Algumas palavras sobre a terceira edição em bengali

A famosa obra Sīrat-e Sarwar-e Alam, do Maulana Sayyid Abul A’la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele), vinha sendo publicada por nós em bengali em três volumes, isto é, os volumes 3, 4 e 5. Considerando a conveniência dos leitores, decidimos, a partir de agora, publicar os volumes 3 e 4 em bengali em um único volume, e é assim que esta edição foi publicada.

O primeiro volume em bengali trata principalmente, de forma teórica, da profecia e da missão profética. O segundo volume aborda a história da destruição dos povos do passado. A partir do terceiro volume, começa a discussão sobre a história da vida do Mensageiro de Allah, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

A Academia de Pesquisa Sayyid Abul A’la Maududi, sediada em Daca, planejou apresentar rapidamente todas as obras do Maulana aos leitores de língua bengali. Alhamdulillah, todas as suas obras já foram traduzidas e publicadas em bengali. A presente obra foi traduzida pelo senhor Abbas Ali Khan, um escritor talentoso e colaborador próximo do Maulana. Não consideramos necessário dizer novamente aos leitores eruditos algo sobre a competência de seu trabalho de tradução, a precisão na escolha das palavras e a força de sua linguagem.

Agradecemos a Allah Todo-Poderoso por nos permitir publicar esta obra. Que Ele conceda a todos os leitores deste livro a capacidade de compreender a verdadeira missão da profecia. Amém.

Abdus Shahid Nasim

Diretor

Academia de Pesquisa Sayyid Abul A’la Maududi.

19.10.2000 d.C.

O Islã é, na realidade, o nome do movimento que deseja construir todo o edifício da vida humana sobre a concepção e a crença na soberania de um único Deus. Desde os tempos mais remotos, esse movimento vem sendo conduzido sobre a mesma base e pelo mesmo método. Sua liderança foi assumida por aqueles que são chamados de profetas e mensageiros de Allah, o Altíssimo. Se quisermos conduzir esse movimento, teremos inevitavelmente de seguir o método de atuação desses líderes. Pois, além deste, teremos de seguir algum outro método. Pois, além deste, não há nem pode haver outro método para esse tipo específico de movimento. Quando tentamos investigar os passos dos nobres profetas (que a paz esteja com eles) a esse respeito, deparamo-nos com enormes dificuldades. Não podemos saber muita coisa sobre as ações daqueles profetas que viveram nos tempos antigos. Encontram-se no Alcorão algumas indicações breves, mas não é possível reconstruir a partir delas todo o plano. No Novo Testamento da Bíblia encontram-se alguns relatos não confiáveis sobre Jesus (que a paz esteja com ele), os quais, baseados em algumas evidências, lançam luz sobre um aspecto: como o movimento islâmico pode ser conduzido em sua fase absolutamente inicial e que problemas terá de enfrentar. Contudo, não há qualquer indicação sobre as etapas posteriores que Jesus (que a paz esteja com ele) não teve de enfrentar. Sobre esse assunto, recebemos uma orientação clara e completa de uma única fonte: a vida do Profeta Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Somos obrigados a retornar a ele não apenas por causa do nosso respeito por ele, mas, na realidade, para adquirir conhecimento sobre as subidas e descidas desse caminho. Entre todos os líderes do movimento islâmico, somente o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o líder em cuja vida podemos conhecer uma descrição completa e extremamente confiável de cada aspecto do movimento, desde o convite inicial até o estabelecimento do Estado islâmico e, posteriormente, a estrutura do Estado, sua constituição, suas políticas interna e externa e os princípios e métodos de administração estatal.

Introdução

O senhor Naeem Siddiqi e o senhor Abdul Wakil Alavi compilaram habilmente, reunindo em conjunto, as discussões sobre a missão profética e a Sīrat al-Pāk presentes em meus vários escritos, e prepararam a primeira parte desta obra (os volumes 1 e 2 em bengali). Ali, não senti grande necessidade de acréscimos ou revisões.

Entretanto, nos textos meus que eles compilaram para este volume, permaneceram ocasionalmente algumas lacunas. Com essas lacunas, de modo algum seria possível elaborar uma obra sobre a Sīrat. Por isso, fiz acréscimos e ampliações em grande escala. Agora, ela se tornou uma obra contínua e coerente sobre a Sīrat.

Este segundo volume (original) termina com a descrição da Hégira. Logo depois terá início o capítulo medinense. Esse capítulo é, em essência, como um oceano sem margens. Rogo ao Deus Altíssimo que me conceda força e capacidade para concluir esta obra e que a torne benéfica para os Seus servos.

Abul A’la

 

Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso

Primeiro capítulo

Com que dignidade o Alcorão apresenta seu portador

No mundo, sempre nascem sábios virtuosos e puros para orientar as pessoas e guiá-las, os quais, por meio de suas palavras e ações, lhes mostram o caminho simples e reto da verdade e da honestidade. Entretanto, na maioria das vezes, as pessoas não apenas se opuseram a eles e demonstraram desinteresse por suas mensagens; seus próprios opositores os perseguiram, rejeitaram-nos e tentaram afastá-los do caminho da verdade causando-lhes sofrimento, mas seus devotos e seguidores também os oprimiram, distorcendo seus ensinamentos depois que partiram, alterando sua orientação, deturpando o sentido dos livros que trouxeram e transformando suas próprias personalidades em objetos de curiosidade, revestindo-as com uma camada de divindade. O primeiro tipo de opressão limitava-se à vida daqueles sábios puros e virtuosos ou, no máximo, aos poucos anos seguintes à sua partida. Mas o segundo tipo de opressão prosseguiu século após século depois de seu desaparecimento, e muitos continuam sendo vítimas dela até hoje.

Todos os que foram enviados ao mundo até hoje como pregadores da verdade passaram suas vidas justamente eliminando a divindade atribuída aos falsos deuses que as pessoas haviam tomado como deuses, abandonando o Deus Único. Mas sempre acontece que, depois de deixarem este mundo, seus seguidores, com base em crenças ignorantes, transformam-nos a eles próprios em deuses ou associados de Deus. Incluem-nos também entre os ídolos cuja destruição havia sido o objetivo de todo o esforço e dedicação de suas vidas.

A verdade é que o ser humano sofre de uma espécie de dúvida e hesitação: ele tem pouquíssima fé na possibilidade e na existência de pureza e de qualidades angelicais na humanidade. Considera-se apenas um conjunto de fraquezas e inferioridade. Sua mente permanece privada do conhecimento e da fé nesta grande verdade: o Criador Majestoso criou em seu corpo de barro forças e capacidades que podem conferir-lhe, apesar de ser humano e dotado de qualidades humanas, uma posição ainda mais elevada que a dos anjos do mundo superior, próximos de Deus. É por isso que, quando alguém se apresentou no mundo como representante de Deus, seus compatriotas, vendo-o como um ser humano de carne e osso semelhante a eles, recusaram-se completamente a aceitá-lo como enviado por Deus. Finalmente, ao verem manifestações de qualidades extraordinariamente nobres em seu ser e inclinarem a cabeça em reverência, comentaram que alguém dotado de qualidades tão excepcionais jamais poderia ser humano. Então, um grupo transformou-o em Deus; outros inventaram a ideia de transmigração e passaram a acreditar que Deus havia se manifestado em sua forma. Outros ainda sustentaram que ele possuía atributos divinos e autoridade e poder próprios de Deus. E alguns declararam que ele era filho de Deus. (Glorificado e exaltado seja Ele; muito acima do que descrevem.)

A concepção dos seguidores de várias religiões sobre os fundadores de suas religiões

Ao analisar a biografia de qualquer líder religioso do mundo, constata-se que ninguém lhe fez maior injustiça do que seus devotos e seguidores. Eles o cobriram com uma camada tão espessa de fantasias vãs e superstições que se tornou difícil discernir sua verdadeira forma, aparência e personalidade. Não apenas isso: tampouco podemos descobrir, a partir de seus livros deturpados e alterados, quem ele realmente era. Seu nascimento, sua infância, sua juventude e sua velhice estão todos envoltos em extremo espanto. Cada palavra e ação de sua vida é apresentada como algo extraordinário, e sua morte também é cercada de assombro. Em suma, do princípio ao fim, tudo parece uma história imaginária. Ele é apresentado de tal forma que parece ter sido o próprio Deus ou filho de Deus; ou que Deus se manifestou assumindo sua forma; ou, no mínimo, que compartilhava em certa medida dos atributos da divindade.

Buda

Tomemos o caso de Gautama Buda. Depois de estudar profundamente o budismo, pode-se ao menos supor que esse homem de firme determinação corrigiu muitos dos erros do bramanismo e, em particular, refutou a divindade de inumeráveis seres que as pessoas daquela época haviam transformado em seus deuses. Contudo, antes que se passasse sequer um século após sua morte, seus seguidores, na assembleia de Vaishali, alteraram todos os seus ensinamentos e instruções e, em lugar dos textos originais, compuseram novos textos, fazendo livremente modificações e acréscimos tanto no núcleo quanto nos ramos e ramificações, conforme seus próprios desejos e pensamentos. Por um lado, em nome de Buda, estabeleceram como crenças de sua religião doutrinas nas quais a existência de Deus não era reconhecida de modo algum; por outro, definiram Buda como onisciente, senhor do universo e um ser que, em todas as épocas, vem ao mundo assumindo a forma de Buda para reformá-lo. Foram inventadas histórias tão absurdas sobre seu nascimento, sua vida e suas existências passadas e futuras que, depois de lê-las, estudiosos eruditos e investigadores como o professor Wilson comentaram, com espanto, que não se encontra na história nenhuma existência real de Buda. Em três ou quatro séculos, essas histórias fictícias tingiram Buda com as cores da divindade. Durante o reinado de Kanishka, realizou-se na Caxemira uma assembleia de altos dignitários e líderes do budismo. Ali foi proclamado que ele era, na realidade, uma manifestação supramundana ou corpórea de Bhagavan. Em outras palavras, Bhagavan manifestava-se no corpo de Buda.

Rama

O mesmo tipo de tratamento foi dado a Ramachandra. A leitura do Ramayana deixa claro que o rei Ramachandra era apenas um ser humano. É verdade que era dotado de magnanimidade, justiça, bravura, generosidade, humildade, modéstia, paciência, tolerância e espírito de sacrifício. Mas não havia nele o menor vestígio de divindade ou de natureza divina. Contudo, a reunião da humanidade com qualidades desse tipo assumiu a forma de um enigma cuja solução estava além da capacidade da consciência e da razão dos habitantes da Índia. Assim, pouco depois da morte de Ramachandra, passou-se a crer que Vishnu havia assumido sua forma. Segundo a atual crença religiosa hindu, Vishnu é chamado de Bhagavan ou divindade que sustenta o universo. Possivelmente, essa era originalmente a concepção do rububiyyah de Allah, que mais tarde foi considerada uma personalidade permanente. Entre os hindus, o culto às imagens começou quando cada um dos atributos de Allah foi separado de Sua essência original e designado como um deus ou divindade. — Autor. E ele era um daqueles seres em cujas formas Vishnu continua a manifestar-se em diferentes épocas no mundo humano, com o propósito de reformá-lo.

Krishna

Nesse aspecto, Sri Krishna é ainda mais injustiçado do que os dois anteriormente mencionados. Depois de repetidamente corrompida, mutilada e desmembrada, a Bhagavad Gita chegou até nós numa forma tal que, após estudá-la profundamente, pode-se saber pelo menos isto: Sri Krishna era monoteísta e pregava que o grande Criador é um ser soberano e onipotente. Contudo, o Mahabharata, os Puranas de Vishnu, o Bhagavata Purana e a própria Gita o apresentam de tal maneira que, por um lado, ele parece ser a manifestação corpórea de Vishnu, o criador e governante de toda a criação, enquanto, por outro, lhe são atribuídas fraquezas tais que, para não falar em reconhecê-lo como Deus, torna-se difícil até mesmo aceitá-lo como um homem de caráter puro. Encontram-se as seguintes declarações de Sri Krishna na Gita:

Eu sou o pai, a mãe e o legislador deste mundo. Tudo o que é cognoscível e tudo o que é sagrado sou eu. Sou a sílaba sagrada Om, e sou o Rig, o Sama e o Yajur Veda. Sou o destino supremo dos seres vivos e seu diretor. Sou o senhor, a morada de todos os seres vivos e a testemunha de seu bem e de seu mal. Sou o protetor e o benfeitor. Sou o criador e o destruidor. Sou o fundamento e o lugar da dissolução. Sou a causa imperecível do universo. Sob a forma do sol, irradio calor e retenho e faço cair a chuva. Sou a imortalidade dos deuses e a morte dos mortais. Sou o espírito imperecível. Sou o mundo perecível. (Ver Gita, 9:17–19.)

Nenhum dos deuses, começando por Brahma, nem os grandes sábios, como Bhrigu, conhece o mistério da minha origem. Pois sou a causa primordial de todos os tipos de deuses e grandes sábios. Entre os seres humanos, aquele que me conhece como sem princípio, sem nascimento e como o Senhor supremo de todos os mundos, liberta-se de todos os pecados, livre da ilusão. (Gita, 10:2–3)

Ó Arjuna, mestre dos sentidos! Eu sou o espírito consciente que reside no coração de todos os seres vivos e sou a origem, a permanência e a destruição das criaturas. Entre os doze Adityas, sou o Aditya chamado Vishnu. Entre os astros, sou o sol radiante. Entre os quarenta e nove ventos, sou Marichi, e entre as estrelas, sou a lua. (Gita, 10:20–21)

Eu sou o rei das serpentes entre os nagas. Entre os seres aquáticos imortais, sou o rei Varuna — sustento apenas uma parte de todo este universo. (Gita, 10: 29–44)

Por meio dessas palavras da Gita, Krishna reivindicou ser Deus. [Se a Gita afirmasse que é o Livro de Deus e que Shri Krishna é aquele que o apresenta, as palavras acima seriam consideradas palavras de Deus, e não se atribuiria divindade a Shri Krishna. Mas a dificuldade é que este livro se apresenta como uma coletânea dos ensinamentos de Shri Krishna. Em nenhum lugar de toda a obra se afirma, nem sequer por uma letra, que ela seja a palavra de Deus ou que tenha sido revelada a Shri Krishna por meio de revelação ou inspiração divina. — O autor.] Por outro lado, o Bhagavata Purana apresenta esse mesmo Shri Krishna de tal maneira que ele esconde, durante o banho, as roupas das gopis. E todas as gopis que assumem forma humana o fazem para desfrutar sexualmente dele. Quando o rei Parikshit perguntou a Shukadeva: “Deus manifesta-se sob a forma de um avatar para pregar a verdadeira religião. Mas que espécie de Deus é aquele que, violando todos os princípios fundamentais da religião, mantém uma relação ilícita com a mulher de outro?”

Para refutar essa acusação, o sábio teve de recorrer ao argumento de que os próprios deuses também se desviam, em certas ocasiões, do caminho da virtude. Mas os pecados deles não deixam qualquer marca em sua personalidade, assim como não se pode acusar o fogo, embora ele queime tudo.

Nenhuma pessoa dotada de uma consciência sã pode admitir que a vida de um eminente mestre religioso possa ser tão impura. Tampouco pode imaginar que um verdadeiro líder religioso tenha, de fato, apresentado a si mesmo como senhor dos seres humanos e da natureza do universo. Porém, o estudo comparativo do Alcorão e da Bíblia torna claramente evidente para nós como diferentes povos, durante seus períodos de decadência mental e moral, retrataram de modo extremamente degradante a vida de homens virtuosos e ilustres do mundo, a fim de encontrar uma justificativa legítima para suas próprias fraquezas; e, por outro lado, quantas histórias fantasiosas inventaram sobre a personalidade deles. Por isso, pensamos que os ensinamentos e a personalidade reais dessa figura devem ter sido diferentes da maneira como ela foi apresentada.

O senhor Jesus, que a paz esteja sobre ele

Entre os homens ilustres cuja missão profética é amplamente conhecida e universalmente reconhecida, o mais injustiçado é Sayyiduna Jesus, que a paz esteja sobre ele. Como todos os seres humanos, Jesus também era um homem; nele estavam presentes todas as características da humanidade, como ocorre nos demais seres humanos. A única diferença era que Deus Todo-Poderoso lhe concedera sabedoria, profecia e poderes miraculosos, e o enviara para reformar uma nação decadente. Mas, a princípio, seu povo recusou-se a aceitá-lo e não suportou sequer por três anos inteiros sua abençoada presença. Chegou mesmo a decidir matá-lo ainda na juventude. Depois de seu desaparecimento, quando reconheceram sua grandeza, ultrapassaram novamente todos os limites, transformando-o não apenas no filho de Deus, mas no próprio Deus. Em seguida, atribuíram-lhe a crença de que Deus se manifestou na forma do Messias para que ele fosse crucificado e expiasse ou redimisse a massa de pecados da humanidade. Pois o ser humano é pecador por natureza e não pode alcançar a salvação por suas próprias ações ou obras. Deus nos livre! Como poderia um profeta veraz atribuir uma acusação tão falsa ao seu Sustentador? Mas seus devotos e seguidores, dominados pela emoção da reverência, lançaram-lhe essa falsa acusação. Dominados por seus desejos, introduziram tantas distorções em seus ensinamentos que hoje, além do Alcorão, não se encontra em nenhum livro do mundo nada sobre os verdadeiros ensinamentos do Messias nem sobre sua verdadeira identidade. Ao estudar os livros chamados de quatro Evangelhos, existentes no Novo Testamento da Bíblia, verá que estão repletos das falsas ideias de que Deus se manifestou em Jesus, de que ele é o filho de Deus e de que é o próprio Deus. Em um lugar, anuncia-se a Maria: “Teu filho será chamado filho de Deus” [Lucas (St. LUKE) 1: 25]. Em outro, o Espírito de Deus desce sobre Jesus na forma de uma pomba e diz em voz alta: “Este é meu filho amado” (Mateus, St. Mathew: 16–17). Em outro, o próprio Messias diz: “Sou o filho de Deus, e vós me vereis sentado à direita do Todo-Poderoso” (Marcos 14: 62). No Dia do Juízo Final, o Messias é colocado no trono de Deus em lugar de Deus, e decreta castigos e recompensas (Mateus 15: 31–46). Em outro lugar, põem estas palavras na boca do Messias: “O Pai está em mim, e eu estou no Pai” (João 1: 38). Em outro, fazem sair da boca desse homem veraz estas palavras errôneas: “Saí do interior de Deus” (João 8: 42). Em outro, Deus e ele são fundidos em um só, e lhe atribuem esta declaração: “Quem me viu, viu o Pai; e o Pai realiza suas obras por meu intermédio” (João 14: 9–10). Em outro, tudo o que pertence a Deus é transferido ao Messias (João 3: 35). Em outro, Deus confia ao Messias todas as suas responsabilidades (João 5: 20–22).

A verdadeira causa de todo esse amontoado de falsas acusações e calúnias que diferentes povos lançaram sobre seus mestres religiosos e guias foi aquele excesso de exagero que mencionamos no início. Além disso, o que contribuiu para essa injustiça foi o fato de que, na maioria dos casos, a orientação e os ensinamentos desses homens ilustres não foram registrados após seu desaparecimento. Em alguns casos, embora se tenha dado atenção a isso, não foi tomada nenhuma providência para preservá-los. Por essa razão, depois de transcorrido pouco tempo, ocorreram neles tantas adulterações, distorções, alterações, acréscimos e correções que se tornou difícil distinguir o original do falso. Assim, a consequência de não haver uma orientação e uma guia claros foi que, quanto mais o tempo passava, mais aumentava sobre a verdade original o entulho das fantasias e superstições; e, no espaço de alguns séculos, a verdade original desaparecia. Restavam apenas histórias e narrativas fantasiosas.

Sayyiduna Muhammad, que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele

Entre todos os guias do mundo, somente Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) possui esta característica: seus ensinamentos e sua personalidade foram preservados absolutamente em sua forma original durante os últimos treze ou quatorze séculos. Pela graça de Allah, foram tomadas medidas que agora tornam impossível qualquer alteração. Não era impossível que, devido à inclinação e ao apego das pessoas às superstições e às coisas e acontecimentos extraordinários, elas transformassem também essa grande personalidade eleita, símbolo da perfeição, em objeto de lendas, atribuíssem-lhe alguns atributos divinos e, em vez de segui-la, a convertessem em objeto de admiração e adoração. Mas a decisão firme de Allah Todo-Poderoso era enviar, no estágio final do envio dos profetas, um guia cuja pessoa permanecesse para a humanidade como um modelo eterno de todas as ações e uma fonte universal de orientação. Por isso, Ele protegeu a pessoa de Muhammad ibn Abdullah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) das injustiças e opressões que os devotos ignorantes infligiram a outros profetas e aos guias de diferentes povos. Primeiro, os companheiros e os tabi’un do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) e, posteriormente, os muhaddithun, ao contrário das comunidades anteriores, tomaram eles próprios medidas extraordinárias para preservar a biografia de seu profeta. Graças a isso, mesmo após quatorze séculos, podemos hoje contemplar sua personalidade quase tão de perto quanto as pessoas de sua época podiam contemplá-la. Mas, mesmo que esse vasto acervo de livros desaparecesse do mundo — acervo reunido pelos líderes islâmicos com o trabalho árduo de muitos anos —, mesmo que nenhuma página de hadith ou de biografia permanecesse na Terra, da qual pudéssemos conhecer algo da vida do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), e restasse apenas o Livro de Allah (o Alcorão), ainda assim encontraríamos nesse magnífico Livro as respostas às questões fundamentais que surgiriam na mente de um estudante acerca de seu aspecto exterior.

Vejamos com que cores o Alcorão apresenta seu portador.

A humanidade do Mensageiro

A primeira coisa que o Alcorão Sagrado descreveu de modo absolutamente claro a respeito da missão profética foi que o Mensageiro era um ser humano. Séculos e séculos de crenças e concepções anteriores à revelação do Alcorão haviam estabelecido como princípio definitivo que um ser humano jamais poderia ser o Mensageiro e representante de Allah. Para corrigir e reformar o mundo, quando necessário, Deus manifestava-se sob a forma humana ou enviava algum anjo ou divindade. Em suma, todos os grandes homens que vieram para reformar o mundo eram seres super-humanos. Essa concepção estava tão profundamente arraigada na mente das pessoas que, quando algum servo virtuoso de Allah vinha transmitir a palavra de Allah aos homens, estes expressavam primeiramente sua surpresa, dizendo: “Que espécie de profeta é este, que come e bebe como nós, dorme e caminha como nós? Que espécie de mensageiro é este, que está sujeito, como nós, a todas as falhas e fraquezas, isto é, adoece, experimenta sofrimento e aflição, bem como felicidade e tranquilidade? Se Allah quisesse realmente nos guiar, por que enviaria um ser humano fraco como nós? Deus não poderia vir pessoalmente?” Essas perguntas eram feitas após a chegada de cada profeta, e as pessoas usavam-nas como pretexto para negar os profetas. Quando Hazrat Nuh (que a paz esteja com ele) levou a palavra de Allah ao seu povo, eles disseram:

(Árabe******************)

“Este homem não é nada além de um ser humano como vós. Ele deseja obter superioridade sobre vós. Ora, se Deus quisesse, teria enviado anjos. Nunca ouvimos tal coisa absurda da boca de nossos antepassados (que um profeta pudesse ser um ser humano).” — (Al-Mu’minun: 24)

Quando Hazrat Hud (que a paz esteja com ele) foi enviado para guiar seu povo, a primeira acusação feita contra ele também foi:

(Árabe******************)

—Este homem não é senão um ser humano como vós. Ele come do que comeis e bebe do que bebeis. Se obedecerdes a um ser humano como vós, certamente sofrereis uma perda terrível (Al-Mu’minun: 33-34).

Quando Moisés (a.s.) e Aarão (a.s.) chegaram diante do Faraó com a mensagem da verdade, suas palavras foram rejeitadas precisamente porque ambos eram seres humanos: (Árabe******************)

Havemos de crer em dois seres humanos semelhantes a nós? (Al-Mu’minun: 47)

Uma pergunta exatamente desse tipo também foi levantada quando um homem iletrado de Meca, depois de levar uma vida silenciosa durante quarenta anos, declarou subitamente: “Fui enviado como Mensageiro por parte de Deus.”

As pessoas simplesmente não conseguiam compreender como um ser humano com mãos, pés, olhos, nariz, corpo e alma como os deles poderia ser o Mensageiro de Allah. Cheias de espanto, perguntavam:

(Árabe****************)

—Que espécie de Mensageiro é este, que come e anda pelos mercados? Por que não desceu com ele um anjo que permanecesse a seu lado e advertisse as pessoas? Ou, pelo menos, por que não lhe foi enviado um tesouro, ou por que não havia com ele um jardim de frutos do qual pudesse comer? (Al-Furqan: 7-8).

Visto que as conceções equivocadas eram o maior obstáculo à aceitação da missão profética, o Alcorão Sagrado refutou-as em termos inequívocos. Em seguida, explicou com argumentos que, para orientar os seres humanos, um ser humano é o mais adequado. Isso porque o objetivo do envio de um profeta não é apenas ensinar, mas também demonstrar por meio das próprias ações e oferecer um exemplo de obediência e seguimento. Se, para esse fim, fosse enviado um anjo ou um ser sobre-humano, sem características e fraquezas humanas, as pessoas poderiam dizer: “Como poderemos agir como ele? Ele não possui, como nós, desejos e inclinações, nem fazem parte de sua natureza as forças que impelem o ser humano a cometer pecados.”

(Árabe*****************)

-Se os anjos pudessem circular tranquilamente (de modo natural) pela Terra, então também faríamos descer sobre eles (os habitantes da Terra) algum anjo do céu como mensageiro- (Bani Israil-95).

Depois, Allah, o Altíssimo, explica claramente que todos os profetas e guias da verdade que vieram anteriormente entre os diversos povos eram igualmente seres humanos. Assim como Muhammad, o Mensageiro de Allah (S), é humano. Assim como os seres humanos comem, bebem e circulam, eles também comiam, bebiam e circulavam.(Árabe***********************)

-Também os mensageiros que enviamos antes de ti eram seres humanos, sobre os quais fazíamos descer a revelação. Se não sabeis, perguntai aos conhecedores. Não demos a esses profetas corpos que não comessem, nem eles eram imortais- (Al-Anbiya – 7-8).

(Árabe******************)

-E todos os profetas que enviamos antes de ti comiam e circulavam pelos mercados- (Al-Furqan-20).

(Árabe*****************)

-E, antes de ti, enviamos muitos mensageiros e lhes demos esposas e filhos- (Ar-Ra’d: 38).

Depois, o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) recebeu a ordem: “Declara claramente que és humano, para que, depois de ti, as pessoas não te atribuam também qualidades divinas, assim como fizeram com os profetas que te precederam.”

Este versículo aparece em várias partes do Alcorão:

 (Árabe******************)

—Ó Profeta! Dize: “Sou apenas um ser humano como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um só.” — (Al-Kahf: 111; Ha-Mim Sajdah: 6).

Com estas explicações detalhadas, não apenas foram fechadas as portas de todas as crenças equivocadas acerca do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), mas também as personalidades de todos os profetas anteriores e dos eruditos islâmicos foram libertadas de conceitos errôneos.

O poder e as capacidades extraordinárias do Mensageiro

Outro assunto claramente exposto no Alcorão é o poder e as capacidades extraordinárias do Profeta. Quando, por ignorância e falta de entendimento, as pessoas transformaram algum grande homem enviado por Deus em alguém equivalente a Deus, surgiu naturalmente também a crença de que os enviados por Deus possuíam capacidades extraordinárias. Eles teriam direitos especiais no domínio das ações de Deus. Teriam autoridade para recompensar e punir. Tudo o que é manifesto e oculto seria claro para eles. As decisões do destino seriam alteradas segundo a sua vontade e opinião. Teriam poder sobre o benefício e o dano. Seriam também senhores do bem e do mal. Todas as forças do universo estariam submetidas a eles. Com um simples olhar, poderiam transformar o coração das pessoas e remover delas as trevas e o extravio. Foi sob a influência de tais concepções que as pessoas faziam exigências estranhas e absurdas ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). O Alcorão diz:

(Árabe**************)

—E disseram: “De modo algum creremos em ti, enquanto não fizeres brotar para nós uma fonte na terra, ou enquanto não houver para ti um jardim de tamareiras e videiras, fazendo correr rios por entre ele. Ou enquanto não fizeres cair sobre nós o céu em pedaços, conforme afirmas, ou trouxeres Allah e os anjos diante de nós. Ou enquanto não tiveres uma casa de ouro, ou subires ao céu; e não creremos na tua ascensão até que faças descer sobre nós um Livro que possamos ler.”

Ó Muhammad! Dize-lhes: “Meu Senhor é puro e santificado de todas as imperfeições. Por acaso sou algo além de um ser humano e um mensageiro?” — (Bani Israil: 90–93).

Allah, o Altíssimo, refuta todas as conceções errôneas desse tipo que existiam entre as pessoas acerca dos grandes homens e sábios enviados por Deus, e declara claramente que o Mensageiro não possui sequer a menor parcela do poder e das obras divinas. Mais ainda, é dito: sem a nossa permissão, um profeta não tem poder sequer para afastar o mal de si mesmo, quanto mais para proteger outra pessoa do mal.

(Árabe*****************)

—(Ó Profeta) Se Allah te causar algum dano, ninguém além d’Ele poderá removê-lo. E, se Ele quiser conceder-te algum bem, Ele é Poderoso sobre todas as coisas (Al-An’am: 17).

(Árabe*******************)

—(Ó Profeta) Dize: “Não tenho poder sequer para trazer benefício ou causar dano a mim mesmo, salvo se Allah quiser outra coisa” — (Yunus: 49).

Também foi declarado da parte de Allah, o Altíssimo, que o Profeta não possui as chaves dos tesouros de Allah, não conhece o futuro e tampouco é dotado de poderes sobrenaturais.

(Árabe***********)

Eu sou um anjo (isto é, estou acima das fraquezas humanas). Apenas sigo aquilo que me é revelado (isto é, aquilo que me é ordenado por meio da revelação). (Al-An’am: 50).

(Árabe*****************)

—Se eu tivesse conhecimento do invisível ou do futuro, teria obtido muitos benefícios para mim mesmo, e nenhum mal poderia me atingir. Sou apenas um admoestador e anunciador de boas-novas para aquele que aceitar minhas palavras. (Al-A’raf: 188).

Também é dito que o Profeta não tem qualquer poder sobre a prestação de contas na outra vida, nem sobre o castigo e a recompensa. Sua tarefa consiste apenas em transmitir a mensagem e mostrar o caminho reto. Fazer a prestação de contas na outra vida e conceder castigo ou recompensa é obra de Deus.

(Árabe**************)

—(Ó Muhammad,) dize-lhes: Vim da parte do meu Senhor com provas claras, mas vós as rejeitastes, considerando-as falsas. Agora não está sob minha autoridade fazer descer sobre vós o castigo cuja antecipação exigis. A decisão pertence inteiramente a Allah. Ele expõe a verdadeira situação e é o melhor dos decisores.

Dize-lhes: Se estivesse sob minha autoridade aquele castigo pelo qual estais tão impacientes, a decisão entre vós e mim já teria sido tomada. Mas Allah sabe melhor como decidir definitivamente acerca dos injustos. (Al-An’am: 57–58).(Árabe**************)

(Ó Profeta,) tua única tarefa é transmitir a mensagem. E cabe a Mim fazer as contas. (Ar-Ra‘d: 40).

(Árabe**************)

(Ó Profeta,) na verdade, fizemos descer sobre ti este Livro com a verdade, para a orientação das pessoas. Portanto, quem aceita a orientação, beneficia a si mesmo; e quem se entrega ao desvio, pratica injustiça e causa mal a si próprio. E tu não és responsável por eles. (Az-Zumar: 41).

Também foi dito que não está ao alcance do Profeta transformar o coração das pessoas nem fazer nascer a fé naqueles que não têm desejo de aceitar a verdade. Ele é um guia no sentido de cumprir plenamente o dever de aconselhar e de mostrar o caminho a quem deseja vê-lo.

(Árabe**************)

—Não podes fazer os mortos ouvir, nem fazer a voz chegar aos surdos quando eles se afastam. Tampouco podes tirar os cegos do desvio e conduzi-los ao caminho reto. Só podes fazer ouvir aqueles que creem em Nossos sinais e, então, inclinam a cabeça em submissão— (An-Naml: 80–81).

(Árabe**************)

—Não podes fazer ouvir os mortos que estão nas sepulturas. Podes apenas advertir. Enviámos-te com a verdade, como portador de boas-novas e como admoestador.[Num lugar do Alcorão, foi afirmado claramente—

(Árabe**************)

Ó Profeta! Tu não podes guiar quem queres, mas Allah pode guiar quem Ele quer. Ele conhece muito bem aqueles que aceitam a orientação.

Está narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que este versículo foi revelado a respeito de Abu Talib, tio do Profeta (que a paz esteja com ele). Quando chegou o momento de sua morte, o Profeta (que a paz esteja com ele) fez o máximo esforço para que ele, seu tio, recitasse a fórmula “la ilaha illallah” e tivesse um bom fim, isto é, morresse com fé. Porém, ele, Abu Talib, preferiu morrer seguindo a religião de Abd al-Muttalib. Por isso, Allah diz: “Tu não podes guiar quem amas.”

Entretanto, é bem conhecida entre os muhaddithin e os exegetas a prática de mencionar um versículo relacionado a um acontecimento da época do Profeta como o contexto de sua revelação. Portanto, não se pode concluir, a partir desta narração e de outras narrações relacionadas a este assunto — transmitidas de Abu Huraira, Ibn Abbas, Ibn Umar e outros, em obras de hadith como o Tirmidhi e o Musnad de Ahmad — que este versículo da Surata al-Qasas tenha sido revelado no momento da morte de Abu Talib. O que se pode saber apenas é que a veracidade deste versículo se manifesta de modo mais evidente nesse acontecimento. Embora o desejo íntimo do nobre Profeta (que a paz esteja com ele) fosse conduzir todos os servos de Allah ao caminho da verdade, se houve alguém cuja morte na incredulidade lhe foi mais dolorosa e por cuja orientação ele ansiou mais, com base no amor pessoal e no vínculo que os unia, esse alguém foi Abu Talib. Contudo, como o Profeta (que a paz esteja com ele) também não conseguiu conduzi-lo ao caminho da orientação, ficou claro que guiar uma pessoa ou privá-la da orientação está além do poder do Profeta. Esse assunto está inteiramente nas mãos de Allah. E esse dom concedido por Allah — o dom da orientação — não é concedido com base em parentesco ou fraternidade, mas na receptividade da pessoa, em sua sinceridade e em seu pleno amor pela verdade. (Fátir: 22–24).

Isso também deixa claro que toda a honra e dignidade do Profeta se devem ao fato de ele obedecer a Allah, cumprir corretamente Suas ordens e transmitir aos servos de Allah, exatamente como lhe são reveladas, as palavras que lhe são enviadas. Caso contrário, se ele se afastasse da obediência e misturasse às palavras de Allah alguma coisa de sua própria imaginação, nenhuma de suas características distintivas permaneceria; além disso, não escaparia do castigo de Deus.

(Árabe**************)

E, apesar do conhecimento que te chegou, ó Profeta, se seguisses os desejos deles, então serias injusto. (Al-Baqara: 145).

(Árabe**************)

—(Ó Profeta,) depois que o conhecimento te chegou, se seguires os desejos deles, não terás nenhum wali nem ajudador que te possa salvar do castigo de Allah. (Al-Baqarah: 120).

(Árabe**************)

—(Ó Muhammad,) dize: não tenho autoridade para alterar nada desta Palavra por minha própria iniciativa. Eu apenas sigo aquilo que me é ordenado por meio da revelação. Se eu desobedecer ao meu Senhor, temo o castigo de um dia terrível. (Yunus: 15).

Essas palavras não foram ditas porque, Deus nos livre, houvesse sequer a mínima possibilidade de desobediência ou alteração por parte do Nobre Mensageiro (R). Na realidade, o objetivo é tornar evidente diante do mundo esta verdade: não havia sequer a mínima possibilidade de desobediência ou alteração por parte do Nobre Profeta (S). Na realidade, o objetivo é tornar evidente diante do mundo esta verdade: a proximidade que o Profeta (S) alcançou na presença de Allah, o Senhor da Majestade, não se deve a qualquer relação de parentesco entre a essência do Profeta e Allah; ao contrário, a razão dessa proximidade é que ele é absolutamente obediente a Allah e, com toda a sinceridade, Seu servo.

O Profeta Muhammad (S) é um entre os profetas

O terceiro assunto que é mencionado repetidamente e em detalhe no Alcorão Majid é que Muhammad (S) não é um profeta novo. Ao contrário, ele é um entre os profetas e um elo da continuidade da profecia, continuidade que se estendeu desde o início da criação até sua chegada e que incluía os profetas e mensageiros de cada povo e de cada época. O Alcorão Sábio não limita nem restringe a profecia e a missão de mensageiro a uma única pessoa, país ou povo. Pelo contrário, declara claramente que Allah Todo-Poderoso fez surgir, em cada povo, país e época, pessoas puras e virtuosas desse tipo, que convocaram a humanidade para o caminho reto e a advertiram das terríveis consequências do desvio.

(Árabe**************)

—Não houve povo algum entre o qual não tivesse surgido um advertidor. (Fátir: 24)

(Árabe**************)

-E enviamos a cada povo um profeta e mensageiro (com esta mensagem): adorai e obedecei a Allah, e abstende-vos de adorar e obedecer ao taghut. (An-Nahl: 36).

Entre esses profetas e admoestadores estava o Profeta Muhammad Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Em muitos lugares foi dito- (Árabe**************)

-Sou um dos admoestadores anteriores. (An-Najm: 56).

(Árabe**************)

-Ó Muhammad! Tu és um dos mensageiros. (Yasin: 3). (Árabe**************)

-Ó Muhammad, dize: Não sou um mensageiro inovador. Não sei o que será feito comigo nem o que será feito convosco. Eu apenas sigo aquilo que me é ordenado por meio da revelação. Sou apenas um admoestador em linguagem clara. (Al-Ahqaf: 9).

(Árabe**************)

—Muhammad não é senão um Mensageiro, e muitos Mensageiros já passaram antes dele— (Al Imran: 144).

Não somente isso, mas também foi dito que o convite do Mensageiro árabe era precisamente aquele ao qual todo profeta que convocou à verdade vinha chamando a humanidade desde o início de sua existência. O Profeta Muhammad (S) convocou as pessoas precisamente para aquela religião natural à qual todos os profetas e mensageiros haviam chamado.

(Árabe**************)

—Dize: Cremos em Allah e no ensinamento que foi revelado para nós, e também no que foi revelado a Abraão (A), Ismael (A), Isaque (A), Jacó (A) e seus descendentes, e no que foi concedido a Moisés (A), Jesus (A) e aos demais profetas por parte de seu Senhor. Não fazemos distinção entre nenhum deles e somos submissos a Allah. Portanto, se eles crerem como vós credes, estarão verdadeiramente no caminho reto. (Al-Baqara: 136–137)

Esta exposição do Alcorão não deixa margem para qualquer dúvida quanto ao fato de que o Profeta Muhammad (S) não veio com uma nova religião ou um novo din. Ele também não veio para declarar falsos quaisquer dos profetas anteriores, nem para refutar a mensagem trazida por algum deles. Pelo contrário, foi enviado para apresentar, livre de toda adulteração, a verdadeira religião que os profetas de todas as nações vinham apresentando desde o início e que, posteriormente, as pessoas haviam corrompido.

O propósito do envio do Profeta

Assim, depois de o Sagrado Alcorão expor a verdadeira identidade e a dignidade de seu portador, passa a descrever as atividades para as quais ele havia sido enviado. Em termos gerais, esse trabalho está relacionado a duas áreas: uma área educacional e outra prática.

As atividades do Profeta relacionadas ao ensino

As tarefas desta seção são as seguintes:

(1) Recitar os versículos, purificar a alma e ensinar o Livro e a Sabedoria.

(Árabe**************)

Na verdade, é uma enorme graça de Allah para os que creem que Ele fez surgir, dentre eles mesmos, um Mensageiro que lhes recita os versículos de Allah, purifica suas almas e lhes ensina o Livro e a Sabedoria. Caso contrário, antes disso, eles estavam imersos em evidente perdição — (Al Imran: 164).

Recitar os versículos ou fazê-los ser ouvidos significa transmitir fielmente os mandamentos de Allah. Tazkiya significa purificar o caráter das pessoas e suas vidas dos maus atributos, costumes e métodos de ação, e empenhar-se no desenvolvimento, entre elas, de nobres qualidades morais, boas maneiras e métodos corretos de ação. Ensinar o Livro e a Sabedoria significa explicar corretamente o verdadeiro sentido do grandioso Livro de Allah e desenvolver nelas uma percepção profunda, para que possam compreender os verdadeiros mistérios ocultos do Livro de Allah. Depois, significa ensinar-lhes essa Sabedoria, ou conhecimento especial, por meio da qual possam organizar os diversos e amplos aspectos de toda a vida de acordo com a orientação de Allah.

(2) A perfeição da religião

(Árabe**************)

Hoje, aperfeiçoei para vós a vossa religião, completei sobre vós a Minha graça e escolhi para vós o Islã como religião. (Al Maida: 3).

Em outras palavras, Aquele que revelou o Alcorão não se limitou a confiar ao seu portador apenas o serviço de recitar e transmitir os Seus versículos, purificar as almas das pessoas (tazkiya) e ensinar o Livro e a sabedoria; ao contrário, por meio desses Seus servos virtuosos, levou essas tarefas à perfeição. Por intermédio dele (o Profeta), transmitiu à humanidade todos os versículos e ensinamentos que deveriam chegar até ela. Pelas mãos dele, eliminou todas as injustiças e males dos quais se pretendia purificar a vida humana. Sob a liderança do Profeta, apresentou exemplos luminosos do desenvolvimento das qualidades e virtudes que deveriam manifestar-se nas pessoas e na sociedade, com a dignidade que lhes era devida. Além disso, por meio dele, concedeu um ensinamento do Livro e da sabedoria tal que, em todas as épocas futuras, a vida humana pudesse ser estruturada de acordo com o grandioso Livro, o Alcorão.

(3) A terceira tarefa educativa do Santo Profeta consistia em revelar os mistérios das divergências que haviam surgido entre as comunidades dos profetas anteriores. Além disso, removendo todos os véus, eliminando todas as adulterações e resolvendo todas as dúvidas, controvérsias e complexidades, ele iluminou o caminho correto, cuja observância sempre foi o único caminho para alcançar a satisfação de Deus.

(Árabe**************)

Juro por Deus, ó Muhammad, antes de ti enviámos orientação a diferentes povos. Mas depois Satanás tornou atraentes para eles as suas ações desviadas. Na verdade, hoje ele próprio se tornou o seu protetor, e eles passaram a merecer um castigo doloroso. Revelámos este Livro a ti somente para que apresentasses diante deles a verdade sobre a qual existe divergência entre eles. E também para que este Livro fosse orientação e misericórdia para aqueles que aceitassem segui-lo (An-Naml: 63–64).

(Árabe**************)

Ó Gente do Livro! Chegou-vos o Nosso Mensageiro, que vos esclarece muitas coisas que ocultais do Livro, embora perdoe muitas outras. Chegaram-vos, da parte de Deus, uma luz e um Livro claro. Por meio deste Livro, Deus guia para os caminhos da felicidade, da paz e da segurança aqueles que vivem à sua luz; tira-os das trevas e conduz-nos ao caminho reto e correto (Al-Má’idah: 15–16).

(4) Advertir os desobedientes sobre o castigo, dar aos obedientes as boas-novas da misericórdia de Deus Todo-Poderoso e propagar e disseminar a religião de Deus também faziam parte da tarefa educativa do Profeta.

(Árabe**************)

Ó Profeta! Enviámos-te como testemunha, anunciador de boas-novas, convocador para Allah por Sua permissão e como um sol luminoso. (Al-Ahzab: 45–46)

As funções práticas do Profeta

As tarefas que incumbiam ao Profeta na vida prática e em suas relações eram as seguintes:

(1) Ordenar o bem, impedir o mal, estabelecer os limites entre o lícito e o ilícito, libertar as pessoas dos grilhões das proibições e restrições impostas por outros além de Allah e aliviar os fardos que lhes haviam sido impostos.

(Árabe**************)

Ele ordena-lhes o bem e impede-os do mal. Torna lícitas para eles as coisas puras e ilícitas as coisas impuras. Remove deles os fardos e liberta-os das restrições que os mantinham presos e subjugados. Portanto, os que nele creem, o apoiam e seguem a luz que lhe foi revelada, esses são os bem-sucedidos. (Al-A’raf: 157)

(2) Julgar entre os servos de Allah com verdade e justiça.

(Árabe**************)

Ó Muhammad, Nós te revelamos este Livro com a verdade, para que julgues entre as pessoas de acordo com as leis estabelecidas por Allah e não te tornes advogado dos que se apropriam indevidamente dos bens alheios — (An-Nisá: 105).

(3) Estabelecer a religião de Allah de tal maneira que todo o sistema da vida humana se submeta a ela e, diante dela, todos os demais costumes e sistemas sejam subjugados.

(Árabe**************)

Ele é Allah, o Único, que enviou o Seu Mensageiro com a orientação e a religião da verdade, para fazê-la prevalecer sobre todos os demais sistemas de leis (Al-Fath: 28).

Assim, esta área da obra do Profeta abrange todos os aspectos da política, do sistema judiciário, da reforma moral e civilizacional, e da pureza sagrada e da veracidade.

A missão profética de Muhammad é universal e eterna

A obra de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não se destina especificamente a uma determinada nação, país ou época. Pelo contrário, aplica-se igualmente a toda a humanidade e a todas as épocas.

(Árabe**************)

—Ó Muhammad! Enviamos-te como advertidor e anunciador de boas-novas para toda a humanidade. Mas a maioria das pessoas não sabe disso (Sabá: 28).(Árabe**************)

—Ó Muhammad, dize: Ó humanidade, vim para todos vós como Mensageiro de Deus, daquele Deus que possui o domínio dos céus e da terra; não há divindade nem deus além d’Ele, e Ele é o Senhor da vida e da morte. Crede, portanto, em Deus e em Seu Mensageiro, o Profeta iletrado, que crê em Deus e em Suas palavras, e segui-o. Talvez encontreis o caminho reto e correto (Al-A‘raf: 158).

(Árabe**************)।

—Ó Muhammad, dize: Este Alcorão foi-me revelado, para que, por meio dele, eu vos advirta, bem como a todo aquele a quem ele alcançar (Al-An‘am: 19).

(Árabe**************)

—Este Alcorão é, na verdade, uma exortação para todos os habitantes do mundo, para todo aquele dentre vós que deseja seguir o caminho da verdade (At-Takwir: 27–28).

O selo da profecia

Outra característica da profecia de Muhammad é que a sequência da profecia e da mensagem foi encerrada com ele. Depois dele, já não restou no mundo necessidade de qualquer outro profeta.

(Árabe**************)

Muhammad (S) não é pai de nenhum dos vossos homens; ao contrário, é o Mensageiro de Allah e o selo dos profetas (Al-Ahzab: 40).

Esta é, na realidade, uma consequência inevitável da universalidade e eternidade da missão profética de Muhammad e da perfeição do Din. Uma vez que, à luz da descrição acima, a missão profética de Muhammad (S) se destina a toda a humanidade — não a uma única nação — e é para todos os tempos — não para uma época específica —, e uma vez que a obra para a qual era necessária a vinda dos profetas ao mundo alcançou a sua perfeição final, é inteiramente razoável que a sucessão da profecia tenha sido encerrada com ele. O próprio Profeta (S) explicou este assunto de maneira belíssima num hadith. Ele disse: “O meu exemplo entre os profetas é como o de alguém que construiu uma bela casa. Concluiu toda a casa, deixando apenas o lugar de um tijolo vazio. Quando as pessoas que circulavam ao redor da casa a viam, sentiam estranheza e diziam: ‘Se este último tijolo também tivesse sido colocado aqui, a casa estaria completamente perfeita.’ Ora, eu sou esse tijolo cujo lugar permaneceu vazio na casa da profecia.”

A partir deste exemplo, pode-se compreender claramente a razão do selo da profecia. Quando o Din se tornou perfeito; quando os versículos de Allah foram explicados em detalhe, e foram apresentadas instruções pormenorizadas sobre os mandamentos e proibições, as crenças e a doutrina, a adoração, a civilização, a vida social, o sistema de governo e a política — em suma, sobre todos os setores da vida humana —; e quando a palavra de Allah e o excelente exemplo do Mensageiro foram apresentados ao mundo de tal modo que ficaram protegidos de toda distorção e desvio, podendo-se obter deles orientação em todas as épocas, então já não restava qualquer necessidade de profecia. Restava apenas a necessidade de recordar e de promover o renascimento. Para isso, os ulama verdadeiros e a comunidade dos crentes sinceros são suficientes.

As qualidades louváveis do Profeta Muhammad (S)

A última pergunta é: que tipo de caráter possuía pessoalmente o portador deste Livro? Ao responder a essa pergunta, o Alcorão Sagrado, diferentemente de outras escrituras correntes, não recorreu ao caminho dos elogios exagerados aos seus portadores. Os seus elogios também não foram transformados num tema permanente. As suas características morais estavam presentes apenas por alusões no decorrer do discurso.

(1) O Alcorão afirma que o seu portador se encontrava no mais elevado nível das qualidades morais.

(Árabe**************)

—E, ó Muhammad (S), és detentor do mais elevado grau de caráter (Nūn: 4)

(2) O Alcorão afirma que seu portador era um homem de firme determinação, coração resoluto e que, em todas as circunstâncias, confiava em Allah; quando toda a sua nação decidiu eliminá-lo e ele foi obrigado a refugiar-se numa caverna na montanha com um companheiro, não perdeu a coragem naquela situação difícil e perigosa; ao contrário, permaneceu firme em sua determinação.

(Árabe**************)

Lembra-te do tempo em que os incrédulos o expulsaram, quando ele era o segundo de dois e quando ambos estavam na caverna, e quando disse ao seu companheiro: “Não te aflijas; Allah está conosco.” (At-Tawbah: 40).

(3) O Alcorão afirma que seu portador era um homem de espírito extremamente generoso e compassivo, que suplicava pelo perdão até mesmo para seus piores inimigos; por fim, Allah proferiu a decisão definitiva de que não os perdoaria.

(Árabe**************)

—Peças ou não perdão por eles; ainda que peças perdão por eles setenta vezes, Allah jamais os perdoará— (At-Tawbah: 80)

(4) O Alcorão afirma que a natureza de seu portador era extremamente amável. Ele jamais demonstrou dureza para com alguém e, por isso, o mundo se afeiçoou a ele.

(Árabe**************)

—É pela misericórdia de Allah que és bondoso e gentil com eles. Se tivesses sido áspero nas palavras e duro de coração, essas pessoas ter-se-iam afastado de teu redor. —(At-Taubah: 151).

(5) O Alcorão diz que seu portador sentia no coração uma profunda inquietação para conduzir os servos de Deus ao caminho da verdade e da retidão; e, quando eles persistiam obstinadamente no desvio, sofria intensamente. Chegava até a ficar angustiado com a aflição deles.

(Árabe**************)

—Ó Muhammad (S), parece que vais perder a vida de tanta tristeza por causa deles, se não crerem nesta mensagem (Al-Kahf: 6).

(6) O Alcorão diz que seu portador nutria profundo amor por sua ummah. Ele era benevolente para com eles. Quando sofriam algum dano, sentia-se profundamente entristecido. Para eles, era a personificação da misericórdia, do carinho e da ternura.

(Árabe**************)

—Chegou-vos um Mensageiro, vindo de entre vós mesmos, a quem aflige tudo aquilo que vos prejudica; ele é solícito pelo vosso bem e, para os que têm fé, é extremamente compassivo e misericordioso —(At-Taubah: 128).

(7) O Alcorão diz que o seu portador não foi uma misericórdia apenas para o seu povo, mas para o mundo inteiro.

(Árabe**************)

—Ó Muhammad (S), enviamos-te como misericórdia para o mundo inteiro— (Al-Anbiya: 107).

(8) O Alcorão diz que o seu portador permanece acordado, noite após noite, durante horas, adorando e permanecendo de pé na lembrança de Deus.

(Árabe**************)

—Ó Muhammad (S), o teu Senhor sabe que permaneces de pé em oração durante quase dois terços da noite, às vezes durante metade da noite e, às vezes, durante um terço da noite— (Al-Muzzammil: 20).

(9) O Alcorão diz que o seu portador era um homem veraz. Jamais se desviou do caminho da verdade em sua vida. Não foi influenciado por pensamentos malignos. E jamais, submetendo-se aos seus desejos, proferiu sequer uma palavra contra a verdade.

(Árabe**************)

—(Ó gente,) vosso companheiro jamais se desviou do caminho verdadeiro e reto, nem se afastou do pensamento correto. E tampouco fala sob o domínio de seus desejos (Najm: 203).

(10) O Alcorão declara que seu portador é um modelo digno de ser seguido por todo o mundo, e que toda a sua vida constitui o padrão perfeito da moralidade.(Árabe**************)

Há, para vós, no Mensageiro, um modelo dos mais excelentes — (Ahzab 21).

Ao estudar o Sagrado Alcorão, também se descobrirá que ele lança luz sobre algumas outras características de seu portador. Contudo, não há espaço, neste artigo, para discuti-las detalhadamente.

Qualquer pessoa que leia o Alcorão poderá ver por si mesma quão transparente, clara e livre de impurezas é a imagem com que este Livro, ao contrário das demais escrituras religiosas correntes, retrata seu portador. Não há nele o menor traço de divindade, nem qualquer exagero ou hipérbole nos louvores. Nenhum poder extraordinário lhe foi atribuído. Ele tampouco foi associado aos atos de Deus. E não foi acusado de fraquezas, defeitos ou falhas incompatíveis com a dignidade de um guia e de quem convoca à verdade. Se todos os demais livros da literatura islâmica desaparecessem do mundo e restasse apenas o Sagrado Alcorão, ainda assim não haveria possibilidade de qualquer mal-entendido, dúvida, incerteza ou deficiência no respeito e na reverência pela personalidade do Santo Profeta. Podemos saber claramente que o portador deste Livro era um ser humano perfeito, dotado das mais excelentes qualidades morais. Reconhecia a veracidade dos profetas anteriores. Não era inventor de uma nova religião, nem alegava ser um ser sobre-humano. Sua mensagem destinava-se a todo o universo. Por ordem de Allah, foram-lhe confiadas determinadas missões. Quando cumpriu plenamente essas missões, a cadeia da profecia chegou ao seu término com ele. [Na realidade, este artigo foi escrito em 1927 para uma edição especial da revista ‘Aljait’. Antes de ser incorporado em 1944, sofreu algumas alterações — o autor.]

 

Segundo capítulo

A genealogia do Profeta Muhammad (s)

O honorável Ibrahim (a)

É historicamente consensual que a família do Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, provém do ramo da linhagem do Profeta Ibrahim (A) que descende de seu filho mais velho, o Profeta Ismail (A). Essa linhagem é conhecida como Bani Ismail. A relação desse assunto com a biografia do Profeta Muhammad (S) é tão profunda que, para discutir algo sobre ele, é necessário começar pelos acontecimentos da vida dos Profetas Ibrahim (A) e Ismail (A). Caso contrário, não será possível compreender como essa linhagem proveniente do Iraque foi reassentada numa região remota do interior da Arábia, como foi estabelecida aqui a base da qibla dos monoteístas e qual era a relação do Profeta Muhammad (S) com a maioria das tribos árabes, em razão da qual ele não era um desconhecido, mas, pelo contrário, uma personalidade extremamente conhecida.

Foi mencionado que o Profeta Ibrahim (A) era natural do Iraque. Sua terra natal, Ur, era a capital da família de Nimrod no Iraque. Segundo estudiosos e pesquisadores, o Profeta Ibrahim (A) surgiu por volta de 2100 a.C. Ur era um grande centro de civilização, cultura, comércio e negócios naquela época. Ao mesmo tempo, era a fortaleza do shirk e da kufr daquele povo. Quando o Profeta Ibrahim (A) começou a opor-se ao shirk desse povo e a convidá-lo ao tawhid, o governo, toda a nação, sua própria família e até mesmo seu pai tornaram-se seus inimigos. Quando, unidos, não conseguiram fazê-lo desistir, apesar de repreendê-lo e amedrontá-lo, decidiram por unanimidade lançá-lo numa enorme fogueira para queimá-lo vivo. Contudo, Allah, o Altíssimo, tornou o fogo frio para ele, e ele saiu daquela fogueira vivo e ileso. Esse acontecimento foi descrito detalhadamente no Alcorão (Al-Anbiya: 68–69; Al-Ankabut: 24; As-Saffat: 97–98). Consulte essas passagens.

Segundo a narrativa do Alcorão, depois disso o Profeta Ibrahim (A) abandonou sua terra natal e migrou em direção ao Sham e à Palestina. Naquela época, esses lugares eram chamados de terra de Canaã. A esse respeito, o Alcorão diz:

(Árabe**************)

— Disseram entre si: “Construam para ele uma fogueira e lancem-no nessa fogueira ardente.” Eles quiseram tomar uma medida contra ele. Mas Nós os humilhamos, e Ibrahim (A) disse: “Estou partindo para o meu Senhor”, isto é, estou emigrando. Ele é Quem me guiará pelo caminho reto — (As-Saffat: 97–98).

(Árabe**************)

— E a resposta de seu povo não foi outra senão dizer: “Matem-no ou queimem-no!” Por fim, Allah salvou-o do fogo. Naquela ocasião, Lut aceitou Ibrahim. E Ibrahim disse: “Estou emigrando para o meu Senhor.” Ele é Poderoso e Sábio — (Al-Ankabut: 24–26).

(Árabe**************)]

—Nós o salvamos, juntamente com Lot, e os conduzimos para a terra na qual deixamos abundantes bênçãos para os mundos. (Al-Anbiya: 71) [Por “terra abençoada” entende-se a região do Sham e da Palestina. Nos versículos 137 da surata Al-A‘raf, 1 de Bani Isra’il e 81 de Al-Anbiya, essa região é mencionada como abençoada (ver Tafhim, 4º volume, Saba, nota 31).

E concedemos a Lot autoridade e conhecimento, isto é, a profecia — (Al-Anbiya: 74).

(Árabe**************)

E Lot também estava entre aqueles que foram enviados como mensageiros (As-Saffat: 133).

O Alcorão não fornece nenhum relato detalhado sobre o que aconteceu com o povo de Abraão após a sua emigração. Contudo, na surata At-Taubah, versículo 70, esse povo é mencionado juntamente com as nações que foram castigadas.

A questão agora é que, nessa emigração, Sara também acompanhou Abraão, juntamente com Lot. O Alcorão não apresenta nenhuma explicação detalhada sobre isso. Contudo, algumas narrativas do Alcorão deixam claro que Abraão era casado e que sua esposa o acompanhou em sua emigração. Por exemplo, na surata As-Saffat consta que, durante a emigração, Abraão fazia esta súplica:

(Árabe**************)

—Ó meu Deus, concede-me uma descendência virtuosa. Somente um homem casado poderia fazer essa súplica, e ele a fazia justamente quando, tendo abandonado sua terra natal, estava emigrando. Também se encontra confirmação disso no relato histórico da Bíblia. Ali é dito que Sara o acompanhou nessa emigração. Contudo, outros relatos da Bíblia são absolutamente infundados. Por exemplo, é dito que Sara era irmã consanguínea de Lot e sobrinha paterna de Abraão, e que mais tarde ele se casou com ela. Também é dito que, nessa emigração, o pai de Abraão estava com ele (Gênesis, capítulo 11, versículo 27). O pai de Abraão também participou das injustiças e perseguições infligidas contra ele. (Seleções do Talmude — H. Polano, Londres, pp. 40–42.) Além disso, nenhuma lei religiosa de Deus permite que alguém se case com a própria sobrinha; muito menos seria admissível que um profeta fizesse tal coisa.

A atividade de pregação de Hazrat Ibrahim (A)

Depois de Hazrat Noé (A), Hazrat Ibrahim (A) foi o primeiro profeta a quem Allah Ta’ala incumbiu de difundir o convite universal do Islam. Primeiro, ele próprio percorreu durante anos várias regiões, desde o Iraque até o Egito, e da Síria e Palestina até diferentes partes do deserto da Arábia, apresentando às pessoas o convite do Islam para a adoração, o culto e a obediência a Allah Ta’ala. Depois, para levar adiante sua missão de pregação, nomeou seus sucessores em diferentes regiões. Nomeou seu sobrinho Ló (A) na Jordânia Oriental, seu filho mais novo Isaque (A) na Síria e na Palestina, e seu filho mais velho Ismael (A) no interior da Arábia. Em seguida, por ordem de Allah Ta’ala, construiu em Meca a Casa chamada Caaba, e, também por ordem de Allah Ta’ala, determinou essa Casa como o centro de sua missão.

Da descendência de Hazrat Ibrahim (A) surgiram dois grandes ramos. Um era formado pelos descendentes de Hazrat Ismael (A), que permaneceram na Arábia. Os coraixitas e algumas tribos árabes estavam ligados a esse ramo. Como as tribos árabes que não eram descendentes de Hazrat Ismael (A) pelo lado genealógico também haviam sido, em maior ou menor medida, influenciadas pela religião por ele pregada, ligaram sua própria linhagem à deles. [Durante dois mil e quinhentos anos, até a época do Nobre Profeta (S), várias famílias do Profeta Ismael estabeleceram relações matrimoniais com muitas famílias árabes. De acordo com a natureza humana, consideravam uma honra estabelecer relações matrimoniais com a puríssima família de Hazrat Ismael e mencionavam isso em suas genealogias — o autor.]

[Como, até a época do Profeta (S), durante dois mil e quinhentos anos, várias famílias de Hazrat Ismael haviam contraído matrimônio com muitas famílias árabes, de acordo com a natureza humana, todas essas famílias consideravam uma honra ter parentesco com essa grande família e mencionavam isso em seus registros genealógicos — o autor.]

O segundo ramo era o dos descendentes de Hazrat Isaque (A). Nesse ramo nasceram Hazrat Jacó (A), Hazrat José (A), Moisés (A), Davi (A), Salomão (A), Yahya (A), Jesus (A) e muitos outros profetas. Como Hazrat Jacó (A) se chamava Israel, esse ramo passou a ser conhecido como Bani Israel. Como resultado da pregação deles, as nações que adotaram sua religião ou dissolveram sua identidade na deles, ou permaneceram distintas quanto à linhagem. Ainda assim, tornaram-se seus seguidores no aspecto religioso. Quando esse ramo começou a sofrer distorção e decadência, primeiro surgiu o judaísmo e, depois, o cristianismo.

A verdadeira missão de Hazrat Ibrahim (A) era convocar o mundo à obediência a Allah e conduzir corretamente a organização da vida individual e social das pessoas, de acordo com a orientação enviada por Allah. Ele próprio era obediente a Allah. Seguia o conhecimento que lhe havia sido concedido e difundia esse conhecimento no mundo. Foi por esse grande serviço que ele foi agraciado com a liderança mundial. Depois dele, a posição de liderança foi confiada ao ramo de sua descendência que começou com Hazrat Isaque (A) e Hazrat Jacó (A), e que ficou conhecido como Bani Israel. Profetas continuaram a nascer nessa linhagem. A eles foi concedido o conhecimento do caminho correto. Foi-lhes confiada a responsabilidade de guiar as nações do mundo pelo caminho correto. Essa era a bênção que Allah Ta’ala lhes recordou repetidamente por meio do Alcorão. Esse ramo ocupava o posto de liderança. Bayt al-Maqdis era o centro do convite à religião de Allah e a qibla dos devotos.

O nascimento de Hazrat Ismael (A)

O segundo ramo dos descendentes de Ibrahim (A) era Bani Israel. Entre os defeitos dessa comunidade estava o fato de que distorciam a história e reservavam para si todo objeto de orgulho. Em cada período da história, faziam todos os esforços para difamar as nações com as quais entravam em conflito, choque e rivalidade. Um dos muitos exemplos disso na Bíblia é que, segundo sua perspectiva, Hazrat Ló (A) não era de modo algum um profeta. Ibrahim (A) não o enviou à terra de Sodoma para qualquer missão de pregação. Pelo contrário, houve uma disputa entre tio e sobrinho, e o tio disse ao sobrinho que fosse morar em outro lugar — Gênesis, capítulo 13, versículos 5–13. Um exemplo ainda mais repugnante é que, segundo a Bíblia, quando o castigo caiu sobre o povo de Ló, Ló (A) saiu dali levando consigo suas duas filhas. Depois, em vez de dirigir-se a seu tio Hazrat Ibrahim (A), que vivia na cidade de Hebrom, na Palestina, próxima de Sodoma, passou a morar numa caverna. Ali — que Allah nos proteja — suas duas filhas o embriagaram com vinho e tiveram relações com ele, fazendo com que ambas engravidassem. Do ventre de uma nasceu Moabe, antepassado dos moabitas, e do ventre da outra nasceu Ben-Ami, antepassado dos amonitas — Gênesis, capítulo 19, versículos 30–38. Desse modo, Bani Israel expressou sua hostilidade contra os moabitas e os amonitas, descarregando seu rancor. Pois a história posterior testemunha que travaram com eles conflitos e confrontos extremos.

Eles também adotaram esse tipo de atitude em relação aos filhos de Ismail. Na Bíblia, está narrado que Hajar, mãe de Ismail, era escrava de Sara. Como Sara não tinha filhos, certo dia disse a Ibrahim: “Une-te à minha escrava, para que a nossa família possa estabelecer-se.” Assim, conforme suas palavras, Ibrahim uniu-se a Hajar, e Ismail nasceu — (Gênesis, capítulo 16, versículos 10, 15-16). Contudo, nessa mesma parte de Gênesis, o capítulo 16, versículo 16, afirma que o faraó daquela época presenteou Ibrahim com imensas riquezas, gado, servos e servas. Hajar também estava entre eles. [Hajar (que Allah esteja satisfeito com ela) era habitante de uma aldeia chamada Umm al-Arab ou Umm al-Ariq. Ela ficava no leste do Egito, a duas milhas da margem do mar de Roma, diante de Farama ou Attina. Na época do faraó, havia ali uma fortaleza; hoje ela é chamada Tall al-Faran — o autor.] Por isso, chamar Hajar de escrava de Sara é errado até mesmo à luz da própria Bíblia. Sara tampouco precisava de qualquer permissão para que Ibrahim tivesse relações sexuais com ela.

A Bíblia também afirma que Ismail (que a paz esteja com ele) permaneceu com Ibrahim na Palestina. Inclusive, quando ele tinha quatorze anos, Ishaq nasceu do ventre de Sara, por meio de Ibrahim (Gênesis, capítulo 18, versículos 24-26; capítulo 21, versículos 1-5). Depois, a Bíblia diz:

“E o menino (isto é, Ishaq) cresceu e foi desmamado. No dia em que foi desmamado, Ibrahim (que a paz esteja com ele) ofereceu um grande banquete e organizou uma recepção. Quando Sara viu que o egípcio de Hajar — que era filho de Ibrahim — se alegrava e se divertia, disse a Ibrahim: ‘Expulsa esta escrava e seu filho, pois o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho.’ Isso desagradou muito a Ibrahim. Deus disse a Ibrahim: ‘Não te aflijas por causa do menino e da tua escrava. Atende a tudo o que Sara te diz.’ Na manhã seguinte, Ibrahim levantou-se, colocou sobre os ombros de Hajar um pão e um odre de água e despediu-a com o filho. Ela partiu e passou a vagar como uma errante pelo deserto junto ao poço de Sabá. Quando a água do odre acabou, ela deixou o filho sob um arbusto. Depois, afastou-se um pouco, sentou-se e disse: ‘Não verei a morte deste menino.’ Sentou-se diante dele e começou a chorar aos gritos. Deus ouviu a voz do menino, e os anjos de Deus chamaram Hajar do céu, dizendo: ‘Hajar! O que aconteceu contigo? Não tenhas medo, pois Deus ouviu a voz do menino do lugar onde ele está. Levanta-te e ergue o menino. Segura-o com a mão, pois farei dele uma grande nação.’ Deus abriu-lhe os olhos, e ela viu um poço de água. Foi até lá, encheu o odre de água e deu de beber ao menino. Deus estava com o menino. Ele cresceu e passou a viver no deserto. Tornou-se arqueiro. Vivia no deserto de Farã. Sua mãe trouxe-lhe uma esposa do Egito” — (Gênesis, capítulo 21, versículos 8-21).

Essa narrativa falsa foi inventada para que não se pudesse comprovar qualquer relação de Ibrahim (que a paz esteja com ele) e Ismail (que a paz esteja com ele) com a Arábia, Meca, a Caaba e o poço de Zamzam. Pois, se for lançado um véu sobre a viagem de Ibrahim à Arábia, e se forem eliminadas as referências à permanência de Ismail na Palestina até os quatorze anos e, depois disso, ao seu casamento no deserto de Farã, será apagado aquele importante capítulo da história islâmica relacionado ao centro árabe da religião de Ibrahim. Segundo as várias referências da Bíblia ao deserto de Farã, ele se situava ao sul da Palestina, a oeste do vale de Aqaba, ao norte do deserto do Sinai e a leste do Egito e do mar de Roma. Não havia qualquer relação entre o monte Farã e a Arábia, onde Meca está situada. Além disso, nessa narrativa foram retratados os caracteres abjetos de Sara (que Allah esteja satisfeito com ela) e Ibrahim (que a paz esteja com ele), e Allah também foi acusado juntamente com eles. Isso revela uma forma abjeta e repugnante das próprias concepções morais dos filhos de Israel. Nela, a esposa de um profeta (Ibrahim) e outro profeta (Ishaq) são apresentados de tal maneira que a mãe não tolera sequer o sorriso do filho de sua coesposa e força o marido a privar o filho da herança e expulsá-lo da família. O marido, que é um profeta grandemente honrado, é retratado como alguém que exilou seu filho de quinze ou dezesseis anos no deserto, entregando-lhe apenas pão e um odre de água, sem se importar minimamente com a vida ou a morte deles. Por outro lado, a dignidade de Allah também é apresentada de tal maneira que Ele ordena a Ibrahim, em favor do antepassado dos filhos de Israel, Ishaq, e de sua mãe, que aceite a exigência de injustiça e opressão feita pela mãe de Ishaq contra sua coesposa, movida por ciúme e hostilidade. Toda essa narrativa não passa de um conjunto de mentiras e fantasias irreais.

Em contrapartida, podemos conhecer a história correta por meio do Alcorão e dos hadiths. Inúmeras e incontáveis pessoas entre os árabes, ao longo de quatro mil anos de transmissão de geração em geração, testemunham essa história por meio de seus relatos repetidos.

O Alcorão diz que, durante a Hégira de sua terra natal, Ibrahim suplicou diante de Allah:

(Árabe**************)

— Ó meu Senhor! Concede-me uma descendência virtuosa. (As-Saffat: 100).

A súplica foi aceita depois de um longo período, quando Hazrat Ibrahim (a.s.) havia alcançado idade muito avançada. No Alcorão, são citadas estas palavras de Hazrat Ibrahim (a.s.): (Árabe***************)

Louvado seja o Deus que, em minha velhice, me concedeu Ismael e Isaac, dois filhos — (Ibrahim: 39).

Antes do nascimento desses dois filhos, Allah, o Altíssimo, havia anunciado boas-novas a Hazrat Ibrahim (a.s.). Primeiro, as boas-novas sobre Hazrat Ismael (a.s.) foram dadas nestas palavras:

— Então, anunciamos-lhe as boas-novas de um filho tolerante (As-Saffat: 101). Alguns anos depois, quando Ismael (a.s.) estava quase entrando na juventude, as boas-novas do segundo filho foram dadas desta maneira—(Árabe***************)

(E os anjos anunciaram-lhe — isto é, a Hazrat Ibrahim (a.s.) — as boas-novas de um filho sábio — (Az-Zariyat: 28). Quando recebeu essas segundas boas-novas, Hazrat Ibrahim (a.s.) disse—

(Árabe***************)

— Estais anunciando-me um filho na minha velhice? Pensai um pouco: que espécie de boas-novas são essas que me anunciais? — (Al-Hijr: 54). Ao receber essas boas-novas, Sara ficou assim—

(Árabe***************)

—Sua esposa avançou gritando, cobriu o rosto e disse: “Sou uma anciã e estéril” — (Zariyat: 29).

Com base nesses versículos, pode-se considerar correta a seguinte narrativa da Bíblia: Ismael (a.s.) nasceu quando Hazrat Ibrahim (a.s.) tinha 86 anos, e Isaac (a.s.), quando ele tinha cem anos — (Gênesis: 16, versículo 16; capítulo 21, versículo 5).

O reassentamento de Ismael (a.s.) em Meca

Da discussão acima, ficou claro que Ismael (a.s.) era o primogênito de seu pai e nasceu quando este já estava em idade avançada. Em tal idade, qualquer pai que tivesse um filho teria o direito de mantê-lo junto ao peito com carinho, sendo ele seu primogênito e, até os catorze anos, seu único filho. Não suportaria sequer vê-lo afastar-se de seus olhos. Mas Hazrat Ibrahim (a.s.) era um profeta e, por isso, dava prioridade ao chamado da verdade; por causa dele, suportou incontáveis opressões e injustiças em sua terra natal, migrou, vagou por terras estrangeiras e empregou sua força e seu esforço na transmissão da mensagem de Deus em todos os lugares. Após o nascimento desse amado filho, o primeiro pensamento que lhe surgiu foi como estabelecer na terra árabe aquele centro do chamado ao monoteísmo de onde surgiria o Último Profeta e que permaneceria, até o Dia da Ressurreição, como centro do chamado ao monoteísmo. O Alcorão nos informa que, desde o início, Deus indicou a Hazrat Ibrahim (a.s.) o local onde esse centro deveria ser construído. De fato, foi dito na Surata Al-Hajj:(Árabe***************)

—Lembra-te de quando determinamos para Ibrahim o local desta Casa (a Caaba) — (Al-Hajj: 26).

De acordo com essa ordem, esse grande servo de Deus deixou seu filho ainda lactente, juntamente com sua mãe, extraordinariamente paciente e inteiramente dependente de Deus, exatamente naquele lugar, aparentemente em uma situação de completa desamparo, onde por fim teria de construir a Caaba.

Em Sahih al-Bukhari, é apresentado um relato detalhado desse acontecimento, transmitido por Abdullah ibn Abbas (r.a.). Pelo modo como Ibn Abbas (r.a.) citou, em vários pontos desse relato, as palavras do Nobre Profeta (s.a.w.), sabe-se que tudo o que narrou ele ouviu diretamente do Profeta. Ele disse: Hazrat Ibrahim (a.s.) levou Hazrat Hajar (r.a.) e seu filho lactente, Ismael (a.s.), e deixou-os sob uma árvore, num lugar onde mais tarde surgiu Zamzam. Naquela época, não havia ninguém no vale escassamente habitado de Meca, nem se encontrava água em parte alguma. Hazrat Ibrahim (a.s.) entregou a Hazrat Hajar (r.a.) tâmaras numa bolsa de couro e um odre de água, e partiu. Hazrat Hajar, seguindo-o, continuava dizendo: “Ó Ibrahim! Para onde vais, deixando-nos neste deserto árido, solitário e sem vegetação?” Hazrat Hajar (r.a.) repetiu essas palavras várias vezes. Mas Hazrat Ibrahim (a.s.) nem sequer olhou para trás. ****1 Por fim, Hazrat Hajar (r.a.) disse: “Foi Deus que te ordenou fazer isto?” Hazrat Ibrahim (a.s.) respondeu apenas: “Sim.” Então Hajar (r.a.) disse: “Se é assim, Deus não nos destruirá.” Depois disso, voltou e sentou-se junto ao filho.

Hazrat Ibrahim (a.s.) foi para trás de uma montanha, de onde já não podia ver a mãe e o filho, voltou o rosto para a Casa de Deus — onde deveria construir aquela Casa — e fez esta súplica:

(Árabe***************)

— Ó meu Deus, deixei parte de meus descendentes num vale sem água e sem vegetação, junto à Tua Casa sagrada, para que estabeleçam a oração. Portanto, faze com que os corações das pessoas se inclinem para eles e concede-lhes frutos como alimento. Talvez sejam agradecidos. — (Ibrahim: 37).

Enquanto isso, a mãe de Ismael continuou a amamentá-lo e a beber a água do odre. Quando a água acabou, ela e o filho sentiram sede. Ao ver o filho contorcendo-se de sede, ela não conseguiu permanecer quieta. Correu em direção ao vale, para ver se encontrava alguma pessoa. Mas não viu ninguém. Então desceu do monte Safa e chegou ao meio do vale. Depois, erguendo os braços, começou a correr como corre uma pessoa aflita. Em seguida, subiu o monte Marwa e ficou observando para ver se avistava alguém em algum lugar. Mas não avistou ninguém. Assim, correu sete vezes entre Safa e Marwa. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

[Não olhar para trás não significa crueldade, negligência ou desprezo. Embora o Profeta Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) fosse um grande profeta, era, naturalmente, um ser humano. Para cumprir a ordem de Allah, ele assumira um risco tão grande que estava deixando seu filho ainda lactente e a mãe dele num lugar deserto, cercado por montanhas. É possível compreender, diante dessa situação, qual devia ser o estado de seu coração. Se, naquela condição, ele tivesse olhado para sua esposa e seu filho, seu coração teria ficado angustiado e perturbado. Por isso, partiu como se tivesse colocado uma pedra sobre o peito. Em resposta às repetidas perguntas da esposa, que o seguia, limitou-se a dizer “sim”, sem sequer olhar para ela.]

É por isso que as pessoas fazem o sa’i entre Safa e Marwa. (****1) Quando ela subiu o monte Marwa pela última vez, ouviu uma voz. Então disse consigo mesma: “Cale-se” — isto é, não faça alvoroço. Depois ficou escutando atentamente. Quando ouviu a voz novamente, disse: “Ó ser humano, fizeste-me ouvir a tua voz. Agora tens algo contigo para atender ao meu pedido?”

De repente, ela viu um anjo no local de Zamzam. Segundo os relatos de Ibrahim ibn Nafi e Ibn Jurayj, ela viu Jibril cavando a terra com o calcanhar ou com a mão. Então a água começou a jorrar. Hajara (que Allah esteja satisfeito com ela) começou a recolhê-la com as mãos em concha e a encher o odre. Quanto mais água recolhia, mais ela subia e transbordava. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Que Allah tenha misericórdia da mãe de Ismael! Se ela tivesse deixado Zamzam como estava — isto é, sem cercá-la com uma barreira por todos os lados — Zamzam teria se tornado uma fonte corrente.”]

Assim, Hajara (que Allah esteja satisfeito com ela) continuou a beber água e a amamentar o filho. O anjo lhe disse: “Não temas que a água se esgote. Aqui está a Casa de Allah, que esta criança e seu pai construirão. Allah não destruirá o povo desta Casa.”

Depois de algum tempo nessa situação, algumas pessoas da tribo de Jurhum (***1) vieram da região de Qada e pararam na parte baixa de Meca. De lá, viram um pássaro voando ao redor de um determinado lugar. Disseram: “Esse pássaro está certamente circulando sobre a água.” Já havíamos passado anteriormente por este vale, mas não havia água em lugar algum. Então enviaram uma ou duas pessoas. Elas encontraram água ali. Voltaram e deram essa notícia aos demais. Estes vieram e encontraram ali a mãe de Ismael (que a paz esteja sobre ele). Disseram a Hajara (que Allah esteja satisfeito com ela): “Permites que permaneçamos aqui?” Hajara respondeu: “Sim, mas a água não será vossa; permanecerá sob minha autoridade.” Eles concordaram.

Ibn Abbas (r.a.) relata que o Profeta (s.a.w.) disse: A tribo de Jurhum encontrou a mãe de Ismael muito sociável. Ela própria desejava que algumas pessoas se estabelecessem ali. Assim, eles permaneceram naquele lugar e levaram também outros membros de suas famílias. Algumas famílias começaram a viver ali. Hazrat Ismael (a.s.) foi criado e cresceu entre eles, aprendendo com eles a língua árabe. (***1) O rapaz agradou muito aos jurhumitas, que continuaram desejando que ele se casasse com uma moça de sua própria tribo.

(****1) Este é um importantíssimo testemunho histórico desse acontecimento. Após a construção da Caaba, os ritos contínuos do Hajj começaram na época de Hazrat Ibrahim (a.s.). Desde então até os dias atuais, centenas, milhares e milhões de pessoas vêm realizando o sa’i entre Safa e Marwa em memória desse acontecimento. Esta prática, repetida ao longo de milhares de anos, continua até hoje sem jamais ter sido interrompida. Não há, em nenhum outro acontecimento do mundo, uma prova histórica mais forte do que esta. Em contraste, no deserto de Faran, onde é narrado o acontecimento mencionado (ver página anterior), não se realizou nem antes se realizava qualquer sa’i desse tipo, e tampouco se realiza hoje.

() Esta é uma tribo dos antigos árabes qahtanitas do Iêmen.

(1) A língua de Hazrat Ibrahim (a.s.) também não era o árabe. Ele era oriundo do Iraque. Depois, passou a viver em Canaã. A língua de Hazrat Hajar também não era o árabe. Ela era egípcia.]

O episódio do sacrifício do filho

Depois de deixar seu amado filho naquele vale deserto, Hazrat Ibrahim (a.s.) não o abandonou à própria sorte. Pelo contrário, ia de vez em quando para saber notícias dele e também permanecia alguns dias junto da esposa e do filho. Quando deixou a esposa e o filho ainda lactente naquele lugar, fez uma súplica.(Árabe*********************)

— Ó meu Senhor, torna segura esta cidade. Conforme a súplica, aquele lugar pouco povoado transformou-se agora em um povoado. Pode-se supor que Hazrat Ibrahim (a.s.) já tivesse certamente começado a pregar o Islã entre os jurhumitas. Depois ocorreu um acontecimento sem paralelo na história humana. Isto é, Hazrat Ibrahim (a.s.) preparou-se para sacrificar, por indicação de Deus, em plena juventude, seu primeiro e único filho, nascido em sua velhice. O Alcorão descreve este acontecimento da seguinte maneira:

(Árabe*********************)

—Então, quando o menino atingiu a idade de correr e andar com ele, certo dia Abraão disse: “Ó meu filho! Vi em sonho que te sacrificava. Agora, dize-me: qual é a tua opinião?” Ele respondeu: “Ó meu pai! Faça o que lhe foi ordenado. Se Deus quiser, o senhor me encontrará entre os pacientes.” Por fim, quando ambos se submeteram, inclinando a cabeça em obediência a Deus, e Abraão (a.s.) colocou o filho com o rosto voltado para baixo, Nós o chamamos e dissemos: “Ó Abraão! Tu realizaste o sonho.” Assim recompensamos os benfeitores. Certamente, esta foi uma prova manifesta, e Nós o resgatamos com um grande sacrifício e preservamos esse filho (As-Saffat: 102-107). Esse acontecimento ocorreu em Meca [No Alcorão, este lugar também é chamado de “Baca” (Al-i Imran: 96). Contudo, segundo o relato de Ibn Hisham (primeiro volume, p. 119), esse não era seu nome antigo; ele passou a ser chamado assim posteriormente, quando adquiriu a condição de santuário inviolável. Ibn Hisham diz que Meca é chamada de Baca porque (****************) quebra o pescoço dos tiranos. Ele explica ainda que, na época da ignorância, Meca não permitia que nenhuma opressão ou transgressão durasse por muito tempo. Todos os que cometiam excessos eram expulsos dessa cidade — (autor)] e o local para onde Abraão (a.s.) levou o filho a fim de sacrificá-lo era Mina; ali, até hoje, isso é realizado na mesma data (10 de Zul-Hijjah)[A razão para levá-lo a Mina era que, naquela época, já havia uma população estabelecida em Meca, e a mãe de Ismael (a.s.) também residia ali. Por isso, Abraão (a.s.) levou o filho para a região montanhosa e pouco povoada de Mina, fora de Meca.] Além disso, isso aconteceu quando Ismael (a.s.) não tinha mais de doze ou treze anos. Isaque ainda não havia nascido. Pois, depois de relatar esse acontecimento na Surata As-Saffat, Deus, o Altíssimo, diz:

(Árabe*********************)

—E anunciamos a Abraão a boa-nova de um dos profetas virtuosos (versículo 112).

Algumas explicações dos versículos acima são necessárias; elas são apresentadas a seguir:

(1) Abraão (a.s.) não viu em sonho que havia sacrificado o filho; viu, antes, que o estava sacrificando. Naquele momento, porém, ele entendeu que o significado do sonho era que Deus lhe ordenava sacrificar o filho para testar a sinceridade de sua fé. Por isso, com a mente tranquila, preparou-se para sacrificar o filho, pedaço de seu coração.

(2) O objetivo de perguntar ao filho não era que, se ele consentisse, Abraão cumpriria a ordem de Deus, e, se não consentisse, não a cumpriria. Pelo contrário, Abraão (a.s.) queria ver até que ponto era virtuoso o filho piedoso por quem havia suplicado a Deus. Se ele próprio estivesse disposto a oferecer a vida pela satisfação de Deus, isso significaria que a súplica havia sido plenamente aceita e que o filho não era apenas seu filho no aspecto físico, mas também, moral e espiritualmente, seu verdadeiro e digno filho.

(3) As palavras de Ismael (a.s.) — “Faça aquilo que lhe foi ordenado” — significam que ele considerava o sonho de seu pai profeta equivalente à ordem de Deus e a uma forma de revelação. Se essa concepção não estivesse correta, Abraão (a.s.) teria dito que aquilo não passava de uma ordem recebida em sonho, e Deus, o Altíssimo, também teria refutado essa concepção nesses versículos. Este é um dos argumentos com base nos quais, no Islã, o sonho de um profeta pode ser considerado uma das formas de revelação.

(4) Abraão (a.s.) não deitou o filho de costas para sacrificá-lo; colocou-o com o rosto voltado para cima, para que, ao ver o rosto do filho, sua mão não tremesse por causa do amor paterno. Por isso, pretendia passar a faca pela garganta, colocando a mão por baixo.

(5) Antes de que o profeta Abraão (a.s.) sacrificasse o filho, Allah, o Altíssimo, disse: “Ó Abraão, tornaste o sonho realidade.” Esta declaração de Allah era perfeitamente justa, pois no sonho não lhe fora mostrado que ele havia de fato sacrificado o filho; antes, fora-lhe mostrado que ele faria isso. Assim, quando ele cumpriu o que lhe havia sido mostrado no sonho, foi proclamado: “Tornaste o sonho realidade e foste aprovado naquela grande prova à qual te submetemos. É assim que recompensamos os Nossos servos virtuosos, tal como te recompensamos. Sem fazer com que matasses o filho pelas tuas mãos, manifestamos por teu intermédio que, por amor a Nós, és capaz de sacrificar até o teu próprio filho.”

(6) “O grande sacrifício” também pode significar o carneiro que os anjos de Allah trouxeram ao profeta Abraão (a.s.) para que fosse sacrificado em lugar do profeta Ismael (a.s.). Também pode significar o sacrifício que vem sendo realizado desde aquela época até a época do profeta Muhammad (s.a.w.) e que, desde a época do Profeta até os dias de hoje, todos os muçulmanos do mundo realizam durante o hajj e o Eid al-Adha.

O sacrifício foi ordenado em relação ao profeta Isaac (a.s.) ou a Ismael (a.s.)?

Foi mencionado acima que era hábito dos Filhos de Israel atribuir a si mesmos tudo o que fosse honroso, fazer falsas acusações contra os outros ou reivindicar como seu muito do que era motivo de glória. De acordo com esse hábito, atribuíram o episódio do sacrifício do filho a Isaac (a.s.), em vez de a Ismael (a.s.). A Bíblia diz:

“Deus pôs Abraão à prova e disse-lhe: ‘Leva contigo Isaac, teu amado e único filho, e vai à terra de Moriá; ali, num dos montes que te indicarei, queima-o e apresenta-o como sacrifício’” (Gênesis, capítulo 22, versículos 1–2).

Nesta narrativa, por um lado, afirma-se que Allah, o Altíssimo, havia pedido o sacrifício de Isaac (a.s.) e, por outro, que ele era filho único. Contudo, está definitivamente comprovado por outras narrativas da própria Bíblia que Isaac (a.s.) não era filho único. Veja, a esse respeito, o relato bíblico abaixo:

“E Sara, esposa de Abraão, não tinha filhos. Ela tinha uma escrava egípcia chamada Hagar. E Sara disse a Abrão: ‘Vê, o Senhor me impediu de ter filhos. Portanto, vai à minha escrava; talvez por meio dela eu possa ter um filho em minha casa.’ E Abrão consentiu com as palavras de Sara. Ele havia habitado dez anos na terra de Canaã; então Sara tomou sua escrava egípcia e a deu a Abrão, seu marido, como esposa. E ele se uniu a Hagar, e ela concebeu” (Gênesis, capítulo 65, versículos 1–3).

“O anjo de Deus lhe disse: ‘Eis que estás grávida e darás à luz um filho; chama-o Ismael’” (Gênesis 16:11).

“Quando Ismael nasceu do ventre de Hagar, Abrão tinha 86 anos” (Gênesis 16:16), e o Senhor disse a Abrão: “Também te darei um filho de tua esposa Sara; darás a ele o nome de Isaque, e ele nascerá do ventre de Sara nesta mesma época do próximo ano.” Então Abrão tomou seu filho Ismael e todos os homens de sua casa e, naquele mesmo dia, por ordem do Senhor, circuncidou-os. Abrão tinha 99 anos quando foi circuncidado, e Ismael foi circuncidado aos treze anos” (Gênesis, capítulo 17:15–25).

“E quando seu filho nasceu dele, Abrão tinha cem anos” (Gênesis 21:5).

Com isso, torna-se evidente a contradição dos relatos bíblicos. É claro que, até os quatorze anos, Ismael (que a paz esteja com ele) era o único filho de Abraão (que a paz esteja com ele). Se o sacrifício pedido era o do filho único, então não era o de Isaque (que a paz esteja com ele), mas o de Ismael (que a paz esteja com ele), pois ele era o único filho. E, se o sacrifício pedido era o de Isaque, então é incorreto dizer que se pediu o sacrifício do filho único.

Depois, se examinarmos as tradições islâmicas, veremos uma grande divergência de opiniões. Entre os relatos dos Companheiros e dos seguidores que os exegetas citaram, um grupo afirma que esse filho era Isaque. Entre os grandes sábios desse grupo encontram-se os seguintes:

Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele), Abbas ibn Abd al-Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), Qatada, Ikrima, Hasan al-Basri, Mujahid, al-Shaabi, Masruq, Makhul, al-Zuhri, Ata, Muqatil, al-Suddi, Kaab al-Ahbar, Zayd ibn Aslam, entre outros sábios.

O segundo grupo afirma que ele era Ismael (que a paz esteja com ele). Entre os grandes sábios desse grupo encontram-se os seguintes:

Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele), Ikrima, Mujahid, Yusuf ibn Mihran, Hasan al-Basri, Muhammad ibn Kaab, al-Qurazi, al-Shaabi, Said ibn al-Musayyab, Dahhak, Muhammad ibn Ali ibn Husayn (o Imam Muhammad al-Baqir), Rabi ibn Anas, Ahmad ibn Hanbal, entre outros sábios.

Ao examinarmos essas duas listas, veremos que alguns nomes aparecem em ambos os grupos. Isto é, foram atribuídos à mesma pessoa dois relatos contraditórios entre si. Por exemplo, Ikrima transmitiu de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) a afirmação de que o filho era Isaque. Mas, do mesmo Abdullah ibn Abbas, Ata ibn Abi Rabah transmitiu a seguinte afirmação: “Os judeus alegam que ele era Isaque. Mas os judeus mentem.” Do mesmo modo, encontra-se um relato de Hasan al-Basri segundo o qual ele sustentava que Isaque (que a paz esteja com ele) havia sido destinado ao sacrifício. Entretanto, Amr ibn Ubayd afirma que Hasan al-Basri não tinha dúvida alguma de que o filho de Abraão (que a paz esteja com ele) a quem fora ordenado sacrificar era Ismael (que a paz esteja com ele). O resultado dessa divergência foi que alguns sábios, com plena convicção, deram seu parecer em favor de Isaque, como Ibn Jarir e Qadi Iyad. Outros afirmaram categoricamente que Ismael havia sido sacrificado, como Ibn Kathir; e alguns permaneceram indecisos, como Jalaluddin al-Suyuti. Contudo, quando se examina a questão com espírito de investigação e pesquisa, não resta a menor dúvida de que foi Ismael (que a paz esteja com ele) quem foi sacrificado. Os argumentos são os seguintes:

(1) Na Surata As-Saffat, encontra-se a declaração de Allah Todo-Poderoso de que, ao emigrar de sua terra natal, o Profeta Ibrahim (a.s.) suplicou por um filho virtuoso. Em resposta, Allah Todo-Poderoso anunciou-lhe a boa-nova de um filho paciente. Pelo modo como as palavras são apresentadas, fica claro que ele fez essa súplica quando ainda não tinha filhos. Depois, o filho cuja boa-nova lhe foi anunciada era o seu primogênito. Em seguida, a sequência dos versículos desta surata revela que, quando esse filho se tornou capaz de correr e brincar com o pai, foi-lhe indicado que deveria ser sacrificado. Portanto, é absolutamente certo que o primeiro filho do Profeta Ibrahim (a.s.) foi o Profeta Ismail (a.s.), e não o Profeta Ishaq (a.s.).

O próprio Alcorão Sagrado descreveu a ordem dos dois filhos da seguinte maneira:

(Árabe***************)

— Louvor a Allah, que, na minha velhice, me concedeu Ismail e Ishaq — (Ibrahim: 39).

(2) Ao anunciar no Alcorão Sagrado o nascimento do Profeta Ishaq (a.s.), são usadas as palavras «um filho sábio» (Adh-Dhariyat: 28), e na surata é dito:(Árabe*************)

«Não temas; anuncio-te a boa-nova de um filho sábio» — (Al-Hijr: 53). Porém, na Surata As-Saffat, ao anunciar a boa-nova do filho, são usadas as palavras «um filho paciente». Isso deixa claro que as qualidades distintivas dos dois filhos eram diferentes, e que a ordem de sacrificá-lo não se referia ao filho sábio, mas ao filho paciente, pois o episódio do sacrifício do filho ocorreu depois do nascimento desse filho e quando ele se aproximava da idade adulta, enquanto a boa-nova do nascimento do segundo filho foi dada depois disso.

(3) Ao anunciar no Alcorão Sagrado a boa-nova do nascimento do Profeta Ishaq (a.s.), anunciou-se também que, entre seus descendentes, nasceria um filho como Yaqub (a.s.):(Árabe***************)।

— E anunciamos-lhe a boa-nova de Ishaq e, depois de Ishaq, de Yaqub — (Hud: 71).

É evidente que, juntamente com a notícia do nascimento de um filho, foi dada também a notícia de que ele teria um filho virtuoso. Se, a esse respeito, tivesse sido mostrada a Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) uma visão na qual ele o sacrificava, Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) jamais poderia ter compreendido que isso era uma indicação para sacrificar aquele filho. Pois, depois de sacrificá-lo, não haveria possibilidade de nascer de sua descendência outro filho, isto é, Hazrat Yaqub (que a paz esteja com ele).

