grandioso e importante que isso certamente teria sido explicado de forma explícita. Sobre o Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele), o Alcorão relata que ele pediu para ver Allah. Em resposta, foi claramente dito: ****************** “Tu não Me poderás ver” — (Alcorão, Al-A‘raf: 143). Ora, essa distinção não foi concedida ao Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele); mas, se tivesse sido concedida ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), considerando a sua importância, isso teria sido declarado em termos absolutamente claros. Contudo, vemos que em nenhum lugar do Alcorão se afirma que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu o seu Senhor. Pelo contrário, ao mencionar o acontecimento da Ascensão, foi declarado na Surata Bani Isra’il: “Nós o fizemos viajar para que lhe mostrássemos os Nossos sinais” — (***********************************); e, aqui, a respeito de sua chegada ao Sidrat al-Muntaha, também foi dito: “Ele viu os grandiosos sinais do seu Senhor” —

(**************************************)

Por todas essas razões, aparentemente não há margem para o debate sobre se o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), nessas duas ocasiões, viu Allah ou o Profeta Jibril (que a paz esteja sobre ele). Entretanto, o motivo pelo qual surgiu essa controvérsia é que os livros de hadith apresentam opiniões divergentes sobre o assunto. A seguir, apresentaremos, em ordem, os hadiths citados a esse respeito por diversos nobres Companheiros.

Relato de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela)

No Livro do Tafsir de Bukhari, encontra-se o relato de Masruq. Ele disse: “Perguntei a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): ‘Mãe, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu o seu Senhor?’”

Ela disse: “Ao ouvires isso, meu corpo se arrepiou. Como pudeste esquecer que há três coisas em relação às quais, se alguém fizer tal afirmação, estará mentindo?”

Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “A primeira é esta: se alguém te disser que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu o seu Senhor, estará mentindo.” Então Aisha recitou este versículo: ********************** “Nenhuma visão O pode alcançar.” Depois, recitou este versículo:

**********************************************

Não é dado a nenhum ser humano que Allah lhe fale, exceto por meio da revelação, ou detrás de um véu, ou enviando um anjo que lhe revele, com a permissão de Allah, aquilo que Ele deseja.

Então, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “No entanto, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Jibril (que a paz esteja sobre ele) duas vezes em sua forma verdadeira.”

Uma parte deste hadith está registrada no Bukhari, no Livro da Unicidade de Allah, capítulo 4. E *************** na narração de Masruq citada pelo Imame Bukhari, ele disse: “Depois de ouvir isso de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), perguntei: ‘Então, qual é o significado desta declaração de Allah, o Altíssimo?’”

************************************

Ela respondeu: “Com isso, Jibril (que a paz esteja sobre ele) é mencionado. Ele costumava vir sempre diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em forma humana. Mas, nessa ocasião, veio ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em sua forma verdadeira e cobriu todo o espaço celeste.”

No capítulo sobre Sidrat al-Muntaha do Livro da Fé, o Muslim registrou detalhadamente essa conversa entre Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e Masruq. A parte mais importante é que Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Aquele que afirma que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu o seu Senhor faz uma terrível acusação contra Allah.”

Masruq disse: “Eu estava sentado, apoiado. Ao ouvir isso, levantei-me, sentei-me direito e disse: ‘Ó Mãe dos Crentes, não se apresse. Acaso Allah, o Altíssimo, não disse isto?’”

********************************* e *******************************

Hazrat Aisha respondeu: fui eu, entre esta ummah, a primeira a perguntar ao Mensageiro de Allah (s) sobre este assunto. Ele disse:

—Ele era Jibril (a). Além dessas duas vezes, nunca o vi em sua forma original, a forma na qual Allah o criou. Nessas duas ocasiões, vi-o descendo do céu; sua enorme figura preenchia o vasto espaço vazio entre o céu e a terra.

Ibn Marduyah citou a narração de Masruq com as seguintes palavras:

*****************************************************

Hazrat Aisha (ra) disse: fui eu quem primeiro perguntou ao Mensageiro de Allah (s): “Você viu o seu Senhor?”

O Profeta (s) respondeu: “Não; vi Jibril (a) descendo do céu.”

A narração de Hazrat Abdullah ibn Masud (ra)

Na narração de Zir ibn Hubaysh, registrada por Bukhari em Kitab at-Tafsir, por Muslim em Kitab al-Iman e por Tirmidhi em Abwab at-Tafsir, afirma-se que Hazrat Abdullah ibn Masud (ra)—************************ apresentou a seguinte exegese:

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Jibril (que a paz esteja sobre ele) nesta forma: ele tinha seiscentos braços. Em uma segunda narração de Muslim—

******************************************************

Uma exegese de significado semelhante também foi narrada por Zirr ibn Hubaysh, sob a autoridade de Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele).

No Musnad de Ahmad, esta exegese de Ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) foi narrada, além de por Zirr ibn Hubaysh, também por Abd al-Rahman ibn Yazid e Abu Wa’il. Além disso, no Musnad de Ahmad, foram transmitidas outras duas narrações de Zirr ibn Hubaysh, nas quais Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele)

************************************************

ao narrar a sua exegese, diz—

************************************************

—isto é, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Vi Jibril (que a paz esteja sobre ele) junto à Sidrat al-Muntaha. Ele tinha seiscentos braços.»

O Imam Ahmad também transmitiu esta narração de Shaqiq ibn Salama. Nela, ele diz: “Ouvi isto da boca de Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele).” Ele disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Vi Jibril (que a paz esteja sobre ele) nesta forma, em Sidrat al-Muntaha.’”

Narração de Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele)

De Ata ibn Rabah, de Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele): *******************************

– Ao ser perguntado sobre o significado, ele respondeu: ************************************************

– O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Jibril (que a paz esteja sobre ele). (Muslim — Kitab al-Iman).

Narração de Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele)

O Imam Muslim transmitiu, em Kitab al-Iman, duas narrações de Abdullah ibn Shaqiq, com base em Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele). Em uma delas, ele diz: “Perguntei ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): ‘O senhor viu o seu Senhor?’ O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu:

************************ Na segunda narração, ele diz: “À minha pergunta, ele respondeu:”

*************************** O primeiro pronunciamento do Profeta (s), Ibn al-Qayyim o explicou assim em seu Zad al-Ma’ad: havia uma luz como barreira entre mim e a visão do meu Senhor. Quanto ao significado do segundo pronunciamento, ele o explicou assim: não vi o meu Senhor; antes, vi apenas uma luz.

An-Nasa’i e Ibn Abi Hatim transmitiram as palavras de Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele) nestes termos: o Mensageiro de Allah (s) viu o seu Senhor com o coração, não com os olhos.

A narração de Abu Musa al-Ash’ari (que Allah esteja satisfeito com ele)

Muslim citou, de Abu Musa al-Ash’ari (que Allah esteja satisfeito com ele), a seguinte narração: o Profeta (s) disse ***************************** nenhum olhar de qualquer criatura de Allah alcançou-O.

A narração de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele)

É narrado por Muslim que Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) foi perguntado: ********************* e ************************

Qual é o significado destas duas ayat?

Em resposta, ele disse: o Mensageiro de Allah (s) viu o seu Senhor duas vezes com os olhos do coração. Esta narração também consta do Musnad de Ahmad.

Ibn Mardawayh cita, por intermédio de Ata ibn Abi Rabah, esta declaração de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não viu Allah, o Altíssimo, com os olhos; viu-O com o coração.

Em an-Nasa’i, há uma narração de Ikrimah segundo a qual Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

*************************************************

Acaso vos surpreende que Allah, o Altíssimo, tenha tomado Abraão (que a paz esteja sobre ele) como khalil (amigo íntimo), tenha falado com Moisés (que a paz esteja sobre ele) e tenha concedido a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a honra da visão?

Al-Hakim transmitiu esta narração e declarou-a autêntica.

Na narração de ash-Sha’bi, em at-Tirmidhi, relata-se que Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse numa reunião: Allah dividiu entre Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Moisés (que a paz esteja sobre ele) a visão e o falar referentes a Ele. Ele falou com Moisés (que a paz esteja sobre ele) duas vezes, e Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu-O duas vezes.

Depois de ouvir essa declaração de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Masruq foi até Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e perguntou: Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu o seu Senhor?

Ela disse: As tuas palavras fizeram meu corpo arrepiar-se.

Depois, mencionamos acima, na narração de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), a conversa que ocorreu entre Hadrat Aisha e Masruq.

Na própria obra de Tirmidhi, na segunda narração transmitida de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), ele diz em um trecho que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) viu Allah; em um segundo trecho, diz que O viu duas vezes; e, em um terceiro, diz que O viu com o coração.

No Musnad de Ahmad, há uma narração de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) desse teor:

*************************************************

Vi Allah, meu grandioso Senhor; na segunda narração, ele diz:

*************************************************

O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: “Na noite passada, meu Senhor veio até mim em uma forma belíssima.” Penso que o significado dessas palavras do Mensageiro (que a paz esteja com ele) é que ele viu Allah em sonho.

At-Tabarani e Ibn Marduyah também transmitiram de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) uma narração desse teor: o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) viu seu Senhor duas vezes: uma vez com os olhos e, na segunda, com o coração.

Relato de Muhammad ibn Ka‘b al-Qurazi

Muhammad ibn Ka‘b al-Qurazi disse: Alguns companheiros perguntaram ao Mensageiro de Allah: “Viste o teu Senhor?” O Profeta respondeu: “Vi-O duas vezes com o coração” (Ibn Hatim). Ibn Jarir transmitiu este relato com estas palavras: “Vi-O duas vezes com o coração, não com os olhos.”

Relato de Anas

Eis um relato de Anas ibn Malik, citado pelo Imam Bukhari, no Livro da Unicidade Divina, transmitido por intermédio de Sharik ibn Abdullah a respeito do Mi‘raj:

*************************************************

— isto é, quando ele chegou à Sidrat al-Muntaha, Allah, o Senhor da Majestade, aproximou-Se dele e pairou sobre ele. Até que entre ele e Allah restou uma distância de dois arcos, ou ainda menor. Depois, entre as revelações que Allah lhe fez, estava a ordem de realizar cinquenta orações.

A principal objeção entre as escusas e críticas levantadas pelo Imam Khattabi, pelo hafiz Ibn Hajar, por Ibn Hazm e pelo hafiz Abd al-Haqq quanto à cadeia de transmissão e ao conteúdo deste relato é que ele contradiz claramente o Alcorão, pois o Alcorão menciona duas visões distintas. A primeira ocorreu inicialmente no horizonte elevadíssimo e, depois, ele foi se aproximando até ficar tão próximo que entre o Profeta e ele restou uma distância de dois arcos, ou ainda menor. Esse acontecimento ocorreu primeiro. O segundo ocorreu junto à Sidrat al-Muntaha. Contudo, este relato fundiu as duas visões numa só; por isso, por estar em conflito com o Alcorão, não pode de modo algum ser aceito.

Quanto aos relatos que citamos acima, o mais importante entre eles é o que foi transmitido por Abd Allah ibn Mas‘ud e por Aisha, pois ambos, em concordância, narram estas palavras do próprio Mensageiro de Allah: em nenhuma dessas duas ocasiões ele viu Allah; pelo contrário, viu Jibril. Esses relatos estão inteiramente de acordo com a explicação e as indicações do Alcorão. Além disso, encontram apoio nas declarações do Profeta transmitidas por Abu Dharr al-Ghifari e Abu Musa al-Ash‘ari. Em contraste, nos relatos de Abd Allah ibn Abbas citados nos livros de hadith encontram-se graves contradições. Em alguns, ele afirma que ambas as visões foram físicas; em outros, que ambas foram visões do coração. Em um relato, diz que uma foi física e a outra, do coração. Em outro relato, ao descrever a visão, diz que uma foi física e a outra, do coração. Em outro, nega completamente a visão física. Nenhum desses relatos contém uma citação de alguma declaração própria do Mensageiro de Allah. Quando ele cita diretamente as palavras do Profeta, em primeiro lugar, não menciona nenhuma das duas visões descritas no Alcorão. Além disso, pela explicação de um de seus relatos através de outro, sabe-se apenas que o Profeta viu Allah em sonho, não enquanto estava desperto. Por essa razão, não se pode confiar no relato de Abd Allah ibn Abbas na exegese destes versículos. Do mesmo modo, embora o relato de Muhammad ibn Ka‘b al-Qurazi cite uma declaração do Mensageiro de Allah, não fornece os nomes dos nobres Companheiros que ouviram essas palavras do Profeta. Além disso, em um de seus relatos afirma-se que o Profeta negou completamente a visão física.

Capítulo Doze

Os últimos três anos do período de Meca

Anteriormente, mencionamos a viagem do Profeta (s) a Taife, ocorrida no décimo ano da profecia. À luz dessa experiência, o Profeta (s) compreendeu que não se podia esperar nenhum bem dos coraixitas; da mesma forma, isso também não podia ser esperado dos Banu Saquif. Eles não estavam dispostos sequer a tolerar sua pregação, quanto mais aceitá-la. Pelo contrário, os maus-tratos e as perseguições que ele sofreu em Taife jamais lhe haviam sido infligidos em Meca durante os dez longos anos de conflito e confronto. Assim, tendo perdido a esperança nos habitantes de Meca e de Taife, ele voltou sua atenção para as outras tribos árabes, que se reuniam nas feiras de Ucaz, Majanna e Zul-Majaz, e em Mina durante o Hajj. Embora anteriormente fosse a esses encontros e às tendas de cada tribo para fazer a pregação geral, naquela época seu objetivo era apenas apresentar o convite para Allah. Agora, porém, além de apresentar esse convite, começou também a dizer: “Aceitai-me sob vossa proteção e ajudai-me, para que eu possa transmitir às pessoas a mensagem do meu Senhor.”

Nesses lugares, Abu Jahl, Abu Lahab e os demais demônios dos coraixitas perseguiam o Profeta (s) e advertiam as tribos para que não o escutassem; caso contrário, elas se desviariam. Muitas vezes, esses perversos também atiravam pedras contra o Profeta (s). Alguns chegavam a atirar terra. Apesar de tudo isso, o Profeta (s) continuava realizando sua missão. Além disso, quando alguma pessoa influente vinha de fora de Meca para a umra, a visita ou o comércio, ele se encontrava com ela e lhe apresentava o convite para a religião. Ao mesmo tempo, dizia: “Ajudai-me nesta tarefa de transmitir a verdade e levai-me convosco para vossa região.”

As tribos com as quais ele se encontrou

Para transmitir sua mensagem, o Profeta (s) foi até a maioria das tribos. Pela lista, percebe-se que, desde a extremidade oriental da Arábia até a ocidental, e desde a extremidade meridional até a setentrional, não havia nenhuma tribo influente e poderosa com a qual ele não tivesse estabelecido contato. Entre as mais importantes, estão as seguintes:

1. Kinda — uma grande tribo do sul da Arábia. Seu território se estendia de Hadramaut até o Iêmen.

2. Kalb — um ramo dos Quda’a. Seu território se estendia de “Dumat al-Jandal”, no norte da Arábia, até Tabuk.

3. Banu Bakr ibn Wa’il — era uma das grandes tribos guerreiras da Arábia.

As regiões das tribos árabes na época do Mensageiro

Seus ramos se estendiam desde a Arábia central até as regiões orientais. Em 330 d.C., essa tribo entrou pela primeira vez em conflito com o Império Iraniano. Mais tarde, na época do Profeta, voltou a entrar em guerra com o Irã, que foi derrotado. Na história, essa guerra é conhecida como a Batalha de Dhi Qar.

4. Banu al-Bakka — um ramo dos Banu Amir ibn Sa’sa’a. Estavam estabelecidos na rota entre Meca e a fronteira do Iraque.

5. Tha’laba ibn Uqaba — um ramo dos Banu Tha’laba ibn Uqaba.

6. Banu Shayban ibn Tha’laba — um ramo dos Banu Tha’laba ibn Uqaba.

7. Banu al-Harith ibn Ka’b — um ramo dos Banu Tamim.

8. Banu Hanifa — era um ramo dos Banu Bakr ibn Wa’il que vivia em Yamama. Musailima, o Mentiroso, pertencia a essa tribo. Durante a época de Hazrat Abu Bakr (r.a.), quando surgiu a sedição da apostasia, foi essa tribo que se envolveu em uma guerra terrível contra os muçulmanos. Era uma das célebres tribos guerreiras da Arábia.

9. Banu Sulaym — era uma grande tribo entre as tribos de Qays ʿAylān. Habitava a região elevada de Najd, próxima de Khaybar. Estendia-se até Wādī al-Qurā e Taymāʾ.

10. Banu ʿĀmir ibn Ṣaʿṣaʿa — era um ramo dos Hawāzin. Os Hawāzin faziam parte de Qays ʿAylān. Viviam em Najd. Mais tarde, chegaram também a uma parte de Tāʾif. Passavam o verão em Tāʾif e o inverno em Najd.

11. Banu ʿAbs — era uma grande tribo subordinada dos Banu Ghatafān, um ramo de ʿAylān. Viviam em Najd e eram belicosos. Na época da Jāhiliyya, travaram guerras prolongadas com outras tribos. Entre elas, as guerras de Wahes e Ghabra eram famosas na história.

12. Banu ʿUdhra — era um ramo dos Banu ʿAbdullah ibn Ghatafān.

13. Ghassān — era um grande povo do sul da Arábia que se estabeleceu no norte da Arábia. Entre eles havia várias tribos, algumas cristãs e outras politeístas. Os Ghassânidas também tinham um Estado sob o domínio do Império Romano.

14. Fazāra — era uma grande tribo entre as tribos subordinadas de Ghatafān. Viviam em Najd e em Wādī al-Qurā.

15. Banu ʿAbdullah — era uma das tribos subordinadas de Kalb.

16. Banu Muhārib ibn Khasāma — era uma das tribos adnanitas.

Aqui são mencionadas apenas algumas das muitas tribos com as quais o Profeta (S) se encontrou e às quais apresentou a mensagem. Esta breve lista é apresentada porque, nesta fase de sua missão, o Profeta (S) dirigia-se seletivamente a tribos que, devido ao seu número, prestígio, força geral e relações com as demais tribos, ocupavam uma posição tal que, se qualquer uma delas aceitasse suas palavras e se comprometesse com a missão islâmica, poderia esperar-se que, por meio disso, a religião adquirisse grande força.

Relato dos encontros com as tribos

Durante os encontros com as tribos árabes, o Mensageiro de Allah (S) teve de lidar com pessoas de diversos tipos. Musa ibn Uqba afirma em seu Maghazi que a resposta da maioria das tribos era a seguinte: o próprio povo de um homem o conhece melhor. Poderia ser benéfico para nós um homem que causou corrupção, conflito e discórdia em sua própria tribo, e que foi rejeitado por ela? Algumas tribos não apenas rejeitaram sua mensagem, mas também o trataram mal. Citando Ibn Ishaq, Ibn Jarir, Ibn Hisham e Ibn Kathir relatam que o Profeta (S) foi ao acampamento de Kinda e pediu sua cooperação. Mas eles se recusaram a aceitar seu pedido. Ao encontrar-se com os Banu Abdallah, disse: “Allah deu a vosso pai um belo nome. Sede meus auxiliares.” Mas eles também se recusaram. Quando se encontrou com os Banu Hanifa, a resposta deles foi pior que a de todas as outras tribos. Além disso, os estudiosos do hadith e da história registraram encontros muito notáveis do Profeta (S) com algumas outras tribos.

A manifestação da hesitação de um homem dos Banu Hamdan

O Imame Ahmad, al-Hakim e outros muhaddithun relatam, citando Jabir ibn Abdallah, que o Profeta (S) caminhava dizendo: “Há alguém que me leve consigo até seu povo?”

Nesse momento, um homem da tribo de Hamdan aproximou-se dele e aceitou suas palavras. Depois, ficou receoso, pensando se seu povo aceitaria ou não o que ele havia dito. Por isso, voltou e disse: “Irei falar com meu povo. Depois, encontrarei o senhor no próximo ano, durante o hajj.”

O encontro com os Banu Bakr ibn Wa’il

Hafiz Abu Nu’aym e Ihya ibn al-Umabi relatam que o Profeta (S) encontrou-se com os Banu Bakr ibn Wa’il e, no decorrer da conversa, perguntou: “Como é a força militar de vocês?”

Eles dizem: “Não temos força para guerrear contra os persas, nem podemos garantir a segurança de quem quer que seja diante deles.”

O Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: “Chegará um tempo em que vocês alcançarão as terras deles, casarão com as mulheres deles e escravizarão os filhos deles.” Depois de dizer isso, ele se retirou dali, e Abu Lahab chegou ao local. Ele lhes disse: “Este homem gozava de grande prestígio entre nós, mas perdeu o juízo.”

Eles responderam: “Quando ele mencionou os persas, foi exatamente isso que pensamos.”

Pode-se deduzir disso que, naquela época, nenhum árabe conseguia imaginar que os árabes venceriam um império tão grandioso como o da Pérsia. Para eles, somente um louco poderia dizer algo assim. Contudo, antes que se passassem quinze ou dezesseis anos daquela conversa, viram com os próprios olhos justamente aquilo cuja menção haviam considerado loucura.

O encontro com os Banu Amir ibn Sa’sa’a

Ibn Ishaq, citando o imã Zuhri, relata que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) foi ao acampamento dos Banu Amir ibn Sa’sa’a e apresentou-lhes sua mensagem. Um deles, Buhayra ibn Firas, disse: “Juro por Deus, se eu levar comigo este jovem coraixita, por meio dele subjugarei toda a Arábia.” Então disse ao Profeta (que a paz esteja sobre ele): “Se eu cooperar com você e Deus lhe der vitória sobre seus adversários, o poder governamental ficará em nossas mãos depois de você?” O Profeta (que a paz esteja sobre ele) respondeu: “Essa questão está nas mãos de Deus. Ele concede o poder a quem quer.” Então ele disse: “Nesse caso, deveremos oferecer nossos pescoços como alvo dos árabes por sua causa, e, quando Deus lhe conceder a vitória, outros, em vez de nós, obterão o poder? Vá embora; você não precisa de nós.”

Ao término da peregrinação, quando aqueles homens voltaram para casa, relataram os acontecimentos de sua peregrinação a um venerável ancião que, devido à idade avançada, não podia participar da peregrinação nem de outras feiras. Também lhe disseram: “Veio até nós, da tribo dos Banu Abd al-Muttalib, um jovem dos coraixitas que afirmava ser profeta e nos dizia: ‘Ajudem-me e levem-me para o seu território.’ Mas tivemos esta conversa com ele e, no fim, mandamo-lo embora com esta resposta.” Ao ouvir isso, o ancião apertou a própria cabeça e disse: “Ó Banu Amir! Haverá algum remédio para isso? Poderá uma oportunidade como esta voltar a surgir? Juro por Deus, em cuja mão está a minha vida, nenhum descendente de Ismael jamais poderia dizer algo assim sob o manto da mentira. Ele é certamente um profeta. Onde estava o discernimento de vocês naquele momento?”

O encontro com os Banu Shayban ibn Tha’laba

Abu Nu‘aym, al-Hakim e al-Bayhaqi relatam, citando ‘Abdullah ibn ‘Abbas, esta narração de ‘Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): ele (‘Ali, que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Certa vez, eu acompanhava o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) em Mina, visitando e encontrando-nos com as tribos. Enquanto circulávamos, chegamos a uma grande assembleia, de enorme prestígio. Seus líderes eram homens de grande personalidade. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: ‘Quem sois vós?’ Eles responderam: ‘Somos do clã de Banu Shayban ibn Tha‘laba.’ Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): ‘Que meus pais sejam sacrificados por ti! Em nenhum outro lugar se encontram pessoas mais honradas do que estas.’ Nessa reunião estavam presentes Mafruq ibn ‘Amr, Hani ibn Qabisa, Muthanna ibn Haritha e Nu‘man ibn Sharik. Mafruq estava sentado bem próximo de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele).

Ele disse: “Talvez sejais da tribo de Quraysh?” Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Talvez tenhais ouvido que o Mensageiro de Allah foi enviado aqui. Este é ele.” Mafruq disse: “Sim, isso chegou ao nosso conhecimento.” Então voltou sua atenção para o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Convido-vos a testemunhar que não há nenhuma divindade além de Allah e a testemunhar que sou o Mensageiro de Allah. E peço-vos que me acolhais em vosso território e me apoieis, para que eu possa cumprir a missão que Allah me confiou. Pois os Quraysh se uniram para impedir a obra de Allah; negaram o Mensageiro de Allah e ocuparam-se da falsidade em vez da verdade. Entretanto, Allah não depende das pessoas e é louvado em Sua própria essência.”

Mafruq disse: “Ó irmão qurayshita! A que mais convidas?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou os versículos 151 a 153 da surata al-An‘am:

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(151) Ó Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dize-lhes: “Vinde, eu vos recitarei o que vosso Senhor vos proibiu: que nada associeis a Ele; que trateis bem os pais; que não mateis vossos filhos por medo da pobreza. Nós vos proveremos, a eles também. Não vos aproximeis da indecência, seja ela manifesta ou oculta. Não mateis nenhuma pessoa que Allah tornou sagrada, exceto com justa causa.” Eis o que Ele vos ordenou, para que o observeis. Talvez compreendais e ajais com discernimento.

(152) E não vos aproximeis dos bens do órfão, exceto da melhor maneira, até que ele atinja a maturidade. E dai a medida e o peso com plena justiça. Não impomos a nenhuma pessoa uma carga maior do que ela pode suportar. Quando falardes, sede justos, ainda que se trate de um parente. Cumpri o pacto de Allah. Eis o que Allah vos recomenda, para que talvez aceiteis a admoestação.

Mafruq disse: “Ó irmão qurayshita, a que mais convidas? Por Allah, estas não são palavras dos habitantes deste mundo. Se fossem palavras deles, nós as reconheceríamos.” Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou o versículo 90 da surata an-Nahl:

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— Allah vos ordena a justiça, a benevolência e a assistência aos parentes. E vos proíbe a indecência, o pecado e a opressão. Ele vos exorta para que tireis ensinamento.

Mafruq disse: «Por Deus, ó irmão dos coraixitas, convocaste-nos às mais nobres virtudes morais e às boas ações. Somente uma gente destituída de entendimento poderia rejeitar-te e unir-se contra ti.» Então, apontando para Hani ibn Qabisa, Mafruq disse: «Este é o nosso ancião e líder religioso.»

Hani disse: «Ó irmão dos coraixitas, ouvi as tuas palavras e reconheço que são verdadeiras. Contudo, abandonar a nossa religião e prestar-te obediência nesta mesma reunião seria uma grande precipitação. Temos uma tribo atrás de nós. Não seria correto tomar uma decisão sem o conselho e a opinião deles e impô-la a eles. Nós voltaremos, e tu também vai. Refletiremos sobre as consequências, e tu também observarás até onde a situação chegará.»

Dizendo isso, Hani apresentou ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) Musanna ibn Haritha e disse: «Este é o nosso ancião e comandante militar.»

Musanna disse: «Ó irmão dos coraixitas, ouvi as tuas palavras e gostei delas. Contudo, a minha resposta é a mesma dada por Hani. Não seria correto abandonarmos a nossa religião e reconhecermos a tua autoridade nesta mesma reunião. Vivemos numa região onde enfrentamos dois obstáculos: um é Yamama e o segundo é Samawa. [Aquela parte do Iraque que é adjacente à Península Arábica — o autor.]»

O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: «O que são esses dois?»

Musanna disse: «Um é constituído pelas montanhas e pelo território árabe; o segundo é o território do Irã e os rios de Kisra. Kisra exigiu de nós um juramento: não realizarmos pessoalmente nenhuma inovação contrária aos costumes estabelecidos, nem oferecermos abrigo entre nós a quem queira realizar tal ato. É provável que os reis não tolerem aquilo a que nos convocas. Quanto ao território árabe, nossos erros e faltas podem ser perdoados nele. Se quiseres que te apoiemos contra os árabes, podemos fazê-lo. Mas enfrentar a Pérsia está além das nossas possibilidades.»