Allama Ibn Jarir responde a esse argumento da seguinte maneira: talvez essa visão tenha sido mostrada a Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) no momento em que Hazrat Yaqub (que a paz esteja com ele) nasceu na casa de Hazrat Ishaq. Mas essa é uma resposta extremamente fraca. As palavras do Sagrado Alcorão são: “Quando o menino se tornou capaz de correr e andar com o pai”, foi então que essa visão lhe foi mostrada. Se alguém ler essas palavras com espírito imparcial, a imagem que lhe surgirá na mente será a de um menino de oito, dez ou, no máximo, doze ou treze anos. Ninguém pode imaginar que essas palavras tenham sido usadas para um filho que já fosse jovem e pai de um filho.

(4) Depois de narrar toda a história, Allah, o Altíssimo, diz finalmente: “Nós lhe anunciamos a boa-nova de Ishaq, um profeta virtuoso”. Isso deixa claro que esse não era o filho a cujo abate havia sido feita alusão. Pelo contrário, primeiro foi anunciada a boa-nova de outro filho. Depois, quando ele se tornou capaz de correr e andar com o pai, foi-lhe ordenado que o sacrificasse. Então, quando Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) foi aprovado nessa prova, foi-lhe anunciada a boa-nova do nascimento de outro filho, Ishaq. Essa sequência de acontecimentos estabelece com certeza que o filho cujo sacrifício havia sido ordenado não era Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele); ao contrário, esse filho havia nascido vários anos antes dele. Allama Ibn Jarir refuta esse argumento evidente dizendo que, primeiro, foi anunciada a boa-nova do nascimento de Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele). Depois, quando ele se preparou para oferecer a vida pela satisfação de Deus, sua recompensa foi receber a boa-nova de que seria profeta. Mas essa resposta é ainda mais fraca que a primeira. Se a realidade fosse de fato essa, Allah, o Altíssimo, não teria dito, ao mencionar esse acontecimento: “Nós lhe anunciamos a boa-nova de Ishaq”; teria dito, pelo contrário: “Nós lhe demos esta boa-nova: este teu filho será um profeta dentre os virtuosos”.

(5) Está comprovado por fontes de transmissão confiáveis que os chifres do carneiro abatido como resgate por Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) foram preservados na Caaba até o tempo de Hazrat Abdullah ibn az-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele). Mais tarde, quando Hajjaj ibn Yusuf sitiou Ibn az-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) no Santuário e destruiu a Caaba, esses chifres foram destruídos. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Amir ash-Sha’bi (que Allah tenha misericórdia dele) testemunharam que eles próprios haviam visto esses chifres na Caaba (Ibn Kathir). Isso também prova que o acontecimento do sacrifício não ocorreu na Síria, mas em Meca, e que ocorreu com Ismail (que a paz esteja com ele). É por isso que, na Caaba construída por Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e Ismail (que a paz esteja com ele), sua memória foi preservada.

(6) Durante muitos séculos, conservou-se na tradição da Arábia que esse acontecimento do sacrifício ocorreu em Mina. E não se tratava apenas de uma tradição. Desde aquela época até o tempo do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), entre os ritos do hajj sempre esteve incluída a prática de as pessoas irem ao local de Mina e oferecerem o sacrifício no mesmo lugar onde Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) havia sacrificado. Depois, quando o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) foi enviado como o último profeta, ele também manteve essa prática. Até hoje, durante o hajj, o sacrifício é realizado em Mina no dia 10 de Zul-Hijjah. A continuidade dessa prática por quatro mil e quinhentos anos é uma prova irrefutável de que os herdeiros desse sacrifício de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) foram os Banu Ismail, e não os Banu Ishaq. Entre os descendentes de Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele) não havia nenhuma prática segundo a qual toda a nação oferecesse sacrifícios ao mesmo tempo e sob a mesma designação, considerando-os uma lembrança do sacrifício de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele).

Depois de ver tais argumentos e provas, causa admiração como a ideia de que Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele) teria sido sacrificado pôde se espalhar dentro da própria comunidade muçulmana. Se os judeus, ao privarem Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) de sua dignidade, tentaram atribuir essa dignidade ao seu antepassado Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele), isso é compreensível. Mas como pôde um grande grupo de muçulmanos aceitar essa falsidade deles? Allama Ibn Kathir deu uma resposta muito satisfatória a essa questão em seu tafsir. Ele diz: “Na realidade, tudo o que foi dito em favor de que Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele) teria sido sacrificado foi transmitido por Ka’b al-Ahbar. Quando esse homem se tornou muçulmano no tempo de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), costumava narrar-lhe assuntos mencionados nos antigos livros dos judeus e dos cristãos, e Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) os escutava. Por isso, outras pessoas também começaram a ouvir suas palavras e a transmitir tudo o que ele dizia, fossem coisas sensatas ou absurdas. No entanto, esta comunidade não precisava conhecer nada dessas questões.”

A narração de Muhammad ibn Ka’b al-Qurazi lança luz adicional sobre essa questão. Ele disse: certa vez, na minha presença, foi levantada diante de Hazrat Umar ibn Abd al-Aziz (que Allah tenha misericórdia dele) a questão de saber se aquele que havia sido sacrificado era Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele) ou Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele). Estava presente naquela assembleia um homem que antes era considerado um dos eruditos judeus, mas que depois abraçara sinceramente o Islã. Ele disse: “Ó Comandante dos Crentes, juro por Deus que aquele que foi sacrificado foi Ismail. Os próprios judeus sabiam disso. Porém, movidos pela inveja dos árabes, afirmam que Hazrat Ishaq (que a paz esteja com ele) foi sacrificado” (Ibn Jarir).

Ao reunir essas duas declarações, compreende-se que, na realidade, se tratava de propaganda judaica que havia se espalhado entre os muçulmanos. Os muçulmanos não cultivavam fanatismo nas questões intelectuais. Por isso, muitos deles aceitaram como realidade intelectual certos relatos dos judeus que estes apresentavam, sob o manto da tradição histórica e com referência aos antigos livros, sem perceber que neles havia, em lugar de conhecimento, parcialidade e hostilidade.

A construção da Caaba

Primeiramente, foi dito que, graças à bênção de Zamzam, várias famílias da tribo de Jurhum vieram estabelecer-se junto de Hazarate Ismael (a) e Hazarate Hajar (r.a.), e Meca começava a adquirir a forma de uma cidade. Também foi mencionado que, devido à sociabilidade de Hazarate Hajar, desenvolveram-se boas relações entre mãe e filho e os novos habitantes. Hazarate Ismael

(Mapa da Caaba Sagrada)

(a) foi criado e educado entre eles. Quando atingiu a juventude, os membros de Jurhum, encantados com seu caráter incomparável e suas virtudes, desejaram casar Hazarate Ismael (a) com uma moça de sua tribo. Segundo o relato de Hazarate Abdullah ibn Abbas (r.a.) em Al-Bukhari, Hazarate Ismael (a) casou-se primeiro com uma jovem. Contudo, essa nora não agradou a Hazarate Ibrahim (a). Por isso, Hazarate Ismael (a) divorciou-se dela e casou-se com uma jovem de quem Hazarate Ibrahim (a) gostava. Dela nasceram doze filhos. Segundo o relato de Al-Bukhari, Hazarate Hajar (r.a.) entrou no Paraíso logo após o primeiro casamento de Hazarate Ismael (a).

Depois, Hazarate Ibrahim (a) foi a Meca para realizar sua verdadeira tarefa, para cujo propósito, trinta anos antes, havia levado e reassentado essa parte de sua família numa região de vale sem água e sem vegetação. No relato de Ibn Abbas (r.a.) mencionado acima, ele prossegue dizendo que, certa vez, Hazarate Ismael (a) estava sentado sob uma árvore, junto de Zamzam, fabricando flechas. Nesse momento, Ibrahim (a) chegou inesperadamente. Assim que Hazarate Ismael (a) o viu, levantou-se, e pai e filho se encontraram como um pai se encontra com seu filho e um filho com seu pai. Então Hazarate Ibrahim (a) disse: “Ismael! Deus, o Altíssimo, ordenou-me realizar uma tarefa.” Hazarate Ismael (a) respondeu: “Cumpra certamente a tarefa que o seu Senhor lhe ordenou.” Ibrahim (a) perguntou: “Você me ajudará nessa tarefa?” Ele respondeu: “Sim, certamente o ajudarei.” Então Hazarate Ibrahim (a) apontou para uma parte do vale que era um pouco mais elevada que o terreno ao redor e disse: “Deus ordenou-me construir aqui uma Casa.” Assim, pai e filho construíram juntos os alicerces da Casa de Deus. Hazarate Ismael (a) trazia as pedras, enquanto Ibrahim (a) assentava as paredes. Quando as paredes ficaram suficientemente altas, Hazarate Ibrahim (a) trouxe a pedra que se tornou famosa como Maqam Ibrahim. Hazarate Ibrahim (a) subiu nela, continuou assentando as pedras e elevou ainda mais as paredes.

A importância da Caaba para os árabes e para o mundo inteiro

Essa Casa não era apenas um lugar de adoração, como são as mesquitas. Pelo contrário, desde o primeiro dia foi considerada o centro da divulgação e expansão do movimento universal da religião do Islã. O objetivo era que aqueles que acreditam num único Deus saíssem de todas as regiões, viessem reunir-se aqui, adorassem a Deus juntos e levassem novamente consigo a mensagem do Islã. Como esse centro foi construído? Com que sentimentos e súplicas os dois pais e filhos ergueram as paredes desta Casa, e como iniciaram o Hajj? O relato detalhado disso foi apresentado assim no Alcorão Sagrado.

(Árabe***************)

—Na verdade, a primeira Casa estabelecida para a humanidade é aquela que foi construída em Meca. Esta é uma Casa abençoada e um centro de orientação para todos os habitantes do mundo. Nela há sinais evidentes de Allah e a Estação de Abraão. Quem quer que nela entre estará seguro (Al ‘Imran: 96).

(Árabe***************)

—Será que não veem como estabelecemos um santuário inviolável e seguro, enquanto as pessoas são arrebatadas à força ao seu redor? (Al ‘Ankabut: 67)

Isto é, durante dois mil anos, enquanto pilhagens, assassinatos, destruição e guerras se alastravam violentamente por todos os lados, a segurança sempre prevalecia neste santuário inviolável. Até mesmo um beduíno incivilizado, ainda que visse dentro de seus limites o assassino de seu pai, não ousava tocar nele.

(Árabe***************)

—E recorda quando fizemos desta Casa um centro para as pessoas, um lugar de retorno e de segurança, e ordenamos: “Purifica a Minha Casa para os que a circundam em torno dela e para os que se inclinam e se prostram.” E quando Abraão suplicou: “Senhor meu! Faz deste lugar uma cidade segura e concede provisão de frutos aos seus habitantes, àqueles dentre eles que creem em Allah e no Último Dia.” E quando Abraão e Ismael lançavam os alicerces desta Casa, suplicavam: “Senhor nosso! Aceita de nós este esforço. Tu és Oniouvinte, Sapientíssimo. Senhor nosso! Faz de nós dois submissos a Ti e faz surgir, da nossa descendência, uma comunidade submissa a Ti. Mostra-nos os ritos da nossa adoração e volta-Te para nós com misericórdia. Tu és o Perdoador, o Misericordioso. Senhor nosso! Envia entre essas pessoas um Mensageiro, escolhido dentre elas, que lhes recite os Teus versículos, lhes ensine o Livro e a sabedoria e os purifique. Certamente, Tu és Poderoso, Sapientíssimo.” (Al-Baqara: 125–129).(Árabe***************)

E quando Abraão suplicou: “Senhor meu! Faz desta cidade uma cidade segura e protege a mim e aos meus filhos da adoração de ídolos. Senhor meu! Esses ídolos desviaram muitas pessoas. Portanto, quem me seguir será dos meus; e quanto àquele que se afastar do meu caminho, Tu és Perdoador, Misericordioso. Senhor meu! Estabeleci parte da minha descendência junto à Tua Casa Sagrada, neste vale sem água nem vegetação, para que, Senhor meu, eles estabeleçam a oração. Portanto, faz com que os corações das pessoas se inclinem para eles e concede-lhes provisão de frutos, para que sejam agradecidos.” (Ibrahim: 35)

(Árabe***************)

E quando determinamos para Abraão o local desta Casa, dizendo: “Não associes ninguém a Mim e mantém Minha Casa pura para os que a circundam, os que se inclinam e os que se prostram; e proclama entre as pessoas o anúncio geral do Hajj, para que elas venham até ti, a pé ou montadas em camelas magras, vindas de lugares distantes, a fim de presenciarem os benefícios religiosos e mundanos que lhes estão destinados. Depois, nos dias determinados, pronunciem o nome de Allah sobre os animais que Ele lhes concedeu — isto é, ofereçam-nos em sacrifício. Comei deles e alimentai também os pobres e necessitados” (Hajj: 26–28).

As bênçãos da Caaba na época da ignorância

Na Arábia, a importância da Caaba não se limitava a ser apenas um lugar de adoração. Pelo contrário, devido à sua posição central e à sua santidade, ela se tornou o esteio da vida econômica e cultural de todo o país. Pessoas vinham em grupos de todas as partes da região para a Caaba, com o propósito de realizar o Hajj e a Umrah, e, por meio dessas concentrações, estabelecia-se um vínculo de unidade entre os árabes, antes profundamente fragmentados. Pessoas de diferentes regiões e tribos estabeleciam relações culturais mútuas. Os concursos de poesia contribuíam para o desenvolvimento de sua língua e literatura. As transações comerciais atendiam às necessidades econômicas de todo o país. Graças aos meses sagrados [Os meses sagrados são: Rajab, para a Umrah, e Dhul-Qa‘dah, Dhul-Hijjah e Muharram, para o Hajj. Nesses meses, as guerras eram suspensas. Ninguém incomodava os viajantes que se deslocavam com o propósito de realizar a Umrah e o Hajj — o autor.], os árabes desfrutavam de paz e segurança durante um terço do ano. Esse era o período em que suas diversas caravanas podiam viajar facilmente de uma extremidade do país à outra. Quando levavam consigo animais destinados ao sacrifício, com faixas amarradas ao pescoço, tornava-se mais fácil viajar de um lugar para outro. Isso porque, ao verem os animais que portavam tais faixas como sinal de voto, os árabes inclinavam a cabeça em reverência. Nenhuma tribo de saqueadores ousava interferir com eles.

A missão profética de Ismael e sua influência sobre os árabes

Quando Hazrat Abraão e Hazrat Ismael construíram a Caaba, declararam a Casa um centro e um refúgio e convocaram as pessoas a ir todos os anos à Caaba para o Hajj; é muito provável que tenha sido nessa mesma época que Hazrat Ismael foi honrado com o grau de profeta, para que pudesse cumprir a responsabilidade de difundir a religião do Islam na Arábia. Sobre ele, o Alcorão diz:(Árabe***************)

— E menciona Ismael neste Livro. Ele era verdadeiro em sua promessa e foi mensageiro e profeta. Ordenava a seu povo a oração e o zakat, e era agradável a seu Senhor (Maryam: 54–55).

Embora a história não ofereça nenhum relato detalhado sobre a vida de Hazrat Ismael nem sobre sua missão profética, a prova de que sua missão foi bem-sucedida está no fato de que a Caaba estabeleceu uma posição central em toda a Arábia. Pessoas vinham em grupos, com entusiasmo e fervor, das regiões mais remotas da Arábia para realizar o Hajj e a Umrah. Os ritos do Hajj eram os mesmos que haviam sido determinados originalmente. A prática de realizar o sa‘i entre Safa e Marwa e de oferecer sacrifícios em Mina nos dias de Dhul-Hijjah também era difundida entre os árabes; sem dúvida, ela era uma lembrança do sa‘i de Hazrat Hajar e do sacrifício de Hazrat Abraão. A proibição de quatro meses para o Hajj e a Umrah também era universalmente reconhecida em toda a Arábia. Muitos outros sinais da religião de Abraão eram igualmente praticados entre os árabes, como a circuncisão, o banho de purificação após a emissão seminal, o abate de animais, o sacrifício de camelos, o sepultamento dos mortos, o casamento e o divórcio, o luto das viúvas, considerar ilícito casar-se com a mãe, a irmã ou a filha, a retaliação de sangue por sangue e outras práticas. Além disso, algumas pessoas instruídas realizavam a ablução. Algumas rezavam, como Quss bin Sa‘idat al-Iyadi. Hazrat Abu Dharr também começou a rezar três anos antes de aceitar o Islam, embora não se saiba que tipo de oração era aquela. Também era difundido entre os árabes o costume de jejuar. Eles praticavam ainda o i‘tikaf. Consta em um hadith que Hazrat Umar havia feito, durante sua vida na época da ignorância, o voto de praticar i‘tikaf por uma noite. Havia muitas ações que os árabes consideravam virtuosas e elogiavam, como alimentar hóspedes e viajantes, ajudar os necessitados, cumprir os direitos dos parentes e outras semelhantes. Se a missão profética de Hazrat Ismael não tivesse alcançado um êxito extraordinário, não seria possível que, apesar de permanecerem imersos nas trevas da ignorância por dois mil e quinhentos anos, os sinais da religião que ele pregara tivessem permanecido por toda a Arábia até a chegada do Profeta Sagrado. O mais importante é que foi o efeito da pregação dele e das pessoas influenciadas por ele que, entre os árabes, até a época da chegada do Profeta, ainda se encontravam sobre Allah as mesmas concepções mencionadas no Alcorão Sagrado (ver, por exemplo, as suratas Az-Zukhruf: 87; Al-‘Ankabut: 61–63; Al-Mu’minun: 61–63; Yunus: 22–23 e 31; e Bani Isra’il: 67).

Também foi uma influência da missão de Ismael o fato de que, até a chegada do Profeta Muhammad, havia na Arábia um grupo de pessoas conhecidas na história como hanifes. Podiam ser encontradas em diferentes lugares, entre as diversas tribos da Arábia. Rejeitavam o shirk e reconheciam o tawhid; desejavam seguir a religião de Abraão. Incluímos uma lista deles no quarto volume de Tafhim al-Qur’an. A seguir, descrevemos a situação de algumas dessas pessoas:

An-Nābigha al-Ja‘dī — era membro do clã dos Banū ‘Āmir ibn Ṣa‘ṣa‘a. Na época da Jāhiliyya, falava sobre a religião de Ibrāhīm e sobre o ḥanīfismo, isto é, voltar-se de todas as direções e obedecer unicamente a Allah. Jejuava e fazia istighfār. Em seus discursos da época da Jāhiliyya, mencionava o tawḥīd, a vida após a morte, o castigo e a recompensa, o Paraíso, o Inferno e outras coisas semelhantes. Posteriormente, aceitou o Islã (Al-Isti‘āb, vol. 1, p. 31).

Sirma ibn Anas — era descendente dos Banū ‘Adī ibn Najjār. Na época da Jāhiliyya, levava uma vida semelhante à de um asceta. Abandonou a idolatria. Fazia o banho de janāba e mantinha-se afastado das mulheres menstruadas. Detestava o vinho e outras substâncias intoxicantes. Inicialmente, desejou tornar-se cristão, mas desistiu. Construiu uma casa semelhante a uma mesquita. Não permitia que entrasse nela ninguém que tivesse de realizar o banho obrigatório, nem uma mulher menstruada. Dizia:

“Adoro o Senhor de Ibrāhīm e sigo a religião de Ibrāhīm.”

A seguir, citam-se dois versos de sua poesia:(Árabe***************)

— O louvor pertence a Allah, meu Senhor, que não tem associado algum. Quem não aceita isso comete injustiça contra si mesmo.

Quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina, aquele homem já se encontrava extremamente idoso e debilitado. Ele compareceu à presença do Profeta e aceitou o Islã (Al-Isti‘āb, vol. 1, p. 323; Al-Iṣāba, vol. 2, p. 179; Ibn Hishām, vol. 2, p. 156).

‘Amr ibn ‘Abasa — era membro dos Banū Sulaym. Ibn Sa‘d afirma que ele abandonou a idolatria antes de aceitar o Islã. Aḥmad ibn Ḥanbal cita sua declaração: “Eu considerava que, na época da Jāhiliyya, as pessoas estavam mergulhadas no desvio, e minha opinião sobre os ídolos era que eles não eram nada.”

Sua outra declaração é a seguinte:

“E havia sido firmemente estabelecido em minha mente que a idolatria era um erro. Ao ouvir isso, alguém me disse: ‘Há em Meca um homem que afirma coisas desse tipo.’ Então fui a Meca. Encontrei-me com o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), conheci seus ensinamentos e abracei a fé” — (Al-Istيعab, vol. 2, p. 431).

O acontecimento mais instrutivo é o de Amr ibn Nufayl, que era primo de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e pai de Hazrat Said ibn Zayd [cunhado de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele)]. Ele era extremamente firme na crença monoteísta. Considerava ilícitos a idolatria, a carne de animais mortos, o sangue e os sacrifícios oferecidos em nome dos ídolos. Considerava o assassinato de meninas algo muito grave e tentava salvá-las. Também refutava as religiões dos judeus e dos nazarenos. Ele dizia: ‘Qual é a diferença entre o shirk de nosso povo e o shirk deles?’

Hazrat Asma bint Abi Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: ‘Vi Zayd ibn Amr. Ele estava sentado, apoiado na parede da Caaba. Ele dizia: “Ó povo de Quraysh! Juro por Deus que não comerei a carne de nenhum animal abatido em nome de alguém que não seja Allah. Juro por Deus que, na religião de Ibrahim, não há ninguém além de mim.”’

Ele também dizia: ‘Ó Deus! Se eu soubesse qual modo de adoração Te é mais agradável, adoraria-Te desse modo.’ Ele prostrava-se apoiando a cabeça nas palmas das mãos. Viajou até a Síria em busca da religião de Ibrahim, mas não a encontrou nem na religião dos judeus nem na dos nazarenos. Então levantou as mãos e suplicou:

— Ó Deus! Tomo-Te como testemunha de que sigo a religião de Ibrahim.

Por fim, cinco anos antes do advento do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), alguém o matou na cidade de Lakhm. Seu tio e seu meio-irmão paterno, Khattab, fizeram-no sofrer muito por ter abandonado a religião ancestral. Por fim, ele foi obrigado a deixar Meca. Os Quraysh contrataram bandidos para impedi-lo de entrar na cidade de Meca.

Na era islâmica, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Said ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntaram respeitosamente ao Nobre Profeta (que a paz esteja com ele): ‘O senhor conhece a concepção religiosa de Zayd? Podemos suplicar por seu perdão?’

Em resposta, o Profeta disse: ‘Sim; ele se levantará no Dia da Ressurreição sozinho como uma ummah’ — (Al-Istيعab, vol. 2, p. 539; Al-Isaba, vol. 1, p. 552; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 239–240).

Contudo, pode-se saber que tipo de politeísmo envolvia os árabes em geral pelo talbiya que recitavam durante o hajj. Esse talbiya era o seguinte:

(Árabe***************)

— Eis-me aqui, ó meu Deus, eis-me aqui. Eis-me aqui; não tens parceiro, exceto o parceiro que pertence a Ti. Tu és o Senhor dele e também daquilo que ele possui.

Isso significa que, embora reconhecessem seus numerosos deuses imaginários como divindades, reconheciam Allah como o Senhor Supremo e acreditavam que todas essas divindades eram servas e escravas desse Ser Majestoso e Excelso. Como explicar isso, senão pela influência da mensagem ismaelita, que fez com que, mesmo imersos na mais vil ignorância e no politeísmo, conservassem em seus corações essa crença a respeito de Allah?

A administração da Caaba após Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele)

Enquanto Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) esteve vivo, a responsabilidade pela administração da Caaba permaneceu em suas mãos. Após sua morte, seu filho mais velho, Nabete, tornou-se seu mutawalli. Porém, depois da morte de Nabete, os membros da tribo de Jurhum, que haviam se estabelecido em Meca no tempo de Hazrat Hajera (que Allah esteja satisfeito com ela), assumiram à força a administração da Caaba. Isso ocorreu porque os descendentes de Ismail eram poucos, enquanto o número dos jurhumitas de Meca havia aumentado muito. Juntamente com eles, um ramo dos amalequitas, chamado Catira ou Banu Caitur, também participou durante algum tempo da administração de Meca. Os jurhumitas cobravam o dízimo daqueles que vinham das regiões exteriores da cidade, enquanto os amalequitas obrigavam ao pagamento do dízimo aqueles que vinham das regiões baixas. Por fim, depois de algum tempo, expulsaram-nos da administração da Caaba. Em seguida, dominaram a Caaba e Meca durante vários séculos (Maruj al-Dhahab, vol. 2, p. 50; Ibn Hisham, vol. 1, p. 118). Gradualmente, corromperam-se a tal ponto que começaram a destruir a dignidade de Meca. Consumiam injustamente as riquezas oferecidas como presentes à Caaba. Perturbavam os visitantes que vinham para a peregrinação. Chegavam ao ponto de, quando algum deles não encontrava lugar para cometer adultério, ir à Caaba e praticar ali esse pecado. Um acontecimento daquela época foi o seguinte: um homem chamado Asaf cometeu um ato ilícito na Caaba com uma mulher chamada Na’ila, e Allah Todo-Poderoso fez com que ambos ficassem deformados. Depois de algum tempo, fizeram estátuas deles, colocaram uma em Safa e a outra em Marwa, e começaram a adorá-las. Os administradores da Caaba haviam descido a esse extremo de vileza.

Por fim, quando os excessos dos jurhumitas chegaram ao auge, Banu Bakr ibn Abd Manat, da tribo de Kinana, e Ghubshan, da tribo de Khuzā’a, uniram-se, lutaram contra eles e os expulsaram de Meca. Ao partir, lançaram as riquezas da Caaba no poço de Zamzam, selaram-no e apagaram seus vestígios, seguindo depois em direção à sua terra natal, o Iêmen. Em seguida, a responsabilidade pela administração da Caaba foi confiada ao ramo de Banu Khuzā’a conhecido como Ghubshan. Eles permaneceram como administradores da Caaba durante três ou quatro séculos, e foi em sua época que a Caaba se transformou num templo completo de ídolos. Isso começou da seguinte maneira: o chefe daquela tribo, Amr ibn Luhayy, tornou-se o rei sem coroa de Khuzā’a por causa de sua riqueza e generosidade; e qualquer novo rito religioso (bid’a) que ele inventava era seguido por todos sem hesitação. Certa vez, foi à região da Síria e viu os amalequitas adorando diversos ídolos. Isso lhe agradou muito, e de lá trouxe um ídolo chamado Hubal, que instalou na Caaba. Gradualmente, o número de novos ídolos continuou a aumentar. Entre eles, foram incluídas também estátuas de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele), Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) e Hazrat Maryam (que a paz esteja com ela). É provável que a estátua de Hazrat Maryam tenha sido colocada ali para que os cristãos da Arábia se voltassem para a Caaba. Em uma narração de Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), registrada no Kitab al-Anbiya, de Bukhari, consta que havia na Casa da Caaba estátuas de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e de Hazrat Maryam (que a paz esteja com ela). Uma segunda narração afirma que as estátuas de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) estavam representadas segurando nas mãos flechas usadas para jogos de azar ou dados. Ibn Ishaq afirma que as inovações de bahira, sa’iba, wasila e ham foram inventadas por Amr ibn Luhayy, e sua refutação encontra-se no versículo 103 da surata Al-Ma’ida. Contudo, não é correto dizer que esse homem tenha sido o primeiro a introduzir a idolatria entre os seguidores da religião de Ibrahim. Ibn Ishaq afirma que todos os que deixavam Meca para se estabelecer em outras regiões da Arábia levavam consigo uma pedra de Meca e, onde quer que se estabelecessem, colocavam-na ali e começavam a circumambular ao seu redor (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 79–80).

O direito de administrar a Caaba, isto é, a autoridade sobre sua gestão, deixou de pertencer aos khuzā’a quando Qusayy ibn Kilab, da tribo dos coraixitas, recebeu essa responsabilidade de seu sogro. Isso será explicado mais adiante.

Os descendentes de Ismael (a.s.)

Segundo os genealogistas árabes e o relato consensual da Bíblia, o Profeta Ismael (a.s.) teve doze filhos. Porém, depois que os Jurhumitas estabeleceram seu domínio sobre Meca, apenas um número muito pequeno dos descendentes de Ismael permaneceu na cidade, enquanto todos os demais se espalharam por diferentes regiões da Arábia. A história nada informa sobre para onde foram os descendentes de seus doze filhos, nem quais pessoas nasceram de suas linhagens. O que está preservado e é considerado confiável na ciência da genealogia árabe, sem divergência a esse respeito, é que Adnã era um dos descendentes de Nabete, o filho mais velho do Profeta Ismael (a.s.). Há divergência quanto ao número de gerações transcorridas entre Adnã e o Profeta Ismael (a.s.), e a genealogia ascendente de Adnã não foi preservada. Urwah ibn al-Zubayr (r.a.) disse: “Não encontramos ninguém que conhecesse a genealogia entre Adnã e o Profeta Ismael (a.s.).”

Ibn Masud (r.a.) e Ibn Abbas (r.a.) disseram ambos que mentem aqueles que recitam uma genealogia acima de Adnã. O califa Umar (r.a.) disse: “Aqueles que recitam uma genealogia acima de Adnã mentem; a genealogia deve ser recitada somente até Adnã.” Nas Tabaqat de Ibn Sad e no Ansab al-Ashraf de Baladhuri, é registrada a seguinte declaração do próprio nobre Profeta (s.a.w.): depois de recitar sua genealogia até Maad ibn Adnã ibn Udad, ele disse: “Quem recitar a genealogia acima disso é um mentiroso.” Contudo, o fato de a genealogia ascendente não ter sido preservada não significa que haja qualquer dúvida de que Adnã pertencia aos descendentes de Ismael. Todos os árabes concordavam que Adnã fazia parte dos filhos de Ismael. A unanimidade dos árabes a esse respeito é uma prova irrefutável de sua civilização, pois eles atribuíam grande importância à genealogia. Sem uma tradição transmitida continuamente através das gerações, não lhes seria possível chegar a um consenso sobre a linhagem de alguém.

A genealogia do Nobre Mensageiro e sua relação com as tribos árabes

As genealogias dos grupos tribais árabes que surgiram entre os descendentes de Adnã estão preservadas. Não há divergência entre os genealogistas a esse respeito. Apresentamos aqui a genealogia do Profeta Muhammad (s.a.w.). Em seguida, diremos em quais antepassados e em quais gerações as diferentes tribos árabes se unem à linhagem do Profeta. A genealogia do Profeta (s.a.w.) é a seguinte:

Muhammad () ibn Abdullah ibn Abd al-Muttalib ibn Hashim ibn Abd Manaf ibn Qusay ibn Kilab ibn Murrah ibn Kab ibn Luayy ibn Ghalib ibn Fihr ibn Malik ibn al-Nadr ibn Kinanah ibn Khuzaymah ibn Mudrikah ibn al-Yas (alguns autores pronunciaram este nome como Ilyas, mas Suhayli afirmou em sua obra que a pronúncia correta é al-Yas. Baladhuri também registrou essa mesma pronúncia em seu Ansab al-Ashraf — Autor.) ibn Mudar ibn Nizar ibn Maad ibn Adnã.

As tribos abaixo se unem à linhagem do Profeta (s.a.w.) ao remontarem, nessa cadeia genealógica, aos antepassados de cada um desses homens:

A linhagem ascendente dos descendentes de Akk, filho de Adnã, chega até Adnã e se une à dos antepassados do Profeta (s.a.w.). Os descendentes de Akk foram estabelecer-se no Iêmen, onde se estabeleceram relações matrimoniais com os Achaaritas. Abu Musa al-Ashari (r.a.) pertencia a essa tribo.

Banu Quda’a e as tribos — entre as quais se incluem Banu Bakr ibn Wa’il, Taghlib, Nadila e outras — uniram-se a Banu Abd al-Qays, Anaza e Namir ibn Qays, de Nizar.

Todas as tribos de Qays — Sulaym, Mazin, Fazara, Abs, Ashja, Murra, Dhabyan, Ghatafan, Uqayl, Qushayr, Jusham, Thaqif, Bahila e outras — descendem de Banu Sa’d ibn Bakr.

Banu Tamim, Banu Dabrah, Muzayna, Khuzaya, Aslam, Banu Taym e outras uniram-se a al-Iyas.

Buzayl, a tribo na qual nasceu Hazrat Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele), uniu-se a Mudrika.

Banu Asad, Qara e todos os Banu Alhun ibn Khuzayma uniram-se a Khuzayma.

Banu Abd Manat — entre os quais se incluem Banu Bakr e Banu Dhamira —, Banu Malik, Banu Kalqan, Atba Milqan, Banu Hudhal, Banu Firas, Banu Fuqaym e outras tribos uniram-se a Kinana. A tribo de Hazrat Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele) originou-se de Banu Malikan.

Quraysh

Um grupo de genealogistas afirma que Quraysh era o título de An-Nadr ibn Kinanah. Contudo, os eruditos investigadores dizem que Quraysh era, na realidade, o título de Fihr, neto de An-Nadr e filho de Malik ibn An-Nadr.

Aqueles que são seus descendentes estão incluídos entre os coraixitas, enquanto aqueles que não são seus descendentes não estão incluídos entre os coraixitas. [Há divergência quanto ao significado da palavra “Coraix”. Um de seus significados é reunir-se depois de estar disperso. Nesse sentido, o título “Coraix” poderia pertencer ao próprio Qusay ibn Kilab, pois foi em sua época que todas as famílias dos coraixitas se reuniram em Meca. O segundo significado é ganhar a vida e dedicar-se ao comércio, que eram as ocupações dos coraixitas. O terceiro significado é investigar; nesse sentido, “Coraix” seria o título de Nadr ibn Kinana, pois a tradição árabe relata que ele procurava os necessitados e os ajudava. Outro significado é a vastidão do mar, que devora tudo. Há também uma afirmação de que Coraix ibn Badr era um homem do clã dos Banu Nadr ibn Kinana que organizava companheiros de viagem () e o fornecimento de mercadorias; por isso, ao ver a caravana desse clã, os árabes diziam: “Chegou a caravana de Coraix”. Existem diversas opiniões semelhantes. Contudo, a informação baseada em pesquisa é que Coraix era o título de Fihr ibn Malik — o Autor.]

A reunião dos coraixitas em Meca e a obtenção da responsabilidade pela administração da Caaba

Como já dissemos, depois que os Jurhumitas estabeleceram seu domínio em Meca, os descendentes de Ismael foram-se dispersando e espalhando por diferentes regiões da Arábia. Mesmo quando a administração da Caaba estava sob a responsabilidade de Shaka e Ghubshan, dos Banu Khuza’a, essa situação persistiu. Assim como os demais ramos dos Banu Ismael, os coraixitas também se espalharam pelas diversas aldeias dos Banu Kinana. Apenas uma pequena parte deles permanecia estabelecida em Meca. Por volta do ano 400 d.C. [Segundo o relato de Ibn Kathir, houve um intervalo de 560 anos entre a morte de Ka’b ibn Lu’ayy, bisavô de Qusay, e a missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele). Nesse sentido, é possível que Ghalib ibn Fihr tenha sido contemporâneo de Jesus (que a paz esteja com ele). Ibn Kathir, citando al-Suhayli e outros imames, também relata que, na época de Ma’ad ibn Adnan, Nabucodonosor destruiu Jerusalém e levou os judeus cativos. Esse acontecimento ocorreu em 587 a.C.; al-Baladhuri afirmou que Ma’ad ibn Adnan foi contemporâneo de Nabucodonosor — o Autor.] Essa situação chegou ao fim pelas mãos de Qusay ibn Kilab; Meca passou então para o domínio dos coraixitas, e a administração da Casa da Caaba também lhes foi confiada.

Tudo começou da seguinte maneira: após a morte de Kilab ibn Murra, pai de Qusay, sua mãe, Fatima bint Sa’d, dos Azd de Shanu’a, casou-se com Rabi’a ibn Haram, um homem dos Banu Khuza’a, e foi para a Síria. Desse segundo marido nasceu, em seu ventre, um filho chamado Zira’a ibn Rabi’a. Quando Qusay chegou à juventude, certa vez teve uma briga com um homem dos Banu Khuza’a. Este o repreendeu, dizendo: “Foste criado entre nós e agora ruges contra nós? Por que não vais para junto do teu próprio povo?”

Então Qusay perguntou à sua mãe: “Qual é a minha identidade?” Ela respondeu: “Tu és filho de Kilab e descendente da tribo dos coraixitas. O teu povo vive na cidade de Meca e em seus arredores, junto à Casa Sagrada.” Qusay decidiu então: “Irei para junto do meu povo.”

Quando chegou a época do hajj, ele chegou a Meca com os peregrinos dos Banu Khuza’a. Ali, seu irmão uterino Zuhra, que era jovem quando Kilab morreu, já estava estabelecido. Qusay permaneceu com ele. Naquela época, Hulayl ibn Habshiyya al-Khuza’i era o mutawalli da Caaba e governante de Meca. Qusay pediu Huba, filha de Hulayl, em casamento. Hulayl, atraído pela nobreza da linhagem de Qusay e por sua personalidade grandiosa, consentiu de bom grado. Depois, há diferentes relatos sobre como a administração da Caaba e a liderança de Meca chegaram às mãos de Qusay. Segundo um relato, o próprio Hulayl deixou instruções testamentárias de que, após sua morte, Qusay seria digno de tornar-se o mutawalli da Casa da Caaba. Outro relato diz que, após a morte de Hulayl, Qusay reivindicou ser mais digno do cargo do que os outros. Como os Banu Khuza’a e os Banu Bakr não concordaram, ele pediu ajuda a seu irmão por parte de pai, Rihah, e aos Banu Kinana e Banu Khazaym. Depois, reuniu também os coraixitas que viviam nos arredores. Em seguida, expulsou à força os Banu Khuza’a e os Banu Bakr de Meca. Mais tarde, quando ambos os lados aceitaram como árbitro Ya’mur ibn Awf, do clã dos Banu ‘Abd Manaf ibn Kinana, ele decidiu que Qusay tinha mais direito que os Banu Khuza’a de ser o mutawalli da Casa da Caaba, pois sua ascendência estava comprovadamente ligada aos Banu Ismael.

Depois de livrar-se do conflito com os Banu Khuza’a, Qusay voltou sua atenção para os Banu al-Ghawth ibn Mur. Eles eram chamados de Sufa. Durante o período dos Jurhumitas e dos Banu Khuza’a, haviam alcançado a posição de que, durante o hajj, ninguém podia retornar de Arafat sem sua permissão. Era somente com sua autorização que se podia ir para Mina. Ninguém podia partir de Mina para casa enquanto os Sufa não tivessem lançado as pedras nas jamarat. Somente depois deles os demais peregrinos podiam realizar o rami, lançando as pedras, e partir. Pela prática prolongada, isso havia-se tornado uma espécie de religião, cuja observância era considerada indispensável. Durante o hajj, Qusay lutou contra os Sufa e os destituiu de sua posição — Ibn Hisham.

Assim, quando Qusay obteve a administração da Caaba e a liderança de Meca, reuniu em Meca, vindos de diferentes partes da Arábia, todos os descendentes de Fihr, conhecidos como coraixitas, e distribuiu Meca entre eles, estabelecendo cada família em uma parte da cidade. [Qusay distribuiu a cidade de Meca entre as famílias coraixitas da seguinte maneira: estabeleceu os diversos ramos dos Banu Ka’b ibn Lu’ayy nas áreas próximas ao haram, nos vales montanhosos e nas terras elevadas de ambos os lados. Entre eles estavam os Banu ‘Adi, Banu Jumah, Banu Sahm, Banu Taym, Banu Makhzum, Banu Zuhra, Banu ‘Abd ‘Uzza, Banu ‘Abd al-Dar, Banu al-Muttalib, Banu Hashim, Banu ‘Abd Shams e Banu Nawfal. Eles eram chamados de Coraix al-Bitah, isto é, os que viviam na parte interna de Meca e habitavam naturalmente o haram. As famílias descendentes de Fihr, antepassado superior dos coraixitas, como os Banu Muharib, Banu al-Harith, Banu Taym Uladurham, Banu ‘Amir ibn Lu’ayy e outros, eram os “Coraix al-Zawahir”, e receberam a parte externa de Meca — o Autor.] Com base nisso, os coraixitas os chamaram de “Mujammi”.

Khuzafa bin Ghanem al-Adawi diz:

(Árabe*******************)

—Vosso pai era chamado Mujammi. Por meio dele, Allah reuniu as tribos de Fihr.

A cidade-Estado de Meca e a administração do Hajj

Por causa desse grande serviço prestado por Qusay, todas as tribos dos coraixitas aceitaram-no como seu líder. Quando uma menina de qualquer família coraixita atingia a puberdade, era em casa de Qusay que ela vestia o qamis; quando ocorria um casamento, este era realizado na casa de Qusay. Quando acontecia algum assunto importante ou havia iminência de guerra com alguma tribo, os líderes de todas as famílias reuniam-se em sua casa para deliberar. Por isso, essa casa era chamada de “Dar an-Nadwa”. Ela tinha uma porta voltada para o Haram. Em tempos de guerra, um dos filhos de Qusay era nomeado porta-estandarte. O nome desse cargo era “Al-Liwa”. Toda a administração do Hajj ficava nas mãos dos coraixitas. Uma de suas funções era “as-Siqayah”, isto é, dar água aos peregrinos. A segunda era “ar-Rifadah”, isto é, providenciar alimento para os peregrinos. Para isso, todas as famílias dos coraixitas reuniam contribuições e entregavam-nas a Qusay. Ele providenciava alimento, até que os peregrinos retornassem do Hajj, para aqueles que não podiam cuidar de si mesmos.

A terceira era “Al-Hijabah”, isto é, a guarda das chaves da Caaba. Sua função era abrir e fechar a Caaba para os visitantes.

Durante sua vida, Qusay foi o senhor absoluto do Estado de Meca. Quando se aproximou o fim da vida de Qusay, ele viu que seu filho Abd Manaf havia conquistado fama na Arábia e que sua posição também estava sendo reconhecida. Então, confiou ao seu segundo filho, Abdud-Dar, todas as funções do Estado de Meca (Nadwa, Hijabah, Rifadah e Liwa). Após a morte de Qusay, sua decisão foi respeitada durante algum tempo. Depois, em certo momento, começou uma disputa pela distribuição desses cargos. Nessa disputa, algumas famílias dos coraixitas aliaram-se a Abdud-Dar, e outras, a Abd Manaf. Entre as famílias coraixitas que se aliaram a Abd Manaf estavam os Banu Asad bin Abd al-Uzza, os Banu Zuhra bin Kilab, os Banu Taym bin Murrah e os Banu Harith bin Fihr. Seu líder era Abd Shams. As que se aliaram a Abdud-Dar eram os Banu Makhzum, os Banu Sahm, os Banu Jumah e os Banu Adi. Seu líder era Amir bin Hashim. Os Banu Amir bin Lu’ayy e os Banu Muharib bin Fihr permaneceram neutros nessa disputa.

Essa disputa estava prestes a prolongar-se, mas chegou-se a um acordo antes que houvesse uma guerra civil. Como resultado, a Hijabah, o Liwa e a Nadwa permaneceram sob a autoridade de Abdud-Dar, enquanto a Siqayah e a Rifadah foram dadas a Abd Manaf. Os filhos de Abd Manaf consultaram-se mutuamente e concederam esses dois cargos a Hashim. [Essas funções permaneceram exatamente como haviam sido confiadas às duas famílias até a conquista de Meca pelo Mensageiro de Allah (S). Após a conquista de Meca, o Profeta (S) aboliu todas as demais, exceto a Hijabah e a Siqayah. A Hijabah continua até hoje sendo administrada por Shaybah bin Uthman, membro de um ramo de Abdud-Dar. Quanto à responsabilidade pela Siqayah, ela acabou passando para as mãos de Abbas bin Abd al-Muttalib e permaneceu durante algum tempo nas mãos dos Banu Abbas. Depois, o primeiro califa renunciou pessoalmente a ela — o autor.]

Hashim

O nome verdadeiro de Hashim era Amr. Ele recebeu o título de “Hashim” quando certa vez houve uma fome em Meca. Naquela ocasião, Hashim trouxe alimentos da Síria e preparou pão. Abateu muitos camelos e preparou um caldo com eles. Depois, partiu o pão em pedaços, misturou-o ao caldo e preparou uma espécie de malida, que ofereceu às pessoas. A palavra “hashm” significa quebrar e triturar. Por ter partido o pão em pedaços e preparado malida com ele no caldo, passou a ser chamado de Hashim.

Depois que as responsabilidades de rifada e siqaya foram confiadas a Hashim, ele costumava reunir o povo dos coraixitas quando chegava a época do Hajj e dizia: “Esses são os vizinhos de Deus e os membros de Sua Casa; neste período, vêm até vocês para visitá-la. Eles são os hóspedes de Deus. Os hóspedes de Deus são os que mais têm direito à hospitalidade.

Deus concedeu a vocês esta distinção e, por meio dela, honrou-os e elevou sua posição. Ele os protegeu de uma maneira que nenhum vizinho protege o seu vizinho. Portanto, honrem os hóspedes de Deus e os visitantes. Eles vêm de regiões distantes, cobertos de poeira, montados no dorso de camelas fracas e esqueléticas. Suas roupas estão sujas e suas provisões acabaram. Portanto, alimentem-nos e deem-lhes água para beber.”

Para isso, todas as famílias dos coraixitas contribuíam. O próprio Hashim gastava uma grande quantia de seu patrimônio. Depois, trazia-se água de todos os poços de Meca para encher os grandes recipientes de couro. Isso porque os jurhumitas haviam destruído o poço de Zamzam e apagado completamente seus vestígios. Preparavam-se juntos o pão e o caldo, bem como pão cozido com leite, para serem consumidos. Também se ofereciam farinha torrada, tâmaras e outras coisas. Os peregrinos eram recebidos de várias maneiras até partirem de Mina. Esse serviço público de Hashim fez com que ele se tornasse querido por todas as tribos, pois todos os anos, durante o Hajj, tinham a oportunidade de se beneficiar de seu generoso serviço ao povo.

O comércio dos coraixitas e seu desenvolvimento

O comércio dos coraixitas é mencionado na surata dos Coraixitas(Árabe************)

Isso foi apresentado como uma graça de Deus sob a forma das viagens de verão e de inverno. Essa ideia surgiu pela primeira vez na mente de Hashim. Ele planejou, juntamente com seus três irmãos, Abd Shams, Muttalib e Nawfal, que participariam do comércio internacional que se realizava entre as cidades orientais, a Síria e o Egito, através das rotas árabes. Ao mesmo tempo, deveriam comprar e trazer os artigos necessários aos árabes, para que as tribos ao longo do caminho pudessem comprá-los e para que os comerciantes de outros países passassem a ir ao mercado de Meca para adquirir mercadorias. Houve uma época em que o governo dominante do Irã havia estabelecido seu domínio sobre esse comércio internacional. Esse comércio realizava-se entre o Império Romano e as cidades do Oriente pelas rotas do norte e do Golfo Pérsico. Por isso, era muito intenso o comércio na grande rota comercial que se estendia do sul da Arábia, ao longo da costa do Mar Vermelho, até a Síria e o Egito. Em comparação com as outras caravanas comerciais árabes, os coraixitas tinham a vantagem de que, além de serem os guardiões da Casa de Deus, prestavam serviço aos peregrinos; por isso, todos lhes eram gratos. Eles não temiam que alguém assaltasse suas caravanas no caminho. As tribos situadas ao longo da rota tampouco lhes cobravam os pesados impostos de passagem exigidos das outras caravanas. Considerando todos esses fatores, Hashim elaborou um plano comercial e incluiu nele seus três irmãos. Hashim obteve facilidades comerciais do rei gassânida da Síria; Abd Shams, do rei da Abissínia; Muttalib, dos emires do Iêmen; e Nawfal, dos governos do Iraque e da Pérsia. Al-Tabari afirma que Hashim obteve facilidades comerciais e garantias de segurança durante as viagens do César de Roma e dos reis da Síria e de Gassã; Abd Shams, do rei da Abissínia, o Negus; Nawfal, do rei do Irã; e Muttalib, dos reis de Himyar. Ibn Saad afirma que o César de Roma tinha especial respeito por Hashim e que este avançava até Ancara com fins comerciais — autor. Assim, o comércio deles desenvolveu-se rapidamente.

Por isso, esses quatro irmãos ficaram famosos como comerciantes. Com base nas relações que estabeleceram com as tribos e os Estados vizinhos, também eram chamados de أصحاب الإيلاف, isto é, os criadores de relações amistosas. Contudo, como termo técnico, “ilaf” significa uma relação amistosa que proporciona segurança durante a viagem e também segurança para permanecer nos territórios das tribos aliadas. Tratava-se de um pacto diferente de uma aliança política (Allianci).

Por causa do comércio, os coraixitas tiveram a oportunidade de estabelecer relações com a Síria, o Egito, o Irã, o Iraque, o Iêmen e a Abissínia. E, por entrarem em contato com as civilizações e culturas de vários países, sua inteligência e visão de futuro se desenvolveram a tal ponto que nenhuma outra tribo da Arábia podia se igualar a eles. Também eram os mais destacados entre os árabes em riqueza e prosperidade. Assim, Meca tornou-se um importante centro comercial da Península Arábica. Isso lhes trouxe uma grande vantagem nas relações internacionais: trouxeram do Iraque aquele alfabeto que nenhuma outra tribo possuía. Por isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe**************)

— O líder dos coraixitas entre a humanidade (Musnad Ahmad, narrado por Amr ibn al-As).

Na obra de Bayhaqi, encontra-se a seguinte narração de Ali (que Deus esteja satisfeito com ele):

(Árabe**************)

No início, a liderança da Arábia estava nas mãos dos himiaritas; depois, Deus, o Altíssimo, retirou-a deles e a concedeu aos coraixitas.

Enquanto os coraixitas continuavam avançando pelo caminho do progresso, ocorreu o súbito ataque de Abraha. Se, naquela época, Abraha tivesse conseguido tomar essa cidade sagrada e destruir a Caaba, não somente o prestígio dos coraixitas, mas também o próprio prestígio da Caaba teria sido destruído na Arábia. A crença dos árabes da época da jahiliyyah de que esta Casa era verdadeiramente a Casa de Deus teria sido abalada. E o prestígio que os coraixitas desfrutavam em todo o país por serem os guardiões desta Casa teria desaparecido completamente. Depois que os abissínios avançassem até Meca, o Império Romano também avançaria e tomaria a rota comercial entre a Síria e Meca. Sua situação teria se tornado ainda pior do que aquela em que se encontravam antes de Qusayy ibn Kilab. Porém, quando Deus, o Altíssimo, manifestou milagrosamente Seu poder — fazendo com que bandos de aves destruíssem e aniquilassem, golpe após golpe com pedras, os sessenta mil soldados abissínios de Abraha, enquanto os homens daquele exército destruído iam caindo e morrendo ao longo de todo o caminho de Meca até o Iêmen —, a convicção de todos os árabes de que a Caaba era a Casa de Deus tornou-se muitas vezes mais firme e forte. Ao mesmo tempo, o prestígio dos coraixitas aumentou em todo o país. Então surgiu entre os árabes a firme convicção de que eles gozavam de uma graça especial de Deus. Assim, os coraixitas circulavam sem receio por toda a Arábia com suas caravanas comerciais. Ninguém ousava molestá-los. Além disso, se concedessem proteção até mesmo a alguém que não fosse coraixita, ninguém fazia objeção.

Abdul Muttalib ibn Hashim

Durante suas viagens comerciais à Síria, Hashim costumava permanecer por algum tempo em Medina. Ele já havia se casado com uma mulher da tribo medinense de Khazraj, com quem teve uma filha chamada Haiya e um filho chamado Sayfi. Em outra viagem, viu uma jovem chamada Salma bint Amr ibn Zaid, da família Banu Najjar, também da tribo de Khazraj. Ela estava sentada num lugar elevado do mercado, dando ordens sobre o que deveria ser comprado para ela e o que deveria ser vendido em seu nome. Atraído por sua beleza, dignidade, discernimento e inteligência, Hashim pediu-a em casamento. Ela não aceitava casar-se com ninguém sob outra condição senão a de que pudesse agir segundo a própria vontade e separar-se dele caso deixasse de gostar dele. Hashim aceitou sua condição. A mulher consentiu no casamento ao observar a nobreza de sua linhagem e sua personalidade. O casamento dos dois foi celebrado em Medina, e foi ali que, por volta de 495 d.C., nasceu Abdul Muttalib, filho de Salma. Nessa mesma viagem, quando Hashim chegou a Ghazza, adoeceu e morreu. Assim, Abdul Muttalib permaneceu em Medina com a mãe até se aproximar da juventude. Ao morrer, Hashim deixou instruções para que, depois de sua morte, seu irmão Muttalib assumisse em seu lugar a administração da Siqaya e da Rifada, cuidando também de sua família e de seus bens. A partir daquela época, os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib permaneceram unidos, até o fim. Em contrapartida, os Banu Abd Shams — dos quais se originaram os Banu Umayya — e os Banu Nawfal tornaram-se aliados uns dos outros, e assim permaneceram nos tempos posteriores. Durante o período da profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), quando todas as tribos dos coraixitas romperam relações com ele e o mantiveram sitiado no Desfiladeiro de Abu Talib, os Banu al-Muttalib permaneceram com o Profeta nesse bloqueio, juntamente com os Banu Hashim. Já os Banu Nawfal e os Banu Abd Shams ficaram ao lado do grupo opositor.

O nome original de Abdul Muttalib era Shaiba, e, por causa de sua beleza física, ele também era chamado de “Shaibat al-Hamd”. Enquanto era criado em Medina, certo dia Thabit ibn Mundhir, pai de Hassan ibn Thabit (que Deus esteja satisfeito com ele), foi a Meca e encontrou-se com Muttalib. Thabit já mantinha relações com ele. Durante a conversa, disse-lhe: “Seu sobrinho Shaiba — vá vê-lo uma vez, e seu coração se encherá de alegria. É um jovem muito bonito e robusto.”

Ao ouvir isso, Muttalib ficou impaciente e foi a Medina. Colocou o sobrinho consigo sobre o camelo e levou-o para Meca. Ao verem aquele jovem chegar com Muttalib, os coraixitas começaram a dizer: “Abdul Muttalib (isto é, o escravo de Muttalib)”. Muttalib repreendeu-os, dizendo: “Este é Shaiba, filho de meu irmão Hashim — não é meu escravo.”

Entretanto, o nome Abdul Muttalib tornou-se tão famoso que o nome original acabou sendo esquecido. Algum tempo depois, Muttalib foi ao Iêmen numa viagem comercial e morreu ali. Abdul Muttalib sucedeu-o e assumiu ambos os cargos de ‘Siqaya’ e ‘Rifada’.

Ibn Saad, elogiando-o, diz que ele era, entre os coraixitas, o mais belo, o mais saudável, o mais ponderado e paciente, o mais generoso e o que mais se mantinha distante dos vícios que conduziam os homens à degradação.

Ibn Hisham acrescenta que ele alcançou, entre seu povo, uma honra e um respeito que nenhum de seus antepassados havia alcançado. Seu povo o amava, e ele gozava de grande prestígio entre as pessoas. Ibn Athir diz que Abdul Muttalib também ia à caverna de Hira durante o mês de Ramadã para praticar tahannuth (adoração) e alimentava os necessitados durante todo o mês.

Al-Tabari, Ibn Athir e al-Baladhuri dizem que Nawfal, tio de Abdul Muttalib, havia se apropriado de parte dos bens deixados por Hashim. Abdul Muttalib apresentou uma queixa às pessoas influentes. Elas se recusaram a intervir na disputa entre tio e sobrinho. Então Abdul Muttalib pediu ajuda à tribo de seu avô materno, os Banu Adi ibn Tujjar, de Medina. Depois, seu tio materno Abu Sa’id ibn Adas chegou a Meca com oitenta homens, e eles fizeram Nawfal entregar àquele sobrinho seus direitos à força. Em seguida, Nawfal também se aliou aos Banu Abd Shams contra os Banu Hashim, e, até a época da missão do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), os Banu Nawfal permaneceram no grupo que se opunha aos Banu Hashim e apoiava os Banu Abd Shams. Quando Abdul Muttalib viu que os Banu Nawfal haviam se unido ao grupo contrário a ele, consultou os chefes dos Khuza’a e redigiu formalmente um pacto. Há certa diferença nos relatos de Ibn Saad e al-Baladhuri. Eles dizem que os Banu Khuza’a tomaram a iniciativa de procurar Abdul Muttalib e concluíram com ele um pacto de amizade, ajuda mútua e cooperação. Nesse pacto participaram tanto os Banu Abd al-Muttalib quanto os Banu Hashim. Os Banu Abd Shams e os Banu Nawfal permaneceram separados dele. O pacto foi escrito na Dar al-Nadwa e pendurado na Caaba. De acordo com ele, Abdul Muttalib recomendou a seus filhos que mantivessem a amizade com os Banu Khuza’a. O efeito disso foi que, na época do Tratado de Hudaybiyya, quando uma das condições do tratado estabelecia que qualquer tribo árabe que desejasse poderia aliar-se a qualquer um dos dois lados, os Khuza’a decidiram aliar-se ao Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele).

A nova recuperação de Zamzam por Abd al-Muttalib

A glória de ter feito Zamzam reaparecer pertence a Abd al-Muttalib, pois foi por suas mãos que voltou a manifestar-se o poço que os Jurhumitas haviam completamente fechado, apagando até seus vestígios. Muhammad ibn Ishaq, citando Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele), diz que, em sonho, foi indicado a Abd al-Muttalib o local de Zamzam e ordenado que ele escavasse aquele lugar para encontrar esse poço sagrado. Naquela época, Abd al-Muttalib não tinha nenhum filho além de Harith. Levando Harith consigo, chegou ao local com uma enxada e uma pá e começou a escavar. Quando a água apareceu, Abd al-Muttalib proclamou o takbir em voz alta. Assim, os coraixitas souberam que Zamzam havia sido descoberta. Reuniram-se e começaram a dizer: “Abd al-Muttalib! Este é o poço de nosso pai Ismael (que a paz esteja com ele), e nós também temos direito a ele. Associa-nos contigo nessa propriedade.” Ele respondeu: “Não posso fazer isso. Ele foi concedido especialmente a mim; não foi concedido a nenhum de vós.” Quando quiseram discutir sobre isso, Abd al-Muttalib disse: “Então escolhei alguém como árbitro.” Eles mencionaram uma adivinha dos Banu Sa’d ibn Hudhaym, que vivia na região mais elevada da Síria. Abd al-Muttalib aceitou a proposta e partiu em direção à Síria com alguns companheiros, juntamente com alguns homens dos Banu Umayya e de cada tribo dos coraixitas. No caminho, chegaram a um deserto onde a água de Abd al-Muttalib e de seus companheiros acabou completamente. Temendo morrer de sede, pediram água aos outros coraixitas que viajavam com eles. Estes se recusaram, dizendo: “Não se vê sinal algum de água por grandes distâncias. Se compartilharmos convosco a nossa água nestas circunstâncias, também seremos atingidos pela destruição que temeis.”

Por fim, Abd al-Muttalib disse a seus companheiros: “Vinde; ainda há vida em nossos corpos. Cada um de nós cavará uma cova para si, e quem morrer será sepultado na própria cova.” Assim, cada um cavou uma cova, e todos ficaram esperando a morte. Depois, Abd al-Muttalib disse a seus companheiros: “Estamos entregando-nos inutilmente à morte. Vinde, sigamos avançando com coragem; talvez encontremos água em algum lugar.” Então todos se prepararam para continuar a marcha. Mas, por um desígnio divino, quando Abd al-Muttalib fez seu camelo levantar-se e seu pé tocou o chão, de repente brotou debaixo dele uma fonte de água doce. Abd al-Muttalib e seus companheiros proclamaram o takbir em voz alta por causa disso. Desceram dos camelos, beberam água até se saciarem e encheram seus odres. Depois, Abd al-Muttalib chamou os outros coraixitas, que haviam se recusado a dar-lhes água, e disse-lhes: “Bebei também e enchei vossos odres.”

Todos vieram, beberam até se saciarem e disseram: “Ó Abd al-Muttalib! Deus julgou entre nós e decidiu a teu favor. Por Deus, não discutiremos mais contigo por causa de Zamzam. O Deus que te deu água neste deserto é o mesmo que te deu Zamzam. Agora, volta tranquilamente para a tua água.”

Assim, em vez de irem até aquela adivinha, voltaram para Meca.

O cargo de siqaya — cuja função mais importante passou a ser fornecer a água de Zamzam — permaneceu com Abd al-Muttalib durante toda a sua vida. Após sua morte, seu filho Abu Talib recebeu essa honraria. Porém, devido à sua generosidade, Abu Talib continuou gastando além de suas próprias forças e recursos para oferecer água, xarope, leite e outras bebidas aos peregrinos. Por isso, teve de pedir dinheiro emprestado várias vezes a seu irmão Abbas, mas não conseguiu pagar a dívida. Por fim, Hazrat Abbas impôs a condição: “Se agora não podes pagar, terás de deixar o cargo de siqaya para mim.” Assim, Hazrat Abbas recebeu a siqaya. Isso ocorreu na época pré-islâmica. Também na era islâmica, esse cargo permaneceu com os Banu Abbas.

Abdullah ibn Abd al-Muttalib

Muhammad ibn Ishaq diz que, durante a escavação de Zamzam, quando Abd al-Muttalib viu que tinha consigo apenas um filho e que todos os coraixitas haviam vindo cercá-lo, fez um voto: se Deus lhe concedesse dez filhos para ajudá-lo, sacrificaria um deles no caminho de Deus, junto à Caaba. Deus aceitou sua súplica e concedeu-lhe dez filhos. Todos chegaram à idade adulta. Por fim, certo dia, Abd al-Muttalib reuniu todos e contou-lhes sobre seu voto. Todos disseram: “Cumpre o voto que fizeste diante de Deus.” Ao ouvir isso, Abd al-Muttalib foi com todos os filhos até um ídolo chamado Hubal, na Caaba. Ali se lançavam sortes. Para decidir qual de seus dez filhos ele sacrificaria, lançou a sorte, e saiu o nome de Hazrat Abdullah, que era o mais belo de todos os filhos e o filho mais querido de Abd al-Muttalib. (Alguns biógrafos disseram que Hazrat Abdullah era o filho mais novo de Abd al-Muttalib. Isso está errado. Muhayli diz que Hazrat Hamza (que Deus esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) eram muito mais jovens que Hazrat Abdullah. Hazrat Hamza (que Deus esteja satisfeito com ele) era quatro anos mais velho que o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), e Hazrat Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) era três anos mais velho. O próprio relato de Hazrat Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) é que tinha três anos quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) nasceu. Ele disse: “Lembro-me de que as mulheres da casa me levaram até o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e disseram: ‘Acaricia o irmão.’ Então eu o acariciei.” (Rawd al-Unuf) — o autor.)

Sem hesitar, Abd al-Muttalib tomou Abdullah pela mão e, segurando uma faca, dirigiu-se com ele aos dois ídolos, Isaf e Na’ila, para sacrificá-lo. Ao verem isso, os coraixitas levantaram-se de suas respectivas reuniões, correram até ele e disseram: “Ó Abd al-Muttalib, o que estás fazendo? Se fizeres isso, todos os dias alguém trará seu filho para sacrificá-lo. Vamos até certa mulher do Hijaz. Faz o que ela disser. Talvez ela indique uma solução para este problema.” [Al-Suhayli menciona que o nome da mulher era Qutba. Ela vivia num lugar chamado Hijr, próximo a Medina — o autor.]

De acordo com essa proposta, chegaram a Medina e descobriram que a mulher vivia em Khaybar. Foram até ela e contaram-lhe tudo. Ela perguntou: “Qual costuma ser entre vocês o resgate de uma pessoa?”

Eles responderam: “Dez camelos.”

Ela disse: “Ide e lançai sortes para decidir se Abdullah será sacrificado ou se serão dez camelos. Se a sorte sair em nome do menino, acrescentai mais dez camelos e lançai sortes novamente. Continuai assim, acrescentando dez camelos de cada vez e lançando sortes. Quando a sorte sair em nome dos camelos, isso significará que vosso Senhor aceitou que esse número de camelos fosse sacrificado em lugar do filho.”

Aceitando o que disse a mulher adivinha, todos retornaram a Meca e começaram a lançar sortes. Dez, vinte, trinta e até noventa vezes a sorte continuou saindo em nome de Abdullah. Finalmente, ao chegarem a cem camelos, a sorte saiu em nome dos camelos. Os coraixitas disseram: “Agora está claro qual é a vontade do teu Senhor. Poupa Abdullah e sacrifica os camelos.”

Mas Abd al-Muttalib não aceitou. Disse: “Lançarei sortes mais três vezes.” Assim, lançaram os dados três vezes, e nas três vezes eles caíram em favor dos camelos. [Disso se soube que, inicialmente, o resgate de uma pessoa entre os árabes era de dez camelos. Depois desse acontecimento, os árabes passaram a considerar permanentemente cem camelos como o resgate de uma pessoa.] Então Abd al-Muttalib sacrificou cem camelos e anunciou ao povo que qualquer pessoa, animal ou mesmo fera poderia levar quanta carne quisesse.

Assim, mais uma vez se repetiu entre os descendentes de Abraão o acontecimento do sacrifício que havia inaugurado a restauração dessa afortunada família de Meca. Embora haja uma enorme diferença entre os dois acontecimentos quanto ao princípio e ao significado, manifesta-se o mistério das ações de Allah. A princípio, foi exigido de outra maneira o sacrifício do primeiro membro dessa família, por meio do qual deveria começar o chamado ao Islã na Arábia. Agora, o sacrifício do pai do último Profeta foi exigido de outra maneira — o Profeta que teria de propagar e difundir esse chamado a toda a humanidade. O resgate do primeiro sacrifício foi um carneiro, e o do segundo, cem camelos.

O casamento de Abdullah

Quando Hazrat Abdullah tinha vinte e cinco anos, seu pai casou-o com Amina Khātun, filha de Uhab bin Abd Manaf, chefe dos Banu Zuhra bin Kilab. Amina era a moça mais virtuosa de seu povo. Após viverem alguns meses como marido e mulher, Hazrat Amina engravidou. Nessa ocasião, seu esposo, Hazrat Abdullah, partiu com uma caravana comercial para Gaza, uma cidade da Palestina. Ao retornar de lá e chegar a Medina, adoeceu. Ele disse a seus companheiros: “Ide todos para Meca; eu ficarei junto da família de minha avó, a família de Adi bin Najjar.” Um mês depois, faleceu ali mesmo. Foi sepultado em Darun Nabigha al-Jundi.

Seus companheiros chegaram a Meca e informaram Abd al-Muttalib sobre a doença de Hazrat Abdullah. Abd al-Muttalib enviou imediatamente seu filho mais velho, Harith, a Medina. Porém, antes que ele chegasse a Medina, Hazrat Abdullah faleceu.

Este é um relato extremamente autêntico, geralmente aceito por todos os eruditos. Contudo, algumas narrativas afirmam que Hazrat Abdullah faleceu quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) tinha vinte e oito meses de idade. Alguns mencionaram dois meses, e outros, sete meses. Mas a opinião mais confiável e universalmente aceita é que seu pai faleceu quando o Honrado Profeta (que a paz esteja com ele) ainda estava no ventre materno. O Alcorão alude justamente a esta verdade:

(Árabe**************)

— Ó Profeta, Ele (teu Senhor) não te encontrou órfão e então te deu abrigo?

 

Terceiro capítulo

Do nascimento ao início da profecia

O bendito nascimento

Finalmente chegou o momento para o qual Hazrat Ibrahim, alayhis-salatu was-salam, havia reassentado parte de sua família numa região deserta e desolada, sem água nem vegetação, e durante a construção da Caaba ele e seu filho Hazrat Ismael (a.s.) haviam feito esta súplica:

(Árabe*****************)

— Ó nosso Senhor, faz surgir entre eles um Mensageiro pertencente à sua própria gente, que lhes recite os Teus versículos, lhes ensine o Livro e a sabedoria e purifique e aperfeiçoe suas vidas. (Al-Baqarah: 129)

Pouco antes da chegada desse momento auspicioso, Abraha veio com sessenta mil soldados para lutar contra o seu destino. Mas, se tivesse trazido não sessenta mil, e sim seis milhões, ainda assim o resultado teria sido o mesmo. Onde está em ação um plano tão grandioso de Allah, pelo qual será trazido a este lugar um ser que transformará a história do mundo, que será o último dos profetas e cuja chegada vem sendo preparada há dois mil e quinhentos anos, nenhuma força humana, por maior que seja, pode deixar de ser despedaçada no confronto com o poder de Allah.

Os muhaddith e os historiadores estão quase unânimes em afirmar que o acontecimento dos Companheiros do Elefante (o ataque de Abraha a Meca) ocorreu no mês de Muharram. O nascimento do Mensageiro de Allah (s.a.w.) ocorreu no mês de Rabi al-Awwal. E aconteceu numa segunda-feira. O próprio Profeta (s.a.w.) disse isso em resposta à pergunta de um beduíno — (Sahih Muslim, narrado por Qatadah).

Há divergência quanto ao dia de Rabi al-Awwal. Contudo, Ibn Shaybah, citando as palavras de Hazrat Abdullah ibn Abbas (r.a.) e Hazrat Jabir ibn Abdullah (r.a.), afirma que ele nasceu no dia 12 de Rabi al-Awwal. Muhammad ibn Ishaq explicou isso, e, segundo a maioria dos eruditos, essa é a data mais conhecida. Também há divergência quanto ao intervalo entre o acontecimento do Elefante e o nascimento do Profeta (s.a.w.). Porém, a opinião mais difundida é que o Profeta (s.a.w.) nasceu cinquenta dias depois desse acontecimento. Harmonizar os meses e anos solares com os lunares é uma questão complexa. Por isso, é difícil afirmar com certeza qual foi o ano e o mês solares de seu nascimento. Geralmente, seu nascimento é situado em 570 ou 571 d.C. Suhayli menciona 20 de abril em Rawd al-Unuf, mas não indica o ano. Alguns pesquisadores apontam 23 de abril de 571 d.C. Mahmud Pasha Falaki afirma que foi em 20 de abril de 571 d.C. e, segundo ele, correspondia ao dia 9 de Rabi al-Awwal, uma segunda-feira. Caussin de Perceval, em sua obra História dos Árabes, indica 20 de agosto de 570 d.C. como a data do nascimento do Profeta (s.a.w.). Hitti afirma que o Profeta (s.a.w.) nasceu em 571 d.C. ou por volta desse período. Alguns orientalistas recuaram dois anos e indicaram 569 d.C. como o período do nascimento do Profeta. Segundo fontes confiáveis, o abençoado nascimento ocorreu ao subh-e-sadiq (alvorecer ou aurora).

As boas-novas e o nome abençoado

Fontes confiáveis relatam que, durante a gravidez, Bibi Amina sonhou que dela emanava uma luz que iluminava até a Síria. Em outra ocasião, foi-lhe dito em sonho: “No teu ventre está o líder desta ummah. Quando ele nascer, dá-lhe o nome de Muhammad.” Ibn Sa’d citou uma narração segundo a qual, em sonho, foi-lhe dito que lhe desse o nome de Ahmad. [No Oriente árabe antigo, o nome Muhammad raramente era dado a alguém. Porém, não há qualquer prova de que alguém tivesse o nome Ahmad. A razão disso, que explicamos detalhadamente em Tafhim al-Qur’an, volume cinco, Surah As-Saff, notas 7-8, é que, por meio do Povo do Livro, os árabes às vezes tomavam conhecimento de que viria outro profeta, cujo nome seria Muhammad e que nasceria da descendência de Ismael. Depois de ouvir isso, alguns árabes davam o nome Muhammad a seus filhos, na esperança de que um deles fosse aquele profeta. Quanto às pessoas chamadas Muhammad antes do Profeta (s.a.w.), Qadi Iyad afirmou que eram seis. Ibn Khalawayh e Suhayli disseram que eram três, enquanto Abdan al-Marwazi disse que eram quatro. Mas Hafiz Ibn Hajar afirma em Fath al-Bari: “Após investigar, consegui identificar os nomes de quinze pessoas.” Depois, em Al-Isabah, ele diz que algumas delas viveram na época do Profeta e aceitaram o Islam. Ao relatar o caso de Muhammad ibn Adi ibn Rabi’ah, escreve que lhe perguntaram como seu pai lhe dera o nome Muhammad na época da jahiliyyah. Seu pai respondeu: “Estávamos viajando pela região da Síria. Em certa ocasião, chegamos a um eremitério cristão. O responsável pelo eremitério disse: ‘Surgirá entre o vosso povo um profeta que será o último profeta.’ Perguntamos: ‘Qual será o seu nome?’ Ele respondeu: ‘Muhammad.’ Desde então, todo filho que nascia em nossa casa recebia o nome Muhammad.” — o autor.] É possível que esses dois nomes tenham sido mencionados separadamente, pois ambos são comprovados pelos hadith. Muitas narrações também mencionam que Bibi Amina disse: “Quando ele nasceu, senti que de dentro de mim emanava uma luz que iluminava o Oriente e o Ocidente.” Bayhaqi e Ibn Abd al-Barr citam a narração da mãe de Uthman ibn Abi al-As, segundo a qual ela estava presente junto de Bibi Amina quando o Profeta (s.a.w.) nasceu. Naquele momento, para qualquer lado que se olhasse, via-se apenas luz e mais luz. A parteira por ocasião do nascimento foi Shifa bint Awf bint Abd al-Harith al-Zuhri, mãe de Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf.

No sétimo dia após o nascimento, Hazrat Abdul Muttalib realizou a aqiqah e convidou as pessoas para uma refeição. Depois da refeição, as pessoas perguntaram: “Abdul Muttalib, que nome deste ao filho para o qual nos ofereceste esta refeição?”

Ele respondeu: “Dei-lhe o nome de Muhammad.” As pessoas disseram: “Por que lhe deste um nome diferente dos nomes dos outros membros de tua família?”

Abdul Muttalib respondeu: “Desejo que Allah, no céu, e Sua criação, na Terra, louvem-no.”

O início da vida em meio à pobreza

Hazrat Abdullah ainda era jovem quando se casou e também havia iniciado uma atividade comercial. Foi nesse período que faleceu. Por isso, não pôde deixar muita riqueza para seu filho órfão e sua esposa. Ibn Saad afirma que deixou como herança cinco camelos, um rebanho de cabras e uma escrava. Essa escrava era Umm Ayman (que Allah esteja satisfeito com ela), que criou o Profeta (que a paz esteja com ele) com grande carinho. Seu verdadeiro nome era Baraka, e ela era de origem abissínia. Mais tarde, o Profeta (que a paz esteja com ele) casou-a com seu escravo liberto, Hazrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele). Desse casamento nasceu Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele).

Uma menção à condição humilde de sua vida santa é feita no Alcorão da seguinte forma:

(Árabe*************)

— Allah encontrou-te pobre e depois te enriqueceu.

Amamentação

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mamou durante algum tempo, inicialmente, do leite de Suwayba, escrava de Abu Lahab. Está registrado em Bukhari e Muslim que Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele) [o primeiro marido de Umm Salama, Mãe dos Crentes] também mamou do leite dela. Ibn Sa’d e Ibn Hisham dizem que Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abdullah ibn Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ele) também mamaram do leite dela. Abdullah ibn Jahsh era irmão de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), Mãe dos Crentes. Por essa razão, eles eram irmãos de leite do Profeta (que a paz esteja com ele). Como retribuição por esse serviço, depois que o Profeta (que a paz esteja com ele) entrou na juventude, ele sempre tratou Suwayba com extrema bondade. Depois que ele se casou, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) honrou-a e tratou-a bem. Mais tarde, Khadija quis comprá-la para libertá-la, mas Abu Lahab recusou. Depois, ele próprio a libertou. Mesmo após a Hégira, o Profeta (que a paz esteja com ele) enviava-lhe roupas e dinheiro. No sétimo ano da Hégira, ao receber a notícia de sua morte, o Profeta (que a paz esteja com ele) perguntou sobre a situação de seu filho Masruh. Ele também era irmão de leite do Profeta. Soube-se que ele também havia morrido e que não deixara ninguém no mundo.

Halima Sa’diyya

Era costume das famílias nobres de Meca enviar seus filhos, para serem amamentados, a algum bom lar das regiões desérticas, a fim de que fossem criados em um ambiente belo e aberto e aprendessem a língua árabe pura. Para esse propósito, mulheres das tribos das regiões vizinhas costumavam ir de tempos em tempos a Meca. Elas levavam consigo os filhos dos chefes e recebiam uma remuneração justa. Além disso, esperavam ser tratadas com bondade. Pouco depois do nascimento do Profeta (que a paz esteja com ele), algumas mulheres de Banu Sa’d ibn Bakr, um ramo da tribo de Hawazin, chegaram a Meca para receber crianças. Entre elas estava Halima bint Abi Dhu’ayb, acompanhada de seu marido, Harith ibn Abdallah. Ibn Hisham cita o próprio relato de Halima, no qual ela diz: Nossa situação era muito lastimável. Nossa região sofria com a fome. Em comparação com as outras mulheres, nossa situação era ainda pior. Nossa jumenta era tão fraca que ficava para trás da caravana. Nossa camela também dava pouco leite. Meus seios produziam tão pouco leite que eu não conseguia saciar a fome das crianças. Elas choravam durante toda a noite, e nós também não conseguíamos dormir. Quando chegamos a Meca, descobrimos que nenhuma mulher queria levar o Profeta (que a paz esteja com ele). Todas diziam: Ele é órfão. Se tivesse pai, poderíamos esperar algum bom tratamento. Não se sabe se receberemos algo de sua mãe viúva e de seu avô.

Halima disse: As outras mulheres levaram outras crianças, mas nenhuma veio para o meu destino. Quando todos se prepararam para voltar para casa, eu disse ao meu marido: “Não gosto de voltar de mãos vazias. Vou buscar aquela criança.”

Meu marido disse: Que mal há em fazer isso? Talvez Allah nos conceda bênçãos por meio dele.

Assim, fui buscar aquela criança, pois não havia conseguido outra. Depois, fui à tenda onde estávamos alojados e coloquei meu seio na boca da criança. Então vi que saiu tanto leite que ela mamou até se satisfazer, e seu irmão de leite, Abdullah, também bebeu até saciar-se. Em seguida, meu marido foi ordenhar a camela, e ela deu tanto leite que nós dois bebemos até nos satisfazermos; passamos também uma noite tranquila. Na manhã seguinte, meu marido disse: “Por Allah, Halima, você trouxe uma criança realmente abençoada.”

Halima também disse: No caminho de volta, nossa jumenta estava em tal condição que começou a deixar para trás todos os animais de montaria da caravana. As mulheres que viajavam comigo começaram a dizer: “Halima, esta é a mesma jumenta em que você veio conosco?”

Disse: — Sim.

Eles disseram: — Por Deus, a situação dele mudou completamente.

Halima conta: Quando chegamos a casa, talvez não houvesse, em toda a face da Terra, nenhuma região tão árida naquela época quanto a nossa. Contudo, para onde quer que as cabras fossem pastar, voltavam com a barriga cheia de capim e davam muito leite. Assim, dia após dia, víamos cada vez mais as bênçãos daquela criança. Quando se passaram dois anos e chegou o momento de desmamá-la, o menino era mais saudável e forte do que os filhos de todas as outras tribos. Parecia ter quatro anos de idade. Levamo-lo a Meca, para junto de sua mãe. Mas desejávamos que ele permanecesse conosco por mais algum tempo. Disse à mãe dele: “Deixe este meu querido menino ficar comigo por mais algum tempo, para que cresça mais e ganhe peso. Temo que o clima de Meca prejudique sua saúde.”

Em suma, insisti tanto que ela consentiu em enviá-lo comigo. Ibn Saad afirma que, desse modo, o Mensageiro permaneceu por mais dois anos na casa de Halima.

A abertura do peito

Halima conta: Tinham se passado dois ou três meses desde que voltáramos para casa. Certo dia, a criança estava, com seu irmão de leite, junto ao nosso rebanho de cabras, atrás de nossa casa. De repente, seu irmão de leite correu até nós e disse: “Dois homens vestidos de branco vieram e abriram o ventre do meu irmão coraixita!” Eu e meu marido corremos até lá e vimos a criança de pé, com o rosto pálido. Seu pai abraçou-o e perguntou: “Meu filho, o que aconteceu com você?” Ele respondeu: “Dois homens vestidos de branco vieram, derrubaram-me e abriram meu ventre. Depois, retiraram algo de dentro dele e o jogaram fora, e fecharam meu ventre como antes.” Segundo outro relato, eles ficaram procurando alguma coisa em meu ventre. Não sei o que era. Deve-se observar que o episódio da abertura do peito é um mistério de Deus que os seres humanos não podem desvendar. Inúmeros acontecimentos extraordinários desse tipo ocorreram com os profetas (que a paz esteja com eles), e não é possível explicá-los ou analisá-los. Entretanto, não conhecer a explicação não constitui razão válida para negá-los — o autor.

Halima conta: Depois que o levei para casa, meu marido disse: “Halima, temo que alguma coisa lhe aconteça. É melhor levá-lo de volta para sua família.” Assim, fomos levá-lo à sua mãe, em Meca.

Sua mãe disse: “O que aconteceu, ama de leite? Por que o trouxe de volta? Você queria mantê-lo consigo.” Respondi: “Deus fez o menino crescer, e cumpri integralmente a responsabilidade que me cabia. Agora temo que algum acidente lhe aconteça.”

Bibi Amina disse: “Diga-me qual é realmente o assunto.”

Diante de sua insistência, Halima contou-lhe todo o ocorrido.

Bibi Amina disse: “Você teme que Satanás faça algum mal a esta criança?”

Halima disse: “Sim.”

Bibi Amina disse: “Juro por Deus que o caminho de Satanás não está aberto para ele; esta minha criança é dotada de uma dignidade extraordinária.”

Depois, Bibi Amina contou-lhe as circunstâncias da gravidez e do nascimento.

Por ter permanecido no deserto durante a infância, a língua árabe do Santo Profeta (que a paz esteja com ele) tornou-se extremamente pura. Isso porque ele era coraixita e passou a infância entre os Banu Saad, cuja língua era o árabe puro. Foi com base nisso que o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

“Sou quem melhor conhece o árabe entre vocês. Sou coraixita e passei o período de amamentação entre a família dos Banu Saad ibn Bakr.”

Assim como fazia com Suwayba, o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) sempre tratava Halima com extremo carinho e bondade. Certa vez, depois do casamento do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) com Khadija (que Deus esteja satisfeito com ela), ela (Bibi Halima) veio e disse: “Houve uma terrível fome em nossa região, e todos os animais domésticos morreram.”

Ao ouvir suas palavras, o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) deu-lhe quarenta cabras e mercadorias carregadas em um camelo. Ibn Sa‘d, citando o relato de Muhammad ibn al-Munkadir, diz que uma mulher pediu permissão para comparecer à presença do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz), pois ela o havia amamentado na infância. Quando ela chegou, o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz), repetindo: “Tia, entre, entre”, estendeu seu manto e fez com que ela se sentasse.

Durante a Conquista de Meca, a irmã de Halima foi à presença do Profeta e deu-lhe a notícia da morte de Halima. Ao ouvir isso, os olhos do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) começaram a derramar lágrimas. Em seguida, ele lhe deu duzentos dirhams, um fardo de roupas e um camelo com uma almofada. Entre os cativos trazidos após a batalha de Hawazin estava também Shaima, filha de Halima, que costumava carregar o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) nos braços durante sua infância. Ao vê-la, o Profeta reconheceu-a, tratou-a com carinho e, honrando-a, enviou-a de volta para sua família. Quando a delegação de Hawazin foi à presença do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) pedir clemência e disse: “Entre esses cativos estão suas tias e suas mães de leite”, o Profeta respondeu: “Renuncio à parte que cabe a mim e à dos Banu Abd al-Muttalib.” Assim, seis mil cativos foram libertados. O valor dos bens que lhes foram devolvidos era de quinhentos milhões de dirhams. Depois do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz), Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) e Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) também cuidavam especialmente dessa família e demonstravam consideração e respeito por seus membros.

O falecimento da mãe do Profeta

Ibn Sa‘d e Ibn Ishaq dizem que, quando o Profeta Muhammad (que Deus o abençoe e lhe dê paz) tinha seis anos — segundo Ibn Hazm e Ibn al-Qayyim, sete anos — [a respeito de Bibi Halima, Ibn Kathir diz que ela faleceu antes da profecia de Muhammad. Contudo, Ibn al-Barr, citando em seu Al-Isti‘ab o relato de ‘Ata ibn Yasar, diz que, quando Halima, a mãe de leite do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz), foi à presença dele durante a batalha de Hunayn, o Profeta levantou-se assim que a viu, estendeu seu manto e pediu-lhe que se sentasse. Ibn al-Barr acrescenta que Halima (que Deus esteja satisfeito com ela) transmitiu hadiths do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz), e que ‘Abdullah ibn Ja‘far transmitiu relatos dela. O hafiz Abu Ya‘la e Ibn Hibban registraram os relatos de Halima com base na autoridade de ‘Abdullah ibn Ja‘far (que Deus esteja satisfeito com ele). O hafiz Ibn Hajar, em Al-Isaba, citando Ibn Ishaq, diz a respeito do marido de Halima que ele veio a Meca e aceitou o Islã na presença do Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz). Mas Ibn Sa‘d diz que ele era ‘Abdullah, filho de Harith, irmão de leite do Profeta. Ibn Hajar menciona em Al-Isaba que Shaima havia aceitado o Islã — autor.] Bibi Amina viajou para Medina com o pequeno Muhammad e Umm Ayman, com o propósito de visitar os parentes da bisavó do Profeta — a mãe de Abd al-Muttalib —, os Banu ‘Adi ibn al-Najjar, e permaneceu ali por alguns dias. Ela mostrou ao pequeno Muhammad o local onde seu pai havia falecido. Mostrou-lhe também o lugar onde ele fora sepultado. O pequeno Muhammad guardou bem na memória os acontecimentos dessa viagem. Depois da Hégira, quando foi a Medina, costumava contar aos seus companheiros esse episódio de sua infância com sua mãe. Assim que viu a fortaleza dos Banu ‘Adi ibn al-Najjar, reconheceu-a. Ele dizia: “Aqui eu costumava brincar com uma menina ansar chamada Unaysa. Eu espantava os pássaros que pousavam aqui com os meninos da casa materna de meu avô.”

Ao ver Dar al-Nabigha, ele disse: “Aqui desci com minha mãe, e foi nesta casa que meu pai foi sepultado. Eu costumava nadar nas fontes dos Banu ‘Adi ibn al-Najjar.”

Depois, quando sua mãe partiu para Meca levando o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) e chegou a um lugar chamado Abwa, ela faleceu e foi sepultada ali mesmo. Umm Ayman chegou a Meca levando o Profeta. Ibn Sa‘d diz que ele também se lembrava do lugar onde sua mãe havia sido sepultada. Assim, quando, durante a Umra de Hudaybiyyah, passava por Abwa, disse:(Árabe***********************)

— Deus permitiu a Muhammad (que Deus o abençoe e lhe dê paz) visitar o túmulo de sua mãe. Então ele (o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz)) foi até lá, ajeitou o túmulo e começou a chorar. Ao verem seu choro, os muçulmanos também começaram a chorar. Perguntaram-lhe: “O senhor não proibiu o choro?” Em resposta, ele disse:(Árabe******************)

—Lembrei-me de sua bondade, carinho e ternura, e comecei a chorar.

Há menções, em diversos hadiths, de que o Profeta (S) visitou o túmulo de sua própria mãe e desabou em lágrimas. Esses relatos são transmitidos no Musnad de Ahmad, no Bayhaqi e no Tabaqat de Ibn Sa‘d, por Hazrat Burayda (ra), Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (ra) e Hazrat Abu Hurayra.

Sob a tutela de Abd al-Muttalib

Após a morte de Bibi Amina, o avô do Profeta (S), Abd al-Muttalib, manteve-o consigo e amava-o mais do que a todos os demais. Por isso, mantinha-o sempre perto de si, fazia-o sentar-se junto dele e ia ter com ele quando queria—estivesse ele sozinho ou dormindo. Por respeito a ele, os outros filhos não ousavam fazer o mesmo. Se o menino não se sentasse com ele, Abd al-Muttalib não comia; às vezes, durante a refeição, colocava-o no colo. À sombra da parede da Caaba, estendia-se uma cama para ele, e, em respeito à sua dignidade, nenhum outro filho se sentava sobre ela; sentavam-se ao redor. O menino Muhammad (S), de porte robusto, sentava-se diretamente sobre aquela cama. Quando seu tio lhe dizia para se levantar, Abd al-Muttalib dizia: “Deixem meu querido menino ficar. Juro por Deus que sua dignidade é incomparável. É de esperar que ele alcance uma posição que nenhum árabe jamais alcançou antes.”

Segundo alguns relatos, Abd al-Muttalib dizia: “Ele tem um temperamento verdadeiramente régio.” Depois, fazia o menino Muhammad sentar-se junto dele, passava a mão em suas costas e em sua cabeça, beijava-lhe o rosto e sentia grande alegria ao observar seus movimentos.

Ibn Sa‘d afirma que os membros da tribo Banu Mudlij eram capazes de prever o futuro de uma pessoa observando seu rosto e sua constituição física. Eles disseram a Abd al-Muttalib: “Cuide especialmente desta criança, pois nunca vimos uma pegada semelhante à de Ibrahim (as) no Maqam de Ibrahim como vemos a pegada desta criança.”

Abu Talib estava presente naquele momento. Abd al-Muttalib disse-lhe: “Escute com atenção o que eles estão dizendo e guarde-o.”

Contudo, o menino Muhammad (S) não pôde desfrutar por muito tempo do carinho e do afeto de seu avô. Quando completou oito anos, seu avô faleceu. Ibn Sa‘d e o Hafiz Sakhawi citam este relato de Umm Ayman. Umm Ayman disse: “No momento da morte de Abd al-Muttalib, o Profeta (S) estava em pé junto à cabeceira dele, chorando.”

Mais tarde, quando perguntaram ao Profeta (S): “Você se lembra da morte de seu avô?”, ele respondeu: “Sim, naquela época eu tinha oito anos.”

Sob a tutela de Hazrat Abu Talib

Após a morte de Abdul Muttalib, segundo algumas narrativas, Hazrat Abu Talib assumiu, conforme o testamento dele, a responsabilidade de criar o Profeta; segundo outras, assumiu-a voluntariamente. Seu nome verdadeiro era Abd Manaf. Porém, por causa de seu filho mais velho, Talib, sua kunya, Abu Talib, tornou-se tão conhecida que seu nome verdadeiro acabou sendo obscurecido. O jovem Talib tinha a mesma idade do Profeta (S), e havia profundo amor entre os dois. Quando os coraixitas obrigaram os Banu Hashim a partir para a batalha de Badr, Talib estava entre eles. Ele não participou da batalha, seu nome também não constava entre os mortos e ele não retornou a Meca. Nunca se descobriu o que lhe aconteceu.

Abu Talib era tio paterno do Profeta (S). Amava o sobrinho mais do que aos próprios filhos. Fazia-o dormir junto de si e levava-o consigo aonde quer que fosse. Na hora das refeições, os demais só começavam a comer quando ele (o Profeta Muhammad) chegava e se juntava a eles. Waqidi narra, com base em várias fontes, que, quando os membros da família de Abu Talib comiam sem o Profeta Muhammad (S), fosse sozinhos ou juntos, nenhum deles ficava satisfeito. Mas, quando o Profeta Muhammad comia com eles, depois de todos comerem até se saciar, ainda sobrava comida. Observando essa bênção, Abu Talib estabeleceu o costume de, ao sentar-se para comer, dizer: “Esperem, deixem meu querido menino chegar.” Então, quando o Huzur (S) chegava, todos começavam a comer. Abu Talib dizia: “Meu filho, você é verdadeiramente mubarak (dotado de bênçãos).” Quando, ao sentarem-se para comer, as crianças começavam, como de costume, a disputar a comida, o Huzur (S) permanecia sentado com as mãos recolhidas. Ao ver isso, Abu Talib providenciava uma refeição separada para ele e outra para si. Estendia-se uma esteira, e ninguém mais se sentava ali; somente o Huzur (S) sentava-se junto dele. Abu Talib dizia: “Juro pelo Deus de Rabi’a que a liderança fica bem neste meu querido menino.”

O pastoreio das cabras pelo Profeta

Provavelmente, isso aconteceu numa época em que, ao ver a difícil situação financeira do tio e, ao mesmo tempo, sua numerosa família, o Huzur (S) pensou em ganhar algum dinheiro por conta própria. Durante a infância, enquanto permanecia na casa de sua ama de leite, ele pastoreava as cabras da família junto com seus irmãos e irmãs de leite. Depois que alcançou a idade da razão, começou a fazer esse trabalho em Meca em troca de pagamento. Há uma narração de Ubaid ibn Umair segundo a qual o Huzur (S) disse: “Não houve profeta que não tivesse pastoreado cabras.” As pessoas perguntaram: “Você também pastoreou cabras?” Ele respondeu: “Sim.”

No Kitab al-Ijara do Sahih al-Bukhari há uma narração de Hazrat Abu Huraira (RA). Em resposta a essa pergunta, o Huzur (S) disse: “Eu pastoreava as cabras dos habitantes de Meca em troca de alguns qirates.” [Ibn Majah narra, através de Suwaid ibn Sa’id, que as palavras do Profeta (S) sobre esse assunto eram:

(Árabe*************)

—Eu costumava pastorear as cabras dos habitantes de Meca em troca de alguns qarárit. Esta narração de Bukhari dá a entender que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) pastoreava as cabras dos habitantes de Meca mediante remuneração. Contudo, Ibrahim al-Harbi afirma que qarárit não significa dinheiro ou riqueza, mas é o nome de um lugar próximo de Ajyad, onde o Profeta pastoreava cabras. Ibn al-Jawzi e o erudito al-Ayni também apoiaram essa interpretação. Mas, em primeiro lugar, não há qualquer lugar chamado Qarárit comprovadamente na geografia de Meca. Em segundo lugar, não há nada censurável em pastorear cabras mediante pagamento que exija tamanho esforço para isentar o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) dessa suposta falta. —O autor.

Qirrat é o plural de qarárit (a décima ou a vigésima parte de um dinar é chamada qirrat). Abu Salama ibn Abd al-Rahman narra que, certa vez, algumas pessoas atravessavam com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) uma região de árvores de pilu. Então o Profeta disse: “Colham e tragam os frutos que ficaram pretos.” Naquela época, quando eu pastoreava cabras, costumava colher esses frutos (Ibn Sa’d — Londres, pp. 79–80).

A manifestação da personalidade extraordinária do Profeta já na primeira infância

Os acontecimentos mencionados desde o nascimento do Profeta até seus dez ou doze anos deixam perfeitamente claro que todos os que entraram em contato com ele ficaram firmemente convencidos de que, embora tivesse nascido entre eles, ele possuía uma personalidade extraordinária. Não apenas diversos tipos de bênçãos se manifestavam por seu intermédio; seu temperamento e caráter também eram completamente diferentes dos das crianças comuns. Sua personalidade extraordinária igualmente transparecia em seu rosto e em suas feições.

Al-Bayhaqi e Ibn Jarir, citando uma narração de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), dizem que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não senti mais de duas vezes desejo de realizar aquelas coisas que as pessoas praticavam na época da Jahiliyyah; e, nas duas vezes, o Deus Altíssimo me protegeu de fazê-las. Depois disso, jamais surgiu em minha mente qualquer ideia semelhante. Certo dia, disse aos meninos que pastoreavam cabras comigo: ‘Tomem conta das minhas cabras por algum tempo; irei a Meca e participarei, à noite, dos divertimentos dos quais os outros meninos participam.’ Eles concordaram, e parti em direção à cidade. Ao chegar à primeira casa, ouvi o tumulto de música e instrumentos. Perguntei: ‘O que está acontecendo?’ As pessoas responderam: ‘Fulano e fulana estão se casando.’ Sentei-me, mas imediatamente fui tomado por um sono tão profundo que amanheceu, e só despertei com o calor do sol.”

“Em outra ocasião, disse aos meus companheiros a mesma coisa, e eles concordaram. Então entrei em Meca e vi que a mesma música e os mesmos instrumentos estavam sendo tocados. Sentei-me e, naquele dia também, fui dominado pelo sono; passei a noite dormindo até amanhecer. Fui até meus companheiros e disse-lhes que, também naquele dia, não tinha visto nada. Depois disso, jamais senti qualquer interesse por algo semelhante.” Ibn Sa’d, citando Umm Ayman, diz que havia um ídolo chamado Buana, que os coraixitas visitavam para buscar sua bênção. Ali também faziam oferendas votivas. Abu Talib costumava ir até lá com os membros de sua família para esse propósito. O jovem Muhammad também era convidado a acompanhá-los. Porém, todos os anos surgia a mesma discussão: Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recusava-se a ir, e seus tios e tias ficavam extremamente descontentes. Certa vez, cansado das repreensões e censuras dos mais velhos da família, durante esse festival o Profeta Muhammad desapareceu por muitas horas, sem que ninguém soubesse onde estava. Todos na casa ficaram angustiados por causa dele. Quando voltou, parecia extremamente assustado, e seu rosto estava pálido. Suas tias abraçaram-no e disseram: ‘Meu filho, o que aconteceu com você?’ Ele respondeu: ‘Temo que algo me aconteça.’ Elas disseram: ‘Allah jamais permitirá que Satanás lhe cause algum mal, pois você possui essas qualidades.’ Ele disse: ‘Sempre que me aproximo de algum ídolo daquela casa de ídolos, tenho a impressão de que um homem alto, de pele clara, está de pé e diz: “Muhammad, afaste-se; não toque nele.”’ Umm Ayman diz que, depois disso, ele jamais participou daquele festival.

Ibn Hisham, citando Ibn Ishaq, diz que havia em Meca um homem especialista na arte de determinar o caráter pela análise das feições (fisionomista), ligado ao clã Lahab, um ramo dos Azd de Shanu’a, e que costumava visitar Meca. Sempre que chegava, os coraixitas levavam seus filhos até ele, para que, por meio de sua arte, pudesse dizer algo a respeito deles. Certa vez, quando ele chegou, Abu Talib levou o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) até ele junto com seus outros filhos. Ao vê-lo, o homem ficou ocupado com outra coisa. Depois de concluir o trabalho, disse: ‘Onde está o menino que vi há pouco? Tragam-no.’ Quando Abu Talib percebeu que o homem estava muito ansioso para ver o menino Muhammad, levou-o para outro lugar e o manteve afastado dali. O homem disse: ‘Tragam-no até mim. Juro por Deus que ele se tornará um homem extraordinário.’

Muhammad ibn Ishaq diz que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) contou: “Certo dia, enquanto brincava com os meninos dos coraixitas, eu carregava esta pedra. Para carregarem as pedras, todos os meninos haviam tirado seus izares, ou tahbands, e os amarrado ao redor do pescoço; por isso, todos estavam nus. Assim que fiz o mesmo, de repente recebi um golpe, e alguém me disse: ‘Amarre o seu izar.’ Então amarrei o meu izar.”

Assim, o Profeta Muhammad foi preservado da nudez desde a infância. Um acontecimento exatamente semelhante ocorreu quando, no 35º ano do Ano do Elefante (quando o Profeta tinha 35 anos e faltavam apenas cinco anos para receber a profecia), os coraixitas começaram novamente a reconstruir a Caaba. Naquela ocasião, todos os coraixitas tiravam seus izares, amarravam-nos ao redor do pescoço e transportavam pedras. Entre eles, fossem crianças, jovens ou idosos, ninguém tinha qualquer sentimento de constrangimento em relação à nudez. Hadrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) também disse ao jovem Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que fizesse o mesmo. Assim que tentou fazê-lo, ele caiu inconsciente, e seu olhar se fixou no céu. Quando recuperou a consciência, disse: “Onde está o meu izar?” Então vestiram-no com seu izar, e ele se levantou. Esse acontecimento foi narrado por Hadrat Jabir ibn Abdullah e registrado por Bukhari e Muslim. Abdur-Razzaq, Tabarani e Hakim, citando Abu Tufail, dizem que uma voz veio do invisível: “Ó Muhammad, cubra sua nudez.” Contudo, a própria narrativa não prova que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tenha ficado completamente nu. Ele desmaiou antes de tirar o izar e ficar nu.

Aversão à idolatria

Desde a infância, ele nutria extrema aversão ao shirk, à idolatria e às suas manifestações e práticas. Mesmo em sua vida anterior à profecia, a impureza dessas coisas jamais o tocou. Em Bukhari, no capítulo dos méritos de Zayd ibn Amr ibn Nufayl, encontra-se um hadith narrado por Hadrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

Nele é relatado que, certa vez, ofereceram ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comida dedicada aos ídolos e carne de animais sacrificados em sua honra, mas ele se recusou a comê-las. No Musnad de Ahmad, Urwah ibn Zubayr narra: “Um vizinho de Hadrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse-me: Ouvi o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer, dirigindo-se a Hadrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela):

(Árabe******************)

— Ó Khadija! Juro por Allah que jamais adorarei Lāt e Manāt. Juro por Allah que jamais as adorarei.

Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Deixe Lāt e deixe Manāt.”

Depois de narrar esse acontecimento, o vizinho disse a Hadrat Urwah que os coraixitas adoravam esses dois ídolos antes de dormir, à noite. É possível que esse tenha sido um acontecimento do início da vida conjugal do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

A viagem à Síria e o episódio do asceta Bahira

Certa vez, Abu Talib partiu com uma caravana comercial para viajar à Síria. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) tinha então doze anos. Quando Abu Talib partiu, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) abraçou-o e, segundo o relato de Ibn Sa’d, disse: “Meu tio, a quem você me deixa? Não tenho pai nem mãe que cuide de mim.”

Com essas palavras, o coração de Abu Talib se enterneceu, e ele disse: “Juro por Deus, não o deixarei para trás, nem me afastarei dele. Ele irá comigo.”

Quando a caravana chegou a Busra, na região da Síria, e se instalou nas proximidades da igreja do asceta Bahira, ele saiu da igreja, contrariando seu costume. Na verdade, ele nunca saía da igreja para nenhuma caravana. Preparou comida para toda a caravana e convidou todos para a refeição. Todos os integrantes da caravana foram comer. Somente Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), por ser muito jovem, foi deixado no acampamento para vigiá-lo. Bahira perguntou:

— Todos vieram?

Eles responderam: “Somente um menino muito jovem foi deixado no acampamento para cuidar da bagagem.”

Bahira disse: “Não, chamem-no também.”

Um dos coraixitas disse: “Juro por Lat e Uzza, seria muito ruim para nós se Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) não participasse da refeição conosco.” Então ele foi buscar Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e o trouxe.

Depois de trazê-lo, Bahira começou a observá-lo com muita atenção e a examinar seu rosto e suas feições.

Depois da refeição, Bahira aproximou-se do menino Muhammad (S) e perguntou: “Ó menino, eu te conjuro por Lat e Uzza: responde corretamente a tudo o que eu te perguntar.”

O Profeta (S) respondeu: “Não me faça jurar por Lat e Uzza. Não sinto aversão maior por nada do que por eles.”

Ele disse: “Está bem; então, pelo amor de Allah, responde às perguntas que eu te fizer.”

O Profeta (S) respondeu: “Pergunte o que quiser.”

Então Bahira perguntou sobre o estado do Profeta (S), seu sono, sua constituição física e outras coisas, e o Profeta (S) continuou respondendo. Depois, Bahira deu voltas ao seu redor e examinou seu corpo. Em seguida, perguntou a Abu Talib: “Quem é ele para você?” Abu Talib respondeu: “Ele é meu filho.”

Bahira: “Seu pai não pode estar vivo.”

Abu Talib: “Ele é meu sobrinho.”

Bahira — O que aconteceu com o pai dele?

Abu Talib — O pai dele morreu quando ele ainda estava no ventre materno.

Bahira — Você disse exatamente a verdade. Leve seu sobrinho de volta para casa. Proteja-o dos judeus. Por Deus, se eles o virem e reconhecerem nele os sinais que eu reconheci, certamente lhe causarão algum mal. Pois seu sobrinho será um homem de grande importância.

Assim, Abu Talib concluiu rapidamente seus negócios e retornou ao país levando o Profeta (S).

Em torno desse acontecimento, os orientalistas construíram muitos palácios de fantasias ilusórias e consideram que os profundos conhecimentos manifestados pelo Profeta (S) após receber a profecia foram informações adquiridas dos ascetas cristãos. Além disso, também há entre nossas próprias narrações algumas que dão força a certas dessas fantasias. Não há nada de surpreendente se um asceta realizado, que tenha desenvolvido seu poder espiritual por meio da devoção, ao ver alguns sinais extraordinários de bênção, sentir que há uma grande personalidade nessa caravana e, depois de ver o Profeta (S), tiver sua conjectura confirmada. Também é possível que, considerando os judeus uma nação invejosa, ele tenha pensado que poderiam prejudicar uma grande personalidade que surgisse entre os árabes iletrados, por considerá-la uma ameaça para si mesmos; por isso, teria aconselhado Abu Talib a protegê-lo deles. Mas não é aceitável que ele tivesse concluído que aquele era o futuro profeta cuja vinda havia sido anunciada nas escrituras anteriores. Pois, por meio das profecias, certamente se sabia que viria um profeta cujo nome seria Maomé. Contudo, não era possível saber com certeza que o menino Maomé (S) era precisamente esse profeta.

Vejamos de modo geral as narrações registradas pelos muhaddithin e pelos biógrafos a esse respeito. Tirmidhi, Bayhaqi, Ibn Asakir, Hakim, Abu Nuaym, Abu Bakr al-Kharaiti e Ibn Abi Shaybah transmitiram, sob a autoridade de Abu Musa al-Ashari, que Bahira segurou a mão do Profeta (S) e disse: “Este é o Sayyid al-Mursalin, este é o Sayyid al-Alamin. Em breve, Deus Todo-Poderoso o enviará como Rahmat lil-Alamin.”

Perguntaram-lhe — segundo a narração de alguns muhaddithin, como Tirmidhi, os chefes dos coraixitas lhe perguntaram: “De onde você obteve o conhecimento de tudo isso?”

Bahira respondeu: “Quando vocês vinham em nossa direção, as árvores, as plantas, as colinas e as montanhas estavam prostradas. E ninguém, exceto um profeta, recebe a prostração dessas coisas. Além disso, pude ver e reconhecer o selo da profecia que ele traz nas costas, entre os dois ombros. Também encontramos sua menção em nossos livros.”

Então Bahira disse a Abu Talib que havia perigo por parte dos judeus. Por isso, leve-o de volta. Na narração que Ibn Abi Shaybah cita de Abu Musa al-Ashari, menciona-se que, quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) se dirigia à igreja, uma nuvem fazia sombra sobre ele. Também há uma narração segundo a qual, devido à insistência de Bahira, Abu Talib enviou o Mensageiro (que a paz esteja com ele) de volta a Meca com Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) tinha então dez anos, e Bilal era ainda mais jovem. Em segundo lugar, é muito estranho que Bilal tenha sido enviado, pois naquela época ele não tinha qualquer relação com os Banu Abd al-Muttalib que permitisse a Abu Talib contar com seus serviços. Também se diz sobre essa viagem que sete romanos partiram para matar o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e chegaram à igreja de Bahira. Bahira perguntou: “Por que vocês vieram?” Eles responderam: “Ficamos sabendo que este profeta viria para esta região neste mês. Por isso, enviaram-se pessoas em todas as direções, e nós viemos para cá.” Bahira perguntou: “O que vocês acham? Pode alguém impedir aquilo que Allah decretou?” Eles responderam: “Não.” Então abandonaram sua intenção.

O significado de tudo isso é que, quando tinha doze anos, o próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele), os coraixitas e até os governantes de Roma já haviam descoberto que o jovem Muhammad (que a paz esteja com ele) se tornaria um profeta.

Hafiz Ibn Hajar afirma, citando Sharaf al-Mustafa, de Abu Sa’id Nishapuri, no livro al-Isaba, que, treze anos após esse acontecimento, quando Muhammad (que a paz esteja com ele) foi à Síria levando as mercadorias comerciais de Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), encontrou Bahira pela segunda vez. Dessa vez, ele disse:(Árabe********************)

— Testemunho que não há divindade além de Allah e testemunho que tu és o Mensageiro de Allah, o Profeta iletrado cuja vinda foi anunciada por Jesus, filho de Maria.

Com base nisso, Ibn Mandah e Abu Nu’aym incluíram Bahira entre os Companheiros. Hafiz al-Dhahabi afirmou em Tajrid al-Sahaba que Bahira havia acreditado nele antes da chegada do Profeta.

Sobre a segunda viagem à Síria, também se afirma que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) permaneceu sob uma árvore em Busra, perto da igreja do monge Nestor. Nestor saiu e perguntou a Maisara, companheiro do Mensageiro (que a paz esteja com ele), quem estava sob a árvore. Ele respondeu: “Um homem dos coraixitas, habitante do Santuário.” Al-Waqidi e Ibn Ishaq dizem que Nestor respondeu: “Depois de Jesus (que a paz esteja com ele), ninguém permaneceu aqui sob esta árvore durante duzentos anos, exceto um profeta.” Abu Sa’id acrescenta em Sharaf al-Mustafa que, depois disso, Nestor se aproximou do Mensageiro (que a paz esteja com ele), beijou sua cabeça e seus pés e disse: “Testemunho que tu és o Mensageiro de Allah, o Profeta iletrado cuja vinda Jesus (que a paz esteja com ele) anunciou, dizendo: ‘Depois de mim, ninguém permanecerá sob esta árvore, exceto um profeta iletrado, hashimita, árabe, maquense, o detentor do Lago e da Intercessão e o portador do Estandarte do Louvor.’”

Maisara guardou na memória essa declaração. Depois, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi ao mercado de Busra para comprar e vender. Nessa ocasião, teve uma divergência com um homem sobre o preço de uma mercadoria. O homem disse: “Jura por Lat e Manat.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: “Jamais jurei por elas.” Então o homem disse: “Aceito o que dizes.” Depois, chamou Maisara discretamente e disse: “Ele é um profeta. Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: ele é o profeta cuja menção nossos sacerdotes encontram em seus livros.” Maisara também guardou essas palavras na memória.

Abu Nu’aym relata que, durante essa viagem, Maisara viu dois anjos fazendo sombra sobre o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Quando a caravana chegou a Meca, era meio-dia. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) estava então em seu aposento superior. Ela também viu o Mensageiro (que a paz esteja com ele) montado no camelo, com dois anjos fazendo sombra sobre ele. Outros, além de Abu Nu’aym, acrescentam que Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) mostrou essa cena às outras mulheres que estavam com ela, e elas ficaram maravilhadas. Depois, Maisara foi até Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e contou-lhe tudo o que havia visto. Também lhe contou o que Nestor havia dito e o que havia acontecido com um comerciante da Síria. Se todos esses relatos forem aceitos, seu significado será que, quinze anos antes, Muhammad (que a paz esteja com ele) soube que se tornaria um profeta. Maisara, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e muitas das mulheres coraixitas sentadas com ela também sabiam disso. Além disso, os integrantes da caravana coraixita com a qual Muhammad (que a paz esteja com ele) viajara para a Síria, assim como os habitantes de Meca, estavam cientes de que um anjo havia feito sombra sobre ele. Pois, quando Maisara, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e as mulheres que estavam com ela viram aquela cena, como poderia isso permanecer oculto dos demais?

Embora essas palavras tenham sido registradas com base nos relatos de sábios eruditos, ainda assim não são aceitáveis por várias razões. Primeiro: contradizem claramente o Alcorão, no qual se diz, dirigindo-se ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): (Árabe****************)

— Você jamais esperava que o Livro lhe fosse revelado (Al-Qassas: 86)

(Árabe**********************)

Você não sabia o que era o Livro, nem sabia o que era a fé — (Ash-Shura: 52).

Os dois versículos acima constituem uma prova irrefutável de que, antes de ser honrado com o grau da profecia, ele desconhecia completamente que seria feito profeta. Se aos doze anos já soubesse disso, e aos vinte e cinco anos essa certeza lhe tivesse sido novamente confirmada, não haveria razão para que não esperasse a revelação do Livro. Além disso, como poderia ter apagado da mente a ideia de que um dia teria de convidar as pessoas a abraçar a fé?

Além de contrariarem o Glorioso Alcorão, esses relatos também contradizem os relatos autênticos citados sobre o momento em que a primeira revelação foi enviada ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sobre seu estado físico e mental subsequente e sobre sua conversa com Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Como teria surgido o estado em que ele se encontrava naquela ocasião se soubesse, desde os vinte e cinco anos, que seria profeta? Nesse caso, a revelação teria ocorrido exatamente como ele esperava. Além disso, depois de ouvir o que acontecera em Hira, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) jamais teria dito o que disse se ele soubesse, havia quinze anos, que seria profeta. Nesse caso, ela teria dito apenas: “Aconteceu justamente o que eu esperava.”

Assim, esses relatos também contradizem toda a história que, segundo numerosos relatos transmitidos repetidamente, foi apresentada em Meca após o anúncio de sua profecia. Se o povo de Quraysh soubesse durante trinta e um anos que ele (Muhammad, que a paz esteja sobre ele) seria profeta, o anúncio de sua profecia não teria sido contrário às suas expectativas, e sua reação teria sido completamente diferente daquela que tiveram diante de um acontecimento inesperado.

A Guerra de Fijar

Agora voltamos novamente aos acontecimentos históricos.

Ibn Hisham afirma que a Guerra de Fijar ocorreu quando o Profeta (S) tinha entre catorze e quinze anos. [Segundo os relatos de Iqd al-Farid, Aghani e Jawhari, antes desta ocorreram três guerras de Fijar. O Venerável (S) participou da quarta Guerra de Fijar. Ibn Sa’d afirma que essa guerra ocorreu no Ano do Elefante. Jawhari escreveu em seu Sahih que os coraixitas deram a essa guerra o nome de Fijar porque ela ocorreu durante um mês sagrado. Como lutar durante um mês sagrado era um pecado, os coraixitas diziam: “Cometemos um pecado”. Por essa razão, essas quatro guerras ocorridas durante meses sagrados foram chamadas de “Guerra de Fijar” — autor.]

Ibn Ishaq, Ibn Sa’d, Baladhuri e Ibn Jarir al-Tabari afirmam que essa guerra ocorreu no vigésimo Ano do Elefante. [O Ano do Elefante foi aquele em que Abraha atacou Meca. Foi um acontecimento tão extraordinário que os árabes começaram a contar os anos e as datas a partir desse ano — autor.]

Segundo esse cálculo, o Venerável deveria ter vinte anos. Nesta guerra, de um lado estava a tribo de Banu Kinana, da qual os coraixitas também faziam parte, e do outro estava Qays Aylan, que incluía Thaqif, Hawazin e outras tribos. A causa da guerra foi a seguinte: um chefe dos Banu Hawazin chamado Urwa al-Rahhal concedeu proteção e abriu caminho para a caravana comercial de Ibn Mundhir chegar ao mercado de Ukaz sob sua própria proteção. Um chefe dos Banu Kinana chamado Barras ibn Qays perguntou: “Tu lhe concedes proteção contra Kinana?” Ele respondeu: “Sim, e contra o mundo inteiro”. Com isso, Barras ficou terrivelmente irritado. Depois, matou Urwa num lugar chamado Taiman, na região exterior de Najd. Quando os coraixitas estavam no mercado de Ukaz, receberam essa notícia. Imediatamente partiram em direção ao Santuário. Antes que entrassem nos limites do Santuário, os Hawazin os alcançaram, e a batalha continuou durante todo o dia. À noite, os coraixitas entraram nos limites do Santuário, e o Profeta (S) limitava-se a recolher as flechas que caíam do lado inimigo e entregá-las aos seus tios. Ibn Sa’d afirma que, mais tarde, o Profeta (S) dizia: “Teria sido melhor se eu não tivesse participado nem que fosse minimamente disso”. Suhayli afirma que o Profeta (S) acompanhou seus tios nessa guerra, mas não participou efetivamente dos combates. Antes de se tornar profeta, não participou de nenhuma outra guerra além desta. Tampouco adquiriu qualquer tipo de experiência militar. Isso mostra que ele estava livre das guerras e conflitos da época da Jahiliyyah. Também aprendemos com isso que a excepcional capacidade de liderança militar que ele demonstrou como profeta lhe foi concedida por Allah. Ele não era um comandante profissional; era um comandante nato.

“Hilf al-Fudul”

Quando o Santo Profeta (S) tinha vinte anos, algumas tribos dos coraixitas firmaram um pacto que era chamado de “Hilf al-Fudul”. Ao explicar, em sua obra Nihaya, a razão do nome desse pacto por meio da palavra “Fudul”, Ibn Athir afirma que, na época dos Jurhum, também havia sido firmado um pacto semelhante, cujos participantes se chamavam todos Fadl. Por isso, ele foi denominado Hilf al-Fudul. Porém, a verdadeira razão é aquela que Hafiz Ibn Kathir narrou, citando al-Humaydi, a partir de Muhammad e Abd al-Rahman, filhos de Hazrat Abu Bakr (ra). Ele afirma que o Profeta (S) disse: “Participei, na casa de Abdullah ibn Jud’an, de um pacto que eu aprovaria mesmo que, no Islã, me convidassem a firmar um pacto semelhante”. Em seguida, explicou esse pacto da seguinte maneira:

(Árabe********************)

Eles se comprometeram mutuamente a devolver o Fudul ao seu legítimo titular e a não permitir que o opressor cometesse abusos contra o oprimido. (Al-Bidaya wa al-Nihaya, vol. 2, p. 291).

O significado de ‘devolver os Fudul aos seus legítimos donos’ é que aquilo que algum opressor tenha tomado à força dos legítimos donos deve ser devolvido a eles, e não se deve permitir que o opressor persista em sua opressão.

Ibn Sa’d disse, a respeito desse pacto, que eles decidiram entre si apoiar os oprimidos e fazer com que seus direitos lhes fossem restituídos.

Ao relatar os termos do pacto, Ibn Hisham diz que eles não permitiriam que qualquer habitante de Meca ou estrangeiro fosse oprimido na cidade e que ajudariam o oprimido contra o opressor. Ibn Sa’d informou que esse pacto foi celebrado no dia 20 de Dhu al-Qa’da do Ano do Elefante. A razão foi que um homem de uma tribo chamada Zubaidi, no Iêmen, chegou a Meca trazendo algumas mercadorias. Um dos chefes de Meca, ‘As ibn Wa’il, comprou suas mercadorias, mas não pagou o preço. O pobre homem foi pedir ajuda, um por um, a membros dos Banu Abdud-Dar, Banu Makhzum, Banu Jumah, Banu Sahm e Banu Adi. Contudo, todos rejeitaram seu pedido com palavras ásperas e recusaram-se a ajudá-lo contra ‘As ibn Wa’il as-Sahmi. Depois de perder a esperança em todos, ao amanhecer ele subiu ao monte Abu Qubays e, em voz alta, dirigiu-se aos descendentes de Fihr, dizendo que havia sido injustiçado. O tio do Profeta, Zubair ibn Abdul Muttalib, respondeu, dizendo que não se podia deixar o assunto daquela maneira. Então reuniu os Banu Hashim, os Banu al-Muttalib, os Banu Asad ibn Abdul Uzza, os Banu Zuhrah e os Banu Taim na casa de Abdullah ibn Jud’an. Este era primo de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ali, todos juraram que, sempre que um oprimido, fosse habitante de Meca ou estrangeiro, sofresse uma injustiça, o ajudariam e fariam com que seu direito fosse obtido do opressor. Depois, todos foram juntos até ‘As, tomaram dele as mercadorias do zubaidita e as devolveram ao homem.

Muhammad ibn Ishaq narra, citando o Imam Zuhri, que o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Participei, na casa de Abdullah ibn Jud’an, de um pacto pelo qual, mesmo que me oferecessem um camelo vermelho em troca, eu não o aceitaria. Ainda hoje, na era islâmica, se eu for convidado a participar de um pacto desse tipo, aceitarei.”

A participação nos negócios de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela)

Desde a infância, a capacidade natural de trabalho do Profeta (que a paz esteja com ele), conhecida em um círculo limitado, foi-se desenvolvendo: sua cortesia, confiabilidade e probidade, amor à verdade, caráter afável, honestidade, seriedade, inteligência, autocontrole, paciência e dignidade, generosidade e qualidades de liderança — em suma, cada uma de suas nobres virtudes continuava a amadurecer. Por isso, ele passou a despertar profunda reverência e confiança no coração das pessoas, e sua influência sobre elas também se ampliava. Foi nesse período que Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) decidiu associá-lo aos seus negócios.

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) recebeu entre os coraixitas o título de “Tahera” por sua castidade e caráter puríssimo. Tahera significa pura e imaculada. Toda a tribo a considerava com grande respeito por sua inteligência, visão, caráter elevado e diversas virtudes. Além disso, Allah, o Altíssimo, também lhe concedera o dom da beleza física. Nenhuma mulher dos coraixitas era mais bela do que ela. Muitas vezes, as caravanas comerciais da maior parte dos coraixitas dependiam exclusivamente de seus bens. Seu primeiro casamento foi com Abu Hala ibn Zurara at-Tamimi. Desse casamento nasceram dois filhos, Hind e Hala. Ambos tornaram-se muçulmanos na época do Profeta. Após a morte de Abu Hala, ela se casou com Utaik ibn Abd al-Makhzumi. Desse casamento nasceu uma filha, Hind. Mais tarde, na época da missão profética, ela também se tornou muçulmana. [Segundo alguns, Utaik foi o primeiro marido e Abu Hala o segundo — autor.] Após a morte do segundo marido, ela permaneceu viúva. Muitos chefes coraixitas manifestaram desejo de casar-se com ela, mas ela recusou-se a atender ao desejo deles. Ela fazia negócios com seus próprios bens e enviava, de tempos em tempos, alguém com suas mercadorias junto às caravanas comerciais; essa pessoa recebia a parte que lhe havia sido determinada.

Quando Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) soube da honestidade, confiabilidade e caráter elevado do Profeta (que a paz esteja com ele), disse-lhe: “Leve minhas mercadorias comerciais para a Síria. Dar-lhe-ei uma parcela do lucro maior do que a que dou aos outros.”

Este é o relato de Ibn Ishaq.

O segundo relato é citado por Ibn Sa‘d, com base em Nufaysa bint Munayya, cuja descrição detalhada foi apresentada por Zurqani. Ei-la: Abu Talib disse ao Profeta (s): “Sobrinho, não sou um homem rico. Nossa situação está piorando, e não temos mercadorias para o comércio. Está próximo o momento da partida da caravana que teu povo envia à Síria. Khadija também deseja enviar suas mercadorias com essa caravana, confiando-as a alguém. Se fores falar com ela, ela te dará preferência em relação aos outros, pois conhece teu excelente caráter.”

O Profeta (s) disse: “Temo que ela escolha outra pessoa.”

Hazrat Khadija (r) ficou sabendo dessa conversa entre tio e sobrinho. Contudo, acabou prevalecendo justamente a proposta do Profeta (s), pois ela já lhe havia enviado primeiro a proposta comercial mencionada acima por Ibn Ishaq.

Há um relato no Tabaqat de Ibn Sa‘d, citado com base em Muhammad ibn Aqil. Diz-se que Abu Talib foi até Hazrat Khadija (ra) e lhe disse: “Khadija, preferes que, em vez de contratar outra pessoa para cuidar de teus negócios, eu acerte isso com Muhammad (s)?”

Khadija respondeu: “Se você tivesse falado de algum homem distante e desagradável, eu aceitaria. Mas falou de alguém que é um amigo próximo.”

Em suma, ficou acertado o negócio do Profeta (s) com Hazrat Khadija (ra), e ela enviou seu escravo Maisara com o Profeta (s) à Síria para tratar dos negócios. Essa viagem começou nos dias 15 ou 16 do mês de Dhu al-Hijjah do 25.º ano do Ano do Elefante. Durante o caminho, Maisara ficou profundamente impressionado com o caráter, a conduta e as nobres qualidades do Profeta (s). Ao retornar, contou detalhadamente tudo a Hazrat Khadija. O Profeta (s) obteve um êxito extraordinário no comércio. Citando Nufaysa bint Man‘iyya, Ibn Sa‘d diz que o Profeta (s) trouxe para Khadija o dobro do lucro que os outros costumavam obter para ela e que lhe entregou o dobro do lucro que Hazrat Khadija (ra) havia prometido dar-lhe. [Além desta viagem, também são encontrados nos livros de hadith e de sira relatos de outras viagens do Profeta (s). Nessas viagens, ele teve a oportunidade de ver pessoalmente muitas regiões da Arábia. Em seu Mustadrak, Hakim menciona duas viagens do Profeta (s) a Jurash, o famoso centro comercial do Iêmen, e o Imam Dhahabi (r) confirmou esse relato. Consta no Musnad de Ahmad que, quando uma delegação de Abd al-Qays, vinda do Bahrein, chegou a Meca, o Profeta (s) mencionou o nome de cada local daquela região e perguntou sobre sua situação. Quando as pessoas demonstraram espanto, ele disse: “Percorri e conheci muito bem a vossa terra.” Deve-se observar que, naquela época, toda a costa marítima oriental da Arábia era chamada de Bahrein; não se tratava da ilha conhecida atualmente por esse nome. — Autor.]

O casamento com Hazrat Khadija (ra)

Na longa viagem de Meca à Síria e da Síria a Meca, Maysara desfrutou da companhia do Profeta Mustafá (que a paz esteja com ele) dia e noite e, depois de observar todos os aspectos de sua vida, ficou profundamente ligado a ele. Depois de ouvir tudo de Maysara, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) decidiu casar-se com o Profeta (que a paz esteja com ele). Embora antes disso ela não desconhecesse o Profeta (que a paz esteja com ele) e também ouvisse falar das suas qualidades, que se difundiam entre o povo dos coraixitas, agora decidiu que não encontraria marido melhor do que ele. Há algumas divergências nas narrativas sobre como o casamento foi definitivamente acertado.

Ibn Ishaq diz que Khadija falou diretamente com o Profeta (que a paz esteja com ele). Ela disse: “Ó sobrinho, por causa do seu parentesco, da sua lealdade, honestidade, nobre caráter, nobreza e qualidades louváveis, desejo unir-me a você pelo vínculo do casamento.” (Safiyya, tia paterna do Profeta (que a paz esteja com ele), era esposa do irmão de Khadija e mãe de Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele), segundo o autor.)

A segunda narrativa foi citada por Ibn Sa’d, com base em Nafisa bint Munayya. (Alguns autores disseram bint Umayya, mas bint Munayya é a forma correta. Ela abraçou o Islam depois da conquista de Meca, segundo o autor.) Nafisa diz: antes de Khadija manifestar o desejo de casar-se, ela me enviou até Muhammad (que a paz esteja com ele) para saber o que ele pensava. Fui até ele e disse: “Ó Muhammad (que a paz esteja com ele), por que você não se casa?” Ele respondeu: “O que possuo para me casar?”

Eu disse: “Isso já foi providenciado. Está sendo feita a você uma proposta de casamento com uma mulher que possui beleza, riqueza, nobreza e qualidades. Você a aceitará?”

Ele perguntou: “De quem você está falando?”

Eu respondi: “De Khadija.”

Ele perguntou: “Como eu poderia casar-me com ela?”

Eu disse: “Deixe essa responsabilidade comigo.”

Ele disse: “Se é assim, então estou de acordo.”

Depois, Hazrat Khadija enviou uma mensagem e pediu que ele viesse no horário marcado para o casamento. Ela pediu a seu tio Amr bin Asad que viesse para realizar o casamento.

Como o pai de Hazrat Khadija, Khuwailid, havia falecido, Amr bin Asad veio representando-a, enquanto o Profeta (s.a.w.) veio acompanhado de seu tio Hazrat Hamza e de Abu Talib.

Depois, o casamento foi realizado [Ibn Sa’d diz: segundo nossa pesquisa, são todas falsas as narrativas que afirmam que o casamento de Khadija foi realizado por seu pai, Khuwailid. Ainda mais inverossímil é a narrativa segundo a qual deram vinho a Khuwailid e ele realizou o casamento em estado de embriaguez. Ao recuperar a consciência, ele teria ficado muito irritado. Em nossa opinião, o que foi comprovado e preservado pelos eruditos é que Khuwailid morreu antes da Guerra de Fijar e que o tio de Khadija, Amr bin Asad, realizou seu casamento. O autor.]

No casamento estiveram presentes Hazrat Abu Bakr (r.a.), os chefes da tribo de Mudar e os líderes dos coraixitas. Como dote, o Huzur (s.a.w.) deu vinte camelos. [Segundo algumas narrativas, o dote foi de 8 dinares; segundo outras, de 500 dirrãs — o autor.

Ibn Abd al-Barr diz que esse casamento ocorreu dois meses e cinquenta e cinco dias depois do retorno do Huzur (s.a.w.) da viagem à Síria. Ele tinha então vinte e cinco anos, e Hazrat Khadija, quarenta.

[Veja Istederak, p. 128.

(Na época do casamento, o Huzur (s.a.w.) e Hazrat Khadija tinham quarenta anos. Contudo, em algumas narrativas raras, afirma-se que a idade do Huzur (s.a.w.) era de vinte e um, vinte e nove, trinta ou trinta e sete anos, e que a idade de Hazrat Khadija (r.a.) era de vinte e cinco, vinte e oito, trinta, trinta e cinco ou quarenta e cinco anos. A maioria dos eruditos não aceitou isso. Alguns, porém, deram preferência à narrativa de que a idade de Hazrat Khadija era de vinte e cinco a trinta anos, pelo motivo de que não seria possível uma mulher de quarenta anos dar à luz seis filhos. Pois, se houvesse em média um intervalo de um ano e meio entre cada filho, o último deveria ter nascido quando ela tivesse quarenta e nove anos. E, se também forem aceitas as narrativas que mencionam o nascimento de filhos no ventre de Hazrat Khadija depois da profecia, então nessa época ela deveria ter cinquenta e seis anos. Isso está completamente além da imaginação. Em nossa opinião, esse argumento não é intelectualmente correto. Na ciência médica feminina (GYNAECOGY), uma obra autorizada, escrita sob a supervisão de dez professores () dessa área, a décima segunda edição apresenta a seguinte opinião baseada em pesquisas sobre esse assunto:)

A menstruação geralmente cessa entre os quarenta e oito e os cinquenta e dois anos de idade. Porém, muitas vezes, o momento da cessação da menstruação pode atrasar-se até os cinquenta e cinco anos, ou mesmo por mais tempo. Por outro lado, em alguns casos, a menstruação cessa aos quarenta anos, ou até antes disso. Quando a mulher atinge a puberdade cedo, a cessação da menstruação ocorre mais tarde; e, quando a menstruação começa tarde, cessa mais cedo. Obra citada, p. 101.

Com base nessa opinião médica, não é de modo algum surpreendente que um filho tenha nascido do ventre de Hazrat Khadija (ra) quando ela tinha entre cinquenta e cinquenta e seis anos. Foi relatado que, quando Hazrat Fatima (ra) nasceu, o Profeta Mustafa (s) tinha quarenta e um anos e Hazrat Khadija (ra) tinha cinquenta e seis anos.]

Os filhos do Profeta (s) nascidos do ventre de Hazrat Khadija

Todos os filhos do Profeta (s) nasceram do ventre de Hazrat Khadija (ra). Somente Hazrat Ibrahim (ra) nasceu de Maria Qibtiyya (ra). Do ventre de Khadija (ra) nasceram dois filhos e quatro filhas, a saber: (1) Qasim (ra), por causa de quem o Profeta (ra) era chamado Abu’l-Qasim; (2) Abdullah (ra), que também era chamado Tayyib e Tahir; (3) Hazrat Zaynab (ra); (4) Hazrat Ruqayya (ra); (5) Hazrat Umm Kulthum (ra); e (6) Hazrat Fatima (ra). Há divergência quanto à ordem de idade entre elas. Sabe-se, porém, que, quando Hazrat Zaynab (ra) nasceu, o Profeta (s) tinha vinte e cinco anos (al-Isaba), e que Hazrat Fatima (ra) nasceu quando o Profeta tinha quarenta e um anos (Shah-e Muzahir). Também está comprovado pela história que, no quinto ano da missão profética, quando ocorreu a primeira migração para a Abissínia, Hazrat Ruqayya (ra) migrou com seu marido, Hazrat Uthman (ra). Isso significa que ela era dois anos mais nova que Hazrat Zaynab (ra); portanto, já era casada no quinto ano da missão profética.

A detestável insolência de um grupo

Algumas pessoas, sem temer a Deus, afirmam abertamente que o único filho de Hazrat Khadija (ra) com o Profeta (s) foi Hazrat Fatima (ra), e que as demais filhas não nasceram da união com o Profeta, mas de seu casamento anterior. Contudo, isso é claramente negado pelo Alcorão.

(Árabe********************)

Dize: «Ó Profeta, fala às tuas esposas e às tuas filhas» (Al-Ahzab). Está inequivocamente comprovado pela história que Maria Qibtiyya (ra) não teve, da união com o Profeta (s), nenhum filho além de seu filho Ibrahim. Essas palavras expressam que o Profeta (s) não tinha apenas uma filha, mas várias. Também está comprovado pela história que, além de Maria Qibtiyya (ra), nenhuma outra esposa do Santo Profeta teve um filho dele. Portanto, todas essas filhas nasceram certamente do ventre de Hazrat Khadija (ra). Cegas pelo ressentimento, essas pessoas não refletem sobre o enorme pecado que cometem ao negar os filhos do Mensageiro e sobre a severa prestação de contas que terão de enfrentar por isso na vida futura. Todas as fontes confiáveis de transmissão concordam que Hazrat Khadija (ra) não teve do Profeta (s) apenas uma filha, Hazrat Fatima (ra), mas também outras três filhas. Muhammad ibn Ishaq, o mais antigo biógrafo do Profeta (s), após mencionar o casamento do Profeta (s) com Hazrat Khadija (ra), diz que, exceto Ibrahim (ra), todos os filhos do Profeta (s) nasceram do ventre dela. Seus nomes eram Tahir (Tayyib), Zaynab (ra), Ruqayya (ra), Umm Kulthum (ra) e Fatima (ra) (Sirat Ibn Hisham, volume I, p. 202).

O célebre genealogista Hisham ibn Muhammad ibn al-Sa’ib al-Kalbi citou, com base no relato de Hazrat Abdullah ibn Abbas (ra), que, antes da missão profética, em Meca, Qasim (ra) foi o primeiro a nascer da união do Profeta (s). Depois dele nasceram, sucessivamente, Zainab (ra), Ruqayya (ra), Fátima (ra) e Umm Kulthum (ra). Após o início da missão profética, nasceu Abdullah (ra), que também era chamado de Tayyib e Tahir. A mãe de todos eles foi Hazrat Khadija (ra) — Tabaqat de Ibn Sa’d, vol. 1, p. 133.

Ibn Hazm afirmou em Jawami‘ al-Sira que Hazrat Khadija deu à luz quatro filhas do Mensageiro. A mais velha era Hazrat Zainab (ra), seguida por Ruqayya (ra), depois Fátima (ra) e, por fim, Umm Kulthum (ra) (pp. 38–40).

Al-Tabari, Ibn Sa’d, Abu Ja‘far ibn Habib, autor de Kitab al-Mujassar, e Ibn Abd al-Barr, autor de al-Isti‘ab, narraram por fontes confiáveis que, antes do Profeta (s), Hazrat Khadija teve dois maridos. Um deles foi Hala al-Tamimi, de quem nasceram Hind e Hala. O segundo marido foi Atiq ibn Abid al-Makhzumi, de quem nasceu uma filha chamada Hind. Depois disso, ela se casou com o Mensageiro (s). Todos os especialistas em genealogia concordam que os quatro filhos acima mencionados nasceram de sua união com ele. (Al-Tabari, vol. 2, p. 11; Tabaqat de Ibn Sa’d, vol. 8, pp. 14–16; Kitab al-Mujassar, pp. 78, 79 e 452; al-Isti‘ab, vol. 2, p. 718, consulte-se.) Al-Bayhaqi, citando Mus‘ab ibn Abdullah al-Zubayri, afirma que o filho mais velho do Mensageiro de Allah (s) era Qasim (ra), seguido, respectivamente, por Zainab (ra), Abdullah (ra), Umm Kulthum (ra), Fátima (ra) e Ruqayya (ra). Yunus ibn Bukayr, citando o relato de Ibn Abbas (ra), afirma que Hazrat Khadija deu à luz, do Profeta (s), dois filhos e quatro filhas: al-Qasim (ra), Abdullah (ra), Umm Kulthum (ra), Zainab (ra), Ruqayya (ra) e Fátima (ra). Abd al-Razzaq, em sua obra al-Musannaf, citando Ibn Jurayj, afirma que Hazrat Khadija deu à luz, do Mensageiro (s), dois filhos, Abdullah (ra) e Qasim (ra), e quatro filhas. Entre elas, a mais velha era Zainab (ra) e a mais nova, Fátima (ra).

Todos esses relatos demonstram de modo conclusivo, em conformidade com a descrição do Alcorão Sagrado, que o Mensageiro (s) não tinha uma única filha; tinha, ao contrário, quatro.

Vida conjugal

Embora houvesse uma diferença de quinze anos entre as idades do Profeta (s) e de Khadija (ra), após o falecimento de Hazrat Khadija, o Profeta (s) continuou a lembrá-la por toda a vida.

Em al-Bukhari foi citado um relato de Hazrat Ali (ra). Nele, afirma-se que o Profeta (s) disse:

(Árabe***************)

Um significado disso é que Maria foi a mais excelente mulher da sua comunidade, enquanto Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a mais excelente mulher desta comunidade. Contudo, no Sahih Muslim, citando Waki, isso foi dito; e, ao dizê-lo, Waki apontou para o céu e para a terra e citou estas palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O sentido é que Waki, ou aqueles por intermédio de quem isso chegou até ele, todos entenderam que essas duas eram as melhores mulheres do mundo. Há uma narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) no Sahih al-Bukhari, na qual ela diz: “Entre as esposas do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não sinto ciúmes de nenhuma como sinto de Hazrat Khadija. Embora ela tenha falecido antes de eu me casar, isso se deve ao fato de eu frequentemente ouvir o Profeta mencionar o nome dela. Sempre que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sacrificava uma cabra, enviava necessariamente parte da carne às amigas de Hazrat Khadija.” Em outra narração do Sahih al-Bukhari, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) diz: “Certa vez, Hala bint Khuwaylid, irmã de Hazrat Khadija, veio e pediu permissão para entrar. Ao ouvir sua voz, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou profundamente comovido e disse: (**********)

(Por Allah, é Hala!), pois sua voz era semelhante à voz de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela).

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) diz: “Fiquei muito aborrecida com isso e disse: ‘O senhor se lembra tanto de uma mulher idosa dos coraixitas, embora ela tenha falecido há muito tempo e Allah lhe tenha dado uma esposa melhor do que ela?’”

Há uma narração no Musnad de Ahmad e no de Tabarani em que Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) diz: “Com isso, o Mensageiro ficou irado; e, vendo sua ira, jurei: ‘Pelo Deus que o enviou com a verdade, doravante, quando eu mencionar o nome dela, só o farei com benevolência.’”

Ibn Sa’d diz que, na Batalha de Badr, Abu al-As, genro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), também foi capturado. Hazrat Zaynab, filha do Profeta, encontrava-se então em Meca. Para libertar o marido, ela enviou um resgate, entre cujos itens estava o colar que Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) lhe dera como presente por ocasião do casamento de Zaynab com Abu al-As, ainda na época da ignorância. Assim que viu aquele colar, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou enternecido. Ele disse aos seus companheiros: “Se acharem conveniente, libertem sem resgate o prisioneiro de Zaynab e devolvam também o resgate dela.” Todos concordaram, e Abu al-As foi libertado sem pagar resgate.

Al-Baladhuri cita, em Ansab al-Ashraf, uma narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), dizendo que uma mulher de pele escura foi à presença do Profeta. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) cumprimentou-a cordialmente, com grande alegria. Depois que ela partiu, eu, Hazrat Aisha, perguntei: “Por que o senhor ficou tão feliz com a visita dela?” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Ela costumava visitar frequentemente Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela).” Isso permite avaliar quão profundo era o amor do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por Hazrat Khadija, amor que permaneceu intacto em seu coração durante toda a vida, mesmo depois da morte dela.

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) viveu como esposa do Profeta durante quinze anos antes da missão profética e dez anos depois dela. Ela faleceu no décimo ano da missão profética, quando o Profeta tinha cinquenta anos e ela, sessenta e cinco. Contudo, o Profeta passou toda a sua juventude com essa única esposa idosa. Naquele período, jamais lhe ocorreu pensar em outra mulher. Naquela época, entre os árabes, não havia absolutamente nada de censurável em um homem ter mais de uma esposa. As mulheres tampouco faziam oposição a isso. Na própria família de Hazrat Khadija, assim como em todas as famílias dos coraixitas, encontram-se muitos exemplos de homens que tinham mais de uma esposa. Apesar disso, o fato de o Profeta ter permanecido satisfeito e contente, até os cinquenta anos, vivendo conjugalmente com uma única esposa, que já tinha sessenta e cinco anos, constitui uma resposta contundente aos críticos que qualificam, Deus me livre, os vários casamentos do Profeta durante os últimos dez anos de sua vida como satisfação de seus desejos carnais. Mais adiante, discutiremos as razões pelas quais ele se casou com diferentes mulheres no fim de sua vida.

A era da prosperidade e a nobreza de caráter do Santo Profeta

Depois de contrair matrimônio com Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), a situação financeira do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) melhorou. No início, Hazrat Khadija administrava seus negócios com a ajuda de outras pessoas, e os lucros eram pequenos. Isso porque, considerando o caráter das demais pessoas, não se podia esperar que comprassem e vendessem as mercadorias alheias com plena honestidade e boa-fé. Porém, quando seus negócios passaram às mãos de um homem tão absolutamente digno de confiança e sábio como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que, por ser seu marido, naturalmente lhe desejava o maior bem, seus negócios prosperaram grandemente, e a seguinte declaração de Allah, o Altíssimo, manifestou-se literalmente:

(Árabe*******************)

E Ele o encontrou pobre e depois o enriqueceu (Ad-Duha, 8).

Nessa época, as qualidades do nobre Profeta — sua honestidade, confiabilidade, extrema dedicação e veracidade em suas atividades e transações, sua caridade, ajuda e cuidado para com os parentes, auxílio aos necessitados, sustento dos pobres, sabedoria, inteligência e outras virtudes — tornaram-se tão manifestas para todo o povo de Quraysh e para as tribos das regiões vizinhas que aquilo que antes permanecera oculto por falta de oportunidade para se revelar passou a ser evidente. Sua posição na sociedade elevou-se tanto, não apenas no aspecto moral, mas também no material, que ele passou a ser considerado um dos chefes de Quraysh. As pessoas desenvolveram tamanha confiança nele que começaram a confiar-lhe seus bens valiosos. Essa situação continuou inclusive quando, após o anúncio da profecia, o povo de Meca passou a ter sede do sangue do Profeta. Apesar de nutrirem extrema inimizade contra ele, continuavam deixando todos os seus depósitos sob sua custódia. Foi por isso que, no momento da Hégira, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) teve de permanecer em Meca, para devolver os bens confiados ao Profeta por todas aquelas pessoas. Isso constitui uma prova clara de que, não apenas antes do anúncio da profecia, mas também depois dele, a imagem de sua integridade e confiabilidade estava gravada até mesmo no coração dos inimigos do Islam, e eles o consideravam o homem mais digno de confiança entre todos.

Ele era tão escrupuloso nos assuntos comerciais que um de seus sócios da época da Jahiliyyah testemunhou que ele era o melhor dos sócios. Esse homem também testemunhou que ele jamais enganou, fraudou ou discutiu. Seu nome é apresentado de formas diferentes em diversos relatos. No Al-Isti’ab, de Ibn Abd al-Barr, seu nome é mencionado como Qays ibn as-Sa’ib Uwaymir al-Makhzumi. Em alguns relatos do Musnad de Ahmad, aparece como as-Sa’ib ibn Abdullah al-Makhzumi, e em outros, como as-Sa’ib ibn Abi as-Sa’ib. Em Abu Dawud (Kitab al-Adab, capítulo sobre a reprovação das discussões), seu nome é mencionado simplesmente como as-Sa’ib. O próprio relato dele foi citado: Quando compareci à presença do Mensageiro de Allah, as pessoas começaram a elogiar-me. Ele disse: “Eu o conheço muito melhor do que vocês.” Eu disse: “Que meus pais sejam sacrificados por você, você falou a verdade. Você foi meu sócio nos negócios, mas sempre manteve as transações claras; jamais enganou nem discutiu.”

Em Abu Dawud há também um relato de outro homem, Abdullah ibn Abi al-Khamsa. Ele conta: Certa vez, na época da Jahiliyyah, combinei uma transação de compra e venda com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Algumas questões foram acertadas, enquanto outras permaneceram pendentes. Eu disse: “Voltarei a este lugar para encontrar-me com você.” Depois esqueci-me disso. Três dias mais tarde, lembrei-me do combinado. Então fui ao local e descobri que ele ainda estava ali. Ele disse: “Ó jovem, você me causou grande sofrimento; estou esperando por você aqui há três dias.” (Kitab al-Adab, capítulo sobre o cumprimento das promessas).

O episódio de Zayd ibn Harithah

O episódio que oferece o maior testemunho do nobre caráter do Profeta é o de Zayd ibn Harithah. Ele era filho de um homem chamado Harithah ibn Shurahbil (ou Sharahbil), da tribo de Kalb. Sua mãe, Su’da bint Tha’labah, era do clã Mayana, um ramo da tribo Tayy. Quando ele tinha oito anos, sua mãe levou-o à casa de seu pai. Ali, um grupo de homens de Banu Qayn ibn Jasr lançou um ataque repentino contra as tendas deles. Depois de saquearem o acampamento, Zayd estava entre aqueles que levaram cativos. Em seguida, venderam-no na feira de Ukaz, próxima de Ta’if; o comprador foi Hakim ibn Hizam, sobrinho de Khadija. Ele levou Zayd a Meca e ofereceu-o como presente à sua tia, Hazrat Khadija. Quando Hazrat Khadija se casou com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Zayd encontrava-se ali. O Profeta gostou tanto de seu caráter, comportamento e maneiras que pediu-o a Hazrat Khadija. Assim, esse menino afortunado passou a servir uma personalidade tão elevada que Allah, o Altíssimo, pretendia tornar Profeta poucos anos depois. Naquele momento, Hazrat Zayd tinha quinze anos. Algum tempo depois, seu pai e seu tio descobriram que ele estava em Meca.

Depois de procurarem, encontraram-no junto do Profeta. Disseram ao Profeta: “Aceite o valor do resgate que desejar e devolva-nos nosso filho.”

O Profeta (S) disse: “Está bem, vou chamá-lo e deixá-lo escolher se quer ir com vocês ou permanecer comigo. Se ele quiser ir com vocês, não aceitarei resgate algum e o deixarei partir assim mesmo. Mas, se quiser permanecer comigo, não sou alguém que expulsaria sem motivo quem deseja ficar comigo.”

Eles disseram: “Isso é ainda melhor do que a justiça; chame o menino e pergunte-lhe.”

O Profeta (S) chamou Zayd e perguntou: “Você conhece estes dois homens?”

Zayd respondeu: “Sim, este é meu pai e aquele é meu tio.” O Profeta (S) disse: “Muito bem, você conhece tanto a eles quanto a mim. Agora você está completamente livre. Se quiser, vá com eles; se quiser, permaneça comigo.” Zayd disse: “Não quero deixar o senhor para ir com ninguém.”

O pai e o tio de Zayd disseram: “Zayd, você está preferindo a escravidão à liberdade? E quer deixar seus próprios pais para permanecer com outra pessoa?”

Zayd respondeu: “Vi as qualidades deste grande homem e, à luz de sua experiência, não posso preferir ninguém do mundo a ele.”

Ao ouvirem a resposta de Zayd, seu pai e seu tio concordaram. O Profeta (S) imediatamente libertou Zayd. Em seguida, foi ao Haram Sagrado e declarou diante do povo: “Sejam testemunhas: a partir de hoje, Zayd é meu filho; ele será meu herdeiro, e eu serei seu.”

Com base nessa declaração, as pessoas começaram a chamá-lo de Zaid bin Muhammad (s). Esses acontecimentos ocorreram antes da missão profética. Quando o Profeta foi investido do grau de profeta, já haviam se passado quinze anos desde que Hazrat Zaid estava a serviço do Profeta. Ele tinha trinta anos quando abraçou a fé.

Hazrat Ali (r.a.) sob a tutela do Profeta (s)

Ele se lembrou da bondade, do carinho e do afeto que seu tio Abu Talib lhe havia demonstrado desde a infância até a juventude. Ibn Ishaq relata que, certa vez, os preços dos produtos subiram exorbitantemente em Meca e nas regiões vizinhas. O Profeta (s) pensou que a situação financeira de seu tio era muito ruim e que ele tinha muitos filhos. Era preciso fazer algo para aliviar seu fardo. Assim, foi até seu outro tio, Hazrat Abbas, que era próspero, e disse: “A família de seu irmão é muito grande, e sua situação financeira também não é boa. Você vê a extrema dificuldade em que as pessoas se encontram por causa do aumento dos preços. Vamos conversar com ele para aliviar seu fardo. Assuma a responsabilidade pelo sustento de um de seus filhos, e eu assumirei a de outro.”

Hazrat Abbas concordou, e tio e sobrinho foram juntos até Abu Talib e expuseram sua intenção. Ele disse: “Deixem comigo Aqil — ou, segundo Ibn Hisham, Talib — e levem qualquer um dos outros que preferirem.” Assim, o Profeta (s) levou Hazrat Ali consigo, e Hazrat Abbas (r.a.) levou Hazrat Jafar (r.a.). Hazrat Ali (r.a.) era o mais novo de todos. Jafar, Aqil e Talib eram todos dez anos mais velhos que ele; além deles, Abu Talib também tinha outros filhos.

Desse modo, Hazrat Ali (r.a.) veio para a tutela do Profeta ainda na infância. O Profeta (s) e Hazrat Khadija (r.a.) cuidaram dele como se fosse seu próprio filho. É provável que Hazrat Ali não tivesse então mais de quatro ou cinco anos.

A reconstrução da Caaba

Quando o Profeta (s) tinha trinta e cinco anos, faltando apenas cinco anos para receber a missão profética, os coraixitas decidiram reconstruir a Caaba. Isso porque o edifício estava extremamente deteriorado e, devido às inundações, ameaçava desabar. As paredes eram muito baixas, não havia telhado, e a alvenaria consistia apenas em pedras empilhadas umas sobre as outras. Elas não estavam unidas por nenhum material. A porta também ficava no nível do chão. Os tesouros da Caaba estavam guardados num buraco escavado dentro do edifício. Algumas pessoas pulavam o muro, chegavam até lá e roubavam os tesouros. Antes da decisão de reconstruí-la, um escravo dos Banu Mulayh, chamado Duwayq, havia roubado os tesouros da Caaba, ou talvez um ladrão os tivesse deixado sob sua guarda. Os bens roubados foram recuperados com ele. [Ibn Athir afirma que três pessoas eram suspeitas do roubo. Uma delas era Abu Lahab, mas, como os bens foram encontrados com Duwayq, foi ele quem recebeu a punição — o autor.]

Por essas razões, os coraixitas queriam construir um edifício alto e sólido, com um telhado. Naquela época, o navio mercante de um comerciante romano foi despedaçado pelas ondas revoltas do mar e por uma violenta tempestade: segundo Ibn Ishaq, no porto de Jidá; segundo Ibn Sa’d, no porto de Shu’aybah, que ficava a leste de Jidá. A bordo estava um arquiteto romano chamado Baqum. Havia também em Meca um carpinteiro copta que trabalhava com madeira. Ao saberem da destruição do navio, Alid bin Mugira foi até lá com alguns coraixitas e comprou a madeira do navio. Depois de conversar com Baqum, convenceu-o a realizar a construção da Caaba. Então Abu Wahab bin Amr bin Ayas, um homem dos Banu Makhzum — que era tio materno do pai do Profeta — levantou-se, retirou uma pedra da Caaba e a recolocou em seu lugar, dizendo: “Ó coraixitas! Empreguem nesta construção o dinheiro de seus ganhos lícitos. Que ninguém utilize nela dinheiro obtido por adultério, juros ou opressão.”

Há também outra narrativa, segundo a qual: “Não empregareis na construção desta Casa qualquer riqueza que tenhais obtido pela força, rompendo os laços de parentesco ou violando responsabilidades mútuas.” [Esta é a narrativa de Ibn Ishaq. Musa ibn Uqba, em sua obra sobre as campanhas militares, afirmou que a declaração acima foi feita por al-Walid ibn al-Mughira — autor.]

Entretanto, o povo de Quraysh tinha muito medo de demolir a Casa da Caaba. Por fim, al-Walid ibn al-Mughira pegou uma picareta para demolir a antiga construção e disse: “Ó Allah! Não nos desviamos da religião. Não estamos demolindo esta Casa senão para o bem.” Depois dessas palavras, golpeou uma parte da Caaba e parou. Então as pessoas aguardaram durante toda a noite, para ver se alguma calamidade se abateria sobre al-Walid. Disseram: “Se alguma calamidade ocorrer, interromperemos o trabalho e recolocaremos no lugar as pedras que foram retiradas. Se nada acontecer, continuaremos o trabalho.” Quando amanheceu sem que nenhuma calamidade tivesse atingido al-Walid, diferentes tribos assumiram a responsabilidade pela demolição de diferentes partes. As paredes foram demolidas até os alicerces construídos por Ibrahim (a). Depois, pessoas de todas as tribos participaram da construção, transportando as pedras. [Devido à escassez de materiais nessa nova construção, uma parte da Caaba foi deixada do lado de fora e um muro foi erguido ao seu lado, para que se soubesse que ela fazia parte da Caaba. Essa área é chamada de Hijr e também de Hatim. Hajar e Ismail (a) foram sepultados nesse local (Ibn Hisham). Ibn Sa‘d afirma que os coraixitas deixaram a porta da Casa de Allah tão grande quanto ainda é hoje. Eles a abriam às segundas e quintas-feiras, enquanto um porteiro permanecia de pé. Quando alguém subia pela escada, ele permitia a entrada de quem quisesse e empurrava para fora quem quisesse — autor.] Quando a alvenaria chegou ao ponto onde seria colocada a Pedra Negra, cada tribo desejou obter a honra de assentar aquela pedra. A disputa se agravou tanto que quase chegou à luta. Durante quatro ou cinco dias, prosseguiram as discussões e contendas. Por fim, naquele dia, todos se reuniram no Haram para deliberar. Um homem dos Banu Makhzum, Abu Umayya ibn Sughayra, irmão de al-Walid ibn al-Mughira, era o mais velho de todos. Ele se levantou e propôs: “Ó povo de Quraysh! Para resolver essa divergência entre vós, concordai que o primeiro homem a entrar pela porta desta mesquita [Por ‘porta’ entende-se a porta de Banu Shayba. Segundo uma narrativa, a decisão caberia àquele que entrasse primeiro pela Porta de Safa. Musa ibn Uqba diz que essa proposta foi feita pelo próprio al-Walid. Já al-Fakihi, al-Waqidi e Ibn Ishaq mencionam o nome de Abu Umayya — autor.] deverá arbitrar a questão.”

Todos aceitaram a sua proposta. Foi por determinação de Allah que o primeiro a entrar foi o Mensageiro de Allah (s). Assim que o viram, as pessoas exclamaram:(Árabe******************)

— Este é al-Amīn; estamos de acordo. Este é Muhammad. Na narrativa de Musnad Ahmad, consta que, assim que o viram, as pessoas disseram:

“Chegou até vós al-Amīn (um homem extremamente confiável).”

Quando o Mensageiro de Allah (s) soube que caberia a ele resolver aquela disputa, pediu que trouxessem um pano. As pessoas trouxeram o pano, e ele colocou sobre ele a Pedra Negra. Depois, pediu que cada tribo segurasse uma das extremidades do pano e levantasse a Pedra Negra. Quando chegaram ao local onde a pedra seria colocada, ele a levantou com as próprias mãos e a assentou em seu devido lugar.

Esse acontecimento ocorreu apenas cinco anos antes do início da profecia. Naquela época, toda a sociedade testemunhou que o Mensageiro (s) era al-Amīn, o mais confiável e digno de confiança. Toda a nação também constatou quão sábio ele era: resolveu de modo tão excelente uma disputa tão grave e salvou seu povo de uma guerra civil. Ibn Sa‘d afirma que não foi apenas nesse episódio que o Mensageiro (s) resolveu uma disputa entre os coraixitas; antes do início da profecia, a maioria deles recorria a ele para resolver seus assuntos.

Aqueles que, antes do início da profecia, viram o Profeta de perto

Entre aqueles que, antes da revelação da profecia, tiveram a oportunidade de observar de perto a vida do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e conhecer toda a sua situação, estavam os membros de sua família: primeiro, Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), que viveu como sua esposa durante quinze anos; segundo, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que foi criado na família do Profeta desde a infância; e terceiro, Hazrat Zaid ibn Haritha, que preferiu deixar os pais para permanecer com o Profeta e que este adotou como filho. Depois, havia Umm Ayman (que Allah esteja satisfeito com ela), que criou o Profeta na infância e permaneceu sempre com ele na família como um de seus membros. Sobre ela, o Profeta dizia: “Depois da minha mãe, ela é a minha mãe.” Ele se dirigia a ela chamando-a de “Amma”. Além dessas pessoas, havia também muitos outros, de fora da família, que tiveram a honra de desfrutar da companhia do Profeta e que conviveram com ele durante bastante tempo.

Entre eles, o amigo mais íntimo do Profeta era Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ibn Maddah, citando uma narração de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), diz que Hazrat Abu Bakr convivia com o Profeta desde os dezoito anos de idade, quando a idade do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era de vinte anos. Desde então, existia amizade entre os dois. Isso porque, em Meca, não havia duas pessoas cuja natureza, modo de vida e comportamento apresentassem uma semelhança tão grande quanto a existente entre o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Hazrat Abu Bakr. Na época da ignorância, Hazrat Abu Bakr era um homem de grande personalidade e um dos principais líderes dos chefes tribais. Sua profissão era o comércio. Era muito popular por seu caráter e sua conduta. Estava entre aqueles que jamais haviam tocado em bebidas alcoólicas. O povo de Quraysh confiava a ele a questão da diyya, isto é, a quantia determinada como compensação pelo homicídio. Ele também assumia a responsabilidade por essa diyya, e todas as tribos concordavam em pagá-la em conjunto. Se outra pessoa assumisse essa responsabilidade, ninguém a reconheceria.

Quanto às genealogias, o povo de Quraysh confiava sobretudo em seu conhecimento. Sua influência moral não se limitava aos coraixitas; alcançava também as tribos vizinhas. Pode-se avaliar isso pelo fato de que, quando começou em Meca a extrema perseguição contra os muçulmanos, Abu Bakr também se preparou para emigrar. Depois de viajar por um ou dois dias, encontrou Ibn al-Dughunna, chefe dos Ahbish. Ahbish era o nome de uma confederação de três tribos: Banu al-Harith ibn Abd Manaf ibn Kinana; Banu al-Hun ibn Khuzaima ibn Mudrika, isto é, as tribos Adl, Qara e Dish; e, entre os Qudaa, os Banu al-Mustaliq. Juntas, elas haviam firmado, numa região de vale chamada Ahbash, na parte baixa de Meca, um pacto de amizade mútua, ajuda e cooperação. Por isso eram chamadas de Ahbish. Ele lhe perguntou: “Abu Bakr, para onde vais?”

Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Meu povo me expulsou e tornou minha vida insuportável, infligindo-me muitas aflições e sofrimentos; tornou minha vida insuportável, infligindo-me muitas aflições e sofrimentos.”

Ele disse: “Por Deus, tu és o ornamento da sociedade. Ajudas as pessoas nas dificuldades, praticas boas ações e beneficias os pobres. Vem comigo; eu te darei proteção.”

Depois, levou-o a Meca e proclamou: “Eu concedi proteção a Ibn Abi Quhafa. Portanto, que ninguém lhe faça mal; que só lhe faça o bem.”

A segunda pessoa foi Hazrat Suhaib ibn Sinan al-Rumi. Na realidade, ele era descendente dos Banu Namir ibn Qasit. Era natural de uma região próxima a Mossul, sob o domínio do Estado iraniano. Durante a guerra entre o Irã e Roma, quando ainda era criança, foi capturado e viveu durante algum tempo como escravo sob o domínio dos romanos. Passando de mão em mão, chegou a Meca, onde Abdullah ibn Judan o comprou. Como Ibn Judan era parente próximo de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), foi por meio dele que Suhaib conheceu o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele passava frequentemente algum tempo na companhia do Profeta. Alcançou uma posição tão elevada que, quando Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) estava em seu leito de morte, recomendou que ele conduzisse as orações na Mesquita do Profeta até que o conselho consultivo chegasse a um consenso sobre a escolha de um califa.

A terceira pessoa foi Hazrat Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele). Al-Bayhaqi cita uma declaração dele, na qual diz: “Quem sabe mais do que eu sobre o casamento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com Hazrat Khadija?”

Hazrat Suhaib (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitaram o Islã juntos.

A quarta pessoa era Hazrat Hakim ibn Hizam (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele era um dos nobres mais ilustres dos coraixitas. Recebeu a honra de exercer a rifada, isto é, oferecer comida e bebida aos peregrinos. Ele era sobrinho de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Era cinco anos mais velho que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Em uma narração de ‘Iraq ibn Malik, registrada no Musnad de Ahmad, consta que ele disse: “Eu amava o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mais do que qualquer outra pessoa.” Zubair ibn Bakkar afirma que o amor entre eles permaneceu firme mesmo depois da profecia, embora ele só tenha aceitado a fé na conquista de Meca.

A quinta pessoa era Dima ibn Tha‘labah, da tribo de Azd Shanua. Ele trabalhava como cirurgião especializado em ferimentos de guerra. Ibn Abd al-Barr diz em seu Al-Isti‘ab que ele também era amigo do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) na época da ignorância. Em uma narração de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), registrada no Musnad de Ahmad, é dito que, quando ele chegou a Meca na época do início da profecia, as pessoas lhe disseram que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) havia enlouquecido.

Então ele foi diretamente até ele e disse: “Diga-me, que doença o aflige? Eu o tratarei.”

Em resposta, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) recitou para ele alguns versículos ou palavras profundamente influentes, que são recitados nos livros prescritos. Ao ouvi-los, ele se tornou muçulmano.

Depois, havia algumas pessoas que, por serem parentes próximos, conheciam muito bem o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), e diante das quais nada da vida do Profeta permanecia oculto. Entre elas estava Hazrat Uthman ibn Affan (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele era genro da tia paterna do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), Umm Hakim al-Bayda. Hazrat Zubair ibn al-Awwam era filho da tia paterna do Profeta, Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Sa‘d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Umair ibn Abi Waqqas eram parentes maternos do Profeta. Hazrat Abu Salama era primo paterno do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e também seu irmão de leite. Hazrat Abd Allah ibn Jahsh era filho de sua tia paterna, Umayya. Hazrat Ja‘far ibn Abi Talib era seu primo paterno.

Eles foram os primeiros de todos a aceitar a fé. O significado de sua aceitação da fé é que, depois de observar de perto a vida do Profeta, a excelência e a grandeza dele ficaram gravadas em seus corações de tal maneira que não hesitaram nem por um instante em aceitá-lo como profeta. Essa fé não pode ser atribuída ao parentesco, à amizade ou ao amor pessoal. Pois, por causa dessas coisas, ninguém muda suas crenças religiosas ou sua religião.

Descrição física nobre

Antes de concluir o relato sobre a situação da época anterior à missão profética, consideramos justo descrever também a nobre aparência física do Profeta (s). Isso porque a personalidade de uma pessoa está profundamente relacionada à sua constituição física e às feições de seu rosto. Com base nos relatos encontrados a esse respeito nas coleções de hadith de Bukhari, Muslim, Musnad de Ahmad, Tirmidhi, Nasa’i, Bayhaqi, Dar Qutni e outras, transmitidos por Hazrat Ali (r.a.), Abu Hurayra (r.a.), Hazrat Anas (r.a.), Hazrat Bara bin Azib (r.a.), Hazrat Hind bin Abi Hala (r.a.) e vários outros nobres Companheiros, apresentamos aqui, de modo geral, a descrição abençoada da aparência do Santo Profeta (s). Sua estatura não era muito alta nem baixa; era um pouco acima da média. Quando estava em uma reunião, destacava-se claramente. Seu rosto não era comprido nem completamente redondo, mas ligeiramente arredondado. Sua tez não era morena, avermelhada nem inteiramente branca; era de um tom claro, luminoso e radiante. Tinha a cabeça grande, o peito amplo e um espaço considerável entre os ombros; sua aparência era robusta, mas não corpulenta. As articulações de seu corpo eram muito fortes. Seus braços eram musculosos, e a parte inferior das pernas era proporcional ao corpo. Havia pelos finos nos braços e na parte inferior das pernas; o restante do corpo era sem pelos. Do peito ao umbigo, parecia haver uma linha de pelos. Os cabelos da cabeça e da barba eram espessos. Seus cabelos não eram encaracolados como os dos abissínios, nem completamente lisos; eram levemente ondulados. Até sua morte, no máximo vinte fios de seus cabelos e de sua barba haviam ficado brancos, e isso só era perceptível quando se aplicava óleo. Às vezes, os cabelos da cabeça chegavam à metade das orelhas; às vezes, até a parte inferior delas; e, em outras ocasiões, ficavam abaixo delas. Seus dois olhos eram grandes e belos. Mesmo sem aplicar kohl, pareciam estar delineados. Havia uma leve vermelhidão nas íris, ou globos oculares. Os cílios eram espessos e longos. Suas sobrancelhas eram separadas uma da outra, não unidas. Sua boca era grande, algo que os árabes consideravam um sinal de beleza; eles não apreciavam bocas pequenas. As plantas dos pés eram delicadas, e os dedos das mãos e dos pés eram longos e musculosos. O dedo médio do pé era um pouco mais comprido que o dedão. As palmas das mãos eram carnudas. À primeira vista, as pessoas sentiam um pouco de temor; mas, quanto mais se aproximavam dele, mais, influenciadas por sua humildade, gentileza e nobre caráter, tornavam-se afeiçoadas a ele. Ao caminhar, dava passos firmes, como se estivesse descendo ou subindo. Quando olhava para alguma direção, voltava-se completamente para ela; e, ao desviar o rosto, fazia-o por inteiro. Não tinha o hábito de olhar de soslaio nem apenas virar o pescoço. Um sorriso discreto aparecia em seu rosto; quando ria, não soltava gargalhadas. Sua força física era tal que Rukana, um poderoso lutador dos coraixitas que ninguém jamais conseguira derrotar, veio lutar com o Profeta. O Profeta o derrubou e o deixou prostrado. Ele não teve coragem de se levantar e lutar novamente. O Profeta tornou a derrubá-lo. Então ele disse: “Muhammad! É espantoso que estejas me derrubando!” Isso significa que o Profeta nunca havia praticado exercícios nem lutado como um campeão; ainda assim, derrubou Rukana duas vezes. Mais tarde, esse homem tornou-se muçulmano — que Allah esteja satisfeito com ele.

Um episódio da infância do Profeta (s) foi o seguinte: certa vez, havia um convite para uma refeição na casa de Abdullah bin Jud’an. Abu Jahl começou a discutir com o Mensageiro; ele também era ainda criança naquela época. O Mensageiro (s) o derrubou com tanta força que seu joelho ficou gravemente ferido, e a marca permaneceu por toda a vida. Ibn Hisham conta que, quando Abu Jahl foi morto na batalha de Badr, o Mensageiro disse: “Procurem o corpo de Abu Jahl entre os mortos; encontrarão uma cicatriz no joelho.” De fato, encontraram a marca no joelho de seu cadáver. O Profeta (s) relatou essa história de sua cicatriz.

Esta extensa discussão permite compreender que o Profeta (s) não era apenas um modelo de nobre caráter; era também um modelo de qualidades viris e bravura.

 

Quarto capítulo

O início da missão apostólica e os três primeiros anos do trabalho secreto de convite ao Islã

A meditação, a reflexão e a investigação dos profetas antes de serem investidos da dignidade profética

O Alcorão Majestoso declara que o conhecimento que os profetas possuíam antes da chegada da revelação não era diferente do conhecimento das pessoas comuns. Antes da descida da revelação, eles não dispunham de nenhuma fonte de conhecimento que não estivesse também ao alcance de outras pessoas. Ao Profeta (s) foi dito:

(Árabe******************)

—Ó Profeta! Tu não sabias o que era o Livro, nem o que era a fé — (Al-Shura: 52).

(Árabe*****************)

—E Allah encontrou-te sem conhecer o caminho e depois te guiou — (Ad-Duha: 7).

Da sabedoria intelectual à fé inspirada

O Alcorão também nos diz que, antes da profecia, os profetas (que a paz esteja com eles) ultrapassam o estágio da fé no Invisível por meio daqueles princípios gerais de conhecimento e sabedoria pelos quais as pessoas comuns também obtêm conhecimento. Depois da chegada da revelação, o que acontece é que, a respeito das verdades para as quais seus corações davam testemunho, a revelação presta um testemunho decisivo de que são absolutamente verdadeiras; em seguida, essas verdades lhes são mostradas na realidade, para que possam testemunhar diante do mundo acerca delas com firme convicção. Este assunto foi repetidamente mencionado na Surata Hud—

(Árabe******************)

—Pode acaso aquele que inicialmente se apoiava numa prova clara de seu Senhor, isto é, na orientação intelectual e natural, e a quem depois chegou também uma testemunha da parte de Deus (isto é, o Alcorão), enquanto antes dele já existia o Livro de Moisés como orientação e misericórdia, duvidar dessa verdade? — (Hud: 17).

Depois, esta mesma afirmação é proferida pela boca do Profeta Noé—

(Árabe*******************)

—Ó povo meu! Refleti um pouco: eu me apoio numa prova clara proveniente do meu Senhor, e Ele me agraciou, por Sua própria parte, com uma misericórdia (a revelação e a profecia), mas vós não a vedes. Deveríamos então impô-la à força sobre vós?

Depois, no versículo 63, o profeta Salih (que a paz esteja com ele), e, no versículo 88, o profeta Shuʿayb (que a paz esteja com ele), repetiram esta afirmação. Isso deixa claro que, antes de obterem, por meio da revelação, o conhecimento direto da verdade, os profetas (que a paz esteja com eles) utilizavam corretamente a capacidade natural de observar, refletir e investigar (******************* à qual se fez referência no versículo acima)

Isso significa que chegavam à verdade do monoteísmo e da Vida Futura. Essa aquisição da verdade não lhes era concedida por Deus; era alcançada por eles. Depois, Deus Altíssimo concedeu-lhes o conhecimento da revelação. E este não era adquirido, mas concedido por Deus.

A observação dos sinais naturais, a reflexão e a investigação, bem como o uso do bom senso (COMMON SENSE), são coisas inteiramente distintas de conjecturas e especulações distantes (seiculation), e são os filósofos que se dedicam a essas especulações. É precisamente isso que o Alcorão Sagrado procura incentivar nas pessoas. Repetidamente, ele lhes diz: abri os olhos, observai os sinais do poder de Deus e tirai deles conclusões corretas. Desse modo, pela observação dos sinais de Deus, uma pessoa imparcial e sinceramente empenhada em buscar a verdade consegue alcançá-la. (***1)

A partir da condição de vida do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) antes de sua missão profética, que descrevemos no capítulo anterior, fica claro que, mesmo antes de se tornar profeta, o Mestre (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) era puro e livre do shirk e cria no tawhid. Depois de adquirir conhecimento, jamais aceitou as crenças politeístas de seu povo, nem participou de seus ritos idólatras. Sempre se manteve afastado dos ídolos e da idolatria. Também se abstinha dos sacrifícios oferecidos às divindades. Em sua vida pré-profética, sua condição era semelhante à daqueles monoteístas sinceros que mencionamos no segundo capítulo desta obra. Antes da profecia, ele não aceitou nenhuma das alterações que as tribos Jurhum e Qudaʿa haviam introduzido na religião de Abraão durante a época da ignorância. Do mesmo modo, permaneceu afastado das distorções religiosas que os coraixitas haviam intensificado em seu tempo. Por exemplo, os coraixitas haviam criado para si certas distinções discriminatórias, com base nas quais se consideravam superiores aos demais árabes. Ibn Hisham e Ibn Saʿd afirmam que, durante o hajj, eles haviam abandonado o costume de ir a Arafat e retornar de lá. Iam apenas a Muzdalifah e voltavam de lá, dizendo: “Nós somos os habitantes do Santuário. Não nos cabe sair do Santuário e permanecer em Arafat como os peregrinos comuns. Se fizermos isso, que diferença haverá entre nós e os que vivem fora do Santuário? Isso diminuirá nossa honra.”

No entanto, eles sabiam que ir a Arafat, permanecer ali e depois retornar de lá para Muzdalifah e Mina fazia parte dos ritos obrigatórios do hajj e estava incluído na religião de Abraão. Com o tempo, essas distinções também começaram a ser seguidas pelas tribos que viviam fora do Santuário e eram ligadas aos coraixitas por laços de parentesco, como os Banu Kinana, os Khuzaʿa e os ʿAmir ibn Saʿsaʿa. Até mesmo aqueles que mantinham relações amistosas com os coraixitas passaram a gozar de uma posição superior à dos árabes comuns e deixaram de ir a Arafat. Contudo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) rejeitou essa inovação ainda antes de sua missão profética. Ibn Ishaq citou um relato de Jubayr ibn Mutʿim (que Deus esteja satisfeito com ele), no qual Jubayr (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Vi o Mestre (que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) permanecer em Arafat, junto com os árabes comuns, antes da descida da revelação.”

Uma das inovações introduzidas pelos coraixitas era que os que viviam fora do Santuário, ao chegarem para o hajj ou a ʿumrah, não podiam comer alimentos trazidos de fora, nem realizar a circunvolução usando roupas trazidas de fora. Tinham de comer a comida do Santuário; e, se não encontrassem roupas no Santuário, tinham de realizar a circunvolução nus. Se realizassem a circunvolução com roupas trazidas de fora, deveriam abandoná-las. Não podiam voltar a usá-las, nem qualquer outra pessoa podia tocá-las. Os árabes aceitaram silenciosamente esse mau costume, ou inovação, como se fosse parte da religião; e assim se difundiu o costume de realizar a circunvolução nus. (****2)

A adoração e devoção do Mensageiro (s) em reclusão

Os muhaddithin narram o acontecimento do início da revelação, cada um com sua própria cadeia de transmissão, a partir do Imame Zuhri; este, por sua vez, a partir de Zubair; e este, de sua tia materna, a honorável Aisha (ra). Ela, isto é, a honorável Aisha (ra), disse: “A revelação ao Mensageiro de Allah (s) começou por meio de sonhos verdadeiros e belos. Qualquer sonho que ele tivesse era como se o estivesse vendo em plena luz do dia.” [Al-Baihaqi disse que esse estado começou seis meses antes da descida da revelação.]

Depois, ele começou a buscar a reclusão e a adorar na caverna de Hira. [Depois do surgimento do estado acima mencionado, o Mensageiro (s) passou a buscar ainda mais a reclusão. Contudo, sua inclinação para a reclusão havia começado muito antes. Segundo as narrativas de Ibn Hisham e at-Tabari, Ibn Ishaq, Abdullah ibn az-Zubair e Ubaid ibn Umair al-Laithi são citados dizendo que o Mensageiro (s) passava um mês em Hira todos os anos. Levava consigo provisões para alguns dias. Depois, ao retornar, fazia primeiro sete voltas em torno da Caaba e levava de casa provisões para mais alguns dias antes de voltar a Hira.]

Além disso, a honorável Aisha (ra) diz que, durante esse período de reclusão e adoração, ele alimentava os necessitados em grande quantidade. No entanto, ela não diz quando o Mensageiro (s) começou a permanecer em Hira. Pode-se, porém, supor que ele tenha praticado isso durante vários anos — (o autor).]

A honorável Aisha (ra) descreve essa prática do Profeta (s) com a palavra “tahannus”. O Imame Zuhri explicou-a como adoração e devoção. Tratava-se de uma forma de adoração que ele praticava, pois, até então, nenhum método de adoração havia sido transmitido a ele por parte de Allah, o Altíssimo. Ele levava de casa provisões para alguns dias. Depois, ia até a honorável Khadija (ra), que providenciava para ele alimento para mais alguns dias. (****3)

A razão da reclusão na caverna de Hira

As razões pelas quais, naquela época, o honorável Mensageiro (s) abandonava a população de Meca e passava em reclusão na caverna de Hira, entre as montanhas, são parcialmente esclarecidas pelos versículos seguintes da surata “Alam Nashrah” —

(Árabe****************)

Nós retiramos de ti o pesado fardo que te curvava as costas.

Nesta passagem, a palavra (***) significa pesado fardo. Ao observar a ignorância e as práticas de jahiliyyah de seu próprio povo, sua natureza sensível ficou sobrecarregada por tristeza, dor íntima, preocupação e ansiedade. Diante dele praticava-se a idolatria, e o shirk, a incredulidade, as superstições e outras coisas semelhantes estavam amplamente difundidos. A vida social estava submersa na corrupção moral, na nudez e na obscenidade. As filhas eram enterradas vivas. A opressão, a injustiça e o adultério haviam se espalhado amplamente pela sociedade. Os fracos estavam exaustos devido à tirania dos fortes. As tribos lançavam ataques repentinos umas contra as outras. Às vezes, conflitos e disputas mútuas prolongavam-se por centenas de anos. A vida, os bens, a honra e a castidade de ninguém estavam seguros se a pessoa não tivesse atrás de si um grupo poderoso. Ao ver essas condições, ele sofria profundamente. Mas não encontrava nenhum meio de salvar o povo daquela extrema decadência moral. Essa preocupação havia quebrantado seu corpo e seu espírito. Alá, o Altíssimo, retirou de sobre ele esse pesado fardo ao mostrar-lhe o caminho da orientação. Assim que foi honrado com a dignidade da profecia, compreendeu que a crença no tawhid, na missão profética e na vida futura poderia resolver todos os problemas da vida e promover uma reforma completa em todos os seus aspectos e setores. Essa orientação de Alá, o Altíssimo, aliviou todos os fardos do Profeta Mustafa (S), e ele ficou tranquilo e seguro de que, por meio dela, seria possível salvar dessas injustiças e desordens não apenas os povos da Arábia, mas também os grupos humanos de outros países do mundo que estivessem envolvidos nelas. (****৪)

Sonhos verdadeiros

É relatado no hadith de Aisha (RA) que o início da revelação ao Profeta (S) ocorreu sob a forma de sonhos verdadeiros (Bukhari e Muslim). Essa sequência continuou em todas as fases da era profética. Há menção, nos hadiths, a muitos de seus sonhos, por meio dos quais lhe era ensinada alguma coisa ou ele era informado sobre algum assunto. O Alcorão Sagrado também menciona claramente um de seus sonhos (Al-Fath: 127). Além disso, vários hadiths mencionam que o Profeta (S) dizia: “Tal assunto foi inspirado em meu coração”, ou “isso me foi dito”, ou “foi-me ordenada uma determinação”, ou “fui proibido de algo”. A maior parte dos hadiths qudsi refere-se a esses assuntos. (***৫)

O início da revelação

Quando a idade do Profeta Mustafa (S) chegou a quarenta anos e seis meses [Geralmente se diz que ele recebeu a profecia aos quarenta anos. Porém, ele nasceu no mês de Rabi al-Awwal do primeiro ano do Elefante, e a profecia lhe foi concedida no mês de Ramadã do ano do Elefante. Por isso, no início da revelação, sua idade era de quarenta anos e seis meses —Autor

Abdullah ibn al-Zubair (RA), citando o relato de Ibn Ishaq sobre Ubaydullah ibn Umayr al-Laythi, diz que o Profeta (S) afirmou: “Em sonho, Jibril (AS) veio e mostrou-me algo escrito em um tecido de seda, no qual estavam escritas as primeiras ayahs da surata Al-Alaq. Depois, pediu-me que lesse. Eu disse: ‘Não sei ler.’ Então ele me apertou de tal maneira que quase me fez perder a vida. Depois me soltou e disse: ‘Leia!’ Em seguida, ensinou-me até (****). Ao despertar do sono, pareceu-me que aquelas palavras haviam sido escritas dentro do meu peito” (Tabari, Ibn Hisham, Suhayli). Ibn Kathir, citando esse relato, diz: “Isso parecia ser uma introdução àquilo que lhe havia sido apresentado enquanto estava desperto, cuja menção se encontra no hadith de Aisha (RA).” —Autor]

Então, certo dia, no mês de Ramadã, a revelação desceu sobre ele na caverna de Hira. O anjo ficou diante dele e disse: *** Leia. Em vários trechos do Sahih de Bukhari, esse acontecimento é narrado por Aisha (RA). Ela cita a própria declaração do Mensageiro de Alá (S), na qual ele diz: “Eu respondi: ‘Não sei ler.’ Então o anjo apertou-me de tal maneira que aquilo se tornou insuportável para mim. Depois soltou-me e disse: ‘Leia.’ Eu respondi: ‘Não sei ler.’ Então ele me apertou uma segunda vez, e aquilo se tornou insuportável para mim. Soltou-me e disse novamente: ‘Leia.’ Eu respondi: ‘Não sei ler.’ Ele apertou-me uma terceira vez, e aquilo se tornou insuportável para mim. Depois soltou-me e disse: ()Árabe*********************)

(Leia em nome de seu Senhor, que criou) e depois recitou até (****) (o que ele não sabia).

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Então, o Mensageiro de Allah chegou, tremendo de medo, à presença de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) e disse: “Cubra-me, cubra-me.” Quando o estado de medo e apreensão passou, ele disse: “Ó Khadija, o que aconteceu comigo?”

Depois de lhe contar todo o ocorrido, ele disse: “Estou temendo pela minha vida.” Os eruditos mencionam doze razões para esse medo. Mas, em nossa opinião, a explicação correta é que ele tremia de medo ao pensar em assumir o pesado dever da profecia, e repetidamente lhe vinha à mente a questão de como suportaria esse grande fardo. Disso se pode concluir que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não se considerava alguém grandioso, nem desejava que alguém como ele se tornasse profeta. Tampouco tinha o orgulho de possuir força e capacidade para realizar uma tarefa tão grandiosa — o autor.

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “De modo algum; pelo contrário, alegre-se. Juro por Allah que Allah, o Altíssimo, jamais o humilhará [em outra narração consta: Allah, o Altíssimo, jamais o afligirá com tristeza ou sofrimento — o autor.

“Você trata bem os parentes. Diz a verdade. Segundo outra narração, você cumpre os depósitos que lhe são confiados. Carrega os fardos dos desamparados. Ganha o sustento para os incapazes. Recebe os hóspedes e ajuda nas boas ações. Outra narração também afirma: seu caráter é sublime.” Então Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) levou o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ao seu primo Waraka ibn Nawfal. Na época da ignorância, ele havia abandonado a idolatria e se tornado cristão. Escrevia o Evangelho em árabe e hebraico. Já estava muito idoso e havia ficado cego. Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) disse-lhe: “Meu querido irmão, ouça o que aconteceu com seu sobrinho. (*****3)”

Segundo o relato de Abu Nu‘aym, Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) contou pessoalmente todo o ocorrido a Waraka. Waraka disse ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Meu sobrinho, o que você viu?” O Mensageiro de Allah contou o que havia visto. Waraka disse: “Este é o mesmo Namus (o anjo que traz a revelação do céu superior) que foi enviado a Musa (que a paz esteja sobre ele). Ah! Se eu tivesse força e capacidade quando chegasse o tempo de sua profecia! Ah! Se eu ainda estivesse vivo quando seu povo o expulsasse de sua terra!”

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Essas pessoas me expulsarão?”

Waraka disse: “Sim, jamais aconteceu de alguém trazer algo como aquilo que você trouxe sem que lhe fizessem oposição. Se eu estivesse vivo na sua época, certamente o ajudaria e apoiaria de todo o coração.”

Mas, antes que passasse muito tempo, Waraqa faleceu. [O Profeta (que a paz esteja com ele) é chamado de sobrinho porque ʿAbd al-ʿUzzā, seu trisavô, era irmão de ʿAbd al-Manāf, o tetravô do Profeta — o autor.]

O que se pode compreender deste acontecimento?

Este acontecimento, por si só, deixa claro que, até um instante antes da chegada do anjo, jamais havia surgido na mente do Profeta (que a paz esteja com ele) a ideia de que seria feito profeta. Longe de desejar tal coisa, estava além de seus pensamentos que algo desse tipo pudesse acontecer. A revelação e o fato de se encontrar dessa maneira diante do anjo foram, para ele, acontecimentos completamente inesperados. Sua reação foi, portanto, a que naturalmente ocorre quando algo assim acontece com uma pessoa desprevenida. Por isso, quando começou a convidar as pessoas ao Islã, os habitantes de Meca passaram a fazer contra ele acusações de vários tipos. Mas ninguém disse: “Nós já havíamos receado que você acabasse reivindicando alguma coisa, pois há algum tempo vinha se preparando para tornar-se profeta.”

Outro aspecto que se conhece por meio deste acontecimento é quão pura e santa, e quão elevado era o caráter do Profeta Mustafa antes da profecia. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) não era uma mulher jovem. Naquela época, tinha cinquenta e cinco anos. Havia sido companheira de vida do Profeta durante quinze anos. Nenhuma fraqueza do marido permanece oculta para uma esposa. Ao longo de sua longa vida conjugal, ela havia encontrado no Profeta (que a paz esteja com ele) um homem de tão elevada dignidade que, quando ele lhe contou o acontecimento ocorrido na caverna de Hira, ela aceitou, sem qualquer hesitação, que fora realmente o anjo de Allah que lhe trouxera a revelação. Da mesma forma, Waraqa ibn Nawfal era um ancião de Meca. Desde a infância vinha observando a vida do Profeta (que a paz esteja com ele). Durante quinze anos, por causa do estreito parentesco, adquirira um conhecimento ainda mais profundo de sua condição. Quando ouviu esse acontecimento, não o considerou uma ilusão ou uma instigação. Pelo contrário, assim que o ouviu, declarou: “Este é exatamente o mesmo Nāmūs que foi enviado a Moisés (que a paz esteja com ele).” Isso significa que, também para ele, o Profeta Mustafa (que a paz esteja com ele) era um homem de tão elevada dignidade que sua investidura com o grau de profeta não constituía algo surpreendente. [Embora possuísse uma personalidade sem igual, essa pessoa estava tão acima do orgulho e da presunção que, mesmo quando foi subitamente elevada ao posto da profecia, ainda levou algum tempo para se convencer, após refletir sobre o assunto, de que, entre os bilhões de pessoas do mundo, ele era o único que o Senhor, Dono e Mestre do universo, havia escolhido para esse posto.]

Análise do acontecimento

Para compreender corretamente a situação em que ocorreu a revelação, é preciso lembrar primeiro que esse acontecimento ocorreu inesperadamente para o Profeta (que a paz esteja com ele). Antes disso, ele sequer imaginava que seria feito profeta. Em nenhum recanto de sua mente havia tal desejo, nem havia se preparado para isso. Tampouco esperava que um anjo viesse até ele trazendo uma mensagem. Ele certamente se sentava em retiro, dedicando-se à contemplação e à adoração. Mas a ideia de tornar-se profeta jamais havia ocupado sua mente. Nessas circunstâncias, quando o anjo apareceu de repente no ambiente solitário da caverna de Hira, ele ficou tão atônito e perplexo quanto qualquer ser humano naturalmente ficaria em tal situação. Embora fosse uma pessoa de grandeza e majestade extraordinárias, sua perplexidade não era simples e isolada. Tratava-se de uma confluência coerente de muitos pensamentos. Ou seja, várias perguntas começaram a surgir em sua mente, e ela se encheu de grande ansiedade e preocupação. Ele pensava: “Será que realmente fui feito profeta? Não fui submetido a uma enorme prova de fogo? Como carregarei o peso desta imensa responsabilidade? Como direi às pessoas que vim como profeta para vocês? Como as pessoas aceitarão minhas palavras? Até hoje vivi com honra nesta sociedade; agora seus membros zombarão de mim e me chamarão de louco. Como lutarei contra o ambiente desta ignorância?” Em suma, perguntas desse tipo surgiam em sua mente e o deixavam profundamente perturbado.

Foi por isso que, quando chegou em casa, ele tremia. Assim que chegou, disse: “Cubram-me com o manto, cubram-me com o manto.”

As pessoas da casa o envolveram; depois de algum tempo, quando recuperou a compostura, ele contou todo o acontecimento a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ele disse: (Árabe********************)

Estou com medo pela minha vida.

Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) consolou-o, dizendo:

(Árabe*******************)

De modo algum, por Deus! Allah jamais lhe causará tristeza ou sofrimento. O senhor serve os parentes, diz a verdade, ajuda os desamparados, supre as necessidades dos pobres e necessitados, hospeda os convidados e auxilia em toda boa obra.

Depois, levou o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) até Waraqa bin Nawfal, pois ele era do Povo do Livro e conhecia a condição dos profetas anteriores. Depois de ouvir o que havia acontecido com o Profeta, exclamou espontaneamente: “Este é o mesmo Namus que veio até Hazrat Musa (que a paz esteja sobre ele).”

Ele disse isso porque conhecia o caráter puro e virtuoso de Bani Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), desde a infância até a juventude. Sabia também que não havia qualquer indício de preparação para reivindicar a profecia. Quando relacionou esses dois aspectos ao acontecimento — alguém que subitamente veio do mundo invisível e, nessas condições, transmitiu a esse homem mensagens semelhantes aos ensinamentos dos profetas —, compreendeu que aquela era, sem dúvida, uma verdadeira profecia. (9)

Se anteriormente tivesse desejado a profecia

Se o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse pensado anteriormente em tornar-se profeta, se tivesse pensado a respeito de si mesmo que deveria ser profeta e, enquanto aguardava, tivesse exercido murakaba, pressionando a própria mente com a expectativa de que algum anjo viesse trazer-lhe uma mensagem, então, assim que ocorresse o acontecimento na caverna de Hira, teria descido da montanha, impaciente de alegria e fazendo uma grande reivindicação, ido diretamente até seu povo e anunciado sua profecia. Mas o estado em que ele se encontrava era exatamente o oposto: ficou surpreso e estupefato com tudo o que viu. Depois chegou a casa assustado e trêmulo. Enrolou-se no cobertor e deitou-se. Quando recuperou um pouco a compostura, disse baixinho à sua esposa: “Hoje aconteceu um fato naquele ambiente isolado da caverna de Hira. Não sei o que vai acontecer. Não consigo ver nenhum bem para a minha vida.”