O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: «Se dissestes a verdade, não fizestes nada de mau. Mas a realidade é que quem se levanta em defesa da religião de Allah não faz exceção alguma; ele a apoia em todos os aspectos. Tende um pouco de paciência, e então Allah vos concederá as terras e as riquezas dos persas e submeterá suas filhas ao vosso domínio. Glorificareis e santificareis Allah?»

Nu‘man bin Sharīk disse: “Ó irmão coraixita, aceitamos o que disseste.” Então o Profeta (que a paz esteja com ele)—

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levantou-se enquanto recitava e partiu, segurando a mão de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele).

Encontro com os Banu Abbas

Waqidi narra, citando o relato do avô de Abdullah bin Wabaysatul Absi: “Nossa tribo, os Banu Abs, estava acampada perto de Jamarat al-Ula, nas proximidades da Mesquita de Khayf. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) veio até o local onde estávamos hospedados. Zayd bin Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) estava com ele. Ele nos convidou para seguir Allah, e nós aceitamos. Antes disso, ele costumava vir ao nosso acampamento durante cada Hajj, mas nunca havíamos aceitado seu convite. Quando veio até nós dessa vez, May­sara bin Masruq al-Absi estava conosco. Ele disse: ‘Juro por Deus! Se reconhecermos sua veracidade, o levarmos conosco e o colocarmos no lugar central de nossa região, essa será uma opinião justa. Pois, juro por Deus, ele certamente vencerá—e vencerá plenamente.’ Mas o povo da tribo disse: ‘Deixe disso, irmão! Não nos empurre para uma tarefa cujo peso não temos capacidade de suportar.’

O Profeta (que a paz esteja com ele), depositando alguma esperança em Maysara, chamou-o e conversou com ele. Maysara disse: “Tuas palavras são muito belas e claras. Mas meu povo se opõe a mim. Se eles próprios não derem apoio, os outros ficarão ainda mais distantes.”

Muito tempo depois, quando Maysara encontrou o Profeta (que a paz esteja com ele) durante a Peregrinação de Despedida, ele o reconheceu. Disse: “Ó Mensageiro de Allah! Desde a primeira vez que foste ao nosso acampamento, sempre desejei obedecer-te. Mas aconteceu o que tinha de acontecer. Agora estou me tornando muçulmano com tamanho atraso.”

Assim, todas as tribos da Arábia permaneceram privadas daquela bênção, que alguns alcançaram indo a pé até ele. Voltaremos um pouco atrás para explicar por que o povo desta aldeia afortunada estava mentalmente preparado para aceitar o convite de Muhammad, o Árabe (que a paz esteja com ele).

A história inicial de Aus e Khazraj

No ano 450 ou 451 d.C., ocorreu uma grande inundação no Iêmen em consequência do rompimento da barragem ou dique de Marib. Por causa disso, um homem da tribo de Saba, chamado Amr ibn Amir, migrou para o norte com os membros de sua família. Os descendentes de um de seus filhos, Jufna, estabeleceram-se na região do Sham. Essa região passou a ser conhecida como Ghassan. Seu segundo filho, Haritha, passou a viver na extensa área situada entre as cordilheiras do Hijaz e o litoral do Mar Vermelho, lugar chamado Tihama. Seus descendentes ficaram conhecidos como Khuzaya. Entre os filhos de seu terceiro filho, Tha‘laba, havia um homem chamado Haritha, cujos dois filhos nasceram do ventre da mesma mãe, Kayla. Esses dois filhos chamavam-se Aus e Khazraj. Seus descendentes foram estabelecer-se em Yathrib (Medina), onde os judeus já haviam estabelecido seu domínio. Durante muito tempo, os judeus não permitiram que os descendentes de Aus e Khazraj entrassem na cidade propriamente dita nem em suas terras verdes e férteis. Por isso, eles passaram a viver com grande dificuldade nas terras áridas ao redor. Por fim, pediram ajuda aos seus parentes, os gassânidas. Estes vieram com tropas e expulsaram os judeus da cidade, abrindo espaço para Aus e Khazraj. Duas tribos judaicas — Banu Qurayza e Banu Nadir — foram obrigadas a viver nos arredores da cidade, enquanto uma terceira tribo, Banu Qaynuqa, sob a proteção da tribo de Khazraj, passou a viver em um bairro da cidade. Quando Banu Qurayza e Banu Nadir viram que sua tribo rival, Banu Qaynuqa, havia se tornado aliada de Khazraj, fizeram um pacto com a tribo de Aus e tornaram-se suas aliadas. Depois disso, Aus e Khazraj viveram durante quase duzentos anos na mesma cidade que os judeus e em seus arredores. Durante esse período, embora essas duas tribos árabes fossem da mesma linhagem e estivessem unidas por laços matrimoniais, continuaram a guerrear entre si com base na ignorância pré-islâmica. As tribos judaicas também instigavam suas respectivas tribos aliadas a guerrear umas contra as outras. Isso porque os judeus consideravam benéficas as guerras entre Aus e Khazraj, e a união delas seria como uma sentença de morte para eles. Assim, ao longo de quase dois séculos, além de muitas guerras menores, ocorreram onze confrontos sangrentos. O último deles — a Batalha de Bu‘ath — ocorreu apenas cinco anos antes da Hégira (no oitavo ano da missão profética, 619 d.C.), e nela morreram os principais chefes de ambas as tribos. [Segundo o relato de Ibn Sa‘d, a Batalha de Bu‘ath ocorreu seis anos antes da Hégira. Bu‘ath era o nome de um lugar, de uma pequena fortaleza ou de um campo de cultivo situado a duas milhas de Medina, próximo de Banu Qurayza. Em um dos lados estava a tribo de Aus, cujo chefe era Hudayr, pai de Hadrat Usayd ibn Hudayr. Banu Qurayza e Banu Nadir participaram da batalha ao lado deles. Do outro lado estava a tribo de Khazraj, cujo chefe era Amr ibn Nu‘man al-Bayadi. Banu Qaynuqa, dos judeus, estava com eles. Aus foi vitoriosa na batalha. Contudo, ambos os lados sofreram perdas tão grandes que os homens sensatos perceberam que, se continuassem sendo inimigos uns dos outros daquela maneira, acabariam todos mortos na guerra. — O autor.] Apesar de todas essas guerras e conflitos, a influência religiosa dos judeus sobre os habitantes de Medina era tão grande que, quando uma mulher perdia um filho, fazia um voto de que, se tivesse outro filho, o tornaria judeu. Ibn Jarir mencionou essa situação em seu tafsir, citando Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Abu Dawud, al-Nasa’i, Ibn Abi Hatim e Ibn Hibban também citaram diversos relatos sobre o assunto, transmitidos por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Mujahis, Sa‘id ibn Jubayr, Sha‘bi, Hasan al-Basri e outros.

As consequências desse contexto histórico

A situação histórica resumida que foi apresentada produziu três efeitos importantes sobre Aus e Khazraj. Ao contrário de todas as demais tribos árabes, ela os havia preparado psicologicamente para aceitar o Islã; assim que surgiu a oportunidade, por essas razões, eles se inclinaram para esta religião e para seu convocador, Sayyiduna Muhammad (que a paz esteja com ele), assim como o sedento se inclina para a água.

O primeiro desses efeitos foi que, devido à convivência e ao contato prolongados com os judeus, palavras como revelação, Escritura e sharia, bem como seus significados, já lhes eram familiares. Por isso, essas coisas não lhes eram tão desconhecidas quanto eram para os demais árabes.

O segundo efeito, segundo os relatos de Ibn Hisham e al-Tabari, com referência a Ibn Ishaq, foi o seguinte: em suas conversas com os judeus vizinhos, eles frequentemente ouviam que esses homens (os judeus) aguardavam com extrema ansiedade a chegada de um profeta, cuja vinda havia sido predita em suas Escrituras celestiais. Eles costumavam suplicar: “Se ele vier em breve, o domínio das nações não judaicas chegará ao fim e começará a era de nosso próprio progresso.” Especialmente quando discutiam com Aus e Khazraj, diziam: “Em breve virá um profeta. Quando ele chegar, nós o seguiremos e, permanecendo ao lado dele, bateremos em vocês de tal modo que vocês ficarão como ficaram as tribos de ‘Ad e Iram.” O Alcorão também faz alusão a essas palavras deles:

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“e anteriormente pediam a vitória contra os próprios incrédulos.” (Al-Baqara: 89)

Essas palavras dos judeus haviam despertado entre o povo de Aws e Khazraj o desejo de que, se esse Profeta viesse, eles fossem os primeiros a adiantar-se e a prestar-lhe obediência, para que os judeus não se antecipassem a eles.

O terceiro efeito foi que eles estavam abatidos por causa da guerra civil e desejavam uma liderança capaz de criar união e fraternidade entre eles. Também se fez alusão a essa situação deles:

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— Estáveis à beira de uma cova de fogo, e Allah vos salvou dela. (Al Imran: 103)

Para pôr fim a esse perigo, os habitantes de Medina haviam chegado ao ponto de estar dispostos a fazer de Abdullah bin Ubayy, chefe dos Khazraj, o seu rei, para que suas divergências fossem resolvidas e todos se unissem sob o governo de um só homem. Nessa situação, finalmente chegou diante deles a bênção que, na realidade, desejavam. (Ibn Hisham, vol. 2, p. 234)

O primeiro homem de Medina a encontrar-se com o Profeta (s)

Ibn Hisham e Tabari citaram, com base no relato de Ibn Ishaq por Asim bin Umar bin Qatada, que o primeiro homem de Medina a encontrar-se com o Mensageiro de Allah (s) foi Suwa’id bin Samit. Devido à sua capacidade, bravura, talento poético e nobreza de linhagem, era conhecido entre seu povo como “Kamil”. Ibn Sa’d explica que, na época da Jahiliyyah, chamava-se “Kamil” a pessoa respeitada e sensata entre seu povo, capaz de expressar uma opinião correta, instruída e habilidosa no lançamento de flechas e na natação. (Tabaqat, vol. 3, p. 603)

Esse homem tinha laços de parentesco com o Mensageiro de Allah (s): sua mãe, Layla bint Amr, era irmã consanguínea de Salma bint Amr, mãe do avô do Profeta (s). Quando ele foi a Meca para o Hajj ou a Umrah, o Profeta (s), conforme o costume, encontrou-se com ele e apresentou-lhe o convite ao Islam. Ele disse: “Talvez o senhor também possua algo semelhante ao que eu tenho.” O Profeta (s) perguntou: “O que é?” Ele respondeu: “O Mujalla de Luqman”, isto é, a erudição e a perspicácia de Luqman. O Profeta (s) disse: “Recite-o para mim.” Ele o recitou. O Profeta (s) disse: “Estas são belas palavras. Contudo, o que tenho comigo é melhor do que isso. É o Alcorão, que Allah revelou sobre mim. Ele é orientação e luz.” Em seguida, o Profeta (s) recitou o Alcorão para ele e convidou-o ao Islam. Sem se afastar disso, ele disse: “Verdadeiramente, estas são palavras muito belas.” Depois, voltou para Medina. Algum tempo mais tarde, os Khazraj o mataram. Isso ocorreu antes da batalha de Bu’ath. [Al-Baladhuri afirma em Ansab al-Ashraf que a batalha de Bu’ath ocorreu por causa do assassinato de Suwa’id — o autor.]

Encontro com outra delegação de Medina

Ibn Hisham e al-Tabari citaram, sob a autoridade de Muhammad ibn Ishaq, o relato de que, antes da batalha de Bu’ath, quando o fogo da hostilidade entre Aws e Khazraj estava prestes a se acender, uma delegação de Banu Abd al-Ashhal, um ramo dos Aws, chegou a Meca sob a liderança de Abu al-Haysar — ou Haysar — para fazer dos coraixitas seus aliados contra os Khazraj. Ao tomar conhecimento de sua chegada, o Profeta (que a paz esteja com ele) foi ao encontro deles. Ele lhes disse: “Quereis aceitar algo melhor do que aquilo por que viestes aqui?”

Eles perguntaram: “O que é isso?” O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “Sou o Mensageiro enviado por Allah aos Seus servos. Vim convidá-los a não adorar ninguém além d’Ele e a não associar ninguém a Ele. Um Livro foi revelado a mim.”

Depois, ele lhes ensinou alguns preceitos do Islã e recitou o Alcorão para eles. Entre os membros da delegação estava também um jovem, Iyas ibn Mu’adh. Ao ouvir as palavras do Profeta (que a paz esteja com ele), ele disse: “Ó povo, isto é melhor do que aquilo por que viestes aqui.” Mas Abu al-Haysar pegou um pouco de terra do vale, atirou-a no rosto dele e disse: “Poupa-nos desta conversa. Viemos tratar de outra coisa.”

Iyas permaneceu em silêncio, e o Profeta (que a paz esteja com ele) levantou-se e partiu. Depois que aqueles homens voltaram a Medina, começou a batalha de Bu’ath. Pouco tempo depois, Iyas morreu. Os que estavam presentes no momento de sua morte disseram que, até o último instante, ouviram de seus lábios a glorificação e a proclamação da unicidade de Allah. Por isso, não tinham dúvida alguma de que Iyas havia retornado daquela reunião tendo aceitado o Islã e de que dera seu último suspiro no Islã.

Alguns pormenores do relato desse acontecimento apresentados por Ibn Sa’d, sob a autoridade de al-Waqidi, são adicionais ao relato de Ibn Ishaq. Deles se sabe que a delegação de Banu Abd al-Ashhal estava hospedada em Meca na casa de Utba ibn Rabi’a. Ele os recebeu com grande honra. Quando lhe propuseram um pacto de amizade, ele o recusou, dizendo que seu território ficava muito distante do território deles. Quando o pedido de ajuda deles chegasse até ali, o inimigo já teria concluído sua tarefa. Ele acrescentou: “O mesmo acontecerá conosco.”

Al-Waqidi também afirma que, quando Iyas propôs aceitar o Islã, Abu al-Haysar, enquanto jogava terra sobre ele, disse: “Viemos para conseguir os coraixitas como aliados contra nosso inimigo, e tu queres que voltemos fazendo dos coraixitas nossos inimigos.”

O relato de al-Waqidi também acrescenta que os que ouviram Iyas recitar a glorificação e a proclamação da unicidade de Allah no momento de sua morte foram Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele), Salama ibn Salama ibn Waqsh (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abu Hashim ibn ‘Utayhan.

A aceitação do Islã pelo primeiro grupo dos Ansar e o primeiro juramento de Al-Aqaba

No décimo primeiro ano da missão profética (620 d.C.), durante o Hajj, o Profeta (S) dirigiu-se a Mina, como de costume, com o propósito de encontrar-se com as tribos árabes. Enquanto circulava, chegou até um grupo da tribo dos Khazraj, próximo de Al-Aqaba (Al-Aqaba é o nome dado a uma passagem montanhosa. A passagem mencionada aqui situa-se na região de Mina, no caminho para Meca — o autor). Ibn Hisham e At-Tabari, citando Muhammad ibn Ishaq, relatam que o Profeta (S) lhes perguntou: “Quem são vocês?” Eles responderam: “Alguns homens dos Khazraj.” O Profeta (S) disse: “Sentar-se-ão um pouco, para que eu possa falar com vocês?” Eles responderam: “Certamente.” Então sentaram-se junto ao Profeta (S). Ele os convidou para Allah, apresentou-lhes o Islã e recitou-lhes o Alcorão. Eles disseram uns aos outros: “Irmãos, saibam que este é o Profeta cuja vinda os judeus costumavam anunciar como uma ameaça contra vocês. Não permitamos que eles nos precedam.” Em seguida, plenamente satisfeitos, aceitaram seu convite, reconheceram sua veracidade e creram no Islã que ele lhes apresentou. Depois disseram: “Deixamos nosso povo numa situação tal que não há povo algum entre o qual exista maior hostilidade mútua do que entre nós. Talvez Allah os una por seu intermédio. Estamos voltando para eles; vamos convidá-los em seu nome e apresentar-lhes a religião que aceitamos. Se Allah os unir por sua causa, ninguém será mais poderoso do que você.”

Em alguns relatos, isso é apresentado da seguinte forma: depois do juramento, o Profeta (S) lhes perguntou: “Dar-me-ão seu apoio, para que eu possa transmitir a mensagem do Senhor?” Eles responderam: “Ó Mensageiro de Allah! A guerra de Bu’ath acabou de ocorrer entre nós. Se você for para lá nessa situação, será difícil reunir o povo. Por enquanto, permita que voltemos para nosso próprio povo. Talvez Allah melhore nossas relações mútuas. Nós também transmitiremos ao povo o convite para o qual você nos convidou. Talvez Allah os reúna por sua causa. Então ninguém será mais poderoso do que você. Agora, encontraremos você no Hajj do próximo ano.”

Ibn Ishaq, Ash-Sha’bi e Az-Zuhri dizem que eles eram seis. Ibn Sa’d também citou o relato de Al-Waqidi de que eram seis. A lista deles é a seguinte:

Da tribo dos Banu Malik ibn An-Najjar:

1. Abu Usama As’ad ibn Zurara (mesmo na época da ignorância, ele era monoteísta e se opunha à adoração de ídolos.)

2. Awf ibn Al-Harith ibn Rifa’a — o nome de sua mãe era Afra.

Da tribo dos Banu Zurays:

3. Rafi bin Malik (na época da jahiliyyah era chamado de “Kamil”)

4. Qutba bin Amir bin Hadida.

Da tribo Banu Haram bin Ka’b—

5. Uqba bin Amir bin Nabi.

Da tribo Banu Ubaid bin Adi—

6. Jabir bin Abdullah bin Rayab.

Ibn Abd al-Barr afirma que alguns conhecedores da Sira registraram o nome de Hazrat Ubadah bin Samit em lugar de Jabir bin Rayab. Juntamente com Musa bin Zurara e Rafi bin Malik, incluíram os nomes de Muadh bin Afra, Yazid bin Tha’laba, Abu al-Haytham bin al-Tayyihan e Uwaym bin Sa’ida; depois, citando uma narração fraca, dizem que se afirma que Ubadah bin Samit e Zaqran bin Abd Qays também estavam entre eles. Contudo, a maioria dos eruditos aceitou a narração de Muhammad bin Ishaq, e no Fath al-Bari, Hafiz Ibn Hajar deu preferência a essa narração sobre as demais.

Além do relato acima mencionado de Ibn Sa’d e Waqidi, Ibn Sa’d também citou três outros relatos sobre a aceitação do Islã pelos habitantes de Medina:

1. As’ad bin Zurarah e Zakran bin ‘Abd Qais foram primeiro a Meca, à presença de ‘Utbah bin Rabi‘ah, para confrontá-lo em orgulho e arrogância, conforme o costume da época da Jahiliyyah. Contudo, antes de se encontrarem com ‘Utbah, ouviram as palavras do Mensageiro de Allah (S) e encontraram-se com ele, tornando-se muçulmanos. Depois, Hazrat As’ad foi a Medina e falou do Islam a Abu’l-Haitham bin at-Taiyihan; eles também aceitaram o Islam. Em seguida, ele juntou-se aos seis que se encontraram com o Profeta (S) em Aqabah.

2. Primeiro, Rafi‘ bin Malik az-Zuraqi e Mu‘adh bin ‘Afra foram a Meca para realizar a ‘umrah. Lá, ouviram falar do Profeta (S). Depois, encontraram-se com ele e tornaram-se muçulmanos.

3. Em Mina, o Profeta (S) encontrou não seis, mas oito homens de Medina. Eram os oito cujos nomes mencionamos acima, citando Musa bin ‘Uqbah.

A chegada da segunda delegação de Medina e o segundo juramento de fidelidade de Aqabah

Ibn Sa‘d e Ibn Ishaq dizem que, quando o primeiro grupo que havia aceitado o Islam em Aqabah retornou a Medina, começou ali a conversar e discutir sobre o Islam. Assim, não restou nenhum bairro entre os bairros dos Ansar onde o Mensageiro de Allah (S) não fosse mencionado. No ano seguinte (no décimo segundo ano da Profecia), durante o Hajj, doze homens de Medina encontraram-se com o Profeta (S) no mesmo local de Aqabah onde ele havia se encontrado com os homens de Khazraj. Cinco deles eram os que haviam aceitado o Islam no ano anterior (Jabir bin ‘Abdullah bin Ri’ab não veio desta vez). Dos sete restantes, cinco eram de Khazraj e dois eram de Aws. Seus nomes são os seguintes:

Da tribo Banu an-Najjar, de Khazraj — 1. Mu‘adh al-Harith bin Rifa‘ah.

Da tribo Banu Zurain, de Khazraj — 2. Zakran bin ‘Abd Qaim. Ibn Sa‘d e Ibn Hisham dizem que ambos vieram de Medina a Meca, permaneceram com o Profeta (S) e emigraram com ele.

Da tribo Banu ‘Awf bin ‘Amr, de Khazraj — 3. ‘Ubadah bin as-Samit.

Dos Khazraj — 4. Yazid bin Tha‘laba.

Dos Banu Salim bin Awf, dos Khazraj: 5. Abbas bin Ubada bin Nadla (Ibn Ishaq diz que ele também permaneceu com o Mensageiro (s) e emigrou com ele.

Dos Banu Abd al-Ashhal, dos Aws — 6. Abu al-Haytham bin al-Tayyihan (ele era monoteísta ainda na época da jahiliyyah e se opunha à adoração de ídolos.

Dos Banu Amr bin Awf, dos Aws — 7. Waim bin Sa‘ida.

O juramento de fidelidade que o Mensageiro (s) recebeu dessas pessoas nessa ocasião é conhecido como “Bay‘at al-Nisa”. Isso porque suas palavras são bastante semelhantes às do juramento de fidelidade que, alguns anos depois desse acontecimento, foi ordenado no versículo 12 da Surata al-Mumtahana às mulheres muçulmanas. Ibn Ishaq cita a narração de Ubada bin Samit (ra), segundo a qual o Mensageiro (s) recebeu deles o juramento sobre estas questões:

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Não associaremos ninguém a Allah; não roubaremos; não cometeremos adultério; não mataremos nossos próprios filhos; não apresentaremos, com nossas próprias mãos e pés, nenhuma calúnia forjada contra ninguém; e não desobedeceremos ao Mensageiro de Allah (s) em nenhum ato reconhecidamente bom. Ouviremos e obedeceremos às suas ordens, estejamos na prosperidade ou na adversidade, sejam essas ordens fáceis ou difíceis para nós, e mesmo que alguém seja preferido a nós. Não discutiremos nem contenderemos com o governante acerca da autoridade. (No Musnad de Ahmad, acrescenta-se: “ainda que vocês pensem ter direito no sistema de governo”. Em al-Bukhari, acrescenta-se: “ou caso vejam uma incredulidade manifesta”.) E, onde quer que estejamos e em qualquer situação, diremos a verdade e não temeremos a censura de nenhum censurador. Portanto, se cumprirem este juramento, haverá para vocês o Paraíso. Mas, se alguém cometer algum ato proibido, seu caso estará nas mãos de Allah. Se Ele quiser, perdoará; e, se quiser, castigará. (Em uma narração consta: se vocês cometerem algum ato proibido, forem descobertos e forem punidos por isso neste mundo, essa punição será uma expiação pelo pecado. Mas, se esse pecado permanecer oculto para vocês até o Dia da Ressurreição, então o caso de vocês estará nas mãos de Allah Todo-Poderoso: se quiser, poderá castigá-los; e, se quiser, poderá perdoá-los.)

Várias partes deste hadith encontram-se em al-Bukhari — no Livro da Fé, nos capítulos sobre as virtudes dos Ansar, no Livro das Penas Legais, no Livro das Provações e no Livro dos Julgamentos; em Muslim — no Livro das Penas Legais e no Livro da Autoridade; e no Musnad de Ahmad — na narração de Ubada bin Samit.

Envio de Musab ibn Umair para Medina

Ibn Jarir e Ibn Hisham citaram este relato de Muhammad ibn Ishaq: quando essas pessoas estavam retornando a Medina, o Mensageiro de Deus (s) enviou com elas também Hazrat Musab ibn Umair, para que lhes ensinasse o Alcorão, lhes ensinasse o Islam e lhes proporcionasse compreensão da religião. Assim, Musab (ra) foi a Medina e passou a hospedar-se na casa de Asad ibn Zurarah (ra).

Em contraste, no relato de Musa ibn Uqbah consta que, depois de chegarem a Medina, eles enviaram Muadh ibn Afra (ra) e Rafi ibn Malik (ra) ao Profeta (s), com o objetivo de que fosse enviado a Medina alguém que lhes ensinasse a religião. Depois desse pedido, ele enviou Hazrat Musab (ra). Bayhaqi citou, por intermédio de Ibn Ishaq, um relato um pouco diferente. Nele consta que eles escreveram ao Profeta (s): “Envie-nos alguém para nos ensinar a nossa religião”. Como resultado, Hazrat Musab foi enviado. Ibn Sad também transmitiu o mesmo relato, por intermédio de Waqidi.

Depois do segundo juramento de Aqaba, ao retornarem a Medina, os Ansar começaram a propagar o Islam rapidamente, sob a liderança de Hazrat Musab ibn Umair. Ibn Sad, citando Waqidi, afirma que Muhammad ibn Maslamah (ra), pertencente a Abbad ibn Bishr ibn Waqsh, dos Banu Abd al-Ashhal, e aos seus aliados por tratado, aceitou o Islam pelas mãos de Hazrat Musab. Depois, o chefe dos Banu Abd al-Ashhal, Sad ibn Muadh, e Usaid ibn Hudair tornaram-se muçulmanos pelas mãos dele no mesmo dia. Como resultado da conversão de Sad, todo o seu clã tornou-se muçulmano. Até no bairro dos Banu Abd al-Ashhal não restou uma única pessoa não muçulmana. Ibn Hisham, a partir de Ibn Ishaq, e Tabari, a partir de Hazrat Sad, narraram uma interessante história sobre a conversão de Hazrat Usaid ao Islam.

Certo dia, Asad ibn Zurarah foi com Hazrat Musab a um dos jardins de Banu Zufar, um ramo da tribo de Aws. Muitos daqueles que haviam se tornado muçulmanos reuniram-se ali. Quando Sad ibn Muadh e Usaid ibn Hudair souberam disso, Sad disse a Usaid: “Vá até esses dois homens — Asad e Musab — que vieram ao nosso povoado e estão enganando os fracos. Repreenda-os e proíba-os de vir à nossa região. Se não fosse Asad ibn Zurarah, eu mesmo iria até lá. Mas você sabe que ele é meu primo materno. Por isso, não quero ir diante dele.” Ao ouvir isso, Usaid foi até lá levando sua arma. Ao vê-lo chegar, Asad disse a Musab: “Este é o chefe de seu povo. Portanto, cumpra devidamente o dever de transmitir-lhe a palavra de Deus.” Hazrat Musab disse: “Se ele se sentar, falarei com ele.” Usaid aproximou-se deles e, permanecendo rudemente de pé diante deles, disse: “Por que vocês dois vieram aqui? Estão enganando os fracos do nosso povo. Se desejam o bem, nunca mais voltem para este lado.”