Quão diferente é este estado do estado de alguém que aspira à profecia. Além disso, quem poderia conhecer melhor a vida do marido, seu estado, seus pensamentos e concepções, do que sua esposa? Se ela tivesse sabido, por experiência, que o marido aspirava à profecia e estava sempre à espera da vinda de um anjo, sua resposta jamais teria sido a que Hazrat Khadija (ra) deu. Ela disse: “Meu querido, por que está assustado?”

Você finalmente recebeu aquilo por cuja esperança vinha contando os dias há tanto tempo. Venha, abra uma loja de santidade; eu cuidarei das oferendas e doações.

Mas, com base na forma como havia observado a vida do marido durante quinze anos de convivência, não demorou nem um instante para compreender que Satanás não poderia aproximar-se de um homem tão virtuoso e desinteressado, nem Allah poderia querer submetê-lo a alguma provação maléfica. Tudo o que ele havia visto era absolutamente verdadeiro. O mesmo estado também se verificava em Waraqa ibn Nawfal. Ele não era um estranho, mas pertencia ao próprio clã familiar do Profeta (s). Por meio de um parentesco próximo, era seu cunhado. Como era apenas alguns anos mais velho, toda a vida do nobre Profeta, desde a infância até aquele momento, havia se desenrolado diante de seus olhos. Assim que ouviu de seus lábios o relato do acontecimento no monte Hira, declarou imediatamente: “É o mesmo anjo que levou a revelação a Moisés (a).” Isso porque também aqui ele se encontrava exatamente na mesma situação em que Hazrat Moisés (a) havia estado. Era um homem de caráter absolutamente puro e imaculado, simples, afável e íntegro. Longe de ter pensado na profecia, jamais havia sequer abrigado em sua mente a menor ideia de obtê-la. De repente, ele teve essa experiência de modo consciente e manifesto. Por isso, chegou à conclusão certa, tão claramente quanto dois e dois são quatro: não se tratava aqui de autoengano nem de qualquer ilusão sensorial satânica; ao contrário, tudo o que esse homem veraz havia visto, sem qualquer desejo ou aspiração, era verdadeiramente real.

Este é um argumento tão claro da profecia de Muhammad (s) que é muito difícil para uma pessoa que segue a verdade negar tal fato. Por isso, ele foi apresentado em vários lugares do Alcorão como uma prova da profecia. [Allah diz: (Árabe***********************)

— Ó Muhammad, dize: “Se Allah tivesse querido, eu não vos teria recitado este Alcorão, nem Ele vos teria informado a seu respeito. Além disso, passei uma vida inteira entre vós antes dele. Será que não usareis o vosso entendimento?” (Yunus: 16).

(Árabe******************)

Tu não sabias o que era o Livro nem o que era a fé. Mas fizemos desse Espírito uma luz, por meio da qual guiamos quem queremos entre os Nossos servos (Ash-Shura: 52)]

O conteúdo da primeira revelação

A primeira revelação enviada ao Mensageiro de Deus era composta pelos cinco primeiros versículos da Surata Al-Alaq, nos quais se diz:

“Leia em nome do seu Senhor, que criou. Criou o ser humano de um coágulo de sangue. Leia, e o seu Senhor é o Generosíssimo, que ensinou o conhecimento por meio da pena. Ensinou ao ser humano aquilo que ele não sabia.”

Esta foi a primeira experiência de revelação recebida pelo Profeta (que a paz esteja sobre ele). Nessa mensagem, não lhe foi dito que estava sendo incumbido de alguma grande tarefa, nem o que deveria fazer dali em diante. Pelo contrário, após uma apresentação inicial, foi-lhe concedido algum tempo de descanso, para que se dissipasse o efeito da enorme pressão que essa primeira experiência havia exercido sobre sua natureza e personalidade, e para que, mentalmente, ele pudesse se preparar para receber novas revelações e cumprir a responsabilidade da profecia. [Após o intervalo, quando a revelação começou a ser transmitida pela segunda vez, foram revelados os sete primeiros versículos da Surata Al-Muddaththir. Neles, pela primeira vez, foi dada ao Profeta a ordem: “Levanta-te e adverte as pessoas, criaturas de Deus, sobre as consequências da visão de mundo que estão seguindo.” Sua explicação detalhada virá adiante — o autor.]

Explicação do conteúdo da revelação

Reflita sobre cada palavra da primeira revelação enviada ao Profeta:

(Árabe*****************)

Leia (ó Profeta) em nome do seu Senhor, que criou (Al-Alaq: 1)

Quando o anjo disse ao Profeta: “Ó Profeta, leia!”, ele respondeu: “Eu não sei ler.” Isso mostra que o anjo havia apresentado diante dele, em forma escrita, aquelas palavras da revelação. Pois, se o sentido das palavras do anjo fosse “Leia assim como eu estou lendo”, não teria havido necessidade de o Profeta dizer que não sabia ler.

“Leia em nome do seu Senhor” — isto é, leia invocando o nome do seu Senhor. Em outras palavras, diga “Bismillah” e leia. Disso também se soube que, antes de receber esta revelação, o Mensageiro de Allah (S) conhecia e reconhecia somente Allah Todo-Poderoso como seu Senhor. Por isso, não foi necessário dizer quem era o seu Senhor. Em vez disso, foi dito: leia invocando o nome do seu Senhor. Ou seja, leia invocando o nome do Senhor que você conhece.

“Aquele que criou” — não foi dito a quem Ele criou. Disso se depreende naturalmente o significado: leia invocando o nome daquele Senhor que é o Criador, que criou todo o universo e cada uma de suas criaturas.

(Árabe************************)

Ele criou o ser humano a partir de um coágulo de sangue. Depois de mencionar a criação geral do universo, foi feita menção especial ao ser humano, indicando que a criação humana começou a partir de uma condição insignificante e que ele foi transformado em um ser humano completo. Trata-se do plural de uma palavra cujo significado é coágulo de sangue. Esse é o estado inicial que se manifesta alguns dias após a fecundação. Depois, ele assume a forma de carne; em seguida, começa gradualmente o processo de adquirir a forma humana.

(Árabe********************)

Leia, e o seu Senhor é o Mais Generoso, que ensinou o conhecimento por meio da pena. (Al-Alaq: 304). Isto é, constitui uma grande benevolência Sua o fato de que, começando dessa condição insignificante, Ele tenha tornado o ser humano dotado de conhecimento, que é a melhor qualidade da criação. Ele não apenas o tornou conhecedor, mas também lhe ensinou, com o auxílio da pena, a arte da escrita, que se tornou o meio para a ampla divulgação e expansão do conhecimento, para o seu desenvolvimento e para a transmissão e preservação de sua responsabilidade de geração em geração.

Se Ele não tivesse ensinado ao ser humano, por um método inspirado, o conhecimento da pena e da escrita, a capacidade intelectual humana teria ficado limitada e rígida. Não teria havido qualquer oportunidade para sua divulgação, expansão e desenvolvimento, nem para avançar rumo a um progresso cada vez maior de uma geração para outra.

(Árabe****************)

Ele concedeu à humanidade um conhecimento que ela não possuía.

Isto é, originalmente, o ser humano era absolutamente desprovido de conhecimento; todo conhecimento que adquiriu, adquiriu-o somente porque Allah lho concedeu. Na medida em que o próprio Allah abre as portas do conhecimento para a humanidade, elas vão-se abrindo. É isso que foi dito no Ayat al-Kursi da seguinte maneira:(Árabe*******************)

— e o ser humano não pode alcançar nada do Seu conhecimento, a menos que Ele próprio o queira; nesse caso, é diferente.

Tudo aquilo que o ser humano considera conhecimento adquirido estava, na realidade, fora do alcance do seu conhecimento. Quando Allah quis, concedeu esse conhecimento ao ser humano. Contudo, o ser humano não consegue perceber que foi Allah quem lhe concedeu esse conhecimento.

Esses foram todos os versículos revelados ao Profeta (s). Pelo hadith de Hazrat Aisha (r.a.), sabe-se que essa primeira experiência foi tão difícil que o próprio Huzur (s) mal conseguia suportá-la. Por isso, naquele momento, considerou-se suficiente dizer que o Senhor que você já conhecia e reconhecia estava dirigindo-se diretamente a você. Da parte Dele, havia começado a sequência da revelação sobre você, e Ele o havia feito Seu Profeta.

Algum tempo depois, foram revelados os primeiros sete versículos da Surata al-Muddaththir. Neles, foi-lhe dito o que deveria fazer depois de ser investido da missão profética. [A esse respeito, é bom saber que o Mensageiro de Allah (s) viu Hazrat Jibril (a.s.) em sua própria forma apenas duas vezes. Fora isso, ele sempre vinha ao Profeta na forma de um ser humano. No Livro do Tawhid do Bukhari, segundo o relato de Hazrat Aisha (r.a.), e no Livro da Fé do Muslim, Hazrat Aisha (r.a.) relata do próprio Mensageiro de Allah (s) que, na primeira vez, Hazrat Jibril (a.s.) apareceu no horizonte oriental — chamado de horizonte supremo na Surata an-Najm e de horizonte claro na Surata at-Takwir — e avançou gradualmente em direção ao Huzur (s). Por fim, permaneceu suspenso no ar acima dele. Então inclinou-se em direção ao Profeta e aproximou-se tanto dele que entre ambos restou apenas a distância de dois arcos. Hazrat Aisha (r.a.) diz que, naquela ocasião, Jibril (a.s.) estava em sua própria forma e cobria toda a esfera superior. (Bukhari.) O próprio Profeta (s) disse: “Eu o vi na forma em que Allah o criou. Todo o espaço entre o céu e a terra ficou preenchido por sua imensa presença.” (Muslim.)

Quando começou a descida da revelação?

Quando foi revelada pela primeira vez essa revelação, que continha os cinco primeiros versículos da Surata al-Alaq? Há diferentes opiniões entre os narradores a esse respeito. Ibn Abd al-Barr e Masudi dizem que a data da nomeação do Huzur como Profeta foi 8 de Rabi al-Awwal do 41.º ano do Ano do Elefante. Ibn al-Qayyim menciona isso em Zad al-Ma’ad como sendo a opinião da maioria. Contudo, aqueles que sustentam essa opinião provavelmente determinaram o início da proclamação da missão profética a partir do momento em que o Profeta (s) começou a ter sonhos verídicos, seis meses antes da descida da revelação, segundo o relato de Bayhaqi. Mas, sobre a descida da revelação, o Alcorão afirma claramente que:

(Árabe******************)

—O Ramadã é o mês em que o Alcorão foi revelado (Al-Baqarah: 185)

Nenhuma afirmação contrária a esta declaração explícita do Alcorão pode ser considerada confiável.

Agora, a questão é a seguinte: também existem diferentes opiniões sobre a partir de que data do Ramadã começou a revelação. Alguns disseram que foi no dia 7 do Ramadã. Ibn Sa’d, em um lugar, disse que foi no dia 12 do Ramadã e, em outro, citando o Imã Baqir (que Allah esteja satisfeito com ele), disse que foi no dia 17 do Ramadã. Al-Baladhuri relatou isso. At-Tabari e Ibn Kathir, citando Abu Qilabah al-Jarmi, disseram que foi no dia 18 do Ramadã, enquanto algumas outras pessoas disseram que foi no dia 19. Wasilah ibn al-Asqa, Jabir ibn Abdillah (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abul Julat disseram que foi no dia 24 do Ramadã. Contudo, o que declara o Sagrado Alcorão é—(Árabe******************)

—Nós revelamos este Alcorão na Noite do Decreto. A esmagadora maioria dos sábios da Ummah sustenta a opinião de que a Noite do Decreto é uma das noites ímpares dos últimos dez dias do Ramadã. A maioria deles, por sua vez, afirma que a Noite do Decreto é a noite do dia 27 do Ramadã. [Na segunda vez, o Profeta o viu perto de Sidrat al-Muntaha.

No Musnad de Ahmad, uma narração de Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) afirma que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: Vi Jibril (que a paz esteja sobre ele) perto de Sidrat al-Muntaha. Ele tinha seiscentas asas (Tafhim, Surata An-Najm, notas 5, 7, 8, 11 e 14).]

Hadiths confiáveis sobre a data da revelação do Alcorão

A narração de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) diz que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), falando sobre a Noite do Decreto, disse: Ela é a noite do dia 27 ou do dia 29 (Abu Dawud e At-Tayalisi). Uma segunda narração, também de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), diz que ela é a última noite do Ramadã (Musnad de Ahmad).

Quando Zir ibn Hubaysh perguntou a Hazrat Ubayy ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre a Noite do Decreto, este jurou e disse que era a noite do dia 27 (Ahmad, Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Hibban).

Quando Hazrat Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi questionado sobre isso, respondeu que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Hudhayfah (que Allah esteja satisfeito com ele) e muitos outros Companheiros do Mensageiro não tinham dúvida de que era a noite do dia 27 de Ramadan (Ibn Abi Shaybah).

Hazrat Ubadah ibn Samit (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “A Noite do Decreto está em uma das noites ímpares dos últimos dez dias de Ramadan: a vigésima primeira, a vigésima terceira, a vigésima quinta, a vigésima sétima ou a vigésima nona” (Musnad Ahmad).

Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Procurem-na [a Noite do Decreto] entre as últimas dez noites: quando faltarem nove dias para o fim do mês ou quando faltarem cinco dias” (Bukhari). A maioria dos sábios entendeu que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se referia às noites ímpares.

Há uma narração de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) segundo a qual, quer faltem nove dias, sete dias, cinco dias, três dias ou seja a última noite — isto é, procurem a Noite do Decreto nessas datas (Tirmidhi, Nasa’i).

Segundo uma narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Procurem a Noite do Decreto nas noites ímpares dos últimos dez dias de Ramadan” (Bukhari, Muslim, Ahmad, Tirmidhi). Segundo uma narração de Hazrat Aisha e de Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos), o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez i’tikaf durante os últimos dez dias de Ramadan.

Com base nas narrações recebidas a esse respeito de Hazrat Muawiyah (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e outros veneráveis, um grande número de pessoas entre os salaf salih considerou a Noite do Decreto como sendo a noite do dia 27 de Ramadan. (**ঁ**14)

A primeira obrigação após o advento da profecia: a oração

Tabari afirma que, depois da declaração de fé no tawhid e do abandono da idolatria, a primeira coisa que foi tornada obrigatória na sharia islâmica foi a oração. Ibn Hisham e Muhammad ibn Ishaq, citando Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), relatam que a primeira coisa tornada obrigatória ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi a oração. A princípio, eram duas rak‘at de cada vez. O Imam Ahmad ibn Hanbal cita uma narração de Hazrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele), segundo a qual, após a primeira revelação ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Jibril (que a paz esteja sobre ele) foi até ele e ensinou-lhe a ablução. Esse acontecimento também é relatado por Ibn Majah e al-Tabarani, com algumas diferenças nas cadeias de transmissão. Sua explicação encontra-se na narração de Ibn Ishaq: o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava numa área elevada de Meca quando Jibril (que a paz esteja sobre ele) apareceu diante dele em bela forma e com uma fragrância excelente, e disse: “Ó Muhammad! Allah enviou-lhe saudações e disse que você é Seu Mensageiro para os gênios e os seres humanos. Portanto, convide-os a testemunhar que não há divindade além de Allah.”

Então Jibril (que a paz esteja sobre ele) bateu o pé no chão, e uma fonte jorrou. Em seguida, fez a ablução, para que o Profeta pudesse aprender o modo de purificar-se para a oração. Depois disse: “Agora faça a ablução.”

Em seguida, Jibril (que a paz esteja sobre ele) rezou duas rak‘at com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), realizando quatro prostrações. Depois, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levou Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) até aquele lugar, fez com que ela realizasse a ablução e rezou duas rak‘at com ela. Ibn Hisham, Ibn Jarir e Ibn Kathir também relatam esse acontecimento.

O Imam Ahmad, Ibn Majah e al-Tabarani transmitem, de Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele), que o transmitiu de seu pai, Hazrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele), que, depois da revelação ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o primeiro ato tornado obrigatório foi Jibril (que a paz esteja sobre ele) vir e ensinar ao Profeta o modo de fazer a ablução. Depois, levantou-se para a oração e disse ao Profeta: “Reze comigo.” Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) voltou para casa e contou o acontecimento a Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela ficou extasiada de alegria. Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pediu-lhe que fizesse a ablução naquele lugar e rezou com ela da mesma forma como havia rezado com Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele). Assim, esta foi a primeira obrigação estabelecida após a revelação. É possível que isso tenha ocorrido na manhã da noite em que (*****) foi revelado. A partir de então, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) rezavam secretamente.

Os quatro primeiros muçulmanos

É consenso que a primeira muçulmana foi Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois, há divergência sobre quem aceitou o Islã primeiro entre Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, há consenso de que estes três foram os primeiros a aceitar o Islã depois de Hazrat Khadija. *****)

A respeito de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Hafiz Ibn Kathir cita, em Al-Bidaya, a narração de Ibn Ishaq e as narrações de Baladhuri e Waqidi, e diz que, quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) começaram a rezar secretamente, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) os viu nessa situação no dia seguinte. Ele perguntou: “O que é isso?” O Profeta respondeu: “Esta é a religião de Allah, que Ele escolheu para Si e com a qual enviou Seu Mensageiro. Portanto, convido você a aceitar o Deus único, sem parceiro, adorá-Lo e rejeitar Lat e Uzza.”

Hazrat Ali tinha então dez anos de idade. Ele disse: “Nunca tinha ouvido falar disso antes. Não posso tomar nenhuma decisão antes de perguntar uma vez ao meu pai.”

Naquele tempo, o Profeta (s) não queria que seu segredo fosse revelado antes da hora. Por isso, disse: “Se não aceitares minhas palavras, mantém o assunto em segredo.” Naquela noite, Hazrat Ali (r) permaneceu em silêncio. Então, Allah inspirou em seu coração o desejo pelo Islã e, pela manhã, ele se apresentou diante do Profeta e disse: “O que foi que o senhor me disse ontem?”

[Nos livros de história e de sira, estes quatro são geralmente mencionados como os primeiros muçulmanos. Contudo, não se pode imaginar que as filhas do Profeta (s) que naquela época já haviam alcançado discernimento não tenham abraçado a fé juntamente com sua ilustre mãe. Hazrat Zaynab (r) tinha dez anos quando o Profeta (s) recebeu a missão profética. Hazrat Umm Kulthum (r) e Hazrat Ruqayya (r) já tinham idade suficiente para que, antes do início do convite público, fossem casadas com os filhos de Abu Lahab. Quanto a Hazrat Fatima (r), ela nasceu um ano após o início da missão profética e abriu os olhos em um ambiente islâmico. Portanto, em nossa opinião, as três filhas devem ser incluídas entre os primeiros muçulmanos. Sobre Hazrat Fatima, deve-se considerar que ela abriu os olhos do entendimento já como uma crente e muçulmana — o autor.]

O Profeta (s) disse: “Testemunha que não há outra divindade além de Allah, o Único, sem parceiro; rejeita Lat e Uzza e rompe os vínculos com os demais associados além de Allah.”

Hazrat Ali (r) aceitou isso imediatamente. Contudo, por medo de Abu Talib, manteve sua conversão ao Islã em segredo. Mesmo assim, também começou a orar junto com o Profeta (s).

O Imam Ahmad, Ibn Jarir e Ibn Abd al-Barr, citando o relato de Afif al-Kindi (meio-irmão por parte de mãe e primo de Ash’ath ibn Qays), dizem: “Abbas ibn Abd al-Muttalib era um velho amigo de meu tio e costumava ir ao Iêmen para comprar perfumes, vendendo-os durante o Hajj. Certa vez, durante o Hajj, quando o encontrei em Mina, vi chegar um homem respeitável. Ele fez a ablução muito cuidadosamente e então se levantou para orar. Depois chegou um menino que ainda não havia atingido a puberdade; ele também fez a ablução muito cuidadosamente e se levantou para orar. Eu disse: ‘Ó Abbas, que religião é esta? Eu não conheço tal religião.’”

Abbas (r) respondeu: “Este é meu sobrinho Muhammad (s), filho de Abdullah, filho de Abd al-Muttalib. Sua reivindicação é que Allah o enviou como Mensageiro.” Em outro relato, consta que sua reivindicação era que as riquezas de César e de Kisra ficariam sob seu domínio. “E este segundo é meu sobrinho Ali ibn Abi Talib. Ele segue a religião dele. E esta é Khadija bint Khuwaylid, esposa de Muhammad. Ela também se tornou seguidora da religião dele.”

Mais tarde, quando o próprio al-Kindi se tornou muçulmano, lamentou-se e disse: “Ah, se eu tivesse sido a quarta pessoa junto deles!”

Ibn Hisham e Ibn Jarir dizem que, algum tempo depois, Abu Talib também viu Hazrat Ali orando. Ele disse: “Meu filho, que religião é esta que estás seguindo?” Ele respondeu: “Meu pai, creio em Allah e em Seu Mensageiro (s), reconheci sua veracidade e orei junto com ele.”

Abu Talib disse: “Ele não o convidará para nada além do bem. Permaneça junto dele.”

Ibn Kathir cita uma declaração de Abu Talib: “Permaneça com seu primo e ajude-o.” No comentário de Zurqani sobre Mawahib, está escrito a respeito de Hazrat Abu Bakr (r.a.) que ele estava sentado na casa de Hakim bin Hizam, sobrinho de Hazrat Khadija (r.a.). Naquele momento, a escrava de Hazrat Hakim aproximou-se dele e disse: “Sua tia disse hoje que seu marido é um profeta, semelhante a Hazrat Musa (a.s.), enviado por Allah.” Assim que ouviu isso, Hazrat Abu Bakr (r.a.) dirigiu-se diretamente ao Profeta (s.a.w.) e, depois de saber que as palavras daquela escrava eram verdadeiras, abraçou a fé sem hesitação. Ibn Ishaq cita, de Abdullah bin al-Husain al-Taymini, o seguinte relato: o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “A todos a quem apresentei o Islam, alguma hesitação e reflexão se seguiram. Mas, quando mencionei isso a Abu Bakr, ele não hesitou nem demorou sequer um pouco para aceitar.”

Não há nenhum relato detalhado sobre como Hazrat Zaid bin Haritha (r.a.) abraçou a fé. Contudo, durante quinze anos ele viveu na casa do Mensageiro como membro de sua família. Certamente, ele viu o Mensageiro (s.a.w.) e Hazrat Khadija (r.a.) realizando a oração, e essa deve ter sido a razão de sua aceitação do Islam.

A partir desses acontecimentos, pode-se saber incidentalmente também que, embora o Mensageiro (s.a.w.) atuasse de forma oculta no início, seus parentes próximos e os de Hazrat Khadija (r.a.) sabiam que ele estava apresentando uma religião diferente da religião ancestral e afirmando ter sido designado por Allah como profeta. Os membros de sua família e, pelo menos, seus amigos não apenas aceitaram essa afirmação, mas também começaram a praticar a adoração e a seguir outros caminhos de acordo com ela. Entretanto, como essas coisas não eram conhecidas por seus inimigos, mas apenas por seus simpatizantes, eles as mantiveram em segredo, tal como o Mensageiro (s.a.w.) desejara que fossem mantidas no início. Tampouco discutiam o assunto; caso contrário, a oposição teria começado antes do tempo.

Durante os três primeiros anos, Hazrat Israfil (a.s.) foi enviado para instruir o Mensageiro?

Ibn Jarir, em sua História; Ibn Sa’d, em Tabaqat; Qastallani, em Mawahib al-Ladunniyya; e Zurqani, em seu comentário sobre Mawahib, citam este relato do ilustre tabi’i, Imam Sha’bi: durante os três primeiros anos da profecia, Hazrat Israfil (a.s.) foi designado para acompanhar o Mensageiro de Allah (s.a.w.) a fim de instruí-lo. Ele não trazia a revelação, pois a responsabilidade de trazê-la cabia a Hazrat Jibril (a.s.). Contudo, ensinava conhecimento ao Mensageiro (s.a.w.) por outros meios além da revelação. [Talvez esse meio pudesse ser ilqa (inspiração) ou algum ensinamento direto por meio de encontros — o autor.]

Imam Ahmad bin Hanbal, Ya’qub bin Sufyan al-Hafiz e al-Bayhaqi transmitiram este relato de Imam Sha’bi, e a cadeia até ele é autêntica. Contudo, não sabemos por qual fonte o próprio Sha’bi tomou conhecimento disso, pois ele não apresentou a cadeia de transmissão até o Mensageiro (s.a.w.). Ibn Sa’d e Ibn Jarir dizem que al-Waqidi negou a autenticidade desse relato. Ele afirmou categoricamente que ninguém, além de Hazrat Jibril (a.s.), foi designado para acompanhar o Mensageiro (s.a.w.).

Este é um assunto que não pode ser inteiramente rejeitado nem aceito como certo. É difícil rejeitá-lo porque Sha’bi era um muhaddith confiável, e seu relato mursal não é tão fraco que possa ser simplesmente descartado. Mas também não se pode considerá-lo um acontecimento comprovado, pois a cadeia de transmissão do relato não é suficientemente sólida para que seja necessariamente aceito. Ainda assim, o assunto não está além do campo das possibilidades. Pois, depois da profecia, o tesouro inesgotável de conhecimento que encontramos nas palavras e ações do Mensageiro para todos os aspectos da vida — tesouro de que estão repletos os livros de hadith e de sirah, e do qual não se encontra o menor equivalente nas palavras e ações de qualquer outro ser humano — foi certamente derramado no íntimo do coração do Profeta a partir do mundo invisível. E é possível que Allah Todo-Poderoso tenha feito Hazrat Israfil (a.s.) prestar o serviço de transmitir esse tesouro de conhecimento.

Fatrat al-Wahy

Após a descida da primeira revelação, Jibril (que a paz esteja sobre ele) deixou de trazer a revelação por algum tempo. À medida que esse estado se prolongava, aumentava também a angústia do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Chegava ao ponto de, às vezes, dirigir-se inconscientemente à montanha Shabir, em Meca, e outras vezes ao monte Hira, pensando em atirar-se dali para baixo. Nessa situação, quando se encaminhava para a beira de alguma montanha, ouvia uma voz vinda do céu e parava. Ao olhar para cima, via Jibril sentado numa cadeira entre o céu e a terra. Ele dizia: “Ó Muhammad! Você é, sem dúvida, o Mensageiro de Allah, e eu sou Jibril.”

Ibn Sa’d نقلou esta história de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), no tafsir de Ibn Jarir; e Abd al-Razzaq نقلou-a do Imam Zuhri em seu al-Musannaf. Há também um relato detalhado dela em Bukhari, Muslim e no Musnad de Ahmad. (****15)

Na narração do Imam Zuhri, é dito:

Durante algum tempo, a revelação deixou de descer sobre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele). Nesse período, ele sofreu tamanha angústia mental que muitas vezes subia ao topo de uma montanha e se preparava para atirar-se dali para baixo. Porém, sempre que chegava à beira do topo da montanha, Jibril (que a paz esteja sobre ele) aparecia diante dele e dizia: “Você é o Profeta de Allah.” Com isso, ele encontrava tranquilidade no coração e sua inquietação desaparecia. — (Ibn Jarir).

Em seguida, o Imam Zuhri cita, na narração de Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), dizendo: O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele), ao mencionar a interrupção da revelação, disse: “Eu estava passando por uma estrada quando, de repente, ouvi um som vindo do céu. Ao levantar a cabeça, vi aquele anjo que havia visto na caverna de Hira. Ele estava sentado numa cadeira entre o céu e a terra. Ao vê-lo, fiquei terrivelmente assustado e aturdido. Quando cheguei em casa, disse: ‘Cubram-me com um cobertor.’ Então os familiares me envolveram em cobertores; nesse momento, uma revelação desceu da parte de Allah:”

(Árabe*****************)

“Ó tu que estás envolto em cobertores!” Depois disso, a revelação continuou a descer sobre mim — (Bukhari, Muslim, Musnad de Ahmad — Ibn Jarir).

Revelação dos sete primeiros versículos da Surata Al-Muddassir

Assim, transcorrido o período em que a revelação esteve interrompida, foram revelados os sete primeiros versículos da Surata Al-Muddassir, por meio dos quais o Mensageiro (s) foi honrado com a dignidade de Mensageiro e recebeu a orientação necessária para cumprir a responsabilidade da Mensagem. Aqui se deve compreender bem a diferença: os cinco primeiros versículos da Surata Al-Alaq anunciavam que a revelação havia começado a descer sobre o Mensageiro (s) e que ele havia sido feito profeta por parte de Allah. Já por meio destes versículos da Surata Al-Muddassir, além da profecia, a responsabilidade da Mensagem também lhe é imposta. Ele recebe a ordem: “Levanta-te e começa a cumprir a responsabilidade”. Em algumas narrações, chegou-se a afirmar que estes foram os primeiros versículos do Alcorão Sagrado. Nas coleções de hadith, como Bukhari, Muslim, Tirmidhi e Musnad Ahmad, há um relato detalhado disso transmitido por Hazrat Jabir bin Abdullah Ansari (ra). Contudo, é quase consensual entre a Ummah que, primeiramente—

(Árabe*************) de (*************)

foram revelados. Depois, segundo Ibn Athir, a revelação permaneceu interrompida até que estes versículos da Surata Al-Muddassir fossem revelados. Em seguida, a revelação voltou a iniciar-se. O próprio Imam Zuhri transmitiu, sob a autoridade de Hazrat Jabir bin Abdullah Ansari (ra), que, antes da revelação destes versículos, o Mensageiro de Allah (s) viu, no espaço entre o céu e a terra, o mesmo anjo que havia ido até ele na caverna de Hira. Já citamos acima esta narração com referência a Bukhari, Muslim e outras obras. (****17

A orientação dada nesta surata

Agora prestem atenção a estes versículos da Surata Al-Muddassir e vejam que orientação foi dada neles.

(Árabe***************)

—Ó tu que estás deitado envolto num cobertor. Aqui, em vez de o Mensageiro de Allah ser chamado de “ó Mensageiro, ó Profeta”, ele é chamado de “ó tu que estás deitado envolto num cobertor”. Isso porque, ao ver Hazrat Jibril sentado numa cadeira no espaço entre o céu e a terra, o Mensageiro (s) ficou tomado de medo e consternação e, ao chegar em casa nesse estado, disse aos familiares: “Envolvam-me, envolvam-me”. Por isso, Allah, o Altíssimo, dirigiu-se a ele como “Muddassir”. O significado que brota espontaneamente desse carinhoso tratamento é: “Ó Meu amado servo, por que estás deitado envolto num cobertor? Uma grande responsabilidade foi colocada sobre ti, e para cumpri-la terás de entrar em campo com firme determinação.”

(Árabe***********)

—Levanta-te e adverte.

Este é o tipo de instrução que foi dada a Noé (que a paz esteja com ele) depois de lhe ser concedida a profecia. Como, por exemplo:

(Árabe*****************)

—Adverte o teu povo antes que lhes sobrevenha um castigo doloroso da Minha parte. (Noé: 1)

O sentido do versículo mencionado da Surata Al-Muddassir é este: Ó tu que estás deitado, envolto num cobertor! Levanta-te e adverte as pessoas ao teu redor, que vivem em negligência. Se permanecerem entregues a esse estado, adverte-as da consequência inevitável. Adverte-as de que não vivem num reino de embriaguez, onde possam fazer o que quiserem e não sejam questionadas por isso.

(Árabe**************)

E proclama a grandeza do teu Senhor.

Este é o primeiro trabalho que um profeta deve realizar neste mundo. Seu primeiro trabalho consiste em rejeitar tudo aquilo cuja supremacia os ignorantes reconhecem neste lugar e declarar publicamente, ao mundo inteiro, que em todo o universo ninguém possui supremacia além de um único Deus. É por isso que, no Islã, se atribui a máxima importância à fórmula “Allahu Akbar”. O chamado à oração começa com a proclamação de Allahu Akbar. Na oração, o muçulmano também inicia dizendo Allahu Akbar. Depois, repete Allahu Akbar ao levantar-se e ao sentar-se. Quando se corta a garganta de um animal, isso é feito dizendo-se “Bismillah, Allahu Akbar”. Hoje, o brado do takbir é o sinal mais evidente e distintivo dos muçulmanos em todo o mundo. Isso porque o Profeta desta comunidade iniciou sua missão com Allahu Akbar.

Aqui se faz alusão a um aspecto sutil que deve ser devidamente compreendido. A partir das circunstâncias da revelação desses versículos, soube-se que o primeiro Mensageiro de Allah recebeu a ordem de dar início ao cumprimento da enorme responsabilidade da missão profética. Também está claro que a cidade e o ambiente onde ele recebeu a ordem de se erguer com essa missão eram um campo de atuação do shirk. Não se tratava apenas de a população local ser politeísta como os árabes em geral; o mais importante era que Meca, a Nobre, era o maior centro de peregrinação dos árabes politeístas. E os coraixitas eram seus sacerdotes. Surgir sozinho nesses lugares e erguer a bandeira do tawhid contra o shirk era uma tarefa extremamente arriscada. Por isso, juntamente com as palavras “Levanta-te e adverte”, foi dito: “Proclama a supremacia do teu Senhor”. O significado é: não dês a mínima importância às forças terríveis que consideras obstáculos a esta missão. Declara em termos claros: meu Senhor é muito maior do que essas forças que podem se colocar no caminho para impedir o meu convite.

Que maior incentivo e entusiasmo poderia ser dado a alguém para iniciar o trabalho de Allah? Aquele em cujo coração está profundamente gravada a supremacia de Allah não hesita nem por um instante em lutar sozinho contra o mundo inteiro pela causa de Allah.

(Árabe**************)

— e mantém tuas vestes puras.

Estas palavras têm um significado abrangente, e seu alcance também é muito amplo. Um de seus significados é: mantém tuas vestes limpas e puras. Isso porque a pureza das vestes está intimamente ligada à pureza da alma. Uma alma pura não pode habitar um corpo sujo e imundo nem vestir roupas impuras. O ambiente em que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) iniciou o trabalho do convite islâmico não estava apenas mergulhado nas profundezas da decadência das crenças e do caráter; também era privado até mesmo das noções básicas de taharat e limpeza. A missão do Profeta era ensinar-lhes a pureza e a limpeza em todos os aspectos. Por isso, ele recebeu a ordem de estabelecer o mais elevado padrão de taharat também em sua vida exterior. Assim, é fruto dessa orientação que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) ensinou à humanidade, com riqueza de detalhes, a limpeza do corpo e das vestes — ensinamentos que nem mesmo as nações mais civilizadas da era moderna, muito menos a Jahiliyyah árabe, tiveram a bênção de alcançar. Além disso, na maioria das línguas do mundo não existe uma palavra que corresponda ao termo taharat. Já no Islã, os livros de hadith e fiqh começam a exposição das normas e preceitos islâmicos justamente com a taharat. Neles são explicadas detalhadamente a distinção entre puro e impuro e as formas de purificação.

O segundo significado dessas palavras é: mantém tuas vestes limpas e asseadas. A ideia de ascetismo estabeleceu, na religiosidade do mundo, este padrão: quanto mais sujo e desleixado alguém fosse, mais religioso ou santo seria considerado. Se alguém vestisse roupas limpas e asseadas, era tido como mundano. Entretanto, a natureza humana detesta a sujeira e a falta de higiene. Quem possui um senso comum de educação e bom gosto deseja estabelecer relações de amizade justamente com pessoas limpas e asseadas. Por isso, é necessário que aqueles que convidam as pessoas para o caminho de Allah mantenham sua aparência exterior tão pura, limpa e asseada que sejam vistos com respeito, sem que haja em sua personalidade nada desagradável que possa naturalmente despertar repulsa.

O terceiro significado desta declaração é: mantém tuas vestes livres de defeitos morais. Tuas roupas devem, naturalmente, ser limpas e puras. Mas não devem conter sinais de orgulho, arrogância, desejo de ostentação, luxo excessivo, influência ou prestígio. A roupa é o primeiro elemento que revela a personalidade de uma pessoa. Qualquer que seja a roupa que alguém vista, ao vê-la, as pessoas imediatamente supõem que tipo de pessoa ele é. As roupas de latifundiários e nababos, as roupas dos comerciantes da religião, as roupas de bandidos, malfeitores e vagabundos — todas carregam sinais da natureza e do caráter de quem as veste. A natureza daqueles que convidam para Allah é, por sua própria essência, diferente da dessas pessoas. Portanto, suas roupas também devem ser naturalmente diferentes. Devem vestir roupas que levem todos a pensar que se trata de uma pessoa muito educada e de muito bom gosto, que não é guiada pelos desejos nem está envolvida em sua depravação.

O quarto significado é: mantém puras as tuas vestes e a tua aparência. Tanto em árabe como em urdu, a expressão “manter puras as vestes e a aparência” (castidade moral) é usada no sentido de estar acima das deficiências de caráter e adornar-se com excelentes qualidades. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), o Imam Nakha‘i, Sha‘bi, Mujahid, Qatada, Said ibn Jubair, Hasan al-Basri e outros célebres exegetas entenderam este versículo justamente assim: mantém puro o teu caráter e afasta-te de toda forma de depravação. Em árabe, há uma expressão idiomática que diz:

(Árabe*********************)

“As roupas de fulano são puras e a sua aparência é limpa.” Isso significa que o seu temperamento e caráter são excelentes. Em contrapartida, diz-se:

(*****************)

“As suas roupas estão sujas”, isto é, ele é uma pessoa de má índole. Não se pode confiar no que diz.

(Árabe*************************)

Afasta-te da sujeira e da impureza. Aqui, sujeira ou imundície significa toda espécie de imundície: seja a imundície da crença, da fé e do pensamento; a imundície das ações e da moral; a imundície do corpo e das vestes; ou a imundície do modo de vida. Em outras palavras, deves manter-te afastado de todas as diversas formas de imundície que se espalharam por toda a sociedade ao teu redor. Ninguém deve poder acusar-te de que alguns dos sinais das mesmas imundícies e transgressões das quais tentas afastar as pessoas também podem ser encontrados em ti.

(Árabe*****************)

-e não faças favores visando obter mais.

O significado destas palavras é tão abrangente que não é possível traduzi-lo em uma única frase e explicar todo o seu sentido. Um de seus significados é que, sempre que demonstrares misericórdia e benevolência para com alguém, faças isso desinteressadamente. Tua doação, benevolência e bom trato devem ser exclusivamente por Allah. Não deves obter quaisquer vantagens ou benefícios mundanos em troca de fazer o bem e promover o bem-estar, nem deve existir em ti o menor desejo ou expectativa desse tipo. Em outras palavras, quando fizeres o bem a alguém, faze-o por Allah; não faças o bem ou promovas o bem-estar de alguém para obter algum benefício.

O segundo significado é que, embora o trabalho de profecia que realizas seja uma obra extremamente benéfica, por meio da qual a criação de Allah recebe orientação, não deves vangloriar-te diante das pessoas, dizendo que estás lhes fazendo um grande benefício, nem obter disso qualquer interesse pessoal.

O terceiro significado é que, embora estejas prestando um serviço grandioso, não deves considerar teu trabalho grandioso aos teus próprios olhos; não deve surgir em tua mente a ideia de que, ao cumprir a missão profética e dedicar tua vida a essa tarefa, estás fazendo algum favor ao teu Senhor.

(Árabe*************)

-e persevera por teu Senhor.

Isto é, a tarefa que te foi confiada é uma tarefa extremamente árdua. Por causa dela, terás de enfrentar graves calamidades, sofrimentos e dificuldades terríveis.

Teu próprio povo se tornará teu inimigo. Toda a Arábia se unirá contra ti. Mas, quaisquer que sejam os obstáculos que surjam neste caminho, terás de manter a paciência e cumprir tua responsabilidade com firmeza e determinação. Para te impedir de prosseguir nessa tarefa, o medo, as tentações, a amizade, a inimizade, o amor e o afeto — tudo isso se colocará como obstáculo diante de ti. Diante de tudo isso, permanecerás firmemente fiel à tua resolução.

Esta foi a orientação inicial que Allah Todo-Poderoso concedeu ao Seu Mensageiro quando lhe ordenou: “Levanta-te e começa a tua tarefa”. Se alguém refletir sobre estas pequenas frases e seus significados, seu coração testemunhará que, no momento de iniciar a missão de um profeta, não poderia haver orientação e instrução melhores do que estas. Nelas também se diz o que deve ser feito. Ao mesmo tempo, ensina-se com que intenção, estado de espírito e linha de pensamento essa tarefa deve ser realizada. Também se adverte sobre as circunstâncias que serão enfrentadas nessa missão e sobre como lidar com elas. Hoje, aqueles que, por cego ódio, dizem que — que Allah nos proteja — essas palavras saíam da boca do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) como um delírio depois de ele ter sido acometido de epilepsia, deveriam abrir um pouco os olhos, observar estas frases e refletir por si mesmos: seriam elas algum delírio de alguém acometido de epilepsia, ou será que, ao confiar-lhe a orientação divina e a responsabilidade da profecia, o Senhor ensinou Seu servo? (******18)

O hábito de receber a revelação

Já dissemos anteriormente, citando Hazrat Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), que, após a Surata Al-Muddaththir, começou a revelação contínua ao Profeta (que a paz esteja sobre ele). Contudo, no período inicial da revelação, o Santo Profeta enfrentava a dificuldade de que, temendo esquecer, tentava guardar as palavras de cor. Às vezes, durante a revelação, também perguntava o significado de alguma coisa. Por isso, nesse período, era necessário ensinar bem ao Profeta o modo de receber a revelação. Na Surata Ta-Ha, é dito:

فَتَعَالَى اللَّهُ الْمَلِكُ الْحَقُّ وَلَا تَعْجَلْ بِالْقُرْآنِ مِنْ قَبْلِ أَنْ يُقْضَى إِلَيْكَ وَحْيُهُ وَقُلْ رَبِّ زِدْنِي عِلْمًا

Allah, o Altíssimo e Majestoso. Ele é o verdadeiro Rei. E vê: não te apresses em recitar o Alcorão antes que a revelação te seja completamente transmitida. E suplica: “Ó meu Senhor, concede-me cada vez mais conhecimento” (Ta-Ha: 114).

A sequência do discurso deixa claro que, (Árabe*******************) até esse ponto o discurso havia terminado. Depois, ao partir, o anjo, por ordem de Allah, advertiu o Profeta (que a paz esteja sobre ele) acerca de algo que ele observava durante a revelação. Não se considerou apropriado inserir um comentário no meio. Por isso, depois de concluir a transmissão da mensagem, ele advertiu o Profeta sobre esse assunto. O que era aquilo pelo qual ele foi advertido? As próprias palavras da advertência o revelam. Enquanto recebia a mensagem da revelação, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) tentava recitá-la para memorizá-la. Talvez, por causa desse esforço, sua atenção fosse repetidamente desviada. Talvez a continuidade da recepção da revelação fosse interrompida. É possível que ele não estivesse dando atenção plena à escuta da mensagem. Diante dessa situação, considerou-se necessário explicar-lhe o método correto de receber a revelação e proibir as tentativas ocasionais que fazia para memorizá-la.

A mesma situação ocorreu também quando foi revelada a Surata Al-Qiyamah. Por isso, ele foi advertido, interrompendo-se a continuidade do discurso.

(Árabe*******************)

Não movas repetidamente a tua língua com pressa para memorizá-lo. Cabe a Nós fazê-lo recordar e recitá-lo para ti. Portanto, quando o recitarmos, escuta atentamente; depois, também cabe a Nós explicar o seu significado. [A explicação que ofereci para a ocorrência desta frase no contexto da Surata Al-Qiyamah não se baseia numa mera suposição. Pelo contrário, ela foi apresentada em relatos confiáveis. Ahmad, Al-Bukhari, Muslim, At-Tirmidhi, An-Nasa’i, Ibn Tabarani, Al-Bayhaqi e outros muhaddithin, transmitindo por diversas cadeias o relato de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), dizem que, quando o Alcorão era revelado ao Mensageiro (que a paz esteja com ele), ele recitava as palavras da revelação juntamente com Jibril (que a paz esteja com ele), temendo esquecê-las. Foi-lhe então dito:………..

لَا تُحَرِّكْ بِهِ لِسَانَكَ لِتَعْجَلَ بِهِ (16) إِنَّ عَلَيْنَا جَمْعَهُ وَقُرْآنَهُ (17) فَإِذَا قَرَأْنَاهُ فَاتَّبِعْ قُرْآنَهُ (18) ثُمَّ إِنَّ عَلَيْنَا بَيَانَهُ

Isto também foi transmitido por Sha’bi, Ibn Zayd, Ad-Dahhak, Hasan Al-Basri, Qatadah, Mujahid e outros renomados muhaddithin. ]

Também na Surata Al-A’la foi dada ao Profeta (que a paz esteja com ele) a garantia de que Nós lhe ensinaríamos a recitar e, depois disso, ele não a esqueceria. [Al-Hakim transmitiu de Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele), e Ibn Mu’awiya transmitiu de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) repetia as palavras do Alcorão, temendo esquecê-las. Mujahid e Kalbi dizem que, assim que Jibril (que a paz esteja com ele) terminava de transmitir a revelação e se retirava, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) começava a repetir a primeira parte, justamente por temer esquecê-la. Por isso, Allah, o Altíssimo, assegurou ao Profeta (que a paz esteja com ele): durante a revelação, permanece em silêncio e escuta. Nós a recitaremos para ti, e ela permanecerá na tua memória para sempre. Não temas esquecer nenhuma de suas palavras.]

سَنُقْرِئُكَ فَلَا تَنْسَى

Mais tarde, quando o Profeta já havia adquirido experiência em receber as mensagens da revelação, esse tipo de situação deixou de ocorrer. Por isso, não encontramos advertências desse tipo nas suratas posteriores.

Três anos de pregação secreta

De acordo com a sabedoria que Allah ensinou ao Seu Profeta para transmitir a mensagem da missão profética, ele não iniciou imediatamente o anúncio da profecia nem a pregação entre o povo em geral. Pelo contrário, durante os três primeiros anos, continuou a transmitir o convite ao Islã a pessoas nobres que, por meio de provas, argumentos e compreensão, estavam dispostas a aceitar o tawhid e abandonar o shirk. Ao mesmo tempo, transmitia o convite àqueles em relação aos quais se podia confiar que manteriam o segredo enquanto ele, seguindo a ordem de Allah, não decidisse iniciar publicamente o trabalho de convidar as pessoas em geral para Allah. Nesse trabalho, Hazrat Abu Bakr (r.a.) teve a influência mais eficaz. Seu nome verdadeiro era Abdullah ibn Uthman, mas sua kunya, Abu Bakr, tornou-se tão famosa que seu nome verdadeiro acabou sendo obscurecido. Zamakhshari diz que ele era chamado Abu Bakr por estar à frente de todos em pureza de natureza e caráter. Esse nome já era famoso na época da ignorância — autor. Tabari e Ibn Hisham mencionam como razão para isso o fato de ele ser extremamente sociável e cordial; por causa de suas qualidades, era muito querido por seu povo. Entre os coraixitas, ninguém conhecia melhor do que ele as genealogias. Ninguém conhecia melhor do que ele quem era bom ou mau, nem as qualidades de cada pessoa. Era comerciante e famoso por sua boa conduta. Seus conterrâneos costumavam visitá-lo e sentar-se com ele por causa de sua inteligência, de seu comércio e de sua boa conduta. Aproveitando essa oportunidade, transmitia o convite ao Islã àqueles em quem confiava. Influenciadas por sua pregação, muitas pessoas aceitaram o Islã. Depois, todos os que se tornavam muçulmanos procuravam, entre seus círculos de amigos, pessoas boas e pregavam o Islã a elas. Naquela época, os muçulmanos rezavam secretamente em lugares ermos nos arredores de Meca, para que ninguém percebesse que haviam mudado de religião.

Estabelecimento de um centro de pregação e reuniões em Dar al-Arqam

Após dois anos e meio, pouco depois de transcorrido algum tempo, ocorreu um incidente que suscitou o temor de que um confronto com os incrédulos de Meca pudesse começar antes da hora.

Ibn Ishaq diz que, certo dia, os muçulmanos estavam rezando em uma área aberta de Meca. Nesse momento, um grupo de idólatras os avistou e começou a chamá-los de apóstatas. A discussão quase se transformou em luta, e Hazrat Sa‘d ibn Abi Waqqas (r.a.) atirou um osso de camelo contra um deles, partindo-lhe a cabeça. Ibn Jarir e Ibn Hisham apresentaram um breve relato desse acontecimento. Hakim Umari, porém, registrou um relato detalhado em sua obra sobre as campanhas militares. Ele diz que o homem cuja cabeça foi partida era Abdullah ibn Khatal, dos Banu Taym. Então o Profeta (s.a.) imediatamente transformou a casa de Hazrat al-Arqam ibn Abi al-Arqam, situada perto de Safa, em um centro de reuniões, de convite ao Islã e de pregação. Assim, as pessoas poderiam reunir-se ali para rezar, e aqueles que continuassem a aceitar secretamente o Islã também poderiam ir até lá. Na história do Islã, Dar al-Arqam alcançou fama eterna. Mesmo depois de terminados os três anos de pregação secreta e de iniciada a pregação pública entre o povo em geral, esse lugar continuou sendo o centro dos muçulmanos. O Mensageiro (s.a.) permanecia ali, e os muçulmanos iam até lá para encontrar-se com ele. Até o período do confinamento no vale de Abu Talib, esse foi o centro da pregação islâmica.

Resultados de três anos de pregação secreta

Antes de discutirmos o período da pregação islâmica pública, devemos verificar quanto trabalho foi realizado durante esses três anos: quem e quantos membros de quais tribos dos coraixitas se tornaram muçulmanos; quantas pessoas entre os coraixitas, quantos mawali, escravos e escravas aceitaram o Islã. A lista é apresentada abaixo. Esse trabalho só foi possível após muito esforço, investigação e pesquisa, pois a lista completa não se encontra reunida em nenhum lugar.

A tribo dos Banu Hashim

1. Ja‘far ibn Abi Talib

2. Sua esposa, Asma bint Umays al-Khash‘amiyya (esta mulher não pertencia à tribo dos coraixitas)

3. Safiyya (r.a.), filha de Abd al-Muttalib [tia paterna do Profeta e mãe de al-Zubayr (r.a.)]

4. Arwa (r.a.), filha de Abd al-Muttalib [mãe de Tulaib ibn Umayr (r.a.) e tia paterna do Mensageiro]

A tribo dos Banu al-Muttalib

5. Umayda (r.a.), filha de al-Harith ibn al-Muttalib.

A tribo dos Banu Abd Shams ibn Abd al-Manaf

6. Abu Hudhayfa (r.a.), filho de Utba ibn Rabi‘a

7. Sua esposa, Sahla (r.a.), filha de Suhail ibn Amr

A tribo Bani Umayya

8. Uthman (r.a.) ibn Affan

9. Sua mãe, Arwa (r.a.), filha de Qurayz

10. Khalid (r.a.) ibn Sa’id ibn al-As ibn Umayya

11. Sua esposa, Umayma (r.a.), filha de Khalaf al-Khuza’i (alguns dizem que seu nome era Umayna.)

12. Umm Habiba (r.a.), filha de Abu Sufyan (primeiramente, ela era casada com Umayta ibn Jahsh; mais tarde, alcançou a honra de se tornar uma das Mães dos Crentes.)

Aliados da tribo Bani Umayya (ligados a Bani Umayya por laços de amizade).

13. Abdullah ibn Jahsh

14. Abu Ahmad ibn Jahsh

15. Ubaydullah ibn Jahsh [Ele migrou para a Abissínia com sua esposa, Hazrat Umm Habiba. Lá, adotou o cristianismo e morreu. —Autor.]

Esses três eram descendentes de Banu Ghanam ibn Dudan. Eram filhos de Umayma bint Abd al-Muttalib, tia paterna do Profeta (r.a.), e irmãos de Zaynab, a Mãe dos Crentes.]

A tribo de Banu Taym

16. Asma bint Abi Bakr (r.a.)

17. Umm Ruman (r.a.) [Esposa de Hazrat Abu Bakr (r.a.) e mãe de Hazrat Aisha (r.a.) e de Hazrat Abd al-Rahman ibn Abu Bakr (r.a.).]

18. Talha (r.a.) ibn Ubaydullah

19. Sua mãe era Sa‘ba (r.a.), filha de al-Hadrami.

20. Harith (r.a.) ibn Khalid

Tribo ligada aos Banu Taym por laços de amizade

21. Suhayb (r.a.) ibn Sinan al-Rumi

Tribo dos Banu Asad ibn Abd al-Uzza

22. Zubayr (r.a.) ibn al-Awwam (sobrinho de Hazrat Khadija e primo paterno do Huzur (s.a.w.).

23. Khalid (r.a.) ibn Hizam (irmão de Hakim ibn Hizam e sobrinho de Hazrat Khadija (r.a.)).

24. Aswad (r.a.) ibn Nawfal

25. Amr (r.a.) bin Umayya

Tribo dos Banu Abd al-Uzza bin Qusayy

26. Yazid (r.a.) bin Zamaya bin al-Aswad

Tribo dos Banu Zuhra

27. Abd al-Rahman (r.a.) bin Awf

28. Sua mãe, Shifa (r.a.), filha de Awf

29. Sa’d bin Abi Waqqas (r.a.). O nome verdadeiro de Abu Waqqas era Malik bin Usaib.

30. Seu irmão, Umayr (r.a.) bin Abi Waqqas.

31. Seu irmão, Amir (r.a.), filho de Abi Waqqas

32. Muttalib (r.a.), filho de Azhar (primo paterno de Abd al-Rahman ibn Awf)

33. Sua esposa, Ramlah (r.a.), filha de Abi Awf al-Sahmiyya

34. Tulaib (r.a.), filho de Azhar

35. Abdullah (r.a.), filho de Shihab.

Tribos ligadas à Banu Zuhra por um pacto de amizade

36. Abdullah (r.a.), filho de Masud. Ele pertencia à tribo Hudhail e estava ligado, por um pacto de amizade, à Banu Zuhra de Meca.

37. Utbah (r.a.), filho de Masud (irmão de Abdullah ibn Masud)

38. Miqdad (ra) ibn Amr al-Kindi

39. Khabbab (ra) ibn al-Aratt

40. Shurahbil (ra) Hasanat al-Kindi

41. Jabir (ra) ibn Hasanat (irmão de Shurahbil)

42. Junada (ra) ibn Hasanat (o mesmo)

A tribo Banu Adi

43. Sa’id (ra) ibn Zayd ibn Amr ibn Nufayl [primo paterno e cunhado de Umar (ra)]

44. Sua esposa, Fatima (ra), bint al-Khattab [irmã de Umar (ra)]

45. Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Khattab (irmão mais velho de Umar)

46. Amir (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Rabia al-Anzi (Khattab o adotou como filho.)

47. Sua esposa, Layla (que Allah esteja satisfeito com ela), filha de Abi Hasma

48. Ma’mar (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Abdullah, filho de Nadla

49. Nu’aym (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Abdullah, filho de al-Lakhkham.

50. Adi (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Nadla

51. Urwa (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Abi Usas (meio-irmão de Amr ibn al-As)

52. Ma’us (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Sayai’d, filho de Haritha, filho de Nadla.

Tribo ligada à Banu Adi por laços de amizade.

53. Waqid bin Abdullah (Khattab o adotou como filho).

54. Khalid bin Bukayr bin Abd Yalil al-Layli

55. Iyas (r.a.) bin Bukayr bin Abd Yalis al-Laythi

56. Ya’s (r.a.) bin Bukayr bin Abd Yalis al-Laythi

56. Amir (r.a.)

57. Aqil (r.a.)

A tribo Banu Abd al-Dar

58. Musab (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Umayr

59. Seu irmão Abu Rum (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Umayr

60. Firas (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de An-Nadr

61. Jahm (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Qays

62. Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Maz’un

63. Seu irmão Qudama (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Maz’un

64. Seu irmão Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Maz’un

65. Sa’ib, filho de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Maz’un

66. Ma’mar (r.a.), filho de al-Harith, filho de Ma’mar

67. Seu irmão Hatib (r.a.), filho de al-Harith

68. Sua esposa Fátima (r.a.), filha de Mujallil al-Amiriyya

69. Hattab (r.a.), irmão de Ma’mar, filho de al-Harith

70. Sua esposa Fuqayha, filha de Yasar

71. Sufyan, filho de Ma’mar (r.a.)

72. Nubayna (r.a.), filho de Uthman

A tribo de Banu Sahm

73. Abdullah (r.a.), filho de Hudhafa

74. Khunays (r.a.), filho de Hudhafa (genro de Umar (r.a.); primeiro marido de Hafsa (r.a.), Mãe dos Crentes)

75. Hisham (r.a.), filho de al-As bin Wa’il

76. Harith (r.a.), filho de Qays

77. Seu filho Bashir bin Harith (r.a.)

78. Seu segundo filho, Ma’mar bin Harith (r.a.)

79. Qays (r.a.), filho de Hudhafa (irmão de Abdullah bin Hudhafa)

80. Abu Qays (r.a.), filho de al-Harith

81. Abdullah (ra) bin al-Harith

82. Saib (ra), o mesmo

83. Hajjaj (ra), o mesmo

84. Bishar (ra), o mesmo

85. Sa’id (ra), o mesmo

A tribo aliada dos Banu Sahm

86. Umay (ra) bin Riyab

87. Mahmiyya (ra) bin al-Jazu [meio-irmão de Umm al-Fadl (ra), esposa de Hazrat Abbas (ra).]

Tribo dos Banu Makhzum

88. Abu Salama (Abdullah ibn Abd al-Asad, primo paterno e irmão de leite do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e primeiro marido da Mãe dos Crentes, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela).]

89. Sua esposa, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) (ela e seu marido, Abu Salama, eram parentes próximos de Abu Jahl).

90. Arqam ibn Abi al-Arqam (cuja Casa de Arqam foi mencionada anteriormente).]

91. Ayyash ibn Abi Rabi’a (meio-irmão de Abu Jahl e primo de Khalid ibn al-Walid).

92. Sua esposa, Asma bint Salama al-Tamimiyya.

93. Walid ibn Walid ibn al-Mughira.

94. Hisham ibn Abi Hudhayfa

95. Salma (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Hisham

96. Hashim (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Abi Hudhayfa

97. Habbar (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Sufyan

98. Seu irmão Abdullah, filho de Sufyan

A tribo aliada dos Banu Makhzum

99. Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele) (pai de Ammar, filho de Yasir).

100. Ammar, filho de Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele).

101. Seu irmão Abdullah, filho de Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele).

Tribo dos Banu Amir ibn Luhaï

102. Abu Habra (r.a.), filho de Abi Ruaym (filho de Barrah (r.a.), filha de Abdul Muttalib, tia paterna do Profeta).

103. Sua irmã, Umm Kulthum (r.a.), filha de Suhayl ibn Amr. (Irmã de Abu Jandal (r.a.).

104. Abdullah (r.a.), filho de Suhayl ibn Amr.

105. Hatib (r.a.), filho de Amr (irmão de Suhayl ibn Amr).

106. Salit (r.a.), filho de Amr.

107. Saqran (r.a.), filho de Amr (irmão de Suhayl ibn Amr. Foi o primeiro marido de Sawda (r.a.), filha de Zam’a).

108. Sua esposa, Sawda (r.a.), filha de Zam’a (após a morte de Saqran, teve a honra de se tornar uma das Mães dos Crentes).

109. Salit ibn Amr, Bibi Yaqaza (que Allah esteja satisfeito com ela), filha de Alqama (em al-Isaba, ela é chamada Umm Yaqaza, e Ibn Sa’d disse que era Fátima, filha de Alqamah).

110. Malik ibn Zam’a (irmão de Sawda).

111. Ibn Umm Maktum (que Allah esteja satisfeito com ele).

A tribo Banu Fihr ibn Malik

112a. Abu Ubayda ibn al-Jarrah (que Allah esteja satisfeito com ele)

113. Sahail ibn Bayda (que Allah esteja satisfeito com ele)

114. Sa’id ibn Qays (que Allah esteja satisfeito com ele)

115. Amr ibn al-Harith ibn Zuhayr (que Allah esteja satisfeito com ele)

116. Uthman (r.a.), filho de Abd Ghanam ibn Zuhair (primo materno de Abd al-Rahman ibn Awf (r.a.)).

117. Harith (r.a.), filho de Sa’id

A tribo dos Banu Abd Qusai

118. Tushaib (r.a.), filho de Umayr (filho de Arwa bint Abd al-Muttalib, tia paterna do Profeta). Os membros desta tribo mantinham relações com as famílias nobres dos coraixitas. Além disso, possuíam um grande número de escravos e escravas. Como resultado do trabalho secreto de pregação durante três anos, eles aceitaram o Islã. Seus nomes são os seguintes:

119. Umm Ayman Barakah (r.a.), filha de Tha’labah, que criou o Profeta no colo desde a sua infância.

120. Zinnirah, a Romana (r.a.) (escrava alforriada de Amr ibn al-Mu’ammil).

121. Bilal (r.a.), filho de Rabah.

122. Sua mãe, Hamamah (r.a.)

123. Abu Fukaiha (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Yassar al-Juhmi (liberto de Safwan ibn Umayya).

124. Labiba (que Allah esteja satisfeito com ela) (escrava de Mu’ammil ibn Habib).

125. Ummu Ubais (que Allah esteja satisfeito com ela) (escrava dos Banu Taim ibn Munra ou dos Banu Zuhra. A primeira afirmação é de Zubair ibn Bakkar, e a segunda, de Baladhuri).

126. Amir ibn Fuhaira (escravo de Tufail ibn Abdullah).

127. Sumayya (que Allah esteja satisfeito com ela) (mãe de Ammar ibn Yasir e escrava de Abu Hudhaifa ibn Mugira al-Makhzumi).

Entre os coraixitas que aceitaram o Islã nos primeiros tempos em Meca, seguem abaixo os seus nomes:

128. Mihjan (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de al-Adra al-Aslami.

129. Masud (que Allah esteja satisfeito com ele), filho de Rabia ibn Amr. Ele pertencia ao clã Qara dos Banu al-Hun ibn Khuzaima.

Assim, somando 129 pessoas aos quatro primeiros muçulmanos, seu número chegará a cento e trinta e três (133). Todas essas pessoas afortunadas passaram a fazer parte do grupo dos muçulmanos antes de o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começar a fazer o convite publicamente.

[Abdul-Barr escreveu em Al-Isti’ab e Ibn Athir em Usd al-Ghabah: “Diz-se que Umm al-Fadl (que Allah esteja satisfeito com ela), esposa de Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), foi a primeira mulher a aceitar o Islam depois de Hazrat Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela).” Se isso for verdade, o número desses primeiros muçulmanos chega a 134. O nome verdadeiro dessa mulher era Lubaba bint al-Harith. Ela era irmã de Umm al-Mu’minin Hazrat Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela), tia materna de Hazrat Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) e meia-irmã de Asma bint Umais, esposa de Hazrat Jafar ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele). Não incluímos o nome dela nesta lista porque a expressão “diz-se” ou “é relatado” indica que isso foi transmitido de forma fraca — o autor]

Eram pessoas de pensamento correto e natureza sã. Mediante simples raciocínio, provas e entendimento mútuo, compreenderam a nocividade do politeísmo, aceitaram a verdade do tawhid, reconheceram Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como o Mensageiro de Allah, consideraram o Alcorão a Palavra de Allah e fonte de orientação para si mesmos, e aceitaram a vida do Além como uma verdade incontestável. Depois de formar trabalhadores tão sinceros e dotados de discernimento religioso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por ordem de Allah Todo-Poderoso, iniciou publicamente o trabalho de convocação islâmica. (****21)

Referências

1. Rasa’il o Masa’il — volume 1, p. 29

2. Acréscimo feito pelo autor

3. Tafhim al-Qur’an — introdução à surata Al-‘Alaq

4. Ibid. — Alամ Nashrah, nota 2

5. Idem — Ash-Shura, nota 83

6. Idem — Introdução à surata Al-Alaq

7. Idem, introdução à surata Al-Alaq

8. Rasail wa Masail, volume 3, p. 232

9. Idem, idem, pp. 229–232

10. Tafhimul Qur’an — Qasas, nota 109

11. Idem, introdução à surata Al-Muddaththir

12. Idem, Al-Alaq, notas 1–6

13. Acréscimo do autor

14. Tafhim al-Qur’an — Al-Qadr, nota 1

15. Acréscimo do autor

16. Tafhim al-Qur’an — introdução à Surata Al-Muddaththir

17. Acréscimo do autor

18. Tafhim al-Qur’an, nota 11 sobre Al-Qiyamah

19. Ibid. — Al-A’la, nota 7

20. Ibid. — Ta-Ha, nota; Al-Qiyamah 11, Al-A’la 7

21. Acréscimo do autor.

 

Capítulo quinto

A orientação dada ao Profeta (que a paz esteja com ele) para a da‘wah

Já descrevemos a situação dos três primeiros anos do tabligh secreto. Agora, antes de narrarmos a história do período de dez anos da da‘wah pública em Meca, consideramos necessário esclarecer dois pontos. Isso permitirá compreender melhor os acontecimentos posteriores.

O primeiro é: que orientação foi dada ao Profeta (que a paz esteja com ele) para cumprir a responsabilidade da missão profética, orientação essa tão eficaz que conquistou o coração das pessoas, removeu a perversidade de seus corações e transformou completamente uma nação incivilizada e bárbara?

O segundo é: qual era a verdadeira natureza da da‘wah islâmica, por causa da qual se levantou contra o Profeta (que a paz esteja com ele) uma tempestade de oposição como jamais havia surgido na Arábia contra aqueles que simplesmente rejeitavam o shirk e aceitavam o tawhid? E com que firmeza essa da‘wah foi apresentada, a ponto de finalmente deixar indefesos e sem poder os porta-estandartes da jahiliyyah?

Neste capítulo, discutiremos o primeiro ponto; o segundo será tratado no capítulo seguinte. (1****)

Breve descrição da da‘wah inicial

Allah, o Altíssimo, escolheu um de Seus servos (Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz) para a missão profética na famosa cidade central da Arábia, Meca, e ordenou-lhe que desse início à obra da da‘wah em sua própria cidade e entre sua própria tribo. Para iniciar essa obra, foram-lhe dadas as orientações necessárias, relacionadas a três questões.

Primeiro — instruir o Profeta sobre como ele próprio deveria preparar-se para essa grandiosa tarefa e por qual método deveria realizá-la.

Segundo — fornecer um conhecimento preliminar sobre a realidade das coisas e refutar os conceitos equivocados acerca da verdade que eram encontrados entre as pessoas ao seu redor e que faziam com que sua conduta fosse defeituosa.

Terceiro — convocar à conduta correta e apresentar os princípios morais fundamentais da orientação divina, cuja observância pode conduzir o ser humano ao bem-estar e à felicidade.

Na fase inicial, essas mensagens eram transmitidas em palavras breves e concisas. A linguagem era extremamente refinada e elegante, doce e cativante. Falava-se àqueles a quem se dirigia numa linguagem literária adequada ao seu gosto, para que as palavras penetrassem profundamente no coração, para que a melodia e a beleza do discurso atraíssem os ouvidos e para que, graças à sua harmonia e equilíbrio, fossem espontaneamente recitadas repetidas vezes. Além disso, essas palavras e exposições faziam ampla referência ao ambiente e às circunstâncias locais. Embora se pregasse uma verdade universal, os argumentos, provas, testemunhos e exemplos apresentados provinham do ambiente mais próximo, com o qual estavam intimamente familiarizadas as pessoas a quem se dirigia o discurso. Falava-se de sua própria história e tradição, dos monumentos e ruínas que viam diariamente, bem como de suas próprias crenças e dos seus desvios morais e sociais, para que pudessem tirar lições de tudo isso.

Essa fase inicial da da‘wah durou aproximadamente quatro ou cinco anos, dos quais os três primeiros corresponderam ao período do movimento secreto. Nessa fase, a da‘wah e a transmissão da mensagem pelo Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) produziram reações que se manifestaram de três formas.

(1) Alguns homens virtuosos aceitaram essa da‘wah e se prepararam para tornar-se parte da Ummah muçulmana.

(2) Um grande número de pessoas avançou para se opor, seja por ignorância e interesses pessoais, seja por respeito e amor à religião de seus antepassados.

(3) Ultrapassando os limites de Meca e dos coraixitas, a voz deste novo chamado alcançou um círculo relativamente mais amplo.

A partir de então começou a segunda fase deste chamado. Nessa fase iniciou-se um conflito e confronto mortal entre este movimento do Islã e a antiga jahiliyyah, que continuou por oito ou nove anos. Não apenas em Meca e entre a tribo dos coraixitas, mas também na maior parte das regiões da Arábia, aqueles que queriam preservar intacta a antiga jahiliyyah resolveram destruir este movimento pela força. Para isso, recorreram a todo tipo de artifício perverso e espalharam propaganda falsa; provocaram uma tempestade de acusações, dúvidas, suspeitas, busca de falhas e críticas severas. Instilaram diversos tipos de provocações e concepções equivocadas na mente das pessoas comuns. Tentava-se impedir que os desconhecidos ouvissem as palavras do Profeta (que a paz esteja sobre ele). Os que aceitavam o Islã eram submetidos a torturas e perseguições desumanas. Romperam-se com eles as relações financeiras e sociais. Tornaram-lhes a vida tão insuportável que, por duas vezes, foram obrigados a abandonar suas casas e emigrar para a Abissínia. Finalmente, todos tiveram de emigrar pela terceira vez, para Medina. Mas, apesar desse tipo de obstáculos severos e sempre renovados, o movimento continuou a se expandir. Não havia em Meca família ou casa alguma em que pelo menos uma pessoa não tivesse aceitado o Islã. A razão da dureza e da amargura no comportamento hostil da maioria dos opositores do Islã era que seus próprios irmãos, sobrinhos, filhos, filhas, irmãs, genros e outros não eram apenas seguidores do chamado islâmico, mas haviam se tornado forças auxiliares dedicadas ao Islã. Até seus próprios parentes de sangue se prepararam para lutar contra eles. O interessante é que aqueles que saíram das densas trevas da antiga jahiliyyah e aderiram a este novo movimento já eram anteriormente as pessoas mais honestas da sociedade; e, depois de participarem dele, tornavam-se tão verdadeiros e puros de caráter que o mundo não podia deixar de reconhecer a superioridade desse movimento, que atraía para si homens tão nobres e os tornava ainda mais nobres.

Durante esse longo e duro conflito, Allah Todo-Poderoso continuou a revelar, conforme a ocasião e a necessidade, discursos tão vigorosos que pareciam conter o fluxo de um rio, a força de uma inundação e o impacto de um fogo intenso. Nesses discursos, por um lado, eram explicados aos crentes seus deveres e responsabilidades iniciais, e despertava-se neles o sentimento de viver como uma comunidade unida. Eram ensinados a taqwa, a nobreza de caráter e uma vida pura. Era-lhes mostrado o método de propagar a religião da verdade. Por meio da promessa de sucesso e das boas-novas do Paraíso, infundia-se coragem neles. Eram incentivados a lutar no caminho de Allah com paciência, firmeza e enorme entusiasmo e ardor. Despertava-se neles tal entusiasmo e emoção para oferecer a própria vida que se preparavam para enfrentar qualquer perigo e resistir à enorme tempestade de oposição.

Por outro lado, os opositores, os que rejeitavam o caminho da verdade e os que passavam a vida em negligência eram advertidos sobre o destino dos povos cuja história conheciam. Eram convidados a aprender com as ruínas dos povoados destruídos que passavam diante deles dia e noite durante suas viagens. A partir de sinais tão claros, eram apresentados argumentos em favor do tawhid e da vida futura, sinais que dia e noite flutuavam diante de seus olhos no céu e na terra, e que eles próprios viam e sentiam plenamente em suas vidas. Os erros do shirk, da tirania, da descrença na vida futura e do amor à imitação cega dos antepassados eram expostos diante deles com argumentos claros que penetravam profundamente em seus corações. Cada uma de suas dúvidas e suspeitas era removida, e cada acusação recebia uma resposta justa. Eram eliminadas, uma a uma, as confusões de que sofriam e aquelas que eram criadas entre outras pessoas. A jahiliyyah era demonstrada como tão vazia de conteúdo que não lhe restava lugar algum no mundo da razão e da consciência. Ao mesmo tempo, eram mostrados o castigo de Allah, o estado aterrador do Dia da Ressurreição e o temor da punição do Inferno. Eram repreendidos por seu mau caráter, seu modo de vida equivocado, seus costumes jahilitas, sua oposição à verdade e por causarem sofrimento aos que criam. Eram apresentados diante deles os princípios fundamentais da moralidade, da ética e da civilização sobre os quais, desde tempos imemoriais, vem sendo edificada a civilização justa e íntegra escolhida por Allah.

Essa fase teve diferentes etapas, e em cada etapa o chamado se tornava mais abrangente. A luta e os obstáculos tornavam-se cada vez mais severos. Os muçulmanos continuavam a se deparar com pessoas de diferentes crenças e comportamentos; consequentemente, também aumentava a diversidade de conteúdo nas mensagens vindas da parte de Allah. (*****2)

Ao refletir sobre a orientação detalhada dada ao Profeta (que a paz esteja sobre ele) para realizar esta grandiosa tarefa do chamado islâmico, pode-se compreender facilmente que força moral extraordinária abriu o caminho para o avanço da propagação islâmica durante a época da intensa oposição de Meca, e que ensinamentos proveitosos e que influência da propagação incentivaram as pessoas a entrar em conflito com todas as forças no caminho de Allah e a suportar toda adversidade e calamidade. A seguir, descrevemos essas orientações uma a uma.

Observar a sabedoria e a exortação no chamado

ادْعُ إِلَى سَبِيلِ رَبِّكَ بِالْحِكْمَةِ وَالْمَوْعِظَةِ الْحَسَنَةِ

Ó Profeta, convoca ao caminho do teu Senhor com sabedoria e boas exortações (An-Nahl: 125). O significado de sabedoria é que a pregação não deve ser feita, como um insensato, sem qualquer discernimento; ao contrário, depois de compreender com inteligência a mentalidade, a capacidade e a situação do interlocutor, deve-se falar no momento oportuno. Não se deve conversar com todos os tipos de pessoas usando a mesma forma de expressão. Primeiro, é preciso diagnosticar a doença da pessoa ou do grupo ao qual se pretende transmitir a mensagem. Depois, deve-se tratar essa doença com argumentos e provas capazes de eliminá-la profundamente do coração deles.

As boas exortações têm dois significados. O primeiro é que não basta convencer o interlocutor apenas por meio de argumentos e provas. É preciso também apelar às suas emoções. Não se deve apenas refutar o pecado, a transgressão e o desvio por meio da argumentação; é necessário, antes, chamar sua atenção para a repulsa inata por essas coisas que pode ser encontrada na natureza humana. Deve-se adverti-lo sobre o temor de suas consequências terríveis. Também não basta provar apenas por argumentos a verdade e as virtudes da orientação e das boas ações; é preciso despertar nele afeição e desejo por elas.

O segundo significado é que a exortação deve ser oferecida de tal modo que nela se manifestem compaixão e sincera benevolência. O interlocutor, isto é, aquele que está recebendo a exortação, não deve pensar que está sendo considerado inferior e insignificante, enquanto o conselheiro se alegra com o sentimento da própria superioridade. Pelo contrário, o interlocutor deve sentir que, no coração do conselheiro, há inquietação e ansiedade pela sua correção e que, na realidade, ele deseja apenas o seu bem.

A conversa não deve transformar-se em uma disputa de argumentos ou em um duelo intelectual. É preciso evitar debates injustos, acusações mútuas, qualquer afirmação dolorosa, zombaria, sarcasmo e coisas semelhantes. O objetivo não deve ser calar o adversário nem exibir a própria inteligência. Pelo contrário, as palavras devem ser doces e agradáveis, e o caráter deve ser de elevado nível e nobre. Os argumentos e as provas devem ser justos e aceitáveis. Não se deve provocar no interlocutor obstinação, sentimento da própria influência e prestígio, nem teimosia. Deve-se tentar fazê-lo compreender por meio de palavras simples. Se parecer que ele está descendo ao sofisma, deve-se deixá-lo nessa situação, para que não se envolva em um desvio ainda maior. (****3)

Um método sereno e refinado para o chamado à verdade

وَقُلْ لِعِبَادِي يَقُولُوا الَّتِي هِيَ أَحْسَنُ إِنَّ الشَّيْطَانَ يَنْزَغُ بَيْنَهُمْ إِنَّ الشَّيْطَانَ كَانَ لِلْإِنْسَانِ عَدُوًّا مُبِينًا () رَبُّكُمْ أَعْلَمُ بِكُمْ إِنْ يَشَأْ يَرْحَمْكُمْ أَوْ إِنْ يَشَأْ يُعَذِّبْكُمْ وَمَا أَرْسَلْنَاكَ عَلَيْهِمْ وَكِيلًا

—E, ó Muhammad (que a paz esteja com ele), dize aos Meus servos que falem aquilo que é melhor. Na verdade, Satanás é aquele que tenta criar corrupção entre as pessoas. De fato, ele é um inimigo manifesto do ser humano. Vosso Senhor conhece muito bem a vossa condição. Se quiser, poderá conceder-vos misericórdia, e, se quiser, poderá castigar-vos. E, ó Profeta, não te enviamos como responsável pela supervisão das pessoas. (Bani Isra’il: 53-54)

Isto é, ao falar e dialogar com os fiéis, os incrédulos idólatras e os opositores da religião, não se deve usar uma linguagem áspera e rude, nem dizer nada de forma exagerada. Por mais irritantes que sejam as palavras dos opositores, os muçulmanos jamais devem proferir algo contrário à verdade, nem, tomados pela ira, responder palavras vãs com palavras vãs. É necessário falar com calma e ponderação, dizendo algo que seja absolutamente verdadeiro e compatível com a dignidade da الدعوة islâmica.

E, se alguma vez sentirdes que, ao responder às palavras dos opositores, o fogo da ira arde dentro de vós e se percebe que está surgindo uma extrema agitação em vosso temperamento e disposição, então deveis compreender que Satanás está vos incitando, para que o trabalho da الدعوة da religião seja prejudicado. O seu esforço consiste em fazer com que também abandoneis, como os opositores, o trabalho de reforma e correção, e vos envolvais na mesma disputa e contenda em que ele, Satanás, quer manter a humanidade.

Não é correto que saia da boca dos fiéis: “Nós somos destinados ao Paraíso, e determinada pessoa ou grupo está destinado ao Inferno”. A autoridade para decidir esse assunto pertence somente a Allah, o Altíssimo. A tarefa do próprio Profeta também é apenas transmitir a الدعوة. O destino das pessoas não foi colocado em suas mãos para que ele anunciasse a decisão de misericórdia para uns e de castigo para outros.(****)

A dignidade e a responsabilidade do داعي

قَدْ جَاءَكُمْ بَصَائِرُ مِنْ رَبِّكُمْ فَمَنْ أَبْصَرَ فَلِنَفْسِهِ وَمَنْ عَمِيَ فَعَلَيْهَا وَمَا أَنَا عَلَيْكُمْ بِحَفِيظٍ

—Vede: chegou-vos, da parte de vosso Senhor, uma luz de discernimento. Quem fizer uso desse discernimento beneficiará a si mesmo. E quem permanecer cego prejudicará a si próprio. E eu não sou vosso guardião. (Al-An’am: 104).

“Não sou vosso guardião” — o significado dessas palavras é que a minha tarefa se limita a apresentar diante de vós a luz que veio da parte de vosso Senhor. Depois disso, abrir os olhos e ver ou não ver é tarefa vossa. Não me foi atribuída a responsabilidade de abrir à força os olhos daqueles que os mantêm fechados por vontade própria, nem de obrigar a ver aqueles que não querem ver.(****5)

مَنْ يُصْرَفْ عَنْهُ يَوْمَئِذٍ فَقَدْ رَحِمَهُ وَذَلِكَ الْفَوْزُ الْمُبِينُ (16) وَإِنْ يَمْسَسْكَ اللَّهُ بِضُرٍّ فَلَا كَاشِفَ لَهُ إِلَّا هُوَ وَإِنْ يَمْسَسْكَ بِخَيْرٍ فَهُوَ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ

—Ó Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), segue a revelação que foi enviada a ti por parte do teu Senhor. Não há deus além d’Ele. E não te ocupes em perseguir esses idólatras. Se a vontade de Allah fosse que eles não praticassem shirk, não o praticariam. Nós não te constituímos seu guardião, nem és responsável por sua supervisão. (Al-An‘am: 16–17) — O significado disso é que foste designado como chamador e muballigh, e não como kotwal ou chefe de polícia. Não é tua função perseguir essas pessoas. Tua tarefa consiste apenas em apresentar esta luz às pessoas e não deixar de empregar, para tornar a verdade clara e evidente, toda a força e capacidade de que dispões. Se alguém não aceitar esta verdade, que não a aceite. Não foste encarregado desta tarefa para necessariamente tornar as pessoas seguidoras da verdade. E, se alguém permanecer no caminho da falsidade dentro dos limites da tua missão profética, também não serás chamado a prestar contas por isso. Portanto, não te atormentes inutilmente pensando em como dar visão ao cego e em como mostrar o caminho àqueles que não querem abrir os olhos para ver. Se, de fato, a exigência da sabedoria de Allah fosse que ninguém pudesse permanecer no caminho da falsidade no mundo, por que Allah teria precisado confiar-te esta tarefa? Não poderia Ele, com um único sinal criador, tornar toda a humanidade seguidora da verdade? Mas esse não é, de modo algum, o verdadeiro objetivo. O objetivo é que os seres humanos tenham liberdade para escolher entre a verdade e a falsidade. Em seguida, a luz da verdade é apresentada diante deles, para que sejam testados quanto à escolha que farão entre as duas. Portanto, o procedimento correto para ti é continuar caminhando pelo caminho reto, à luz da luz que te foi mostrada, e continuar convidando os outros para ela. Deves acolher como teus aqueles que aceitarem este convite e jamais afastá-los, por mais insignificantes e desprezíveis que possam parecer aos olhos do mundo. Quanto aos que não aceitarem teu convite, não te ocupes em persegui-los. Deixa que sigam para o mau destino ao qual eles próprios querem ir e para o qual estão decididos a dirigir-se. (****6)

A maneira fácil de fazer tabligh

وَنُيَسِّرُكَ لِلْيُسْرَى () فَذَكِّرْ إِنْ نَفَعَتِ الذِّكْرَى

—E, ó Profeta, Nós te facilitaremos o caminho mais fácil. Portanto, admoesta, se a admoestação for proveitosa — (Al-A‘la: 8–9).

Isto é: ó Profeta, não queremos dificultar-te a tarefa do tabligh da religião, exigindo que faças um surdo ouvir e guies um cego pelo caminho. Pelo contrário, estamos a proporcionar-te a oportunidade de seguir o caminho fácil. Isso significa que, se perceberes que, em algum lugar, uma pessoa está pronta para aproveitar a admoestação, então admoesta-a nesse lugar. Agora, a questão é: quem está pronto para aproveitar a admoestação e quem não está? É certo que isso só poderá ser descoberto por meio do tabligh ou da pregação entre o povo em geral. Por isso, o tabligh deve continuar entre as pessoas. Contudo, seu objetivo deve ser procurar e identificar, entre os servos de Allah, aqueles que aproveitarão essa oportunidade e adotarão o caminho da verdade. Deves dar atenção especial a essas pessoas e dedicar atenção especial à sua educação e formação. Não deves desperdiçar teu tempo, deixando-as de lado para correr atrás de pessoas sobre as quais já adquiriste a experiência de que não desejam aceitar tua admoestação. (****7)

Quem recebe verdadeira importância no tabligh do ponto de vista do Islã

وَلَا تَطْرُدِ الَّذِينَ يَدْعُونَ رَبَّهُمْ بِالْغَدَاةِ وَالْعَشِيِّ يُرِيدُونَ وَجْهَهُ مَا عَلَيْكَ مِنْ حِسَابِهِمْ مِنْ شَيْءٍ وَمَا مِنْ حِسَابِكَ عَلَيْهِمْ مِنْ شَيْءٍ فَتَطْرُدَهُمْ فَتَكُونَ مِنَ الظَّالِمِينَ

— E, ó Profeta, não afastes de ti aqueles que invocam seu Senhor de manhã e à noite, desejando Seu agrado. Tu não tens de responder por nada daquilo que eles terão de responder, nem eles têm de responder por nada daquilo que tu terás de responder. E, mesmo assim, se os afastares, serás injusto — (Al-An’am: 52).

Entre aqueles que primeiramente creram no Mensageiro de Allah (s.a.w.), havia muitos que eram extremamente pobres e trabalhadores. Entre as demais acusações feitas pelos grandes chefes e pelos ricos coraixitas contra o Mensageiro de Allah (s.a.w.), uma era: “Ao teu redor se reuniram todos os escravos, servas e pessoas das classes inferiores da nossa sociedade.”

Zombando, diziam: “Vejam que companheiros ilustres ele encontrou! Como Bilal (r.a.), Ammar (r.a.), Suhaib (r.a.) e Khabbab (r.a.). Afinal, será que Allah só encontrou entre nós pessoas como essas, que poderiam ser escolhidas?”

Eles não se limitavam a zombar dos pobres que haviam abraçado a fé; quando algum deles tinha alguma fraqueza antes de crer, mencionavam-na e diziam: “Vejam! Fulano, que até ontem era assim, e sicrano, que havia feito isto e aquilo, hoje também fazem parte do grupo escolhido e honrado.” De fato, na ayah 53 da surata Al-An’am, foi citada esta fala deles: “São estes aqueles dentre nós sobre os quais Allah concedeu Sua graça e favor?” Esta ayah responde justamente a isso. Seu significado é: não afastes, por consideração a esses grandes homens, aqueles que vêm a ti desejando a verdade. Mesmo que tenham cometido erros e faltas antes de aceitar o Islam, sua responsabilidade não foi colocada sobre ti. (****8)

O episódio de Ibn Umm Maktum

Certa vez, alguns chefes influentes de Meca estavam sentados na presença do Mensageiro de Allah (s.a.w.), e o Profeta (s.a.w.) tentava incentivá-los a aceitar o Islam.

(Os nomes daqueles que estavam sentados na presença do Profeta (s.a.w.) naquela ocasião são apresentados em diferentes relatos. Nessa lista encontram-se os nomes de alguns dos mais ferrenhos inimigos do Islam, como Utba, Shayba, Abu Jahl, Umayya ibn Khalaf e Ubayy ibn Khalaf. Isso mostra que o episódio ocorreu numa época em que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) ainda mantinha contato com eles, e o conflito não havia chegado a tal ponto que suas idas à casa dele e seus encontros com ele tivessem cessado completamente — (autor da obra).)

Nesse momento, um cego chamado Ibn Umm Maktum compareceu à presença do Profeta (s.a.w.) e quis fazer algumas perguntas sobre o Islam. Sua intervenção não agradou ao Profeta (s.a.w.), que demonstrou certa irritação para com ele; por isso, Allah, o Altíssimo, revelou esta surata, Abasa.

عَبَسَ وَتَوَلَّى () أَنْ جَاءَهُ الْأَعْمَى

Ele se mostrou contrariado e virou o rosto quando o cego veio até ele (Abasa: 1–2).

Pela forma aparente como o discurso é iniciado, parece que, nesta surata, foi manifestado desagrado ao Profeta (s.a.) por ter negligenciado o cego e dado atenção especial aos grandes chefes. Contudo, ao refletir sobre a surata como um todo, compreende-se que, na realidade, o desagrado foi manifestado contra aqueles chefes coraixitas que, por orgulho, arrogância, obstinação e aversão à verdade, rejeitavam com desprezo a pregação da verdade pelo Mensageiro de Deus (s.a.). Ao indicar ao Profeta (s.a.) o método correto do tabligh, também lhe foram esclarecidas as falhas do método que ele havia adotado no início de sua missão. Ele não virou o rosto para o cego e deu atenção aos chefes coraixitas porque considerasse os ricos dignos de honra e o cego desprezível e insignificante, nem porque — Deus nos livre — houvesse alguma aspereza em seu temperamento pela qual Deus Altíssimo o tivesse repreendido. Pelo contrário, a realidade era que, quando um da’i (pregador) inicia sua da’wa, é natural que tenha a tendência de desejar que as pessoas influentes da sociedade aceitem seu chamado, para que o trabalho se torne mais fácil. Caso contrário, mesmo que a da’wa se espalhe entre pessoas comuns sem influência ou prestígio, incapazes, inativas ou fracas, isso pouco lhe importa. No início da da’wa, foi aproximadamente esse o método de trabalho que o Mensageiro de Deus (s.a.) adotou. Foi a plena ikhlas (sinceridade) e o impulso de difundir a da’wa da verdade que o motivaram; ele não nutria a ideia de honrar e respeitar os grandes nem de desprezar e humilhar os pequenos. Mas Deus Altíssimo explicou-lhe que esse não é o método correto da da’wa islâmica. Pelo contrário, do ponto de vista dessa da’wa, toda pessoa que busca a verdade tem importância, seja ela fraca, sem influência ou prestígio, ou incapaz, qualquer que seja sua condição. E não tem importância aquele que é avesso à verdade, por mais influente que seja na sociedade. Por isso, o Profeta (s.a.) certamente transmitirá publicamente os ensinamentos islâmicos ao povo em geral. Contudo, os verdadeiros merecedores de sua atenção são aqueles nos quais se encontra o interesse e o desejo de aceitar a verdade. A dignidade da grande da’wa do Profeta é diminuída quando ela é apresentada a pessoas arrogantes que, orgulhosamente, pensam que a necessidade não é delas, mas dele (do Profeta).

وَمَا يُدْرِيكَ لَعَلَّهُ يَزَّكَّى () أَوْ يَذَّكَّرُ فَتَنْفَعَهُ الذِّكْرَى () أَمَّا مَنِ اسْتَغْنَى () فَأَنْتَ لَهُ تَصَدَّى () وَمَا عَلَيْكَ أَلَّا يَزَّكَّى () وَأَمَّا مَنْ جَاءَكَ يَسْعَى () وَهُوَ يَخْشَى () فَأَنْتَ عَنْهُ تَلَهَّى () كَلَّا إِنَّهَا تَذْكِرَةٌ () فَمَنْ شَاءَ ذَكَرَهُ

—Ó Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), acaso sabes? Talvez ele se purifique ou dê atenção à exortação, e a exortação lhe seja proveitosa. Quanto àquele que não se importa, tu te ocupas dele. Contudo, que responsabilidade tens se ele não se purificar? E quanto àquele que vem correndo até ti e teme a Allah, tu te afastas dele. De modo algum! Isto é uma exortação; portanto, quem quiser, que a aceite. (Abasa: 3–12).

Essa era a delicada estratégia fundamental que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia negligenciado nesta ocasião no trabalho de propagação da religião. Para explicar isso, Allah, o Altíssimo, primeiro criticou a atitude do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para com Ibn Umm Maktum. Em seguida, disse a quem o pregador da verdade deve dar verdadeira importância e a quem não deve. De um lado está a pessoa cuja condição exterior deixa claro que busca a verdade e a deseja. Ela está sempre apreensiva, temendo que, por seguir a falsidade, venha a incorrer no desagrado de Deus. Por isso, veio espontaneamente com o objetivo de adquirir conhecimento da verdade e do caminho correto. Do outro lado está a pessoa cujo comportamento deixa claramente evidente que não possui qualquer busca pela verdade. Pelo contrário, não se considera dependente de ninguém que lhe mostre o caminho verdadeiro e correto. Entre esses dois tipos de pessoas, não se deve considerar quem, ao crer, será mais benéfico para a religião, nem de quem a fé será mais eficaz na propagação e expansão da religião. O que se deve considerar é quem está disposto a aceitar a orientação e purificar-se, e quem não demonstra respeito algum por esse tesouro inestimável. A pessoa do primeiro tipo pode ser cega, aleijada, paralítica ou indigente, ou ainda, aparentemente, não estar apta a prestar um serviço significativo na propagação e expansão da religião; mesmo assim, é uma personalidade valiosa para o pregador da verdade. É a ela que se deve dar atenção, pois o verdadeiro objetivo da dawah é reformar e corrigir os servos de Allah. A condição dessa pessoa é tal que, se for exortada, aceitará a reforma e a correção. Quanto à pessoa do segundo tipo, não há necessidade de insistir nela, por mais influente e poderosa que seja na sociedade. Seu comportamento anuncia abertamente que não deseja corrigir-se. Portanto, gastar tempo tentando reformá-la é apenas desperdiçá-lo. Se ela não quiser purificar-se, que não se purifique. No fim, o prejuízo será dela, e o pregador da verdade não terá de assumir responsabilidade alguma por isso.

O cego mencionado aqui era o famoso companheiro Ibn Umm Maktum (que Allah esteja satisfeito com ele). Hafiz Ibn Abd al-Barr, em sua obra Al-Isti’ab, e Hafiz Ibn Hajar, em Al-Isabah, dizem que ele era primo materno de Khadijah, a Mãe dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com ela). Sua mãe, Umm Maktum, e o pai de Khadijah, Khuwaylid, eram irmãos. Depois de saber dessa relação dele com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não resta dúvida de que ele não o negligenciou por considerá-lo pobre ou de baixa posição, dando atenção aos ricos. Isso porque ele era cunhado do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e pertencia à sua própria tribo; não era alguém de classe inferior. A verdadeira razão pela qual o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) agiu assim com ele pode ser conhecida pela própria palavra (******). E foi justamente essa a causa da falta de atenção e do descuido do Profeta, mencionada pelo próprio Allah, o Altíssimo. Isto é, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pensava que, se qualquer um dos líderes a quem então tentava conduzir ao caminho reto recebesse orientação, isso poderia contribuir enormemente para o fortalecimento do Islam. Por outro lado, Ibn Maktum era cego. Devido à sua incapacidade, não seria tão benéfico para o Islam quanto seria um desses líderes caso algum deles se tornasse muçulmano. Por isso, não lhe caberia interromper a conversa naquele momento. Tudo o que desejasse compreender e perguntar poderia fazê-lo e entendê-lo em qualquer outro momento. (*****৯)

A sabedoria do tabligh

وَلَا تُجَادِلُوا أَهْلَ الْكِتَابِ إِلَّا بِالَّتِي هِيَ أَحْسَنُ

—E não discutais com o Povo do Livro, senão da melhor maneira (Al-Ankabut: 46). Isto é, o debate ou diálogo deve ser conduzido com argumentos e provas justos, em linguagem extremamente educada e decorosa. Deve ocorrer com uma atitude de compreensão mútua, para que o pensamento e a consciência do interlocutor sejam corrigidos. O propagador deve manter isso em mente: deve abrir a porta do coração do interlocutor, fazer chegar ali a palavra da verdade e conduzi-lo ao caminho correto.

Não lhe cabe lutar como um lutador, decidido a derrotar o adversário. Pelo contrário, deve tratar a doença como um médico. Ao tratar um paciente, o médico sempre presta especial atenção para que, por causa de algum erro seu, a enfermidade do paciente não se agrave ainda mais. Ele se esforça ao máximo para que o paciente se livre da doença com o mínimo de sofrimento possível. Embora esta orientação tenha sido dada aqui, considerando as circunstâncias, o tempo, o lugar e as pessoas, a respeito do diálogo com o Povo do Livro, ela não se restringe apenas ao Povo do Livro. Pelo contrário, é uma orientação geral para a propagação da religião, dada em vários lugares do Alcorão Sagrado. Por exemplo:

ادْعُ إِلَى سَبِيلِ رَبِّكَ بِالْحِكْمَةِ وَالْمَوْعِظَةِ الْحَسَنَةِ وَجَادِلْهُمْ بِالَّتِي هِيَ أَحْسَنُ

Convoca para o caminho do teu Senhor com sabedoria e boa exortação, e debate com as pessoas da maneira mais excelente (An-Nahl: 125).

 (Árabe*************)

O bem e o mal não são iguais. Repele o mal da maneira que for melhor. Então verás que aquele entre ti e quem havia inimizade se tornará como um amigo íntimo (Hâ-Mîm Sajdah: 34).

(Árabe*****************)

Repele o mal com aquilo que é melhor. Eu sei o que eles dizem contra ti (Al-Mu’minun: 96). (****10)

A conduta correta para cumprir o direito da da‘wah

(Árabe*******************)

(Ó Profeta,) adota a indulgência, ordena o que é reconhecidamente bom e não te envolvas em discussões com os ignorantes. E, se alguma vez Satanás te incitar, busca refúgio em Allah. Ele ouve tudo e sabe tudo. Na verdade, os que temem a Allah são assim: quando alguma sugestão maligna de Satanás os toca, imediatamente se lembram de Allah e então passam a enxergar claramente (qual é a conduta correta). Quanto aos irmãos deles (os satanases), eles os arrastam para o desvio e não deixam de fazê-los extraviar. — (Al-A‘raf: 199–202)

Nestes versículos, foram ensinados ao Profeta (que a paz esteja com ele) alguns métodos importantes (hikmah) para o convite, a transmissão da mensagem, a orientação e a reforma corretiva. O objetivo não era ensinar somente o próprio Profeta (que a paz esteja com ele); por meio dele, essa hikmah foi ensinada a todos aqueles que, ocupando seu lugar, assumirão a responsabilidade de guiar os habitantes do mundo pelo caminho correto. Esses princípios são os seguintes:

(1) Entre as qualidades especialmente necessárias ao pregador da verdade está a de ser compassivo, tolerante e liberal de espírito. Deve ser afetuoso com seus companheiros, misericordioso com o povo em geral e tolerante com os adversários. Deve ignorar as fraquezas dos colaboradores e também a dureza dos opositores. Mesmo nas situações de extrema tensão, deve manter o temperamento calmo e equilibrado. Deve suportar com generosidade até as palavras mais insuportáveis. Por mais duras que sejam as palavras dos adversários, por mais que façam acusações e propaganda difamatória, ou expressem a intenção de oferecer resistência injusta e violenta, é preciso ignorar tudo isso e seguir adiante. Demonstrar dureza e aspereza, proferir palavras rudes e indecorosas e cultivar um espírito vingativo traz consequências desastrosas. Com isso, o objetivo fracassa e não se alcança o êxito. O Profeta (que a paz esteja com ele) descreveu essa questão assim: “Meu Senhor ordenou-me que eu aja com justiça tanto quando estou irado quanto quando estou em estado normal; que eu me una àquele que deseja romper comigo; que eu dê seus direitos àquele que me priva dos meus direitos; e que eu perdoe aquele que me oprime.”

O Santo Profeta (que a paz esteja com ele) também dava essas orientações àqueles que enviava, em seu nome, para a tarefa religiosa. Ele dizia:

(Árabe****************)

Isto é: aonde quer que vocês vão, que sua chegada leve boas-novas às pessoas, e não desperte ódio. Que vocês sejam para as pessoas uma causa de facilidades e benefícios, e não de restrição e dureza.

A esse respeito, Allah Todo-Poderoso fez ouvir ao Santo Profeta (que a paz esteja com ele) palavras de elogio em seu favor:

(Árabe****************)

— É pela misericórdia de Allah que foste bondoso para com eles. Do contrário, se tivesses sido rude e de coração endurecido, eles ter-se-iam afastado de ao teu redor. — (Al Imran: 159).

(2) O caminho para o sucesso na da‘wah da verdade é incentivar as pessoas, em vez de discussões filosóficas e teóricas, àquelas formas simples, diretas e claras de bem e benefício que todos conhecem, e cuja utilidade pode ser compreendida apenas pelo bom senso (Common sense). Assim, o apelo daquele que convoca à verdade influencia pessoas de todas as classes e alcança as regiões mais profundas do coração dos ouvintes. Aqueles que se opõem a uma da‘wah tão conhecida acabam provocando o próprio fracasso e facilitando o caminho para o sucesso da da‘wah. Isso ocorre porque as pessoas comuns — por mais imersas que estejam nas superstições — quando veem que, de um lado, uma pessoa virtuosa e de grande caráter as convoca diretamente ao bem, enquanto, de outro, muitos utilizam, para se opor a ela, métodos desprovidos de ética e de humanidade, pouco a pouco passam espontaneamente a sentir aversão pelos opositores da verdade e a se inclinar para aquele que convoca à verdade. Por fim, no campo dos opositores, permanecem apenas aqueles cujos interesses pessoais estão ligados ao sistema corrupto, ou aqueles cujos corações, devido à imitação cega dos antepassados e à hostilidade da época da ignorância, já não conservam capacidade alguma para acolher a luz da verdade. Foi essa estratégia sábia que permitiu ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) alcançar o sucesso na Arábia. Depois dele, em pouco tempo, a inundação do Islam espalhou-se por outros países de tal modo que, em alguns lugares, cem por cento dos habitantes, e em outros, oitenta ou noventa por cento, buscaram abrigo sob a sombra refrescante do Islam.

(3) No trabalho desta da‘wah, é tão necessário incentivar os que desejam o bem à prática de boas ações quanto não se envolver em debates com os cegos, por mais que eles tentem arrastá-lo para uma discussão. O convocador ou porta-estandarte da verdade deve ser extremamente cuidadoso nesse assunto e dirigir-se somente àqueles que desejam compreender a mensagem por meios racionais. Se alguém começar a agir com obstinação, discussões e comportamento zombeteiro, como os ignorantes, o convocador da verdade deve recusar-se a desempenhar o papel de adversário. Não há benefício algum em envolver-se nesse debate. Pelo contrário, o prejuízo é que o tempo que ele poderia dedicar à divulgação e expansão da da‘wah e à formação do caráter das pessoas será desperdiçado nessa atividade inútil.

(4) Como complemento ao que foi dito acima: se alguma vez o convocador da verdade sentir em seu temperamento a agitação provocada pela opressão, perversidade, críticas e acusações originadas da ignorância dos opositores, deve imediatamente lembrar que isso é uma provocação de Satanás e buscar sem demora a proteção de Allah, para que Ele proteja Seu servo de ser levado pela corrente das emoções e de perder o controle a ponto de tomar alguma medida prejudicial à da‘wah da verdade. O trabalho da da‘wah da verdade só pode ser realizado com serenidade em todas as circunstâncias, e somente pode ser correta a medida adotada não sob o impulso das emoções, mas após cuidadosa reflexão à luz das circunstâncias. Contudo, como Satanás não suporta a expansão deste trabalho, ele sempre tentará, por meio de seus seguidores, lançar diversos ataques contra o porta-estandarte da verdade e, a cada ataque, continuará provocando-o, sugerindo-lhe que o ataque deve ser respondido. O apelo que Satanás apresenta ao coração daquele que convoca à verdade geralmente vem revestido de grandes interpretações enganosas e de terminologia religiosa. Mas, por trás dele, não há nada além do egoísmo. Por isso, os dois últimos versículos mencionados acima dizem que os piedosos — isto é, aqueles que temem a Allah e desejam manter-se afastados do pecado —, assim que sentem em seu coração a influência de uma sugestão satânica ou o toque de uma inclinação pecaminosa, ficam imediatamente alertas e vigilantes; então compreendem claramente qual conduta devem adotar naquela situação para alcançar o objetivo da da‘wah da religião e qual é a exigência da defesa da verdade. Já aqueles cujas ações são movidas pelo egoísmo e que, por isso, mantêm relações íntimas com os demônios, não conseguem resistir aos ataques satânicos; são derrotados e continuam caminhando pelo caminho do erro. Depois, Satanás os conduz a todos os campos para os quais deseja levá-los, e em nenhum lugar sua posição se consolida. Para cada insulto do adversário, têm um insulto; para cada estratégia, uma estratégia ainda maior.

A declaração de Allah, o Altíssimo, também possui um propósito geral: o modo de agir das pessoas dotadas de taqwa geralmente é diferente do modo de agir daqueles que não possuem taqwa. Aqueles que verdadeiramente temem a Allah e desejam sinceramente manter-se afastados da injustiça e do pecado sentem uma dor aguda assim que o menor contato com um mau pensamento toca seu coração, tal como se sente quando um objeto pontiagudo penetra no dedo ou quando algo mínimo entra no olho. Como não estão acostumados a pensamentos pecaminosos, desejos e más intenções, tudo isso contraria sua natureza, assim como uma mancha de tinta ou uma gota de sujeira na roupa contraria a natureza de uma pessoa acostumada à limpeza e desejosa de permanecer limpa. Quando sente esse incômodo, seus olhos se abrem, sua consciência desperta e começa a remover de si as partículas de injustiça e transgressão. Em contraste, aqueles que não temem a Allah, não desejam evitar as más ações e mantêm relação com Satanás deixam que maus pensamentos, desejos, intenções e propósitos se consolidem em seu coração, sem que lhes surja qualquer inquietação por causa dessas coisas imundas. É como uma panela em que se cozinha carne de porco, enquanto o dono da panela não sabe o que está sendo cozinhado nela; ou como um gari cujo corpo e roupas estão completamente cobertos de excrementos, mas que não sente de que modo está sujo e impuro. (****11)

A da‘wah para Allah em um ambiente de oposição extrema

(Árabe******************)

— E quem pode ter palavras melhores do que aquele que convoca para Allah, pratica boas ações e diz: “Sou muçulmano”? — (Fussilat: 33).

Nos versículos anteriores, os crentes foram consolados e incentivados. Depois, neste versículo, foram instados à verdadeira tarefa pela qual se tornaram muçulmanos. Nos versículos anteriores, foi-lhes dito que permanecessem firmes na adoração e na obediência a Allah, e que, depois de adotar esse caminho, não se desviassem dele; essa é a obra fundamental de piedade que torna o ser humano amigo dos anjos e digno do Paraíso. Agora lhes é dito que o grau seguinte — acima do qual não há grau mais elevado para o ser humano — consiste em praticar pessoalmente boas obras e convidar os outros à adoração de Allah. E, onde quer que declarar-se muçulmano significasse atrair sobre si perigos e calamidades, ele deveria dizer corajosamente, em um ambiente tão adverso e hostil: “Sou muçulmano — submisso a Allah.”

Para compreender plenamente a importância desta declaração, é preciso ter diante dos olhos as condições e o ambiente da época em que ela foi proferida. A situação era tal que qualquer pessoa que declarasse ser muçulmana sentia subitamente como se tivesse entrado em uma floresta de feras, e como se todas as feras estivessem correndo para despedaçá-la e devorá-la. Indo além disso, quem abrisse a boca para propagar o Islã parecia estar convidando as feras: “Venham, mastiguem-me e devorem-me.” Em tal situação, foi dito que uma pessoa reconhecer Allah como seu Senhor, seguir o caminho reto e não se desviar dele era, sem dúvida, uma grande obra fundamental de piedade. Mas a obra de piedade do mais alto nível consistia em que essa pessoa se levantasse publicamente e declarasse: “Sou muçulmano”, e, sem se importar com as consequências, convidasse as pessoas à adoração de Allah. E, ao realizar essa tarefa, deveria manter suas próprias ações tão puras e impecáveis que o Islã não encontrasse qualquer oportunidade de apontar falhas em seus porta-bandeiras. (****12)

Revidar o mal com aquilo que é melhor

(Árabe********************)

— Ó Profeta (que a paz esteja com ele), o bem e o mal não são iguais. Repele o mal com a ação virtuosa que for melhor. Então verás que aquele que é teu inimigo se tornará teu amigo íntimo — (Hamim Sajdah: 34).

Para compreender plenamente o significado desta declaração, é preciso ter diante dos olhos a situação em que esta orientação foi dada ao Profeta (que a paz esteja com ele) e, por meio dele, aos seus seguidores. A situação era tal que a pregação era enfrentada com extrema obstinação e oposição extremamente agressiva. Todo tipo de artimanha era empregado para difamar o Profeta (que a paz esteja com ele) e fazer com que as pessoas sentissem aversão por ele. Várias acusações eram lançadas contra ele. Um grupo de opositores continuava incitando as pessoas contra o Profeta. Ele e seus companheiros eram submetidos a diversos tipos de perseguição. Exasperados, muitos muçulmanos foram obrigados a abandonar o país. Depois, para impedir a pregação do Profeta, foi adotada a prática de ficarem à espreita, em sua direção, para fazer algazarra. Assim que ele abria a boca para pregar, eles faziam tanto barulho que nenhuma de suas palavras podia ser ouvida. Era uma situação tão desanimadora que, aparentemente, todos os caminhos da pregação pareciam bloqueados. Foi então que o Profeta recebeu ensinamento sobre a medida capaz de desmantelar a força da oposição.

Primeiramente, afirma-se que a virtude e a maldade, ou o bem e o pecado, não podem ser iguais. Ainda que, aparentemente, teus opositores criem uma tempestade tão violenta de injustiça e pecado que, em comparação com ela, a virtude, a honestidade e as boas ações pareçam completamente indefesas e impotentes, enquanto o ser humano for considerado humano, sua natureza não poderá deixar de demonstrar repulsa pela injustiça e pelo pecado. O próprio porta-bandeira do pecado, e não apenas seu colaborador, acredita interiormente que é mentiroso e injusto, e que age obstinadamente apenas em benefício dos próprios interesses. Assim, longe de inspirar respeito no coração dos outros, ele se humilha aos próprios olhos, e em seu íntimo permanece oculto um medo que, quando toma medidas de oposição, continua golpeando internamente sua coragem e sua determinação. Se, em oposição a essa má conduta, a boa ação continuar sendo praticada incessantemente, por fim ela certamente triunfará. Isso porque a boa ação possui em si uma força que subjuga o coração, e, por mais degradado que o ser humano esteja, ele não pode deixar de sentir, no íntimo, respeito por ela. Depois, quando o pecado e a virtude entram em luta e as qualidades de ambos se tornam claramente manifestas ao público, após algum tempo de conflito e confronto, são poucos os que não passam a sentir aversão pelo pecado e afeição pela virtude.

Em segundo lugar, afirma-se que o pecado não deve ser enfrentado apenas com a virtude, mas com uma virtude de altíssimo nível. Ou seja, se alguém agir mal contigo e tu o perdoares, isso será simplesmente uma boa ação. Porém, a boa ação de nível mais elevado consiste em que, quando alguém te tratar mal, tu, tendo oportunidade, o trates bem.

Foi dito que seu fruto é que até o pior inimigo se tornará um grande amigo. Isso acontece porque essa é a natureza humana. Permanecer em silêncio em resposta a um insulto será, sem dúvida, uma boa ação. Mas isso não fará com que o insultador se cale. Porém, se você orar por ele em resposta ao insulto, até mesmo o seu inimigo mais descarado ficará envergonhado e talvez raramente ouse abrir a boca contra você. Suponha que alguém não deixe escapar nenhuma oportunidade de lhe causar dano e que você continue tolerando seus excessos; pode acontecer que ele se torne ainda mais ousado em prejudicá-lo. Mas, se algum dia ele estiver sofrendo e você o proteger do dano, ele cairá aos seus pés. Pois dificilmente algum malfeitor consegue resistir diante de uma boa ação como essa. Todavia, não seria correto entender esse princípio geral como significando que essa virtude de nível tão elevado necessariamente transformará todo inimigo ferrenho em um grande amigo. No mundo também existem pessoas de natureza tão baixa que, por mais magnanimidade que você demonstre ao perdoar seus excessos e responder ao seu mal com bondade, elas não deixarão de cravar, como escorpiões, seu ferrão venenoso.

Mas pessoas que sejam a personificação desse tipo de maldade são muito raras, assim como é extremamente pequena a existência de pessoas que sejam a personificação da bondade. (***13)

A importância da paciência na convocação à verdade

(Árabe***********************)

Em seguida, foi dito:

— Somente aqueles que são pacientes possuem essas qualidades afortunadas, e somente os verdadeiramente afortunados podem alcançar essa posição — (versículo 35).

Em outras palavras, essa prescrição também é muito eficaz. Mas aplicá-la não é algo simples. Para isso, é necessária uma força de vontade extraordinária. São necessários uma determinação firme, coragem, grande capacidade de paciência e um domínio imenso sobre os próprios impulsos. Temporariamente, uma pessoa pode praticar o bem em resposta à maldade de alguém. Isso não é algo extraordinário. Mas, quando alguém precisa lutar durante anos pela verdade contra malfeitores seguidores de caminhos falsos, que não hesitam em transgredir nenhum limite da moralidade e estão embriagados pelo poder, continuar enfrentando a maldade com boas ações — e ainda por cima com ações de elevado padrão — sem perder a paciência sequer uma vez, não é possível para uma pessoa comum. Somente pode realizar esse trabalho aquele que, com a mente serena, mantém uma determinação firme de trabalhar pela exaltação da verdade. Aquele que submete completamente seus impulsos ao conhecimento, à razão e à consciência não permite que nenhuma maldade ou vileza o faça descer de sua elevada posição nem o leve a perder a paciência.

Depois, quando foi dito: “Somente aqueles que são verdadeiramente afortunados podem alcançar essa posição”, isso corresponde a uma lei natural. Somente as pessoas de grande dignidade são dotadas dessas qualidades. E aqueles que possuem essas qualidades não podem ser impedidos por nenhuma força do mundo de chegar às portas do sucesso. De modo algum é possível que pessoas de classe baixa consigam vencê-los com sua baixeza, suas táticas desprezíveis e seu comportamento grosseiro. (****14)

Buscar refúgio em Deus contra as instigações de Satanás

Por fim, foi dito:(Árabe*****************)

E, se sentires alguma instigação da parte de Satanás, busca refúgio em Deus (versículo: 36).

Satanás fica extremamente angustiado quando vê que, no conflito entre a verdade e a falsidade, a insolência está sendo enfrentada com cortesia e a maldade, com boas ações. Ele deseja, de qualquer maneira, que os líderes daqueles que lutam pela verdade, especialmente seus principais dirigentes, cometam ao menos um erro, com base no qual se possa dizer ao povo: “Vejam, uma mão sozinha não bate palmas. Se um lado realmente teve um comportamento mau, o outro também não é tão virtuoso assim. Eles também cometeram aquela mesma grosseria.” As pessoas comuns não têm capacidade para, com imparcialidade, fazer uma avaliação comparativa entre os excessos de um lado e a reação do outro. Enquanto veem os adversários recorrendo a toda espécie de baixeza, mas o outro lado não se desviando nem um pouco do caminho da cortesia, da decência, da honestidade e da religiosidade, o povo continua sendo influenciado por isso. Porém, se em algum lugar eles praticarem uma injustiça ou algo que prejudique sua dignidade, ainda que seja feito em resposta a um excesso extremo, aos olhos do povo ambos os lados serão considerados iguais. Assim, os adversários encontram uma desculpa para proferir mil insultos em resposta a uma só palavra. É por isso que foi ordenado: “Cuidado com o engano de Satanás.” Ele vos incitará, fingindo ser muito compassivo e bem-intencionado, dizendo: “Tal excesso não pode de modo algum ser tolerado; é preciso dar uma resposta contundente a tal palavra; é preciso responder a este ataque com um contra-ataque. Caso contrário, sereis considerados covardes e vossa imagem ficará arruinada.” Portanto, sempre que sentirdes entre vós esse tipo de instigação em qualquer assunto, deveis compreender que Satanás, por meio dela, quer vos excitar e enfurecer para que cometais algum passo errado. Depois de vos precaverdes, não deveis cair na arrogância e dizer: “Temos pleno controle sobre nós mesmos. Satanás não poderá fazer-nos cometer um erro.” A arrogância em relação à vossa própria vontade e força de decisão será o segundo e mais terrível engano de Satanás. Em vez disso, deveis buscar refúgio em Deus. Pois somente quando Ele concede auxílio e proteção é que o ser humano pode evitar cometer erros.

Uma explicação belíssima sobre este assunto pode ser encontrada em um acontecimento que o Imã Ahmad registrou em seu Musnad, narrando-o sob a autoridade de Abu Huraira (que Deus esteja satisfeito com ele). Ele relata que, certa vez, um homem começou a insultar severamente Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) na presença do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) ouvia seus insultos em silêncio. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), ao ver aquilo, continuava sorrindo suavemente. Finalmente, a paciência de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) chegou ao limite, e ele também proferiu uma palavra dura em resposta. Assim que essas palavras saíram de sua boca, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) ficou profundamente incomodado, o que se manifestou em seu rosto. Então, levantou-se e saiu dali. Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) também o seguiu. Ele perguntou: “O que aconteceu? Ele estava me insultando, e o senhor sorria discretamente; mas, assim que lhe respondi, o senhor ficou contrariado.”

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Enquanto permaneceste em silêncio, um anjo estava contigo e respondia por ti. Mas, quando abriste a boca, Satanás tomou o lugar do anjo. Eu não posso ficar sentado com Satanás.” (15)

O pregador da verdade deve ser altruísta

Na convocação para a verdade, aquele que a proclama deve colocar-se acima de seus interesses pessoais; isso será a prova mais evidente de sua honestidade e dedicação. O Alcorão Sagrado afirma repetidamente que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) não tinha qualquer interesse pessoal na obra de convocação para Deus que realizava. Pelo contrário, ele se dedicou ao bem das criaturas de Deus. Na Surata Al-An’am, foi dito:

(Árabe***************)

—Ó Profeta (s.a.), dize: não vos peço nenhuma recompensa por este trabalho de transmissão e orientação. Isto não é senão uma exortação geral para todos os habitantes do mundo— (Al-An’am: 90).

—E, ó Profeta (s.a.), não lhes pedes nenhuma recompensa por este trabalho. Isto é apenas uma exortação oferecida de modo geral aos habitantes do mundo (Yusuf: 104).

Esta interpelação é, aparentemente, dirigida ao Profeta (s.a.), mas o verdadeiro destinatário, na segunda pessoa, é a multidão dos incrédulos. É como se lhes dissesse: Ó servos de Allah, pensai um pouco e vede! Como é injustificada a vossa obstinação. Se o Profeta realizasse este trabalho de convite e transmissão por algum interesse pessoal, ou se buscasse algo para si próprio, então teríeis razão para dizer: por que havemos de aceitar as palavras deste homem interesseiro? Mas vedes que este homem é desinteressado. Ele vos exorta para o vosso bem e para o bem dos habitantes do mundo. Não há nisso nenhum interesse pessoal seu. Que razão legítima pode haver para vos opordes a ele com tanta obstinação? Por que insistis sem motivo contra alguém que fala desinteressadamente para o bem de todos? Escutai as suas palavras com a mente aberta. Se vos agradarem, aceitai-as; se não vos agradarem, não as aceiteis. (16)

Na surata Al-Mu’minun, foi dito:

(Árabe***************)

—Ó Profeta (s.a.), acaso lhes pedes alguma coisa? A dádiva do teu Senhor é melhor para ti, e Ele é o melhor dos provedores— (Al-Mu’minun: 72).

Isto é, ninguém pode, com sinceridade, acusar o Profeta (s.a.) de que, por trás de tudo o que ele faz, exista algum interesse pessoal. Outrora, ele possuía um grande comércio e negócios. Agora está pobre e afligido. Houve um tempo em que o povo o olhava com respeito e todos lhe demonstravam a mais profunda reverência. Agora sofre insultos e apedrejamentos. A sua própria vida tornou-se ameaçada. Certa vez, vivia alegremente com a esposa e os filhos. Agora está envolvido num conflito e numa luta que não lhe permitem viver em paz nem por um instante. Além disso, ele surgiu agora com uma mensagem que fez de todo o país seu inimigo. Até os seus próprios parentes se tornaram sedentos do seu sangue. Quem pode dizer que tudo isso é obra de um homem interesseiro? Um homem interesseiro acaso se torna o porta-bandeira das superstições da sua nação e da sua tribo, realizando o trabalho de várias pessoas? O homem interesseiro torna-se o porta-bandeira das superstições da sua nação e da sua tribo e tenta conquistar a liderança por diversos artifícios. Um homem egoísta não propaga um ideal que não apenas desafia as superstições tribais, mas também as elimina — superstições sobre as quais se apoia o domínio e a liderança dos politeístas árabes. (17)

Na Surata Sabá, é dito:

(Árabe*****************)

—Ó Profeta (s.a.), dize: se eu vos tiver pedido alguma remuneração, que ela seja para o vosso próprio bem. Minha recompensa cabe somente a Allah. Ele é testemunha de todas as coisas — (Sabá: 47).

A primeira parte do versículo pode ter dois significados. Um deles é: se eu vos tiver pedido alguma remuneração, que isso seja para o vosso próprio destino. O segundo significado é: se eu vos tiver pedido alguma remuneração, isso não é senão para o vosso bem. O sentido final é: que os acusadores façam contra mim tantas acusações quantas quiserem. Mas Allah sabe de todas as coisas. Ele é testemunha de que realizo esta obra desinteressadamente, e não por nenhum interesse pessoal. (18)

(Árabe*****************)

—Ó Profeta (s.a.), dize: não vos peço nenhuma remuneração, nem sou um dos impostores artificiosos — (Sad: 86).

Isto é, não sou um daqueles que entram em cena com falsas alegações para estabelecer sua própria preeminência e se apresentam como algo que, na realidade, não são.

Isso não foi dito apenas pela boca do Profeta (s.a.) para informar os incrédulos de Meca. Pelo contrário, toda a vida do Mensageiro (s.a.), que ele passou durante quarenta anos entre esses incrédulos, dá testemunho disso. Até cada criança de Meca sabia que Muhammad (s.a.) não era um impostor. Em toda a nação, ninguém jamais ouvira de sua boca qualquer palavra que pudesse dar margem à suspeita de que ele desejava tornar-se alguém ou que se esforçava para tornar-se famoso. (19)

Foi dito nas suratas At-Tur e Al-Qalam:

(Árabe****************)

—Ó Profeta (que a paz esteja com ele), acaso lhes pedes alguma recompensa, de modo que estejam oprimidos sob o peso de uma multa imposta à força?— (At-Tur: 40; Al-Qalam: 46).

Na realidade, os incrédulos são os destinatários desta pergunta. Seu significado é o seguinte: se o Mensageiro quisesse obter de vós algum objetivo e estivesse realizando todos esses esforços em benefício próprio, então teríeis pelo menos uma razão razoável para vos afastardes dele. Mas vós mesmos sabeis que ele é absolutamente desinteressado em seu chamado e dedica a vida unicamente ao vosso bem. Então, que motivo pode haver para que nem sequer estejais dispostos a escutá-lo com tranquilidade? Nesta pergunta está oculta uma indicação sutil. Assim como os líderes artificiais e falsos de todo o mundo e os sacerdotes dos santuários religiosos, os líderes religiosos, eruditos e sacerdotes dos idólatras na Arábia mantinham abertamente um comércio da religião. Por isso, esta pergunta foi apresentada a eles: de um lado, estão esses comerciantes da religião, que abertamente vos pedem oferendas votivas e exigem pagamento por cada serviço religioso; de outro, este homem, de modo absolutamente desinteressado — e, na verdade, arruinando seu próprio comércio e seus negócios —, tenta mostrar-vos, com argumentos justos e convincentes, o caminho reto da religião. O que pode ser, então, além de uma ignorância evidente, o fato de fugirdes dele e correrdes apressadamente para os comerciantes da religião? (20)

A esse respeito, há apenas um versículo que pode suscitar alguma controvérsia. Ei-lo:

(Árabe***************)

—Ó Profeta (que a paz esteja com ele), dize: não vos peço recompensa alguma; peço apenas o amor pelos parentes próximos— (Alx-Shura: 23).

Neste versículo (*****)

Houve uma grande divergência entre os exegetas ao determinar o significado da palavra utilizada. Um grupo a tomou no sentido de parentesco. Eles explicaram o versículo da seguinte maneira: “Eu não vos peço recompensa alguma por este trabalho. Mas certamente peço que vós — isto é, os coraixitas — ao menos tenhais consideração pelo parentesco que existe entre vós e mim. Deveríeis ter aceitado as minhas palavras. Mas, se não as aceitais, não cometais esta injustiça: que, entre todos os árabes, justamente vós sejais os que mais se empenham em hostilizar-me.”

Esta é a exegese de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ela foi transmitida, por intermédio de numerosos narradores, por eminentes sábios como o imã Ahmad, al-Bukhari, Muslim, al-Tirmidhi, Ibn Jarir, al-Tabarani, al-Bayhaqi e Ibn Sa’d, entre outros. Esta exegese também foi adotada por Mujahid, Ikrimah, Qatadah, al-Suddi, Abu Malik, Abd al-Rahman ibn Zayd ibn Aslam, al-Dahhak, Ata ibn Dinar e outros célebres exegetas.

Outro grupo(Árabe**********)

considerou-o no sentido de proximidade. Eles explicaram o significado deste versículo assim: “Eu não vos peço nenhuma outra recompensa por este trabalho além de despertar em vós o desejo de alcançar a proximidade de Allah Todo-Poderoso. Em outras palavras, corrigi-vos. Esta é a minha recompensa.” Esta exegese é atribuída a Hasan al-Basri. Em apoio a ela, também é citada uma declaração de Qatadah. Além disso, numa transmissão de al-Tabarani, uma declaração desse tipo é atribuída a Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). O próprio Alcorão Sagrado menciona esta mesma questão em outro lugar, da seguinte maneira:

(Árabe***************)

Dize-lhes: “Não vos peço recompensa alguma por isto; a minha recompensa é apenas que quem quiser adote o caminho do seu Senhor” — Alcorão, al-Furqan: 57.

Outro grupo

considerou-o no sentido de parentes próximos. Segundo eles, o significado do versículo é: “Eu não vos peço nenhuma outra recompensa por este trabalho além de que ameis os meus parentes.” Depois, alguns membros desse grupo entenderam por “parentes” toda a Banu Abd al-Muttalib. Outros restringiram o termo a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela) e aos seus filhos. Relata-se que esta exegese foi apresentada por Said ibn Jubayr e Amr ibn Shuayb. Em algumas transmissões, ela é atribuída a Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e a Ali ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele), isto é, Zayn al-Abidin. Contudo, por diversos motivos, esta exegese não pode ser aceita. Primeiro, quando a surata al-Shura foi revelada em Meca, ainda não havia sido celebrado o casamento entre Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela). Portanto, nem sequer se podia falar em filhos. Além disso, nem todos os membros da Banu Abd al-Muttalib eram apoiadores do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Pelo contrário, alguns deles eram abertamente seus inimigos. A hostilidade de Abu Lahab é conhecida por todos no mundo. Segundo, o parentesco do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não se limitava à Banu Abd al-Muttalib. Por parte de pai, mãe e esposa, ele tinha parentesco com todas as famílias dos coraixitas. Nessas famílias havia tanto companheiros eminentes seus como inimigos ferrenhos. Como poderia, então, ser possível ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionar apenas a Banu Abd al-Muttalib como seus parentes entre todos esses grupos de parentes e reservar exclusivamente para eles a exigência de amor? Que Allah esteja satisfeito com ele.

A terceira questão, e a mais importante, é esta: um profeta proclama o chamado para Allah a partir de uma posição tão elevada; exigir como recompensa, a partir desse mesmo lugar, “amar os parentes” seria uma reivindicação tão baixa que nenhuma pessoa de bom gosto poderia sequer imaginar que Allah Todo-Poderoso tivesse ensinado tal coisa ao Seu profeta e que o profeta a tivesse anunciado entre os coraixitas. Entre as histórias dos profetas — que a paz esteja sobre todos eles — narradas no Alcorão Sagrado, vemos que, um após outro, ao se dirigirem ao seu povo, todos disseram: “Não vos peço recompensa alguma; minha recompensa está apenas sob a responsabilidade de Allah.” (Ver Yunus: 72; Hud: 19, 51; Ash-Shu‘ara: 109, 117, 145, 164, 180.)

Na Surata Ya-Sin, é dito que o critério para verificar a veracidade do profeta é que ele seja absolutamente desinteressado em seu chamado (versículo 21). Pela própria língua bendita do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), foi repetido várias vezes: “Não vos peço recompensa alguma.” Já citamos isso acima. Então, como poderia haver espaço para dizer: “Em troca do trabalho que realizo, da parte de Allah, ao vos chamar para Ele, amais os meus parentes?” Isso parece ainda mais pertinente quando vemos que, nesse discurso, não se está dirigindo aos crentes, mas aos incrédulos. Do começo ao fim, eles são os destinatários; e também mais adiante as palavras são dirigidas a eles. Como poderia surgir, nesse discurso contínuo, a questão de pedir qualquer recompensa aos opositores? Recompensa só pode ser pedida àqueles que reconhecem e valorizam algo que é feito em seu benefício. Que consideração os incrédulos tinham pelo trabalho do Mensageiro para que ele pudesse dizer-lhes: “Amai os meus parentes pela dedicação que estou oferecendo”? Pelo contrário, eles o consideravam um crime e tentavam tirar-lhe a vida. (***21)

A importância da crença na Vida Futura no início do chamado

Quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) iniciou pela primeira vez a propagação do Islam na Meca Abençoada, sua base consistia em três pontos. Primeiro: não se deve considerar ninguém associado a Allah na divindade. Segundo: Allah Todo-Poderoso escolheu Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como Seu Mensageiro. Terceiro: este mundo um dia será destruído, e depois surgirá um segundo mundo. Nele, todos os seres humanos, do primeiro ao último, serão ressuscitados e levantados com os mesmos corpos com que realizaram suas obras neste mundo. Em seguida, suas crenças e obras serão submetidas a julgamento. Nesse julgamento, os que se mostrarem crentes e virtuosos entrarão no Paraíso para sempre, enquanto os que se mostrarem incrédulos e ímpios permanecerão eternamente no Inferno.

Embora o primeiro desses pontos fosse extremamente difícil de suportar para os habitantes de Meca, eles jamais negaram a existência de Allah Todo-Poderoso. Admitiam que Ele era o Senhor Supremo, o Criador e o Provedor. Também admitiam que aqueles que consideravam seus deuses e deusas eram igualmente criaturas de Allah. Por isso, a controvérsia limitava-se a saber se esses deuses e deusas tinham participação nos atributos de Allah, em Sua autoridade e em Sua divindade.

Os habitantes de Meca não estavam dispostos a aceitar o segundo ponto. Contudo, não lhes era possível negar que, durante os quarenta anos que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) vivera entre eles antes de reivindicar a profecia, jamais o haviam encontrado mentindo, enganando ou adotando um caminho injusto em benefício de interesses pessoais. Eles próprios reconheciam sua inteligência, discernimento e nobreza de caráter. Assim, apesar de procurarem centenas de pretextos contra ele e de lhe fazerem acusações, era difícil não apenas convencer os outros, mas até a si mesmos, de que ele era veraz em todos os outros assuntos, porém — que Allah nos livre — mentiroso apenas ao reivindicar a missão profética. Desse modo, os dois primeiros pontos não eram tão problemáticos para eles quanto o terceiro. Quando este lhes foi apresentado, foi o que provocou mais zombaria e sarcasmo; foi também o que suscitou maior espanto, e por toda parte começou a ser divulgado como algo absurdo e irreal. No entanto, para conduzi-los ao caminho do Islam, era absolutamente indispensável consolidar em seus corações a crença na Vida Futura, pois, sem essa crença, era de todo impossível que seu pensamento se tornasse correto quanto à verdade e à falsidade. Além disso, não seria possível alterar seu critério do bem e do mal, abandonar o caminho da adoração do mundo e dar sequer um passo na direção do caminho reto para o qual o Islam desejava conduzi-los. Por isso, nas suratas do período inicial em Meca, deu-se sobretudo grande ênfase à consolidação da crença na Vida Futura. Naturalmente, as provas e os argumentos foram apresentados de tal modo que a concepção do monoteísmo também se consolidou espontaneamente nos corações. Ao mesmo tempo, de maneira ocasional, foram apresentadas brevemente provas da veracidade do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e do Alcorão. (****22)

Referências

1. Acréscimo do autor

2. Tafhim al-Qur’an, volume 1, introdução

3. Tafhim al-Qur’an, volume 2, An-Nahl, notas 122–123

4. Tafhim al-Qur’an, Bani Isra’il, notas 57–61

5. Tafhim al-Qur’an, Al-An’am, nota 69

6. Tafhim al-Qur’an, Al-An’am, nota 71

7. Tafhim al-Qur’an, Al-A’la, nota 10

8. Tafhim al-Qur’an, Al-An’am, notas 24–25

9. Tafhim al-Qur’an, Abasa, introdução e nota 201

10. Tafhimul Quran, Al-Ankabut, nota 81

11. Tafhimul Quran, Al-A’raf, nota 15

12. Tafhimul Quran, Ha Mim Sajdah, nota 36

13. Tafhimul Quran, Ha Mim Sajdah, nota 37

14. Tafhimul Quran, Ha Mim Sajdah, nota 40

16. Tafhimul Quran, Yusuf, nota 73

17. Tafhimul Quran, Al-Mu’minun, nota 70

18. Tafhimul Quran, Saba, notas 28–29

19. Tafhim al-Qur’an, Sad, nota 72

20. Tafhim al-Qur’an, At-Tur, nota 31

21. Tafhim al-Qur’an, Ash-Shura, nota 41

22. Tafhim al-Qur’an, introdução à Surata An-Naba

Mapa de Meca Mukarrama

 

Início do 4º volume

Bismillahir-Rahmanir-Rahim

Sexto capítulo

A verdadeira natureza da pregação islâmica

As causas da hostilidade dos politeístas e de seu fracasso

Agora queremos apresentar a segunda parte da discussão que havia sido iniciada no capítulo anterior. Dissemos que orientações foram dadas ao Profeta (que a paz esteja com ele) e, por meio dele, aos seus companheiros, sobre a propagação da mensagem do Islã, para que pudessem enfrentar, com as armas da moralidade, a oposição dos porta-estandartes da jahiliyyah; conquistar seus corações por meio da sabedoria, generosidade, paciência e tolerância; tornar justas e cativantes as montanhas da obstinação, do ódio cego e da teimosia; e selecionar, entre o povo, aqueles nos quais se encontravam amor pela verdade e as qualidades de seguir a verdade, integrando-os ao grupo.

Em seguida, queremos explicar qual era a verdadeira natureza da mensagem que o Profeta (que a paz esteja com ele) trouxe e quais eram suas qualidades e virtudes distintivas, pelas quais, primeiro, os coraixitas e, depois, os demais habitantes da Arábia passaram a opor-se a ela. Depois, que força havia nessa mensagem que, por fim, silenciou os seus opositores e alcançou um sucesso tão grandioso que não encontra paralelo na história.

Como o tema exige uma discussão detalhada, nós o apresentaremos sob sete títulos. São eles:

1. O ensino do tawhid e a refutação do shirk.

2. O convite à fé na missão profética de Muhammad.

3. O convite à fé no Alcorão como palavra de Allah.

4. O convite à fé na Vida Futura.

5. A educação moral.

6. O estabelecimento da Ummah muçulmana universal.

7. A diferença entre os métodos de ação dos profetas e dos não profetas.

Primeiro parágrafo

O ensinamento do Tawhid e a refutação do shirk

Entre os pontos da da‘wah islâmica, o primeiro, o mais importante e fundamental é o reconhecimento do Tawhid e a refutação do shirk. Embora o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fosse, por si mesmo, crente no Tawhid e rejeitasse o shirk antes de sua missão profética, e embora também houvesse pessoas entre os árabes seus contemporâneos e seus antecessores que sustentavam essa crença, existe uma grande diferença entre os dois tipos de pessoas. Um tipo apenas mantém a crença de aceitar o Tawhid e rejeitar o shirk e, no máximo, considera suficiente manifestá-la. O outro tipo se levanta para propagar e difundir essa crença e continua convidando o povo a abandonar o shirk e aceitar o Tawhid. Além disso, o que cria uma enorme diferença entre a simples crença e esse convite e pregação públicos é que a pessoa assume sobre os ombros a responsabilidade por esse trabalho e não apenas demonstra detalhadamente, com argumentos, a unicidade de Deus; ela também explica, uma a uma, o significado e a essência dessa unicidade, bem como as exigências inevitáveis de aceitá-la, dizendo às pessoas: “Creiam no Tawhid de Allah com essa explicação detalhada.”

Foi esse o trabalho que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou depois de ser agraciado com a dignidade da missão profética. E essa foi a primeira razão de sua oposição aos incrédulos. Pois cada uma de suas palavras entrava em conflito com suas crenças, convicções, superstições e concepções acumuladas ao longo de centenas de anos.

Ensinamento claro e inequívoco sobre o tawhid

Na sociedade politeísta da Arábia, a verdadeira questão não dizia respeito à existência de Allah, o Altíssimo, mas à aceitação de Sua unicidade. Eles reconheciam Allah como o Criador deles e do universo. Também não negavam aceitá-Lo como Rabb e Ilah, nem tinham qualquer objeção aparente a adorá-Lo. Contudo, o desvio em que estavam envolvidos consistia nisto: não consideravam que a divindade, a soberania e a autoridade fossem exclusivas de Allah. Além disso, consideravam muitos outros deuses como parceiros de Allah. Acreditavam na adoração deles juntamente com a adoração de Allah. Essa era a condição deles:

(Árabe***************)

— E quando tu (ó Profeta) mencionas no Alcorão o teu único Rabb, eles se afastam com aversão. (Bani Isra’il: 56)

Em outras palavras, era insuportável para eles que tu reconhecesses somente Allah como Senhor e não fizesses menção alguma aos muitos senhores e deuses que eles haviam inventado. Esse comportamento semelhante ao dos wahhabitas (na terminologia atual) não lhes agradava nem por um instante: que as pessoas se limitassem a repetir “Allah, Allah”. Não havia qualquer menção a despesas para os santos, nem qualquer reconhecimento de obter bênçãos nos santuários. Tampouco havia saudações laudatórias dirigidas àquelas personalidades a quem, segundo a concepção deles, Allah, o Altíssimo, havia distribuído uma parcela de Sua divindade. Eles diziam: “Que homem estranho! Segundo ele, o conhecimento do futuro pertence exclusivamente a Allah; o poder pertence exclusivamente a Allah; a capacidade de agir e a autoridade pertencem exclusivamente a Allah. Então, aqueles que estão nestes nossos santuários não são nada? É deles que obtemos conhecimento; por vontade deles, os doentes são curados, os negócios prosperam e os desejos são realizados. Então, eles não são nada?” (2)

Em outra passagem, o estado de sua aversão ao tawhid e de sua imersão no shirk é descrito da seguinte maneira:

(Árabe*****************)

E, quando Allah é mencionado sozinho, os que não creem na Vida Futura sentem uma angústia profunda; mas, quando são mencionados outros além d’Ele, de repente seus corações saltam de alegria. (Zumar: 54)

Esta afirmação aplica-se igualmente a quase todos aqueles cuja natureza é idólatra no mundo. Eles dizem com a boca: “Cremos em Allah.” Mas a situação deles é tal que, quando se menciona somente Allah, seus rostos começam a se contorcer. Então dizem: “Esse homem não reconhece de modo algum os grandes santos e os amigos de Allah. É por isso que ele só fica dizendo Allah, Allah.”

Mas, se os nomes de outros forem mencionados, seus rostos se iluminam de alegria. Por meio desse comportamento, torna-se evidente por quem sentem afeição e amor. (3)

(Árabe***************)

—A situação deles era tal que, quando lhes era dito: “Não há divindade além de Allah”, respondiam com arrogância: “Acaso abandonaremos nossos deuses por causa de um poeta louco?” (As-Saffat: 35–36)

Eles tinham grande objeção a esta afirmação do Profeta (s.a.):

(Árabe*************)

—Será que este homem considera apenas um deus em lugar de todos os deuses? Isso é realmente algo extraordinário! (Sad: 5)

Nesta sociedade e entre pessoas com esse tipo de pensamento, o Mensageiro de Allah (s.a.) levantou-se e declarou repetidamente, com voz firme, que Allah é o único Ilah e Rabb. Ninguém participa da divindade nem da soberania e autoridade de Allah.

(Árabe**************)

-Vosso Deus é Allah, além de quem não há outra divindade. Seu conhecimento abrange todas as coisas. (Taha: 98)

(Árabe*****************)

-Ao contrário, vosso Senhor é Aquele que é o Senhor dos céus e da terra e que os criou. (Al-Anbiya: 65)

(Árabe****************)

-Na verdade, vosso Senhor é um só. Ele é o Senhor dos céus, da terra e de tudo quanto existe entre ambos, e é também o Senhor dos nascentes. (As-Saffat: 4-5)

Isto é, Aquele que é o Dono e Senhor da criação universal é também o Deus (o Adorado e a Divindade) da humanidade; na realidade, somente Ele pode ser adorado, e somente Ele deve ser adorado. É absolutamente falso que, enquanto um seja o Senhor da criação universal, incluindo vós — isto é, seu Dono, Governante, Mentor e Sustentador —, outro seja a Divindade (aquele que tem direito à adoração).

(Árabe******************)

—(Ó Profeta!) Dize: “Sou apenas um admoestador. Não há outra divindade além deste Deus Único. Ele é Vitorioso sobre todos, o Senhor dos céus, da terra e de tudo quanto existe entre ambos. Ele é o Todo-Poderoso, o Magnanimíssimo Perdoador. (Ó Profeta!) Dize: “Isto é uma notícia da qual vos afastastes.” (Sad: 4–5)

(Árabe*******************)

—Allah disse: “Não tomeis duas divindades. A divindade é apenas uma. Portanto, temei somente a Mim.” (An-Nahl: 51)

(Árabe****************)

E Ele é o Único Deus no céu e o Deus na terra. E Ele é Sapientíssimo e Onisciente. (Az-Zukhruf: 53)

(Árabe*****************)

—E não invoqueis outra divindade além de Allah. Não há outra divindade além d’Ele. Tudo perecerá, exceto a Sua Essência. A soberania pertence exclusivamente a Ele, e a Ele tudo retornará. (Al-Qasas: 88)

Os politeístas perguntaram ao Profeta (s.a.w.): “Dize-nos a linhagem do Senhor para o qual nos convocas. De que Ele foi feito? De quem recebeu a herança do mundo? E quem receberá essa herança depois d’Ele?”

Em resposta, foi apresentada uma definição tão clara, abrangente e, contudo, concisa do tawhid, que penetra velozmente no íntimo do coração. Nenhum vestígio de shirk pode encontrar lugar na mente. Cada uma de suas palavras expõe com clareza o conceito de tawhid. E o mais importante é que, por ter sido expressa em quatro frases breves e eloquentes, nenhum ouvinte seria capaz de apagá-la da memória ou deixar de pronunciá-la com os lábios. Foi proclamado:

(Árabe******************)

— Dize, em resposta ao que disseram: Ele é Allah, Único e Uno. Allah é independente de tudo, e ninguém é igual a Ele.

O significado da primeira frase é que o meu Senhor, sobre quem me perguntais, a quem reconheço como o Deus Único e que desejo que os outros também reconheçam, não é um deus extraordinário nem um deus imaginado por mim. Pelo contrário, é precisamente o Deus a quem chamais Allah com os vossos próprios lábios; à Sua Casa, chamais Baitullah, a Casa de Allah; foi a Ele que, apenas quarenta anos antes, durante o ataque de Abraha, suplicastes que vos protegesse, esquecendo então os vossos outros deuses. A respeito d’Ele, vós mesmos reconheceis que é o Criador da terra, dos céus e de todas as coisas do mundo.

Em seguida, foi dito a respeito de Allah, o Altíssimo, que Ele é Uno e Único. Todo árabe sabia o que significava usar ahad em vez de wahid para se referir a Allah. Na língua árabe, a palavra wahid, “um”, era usada para qualquer coisa que fosse una sob algum aspecto, ainda que nela se encontrassem diversas formas de multiplicidade sob inúmeros outros aspectos: uma casa, um homem, uma família, uma nação, um país, um mundo. Já o uso da palavra ahad como atributo de alguém, para descrever sua unicidade, era uma prática cujo exemplo não se encontra na língua árabe antes da revelação da Surata Al-Ikhlas. Deve-se observar que, no Alcorão, a palavra wahid nunca foi usada isoladamente para Allah, o Altíssimo. Em vez disso, acrescentava-se a ela outra palavra, distinguindo assim a dignidade da unicidade de Allah da dignidade de ser uno de qualquer outra coisa no mundo, como em “Allah é um só” ou “Allah, o Único”. Porém, na Surata Al-Ikhlas, a palavra ahad foi usada como atributo absoluto de Allah. Esse uso é exclusivo da essência de Allah — o autor.

Assim, chamar Allah de ahad expressa que Ele é Uno e Único sob todos os aspectos. Ele não pertence à espécie de nenhuma das divindades, de modo que outras essências da mesma espécie pudessem ser deuses. Pelo contrário, quanto à existência, Ele é Único, sem comparação nem rival; e, quanto à divindade, também é absolutamente Único. Não há n’Ele multiplicidade sob aspecto algum. Ele não é uma essência constituída de partes materiais, que possam ser divididas e distribuídas, que tenham forma e configuração, que ocupem um lugar, de onde algo possa sair ou em que algo possa entrar; que tenham cor ou membros, que dependam de alguma direção ou sofram qualquer mudança ou desenvolvimento. Purificada de toda espécie de multiplicidade é a essência divina, que é Una e Única sob todos os aspectos. Sendo ahad, Ele não pode ter qualquer associado na divindade, no senhorio ou na autoridade. Ninguém compartilha de Sua essência, de Seus atributos, de Seu poder ou de Seus direitos. Nenhuma criatura existente no mundo se assemelha ou é equivalente a Ele.

Depois, foi dito que Ele é independente de tudo. A palavra samad era amplamente usada na língua árabe, e todo árabe conhecia seu significado. Era usada para uma pessoa que não dependia de ninguém e para quem as pessoas se dirigiam a fim de satisfazer suas necessidades.

Era chamado samad aquele que era superior aos demais e acima de quem ninguém estava; aquele a quem se obedecia e sem cuja decisão nada podia ser resolvido; aquele que não tinha fraqueza, que era irrepreensível, sobre quem nenhuma calamidade recaía, que fazia tudo conforme sua própria vontade, cuja decisão não podia ser revista e que possuía as qualidades da autoridade. Também era chamado samad aquilo que não fosse oco nem tivesse o interior vazio, mas fosse sólido e completo, do qual nada saísse e no qual nada entrasse. Contudo, para Allah, o Altíssimo, não foi usado simplesmente samad, mas a expressão as-Samad, cujo significado é que todas as outras coisas podem ser samad sob um aspecto, mas não o são sob muitos outros. Somente Allah é plenamente as-Samad sob todos os aspectos.

Em seguida, foi dito que Ele não tem filhos. E tampouco é filho de alguém. Essa afirmação refuta todas aquelas concepções politeístas baseadas na ideia de que os deuses também pertencem a alguma espécie dentro da qual ocorre uma continuidade de reprodução semelhante à dos seres humanos. Ele permanecerá para sempre, extirpando essa concepção. Antes dele não havia deus algum de quem Ele tivesse sido gerado, nem depois dele haverá ou poderá haver algum deus que seja gerado a partir dele.

Por fim, foi dito que ninguém é seu ‘kufu’. Kufu significa semelhante, símile, de igual posição, equivalente e igual. Com isso, foi declarado às pessoas que, em toda a criação, não há ninguém — nunca houve e jamais poderá haver — que seja semelhante a Allah, tenha posição equivalente à dele ou possua qualquer semelhança com ele em seus atributos, ações e poder.

As provas racionais do Tawhid

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não se limitou a apresentar esse conceito claro de Tawhid à sociedade dos idólatras; ao contrário, demonstrou-o com firmeza, mediante provas racionais irrefutáveis.

1. Todos os profetas ensinavam o Tawhid

Uma prova extremamente poderosa a esse respeito era que todos os profetas que haviam vindo ao mundo antes dele ensinaram o Tawhid e ordenaram que se mantivessem afastados do shirk. De fato, o Alcorão afirma, de modo geral, a respeito de todos os profetas:

(Árabe***************)

— Enviamos a cada comunidade um profeta, com o ensinamento: Adorai Allah e afastai-vos do Taghut [o renomado imã dos exegetas, Ibn Jarir at-Tabari, explicou o Taghut da seguinte maneira:

Todo ser que se rebela contra Allah e que é adorado em vez de Allah — quer aqueles que o adoram o façam compelidos pelo uso da força, quer o façam voluntariamente e de bom grado — (isto é, aquele que é adorado) é um taghut. Seja ele um ser humano, Satanás, uma divindade ou qualquer outra coisa. (Jami‘ al-Bayan fi Tafsir al-Qur’an, vol. 3, p. 13) — o autor. — mantém-se afastado da adoração. (An-Nahl: 36)

(Árabe**************)

— E (ó Profeta), antes de ti, não enviámos Mensageiro algum sem lhe revelarmos: “Não há outra divindade além de Mim; adorai, portanto, somente a Mim.” (Al-Anbiya: 25)

Sobre todas as comunidades do passado foi dito:

(Árabe**********************)

— E não lhes foi ordenado senão que adorassem Allah, dedicando exclusivamente a Ele a sua religião e sendo absolutamente monoteístas, que estabelecessem a oração e pagassem o zakat. Esta é a religião absolutamente monoteísta e perfeitamente correta. (Al-Bayyinah: 5)

Depois, foi dito, a respeito de cada um dos profetas, que esse era o seu ensinamento. Cada um dos profetas — o ilustre Noé (que a paz esteja com ele), o ilustre Hud (que a paz esteja com ele), o ilustre Salih (que a paz esteja com ele), o ilustre Shu‘ayb (que a paz esteja com ele) e outros — transmitia primeiro ao seu povo este mesmo ensinamento:

(Árabe****************)

—Ó meu povo! Adorai Allah. Não tendes outra divindade além d’Ele. (Al-A‘raf: 59, 65, 73, 85; Hud: 50, 61, 84; Al-Mu’minun: 23, 32)

Quando Hazrat Yaqub estava à beira da morte, perguntou aos seus filhos: «A quem adorareis depois de mim?» Eles responderam: «Adoraremos o mesmo Deus que é o vosso Deus e o Deus dos vossos antepassados, Ibrahim, Ismail e Ishaq.» (Al-Baqarah: 133) Hazrat Yusuf dirigiu-se aos seus companheiros de prisão, dizendo:

(Árabe*****************)

—Ó meus companheiros de prisão! Será melhor ter muitas divindades diferentes ou Allah, o Único, que prevalece sobre todos? Além d’Ele, adorais apenas nomes que nada são, nomes que vós e os vossos antepassados criastes. Allah não fez descer nenhuma autoridade em favor deles. O poder de governar e exercer autoridade pertence exclusivamente a Allah. A Sua ordem é que não adoreis ninguém além d’Ele. Esta é a religião correta. Mas a maioria das pessoas não sabe. (Yusuf: 39–40)

A primeira revelação que desceu sobre Hazrat Musa (que a paz esteja sobre ele) foi:

(Árabe******************)

—Eu sou Allah! Não há outra divindade além de Mim. Portanto, adora-Me e estabelece a oração em Minha lembrança. (Ta-Ha: 14)

Então, quando os Filhos de Israel começaram a adorar o bezerro, Hazrat Musa (que a paz esteja sobre ele) ficou extremamente irado com eles, queimou a estátua da divindade que haviam fabricado e disse:

(Árabe****************)

-O vosso verdadeiro Deus é somente Allah, além de Quem não há outra divindade. (Ta-Ha: 98)

Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele) disse repetidamente aos Filhos de Israel:

(Árabe****************)

Na verdade, Allah é o meu Senhor e também o vosso Senhor. Portanto, adorai-O. Este é o caminho reto. (Al ‘Imran: 51; Maryam: 36; Az-Zukhruf: 64)

(Árabe******************)

-Ó Filhos de Israel! Adorai Allah, que é o meu Senhor e também o vosso Senhor. Quanto àquele que atribui parceiros a Allah, Allah proibiu-lhe o Paraíso e sua morada será o Inferno. E os injustos não terão nenhum ajudador. (Al-Ma’idah: 72)

Para os politeístas da Arábia em geral, e para os politeístas coraixitas em particular, o argumento mais vigoroso era precisamente aquele apresentado no Alcorão na narrativa de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja sobre ele). Isso porque todos os politeístas da Arábia o reconheciam como seu líder e guia, e consideravam sua religião como a religião que ele havia mostrado. Todo o orgulho, a arrogância, a influência e o prestígio dos coraixitas deviam-se à sua relação genealógica com ele e ao fato de exercerem a administração da Baitullah construída por ele. O Sagrado Alcorão explicou detalhadamente aos coraixitas e aos árabes que a saída do seu antepassado e líder religioso do reino de Nimrod (Iraque) ocorreu justamente com base nesta disputa: seu pai, seu povo e o governo de seu país eram todos politeístas. Ele, isto é, Hazrat Ibrahim (que a paz esteja sobre ele), refutou publicamente esse politeísmo, convocou publicamente seu povo ao monoteísmo e despedaçou os ídolos, por causa do que foi lançado numa enorme fogueira. Porém, o Grandioso Allah fez com que ele saísse dela vivo e em segurança. Depois, deixou seu país e partiu em direção à terra de Canaã. Em seguida, ao chegar a Meca, construiu a Casa de Allah para que ali ninguém fosse adorado além do Deus Único. Ele suplicou por seus filhos, para que não se entregassem ao desvio da adoração de ídolos. Os detalhes dessa narrativa foram apresentados de modo vigoroso e eficaz em vários trechos do Alcorão. Ao lê-los, pode-se imaginar o quanto os coraixitas e os politeístas em geral devem ter ficado abalados quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhes relatou tudo isso em Meca. Sem prolongar o assunto, inserimos aqui apenas a tradução dos versículos:

— E recorda o episódio de Abraão, quando ele disse a seu pai, Azar: “Tomas os ídolos por deuses? Vejo-te, assim como ao teu povo, em evidente desvio.”

.. Abraão disse: “Ó meu povo! Estou livre de tudo aquilo que considerais associado a Deus. Voltei sinceramente o meu rosto para Aquele que criou os céus e a terra, e jamais me incluí entre os idólatras.” Seu povo começou a discutir com ele. Ele disse: “Discutis comigo acerca de Deus, embora Ele me tenha guiado? Não temo os vossos associados, salvo se o meu Senhor quiser algo; isso certamente poderá acontecer. O conhecimento do meu Senhor abrange todas as coisas. Ainda assim, não recobrareis a consciência? Por que temeria os vossos associados, quando vós não temeis associar a Deus coisas acerca das quais Ele não fez descer nenhuma autoridade? Dizei, pois, se tendes conhecimento: qual dos dois grupos tem mais direito à segurança e à tranquilidade?” (Al-An‘am: 74–81)

— E menciona, no Livro, Abraão. Ele foi, realmente, um homem veracíssimo e um profeta. Narra-lhes o episódio em que disse a seu pai: “Ó meu pai! Por que adoras aquilo que não ouve, não vê e não pode te beneficiar em nada? Ó meu pai! Recebi um conhecimento que não recebeste. Segue-me, e eu te guiarei por um caminho reto. Ó meu pai! Não adores Satanás; na verdade, Satanás foi desobediente ao Misericordioso. Ó meu pai! Temo que te alcance um castigo do Misericordioso e que te tornes companheiro de Satanás.”

“O pai disse: ‘Abraão! Renuncias aos nossos deuses? Se não desistires, apedrejar-te-ei até à morte. Afasta-te de mim para sempre.’”

“Abraão disse: ‘A paz esteja contigo. Pedirei ao meu Senhor que te perdoe; na verdade, o meu Senhor é muito compassivo para comigo. Afasto-me de vós e também daqueles que invocais em vez de Deus. Invocarei somente o meu Senhor. Espero não ser frustrado ao invocar o meu Senhor.’” (Maryam: 41–48)

“E a súplica de Abraão por seu pai, em conformidade com a promessa que lhe havia feito, foi apenas até que se tornou claro para ele que seu pai era inimigo de Deus; então, ele se desvinculou dele.” (At-Tawbah: 114)

“Antes disso, havíamos concedido a Abraão o discernimento, e conhecíamos bem a sua condição. Recorda o episódio em que ele disse a seu pai e a seu povo: ‘Que são estas estátuas às quais vos apegais?’ Eles responderam: ‘Vimos nossos antepassados adorá-las.’ Ele disse: ‘Vós e vossos antepassados estáveis claramente extraviados.’ Eles disseram: ‘Estás falando seriamente ou estás brincando conosco?’ Ele disse: ‘Não! Vosso Senhor é, na verdade, o Senhor dos céus e da terra, que os criou, e sou testemunha disso diante de vós. Por Deus, certamente tramarei algo contra os vossos ídolos quando estiverdes ausentes.’ Então, reduziu-os a pedaços, deixando intacto o maior deles, para que se dirigissem a ele.”

“(Quando chegaram e viram o estado deplorável de seus ídolos) disseram: ‘Quem fez isto aos nossos deuses? Certamente era um grande injusto.’ Alguns disseram: ‘Ouvimos um jovem falar deles, chamado Abraão.’ Disseram: ‘Trazei-o diante de todos, para que vejam o que se pode fazer com ele.’ (Quando Abraão chegou,) disseram: ‘Abraão! Foste tu que fizeste isto aos nossos deuses?’ Ele respondeu: ‘Não! Foi este, o maior deles. Perguntai-lhe, se é capaz de falar.’ Ao ouvirem isso, voltaram-se, por remorso, contra si mesmos e disseram: ‘Vós sois os próprios injustos’ — por adorardes essas estátuas indefesas. Depois, ficaram confusos e disseram: ‘Sabes muito bem que elas não podem falar.’ Abraão disse: ‘Então adorais, em vez de Deus, aquilo que não pode beneficiar-vos nem prejudicar-vos? Que desgraça recaia sobre vós e sobre os vossos deuses, que adorais em vez de Deus!’”

“Disseram: ‘Queimai-o e socorrei os vossos deuses, se é que tendes de fazer alguma coisa.’ Dissemos: ‘Ó fogo! Sê frio e uma fonte de segurança para Abraão.’ Eles queriam causar dano a Abraão, mas fizemo-los fracassar.” (Al-Anbiya: 51–70)

“E relata-lhes a história de Abraão, quando ele disse ao seu pai e ao seu povo: ‘Que são essas coisas que adorais?’”

“Responderam: ‘São ídolos que adoramos e a cujo serviço nos dedicamos.’ Ele disse: ‘Eles ouvem-vos quando os invocais? Ou podem beneficiar-vos ou prejudicar-vos de algum modo?’ Responderam: ‘Não sabemos disso; porém, vimos os nossos antepassados fazerem o mesmo.’ Abraão disse: ‘Acaso já observastes, de olhos abertos, o que são, na realidade, aqueles que vós e os vossos antepassados adorais? Na verdade, eles são meus inimigos, exceto o Senhor dos mundos, que me criou. É Ele quem me guia; quem me alimenta e me dá de beber; e, quando adoeço, é Ele quem me cura; quem me fará morrer e depois me dará novamente a vida; e de quem espero que perdoe os meus erros no Dia do Juízo.’” (Ash-Shu’ara: 69–82)

“E enviámos Abraão. Quando ele disse ao seu povo: ‘Adorai a Allah e temei-O. Isso é melhor para vós, se soubésseis. Aqueles que adorais em vez de Allah não têm poder para prover-vos o sustento. Pedi o sustento a Allah, adorai-O e agradecei-Lhe. A Ele sereis reconduzidos.’ … A resposta do seu povo não foi outra senão: ‘Matai-o ou queimai-o!’ Mas Allah salvou-o do fogo. Certamente, nisso há sinais para os crentes. E Abraão disse: ‘Tomastes os ídolos, em vez de Allah, como meio de afeto mútuo neste mundo.’ E Abraão disse: ‘Tomastes os ídolos, em vez de Allah, como meio de amor entre vós neste mundo. Porém, no Dia da Ressurreição, renegareis uns aos outros e amaldiçoar-vos-eis mutuamente. O fogo será o vosso destino, e não tereis quem vos auxilie.’ Então, Lot acreditou nele, e Abraão disse: ‘Emigrarei para junto do meu Senhor. Ele é verdadeiramente Poderoso, o Sapientíssimo.’” (Al-Ankabut: 16–26)

“E Abraão seguia o caminho de Noé. Quando se apresentou diante do seu Senhor com um coração puro. Quando disse ao seu pai e ao seu povo: ‘O que são essas coisas que adorais? Quereis deuses inventados falsamente em vez de Allah? Que pensais do Senhor dos mundos?’ Então lançou os olhos sobre as estrelas e disse ao seu povo: ‘Estou doente.’ Então eles se afastaram, deixando-o, para irem à sua festa. Em seguida, ele entrou furtivamente no templo dos seus ídolos e disse: ‘Por que não comeis? O que tendes, que não falais?’ Depois, lançou-se sobre eles e golpeou-os vigorosamente com a mão direita.”

“Ao regressarem, as pessoas do povo correram até ele. Ele disse: ‘Adorais aquilo que vós mesmos esculpistes? Na verdade, Allah criou-vos e também aquilo que fazeis.’ Disseram: ‘Preparai uma fogueira para ele e lançai-o no fogo ardente.’ Eles quiseram executar uma medida contra ele, mas Nós os humilhámos. E Abraão disse: ‘Vou para junto do meu Senhor, isto é, emigrarei. Ele me guiará.’” (As-Saffat: 83–99)

Abraão foi apresentado perante o rei do país, pois este alegava ser senhor. Já Abraão não estava disposto a reconhecer como senhor ninguém além de Allah. O diálogo que ocorreu entre eles é relatado pelo Alcorão da seguinte forma:

“Quando Abraão disse: ‘O meu Senhor é Aquele que dá a vida e causa a morte’, ele respondeu: ‘Eu também dou a vida e causo a morte.’ Abraão disse: ‘Pois bem, Allah faz o sol nascer do Oriente; faze-o nascer do Ocidente.’ Ao ouvir isso, o incrédulo ficou estupefato.” (Al-Baqara: 258)

Assim, por causa da oposição ao shirk e do convite ao tawhid, a terra natal de Ibrahim (A.S.) tornou-se estreita para ele. Então, abandonando seu país, seu povo, sua família e até mesmo seu pai, ele partiu para a Hégira. Ao partir, ele e os crentes disseram claramente ao seu povo:

“Nós nos desligamos completamente de vós e desses vossos deuses, aos quais adorais em vez de Allah. Rejeitamo-vos, e entre vós e nós surgiu inimizade e ódio, até que creiais no Deus Único. (Al-Mumtahanah: 4)

Além disso, o Alcorão também declara que, quando Hazrat Ibrahim (A.S.) veio a Meca e construiu a Casa da Caaba no local que lhe havia sido indicado, isso não foi feito para que ela se tornasse um templo de ídolos e um santuário dos idólatras, onde se adorasse alguém além de Allah e se oferecessem sacrifícios a outros além de Allah.

(Árabe******************)

“E recorda o momento em que designamos para Ibrahim o local desta Casa (a Caaba), dizendo: ‘Não associes nada a Mim e mantém a Minha Casa pura para os que a circundam, os que se inclinam e os que se prostram. Depois, proclama às pessoas a peregrinação, para que venham a pé e montadas em camelos magros, vindas de lugares distantes, e obtenham os benefícios que lhes estão destinados. E, em dias determinados, mencionem o nome de Allah sobre os animais que Ele lhes concedeu.’” (Hajj: 26-18)

Além disso, o Alcorão também recordou às pessoas qual foi a súplica que Hazrat Ibrahim (A.S.) fez pelos habitantes de Meca e por seus descendentes futuros.

(Árabe****************)

“Ó meu Senhor! Faz desta cidade uma cidade segura e mantém a mim e aos meus filhos afastados da adoração de ídolos. Ó meu Senhor! Esses ídolos desviaram muitas pessoas. Portanto, quem me seguir será dos meus; e quanto àquele que seguir um caminho contrário ao meu, Tu és, certamente, Perdoador e Misericordioso.” (Ibrahim: 35-36)

Este exemplo relativo a Abraão foi devastador para a base da religião dos coraixitas e dos politeístas árabes. Por causa dele, eles podiam gritar de desespero, mas não podiam negá-lo. Pois era universalmente reconhecido entre eles que Abraão (que a paz esteja com ele) não era politeísta nem adorador de ídolos. Ele havia construído a Caaba somente para a adoração de Allah, e o politeísmo só se difundiu entre os árabes muito tempo depois. Sua tradição preservava a informação sobre quando o politeísmo começou em Meca e quando e de onde cada ídolo foi trazido. Por isso, o Alcorão faz publicamente este chamado às pessoas—

(Árabe****************)

“Os que têm mais direito de se relacionar com Abraão são os que seguem o seu caminho, este Profeta (Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os seus seguidores. E Allah é o Protetor e Auxiliador dos que creem.” (Al Imran: 68)

2. Prova baseada no testemunho interior dos politeístas

A segunda prova poderosa apresentada em favor do tawhid é que, quando uma grave calamidade sobrevém aos politeístas e eles se veem diante da morte ou da destruição, esquecem todos os seus falsos deuses e passam a suplicar exclusivamente a Allah. O Alcorão Sagrado descreve a condição deles de modo eficaz, despertando neles a consciência de que, dentro de seus próprios corações, existe a prova de que o politeísmo é falso e o tawhid é verdadeiro; essa prova se manifesta no momento da provação da adversidade. Depois que esse momento passa, porém, vocês lançam sobre ela o véu da negligência. (4)

(Árabe*****************)

—Ó Profeta, diga-lhes: reflitam e respondam: se algum dia o castigo de Allah vos alcançar, ou se chegar a hora derradeira, invocareis alguém além de Allah? Diga: se sois verazes (a respeito do vosso politeísmo). Nesse momento, invocareis somente Allah. Então, se Ele quiser, removerá a calamidade da qual Lhe pedíeis que vos salvasse, e esquecereis aqueles que associáveis a Ele na divindade. (Al-An’am: 40–41)

Após observar esses sinais, Ikrimah, filho de Abu Jahl, teve a ventura de abraçar a fé. Quando Meca foi conquistada pelas mãos do Profeta (que a paz esteja com ele), Ikrimah fugiu em direção a Jidá e partiu para a Abissínia a bordo de um navio. No caminho, começou uma terrível tempestade, e o navio ficou em perigo. No início, suplicaram e imploraram por ajuda a todos os deuses e deusas que conheciam. Mas, quando a tempestade se intensificou e os passageiros tiveram a certeza de que o navio afundaria, todos começaram a dizer: “Agora, nesta situação, ninguém pode ser invocado além de Allah. Somente se Ele quiser poderemos sobreviver.” Naquele momento, os olhos de Ikrimah se abriram, e seu coração declarou: se aqui não há outro auxiliador além de Allah, por que haveria em outro lugar? Esta é precisamente a verdade que aquele servo virtuoso de Allah vem nos ensinando há vinte anos, enquanto nós temos discutido inutilmente com ele.

Este foi um momento decisivo na vida de Ekrama (que Deus esteja satisfeito com ele). Naquele instante, ele fez a Deus o compromisso de que, se sobrevivesse àquela tempestade, iria diretamente até Maomé — que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele — e colocaria sua mão na mão dele. De fato, cumpriu seu compromisso e, posteriormente, não apenas se tornou muçulmano, como também passou o restante de sua vida fazendo jihad pela causa do Islã.(5)

Esta prova foi apresentada em vários lugares do Alcorão. Sem prolongar o texto, apresentaremos apenas a tradução dos versículos.

“Ele é Deus, que vos conduz por terra e mar. Quando embarcais num navio e navegais alegremente, favorecidos pelo vento, mas depois começa uma violenta tempestade, as ondas vos golpeiam de todos os lados e os passageiros percebem que estão cercados pela tormenta, todos então consagram sinceramente sua religião a Deus e O invocam, dizendo: ‘Se nos salvares desta aflição, certamente seremos Teus servos agradecidos.’ Mas, quando Ele os salva, são justamente essas pessoas que se desviam do caminho da verdade e começam a transgredir na terra.” (Yunus: 22–23)

“Vosso verdadeiro Deus é Aquele que conduz vossos navios no mar, para que possais buscar Sua graça, isto é, vosso sustento. Na verdade, Ele é muito misericordioso para convosco. E, quando uma calamidade vos atinge no mar, desaparecem todos aqueles a quem invocais, exceto Ele. Mas, quando Ele vos salva e vos faz chegar à terra firme, afastais-vos d’Ele. O ser humano é, por natureza, ingrato.” (Bani Isra’il: 66–67)

“Eis a condição das pessoas: quando enfrentam alguma aflição ou sofrimento, dirigem-se apressadamente ao seu Senhor. Depois, quando Ele lhes permite experimentar algo de Sua misericórdia, eis que alguns dentre elas começam a associar outros ao seu Senhor. (Isto é, começam a oferecer votos e oferendas a outros deuses.) Assim, demonstram ingratidão pelos favores que lhes concedi.” (Ar-Rum: 32)

“Quando alguma calamidade atinge uma pessoa, ela se volta para o seu Senhor e O invoca. Depois, quando seu Senhor a agracia com Suas bênçãos, ela esquece a aflição pela qual antes O invocava e passa a considerar outros iguais a Deus, para desviar-se e desviar outros de Seu caminho.” (Az-Zumar: 8)

Ou seja, não se contenta em desviar-se; ao contrário, também desvia os outros, dizendo: ‘A calamidade que me atingiu foi afastada porque fiz um voto e ofereci uma oferenda em nome de tal santo, de tal homem piedoso ou de tal deus ou deusa.’ Com isso, muitas outras pessoas passam a apegar-se a deuses imaginários além de Deus, e todo ignorante, ao narrar repetidamente sua experiência dessa maneira, continua alimentando o desvio do povo.(7)

Em vários lugares do Alcorão, as veias e artérias dos idólatras foram atingidas dessa maneira, despertando neles o sentimento adormecido do tawhid. A terra árabe estava repleta de perigos e calamidades. A insegurança geral do país era extremamente angustiante para todos. Em caso de doença, não havia, em lugar algum, mesmo a grandes distâncias, qualquer व्यवस्था de medicamentos ou tratamento médico.

No terrível vendaval de poeira do deserto, as pessoas ficavam inconscientes. Em tal situação, todo idólatra, em algum momento de sua vida, deparava-se com uma calamidade tão grande que, desesperado por todos os lados, estendia as mãos em súplica diante do Deus único, sem associado, e acreditava que, naquele momento, ninguém além do Ser Sagrado poderia ajudá-lo. Isso acontecia com particular frequência durante as viagens marítimas. A própria ocasião do ataque de Abraha contra os coraixitas testemunhou esse estado de coisas. Abandonando todos os deuses falsos, eles invocaram somente Allah em busca de auxílio. Quando o Alcorão foi revelado, ainda viviam muitas pessoas que haviam sido testemunhas oculares desse acontecimento. Na Surata Al-Fil, sua atenção é chamada precisamente para isso, dizendo-se: “Naquele momento, quem havia, além de vosso verdadeiro Senhor, que eliminou sessenta mil invasores e vos salvou da destruição?” E é para isso também que sua atenção é chamada na Surata Coraix, onde se diz: “Adorai esse grandioso Deus em cuja Casa vos refugiastes e escapastes da destruição, e por meio de quem obtivestes na Arábia segurança, estabilidade e bem-estar. O Benfeitor é esse Allah, e não aqueles ídolos que reunistes em Sua Casa e a respeito dos quais vós mesmos sabeis que não poderiam salvar-vos da destruição.”

3. Provas extraídas da ordem natural

Além das duas provas mencionadas acima, o Alcorão apresenta, em várias passagens e com detalhes, uma argumentação extremamente forte, extraída de toda a ordem do universo, demonstrando que o Deus de toda esta criação é um só e só pode ser um. Também aqui apresentaremos apenas a tradução dos versículos.

“Ó seres humanos! Adorai vosso Senhor, que vos criou e criou aqueles que existiram antes de vós, para que vos preserveis. Ele é quem fez da terra um leito para vós e do céu um teto; fez descer água do céu e, por meio dela, produziu toda espécie de frutos, que se tornaram vosso sustento. Portanto, não atribuais conscientemente semelhantes a Allah.” (Al-Baqara: 21-22)

“Entre Seus sinais está o fato de Ele vos ter criado do pó; depois, eis que vos espalhais pela terra como seres humanos. E entre Seus sinais está o fato de Ele ter criado, para vós, esposas da vossa própria espécie, para que encontreis tranquilidade junto delas, e ter estabelecido entre vós amor e misericórdia. Certamente, nisso há sinais para aqueles que refletem. E entre Seus sinais estão a criação dos céus e da terra, e a diversidade de vossas línguas e de vossas cores. Certamente, nisso há muitos sinais para os sábios. E entre Seus sinais estão vosso sono durante a noite e o dia, e vossa busca do sustento proveniente de Sua graça. Certamente, nisso há sinais para aqueles que escutam atentamente. E entre Seus sinais está o fato de Ele vos mostrar o relâmpago, inspirando temor e esperança, e fazer descer água do céu, vivificando com ela a terra morta. Certamente, nisso há muitos sinais para os que usam a razão. E entre Seus sinais está o fato de que os céus e a terra se mantêm firmes por Sua ordem. Então, quando Ele vos chamar da terra, eis que saireis subitamente ao primeiro chamado. A Ele pertencem todos os que estão nos céus e na terra; todos são Seus servos e todos Lhe são submissos. Ele é quem inicia a criação e é quem a repetirá; isso Lhe é ainda mais fácil. A Ele pertencem os atributos supremos nos céus e na terra, e Ele é o Poderoso, o Sábio.” (Ar-Rum: 20-27)

“Na verdade, vosso Senhor é Allah, que criou os céus e a terra em seis dias e depois Se estabeleceu sobre o Trono (o trono do reino do universo criado). Ele faz a noite cobrir o dia, e o dia a persegue incessantemente. Ele criou o sol, a lua e as estrelas; todos Lhe são submissos. Atenção! A criação pertence-Lhe, e também pertencem-Lhe o comando e o governo. Bendito seja Allah, Senhor e Sustentador de todos os mundos.” (Al-A’raf: 54)

“Glorificado seja Aquele que criou todos os pares: os que a terra produz, a própria espécie humana e outras coisas que eles não conhecem. E há um sinal para eles na noite: dela retiramos o dia, e eis que ficam mergulhados nas trevas. E o sol corre para seu destino; esse é o decreto do Poderoso, do Onisciente. E para a lua determinamos fases, até que ela se torne como um ramo seco de tamareira. Não é possível ao sol alcançar a lua, nem a noite ultrapassa o dia; todos flutuam no espaço. E há também um sinal para eles no fato de termos transportado sua descendência na arca carregada de passageiros e de termos criado para eles outras embarcações semelhantes, nas quais viajam. Se quiséssemos, poderíamos afogá-los; então não haveria quem ouvisse seu apelo, nem poderiam ser salvos de modo algum. Mas é por Nossa misericórdia que os fazemos chegar à outra margem e lhes concedemos desfrutar da vida por um período determinado.” (Yasin: 36-44)

“Sua ordem, quando deseja algo, é apenas dizer-lhe: ‘Sê’, e ele é. Portanto, glorificado seja Aquele em cuja mão está o domínio absoluto sobre todas as coisas, e a Ele sereis reconduzidos.” (Yasin: 81-83)

“Ó Muhammad, dize: Deverei buscar algum outro Senhor além de Allah, quando Ele é o Senhor de todas as coisas?” (Al-An’am: 164)

“Não há criatura que se mova sobre a terra cujo sustento não esteja sob a responsabilidade de Allah, e sobre a qual Ele não saiba onde se encontra e onde será entregue (após a morte). Tudo está registrado em um Livro.” (Hud: 6)

“Ele é Quem criou os céus e a terra em seis dias e, depois, estabeleceu-Se no Trono. Ele conhece tudo o que entra na terra e tudo o que dela sai, e conhece também tudo o que desce do céu e tudo o que a ele ascende. Onde quer que estejais, Ele está convosco, e vê tudo o que fazeis. Dele é o reino dos céus e da terra, e a Allah retornam todas as coisas (para a decisão final). Ele transforma a noite em dia e o dia em noite, e conhece perfeitamente até o estado dos corações.” (Al-Hadid: 4–6)

“Ele administra todos os assuntos dos céus e da terra. Depois, o relatório deles sobe até Ele em um dia cuja duração, segundo a vossa contagem, é de mil anos. Ele conhece tanto o oculto quanto o manifesto. Ele é Poderoso, o Misericordioso.

“Ele aperfeiçoou tudo o que criou. Iniciou a criação do ser humano a partir do barro. Depois, fez sua descendência surgir de uma substância semelhante a um líquido desprezível.” (As-Sajdah: 5–8)

“Allah é o Único que faz a semente e o caroço dos frutos romperem (no interior da terra). Ele faz sair o vivo do morto e faz sair o morto do vivo. Quem realiza todas essas coisas é Allah. Então, como vos afastais da verdade? Ele faz a aurora despontar ao romper a escuridão da noite, e fez da noite um momento de tranquilidade. Determinou os cálculos dos nascentes e poentes do sol e da lua. Tudo isso é a determinação do Poderoso, do Onisciente. E Ele fez as estrelas para vós como meio de encontrardes o caminho nas trevas do deserto e do mar. Vede: expusemos claramente os sinais para aqueles que possuem conhecimento. E Ele vos criou a partir de uma só pessoa. Depois, para cada um há um lugar de permanência e um lugar de retorno. Expusemos claramente estes sinais para aqueles que compreendem e agem com discernimento.” (Al-An’am: 95–98)

“(Ó Profeta), dize-lhes: Quem tem qualquer poder ou autoridade para revogar a decisão de Allah a vosso respeito, se Ele desejar causar-vos algum dano ou conceder-vos algum benefício?” (Al-Fath: 11)

“E, se Allah desejar afligir-te com alguma adversidade, ninguém além d’Ele poderá removê-la; e, se desejar conceder-te algum bem, ninguém poderá impedir o Seu benefício.” (Yunus: 107)

“Ninguém pode impedir a misericórdia que Deus abre para as pessoas, e aquilo que Ele fecha, ninguém pode abrir)… Existe algum outro criador além de Deus que vos conceda provisão dos céus e da terra? Não há divindade senão Ele. Então, para onde estais sendo enganados?” (Fátir: 2–3)

“Se houvesse outras divindades além de Deus nos céus e na terra, a ordem dos céus e da terra certamente entraria em colapso. Deus, Senhor do Trono, está acima e é puro de tudo aquilo que atribuem a Ele. Ele não é responsável perante ninguém por Suas ações, enquanto todos serão responsabilizados perante Ele. Acaso tomaram, além d’Ele, outras divindades? Dize-lhes: ‘Apresentai a vossa prova.’” (Al-Anbiya: 22–24)

“Deus não tomou ninguém por filho, nem há outra divindade junto com Ele. Se assim fosse, cada divindade se separaria com a sua criação e algumas delas dominariam as outras. Glorificado e puro está Ele daquilo que Lhe atribuem.” (Al-Mu’minun: 91)

“Dize-lhes, ó Profeta: ‘Se houvesse outras divindades junto d’Ele, como dizem, elas certamente procurariam alcançar o Senhor do Trono. Glorificado, exaltado e muito acima está Ele daquilo que dizem.’” (Bani Isra’il: 42–43)

Estas são algumas das aleyas nas quais foram apresentados argumentos e provas tão sólidos em favor do tawhid que qualquer pessoa dotada do mínimo de conhecimento e razão não pode deixar de reconhecer que a grandiosa administração deste universo criado, da terra aos céus, não pode funcionar senão sob a autoridade de um único Deus. Tudo isso foi criado porque Ele o criou, e tudo continua funcionando porque é Ele quem o governa. A sabedoria, o conhecimento, o poder, a misericórdia, a compaixão e a capacidade de sustentar e cuidar; a ordem e a regularidade; e a harmonia encontrada entre as incontáveis criaturas do universo deixam claro que tudo isso não poderia existir sem o domínio de um único Deus. Não há a menor possibilidade de que qualquer outro possua sequer uma parcela de poder ou autoridade divina. Do contrário, esta ordem jamais poderia funcionar com tamanha regularidade, sabedoria e harmonia. Agora está claro que, sendo Ele o Criador, é Ele também quem concede a provisão; é d’Ele a autoridade de conceder benefícios e causar prejuízos; e Ele é o possuidor de todo poder e autoridade. Então, quem mais tem o direito de ser adorado? E como poderia, sob o domínio de Sua criação, vigorar o governo e o comando de qualquer outro? Quando uma pessoa adora alguém, faz isso acreditando que esse alguém possui algum tipo de poder e autoridade, bem como a capacidade de conceder benefícios e causar prejuízos. Mas, quando ela sabe que esse alguém não possui poder nem autoridade alguma, ninguém pode ser tão tolo e insensato a ponto de adorá-lo sem motivo.

4. Argumentos e provas para refutar o shirk

Assim como o Alcorão demonstrou o tawhid com grande força, também apresentou, com igual força, argumentos e provas para refutar o shirk. Desse modo, o shirk foi completamente destroçado. Aqui também apresentaremos apenas a tradução das aleyas do Alcorão.

“Prestai atenção: tudo o que está nos céus e na terra pertence a Deus, o Altíssimo. E aqueles que invocam outros associados além de Deus seguem apenas conjecturas e são meros fantasistas.” (Yunus: 66)

“Aqueles que adorais em vez d’Ele nada são. Não passam de nomes que vós e vossos antepassados inventastes. Allah não fez descer nenhuma autoridade sobre a associação deles a Deus.” (Yusuf: 140)

“Portanto, não tenhas dúvida alguma, ó Profeta, acerca dos deuses que eles adoram. Eles continuam adorando exatamente como seus antepassados adoravam, como cegos. (Hud: 109)

“E quando lhes é dito: ‘Segui aquilo que Allah revelou’, eles dizem: ‘Seguiremos, sim, aquilo que vimos nossos antepassados seguir’. Acaso continuarão seguindo cegamente seus antepassados? E se Satanás os chama para o castigo do fogo ardente?” (Luqman: 21)

“Acaso lhes havíamos dado, antes disso, algum Livro cuja autoridade eles possuíssem para justificar a adoração dos anjos? Não! Ao contrário, dizem: ‘Vimos nossos antepassados seguir uma determinada tradição e seguiremos seus passos’. Assim também, antes de ti, sempre que enviamos um admoestador a alguma cidade, seus abastados diziam: ‘Vimos nossos antepassados seguir uma determinada tradição e seguiremos seus passos’. Cada profeta lhes perguntava: ‘E se eu vos trouxesse uma orientação mais correta do que aquela em que vistes vossos antepassados seguir?’ Eles respondiam a todos os profetas: ‘Negamos aquilo para o qual fostes enviados, a fim de nos convocar’. (Az-Zukhruf: 21-24)

“Eles adoram, em vez de Allah, aqueles sobre cuja divindade Allah não fez descer nenhuma autoridade, e acerca dos quais eles não possuem conhecimento algum.” (Al-Hajj: 71)

Nesses versículos e em outros semelhantes, é afirmado claramente que os idólatras não possuem nenhuma prova ou evidência para considerar outros como associados de Deus e dignos de adoração. Eles apenas seguem cegamente seus antepassados. Baseando-se somente em conjecturas e suposições, acreditam que certas entidades obtiveram alguma parcela do domínio e do poder divinos e, por isso, atendem aos seus desejos. Entretanto, Deus jamais lhes disse, de modo algum, que havia concedido a determinada entidade alguma parcela de Seu domínio. Eles não possuem conhecimento direto de que algum venerável santo ou alguma divindade tenha obtido qualquer um dos poderes de Deus. Além disso, o Alcorão apresenta repetidamente provas de que o politeísmo é falso e irreal.

“Ou quem criou os céus e a terra e vos enviou água do céu, mediante a qual fizemos crescer jardins esplêndidos, cujas árvores não vos seria possível fazer crescer? Acaso existe outro deus, além de Allah, que participe dessas obras? Não! Mas essas pessoas se desviam da verdade. E quem fez da terra um lugar de morada, abriu rios em seu meio, nela firmou montanhas e colocou uma barreira entre as duas massas de água, a doce e a salgada? Acaso existe outro deus, além de Allah, que participe dessas obras? Não! Porém, a maioria deles não tem conhecimento. Ou quem atende à súplica do necessitado quando ele O invoca e remove a aflição? E quem vos fez sucessores na terra? Acaso existe outro deus, além de Allah, que participe dessas obras? Pouco é o que pensais. Ou quem vos guia nas trevas da terra e do mar? E quem envia os ventos como boas-novas antes de Sua misericórdia? Acaso existe outro deus, além de Allah, que faça essas coisas? Exaltado e sublime é Allah, acima do que associam a Ele. Ou quem inicia a criação e depois a reproduz? E quem vos provê do céu e da terra? Acaso existe outro deus, além de Allah, que participe dessas obras? Dize: ‘Apresentai vossa prova, se sois verazes em vosso politeísmo’.” (An-Naml: 60-64)

“Bendito seja Aquele que revelou este Furqan a Seu servo, para que ele fosse um admoestador para os habitantes do mundo. A Ele pertence o reino dos céus e da terra; Ele não adotou filho algum e não tem associado algum em Seu reino. Ele criou todas as coisas e determinou para cada uma delas um destino. Contudo, as pessoas adotaram, em vez d’Ele, divindades que nada criam; ao contrário, elas mesmas foram criadas. Não têm poder para causar benefício ou dano, não podem causar a morte nem dar a vida, nem ressuscitar os mortos.” (Al-Furqan: 1-3)

Após mencionar, nos versículos 3 a 16 da surata An-Nahl, muitos dos engenhosos atos criativos de Deus, o Altíssimo, foi dito: “Podem ser iguais aquele que cria e aquele que nada pode criar?” Não recobrareis o bom senso e a consciência? (versículo 17)

“(Ó Profeta,) pergunta-lhes: Quem é o Senhor dos céus e da terra? Dize: Deus. Então pergunta-lhes: Tomastes, em vez d’Ele, outros como autoridades, embora eles próprios não tenham poder para causar benefício ou dano a si mesmos? Dize-lhes: Podem o cego e o vidente ser iguais? Podem a luz e as trevas ser iguais? Acaso aqueles que eles associaram a Deus criaram algo semelhante ao que Ele criou, de modo que a criação lhes pareça duvidosa? Dize-lhes: Deus é o Criador de todas as coisas e Ele é Único, Dominador de todos.” (Ar-Ra‘d: 16)

“Ó Profeta! Dize-lhes: Vistes os vossos associados, aos quais invocais em vez de Deus? Dizei-me: o que eles criaram na terra? Ou têm alguma participação nos céus? Ou acaso lhes concedemos um Livro no qual se baseiam para possuir alguma prova de seu politeísmo? Nada disso. Ao contrário, esses injustos apenas oferecem uns aos outros iscas de engano.” (Fátir: 40)

“E se lhes perguntares quem criou os céus e a terra, certamente dirão: Deus! Dize-lhes: Então, que pensais? Se Deus quiser causar-me algum dano, poderão as vossas divindades — aquelas que invocais em vez de Deus — livrar-me do dano que Ele enviar? Ou, se Deus quiser conceder-me misericórdia, poderão elas impedir a Sua misericórdia? (Se não puderem afirmar que são capazes de fazer isso,) dize-lhes: Deus é suficiente para mim. N’Ele confiam os que depositam confiança.” (Az-Zumar: 38)

Os politeístas diziam: nossos deuses são para nós um meio de obter proximidade junto a Deus e nossos intercessores. Por isso os adoramos. Suplicamos-lhes e os invocamos em busca de ajuda, para que nos auxiliem, nos beneficiem e nos protejam do dano. O Alcorão também refutou detalhadamente essa concepção.

“Essas pessoas adoram, em vez de Deus, aquilo que não pode beneficiá-las nem prejudicá-las. E dizem: Estes são os nossos intercessores junto a Deus. (Ó Profeta,) pergunta-lhes: Informais a Deus de algo que Ele não conhece nos céus nem na terra? Glorificado e exaltado seja Ele acima do politeísmo que praticam.” (Yunus: 18)

E aqueles que, em vez de Deus, tomaram alguns protetores para si dizem: “Nós somente os adoramos para que nos aproximem de Deus.” “Deus certamente julgará entre eles acerca daquilo sobre o qual divergem. Deus não guia quem é mentiroso e descrente.” (Az-Zumar: 13)

“Essas pessoas tomaram, em vez de Deus, outras divindades, para que lhes servissem de auxiliares. Ninguém será auxiliar. Todos eles negarão a adoração que lhes prestaram e, no Dia da Ressurreição, tornar-se-ão seus adversários.” (Maryam: 81–82)

“Essas pessoas estabeleceram, além de Allah, outras divindades e esperam que elas as ajudem. Elas não podem ajudá-las em nada. Pelo contrário, essas pessoas tornaram-se, para elas, um exército permanente (graças ao qual sua divindade continua em funcionamento).” (Yasin: 74-75)

“Quem pode interceder junto a Allah sem a Sua permissão?” (Al-Bácara: 55)

“Ó Profeta! Dize a estes idólatras: ‘Invocai aqueles que considerais vossos senhores além de Allah. Eles não possuem sequer a menor coisa, nem no céu nem na terra, nem têm qualquer participação na divindade, seja no céu ou na terra. E nenhum deles é auxiliar de Allah. E a intercessão junto a Ele não terá utilidade alguma, exceto a daquele a quem Allah tiver concedido permissão para interceder e em favor de quem tiver permitido que se interceda.’” (Sabá: 22-23)

“Quem pode estar mais extraviado do que aquele que invoca, além de Allah, aqueles que não lhe podem responder até o Dia da Ressurreição, e que estão ainda mais desatentos ao fato de que essas pessoas lhes dirigem súplicas? E, quando as pessoas forem reunidas no Dia da Ressurreição, eles serão inimigos daqueles que os invocavam e negarão a adoração que lhes era prestada.” (Al-Ahkaf: 5-6)

“Invocar somente Allah é o correto. Mas aqueles que eles invocam além de Allah não podem responder à sua invocação. O exemplo de invocá-los é como o de alguém que estende as mãos em direção à água e lhe pede: ‘Vem até a minha boca.’ Contudo, a água não pode chegar até ele. Assim também é a súplica dos incrédulos: sem sentido, como uma flecha que não atinge o alvo.” (Ar-Ra‘d: 14)

“O exemplo daqueles que tomaram outros, além de Allah, como protetores é como o da aranha. Ela constrói sua casa, mas, entre todas as casas, a mais fraca é a casa da aranha. Ah, se eles tivessem conhecimento!” (Al-Ankabut: 41)

“Ó pessoas! É apresentado um exemplo; escutai-o com atenção. Aqueles que invocais além de Allah não criaram sequer uma mosca. Mesmo que todos se unissem para fazê-lo, não poderiam. Além disso, se a mosca lhes usurpar alguma coisa, eles não poderão recuperá-la. Tanto os que pedem ajuda são fracos quanto aqueles a quem se pede ajuda são fracos. Eles não avaliaram Allah com a devida avaliação. Na verdade, o Poderoso e o Todo-Poderoso é somente Allah.” (Al-Hajj: 73-74)

“Eles atribuem como associados de Allah aqueles que nada criaram, enquanto eles próprios foram criados? Eles não podem ajudá-los, nem são capazes de ajudar a si mesmos.” (Al-A‘raf: 191-192)

Depois de mencionar, nos versículos 65 a 72 da surata An-Nahl, a graça, a misericórdia e as bênçãos de Allah Todo-Poderoso para com os seres humanos, é dito:

“Será que as pessoas, mesmo vendo e ouvindo tudo isso, aceitam a falsidade e negam a graça e a misericórdia de Allah Todo-Poderoso? E adoram, em vez de Allah, aqueles que não têm qualquer poder para prover-lhes sustento do céu, nem da terra, e tampouco podem fazer isso.” (An-Nahl: 72-73)

“Acaso eles tomaram, em vez de Allah, certas entidades como intercessoras? Dize-lhes: ‘Intercederão elas, mesmo não tendo autoridade sobre coisa alguma e mesmo nada compreendendo?’ Dize: ‘Toda a questão da intercessão está sob a autoridade de Allah. A Ele pertence o reino dos céus e da terra. Depois, a Ele sereis devolvidos.’” (Az-Zumar: 43-44)

“E destruímos muitas cidades ao redor de vós. Enviamos sinais e explicamos-lhes as coisas de várias maneiras, para que retornassem ao caminho reto. Então, por que aquelas entidades, que eles haviam tomado como divindades, além de Allah, julgando que por meio delas alcançariam a proximidade do próprio Allah, não os socorreram? Ao contrário, no momento do castigo, afastaram-se deles. Esse foi o resultado de suas falsas e imaginárias crenças, que haviam inventado.” (Al-Ahqaf: 27-28)

Depois de descrever, nos versículos 11 a 13 da surata Fatir, os prodígios do poder de Allah Todo-Poderoso, é dito: “Esse Allah, por meio de Quem todas essas coisas acontecem, é o vosso Senhor. A soberania pertence exclusivamente a Ele. Aqueles a quem invocais em vez d’Ele não possuem sequer algo do tamanho de um talo de erva. Se os invocardes, eles não ouvirão a vossa invocação; e, mesmo que a ouvissem, não poderiam responder-vos. E, no Dia da Ressurreição, negarão a vossa associação.” (Fatir: 13-14)

“Allah decide com justiça. Quanto àqueles que os idólatras invocam em vez d’Ele, eles não podem decidir coisa alguma. Na verdade, Allah é Quem ouve e vê todas as coisas.” (Al-Mu’min: 20)

Em seguida, diz-se às pessoas que quem deseja honra (não precisa buscar a ajuda de nenhuma força auxiliadora, nem procurar um intercessor, um meio de alcançar a proximidade de Allah, nem oferecer votos e oferendas. Há apenas um meio de alcançá-la—

(Árabe*****************)

Quem quer a honra e a dignidade deve saber que toda a honra pertence inteiramente a Allah. Até Ele ascende apenas a palavra pura, e são as boas obras que a elevam. (Fáter: 10)

Os politeístas afirmaram que Allah tem um filho, consideram os anjos filhas de Allah e adoram-nos. Sobre este assunto, o Alcorão refutou-os em termos severos e demonstrou o vazio dessa crença.