Musab disse: “Você não se sentaria para ouvir o que temos a dizer? Se gostar do que ouvir, aceite; caso contrário, não faremos aquilo de que você não gosta.” Usaid disse: “Você falou com justiça.” Em seguida, fincou sua arma no chão e sentou-se perto dele. Hazrat Musab ensinou-lhe os princípios do Islam e recitou-lhe o Alcorão. Hazrat Asad (ra) e Hazrat Musab (ra) disseram: “Por Deus, ao vermos a alegria no rosto de Usaid e a suavidade de suas palavras, compreendemos que o Islam havia entrado em seu coração.” Depois de ouvir tudo, ele disse: “Que palavra bela e excelente! O que vocês fazem quando entram nesta religião?” Ambos responderam: “Tome um banho e purifique o corpo, purifique também suas roupas, testemunhe a verdade e depois faça a oração.” Ele levantou-se imediatamente, lavou-se e purificou-se, recitou o testemunho de fé e fez duas rakats de oração. Depois começou a dizer: “Há ainda outro homem atrás de mim. Se ele aceitar obedecer a vocês, ninguém de seu povo se oporá a vocês. Vou até ele e o enviarei para junto de vocês.” Dito isso, Usaid (ra) tomou sua arma e dirigiu-se a Sad ibn Muadh, que estava sentado com as pessoas de seu povo reunidas ao seu redor. Ao vê-lo chegar, Sad disse: “Juro por Deus que este não é o rosto com que ele partiu.”

Quando Usaid chegou e ficou diante do local onde eles estavam reunidos, Sad perguntou: “O que aconteceu?” Ele respondeu: “Conversei com aqueles dois homens. Não vi nada de ruim neles. Quando lhes proibi [de continuar vindo], eles disseram: ‘Faremos tudo o que você quiser.’” Então Usaid disse: “Eu soube que os Banu Haritha saíram para matar Asad ibn Zurarah, pois sabem que Asad é seu primo materno e querem humilhá-lo.”

Assim que ouviu isso, Sad ficou terrivelmente irado e, com a arma na mão, começou a avançar rapidamente, para chegar até seu irmão — seu primo materno — antes do ataque dos Banu Haritha. Enquanto caminhava, disse a Usaid: “Juro por Deus, acho que não adiantou nada enviar você.”

Hazrat As’ad bin Zurara, ao vê-lo aproximar-se de longe, disse a Hazrat Mus’ab: “Este é um chefe seguido por todo o seu povo. Se ele se tornar muçulmano, não haverá sequer duas pessoas entre eles que não possam deixar de aceitar o Islã.”

Quando Sa’d chegou ao local e viu As’ad e Mus’ab sentados tranquilamente, compreendeu que o verdadeiro objetivo de Usaid era fazê-lo ouvir o que eles tinham a dizer. Furioso, colocou-se diante deles e disse a As’ad bin Zurara: “Abu Usama, se não houvesse parentesco entre mim e você, este homem (Mus’ab) não escaparia das minhas mãos. Você quer impor em nossa própria casa algo que não apreciamos?”

Hazrat Mus’ab disse: “Você não poderia sentar-se e ouvir o que temos a dizer? Se gostar, aceite; caso contrário, afastaremos de você aquilo de que não gosta.”

Sa’d disse: “Você falou com justiça.” Em seguida, fincou sua arma no chão e sentou-se. Hazrat Mus’ab apresentou-lhe o Islã e recitou o Alcorão para ele. Hazrat As’ad e Hazrat Mus’ab disseram: “Antes mesmo de ele falar, percebemos, pela alegria e suavidade em seu rosto, que o Islã o havia tocado.” Depois de ouvir tudo, Sa’d perguntou: “O que vocês fazem para entrar nesta religião?” Eles lhe disseram o mesmo que haviam dito a Usaid. Então ele se purificou, recitou a profissão de fé, fez duas rak’ahs de oração, tomou sua arma e partiu em direção à assembleia de seu povo.

Quando Hazrat Sa’d chegou junto de seu povo, eles exclamaram: “Este não é o mesmo semblante com que Sa’d partiu daqui.” Ao aproximar-se deles, ele disse: “Ó povo dos Banu Abd al-Ashhal! O que vocês sabem sobre mim entre vocês?” Todos responderam: “Você é nosso chefe. Entre nós, é quem mais demonstra bondade e benevolência para com os parentes. É quem dá as opiniões mais corretas entre nós e o mais sensato e experiente para nós.” Ao ouvir isso, Sa’d disse: “Enquanto vocês não crerem em Allah e em Seu Mensageiro, será ilícito para mim falar com seus homens e mulheres.” Antes do anoitecer, todos os homens e mulheres dos Banu Abd al-Ashhal aceitaram o Islã. Apenas um homem, Amr bin Thabit, permaneceu não muçulmano. Ele creu durante a batalha de Uhud e foi martirizado antes de ter a oportunidade de prostrar-se. O Profeta disse: “Ele está entre os habitantes do Paraíso.” Deve-se observar que não havia sequer um hipócrita entre os Banu Abd al-Ashhal. Ibn Sa’d, citando al-Waqidi, diz que, depois de se tornarem muçulmanos, Hazrat Sa’d bin Mu’adh e Usaid bin Hudayr percorriam os Banu Abd al-Ashhal quebrando seus ídolos.

Ibn Ishaq disse: “Hazrat Mus’ab continuou pregando em Medina. Por fim, não havia sequer um bairro dos Ansar onde não se encontrassem homens e mulheres muçulmanos. Somente três ou quatro famílias não haviam aceitado o Islã até a batalha da Trincheira.”

O estabelecimento da oração de sexta-feira em Medina

Hazrat Ka’b bin Malik e Ibn Sirin disseram que, antes de ser ordenada a oração de sexta-feira, os Ansar de Medina decidiram entre si que realizariam uma oração coletiva uma vez por semana. Para esse fim, escolheram a sexta-feira, deixando de lado o sábado dos judeus e o domingo dos cristãos — na época da ignorância, ela era chamada de “Yawm Arubah”. A primeira oração de sexta-feira foi conduzida por Hazrat As’ad bin Zurara na região de Bayada, com a participação de quarenta pessoas (Musnad Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah, Ibn Hibban, Abd bin Hamid, Abd al-Razzaq, Bayhaqi, Ibn Hisham).

Ad-Daraqutni cita o relato de Abdullah ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) e diz que, quando foi ordenada a oração de sexta-feira em Meca, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) enviou uma instrução escrita a Musab ibn Umair (que Deus esteja satisfeito com ele), em Medina, ordenando-lhe que conduzisse duas rak‘at depois que o sol tivesse passado do meridiano. A razão pela qual foi ordenado que se estabelecesse a oração de sexta-feira em Medina era que, naquela época, não era possível realizá-la em Meca.

A última aliança de Aqaba

No décimo terceiro ano da missão profética (622 d.C., junho-julho), até a chegada do período da peregrinação no mês de Dhu al-Hijjah, o Islã já havia se difundido consideravelmente em Medina. O imame Ahmad e at-Tabarani citam o relato de Jabir ibn Abdullah al-Ansari (que Deus esteja satisfeito com ele), dizendo: “Durante dez anos, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) percorreu as feiras de Ukaz e Majannah e, durante a peregrinação, visitou as tendas de diferentes tribos. Nesses lugares, dizia: ‘Quem me dará abrigo junto de si e quem me ajudará, para que eu possa transmitir a mensagem do meu Senhor e, em troca, ele alcance o Paraíso?’ Mas ninguém se dispôs a ajudá-lo. Pelo contrário, quando alguém do Iêmen ou de Mudar saía em direção a Meca, seu povo ou seus parentes lhe diziam: ‘Mantenha-se um pouco afastado daquele jovem dos coraixitas, para que ele não o desvie nem o lance em tentação.’

“Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) passava junto às tendas deles, apontavam para ele com os dedos. Por fim, Deus nos enviou de Yathrib para junto do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), e nós o reconhecemos como verdadeiro. Depois, a situação chegou a tal ponto que alguém saía de casa, aceitava a fé e recitava o Alcorão; quando voltava para casa, os membros de sua família também se tornavam muçulmanos. Assim, não havia bairro dos Ansar onde não se encontrasse um grupo de muçulmanos e onde eles não proclamassem abertamente o Islã. Certo dia, reunimo-nos todos e começamos a dizer uns aos outros: ‘Até quando deixaremos o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) nessa situação, percorrendo os montes de Meca, sendo rejeitado em todos os lugares e não encontrando em parte alguma proteção e segurança?’ Então, setenta de nós foram à peregrinação, e ficou decidido que nos encontraríamos com ele em Aqaba. (O restante deste hadith será apresentado adiante.)”

O imame Ahmad, at-Tabarani, Ibn Jarir at-Tabari e Ibn Hisham citam, por intermédio de Muhammad ibn Ishaq, o relato de Kab ibn Malik (que Deus esteja satisfeito com ele): partimos para a peregrinação junto com os politeístas de nosso povo. Conosco estava também nosso chefe e ancião, Bara ibn Ma‘rur. No caminho, ele disse: ‘Tenho uma opinião, mas não sei se concordais com ela ou se pensais de modo diferente.’ Perguntamos: ‘Qual é?’ Ele respondeu: ‘Penso que devo orar voltado para a Caaba, em vez de lhe dar as costas.’ Dissemos: ‘Aprendemos com o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) que ele ora voltado para a Síria, isto é, para Bayt al-Maqdis. Não oraremos segundo o seu método.’ No entanto, ele continuou orando voltado para a Caaba, e nós continuamos a censurá-lo. Depois que chegamos a Meca, ele me disse: ‘Sobrinho, vamos encontrar-nos com o Mensageiro de Deus. Perguntar-lhe-ei sobre o que fiz, pois, por causa da vossa oposição, surgiu uma dúvida em meu coração.’ Nós nunca havíamos visto o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), nem o conhecíamos. Por isso, perguntamos a um homem de Meca onde ele se encontrava. Ele disse: ‘Conheceis o seu tio Abbas?’ Respondemos: ‘Sim’, pois ele costumava ir ao nosso território para comerciar. O homem disse: ‘Ide ao Santuário; vós o encontrareis sentado com Abbas.’

Chegamos ali e o cumprimentamos. Ele perguntou a Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele): ‘Conheces estes dois homens?’ Ele respondeu: ‘Sim. Este é Bara ibn Ma‘rur e este é Kab ibn Malik.’ Jamais esquecerei que, ao ouvir meu nome, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: ‘Kab?’ Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) respondeu: ‘Sim.’ Em seguida, Bara perguntou-lhe sobre sua questão. Depois, conforme a orientação do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), começou a orar voltado para a mesma qiblah para a qual o Mensageiro orava. Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) nos disse para nos encontrarmos com ele à noite em Aqaba, durante os dias de Tashriq. Naquela noite, deitamo-nos em nossas tendas. Depois que passou um terço da noite, partimos silenciosamente para encontrá-lo, pois queríamos manter o assunto em segredo perante os politeístas de nosso povo. Contudo, entre nossos chefes e homens nobres estava Abu Jabir Abdullah ibn Amr ibn Haram. Ele ainda seguia a religião de seus antepassados. Levamo-lo conosco e lhe dissemos: ‘Vós sois um de nossos chefes e homens nobres. Não queremos que sejais combustível do Inferno.’ Então lhe apresentamos o Islã e dissemos que estávamos indo encontrar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) em Aqaba. Ele aceitou o Islã imediatamente e participou conosco da aliança de Aqaba. Éramos então setenta e três homens, acompanhados de duas mulheres. Uma era Nasibah, ou Nusaybah, bint Kab, Umm Umarah, da tribo dos Banu Najjar. Esta mulher participou, juntamente com seu filho Abdullah, da batalha contra Musaylimah, o Mentiroso. Lutou pessoalmente, recebeu doze ferimentos no corpo e perdeu uma das mãos. Antes disso, seu filho Habib havia sido despedaçado e morto por Musaylimah. Este lhe perguntava: ‘Testemunhas que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) é o Mensageiro?’ Habib (que Deus esteja satisfeito com ele) respondia: ‘Sim.’ Quando Musaylimah perguntava: ‘Testemunhas que eu sou o mensageiro?’, ele respondia: ‘Não quero ouvir nada disso.’ Então Musaylimah cortava uma parte de seu corpo. A cada resposta, cortava outro membro. Assim, o tirano o cortou em pedaços e o matou. Contudo, ele jamais reconheceu aquele falso profeta como verdadeiro. (Ibn Hisham, vol. 2, pp. 108-109.) A outra era Asma bint Amr, Umm Mani, dos Banu Salimah.

Jabir (que Deus esteja satisfeito com ele) declarou que o número dos participantes dessa aliança era setenta e não mencionou mulheres. Ahmad e al-Bayhaqi também transmitiram essa versão por intermédio de Amir ash-Sha‘bi. Contudo, Kab ibn Malik (que Deus esteja satisfeito com ele) mencionou setenta e dois homens e duas mulheres, especificando também seus nomes. Ibn Ishaq acrescentou este detalhe: dos setenta e três homens, onze eram dos Aws e sessenta e dois dos Khazraj. Havia ainda duas mulheres. Uma delas era Nusaybah bint Kab, que estava acompanhada de seu marido, Zayd ibn Asim (que Deus esteja satisfeito com ele), e de seus dois filhos, Habib (que Deus esteja satisfeito com ele) e Ubaydullah (que Deus esteja satisfeito com ele). A segunda mulher era Asma bint Amr. A razão provável dessa divergência nos relatos é que os árabes geralmente mencionavam os números arredondando as frações. Quando a maioria do grupo era composta por homens, consideravam suficiente mencioná-los; se havia uma ou duas mulheres, costumavam omiti-las.

Ibn Sa‘d, citando al-Waqidi, reproduz o relato de Uwaim bin Sa‘idah, segundo o qual, quando chegamos a Meca, Sa‘d bin Khaythamah (que Allah esteja satisfeito com ele), Ma‘an bin Adi (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abdullah bin Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) disseram-me: “Vamos encontrar-nos com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e cumprimentá-lo, pois cremos nele, mas até agora ainda não o vimos.” Então saímos. Tinham-nos dito que ele estava hospedado na casa de Abbas bin Abdul Muttalib. Chegamos lá, cumprimentamo-lo e perguntamos: “Onde será o seu encontro com a nossa delegação, isto é, com o grupo vindo de Medina?” Hazrat Abbas disse: “Entre vós há também pessoas do vosso povo que se opõem a vós. Portanto, mantende o vosso assunto em segredo até que os peregrinos partam.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) propusera, para o encontro, aquela noite cuja manhã é chamada de ‘Yawm an-Nafr al-Akhir’ *****************, isto é, o último dia em que os peregrinos se despedem de Mina. Ele determinou a parte elevada de al-Aqabah. [Ibn Sa‘d diz que este é o lugar onde atualmente existe uma mesquita. (Tabaqat de Ibn Sa‘d, edição impressa em Beirute, 1957 d.C., volume 1, p. 221.) Ibn Sa‘d nasceu em 168 da Hégira e faleceu em 230 da Hégira. Isso significa que essa mesquita já existia no segundo século da Hégira. Essa mesquita ainda existia quando Muhammad Husayn Haykal visitou o Hijaz em 1936. Ele menciona isso na p. 111 de sua obra Fi Manzil al-Wahy, ao falar da Mesquita de al-Aqabah. Infelizmente, hoje não se encontra em parte alguma qualquer vestígio ou sinal dela — o autor.] Foi dada a instrução de não acordar ninguém que estivesse dormindo e de não esperar por quem não tivesse chegado.

Todos os relatos sobre o Juramento de al-Aqabah concordam que, quando essas pessoas chegaram secretamente ao local designado, em grupos de dois ou quatro, durante a noite, depositaram nele a sua confiança, embora naquela época ele ainda fosse publicamente não muçulmano. [Ibn Sa‘d reproduziu o relato de Abu Rafi‘ (que Allah esteja satisfeito com ele), servo do Mensageiro de Allah. Ele disse: “Quando eu ainda era servo de Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), o Islão entrou em nossa casa. Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), sua esposa Umm al-Fadl e eu tornamo-nos muçulmanos. Contudo, Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) manteve em segredo a sua conversão. Depois da batalha de Badr, enquanto havia luto nas casas dos incrédulos, havia alegria em nossa casa” — o autor.] Ele viera a este lugar, em uma situação tão delicada, para que todos os assuntos fossem plenamente acertados antes de o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partir para Medina.

Segundo os relatos do Imame Ahmad, al-Bayhaqi e Amir ash-Sha‘bi, quando todos se reuniram, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem quiser falar, que seja breve; não prolongue a conversa, pois os espiões dos idólatras estão à vossa procura.”

Hazrat Ka‘b bin Malik, cujo relato já citamos acima, citando o Imame Ahmad, Ibn Jarir, at-Tabari e Ibn Hisham, ao narrar os acontecimentos seguintes desse relato, diz que Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o primeiro a falar. Ele disse: “Ó povo de Khazraj [naquela época, a reunião de Aws e Khazraj era chamada de Khazraj — o autor.], vós conheceis a posição que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocupa aqui. Contra aqueles do nosso povo que têm a mesma posição que ele a respeito dele (isto é, que não aceitaram o Islão), nós — os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib — apoiamo-lo e demos-lhe proteção. Por isso, ele possui uma posição firme entre o seu povo e está em um lugar seguro na cidade. Contudo, ele não aceita nada além de ir convosco. Se pensais que cumprireis o pacto e a promessa com base nos quais o convidais e que o protegereis contra os seus opositores, então assumi a responsabilidade que estais a aceitar. Mas, se, depois de ele sair daqui e se juntar a vós, em algum momento temerdes que sereis obrigados a abandonar a sua companhia e entregá-lo aos inimigos, então será melhor deixá-lo agora mesmo. Pois ele possui uma posição firme entre o seu povo e vive em um lugar seguro na cidade.”

Dissemos: “Ouvimos as suas palavras. Agora, ó Mensageiro de Allah, diga-nos e tome de nós o pacto e a promessa que deseja.”

Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou o Alcorão em seu discurso, convocou-os para Allah, inspirou-os ao Islão e, em seguida, disse: “Tomo de vós o juramento de que me apoiareis e protegereis exatamente como protegeis as vossas próprias vidas e os vossos filhos.”

Bara bin Ma‘rur (que Allah esteja satisfeito com ele) tomou a mão do Mensageiro entre as suas mãos e disse: “Sim, por Aquele que vos enviou com a verdade, proteger-vos-emos de tudo aquilo de que protegemos a nós mesmos e aos nossos filhos. Portanto, ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), aceite de nós o juramento. Somos homens experimentados na guerra. Herdámos isso dos nossos antepassados.”

Abul Haytham bin at-Tayyihan [alguns escreveram a pronúncia como ‘at-Tayyahan’, e outros como ‘at-Tihan’ — o autor.] interveio e disse: “Ó Mensageiro de Allah, temos relações amistosas com outros povos — os judeus —, e vós sereis aquele que as romperá. Depois, que não aconteça que, quando Allah vos conceder a vitória, nos abandoneis e volteis para o vosso próprio povo.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sorriu levemente e disse: “Não, não. Pelo contrário: agora, sangue com sangue e sepultura com sepultura. Isto é, a minha morte e a minha vida serão convosco. Eu sou vosso e vós sois meus. Aqueles contra quem lutardes serão também aqueles contra quem lutarei; e com aqueles com quem fizerdes paz, também farei paz.”

Na narração de Hazrat Jabir ibn Abdullah al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele), que citamos anteriormente com base no Musnad de Ahmad e em al-Tabarani, ele prossegue dizendo: quando todos nós nos reunimos em Aqaba, perguntamos: “Ó Mensageiro de Allah! Em que assunto devemos prestar-te a bai‘at?” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Que obedecereis e seguireis as ordens em todas as circunstâncias, boas ou más; gastareis vossas riquezas em todas as situações, na prosperidade e na adversidade; ordenareis o bem e proibireis o mal; direis a verdade a respeito de Allah e não temereis a censura de nenhum censurador. E prestareis o juramento de que, quando eu for ter convosco, cada um de vós me protegerá daquilo contra o qual protegeis vossas próprias vidas e vossos filhos. Em troca disso, tereis o Paraíso.” Ao ouvirmos essas palavras, levantamo-nos e avançamos em sua direção. Aswad ibn Zurara (que Allah esteja satisfeito com ele), o jovem mais novo do grupo (na versão de al-Bayhaqi, as palavras são: “o mais jovem de todos, exceto eu”), tomou a mão do Mensageiro de Allah entre as suas e disse: “Ó povo de Yathrib, parai! Não viemos correndo em nossos camelos até ele com outro propósito senão porque sabemos que ele é o Mensageiro de Allah. Levá-lo hoje daqui convosco significa comprar a inimizade de toda a Arábia. Como consequência, vossos jovens serão mortos e vossas espadas ficarão tingidas de sangue. Portanto, se tendes força para suportar tudo isso, segurai sua mão; vossa recompensa está nas mãos de Allah. Mas, se temeis por vossas vidas, abandonai desde já essa intenção e apresentai uma desculpa clara, pois, neste momento, uma desculpa ou objeção será mais aceitável diante de Allah.” Então todos exclamaram: “Aswad, afasta-te do nosso caminho! Por Allah, jamais abandonaremos esta bai‘at, nem retiraremos nossas mãos da mão dele.” Em seguida, todos prestaram o juramento. Al-Hakim, al-Bazzar e al-Bayhaqi também transmitiram esta narração.

Ibn Jarir al-Tabari cita a narração de Muhammad ibn Ishaq, transmitida por Ibn Hisham, por intermédio de Asim ibn Umar ibn Qatada: no momento da bai‘at, Abbas ibn Ubada ibn Nadla al-Ansari disse: “A resposta dos Khazraj foi: ‘Sim, sabemos.’” Abbas, enfatizando suas palavras, disse: “Estais prestando um juramento para lutar contra todos, brancos e negros; isto é, ao fazer esta bai‘at, estais convocando uma luta contra o mundo inteiro. Agora, se pensais que, quando vossos bens estiverem ameaçados de destruição e houver o risco de destruição de vossos nobres, entregareis este homem às mãos do inimigo, então é melhor abandoná-lo hoje mesmo. Por Allah, isso será causa de humilhação neste mundo e no Além. Mas, se pensais que, apesar do risco de destruição de vossos bens e de vossos nobres, assumireis plenamente a responsabilidade por este homem, com o compromisso pelo qual o convidais a ir convosco, então segurai sua mão. Por Allah, isso será o melhor para este mundo e para o Além.” Todos os presentes concordaram e disseram: “Estamos preparados para lançar nossos bens e nossos nobres ao perigo por causa dele.” Então perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Se cumprirmos nossa promessa, qual será nossa recompensa?”

Ele respondeu: “O Paraíso.”

Ibn Sa‘d cita, por intermédio de Waqidi, a narração de Hazrat Muadh ibn Rifa‘a ibn Rafi‘: quando todos se reuniram no local de Aqaba, Abbas ibn Abd al-Muttalib, tio do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), iniciou o discurso desta forma: “Ó grupo dos Khazraj! Vós convidastes Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para ir convosco. A situação é que Muhammad possui a mais elevada posição entre sua família e seus parentes. Entre nós, tanto os que aceitaram sua religião quanto os que não a aceitaram, todos o protegem em razão de sua nobre linhagem. Contudo, Muhammad deseja deixar todos e ir somente convosco. Portanto, compreendei bem a situação e tomai uma decisão após refletir. Consultai-vos mutuamente e chegai a uma decisão de comum acordo, pois a melhor palavra é a palavra verdadeira.”

Então Hazrat Abbas perguntou: “Dizei-me: como lutais contra o inimigo?” Todos permaneceram em silêncio. Abdullah ibn Amr ibn Haram — que havia aceitado o Islã pouco antes da bai‘at de Aqaba — respondeu à pergunta. Ele disse: “Por Allah, somos um povo guerreiro. A guerra tornou-se parte de nossa natureza e estamos acostumados a ela. Nós a herdamos de nossos antepassados. Primeiro lutamos com arcos; quando as flechas acabam, lutamos com lanças. Depois que estas terminam, começamos o combate com espadas. Com essas espadas enfrentamos o inimigo. Depois disso, aquele cuja morte chegar primeiro aceita a morte.”

Hazrat Abbas disse: “Verdadeiramente, sois um povo de guerreiros.” Então Bara ibn Ma‘rur disse: “Ouvimos o que dissestes. Por Allah! Se tivéssemos qualquer outra intenção em nossos corações, nós a declararíamos claramente. Queremos cumprir sinceramente nossa promessa ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e dar nossas vidas por ele.”

Em outra narração, Waqidi cita estas palavras do discurso de Hazrat Bara ibn Ma‘rur: “Possuímos abundantes armas de guerra e força para lutar. Quando adorávamos ídolos de pedra, já éramos assim; quanto mais agora, depois que Allah nos mostrou a verdade, enquanto os demais estão na escuridão, e nos ajudou por meio de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” (Adição do autor.)

A importância da Bai‘at de Aqaba

Este foi um acontecimento revolucionário na história do Islã, que Deus, por Sua benevolência, fez acontecer e do qual o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) aproveitou a oportunidade. Os habitantes de Yathrib estavam convidando o Profeta (que a paz esteja com ele) para sua cidade não simplesmente como alguém que buscava refúgio, mas como representante de Deus, além de seu líder e governante. E o convite que dirigiam aos seguidores do Islã não tinha por objetivo que ele encontrasse abrigo numa terra desconhecida apenas como um muhajir; ao contrário, pretendia-se que todos os muçulmanos espalhados pelas diversas tribos e regiões da Arábia fossem a Yathrib, se reunissem com os muçulmanos yathribitas e formassem uma sociedade islâmica organizada. Assim, Yathrib apresentou-se, na realidade, como a ‘Madinat al-Islam’ (Cidade do Islã), e o Profeta (que a paz esteja com ele) aceitou isso e estabeleceu na Arábia o primeiro Dar al-Islam. Os habitantes de Medina não desconheciam o significado de tudo o que estava envolvido nessa iniciativa. Seu significado claro era que uma pequena cidade estava se colocando diante do boicote militar, econômico e civilizacional de todo o país. Na verdade, naquela reunião na noite da Bai‘at de Aqabah, esses primeiros auxiliares do Islã (os Ansar) colocaram suas mãos nas mãos do Profeta (que a paz esteja com ele) plenamente conscientes desse resultado. Tudo isso ficou evidente em seus discursos. (Tafhim al-Qur’an, volume II, introdução à Surata al-Anfal.)

A motivação dos Ansar para oferecer a própria vida

Embora conhecessem muito bem o perigo que os aguardava, os Ansar de Medina não apenas não se perturbaram por causa da bai‘ah que haviam prestado ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), como se orgulhavam dela. E era tão grande entre eles a motivação para avançar à frente de todos nesse caminho que começaram a discutir sobre quem tivera a honra de colocar primeiro a mão na mão do Profeta (que a paz esteja com ele) no momento da bai‘ah. Ibn Ishaq afirma que os Banu Najjar reivindicavam que o primeiro a prestar a bai‘ah fora As‘ad ibn Zurarah (que Allah esteja satisfeito com ele). Os Banu Abd al-Ashhal reivindicavam que essa honra coubera a Abu al-Haytham ibn al-Tayyihan. Ibn Athir escreveu em Usd al-Ghabah que os Banu Salamah diziam que o primeiro a prestar a bai‘ah fora Ka‘b ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Sa‘d, citando al-Waqidi, afirma que começou uma disputa de orgulho entre os Aws e os Khazraj sobre se o primeiro a prestar a bai‘ah pertencia aos Aws ou aos Khazraj. Por fim, as pessoas disseram que ninguém conhecia esse assunto melhor do que Abbas ibn Abd al-Muttalib, pois ele estava com o Profeta (que a paz esteja com ele) naquela ocasião. Quando lhe perguntaram, ele respondeu: o primeiro a colocar a mão na mão do Profeta (que a paz esteja com ele) foi As‘ad ibn Zurarah, depois al-Bara ibn Ma‘rur e, em seguida, Usaid ibn Hudair.