Eles associaram os gênios a Allah. No entanto, foi Ele quem os criou. E, sem conhecimento, inventaram para Ele filhos e filhas. Glorificado e exaltado está Ele acima do que dizem. Ele é o Criador dos céus e da terra. Como poderia ter filhos, se não tem esposa? Ele criou todas as coisas e tem conhecimento de todas as coisas. Este é Allah, vosso Senhor. Não há divindade além d’Ele; Ele é o Criador de tudo. Portanto, adorai somente a Ele. Ele é o responsável por todas as coisas. (Al-An’am: 100-102)

“Eles dizem: ‘O Misericordioso tem um filho.’ Glória a Allah! Eles, isto é, os anjos, são servos honrados; não se adiantam a Ele nas palavras, e agem conforme a Sua ordem. Ele sabe o que está diante deles e também o que lhes é oculto. Eles não intercedem senão por quem Ele aprova, e tremem de temor diante d’Ele. E se algum deles dissesse: ‘Eu sou uma divindade além de Allah’, Nós o recompensaríamos com o Inferno. Assim recompensamos os injustos.” (Al-Anbiya: 26-29)

“Eles atribuíram a Allah alguns de Seus servos como parte d’Ele. Na verdade, o ser humano é evidentemente ingrato. Acaso Allah escolheu para Si, entre Suas criaturas, as filhas e vos agraciou com filhos? E quando um deles recebe a notícia do nascimento daquela que atribui ao Misericordioso como filha, seu rosto escurece e fica cheio de angústia. Acaso atribuem a Allah aquelas que são criadas com adornos e que, nas discussões, não conseguem expressar claramente seus argumentos? Acaso observaram a criação dos anjos, servos do Misericordioso, que consideraram femininos? O testemunho deles será registrado e serão responsabilizados.” (Az-Zukhruf: 15-19)

“Pergunta-lhes, então, se o coração deles aceita que para o vosso Senhor sejam as filhas, enquanto para eles — ou para vós — sejam os filhos. Acaso fizemos os anjos femininos, e eles testemunharam isso com os próprios olhos? Escutai bem: na realidade, estão inventando a afirmação de que Allah tem um filho. E, de fato, são mentirosos.”

Allah teria escolhido para Si as filhas em vez dos filhos? O que vos sucede? Que espécie de opinião estais a expressar? Não recobrareis o bom senso? Se tendes alguma prova dessas afirmações, apresentai então o livro que a contém, se sois verdadeiros. (As-Saffat: 149-157)

“Acaso já refletistes sobre a realidade de Al-Lat, Al-Uzza e Manat, a terceira, a outra divindade? Os filhos seriam para vós e as filhas para Allah? Que divisão tão injusta e enganosa! Isso não passa de nomes que vós e vossos antepassados inventastes. Allah não fez descer nenhuma autoridade sobre eles — na qual tivesse declarado que eram Suas filhas. Na realidade, essas pessoas seguem apenas superstições e conjecturas, tornando-se escravas de suas próprias paixões, embora lhes tenha chegado a orientação de seu Senhor.” (An-Najm: 19-23)

Ao refutar cada aspecto do shirk, o Alcorão também disse aos politeístas que, no que diz respeito aos vossos deuses, o único propósito é que apresenteis oferendas diante deles, continueis a realizar rituais e festividades de adoração e lhes supliqueis que continuem a satisfazer os vossos desejos neste mundo. Não tendes nenhum deus que vos possa orientar quanto aos princípios corretos da vida mundana, distinguindo o certo do errado e mostrando qual caminho é correto e qual é falso. Ora, se alguém é digno de adoração, só pode ser aquele que também orienta o caminho dos servos e dos adoradores.

“Pergunta-lhes: entre os vossos associados que estabelecestes, há algum que guie para a verdade? Será mais digno de ser seguido aquele que guia para a verdade ou aquele que não encontra o caminho por si mesmo? A menos que seja guiado, é claro. Na realidade, a maioria deles segue conjecturas. Contudo, a conjectura nada pode suprir da necessidade da verdade.” (Yunus: 36)

Assim, por meio de argumentos e provas, o shirk é completamente erradicado, e as pessoas são devidamente advertidas de que o shirk é um pecado que Allah jamais perdoa, enquanto a pessoa não se arrepender dele. Por mais boas ações que alguém pratique, segundo a sua própria concepção, juntamente com esse pecado, todas serão anuladas.

“Allah jamais perdoa o pecado de associar parceiros a Ele. Quanto aos demais pecados, Ele pode perdoá-los, se quiser. Quem atribuir a Allah um associado terá forjado uma enorme mentira e cometido um pecado imenso.” (Nissá: 48)

“Ó Muhammad! Dize-lhes: Então, ó insensatos! Acaso me ordenais que adore alguém além de Allah? Embora tenha sido revelado a vós e aos profetas anteriores a vós: se cometerdes shirk, todas as vossas obras serão anuladas e sereis dos perdedores. Portanto, adorai somente a Allah e incluí-vos entre os servos agradecidos.” (Zumar: 64–66)

5. As exigências do tawhid

Juntamente com a demonstração da verdade do tawhid e da falsidade do shirk em todos os aspectos, o Alcorão também deixou claro que, depois de reconhecer Allah como o único Senhor e Deus, sem associado—

(1) torna-se obrigatório não adorar nem prestar culto a ninguém além de Allah.

(Árabe***************)

—Criei os jinns e os seres humanos não para que adorassem qualquer outro, mas para que adorassem somente a Mim. (Adh-Dhariyat: 56)

(Árabe*******************)

—Não vos prosterneis diante do sol nem diante da lua. Prostrai-vos, antes, diante de Allah, que vos criou, se, de fato, sois adoradores somente d’Ele. (Ha-Mim Sajdah: 37)

(Árabe***************)

Ó Muhammad! Nós te revelamos este Livro com a verdade. Portanto, adora somente a Allah, tornando a religião exclusivamente para Ele. Sabei que a religião pura pertence exclusivamente a Allah. (Az-Zumar: 2–3)

(Árabe*****************)

—Dize: Foi-me proibido adorar aqueles a quem invocais além de Allah. (Al-Mu’min: 66)

(2) Torna-se também indispensável não suplicar a ninguém além de Allah. Não se deve implorar a ajuda de ninguém, considerando-o sobrenaturalmente capaz de satisfazer necessidades e realizar tarefas.

(Árabe**************)

— Ó Allah! Somente a Ti adoramos e somente a Ti pedimos ajuda.

(Árabe****************)

— E não invoques, para pedir ajuda, ninguém além de Allah, que não pode beneficiar-te nem prejudicar-te.

(Árabe****************)

— E não invoques, juntamente com Allah, nenhuma outra divindade para pedir ajuda. Além d’Ele, não existe nenhuma divindade verdadeira.

(Árabe****************)

—E o vosso Senhor disse: “Invocai-Me, e Eu atenderei à vossa súplica. Aqueles que, por orgulho, se afastam da Minha adoração entrarão no Inferno humilhados.” (Al-Mu’min: 60) [Este versículo deixa claro que o sentido da súplica e o da adoração é o mesmo. Quando alguém suplica a outra pessoa, na realidade está adorando essa pessoa. —O autor]

(Árabe*****************)

E quando os Meus servos te perguntarem sobre Mim, dize-lhes que estou próximo. [Isto é, não há necessidade de qualquer intermediário para suplicar a Mim. Eu ouço diretamente as súplicas. —O autor] Quando aquele que suplica Me invoca, respondo à sua súplica. (Al-Baqarah: 186) [Responder não significa que aquele que suplica ouvirá essa resposta. Significa, antes, que sou Eu quem toma medidas em resposta a todos os pedidos e súplicas. —O autor]

(3) É igualmente indispensável não considerar ninguém além de Allah como “Alim al-Ghaib”. Não se pode pensar, a respeito de qualquer outra pessoa, que ela conhece todos os mistérios ocultos e manifestos da criação e que possui conhecimento de cada assunto, desde o passado até o futuro.
(Árabe**************)

Dize: entre os que estão nos céus e na terra, ninguém conhece o invisível, exceto Allah. (An-Naml: 65)

(Árabe****************)

—Ele possui as chaves do invisível; ninguém as conhece senão Ele. Ele conhece tudo o que há na terra firme e no mar. Nenhuma folha cai sem que Ele o saiba. Não há uma semente nas profundezas das trevas da terra, nem algo seco ou úmido, que não esteja registrado num Livro claro. (Al-An’am: 59)

(4) É igualmente obrigatório não abater nem sacrificar qualquer animal em nome de alguém além de Allah ou em qualquer santuário. Todo animal cujo abate não tenha sido acompanhado da invocação do nome de Allah será haram, assim como aquele sobre o qual tenha sido invocado o nome de alguém juntamente com Allah. O Alcorão afirma claramente, em quatro lugares, que é haram o animal sobre o qual, no momento do abate, tenha sido invocado o nome de alguém além de Allah (Al-Baqarah: 173; Al-Ma’idah: 3; Al-An’am: 145; An-Nahl: 115). A Surata Al-Ma’idah também descreve detalhadamente que os animais abatidos nos próprios santuários que os idólatras haviam erigido para sacrificá-los como oferenda votiva a alguém além de Allah são igualmente haram. (Versículo: 3)

Em seguida, foi claramente declarado em Al-An’am:

(Árabe******************)

—Portanto, comei da carne do animal sobre o qual o nome de Allah foi mencionado (no momento do abate).

(Árabe****************)

—E não comais da carne de nenhum animal sobre o qual o nome de Allah não tenha sido mencionado (no momento do abate), pois isso é rebeldia contra Deus.

(5) É também indispensável reconhecer que Deus, que detém o domínio e a autoridade sobre toda a criação, deve ser obedecido em todos os assuntos humanos (moralidade, refinamento, civilização, vida social, política, economia, direito e sistema judiciário, guerra, paz e outros assuntos semelhantes). Somente a Sua lei será lei; ninguém terá autoridade para legislar em oposição a Ele. O que Ele declarou haram será haram, e o que Ele declarou halal será halal. Ninguém tem o direito de determinar, por iniciativa própria, o que é halal e o que é haram. As pessoas, individualmente ou em grupo, não conduzirão sua vida segundo sua própria vontade, nem aceitarão leis formuladas segundo a vontade de qualquer outro além de Allah. A autoridade para decidir sobre todos os assuntos humanos pertence a Allah, não aos servos.

(Árabe**************)

Qualquer que seja a questão sobre a qual divergirdes entre vós, cabe a Allah decidi-la. (Shura: 10)

(Árabe****************)

—Será que essas pessoas associam a Deus parceiros que lhes prescreveram uma lei religiosa semelhante à sua própria religião, embora Deus não lhes tenha dado permissão? (Ash-Shura: 21)

Este versículo deixa claro que, por parceiros, não se quer dizer aqui aqueles a quem se dirigem súplicas, a quem se fazem votos e oferendas e diante de quem se realizam atos de adoração. Pelo contrário, isso necessariamente se refere às pessoas que o povo considera parceiras de Deus no governo e na autoridade. As pessoas creem em suas ideias, crenças, doutrinas e filosofias; seguem os valores que elas estabelecem; aceitam os princípios morais, os padrões de civilização e de cultura que apresentam; e adotam as leis, os métodos de ação e as tradições que elas elaboram em seus ritos religiosos, na vida pessoal, na sociedade, na cultura, nos negócios e nas transações, nos tribunais, na política e na administração do governo, como se tudo isso fosse a sua sharia, que deveriam seguir. (8)

(Árabe****************)

—Eles tomaram seus eruditos e seus pires e dervixes como seus senhores, em vez de Allah, e fizeram o mesmo com o Messias, filho de Maria. No entanto, foi-lhes ordenado adorar somente o Deus Único; não há ninguém digno de ser adorado além Dele. Ele está livre e acima de tudo aquilo que associam a Ele. (At-Tawbah: 21)

Está registrado no hadith que Hadrat Adi bin Hatim (r.a.) era anteriormente cristão. Quando compareceu perante o Profeta (s.a.w.) e se tornou muçulmano, entre as outras perguntas que fez, perguntou também: “Neste versículo, afirma-se que tomamos nossos eruditos e dervixes como deuses. Qual é o verdadeiro significado disso?”

Em resposta, o Mensageiro (s.a.w.) disse: “Não era verdade que vocês consideravam haram aquilo que eles declaravam haram e halal aquilo que eles declaravam halal?” Ele respondeu: “Certamente fazíamos isso.” O Profeta (s.a.w.) disse: “Pois bem, isso foi precisamente tomá-los como deuses.”

Disso se sabe que aqueles que, sem o respaldo do Livro de Allah, estabelecem os limites entre o permitido e o proibido para a vida humana são, na realidade, os que se sentam, cheios de orgulho, no trono da divindade. Aqueles que reconhecem o direito deles de elaborar essa sharia fazem deles seus deuses. (9)

(Árabe****************)

— Ó Profeta, dize-lhes: «Já considerastes os meios de sustento que Allah fez descer para vós, dos quais declarastes, por conta própria, alguns ilícitos e outros lícitos?» Pergunta-lhes: «Allah vos deu permissão para isso, ou estais forjando mentiras contra Allah?» (Yunus: 59)

(Árabe*****************)

E não atribuais falsamente a Allah, por meio desses decretos proferidos por vossas bocas — isto é ilícito, isto é lícito —. Aqueles que forjam mentiras contra Allah jamais prosperarão. (An-Naml: 116)

(Árabe******************)

E aqueles que não julgam conforme a lei que Allah revelou são os incrédulos… são os injustos… são os transgressores. (Al-Ma’idah: 44–47)

(Árabe*******************)

Viste aquele que tomou sua própria paixão como seu deus? (Isto é, tornou-se arbitrário e começou a se sujeitar à sua paixão.) (Al-Jathiyah: 23)

Assim, o ensinamento do tawhid que o Mensageiro de Allah (S.A.) transmitia exigia apenas que as pessoas não adorassem ninguém além do Deus Único, não dirigissem súplicas a ninguém e não oferecessem sacrifícios em nome de ninguém. Seu ensinamento também era que as pessoas abandonassem todos os seus costumes e tradições, bem como todas as leis, normas e regulamentos criados por elas mesmas ou por outros, reconhecessem somente Allah como Legislador e seguissem a lei por Ele revelada. O próprio Profeta (S.A.) não constituía exceção nesse aspecto. Também lhe fora ordenado que seguisse a lei revelada por Allah e que, segundo sua própria vontade, não declarasse lícito ou ilícito aquilo que quer que fosse.

(Árabe*************)

Ó Muhammad (S.A.), obedece àquilo que te foi enviado por meio da revelação, da parte do teu Senhor.

(Árabe*************)

Ó Profeta, por que declaras ilícito aquilo que Allah tornou lícito para ti?

Era um chamado a uma revolução abrangente, que não pretendia mudar apenas a religião, mas todo o sistema de vida. Era natural que isso provocasse agitação entre os politeístas árabes. Porém, o golpe imenso desferido contra os interesses dos coraixitas deixou-os particularmente alarmados. Isso acontecia porque, tendo esse chamado surgido da própria tribo e da própria cidade deles, eles já conseguiam enxergar a sua destruição. (10)

A principal e fundamental razão da oposição dos coraixitas

No Alcorão Majid, é dito que o perigo que os coraixitas temiam ao aceitar o chamado do Mensageiro de Allah (S.A.) era o seguinte:—

(Árabe***************)

Eles dizem: “Se começarmos a seguir convosco esta orientação, seremos expulsos do país.” (Al-Qasas: 57)

Refletindo profundamente, pode-se compreender que esta era a razão fundamental pela qual os coraixitas negavam a verdade. Para compreender bem isso, devemos observar qual era, historicamente, a posição dos coraixitas naquela época, cuja perda eles temiam.

Em primeiro lugar, o que lhes conferia importância na Arábia era o fato de, segundo as genealogias árabes, estar comprovado que eram descendentes do profeta Ismael (A). Com base nisso, sua linhagem gozava, aos olhos dos árabes, do prestígio de uma família de descendentes de santos. Depois, quando, graças aos esforços de Qusay ibn Kilab, eles se tornaram os guardiões da Caaba e Meca passou a ser sua morada, sua importância aumentou muito em relação ao passado. Pois agora haviam se tornado os sacerdotes do maior santuário da Arábia. Eles conquistaram a posição de liderança religiosa de todas as tribos árabes. Não havia tribo árabe que, por causa do Hajj, não mantivesse alguma relação com eles. Em virtude dessa posição central, foram gradualmente prosperando no comércio. Por feliz coincidência, os conflitos mútuos entre Roma e o Irã lhes conferiram uma posição especial no comércio internacional. Naquela época, o Irã havia bloqueado todo o comércio que se realizava entre a China, a Índia, a Indonésia e a África Oriental, de um lado, e Roma, a Grécia, o Egito e a Síria, de outro. A última rota passava pelo Mar Vermelho. Mas, depois que o Irã ocupou o Iêmen, essa rota também foi fechada. Então não restou outro meio de manter o comércio senão os comerciantes árabes transportarem, por um lado, as mercadorias das regiões dominadas por Roma até os portos do Mar da Arábia e do Golfo Pérsico e, por outro, levarem as mercadorias do Oriente desses portos para as regiões dominadas por Roma. Como resultado, Meca transformou-se em um centro comercial internacional. Naquele momento, os coraixitas detinham o monopólio desse comércio. Porém, no ambiente desordenado e anárquico da Arábia, não era possível a livre circulação das mercadorias. O comércio só podia passar pelas rotas que atravessavam as regiões de determinadas tribos; por isso, embora os coraixitas mantivessem relações estreitas com essas tribos, as mercadorias só podiam circular por essas vias. Para esse propósito, os chefes coraixitas não consideravam suficiente apenas sua influência religiosa. Por isso, estavam ligados por tratados a todas as tribos. Uma parte dos lucros comerciais lhes era entregue, e os xeques e chefes tribais também eram mantidos satisfeitos com presentes. Além disso, havia sido estendida uma rede tão ampla de negócios baseados em juros que os comerciantes e os chefes de todas as tribos vizinhas acabaram envolvidos nela.

Foi nessa situação que, quando o Profeta (S) apresentou o convite ao tawhid, mais do que o fanatismo religioso dos antepassados, o que provocou a exaltação dos coraixitas contra o Profeta foi o fato de considerarem seus interesses ameaçados por esse convite. Eles pensavam que, mesmo que provas e argumentos justos demonstrassem que o shirk e o paganismo eram falsos e que o tawhid era correto, abandoná-los e aceitar o tawhid seria fatal para eles. Se aceitassem o tawhid, toda a Arábia se enfureceria contra eles. Eles seriam privados da administração da Caaba. Todas as relações estabelecidas por tratado com as tribos pagãs seriam rompidas. Graças a essas relações, seus comerciantes viajavam dia e noite por suas diversas regiões. Desse modo, essa nova religião destruiria tanto sua influência e prestígio religiosos quanto sua prosperidade econômica. Além disso, não seria impossível que todas as tribos árabes os obrigassem até mesmo a deixar Meca.

Aqui se revela aos olhos das pessoas um quadro espantoso da falta de visão dos adoradores do mundo. O Mensageiro de Allah (S) assegurava repetidamente: “Se aceitardes a profissão de fé que vos apresento, a Arábia e as terras não árabes ficarão sob vosso domínio.” Mas eles viam nisso a própria morte. Pensavam que a riqueza, o poder e o prestígio que possuíam acabariam assim que aceitassem esse convite — quanto mais a Arábia e as terras não árabes se submeterem a eles. Temiam que, no instante em que aceitassem essa profissão de fé, se tornariam tão desamparados e destituídos de recursos nesta terra que seriam expulsos dela como o falcão e o corvo arrebatam um pedaço de carne, sem encontrar refúgio em lugar algum. A estreiteza de sua visão não lhes permitia enxergar a situação em que, apenas alguns anos depois, toda a Arábia estaria prestes a ficar sob um governo central, sob a autoridade de Muhammad (S). Depois, ainda durante a vida daquele homem, o Irã, o Iraque, a Síria e o Egito estariam, um após outro, sob o domínio desse reino; e, antes que se passasse um século, representantes dos coraixitas governariam uma vasta parte do mundo, do Sindh à Espanha e do Cáucaso até o litoral do Iêmen.

Em resposta à sua objeção, o Alcorão

Vejam quão poderosa foi a resposta que o Alcorão Majid deu, na Surata Al-Qasas, a todas essas desculpas e objeções deles:

(Árabe***************)

—Não lhes demos Nós como morada um santuário inviolável e seguro, para onde são trazidos frutos de toda espécie como provisão da Nossa parte? Mas a maioria deles não sabe. (Al-Qasas: 57)

Esta é a primeira resposta de Allah Todo-Poderoso às suas desculpas. O significado é: será que a importação de mercadorias de todo o mundo para este vale árido, graças à completa segurança do santuário e à sua posição central, ocorreu como resultado de algum esforço ou planejamento vosso? Há dois mil e quinhentos anos, um servo de Allah trouxe sua esposa e seu filho de peito para este vale sem água, vegetação ou erva, situado entre montanhas rochosas. Empilhando pedras umas sobre as outras, construiu um pequeno aposento e proclamou em voz alta: “Allah fez deste lugar um santuário inviolável. Vinde a esta Casa e circundai-a.”

O que poderia ser, então, além da bênção concedida por Allah, que este lugar tenha permanecido durante vinte e cinco séculos como o centro da Arábia? Mesmo em meio a um ambiente de terrível insegurança, este é o único lugar do país onde há segurança. Toda criança árabe o contempla com reverência. Todos os anos, milhares de pessoas vêm circundá-lo. O benefício desta dádiva é que vos tornastes os líderes dos árabes e tendes em vossas mãos uma grande parte do comércio do mundo. Julgais que, afastando-vos d’Aquele que vos concedeu esta dádiva e rebelando-vos contra Ele, ascendereis aos mais altos cumes do progresso, mas sereis destruídos simplesmente por seguirdes a Sua religião? Em seguida, foi dito:

(Árabe******************)

—E quantas cidades destruímos cujos habitantes se ensoberbeciam enormemente com seus meios de vida! Observa agora suas casas, vazias, nas quais poucos viveram depois deles. E Nós fomos, por fim, os seus herdeiros.” (Al-Qasas: 58)

Esta foi a segunda resposta às suas desculpas e objeções. O significado é: toda a riqueza e prosperidade das quais vos orgulhais e por cujo temor de perderdes quereis estreitar relações com a falsidade e afastar-vos do caminho da verdade foram, em certa época, também alcançadas pelo povo de ‘Ad, de Thamud, de Sabá, de Madian e pelo povo de Lot. Isso acaso os pôde salvar da destruição? Na realidade, a melhoria do padrão de vida não é um objetivo tal que o homem, indiferente ao certo e ao falso, se dedique exclusivamente a persegui-la e se recuse a aceitar o caminho da verdade por temer perder esse objetivo. Tendes alguma garantia de que escapareis, persistindo na heresia e na imoralidade que destruíram as nações prósperas do passado? Não tereis o mesmo destino que elas? Em seguida, é dito:

(Árabe***************)

—E teu Senhor jamais destruiu as cidades antes de enviar, em sua metrópole, um Mensageiro que lhes recitasse os Nossos versículos. E jamais destruímos as cidades enquanto seus habitantes não fossem injustos. (Al-Qasas: 59)

Esta foi a terceira resposta à desculpa deles. Os povos que foram destruídos anteriormente eram injustos, mas Deus enviou-lhes o Seu Mensageiro e os advertiu antes de destruí-los. Mesmo depois de terem sido advertidos, quando não abandonaram o seu desvio, foram destruídos. Agora vocês se encontram na mesma situação: também se tornaram injustos. Um Mensageiro já veio para adverti-los. Portanto, ao adotarem a incredulidade e o ateísmo, vocês não poderão preservar seu conforto e sua prosperidade; pelo contrário, acabarão por colocá-los em perigo. A destruição que vocês temem não ocorrerá por causa da fé, mas por causa da rejeição. Em seguida, foi dito:

(Árabe***************)

—Tudo quanto vos foi dado não passa de provisão e ornamento da vida mundana. E o que está junto de Allah é melhor e mais duradouro do que isso. Então, não raciocinais? Pode acaso ser semelhante àquele a quem prometemos algo que certamente obterá, aquele a quem concedemos apenas os bens da vida mundana e que, no Dia da Ressurreição, será apresentado para o castigo? (Al-Qasas: 60–61)

Esta é a quarta resposta à desculpa deles. Para compreender esta resposta, é preciso primeiro assimilar duas coisas.

A primeira é que a duração da vida mundana não passa de alguns anos. É apenas uma etapa temporária de uma viagem. A verdadeira vida eterna virá no futuro. Por mais bens que uma pessoa acumule na vida presente e por mais que viva em conforto e prazeres, tudo isso certamente terminará, e todos os bens deste mundo terão de ser deixados aqui. Em comparação com esses prazeres, uma pessoa sensata estará disposta a suportar alguns anos de dificuldades e tribulações neste mundo, para partir dele tendo adquirido boas ações que se tornarão a causa de sua permanência na vida eterna que virá.

A segunda coisa é que a religião de Allah não exige das pessoas que não tirem nenhum proveito dos bens desta vida mundana, nem que rejeitem sem motivo, com aversão, seus adornos. Ela exige apenas que deem preferência à Outra Vida em relação ao mundo. Isso porque o mundo é perecível, enquanto a Outra Vida é eterna. Os prazeres mundanos são inferiores, ao passo que a felicidade e a paz da Outra Vida são superiores. Por isso, as pessoas devem obter os bens e os adornos deste mundo que lhes proporcionem sucesso na vida eterna da Outra Vida, ou, pelo menos, que não as exponham à perda permanente nela. Porém, se surgir uma questão de competição entre ambos — isto é, se o sucesso mundano e o sucesso na Outra Vida se tornarem rivais um do outro —, então a pessoa sacrificará o mundo pela Outra Vida e jamais escolherá, por causa dos prazeres temporários deste mundo, um caminho cujo resultado seja ruim para ela por toda a eternidade.

Tendo essas duas coisas em mente, vejam o que Allah está dizendo nos versículos acima. Ele não está dizendo: abandonem os negócios e o comércio, encerrem suas atividades e aceitem a pobreza por seguirem o nosso Profeta. Pelo contrário, está dizendo: os bens mundanos nos quais vocês estão imersos são muito poucos, e deles podem usufruir nesta vida por um curto período. Em contraste, o que está junto de Allah é superior a isso em qualidade e quantidade, além de ser eterno. Portanto, serão tolos se, para desfrutar as bênçãos limitadas desta vida temporária, adotarem uma conduta cujo resultado terão de suportar como uma perda eterna na Outra Vida. Comparem vocês mesmos: quem é o bem-sucedido — aquele que obedece ao seu Senhor com árduo trabalho e esforço extremo e depois é agraciado para sempre com Suas bênçãos, ou aquele que será preso como criminoso e apresentado perante o tribunal de Deus, ainda que, antes de ser preso, tenha tido a oportunidade de desfrutar por alguns dias de riquezas obtidas por meios ilícitos? Por fim, foi dito:

(Árabe*************)

—E (para que não se esqueçam) do dia em que Ele os chamará e dirá: “Onde estão os Meus associados que vocês supunham?” (Al-Qasas: 63)

Isso também foi dito no contexto desta quarta resposta. Está relacionado com a frase final do versículo acima. Nela é dito que eles insistiram em permanecer no desvio do politeísmo, da idolatria e da negação da profecia, apenas por causa dos seus próprios interesses mundanos; mas terão de ver, na vida eterna da Outra Vida, quão terríveis serão as consequências disso. O objetivo é despertar neles este sentimento: suponhamos que nenhum infortúnio lhes sobrevenha no mundo e que vocês desfrutem intensamente da breve vida daqui; ainda assim, se na Outra Vida o resultado for desse tipo, pensem por si mesmos: o negócio que estão fazendo é um negócio lucrativo ou uma perda absoluta? (11)

 

Segundo parágrafo

Convite à fé na missão profética de Muhammad

O segundo tema importante do convite islâmico era reconhecer Allah, Uno e sem associados, como o único digno de adoração, o único Governante e o detentor da soberania e da autoridade; e, depois, aceitar também que o Mensageiro é o único profeta confiável por meio de quem Allah concede orientação à humanidade, transmite mandamentos e determinações, ensina os métodos de adoração, ensina as crenças corretas e instrui sobre a diferença entre os princípios corretos e equivocados das ações e da conduta moral. Além disso, Ele envia as leis que as pessoas devem seguir e imitar em todos os aspectos de suas vidas. Por isso, depois de crerem na unicidade de Allah, é indispensável que as pessoas creiam na missão do Mensageiro, reconheçam-no como o único representante da vontade de Allah e, abandonando a obediência a todos os demais, obedeçam somente a ele. Devem abandonar todas as outras formas de obediência e seguir os mandamentos e a orientação que o Mensageiro transmite da parte do Deus único que o enviou. Assim, a crença nessa missão profética dava forma concreta à grande revolução que o Islã pretendia realizar na vida humana ao fazer as pessoas reconhecerem a unicidade de Allah. Pois, depois de aceitar a unicidade, quando a pessoa se convence de que deve adorar e servir somente a Allah e seguir somente a Sua orientação, surge a pergunta: como poderá concretizar essa crença? Como saberá qual é o método correto de adorar e servir a Allah e qual é a orientação d’Ele que agora deve seguir? O Alcorão afirma que, desde sempre, o método foi este: Allah escolhe um de Seus servos como Seu Mensageiro e concede-lhe o conhecimento de tudo aquilo cuja prática corresponde à Sua vontade. Não existe outro método prático de servi-Lo senão aceitar a missão do Mensageiro e imitá-lo e segui-lo. Desse modo, a humanidade, dividida entre diversas crenças e correntes de pensamento, superstições e concepções, religiões e credos, costumes e tradições, e a servidão e obediência a vários falsos deuses, une-se em torno de um único centro; e estabelece-se na prática aquela religião sobre a qual reunir e unificar a humanidade é o objetivo do convite islâmico.

Se examinarmos, na ordem abaixo, os ensinamentos do Alcorão Sagrado sobre este assunto, poderemos compreendê-lo plenamente.

Anúncio do envio de profetas no início da criação

A primeira coisa que o Alcorão diz sobre a profecia é que, desde o início da humanidade na Terra, os filhos de Adão foram advertidos de que deveriam obedecer à orientação que lhes seria enviada por meio dos mensageiros.

(Árabe**************)

— Ó filhos de Adão! Se vier até vós um mensageiro dentre vós mesmos (isto é, dentre os seres humanos), que vos recite os Meus versículos, então, quem se mantiver afastado da desobediência e corrigir a sua conduta não terá motivo para temer nem para se entristecer. E aqueles que rejeitarem os Nossos versículos e se rebelarem contra eles serão habitantes do Inferno, onde permanecerão eternamente. (Al-A‘raf: 35-36)

O sucesso ou a perdição das pessoas depende de aceitarem ou não os mensageiros

É isso que foi dito nos versículos 38-39 da surata Al-Baqarah e nos versículos 123-124 da surata Ta-Ha, onde se menciona o envio de Adão e Eva, que a paz esteja com ambos, à Terra. Aqui não foi apenas dada a informação de que mensageiros seriam enviados para orientar a humanidade; também foi proferida a advertência de que o sucesso ou a perdição das pessoas depende de aceitarem ou não a orientação dos mensageiros e adotarem o caminho do temor a Deus e da correção. Caso não o façam, sofrerão punição neste mundo e também o castigo do Inferno. De fato, em diversas passagens, afirma-se que a razão pela qual diferentes povos foram castigados neste mundo foi terem recusado aceitar as palavras dos mensageiros que vieram até eles, como, por exemplo:

(Árabe*****************)

— E eles não viajaram pela Terra para que pudessem ver qual foi o fim daqueles que viveram antes deles? Eles eram mais poderosos do que estes (os coraixitas) e deixaram na Terra vestígios muito mais grandiosos. Então, Allah os puniu por seus pecados, e não houve ninguém que pudesse protegê-los de Allah. Esse foi o destino deles porque os mensageiros vieram até eles com sinais claros, mas eles se recusaram a aceitá-los. Por fim, Allah os puniu. Certamente, Ele é Poderosíssimo e extremamente severo ao castigar.

Palavras de natureza quase idêntica também foram ditas nos versículos 25-16 da surata Fátir e nos versículos 5-6 da surata At-Taghabun. O Alcorão está repleto das histórias de povos que rejeitaram os mensageiros de seu tempo e, por fim, enfrentaram a punição ainda neste mundo.

Depois, a respeito da Vida Futura, foi dito que ali a prova de Allah contra os seres humanos se baseará no fato de que, enviando Mensageiros até eles, a diferença entre a verdade e a falsidade e o caminho verdadeiro e reto lhes foram claramente explicados. Apesar disso, eles não os aceitaram nem obedeceram a eles. Por isso, agora são merecedores do castigo.

(Árabe*************)

— Ó Muhammad! Nós te enviamos a revelação do mesmo modo como a enviamos a Noé e aos profetas que vieram depois dele; e enviamos esses Mensageiros como portadores de boas-novas e admoestadores, para que, depois de seu envio, as pessoas não tivessem nenhum argumento contra Allah. (An-Nissá: 123–124)

Em outras palavras, a tarefa desses profetas era anunciar boas-novas de sucesso e felicidade àqueles que tinham acreditado nos ensinamentos trazidos por eles e, de acordo com isso, purificado seus pensamentos e suas ações. E advertiram sobre um destino terrível aqueles que não haviam acreditado e não tinham abandonado os caminhos desviados do pensamento e da ação. O objetivo do envio desses profetas era que Allah, por meio deles, esclarecesse o caminho da verdade e completasse Sua prova contra a humanidade, para que, na corte da Vida Futura, nenhum incrédulo ou criminoso pudesse alegar que não havia sido adotada nenhuma medida para lhes revelar a verdade real e que agora estavam sendo capturados enquanto permaneciam desinformados.

Ao mencionar a Vida Futura, o Alcorão emite o alerta de que todas as obras daqueles que negam e se opõem à missão profética serão destruídas ali mesmo, embora eles as considerassem boas. Então, quando forem lançados no Inferno, lhes será dito: “Por meio dos Mensageiros, todas as provas, argumentos e evidências foram plenamente estabelecidos para vós. Por isso, agora sofreis o castigo e, na realidade, sois merecedores precisamente desse castigo.”

(Árabe*****************)

— Aqueles que se recusaram a aceitar [isto é, recusaram-se a aceitar o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e os ensinamentos por ele trazidos — autor] e impediram as pessoas do caminho de Allah [originalmente foi usada a expressão ‘saddū ʿan sabīlillāh’. A palavra ‘sadd’ é usada na língua árabe tanto no sentido transitivo quanto no intransitivo. Por isso, esta frase também significa que eles próprios se abstêm de seguir o caminho de Allah. Também pode significar que impedem outros de chegar a esse caminho. Há várias formas de impedir alguém. Primeiro, uma pessoa impede outra à força de aceitar a fé. Segundo, inflige tamanha opressão e perseguição ao crente que ele encontra dificuldade para permanecer firme em sua fé, e outros também têm dificuldade para crer em uma situação tão assustadora. Terceiro, eles incitam as pessoas contra a religião de Allah e contra o Mensageiro que a apresenta, lançando em seus corações tais sugestões e dúvidas que, desorientadas, elas se abstêm de seguir o caminho de Allah. Além disso, toda sociedade incrédula constitui uma grande força de obstrução ao caminho de Allah, pois, por meio de sua educação, cultura, estrutura social, costumes e fanatismo religioso, cria fortes obstáculos à expansão da religião da verdade — autor] e travaram disputa com o Mensageiro, embora o caminho da verdade já lhes tivesse ficado claro, não poderão causar dano algum a Allah. Ao contrário, Allah destruirá todas as suas obras. (Muhammad: 32)

Nessa situação, Allah, o Altíssimo, lhes perguntará:

(Árabe******************)

—Ó grupos de jinns e seres humanos! Não vos chegou, dentre vós mesmos, um Mensageiro que vos recitava os Meus versículos e vos advertia sobre o desfecho deste Dia? Eles dirão: “Nós testemunhamos contra nós mesmos.”

A vida terrena os havia enganado. Porém, na Derradeira Vida, testemunharão contra si mesmos que eram incrédulos. Esse testemunho será tomado deles para que se prove que vosso Senhor não destruiu as cidades injustamente, enquanto seus habitantes desconheciam a verdade. (Al-An’am: 130–191)

(Árabe**********************)

—Sempre que um grupo de pessoas for lançado nela, seus guardiões dirão: “Acaso não vos chegou nenhum admoestador?” [O sentido dessa pergunta não será que os guardiões do Inferno quererão perguntar-lhes se algum admoestador lhes havia chegado ou não. Pelo contrário, o objetivo da pergunta será fazê-los compreender que não houve injustiça contra eles ao serem lançados no Inferno. Por isso, quererão fazê-los reconhecer com a própria boca que Allah não os deixou desinformados; um profeta lhes havia sido enviado. Mas eles não deram ouvidos às palavras dos profetas. Portanto, são merecedores do castigo que lhes está sendo infligido. — Nota do autor.] Eles dirão: “Sim, um admoestador nos chegou, mas nós o rejeitamos e dissemos: ‘Allah nada revelou, e vós estais em grande erro.’” Então dirão: “Ai de nós! Se tivéssemos escutado e agido com inteligência, não teríamos de sofrer o castigo deste fogo ardente.” Assim, reconhecerão seus pecados. Que a maldição recaia sobre os habitantes do Inferno! (Al-Mulk: 8–10)

Uma afirmação semelhante a esta foi feita nos versículos 71–72 da surata Az-Zumar. Isso deixa claro que, no Islã, a importância da missão profética é tão grande que a felicidade ou a infelicidade do ser humano, desde a vida terrena até a Derradeira Vida, depende de aceitá-la ou rejeitá-la.

Sa

Profetas foram enviados a todas as nações, e sua mensagem era a mesma

O Alcorão também afirma que, desde o início da humanidade, profetas continuaram a ser enviados a todas as nações. A religião de todos eles era uma só. O convite de todos eles também era um só. O objetivo da vinda de todos eles também era um só. A reivindicação de todos eles era que as pessoas se abstivessem da desobediência a Allah e Lhe obedecessem.

(Árabe**************)

-Não houve comunidade alguma à qual não tivesse vindo um admoestador. (Fáter: 24)

(Árabe**************)

Para cada nação houve um guia. (Ra‘d: 17)

(Árabe************)

-Não destruímos povoado algum sem que lhe tivesse vindo um admoestador. (Chუ‘ará: 208)

(Árabe***************)

Enviámos a cada povo um Mensageiro (para transmitir este convite): “Adorai a Allah e afastai-vos da adoração do Taghut.” (An-Nahl: 36)

Sobre cada profeta, desde o Profeta Noé até ao Profeta Jesus, foi dito que cada um deles transmitiu ao seu povo esta mensagem:(Árabe*********)—Temei Allah e obedecei-me. (Ver Al ‘Imran: 50; Ash-Shu‘ara: 108, 110, 126, 131, 141, 150, 163, 171; Az-Zukhruf: 63; Nuh: 3)

O propósito da vinda dos profetas

Em seguida, é dito que o propósito da vinda de todos os profetas era este:

(Árabe*************)

—Enviámos os Nossos profetas com sinais claros e, com eles, fizemos descer o Livro e a Balança, para que as pessoas possam estabelecer-se na justiça. (Al-Hadid: 25)

Estabelecer-se na justiça significa agir com justiça para consigo mesmo, para com Allah e para com cada pessoa com quem se possa ter alguma relação. Significa justiça na própria sociedade, em todas as transações, na própria civilização e cultura, na política e no sistema de governo, nos tribunais e nas relações internacionais. Em suma, estabelecer a justiça em todos os aspectos, individual e coletivamente, em cada setor e dimensão da vida, foi o propósito do envio de todos os profetas.

A missão profética de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz

Tendo como pano de fundo a história da profecia e da missão dos mensageiros, bem como sua autenticidade, foi dito primeiro aos coraixitas, depois aos árabes e, em seguida, ao mundo inteiro, que Muhammad (S.A.) fazia parte dos mesmos Mensageiros que haviam sido enviados antes dele. Ele trouxe uma religião que era a religião de todos os profetas desde o início da humanidade. O Profeta Muhammad (S.A.) veio para purificar essa religião de todas as misturas e distorções e apresentá-la em sua forma verdadeira e genuína. Agora, a religião de Allah, Sua sharia, Suas leis e Seus mandamentos são apresentados pelo Profeta (S.A.) não de sua própria parte, mas com base na revelação enviada por Allah. Obedecer-lhe é obedecer a Allah, e desobedecer-lhe é desobedecer a Allah. Portanto, não basta que as pessoas creiam apenas que ele é o Mensageiro de Allah. Depois de crer, devem abandonar a obediência a todos os demais e obedecer-lhe sem hesitação. Pois afastar-se de sua orientação significa afastar-se da obediência ao próprio Allah, que o enviou ao mundo como Mensageiro.

Antes da chegada do Profeta (S.A.), os árabes aguardavam a vinda de um profeta.

É digno de nota que, observando o estado moral degenerado e as más ações dos cristãos, judeus e seguidores de outras religiões que os cercavam, os árabes diziam espontaneamente: “Se aquilo que havia sido concedido a essas nações viesse até nós — isto é, a missão profética e a orientação enviada por Allah —, nós demonstraríamos ser melhores e mais desenvolvidos do que todas elas.”

Isso foi proclamado no Alcorão, mas não havia ninguém que o negasse.

(Árabe**************)

Essas pessoas (os coraixitas e os árabes) costumavam jurar solenemente que, se algum admoestador (isto é, um Mensageiro) viesse até elas, seriam mais guiadas do que as demais nações do mundo. Porém, quando o admoestador chegou até elas, sua chegada não fez senão aumentar sua fuga da religião verdadeira. Começaram a demonstrar ainda mais orgulho e arrogância no mundo e a adotar as piores artimanhas para atormentá-lo. Contudo, as artimanhas daqueles que as empregam acabam destruindo apenas a eles mesmos. (Fátir: 42–43)

(Árabe****************)

Antes, essas pessoas diziam: “Ah, se tivéssemos entre nós aquela Mensagem (a mensagem dos conselhos de Allah) que as nações passadas receberam, seríamos servos sinceros de Allah.” Mas, quando ela chegou, negaram-na imediatamente. Em breve saberão qual será o resultado disso. (As-Saffat: 167–170)

Disto se soube que a chegada do Mensageiro era o desejo ardente deles. Mas, quando essa bênção chegou até eles, começaram a opor-se, a demonstrar teimosia e obstinação.

O Profeta (S.A.) faz parte dos profetas, e a fonte de seu conhecimento é a mesma revelação que foi concedida a todos os profetas.

À luz dessa verdade, vejam como o Alcorão apresentou a missão profética do Profeta e que posição lhe conferiu—

(Árabe************)

—Pelo Alcorão Sábio, ó Muhammad, certamente estás entre os Mensageiros, sobre um caminho reto. Isto é: estás entre os Mensageiros, e a prova evidente de tua missão profética é que apresentas este Alcorão repleto de sabedoria. (Yasin: 1–4)

(Árabe****************)

—E assim revelamos a ti, ó Muhammad, este Alcorão árabe, para que advirtas a mãe das cidades (Meca) e os que se encontram ao seu redor. (Ash-Shura: 7)

(Árabe***************)

Ó Muhammad, dize: Ó humanidade! Sou o Mensageiro enviado por Deus para todos vós — Deus, que possui o reino dos céus e da terra. (Al-A‘raf: 158)

(Árabe*****************)

Bendito seja Aquele que revelou este Alcorão (o diferenciador entre a verdade e a falsidade) a Seu servo, para que advirta os habitantes do mundo. (Al-Furqan: 1)

(Árabe****************)

Ó Muhammad! Enviámos-te a revelação tal como a enviámos a Noé e aos que vieram depois dele, e tal como a enviámos a Abraão, Ismael, Isaque, Jacó e aos descendentes de Jacó, e a Jesus, Jó, Jonas, Aarão e Salomão; e concedemos a Davi os Salmos. (An-Nisa: 63)

O propósito do envio do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele)

Já dissemos anteriormente que (Surata Al-Hadid, versículo 25) o propósito do seu envio era o mesmo que o propósito do envio de todos os profetas. Contudo, no Nobre Alcorão, o propósito de nomeá-lo especificamente como Mensageiro foi exposto em detalhe aos coraixitas e aos árabes. Citamo-lo em sequência.

Sua profecia é eterna e universal

Ele não foi enviado para uma nação específica, nem apenas para todas as pessoas de sua época; ao contrário, é Mensageiro para toda a humanidade até o Dia da Ressurreição — todos aqueles a quem sua mensagem chegar.

(Árabe**************)

—e este Alcorão foi enviado a mim por meio da revelação para que eu advirta vocês e todos aqueles a quem ele chegar. (Al-An’am: 19)

Ele apresenta a religião verdadeira e pura, livre de toda distorção

Ele não veio para refutar os ensinamentos trazidos pelos profetas anteriores; ao contrário, veio para confirmar sua veracidade. Foi-lhe confiada a responsabilidade de remover as misturas que posteriormente haviam sido introduzidas nos ensinamentos dos profetas anteriores e apresentar, em sua forma pura, aquela verdadeira religião que era a mesma religião da verdade que Deus havia determinado para a humanidade desde o início da criação.

Que ele não veio para refutar os ensinamentos dos profetas anteriores, mas para confirmar sua veracidade, foi declarado em diversos lugares do Alcorão. Por exemplo:

(Árabe*************)

—Ao contrário, ele veio com a verdade e confirma a veracidade de todos os profetas enviados por Deus. (As-Saffat: 37)

(Árabe*************)

—E este Alcorão não é algo que possa ser composto por iniciativa própria, sem a revelação de Deus. Pelo contrário, ele confirma a veracidade de tudo quanto veio anteriormente e apresenta uma explicação detalhada do Livro (cada livro vindo da parte de Deus). Não há dúvida de que ele provém do Senhor dos mundos. (Yunus: 37)

O significado de “explicação detalhada do Livro” é que o resumo de todos aqueles ensinamentos fundamentais e orientações que vieram inicialmente por meio dos Livros de Deus foi incorporado a este Livro. Pelo contrário, nele tudo isso foi exposto de maneira ainda mais detalhada. O Alcorão Majid também afirma em vários lugares que aqueles que se tornaram herdeiros dos Livros anteriores introduziram, por iniciativa própria, muitas alterações e acréscimos. Por isso, uma das funções do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) é declarar separadamente como proibido aquilo que é verdadeiramente proibido na lei de Deus e como permitido aquilo que é verdadeiramente permitido.

(Árabe*************)

—Portanto, a ruína será daqueles que escrevem um Livro com as próprias mãos e depois dizem: “Isto vem da parte de Deus.” (Al-Baqarah: 79)

(Árabe*****************)

—Entre eles há alguns que, ao recitarem o Livro, torcem a língua de tal maneira que vocês pensem que aquilo que estão recitando é o texto original do Livro. Contudo, não é o texto original do Livro. Eles dizem: “Isto vem da parte de Deus.” Contudo, não vem da parte de Deus. Eles atribuem conscientemente uma mentira a Deus. (Al Imran: 78)

Com base nisso, foi atribuída ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) a responsabilidade de apresentar os ensinamentos da religião verdadeira e pura, livre de toda adulteração. E deverá considerar proibido tudo aquilo que nela é proibido, e permitido tudo aquilo que nela é permitido.

(Árabe*************)

—Aqueles dentre o Povo do Livro e os politeístas que eram incrédulos não estavam dispostos a abandonar a sua incredulidade até que lhes chegasse uma prova clara: um Mensageiro da parte de Allah, que lhes recitasse páginas purificadas, livres de toda adulteração, nas quais estivesse escrito o discurso absolutamente verdadeiro e correto. (Al-Bayyinah: 1–3)

(Árabe******************)

—Este Profeta ummī ordena-lhes que pratiquem o bem e proíbe-lhes a prática do mal; torna lícitas para eles as coisas puras e ilícitas as coisas impuras (isto é, revoga os lícitos e ilícitos que eles haviam estabelecido por vontade própria); alivia-lhes o fardo e liberta-os dos grilhões que lhes haviam sido impostos. (Al-A‘raf: 157)

Explicação dos mandamentos divinos por meio das palavras e ações, e purificação da alma

A responsabilidade do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) não consistia apenas em transmitir às pessoas o conhecimento que lhe era concedido por Allah por meio da revelação. Cabia-lhe também, de acordo com o significado dos diversos mandamentos e decretos que lhe haviam sido comunicados pelo próprio Allah, explicar, por suas palavras e ações, as crenças, os preceitos, as orientações, as leis e as normas da religião; e, com base nisso, purificar e organizar, por meio da educação e formação, o modo de vida corrompido das pessoas.

—Cabe a Nós fazer-te recordar este Alcorão e fazer-te recitá-lo. Portanto, ó Profeta, quando o recitarmos, acompanha a sua recitação. Depois, cabe também a Nós explicar-te o seu significado. (Al-Qiyamah: 17–29)

(Árabe***************)

—E fizemos descer sobre ti, ó Profeta, esta Recordação (isto é, o Alcorão), para que continues a explicar às pessoas o ensinamento que lhes foi revelado. (Naml: 44) [Por meio desta ordem, Allah, o Altíssimo, descreve uma política cuja exigência inevitável era que, juntamente com a Recordação, fosse enviado um ser humano como profeta. A Recordação poderia ter sido enviada por meio dos anjos, e não estava além do poder de Allah fazê-la chegar diretamente às pessoas, até mesmo por meio de uma impressão. Mas, desse modo, o verdadeiro objetivo não poderia ser alcançado. Para alcançar esse objetivo, era necessário que a trouxesse a pessoa mais qualificada; que explicasse aquilo que alguém não conseguisse compreender; que removesse qualquer dúvida ou hesitação que surgisse no coração de alguém; e que respondesse a qualquer objeção ou reclamação. Com aqueles que não aceitassem, se opusessem e criassem obstáculos, ele deveria agir de modo apropriado àquele que trazia a Recordação. E aos que a aceitassem, deveria oferecer orientação acerca de cada setor e aspecto da vida, apresentar a própria vida como modelo diante deles e, depois de educá-los, demonstrar diante do mundo inteiro a formação de uma sociedade ideal, cujo sistema integral seria o reflexo da vontade desta Recordação. —Nota do autor da obra]

(Árabe*************)

—Ele é Allah, que suscitou entre os iletrados um Mensageiro dentre eles mesmos, o qual lhes recita os Seus versículos, purifica as suas vidas e lhes ensina o Livro e a sabedoria, embora antes disso estivessem mergulhados em evidente extravio. (Jumu’a: 2)

(Árabe****************)

—Ele é Allah, que fez descer sobre o Seu servo (Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz) versículos claros, para que vos tire das trevas para a luz. (Hadid: 9)

Fazer com que a religião da verdade prevaleça sobre todo o sistema de vida

O objetivo final da vinda do Profeta Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) é fazer prevalecer sobre todas as formas de obediência e sobre todos os métodos e sistemas de vida a religião e a orientação que ele trouxe da parte de Deus. Esse objetivo é explicado em três lugares do Alcorão. Nas suratas At-Tawbah e As-Saff, é dito:

—Ele é Allah, que enviou o Seu Mensageiro com a orientação e a religião da verdade, para fazê-la prevalecer sobre toda espécie de religião ou sistema de vida. [Nos dois versículos foi usada a palavra ‘ad-dīn’, cuja tradução fizemos como ‘religião de todas as nações’. Na língua árabe, a palavra dīn é usada para designar o sistema ou método de vida cujos fundadores são reconhecidos como autoridades e detentores do direito à obediência, e a eles se presta obediência. Portanto, o objetivo da vinda do Mensageiro, conforme declarado neste versículo, é que a orientação e a religião da verdade que o Mensageiro trouxe da parte de Deus façam-se prevalecer sobre todos os métodos e sistemas que se enquadram na categoria de religião. Em outras palavras, o Mensageiro não veio para que o sistema de vida vigente, que reconhece outros além de Allah como autoridades e detentores do direito à obediência, fosse superior à religião trazida por ele, nem para que esta se submetesse àquele e se contentasse com as oportunidades e benefícios que lhe fossem concedidos. Pelo contrário, o Mensageiro é o representante do Rei do mundo e dos céus e, por isso, deseja fazer prevalecer o verdadeiro sistema do seu Rei sobre todos os métodos e sistemas. Se qualquer outro sistema permanecer no mundo, terá de permanecer sob o sistema divino, contentando-se com as oportunidades e benefícios que este lhe conceder. Assim, mediante o pagamento da jizya, os dhimmis podem seguir o seu sistema de vida. —Nota do autor da obra]

por mais insuportável que isso seja para os politeístas. (At-Tawbah: 33; As-Saff: 18)

A ordem de crer no Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e obedecer-lhe

Tendo esse objetivo em mente, foi ordenado às pessoas que cressem nele, que lhe obedecessem e que deixassem de obedecer àqueles que são negligentes para com Allah e transgridem os limites da obediência.

(Árabe**************)(

— Portanto, crede em Allah, em Seu Mensageiro e na Luz que Nós revelamos. E Allah está ciente de tudo quanto fazeis. (At-Taghabun: 8)

(Árabe***************)

— Portanto, crede em Allah e em Seu Profeta iletrado, enviado por Ele, que crê em Allah e em Suas palavras, e obedecei-lhe, para que encontreis o caminho verdadeiro e correto. (Al-A’raf: 158)

(Árabe************)

-Segui a orientação que foi enviada a vós da parte de vosso Senhor e não obedeçais a outros protetores além d’Ele. [Isto é, para tudo aquilo de que necessitais para viver neste mundo — a orientação necessária para compreender os mistérios de vós mesmos e do universo criado, e o conhecimento necessário para compreender o propósito de vossa existência; os princípios de que dependeis para estabelecer vossa religião, moralidade, cultura, vida social e civilização sobre bases corretas — deveis seguir somente a orientação que Allah enviou por meio de Seu Mensageiro. Abandonar a orientação revelada por Allah, buscar outra orientação e submeter-se à sua obediência é, para os seres humanos, essencialmente um método errado, cujo resultado sempre assumiu e sempre assumirá a forma da destruição. Aqui, a palavra awliyā (protetores) foi empregada no sentido de que aquele a quem uma pessoa segue, na realidade, ela transforma em seu walī ou protetor. — Nota do autor]

(Árabe*******************)

-Enviamos os Mensageiros para que, por ordem de Allah, lhes obedeçais. (An-Nisā’: 64) [Isto é, o Mensageiro não veio da parte de Allah para que simplesmente acreditásseis em sua missão e depois obedecêsseis a quem quisésseis. Pelo contrário, o propósito da vinda do Mensageiro é que, dentre todas as leis, se siga exclusivamente a lei que ele trouxe para a vida. A ordem que ele transmite da parte de Allah deve ser obedecida, abandonando-se todas as demais ordens. Se alguém não fizer isso, não há sentido em reconhecê-lo como Mensageiro. — Nota do autor]

(Árabe****************)

-Quem obedece ao Mensageiro, na realidade, obedece a Allah. (An-Nisā’: 80)

(Árabe***************)

-Aceitai o que o Mensageiro vos dá e afastai-vos daquilo de que ele vos proíbe. (Al-Hashr: 7)

(Árabe****************)

—E quem obedece a Allah e ao Mensageiro, teme a Allah e se mantém afastado da desobediência a Ele, esses são os bem-sucedidos. (An-Nur: 52)

(Árabe***************)

—Nenhum homem ou mulher crente tem o direito de, quando Allah e Seu Mensageiro decidem algo, ainda assim ter o direito de tomar pessoalmente qualquer outra decisão a respeito de si mesmo. Aqueles que desobedeceram a Allah e ao Mensageiro mergulharam num erro evidente. (Al-Ahzab: 36)

(Árabe*************)

—E não obedeças a nenhuma pessoa cujo coração afastamos da Nossa recordação, que segue seus próprios desejos e cujo modo de agir transgride os limites. (Al-Kahf: 28)

(Árabe****************)

—E não obedeçais àqueles desenfreados que espalham a corrupção na terra e não promovem nenhuma reforma ou correção. [Isto é, evitai obedecer àqueles vossos emires, notáveis da sociedade, líderes e governantes sob cuja liderança vigora este vosso sistema de vida equivocado. Eles são transgressores. Ultrapassaram todos os limites da moralidade e tornaram-se desenfreados. Não é possível realizar qualquer reforma por meio deles. No sistema que impuserem, a desordem e a anarquia serão inevitáveis. Se existe algum caminho para o vosso bem-estar, ele é este: criar em vós o temor de Allah e, evitando obedecer aos que espalham a corrupção, obedecer ao Profeta de Allah — (nota do autor).]

(Ash-Shu’ara: 151–152)

(Árabe**************)

-Ó Profeta, dize: Obedecei a Allah e ao Mensageiro. E, se eles se afastarem, que se lembrem de que Allah não aprecia os incrédulos. (Al Imran: 32)

Agora, a lei é somente aquela que Allah transmitiu por meio de Muhammad (que a paz esteja com ele).

Assim, juntamente com a declaração da missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele), bem como com a ordem de segui-lo e imitá-lo, também foi declarado que, a partir de agora, a lei de Deus é aquela que foi transmitida por meio de Muhammad (que a paz esteja com ele). Ninguém tem o direito de divergir disso. Tudo o que se opõe a ela é jahiliyyah e servidão ao taghut. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) é o governante designado por Deus, cuja função é resolver os assuntos das pessoas de acordo com a orientação revelada por Deus.

(Árabe****************)

-Depois (dos Filhos de Israel), ó Profeta, estabelecemos-te sobre uma via clara da religião (a Sharia). Portanto, segue esta via e não sigas os desejos daqueles que não possuem conhecimento. (Al-Jathiya: 18)

(Árabe***************)

-Para cada comunidade, estabelecemos um método de adoração que ela segue. Portanto, ó Muhammad (que a paz esteja com ele), que eles não discutam contigo a esse respeito. Convoca para o caminho do teu Senhor. Certamente, estás no caminho reto. (Al-Hajj: 67)

(Árabe******************)

—Ó Profeta! Nós te revelamos este Livro com a verdade, para que julgues entre as pessoas de acordo com a orientação correta que Allah te mostrou. (An-Nissá: 105)

No Alcorão Sagrado, as normas estabelecidas em vários lugares para a sociedade humana são designadas pelas palavras “os limites de Allah”. Isto é, trata-se de limites dentro dos quais foi ordenado que se permaneça. Além disso, em alguns lugares foi feita uma advertência severa para que nem sequer se aproxime desses limites. Em alguns lugares, é dito que aqueles que os ultrapassam são injustos. Em outros, é dito que aqueles que os ultrapassam cometem injustiça contra si mesmos. E em outros ainda é proclamada esta advertência: para os transgressores dos limites há o fogo do Inferno ou um castigo doloroso. (Ver: Surata Al-Baqarah, versículos 187, 229 e 230; Surata An-Nissá, versículos 13 e 14; Surata Al-Mujadilah, versículo 4; Surata At-Tawbah, versículo 97; e Surata At-Talaq, versículo 1.)

Com isso, fica claro quão grande é a importância das leis dadas à humanidade por meio do Profeta (s.a.w.). Depois, foi feita uma advertência em linguagem clara:

(Árabe***************)

—Será que eles desejam o julgamento da época da ignorância? Mas, para aqueles que têm firme fé em Allah, quem pode oferecer um julgamento melhor do que Allah? (Al-Má’idah: 50)

(Árabe**************)

—Eles desejam recorrer ao Taghut para que julgue os seus assuntos. [Aqui, por Taghut, entende-se claramente o governante que decide de acordo com qualquer lei que não seja a lei de Allah, bem como o sistema judicial que não reconhece a soberania de Allah nem aceita o Livro de Allah e a orientação do Mensageiro como autoridade final — o autor.] No entanto, foi-lhes ordenado que rejeitassem o Taghut. Satanás deseja desviá-los e levá-los para muito longe. (An-Nissá: 60)

No que diz respeito à religião, não há lugar para qualquer compromisso ou flexibilidade.

Juntamente com a ordem clara para obedecer e seguir o Mensageiro, as pessoas foram advertidas de que, no que diz respeito à religião de Deus, não pode haver qualquer compromisso ou flexibilidade. Não pode haver a menor alteração, para agradar a quem quer que seja, em nenhuma crença, princípio, prática ou mandamento. Quem quiser aceitar deve seguir integralmente a religião que o Mensageiro de Allah (s.a.) apresentou. E quem não quiser aceitá-la, que não a aceite. Quem a aceitar terá benefício para si próprio, e quem não a aceitar sofrerá o próprio prejuízo. Aqui não se coloca de modo algum a questão de negociação ou de chegar a um entendimento por meio de concessões.

(Árabe*********************)

—Portanto, ó Profeta, jamais cedas sob a pressão daqueles que rejeitam a verdade acusando-a de mentira. Eles querem que tu sejas um pouco flexível, e então também serão flexíveis. (Isto é, se fores um pouco negligente na tarefa de transmitir o Islã, eles também adotarão certa flexibilidade na oposição que te fazem. Em outras palavras, se deres espaço ao seu desvio e fizeres alguma alteração na tua religião, eles chegarão a um compromisso contigo.)

(Árabe********************)

—E quando os Nossos versículos lhes são recitados claramente, aqueles que não esperam encontrar-se Conosco na Outra Vida dizem: “Traz outro Alcorão em vez deste, ou altera-o.” A exposição detalhada acima torna claro quão importante é a segunda etapa do movimento islâmico: obter das pessoas o reconhecimento da missão profética de Muhammad (s.a.) e prepará-las para que lhe obedeçam plenamente em todos os assuntos de cada área da vida, começando pelas crenças e pela adoração. Sua importância reside no fato de que, sem isso, a religião não pode ser efetivamente estabelecida. Sem a fé no Mensageiro e a obediência prática a ele, crer no tawhid é desprovido de sentido. Refletindo, as pessoas podem compreender que aceitar o tawhid de Allah

[Em primeiro lugar, essas declarações dos idólatras baseavam-se na ideia de que aquilo que o Profeta (s.a.) apresentava não provinha de Deus; pelo contrário, era invenção sua. Apresentá-lo como algo atribuído a Deus faria com que suas palavras ganhassem maior importância. Em segundo lugar, o que queriam dizer era: “O que é isso que estás dizendo sobre o tawhid, a Outra Vida e as proibições morais? Se vieste para mostrar o caminho, apresenta algo que beneficie a nação e cuja contribuição para seu progresso mundano possa ser percebida. Ainda assim, se não queres de modo algum mudar esta tua mensagem, pelo menos torna-a um pouco mais fácil e útil, para que possa haver algum entendimento entre nós. Nós aceitaremos algumas coisas tuas, e tu também aceitarás algumas das nossas. Que no teu tawhid haja algum espaço para o nosso shirk; na tua adoração a Deus, algum espaço para a nossa adoração de nós mesmos e para a adoração do mundo; e na tua crença na Outra Vida, algum espaço para algumas das nossas esperanças e aspirações, para que possamos fazer no mundo o que quisermos. Na Outra Vida, de alguma maneira, certamente obteremos a salvação. Além disso, esse teu princípio moral inabalável é inaceitável para nós. Deve haver nele algum espaço para as nossas superstições, para os nossos costumes e tradições, para os nossos interesses pessoais e nacionais e também para os desejos do nosso coração. Não deve acontecer que, entre todas as exigências da religião, se estabeleça um sistema adequado por acordo entre ti e nós, pelo qual cumpramos os direitos de Deus, e depois sejamos deixados livres para conduzir os assuntos mundanos como quisermos. Mas estás cometendo esta crueldade: queres vincular toda a vida e todos os seus aspectos à crença no tawhid e na Outra Vida e às regras e disposições da sharia.” —O autor.]

(Ó Muhammad!) Diz-lhes: “Não tenho o direito de fazer qualquer alteração nele por minha própria iniciativa. Eu apenas sigo a revelação que me é enviada.” (Yunus: 15)

(Árabe******************)

—E proclama: Isto é a verdade proveniente de vosso Senhor; então, quem quiser, que creia, e quem quiser, que não creia. (Al-Kahf: 29)

—Então, quem se guiar, só se guiará para seu próprio bem; e, quanto àquele que se desviar, dize-lhe: sou apenas um admoestador. (An-Naml: 92)

A reação dos coraixitas e dos politeístas árabes à aceitação da missão profética era muito mais difícil do que para os politeístas comuns da Arábia. Primeiro, não era nada fácil para eles aceitar que aquele que havia vivido entre eles durante quarenta anos como uma pessoa comum tivesse sido subitamente nomeado por Allah e que a revelação tivesse começado a chegar até ele. Para aqueles que, durante gerações, estavam acostumados a uma liberdade desenfreada, não era menos difícil obedecer agora absolutamente a um homem e cumprir integralmente, em toda a sua vida, a lei por ele apresentada. Mais difícil ainda era para os chefes que se haviam tornado os senhores absolutos de suas tribos e grupos. Era difícil para os líderes religiosos que haviam estabelecido por todo o país grandes centros de politeísmo e mantinham seus negócios em plena prosperidade. Era difícil para os adivinhos que alegavam ser profetas e a quem as pessoas recorriam para encontrar coisas perdidas e conhecer as condições do futuro. Para cada um deles, a missão profética era uma mensagem clara de morte. Longe de aceitá-la, eles sequer conseguiam ouvi-la com serenidade. Em suma, todos aqueles cujos interesses estavam ligados à manutenção do antigo sistema de ignorância pré-islâmica passaram a temer que, se as pessoas aceitassem a missão profética do Profeta Muhammad e se tornassem obedientes a ele, reconhecendo que tudo o que ele apresentava vinha do Deus dos céus e da terra, suas luzes jamais voltariam a brilhar na sociedade. Por isso, para proteger seus próprios interesses, essas pessoas estavam determinadas a não permitir de modo algum que o chamado à missão profética prosseguisse. Pois compreendiam que, se o povo aceitasse seguir o guia designado por Allah e obedecer à religião e à lei reveladas por Allah, no fim também teriam de depor as armas e, em vez de exercer a liderança, permanecer obedientes.

De um lado, havia essas dificuldades; de outro, havia para eles uma dificuldade terrível: entre eles havia surgido, reivindicando a missão profética, um homem que era o melhor de sua nação, cuja superioridade moral era reconhecida por todo o povo. Cinco anos antes, toda a nação, por unanimidade, lhe havia conferido o título de “Al-Amîn”. Antes de apresentar sua reivindicação de missão profética, ele subiu ao monte Safa e disse-lhes: se eu vos disser que, do outro lado da montanha, há um exército preparado para atacar-vos, acreditareis em minhas palavras? Então todos responderam de uma só vez: sim, acreditaremos, pois nunca vos ouvimos dizer uma mentira.

Depois, chamá-lo de mentiroso e fazer as pessoas acreditarem que aquele que jamais havia mentido em sua vida faria uma reivindicação tão grandiosa e falsa — a de que Deus o havia nomeado Mensageiro e que a palavra de Deus lhe era revelada — não era tarefa fácil.

Sobre isso, o Alcorão diz em certo lugar:

(Árabe***************)

—Ó Muhammad (s.a.)! Sabemos que aquilo que essas pessoas dizem te entristece. Mas elas não te consideram mentiroso; ao contrário, esses opressores negam os versículos de Allah. (Al-An’am: 33)

Isso indica precisamente esta verdade: enquanto o Profeta Muhammad (s.a.) não havia começado a recitar os versículos de Allah, todos os membros de sua comunidade o consideravam digno de confiança e veraz. Tinham plena confiança em sua honestidade. Passaram a considerá-lo mentiroso quando ele começou a transmitir-lhes a mensagem da parte de Allah. Mesmo nessa segunda fase, não havia ninguém que ousasse chamá-lo pessoalmente de mentiroso. Nem mesmo seu mais ferrenho inimigo jamais o acusou de ter sido culpado de mentir em qualquer assunto mundano. Todas as mentiras que lhe atribuíram foram por causa de sua condição de profeta. Seu maior inimigo era Abu Jahl. É narrado por Hazrat Ali (r.a.) que, certa vez, ele (Abu Jahl) disse ao Profeta (s.a.):

(Árabe***************)

Nós não te consideramos mentiroso; pelo contrário, consideramos falsa a mensagem que trouxeste. [O Imam Sufyan Thawri e Hakim transmitiram esta narração de Hazrat Ali (r.a.) — o autor.]

Durante a Batalha de Badr, Akhnas ibn Shariq perguntou secretamente a Abu Jahl: “Aqui não há uma terceira pessoa além de mim e de você. Diga-me sinceramente: você considera Muhammad (s.a.) veraz ou mentiroso?”

Ele respondeu: “Por Deus, Muhammad é um homem veraz. Nunca mentiu em toda a sua vida. Mas, se o liwa’ (a dignidade de portar a bandeira), a hijaba (a dignidade de guardar as chaves da Caaba), a siqaya (a dignidade de oferecer água aos peregrinos) e a profecia — tudo isso — couber à linhagem de Qusay, diga-me: o que restará para todo o restante dos coraixitas?” [Ibn Jarir citou esta narração em seu tafsir. Akhnas ibn Shariq estava ligado por laços de amizade aos Banu Zuhrah, o clã do avô materno do nobre Profeta (s.a.). Embora tenha vindo lutar contra os coraixitas, nem ele nem qualquer membro dos Banu Zuhrah participou da batalha — o autor.]

Com base em tudo isso, Allah Todo-Poderoso consola o nobre Profeta (s.a.), dizendo: “A acusação de mentira não é dirigida a você; pelo contrário, é dirigida a Mim. Eu a suporto com paciência e concedo prazo após prazo. Então, por que você está se afligindo?”

Desculpas e objeções, acusações e exigências de natureza estranha

Depois de se depararem com essas duas dificuldades, os coraixitas e os demais idólatras não tinham outra saída senão inventar diversos tipos de desculpas e objeções para não aceitar a missão profética do Profeta (s.a.w.), levantar acusações variadas e contraditórias e exigir que fossem mostrados milagres extraordinários. Contudo, assim como vocês viram no caso do tawhid, foram apresentados argumentos e provas tão irrefutáveis — não apenas para refutar o politeísmo, mas também para demonstrar a unicidade de Deus — que nenhuma pessoa sensata ficou com qualquer possibilidade de negar essas verdades. Da mesma forma, todas as intrigas dos idólatras contra a missão profética foram enfrentadas de maneira tão racional que qualquer pessoa dotada, ainda que minimamente, de bom senso e inteligência não pôde deixar de reconhecer a verdade, por mais que continuasse a opor-se com obstinação e teimosia. (12)

Objeção à condição humana do Profeta (s.a.w.)

A primeira objeção deles era dizer: como podemos aceitar como Mensageiro de Deus um ser humano que é igual a nós? Ele come e bebe, tem filhos e realiza as mesmas atividades mundanas que as outras pessoas realizam. O Alcorão menciona essas desculpas e objeções deles e apresenta a resposta a elas.

(Árabe***************)

E esses injustos cochicham entre si e dizem: “Este homem não passa de um ser humano como vocês. Acaso vocês, vendo e ouvindo, cairão na armadilha da magia?” (Al-Anbiya: 3)

Esses cochichos eram feitos em reuniões pelos grandes chefes dos incrédulos de Meca, que tinham de enfrentar o chamado do Profeta. Eles diziam: “Este homem de modo algum pode ser um profeta. Afinal, é um ser humano como nós: come e bebe, anda pelo mercado e tem esposa e filhos. O que há nele de excepcional que estabeleça uma diferença entre ele e nós e o torne, em comparação conosco, alguém dotado de uma relação extraordinária com Deus? É verdade que há magia em suas palavras e em sua personalidade. Por isso, qualquer pessoa que o escute atentamente e se aproxime dele acaba tornando-se sua seguidora. Portanto, se desejam o próprio bem, não escutem nenhuma de suas palavras nem convivam com ele. Pois escutá-lo e aproximar-se dele significa, conscientemente, cair na armadilha da magia.” (13)

(Árabe****************)

—E dizem: “Que espécie de Mensageiro é este, que come e anda pelos mercados? Por que não lhe foi enviado um anjo para acompanhá-lo e amedrontar os que o rejeitam? Ou, pelo menos, não lhe foi feito descer um tesouro, ou não deveria ele possuir um jardim do qual pudesse obter seu sustento tranquilamente?”

Os injustos dizem: “Vocês estão seguindo um homem enfeitiçado.” (Al-Furqan: 7-8)

A intenção deles era, em primeiro lugar, dizer que já era algo extraordinário um ser humano ser mensageiro. Se alguém viesse trazendo a mensagem de Deus, deveria ser um anjo, e não um ser humano de carne e osso, que necessitasse de alimento para viver. E, se um ser humano tivesse sido escolhido como mensageiro, então, no mínimo, deveria ser uma personalidade semelhante aos reis e aos grandes homens do mundo, alguém cuja visão deixasse os olhos ansiosos e cuja proximidade só pudesse ser alcançada com grande dificuldade. Em vez disso, fizeram de um homem comum um mensageiro do Senhor do universo, alguém que circulava pelo mercado? Alguém que encontramos todos os dias ao caminhar, em quem não vemos nada extraordinário em comparação conosco — quem o olharia com reverência? Em outras palavras, segundo eles, se houvesse necessidade de enviar mensageiros, não seria para orientar as pessoas comuns, mas para mostrar algo maravilhoso ou para criar influência e prestígio por meio de pompa e ostentação.

Depois, diziam que, se um ser humano tivesse sido feito profeta, deveria ter recebido um anjo que permanecesse sempre com um bastão na mão e dissesse às pessoas: “Aceitem as palavras dele; caso contrário, vejam: eis que faço descer sobre vocês o castigo de Deus.” Que coisa tão extraordinária: o Criador do universo honraria alguém com a sublime dignidade da profecia, deixá-lo-ia completamente sozinho, e o pobre homem continuaria recebendo insultos e pedradas das pessoas. A exigência final deles era que, no mínimo, Allah poderia ter feito algo: providenciar dignamente o sustento de Seu mensageiro. Que história é essa, de este mensageiro de Deus ser ainda mais incapaz do que nossos ricos comuns? Não tem dinheiro algum para as despesas, nem possui um pomar de frutas para comer. E, por outro lado, afirma: “Eu sou o mensageiro de Allah, o Senhor dos mundos.”

Depois de dizerem todas essas coisas absurdas, afirmavam que aquele homem havia sido enfeitiçado. Ou seja, alguém lançara um feitiço sobre ele e, por causa disso, ele enlouquecera.

O surpreendente é que, nas afirmações deles mencionadas acima, chamavam-no de feiticeiro. Agora diziam que ele havia sido enfeitiçado. Também o acusavam de ser poeta, como será mencionado mais adiante. (14)

Resposta a essas desculpas e objeções

(Árabe************)

— Antes de vocês, enviamos muitos mensageiros e lhes concedemos esposas e filhos. (Ar-Ra’d: 38)

Esta é a resposta àquelas perguntas que eles faziam ao Profeta (que a paz esteja sobre ele): que espécie de profeta é esse, que tem esposa e filhos? Ora, os profetas também têm alguma relação com o desejo sexual? Além disso, os profetas e mensageiros enviados anteriormente também tinham esposas e filhos. Vós próprios reconheceis Hazrat Noé (que a paz esteja sobre ele) como profeta. Se ele não tivesse descendentes, como teríeis nascido da sua linhagem? O fato de Hazrat Abraão (que a paz esteja sobre ele) e Hazrat Ismael (que a paz esteja sobre ele) serem profetas é plenamente reconhecido por vós. Vós relacionais a vossa linhagem e descendência a eles. Se eles não tivessem descendentes, de onde seríeis vós, os filhos de Ismael? (15)

(Árabe*************)

— E, antes de ti, ó Profeta Muhammad, também não enviámos senão homens como mensageiros, aos quais revelávamos. Perguntai, pois, ao Povo do Livro, se não tendes conhecimento. E não lhes demos corpos que não comessem, nem eram imortais. (Al-Anbiya: 7-8)

— Isto é: perguntai justamente à comunidade judaica, que, em sua inimizade ao Islã, está aliada a vós e vos ensina métodos de oposição ao Islã: quem eram Moisés (que a paz esteja sobre ele) e os profetas dos Filhos de Israel? Eram eles seres humanos ou alguma outra criação? (16)

(Árabe***************)

— Não vos chegou a notícia daqueles que anteriormente descreram e provaram as consequências de suas más obras? E, na Outra Vida, haverá para eles um castigo doloroso. Eles merecem esse destino porque seus mensageiros continuavam a chegar-lhes com provas claras, mas eles diziam: “Será que um ser humano nos guiará?” Assim, recusaram-se a aceitar e deram as costas. Então Allah também não lhes deu importância. E Allah é, de fato, o Rico, o Louvável em Sua própria essência. (At-Taghabun: 5-6)

Isto é: os profetas trouxeram sinais tão claros que testemunhavam inequivocamente que haviam sido designados por Allah. Tudo o que diziam era inteiramente conforme à razão, e apresentavam-no com argumentos e provas firmes. Não havia qualquer ambiguidade em seus ensinamentos. Pelo contrário, diziam em linguagem clara o que era verdade e o que era falsidade; o que era lícito e o que era ilícito; por qual caminho as pessoas deveriam andar e por qual não deveriam. Mas, recusando-se a aceitar suas palavras, diziam: “Agora será que um ser humano nos guiará?” E isso se tornou a causa de sua destruição. Pois não havia outro meio de a humanidade conhecer o modo correto de agir senão que seu Criador lhe concedesse o verdadeiro conhecimento e encarregasse os profetas de transmiti-lo aos demais. Para esse fim, Ele enviou os profetas com sinais claros, para que não houvesse motivo legítimo para duvidar de sua veracidade. Mas eles se recusaram categoricamente a admitir que um ser humano pudesse ser mensageiro de Allah. Depois disso, não lhes restou outro meio de obter orientação. Nisso se manifesta diante de nós um quadro extraordinário da ignorância e da estupidez dos seres humanos desviados: eles jamais hesitaram em aceitar a orientação de outros seres humanos. Chegaram até a tomar como divindades estátuas de madeira e pedra feitas para representar a orientação de certas pessoas. Também aceitaram o próprio ser humano como deus, encarnação de Deus e filho de Deus. Depois, seguindo cegamente líderes desviadores, adotaram caminhos tão estranhos que destruíram a civilização e o caráter humanos. Contudo, quando o Mensageiro de Allah veio até eles com a verdade e, acima de todos os interesses pessoais, apresentou-lhes uma verdade imparcial, disseram: “Agora será que um ser humano nos guiará?” O significado disso era que, se um ser humano os desviasse, sua orientação deveria ser aceita sem questionamento; mas, se lhes mostrasse o caminho da verdade, sua orientação não deveria ser aceita.

Assim, quando deram as costas à orientação enviada por Allah, Allah também deixou de Se importar com o abismo de destruição em que cairiam. Allah não dependia de nenhum interesse deles, como se, caso O reconhecessem como Deus, houvesse três deuses, e, caso contrário, o trono da divindade Lhe escapasse das mãos. Ele não dependia de sua adoração, nem de seus cânticos de louvor. Ele queria apenas guiá-los pelo caminho reto, para o próprio bem deles. Mas, quando Lhe deram as costas, Allah também deixou de Se importar com eles. Depois disso, Ele não lhes concedeu orientação nem assumiu a responsabilidade por sua proteção; não os salvou de cair no abismo da destruição, nem os impediu de trazer a destruição sobre si mesmos. Isso porque eles próprios não sentiam necessidade de Sua orientação e proteção. (17)

(Árabe***************)

—Quando uma orientação lhes chegou, nada os impediu de crer nela, exceto suas palavras: “Acaso Deus enviou um ser humano como profeta?” Dize-lhes: se houvesse anjos caminhando tranquilamente pela terra, certamente lhes teríamos enviado do céu um anjo como profeta. (Bani Isra’il: 94–95)

Em outras palavras, a tarefa do profeta não se limita a vir e simplesmente transmitir a mensagem de Deus. Sua tarefa também consiste em reformar e corrigir a vida humana de acordo com essa mensagem. Ele deve harmonizar a condição das pessoas com os princípios fundamentais dessa mensagem. Deve manifestar concretamente esses princípios em sua própria vida. Deve desatar os nós da mente e da psicologia dos inúmeros e incontáveis seres humanos, de diferentes tipos, que tentam ouvir e compreender sua mensagem. Deve organizar aqueles que aceitam sua mensagem e educá-los, para que, de acordo com os ensinamentos dessa mensagem, uma sociedade possa vir a existir. Deve lutar contra os que a rejeitam, se opõem a ela e criam obstáculos, para que as forças apoiadoras da desordem sejam derrotadas e sejam conduzidas ao trabalho de reforma — o trabalho para o qual Deus enviou os profetas. Quando todas essas tarefas devem ser realizadas entre os seres humanos, quem poderia ser enviado para isso além de um ser humano? Um anjo, no máximo, poderia vir, transmitir a mensagem e partir. Permanecer entre os seres humanos como um ser humano, agir como eles e demonstrar a reforma da vida humana segundo a vontade de Deus não estava ao alcance de um anjo. Somente um ser humano poderia ser adequado para essa tarefa. (18)

(Árabe***************)

—Ó Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), todos os profetas que enviamos antes de ti eram seres humanos, habitantes destas cidades, aos quais enviamos a revelação. (Yusuf: 109)

Aqui, um assunto de grande importância foi expresso numa única frase. Explicando-o em detalhes, pode-se dizê-lo da seguinte maneira:

Ó Profeta! Essas pessoas não dão atenção às tuas palavras porque pensam: como podemos aceitar que, a respeito daquele que nasceu ontem na cidade deles, cresceu entre eles da infância à juventude e da juventude à velhice, se diga simplesmente que, de repente, um dia Deus o nomeou Seu mensageiro?

Mas não é uma novidade que ele tenha sido o primeiro a se deparar com isso no mundo. Antes dele, Deus também enviou Seus profetas, e todos eles eram seres humanos. Além disso, nunca aconteceu de um desconhecido surgir subitamente numa cidade e dizer: “Fui enviado como profeta.” Todos os que foram enviados para reformar e corrigir a humanidade eram habitantes de suas próprias cidades. Quem eram, então, o Messias, Moisés, Abraão e Noé, que a paz esteja sobre todos eles? Surgiram justamente das cidades onde nasceram ou vieram de algum outro lugar? (19)

(Árabe****************)

Será que isto foi realmente tão assombroso para as pessoas: que Nós tenhamos enviado revelação a um homem dentre elas, para advertir a humanidade, e anunciar aos que creem que terão verdadeira honra junto ao seu Senhor? (Foi por isso que) os incrédulos disseram: “Este é evidentemente um feiticeiro”? Ou seja, o que há de surpreendente nisso? Para advertir as pessoas, não seria necessário designar um ser humano; por acaso deveriam ser designados anjos, gênios ou animais? E, se o ser humano se mostra indiferente à verdade e vive de maneira desviada, o surpreendente seria que o seu Criador e Sustentador não o deixasse nesse estado, mas providenciasse algum meio para guiá-lo? Ou não deveria ele receber honra e dignidade da parte de Deus, para aceitá-las ou rejeitá-las? Portanto, os que se admiram deveriam refletir sobre aquilo que, afinal, causa a sua admiração.

Além disso, ao chamar os que advertem de feiticeiros, deveriam considerar se essa acusação realmente se aplica a ele. Quando alguém conquista a mente e o coração das pessoas por meio de discursos eloquentes, não basta acusá-lo de fazer magia. É preciso observar o que ele diz em seu discurso e em benefício de que interesse utiliza sua capacidade oratória. Depois, deve-se perguntar: que tipo de efeito seu discurso produz sobre os que creem? O orador que utiliza o poder de um discurso encantador para alcançar objetivos ilícitos é apenas um falador, desenfreado e irresponsável. Sem qualquer consideração pela verdade e pela honestidade, diz coisas que fascinam os ouvintes, por mais falsas, exageradas e absurdas que sejam. Em suas palavras, em vez de sabedoria, há algo que engana o povo. Em vez de pensamentos organizados e coerentes, há desordem e incoerência. Suas palavras não produzem equilíbrio, mas desequilíbrio. Para obter uma vitória retumbante, ele age sem pudor; ou então embriaga as pessoas com o ópio dos discursos, a fim de fazê-las lutar e discutir umas com as outras e incitar um grupo contra outro. Sob sua influência, não se estabelece entre as pessoas qualquer padrão moral, nem se observa qualquer mudança benéfica em suas vidas. Tampouco surgem pensamentos virtuosos ou condições reais e benéficas. Pelo contrário, as pessoas passam a manifestar um caráter ainda pior do que antes. Mas aqui vocês veem que, na mensagem apresentada pelo profeta, há sabedoria, um sistema de pensamento harmonioso, equilíbrio absoluto e uma rigorosa exigência de verdade e veracidade. Cada palavra é ponderada; cada afirmação é extremamente valiosa. Em seu discurso, vocês não conseguirão identificar outro objetivo além da reforma da criação de Deus. Em tudo o que ele diz, não há o menor vestígio de interesse pessoal, familiar, nacional ou de qualquer espécie mundana. Ele deseja apenas advertir as pessoas sobre as consequências funestas da negligência e da indiferença em que estão mergulhadas, e conduzi-las a um caminho no qual se encontra o seu próprio bem. Além disso, o efeito de seu discurso é completamente diferente do efeito produzido pelo discurso de um orador que emprega a magia das palavras. Aqui, a vida de todo aquele que sofreu a influência dele e acolheu o seu efeito tornou-se disciplinada. Ele se tornou um homem de caráter mais nobre do que antes. Marcas de bondade passaram a manifestar-se em sua conduta. Agora, reflitam vocês mesmos: a magia costuma dizer coisas desse tipo? E será que sua magia pode produzir frutos tão benéficos? (20)

(Árabe****************)

—Elevamos alguns profetas acima de outros em dignidade, e concedemos a Davi o Zabur. (Bani Isra’il: 55)

No contexto em que estas palavras foram ditas, a menção específica à concessão do Livro Zabur ao profeta Davi (que a paz esteja sobre ele) foi feita porque ele era rei e, ao mesmo tempo, profeta. Os contemporâneos do profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) recusavam-se a aceitar sua profecia porque, segundo o entendimento deles, ele mantinha esposa e filhos como as pessoas comuns, comia e bebia, circulava pelos mercados, comprava e vendia, e realizava todas as atividades que os demais homens mundanos realizavam por necessidade humana. Os incrédulos de Meca diziam: “Você é um homem mundano. Que relação tem com a proximidade de Deus? Os enviados de Deus são aqueles que não têm consciência de suas necessidades físicas; simplesmente ficam sentados num canto, absortos na lembrança de Deus. O que têm eles a ver com a preocupação com arroz e lentilhas?” Em resposta, diz-se: o que poderia ser mais mundano do que administrar plenamente um reino? Apesar disso, ao profeta Davi (que a paz esteja sobre ele) foram concedidas a profecia e a Escritura. (21)

(Árabe***************)

Ó Profeta, dize-lhes: “Não sou um profeta extraordinário. Não sei o que será feito comigo, nem sei o que será feito convosco. Apenas sigo a revelação que me foi enviada, e não sou senão um claro advertidor.” (Al-Ahqaf: 9)

O contexto desta revelação é o seguinte: quando o Profeta (que a paz esteja sobre ele) se apresentou como Mensageiro de Deus, os habitantes de Meca começaram a fazer todo tipo de crítica. Diziam: “Que tipo de mensageiro é este, que tem esposa e filhos, anda pelo mercado, come e bebe e leva uma vida como a nossa? Afinal, que há de tão especial nele para que seja diferente das pessoas comuns, permitindo-nos compreender que Deus escolheu especialmente este homem como Seu Mensageiro?” Depois diziam: “Se Deus realmente o tivesse nomeado Mensageiro, teria enviado algum anjo para servi-lo. Esse anjo anunciaria que ele é o Mensageiro de Deus e açoitaria qualquer pessoa que demonstrasse diante dele a menor falta de respeito ou insolência. Como pode ser que Deus tenha nomeado alguém como Seu Mensageiro e depois o tenha deixado, indefeso, vagando assim pelas ruas de Meca e suportando opressão e perseguição? No mínimo, Deus teria construído para Seu Mensageiro um palácio real e um jardim florescente. Assim, não aconteceria de a esposa de Seu Mensageiro ficar sem recursos e passar fome, nem aconteceria de ele não ter uma montaria para ir a Taife.”

Depois, exigiam do Profeta (que a paz esteja sobre ele) diversos tipos de milagres. Também queriam saber dele as coisas do futuro. Segundo a concepção deles, ser Mensageiro de Deus significava possuir poderes sobre-humanos. Bastaria mover o dedo para que as montanhas fossem deslocadas e os desertos se transformassem em campos verdes e férteis. Ele teria conhecimento de tudo do passado, do presente e do futuro, e cada coisa oculta lhe seria perfeitamente clara.

Em resposta a essas palavras, foi dito: “Dize-lhes: não sou um Mensageiro sem precedentes. Minha nomeação como Mensageiro não é o primeiro acontecimento na história do mundo, de modo que vocês tenham dificuldade para compreender como é ou não é um mensageiro. Muitos mensageiros vieram antes de mim; não sou diferente deles. Houve algum profeta ou mensageiro no mundo que não tivesse esposa e filhos? Ou que não levasse uma vida como a das pessoas comuns? Por acaso algum mensageiro foi acompanhado por um anjo que anunciasse sua missão profética e caminhasse à sua frente com um bastão na mão? Para qual mensageiro foram construídos palácios reais e jardins? E que mensageiro deixou de sofrer perseguição por convocar as pessoas para Deus, como eu sofro? Houve algum mensageiro que pudesse realizar milagres por sua própria autoridade e conhecer todas as coisas por seu próprio conhecimento? Então, de onde vocês tiraram esse critério tão extraordinário para verificar minha missão?”

Depois, também foi dito em resposta a eles: “Não sei o que me acontecerá amanhã, nem o que acontecerá com vocês. Apenas sigo a revelação que me é enviada. Isto é, não sou um adivinho para que tudo do passado, do presente e do futuro me seja claro e para que eu adquira conhecimento de cada coisa do mundo. Quanto ao futuro de vocês, nem sequer conheço o meu próprio futuro. Sei somente aquilo cujo conhecimento me é concedido por meio da revelação. Quando foi que reivindiquei possuir conhecimento além disso? Que mensageiro no mundo possuía o dom de fazer tais profecias, para que vocês estejam testando meu conhecimento do futuro a fim de verificar minha missão? Desde quando faz parte da função de um mensageiro encontrar objetos perdidos, dizer se uma mulher grávida dará à luz um menino ou uma menina, ou afirmar se um doente se recuperará ou morrerá?” (22)

Por que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) foi feito profeta?

A segunda acusação deles era esta: se Deus realmente precisava enviar um profeta e tinha de escolher alguém entre os seres humanos, por que foi escolhido justamente Muhammad ibn Abdullah entre nós? Será que todos os grandes homens de Meca e Taife haviam morrido, de modo que não se pudesse escolher alguém entre eles? Esta era a sua afirmação.

(Árabe***********)

—Será que, entre nós, somente este homem recebeu a revelação do Lembrete (a exortação de Deus)? (Sad: 8)

(Árabe***************)

—E dizem: Por que este Alcorão não foi revelado a um dos grandes homens de uma das duas cidades? São eles que distribuem a misericórdia do teu Senhor? Nós distribuímos entre eles os meios de subsistência nesta vida terrena e elevamos alguns deles acima de outros em grau, para que uns possam servir-se dos outros. E a misericórdia do teu Senhor é melhor do que aquilo que esses grandes homens acumulam em riquezas. (Az-Zukhruf: 43:32)

As duas cidades significam Meca e Taife. A afirmação dos incrédulos era: se realmente houvesse necessidade de Deus enviar um Mensageiro e Ele quisesse revelar-Lhe o Seu Livro, então teria escolhido, entre essas duas cidades, algum homem de grande importância para essa tarefa. Para fazer dele um Mensageiro, Allah encontrou um homem que nasceu órfão. Ele não recebeu nenhuma herança. Passou a juventude pastoreando cabras. Agora vive de fazer negócios com o dinheiro da esposa. Não é chefe de nenhuma tribo, nem líder de nenhuma família. Em Meca, não havia homens famosos como Al-Walid ibn al-Mughira e Utba ibn Rabi’a? Em Taife, não havia homens ricos como Urwa ibn Masud, Habib ibn Amr, Kinana ibn Abd Amr e Abid ibn Jalil? Esses eram os seus argumentos. A princípio, eles sequer estavam dispostos a admitir que um ser humano pudesse ser Mensageiro. Mas, quando o Alcorão repetidamente refutou essa ideia com argumentos e lhes foi dito que, desde tempos anteriores, sempre foram seres humanos que se tornaram Mensageiros, e que somente um ser humano poderia ser Mensageiro para orientar os seres humanos — ninguém além de um ser humano —, e que nenhum Mensageiro que veio ao mundo desceu repentinamente do céu, mas nasceu em uma comunidade humana, caminhava pelos mercados, tinha esposa e filhos e não estava livre da necessidade de comer e beber, então mudaram de estratégia e começaram a dizer: Muito bem, que um ser humano seja Mensageiro. Mas certamente ele deveria ser um grande homem: rico, influente, líder de um grupo, alguém de enorme prestígio entre as pessoas. Como Muhammad ibn Abdullah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — poderia ser adequado para essa posição?

Em resposta a essas acusações, foram apresentadas, em poucas palavras, algumas questões importantes.

A primeira questão é: foi atribuída a essas pessoas a responsabilidade de distribuir a misericórdia do teu Senhor? Serão elas que decidirão sobre quem Allah derramará a Sua misericórdia e sobre quem não a derramará? (Aqui, misericórdia significa a Sua misericórdia geral, da qual cada pessoa recebe alguma parcela.)

Em segundo lugar, a profecia é algo de enorme importância. Também mantivemos em Nossas próprias mãos a responsabilidade de distribuir todos os meios e recursos comuns necessários à vida neste mundo. Não a confiamos a ninguém mais. Criamos alguns belos e outros feios; alguns eloquentes e outros de fala áspera; alguns saudáveis e outros deficientes, cegos ou surdos; alguns ricos e outros pobres; alguns como membros de povos nobres e outros como escravos ou membros de povos menos desenvolvidos. Ninguém pode interferir nem no mínimo na determinação desse destino de nascimento. Aquele a quem damos determinada natureza é obrigado a ser tal como o fizemos. E ninguém tem capacidade de alterar os efeitos que essas diferentes condições de nascimento produzam no destino de alguém. Também somos Nós que distribuímos entre as pessoas o sustento, a força, a honra, a fama, as riquezas e o poder de governar. Aquele cujo destino elevamos por Nossa decisão, ninguém poderá arruiná-lo. E aquele sobre quem recai a decadência por Nossa decisão, ninguém poderá salvá-lo. Diante da Nossa decisão, todas as artimanhas, esforços e expedientes humanos fracassam. Será que, dentro desse sistema divino universal, eles pretendem decidir a quem o Senhor do universo fará Seu profeta e a quem não fará?

A terceira questão é que, neste sistema divino, foi estabelecida como regra permanente a sabedoria de não dar tudo a uma só pessoa nem tudo a todas as pessoas. Olhem atentamente: em todos os aspectos, verão apenas diferenças entre os seres humanos. Se damos alguma coisa a alguém, privamo-lo de outra coisa e concedemos essa outra coisa a outra pessoa. Isso foi feito com base na sabedoria de que nenhum ser humano permaneça independente dos demais. Pelo contrário, cada um depende dos outros em algum aspecto. Como, então, tomou conta de vocês esta ideia tola de que aquele a quem demos governo e autoridade também deve receber a profecia? Dirão também que o discernimento, o conhecimento, a riqueza, a beleza, o poder, a força estatal e todas as demais qualidades devem ser reunidos na mesma pessoa, e que àquele que não recebeu uma coisa não se deve dar coisa alguma?

Na frase final, a misericórdia do Senhor significa a Sua misericórdia especial, isto é, a profecia. Isso significa que vocês consideram grandiosos os seus ricos, por causa de suas riquezas, personalidade, influência e prestígio, mas eles não são dignos da riqueza concedida a Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Essa riqueza possui uma dignidade muito superior à riqueza deles, e o critério dessa dignidade é outro. Se vocês pensam que cada um dos seus homens influentes e prestigiosos é digno de ser um grande profeta, isso representa o extremo declínio da sua mentalidade. Por que esperam de Allah uma insensatez assim? (23)

(Árabe*******************)

—A verdadeira questão é que os corações daqueles que discutem os versículos de Allah sem qualquer autoridade ou prova que lhes tenha chegado estão cheios de orgulho e arrogância. Mas eles não alcançarão a grandeza da qual se orgulham. Portanto, busca refúgio em Allah. Ele tudo vê e tudo ouve. (Al-Mu’min: 40:56)

Ou seja, a verdadeira causa da oposição irracional e das discussões sofísticas e incoerentes dessas pessoas não é que elas não compreendam as verdades e as palavras benéficas dos versículos de Allah que lhes são apresentados e que, por isso, estejam discutindo de boa-fé para compreendê-los. Pelo contrário, a verdadeira causa de sua atitude é que seu orgulho não está disposto a aceitar que, enquanto elas existirem, terão de reconhecer no Arab a liderança de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, embora se considerem mais merecedoras do direito de liderar. Por isso, estão empregando todas as suas forças para impedir, de qualquer maneira, que a palavra do Profeta Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) prevaleça. Para esse fim, não hesitarão em adotar qualquer dos meios mais vis e desprezíveis. Mas aquele a quem Allah conferiu grandeza continuará sendo grande. E os esforços dessas pessoas insignificantes para manter sua própria grandeza acabarão, por fim, em fracasso. (24)

(Árabe*****************)

—Ele faz descer este Espírito, isto é, a revelação da profecia, por meio dos anjos, por Sua ordem, sobre quem deseja. (An-Nahl: 16:2)

Estas são as respostas às desculpas e objeções que os incrédulos apresentavam a respeito do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Eles diziam: se Deus tivesse de enviar algum profeta, Muhammad ibn Abdullah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era a única pessoa disponível? Acaso os grandes chefes de Meca e Taife tinham morrido, para que Deus não escolhesse nenhum deles? Que outra resposta poderia haver para objeções e acusações tão absurdas? E é justamente esse tipo de resposta que foi dado em vários trechos do Alcorão: Deus conhece por Si mesmo a Sua obra. Ele não precisa consultar ninguém. Entre Seus servos, escolhe para Sua obra aquele que considera adequado. (25)

Se suas palavras fossem verdadeiras, as grandes personalidades da nação teriam acreditado.

(Árabe***************)

—aqueles que se recusaram a aceitá-lo dizem aos crentes: “Se isso fosse verdadeiro, essas pessoas não poderiam ter-nos precedido nisso.” Como não conseguiram aceitar a orientação, agora certamente dirão: “Isto não passa de uma mentira antiga.” (Al-Ahqaf: 11)

Este era um dos argumentos apresentados pelos líderes coraixitas para incitar o povo contra o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eles diziam: “Se este Alcorão fosse verdadeiro e o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estivesse convocando as pessoas à verdade, os líderes da comunidade, os chefes das tribos e as pessoas respeitadas teriam sido os primeiros a aceitá-lo. Como é possível que alguns jovens inexperientes e alguns escravos de condição inferior tenham aceitado algo razoável, enquanto os grandes homens da nação, que são sábios e mundialmente renomados, e em cujo conhecimento, inteligência e discernimento a nação confia, o rejeitaram?” Com esse argumento enganoso, tentavam criar no povo a convicção de que certamente havia algo mau nessa nova convocação. Era justamente por isso que os grandes homens da nação não a aceitavam. Portanto, vocês também devem manter-se afastados dela.

A análise apresentada acima significa que essas pessoas haviam estabelecido a si mesmas como o critério para distinguir a verdade da falsidade. Pensavam que qualquer orientação que não aceitassem deveria necessariamente ser desorientação. Contudo, não ousavam chamá-la de uma mentira inédita, pois os profetas anteriores (que a paz esteja sobre eles) também haviam apresentado esse mesmo ensinamento. Além disso, todos os Livros celestiais que se encontram com o Povo do Livro estão repletos dessa mesma crença, doutrina e orientação. Por isso, essas pessoas a chamavam de uma mentira antiga ou obsoleta. Na visão delas, aqueles que haviam apresentado essas verdades e seguido seus ensinamentos durante milhares de anos eram desprovidos de conhecimento e discernimento. Como se somente elas fossem dotadas de conhecimento, inteligência e discernimento. (26)

Segundo um relato de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), os líderes coraixitas diziam ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Pessoas como Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele), Suhayb (que Allah esteja satisfeito com ele), ‘Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele), Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) frequentam a tua companhia. Nós não podemos sentar-nos com eles. Expulsa-os; então poderemos ir até ti e saber o que queres dizer.” Depois que o imperador de Roma, César Heráclio, recebeu a carta do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), convocou Abu Sufyan e fez-lhe algumas perguntas sobre o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Entre as coisas que Abu Sufyan respondeu, estava também o seguinte:

(Árabe*************)

“Os fracos e os extremamente pobres entre nós aceitam segui-lo.” Em outras palavras, parece que o modo de pensar deles era que somente aquilo que os grandes da nação reconhecessem como verdadeiro poderia ser verdade. Pois, na visão deles, somente esses eram dotados de conhecimento e inteligência. Quanto aos pobres e desprovidos de bens, o fato de serem desprovidos de riqueza já era, para eles, prova de que eram ignorantes e imprudentes. Por isso, aceitar qualquer palavra deles e rejeitá-la quando os ricos a rejeitavam significava que ela era completamente sem sentido.

Exatamente esse tipo de coisa foi dito pelos líderes do povo do Profeta Noé (que a paz esteja sobre ele). Eles disseram-lhe, por exemplo: “As pessoas da classe mais inferior da sociedade estão seguindo-te. Em tais circunstâncias, como poderemos seguir-te?” Na surata Hud, versículo 27, suas palavras são citadas assim: “E vemos que ninguém te segue senão aqueles que são os mais inferiores entre nós, sem reflexão.” (27)

(A acusação feita ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de que ele deseja a supremacia

Na Surata Sad, menciona-se que, certa vez, quando o Profeta (que a paz esteja com ele) apresentou sua mensagem aos líderes coraixitas, as pessoas reunidas disseram, entre outras acusações:

(Árabe*************)

— Isto está sendo dito com algum outro objetivo. Ou seja, esta mensagem está sendo apresentada para que nos tornemos seguidores de Maomé (que a paz esteja com ele) e ele passe a exercer sua autoridade sobre nós. (28)

Fica claro que isso era apenas uma acusação sem qualquer fundamento, além da incredulidade. Por isso, sem responder a ela, o Alcorão declarou que, também nos tempos antigos, acusações desse tipo foram dirigidas aos servos de Allah que surgiram para reformar e corrigir as pessoas. Por exemplo, os cortesãos do Faraó disseram a Moisés e Aarão (que a paz esteja com ambos):

(Árabe******************)

— Ó Moisés! Vieste para nos afastar dos costumes e práticas nos quais encontramos nossos antepassados, e para que o domínio de vocês dois se estabeleça na terra? (Yunus: 7)

Isso foi dito a Noé (que a paz esteja com ele) pelos notáveis de seu povo:

(Árabe**************)

—Este homem nada mais é que um ser humano como vós; quer estabelecer domínio sobre vós. (Al-Mu’minun: 24)

Uma das armas mais antigas dos que se opõem à verdade é acusar todo aquele que tenta promover a reforma e a correção, dizendo: “Não é nada disso; ele apenas ambiciona conquistar o poder.”

O Faraó fez exatamente essa acusação contra o profeta Moisés (a.s.) e o profeta Aarão (a.s.). Dizia: “Vós só entrastes em campo para estabelecer vosso domínio no país.” A mesma acusação foi feita contra o profeta Jesus (a.s.): diziam que aquele homem queria tornar-se o rei dos judeus. Os líderes coraixitas também nutriam essa suspeita a respeito do profeta Muhammad (s.a.w.). Na realidade, negociaram várias vezes com o Profeta (s.a.w.) nesses termos: “Se ambicionas conquistar o poder, abandona a oposição e junta-te ao grupo dos que estão no poder. Então faremos de ti um rei.”

A realidade é que, para aqueles que passam a vida inteira empregando todas as suas forças em busca do mundo, de seus prazeres e de influência e prestígio, é muito difícil — ou melhor, impossível — imaginar que alguém neste mundo possa dedicar a vida, com sinceridade e sem interesse pessoal, ao bem-estar das pessoas. Como passam dia e noite diante do povo fazendo falsas promessas de bem-estar público, acompanhadas de slogans enganosos e atraentes, a fim de estabelecer seu próprio poder e influência, essa mentira e essa fraude tornam-se algo natural para eles; e passam a acreditar que, sem engano e fraude, não é possível falar do bem-estar público com verdade e sinceridade. Assim, qualquer pessoa que mencione esse objetivo certamente lhes parece igual a eles. O mais curioso é que a acusação de “ambição de poder” contra os reformadores sociais sempre foi feita pelos grupos que estão no poder e por seus bajuladores e servos aduladores. O poder que detêm parece ser seu direito de nascimento. Ninguém pode acusá-los de nada do que façam para obtê-lo e permanecer em seus cargos.

É preciso compreender bem aqui que, quando alguém luta para eliminar as falhas e desvios do sistema de vida vigente e apresenta, em oposição a ele, uma visão e um sistema reformadores, é inevitável que tente remover qualquer força que obstrua o caminho da reforma e leve ao poder as forças capazes de pôr em prática essa visão e esse sistema reformadores. Além disso, quando a missão de uma pessoa desse tipo alcançar êxito, o resultado natural será que ela conquiste a posição de liderança do povo. Nesse momento, as chaves do poder do novo sistema estarão em suas próprias mãos ou nas mãos de seus apoiadores e seguidores. Entre os profetas e os reformadores do mundo, quem houve cujo objetivo não fosse pôr efetivamente em prática sua missão? E quem houve cuja missão, ao ser bem-sucedida, não o tenha de fato colocado na posição de liderança? Então, isso basta para acusá-lo de ambicionar o poder e dizer que seu verdadeiro objetivo era alcançar a liderança que agora alcançou? Somente um inimigo mal-intencionado da verdade poderia responder afirmativamente. A verdade é que há uma diferença tão grande quanto a que existe entre o punhal de um ladrão e o bisturi de um médico-cirurgião entre conquistar o poder para interesses pessoais e conquistá-lo para um objetivo elevado. Se alguém considerar equivalentes o ladrão e o médico, isso só poderá ser atribuído a uma deficiência de seu raciocínio. Caso contrário, há uma diferença tão enorme entre suas intenções, métodos de ação e papéis que nenhuma pessoa sensata pode confundir um ladrão com um ladrão e um médico com um médico. (30)

Foi exatamente esse tratamento que o povo dispensou ao profeta Hud (a.s.). Os líderes de seu povo também se dirigiram ao povo, dizendo:

(Árabe*****************)

—Este homem nada mais é que um ser humano como vós. Ele come do que comeis e bebe do que bebeis. Se obedecerdes a um ser humano como vós, certamente sofrereis prejuízo. (Al-Mu’minun: 33–34)

Quando os chefes da sociedade perceberam que o povo em geral seria influenciado pela personalidade imaculada do profeta e por suas palavras cativantes, como poderiam continuar exercendo sua astúcia? Por isso, passaram a confundir o povo repetindo afirmações desse tipo. Diziam: “Não há nada de profecia ou coisa semelhante da parte de Deus; ele fala tudo isso apenas por ambição de poder”. Irmãos, parem um instante e reflitam: em que aspecto este homem é diferente de vocês? Ele é um ser humano de carne e osso, exatamente como vocês. Não há diferença alguma entre vocês e ele. Então por que ele deveria tornar-se um senhor e vocês deveriam obedecer às suas ordens?

Em sua propaganda, parecia haver um consenso absoluto de que, embora fossem seres humanos, nós deveríamos naturalmente ser seus chefes ou líderes da sociedade. Não havia sequer questão de considerar que também éramos feitos de carne e osso e comíamos e bebíamos. O assunto em discussão não era nossa liderança, pois ela já estava estabelecida por si mesma e era reconhecida por todos. O assunto era essa nova liderança, essa nova autoridade que, ao que parecia, estava prestes a ser estabelecida.

Assim, as palavras deles não diferiam em nada das dos chefes da sociedade do povo de Noé. Se havia algo que os incomodava, era a “fome de poder” que percebiam ou temiam perceber em algum recém-chegado. Quanto aos seus próprios estômagos, eles consideravam o poder um apetite natural seu; mesmo que lhes causasse indigestão, não havia problema. (31)

A acusação contra o Profeta de que ele era um adivinho e de que Satanás vinha até ele

Os incrédulos de Meca costumavam acusar Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) de ser um adivinho. Diziam também que o Alcorão que ele apresentava não era trazido por um anjo, mas por Satanás. Essa acusação foi respondida em vários trechos do Alcorão.

(Árabe****************)

— Portanto, ó Profeta, continua exortando! Pela misericórdia do teu Senhor, tu não és adivinho nem louco. (At-Tur: 29)

Na língua árabe, kāhin é usado com os sentidos de astrólogo, adivinho, pessoa muito astuta e semelhantes. Na época da ignorância, essa era uma profissão estabelecida. Os kahins afirmavam — e as pessoas de espírito fraco também acreditavam — que eram astrólogos ou que tinham uma relação especial com espíritos e jinns-satanás, graças à qual podiam conhecer o futuro ou segredos ocultos. Se algo se perdia, podiam dizer onde estava. Se algo era roubado, diziam quem havia cometido o roubo. Quando alguém perguntava sobre sua sorte, informavam o que estava escrito em seu destino. Com esses objetivos, as pessoas iam até eles, e eles, depois de receberem algumas oferendas, revelavam-lhes notícias do invisível. Os kahins percorriam as aldeias anunciando-se em voz alta, para que as pessoas pudessem procurá-los. Usavam roupas de um tipo especial, pelas quais podiam ser reconhecidos distintamente. Sua linguagem também era diferente da fala comum. Falavam com uma voz melodiosa, como versos de poesia, e geralmente usavam uma linguagem tão ambígua que cada pessoa acabava entendendo nela aquilo que trazia no próprio coração. Os chefes dos coraixitas acusavam o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) de ser um kahin ou adivinho para enganar o povo, pois ele anunciava informações e verdades ocultas aos olhos humanos. A alegação do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) era que um anjo enviado por Deus descia até ele e lhe transmitia a revelação, e que a mensagem de Deus que ele apresentava também possuía cadência e beleza poética. Contudo, nenhum árabe se deixava enganar por essa acusação, pois a profissão dos kahins e astrólogos, suas roupas, sua linguagem e suas atividades não eram desconhecidas de ninguém. Todos sabiam o que eles faziam, com que objetivo as pessoas os procuravam, o que lhes diziam, como eram suas palavras ritmadas e a que assuntos elas se referiam. O mais importante de tudo é que não poderia ser tarefa de um kahin surgir com uma crença religiosa contrária à religião vigente na sociedade, dedicar-se dia e noite à sua divulgação e propagação e, por fim, fazer com que toda a nação se tornasse sua inimiga. Por isso, a acusação de que o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) era kahin ou astrólogo não poderia, de modo algum, confundir as pessoas. Por essa razão, não se julgou necessário apresentar qualquer argumento para refutar a acusação, pois ela era autocontraditória. Considerou-se suficiente dizer apenas isto: “Ó Profeta, sem dar qualquer importância às acusações deles, adverte as pessoas por sua negligência quanto aos seus deveres e informa-as sobre a verdadeira realidade. Pois tu não és adivinho nem louco”. (32)

(Árabe****************)

—e não são palavras de nenhum Satanás expulso. Então, para onde estais indo? (At-Takwir: 25–26)

Isto é, é errada a vossa ideia de que algum Satanás vem e sopra essas palavras aos ouvidos do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Como poderia Satanás realizar tal obra: libertar as pessoas do shirk, da idolatria, do materialismo e do ateísmo e ensiná-las a adorar a Deus e a reconhecer Sua unicidade? Em vez de permanecerem sem rédeas, seria Satanás quem lhes incutiria o senso de responsabilidade, dever e prestação de contas perante Deus? Ele lhes mostraria o caminho de uma vida pura, da justiça, do temor a Deus e do caráter nobre, afastando-as dos costumes da ignorância, da opressão, da imoralidade, da perversidade e de coisas semelhantes? (33)

(Árabe***************)

Este Livro não foi trazido por Satanás. Tal obra não lhe convém, nem ele é capaz de realizá-la. Além disso, ele foi mantido afastado até mesmo de ouvi-lo. (Ash-Shu’ara: 210–212)

A grande dificuldade na campanha de mentiras que os incrédulos de Quraysh haviam iniciado contra o Profeta (que a paz esteja sobre ele) era que palavras extraordinárias, na forma do Alcorão, estavam sendo apresentadas às pessoas e penetravam profundamente em seus corações; como poderiam eles explicar isso? Não tinham meios de impedir sua divulgação entre o povo. O grande problema agora era decidir o que fazer para criar uma concepção equivocada sobre o Alcorão e proteger as pessoas de sua influência. Nessa situação embaraçosa, entre as acusações que espalhavam entre o povo estava a de que Muhammad (que a paz esteja sobre ele), Deus nos livre, era um adivinho e que, como acontece com um adivinho comum, Satanás introduzia essas palavras em sua mente. Consideravam essa acusação sua arma mais eficaz. Pensavam que ninguém tinha como verificar se aquelas palavras eram trazidas por um anjo ou por Satanás. E, se alguém quisesse refutar a alegação de que elas eram inspiradas por Satanás, como poderia fazê-lo?

Sobre isso, Deus, o Altíssimo, diz que tais palavras e esse conteúdo jamais poderiam sair da boca de Satanás. Quem possui conhecimento e discernimento pode compreender por si mesmo: poderiam acaso as palavras transmitidas pelo Alcorão vir da parte de Satanás? Não há adivinhos em vossas cidades? Não ouvis o que eles dizem depois de estabelecer contato com os gênios-satanases? Já ouvistes algum dia que algum Satanás, por meio de um adivinho, tenha ensinado às pessoas a adoração de Deus e o temor a Deus? Que as tenha afastado do shirk e da idolatria? Que lhes tenha recomendado a honestidade, a veracidade e o bom trato com as pessoas? Poderia esse ser o temperamento e a natureza de Satanás? A natureza dos satanases é criar inquietação e desordem entre as pessoas e incentivá-las ao pecado. As pessoas vão aos adivinhos e astrólogos que mantêm relações e contato com Satanás para saber se o amante conseguirá sua amada, qual jogada será vantajosa numa partida de azar, que estratégia deve ser adotada para derrotar o inimigo ou quem roubou o camelo de alguém. Além desses assuntos, já pensaram alguma vez os adivinhos e os satanases que os apoiam em reformar as pessoas, ensiná-las a praticar o bem ou eliminar a corrupção? Mesmo que Satanás quisesse, estaria além de sua capacidade assumir, ainda que por pouco tempo, o lugar de verdadeiro mestre e reformador da humanidade e ensinar a verdade e o bem que o Alcorão ensina. Mesmo que assumam essa aparência para enganar, suas ações jamais poderão ser tão puras que não revelem sua ignorância e sua natureza satânica oculta.

Aquele que se torna um líder religioso sob a inspiração de Satanás inevitavelmente manifestará, em sua vida e em seus ensinamentos, más intenções, objetivos perversos e imundície moral. Satanás jamais pode incutir em alguém uma sinceridade absolutamente pura e uma bondade genuína; tampouco aqueles que mantêm relações e contato com Satanás podem possuir essas qualidades.

Em seguida, foi dito que, quando o Alcorão é infundido no coração por meio da revelação, não se trata apenas de que Satanás não possa interferir nele; durante todo o período em que o anjo Gabriel (que a paz esteja com ele) vem da parte de Allah com o Alcorão e o faz descer ao coração do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Satanás não tem, em momento algum nem de lugar algum, qualquer oportunidade de escutar às escondidas. Ele tampouco pode espiar de algum ponto das proximidades para ouvir algumas palavras e antecipar aos seus companheiros: “Hoje, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) transmitirá esta mensagem”, ou “em seu discurso será mencionada tal questão”. (34)

A acusação de que alguém lhe ensinava e instruía

Por um lado, os incrédulos de Quraysh diziam que — Deus nos livre — Satanás incutia o Alcorão no coração do Profeta (que a paz esteja com ele); por outro, faziam exatamente a acusação oposta: diziam que ele aprendia e recitava o Alcorão com alguém e depois o apresentava.

(Árabe*****************)

—Então, afastaram-se do Mensageiro e disseram: “Este não passa de um louco ensinado por outros.” —(Dukhān: 14)

O sentido de suas palavras era o seguinte: “O pobre homem era simplesmente ingênuo. Algumas outras pessoas o haviam enredado numa armadilha de engano. Secretamente, compunham algo em nome dos versículos do Alcorão e o ensinavam a ele. Depois, ele vinha apresentá-lo diante do povo em geral. Enquanto eles se sentavam, divertindo-se, esse pobre homem recebia insultos e pedradas.” Com palavras tão enganosas, anulavam todas as provas, argumentos, bons conselhos e ensinamentos que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhes apresentara durante anos. Não davam atenção às palavras justas proferidas no Alcorão; tampouco observavam que tipo de pessoa era aquele que apresentava tais questões, nem se davam ao trabalho, ao fazer a acusação, de refletir sobre que absurdos estavam dizendo. Na realidade, se houvesse alguém que o ensinasse e instruísse por trás de uma cortina, como isso poderia permanecer oculto para Khadijah (que Allah esteja satisfeito com ela), Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Zayd ibn Harithah (que Allah esteja satisfeito com ele) e tantos outros dos primeiros muçulmanos? Não havia ninguém mais próximo deles e companheiro mais constante do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então, que razão poderia haver para que justamente essas pessoas se tornassem seus maiores devotos e seguidores? Na verdade, se os assuntos da missão profética fossem conduzidos mediante o ensino de outra pessoa por trás de uma cortina, seriam justamente essas pessoas que mais se oporiam a ele.

(Árabe******************)

—Sabemos que eles dizem: “Alguém ensina este homem.” Contudo, a língua daquele a quem aludem é estrangeira, ao passo que esta é uma língua árabe clara. (Nahl: 103)

Na narrativa, são mencionados os nomes de várias pessoas, entre as quais os incrédulos de Meca acreditavam que alguma delas ensinava e instruía o Profeta (que a paz esteja com ele). Segundo uma versão, seu nome era Jabar, um escravo romano de Amer ibn al-Hadrami. Outra versão menciona um escravo de Huaitib ibn Abd al-Uzza, chamado Ayesh ou Yaish. Em outra narrativa, é mencionado o nome de Yasar, cuja kunya era Abu Fukaia; ele era um escravo judeu de uma mulher de Meca. Outra versão menciona um escravo romano chamado Bal‘am ou Al-A‘lam. Fosse quem fosse, os incrédulos de Meca viam que ele lia a Torá e o Evangelho e que se encontrava com o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Por isso, acusavam sem hesitação que, na realidade, era ele quem compunha o Alcorão, enquanto Muhammad (que a paz esteja com ele) o apresentava em nome de Deus como se fosse de sua própria autoria. Isso não revela apenas quão destemidos eram os opositores do Profeta ao inventarem calúnias contra ele; revela também quão injustos os seres humanos podem ser ao avaliar o valor de seus contemporâneos. Diante deles estava uma personalidade tão grandiosa da história humana que não havia semelhante em nenhum lugar do mundo daquela época, nem jamais apareceu em qualquer lugar até hoje. No entanto, aos olhos dessas pessoas desprovidas de conhecimento, inteligência e discernimento, um escravo não árabe que conseguia ler alguma coisa da Torá e do Evangelho era mais qualificado do que ele. Imaginavam que aquela joia rara emitia seu brilho a partir daquele pedaço de carvão. (36)

Prova evidente de que o Santo Profeta era destinatário da revelação

Depois de narrar no Glorioso Alcorão a história de Moisés, Allah, o Altíssimo, diz em certo lugar:

Ó Profeta! Tu não estavas presente no lado ocidental, ao pé do Monte Sinai, quando concedemos a Moisés este decreto da Lei, nem eras um dos que testemunharam esse acontecimento. Depois disso e até o teu tempo, criamos muitas gerações humanas, e longos períodos se passaram depois delas. Tu também não estavas entre os habitantes de Madiã para lhes recitar os Nossos versículos. Mas somos Nós que te transmitimos essas notícias. Tu não estavas ao pé do Monte quando chamamos Moisés pela primeira vez. Porém, isso é uma misericórdia do teu Senhor, para que advirtas um povo ao qual nenhum admoestador havia chegado antes de ti. (Al-Qasas: 44–46)

Essas três afirmações foram apresentadas como prova da profecia do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele): não há outro meio, além da revelação divina, de conhecer tais informações. Quando isso foi declarado no Alcorão, todos os líderes e os incrédulos comuns de Meca estavam determinados a provar, por qualquer meio, que ele não era profeta e — que Allah nos proteja — que era um falso profeta. Para ajudá-los, havia eruditos judeus e monges cristãos nas cidades do Hijaz. Contudo, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) não descia dos céus para recitar esse Alcorão; era, pelo contrário, um habitante da própria Meca. Nenhum aspecto de sua vida era desconhecido para os habitantes de seu bairro e de sua tribo. Por isso, quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) apresentou essas três afirmações como prova de sua profecia, em linguagem de desafio aberto, ninguém em Meca, no Hijaz ou em toda a Arábia conseguiu levantar-se para fazer a alegação absurda que hoje fazem os orientalistas hostis ao Islã. Embora não fossem menos capazes do que estes de inventar mentiras, como poderiam dizer uma mentira tão descarada que não resistiria sequer por um instante? Como poderiam dizer: “Ó Muhammad (que a paz esteja com ele), tu obtiveste essas informações de certos eruditos judeus e monges cristãos”? Não conseguiam sequer citar o nome de uma única pessoa em todo o país para esse propósito. Bastaria mencionar um nome para ficar imediatamente provado que o Santo Profeta (que a paz esteja com ele) não havia obtido informação alguma daquela pessoa. Como poderiam dizer: “Ó Muhammad (que a paz esteja com ele), tu possuis uma biblioteca de história, conhecimento, ciência e literatura do passado, com a qual proferes esses discursos”? Afinal, longe de possuir uma biblioteca, não se encontrava sequer um pedaço de papel nas proximidades de Muhammad (que a paz esteja com ele) no qual essas informações estivessem escritas. Todos os habitantes de Meca, jovens e velhos, homens e mulheres, sabiam que Muhammad (que a paz esteja com ele) era iletrado, e ninguém poderia afirmar que ele recorrera a intérpretes que traduzissem para ele livros persas, siríacos e gregos. Além disso, nem mesmo o mais descarado entre eles ousaria afirmar que ele obtivera essas informações durante suas viagens comerciais à Síria e à Palestina. Essas viagens não eram feitas sozinho: a caravana comercial de Meca acompanhava Muhammad (que a paz esteja com ele) em todas elas. Se alguém fizesse tal alegação, centenas de testemunhas vivas deporiam que ele não havia recebido ensinamento algum de ninguém naquele lugar. Ademais, apenas dois anos após sua morte, os muçulmanos começaram a combater o Império Romano. Se alguém dissesse falsamente que o Santo Profeta (que a paz esteja com ele) havia conversado com algum monge cristão ou rabino judeu da Síria e da Palestina, o Império Romano não hesitaria nem por um instante em transformar isso em uma grande propaganda, dizendo que Muhammad — que Allah nos proteja — havia aprendido tudo ali e depois ido a Meca para se tornar profeta. Em suma, naquela época, quando o desafio do Alcorão equivalia ao toque de finados para os incrédulos e politeístas coraixitas, e quando havia uma necessidade muito maior de rejeitá-lo como falso do que a que existe hoje para os orientalistas, ninguém conseguiu trazer de algum lugar qualquer informação que provasse que Muhammad (que a paz esteja com ele) dispunha de algum meio identificável de conhecer tais fatos além da revelação. (37)

A acusação de insanidade

Entre as acusações infundadas feitas contra o Santo Profeta (que a paz esteja com ele), estava a de que ele — que Allah nos proteja — era louco. Nesse sentido, também o chamavam de enfeitiçado, isto é, alguém sobre quem fora lançado um feitiço. Com isso, queriam dizer ainda que ele estava sob a influência ou o domínio dos gênios. O Alcorão cita as palavras deles:

(Árabe****************)

“E dizem: acaso abandonaremos nossos deuses por causa de um poeta louco?” (As-Saffat: 36)

Em outro lugar, é dito:

(Árabe***************)

“E esses injustos dizem: na verdade, vocês estão seguindo um homem enfeitiçado. (Al-Furqan: 8)

E em outro lugar, é dito:

(Árabe****************)

“Acaso dizem que ele está possuído por um jinn?

(Isto é, que ele enlouqueceu sob a influência de um jinn.) (Al-Mu’minun: 70)

O objetivo dessas acusações era o mesmo. Isso porque, para os árabes, havia duas causas para alguém enlouquecer: ou alguém o enfeitiçava e o tornava louco, ou um jinn se apossava dele. (38)

As acusações foram citadas no Sagrado Alcorão para mostrar quão cego era o ódio nutrido por seus acusadores. Entre as acusações contra ele, mencionadas aqui e em outros lugares, não há uma sequer que mereça ser discutida seriamente. Elas foram mencionadas para mostrar que os opositores não possuíam nenhum argumento ou prova e que enfrentavam um chamado reformador, baseado em argumentos, com palavras sem sentido e absurdas. Alguém dizia: “Ó povo! A crença no shirk sobre a qual estão fundadas a religião e a civilização de vocês é uma crença falsa, e estas são as razões de sua falsidade.” Em resposta, não se apresentava argumento ou prova alguma de que o shirk fosse verdadeiro e correto. Limitavam-se a dizer: “Este homem foi profundamente afetado pela magia.” Ele dizia: “Vocês não foram deixados no mundo sem rédeas, para agir sem limites. Ao contrário, terão de retornar ao seu Senhor e prestar contas de seus próprios atos. E esta verdade é comprovada por estas evidências morais, históricas, intelectuais e justas.” Em resposta, diziam: “Estas são palavras de um poeta.” Ele dizia: “Vim da parte de Allah para ensinar-lhes a verdade. E estes são os ensinamentos.” Em resposta, não se discutia nenhum desses ensinamentos. Limitavam-se a acusá-lo, sem prova alguma, de estar repetindo coisas copiadas de algum lugar. Ele apresentava a palavra milagrosa de Allah como prova de sua missão profética. Apresentava sua própria vida, sua conduta e seus atos. Juntamente com isso, apresentava a revolução moral que, sob sua influência, começava entre seus seguidores. Os opositores não prestavam atenção a nada disso. Limitavam-se a perguntar: “Por que você come e bebe? Por que circula pelos mercados? Por que não há um anjo acompanhando-o? Por que você não possui tesouros nem jardins?” Essas palavras, por si mesmas, provam quem, entre os dois lados, está firmado na verdade e quem, incapaz de enfrentá-la, fala disparates. (39)

(Árabe****************)

— Ó Profeta (S.A.)! Dize-lhes: “Eu vos aconselho uma coisa: por Allah, raciocinai sozinhos ou em grupos de dois e considerai o que há em vosso companheiro que possa ser chamado de loucura. Ele apenas vos adverte antes da chegada de um castigo severo.” (Saba: 46)

Isto é: libertem-se de todo egoísmo, dos desejos das paixões e do ódio, e reflitam sinceramente por Allah. Cada um de vocês, individualmente e com boa intenção, e depois dois, quatro ou mais reunidos, conversem e discutam cuidadosamente, e verifiquem: o que aconteceu para que hoje chamem de louco aquele homem que, até ontem, consideravam o mais sábio entre vocês? Pouco antes de sua missão profética, ocorreu o seguinte: depois da construção da Caaba, quando as tribos dos coraixitas entraram em disputa pela colocação da Pedra Negra, não foram vocês mesmos que, por consenso geral, aceitaram Muhammad (S.A.) como árbitro? Depois, ele resolveu a disputa de tal maneira que todos ficaram satisfeitos. Depois de toda a nação ter tido essa experiência da inteligência, do entendimento e da sabedoria daquele homem, o que aconteceu de repente para que agora o chamem de louco? Teimosia e obstinação são uma coisa. Mas, na realidade, será que vocês creem em seus corações naquilo que dizem com a boca? Ele está advertindo vocês antes da chegada de um castigo severo. Será esse o crime pelo qual hoje o chamam de louco? Segundo vocês, sábio é aquele que, ao ver vocês caminhando para a destruição, diz: “Bravo! Estão fazendo um excelente trabalho”? E louco é aquele que os adverte antes que uma situação ruim lhes sobrevenha e lhes mostra o caminho da reforma e da correção em lugar da desordem e da corrupção? (40)

(Árabe*****************)

Será que dizem que este homem foi possuído por um jinn? (Al-Mu’minun: 70)

Isto é: será que a razão pela qual negavam o Profeta Muhammad (S.A.) era o fato de realmente o considerarem louco? Certamente, essa não era a verdadeira razão deles. Pois, por mais que dissessem com os lábios, em seu íntimo reconheciam sua sabedoria e discernimento. Além disso, a diferença entre um louco e uma pessoa de mente sã não é algo oculto, de modo que seja difícil distingui-los. Na realidade, além de uma pessoa obstinada e descarada, quem poderia ouvir este discurso e dizer: “Estas são palavras de um louco”? E, depois de observar a vida desse homem, quem poderia afirmar que se tratava da vida de uma pessoa mentalmente perturbada? Que estranha espécie de perturbação mental — ou, segundo os islamofóbicos ocidentais, epilepsia — seria essa, pela qual palavras grandiosas como o Alcorão saem da boca de tal pessoa, e ele lidera um movimento tão bem-sucedido que transforma o destino não apenas de seu próprio país, mas do mundo inteiro? (41)

(Árabe******************)

—Ó Profeta, pela graça de teu Senhor, não és louco. E, certamente, há para ti uma recompensa inesgotável. E, sem dúvida, foste agraciado com um caráter sublime. (Al-Qalam: 2–4)

É importante observar que, aqui, o destinatário aparente é o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Porém, o verdadeiro objetivo era responder às calúnias dos incrédulos. Portanto, ninguém deve imaginar que este versículo foi revelado para consolar o Profeta (que a paz esteja com ele), assegurando-lhe que ele não era louco. Na realidade, não havia na mente do Profeta qualquer dúvida desse tipo que precisasse ser removida por meio de consolação. O verdadeiro objetivo era dizer aos incrédulos: “O próprio Alcorão, por causa do qual vocês chamam de louco aquele que o apresenta, é a prova de que essa acusação de vocês é falsa.”

Naturalmente, o consolo oferecido ao Profeta (que a paz esteja com ele) dizia respeito ao fato de que ele teria uma recompensa inesgotável e incalculável. Pois, pelo esforço que empreendia para guiar a humanidade, era obrigado a ouvir palavras tão dolorosas. Mesmo assim, continuava cumprindo sua missão.

Em seguida, afirma-se que seu caráter sublime é uma prova clara de que a calúnia dos incrédulos e idólatras, ao acusá-lo de loucura, é completamente falsa. Pois a grandeza de caráter e a perturbação mental não podem coexistir. Louco é aquele cujo equilíbrio mental foi destruído e cujo temperamento também não conserva equilíbrio em sua natureza. Ao contrário, o caráter elevado e nobre de uma pessoa testemunha que ela possui mente sã e natureza equilibrada. Há equilíbrio entre sua mente, seu espírito e seu temperamento. Os habitantes de Meca não desconheciam como era o caráter do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Por isso, bastava fazer-lhes uma alusão para que toda pessoa consciente em Meca fosse obrigada a refletir sobre como eram desavergonhados ao chamar de louco alguém dotado de um caráter tão sublime. Essa insolência não era prejudicial ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), mas a eles próprios, pois, embriagados pela oposição cega, diziam sobre o Profeta (que a paz esteja com ele) coisas que nenhuma pessoa sensata poderia sequer imaginar. O mesmo ocorre com os que, na era moderna, reivindicam conhecimentos científicos e pesquisas intelectuais e acusam o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) de sofrer de epilepsia. O Sagrado Alcorão está disponível em todas as partes do mundo, e a biografia do Santo Profeta também está registrada em detalhes. Qualquer pessoa pode ver por si mesma que aqueles que chamam de mentalmente perturbado o apresentador deste Livro incomparável e alguém dotado de um caráter tão sublime, desorientados pelo ódio cego da hostilidade, proferem toda espécie de afirmações insolentes. (42)

(Árabe****************)

Acaso nunca refletiram? Não há qualquer vestígio de loucura em seu companheiro. Ele é apenas um admoestador claro. (Al-A’raf: 184)

“Companheiro” significa o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), pois ele nasceu entre os habitantes de Meca. Viveu entre eles. Passou da infância à juventude e da juventude à velhice. Antes da missão profética, toda a comunidade o conhecia como um homem de natureza sã e mente equilibrada. Depois da missão profética, quando começou a transmitir a mensagem de Deus, subitamente começaram a chamá-lo de louco. É importante observar que esse título de louco não foi aplicado às ações que ele praticava antes de se tornar profeta, mas somente às palavras cuja divulgação iniciou depois de sua missão profética. Por isso, pergunta-se: acaso eles alguma vez refletiram sobre tudo isso? Qual dessas palavras é uma declaração de um louco? Qual delas é injusta, incoerente e infundada? Se tivessem refletido sobre a organização dos céus e da Terra, ou observado com especial atenção e investigação alguma coisa criada por Deus, certamente saberiam que a ordem deste universo e cada átomo da criação de Deus testemunham a verdade daquilo que seu irmão — o Profeta Muhammad — lhes explicava sobre a refutação do politeísmo, o reconhecimento da unicidade de Deus, o convite à adoração de Deus e a responsabilidade e prestação de contas do ser humano. (43)

A acusação de ser poeta

Os incrédulos coraixitas também acusavam o Profeta (s.a.) de ser poeta, dizendo: «Por acaso abandonarei nossos deuses por causa das palavras de um poeta louco?» Em resposta, foi dito:

(Árabe**************)

— E os extraviados seguem os poetas. (Ash-Shu’ara: 224)

Isto é, as pessoas associadas aos poetas são, em seu caráter e comportamento, completamente diferentes daqueles que vedes junto do Profeta Muhammad (s.a.). A diferença entre os dois grupos é tão evidente que, à primeira vista, se pode perceber que tipo de pessoas são uns e que tipo são os outros. De um lado, vê-se extrema seriedade, cortesia, civilidade, honestidade e temor a Deus. Um senso de responsabilidade presente em cada palavra. Na conduta, a preservação dos direitos alheios. Nas ações, plena confiança e integridade. Quando abrem a boca, é somente para promover o bem e a prosperidade. Jamais lhes sai uma palavra má. Mais importante ainda: ao observá-los, percebe-se claramente que há em sua vida um objetivo puro, sagrado e grandioso, em cuja reflexão permanecem absortos dia e noite. Toda a sua vida é dedicada a um propósito sublime.

Do outro lado, a situação é esta: em algum lugar, discute-se a declaração de amor e o consumo de vinho, e os ouvintes aplaudem com entusiasmo. Em outro, a beleza de uma prostituta ou de uma mulher casada torna-se o tema da conversa, e os ouvintes desfrutam dela com avidez. Em algum lugar, narram-se histórias de relações sexuais, acendendo-se nos ouvintes o fogo do desejo. Em outro, fazem-se palhaçadas ou proferem-se palavras satíricas, e uma torrente de risos e brincadeiras se espalha por toda parte. Em algum lugar, zomba-se de alguém, e os ouvintes apreciam isso. Em outro, fazem-se elogios desmedidos a alguém, que são apoiados com aplausos. Em algum lugar, expressam-se ódio, ira e hostilidade contra alguém, incitando-se à vingança, e o fogo do rancor arde no coração dos ouvintes contra essa pessoa. Nessas reuniões, formam-se multidões enormes para ouvir as palavras dos poetas. Ao observar aqueles que seguem esses grandes poetas, ninguém pode deixar de pensar que são pessoas livres das restrições morais, arrastadas pela corrente dos desejos e paixões. São adoradores do prazer e do gozo, semelhantes a animais. Jamais lhes ocorre pensar se existe ou não um grande propósito para a vida dos seres humanos neste mundo. Se alguém não percebe a clara diferença entre esses dois grupos, é cego. E, depois de ver tudo isso, se disser, apenas com o propósito de depreciar a verdade, que Muhammad (s.a.) e seus companheiros são como os poetas e seus seguidores, então se deve dizer que eles ultrapassaram todos os limites na mentira. (44)

(Árabe****************)

— Não vedes que eles (os poetas) vagueiam, perdidos, por todos os vales? (Ash-Shu’ara: 225)

Isto é, não há um caminho específico sobre o qual reflitam e ao qual dediquem seu talento poético. Pelo contrário, os cavalos de seu reino mental vagueiam perdidos por todos os vales, como cavalos sem rédeas. Cada novo fluxo de desejos, aspirações, interesses e objetivos faz surgir de suas bocas um novo tema, sem que, ao pensarem sobre ele e o descreverem, deem qualquer atenção ao fato de saberem se suas palavras são corretas e verdadeiras. Às vezes surge uma onda de pensamentos, e então passam a falar de sabedoria e bons conselhos. Outras vezes surge uma segunda onda, e da mesma boca começa a jorrar o mel dos desejos e paixões mais obscenos e repugnantes. Quando se mostram satisfeitos com alguém, elevam-no aos céus; quando se desagradam de alguém, lançam-no às profundezas da terra. Não hesitam em conferir a um avarento a posição de Hatim, nem a um covarde e medroso a dignidade de Rustam e Alexandre, se houver algum interesse seu envolvido nisso. Pelo contrário, quando alguém lhes fere os sentimentos, não se envergonham de manchar sua vida pura, destruir sua honra e dignidade e até ridicularizar sua linhagem. Adoração a Deus e rebeldia contra Deus, materialismo e espiritualidade, nobreza de caráter e falta de caráter, pureza e sujeira e imundície, seriedade e infantilidade, bajulação e zombaria: tudo isso pode ser encontrado lado a lado nos poemas de um mesmo poeta. Como poderia entrar na mente de alguém familiarizado com essas características bem conhecidas dos poetas a ideia absurda de acusar de poeta o portador deste Alcorão? Contudo, suas palavras eram absolutamente ponderadas e claras. Seu caminho era claro e definido. Ele jamais proferiu uma única palavra afastando-se do chamado à verdade, à sinceridade e à bondade.

Em outro lugar do Alcorão, foi dito a respeito do Profeta (s.a.) que a composição de poesia não tinha qualquer compatibilidade com sua natureza e disposição.

(Árabe*****************)

Não lhe ensinamos poesia, nem isso lhe convém. (Yasin: 69)

Esta é uma verdade tão evidente que todos os que conheciam pessoalmente o Profeta Muhammad (s.a.) sabiam disso. Segundo relatos confiáveis, nenhum poema estava completamente guardado na memória do Mensageiro (s.a.). Às vezes, durante uma conversa, embora lhe saísse da boca algum belo verso de um poeta, ele o recitava de maneira inadequada ou alterava algumas de suas palavras.

Hazrat Hasan Basri (r.h.) disse que, certa vez, ao fazer um sermão, o Mensageiro (s.a.) recitou assim um poema de um poeta.

(Árabe**************)

Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse: “Ó Mensageiro de Deus! O verso da poesia é, na verdade, assim.”

(Árabe*************)

Certa vez, o Profeta (que a paz esteja com ele) perguntou a Abbas ibn Mirdas al-Sulami: “Foste tu que escreveste este poema?”

(Árabe*************)

Ele respondeu: “A última parte deve ser assim, e não daquele modo.”

(Árabe***********)

O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “O significado de ambas é o mesmo.”

Perguntaram a Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela) se o Profeta (que a paz esteja com ele) alguma vez usava poesia em seus sermões. Ela respondeu: “Ele não tinha aversão a coisa alguma mais do que à poesia. Contudo, às vezes recitava um ou dois versos do poeta dos Banu Qays. Mas recitava a última parte primeiro e a primeira parte por último.” Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) dizia: “Ó Mensageiro de Deus! Não é assim; deve ser deste modo.”

O Profeta (que a paz esteja com ele) dizia: “Meu irmão, eu não sou poeta, e compor poesia também não é minha tarefa.”

A literatura poética dos árabes era repleta de desejos e paixões sexuais, amor e romance, consumo de vinho, hostilidade e inimizade tribais, disputas e conflitos, ou orgulho e arrogância. Pouco se encontrava nela sobre religiosidade e bondade. Além disso, a mentira, o exagero, a calúnia, a zombaria, os elogios descabidos, a presunção, as brincadeiras e zombarias e as histórias mitológicas pagãs faziam parte dessa literatura poética. Por isso, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) fez o seguinte comentário sobre essa literatura poética:

(Árabe*****************)

É melhor que o ventre de qualquer um de vocês esteja cheio de pus do que cheio de poesia.

Contudo, quando um poema continha boas palavras, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) o elogiava. Ele dizia:

(Árabe*************)

Alguns poemas contêm sabedoria.

Ao ouvir a poesia de Umayya ibn Abi al-Salt, ele disse:

(Árabe**************)

Sua poesia é crente, mas seu coração é descrente.

Certa vez, um Companheiro recitou cerca de cem poemas excelentes para o Profeta (s.a.w.), e ele continuava dizendo: “Muito bem, que belo! Recite mais.” (45)

(Árabe*****************)

e diz aquilo que não faz. (Ash-Shu‘ara: 226)

Essa era outra característica dos poetas, que contrariava o método de ação do Profeta (s.a.w.). Aqueles que o conheciam sabiam que ele fazia o que dizia e dizia o que fazia. A harmonia entre suas palavras e seus atos era uma verdade tão evidente que ninguém na sociedade ao seu redor poderia negá-la. Por outro lado, quem não sabia que, no caso dos poetas, o que diziam era de uma maneira e o que faziam, de outra? Falariam de forma tão eloquente sobre generosidade que as pessoas pensariam que ninguém poderia ser mais magnânimo do que eles; mas, ao observar suas ações, veriam que eram extremamente avarentos. Falariam de bravura, mas seriam eles próprios covardes e medrosos. Falariam de independência, contentamento e dignidade, mas cairiam pessoalmente no nível mais baixo da ganância, da cobiça e da baixeza. Apontariam a menor fraqueza dos outros, mas estariam eles próprios envolvidos na mais extrema fraqueza. (46)

A incoerência nas acusações dos opositores e a contestação do Alcorão

Fica claro, pelo que foi relatado anteriormente, que os descrentes de Meca faziam acusações contraditórias contra o Profeta (s.a.w.) e não conseguiam especificar nenhuma acusação em particular. O Alcorão Sagrado identificou essa fraqueza deles e provou que ela era falsa.

(Árabe*******************)

(Portanto, ó Profeta!) Continua exortando. Por mercê do teu Senhor, não és adivinho nem louco. As pessoas dizem: “Será este um poeta, cuja derrota esperamos com o passar do tempo?” Dize-lhes: “Bem, esperai; eu também esperarei convosco.” Será que a consciência deles lhes ordena dizer coisas assim? Ou será que, na realidade, ultrapassaram todos os limites por causa da hostilidade? (At-Tur: 29-32)

Estas poucas frases desmascaram toda a propaganda dos opositores. O resumo do argumento é este: os chefes e líderes tribais coraixitas afirmam ser muito sensatos. Mas será que a consciência deles lhes diz para chamar de poeta alguém que não é poeta? Para chamar de louco alguém que toda a nação reconhece como sábio? Para chamar injustamente de adivinho alguém que não tem a mais remota relação com a adivinhação? Se em seus julgamentos se baseassem na razão e na consciência, poderiam emitir uma única sentença. Mas não poderiam emitir, ao mesmo tempo, tantas sentenças contraditórias. Como pode uma mesma pessoa ser, simultaneamente, poeta, louco e adivinho? Se é louco, não pode ser adivinho nem poeta. Se é adivinho, não pode ser poeta; e, se é poeta, não pode ser adivinho. Isso porque a linguagem da poesia e seu conteúdo são diferentes, assim como são diferentes a linguagem do adivinho e seu conteúdo. Chamar a mesma fala de poesia e, ao mesmo tempo, de palavras de um adivinho não pode ser atitude de quem conhece a diferença entre a poesia e as palavras do adivinho. Portanto, está claro que essas afirmações contraditórias, feitas contra o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), não são fruto de qualquer consideração sensata. Tudo isso é dito apenas por teimosia e obstinação. Os grandes chefes e líderes da nação fazem, por hostilidade, acusações inteiramente infundadas, às quais as pessoas sensatas não dão importância alguma. (47)

(Árabe******************)

(Ó Profeta!) Vê que tipo de coisas eles dizem contra ti! Eles se desviaram e não conseguem encontrar o caminho. (Bani Israel: 48)

Em outras palavras, eles não expressam uma única opinião a teu respeito; pelo contrário, dizem coisas completamente diferentes e contraditórias entre si. Às vezes dizem que tu mesmo és um feiticeiro. Outras vezes dizem que alguém lançou um feitiço sobre ti. Às vezes dizem que és poeta; outras, que és louco; e outras ainda, que és adivinho. Essas afirmações contraditórias constituem, por si mesmas, prova de que eles ignoram a realidade dos fatos. Caso contrário, em vez de dizerem uma coisa num dia e outra no dia seguinte, expressariam uma opinião clara. Além disso, também se percebe que não têm certeza sobre assunto algum. Depois de fazerem uma acusação, eles próprios acham que ela não está correta; então formulam outra acusação. (48)

(Árabe******************)

Quando a verdade lhes chegou, eles a rejeitaram completamente, declarando-a falsa. Por isso, agora estão mergulhados na dúvida e na confusão. (Qaf: 5)

Nesta breve frase é descrito um assunto de enorme importância. Seu sentido é que eles não se limitaram a expressar espanto e a declarar aquilo inconcebível; pelo contrário, quando o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) apresentou sua verdadeira mensagem, imediatamente o declararam mentiroso, sem qualquer hesitação. O resultado inevitável — e foi exatamente o que aconteceu — é que não conseguiram firmar uma opinião sobre essa mensagem nem sobre aquele que a apresentava. Às vezes o chamam de poeta, às vezes de louco e às vezes de adivinho. Em certas ocasiões dizem que ele próprio inventou tudo aquilo para estabelecer sua supremacia. Em outras, acusam-no de ter pessoas por trás dele que compõem essas coisas e as entregam a ele. Essas afirmações contraditórias provam que estavam confusos quanto à sua política e ao que deveriam fazer. Jamais teriam caído nessa confusão se, antes de declarar apressadamente e sem hesitação que o Profeta era mentiroso, tivessem refletido seriamente sobre quem estava apresentando aquela mensagem, o que dizia e quais argumentos apresentava. É certo que aquele homem não lhes era desconhecido. Ele não havia surgido de repente, vindo de algum lugar distante. Era um membro de sua própria nação, uma pessoa que eles mesmos haviam posto à prova. Seu caráter, seu comportamento e suas qualidades não lhes eram desconhecidos. Quando uma pessoa assim apresenta uma afirmação, pode ser que ela não deva ser aceita imediatamente, mas também não deveria ser rejeitada assim que fosse ouvida. Além disso, sua afirmação não era desprovida de provas e argumentos. Ele apresentava argumentos de maneira sistemática. Deveriam tê-los escutado e verificado até que ponto eram razoáveis. Porém, em vez de adotar essa atitude, quando, movidos pela teimosia, inicialmente consideraram aquilo falso, o resultado foi que fecharam, com as próprias mãos, a porta que conduzia à verdade e abriram numerosos caminhos para vagarem perdidos em todas as direções. Agora podem apresentar dez afirmações contraditórias em defesa de seu erro inicial, mas não estão dispostos sequer a considerar se o Profeta pode ser verdadeiro e se aquilo que ele apresenta pode ser a verdade. (49)

(Árabe*****************)

Ó Profeta, quando essas pessoas te veem, começam imediatamente a zombar de ti e dizem: “É este o homem a quem Deus enviou como Mensageiro?” Ele quase nos teria afastado de nossas divindades, se não tivéssemos permanecido firmes em nossa devoção e reverência a elas. (Alcorão: 41–42)

Essas duas afirmações dos incrédulos são contraditórias entre si. A primeira mostra que eles consideram o Profeta (que a paz esteja com ele) desprezível. Zombam dele e querem diminuir sua dignidade. Na opinião deles, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) fez uma reivindicação muito ousada.

A segunda afirmação revela que eles reconhecem a força de suas provas e argumentos e a superioridade de sua personalidade, confessando involuntariamente: “Se não tivéssemos permanecido firmes na adoração de nossos deuses, movidos pela hostilidade e pela obstinação, este homem teria nos feito abandonar o caminho.” Afirmações tão contraditórias demonstram por si mesmas o quanto o movimento islâmico os deixou desorientados. Embora humilhados, eles também zombam; e, ao mesmo tempo, seu complexo de inferioridade os faz proferir, contra a própria vontade, palavras que deixam claro quão profundamente foram influenciados por essa força. (50)

Exigências de diferentes tipos de milagres

Junto com a tempestade de acusações, os incrédulos de Quraysh repetidamente exigiam que fossem mostrados milagres. De fato, essas exigências são mencionadas em vários trechos do Alcorão, e suas respostas também são apresentadas.

(Árabe******************)

E disseram: “Não acreditaremos em ti enquanto não fizeres brotar uma fonte, abrindo a terra; ou enquanto não surgir para ti um jardim de tamareiras e videiras, fazendo nele correr fontes; ou enquanto não fizeres o céu cair sobre nós em pedaços, como afirmas; ou enquanto não trouxeres Deus e os anjos diante de nós, face a face; ou enquanto não tiveres uma casa de ouro; ou enquanto não subires ao céu — e não acreditaremos na tua ascensão até que tragas para nós um escrito que possamos ler.” (Ó Profeta,) dize: “Glorificado seja o meu Senhor! Não sou eu senão um mensageiro portador de uma mensagem?” (Bani Isra’il: 90–93)

A resposta à exigência de um milagre nesta surata é este versículo — (Árabe**************)

Foi dada. [A resposta era que, quando um povo considera falso um profeta mesmo depois de ver todos os milagres apresentados como prova de sua profecia, o castigo necessariamente desce sobre ele. Há muitos exemplos disso na história. Agora, é uma misericórdia de Allah que Ele não esteja enviando tal milagre. Mas vocês são tão insensatos que o exigem. — Autor] Aqui é dada a segunda resposta a essa exigência. A eloquência dessa breve resposta está acima de todo louvor. A exigência dos opositores era: se você é um profeta, olhe para a terra e, imediatamente, que ela se fenda e dela brote uma fonte. Ou então que, de imediato, surja um jardim verdejante, novo e exuberante, com fontes correndo por ele. Aponte para o céu, e que o céu caia sobre aqueles que o consideram mentiroso. Sopre uma vez, e que, num piscar de olhos, seja construído um palácio de ouro. Dê uma voz, e que Deus e os anjos apareçam imediatamente diante de nós e digam que foram eles que enviaram Muhammad como profeta. Ou suba ao céu diante dos nossos olhos e traga de Allah uma carta em nosso nome, que possamos tocar com as mãos e ver com os próprios olhos.

A uma exigência tão extensa foi dada apenas esta resposta: “Ó grupo de tolos! Eu alguma vez reivindiquei ser Deus, para que me façam exigências como essas? Quando lhes disse que sou todo-poderoso? Quando disse que a terra e o céu funcionam sob o meu comando? Minha reivindicação, do começo ao fim, foi apenas esta: sou um ser humano e um mensageiro da parte de Deus. Se querem me avaliar, avaliem a minha mensagem. Se querem crer, creiam vendo a verdade e a racionalidade dessa mensagem. Se querem negar, mostrem os erros e defeitos dessa mensagem. Se querem certificar-se da minha veracidade, observem minha vida e minhas ações como ser humano. Em vez disso, que exigência é essa que me fazem: que eu fenda a terra e faça o céu descer? Que relação essas coisas têm com a profecia?” (51)

(Árabe****************)

Essas pessoas dizem: “Por que não foram enviados sinais (milagres) a este homem?” Ó Profeta, dize: “Os sinais estão somente junto de Allah, e eu sou apenas um admoestador manifesto.” Não lhes basta como sinal o fato de termos feito descer sobre ti o Livro, que lhes é recitado? Na verdade, nele há misericórdia e admoestação para aqueles que creem. (Al-Ankabut: 50–51)

Isto é: não é acaso um grande milagre, por si só, o fato de um Livro grandioso como o Alcorão ter sido revelado ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), apesar de ele ser iletrado, de modo que crer em sua missão profética já seja suficiente?

Depois disso, resta ainda alguma necessidade de outro milagre? Para aqueles que haviam visto os milagres anteriores, eles eram de fato milagres. Mas este milagre está continuamente diante dos seus olhos. Todos os dias ele lhes é recitado. Vocês podem vê-lo o tempo todo. (52)

(Árabe******************)

Mas cada um deles deseja que lhe seja enviada publicamente uma carta em seu nome. Nunca! A verdadeira razão é que eles não temem a Vida Futura. Nunca! Isto é apenas uma admoestação. Portanto, quem quiser, que tire disso uma lição. (Al-Muddassir: 52-55)

Isto é, eles dizem: se Allah Ta’ala realmente tivesse nomeado Muhammad (s.a.w.) como profeta, então deveria escrever uma carta a cada chefe e líder tribal de Meca, dizendo: “Muhammad (s.a.w.) é o nosso profeta. Reconhecei a sua autoridade e obedecei-lhe.” E essa carta deveria ser de tal natureza que, ao vê-la, nascesse a certeza de que o próprio Allah Ta’ala a havia escrito e enviado.

Em outro lugar do Alcorão, é citada esta declaração dos incrédulos de Meca: “Não creremos enquanto não nos for concedido pessoalmente aquilo que foi concedido aos mensageiros de Allah.” (Al-An’am: 124) [Na Surata Al-An’am, foi dada uma resposta breve a isso—

(Árabe***************)

Allah sabe melhor quem Ele escolherá e de que maneira fará dele alguém encarregado da missão profética. (Autor)]

Em outro lugar, é citada esta exigência deles: “Sobe ao céu diante de nós e traz de lá um livro escrito, que possamos ler.”(Árabe**************)

Foi respondido que essa exigência deles jamais seria atendida. A verdadeira razão pela qual não creem não é, de modo algum, o fato de suas exigências não serem atendidas. Pelo contrário, a verdadeira razão é que eles não temem a Vida Futura. Eles consideram este mundo como tudo o que existe. Não têm a convicção de que, depois da vida terrena, existe outra vida na qual terão de prestar contas de seus atos. É isso que os tornou imprudentes e irresponsáveis neste mundo. Consideram inteiramente sem sentido a questão da verdade e da falsidade. Isso porque não veem neste mundo nenhuma verdade cujo seguimento necessariamente produza um bom resultado. Tampouco veem alguma falsidade cuja consequência neste mundo seja necessariamente má. Por isso, consideram inútil refletir sobre o que é a verdadeira verdade e o que é a falsidade. Esse assunto só será digno de reflexão para aqueles que consideram a vida presente deste mundo uma vida temporária e reconhecem que a vida verdadeira e eterna é a vida futura, na qual a consequência da verdade será necessariamente boa e a consequência da falsidade será necessariamente má. Essas pessoas, ao verem as provas racionais e as grandes lições que o Alcorão apresenta, certamente crerão: o que há de realmente errado nas crenças, convicções e ações que o Alcorão declara serem falsas? Mas aquele que nega a Vida Futura e não tem o menor interesse em buscar a verdade apresentará diariamente novas exigências como desculpa para não crer. Mesmo que alguma de suas exigências seja atendida, procurará outra desculpa para continuar negando. É precisamente isso que foi dito na Surata Al-An’am: “Ó Profeta, mesmo que fizéssemos descer sobre vós um livro escrito em papel e as pessoas o tocassem com as próprias mãos, aqueles que negaram a verdade diriam: ‘Isto não passa de uma magia evidente.’” (Al-An’am: 7) (53)

(Árabe*******************)

—Eles dizem: “Por que não foi enviado um anjo para este profeta?” E, se tivéssemos enviado um anjo, o assunto já teria sido decidido em todos os aspectos e nenhum prazo lhes teria sido concedido. E, mesmo que tivéssemos enviado um anjo, tê-lo-íamos enviado na forma humana; assim, tê-los-íamos lançado na mesma dúvida em que agora estão envolvidos. (Al-An’am: 8-9)

A afirmação deles era a seguinte: já que este homem foi enviado como profeta, deveria ter descido do céu um anjo, que dissesse às pessoas: “Ele é o profeta de Deus. Escutai-o; caso contrário, sereis punidos.” Aos acusadores ignorantes parecia algo extraordinário que o Criador dos céus e da terra nomeasse alguém como profeta e depois o deixasse exposto às pedras e aos insultos de homens tão indefesos. Mesmo que o mensageiro de um rei tão poderoso não viesse acompanhado de um grande grupo, ao menos um anjo deveria vir como seu arauto, protegê-lo, conferir influência à sua personalidade, garantir o êxito de sua missão e realizar suas tarefas de maneira sobrenatural.

A primeira resposta dada foi que, se um anjo tivesse sido enviado em sua forma real, teria chegado o momento de proclamar a decisão, e então nenhum prazo mais seria concedido. O prazo que vos foi concedido para crer e corrigir a vossa conduta permanecerá enquanto a verdade real estiver oculta por trás do véu do invisível. Porém, quando o véu do invisível for levantado, não haverá mais possibilidade de prazo. Restará apenas a prestação de contas. Isso se deve ao fato de que a vida terrena é um período de prova para vós, e a prova consiste em verificar se sois capazes de perceber a verdade real sem vê-la, mediante o uso correto da razão e do pensamento; e, depois de percebê-la, se sois capazes de dominar os vossos impulsos e desejos e manter as vossas ações corretas de acordo com essa verdade. Para essa prova, a ocultação do invisível é uma condição indispensável. A vossa vida terrena — o prazo concedido para a prova — continuará apenas enquanto o invisível permanecer oculto. Quando o invisível assumir forma manifesta, esse prazo necessariamente terminará, e chegará o momento de anunciar o resultado da prova, em vez de realizar a prova. Por isso, em resposta à vossa exigência, não é possível que se queira pôr fim, diante de vós, ao período da vossa prova.

Depois, foi dada uma segunda resposta: se o anjo viesse em forma humana, despertaria em vós a mesma dúvida que agora surge a respeito do profeta. É claro que uma forma da vinda dos anjos poderia ser que eles se manifestassem diante das pessoas em sua verdadeira forma invisível. Mas já foi dito acima que esse momento ainda não chegou. Resta, portanto, a segunda possibilidade: eles viriam assumindo forma humana. A esse respeito, é dito que, se viessem assumindo forma humana, também surgiria em vós a mesma dúvida quanto a terem sido enviados por Deus que agora surge acerca de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por ter sido enviado por Allah. (54)

(Árabe***************)

Essas pessoas dizem: “Por que nenhum sinal — um milagre perceptível — foi enviado a este profeta por seu Senhor?” Dize-lhes: “Allah tem pleno poder para enviar sinais.” Mas a maioria deles permanece na ignorância. Observa qualquer animal que se mova sobre a terra e qualquer ave que voe no espaço com as asas: todos são criaturas como vós. Nada deixamos de registrar no decreto de seu destino. Depois, todos serão reunidos diante de seu Senhor. Mas aqueles que negam os Nossos sinais são surdos e mudos, imersos nas trevas. (Al-An’am: 37-39)

O significado desta declaração é que o fato de não serem mostrados milagres não significa que Allah não tenha poder para mostrá-los. Ao contrário, há outra razão, que não conseguis compreender por causa da vossa ignorância. Se não desejais simplesmente divertir-vos e fazer brincadeiras, mas realmente quereis ver um sinal para saber se é verdadeira a mensagem para a qual o profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) vos convoca, então abri os olhos e observai: há inúmeros sinais ao vosso redor. Refleti sobre a vida de qualquer animal da terra ou de qualquer ave que voa no espaço. Observai como a sua estrutura foi formada de modo adequado às suas condições. Observai como, em seus instintos naturais, lhe foram concedidas forças conforme as suas necessidades naturais. Observai como lhe é provido o sustento. Observai como lhe foi determinado um destino cujos limites ele não pode ultrapassar nem para a frente nem para trás. Observai como cada animal, até o menor dos insetos, recebe no seu próprio lugar o cuidado apropriado; como é observado, mantido e guiado. Observai como se obtém deles trabalho de acordo com um plano determinado. Observai como são mantidos sob um sistema ordenado e como o seu nascimento, a sua reprodução e a sua morte seguem uma sequência perfeitamente regulada. Se refletirdes sobre apenas um dos inúmeros sinais de Allah, sabereis que a concepção da unicidade de Allah e de Seus atributos que este profeta vos apresenta, bem como a visão de vida no mundo segundo essa concepção, para a qual ele vos convoca, é a verdade absolutamente decisiva. Mas não abris os olhos para ver, nem quereis ouvir o que quer que seja de alguém. Permaneceis nas trevas da ingratidão e desejais que vos distraiam mostrando-vos as maravilhas da natureza. (55)

(Árabe***************)

E o que aconteceria se o Alcorão tivesse sido revelado de tal modo que, por meio dele, as montanhas começassem a mover-se, a terra se fendesse ou os mortos saíssem das sepulturas e começassem a falar? (Ar-Ra‘d: 31)

Para compreender o sentido deste versículo, deve-se ter em mente que o discurso aqui não é dirigido aos incrédulos, mas aos muçulmanos. Quando ouviam repetidamente, da parte dos incrédulos, exigências para que fossem mostrados sinais, sentiam em seu íntimo esta inquietação: “Ah, se lhes fosse mostrado algum sinal por meio do qual pudessem ficar tranquilos!” Depois, quando pensavam que, por não terem surgido sinais desse tipo, os incrédulos estavam tendo a oportunidade de criar dúvidas na mente das pessoas sobre a missão do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sua inquietação aumentava ainda mais. Por isso, foi dito aos muçulmanos: se, juntamente com alguma sura do Alcorão, sinais extraordinários como esses lhes fossem subitamente mostrados, vocês acham que essas pessoas acreditariam? Vocês têm delas uma opinião tão boa, como se estivessem inteiramente prontas para aceitar a verdade e lhes faltasse apenas um sinal? Aqueles que não conseguiram ver a luz da verdade nos ensinamentos do Alcorão, nos sinais do mundo natural, na vida pura e santa do Profeta e na vida revolucionária dos companheiros do Profeta, vocês acham que obteriam alguma luz ao ver as montanhas moverem-se, a terra fender-se e um morto sair da sepultura? (65)

A prova clara da missão profética do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Cada uma das acusações desse tipo feitas pelos incrédulos contra o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), bem como cada uma de suas exigências para que fossem mostrados milagres como prova, recebeu uma resposta extremamente justa. Depois disso, não restou oportunidade para que alguém pudesse, com razão, inteligência e provas, lançar dúvidas sobre a missão profética. Em seguida, foram apresentadas três provas tão claras a favor da missão profética que os habitantes de Meca e de seus arredores não puderam negá-las. Sua exposição ordenada será apresentada a seguir.

(Árabe**************)

Ó Profeta! Antes disso, tu não lias livro algum nem escrevias com tua própria mão. Se assim fosse, os seguidores da falsidade poderiam ter alimentado dúvidas. (Al-‘Ankabut: 48)

A base da prova apresentada neste versículo é que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era iletrado. Seus compatriotas, vizinhos e parentes, diante dos quais toda a sua vida, desde a infância até a velhice, havia transcorrido, sabiam muito bem que ele jamais lera qualquer livro em sua vida, nem sequer tomara uma caneta nas mãos. Apresentando este fato, Allah, o Altíssimo, afirma que ele constitui a prova mais evidente de que os ensinamentos dos Livros celestiais, as condições dos profetas anteriores, as diferentes crenças e doutrinas religiosas, a história, a civilização, a moralidade das nações antigas e as importantes questões da economia estavam saindo da boca desse homem iletrado com um conhecimento amplo e profundo; e que ele não poderia ter adquirido esse conhecimento por nenhum outro meio senão pela revelação. Se ele tivesse conhecimento de leitura e escrita, e as pessoas alguma vez o tivessem visto lendo e estudando livros, os seguidores da falsidade teriam algum fundamento para suspeitar que esse conhecimento não lhe fora concedido pela revelação, mas fora adquirido por estudo e esforço. Porém, seu analfabetismo não deixou sequer o menor fundamento para qualquer dúvida. Assim, além da extrema obstinação, não há nenhuma razão para negar sua missão profética que possa ser considerada justificável sob qualquer aspecto. (57)

(Árabe******************)

Ó Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dize-lhes: Se fosse vontade de Allah que eu não fosse feito profeta, eu jamais vos recitaria este Alcorão, e Ele tampouco vos daria qualquer notícia a seu respeito. Antes disso, vivi uma vida inteira entre vós. Acaso não usareis um pouco de razão e entendimento? (Yunus: 16)

Este é um argumento poderoso para refutar a concepção dos incrédulos de Meca de que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) compôs o Alcorão por sua própria mente e o atribuiu a Deus; ao mesmo tempo, apoia a afirmação do Profeta de que ele próprio não é seu autor, mas que o recebeu de Deus por meio da revelação. Mesmo que se deixem de lado todas as demais provas e argumentos, a vida do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava diante deles. Antes da profecia, ele havia passado quarenta anos completos entre eles. Nascera na própria cidade deles. Diante de seus olhos, passara a infância, entrara na juventude e chegara à maturidade. Moradia, encontros, transações, casamento — em suma, todas as formas de relações sociais eram mantidas com eles. Nenhum aspecto de sua vida lhes era oculto. Que testemunho poderia ser mais claro do que aquilo que conheciam, compreendiam e haviam observado tão de perto?

Duas coisas na vida do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) eram tão claras que todos os habitantes de Meca as conheciam. A primeira era que, durante os quarenta anos completos de sua vida antes da profecia, ele não recebera qualquer educação ou companhia das quais pudesse ter adquirido esses conhecimentos, e de cuja fonte esse fluxo de conhecimento tivesse subitamente começado a jorrar de seus lábios junto com a reivindicação da profecia. Nas suratas que iam sendo continuamente reveladas pelo Alcorão, tratavam-se agora de assuntos sobre os quais nunca se vira anteriormente que ele demonstrasse interesse, conversasse ou expressasse opinião. Além disso, durante todos esses quarenta anos, nem mesmo seus amigos mais íntimos ou parentes mais próximos haviam percebido, em suas palavras ou em seu modo de viver, algo que pudesse ser considerado uma preparação para o grande convite que ele começou a apresentar subitamente aos quarenta anos. Isso era uma prova clara de que o Alcorão não era fruto de sua própria imaginação nem algo inventado por ele; era, antes, algo que penetrara em seu coração vindo de fora. Com efeito, a mente humana não pode apresentar, em qualquer fase de sua vida, algo cujos sinais claros de crescimento e desenvolvimento não possam ser encontrados nas fases anteriores. Por isso, quando alguns astutos habitantes de Meca perceberam por si mesmos que considerar o Alcorão fruto da mente do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era uma acusação absolutamente absurda, finalmente começaram a dizer que havia outra pessoa que ensinava essas palavras a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Mas essa segunda afirmação era ainda mais sem sentido que a primeira. Pois não havia em toda a Arábia — quanto menos em Meca — pessoa alguma tão capacitada a quem se pudesse apontar e dizer: ‘Este homem é, ou poderia ser, o autor dessas palavras.’ Como alguém dotado de tal capacidade poderia permanecer oculto na sociedade?

O segundo aspecto particularmente notável de sua vida anterior era que nele não se encontrava o menor vestígio de qualquer traço de caráter como mentira, engano, fraude, trapaça ou astúcia. Não havia ninguém na sociedade que pudesse dizer ter experimentado qualquer comportamento desse tipo nele durante os quarenta anos em que viveram juntos. Pelo contrário, todos aqueles com quem ele teve contato o conheciam como um homem extremamente veraz, íntegro, confiável e digno de confiança. Ora, seria possível supor que um homem que, ao longo de toda a sua vida, jamais recorrera à mentira, ao engano ou à fraude, nem mesmo em assuntos insignificantes, de repente se levantasse brandindo uma mentira tão grandiosa e uma fraude tão descarada, inventasse algo de sua própria mente e passasse a atribuí-lo insistentemente a Deus? Foi com base nisso que Allah disse, em resposta à acusação absurda deles: Dize-lhes: ‘Ó servos de Allah! Usai um pouco de razão e bom senso. Eu não sou um desconhecido vindo de fora; pelo contrário, vivi anteriormente uma vida inteira entre vós. Depois de conhecerdes minha vida anterior, como podeis esperar que eu vos apresentasse este Alcorão sem a ordem e o ensinamento de Deus?’ (58)

(Árabe***************)

Ó Profeta, tu jamais esperavas que o Livro te fosse revelado. Isto não é senão uma misericórdia de teu Senhor, pela qual ele te foi revelado. (Al-Qasas: 86)

Há ainda outro argumento apresentado em favor da profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Moisés (que a paz esteja sobre ele) estava completamente alheio ao fato de que seria feito profeta; quanto a ser incumbido de uma missão grandiosa e sublime, não apenas não tinha qualquer desejo ou aspiração em seu coração, como jamais sequer imaginara isso. Então, de repente, enquanto caminhava, foi atraído para perto, feito profeta e encarregado de realizar obras extraordinárias, que não tinham qualquer relação com sua vida anterior. Exatamente assim foi o caso do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Os habitantes de Meca sabiam por si mesmos como era sua vida até o dia anterior àquele em que ele desceu da caverna de Hira trazendo a mensagem da profecia. Sabiam qual era seu trabalho e profissão, quais eram suas conversas, os assuntos que discutia e a natureza de seus interesses, inclinações e atividades. Toda a sua vida era repleta de honestidade, fidelidade e pureza. Nela destacavam-se extraordinariamente a nobreza e a dignidade, o amor à paz, o cumprimento das promessas, a defesa dos direitos e o desejo de servir ao povo. Contudo, não havia nele nada com base no qual se pudesse supor que aquele grande homem surgiria reivindicando a profecia. Entre seus parentes, vizinhos e amigos, ou entre aqueles que mantinham relações próximas com ele, ninguém poderia dizer que desde o início ele se preparava para ser profeta. Depois daquele momento revolucionário na caverna de Hira, começaram de repente a sair de sua boca assuntos e problemas sobre os quais ninguém jamais ouvira dele sequer uma palavra. Ninguém o ouvira usar aquela linguagem singular, aquelas palavras e aqueles termos que as pessoas passaram a ouvir dele sob a forma do Alcorão. Ele nunca se levantara para fazer um sermão, nem saíra a campo com qualquer convite ou movimento; pelo contrário, nenhuma de suas atividades permitia sequer supor que estivesse pensando em resolver problemas sociais ou empreender alguma reforma religiosa ou moral. Até o dia anterior àquele momento revolucionário, sua vida parecia ser a de um comerciante que ganhava o sustento por meios simples e lícitos. Vivia alegremente com os próprios filhos, recebia bem os hóspedes, ajudava os pobres e tratava benevolentemente os parentes. Às vezes, retirava-se para um lugar isolado a fim de adorar. Que uma pessoa assim surgisse de repente com discursos capazes de provocar uma convulsão, iniciasse um chamado revolucionário, criasse uma literatura inédita e se apresentasse com uma visão permanente da vida, um sistema de pensamento, uma moralidade e uma civilização — tal mudança e revolução, do ponto de vista da psicologia humana, não poderia de modo algum resultar de artifício, preparação ou esforço deliberado. Isso porque toda tentativa e preparação desse tipo atravessa etapas de desenvolvimento, e essas etapas não permanecem ocultas daqueles entre os quais a pessoa passa sua vida dia e noite. Se a vida do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tivesse atravessado essas etapas, dezenas de milhares de vozes em Meca teriam dito: “Nós não dizíamos que um dia esse homem acabaria fazendo uma grande reivindicação?” Mas a história testemunha que os incrédulos de Meca fizeram contra ele todo tipo de acusação; contudo, não houve sequer uma pessoa que apresentasse a última acusação.

Além disso, a prova de que ele não desejava nem esperava ser profeta, mas se viu subitamente diante dessa condição sem o saber, encontra-se no episódio narrado nos livros de hadith a respeito do início da revelação. Sua descrição já foi apresentada anteriormente no capítulo intitulado “O início da missão profética”; por isso, considero desnecessário repeti-la aqui. (59)

 

Terceiro parágrafo

O chamado à fé no Alcorão como a Palavra de Allah

O terceiro princípio fundamental do chamado islâmico é que as pessoas reconheçam o Sagrado Alcorão como o Livro de Allah. Devem aceitar cada uma de suas palavras como verdadeira e proveniente de Allah. Devem considerar como lei fundamental para suas próprias vidas todos os ensinamentos nele transmitidos sobre crença, pensamento, moralidade, adoração e conduta. Devem rejeitar tudo aquilo que contrarie sua orientação. É igualmente indispensável crer, como parte dessa crença, que o Alcorão é, letra por letra, a Palavra de Allah, revelada ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por meio da revelação. Não foi apenas o seu significado que foi gravado em seu coração, para que ele o expressasse em sua própria língua e com suas próprias palavras. Pelo contrário, o que ocorreu foi que as palavras nas quais este Livro foi revelado ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram preservadas exatamente nessa mesma sequência de palavras. Nenhuma alteração foi feita nele, nada foi acrescentado ou retirado. E a falsidade não encontrará nele caminho algum para penetrar. Além disso, por ser diretamente uma dádiva de Allah, o Senhor dos mundos, ele possui autoridade até mesmo sobre o próprio Mensageiro. Embora tenha vindo por intermédio do Mensageiro, o Mensageiro está sujeito a ele. Foi-lhe ordenado obedecer-lhe. Ele não tem o direito de acrescentar-lhe ou retirar-lhe nada. Pelo contrário, sua função é ser aquele que mais e antes de todos deve segui-lo e estabelecer a religião — isto é, o sistema completo de vida — de acordo com o propósito deste Discurso Divino.

Essa crença fortaleceu ainda mais a revolução que o Islã pretendia realizar. Isso porque havia sido fornecido, da parte de Allah, um Livro eterno, no qual o próprio Allah havia declarado claramente, em Sua própria linguagem, o que é a verdade e o que é a falsidade. Assim, em todas as épocas, as pessoas podem recorrer a ele para saber o que devem e o que não devem fazer a fim de obter a satisfação de seu Senhor. Fazer de um homem um Mensageiro, revelar juntamente com ele um Livro e ordenar às pessoas que creiam em ambos e sigam ambos significa que, onde quer que essa fé e obediência sejam praticadas entre as pessoas e na sociedade, desaparecerá a liberdade da arbitrariedade. O indivíduo, como indivíduo, e a sociedade, como um todo, ficarão submetidos a um guia e a um livro de leis. Mesmo depois que o guia partir deste mundo, o livro de leis — o Alcorão — permanecerá para sempre no mundo, declarando quais atos Allah Todo-Poderoso ordenou e quais proibiu. A Sunnah do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que permanecerá depois dele — e que, segundo a perspectiva corânica, é a explicação oficial e confiável do Discurso Divino — não deixará espaço para que os escravos de suas paixões ou os adeptos de outras filosofias de vida continuem interpretando falsamente o livro de leis.

Esta breve exposição deixa claro por que era necessário, desde o início da proclamação islâmica, chamar as pessoas, juntamente com o tawhid e a missão profética de Muhammad, a crer no Alcorão e aceitá-lo como a Palavra de Allah, bem como qual era a importância disso. Agora descreveremos detalhadamente que posição foi atribuída ao Alcorão quando ele foi apresentado e que provas e argumentos vigorosos foram apresentados, diante daqueles que se recusavam a aceitar este Livro, de que o Alcorão é a Palavra de Allah.

O Alcorão é a Palavra de Allah, e cada uma de suas palavras foi revelada ao Profeta

Esta era a afirmação inicial, que foi exposta no Alcorão com tamanha ênfase e em tal extensão que não é possível citar aqui todos os versículos sobre o assunto. Em nenhum lugar do Alcorão há sequer uma palavra que possa suscitar a suspeita de que este seja um discurso do próprio profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). O Livro inteiro é apresentado como a revelação enviada por Deus. A título de exemplo, citam-se abaixo alguns versículos.

(Árabe*****************)

E, ó Muhammad (que a paz esteja com ele), enviamos-te este Livro com a verdade; ele confirma e preserva a autenticidade de tudo o que, entre os Livros celestiais, veio antes e ainda existe. Portanto, julga entre eles de acordo com o que Allah revelou. E não sigas os desejos das pessoas, afastando-te daquilo que te chegou da verdade. (Al-Ma’idah: 48)

Neste versículo não se afirma claramente apenas que Allah revelou este Livro ao profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), trazendo corretamente a verdade; acrescentam-se ainda duas outras afirmações. A primeira é que ele confirma a autenticidade de tudo o que existe, em sua forma genuína e correta, nos Livros revelados anteriormente. A segunda é que ele preserva esses Livros; isto é, incorporou e preservou nele os ensinamentos verdadeiros que havia neles. Depois, por meio deste Livro, foram filtradas e separadas as afirmações contrárias à verdade que haviam sido incluídas neles.

(Árabe****************)

E revelamos este Alcorão com a verdade, e foi com a verdade que ele foi revelado. Além disso, não te enviamos como Mensageiro para outra finalidade senão para anunciar boas-novas a quem o aceitar e advertir quem não o aceitar. (Al-Isra: 105)

(Árabe****************)

E recita o Livro do teu Senhor que te foi revelado. (Al-Kahf: 27)

(Árabe*******************)

Ó Muhammad (que a paz esteja com ele)! Nós te revelamos este Livro com a verdade para a humanidade. Portanto, quem aceitar a orientação o fará para seu próprio bem. E quem se desviar terá de sofrer as consequências disso. Tu não és responsável por ele. (Zumar: 41)

(Árabe*****************)

E assim, ó Profeta, revelamos a ti o Alcorão em língua árabe, para que advirtas a mãe das cidades (Meca) e os que vivem ao seu redor. (Xura: 7)

Árabe

Este Livro foi revelado por Allah, o Todo-Poderoso, o Misericordioso. (Ahqaf: 1)

(Árabe****************)

Este é um Livro abençoado que Nós te revelamos, ó Muhammad (que a paz esteja com ele), para que as pessoas reflitam sobre ele e para que os ponderados e sensatos aprendam com ele. (Sad: 29)

(Árabe******************)

E, ó Muhammad (s.a.), certamente estás recebendo este Alcorão da parte de um Ser Sábio e Onisciente. (An-Naml: 6)

(Árabe******************)

E, certamente, ele foi revelado pelo Senhor dos mundos. Um Espírito Fiel desceu com ele ao teu coração — aqui, por “Espírito Fiel” entende-se Jibril (a.s.), que vinha ao Profeta Muhammad (s.a.) com o Alcorão. Em vez de mencionar seu nome, foram usadas as palavras “Espírito Fiel”. O objetivo é afirmar que ele é um espírito puro, uma entidade incorpórea, tão fiel e digno de confiança que transmite ao Profeta exatamente como lhe é revelada por Allah Ta’ala a revelação, sem qualquer acréscimo ou diminuição — autor. — para que, ó Muhammad (s.a.), te tornes um dos admoestadores — os profetas que advertem a humanidade — em língua árabe clara. (Ash-Shu’ara: 192–195)

(Árabe******************)

— Ó Profeta, não movas a língua para memorizar rapidamente esta revelação. Cabe a Mim fazer-te recordá-la e recitá-la. Portanto, quando Eu a recitar, escuta atentamente a recitação. E cabe também a Mim explicar-te o seu significado. (Al-Qiyamah: 16–19)

Esses versículos não deixavam claro apenas que todo este Livro havia sido revelado por Allah a Muhammad (s.a.) por meio da revelação; os dois últimos versículos deixam absolutamente claro, além disso, que não foi somente o seu significado que foi desvelado no coração do Mensageiro (s.a.), para que ele o expressasse em suas próprias palavras, mas que também as suas palavras foram reveladas por Allah. O fato de o Espírito Fiel — Jibril (a.s.) — ter descido da parte do Senhor dos mundos com a revelação em língua árabe e a ter recitado diante do Mensageiro (s.a.); o esforço do Profeta para memorizá-la rapidamente; e as palavras de Allah Ta’ala: “Não te esforces para memorizá-la; ao contrário, quando ela for recitada, escuta-a. Depois, fazer-te recordá-la, recitá-la e explicar-te o seu significado — tudo isso é Nossa responsabilidade”— só fazem sentido quando também as palavras da revelação são reveladas por Allah. Caso contrário, se no coração do Profeta tivessem surgido apenas significados e ideias, não haveria sentido algum em recitá-las, ouvi-las, recordá-las ou em serem reveladas em língua árabe.

O Mensageiro de Allah (s.a.) também foi ordenado a seguir o Alcorão

No Alcorão também foi claramente declarado que o Mensageiro de Allah (s.a.) está sujeito às determinações do Alcorão. Foi-lhe ordenado que as cumprisse. Ele não tem o direito de fazer qualquer alteração nele e está sujeito às suas determinações. Foi-lhe ordenado que as cumprisse. Ele não tem o direito de fazer qualquer alteração nele nem de acrescentar ou retirar coisa alguma.

(Árabe******************)

E, ó Muhammad (s.a.), segue tudo o que te foi revelado por teu Senhor. Allah está bem informado sobre o que fazeis. (Ahzab: 2)

(Árabe***************)

Ó Muhammad (s.a.), segue tudo o que te foi revelado por teu Senhor. Não há divindade além d’Ele e afasta-te dos idólatras. (An’am: 106)

(Árabe*******************)

— Ó Muhammad (s.a.)! Diz-lhes: “Eu sigo apenas a revelação que me é enviada e não sou senão um claro admoestador.” (Ahqaf: 9)

(Árabe******************)

E quando não apresentas nenhum sinal (milagre) diante dessas pessoas, elas dizem: “Por que não escolheste algum sinal para ti mesmo?” Dize-lhes: “Eu sigo apenas a revelação que me foi enviada pelo meu Senhor.” Este (versículo do Alcorão) é uma luz de discernimento proveniente do teu Senhor, e orientação e misericórdia para aqueles que creem n’Ele. (Al-A‘raf: 203)

Isto é, não é minha tarefa descobrir ou fabricar por mim mesmo e apresentar qualquer coisa que seja exigida ou cuja necessidade eu próprio sinta. Sou apenas um Mensageiro, e minha tarefa consiste unicamente em agir de acordo com a orientação d’Aquele que me enviou. Em vez de um milagre, Aquele que me enviou trouxe-me isto: o Alcorão. Nele há uma luz de discernimento, e sua característica mais notável é que aqueles que o aceitam encontram o caminho correto na vida, e os sinais da misericórdia de Allah tornam-se evidentes em seu belo caráter e comportamento.

(Árabe******************)

E quando lhes são recitados os Nossos versículos claros, aqueles que não esperam encontrar-se Conosco na Vida Futura dizem: “Traz outro Alcorão além deste, ou modifica alguma parte dele.” Dize-lhes, ó Muhammad: “Não tenho autoridade para modificá-lo por minha própria iniciativa. Sigo apenas a revelação que me é enviada. Se desobedecer ao meu Senhor, temo o castigo de um dia terrível.” (Yunus: 15)

(Árabe******************)

E se este Profeta tivesse inventado algo por sua própria conta e o atribuído a Nós, tê-lo-íamos agarrado pela mão direita e cortado a veia do seu pescoço; então nenhum de vós poderia impedir-Nos. (Al-Haqqah: 44–47)

O Alcorão está protegido por todos os lados, e cada uma de suas palavras é inalterável

Também foi declarado claramente no Alcorão que o próprio Allah Todo-Poderoso assumiu a responsabilidade de preservá-lo, com cada uma de suas palavras. Cada uma de suas palavras é firme e imutável. Nenhuma falsidade encontrará nele caminho para penetrar. Allah Todo-Poderoso continuará mostrando, nos horizontes e entre as pessoas, sinais que comprovarão sua veracidade.(Árabe*******************)

Fomos Nós que revelamos este Alcorão, e somos Nós que o preservamos. (Al-Hijr: 9)

Isto significa que ele está diretamente sob a Nossa proteção. Se alguém quiser eliminá-lo ou mantê-lo oculto, não poderá fazê-lo. Sua dignidade não será diminuída pelas acusações ou críticas de ninguém. Mesmo que alguém queira impedir seu chamado, não poderá fazê-lo. Ninguém terá a oportunidade de distorcê-lo ou alterá-lo.

(Árabe******************)

— Pelo contrário, o Glorioso Alcorão está inscrito numa Tábua protegida e de elevada dignidade. (Al-Buruj: 21–22)

Isto significa que a escrita deste Alcorão não poderá ser apagada. Está inscrita na Tábua protegida de Deus, na qual nenhuma alteração é possível. Tudo o que nela foi registrado certamente acontecerá. Mesmo que o mundo inteiro se una para rejeitá-lo, não poderá fazê-lo.

(Árabe*****************)

E a verdade é que este Alcorão é um Livro poderoso. A falsidade não pode alcançá-lo nem pela frente nem por trás. Ele foi revelado por Aquele que é Onisciente e digno de louvor por Sua própria essência. (Fussilat: 41)

O fato de a falsidade não poder vir pela frente significa que, mesmo que alguém ataque diretamente o Alcorão e queira provar que alguma de suas afirmações é errada, ou que algum de seus ensinamentos é falso e injusto, não poderá fazê-lo. O fato de ela não poder vir por trás significa que, no futuro, nenhuma verdade será descoberta que contradiga as informações apresentadas pelo Alcorão; não poderá surgir nenhum conhecimento que seja verdadeiramente “conhecimento” e refute o conhecimento descrito no Alcorão. Nenhuma experiência ou observação poderá provar que estão erradas as orientações apresentadas pelo Alcorão sobre crença, fé, moralidade, leis, civilização, cultura, economia, sociologia e política.

(Árabe*****************)

Em breve, mostrar-lhes-emos os Nossos sinais nos horizontes e dentro deles; por fim, tornar-se-á claro para eles que este Alcorão é, de fato, a verdade. (Hâmîm Sajda: 53)

Há dois significados. Primeiro: em breve, o apelo deste Alcorão se espalhará por uma grande parte do mundo, e essas pessoas verão com os próprios olhos que, por meio dele, ocorre na vida humana uma grande revolução religiosa, moral, mental, política, econômica e cultural.

O segundo significado é que, à medida que se ampliar o conhecimento humano sobre o mundo superior e sobre a própria existência humana, tornar-se-á cada vez mais evidente que o Alcorão é a verdade.

Negar o Alcorão é kufr

A fé no Alcorão é uma parte tão importante do apelo islâmico quanto a fé no tawhid e na profecia. Por isso, as pessoas foram convidadas a ele em linguagem inequívoca: este é o kalam de Allah; crede nele. Quem não crer nele será um incrédulo. Nos versículos iniciais da Surata Al-Baqarah, entre as qualidades daqueles que são considerados firmes na orientação, também é mencionada esta qualidade.