Nomeação dos naqibs

Ao final do relato de Ka‘b ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), que citamos anteriormente, ele afirma que, depois da bai‘ah, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) nos disse: “Escolhei dentre vós doze naqibs e apresentai-mos a mim, para que sejam responsáveis por suas respectivas tribos.” Há no Tabaqat de Ibn Sa‘d um relato de Ibn Ishaq segundo o qual o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Eles serão os senhores de seu povo, assim como os hawariyyun de Jesus, filho de Maria, foram seus garantidores.” Há ainda no Tabaqat de Ibn Sa‘d outro relato, transmitido por al-Waqidi, segundo o qual Moisés (que a paz esteja com ele) escolheu doze naqibs dentre os filhos de Israel. De acordo com essa ordem do Profeta (que a paz esteja com ele), foram propostos ao todo doze homens: nove dos Khazraj e três dos Aws. Segundo o relato de Ibn Ishaq, a lista deles é a seguinte:

Dos Khazraj —

1. As‘ad ibn Zurarah (que Allah esteja satisfeito com ele). O Profeta (que a paz esteja com ele) nomeou-o líder dos naqibs (Naqib al-Nuqaba).

2. Sa‘d ibn al-Rabi‘ (que Allah esteja satisfeito com ele). Na época da Jahiliyyah, era um dos homens instruídos de Medina.

3. Abdullah bin Rawahah (que Allah esteja satisfeito com ele). Era chamado de ‘Kamel’.

4. Rafi‘ bin Malik (que Allah esteja satisfeito com ele). Na época da Jahiliyyah, era chamado de ‘Kamel’.

5. Bara bin Ma‘rur (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele faleceu pouco antes da Hégira. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou a oração fúnebre sobre seu túmulo.

6. Abdullah bin Amr bin Haram (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele abraçou o Islã na noite do Juramento de Aqabah.

7. Ubadah bin Samit (que Allah esteja satisfeito com ele).

8. Sa‘d bin Amr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele também sabia ler e escrever.

Entre os Aws—

1. Usaid bin Hudayr (que Allah esteja satisfeito com ele). Era chamado de ‘Kamel’.

2. Rifa’a bin Abdul Munzir (que Allah esteja satisfeito com ele). (Ibn Ishaq diz que os eruditos mencionaram Abu al-Haitham bin al-Taiyahan em seu lugar).

Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Ide cada um para o seu alojamento.»

A primeira reação dos coraixitas ao saberem da aliança

O Imame Ahmad, Ibn Jarir at-Tabari e Ibn Hisham citam o relato de Ka’b bin Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), transmitido por Muhammad bin Ishaq; e Al-Waqidi também cita um relato semelhante, com várias cadeias de transmissão, que Ibn Sa’d incluiu em seu Tabaqat. O relato é o seguinte: na mesma noite em que a aliança foi firmada em Aqaba, a notícia chegou aos ouvidos dos coraixitas e, pela manhã, seus líderes chegaram ao acampamento dos habitantes de Medina em Mina. Eles disseram: «Ó povo de Khazraj, chegou-nos a notícia de que vocês se encontraram com este nosso homem — Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Vocês pretendem levá-lo para longe de nós e juraram lealdade a ele para combater-nos. Por Deus! Entre os árabes não há povo contra o qual nos seja mais detestável lutar do que contra vocês.»

Em resposta, os habitantes de Medina que eram politeístas levantaram-se e, sob juramento, disseram: «Nada disso aconteceu; não sabemos nada a esse respeito.»

O que disseram era verdade, pois realmente nada sabiam a esse respeito. Mas os muçulmanos olhavam uns para os outros. Então os coraixitas foram até seu líder, Abdullah bin Ubayy, e perguntaram-lhe sobre o assunto. Ele respondeu: «É uma questão tão importante que meu povo não poderia realizá-la sem mim. Não sei que isso tenha acontecido.»

Os coraixitas não ficaram satisfeitos com essas respostas. Continuaram investigando secretamente. Depois tiveram certeza de que tal acontecimento realmente ocorrera. Quando os que haviam prestado a aliança estavam retornando a Medina, os coraixitas os perseguiram. Perto de Meca, no lugar chamado Azakhir, capturaram Sa’d bin Ubadah (que Allah esteja satisfeito com ele) e Munzir bin Amr (que Allah esteja satisfeito com ele). Munzir conseguiu escapar deles. Sa’d bin Ubadah, porém, foi detido, amarraram-lhe as mãos ao pescoço e o levaram a Meca, espancando-o durante o caminho.

Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Quando me tratavam daquela maneira em Meca, um jovem de tez clara e corpo robusto veio à minha frente (era Suhail bin Amr). Pensei: “Se houver alguma bondade em algum deles, estará neste.” Mas, ao aproximar-se de mim, ele me deu um soco muito forte. Pensei comigo: “Não há bondade alguma nele.” Enquanto me arrastavam, um homem me disse (era Abu al-Bakhtari Hisham): “Ó servo de Deus, você não tem algum pacto ou relação de proteção com alguém entre os coraixitas?” Respondi: “Em minha região, costumo dar proteção às caravanas comerciais de Jubair bin Mut’im e de Harith bin Umayya bin Abd Shams.” (Ibn Sa’d mencionou, no lugar de Jubair, seu pai, Mut’im bin Adi.) Ele disse: “Então invoque essa proteção e diga qual é a sua relação com ele.” Assim fiz. Então ele saiu à procura dos dois homens. Encontrou-os no recinto sagrado da Caaba e disse-lhes: “Um homem de Khazraj está sendo espancado no vale de Muhassab, entre Meca e Mina, e chama vocês dois pelo nome. Ele diz que existe entre ele e vocês uma relação de proteção.” Eles perguntaram: “Quem é esse homem?” Ele respondeu: “Sa’d bin Ubadah.” Ao ouvirem isso, ambos disseram: “Por Deus, ele está dizendo a verdade. Ele protegia nossos comerciantes e não permitia que ninguém os tratasse injustamente.” Eles foram e resgataram Ubadah das mãos dos opressores.»

Waqidi relata que, quando os Ansar souberam do desaparecimento de Sa‘d, voltaram-se em direção a Meca à sua procura. Porém, no caminho, viram Sa‘d retornando.

A propagação do Islã em Medina após o juramento de lealdade

Após retornarem a Medina, os Ansar começaram a propagar o Islã com grande rapidez e, movidos pelo fervor religioso, dedicaram-se a quebrar os ídolos. Ibn Sa‘d fornece um relato detalhado: Abu ‘Abs ibn Jabr e Abu Burda ibn Niyar destruíam os ídolos dos Banu Haritha; ‘Umara ibn Hazm, As‘ad ibn Zurara, ‘Awf ibn ‘Afra, Salit ibn Qays e Abu Siram, os ídolos dos Banu Najjar; Ziyad ibn Labid e Furwa ibn ‘Amr, os ídolos dos Banu Bayada; Sa‘d ibn ‘Ubada, Mundhir ibn ‘Amr e Abu Dujana, os ídolos dos Banu Sa‘ida; e Mu‘adh ibn Jabal, Tha‘laba ibn Ghanama e ‘Abdullah ibn Unays, os ídolos dos Banu Salima. Pode-se deduzir disso que, naquela época, os muçulmanos haviam adquirido tamanha influência sobre os politeístas de Medina que estes não puderam impedir a destruição dos ídolos.

Ibn Hisham relatou um episódio interessante a esse respeito. Entre os chefes dos habitantes de Medina, ‘Amr ibn Jamuh, chefe dos Banu Salima, permanecia firme no politeísmo. Entretanto, seu filho Mu‘adh ibn ‘Amr havia-se tornado muçulmano e retornado após prestar o juramento de lealdade em ‘Aqaba. Em sua casa, ele mantinha com grande reverência um ídolo de madeira chamado Manat. Normalmente, os chefes dos politeístas mantinham em suas casas esse tipo de santuário de ídolos. Os jovens da tribo Banu Salima, incluindo o próprio filho de ‘Amr ibn Jamuh, tornaram-se muçulmanos. Os jovens da tribo Banu Samo, juntamente com o próprio filho de ‘Amr ibn Jamuh, tornaram-se muçulmanos. Durante a noite, entravam no santuário dos ídolos, viravam aquele ídolo de cabeça para baixo e o jogavam num buraco onde os habitantes do bairro despejavam lixo e detritos. Pela manhã, quando ‘Amr se levantava e não encontrava seu ídolo, procurava-o em meio a grande alvoroço. Depois, tirava-o do buraco, lavava-o, limpava-o, perfumava-o e colocava-o de volta em seu lugar. Então dizia: “Se eu encontrasse quem lhe fez isso, eu o humilharia devidamente.” Esse tipo de brincadeira continuou por alguns dias. Certa vez, ele retirou seu ídolo do buraco e pendurou uma espada em seu pescoço. Depois disse: “Não sei quem lhe faz isso. Agora, se tens algum poder, defende-te com esta espada.”

Durante a noite, o grupo de jovens retirou a espada do pescoço do ídolo, amarrou-lhe um cão morto e lançou-o, junto com o animal, num poço dos Banu Salima. Pela manhã, depois de procurá-lo, ele foi encontrado dentro do poço, caído de bruços no lixo e nos detritos, junto a um cão morto. Então, depois que os muçulmanos de seu povo o aconselharam longamente, seus olhos se abriram e ele aceitou sinceramente o Islã. (Acréscimo do autor.)

Décimo terceiro capítulo

A Hégira para Medina

O primeiro Muhajir

Ibn Jarir e Ibn Hisham dizem que ainda não havia surgido em Medina um ambiente geral para a Hégira; havia ocorrido apenas a segunda aliança de Aqaba (no décimo segundo ano da Profecia, no mês de Dhu al-Hijjah). Foi então que Abu Salama, irmão de leite do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e filho de sua tia paterna Barra, filha de Abd al-Muttalib, decidiu emigrar para Medina. Isso porque, depois de emigrar para a Abissínia e retornar novamente a Meca, ele se viu extremamente atormentado pelas perseguições e opressões dos incrédulos de Meca e de sua própria tribo, os Banu Makhzum. Mas os opressores não lhe permitiram sair em paz para realizar a Hégira.

A dolorosa história de Umm Salama

Ibn Hisham, citando Muhammad ibn Ishaq, registrou o próprio relato de Umm Salama: Quando meu marido partiu com a intenção de emigrar para Medina, eu também saí com ele, levando meu filho Salama nos braços. Ele me colocou, juntamente com nosso filho, sobre o camelo e começou a conduzi-lo, segurando seu cabresto. Os parentes do lado de meus pais, os Banu Mughirah, viram-no partir, bloquearam-lhe o caminho e disseram: “Você já escapou ao nosso controle e pode ir para onde quiser. Mas não podemos permitir que você vague desamparado levando esta criança, que é nossa.” Então arrancaram o cabresto do camelo das mãos de Abu Salama e levaram-me de volta. Por outro lado, os familiares de Abu Salama, os Banu Abd al-Asad, enfureceram-se, vieram à frente e disseram: “Já que vocês arrancaram o filho de nosso homem dele, por que permitiríamos que nosso pequeno Salama permanecesse com vocês?” Dizendo isso, tomaram meu filho de mim à força. Durante essa disputa e esse puxão de um lado para o outro, o braço da criança deslocou-se ou ficou deformado. Al-Baladhuri diz que o braço da criança permaneceu nessa posição até sua morte. A situação acabou sendo esta: eles levaram a criança, e os Banu Mughirah conduziram-me para junto deles e mantiveram-me detida. O pobre Abu Salama partiu sozinho para Medina. Durante quase um ano, minha condição foi tal que eu saía todos os dias, ia sentar-me num lugar chamado Abtah e chorava. Certo dia, um homem dos Banu Mughirah, que era parente de meu tio, viu meu estado deplorável e compadeceu-se de mim. Foi até os Banu Mughirah e disse-lhes: “Por que não deixam partir esta pobre e miserável mulher? Vocês a separaram do marido e também do filho.” Por fim, disseram-me: “Se quer ir para junto do seu marido, pode ir.” Abd al-Asad também devolveu-me meu filho. Peguei a criança, montei no meu camelo e parti sozinha em direção a Medina. Quando cheguei perto de Tan’im, encontrei no caminho Uthman ibn Talha ibn Abi Talha, dos Banu Abd al-Dar. Ele me perguntou: “Ó filha de Abu Umayya, para onde você vai?” Respondi: “Para Medina, para junto do meu marido.” Ele perguntou: “Você não tem ninguém com você?” Respondi: “Além de Deus e desta criança, não tenho ninguém.” Ele disse: “Juro por Deus, não permitirei que você vá sozinha.”

Então ele passou a conduzir o meu camelo pelo cabresto. Juro por Deus, nunca vi homem mais nobre do que ele. Quando chegávamos a algum lugar de pouso, fazia meu camelo ajoelhar e afastava-se, permanecendo de pé à distância. Quando eu descia do camelo com meu filho, ele amarrava o animal a alguma árvore e sentava-se sob outra árvore, distante de mim. Quando chegava a hora de partir, trazia o camelo, fazia-o ajoelhar, afastava-se e dizia-me: “Monte.” Depois que eu montava, ele segurava o cabresto do camelo e continuava caminhando. Assim percorreu todo o caminho até Medina. Quando avistou a aldeia dos Banu Awf, em Quba, disse: “Seu marido está ali. Vá até ele. Que Deus a abençoe.” Depois, retornou a Meca a pé, exatamente como havia vindo. Al-Baladhuri também narrou este episódio em Ansab al-Ashraf.

Pode-se concluir disso que, ao observarem como os incrédulos coraixitas ultrapassavam todos os limites na opressão e na perseguição aos muçulmanos, os próprios integrantes de seu grupo começavam a sentir repulsa por essa injustiça e compaixão pelos muçulmanos oprimidos. Aqueles membros daquela sociedade que possuíam humanidade e nobreza de caráter continuavam a olhar com respeito para os homens de grande caráter de sua própria comunidade que, não por qualquer interesse mundano, mas unicamente por causa de sua fé, suportavam toda espécie de opressão e perseguição e, depois de reconhecerem algo como verdadeiro, não se afastavam dele por terem sido submetidos a qualquer tipo de tormento, apesar de sua hostilidade ao Islã.

A ordem geral para a Hégira

Após o último juramento de aliança em Aqaba, no décimo terceiro ano da missão profética, no mês de Dhu al-Hijjah, o Profeta (s) ordenou aos muçulmanos de Meca que emigrassem para Medina e disse: “Allah, o Altíssimo, providenciou irmãos para vós e designou uma cidade onde podereis viver em segurança” (Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq). Assim que receberam essa ordem, os primeiros a partir foram Hazrat Amir ibn Rabi‘a al-Anzi (ra) e sua esposa Layla bint Abi Hasma. Depois, emigraram Ammar ibn Yasir (ra), Hazrat Bilal (ra) e Hazrat Sa‘d ibn Abi Waqqas (ra). Em seguida, Hazrat Uthman ibn Affan (ra) partiu acompanhado de sua esposa Ruqayya (ra), filha do Mensageiro (ra). Desse modo, iniciou-se um fluxo contínuo de emigração, e as pessoas começaram a dirigir-se incessantemente para esse novo local de emigração. Até mesmo famílias inteiras abandonavam suas casas e partiam. Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, menciona três famílias cujos membros emigraram todos, deixando suas casas vazias: primeiro, os Banu Maz‘un; segundo, os Banu al-Bukayr; terceiro, os Banu Jahsh ibn Riyab. Ibn Abd al-Barr afirma que, juntamente com os Banu Jahsh, partiram também todos os homens, mulheres e crianças dos Banu Asad ibn Khuzayma. Ao todo, trinta pessoas dessas duas famílias emigraram, entre elas o primo do Profeta (s), Abdullah ibn Jahsh (ra), e Abu Ahmad Jahsh (ra), cujo nome era Abd; suas duas irmãs, Hazrat Zaynab bint Jahsh (ra), que mais tarde se tornou uma das Mães dos Crentes, e Hasna bint Jahsh (ra), esposa de Hazrat Mus‘ab ibn Umayr; e Umm Habib bint Jahsh (ra), esposa de Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (ra). Depois que partiram, Utba ibn Rabi‘a, Abbas ibn Abd al-Muttalib e Abu Jahl passavam por aquele lugar. Utba ibn Rabi‘a suspirou profundamente e disse com tristeza: “Hoje, a casa dos Banu Jahsh ficou deserta.” Abu Jahl disse: “Por que choras? Tudo isso é obra do sobrinho deste nosso irmão — referindo-se a Abbas. Ele provocou divisão em nosso grupo, rompeu nossos laços mútuos e abriu uma fissura entre nós.” Depois chegou a vez de Abu Sufyan. Ele tomou posse da casa dos Banu Jahsh e vendeu-a. O pretexto era que sua filha, Far‘a ou Fari‘a, era esposa de Abu Ahmad ibn Jahsh. Assim, como se a herança de toda a família do genro tivesse chegado ao sogro durante a vida deste. Quando Hazrat Abdullah ibn Jahsh (ra) apresentou ao Profeta (s) sua queixa contra esse abuso de Abu Sufyan, ele disse: “Não estás satisfeito em receber uma casa no Paraíso em troca da tua casa?” Após a conquista de Meca, Hazrat Abu Ahmad (ra) pediu ao Profeta (s): “Que nossa casa nos seja devolvida.” Diante disso, o Profeta (s) permaneceu em silêncio. Os Companheiros (ra) disseram-lhe: “O Profeta (s) não aprova que os emigrantes tentem reaver os bens que foram gastos no caminho de Allah.” A própria casa do Profeta (s) em Meca foi ocupada, após a Hégira, por Aqil ibn Abi Talib, que ainda não havia abraçado a fé. Depois da conquista de Meca, o Profeta (s) não retomou dele aquela casa. (Abu Dawud — Kitab al-Hajj.)

Os esforços dos coraixitas para impedir os muçulmanos de emigrar

Quando Hazrat Suhayb (ra) partiu para emigrar, os coraixitas disseram-lhe: “Chegaste aqui completamente pobre e enriqueceste vivendo em nossa cidade. Agora queres levar contigo, além da tua vida, também os teus bens? Por Allah, isso não pode acontecer.” Hazrat Suhayb respondeu: “Se eu vos entregar toda a minha riqueza, permitir-me-eis partir?” Eles disseram: “Sim.” Hazrat Suhayb entregou-lhes todos os seus bens e partiu de mãos vazias pelo caminho de Allah. Ao saber disso, o Profeta (s) disse: “Suhayb fez uma transação lucrativa; Suhayb fez uma transação lucrativa.” Esta é a narrativa transmitida por Ishaq ibn Rahwayh, Ibn Mardawayh, Ibn Hisham e al-Baladhuri, que a citam de Abu Uthman al-Nahdi.

Ibn Abd al-Barr escreveu em ‘al-Durar fi Ikhtisar al-Maghazi wa al-Siyar’ que, quando Hazrat Suhayb (ra) partiu de Meca, os coraixitas o perseguiram com a intenção de matá-lo e apoderar-se de seus bens. Ao vê-los aproximarem-se, ele disse: “Sabeis que sou o mais hábil arqueiro entre vós. Por Allah, nenhum de vós conseguirá aproximar-se de mim enquanto não morrer aquele cuja morte foi decretada.” Eles disseram: “Abandona teus bens e vai embora.” Suhayb (ra) respondeu: “Quanto aos bens, já os deixei em Meca. Ide a tal lugar e retirai-os de lá.” Então eles partiram e tomaram posse de seus bens. Al-Baladhuri transmitiu uma narrativa semelhante, citando Hazrat Sa‘id ibn al-Musayyab (ra).

Al-Bayhaqi e al-Tabarani transmitiram, citando o próprio Hazrat Suhayb (ra) por intermédio de Hazrat Sa‘id ibn al-Musayyab, o seguinte relato: “Quando parti com a intenção de emigrar, alguns jovens coraixitas me prenderam. Quando adormeceram, escapei. Porém, no caminho, alguns deles me alcançaram. Eu lhes disse: ‘Se eu voltar a Meca e vos der algumas uqiyyas de ouro — uma uqiyya equivale a três tolás e meia (nota do autor) —, deixar-me-eis partir?’ Eles prometeram libertar-me. Voltei a Meca e disse-lhes: ‘Cavai a terra em tal lugar e retirai o ouro; e ide a tal mulher e tomai dela dois pares de roupas.’ Assim me libertei deles e cheguei a Quba, junto do Profeta (s). Então ele disse: ‘Fizeste um grande lucro nesta transação.’ Eu respondi: ‘Ninguém mais conhecia este acontecimento. Quem, além de Jibril, poderia ter-lhe dado essa notícia?’

Relato de Ayyash ibn Abi Rabi‘a (ra)

Os demais emigrantes partiram secretamente. Mas Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu publicamente com vinte cavaleiros. Com ele estavam seu irmão Zayd ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), seu cunhado Sa’id ibn Zayd ibn Amr ibn Nufayl, seu genro Khunays ibn Hudhafa (que Allah esteja satisfeito com ele), antigo marido de Hazrat Hafsa, e muitos outros companheiros. Al-Bazzar e Ibn Ishaq citam, com uma cadeia de transmissão autêntica, o relato do próprio Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), no qual ele diz: Eu havia combinado com Ayyash ibn Abi Rabi’a e Hisham ibn al-‘As ibn Wa’il que eles se encontrariam conosco num lugar chamado Tanadib, a dez milhas de Meca. Se não chegassem ali no horário combinado, deveríamos considerar que haviam sido detidos, e os demais avançariam sem esperar por eles. Hisham foi capturado na própria Meca, enquanto Ayyash chegou conosco a Medina. Abu Jahl ibn Hisham e al-Harith ibn Hisham, que eram primos paternos e irmãos uterinos de Ayyash, foram atrás dele e chegaram a Medina. [Abu Jahl e al-Harith eram irmãos germanos. Depois da morte de seu pai, Hisham ibn al-Mughira, a mãe deles se casou com seu irmão, Abu Rabi’a ibn Hisham. Ayyash nasceu da mesma mãe, como filho de Abu Rabi’a. Assim, Abu Jahl e al-Harith eram tanto seus primos paternos quanto seus irmãos uterinos.] Com muitos artifícios e astúcias, convenceram Ayyash, dizendo: ‘Tua mãe jurou que, enquanto não te encontrasse, não passaria sequer um pente pela cabeça nem sairia do sol para a sombra.’ Eu lhe expliquei longamente que eles queriam atraí-lo para uma armadilha por meio de um embuste. Não caia nessa armadilha. Quando os piolhos a incomodarem, tua mãe penteará a cabeça espontaneamente; e, quando não suportar mais o calor do sol em Meca, irá para a sombra. Mas o amor de Ayyash por sua mãe prevaleceu de tal modo que ele começou a dizer-me: ‘Cumprirei o juramento de minha mãe e voltarei com meus bens.’ Eu lhe disse: ‘Dou-te metade dos meus bens; não vás com eles.’ Mas ele não aceitou meu conselho. Então eu lhe disse: ‘Já que irás, se perceberes que as intenções dos dois são más, foge imediatamente nesta camela.’ Ele aceitou isso.

Em certo ponto do caminho, Abu Jahl lhe disse: ‘Irmão, meu camelo não está conseguindo avançar muito bem. Não me levarás sobre tua camela?’ Ayyash respondeu: ‘Por que não?’ Então ambos desmontaram para que Abu Jahl pudesse montar na camela de Ayyash; al-Harith também fez seu camelo ajoelhar-se e desmontou. Em seguida, os dois amarraram Ayyash.

Ibn Ishaq diz: Os familiares de Ayyash ibn Abi Rabi’a (que Allah esteja satisfeito com ele) disseram-me que Abu Jahl e al-Harith chegaram a Meca em plena luz do dia levando Ayyash amarrado com uma corda, enquanto os dois irmãos proclamavam: ‘Ó habitantes de Meca! Corrijam assim os seus filhos desobedientes, como nós corrigimos o nosso.’

Ibn Hisham relata: Pessoas confiáveis disseram-me que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava preocupado e aflito por Hisham ibn al-‘As (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ayyash ibn Abi Rabi’a (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: ‘Quem está disposto a trazê-los até mim?’ Al-Walid ibn al-Mughira, irmão de Khalid ibn al-Walid, disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Estou pronto para prestar esse serviço.’ Então foi a Meca e procurou secretamente os dois cativos. Quando soube que estavam presos num pátio sem teto, durante a noite escalou o muro e entrou, cortou suas algemas, colocou-os sobre seu camelo e levou-os para Medina.

A provação de Hazrat Abdullah ibn Suhayl

Entre aqueles que foram impedidos à força de fazer a Hégira estava Hazrat Abdullah ibn Suhayl ibn Amr. Al-Baladhuri diz que, ao ouvir falar da Hégira para Medina, ele veio da Abissínia para Meca com o propósito de fazer a nova Hégira com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Porém, seu pai, Suhayl ibn Amr, aprisionou-o à força. Ele adotou a estratégia de convencer o pai de que havia retornado à religião de seus antepassados. Acreditando nisso, o pai levou-o consigo à batalha de Badr. Quando os exércitos se encontraram, Hazrat Abdullah juntou-se aos muçulmanos. Alguns anos depois, por ocasião da conquista de Meca, seu pai tornou-se muçulmano e dizia: ‘Allah reservou para mim um grande bem na fé de meu filho Abdullah.’

A permanência do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Meca até o fim

Segundo o relato de Ibn Ishaq, ao todo, entre aqueles que haviam vindo da Abissínia para Meca com o propósito de fazer a Hégira para Medina, sete foram aprisionados e não puderam emigrar. Além deles, havia em Meca certo número de pessoas que foram capturadas ao tentar emigrar, ou eram tão incapazes que não podiam emigrar, ou mantinham a fé no coração, mas, por causa de sua fraqueza, não tinham coragem de fazer a Hégira. À parte esses, todos os que eram capazes de emigrar partiram, e em Meca permaneceram apenas o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

Em Bukhari há uma narração de Hazrat Aisha (ra) segundo a qual, quando Hazrat Abu Bakr (ra) manifestou a intenção de emigrar para Medina, o Mensageiro (s) disse: “Permaneça por algum tempo em seu lugar, pois espero que me seja concedida permissão para emigrar.” Hazrat Abu Bakr (ra) disse: “Que meus pais sejam sacrificados por você; você realmente espera isso?” O Mensageiro (s) respondeu: “Sim.” Por isso, Hazrat Abu Bakr (ra) permaneceu, para poder emigrar na companhia do Mensageiro (s). Comprou duas camelas e passou a criá-las. Ibn Hisham e Ibn Jarir, citando uma narração de Ibn Ishaq, dizem que, sempre que Abu Bakr (ra) pedia ao Mensageiro (s) permissão para partir, ele respondia: “Não tenha pressa; talvez Allah lhe conceda um companheiro.” Com isso, Hazrat Abu Bakr (ra) esperava que esse companheiro fosse o próprio Mensageiro (s). Al-Hakim narra, com base em Hazrat Ali (ra), que o Profeta (s) perguntou a Jibril (a): “Quem será meu companheiro na emigração?” Ele respondeu: “Abu Bakr (ra).” Ibn Jarir, citando Urwa bin Zubair (ra), diz que Hazrat Abu Bakr (ra) havia comprado duas camelas para partir com os demais Companheiros emigrantes. Quando passou a esperar que obteria a companhia do Mensageiro (s), alimentou e preparou cuidadosamente as duas camelas.

Citando Ibn Ishaq, Ibn Hisham e Ibn Jarir dizem que o Mensageiro (s) não permitiu que Hazrat Ali (ra) partisse naquele momento para que ele permanecesse em Meca depois da partida do Mensageiro (s) e devolvesse os depósitos das pessoas que haviam confiado ao Mensageiro (s) seus bens valiosos para que fossem guardados. A esse respeito, Ibn Ishaq diz que não havia em Meca ninguém que possuísse algo sujeito ao risco de ser roubado e que não o tivesse confiado ao Mensageiro (s). Isso acontecia porque amigos e inimigos confiavam em sua honestidade e integridade.

Assim, desde a última bay‘ah em Aqaba (12 de Dhu al-Hijjah, décimo terceiro ano da missão profética) até Safar do décimo quarto ano da missão profética, o Mensageiro (s) permaneceu em seu lugar por quase dois meses e meio, enquanto uma corrente de emigrantes partia para Medina; e passou os últimos dias numa situação em que todos os seus companheiros haviam deixado Meca. Ele permaneceu entre os inimigos, acompanhado apenas por dois companheiros, porque não lhe era possível abandonar seu campo de ação antes que viesse a ordem de emigrar da parte de Allah, o Altíssimo. Ao refletirmos, podemos avaliar quão grandioso era o senso de responsabilidade que o manteve firme em seu lugar naquela situação extremamente perigosa; e quão destemidos eram aqueles que permaneceram com o Mensageiro (s), sem medo nem hesitação, entre feras predadoras em forma humana. (Acréscimo do autor.)

A preocupação dos coraixitas

Os incrédulos coraixitas agora tinham certeza de que, a qualquer momento, o Mensageiro de Allah (s) emigraria para Medina. Eles conheciam muito bem as consequências disso. Sua grandiosa personalidade, suas extraordinárias capacidades e o poder do Alcorão de conquistar os corações não lhes eram desconhecidos. Agora viam que ele havia encontrado um lugar seguro para viver. Duas tribos poderosas e experientes na guerra haviam se colocado ao seu lado como forças de apoio. Além disso, juntaram-se a ele homens corajosos e dedicados dos próprios coraixitas, que, durante treze anos, haviam suportado toda espécie de aflições, demonstrando sua firme determinação e constância, e que, ao emigrar repetidas vezes, haviam provado também que eram capazes de sacrificar, por sua fé, suas casas, riquezas, parentes, povo e terra natal. Que um Estado urbano formado por pessoas tão dedicadas passasse às mãos do Profeta (s), sob sua grandiosa liderança, equivalia à morte da antiga ordem social. Além disso, a situação de Medina era especialmente tal que, com a consolidação do poder dos muçulmanos ali, tornou-se motivo de preocupação para os coraixitas. Isso porque a segurança da grande rota comercial que ia do Iêmen à Síria, passando pela costa do Mar Vermelho, era a base da qual dependia a vida econômica dos coraixitas e de outras grandes tribos politeístas. Essa rota agora passaria ao controle dos muçulmanos, que, intervindo nela, tornariam extremamente difícil a vida do sistema jahili. Somente o comércio dos habitantes de Meca que passava por essa rota, de Meca até a Síria, Roma e o Egito, ultrapassava anualmente duzentas e cinquenta mil ashrafis. O comércio de Taife e de outros lugares era adicional a esse montante. Por isso, a notícia da bay‘ah em Aqaba provocou grande agitação entre os coraixitas. Primeiro, fizeram todos os esforços possíveis para separar os habitantes de Medina do Profeta (s), mas fracassaram. Depois, empregaram todos os meios e artifícios para impedir a emigração dos muçulmanos de Meca. Contudo, conseguiram deter apenas um número muito reduzido de pessoas, e um grande número de crentes chegou a Medina. Então, prepararam-se para recorrer ao último recurso, a fim de impedir esse perigo. (Tafhim al-Qur’an, volume 2, introdução à Surata Al-Anfal.)

A decisão de assassinar o Mensageiro (s)

Ibn Hisham, Ibn Sa‘d, Ibn Jarir e al-Baladhuri dizem que, com o objetivo de tomar a decisão final, foi realizada uma reunião secreta de todos os chefes tribais em Dar al-Nadwah. Discutiu-se como bloquear o caminho desse perigo. Um grupo opinou que aquele homem deveria ser acorrentado e mantido preso em algum lugar, sem jamais ser libertado enquanto estivesse vivo. Mas essa opinião não foi aceita, pois muitos consideravam que, se ele fosse preso, aqueles que estivessem do lado de fora continuariam realizando seu trabalho e, ao adquirir alguma força, não hesitariam em arriscar a vida para libertá-lo. Alguns disseram que ele deveria ser expulso dali. Quando ele não estivesse mais entre nós, não teríamos de nos preocupar com onde estaria ou o que faria. A desordem que sua presença causava em nosso sistema de vida cessaria. Mas essa proposta também foi rejeitada com o argumento de que suas palavras eram eficazes como magia e que ele possuía enorme capacidade de conquistar os corações. Se saísse daqui, sabe-se lá quais tribos conquistaria para si; depois, obteria tal poder que atacaria vocês para submeter o centro da Arábia ao seu domínio. Por fim, Abu Jahl disse: “Escolhamos, de cada uma de nossas tribos, um homem nobre, inteligente e astuto; então, todos juntos, lancemo-nos contra ele e o matemos. Assim, o sangue de Muhammad (s) será repartido entre todas as tribos. Depois disso, será impossível para os Banu Abd Manaf lutar contra todos. Por isso, serão obrigados a aceitar o preço do sangue (INDENIZAÇÃO DE SANGUE).”

Todos aprovaram essa opinião, e também foram escolhidos os homens que realizariam o assassinato. O momento do assassinato foi igualmente marcado. Todos esses procedimentos foram mantidos em segredo tão absoluto que a notícia não deveria chegar a lugar algum nem sequer de ouvido em ouvido.

A isto se faz alusão na Surata Al-Anfal—

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(E, ó Profeta, recorda também o tempo) em que os incrédulos tramavam vários planos contra ti: prender-te, matar-te ou expulsar-te. Eles tramavam, e Allah também planejava; e Allah é o melhor dos planejadores (versículo 30). (Tafhim al-Qur’an, volume 2, nota 25.)

A permissão para o Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) emigrar e os preparativos para isso

Tirmidhi e Hakim, citando uma narração de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), dizem que, quando a situação chegou a esse ponto, Allah, o Altíssimo, permitiu que Seu Profeta emigrasse de Meca e disse—

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(E, ó Profeta,) suplica, dizendo: “Ó meu Senhor, faze-me entrar com verdade no lugar de entrada e faze-me sair com verdade do lugar de saída, e concede-me uma autoridade que me auxilie” (Al-Isra: 80). [Não é correto que alguém objete aqui que o versículo mencionado foi revelado muito antes da Hégira dos Filhos de Israel. Como, então, pode ser correto apresentá-lo aqui como permissão para a Hégira? Na realidade, há muitos exemplos desse assunto: um versículo foi revelado inicialmente e, posteriormente, foi repetido em determinada situação para que o Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) soubesse que a determinação desse versículo se aplicava àquela situação — o autor.]

Essa permissão foi concedida no dia cuja noite seguinte havia sido determinada para assassinar o Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele). [Foi por isso que Allah, o Altíssimo, manteve o Profeta em Meca até aquele momento: para que os incrédulos coraixitas chegassem ao limite extremo de sua inimizade contra a verdade e, então, fosse dada ao Profeta a ordem de sair do meio deles — o autor.] Ibn Sa’d, citando al-Waqidi, e Ibn Jarir e Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, dizem que, nesse mesmo dia, Gabriel (que a paz esteja sobre ele) veio ao Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele), informou-o sobre a intenção dos coraixitas e disse: “Esta noite, não durmas em tua cama.”

Então, ao meio-dia, cobrindo o rosto com um pano, ele foi à casa de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele). Em Bukhari, por intermédio do imame Zuhri, há o relato de Urwa bin Zubair, segundo o qual Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela) disse: “Estávamos sentados em casa ao meio-dia quando alguém disse a Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele): ‘O Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) veio aqui cobrindo o rosto, num horário em que nunca costumava vir.’ Em Tabarani encontra-se o relato de Asma, filha de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ela), que disse: ‘O Profeta (que a paz esteja sobre ele) costumava vir diariamente à nossa casa de manhã e à tarde.’ Esse relato também é citado em Bukhari, no capítulo sobre a Hégira, por Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela). Em Ibn Hisham, no relato de Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela), transmitido por Ibn Ishaq, consta que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) nos visitava todos os dias de manhã ou à tarde. Mas, naquele dia, veio ao meio-dia, que normalmente não era o horário de suas visitas. Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) disse imediatamente: ‘Que meus pais sejam sacrificados por ele! Certamente aconteceu algo pelo qual ele veio neste horário.’ Então o Profeta (que a paz esteja sobre ele) pediu permissão para entrar. Depois de entrar, com a permissão, disse: ‘Peça a todos que saiam daqui.’ Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) respondeu: ‘Mas aqui só estão os membros da sua família.’ (Num relato de Musa bin Uqba, transmitido por Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela), ele diz que, naquele momento, além de mim e de minha irmã Asma (que Deus esteja satisfeito com ela), não havia mais ninguém com Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele). O mesmo relato de Ibn Ishaq aparece em Ibn Hisham. Contudo, no relato de Ibn Uqba acrescenta-se que Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: ‘Aqui estão apenas minhas filhas; não há nenhum espião para obter informações sobre você.’) Então o Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: ‘Recebi permissão para partir daqui.’ Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: ‘Que meus pais sejam sacrificados por você! Poderei acompanhá-lo?’ O Profeta (que a paz esteja sobre ele) respondeu: ‘Sim.’ Abu Bakr disse: ‘Então, aceite uma destas minhas duas camelas.’ O Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: ‘Aceitá-la-ei mediante pagamento.’ Ibn Ishaq diz que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) afirmou: ‘Aceitarei pelo mesmo preço que você pagou por ela.’ Quando Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) mencionou o preço, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: ‘Eu lhe pagarei esse valor.’ Em seguida, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) e Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) contrataram Abdullah bin Uraiquit, um homem da tribo de Banu Adi, para servir-lhes de guia mediante pagamento. [Alguns dizem que o nome desse homem era Arqad ou Arqat, mas o nome correto é Uraiquit. Musa bin Uqba, Baladhuri e Ibn Saad assim o afirmaram. Foi ele quem, depois do retorno de Taife, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) enviou a Meca como mensageiro aos líderes. Embora fosse politeísta, era tão digno de confiança que, naquela situação delicada da Hégira, provou ser absolutamente confiável. Isso apesar de os coraixitas terem oferecido uma grande recompensa por informações sobre o paradeiro do Profeta (que a paz esteja sobre ele) — o autor.]

] Ele era especialista nas estradas e caminhos. As duas camelas foram colocadas sob seus cuidados, com a condição de que, quando fosse chamado para qualquer lugar, deveria chegar ao local indicado.

O acontecimento da noite do assassinato

Depois, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) voltou para sua casa e permaneceu ali até a noite, para que os inimigos não suspeitassem minimamente de que ele conhecia seus planos. À noite, no horário determinado, chegaram todos aqueles a quem fora ordenado assassiná-lo. Segundo o relato de Ibn Saad, eram ao todo doze: Abu Jahl, Hakam bin Abil As, Uqba bin Abi Muait, Nadr bin al-Harith, Umayya bin Khalaf, Harith bin Qais bin al-Ghaitala, Zama’a bin al-Aswad, Tuaima bin Adi, Abu Lahab, Ubay bin Khalaf, Nubaya bin al-Hajjaj e Munabbih bin al-Hajjaj. Porém, antes que eles chegassem, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) deitou Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) em sua cama, cobrindo-o com seu manto verde de Hadramaut. Por isso, sempre que os inimigos espiavam de fora, julgavam que aquele era o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele), dormindo em sua cama. Suhaili, citando alguns eruditos autores de biografias, diz que eles tentaram entrar pulando o muro. Mas, ao ouvirem de dentro o grito de uma mulher, ficaram assustados e disseram uns aos outros: ‘Por Deus! Em todo o país teremos uma péssima reputação, pois não cuidamos sequer da honra e da decência das mulheres de nossa própria tribo.’ Por essa razão, permaneceram sentados do lado de fora durante toda a noite. Esperavam que, bem cedo, quando o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) se levantasse, todos pudessem lançar-se de uma só vez sobre ele.

A prisão e a libertação de Ali (que Deus esteja satisfeito com ele)

Enquanto os inimigos cercavam a casa, em algum momento da noite o Profeta (que a paz esteja sobre ele) saiu tranquilamente e atravessou o meio deles, lançando terra sobre eles. Naquele momento, recitava os versículos iniciais da Surata Yasin. Ao amanhecer, eles viram Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) levantar-se da cama do Profeta (que a paz esteja sobre ele). Então compreenderam que o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) já havia partido havia muito tempo (Ibn Saad, Ibn Hisham, Baladhuri, Ibn Jarir, Zad al-Maad).

Ibn Jarir e Ibn Athir escreveram que eles perguntaram a Ali (que Deus esteja satisfeito com ele): ‘Onde está o seu companheiro?’ Ele respondeu: ‘Não sei absolutamente para onde ele foi. Não sou seu guarda. Vocês o expulsaram, e ele partiu.’ Com isso, os inimigos sedentos de sangue ficaram furiosos. Repreenderam-no, espancaram-no e levaram-no à Mesquita Sagrada, onde o mantiveram preso por algum tempo. Mas, mesmo depois de tratá-lo com dureza, quando não conseguiram obter nenhuma informação sobre o paradeiro do Profeta (que a paz esteja sobre ele), foram obrigados a libertá-lo. É possível que o tenham libertado porque o Profeta (que a paz esteja sobre ele) o havia deixado encarregado de devolver os depósitos dos habitantes de Meca. Talvez os incrédulos tenham descoberto que o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) confiara essa tarefa a Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) e, desejando recuperar os bens que lhes haviam sido confiados, o tenham libertado. Também é possível que tenham sentido certa vergonha: aquele a quem tinham vindo matar era um homem de caráter tão elevado que, mesmo ao sair do local onde pretendiam assassiná-lo, permanecia profundamente preocupado em devolver os depósitos dos inimigos.

O ataque repentino à casa de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele)

Depois de libertarem Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), os opressores dirigiram-se à casa de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Ishaq cita o relato de Hazrat Asma bint Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela). Foi relatado que, no segundo dia, alguns homens dos coraixitas foram à nossa casa. Abu Jahl também estava com eles. Parados à porta, perguntaram-me: “Onde está o teu pai?” Respondi: “Não sei.” Então Abu Jahl deu-me uma bofetada tão forte que meu brinco se rompeu e caiu longe. Depois, eles foram embora. (Ibn Hisham e Ibn Jarir).

Saída de Meca e refúgio na caverna de Thawr

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu de sua casa e foi diretamente à casa de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Depois, os dois se refugiaram naquela mesma noite numa caverna do monte Thawr, a cerca de duas ou três milhas de Meca. Consta no Musnad de Ahmad e no Tirmidhi que, ao sair de Meca, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) parou num lugar chamado Hazwara, voltou-se para a Casa de Allah e disse com voz emocionada:

“Ó Meca! Juro por Allah: na terra de Allah, tu és para mim o lugar mais querido. E, para Allah, tu também és o lugar mais querido de Sua terra. Se teus habitantes não me tivessem expulsado, eu jamais teria saído de ti.”

Então ele partiu em direção a Thawr.

O motivo de buscar refúgio em Thawr

É necessário compreender aqui por que razão racional o monte Thawr foi escolhido como refúgio. Esse monte situa-se ao sul de Meca, no caminho do Iêmen. Medina, porém, fica ao norte de Meca, no caminho da Síria. Os incrédulos de Meca sabiam que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pretendia emigrar para Medina. Por isso, para encontrá-lo

e capturá-lo, somente depois de fracassarem na busca pelas rotas ao norte é que sairiam à procura dele para leste, sul e oeste. Assim, esperava-se que levassem bastante tempo para chegar à caverna de Thawr.

A gestão de Abu Bakr durante a permanência na caverna de Thawr

Antes de partir para a caverna de Thawr, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) concluiu todos os preparativos. [No Musnad de Ahmad, no Tabarani e na biografia de Ibn Hisham, é citada, por intermédio de Ibn Ishaq, a narração de Hazrat Asma bint Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela). Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: quando nosso pai partiu, levou consigo todo o seu dinheiro — cerca de cinco ou seis mil dirrãs. (Segundo Baladhuri, antes de aceitar o Islã, ele possuía quarenta mil dirrãs.) Então nosso avô Abu Quhafa — que era cego e ainda não havia aceitado o Islã — disse-nos: “Penso que ele levou consigo, além da própria vida, todos os seus bens.” Respondemos: “Não, vovô, ele deixou muitas coisas boas para nós.” Depois, no nicho onde nosso pai guardava seus bens, colocamos algumas pedras e as cobrimos com um pano. Em seguida, levamos nosso avô até lá e dissemos: “Toque com a mão.” Ele pôs a mão sobre elas e disse: “Se foi isso que ele deixou para vocês, é suficiente.” Na realidade, nosso pai não havia deixado dinheiro algum para nós. Eu só queria consolar meu avô — autor.] No Bukhari encontra-se a seguinte narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Preparamos rapidamente os suprimentos de viagem para dois viajantes e colocamos numa bolsa os objetos necessários como provisões.” Hazrat Abu Bakr ordenou a seu jovem filho, inteligente e astuto, Abdullah: “Durante o dia, permanece entre os habitantes de Meca e recolhe informações; à noite, vem encontrar-nos e informa-nos de tudo o que ocorreu durante o dia.” Ordenou também a seu escravo liberto, Fuhayra (que Allah esteja satisfeito com ele): “Durante o dia, continua pastoreando normalmente nossas cabras e mantém-te atento às notícias dos habitantes de Meca. Depois, à noite, leva-nos também leite e informa-nos de todas as notícias.” Ibn Ishaq disse que Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) enviava comida fresca todas as noites. [Aqui surge uma dúvida que é necessário esclarecer. Foi mencionado acima que, quando os incrédulos perguntaram a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): “Onde está o teu companheiro?”, ele respondeu: “Não sei.” Depois foi mencionado que, ao irem à casa de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e perguntarem onde ele estava, Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Não sei.” Entretanto, pelas circunstâncias posteriores, sabe-se que, entre as providências tomadas por Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) antes de ir para a caverna de Thawr, algumas tarefas de serviço foram confiadas a Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela). Também foi mencionado que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) levou todo o dinheiro de casa. Contudo, Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) disse ao avô que ele havia deixado muitas coisas. A esse respeito, surge a pergunta: isso não seria mentira? A resposta é que, quanto às duas primeiras questões, há duas possibilidades semelhantes. Uma possibilidade é que Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) não soubessem, no momento em que foram interrogados, onde estavam o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). A segunda possibilidade, igualmente legítima, é que eles soubessem, mas se recusassem a informar o inimigo porque, em vez de dizer a verdade sem ajudar o opressor a cometer injustiça, seria muito pior auxiliá-lo. Já dizer algo contrário aos fatos para salvar o oprimido da opressão não é de modo algum uma ação má; pelo contrário, é plenamente permitido segundo a lei religiosa, a moral e a razão. Somente um ignorante poderia dizer que era proibido e afirmar obstinadamente que se deveria ter indicado aos assassinos o endereço da caverna de Thawr. Ou que se deveria dizer: “Sabemos onde eles estão, mas não contaremos”, para que os assassinos os torturassem e arrancassem deles a verdade. Resta a declaração que Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) fez a seu avô. Este é um exemplo luminoso de tawriya. Tawriya significa ocultar a realidade por alguma conveniência ou por uma razão circunstancial, em vez de dizer uma mentira manifesta. Isso é permitido pela lei religiosa. Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) não disse que seu pai havia deixado muita riqueza; disse, sim, que ele havia deixado muitas coisas boas. Depois, fez o avô colocar a mão sobre o monte que estava no nicho. O avô imaginou que se tratava de um monte de dinheiro, mas Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) não disse que havia dinheiro naquele monte. Assim, sem mentir, salvou seu velho avô cego da aflição em que estava mergulhado — o temor de ficar sem recursos — autor.] (Ibn Hisham).

Descrição da caverna de Thawr

Bayhaqi cita, por intermédio de Muhammad ibn Sirin, uma narração mursal na qual se relata que, certa vez, durante uma reunião de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), algumas pessoas disseram coisas que deixavam claro que consideravam Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) superior a Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Então Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Juro por Allah: uma noite de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) é melhor que toda a família de Umar, e um dia de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) é melhor que toda a família de Umar.”

Então ele relatou que, na noite em que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se dirigiu à caverna, acompanhado por Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), a situação era tal que Abu Bakr ora caminhava à frente, ora atrás. Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou a razão, ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah! Quando me lembrava dos perseguidores, caminhava atrás; e, quando temia que houvesse algum perigo à frente, caminhava à frente.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Queres dizer que, se surgisse algum perigo, ele deveria atingir a ti, e não a mim. Não é isso?” Ele respondeu: “Sim.” Quando chegaram à caverna, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Peço-lhe que espere um pouco; entrarei para limpar e tornar a caverna segura para o senhor.” Então entrou, tornou a caverna segura e saiu. Mas lembrou-se de que ainda havia uma abertura. Entrou novamente, fechou-a e saiu. Só então pediu ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que entrasse. Algumas narrações acrescentam que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), tateando no escuro, procurou as aberturas uma a uma e começou a fechá-las, rasgando pedaços de sua capa. Hafiz Abu al-Qasim al-Baghawi citou uma narração semelhante de Ibn Abi Mulayka. Ao final, cita o relato de Nafi ibn Umar al-Jumahi, segundo o qual restara um buraco na caverna. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) pressionou-o com o calcanhar, para impedir que algum animal venenoso saísse dele e picasse o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). É isso que al-Bazzar narrou de Hazrat Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), e al-Tabarani narrou de Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela).

O momento de extrema angústia na caverna de Thawr

Enquanto isso, os coraixitas espalharam-se pelas vielas e ruas de Meca e de seus arredores, à procura do Profeta (s). Al-Balazuri diz que, depois disso, contrataram dois hábeis rastreadores, para que pudessem encontrar o Mensageiro (s) seguindo as pegadas. Assim, chegaram até a caverna de Sawr. Porém, ali viram que havia uma teia de aranha tecida na entrada da caverna. Um dos rastreadores, Quraz ibn Alqama, disse: “Não há nenhum sinal de que alguém tenha passado daqui para a frente.” Um dos que haviam vindo com os rastreadores disse: “Por que não entramos na caverna para verificar?” Mas Umayya ibn Khalaf disse: “O que encontrareis aqui? Essa teia de aranha na caverna parece ter sido tecida antes do nascimento de Maomé (s).” Depois disso, todos retornaram. Foi nessa situação que Hazrat Abu Bakr (r.a.) viu os inimigos parados bem diante da entrada da caverna e disse ao Mensageiro (s): “Ó Mensageiro de Deus! Se algum deles olhar para baixo, sob os próprios pés, nos verá.” O Mensageiro (s) respondeu com absoluta tranquilidade: “Ó Abu Bakr! O que pensas de dois homens dos quais Deus é o terceiro?” (Bukhari, Livro das Virtudes dos Companheiros do Profeta, Livro da Exegese e capítulo da Hégira; Muslim, Livro das Virtudes; Tirmidhi, Livro da Exegese; Musnad de Ahmad; virtudes de Abu Bakr).

Em uma das narrações sobre este assunto citadas pelo hafiz Abu Bakr Ahmad ibn Ali al-Usabi no Musnad de Abu Bakr Siddiq, afirma-se que, enquanto eles estavam parados à entrada da caverna, o Profeta (s) estava rezando e Hazrat Abu Bakr (r.a.) observava os movimentos do inimigo. Quando o Mensageiro (s) terminou a oração, Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse: “Que meus pais sejam sacrificados por vós! Eis que vosso povo chegou à vossa procura. Por Deus, não choro por mim mesmo; pelo contrário, choro com medo de que algum golpe vos atinja diante dos meus olhos.” O Mensageiro (s) disse: ***************************** —Não temas, Allah está conosco.

Foi precisamente isto que Allah mencionou no Alcorão Sagrado:

*********************************************************

—Se não ajudardes a ele (o Profeta de Allah), deveis saber que Allah já o ajudou quando ele era um dos dois, quando ambos estavam na caverna e ele dizia ao seu companheiro: “Não temas, Allah está conosco.” (At-Tawbah: 40)

Proclamação geral de uma recompensa pela morte ou captura do Mensageiro (s) e de Hazrat Abu Bakr (r.a.)

Esta foi a última tentativa que permitia aos inimigos esperar encontrar o Profeta (s). Quando não o encontraram aqui, na caverna, compreenderam que o Mensageiro (s) havia saído do alcance deles. Então proclamaram publicamente que qualquer pessoa que trouxesse Maomé (s) e Abu Bakr (r.a.), vivos ou mortos, receberia cem camelos por cada um. Esta é a narração de Al-Balazuri, e Ibn al-Qayyim a aceitou em Zad al-Ma’ad. Ibn Hisham e Ibn Jarir mencionam uma recompensa de cem camelos apenas por trazê-los. Al-Balazuri cita essa versão como uma afirmação fraca.

Partida da caverna

Em Bukhari, há um relato de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) segundo o qual o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceram na caverna durante três dias e três noites. Em Tabarani, há um relato semelhante de Asma (que Allah esteja satisfeito com ela), e os relatos de Ibn Abd al-Barr, Ibn Sa’d e Ibn Ishaq também são assim. Por isso, não é aceitável o relato citado de Talhat al-Basri no Musnad de Ahmad e em Hakim, segundo o qual a permanência na caverna teria durado mais de dez dias. O fato é que, durante três dias e três noites, a busca dos coraixitas pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia diminuído. Assim, na última vigília da terceira noite, Abdullah bin Uraiqit chegou à Caverna de Thawr com as duas camelas que lhe haviam sido confiadas. No momento certo, Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) também chegou trazendo provisões numa bolsa. Porém, não se lembrou de trazer algo para amarrá-la. Finalmente, ela abriu o seu ‘nitáq’ e rasgou-o. Naquela época, chamava-se ‘nitáq’ ao tecido que as mulheres enrolavam em torno da cintura. Com uma parte do nitáq, ela amarrou os alimentos e pendurou-os no howdah da camela, deixando a outra parte suficiente para atar à cintura — conforme os relatos de Ibn Hisham, Ibn Jarir e Ibn Ishaq. Por isso, Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) recebeu o título de ‘Zat an-Nitaqayn’, isto é, aquela que possui dois cintos.

Em Bukhari, há o seguinte relato da própria Asma (que Allah esteja satisfeito com ela): quando foi necessário amarrar o recipiente de provisões, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ordenou a Asma que rasgasse o seu ‘nitáq’. Então a caravana partiu da seguinte maneira: o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava no dorso de uma camela, e Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), no dorso da outra. Para servi-lo, ele fez Amir bin Fuhayra (que Allah esteja satisfeito com ele) sentar-se atrás de si. À frente, Abdullah bin Uraiqit caminhava a pé, mostrando o caminho. Assim começou a viagem da Grande Hégira, que trouxe uma revolução à história do mundo. Ibn Sa’d e Baladhuri afirmam com certeza que a partida dessa abençoada caravana da Caverna de Thawr começou na segunda-feira, dia 4 de Rabi al-Awwal. O Imam Ahmad, citando um relato de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), diz que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu da caverna numa segunda-feira do mês de Rabi al-Awwal, mas não menciona a data. Qastallani escreveu em Mawahib al-Ladunniyya que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passou sexta-feira, sábado e domingo, isto é, três noites, na caverna, e partiu de lá na noite de segunda-feira. Ibn Jarir diz que, em Rabi al-Awwal do 54.º ano do Elefante, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) emigrou de Meca para Medina.

Relato da viagem

Da biografia de Ibn Hisham, com base no relato de Ibn Ishaq, sabe-se que, quando Abdullah bin Uraiqit partiu com essa caravana, evitou a estrada habitual e tomou outra rota para Medina, a fim de se proteger dos inimigos. Ibn Sa’d diz que, como Abu Bakr costumava viajar muito por causa de seus negócios, as pessoas o reconheciam e perguntavam: “Quem é este homem que está com você?” Ele respondia: **********************************************

— É alguém que me mostra o caminho. Em Tabarani, foi citado um relato quase semelhante de Asma; no Musnad de Ahmad, segundo a transmissão de Anas bin Malik (que Allah esteja satisfeito com ele); e em Bukhari, no capítulo sobre a Hégira, segundo Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). Isto também é um exemplo notável de ‘tawriya’. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) não disse que ele era Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); disse, ao contrário: “Meu guia”. O interlocutor entendeu que ele estava mostrando o caminho. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse uma verdade absoluta: ele é meu guia.

Em Bukhari e Muslim, há o seguinte relato de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): “Continuamos viajando até o meio-dia do segundo dia. Quando o calor do sol se tornou intenso, começamos a procurar ao redor algum lugar onde houvesse sombra. Vimos que havia sombra sob uma enorme pedra. Fomos até lá, estendi uma esteira para o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: ‘Descanse um pouco.’ Depois, continuei olhando ao redor para verificar se alguém vinha à nossa procura. Nesse momento, um rapaz que pastoreava cabras aproximou-se daquela pedra para abrigar-se na sombra. Perguntei-lhe: ‘Você pode tirar leite de alguma de suas cabras e dá-lo a nós?’ Ele concordou. Limpei o úbere da cabra e as mãos do rapaz, e pedi que ele ordenhasse o leite num recipiente. Depois acrescentei um pouco de água para esfriá-lo. Então levei-o ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e ofereci-lhe a bebida.”

Em seguida, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou o episódio de Suraqa bin Malik bin Jushum, citado resumidamente pelo Imam Bukhari em “Os Méritos dos Emigrantes” e no capítulo sobre a Hégira, e pelo Imam Muslim no Livro da Abstinência, no capítulo sobre a Hégira. Contudo, Imam Zuhri apresentou os detalhes numa narração de Bukhari, no capítulo sobre a Hégira, nas próprias palavras de Suraqa, transmitidas por seu sobrinho Abdul Rahman bin Malik — o autor observa que Ibn Hisham corrigiu o nome para Abdul Rahman bin Harith bin Malik bin Jushumah. Os detalhes também se encontram na biografia de Ibn Hisham, em Tabaqat de Ibn Sa’d e em outras obras.

O episódio de Suraqa

Suraqa era o chefe dos Banu Mudlij. Seu território ficava perto de Qudayd. Eis o seu relato: um homem dos coraixitas veio até nós trazendo a mensagem de que seriam dadas cem camelas, isto é, uma diyat, a cada pessoa que matasse ou capturasse Muhammad (s) e Abu Bakr (ra). Certo dia, eu estava sentado numa reunião do meu povo quando um homem veio dizer-me: “Acabo de ver algumas pessoas passando pela costa do mar. Creio que são Muhammad (s) e seu companheiro.” Compreendi que eram justamente eles. Mas disse-lhe: “Não, você viu fulano e fulano, que acabaram de passar diante de nós.” Depois de permanecer algum tempo naquela reunião, levantei-me e fui para casa. Em seguida, montei a cavalo e saí secretamente, para que os outros não soubessem que eu havia partido. Segundo um relato de Ibn Shihab, Suraqa disse: “Fiz isso temendo que os moradores da aldeia participassem da minha recompensa.” Quando me aproximei deles, de repente caí do cavalo. Retirei as flechas de adivinhação e consultei o presságio, mas ele saiu contrário à minha vontade. Sem dar importância a isso, continuei avançando. Depois me aproximei tanto deles que pude ouvir claramente a recitação do Mensageiro de Allah (s). O Profeta (s) não olhava para trás, enquanto Abu Bakr (ra) olhava repetidamente para todos os lados. Nesse momento, de repente, as patas do meu cavalo afundaram na terra até os joelhos, e caí de seu dorso. Há um relato de Bara ibn Azib (ra), transmitido pelo próprio Abu Bakr (ra), no qual Abu Bakr diz: “Estávamos atravessando um terreno muito duro. Eu disse: ‘Nosso perseguidor já se aproximou bastante.’” O Profeta (s) fez uma súplica, e o cavalo afundou na terra até o ventre. Anas (ra) relata que o Profeta (s) disse: “Ó Deus, derruba-o!” Suraqa conta: “Consultei novamente as flechas de adivinhação, e o resultado saiu contrário à minha vontade. Então gritei pedindo segurança. Eles pararam. Montei novamente e fui até eles. Pelo que me acontecera, compreendi que a missão do Mensageiro de Allah (s) certamente seria bem-sucedida.” (Em Ibn Hisham, há um relato de Muhammad ibn Ishaq, transmitido por al-Zuhri, segundo o qual Suraqa gritou: “Sou Suraqa ibn Ju‘shum. Permitam-me falar com vocês. Juro por Allah que não lhes causarei nenhum mal, nem sairá da minha boca qualquer palavra que lhes seja desagradável.”) Suraqa disse: “Falei ao Mensageiro de Allah: ‘Seu povo anunciou uma diyat por você, e as pessoas estão circulando na esperança de obter essa recompensa.’ Em seguida, ofereci-me para fornecer provisões e equipamentos para a viagem. Ele não pediu nada além de que eu não revelasse a ninguém onde eles estavam. Pedi-lhe que me escrevesse um salvo-conduto. Ele ordenou a Amir ibn Fuhayra (ra), que me entregou o documento, escrito sobre um pedaço de couro. Anas ibn Malik (ra) relata que Suraqa pediu: ‘Ó Profeta de Allah, ordene-me o que desejar.’ O Profeta (s) respondeu: ‘Basta que permaneças no teu lugar e não permitas que ninguém chegue até nós.’ Assim, aquele que poucos momentos antes era inimigo de suas vidas tornou-se seu protetor. Ibn Sa‘d disse: “Depois disso, sempre que alguém vinha seguindo os passos do Profeta (s) à sua procura, Suraqa dizia: ‘Voltem. Tenho certeza de que ele não está por este lado. Vocês sabem quão aguçada é a minha visão e quão experiente sou em rastrear.’”

Ibn Ishaq e Musa ibn Uqba citam o relato de Suraqa, que disse: “Conservei o salvo-conduto escrito que havia recebido. Alguns anos depois, quando o Mensageiro de Allah (s), ao retornar das batalhas de Hunayn e Ta’if, estava em Ji‘rana, fui à presença do Profeta (s), apresentei-lhe aquele documento e disse: ‘Sou Suraqa ibn Ju‘shum, e este é o documento ou salvo-conduto que o senhor me escreveu.’ Ele disse: ‘Hoje é o dia de cumprir a promessa e restituir o direito. Aproxima-te.’ Fui até o Profeta (s) e aceitei o Islã.” Al-Tabarani narra, de Asma bint Abu Bakr (ra), um breve resumo de todo esse episódio de Suraqa.

No al-Isti‘ab, Ibn Abd al-Barr, e no al-Isaba, Ibn Hajar citam, por intermédio de Sufyan ibn Uyayna, um relato mursَل de Hasan al-Basri segundo o qual o Mensageiro de Allah (s), dirigindo-se a Suraqa ibn Malik, disse: “Como será o dia em que usarás os braceletes de Kisra?” Alguns anos depois dessas palavras, quando os braceletes, o cinturão e a coroa do rei da Pérsia foram levados até Umar (ra), ele chamou Suraqa, colocou-lhe aquelas peças e disse: “Levanta as mãos e diz: ‘Louvor a Allah, que retirou estas coisas de Kisra ibn Hurmuz, que dizia: ‘Eu sou o senhor dos homens’, e as colocou em Suraqa ibn Malik ibn Ju‘shum, um beduíno dos Banu Mudlij.’” Suhayli descreveu detalhadamente esse episódio em Rawd al-Unuf. Considerando desnecessário aumentar o volume desta obra, omitimos essa descrição.

A história de Umm Ma‘bad

Assim que atravessou a região de Qudayd, essa grande caravana chegou à morada de Umm Ma‘bad, uma mulher dos Banu Khuza‘a. Alguns autores mencionam esse episódio como anterior ao de Suraqa, enquanto outros o consideram posterior. Nós consideramos o episódio de Suraqa anterior porque Abu Bakr (ra), ao narrar os acontecimentos posteriores à partida da caverna, menciona este episódio em primeiro lugar. Talvez por essa razão o hafiz Ibn al-Qayyim também tenha considerado este episódio anterior em Zad al-Ma‘ad.

Ibn Khuzayma, al-Hakim, al-Bayhaqi, al-Baghawi, Ibn Abd al-Barr, al-Tabarani e Ibn Sa‘d, entre outros, citam este relato por diversas cadeias de transmissão. O Imam al-Bukhari também registrou em sua História, com base no relato da própria Umm Ma‘bad, que, quando a caravana atravessava Qudayd, chegou à tenda de Umm Ma‘bad (Atika bint Khalid), que pertencia ao clã Banu Ka‘b, uma ramificação da tribo Khuza‘a. Umm Ma‘bad era uma mulher idosa e respeitável. Sua família costumava hospedar os viajantes que passavam por aquela região. Quando o Mensageiro de Allah (s) e seu companheiro chegaram ali, ela estava sentada no pátio diante de sua tenda. Era um período de fome, e toda a região se encontrava em grande aflição. Os viajantes disseram a Umm Ma‘bad: “Dê-nos para comer qualquer leite, carne ou tâmaras que tenha. Nós lhe pagaremos por isso.” Ela respondeu: “Juro por Allah que, se tivéssemos alguma coisa, não hesitaríamos em receber vocês como hóspedes.” Nesse momento, o olhar do Mensageiro de Allah (s) caiu sobre uma cabra num canto da tenda. Ele perguntou: “Ó mãe de Ma‘bad, como está esta cabra?” Ela respondeu: “Esta pobre criatura, por causa de sua magreza e fraqueza, não pôde ir pastar com as outras cabras.” O Profeta (s) perguntou: “Ela dá algum leite?” Ela respondeu: “Está fraca demais para dar leite.” O Profeta (s) disse: “Se me permitires, posso ordenhá-la.” Ela respondeu: “Que meus pais sejam sacrificados por você; se puder extrair algum leite dela, faça-o.” O Profeta (s) mandou trazer a cabra, amarrou-lhe as patas, passou a mão sobre suas tetas — ou, segundo outra versão, sobre seu dorso — e suplicou: “Ó Allah, concede bênção às cabras desta mulher.” Depois, pronunciando o nome de Allah, começou a ordenhá-la. Que manifestação do poder de Allah! A cabra abriu as patas e começou a ruminar. O leite começou a jorrar de suas tetas. O Profeta (s) pediu um recipiente grande o bastante para conter leite suficiente para saciar um grupo. Continuou ordenhando, até que o recipiente se encheu completamente. Formou-se espuma sobre o leite; primeiro, ele fez Umm Ma‘bad beber até se saciar, depois os companheiros beberam até se saciarem e, por fim, ele próprio bebeu. Então disse: **************************

— aquele que dá de beber aos outros é o último a beber.

Depois, ele encheu novamente o recipiente com leite, entregou-o a Umm Ma‘bad e disse: “Quando o pai de Ma‘bad chegar, darei este leite a ele.”

Umm Ma‘bad descreve a nobre aparência do Mensageiro (s)

Pouco depois, seu marido voltou à morada trazendo um rebanho de cabras magras e debilitadas. Ao ver o recipiente cheio de leite, perguntou surpreso: “Mãe de Ma‘bad, de onde veio este leite?” Ela respondeu: “Juro por Deus, um homem abençoado estava passando por aqui; foi ele quem fez tudo isso.” Em seguida, relatou ao marido todo o acontecimento. O marido disse: “Descreve um pouco a aparência dele, para que eu ouça.” Ela (Umm Ma‘bad) começou a dizer: “Vi um homem de grande beleza. Seu rosto era luminoso, seu caráter, puro e casto; seu corpo não era gordo nem magro. Era belo e alegre. Tinha dois olhos negros, cílios longos, a voz elevada, mas não áspera; as pupilas eram negras e o branco dos olhos, claro. Suas sobrancelhas não eram unidas nem muito separadas, e entre elas havia poucos pelos. Seus cabelos eram completamente negros, o pescoço era largo e a barba, espessa. Quando permanecia em silêncio, mostrava dignidade; quando falava, sua voz se espalhava ao redor, e suas palavras pareciam fazer cair pérolas e joias. Sua fala era doce e clara; não falava pouco nem demais. De longe, sua voz parecia muito alta, mas era agradável; de perto, parecia doce, melodiosa e refinada. Tinha uma constituição mediana: não era excessivamente alto e largo, nem baixo e franzino. Entre seus companheiros, era o mais belo e o mais digno. Seus companheiros o rodeavam, ouviam suas palavras com grande atenção e corriam para cumprir suas ordens. Era servido e amado por todos; não era irritadiço nem grosseiro na fala.”

Ao ouvir isso, Abu Ma‘bad disse: “Juro por Deus, este é o homem dos coraixitas de quem temos ouvido falar. Se eu o encontrasse, pediria para acompanhá-lo. Se tiver uma oportunidade como essa, certamente tentarei fazê-lo.” (Al-Bayhaqi e Ibn Sa‘d citaram esta declaração de ‘Abd al-Malik ibn Wahab al-Majdahi: “Chegou até mim a notícia de que Abu Ma‘bad se tornou muçulmano e migrou para se apresentar ao Profeta (s).” A narração de ‘Abd al-Malik citada pelo hafiz Abu Nu‘aym acrescenta que Umm Ma‘bad também se tornou muçulmana e migrou para se apresentar ao Mensageiro (s).)

A expectativa pela chegada do Mensageiro (s) a Medina

A notícia de que o Mensageiro de Deus (s) havia saído de Meca já havia chegado a Medina. Al-Bukhari registrou isso, no capítulo sobre a Hégira, através da cadeia de transmissão de al-Zuhri, de ‘Urwa ibn al-Zubayr. Ibn Ishaq também citou esse relato. Al-Hakim e Musa ibn ‘Uqba explicaram que ‘Urwa (ra) ouviu esse acontecimento pessoalmente de seu honrado pai, al-Zubayr ibn al-‘Awwam (ra): os muçulmanos saíam todas as manhãs, sentavam-se no caminho de Meca e só voltavam para casa quando o calor do sol se tornava insuportável. Ibn Sa‘d, citando al-Waqidi, afirma que os emigrantes estavam aflitos devido ao atraso na chegada do Mensageiro (s). Todos os dias, os ansar e os emigrantes iam sentar-se em Harrat al-‘Asaba [quando uma enorme pedra, expelida do subsolo por matéria derretida, queima e adquire uma coloração negra, ela é chamada de ‘harra’. Há grandes pedras desse tipo ao redor de Medina. Harrat al-‘Asaba é o nome da pedra encontrada no caminho de Meca, além de Quba. Também é chamada Harra Quba — autor.] e esperavam até o calor do sol se tornar intenso. Ibn Jarir e Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, transmitiram o relato de ‘Abd al-Rahman ibn ‘Uwaym ibn Sa‘ida: “Vários companheiros de minha tribo me disseram que, assim que recebemos a notícia de que o Mensageiro (s) havia saído de Meca, começamos a aguardar sua chegada. Era verão. Por isso, quando o calor do sol se intensificava e não havia sombra em lugar algum, voltávamos para casa ao meio-dia.” Al-Bazzar também citou um relato semelhante de ‘Umar (ra).

Isso é um grande sinal de que o Mensageiro (s) não estava deixando sua amada terra natal para dirigir-se a um novo lugar como alguém em busca de refúgio. Pelo contrário, pela graça de Deus, ele encontrou, para sua Hégira, um lugar cujos habitantes ansiavam, impacientes, olhando na direção da estrada por onde ele chegaria.

A chegada do Profeta (s) a Quba

Era meio-dia, e as pessoas, depois de esperar pelo Profeta (s), haviam voltado para suas casas. Foi então que ele chegou a Quba acompanhado de seus companheiros. Entre as aldeias vizinhas de Medina, Quba era a mais famosa. Há duas narrativas sobre a chegada do Profeta (s) a Quba, que aparentemente parecem contradizer-se. Uma delas relata que, ao chegar perto de Harrat Quba, o Profeta (s) desceu em um de seus lados. Então alguém foi enviado para informar os Ansar. Assim que receberam a notícia, eles vieram, cumprimentaram o Profeta (s) e Hazrat Abu Bakr (r) e disseram: “Venha com toda a tranquilidade; somos seus obedientes seguidores.” Esta é a narrativa de Hazrat Anas (r) registrada em Bukhari, e Ibn Sa‘d também a citou sob sua autoridade. Na narrativa de Hazrat Anas (r) transmitida no Musnad de Ahmad e em Bayhaqi, acrescenta-se que, assim que ouviram a notícia da chegada do Profeta (s), quinhentas pessoas correram para recebê-lo.

Há outra narrativa segundo a qual, depois que o Profeta (s) chegou perto de Quba, um judeu que havia subido à sua pequena fortaleza para realizar alguma tarefa viu o Profeta (s) chegando e gritou em voz alta: “Ó Banu Qayla, eis que chegou o vosso chefe!” [Como Aws e Khazraj eram filhos da mesma mãe, chamada Qayla, eram chamados de Banu Qayla. A proclamação do judeu — “chegou o vosso chefe” — deixa claro que todos em Medina, crentes, politeístas e judeus, já sabiam que o Mensageiro de Allah (s) estava chegando não como alguém que buscava abrigo, mas como líder dos Ansar de Medina e governante poderoso. Diferentes narradores transmitiram essa proclamação do judeu com palavras diferentes. Aceitamos aqui a formulação de apenas uma narrativa, pois não haveria benefício em alongar o artigo apresentando todas as citações — o autor.] Assim que ouviram isso, os Banu Amr ibn Awf que viviam em Quba elevaram em uníssono os gritos de takbir e, armados, avançaram para receber calorosamente o Profeta (s). Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (s) e Hazrat Abu Bakr (r) haviam descido de suas respectivas montarias e estavam sob a sombra de uma tamareira. Uma enorme multidão dos Ansar, tomada por intensa emoção e entusiasmo, chegou ao local onde o Profeta (s) havia descido. Dominadas pela emoção irresistível, as pessoas se aproximavam dele. Contudo, não sabiam qual dos dois era o Mensageiro de Allah (s). Por isso, inicialmente começaram a cumprimentar Hazrat Abu Bakr (r). Mas, quando o sol começou a atingir o corpo do Profeta (s), Abu Bakr (r) levantou-se e fez sombra sobre ele com seu manto. Então as pessoas descobriram qual deles era o Profeta (s) e todos começaram a cumprimentá-lo. Bukhari transmitiu essa narrativa de Hazrat Urwa ibn Zubayr; Muhammad ibn Ishaq, de Abd al-Rahman ibn Waim ibn Sa‘ida; e Ibn Sa‘d, de Waqidi. Hakim, Musa ibn Uqba, Ibn Jarir al-Tabari, Baladhuri e muitos outros também relataram esse acontecimento.

A divergência que aparentemente se observa nessas duas narrativas, na realidade, não é uma divergência. É possível que, por um lado, depois de o Profeta (s) chegar ali, ele tenha enviado Amir ibn Fuhayra ou Abdullah ibn Urayqit para anunciar sua chegada; e, por outro, o judeu, ao vê-lo, também tenha gritado que ele havia chegado.

A data da chegada a Quba

Há grande divergência entre os transmissores quanto à data da chegada do Profeta (s) a Quba. Em certa passagem, Ibn Sa‘d menciona uma segunda-feira e o segundo dia de Rabi‘ al-Awwal. Em outra, afirma que a data de saída da Caverna de Thawr foi o quarto dia de Rabi‘ al-Awwal e, com certeza, que a chegada a Medina ocorreu no dia 12 de Rabi‘ al-Awwal. Na narrativa de Urwa ibn Zubayr em Bukhari, a data não é mencionada; diz-se apenas que era uma segunda-feira do mês de Rabi‘ al-Awwal. Musa ibn Uqba, citando o Imam Zuhri, afirma que a chegada a Quba ocorreu no primeiro dia de Rabi‘ al-Awwal, embora a maioria dos transmissores indique essa data como a da saída de Meca. Na narrativa de Jarir ibn Hazim, transmitida por Ibn Ishaq, afirma-se que o Profeta (s) chegou a Quba no segundo dia de Rabi‘ al-Awwal. Contudo, na narrativa de Asim ibn Adi citada por Tabarani, e nas narrativas de Ibn Hisham, Ibn Jarir e Ibrahim ibn Sa‘d, transmitidas por Ibn Ishaq, menciona-se o dia 12 de Rabi‘ al-Awwal. Baladhuri e Ibn Qutayba dizem que essa é a data correta. Ibn al-Qayyim menciona a mesma data em Zad al-Ma‘ad, assim como Ibn Abd al-Barr em al-Durar. Algumas narrativas mencionam os dias 8, 13 e 15 de Rabi‘ al-Awwal. Porém, a versão correta e confiável é que o Profeta (s) saiu de Meca no primeiro dia de Rabi‘ al-Awwal e foi para a Caverna de Thawr. Permaneceu ali três dias e três noites e partiu para Medina na última noite do quarto dia de Rabi‘ al-Awwal. Chegou a Medina (Quba) no dia 12 de Rabi‘ al-Awwal. [Cabe esclarecer que, segundo o calendário lunar, a noite precede o dia, e uma nova data começa após o pôr do sol. Portanto, a noite do primeiro dia de Rabi‘ al-Awwal significa a noite anterior ao dia, não a noite após o término desse dia. Além disso, é preciso saber que o calendário hijri foi iniciado durante o califado de Hazrat Umar (r); não se iniciou no dia da Hégira, mas no primeiro dia de Muharram (16 de julho de 622 d.C.). A Hégira ocorreu no terceiro mês do ano hijri — o autor.] Segundo o calendário solar, o mês e o ano correspondem a 24 de setembro de 622 d.C.

A permanência em Quba

É consensual que, em Quba, o Profeta (s) permaneceu na aldeia dos Banu Amr ibn Awf, um ramo da tribo de Aws. Também está comprovado que Kulthum ibn Hidam teve a honra de hospedá-lo ali. [Ele era um ancião venerável e de idade avançada. Faleceu pouco tempo depois da chegada do Profeta (s). Não sei como surgiu, em algumas narrativas, a afirmação de que ele era politeísta durante a permanência do Profeta (s). Ibn Abd al-Barr afirma claramente em al-Isti‘ab, e Ibn Hajar em al-Isaba, que ele se tornou muçulmano antes da Hégira — o autor.] Contudo, o Profeta (s) costumava ficar na casa de Hazrat Sa‘d ibn Khaythama quando ia visitá-lo, pois Sa‘d não tinha filhos e toda a casa estava disponível para os homens. Por isso, tornou-se amplamente conhecido entre as pessoas que o Profeta (s) havia permanecido na casa de Sa‘d. Baladhuri também escreveu isso detalhadamente em Futuh al-Buldan. Ele disse: “Ouvi isso de um grupo de pessoas versadas em hadith, biografia e campanhas militares.”

Durante sua permanência ali, o Profeta (s) construiu a Mesquita de Quba. O imame Bukhari citou isso com base no relato de Hazrate Urwa bin Zubair (ra), e Ibn Hisham e Ibn Jarir o citaram com base em Muhammad bin Ishaq. Ibn Jarir incluiu em sua citação de Ibn Ishaq toda a cadeia de transmissão, pela qual se sabe que, na realidade, este é um relato de Hazrate Ali (ra). Hafiz Ibn Hajar diz que esta foi a primeira mesquita construída na era islâmica e a primeira mesquita na qual o Mensageiro de Allah (s), juntamente com seus Companheiros, realizou publicamente a oração em congregação. (A Mesquita de Quba ainda está situada a sudoeste de Medina. No local adjacente à sua qibla, onde hoje existe uma grande cúpula chamada Maqam al-Umra, ficava a casa de Hazrate Kulsum bin Hidm. Próxima a ela, a segunda cúpula, que é adjacente à mesquita e conhecida como Bait-e-Fatima, era a casa de Hazrate Sa’d bin Khaisama — autor.)

Nessa época, Hazrate Ali (ra) chegou de Meca para servir o Profeta (s). Ele permaneceu com ele na casa de Kulsum bin Hidm. Ibn Hisham e Ibn Jarir, citando o relato de Muhammad bin Ishaq, dizem que ele permaneceu três dias em Meca e devolveu aos habitantes de Meca os depósitos que haviam deixado com o Profeta (s). Depois, emigrou dali. Há divergência sobre quantos dias o Profeta (s) permaneceu em Quba. Em Bukhari, Muslim e Ibn Sa’d encontra-se o relato de Hazrate Anas bin Malik (ra) de que ele permaneceu ali quatorze dias. Waqidi também fala em quatorze dias. É relatado por Hazrate Aisha (ra) e Urwa bin Zubair (ra) que o Profeta (s), depois de dez dias, permaneceu ali por mais algum tempo. Alguns membros dos Banu Amr bin Auf dizem que o Profeta (s) permaneceu ali dezoito dias. Musa bin Uqba narra, com base em Imam Zuhri e Mujammi bin Yazid bin Haritha, que o Profeta (s) permaneceu ali vinte e dois dias; esse também era o relato de Zubair bin Bakkar, que o ouvira de várias pessoas dos Banu Amr bin Auf. Baladhuri cita ainda uma opinião de vinte e três dias. Contudo, Ibn Sa’d, Ibn Ishaq, Ibn Hisham, Ibn Jarir, Baladhuri e Ibn Hibban afirmaram com certeza que o Profeta (s) permaneceu em Quba na segunda, terça, quarta e quinta-feira, partindo dali para Medina na sexta-feira. Essa é a versão conhecida entre os estudiosos de Maghazi e Siyar. Embora Ibn Hibban tenha dito que o Profeta (s) permaneceu três dias em Quba, e Musa bin Uqba também tenha dito isso, na realidade eles não incluíram entre os dias de permanência o dia da chegada do Profeta (s) a Quba nem o dia de sua partida de Quba. Por isso, suas declarações também correspondem à versão famosa.

Partida de Quba e a primeira oração de sexta-feira

Ibn Hisham também cita o relato de Ibn Ishaq, e os relatos de Ibn Sa’d e Baladhuri dizem o mesmo: o Profeta (s) partiu de Quba na sexta-feira, quando o dia já estava um pouco avançado. Ao chegar ao povoado dos Banu Salim bin Auf, chegou o horário da oração de sexta-feira. Ele desceu ali e conduziu a oração de sexta-feira na mesquita deles; cem pessoas participaram, e essa foi a primeira oração de sexta-feira realizada sob a liderança do Profeta (s). Essa mesquita dos Banu Salim ficava no campo de Ranuna. (Yakut escreveu, sob a palavra “Ranuna”, em Mu’jam al-Buldan: “No campo de Ranuna — a menção à mesquita encontra-se no resumo da Sira de Ibn Ishaq escrito por Ibn Hisham; caso contrário, todos os demais escreveram que o Profeta (s) realizou a oração de sexta-feira no povoado dos Banu Salim” — autor.) Inicialmente, ela era chamada Mesquita de Khubaib. Depois que o Profeta (s) conduziu ali a oração de sexta-feira, passou a ser chamada Mesquita de Juma, nome pelo qual continua conhecida até hoje. Ela fica à esquerda da estrada que vai de Medina a Quba.

Ibn Jarir Tabari incluiu em sua História, palavra por palavra, o sermão que o Profeta (s) proferiu nessa sexta-feira, citando Said bin Abd al-Rahman al-Jumahi. Contudo, nele se encontram vários versículos do Alcorão que foram revelados depois da Hégira. Por isso, surge a dúvida sobre se o discurso atribuído ao Profeta (s) foi transmitido com suas palavras exatas.

Entrada em Medina

Depois da oração de sexta-feira, quando o Profeta (s) se preparava para ir a Medina, algumas pessoas, lideradas por Hazrate Itban bin Malik (ra) e Hazrate Abbas bin Ubada Nadli, aproximaram-se dele e seguraram as rédeas da camela, suplicando: “Ó Mensageiro de Allah! Permaneça aqui conosco. Somos numerosos, possuímos equipamento de guerra e também força para a defesa.” O Profeta (s) disse: “Deixem livre o caminho da minha camela, pois ela recebeu uma ordem.” Isto é, ela está seguindo o comando de Allah. Ela parará no lugar onde receber de Allah a ordem para parar. Ao avançar, ele passou pelos bairros dos Banu Bayada, Banu Sa’ida, Banu al-Harith e Banu Adi bin Najjar. Em cada lugar, as pessoas dessas tribos vinham à frente, sob a liderança de seus chefes, e pediam que ele permanecesse ali. O Profeta (s) dava a todos a mesma resposta: “Deixem livre o caminho da minha camela, pois ela recebeu uma ordem.” Ele havia deixado soltas as rédeas da camela e não lhe dava o menor sinal sobre para onde deveria ir ou onde deveria parar. Quando ela chegou ao bairro dos Banu Malik bin Najjar, foi diretamente ao local onde hoje se encontra a Mesquita do Profeta — segundo outra opinião, o púlpito do Mensageiro — e sentou-se exatamente ali. O Profeta (s) ainda estava montado em seu dorso. Ela se levantou e avançou por certa distância, mas depois voltou e sentou-se exatamente no mesmo lugar, inclinando-se para descansar; então o Profeta (s) desceu de seu dorso. (A grande sabedoria divina nisso era que Allah não confiou ao próprio Profeta (s) a escolha do local de sua permanência; por ordem Sua, tomou esse serviço da camela. Se o Profeta (s) tivesse escolhido o local de sua preferência, as demais tribos dos Ansar poderiam sentir que ele havia dado preferência aos Banu Najjar sobre as outras — autor.) Ibn Hisham citou detalhadamente esse relato de Ibn Ishaq, e Ibn Jarir o citou resumidamente. Ibn Sa’d e Baladhuri também o narraram de forma resumida.

Permanência na casa de Abu Ayyub

Há algumas divergências nos relatos posteriores. Segundo o relato de Ibn Ishaq, quando o Profeta (que a paz esteja com ele) desceu da camela, a casa de Abu Ayyub Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) — Khalid ibn Zayd — ficava bem à frente. Ele se apresentou, descarregou os pertences do Profeta (que a paz esteja com ele) e levou-os para sua própria casa. O Profeta (que a paz esteja com ele) ficou hospedado com ele.

Em Bukhari e no Musnad de Ahmad consta que, ao descer da camela, o Profeta (que a paz esteja com ele) perguntou: “Qual é a casa mais próxima entre as casas do nosso povo?” Abu Ayyub (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “A minha, ó Mensageiro de Allah. Eis ali a minha casa, e esta é a minha porta.” O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Vá e prepare um lugar para o meu descanso.”

Ibn Sa’d também relatou isso sob a autoridade de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Sa’d, citando al-Waqidi, e al-Baladhuri acrescentam que As’ad ibn Zurara levou a camela do Profeta para sua casa e passou a cuidar dela.

Em alguns relatos, consta que, ao descer da camela, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

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“Este será, se Allah quiser, o local de hospedagem.” Abu Ayyub (que Allah esteja satisfeito com ele) veio e disse: “A minha casa é a mais próxima. Se me der permissão, levarei os seus pertences para minha casa.” O Profeta (que a paz esteja com ele) deu-lhe permissão, e ele levou os pertences consigo. Al-Tabarani relatou o mesmo sob a autoridade de Abdullah ibn al-Zubayr.

Em Bukhari, Muslim e no Musnad de Ahmad consta o relato de Bara ibn Azib (que Allah esteja satisfeito com ele) de que as pessoas discutiram sobre onde o Profeta (que a paz esteja com ele) ficaria. Por fim, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Ficarei com os Banu Najjar, que são a família dos tios maternos de Abdul Muttalib.” Hafiz Ibn Hajar cita, em al-Isaba, com base no Musnad de Ahmad, o próprio relato de Abu Ayyub: quando a disputa entre os Ansar se intensificou por causa disso, acabou sendo feito um sorteio, e o nome de Abu Ayyub (que Allah esteja satisfeito com ele) foi sorteado.

Ao considerar esses diferentes relatos, parece que, inicialmente, o Profeta (que a paz esteja com ele) ficou na casa de Abu Ayyub (que Allah esteja satisfeito com ele); depois, pessoas de outras tribos devem ter expressado o desejo de também compartilhar essa honra. Por isso, tornou-se necessário realizar um sorteio. E o Profeta (que a paz esteja com ele) quis tranquilizar as pessoas, dizendo que tinha laços de parentesco com aquela família desde os tempos antigos, e os árabes davam prioridade aos direitos de parentesco. (A casa de Abu Ayyub Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) ainda existe a sudeste da Mesquita do Profeta. Perto dela fica o Bab Ja’far Sadiq; atualmente, o imã e o pregador da Mesquita do Profeta permanecem ali — o autor.)

O imã Abu Yusuf cita, em Kitab al-Dhikr wa al-Du‘a, o relato de Abu Ayyub Ansari (r.a.), no qual Abu Ayyub disse: quando o Profeta (s.a.w.) desceu aqui, ele ficou no andar térreo, enquanto eu e a mãe de Ayyub ficamos no andar superior. À noite, disse à mãe de Ayyub: “O Profeta (s.a.w.) tem mais direito de ficar no andar superior, pois os anjos vêm até ele e a revelação desce sobre ele.” Por causa dessa preocupação, eu e a mãe de Ayyub não conseguimos dormir naquela noite. Pela manhã, contei tudo ao Profeta (s.a.w.). Ele disse: “O andar térreo é mais confortável para mim.” Eu disse: “Juro por Aquele que o enviou com a verdade: não posso morar numa casa de vários andares enquanto o senhor estiver no andar térreo.” Supliquei-lhe tanto que ele concordou em ficar no andar superior.

O relato de Abu Ayyub que Ibn Hisham cita de Muhammad ibn Ishaq é um pouco diferente deste. Nele consta que o Profeta (s.a.w.) preferia o andar térreo porque era mais conveniente para os visitantes. Por isso, Abu Ayyub (r.a.), embora contrariado, concordou em ficar no andar superior. Certo dia, porém, um recipiente de água que estava no andar superior quebrou-se. Abu Ayyub (r.a.) temeu que, se a água escorresse para baixo, o Profeta (s.a.w.) sofresse algum incômodo. Então, colocou sobre a água a única colcha que havia para os dois esposos e secou-a. Al-Bayhaqi e Ibn Abi Shaybah também transmitiram este acontecimento dessa mesma forma, com base no relato de Abu Ayyub (r.a.).

Ibn Sa‘d, citando Zayd ibn Thabit (r.a.), diz que, durante a permanência do Profeta (s.a.w.) na casa de Abu Ayyub, não houve um único dia em que não se vissem pessoas de três ou quatro casas paradas diante de sua porta, levando alimentos.

A recepção do Profeta (s.a.w.) em Medina

Embora o relato acima permita compreender claramente com que respeito e amor os habitantes de Medina acolheram o Profeta (s.a.w.), a recepção que lhe foi oferecida na cidade, com tamanho entusiasmo, fervor e profunda devoção e reverência, foi sem precedentes. Na Arábia, jamais se havia realizado uma recepção desse tipo, nem antes nem depois. Em Bukhari, Muslim e Musnad Ahmad encontra-se, por intermédio de Bara ibn ‘Azib, o seguinte relato de Abu Bakr al-Siddiq (r.a.). Ele disse: “Quando chegamos a Medina, vimos que as pessoas haviam saído às vias públicas para nos receber. Havia uma multidão imensa sobre os telhados. Servos e crianças corriam alegremente pelas ruas, tomados de felicidade, e proclamavam: ‘Allahu akbar! O Mensageiro de Allah (s.a.w.) chegou! Muhammad (s.a.w.) chegou!’” Em Bukhari há o relato de Anas ibn Malik (r.a.) de que o Profeta (s.a.w.) e Abu Bakr (r.a.) estavam cercados por uma multidão armada. As pessoas subiam a lugares elevados para tentar ver o Profeta (s.a.w.), e por toda a cidade ressoavam os gritos: “Chegou o Profeta de Allah! Chegou o Mensageiro de Allah!” Nas palavras encontradas no relato de Anas (r.a.) em Tabaqat de Ibn Sa‘d, ele diz: “Nunca vi um dia tão luminoso e glorioso.” O relato de Anas (r.a.) em Musnad Ahmad é o seguinte: “Os habitantes de Medina saíram para a recepção com enorme entusiasmo e fervor; as mulheres reuniram-se sobre os telhados e perguntavam às pessoas: ‘Qual destes dois é o Mensageiro de Allah (s.a.w.)?’ Nunca havíamos visto uma cena assim.” Relatos semelhantes de Anas (r.a.) foram citados por al-Darimi, al-Tirmidhi, Ibn Majah, Abu Dawud e al-Bayhaqi. Em Bukhari há o relato de Bara ibn ‘Azib (r.a.), no qual ele diz: “Nunca vi os habitantes de Medina tão felizes quanto os vi no dia da chegada do Profeta (s.a.w.) a Medina.”

Al-Bayhaqi, em Dala’il, e Abu Bakr al-Muqri, autor de Mu‘jam al-Kabir, registraram em Kitab al-Shama’il que as mulheres subiram aos telhados e cantaram esta canção:

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—A lua cheia surgiu sobre nós, vindo das passagens montanhosas de Wadi; é nosso dever agradecer enquanto permanecer alguém que invoque Allah.

Razin acrescentou outro poema:

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—Ó enviado entre nós, tu vieste com uma posição cuja obediência é obrigatória para nós.

Ibn al-Qayyim rejeita esta narração em Zad al-Ma’ad, alegando que Saniyyat al-Wada ficava na direção da Síria, e não na direção oposta, a de Meca. E as meninas cantaram os poemas quando o Profeta (S) retornava de Tabuk para Meca. É assim que se afirma em Bukhari, Abu Dawud e Tirmidhi. Contudo, não é impossível nem contrário à razão que a passagem montanhosa até a qual os habitantes de Medina iam para despedir os viajantes que se dirigiam a Meca também fosse chamada de **************************. Saniyya ********** designa toda passagem que atravessa as montanhas, e chamar uma passagem de ‘Saniyyat al-Wada’ significa uma passagem montanhosa na qual os viajantes são despedidos.

Quando o Profeta (S) chegou ao bairro de Banu Najjar, as meninas saíram tocando o daff e cantaram esta canção:

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—Nós somos as meninas de Banu Najjar; que excelente vizinho é Muhammad (S)! Hakim e Bayhaqi narram estas palavras por meio de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). O Profeta (S) perguntou às meninas: “Vocês me amam?” Elas responderam: “Sim, ó Mensageiro de Allah!” O Profeta (S) disse três vezes: “Juro por Allah, eu amo vocês”, isto é, os Ansar.

“At-Tabarani citou estas palavras do Profeta (s): Allah sabe que meu coração vos ama”.

Al-Bayhaqi e Ibn Majah também narraram isso, sob a autoridade de Anas (ra). No Sahih al-Bukhari, há uma narração semelhante de Anas (ra): ao ver as meninas e as mulheres chegando, o Profeta (s) levantou-se e disse três vezes: “Por Allah! Vós sois as pessoas mais queridas para mim.” (Acréscimo do autor.)

A situação embaraçosa dos coraixitas

O fato de o Mensageiro de Allah (s) ter chegado em segurança a Medina já era extremamente constrangedor para os coraixitas. Porém, quando lhes chegou a notícia da recepção régia oferecida ao Profeta (s) em Medina, ficaram extremamente perturbados e enviaram uma carta a Abdullah ibn Ubayy, chefe de Medina, a quem os habitantes de Medina se preparavam para fazer rei antes da Hégira e cuja esperança fora completamente destruída pela chegada do Profeta (s) a Medina e pelo fato de a maioria dos Aws e dos Khazraj ter-se tornado muçulmana. A carta dizia:

Vós destes abrigo ao nosso homem em vosso território. Juramos por Allah que deveis lutar contra ele ou expulsá-lo. Caso contrário, todos nós vos atacaremos, mataremos os vossos homens e tornaremos as vossas mulheres escravas.

Depois de receber a carta, Abdullah ibn Ubayy começou a preparar alguma ação maliciosa. Porém, o Profeta (s) tomou, no momento oportuno, medidas para impedir essa ação. Depois disso, o chefe de Medina, Sa’d ibn Mu’adh (ra), foi a Meca para realizar a Umrah. Ali, bem à porta do Haram, Abu Jahl sentou-se para impedi-lo—

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Vós dareis abrigo aos apóstatas da nossa religião e os ajudareis, e nós vos deixaremos circumambular a Caaba em Meca tranquilamente? Por Allah, se não estivesses sob a proteção de Abu Safwan (isto é, Umayya ibn Khalaf), não poderias sair daqui vivo.

Hazrate Sa‘d respondeu:

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Juro por Deus: se vocês me impedirem de realizar isso, eu os impedirei de algo que será ainda mais difícil para vocês — isto é, de passar por Medina em suas rotas comerciais. (Este é o relato de Hazrate Abdullah ibn Mas‘ud, que al-Bukhari registrou e que ele ouviu pessoalmente de Hazrate Sa‘d ibn Mu‘adh. Nele fica claramente estabelecido que, desde a época da Jahiliyyah, havia uma relação de amizade entre Sa‘d e Umayyah ibn Khalaf. Quando Umayyah ia a Medina, hospedava-se na casa de Sa‘d; e, quando Sa‘d ia a Meca, hospedava-se na casa de Umayyah. Com base nessa amizade, Hazrate Sa‘d ibn Mu‘adh foi a Meca para realizar a ‘umrah e disse a Umayyah: “Leve-me ao Haram em um momento em que não haja ninguém lá.” Assim, ao meio-dia, Umayyah o levou para fazer o tawaf. Mas Abu Jahl estava ali. Foi então que Hazrate Sa‘d teve com ele a conversa que mencionamos acima. Este relato também diz que, quando Hazrate Sa‘d respondeu duramente a Abu Jahl, Umayyah lhe disse: “Não fale rudemente com Abu al-Hakam; ele é o chefe deste vale.” Hazrate Sa‘d respondeu: “Deixe isso, irmão. Ouvi o Mensageiro de Deus dizer que eles o matarão.” Ao ouvir isso, Umayyah ficou muito aflito e perguntou: “Eles me matarão em Meca?” Hazrate Sa‘d respondeu: “Não sei.” No relato dessa história transmitido no Musnad de Ahmad há ainda o seguinte acréscimo: Umayyah contou à sua esposa o que Sa‘d havia dito, e ela respondeu: “Juro por Deus, Muhammad não mente.”

No relato que Hafiz Abu Bakr al-Bazzar transmitiu de Abdullah ibn Mas‘ud em seu Musnad, em lugar de Umayyah ibn Khalaf é mencionado ‘Utbah ibn Rabi‘ah. Diz-se que, quando ele proibiu Hazrate Sa‘d de tratar Abu Jahl com rudeza, Sa‘d respondeu: “Ouvi o Mensageiro de Deus dizer que ele o matará.” Ao ouvir isso, ‘Utbah ficou atônito e disse: “As palavras de Muhammad não podem ser falsas.” Embora os narradores deste hadith de al-Bazzar sejam confiáveis, a versão correta é a que foi apresentada por al-Bukhari. Umayyah ibn Khalaf não queria ir à batalha de Badr; os coraixitas o levaram à batalha depois de repreendê-lo repetidamente. Após ser capturado, não foi morto pelas mãos do Profeta, mas pelas mãos de Hazrate Bilal. Quanto ao homem a quem o próprio Profeta havia dito que mataria, não era Umayyah ibn Khalaf, mas Ubayy ibn Khalaf. Ele foi morto pelas mãos do Profeta na batalha de Uhud. O autor. A situação era a seguinte: da parte dos habitantes de Meca, foi proclamado que o caminho para a Baytullah estava proibido aos muçulmanos; em resposta, os habitantes de Medina declararam que a rota comercial para a Síria seria perigosa para os opositores do Islã. Isso indica claramente em que direção a situação iria evoluir. (Tafhim al-Qur’an, volume 2, introdução à surata al-Anfal.)

A construção da Mesquita do Profeta

Depois que o Profeta se hospedou na casa de Hazrate Abu Ayyub al-Ansari, aquilo em que ele pensava era que uma mesquita deveria ser construída. O local onde sua camela havia parado já era, segundo o relato de Ibn Sa‘d, um lugar onde os muçulmanos se reuniam para a oração. As‘ad ibn Zurarah, que Deus esteja satisfeito com ele, dirigia ali as orações em congregação, e ali também se realizava a oração de sexta-feira. O terreno pertencia a dois órfãos, Sahl e Suhayl, e estava sob a tutela de As‘ad ibn Zurarah. Esse é o relato de ‘Urwah ibn al-Zubayr em al-Bukhari e de Muhammad ibn Ishaq na Sira de Ibn Hisham. Al-Baladhuri o cita como uma declaração bem conhecida em Futuh al-Buldan. (No relato de Ibn Ishaq, Hazrate Mu‘adh ibn ‘Afra, que Deus esteja satisfeito com ele, é mencionado como seu tutor.) Em al-Bukhari há o relato de Hazrate ‘A’ishah e de ‘Urwah ibn al-Zubayr; e o relato de Ibn Ishaq na Sira de Ibn Hisham também diz que tâmaras eram secadas nesse terreno. Os relatos de al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud e Ibn Jarir afirmam que havia ali algumas tamareiras, alguma terra cultivada — e, segundo certos relatos, também alguma terra improdutiva — e alguns túmulos antigos de idólatras. Segundo o relato de Hazrate ‘A’ishah e ‘Urwah ibn al-Zubayr, o Profeta conversou com os dois rapazes sobre o preço do terreno. Eles disseram: “Ó Mensageiro de Deus, nós lhe doamos este terreno.” Porém, o Profeta não aceitou a doação e comprou-o pagando seu preço. Segundo o relato de Musa ibn ‘Uqbah, transmitido por Imam al-Zuhri, o Profeta comprou-o por dez dinares. Ibn Sa‘d transmite a mesma versão de al-Waqidi e acrescenta que Hazrate Abu Bakr pagou o preço. Al-Baladhuri também afirma isso em Futuh al-Buldan.

Ibn Ishaq afirma que Hazrate Mu‘adh ibn ‘Afra disse: “Ó Mensageiro de Deus, construa aqui uma mesquita. Eu convencerei estes rapazes a concordar.” (Não foi dito que ele pretendia convencê-los pagando pessoalmente o preço, nem que pretendia obter o preço do Profeta e comprar o terreno deles.)

Em al-Bukhari e Abu Dawud há um relato de Hazrate Anas segundo o qual o Profeta mandou chamar os Banu Najjar e disse: “Avaliem o preço deste jardim.” Eles responderam: “Não queremos seu preço de ninguém além de Deus.” (Originalmente foi usada uma palavra que designa um jardim cercado por muros. Isso sugere que, no início, o local era um jardim, que depois foi destruído e passou a ser usado para outras finalidades, como se depreende do relato acima. O autor.) Este relato não fornece os detalhes de se o terreno foi comprado mediante pagamento ou recebido como doação. Porém, todos os demais relatos concordam que o terreno da Mesquita do Profeta não foi obtido gratuitamente.

Depois que o terreno foi adquirido, ele foi limpo; as covas e as elevações foram niveladas, e os túmulos foram removidos. As tamareiras foram cortadas, e seus troncos foram transformados em pilares da mesquita. Fez-se um teto de folhas de palmeira. As paredes foram construídas com tijolos e argamassa de barro. Deixou-se uma área livre para as orações. Depois que o chão se tornou lamacento durante as chuvas, espalharam-se pedrinhas sobre ele. Quando fazia um calor intenso sob o teto de folhas de palmeira, aplicava-se barro sobre as folhas. Em Sahih al-Bukhari, há relatos de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e Urwa ibn az-Zubair; em Abu Dawud, de Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele); e na Sira de Ibn Hisham, de Muhammad ibn Ishaq, segundo os quais o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) participou pessoalmente, junto com os demais, do transporte de tijolos e barro para a construção dessa mesquita.

Construção dos aposentos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Ao lado da Mesquita do Profeta, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) construiu para si dois aposentos: um para Hazrat Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela) e outro para Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ibn Sa’d diz que esses dois aposentos também eram feitos de tijolos crus. Os aposentos foram separados uns dos outros com uma camada de barro aplicada sobre uma cerca de folhas de palmeira. O teto também era de folhas de palmeira. Um cobertor era pendurado sobre a porta. Hazrat Hasan al-Basri diz: “Quando eu era pequeno e ainda menor de idade, fui à casa do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); o teto da casa era tão baixo que podia ser tocado com a mão.” O Imam Bukhari, em sua obra histórica, e Hafiz Abu Ya’la, em seu Musnad, registraram que se batia à porta do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com a unha do dedo, pois ela não tinha aldrava nem argola.

Mandar buscar a família em Meca

Há um relato de al-Waqidi, transmitido por Hazrat Zayd ibn Thabit, de que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu na casa de Abu Ayyub (que Allah esteja satisfeito com ele) durante sete meses. Ibn Sa’d e al-Baladhuri citam esse relato, e Hafiz Ibn Hajar reconhece sua autenticidade.

Antes de se mudar para seu novo aposento, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou a Meca Hazrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) e seu escravo liberto, Abu Rafi (que Allah esteja satisfeito com ele), com quinhentos dirrãs [al-Baladhuri diz que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu esses quinhentos dirrãs de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) — Nota do autor.] e dois camelos selados, para que trouxessem sua família e as pessoas relacionadas a ele. Junto com esses dois, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou Abdullah ibn Uraiqit, dando-lhe uma carta em nome de seu filho Abdullah, para que trouxesse sua mãe e suas irmãs. Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) trouxe a Mãe dos Crentes, Hazrat Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela), as duas filhas do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela) e Umm Kulthum (que Allah esteja satisfeito com ela), além de sua esposa, Umm Ayman (que Allah esteja satisfeito com ela), e seu filho Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, não conseguiu trazer Hazrat Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), pois seu marido, Abul-As ibn al-Rabi, não permitiu que ela partisse. Hazrat Abdullah ibn Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) veio com Umm Ruman (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) e Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) (at-Tabarani, Ibn Sa’d, al-Baladhuri e Ibn Abd al-Barr).

Aqui termina o período mequense do movimento islâmico. Nas páginas seguintes, faremos uma análise dele.

Décimo quarto capítulo

Uma avaliação geral do período de Meca

Devemos voltar o olhar para trás e examinar a história do período que vai do início da época de Meca até a Hégira, a fim de verificar com que recursos o movimento islâmico começou, que tipos de crescimento ocorreram nesses recursos ao longo de treze anos e quais eram os recursos de que dispunha quando entrou no período de Medina, aproveitando os quais teve de avançar rumo ao seu destino em uma situação completamente diferente daquela do período de Meca.

O capital inicial deste movimento — ou, mais precisamente, seu capital fundamental — consistia unicamente na pessoa de Muhammad ibn Abdullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em sua personalidade e nos quarenta anos de sua vida anteriores à profecia.

A elevada nobreza de linhagem do Profeta (que a paz esteja sobre ele)

Como indivíduo, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) pertencia a uma família extremamente nobre da Arábia, cuja linhagem era conhecida pelos árabes. A maioria das tribos árabes, que se orgulhava de sua ascendência, sabia que, por parte do pai ou da mãe, sua linhagem se unia à do Profeta (que a paz esteja sobre ele) em algum ponto. Por isso, sua posição não era a de um homem de origem desconhecida, estranho, sem nobreza ou de baixa linhagem que surgisse repentinamente com uma reivindicação grandiosa, levando as pessoas, ao vê-lo, a dizer que uma reivindicação daquele tipo não lhe convinha de modo algum. Em toda a Arábia, ninguém podia sequer fazer a menor insinuação contra a nobreza de linhagem do Profeta (que a paz esteja sobre ele). Na própria cidade de Meca, todas as famílias que, orgulhosas de sua linhagem, não reconheciam a superioridade de ninguém, tinham relações de parentesco com o Profeta (que a paz esteja sobre ele) e sua família. Mesmo entre elas, ninguém podia dizer que ele fosse inferior em qualquer aspecto quanto à linhagem e à posição social. Ele também pertencia à tribo dos coraixitas, que detinha a honra de liderar a Arábia. Não havia dúvida de que os coraixitas eram descendentes de Ismael (que a paz esteja sobre ele). Suas relações comerciais se estendiam por todo o país e por regiões distantes no exterior. Devido à administração da Caaba e à atração do Hajj, pessoas de lugares longínquos da Arábia mantinham contato com eles. Por essas razões, essa tribo gozava na Arábia de uma posição tão elevada como nenhuma outra. Nascer em uma tribo como os coraixitas, em uma cidade central como Meca, oferecia ao líder deste movimento enormes vantagens no ambiente árabe.

O nascimento do Profeta (que a paz esteja sobre ele) entre os descendentes de Ismael

Além da honra, do respeito e da dignidade da família ismaelita, tinha especial importância o fato de que, ao longo dos dois mil e quinhentos anos anteriores, nenhum membro dessa linhagem, depois do Profeta Ismael (que a paz esteja sobre ele), jamais havia reivindicado a profecia. Um nobre da tribo de Banu Amir ibn Sa’sa’a mencionou esse fato quando os membros de sua tribo, ao retornarem do Hajj, lhe contaram sobre seu encontro e conversa com o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). Disseram-lhe: “Encontramos um homem dos coraixitas que se apresenta como profeta e deseja que o levemos para nossa região, para que possamos ajudá-lo a transmitir a mensagem de Allah. Mas nos recusamos a aceitar suas palavras.” Então o ancião disse, pesaroso: “Um ismaelita nunca fez uma falsa reivindicação.” Este foi outro benefício do nascimento do Profeta (que a paz esteja sobre ele) na linhagem de Ismael. A história também testemunhava que a reivindicação profética do Profeta (que a paz esteja sobre ele) estava fundada na verdade, pois ninguém dessa linhagem jamais havia surgido com uma falsa reivindicação de profecia.

Sua personalidade

Quanto à sua personalidade, deve-se dizer que, desde a infância, os fisionomistas árabes, ao observar sua constituição física, sua maneira de falar, seu comportamento, sua boa conduta e outras qualidades, diziam: “Este é um ser extraordinário que nasceu na família de Abdul Muttalib.” As reações de sua mãe, de seu avô, de seus tios e de sua ama de leite estão todas preservadas na história; por meio delas sabemos que aqueles que o viam de perto, ainda em sua pouca idade, já percebiam nele uma grandeza claramente manifesta. Há também o relato de que um homem completamente desconhecido, ao vê-lo, exclamou: “Por Deus, este rosto não pode pertencer a um mentiroso.” Quando chegou à juventude, seu prestígio era tal que as pessoas da cidade e de sua família começaram a ser influenciadas por sua personalidade. As pessoas espontaneamente o respeitavam, pois o consideravam muito superior ao homem comum. Seu prestígio, sua dignidade, sua pureza, sua generosidade, sua humildade e seu caráter imaculado eram tão evidentes que ninguém que entrasse em contato com ele conseguia deixar de respeitá-lo e honrá-lo. Essa personalidade cativante continuou a exercer influência mesmo quando os coraixitas se tornaram seus inimigos por ele apresentar o chamado islâmico. Dominados pela paixão cega da hostilidade, chegaram a tratá-lo de maneira extremamente ofensiva. Contudo, quando se considera que a inimizade que ardia em seus corações como fogo e que, por causa dela, não poupavam sequer seus filhos, irmãos e parentes próximos de castigos dolorosos, percebe-se que havia uma atração especial que os deixava completamente impotentes quando vinham enfrentá-lo. Depois de iniciar o chamado público, ele continuou a transmiti-lo abertamente mesmo em circunstâncias terrivelmente adversas. Apesar de estar sitiado no Desfiladeiro de Abu Talib, saía repetidas vezes do cerco para realizar o trabalho de pregação. Os três últimos anos em Meca foram extremamente difíceis; ainda assim, ele não se encontrava apenas com os visitantes que chegavam à cidade, mas também se reunia publicamente com os chefes tribais nas assembleias de Ukaz, Majanna, Dhu al-Majaz e Mina, apresentando-lhes o chamado ao Islã. É preciso reconhecer que havia uma força extraordinária em sua personalidade, graças à qual ninguém conseguiu impedi-lo de cumprir a missão da profecia. Nas páginas anteriores, vocês também encontraram exemplos de como até mesmo seu mais ferrenho inimigo, Abu Jahl, era influenciado por ele.

A vida antes da profecia

Agora devemos observar qual foi o efeito dos quarenta anos de vida que o Profeta (que a paz esteja com ele) passou em Meca antes da profecia. Essa vida não era apenas imaculada; era também um modelo de caráter elevadíssimo. Na sociedade em que viveu desde a infância até a maturidade — sociedade cujos membros estavam ligados a ele por parentesco, convivência, amizade, transações comerciais, relações de vizinhança e, em suma, por vínculos de toda espécie — não havia ninguém que não reconhecesse elogiosamente sua honestidade, sua integridade, sua cortesia, sua pureza moral, sua boa conduta, sua misericórdia e sua solidariedade. Ele era a personificação do bem e da prosperidade. Ninguém jamais tivera sequer motivo para temer que pudesse sofrer alguma injustiça da parte dele, quanto mais uma experiência concreta de injustiça. A confiança das pessoas nele era tão firme que o chamavam de “Al-Amín”, o Confiável. E essa confiança permaneceu inabalável até mesmo quando as pessoas se tornaram suas inimigas por ele apresentar o chamado ao Islã. Mesmo nessa situação, todos, amigos e inimigos indistintamente, depositavam seus bens confiados aos cuidados dele; ninguém temia que ele os traísse. Ao providenciar a devolução dos depósitos que lhe haviam sido confiados quando deixou o local de execução, demonstrou plenamente que era digno da confiança de todos. Sua veracidade era tão universalmente reconhecida na sociedade que, quando começou a apresentar o chamado ao Islã e os coraixitas o rejeitaram vigorosamente, seus opositores ainda assim não ousaram chamá-lo de mentiroso; em vez disso, continuaram a declarar falsa a mensagem que ele apresentava. Mesmo no período de extrema hostilidade, ninguém conseguiu apontar qualquer defeito em seu caráter. Aqueles que tinham com ele relações muito próximas, diante dos quais nenhum defeito poderia permanecer oculto — se, Deus nos livre, houvesse algum defeito — eram justamente os que mais se deixavam influenciar por seu caráter sublime.

Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) rejeitou propostas de casamento feitas pelos grandes chefes dos coraixitas e, por sua própria vontade, casou-se com ele porque ficara maravilhada com seu caráter sublime. Quinze anos de vida conjugal são suficientes para que uma esposa conheça as qualidades e os defeitos de seu marido, especialmente quando ela é mais velha, instruída e inteligente do que ele, e quando o marido conduz negócios comerciais com o capital dela. Contudo, o resultado da longa observação direta e da experiência de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) a respeito do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) foi que ela não o considerou simplesmente um homem de nível elevado; encontrou nele um homem de tão grande dignidade que não hesitou sequer por um momento em aceitá-lo como o Mensageiro do Senhor dos mundos e em crer nele. Já a esposa mundana de um impostor, por mais benefícios e facilidades que desfrute devido às atividades fraudulentas do marido, jamais consegue acreditar nele interiormente nem ter fé nele.

Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) entrou em contato com o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) enquanto estava na condição de escravo. Embora possa haver amor do escravo por seu senhor, sua relação mútua raramente é harmoniosa. Isso ocorre porque o escravo é indefeso, enquanto o senhor tem o direito de exigir dele qualquer serviço, por mais difícil que esse serviço seja para ele. Além disso, o escravo tem a oportunidade de observar todos os aspectos bons e ruins da vida de seu senhor e, como servo sem autoridade, vê diante de si sobretudo os aspectos negativos da vida de seu senhor de espírito independente. Contudo, o Profeta (que a paz esteja com ele) era um senhor de tal natureza que o escravo continuava a se encantar com ele. Quando seu pai e seu tio vieram libertá-lo da escravidão, preferiu permanecer servindo o Profeta (que a paz esteja com ele), em vez de ser libertado e partir com o pai. Depois de permanecer quinze anos a serviço do Profeta, esse escravo — a quem ele libertara e adotara como filho — ficou tão profundamente influenciado por sua conduta e comportamento que, ao saber que seu senhor havia sido investido da dignidade da profecia, não hesitou sequer por um momento em crer nele, assim como Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ele não era uma criança ingênua, mas um jovem de trinta anos; era também tão inteligente e perspicaz que, no oitavo ano da Hégira, foi enviado como comandante de um exército no qual homens como Ja‘far ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) e Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) estavam sob seu comando. Portanto, não se deve pensar que ele era um servo tolo, que não conhecia a importância da profecia e da missão profética e que simplesmente, influenciado pela personalidade de seu senhor, acreditou sem compreender. Pelo contrário, ao longo de seus quinze anos de experiência, ele encontrou no Profeta um homem de dignidade tão elevada que nenhuma dúvida surgiu em sua mente quanto ao fato de ele ser o Mensageiro de Allah. Foi justamente por causa dessa grandeza de caráter que ele não partiu com seu pai.

O mesmo se aplicava a Hazrat Abu Bakr (r.a.). Durante vinte anos, ele não foi apenas companheiro do Profeta (s.), mas também seu amigo íntimo. O mesmo se aplicava a Hazrat Ali (r.a.), que foi criado na própria casa do Profeta (s.); a Waraqa bin Nawfal, que desde a infância observava o modo de vida do Profeta (s.) e, por ser parente próximo de Hazrat Khadija (r.a.), teve maiores oportunidades de conhecê-lo e compreendê-lo; e a Hazrat Uthman (r.a.), que era sobrinho do Profeta (s.) por parte de tia. Hazrat Zubair (r.a.) era seu primo por parte de tia e sobrinho de Hazrat Khadija. Hazrat Ja‘far bin Abi Talib (r.a.) era seu primo legítimo. Hazrat Abdur Rahman bin Auf (r.a.) e Hazrat Sa‘d bin Abi Waqqas (r.a.) eram parentes de sua mãe. Nenhum deles deixou de observar de perto seu caráter e sua conduta; e foram precisamente essas pessoas que, antes de todos os outros, aceitaram sua profecia.

A manifestação de suas nobres qualidades após o início da profecia

Se um movimento começa sob a liderança de uma personalidade tão grandiosa, isso constitui um enorme capital para o movimento. Mas o acréscimo que esse capital inicial recebeu durante os treze anos seguintes ao seu início foi tão valioso que a história da humanidade não consegue apresentar exemplo semelhante. Antes de tudo, observemos aquelas qualidades do próprio Mensageiro de Deus que se manifestaram claramente nesse período e que foram a principal causa da expansão desse chamado.

O sacrifício financeiro do Profeta (s.)

Sua primeira qualidade foi o sacrifício que fez por essa grande obra. No início de sua missão profética, ele era um comerciante próspero e bem-sucedido. De um lado, havia a riqueza de Hazrat Khadija (r.a.), que não era inferior à riqueza total dos demais comerciantes dos coraixitas; de outro, havia a sabedoria, a inteligência, a boa administração e a reputação de honestidade do Profeta (s.), com as quais ninguém podia competir. Pode-se imaginar quanto prosperaria um comércio em que essas duas coisas se reunissem. Contudo, antes do início da profecia, o Profeta (s.) e sua esposa não reservavam essa riqueza para o luxo. Pelo contrário, gastavam-na ajudando os necessitados, amparando os desamparados e oferecendo hospitalidade aos viajantes. Ele assumia a liderança em toda boa ação. Por isso, no início da profecia, não possuía consigo uma grande quantidade de riqueza acumulada. Depois, quando a responsabilidade da profecia lhe foi confiada, gastou gradualmente, no caminho de Deus, tudo o que chegava às suas mãos. Também não lhe era possível administrar um negócio ao mesmo tempo que propagava a religião. A situação chegou a tal ponto que, quando foi a Taif, teve de ir a pé, pois não conseguiu obter nenhum meio de transporte. Durante a Hégira, Hazrat Abu Bakr (r.a.) arcou com todas as suas despesas. Para trazer sua família de Meca para Medina, teve de tomar quinhentos dirhams de Hazrat Abu Bakr (r.a.). Não possuía em suas mãos um único dirham ou dinar. É evidente que, quando alguém que apresenta um chamado se entrega dessa maneira à sua causa, sacrificando seus próprios interesses, todos, ao observá-lo, ficam convencidos de que ele é absolutamente sincero e desinteressado em relação ao seu objetivo. Mesmo o mais ferrenho opositor, por mais que diga o que quiser em público, reconhece interiormente que não há nenhum interesse pessoal ligado a esse chamado. Para aqueles que aceitam seu chamado e se juntam a ele, o exemplo de seu líder é tão instrutivo que aceitam a verdade simplesmente por ela ser a verdade; nenhum interesse pessoal fica ligado à sua fé, e, nos sacrifícios e renúncias, seguem o exemplo de seu líder.

A firmeza de propósito do Profeta (s.)

A segunda coisa era a firmeza de seu propósito, que nenhuma calamidade, dificuldade ou tempestade de oposição podia derrotar, e que nenhum medo ou ameaça podia deslocar de seu lugar. Nenhuma tentação podia desviá-lo do caminho da verdade. Nenhuma situação difícil e mortal podia deixá-lo desesperado ou partir-lhe o coração. Sua constância era como uma montanha; ao se chocarem contra ela, todas as forças adversárias acabaram por se desesperar, convencidas de que nenhuma conspiração, nenhuma demonstração de força, nenhuma opressão ou tirania, nenhuma tentação, propaganda difamatória ou manobra vil poderia afastá-lo da missão com a qual havia surgido. Depois de observar durante anos sua firmeza de propósito, as pessoas foram obrigadas a expressar a seguinte conclusão: enquanto uma pessoa não estiver firmemente convencida de que permanece estabelecida na verdade e enquanto não estiver livre de interesses pessoais, não poderá ser tão firme em seu propósito. Foi isso que criou entre seus companheiros firmeza na fé e constância no caminho da verdade. E foi isso que criou no coração de todas as pessoas imparciais a firme convicção de que o chamado que ele apresentava estava fundamentado na pura devoção à verdade.

A coragem sem paralelo do Profeta (s.)

A terceira qualidade era a coragem e a bravura do Profeta (s), que não sabia o que significavam ser subjugado por uma grande potência ou sentir medo diante de um enorme perigo. Uma multidão enfurecida de incrédulos coraixitas cercou-o no Haram e perguntou: “És tu a pessoa que diz isto? És tu a pessoa que diz esse tipo de coisa?” Ele respondeu sem hesitação: “Sim, sou eu quem diz isso, e também digo isto.” Mesmo vendo-se cercado pelos inimigos de sua vida, não se perturbou nem um pouco. Os inimigos aproximavam-se da própria entrada da caverna de Sawr, enquanto ele, naquele momento, rezava com serenidade. Hazrat Abu Bakr (ra) disse: “Se esses homens perversos olharem para os seus pés, certamente nos verão.” Sem qualquer inquietação, ele respondeu calmamente: “Abu Bakr (ra), que pensas de dois homens dos quais o terceiro é Allah? Não te aflijas; Allah está conosco.” O inimigo havia anunciado uma recompensa pela sua sagrada cabeça. Pessoas corriam por toda parte na esperança de obter a recompensa. Ele atravessava o caminho tranquilamente, recitando o Alcorão, sem sequer olhar para trás para ver se alguém o seguia. Com um líder tão corajoso, só chegam pessoas corajosas. Ao contemplarem repetidamente a sua coragem, a coragem delas aumentava ainda mais. Por mais cego que o inimigo estivesse em sua hostilidade, não podia deixar de respeitar essa qualidade dele. Perdia a coragem ao descobrir que enfrentava um homem para quem o medo era algo desconhecido. Para qualquer movimento, especialmente para o movimento islâmico, é uma grande e importante qualidade que seu líder seja destemido e corajoso. A covardia do líder — ou mesmo uma pequena fraqueza em sua coragem — faz fracassar todo o movimento no momento da prova de fogo.

A magnanimidade do Profeta (s)

A quarta qualidade importante do Profeta (s) era a paciência, a tolerância, o autocontrole e a elevação de aspirações. Mesmo após os ataques mais vis da parte dos inimigos, ele não se deixava dominar pela ira. Não respondia aos insultos com insultos. Em resposta a palavras ásperas e acusações infundadas, jamais saía de sua boca qualquer palavra contrária à decência. Repetidas vezes, o inimigo agia de maneira extremamente dolorosa, humilhante e provocadora. Mas ele suportava tudo em silêncio, com extrema magnanimidade. Respondia ao mal com o bem, em vez de responder-lhe com o mal. Durante o longo período de crise em Meca, não se encontra sequer um exemplo em que tenha abandonado a cortesia e a decência. Essa era a nobre qualidade que continuamente elevava sua dignidade moral aos olhos da sociedade ao seu redor e rebaixava seus opositores aos olhos de qualquer pessoa que possuísse sequer um pouco de moralidade e cortesia. Ele não enfrentou situação mais difícil do que a de Taife. Mesmo naquela ocasião, porém, de seus lábios saíram apenas súplicas, e ele não aceitou que qualquer castigo fosse enviado contra os opressores. Antes mesmo do campo de batalha, derrotou seus opositores no campo moral. O selo final dessa derrota foi impresso quando, ao sair do local de execução, ele se preocupou em devolver os bens confiados pelos habitantes de Meca. Depois de ver sua conduta e sua postura, quem não aceitar de coração que os seguidores da jahiliyyah estavam enfrentando um homem que não era apenas o mais nobre de sua própria comunidade, mas o mais nobre de todo o mundo, teria a consciência completamente morta. Para a formação moral daqueles que aderiam ao movimento islâmico, esse exemplo prático de seu líder era mais eficaz do que mil sermões e admoestações. Seu efeito era tal que qualquer pessoa que aceitasse segui-lo elevava-se moralmente em sua sociedade a ponto de qualquer um poder distinguir claramente entre o idólatra e o adorador de Deus.

Perfeita harmonia entre suas palavras e suas ações

A quinta e mais importante qualidade era que não havia sequer a menor contradição entre suas palavras e suas ações. Ele fazia aquilo que dizia. Não se encontrava em seu caráter ou comportamento o menor vestígio daquilo que ele considerava mau e proibia as pessoas de fazer. Os habitantes de Meca podiam observar não apenas sua vida fora de casa, mas também sua vida dentro dela, pois muitos deles eram parentes de seu pai, de sua mãe e de sua esposa. No entanto, ninguém podia dizer que ele praticava aquilo de que aconselhava os outros a se absterem, nem sequer um mal em grau mínimo. Do mesmo modo, as boas ações para as quais convidava as pessoas eram as que ele próprio praticava mais do que todos. Sua vida era o exemplo concreto disso. Ninguém jamais conseguiu apontar que tivesse cometido a menor falha ao praticar essas boas ações. Para o sucesso de qualquer movimento, especialmente do movimento islâmico, a melhor garantia é que seu líder esteja livre de qualquer discrepância entre suas palavras e suas ações; que seus ensinamentos não sejam apenas palavras, mas que sua vida real seja a personificação desses ensinamentos. Isso também exercerá profunda influência sobre aqueles que seguem esse líder. E não deixarão de ser influenciadas as pessoas que o observam com olhar imparcial em busca da verdade. Até mesmo entre seus opositores hostis, um grande número de pessoas foi subjugado por ele.

Ele estava acima de todo tipo de fanatismo

A sexta qualidade, que não era inferior às demais, era o fato de ele estar livre de todo fanatismo. Não havia nele fanatismo por tribo, povo, terra natal, língua, raça, linhagem — em suma, por coisa alguma. Ele não fazia distinção entre as pessoas com base na riqueza ou na pobreza. Para ele, não tinha sentido que alguém pertencesse a uma classe elevada e outro a uma classe inferior em termos de status social. Ele via as pessoas simplesmente como seres humanos, e qualquer pessoa que aceitasse a verdade recebia em seu grupo exatamente a mesma dignidade. Fosse coraixita ou não coraixita, árabe, abissínio ou romano, negro ou branco, pobre ou rico, considerado honrado ou vil segundo a ordem social da jahiliyyah. Foi isso que, desde o início do movimento islâmico, lançou as bases para que ele se tornasse um movimento universal. A umma muçulmana foi elevada à condição de uma comunidade internacional. Entre os que aceitavam o Islã, ele eliminou o sentimento de distinção entre as pessoas com base em qualquer critério que não fosse o Islã e a incredulidade; em seu grupo, escravos e livres, pobres e ricos, nobres e humildes, árabes e não árabes, todos participavam com exatamente a mesma dignidade. E poderiam participar se cressem em Allah e em Seu Mensageiro. Para as massas, excetuando-se um pequeno grupo de arrogantes árabes, isso possuía uma atração natural que acabou por se mostrar eficaz.

Essas eram as qualidades do Santo Profeta (s) que se manifestaram durante os treze anos de sua vida em Meca e sob cuja influência o movimento islâmico avançou continuamente, apesar de todos os esforços e maquinações dos inimigos. Havia nele outras qualidades ocultas, cuja manifestação exigia outras circunstâncias; e essas circunstâncias surgiram quando o movimento islâmico avançou e se expandiu em Medina.

O poder cativante do Alcorão

O outro maior capital deste movimento era o nobre Alcorão. Pouco menos de dois terços dele foram revelados em Meca. Os árabes amavam a linguagem ornamentada e a eloquência. Esse amor os atraía a feiras como a de Ukaz para ouvir as palavras de poetas e oradores. Porém, depois de ouvirem o Alcorão, os grandes linguistas perderam todo o prestígio aos seus olhos. Poetas e oradores ficavam estupefatos diante dele. Do ponto de vista literário, sua linguagem era tão elevada que, para eles, conceber uma literatura do mesmo nível, quanto mais superior, era impossível. Sua recitação era tão melodiosa que, depois de ouvi-la, as pessoas continuavam refletindo sobre ela. Os opositores chamavam-no de magia. As pessoas imparciais diziam: “Isto não pode ser palavra de um ser humano.” Seu efeito mágico era tal que derreteu até o coração de um inimigo ferrenho do Islã como Hazrat Umar (r.a.) e o conduziu para se entregar aos pés abençoados do Nobre Mensageiro (s). Jubair ibn Mut’im, um chefe famoso dos coraixitas, foi a Medina após a batalha de Badr para discutir a libertação dos prisioneiros de guerra. Naquele momento, o Profeta (s) conduzia a oração do Maghrib e recitava a Surata At-Tur. Al-Bukhari e Muslim citam o relato do próprio Jubair ibn Mut’im nestes termos: “Quando o Profeta (s) recitou os versículos 35 a 39, meu coração pareceu voar do peito.”

Mais tarde, a principal razão pela qual ele se tornou muçulmano foi que, depois de ouvir aqueles versículos naquele dia, os alicerces do Islã foram firmados em seu coração. Por isso, os inimigos tentavam impedir que as pessoas os ouvissem. Mas ele próprio não conseguia se abster. Escutava-os às escondidas. Por meio desta mensagem de impacto extremo, cada aspecto do politeísmo e da ignorância pré-islâmica foi criticado de maneira tão racional que era impossível a qualquer pessoa dotada de consciência dizer uma única palavra em defesa daquelas crenças, costumes e corrupções morais sobre os quais se fundamentavam a religião e a cultura dos árabes. Depois, por meio desta mensagem, os fundamentos da crença islâmica, de sua civilização e cultura, bem como seus ensinamentos morais, foram apresentados de forma tão tocante que nem mesmo o mais obstinado opositor encontrava oportunidade para abrir a boca em crítica. Então os incrédulos foram obrigados a empregar, com o propósito de prejudicar o Islã, os instrumentos da violência, da opressão e perseguição, dos insultos, da invenção de acusações falsas e fabricadas, do alvoroço e da agitação. Mas isso era, da parte deles, uma admissão prática de sua derrota no campo dos argumentos e provas, bem como no da moralidade e da cortesia. Toda pessoa que possuísse o mínimo vestígio de racionalidade, depois de observar os dois lados nessa luta, começava a perceber que os negadores e opositores não tinham resposta para os argumentos do Alcorão e seus magníficos ensinamentos, exceto estratagemas sem resposta e subterfúgios desumanos. Esse conflito aberto não ocorria apenas diante dos habitantes de Meca. Toda a Arábia o observava. Em Meca, dia e noite, pessoas de todas as classes ouviam o Alcorão de uma forma ou de outra e também viam o que os chefes coraixitas e seus subordinados faziam em resposta a ele. Durante dez anos, todos os anos, o Mensageiro de Allah (s) continuou a fazer o Alcorão ser ouvido pelas pessoas vindas de todas as regiões da Arábia, em todas as assembleias realizadas nos lugares entre Ukaz e Mina. Por outro lado, homens como Abu Jahl e Abu Lahab apedrejavam publicamente o Profeta (s), lançavam poeira e terra sobre ele e diziam às pessoas: “Que resposta vocês têm para esta mensagem?” O resultado foi que, apesar de todos os obstáculos, o Islã continuou avançando também em Meca, e não havia tribo no território árabe sem que pelo menos alguém se inclinasse ao Islã. Durante o período mequense, a situação era tal que o número dos que aceitavam o Islã publicamente era pequeno. Mas havia vinte vezes mais pessoas em cujos corações haviam encontrado lugar os ensinamentos do Alcorão, o respeito pelo Mensageiro (s), a compaixão por seus companheiros oprimidos e o ódio à injustiça e à opressão dos coraixitas. Para que o trabalho daquela época produzisse plenamente seus frutos, faltava apenas Medina, que, no momento apropriado, surgiu diante de todos ao retirar o véu que a encobria.

As qualidades daqueles que creram no Profeta (s)

O terceiro grande capital era aquele grupo seleto de muçulmanos que haviam abraçado a fé e que o movimento conquistara ao longo de treze anos. Eram pessoas de mente, intelecto e pensamento limpos e purificados que, embora tivessem sido criadas no ambiente de escuridão do politeísmo e da ignorância pré-islâmica, ouviram a mensagem do Alcorão, consideraram falsa a religião de seus antepassados e aceitaram a religião do Islã como verdadeira; nenhum fanatismo as impediu de crer. Sabiam o que significava aceitar o Islã e obedecer ao Profeta Muhammad (s), contrariando a opinião de sua própria família, tribo e cidade. Viam com os próprios olhos os castigos infligidos aos que haviam crido. Contudo, eram pessoas de coração tão destemido que nenhum medo ou ameaça pôde impedi-las de rejeitar a falsidade e aceitar a verdade. Suportaram toda espécie de perseguição porque, para elas, seguir aquilo que consideravam falso era de modo algum aceitável. E, tendo reconhecido a verdade como verdade, não estavam dispostas a abandoná-la. Foram brutalmente espancadas, penduradas de cabeça para baixo, submetidas aos tormentos da fome e da sede, acorrentadas e mantidas presas, pressionadas contra fogos ardentes e arrastadas sobre montes de areia escaldante. Seus negócios foram destruídos e pessoas honradas entre elas foram humilhadas e insultadas em público. Mas suportaram tudo isso somente pela verdade, e ninguém entre elas, homem ou mulher, pôde ser levado da fé à incredulidade. Para preservar sua fé, emigraram duas vezes para a Abissínia e, por fim, para Medina. Abandonaram casas, campos, riquezas e parentes e partiram pelo caminho de Deus. Muitos entre eles eram daqueles que não puderam levar consigo nada além da roupa que vestiam. Sua conduta provava que o movimento islâmico havia encontrado pessoas extremamente sinceras e dedicadas. Embora fossem poucas, eram tão destemidas que podiam oferecer qualquer sacrifício por sua religião, enfrentar todas as aflições com um sorriso, suportar todo sofrimento e dificuldade e enfrentar qualquer grande potência. Junto com essas qualidades, ocorreu em suas vidas, por meio dos ensinamentos do Alcorão e da formação recebida do Nobre Profeta (s), uma revolução moral tão grandiosa que, em honestidade, integridade, piedade, pureza, temor de Deus, devoção a Deus, caráter imaculado, gentileza e decoro, e em uma vida firme e digna de confiança, não havia exemplo semelhante, não apenas na Arábia, mas em todo o mundo. Assim como o Profeta Muhammad (s) era um farol naquela sociedade, a revolução moral na vida de seus companheiros também era tão evidente que qualquer pessoa podia ver claramente a diferença entre a condição moral dos incrédulos e a de seus companheiros. Por fanatismo e hostilidade, os opositores não conseguiam reconhecer isso com a boca, mas seus corações sabiam que tipo de caráter a antiga ignorância produzia e que tipo de pessoas essa nova religião estava formando.

As qualidades dos Ansar de Medina

O quarto grande e valioso capital que o movimento islâmico adquiriu nos últimos três anos do período de Meca foi a sinceridade e a pureza da fé dos Ansar de Medina. Eles não tiveram a oportunidade de conviver com o Santo Profeta (S.A.W.) nem de receber sua formação, tampouco tiveram a oportunidade de observar a vida santa dele e de seus Companheiros. Também não adquiriram tanto conhecimento do Sagrado Alcorão quanto os crentes de Meca. Contudo, eram pessoas tão sinceras e de mente tão sã que, assim que vislumbraram a verdade, varreram de si a poeira e os detritos da ignorância politeísta acumulada ao longo de séculos. Começaram a cair no regaço do Islã, como frutos maduros, em tal quantidade que, enquanto em treze anos muitos habitantes de Meca abraçaram a fé, em três anos um número muito maior de homens, mulheres, jovens e idosos abraçou a fé em Medina. E não se limitaram a isso: abraçaram a fé com tal sinceridade que convidaram o Mensageiro de Allah (S.A.W.) e todos os muçulmanos que o acompanhavam a emigrar para sua terra. Ao fazer esse convite, sabiam muito bem que, como consequência, teriam de comprar a inimizade de toda a Arábia, como ficou evidente no discurso deles por ocasião do último juramento de lealdade em Aqaba. Não se tratava apenas de oferecer sua cidade como Dar al-Hijrah ao Profeta (S.A.W.) e aos seus Companheiros de Meca; eles foram além e, de coração satisfeito, aceitaram-no como seu governante. Tornaram-se seus súditos leais e seu exército devotado. Concederam aos muçulmanos que haviam emigrado com o Profeta (S.A.W.) direitos iguais aos seus na própria cidade e ofereceram-lhes suas casas, riquezas e até mesmo suas propriedades de terra.

Foi isso que mudou o rumo da história. Elevou o Islã da condição de uma simples mensagem e movimento à dignidade de uma sociedade e de um Estado. Ao mesmo tempo, concedeu ao Profeta (S.A.W.) a oportunidade de implementar cada aspecto do Islã em um Dar al-Islam independente e soberano, para apresentar ao mundo um modelo de como a religião enviada por Allah, o Único e sem associado, forma as pessoas, constrói a sociedade, dá origem a que tipo de civilização e cultura e infunde que espécie de força moral vital em toda a sociedade. Que sistema estabelece para a economia, a organização social, a educação, a política, o direito e o judiciário; qual é sua política na guerra; como trata os vencidos depois da vitória; como cumpre os tratados depois de firmá-los; qual é sua visão das relações internacionais; quais eram os elementos de seu modelo e quais benefícios resultaram de sua apresentação na prática — esses temas serão discutidos no terceiro volume.

— Fim —