(Árabe****************)

Ao fazer descer este Alcorão, fazemos descer aquilo que é cura e misericórdia para os que nele creem, e que, para os injustos (que não creram), nada acrescenta além de dano. (Bani Israil: 82)

(Árabe****************)

—Somente os incrédulos negam os Nossos sinais. (Al-Ankabut: 47)

A reação dos incrédulos

Quando o Alcorão foi apresentado com o devido status, tornou-se muito mais difícil para os incrédulos coraixitas e para os mushrikun comuns da Arábia aceitá-lo do que reconhecer o Profeta Muhammad (s.a.w.) como Mensageiro de Deus. Pois, mesmo depois de reconhecer Muhammad (s.a.w.) como Mensageiro e aceitar obedecê-lo, ainda se podia esperar que, após sua partida deste mundo, eles se livrassem do peso dessa obediência. Mas aqui estava sendo apresentado um Livro com tal dignidade que cada uma de suas palavras era revelada pelo Senhor dos mundos. Os muçulmanos o memorizavam letra por letra, pois sua recitação era obrigatória na oração. O Profeta (s.a.w.) mandava escrever cada revelação assim que ela era transmitida. Não havia para eles qualquer esperança de se livrarem dele. Eles pensavam que, depois de reconhecer o Livro como a Palavra de Allah, suas vidas seriam permanentemente submetidas a uma ordem e disciplina, afastar-se das quais significaria afastar-se do Senhor dos mundos. Por isso, empregaram todas as suas forças para se recusarem a aceitar o Alcorão como a Palavra de Allah e adotaram todos os estratagemas possíveis para impedir que o Profeta Muhammad (s.a.w.) pudesse afirmar isso de modo algum.

A rejeição de todos os Livros divinos

Seu primeiro estratagema nesse assunto foi rejeitar todos os Livros divinos.

(Árabe******************)

E os incrédulos disseram: “De modo algum aceitaremos este Alcorão, nem qualquer Livro anterior a ele.” (Saba: 31)

No entanto, os próprios árabes de modo algum podiam aceitar essa afirmação. Eles próprios acreditavam que as folhas de Abraão (que a paz esteja com ele) haviam sido reveladas por Deus. De fato, o Alcorão menciona isso em dois lugares de tal maneira que se sabe que era algo universalmente reconhecido pelos árabes, embora nenhum fragmento delas estivesse preservado entre eles. Isso é mencionado no versículo 37 da surata An-Najm e no versículo 19 da surata Al-A‘la.

Além disso, havia na Arábia um grande número de judeus e cristãos que acreditavam nos Livros divinos. Para enfrentar o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), os incrédulos árabes precisavam contar com a ajuda desses judeus e cristãos. Por isso, não puderam permanecer por muito tempo fiéis à sua afirmação. (60)

A acusação contra o Profeta (que a paz esteja com ele) de que ele próprio compôs o Alcorão

Depois, eles passaram a divulgar com a maior insistência a acusação de que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia composto o Alcorão por conta própria e o atribuído a Allah. O Alcorão ofereceu uma resposta detalhada a isso e provou, com argumentos vigorosos, que se trata da Palavra divina.

(Árabe******************)

Sem dúvida, a revelação deste Livro veio do Senhor dos mundos. (As-Sajdah: 2)

Diversas suratas do Alcorão começam com algumas frases identificadoras desse tipo. O objetivo é declarar, logo no início da Palavra, de onde ela vem. À primeira vista, trata-se de uma frase introdutória desse mesmo tipo, como quando o locutor de rádio diz, no início de um programa, que as notícias estão sendo transmitidas por determinada estação. Mas, ao contrário desse tipo comum de anúncio radiofônico, quando uma surata do Alcorão começa com o extraordinário anúncio de que esta mensagem vem do Soberano Senhor de todo o universo, não se está simplesmente relatando as palavras de um locutor; junto com elas há uma grande reivindicação, um desafio vigoroso e uma terrível advertência. Isso porque o anúncio informa imediatamente que estas não são palavras humanas, mas as palavras do Senhor do universo. Ao mesmo tempo, apresenta ao ser humano uma grande questão: aceitará ou não essa reivindicação? Se a aceitar, deverá inclinar a cabeça em obediência a Ele para sempre. Depois disso, não terá liberdade alguma diante d’Ele. Mas, se não a aceitar, terá de assumir o perigo de que, se isto for realmente a Palavra de Allah, sua rejeição o fará enfrentar a desventura por toda a eternidade. É por isso que, sendo tão singular a frase introdutória, ela obriga a pessoa a escutar esta Palavra com cautela e a máxima atenção, e a decidir se a aceitará ou não como a Palavra divina.

Aqui não se considerou suficiente dizer apenas que este Livro foi revelado pelo Senhor dos mundos. Pelo contrário, declarou-se com plena ênfase que:

(*Árabe******)

Sem dúvida, este é o Livro de Deus. Não há a menor dúvida de que ele foi revelado por parte de Allah. Quando se examina esta afirmação categórica à luz do contexto circunstancial do Alcorão e da exposição anterior e posterior do próprio Alcorão, parece que nela há, juntamente com a afirmação, também um argumento. E esse argumento não estava oculto aos habitantes de Meca diante dos quais a afirmação era feita. Toda a vida do apresentador deste Livro estava diante deles: sua vida antes e depois de apresentar o Livro. Eles sabiam que aquele que apresentava este Livro com tal afirmação era o homem mais honesto, mais digno e de caráter mais nobre de sua comunidade. Também sabiam que, depois de reivindicar a profecia, ele havia começado subitamente a proferir estas palavras. Eles percebiam uma diferença clara entre a linguagem e o estilo de exposição deste Livro e a linguagem e o estilo de exposição do próprio Muhammad Mustafa (que a paz esteja com ele). Também sabiam que não era possível que os dois estilos de exposição de uma mesma pessoa apresentassem uma diferença tão evidente. Observavam ainda a beleza literária extraordinária deste Livro e, como falantes de árabe, sabiam por si mesmos que todos os seus literatos e poetas eram incapazes de produzir uma obra literária semelhante. Sabiam muito bem também quão incomparável era a diferença entre as palavras de seus poetas nacionais, adivinhos e oradores e estas palavras. Além disso, quão grandiosos e sublimes eram os temas puros e sagrados descritos nestas palavras! O interesse pessoal que se encontra nas palavras e ações de um falso reivindicador não podia ser encontrado nem no menor grau neste Livro ou em seu apresentador. Ao reivindicar a profecia, que benefício o honorável Muhammad (que a paz esteja com ele) desejava obter para si, para sua família ou para seu próprio povo e tribo? Seus opositores não conseguiam identificar de modo algum qualquer interesse pessoal oculto por trás de sua atuação. Também viam quais pessoas de sua comunidade estavam sendo atraídas por esta mensagem e quão grande transformação ocorria em suas vidas depois de se vincularem a ela. Tudo isso, em conjunto, assumia a forma de argumentos e provas em favor da própria afirmação. Por isso, nesse contexto, bastava dizer que não havia a menor possibilidade de dúvida de que este Livro havia sido revelado pelo Senhor dos mundos. Não havia necessidade de apresentar mais argumentos e provas. (61)

(Árabe******************)

Dizem eles: “Será que este homem o compôs por si mesmo?” Não! Pelo contrário, esta é a verdade proveniente de teu Senhor, para que advirtas um povo ao qual nenhum admoestador veio antes de ti; talvez eles recebam orientação. (As-Sajdah: 3)

Depois da frase introdutória mencionada anteriormente, está sendo dada a resposta à primeira acusação que os politeístas de Meca faziam a respeito da missão profética de Muhammad (s.a.w.). Em resposta, apesar de serem incontestáveis, com base nas palavras que demonstram que este Livro foi revelado por Allah, essas pessoas fazem a evidente e obstinada afirmação de que Muhammad (s.a.w.) o compôs pessoalmente e o atribuiu a Allah, o Senhor dos mundos. Não sentem vergonha de fazer uma acusação tão absurda e infundada? Não conseguem perceber o que pensarão, ao ouvir essa acusação absurda, aqueles que conhecem o Profeta Muhammad (s.a.w.), suas obras e suas palavras, e aqueles que são capazes de compreender este Livro?

Assim como, no primeiro versículo,(Árabe***********)considerou-se suficiente dizer “não há dúvida” e não se julgou necessário apresentar qualquer argumento em favor de que o Alcorão é a Palavra divina. Do mesmo modo, neste versículo, diante da acusação feita pelos incrédulos de Meca, considera-se suficiente dizer apenas: “Isto é de teu Senhor.” A razão é a mesma que explicamos no comentário do versículo nº 2. Esses ouvintes sabiam quem havia apresentado este Livro, em que ambiente e com que autoridade. O próprio Livro estava diante de todos, com sua língua, sua literatura e seu conteúdo. Todos naquela sociedade de Meca viam com os próprios olhos sua influência e seus resultados. Nessas circunstâncias, o fato de este Livro ser a verdade vinda do Senhor dos mundos era uma realidade tão evidente que descrevê-la em poucas palavras bastava para refutar a acusação dos incrédulos. Tentar apresentar argumentos e provas a esse respeito, em vez de fortalecer a questão, teria sido enfraquecê-la. Suponha, por exemplo, que, durante o dia, o sol esteja emitindo uma luz brilhante e, nesse momento, algum obstinado diga que é uma noite escura. Em resposta, basta dizer: “Você está chamando isto de noite? O dia luminoso está diante de seus olhos.” Se, então, você começar a apresentar provas racionais para demonstrá-lo, não aumentará a força da resposta; ao contrário, apenas a diminuirá. (62)

(Árabe****************)

Este Alcorão não é algo que pudesse ter sido composto sem a revelação e o ensinamento de Allah. Pelo contrário, é uma confirmação da veracidade de tudo o que veio antes dele e uma explicação detalhada do Livro. Não há dúvida de que ele provém do Senhor dos mundos. (Yunus: 37)

“A confirmação da verdade de tudo o que veio anteriormente”, isto é, dos ensinamentos fundamentais que, desde o princípio, foram enviados às pessoas por meio dos profetas. Este Alcorão não está apresentando algo novo, afastando-se desses ensinamentos; ao contrário, confirma todos eles. Se fosse fruto da imaginação de um novo fundador de religião, certamente haveria nele o esforço de misturar alguma cor original própria à verdade antiga, deixando clara a sua distinção e superioridade particular.

“A exposição detalhada do Livro” significa que esses ensinamentos fundamentais, que reúnem em si a essência de todos os Livros celestiais, foram apresentados com argumentos e provas, com exortações, explicações e análises, e em conformidade com as condições reais. (63)

(Árabe******************)

Dize: “Mesmo que os seres humanos e os jinns se reunissem para produzir algo semelhante a este Alcorão, jamais conseguiriam fazê-lo, ainda que uns ajudassem os outros.” (Bani Isra’il: 88)

Além deste lugar, este desafio também foi lançado em outros quatro lugares do Alcorão: na sura Al-Baqara, versículos 23–24; na sura Yunus, versículo 38; na sura Hud, versículo 13; e na sura At-Tur, versículos 33–34. Nesses lugares, isso foi dito em resposta à acusação dos incrédulos de que Muhammad (S.A.) havia composto pessoalmente este Alcorão e o apresentava injustificadamente como a palavra de Deus. Além disso, na sura Yunus, versículo 16, essa acusação foi refutada com as seguintes palavras:

(Árabe******************)

Ó Muhammad (S.A.), dize-lhes: “Se Allah tivesse querido que eu não recitasse o Alcorão para vós, eu jamais poderia recitá-lo. Na verdade, Ele nem sequer vos teria informado sobre ele. Passei uma vida inteira entre vós. Não compreendeis nem mesmo isso?” (Yunus: 16)

Entre os argumentos apresentados por estes versículos para provar que o Alcorão é a Palavra divina há, na realidade, três argumentos. Primeiro: o Alcorão, por sua linguagem, estilo, método de argumentação, conteúdo, temas, ensinamentos e transmissão de notícias sobre o mundo invisível, é um milagre — algo sobrenatural — cuja produção de algo semelhante está além da capacidade humana. Vós dizeis que ele foi composto por um ser humano. Nós, porém, dizemos que, mesmo que todos os seres humanos do mundo se unissem, não poderiam compor um livro desse tipo. Até mesmo a raça dos jinns, que os idólatras transformaram em seus deuses e cuja mentalidade de fazê-los deuses este Alcorão golpeou duramente, ainda que se unisse para ajudar os que negam o Alcorão, não conseguiria produzir um livro de nível comparável ao do Alcorão nem teria capacidade para refutar este desafio.

Em segundo lugar, Muhammad (que a paz esteja com ele) não surgiu repentinamente entre vós, vindo de um mundo exterior. Pelo contrário, ele viveu entre vós durante quarenta anos antes da revelação deste Alcorão. Um dia sequer antes de reivindicar a profecia, acaso havíeis ouvido de sua boca alguma palavra desse tipo, contendo questões e temas dessa natureza? Se não havíeis ouvido — e certamente não ouvistes — então a vossa consciência acaso vos diz que a linguagem, as concepções, as informações, o modo de pensar e a expressão oral de uma pessoa podem sofrer subitamente uma mudança tão imensa?

Em terceiro lugar, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) não se escondeu depois de recitar o Alcorão para vós; pelo contrário, continuou vivendo entre vós. Ouvíeis o Alcorão de sua boca, assim como suas outras conversas e discursos. Há uma diferença tão imensa entre a linguagem e o estilo de expressão do Alcorão e os do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) que jamais seria possível que duas falas tão distintas pertencessem à mesma pessoa. Essa diferença não era evidente apenas naquela época, quando o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) vivia entre seu povo; ainda hoje existem numerosas palavras e discursos seus nos livros de hadith. Sua linguagem e seu estilo de descrição são tão diferentes da linguagem e do estilo de descrição do Alcorão que nenhum crítico perspicaz da língua e da literatura árabes ousaria dizer que esses dois tipos de discurso pertencem à mesma pessoa. (64)

(Árabe********************)

Acaso eles dizem que o Profeta compôs ele próprio este Livro? Dize: Muito bem, então trazei dez suratas semelhantes a ele, compostas por vós, e convocai, para vos ajudar, aqueles que adorais além de Allah, se sois sinceros ao considerá-los divindades. Se eles não vierem em vosso auxílio, sabei então que este Livro foi revelado com o conhecimento de Allah; e sabei que não há divindade verdadeira além de Allah. Depois disso, acaso vos submeteis, inclinando a cabeça em obediência a esta verdade? (Hud: 13–14)

Aqui, mediante o mesmo argumento, é apresentada a prova de que o Alcorão é a Palavra divina, bem como a prova da unicidade de Allah. O resumo do argumento é o seguinte:

1. Se este Livro fosse palavra humana, então o ser humano deveria ter capacidade de produzir uma fala desse tipo. Portanto, a vossa afirmação de que eu, Muhammad (que a paz esteja com ele), compus este Livro por conta própria só poderia ser verdadeira se todos vós, reunidos, conseguísseis compor algo semelhante a ele; se não conseguirdes, fica provada a minha afirmação de que não sou o autor deste Livro. Pelo contrário, ele foi revelado com o conhecimento de Allah.

2. Além disso, este Livro se opôs abertamente às vossas divindades e declarou claramente: abandonai a adoração delas, pois elas não têm participação alguma na divindade. Se não aceitais isso, então seria necessário que as vossas divindades — se realmente fossem divindades — vos ajudassem a provar que a minha afirmação é falsa e a compor algo semelhante a este Livro. Mas, no momento desta decisão, elas não podem prestar-vos ajuda alguma, nem podem infundir em vós a força necessária para compordes algo semelhante a este Livro. Isso prova claramente que as transformastes em divindades sem razão. Caso contrário, na realidade elas não possuem poder algum, nem sequer o menor vestígio de divindade que as torne dignas de serem consideradas divindades. (65)

(Árabe*******************)

Eles dizem: “Será que o Mensageiro compôs este Livro por si mesmo?” Dize: “Se sois verazes em vossa acusação, então comp ondeis uma surata semelhante e convocai, para vos ajudar, quem quiserdes além de Deus.” (Yunus: 38)

Em geral, as pessoas pensam que este desafio foi lançado apenas no que diz respeito aos recursos retóricos e à beleza literária da linguagem do Alcorão. Não é impossível que essa concepção equivocada tenha surgido do tipo de discussão feita sobre o caráter miraculoso do Alcorão. Contudo, a posição do Alcorão é muito mais elevada do que isso. O Alcorão não fundamentou sua reivindicação de distinção, singularidade e incomparabilidade somente na doçura verbal e literária. Não há dúvida de que, do ponto de vista linguístico, o Alcorão é incomparável. Mas a razão pela qual se declarou que a mente humana não pode compor um Livro desse tipo está em seu conteúdo e em seus ensinamentos. O aspecto miraculoso existente neles, e a razão pela qual foram revelados por Deus e uma composição desse tipo está além da capacidade humana, o próprio Alcorão descreveu em vários lugares. (66)

(Árabe*****************)

— Acaso dizem: “Este homem compôs o Alcorão por si mesmo”? A verdade é que não querem crer. Se são verazes no que dizem, que tragam uma palavra de tal categoria. (At-Tur: 33–34)

Em outras palavras, o significado desta declaração é que, embora aqueles entre os coraixitas que afirmavam que o Alcorão era uma palavra composta pelo próprio Profeta Muhammad dissessem isso, seus próprios corações lhes diziam que não podia ser sua palavra. Entre os demais, os que eram linguistas percebiam claramente que ele era muito superior e grandioso em relação a qualquer palavra humana. Além disso, mesmo aqueles que conheciam o Profeta Muhammad não conseguiam imaginar, em momento algum, que aquilo fosse uma palavra de sua própria autoria. Portanto, a verdade evidente é que aqueles que afirmam que o Alcorão foi composto pelo Profeta Muhammad, na realidade, não querem crer. Por isso, inventam vários pretextos falsos, e este é um deles.

A questão não é apenas que este não é o discurso do Profeta Muhammad; na realidade, não é de modo algum uma palavra ou discurso humano. Compor uma palavra desse tipo está além da capacidade humana. Se quereis afirmar que se trata de um discurso composto por um ser humano, então trazei algo desse nível, composto por qualquer pessoa. Este desafio foi lançado, desde o início, não apenas aos coraixitas, mas a todos os incrédulos do mundo, neste versículo. Depois, o desafio foi repetido três vezes em Meca, a Venerada, e pela última vez em Medina, a Iluminada. (Surata Yunus, versículo 38; Hud: 13; Bani Israel: 88; Al-Baqara: 237)

Contudo, nem naquela época ninguém teve a coragem de responder a este desafio, nem hoje alguém conseguiu trazer, em oposição ao Alcorão, algo composto por um ser humano.

Como não compreendem a verdadeira natureza deste desafio, algumas pessoas dizem que, assim como ninguém pode compor uma obra em prosa ou poesia segundo o método de composição de qualquer indivíduo — e não apenas do Alcorão —, Homero, Rumi, Shakespeare, Goethe, Paleb, Rabindranath e Iqbal são todos incomparáveis nesse aspecto. Ninguém é capaz de compor algo exatamente como eles. Quem responde ao desafio do Alcorão, na realidade, parte desta concepção equivocada de que

(Árabe*****************)

Isso significa produzir uma obra desse tipo segundo o modo de exposição. Na realidade, não significa uma semelhança no estilo de exposição. Pelo contrário, significa trazer uma obra de tal nível e dignidade que, não apenas em árabe, mas em qualquer língua do mundo, possa ser considerada rival do Alcorão quanto às características que constituem sua natureza milagrosa. Em resumo, serão descritas algumas características com base nas quais o Alcorão era milagroso no passado e continua sendo até hoje.

1. O Alcorão é um exemplo extraordinariamente elevado e grandioso da literatura da língua na qual foi revelado. Em todo o Alcorão, não se encontra uma única palavra ou frase abaixo desse nível. Qualquer que seja o tema abordado, ele é apresentado com as palavras e o estilo de expressão mais adequados e apropriados. O mesmo tema é apresentado repetidamente, mas a cada vez se adota um novo modo de exposição, e em lugar algum se percebe a falta de gosto da repetição. Do começo ao fim, a composição das palavras em todo o Livro é tal que parece ter sido confeccionada uma guirlanda de pérolas. O discurso é tão influente que nenhum linguista pode ouvi-lo sem ser arrebatado de alegria. Ele até desperta alegria no coração dos que negam e dos que se opõem. Mesmo depois de transcorridos mil e quatrocentos anos, este Livro continua sendo, até hoje, o melhor exemplo da literatura árabe; nenhum outro livro nessa língua, quanto à sua dignidade e valor literários, pode sequer aproximar-se dele, quanto mais igualá-lo. Não apenas isso: mesmo depois de se tornar este grandioso Livro, a língua conserva o nível de eloquência que ele estabeleceu. Entretanto, durante um período tão longo, as línguas mudam e assumem formas diferentes. Não existe no mundo uma língua que tenha permanecido igual durante muitos séculos na ortografia, na construção das frases, no modo de expressão, na gramática e no uso das palavras. Mas é somente a força deste Alcorão que não permitiu que a língua árabe se desviasse de seu lugar próprio. Nenhuma de suas palavras foi abandonada até hoje. Cada uma de suas expressões idiomáticas ainda é usada na literatura árabe. Sua literatura continua sendo uma literatura de alto nível em árabe. Existe, em alguma língua do mundo, uma obra escrita por um ser humano com tal dignidade?

2. É o único Livro no mundo que exerceu uma influência tão ampla, profunda e abrangente sobre o pensamento, a moralidade, a civilização e o modo de vida da humanidade que não há paralelo no mundo. Primeiro, sua influência provocou uma revolução dentro de uma nação. Depois, essa nação iniciou uma transformação em uma parte maior do mundo. Em segundo lugar, não existe outro livro capaz de inspirar uma revolução. Este Livro não permaneceu apenas escrito nas páginas do papel. Pelo contrário, no mundo real, cada uma de suas palavras deu forma a pensamentos, consciências e concepções, e criou uma civilização duradoura. Sua influência permanece há mil e quinhentos anos e, a cada dia, continua se expandindo.

3. O tema abordado por este Livro é múltiplo e abrangente; seu alcance se estende por todo o universo, desde o princípio até o fim. Ele lança luz sobre os mistérios profundos desse universo, sua origem e seu destino, bem como sobre sua ordem e organização. Ele explica quem é o Criador, Administrador e Controlador deste universo, quais são Seus atributos, qual é Sua autoridade e qual é o verdadeiro mistério pelo qual Ele estabeleceu todo este sistema. Expõe corretamente a dignidade e a posição do ser humano neste mundo e esclarece que esta é sua posição natural e este é seu direito inato, que ele não tem poder para alterar. Explica qual é, em vista dessa posição e dignidade, o caminho correto para o pensamento e a ação humanos, plenamente compatível com a natureza, e quais são os caminhos errados, que entram em conflito com a verdade. Com incontáveis argumentos e provas, extraídos de cada coisa da terra e do céu, de cada aspecto da organização do universo, da própria essência e existência humana e de toda a história da humanidade, ele demonstrou a correção do caminho da verdade e o erro dos caminhos equivocados. Ao mesmo tempo, explica como e por quais razões o ser humano é conduzido ao caminho errado, como se pode conhecer o caminho correto — que sempre foi e sempre será o mesmo — e como ele continua sendo comunicado às pessoas em cada época. Ele não se limita a indicar o caminho correto e permanecer em silêncio. Pelo contrário, apresenta, para seguir esse caminho, o modelo de um sistema de vida completo, no qual são estabelecidas regras extremamente harmoniosas para cada área da vida: crenças, moralidade, purificação da alma, adoração e devoção, organização social, civilização e cultura, economia, política, sistema judiciário, legislação e, em suma, todos os setores da vida. Além disso, explica detalhadamente quais serão, neste mundo, as consequências de seguir o caminho correto e de trilhar o caminho errado. Depois, também informa quais serão as consequências no mundo futuro, após o fim da ordem atual deste mundo. Apresenta uma descrição detalhada do fim deste mundo e do início do segundo mundo. Expõe, uma a uma, todas as etapas dessa transformação. Coloca diante dos olhos uma imagem completa do outro mundo. Em seguida, descreve detalhadamente como o ser humano receberá ali uma segunda vida, como serão examinadas suas ações da vida terrena, sobre quais assuntos será interrogado, como, em uma situação incontestável, o registro completo de suas obras será colocado diante dele, que testemunhos sólidos serão apresentados para comprová-las e por que os que receberem recompensa ou castigo os receberão. Explica que tipo de bens obterão os que receberem recompensa e de que formas os que receberem castigo sofrerão as consequências de seus atos. A exposição deste Livro sobre esse tema abrangente não se baseia no fato de que seu autor tenha erguido um palácio de ideias e conjecturas mediante alguns argumentos; baseia-se, pelo contrário, no fato de que seu autor possui conhecimento direto da realidade. Seu olhar se estende do princípio ao fim. Toda a realidade é clara para Ele. O universo inteiro está diante dEle como um livro aberto. Ele vê de uma só vez tudo, desde o início da humanidade até seu fim e, depois de seu fim, até sua segunda vida; e orienta a humanidade não com base em ideias e conjecturas, mas com base no conhecimento. Entre as informações que Ele apresenta com base no conhecimento, nenhuma pôde ser comprovada errada até hoje. A concepção que Ele apresenta sobre o universo e o ser humano oferece uma explicação completa para todos os objetos e acontecimentos perceptíveis pelos sentidos e pode servir de fundamento para a pesquisa em cada ramo do conhecimento e da ciência. Nas palavras dEle encontram-se soluções para todos os problemas limítrofes da filosofia, da ciência e das ciências sociais, e entre elas existe uma relação tão lógica que, com base nela, se forma um campo de pensamento completo, coerente e abrangente. Além disso, a orientação prática que Ele deu às pessoas para cada aspecto da vida não é apenas extremamente racional e profundamente pura; há mil e quinhentos anos, incontáveis pessoas em diferentes partes do mundo a seguem efetivamente. A experiência comprovou que ela é a melhor. Existe no mundo alguma obra escrita por seres humanos, de tal dignidade, que possa ser apresentada como rival deste Livro (o Alcorão)?

4. O Livro não foi apresentado ao mundo em forma escrita de uma só vez. Pelo contrário, iniciou-se um movimento de reforma acompanhado de algumas orientações básicas; depois, ao longo de vinte e três anos, conforme as circunstâncias e as necessidades de cada etapa atravessada por esse movimento, suas partes foram sendo transmitidas pela boca do líder do movimento, ora em longos discursos, ora na forma de diversas declarações. Após a conclusão dessa missão, essas partes, reveladas em diferentes momentos, foram compiladas em sua forma integral e apresentadas ao mundo; e a essa compilação deu-se o nome de Alcorão. Segundo a declaração do líder do movimento, esses discursos e palavras não eram de sua própria autoria; ao contrário, haviam sido revelados a ele pelo Senhor dos mundos. Se alguém considerar que ele próprio, como líder do movimento, os compôs, que apresente, na história do mundo, um exemplo de qualquer pessoa que, durante anos, liderando pessoalmente de modo contínuo um grande movimento social, tenha estabelecido, mediante o conjunto dos diversos discursos que proferiu e das declarações que fez em diferentes circunstâncias e momentos — ora como pregador e professor de ética e moral, ora como líder de uma comunidade oprimida, ora como chefe de Estado, ora como comandante de um exército em guerra, ora como herói vitorioso, ora como legislador religioso e civil, ora como juiz; em suma, ocupando diferentes posições e graus de autoridade em diferentes situações — um sistema completo, coerente e abrangente de pensamento e ação. Não se encontra nele qualquer disparidade ou contradição. Do princípio ao fim, nele atua a mesma ideia central. Desde o primeiro dia, a base de sua mensagem que esse homem expôs permaneceu sendo o fundamento sobre o qual ele continuou a estabelecer, até o último dia, um sistema integral de crença e prática, cujas partes eram perfeitamente coerentes umas com as outras. Depois de observar tudo isso, nenhuma pessoa perspicaz pode deixar de concluir que, no início do movimento, o quadro completo deste, até sua etapa final, já estava claramente presente diante do líder do movimento. Nunca aconteceu de, em alguma fase intermediária, surgir em sua mente uma ideia que não existisse no início, ou de ele ter de modificá-la posteriormente. Se alguma pessoa de tal estatura já viveu, alguém que tenha demonstrado o ápice de seu próprio poder criativo, que seja identificada.

5. O líder de cuja boca saíam esses discursos e palavras não aparecia repentinamente de algum lugar em público apenas para recitá-los, nem desaparecia em algum lugar depois de recitá-los. Ele havia vivido na sociedade humana antes desse movimento e continuou a viver nela constantemente até o último momento de sua vida. Todos conheciam bem a linguagem e o estilo de expressão de suas conversas e discursos. Uma grande parte deles ainda está preservada nos hadiths, de modo que, mais tarde, os falantes de árabe puderam verificar facilmente por si mesmos como era o modo de falar daquele líder ou guia. Seus próprios compatriotas já percebiam claramente naquela época, e os falantes de árabe ainda hoje reconhecem, que a linguagem e o estilo literário deste Livro são muito diferentes da linguagem e do estilo literário daquele líder, Muhammad (que a paz esteja com ele). Inclusive, quando ele recitava alguma parte daquele Livro durante seus discursos, a diferença entre as duas linguagens podia ser percebida com absoluta clareza. A questão é: será que alguma pessoa no mundo já foi ou poderia ser capaz de falar, durante anos a fio, em dois estilos completamente distintos, sem jamais deixar escapar o segredo de que esses dois tipos de discurso pertenciam à mesma pessoa? Naturalmente, é possível ter êxito em exibir artificialmente esse tipo de dissimulação por algum tempo. Mas isso é de modo algum possível durante vinte e três anos consecutivos.

6. Esse grande líder, ao conduzir o movimento, continuou a enfrentar situações diversas. Por longos períodos, sofreu zombarias, escárnio, humilhações e perseguições por parte de seus vizinhos e membros de sua própria tribo. Em certas ocasiões, seus companheiros foram submetidos a tamanha perseguição que foram obrigados a deixar o país. Às vezes, os inimigos tramaram seu assassinato. Em outras ocasiões, ele próprio teve de deixar o país. Por vezes, precisou suportar extrema dificuldade financeira. Em certas ocasiões, teve de enfrentar guerras, nas quais houve tanto vitórias quanto derrotas. Às vezes, triunfou sobre os inimigos, e aqueles que em certa época o haviam oprimido cruelmente curvaram a cabeça diante dele. Em outras ocasiões, alcançou domínio e autoridade, uma fortuna concedida a poucas pessoas. Quando, em todas essas situações, falava por iniciativa própria, manifestavam-se nele as emoções que os seres humanos sentem em circunstâncias semelhantes. Contudo, as palavras que, em diferentes momentos, eram ouvidas de sua boca com base na revelação descida da parte de Deus mostravam-se, e ainda hoje se mostram, completamente livres de emoção humana. Nenhum grande crítico será capaz de apontar um único lugar do Alcorão e dizer que ali se percebe a atuação de emoções humanas.

7. O conhecimento amplo e abrangente encontrado neste Livro não se encontra em nenhum dos grandes sábios e eruditos nem mesmo deste século XX, quanto mais nos árabes, romanos, gregos e iranianos daquela época. Hoje, uma pessoa pode passar a vida estudando qualquer ramo da filosofia, da ciência ou das ciências sociais e, ao chegar ao limite desse campo do conhecimento, descobrir que nele existe uma resposta clara para esses problemas. Isso não se limita a um ramo específico do saber; aplica-se corretamente a todos os conhecimentos relacionados ao universo e ao ser humano. Como se pode acreditar que, mil e quinhentos anos atrás, um homem iletrado do deserto da Arábia possuísse um conhecimento tão abrangente de todos os campos do saber e, após refletir sobre cada problema fundamental, tivesse formulado respostas claras e irrefutáveis?

Embora existam ainda várias outras razões para o caráter miraculoso do Alcorão, se uma pessoa refletir e investigar apenas estas poucas razões, compreenderá que o caráter miraculoso do Alcorão, tão claro no momento de sua revelação, é hoje muitas vezes mais evidente e, se Deus quiser, continuará a tornar-se ainda mais evidente até o Dia do Juízo. (67)

Embora tudo o que foi exposto acima não deixe margem para qualquer dúvida de que o Alcorão é a Palavra divina, o argumento que os descrentes repetidamente apresentavam para considerá-lo um livro composto por um ser humano era o seguinte: se fosse a Palavra de Deus, teria sido revelado integralmente de uma só vez. O fato de ser apresentado diante de nós pouco a pouco, em diferentes momentos, significaria que era composto após muita reflexão. O Alcorão cita essa acusação deles, ou alude a ela, e explica em linguagem profundamente tocante por que foi revelado gradualmente e qual é o profundo mistério dessa revelação gradual.

(Árabe*******************)

Os descrentes dizem: “Por que o Alcorão inteiro não foi revelado a este homem de uma só vez?” Sim, foi feito assim para que, ó Profeta, o gravássemos firmemente em teu coração; e, para esse propósito, nós o dividimos em partes distintas, organizadas numa ordem especial. Além disso, quando eles te apresentavam alguma questão estranha ou alguma pergunta, nós te dávamos sua resposta exata no momento oportuno e esclarecíamos o assunto da melhor maneira. (Alcorão, Al-Furqan: 32–33)

Esta era a acusação que mais agradava aos incrédulos de Meca. Considerando-a uma acusação muito poderosa, eles a repetiam com frequência. Mas o Alcorão refutou-a completamente, dando-lhe uma resposta racional. O sentido de sua pergunta ou acusação era o seguinte: se esta pessoa não apresentasse esses assuntos depois de refletir por conta própria, consultar alguém ou copiá-los de livros, mas se este fosse realmente o Livro de Deus, por que ele não foi trazido de uma só vez, ao mesmo tempo? Deus sabe perfeitamente tudo aquilo que deseja comunicar. Se quisesse revelá-lo, certamente o teria revelado tudo de uma vez. O fato de agora se dizer uma coisa depois de refletir e, em outra ocasião, outra coisa, é um sinal claro de que a revelação não vem do Alto. Pelo contrário, ela está sendo recolhida de algum lugar ou fabricada conforme a imaginação.

Em resposta, foram expostas várias razões profundas para a revelação gradual e paulatina do Alcorão:

(1) Isso é feito também para que ele seja preservado na memória, com cada uma de suas palavras. Pois sua divulgação e propagação não ocorrem por escrito, mas oralmente, por meio de um Profeta iletrado, entre ouvintes iletrados.

(2) Para que seus ensinamentos se fixem profundamente no coração. Com esse objetivo, falar pouco a pouco, com pausas, e explicar a mesma questão de diferentes maneiras é mais eficaz.

(3) Para que a atenção se concentre no modo de vida que ele prescreveu. Para esse objetivo, é mais científico revelar gradualmente as instruções e a orientação. Caso todas as leis e todo o sistema de vida fossem apresentados de uma só vez, juntamente com a ordem de estabelecê-los, as pessoas ficariam perplexas. Além disso, é uma realidade que, quando cada ordem é dada no momento apropriado, sua sabedoria e força vital podem ser compreendidas melhor. Por outro lado, quando todas as instruções são compiladas por tópicos e entregues ao mesmo tempo, isso não pode ser compreendido.

(4) Para que, durante o movimento islâmico, quando o conflito e o confronto contínuos entre a verdade e a falsidade estivessem em curso, coragem, entusiasmo e ânimo fossem suscitados no Profeta e em seus seguidores. Em vez de enviar-lhes uma única orientação extensa e deixá-los enfrentar a oposição do mundo inteiro, é muito mais eficaz que as mensagens de Deus continuem chegando repetidamente, de tempos em tempos e no momento oportuno. Nessa segunda situação, a pessoa sente que o Deus que lhe ordenou realizar essa tarefa mantém os olhos sobre ela, orienta-a nas calamidades e dificuldades e, dirigindo-se a ela sempre que necessário, renova seu vínculo com ela. Isso aumenta o entusiasmo e fortalece a determinação. Na primeira situação, a pessoa sente que está simplesmente sozinha, com tempestades por todos os lados.

Por fim, foi apresentada outra sabedoria da adoção de uma sequência gradual na revelação. A circunstância da revelação do Alcorão Sagrado não é que Deus tenha desejado compor um livro contendo orientação e tenha feito do Profeta um agente para divulgá-lo. Se fosse assim, seria justa a exigência de que Ele compusesse todo o livro e o entregasse de uma vez às mãos do agente. Mas, na realidade, a circunstância de sua revelação é que Deus deseja criar um movimento de fé, Islã, obediência e temor a Deus em oposição à descrença, à jahiliyyah e à perversidade, e, para isso, fez surgir um Profeta como convocador e líder. Durante esse movimento, por um lado, Ele assumiu a responsabilidade de instruir e orientar o líder e seus seguidores conforme a necessidade; por outro, assumiu também a responsabilidade de esclarecer qualquer desculpa ou objeção, dúvida, incerteza ou confusão que os opositores suscitassem. Quando uma palavra fosse interpretada de modo equivocado, Ele daria sua explicação correta. O conjunto de todos os discursos que continuam sendo revelados por Deus para essas diversas necessidades chama-se Alcorão. Ele não é um livro de leis, nem um livro de caráter e filosofia; é, antes, o livro de um movimento. A maneira correta e natural de sua existência é que, desde o momento do início do movimento até o seu fim, à medida que o movimento avançasse, este Alcorão também continuasse sendo revelado, acompanhando o tempo e as necessidades. (68)

(Árabe********************)

—Quando substituímos um versículo por outro —e Allah sabe melhor o que Ele revela—, essas pessoas dizem: “Tu mesmo inventaste este Alcorão.” A verdade, porém, é que a maioria delas não está ciente da realidade. Dize-lhes: “O Espírito Santo o fez descer gradualmente, com a verdade, da parte do meu Senhor, para firmar a fé dos que creem, guiar os obedientes no que diz respeito às questões da vida e dar-lhes as boas-novas de prosperidade e felicidade.” (An-Nahl, 101–102)

A substituição de um versículo por outro pode também significar o envio de uma segunda determinação depois de uma primeira. Isso porque as determinações do Alcorão foram reveladas gradualmente: em relação a uma mesma questão, duas ou três determinações foram enviadas sucessivamente, com intervalos de vários anos, como no caso das bebidas alcoólicas ou da punição pelo adultério. Contudo, hesitamos em aceitar esse significado, pois a surata An-Nahl foi revelada no período de Meca. Até onde sabemos, não há registro, nesse período, de qualquer determinação revelada em sequência. Por isso, aqui entenderemos “revelar outro versículo no lugar de um versículo” como significando que, em diferentes partes do Alcorão, às vezes um assunto foi explicado por meio de um exemplo, e em outras ocasiões outro exemplo foi apresentado para explicar o mesmo assunto. Às vezes, um segundo aspecto da questão foi colocado em destaque. Para o mesmo assunto, ora foi apresentada uma argumentação, ora outra. A mesma história foi narrada repetidamente, e a cada vez com palavras diferentes. De um assunto, às vezes foi apresentado um aspecto, e em outras ocasiões o segundo aspecto. Uma ideia foi expressa brevemente em certa ocasião e detalhadamente em outra. Era justamente isso que os incrédulos de Meca consideravam prova de que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que Allah nos livre, havia ele próprio composto este Alcorão. O argumento deles era que, se a fonte dessa mensagem fosse o conhecimento divino, tudo teria sido dito de uma só vez. Acaso Allah seria, em termos de conhecimento, tão deficiente quanto os seres humanos, a ponto de falar depois de refletir, reunir gradualmente as informações e, quando percebesse que uma forma de dizer algo não funcionara bem, expressá-lo de outra maneira? Na realidade, tudo isso seriam deficiências do conhecimento humano que se manifestariam em tuas palavras.

Em resposta, foi dito primeiramente que este Livro é trazido da parte de Allah pelo “Espírito Santo”. O significado literal de “Espírito Santo” é espírito puro, ou espírito sagrado. Como título técnico, essa designação foi dada a Gabriel (que a paz esteja com ele). Em outro lugar (na Surata Ash-Shu’ara), são utilizadas para ele as palavras “Espírito Fiel”, isto é, espírito digno de confiança. Aqui, em vez de mencionar o nome do anjo que traz a revelação, o uso de seu título desperta os ouvintes para esta verdade: esta mensagem é trazida por um “espírito” que está acima das fraquezas e dos defeitos humanos. Ele não é desleal, de modo que Allah envie algo e ele, por iniciativa própria, o altere e transforme em outra coisa. Não é mentiroso nem caluniador, para compor algo por si mesmo e fazê-lo passar em nome de Allah. Não é uma pessoa desonesta ou ávida por dinheiro, que engane e iluda em benefício de algum interesse pessoal. Ele é, em sua plenitude, um espírito grandioso e puro, que transmite a mensagem de Allah com absoluta fidelidade. Em seguida, é dito que a razão pela qual ele traz gradualmente essa mensagem, e não a traz toda de uma só vez, não é alguma deficiência no conhecimento de Allah, como vós pensais por causa da vossa ignorância. Pelo contrário, isso se deve às limitações da capacidade humana de compreender e memorizar: o ser humano não consegue entender tudo ao mesmo tempo e, se entendesse todas as coisas de uma só vez, não conseguiria lembrá-las. Por isso, a sabedoria de Allah exige que o Espírito Santo (Gabriel) traga essa mensagem pouco a pouco. Às vezes, ele falará de forma resumida e, às vezes, detalhadamente. Às vezes, explicará uma questão de uma maneira e, às vezes, de outra. Às vezes, adotará um estilo narrativo e, às vezes, outro. Procurará firmar a mesma questão nos corações por diferentes meios, para que os buscadores da verdade, com suas diferentes capacidades e aptidões, possam crer e, depois de crer, tenham fortalecidos o conhecimento, a fé e a capacidade de compreensão.

A segunda importância da revelação gradual do Alcorão é apresentada da seguinte maneira: àqueles que, depois de crer, seguem o caminho da obediência, é concedida no momento oportuno a orientação de que necessitam no trabalho da convocação islâmica e nos diversos problemas da vida. É certo que não seria apropriado enviar essas orientações antes do tempo, nem seria proveitoso oferecer todas as orientações simultaneamente.

A terceira consideração é que, devido aos obstáculos e à oposição que as pessoas obedientes enfrentam, ao modo como sua vida é amargurada e tornada insuportável, e à montanha de perigos erguida no caminho da convocação islâmica, elas sentem repetidamente a necessidade de que sua coragem seja fortalecida por meio de boas-novas e de que lhes seja dada a garantia do sucesso final, para que permaneçam esperançosas e não desanimem. (69)

A acusação de que outras pessoas compõem o Alcorão e o entregam ao Profeta

Em Meca, os descrentes faziam outra acusação, completamente oposta à anterior: diziam que outras pessoas ajudavam o Profeta a compor este Alcorão. Ele mandava copiar histórias escritas dos tempos antigos e as recitava para eles. E isso era feito noite e dia.

(Árabe******************)

Aqueles que se recusaram a aceitar as palavras do Profeta dizem: “Este Alcorão é uma invenção que este homem compôs por conta própria, e algumas outras pessoas o ajudaram nessa tarefa.” Eles desceram ao extremo da grande injustiça e da terrível mentira. Dizem: “Isto não passa de escritos dos antigos, que um homem manda copiar e que lhe são recitados de manhã e à noite.” Ó Muhammad (que a paz esteja sobre ele), dize-lhes: “Somente Ele o revelou, Aquele que conhece os segredos da terra e dos céus.” A verdade é que Ele é Perdoador, Misericordioso. (Al-Furqan: 4–6)

A afirmação deles era a seguinte: “Este homem era iletrado. Não pode adquirir novos conhecimentos por meio dos estudos; no início, ele não havia aprendido absolutamente nada. As palavras que hoje saem de sua boca, ele não conhecia sequer uma delas até os quarenta anos de idade. De onde, então, vêm todos esses conhecimentos? Certamente, sua fonte são os livros de alguns povos antigos, cujos trechos são traduzidos e copiados durante a noite. Ele manda alguém ler esses textos para que os escute; depois, memoriza-os e recita-os para nós.” Alguns relatos informam que, a esse respeito, eles chegaram a mencionar os nomes de certas pessoas que eram instruídas e residentes de Meca. Um deles chamava-se Addas, que era o escravo liberto de Huwaytib ibn Abd al-Uzza. O segundo era Layab, escravo liberto de Ala ibn al-Hadrami. O terceiro era Jabr, escravo liberto de Amir ibn Rabi’a.

À primeira vista, essa parece uma acusação muito significativa. Que acusação poderia ser mais significativa, para refutar a alegação da revelação, do que identificar a fonte do conhecimento do Profeta? No entanto, logo de início a pessoa se surpreende ao pensar que, em vez de apresentar qualquer argumento em resposta a uma acusação tão grave, o assunto seja encerrado simplesmente com estas palavras: “Estais atacando a verdade, proferindo uma evidente injustiça e fazendo soprar uma tempestade de mentiras, embora isto seja a palavra do Deus que conhece os segredos da terra e dos céus.”

A questão é: naquele ambiente de extrema oposição, quando foi feita uma acusação tão contundente, por que ela foi refutada de maneira tão desdenhosa? Por que os opositores não exigiram uma resposta detalhada? Por que não disseram: “Nossa acusação está sendo descartada simplesmente como injustiça e mentira”? E, depois disso, por que essa acusação não despertou qualquer dúvida no coração dos novos muçulmanos?

A resposta a essa questão pode ser encontrada refletindo-se um pouco sobre o ambiente de Meca no qual essa acusação foi feita. Em primeiro lugar, para os chefes injustos de Meca, que naquele tempo infligiam violência física aos muçulmanos e tornavam suas vidas insuportáveis, não teria sido nada difícil apresentar contra eles a acusação de que traduziam aqueles livros antigos e os recitavam ao Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Poderiam ter cercado repentinamente suas casas, apreendido todo esse material e apresentado-o diante do povo. Poderiam até tê-los apanhado no próprio momento em que faziam a tradução e ensinavam o Profeta. Contudo, nem por um único dia fizeram isso para apresentar provas de sua acusação. Além disso, as pessoas cujos nomes mencionavam a esse respeito eram residentes da própria cidade de Meca. Suas capacidades também não eram desconhecidas de ninguém. Nenhuma pessoa sensata poderia acreditar que esses indivíduos possuíssem o mínimo grau de competência necessário para compor uma obra do nível do Alcorão.

Além disso, essas pessoas eram escravos libertos de alguns chefes da própria cidade de Meca. Na vida tribal da Arábia, mesmo depois de um escravo conquistar a liberdade, ele não podia sobreviver sem o patrocínio de seu antigo senhor. Como se poderia então imaginar que essas pessoas frágeis, tornando-se objeto da ira de seus protetores, teriam ousado, naquele ambiente terrível de injustiça e perseguição, participar, junto com o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), que Allah nos livre, dessa conspiração para fabricar a profecia?

Mais surpreendente ainda é o fato de que os três indivíduos mencionados acima haviam acreditado no Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) e nutriam por ele o mesmo respeito que os demais nobres Companheiros. Por terem abraçado a fé, eles também sofreram perseguição e opressão junto com os outros Companheiros. Em tais circunstâncias, quem poderia acreditar que aqueles que supostamente participavam da composição do próprio Alcorão acreditariam nele e em seu portador, suportando perseguição e opressão por causa disso? (70)

Um exemplo extraordinário da obstinação dos incrédulos

Depois de receberem uma resposta lógica a cada uma de suas acusações, a obstinação dos incrédulos assume uma forma inédita. Eles dizem: aceitaríamos Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, como profeta se ele recitasse fluentemente o Alcorão em uma língua que não conhece. Foi-lhes respondido:

(Árabe*)

— Se tivéssemos enviado um Alcorão em língua estrangeira, eles diriam: “Por que seus versículos não foram explicados claramente?” Que coisa extraordinária: a mensagem está em língua estrangeira, mas é dirigida a pessoas que falam árabe. Dize-lhes: este Alcorão é orientação e cura para os que creem. Quanto aos que não creem, há surdez em seus ouvidos e um véu sobre seus olhos. Eles são como se estivessem sendo chamados de um lugar distante. (Ha-Mim as-Sajda: 44)

Este era um exemplo da obstinação com que o profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era confrontado. Os incrédulos diziam: Muhammad é árabe, e o árabe é sua língua materna. Se ele apresenta o Alcorão em árabe, como se pode acreditar que não o compôs por si mesmo, mas que ele foi revelado por Allah? Sua mensagem só poderia ser aceita como uma revelação de Allah se ele começasse a discursar fluentemente em uma língua que não conhecesse, como o persa, o romano ou o grego. Allah responde que agora o Alcorão foi enviado na própria língua deles, que eles podem compreender; contudo, sua objeção é: por que este Alcorão foi revelado em árabe, por intermédio de um árabe, para os árabes? Mas, se tivesse sido enviado em outra língua, eles também protestariam: “Que coisa engraçada! Um árabe é enviado como mensageiro entre a nação árabe, mas a mensagem é revelada a ele em uma língua que nem o próprio mensageiro entende nem a nação.” (71)

Não se considerou suficiente refutar esse protesto sem sentido. Pelo contrário, também lhes foi explicado que é uma graça de Allah o fato de Ele ter revelado, em sua própria língua, um Livro que vocês podem compreender perfeitamente e por meio do qual podem saber o que é verdade e o que é falsidade.

(Árabe******************)

Uma revelação do Deus Misericordioso, Misericordiosíssimo. Este é um Livro cujos versículos foram expostos claramente: um Alcorão em língua árabe para pessoas que possuem conhecimento. Ele anuncia boas-novas e adverte. Mas a maioria deles o rejeita e não quer ouvir. (Ha-Mim as-Sajda: 2–4)

Aqui, primeiro se afirma que esta mensagem está sendo revelada por Allah. Ou seja, continuem falando o quanto quiserem, dizendo que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a compôs por si mesmo; a realidade, porém, é que esta mensagem foi revelada pelo Senhor dos mundos. Além disso, os ouvintes são advertidos: se, depois de ouvirem esta mensagem, vocês demonstrarem aversão, isso não será uma afronta contra o profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mas contra o próprio Allah. Se a rejeitarem, não estarão rejeitando as palavras de um ser humano, mas as próprias palavras de Allah. E, se lhes derem as costas, não estarão se afastando de um ser humano, mas do próprio Allah.

A segunda coisa afirmada é que Aquele que o revelou é o Deus sumamente misericordioso para com Sua criação. A menção ao atributo da misericórdia, em vez de outros atributos do Deus que revelou o Livro, indica que Ele revelou esta mensagem para cumprir as exigências de Sua misericórdia e benevolência. Com isso, os ouvintes são advertidos de que, se alguém se afastar desta mensagem, ou a rejeitar, ou demonstrar desdém por ela, estará sendo hostil apenas a si mesmo. Esta é uma dádiva grandiosa que Deus revelou diretamente, com base em Sua misericórdia, para a orientação e o bem-estar dos seres humanos. Se Deus Se afastasse da humanidade, deixá-la-ia vagando nas trevas, sem Se importar em que abismo ela acabaria caindo. Mas é por Sua misericórdia e benevolência que, juntamente com criar e prover o sustento, Ele também considera Sua responsabilidade mostrar a luz do conhecimento para ordenar e regular corretamente a vida humana. Foi com base nisso que Ele revelou esta mensagem a um de Seus servos. Portanto, quem poderia ser mais ingrato e mais inimigo de si mesmo do que aquele que, em vez de aproveitar esta oportunidade de misericórdia, se levanta para lutar contra ela?

A terceira coisa afirmada é que os versículos deste Livro foram expostos com clareza. Isto é, nele não há nada tão incompreensível ou complexo que alguém possa recusar-se a aceitá-lo, alegando que o conteúdo desta Escritura não entra em sua cabeça. Nele está claramente explicado o que é a verdade e o que é a falsidade; qual é a crença correta e qual é a equivocada; qual é o caráter virtuoso e qual é o mau; o que são as boas ações e o que são as más ações; qual caminho traz benefício ao ser humano e qual caminho lhe traz prejuízo. Se alguém rejeita uma orientação tão clara ou não demonstra qualquer interesse por ela, não pode apresentar desculpa alguma. O significado claro disso é que essa pessoa deseja permanecer no erro.

A quarta coisa é que este é um Alcorão em língua árabe. Ou seja, se este Alcorão tivesse sido revelado em outra língua, os árabes poderiam apresentar a desculpa de que eram ignorantes da língua em que Deus havia enviado este Livro. Porém, não poderiam usar como pretexto para não compreendê-lo o fato de ele estar em sua própria língua.

A quinta coisa afirmada é que este Livro se destina àqueles que possuem conhecimento. Isto é, somente os instruídos podem beneficiar-se dele. Para os ignorantes, ele é tão inútil quanto uma joia preciosa é inútil para quem não sabe distinguir entre uma pedra e uma joia.

A sexta coisa é que este Livro anuncia boas-novas e adverte. Isto é, não se trata simplesmente de uma fantasia, de uma filosofia ou de um exemplo de composição literária, cuja aceitação ou rejeição não faria diferença. Pelo contrário, ele adverte publicamente o mundo inteiro de que, se for aceito, o resultado será extraordinariamente maravilhoso, e, se for rejeitado, o resultado será extremamente terrível. Somente um tolo poderia rejeitar um Livro assim. (72)

As táticas dos incrédulos para impedir o chamado do Alcorão

Depois que as táticas mencionadas acima fracassaram, sua última estratégia foi lançar-se à obstinação aberta. Tentariam impedir pela força o chamado do Alcorão. Quando o Alcorão estivesse sendo recitado, provocariam um tumulto terrível e lançariam zombarias de todos os lados. O Alcorão descreveu um por um esses comportamentos deles, fazendo com que toda pessoa dotada de discernimento percebesse que tais incrédulos não tinham argumentos para responder aos argumentos. Agora, derrotados, estavam decididos a usar a força para silenciar a voz da verdade.

(Árabe***************)

—E eles disseram: “Há uma cobertura sobre nós em relação àquilo para o qual nos convocas. (Isto é, não há nenhum caminho aberto até nossos corações; há tampões em nossos ouvidos. (Isto é, não ouviremos.) E há uma barreira entre nós e ti. (Isto é, estamos separados.)”

Portanto, faze o teu próprio trabalho, e nós estamos fazendo o nosso. (Isto é, estamos empenhados em nos opor a ti.) (Hâmîm Sajdah: 5)

(Árabe********************)

—Quando esses incrédulos ouvem a mensagem de admoestação (o Alcorão), parece que, lançando contra ti seus olhares cheios de ira, quase te fariam recuar. Eles dizem: “Este homem está louco.” Contudo, este homem é uma admoestação para todos os habitantes do mundo. (Calam: 51–52)

(Árabe*******************)

—Esses incrédulos dizem: “Não escuteis este Alcorão e causai tumulto e perturbação, para que talvez sejais vitoriosos.” (Hâmîm-Sajdah: 26)

(Árabe*)

—Ó Profeta! O que acontece com os incrédulos, que correm em tua direção, vindos da direita e da esquerda? (Isto é, correm ao ouvir a recitação do Alcorão, para zombar.) (73) (Al-Ma’arij: 36–37)

 

Quarta seção

O convite à fé no Além

O quarto fundamento do convite islâmico é crer no Além. Este não é um fundamento simples ou limitado; ao contrário, inclui muitos assuntos importantes, cuja aceitação conjunta é denominada īmān bil-ākhirah (fé no Além).

Primeiramente, o ser humano não foi deixado no mundo sem responsabilidade, para que fizesse o que quisesse sem jamais ser questionado. Pelo contrário, este mundo é um campo de provas. O ser humano foi enviado para cá a fim de ser testado. Depois, por tudo o que fizer aqui, terá de prestar contas diante de Allah.

Em segundo lugar, Allah estabeleceu um momento específico para essa prestação de contas. Após terminar o prazo concedido à humanidade para agir no mundo, ocorrerá a Qiyāmah, quando toda a ordem existente do universo será desmantelada. Em seguida, será estabelecida uma segunda ordem mundial. Todas as pessoas que tiverem vivido desde o início da criação até a Qiyāmah serão ressuscitadas ao mesmo tempo e conduzidas novamente para esse mundo. Essa segunda vida não será temporária como a vida atual do mundo; ao contrário, será eterna. Nela, a morte jamais chegará.

Em terceiro lugar, naquele momento, todas as pessoas anteriores e posteriores serão reunidas e apresentadas perante o tribunal de Allah. Ali, cada indivíduo terá de prestar pessoalmente contas das ações que praticou sob sua própria responsabilidade durante a vida mundana.

Em quarto lugar, embora Allah saiba diretamente tudo o que o ser humano faz no mundo, Ele faz com que seja preparado um registro completo e correto de suas ações, a fim de cumprir todas as condições da justiça. Inúmeras provas de cada palavra e ação sua são coletadas e preservadas por meio dos anjos, quer ele as pratique abertamente, quer em segredo. Além disso, são preservadas as provas de sua intenção e vontade ao falar, bem como de todos os pensamentos e desejos que guarda no coração. Allah também preparou testemunhas desse fato: foram fornecidos ao ser humano os meios para compreender a diferença entre a verdade e a falsidade, bem como uma organização equivocada. Essas provas serão apresentadas no tribunal de Allah de tal maneira que o ser humano não poderá negá-las.

Em quinto lugar, no tribunal de Allah Ta‘ālā não serão aceitos qualquer tipo de suborno, recomendação injusta e indevida, nem qualquer defesa contrária à verdade. O fardo de uma pessoa não será colocado sobre outra. Nenhum amigo íntimo ou parente muito próximo carregará sobre os próprios ombros o fardo de um amigo ou parente. As entidades reais ou imaginárias que o ser humano considera seus protetores e ajudadores não lhe serão úteis em nada. Ali, completamente sozinho, sem amigos nem auxílio, o ser humano prestará pessoalmente contas de suas ações.

A conclusão dependerá inteiramente de saber se, depois de aceitar neste mundo a verdade dos profetas, o ser humano obedeceu corretamente aos mandamentos de Allah e viveu de acordo com eles; e se, tendo em vista a sensação de que prestará contas no Além, viveu sua vida de acordo com isso, ou se, esquecendo-se disso, fez tudo exclusivamente para este mundo. No primeiro caso, terá o Paraíso; no segundo, o Inferno.

Esta crença no Além era tão importante para o chamado islâmico quanto a crença no tawhid, na missão profética e na aceitação do Nobre Alcorão. Pois era impossível ao ser humano dar sequer um passo pelo caminho para o qual o Islã convocava e ao qual o chamava, enquanto não considerasse o mundo um campo de prova e a si mesmo responsável perante Allah, e enquanto não removesse de seu coração a ideia de que a vida é apenas a vida deste mundo, no qual os resultados visíveis constituem o verdadeiro critério do bem e do mal. Enquanto não aceitasse sinceramente que a verdadeira e eterna vida é aquela que começa após a morte, e que, ao seguir o caminho do bem ou do mal, enfrentará uma consequência correspondente, não poderia trilhar o caminho da verdade. Sem essa crença, o ser humano jamais consideraria aceitável o chamado ao tawhid, à missão profética e à fé no Alcorão. E, mesmo que o aceitasse por algum motivo, não seria sincero na adoração de Allah, na obediência ao Mensageiro e no seguimento do Alcorão. Isso porque, quando uma pessoa pensa que, no fim, todos terão de se transformar em pó e que depois não haverá uma segunda vida na qual necessariamente haverá recompensa por obedecer a Allah, ao Mensageiro e ao Alcorão, e punição por não obedecer, jamais desejará, com sinceridade, submeter-se aos princípios e regras aos quais o Islã pretende vinculá-la. Pelo contrário, em cada aspecto da vida adotará o caminho que lhe permita obter neste mundo alguma vantagem ou prazer, e evitará todo caminho que possa privá-la dos prazeres da vida mundana ou fazê-la enfrentar perdas, sofrimento e dificuldades.

Os coraixitas consideravam o Além irracional e impossível

A crença no Além tinha tamanha importância que, quando o Profeta (que a paz esteja com ele) a apresentou aos coraixitas e aos politeístas árabes, eles ficaram extremamente preocupados. Perceberam que, se a aceitassem, toda a sua liberdade terminaria. Mesmo em um lugar isolado, onde ninguém os visse, não poderiam praticar qualquer ato proibido por Allah e por Seu Mensageiro. Pensavam que, mesmo onde eram plenamente capazes de obter alguma vantagem injusta ou algum prazer e divertimento, essa crença lhes ataria as mãos. Essa crença, na verdade, colocaria atrás de cada um deles um soldado invisível, que de modo algum lhes permitiria agir conforme sua vontade. Por isso, começaram a opor-se ferozmente a ela. Tentaram divulgar vigorosamente entre as pessoas a ideia de que aquilo que Muhammad (que a paz esteja com ele) dizia era totalmente contrário à razão, impossível e irreal. Era pura loucura e uma afirmação ridícula. (74)

A ideia daqueles que tinham dúvidas sobre o Além

Entre os coraixitas havia também um pequeno grupo que dizia: “Acreditamos que talvez o Além venha a existir. Mas não temos fé nele.” Esse grupo é mencionado no Alcorão em apenas um lugar, para mostrar que eram muito poucos os que sustentavam essa ideia.

(Árabe***************)

Quando lhes era dito que a promessa de Allah era verdadeira e que não havia dúvida de que a Ressurreição ocorreria, vocês diziam: “Não sabemos o que é a Ressurreição. Temos apenas uma suposição, mas não temos fé nela.” (Al-Jathiyah: 32)

Aparentemente, há uma grande diferença, sob um aspecto, entre este grupo e os que negam o Além: estes negam completamente o Além, enquanto este grupo admite a possibilidade dele. Mas, quanto aos resultados e às consequências, não há diferença entre os dois. Isso porque a consequência moral de negar o Além e a de não crer nele são iguais. Quer uma pessoa negue o Além, quer tenha uma ideia a seu respeito, mas não creia nele, em ambos os casos ela ficará necessariamente livre do sentimento de ter de prestar contas diante de Deus, e essa ausência de sentimento certamente a levará a pensamentos e ações equivocadas. Somente a crença no Além pode manter correta a conduta humana no mundo. Sem ela, tanto a dúvida quanto a negação empurrarão a pessoa para o mesmo tipo de comportamento irresponsável. Como esse comportamento irresponsável é a verdadeira causa das terríveis consequências no Além, nem os que negam o Além nem os que não creem nele poderão escapar do Inferno. (75)

A concepção dos que negam o Além

Com exceção deste único lugar, em todos os demais lugares o Alcorão registrou claramente as declarações dos que negam o Além.

(Árabe******************)

— Essas pessoas dizem: “A vida nada mais é que esta nossa vida mundana. Aqui mesmo está nossa vida e nossa morte. Não há nada além do transcurso do tempo que possa nos destruir.” A verdade é que elas não possuem conhecimento algum. Dizem essas coisas apenas com base em conjecturas. Quando Nossos versículos claros lhes são recitados, não têm outro argumento senão dizer: “Se sois verídicos, trazei de volta à vida nossos antepassados.” (Al-Játhiya: 24–25)

Ou seja, não existe nenhum meio de conhecimento pelo qual tenham adquirido o conhecimento verdadeiro de que, depois desta vida, não haverá uma segunda vida para o ser humano, nem tenham descoberto que a alma humana não é tomada por ordem de Deus. Pelo contrário, o ser humano morre e desaparece no transcurso do tempo. Os que negam o Além não dizem essas coisas com base em conhecimento, mas apenas em conjecturas. Do ponto de vista racional, no máximo podem dizer: não sabemos se existe ou não alguma vida depois da morte. De modo algum podem dizer: sabemos que não existe uma segunda vida depois desta vida.

Assim, também do ponto de vista racional, eles não podem alegar saber que a alma humana não é retirada por ordem de Deus; pelo contrário, que o ser humano simplesmente morre e acaba, do mesmo modo que um relógio para depois de funcionar continuamente. No máximo, podem dizer: não sabemos, em relação a nenhuma dessas duas possibilidades, o que de fato acontece.

A questão agora é: quando, segundo os limites do conhecimento humano, existe a mesma possibilidade de haver ou não vida depois da morte, e de a alma ser tomada ou de a morte ocorrer pelo transcurso do tempo, que razão pode haver para que abandonem a possibilidade do Além e decidam com certeza em favor de sua negação? Que outra explicação pode haver senão que, na realidade, não decidem essa questão com base na razão, mas com base nos próprios desejos? Como não querem que exista qualquer vida depois da morte e que o significado da morte seja a transferência da alma, e não o vazio ou a inexistência, transformam o desejo de sua mente em sua própria crença e negam a outra possibilidade. (76)

(Árabe****************)

—Eles dizem: “Quando nos tornarmos terra e nossos ossos se transformarem em esqueletos, seremos ressuscitados novamente? Já ouvimos muitas vezes essa promessa, e nossos antepassados também a ouviram antes de nós. Isso não passa de antigas histórias.” (Al-Mu’minun: 82–81)

(Árabe******************)

—E, se vocês precisam demonstrar espanto, espantem-se com o que eles dizem: “Quando morrermos e nos tornarmos terra, seremos recriados?” Essas são as pessoas que renegaram seu Senhor. (Ar-Ra‘d: 5)

Ou seja, negar a vida futura e considerá-la impossível significa, na realidade, negar o poder e a sabedoria de Deus. Eles não dizem apenas que é impossível serem criados uma segunda vez depois de se misturarem à terra; sua declaração também contém implicitamente a ideia de que — Deus nos livre — o Deus que os criou é incapaz, fraco e ignorante. (77)

(Árabe********************)

—Os incrédulos dizem às pessoas: “Querem que lhes indiquemos um homem que afirma que, quando as partículas de seus corpos estiverem dispersas, vocês serão recriados?” Talvez esse homem esteja inventando mentiras contra Allah, ou talvez esteja possuído por um jinn. (Sabá: 7–8)

Os chefes dos coraixitas certamente não ousavam chamar o Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de mentiroso, pois toda a nação o conhecia como um homem veraz. Em toda a sua vida, ninguém jamais ouvira uma mentira de sua boca. Por isso, apresentavam sua acusação ao povo da seguinte maneira: “Quando esse homem profere de sua boca esse absurdo de que haverá vida novamente depois da morte, seu estado só pode ser um de dois: ou ele está mentindo deliberadamente — Deus nos livre — ou está louco. Mas chamá-lo de louco é tão infundado quanto qualificá-lo de mentiroso, pois somente uma pessoa desprovida de razão poderia considerar louca uma pessoa plenamente sã e dotada de bom senso. Por essa razão, Allah não considerou necessário apresentar qualquer argumento em resposta a essa afirmação absurda; limitou-se a responder àquela declaração espantosa que eles faziam sobre a possibilidade de vida depois da morte. (78)

(Árabe***************)

—Essas pessoas dizem: “Será que realmente seremos tirados das sepulturas? Quando tivermos nos transformado em esqueletos decrépitos?” E começaram a dizer: “Esse retorno será realmente muito prejudicial.” (An-Nazi’at: 10–12)

Ou seja, quando lhes foi dito: “Sim, será exatamente assim”, começaram a dizer uns aos outros, zombando: “Ora, irmão, se realmente tivermos de retornar à vida, então estamos completamente arruinados. Depois disso, não haverá mais nenhum bem para nós.” (79)

(Árabe*****************)

—E diziam: “Quando morrermos, nos misturarmos à terra e restarem apenas os esqueletos, seremos novamente levantados e postos de pé? E também serão levantados nossos antepassados que já passaram?” (Ó Profeta), dize-lhes: “Certamente, os primeiros e os últimos serão todos reunidos um dia determinado, cujo momento foi fixado.” (Al-Waqi’ah: 47–50)

Provas racionais da possibilidade da Vida Futura

Dos argumentos apresentados em vários trechos do Alcorão Sagrado, ao mencionar as afirmações feitas pelos negadores da Vida Futura em defesa de sua negação, fica provado que a ocorrência da Vida Futura é inteiramente possível. Não é a possibilidade que deveria ser considerada; pelo contrário, é considerar sua impossibilidade que contraria a razão.

(Árabe*****************)

—Será que o ser humano não vê que Nós o criamos de uma gota de esperma e, depois, ele se tornou um acirrado litigante? Agora, ele nos apresenta argumentos e esquece a sua própria criação. Diz: “Quem dará vida a esses ossos apodrecidos e reduzidos a pó?” Dize: “Aquele que os criou pela primeira vez lhes dará vida, e Ele conhece perfeitamente cada ato da criação.” (Yássin: 77-79)

Ou seja, ele se esquece de que Nós criamos, a partir de matéria inanimada, aquele germe primordial (MICRO) que se tornou o meio de sua criação. Depois, esse germe foi nutrido e desenvolvido até adquirir uma forma tão elevada que hoje ele é capaz de lançar uma torrente de palavras diante de Nós. Eles geralmente nos consideram incapazes de criar, como as criaturas. Entregam-se à falsa ideia de que, assim como o ser humano não pode dar vida aos mortos, Nós também não podemos fazê-lo. Por isso dizem: “Quem dará vida a esses ossos dissolvidos?”

Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Qatada (que Allah tenha misericórdia dele) e Saíd ibn Jubair (que Allah tenha misericórdia dele) que, certa vez, em Meca, um homem dentre os coraixitas trouxe do cemitério um osso apodrecido de um morto. Diante do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), reduziu-o a pó, espalhou-o ao vento e disse: “Ó Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dize que os mortos serão ressuscitados. Agora, diga-me: quem dará vida a estes ossos dissolvidos?”

Foi dada esta resposta breve e contundente: Aquele que o criou pela primeira vez lhe dará vida novamente. (80)

(Árabe***************)

—Dizem: “Quando nos tornarmos apenas ossos e pó, seremos criados e ressuscitados novamente?” Dize-lhes: “Ainda que vos torneis pedras ou ferro, ou qualquer outra coisa ainda mais dura, que, segundo vossa imaginação, esteja muito distante de receber vida, mesmo assim sereis ressuscitados.” Eles certamente perguntarão: “Quem nos fará retornar à vida?” Responde: “Aquele que vos criou pela primeira vez.” Então, balançando a cabeça em escárnio, dirão: “Está bem, quando será isso?” Dize: “Por que vos admirais? Talvez esteja muito próximo. No dia em que Ele vos chamar, respondereis ao Seu chamado e saireis, louvando-O; e imaginareis que permanecestes nessa condição por pouquíssimo tempo: ‘Ficamos assim apenas por um breve período.’” (Bani Israil: 49-52)

Ou seja, considerareis que o período desde o momento da morte neste mundo até o momento da ressurreição no Dia do Juízo não durou mais que algumas horas. Então pensareis: “Estávamos mergulhados em um longo sono. De repente, o tumulto no campo da reunião para o Juízo nos despertou.” (81)

(Árabe****************)

O ser humano diz: «Será que, depois de morrermos, seremos realmente ressuscitados e trazidos de volta à vida? Será que o ser humano não se recorda de que Nós o criámos primeiro, quando ele nada era?»

(Árabe********************)

—Ó pessoas! Se tendes alguma dúvida acerca da vida após a morte, sabei que Eu vos criei do pó; depois, de um espermatozoide; depois, de um coágulo; depois, de uma massa de carne, formada e não formada. (Dizemos isso) para vos tornar clara a verdade. E fazemos permanecer no útero, até um prazo determinado, aquele espermatozoide que desejamos. Depois, fazemos-vos nascer como crianças. (Cuidamos de vós) para que alcanceis a idade adulta. Entre vós, há quem seja levado previamente, e há quem seja reconduzido à fase mais degradante da vida, para que, depois de ter sabido tudo, nada saiba. Vês a terra seca; mas, quando fazemos descer sobre ela a chuva, ela se agita, floresce e faz brotar toda espécie de belas plantas. (Al-Hajj: 5)

Criar do pó significa, por um lado, que cada ser humano é criado a partir dos elementos obtidos de toda a terra, e que a criação começa pelo esperma. Ou significa que a origem da humanidade se deu com Adão (A.S.), que foi criado diretamente do pó. A continuidade da descendência humana posterior começou a partir do espermatozoide. Como foi dito na Surata As-Sajda:

(Árabe******************)

—Ele iniciou a criação do ser humano a partir do barro. Depois, deu continuidade à sua descendência a partir de uma substância semelhante a uma água desprezível. (As-Sajda: 7–8)

Em ambos os casos, fica comprovado que o ser humano vivo é criado pela reunião de substâncias inanimadas. Depois de descrever essa verdade, faz-se alusão às diferentes etapas pelas quais ocorre a conceção e o feto se estabelece no ventre materno. Não são fornecidos os pormenores que hoje podem ser observados com microscópios potentes; pelo contrário, são mencionadas as grandes e significativas transformações de que até os beduínos comuns daquela época tinham conhecimento. Isto é, depois de se fixar, o espermatozoide assume primeiro a forma de um coágulo. Em seguida, transforma-se numa massa de carne que inicialmente não possui forma definida. Depois, a forma humana começa a tornar-se nítida. Como essas etapas da criação humana se apresentavam à observação das pessoas em diferentes fases do aborto, faz-se alusão a elas. Em seguida, a resposta a esta questão é deixada à inteligência e à consciência do próprio ser humano: como poderia ser impossível para o Deus que cria o ser humano dessa maneira e promove o seu desenvolvimento recriá-lo novamente? (82)

(Árabe****************)

E essas pessoas dizem: “Quando nos misturarmos com a terra, seremos novamente recriados?”

Na verdade, eles negam o encontro com seu Senhor. Dize-lhes: “O anjo da morte, que foi designado para vós, recolherá completamente as vossas almas e, depois, sereis reconduzidos ao vosso Senhor.” (As-Sajdah: 10-11)

Entre a primeira e a última frase há uma argumentação completa, deixada à reflexão do ouvinte. A objeção dos incrédulos, citada na primeira frase, é tão absurda que não se considerou necessário refutá-la. Considerou-se suficiente apenas citá-la para expor a sua falta de sentido. Isso porque a objeção deles é composta de duas partes, e ambas são totalmente irracionais. “Nós nos misturaremos com a terra” — que significado pode ter essa afirmação? Aquilo a que se dá o nome de “nós” alguma vez se mistura com a terra? O que se mistura com a terra é apenas o corpo, do qual o “nós” se separa. Esse corpo não é chamado de “nós”. Enquanto a pessoa está viva, mesmo que os membros do seu corpo sejam cortados um após o outro, o “nós” permanece integralmente em seu próprio lugar. Nenhuma parte dele acompanha qualquer membro amputado do corpo e, quando esse “nós” sai de um corpo, embora o corpo inteiro continue existindo, não resta a menor relação entre o “nós” e esse corpo. É por isso que um amante dedicado sepulta o cadáver de sua amada: porque a sua amada saiu daquele corpo. Assim, o amante não sepulta a sua amada, mas sim esse corpo vazio, no qual a sua amada havia residido. Portanto, a primeira alegação do contestador já se mostrou infundada. Resta agora a segunda parte: “Seremos recriados?”

Essa negação e essa pergunta surpreendente não teriam surgido se o questionador tivesse refletido, ainda que por um instante antes de perguntar, sobre esse “nós” e sobre o significado da sua criação. Em que poderia consistir a criação atual desse “nós”, senão no fato de que carvão de um lugar, ferro de outro, cal de outro e diversos materiais semelhantes foram reunidos, e esse “nós” passou a habitar esse corpo de terra? O que acontece depois da sua morte? Quando o “nós” sai desse corpo ou casa de terra, todos os materiais recolhidos de diferentes partes da terra para construir a sua casa retornam à própria terra. A questão é: Aquele que, da primeira vez, construiu essa casa para esse “nós” não pode, pela segunda vez, reconstruí-la com esses mesmos materiais e reinstalá-lo nela de uma nova forma? Se essa obra foi possível da primeira vez — mais que possível, foi efetivamente realizada — que coisa poderia impedir que ela fosse possível e se concretizasse pela segunda vez? Isso é algo que qualquer pessoa pode compreender por si mesma com um pouco de raciocínio. Mas por que ela não permite que sua razão e seu entendimento se encaminhem nessa direção? Que motivo pode haver para que, sem qualquer reflexão, levante objeções sobre a vida após a morte e a Outra Vida? Deixando de lado toda a discussão intermediária, Deus responde à pergunta na segunda frase desta maneira: “Na verdade, eles negam o encontro com seu Senhor.” Isto é, a verdadeira questão não é que a recriação seja algo grandioso e impossível, além da compreensão deles; na realidade, o que os impede de compreender isso é o desejo de vagar sem restrições por todo o mundo, entregar-se plenamente ao pecado e sair daqui sem qualquer impedimento, para que depois ninguém os interrogue de modo algum nem lhes peça contas pelos seus atos.”

Em seguida, foi dito que a casa na qual o vosso “nós” habitava certamente se misturará com a terra. Mas esse próprio “nós” não se misturará com a terra. Pelo contrário, assim que terminar o prazo que lhe foi concedido para agir, virá, da parte de Deus, o anjo da morte, que o retirará do corpo e o tomará inteiramente sob sua custódia. Nem a menor parte dele poderá ir para a terra junto com o corpo. Tudo será colocado sob custódia e apresentado perante o seu próprio Senhor.

Este breve versículo lança luz sobre muitos fatos. Não basta lançar sobre ele um olhar superficial (CURSORY). Os pontos seguintes merecem atenção especial:

1. Nele é explicado detalhadamente que a morte não chega simplesmente como um relógio que estava funcionando, mas sem corda, e que, por isso, parou de repente enquanto funcionava. Na realidade, Deus designou um anjo especial para essa tarefa. Ele recolhe a alma de maneira regular e precisa, assim como um cobrador oficial de impostos ou um receptor oficial (OFFICIAL RECEIVER) toma algo sob sua custódia. Pelas descrições adicionais dadas sobre isso em vários trechos do Alcorão, sabe-se que, sob a autoridade desse anjo da morte, há todo um grupo de funcionários encarregado de provocar a morte, retirar as almas dos corpos e depois mantê-las sob sua custódia. O comportamento desses funcionários será de uma espécie com as almas virtuosas e de outra espécie com as almas criminosas. Para uma descrição detalhada, consulte a Surata An-Nissá, versículo 97; Al-An’am, versículo 93; An-Nahl, versículo 28; e Al-Wáqi’a, versículos 83-94.

2. Disso também se pode saber que, por meio da morte, o ser humano não deixa de existir. Pelo contrário, sua alma continua existindo depois de se separar do corpo. As palavras do Alcorão — “O anjo da morte tomará vossas almas completamente sob sua custódia” — indicam essa verdade. Pois não se pode tomar sob custódia algo que não existe. O próprio significado de tomar sob custódia é que, uma vez tomado, isso continuará existindo perante aquele que o tomou sob sua custódia.

3. Pode-se saber ainda que aquilo que é tomado no momento da morte é expresso pelas palavras “eu”, “nós”, “tu” e “vós”, relacionadas à identidade biológica do ser humano. Qualquer que seja a personalidade que esse “eu” tenha adquirido por meio das atividades mundanas, ele é retirado por completo e exatamente como é, sem qualquer redução ou acréscimo em suas qualidades, e, depois da morte, é apresentado ao seu Senhor (Allah). É a esse mesmo ser que, na vida futura, será concedida uma nova vida e um novo corpo. Contra ele será instaurado o processo; dele será exigida a prestação de contas por seus atos; e ele próprio receberá castigo ou recompensa. (83)

(Árabe****************)

—Pergunta-lhes: Criá-los é mais difícil ou criar aquilo que criámos? Nós os criámos de argila pegajosa. (As-Saffat: 11)

Esta foi a resposta à dúvida que os incrédulos de Meca apresentavam a respeito da vida futura. Eles julgavam que a vida futura era impossível, pois consideravam impossível que uma pessoa morta fosse criada novamente. Ao apresentar o argumento sobre a possibilidade da vida futura, Allah colocou primeiro diante deles esta questão: na vossa opinião, criar novamente uma pessoa morta é uma tarefa muito difícil, para a qual, segundo a vossa concepção, não temos poder. Então dizei: criar esta terra, os céus e as incontáveis coisas existentes entre os céus e a terra é uma tarefa fácil? Onde se perdeu o vosso conhecimento e a vossa razão, para que penseis que, para esse Deus, não foi difícil criar este vasto universo, mas suponhais que Aquele que vos criou uma vez é incapaz de vos criar pela segunda vez? Em seguida, Ele diz que o ser humano não é algo tão grandioso. Ele foi criado da terra e pode ser criado novamente a partir dela. Todos os elementos de sua existência foram extraídos da terra. O sêmen do qual ele é criado é produzido a partir dos alimentos. Desde a concepção até a morte, toda a sua constituição é formada pelos elementos das substâncias compostas (INGREDIENTS), e todos eles são obtidos dos alimentos. Quer esses alimentos sejam de origem animal ou vegetal, sua fonte é a terra, que, misturada à água, acumula tal força que produz cereais, verduras e frutas para a alimentação humana, além de criar os animais cujo leite e cuja carne o ser humano consome. A base do argumento é esta: se esta terra não fosse capaz de receber a vida, como estaríeis hoje vivos e existentes? E, se é possível criar vida nela hoje, como a vossa própria existência é uma prova clara dessa possibilidade, por que não seria possível criar-vos novamente a partir desta terra no futuro? (84)

(Árabe****************)

Criar os céus e a terra é uma tarefa muito mais difícil do que criar o ser humano. Mas a maioria das pessoas não sabe. (Al-Mu’minun: 57)

Esta é a resposta à ideia dos incrédulos de que o ser humano será ressuscitado depois da morte — que isso seria algo impossível. Foi dito que aqueles que falam assim são, na realidade, insensatos. Se refletissem com um pouco de inteligência e bom senso, não lhes seria difícil compreender que, para o Deus que criou este vastíssimo reino da natureza, não é difícil criar o ser humano pela segunda vez. (85)

(Árabe**************)

Criar-vos é acaso uma tarefa mais difícil do que criar o céu? Allah o criou. (An-Nazi’at: 27)

A expressão “criar” significa criar o ser humano pela segunda vez, e “céu” refere-se a todo o mundo superior. Nele existem incontáveis planetas e estrelas, inumeráveis sistemas solares e galáxias. A questão é que considerais impossível obter uma segunda vida depois da morte e repetis: como será possível que, quando o nosso esqueleto se dissolver e apodrecer completamente, estas partes dispersas e fragmentadas do corpo sejam novamente reunidas e lhes seja dada vida? Já refletistes sobre isto: criar este vasto e imenso reino da natureza é uma tarefa maior, ou será mais difícil, depois de vos criar desta forma, recriar pela segunda vez essa mesma forma? Para Aquele para quem nenhuma dessas coisas foi difícil, como poderia esta tarefa tornar-se tão difícil que Ele não fosse capaz de realizá-la? (86)

(Árabe****************)

E dizem: “Isto é magia evidente.” E será mesmo possível que morramos, nos transformemos em terra e reste apenas o esqueleto? Então seremos novamente ressuscitados e postos de pé? E os nossos antepassados também serão ressuscitados?” Diz-lhes: “Sim, e sereis completamente impotentes diante de Allah.” Bastará um único toque, e eles ficarão a observar tudo com os próprios olhos — aquilo de que foram informados. Então dirão: “Ai de nós! Este é o Dia do Juízo!” (As-Saffat: 15-20)

A afirmação deles era: “Isto é conversa sobre um mundo de magia. Que mundo mágico é esse que este homem menciona? Nele, os mortos voltarão à vida, haverá um tribunal, será criado o Paraíso e haverá o castigo do Inferno.” O sentido das suas palavras também poderia ser: “Este homem diz coisas que provam que alguém o enfeitiçou; por isso, uma pessoa boa está dizendo coisas assim.” Em resposta, foi dito: “Sim, assim será. Vós sereis impotentes diante de Allah. Ele pode fazer de vós tudo o que quiser. Quando quis, bastou um sinal Seu para que passásseis a existir. Quando quiser, bastará um sinal Seu para que morrais; depois, quando quiser, ao Seu sinal sereis levantados e postos de pé.” Quando chegar o momento disso, restabelecer o mundo não será uma tarefa enorme e prolongada. Um único impacto e tremor bastará para despertar os adormecidos. A expressão “impacto ou forte sacudida” é significativa aqui. Ela faz surgir diante dos olhos uma imagem da vida após a morte: todos os que morreram desde o início da humanidade até o Dia da Ressurreição estavam como que adormecidos. De repente, alguém diz em tom de repreensão: “Levantai-vos!” E, imediatamente, num instante, todos se levantam. (87)

(Árabe*****************)

(Essas pessoas não creem na vida após a morte.) Não observam os camelos: como foram criados? E o céu: como foi elevado? E as montanhas: como foram firmadas? E a terra: como foi estendida? (Al-Ghashiyah: 17-20)

Isto é: se, ao ouvirem essas afirmações sobre a vida após a morte, essas pessoas dizem: “Como tudo isso pode acontecer?”, será que alguma vez olharam para o mundo ao seu redor e refletiram sobre como o camelo foi criado, como este céu foi elevado tão alto, como as montanhas foram firmadas e como a terra foi estendida? Se tudo isso pode acontecer e, depois de acontecer, existe realmente diante delas, por que a Ressurreição não poderia ocorrer? Por que não poderia ser criado um segundo mundo na vida após a morte? E por que não poderiam ser criados o Inferno e o Paraíso? É próprio de um tolo insensato que, depois de abrir os olhos para o mundo, considere possível a existência dos objetos que viu diante de si, mas, quanto àquilo que ainda não entrou no seu campo de observação e experiência, feche os olhos e diga que é impossível. Se ainda possui alguma inteligência, deve refletir: como tudo o que existe veio a existir? Como este camelo foi criado com todas essas características, precisamente com as características de que necessitavam os habitantes do deserto da Arábia? Como foi criado este céu, em cuja atmosfera há ar para respirar, cujas nuvens trazem chuva, cujo sol fornece luz e calor durante o dia e cuja lua e estrelas brilham à noite? Como se tornou a terra um leito sobre o qual o ser humano vive, cujas colheitas satisfazem todas as suas necessidades e de cujas fontes e poços depende a sua vida? Como foram elevadas sobre a terra estas montanhas, que permanecem firmes, compostas de solos e pedras de cores variadas e de diferentes tipos de riquezas minerais? Tudo isso aconteceu acaso sem a habilidade construtiva de um Ser Todo-Poderoso e de um Criador Sábio? Nenhuma pessoa ponderada e sensata pode responder negativamente a esta pergunta. Se não for teimosa e obstinada, terá de admitir que cada uma dessas coisas seria impossível se um Ser grandemente poderoso e sábio não as tivesse tornado possíveis. E, quando tudo isso no mundo pode existir pelo poder de um Ser Poderoso, não há razão para considerar impossível aquilo cuja existência futura foi anunciada. (88)

أَلَمْ يَكُ نُطْفَةً مِنْ مَنِيٍّ يُمْنَى – ثُمَّ كَانَ عَلَقَةً فَخَلَقَ فَسَوَّى – فَجَعَلَ مِنْهُ الزَّوْجَيْنِ الذَّكَرَ وَالْأُنْثَى – أَلَيْسَ ذَلِكَ بِقَادِرٍ عَلَى أَنْ يُحْيِيَ الْمَوْتَى-( القيامة-40)

—Acaso não era ele uma gota de sêmen, da água mais insignificante, que é lançada no útero? Depois, tornou-se um coágulo; então, Allah formou o seu corpo e harmonizou os seus membros. E dele fez surgir homens de dois tipos: homens e mulheres. Não é Ele capaz de dar vida aos mortos? (A Ressurreição: 40)

Este é outro argumento apresentado aos incrédulos sobre a possibilidade da vida após a morte. Para aqueles que reconhecem que todo o processo, desde o início da criação humana a partir de uma gota de sêmen até a formação de um ser humano completo, é uma manifestação da arte criadora de Allah, na verdade não havia resposta alguma a esse argumento. Pois, por mais desavergonhados que fossem, sua consciência não podia deixar de reconhecer que o Deus que cria o ser humano dessa maneira neste mundo também é capaz de lhe dar existência novamente. Mas aqueles que, sendo ateus, consideram essa obra sábia o resultado de um mero acaso, por mais obstinação que demonstrassem em suas palavras, na realidade não tinham qualquer explicação para o fato de que, desde o início da humanidade até hoje, em todas as regiões do mundo e entre todos os povos, filhos e filhas continuam nascendo, como resultado do mesmo processo criador, em proporções tais que nunca aconteceu de uma comunidade passar a gerar somente meninos ou somente meninas, fazendo com que a continuidade de sua linhagem no futuro fosse destruída. Por mais desavergonhados que fossem, não podiam afirmar que tudo isso acontecia por acaso. Se sua mente testemunhasse que tudo isso era uma demonstração da habilidade criadora de um Criador sábio, não lhes restaria alternativa senão admitir que esse Criador sábio é capaz de destruir aquilo que criou e criá-lo novamente. (89)

فَلْيَنْظُرِ الْإِنْسَانُ مِمَّ خُلِقَ – خُلِقَ مِنْ مَاءٍ دَافِقٍ – يَخْرُجُ مِنْ بَيْنِ الصُّلْبِ وَالتَّرَائِبِ – إِنَّهُ عَلَى رَجْعِهِ لَقَادِرٌ-( الطارق-5-8)

—Que o ser humano observe, então, de que foi criado: foi criado de uma água ejetada, que sai de entre a espinha dorsal e as costelas. Certamente, Ele — o Criador — é capaz de recriá-lo. (At-Táriq: 5–8)

Em outras palavras, que o ser humano reflita um pouco sobre a sua própria existência e sobre como foi criado. Os pais se unem muitas vezes em relações sexuais; quem transforma uma dessas uniões em causa da concepção e faz dela o meio para o nascimento de uma pessoa específica? [Devido às descobertas científicas modernas, este assunto se tornou várias vezes mais complexo para as pessoas da época atual do que era para os árabes daquele tempo. À luz de tudo o que foi descoberto atualmente, durante a vida conjugal, incontáveis espermatozoides saem do corpo do homem e entram no corpo da mulher. No corpo da mulher também se formam continuamente, durante muitos anos, óvulos ou células embrionárias; cada óvulo possui a capacidade de concepção quando um determinado espermatozoide masculino se une a ele. Além disso, eles não são todos iguais; pelo contrário, cada espermatozoide e cada óvulo possui características próprias. Da união de cada par pode nascer um tipo específico de ser humano, que necessariamente será diferente dos seres humanos nascidos da união de outros pares. A questão é: quem decide qual dos inúmeros espermatozoides do homem se unirá a qual dos inúmeros óvulos da mulher, em que momento e para criar que tipo de ser humano? Tanto o homem quanto a mulher são completamente incapazes de controlar isso. Nenhum médico ou especialista pode intervir nesse processo. Também é incorreto dizer que a união de determinado espermatozoide com determinado óvulo seja mero resultado de um acontecimento acidental (ACCIDENTAL). Pois, como resultado desse maravilhoso ato criador, os tipos de pessoas que nascem em diferentes países, entre diferentes povos e em diferentes épocas exercem uma influência decisiva sobre os altos e baixos da história humana. E essa influência se estabelece com tal habilidade e sabedoria que levou as pessoas a conceberem a possibilidade de existir uma filosofia da história. Se os seres humanos nascessem de modo aleatório, sem qualquer sabedoria, jamais seria possível conceber uma filosofia da história. Portanto, não há alternativa senão reconhecer que a criação humana a partir dessa água ejetada foi realizada por um Deus sábio, de acordo com o Seu plano especial. (O autor)] Então, não existe uma entidade que, desde a concepção, promova no ventre materno um desenvolvimento gradual, camada após camada, até que o ser alcance a condição de nascer como uma criança viva? Que força estabelece, ainda no ventre materno, a formação física da criança e o equilíbrio entre suas capacidades físicas e mentais? Não existe uma entidade que cuide continuamente dela desde o nascimento até a morte, que a proteja das doenças e a preserve dos acidentes, que a guarde dos mais diversos perigos e aflições? Que lhe forneça tantos meios e recursos para a vida que não podem ser contados? Que, a cada passo, crie para ela no mundo oportunidades e facilidades para continuar vivendo, que ela não seria capaz de prover por si mesma — na verdade, nem sequer tem consciência de muitos deles? Tudo isso acontece sem a administração e a supervisão de algum Deus? Se uma pessoa dotada de consciência não responder negativamente a essa pergunta, não será difícil compreender que, assim como Ele dá existência ao ser humano, também pode fazê-lo existir novamente, trazendo-o de volta após a morte. Se Ele foi capaz de realizar a primeira coisa, e se os seres humanos vivem atualmente no mundo graças ao Seu poder, que argumento racional pode ser apresentado para supor que Ele não é capaz da segunda coisa? Para negar essa capacidade, o ser humano teria também de negar completamente que Deus lhe deu existência. E para quem consegue negar isso, não seria impossível que, um dia, uma perturbação mental o levasse a afirmar que todos os livros do mundo foram impressos por acaso, que todas as cidades e portos do mundo foram construídos por acaso e que algum acaso fez com que todas as fábricas fossem construídas e começassem a funcionar por conta própria. A verdade é que a criação do ser humano, a formação do seu corpo, o surgimento nele da força e da capacidade para agir e sua permanência como ser vivo são obras muito mais difíceis do que todas aquelas realizadas e realizadas atualmente pelos seres humanos no mundo. Se uma obra tão complexa e difícil pode continuar durante milhões de anos, como resultado do acaso, com sabedoria, proporção e organização, então que coisa existe que uma pessoa mentalmente perturbada não possa chamar de acaso? (90)

­ بَلْ عَجِبُوا أَنْ جَاءَهُمْ مُنْذِرٌ مِنْهُمْ فَقَالَ الْكَافِرُونَ هَذَا شَيْءٌ عَجِيبٌ – أَإِذَا مِتْنَا وَكُنَّا تُرَابًا ذَلِكَ رَجْعٌ بَعِيدٌ – قَدْ عَلِمْنَا مَا تَنْقُصُ الْأَرْضُ مِنْهُمْ وَعِنْدَنَا كِتَابٌ حَفِيظٌ-( ق-2-4)

— Pelo contrário, o que lhes pareceu surpreendente foi que um admoestador, vindo do seu próprio meio, tivesse chegado até eles. Então os incrédulos disseram: «Que coisa tão estranha! Quando morrermos e nos misturarmos com a terra (seremos ressuscitados novamente?)? Esse retorno é inconcebível para a razão.» Contudo, tudo o que a terra consome dos seus corpos está dentro do Nosso conhecimento. E temos junto de Nós um Livro no qual tudo está preservado. (Caf: 2–4)

A primeira coisa que lhes causou espanto foi que alguém semelhante a eles, saído do seu próprio povo, tivesse afirmado: «Vim da parte de Deus para vos advertir.» Depois, o que lhes pareceu ainda mais extraordinário foi que aquilo sobre o qual essa pessoa os advertia era que, após a morte, todos os seres humanos seriam novamente trazidos à vida e reunidos para serem apresentados perante o tribunal de Deus. Então, depois de serem julgados pelas suas ações, receberiam recompensa ou castigo. Depois, foi dito que, se isso não entra na compreensão dessas pessoas, isso deve ser atribuído à estreiteza da sua inteligência. Isso não implica de modo algum que o conhecimento e o poder de Deus sejam limitados. Eles pensam que as partes dos corpos de incontáveis seres humanos que morreram desde o início da humanidade até ao Dia da Ressurreição estão dispersas e separadas pela terra, e continuarão a dispersar-se no futuro, sendo impossível reuni-las. Mas a realidade é que Deus conhece diretamente cada uma dessas partes, na forma e no lugar em que se encontra. Além disso, o seu registro completo está sendo preservado nos arquivos de Deus, sem que a menor parte dele tenha sido perdida. Quando Deus der a ordem, os Seus anjos retirarão imediatamente desse registro cada uma dessas partes e reconstruirão para todos os seres humanos exatamente os corpos que eles tinham quando viveram no mundo.

Este versículo também está entre aqueles que explicam detalhadamente que a vida do Além não será apenas uma vida corporal semelhante à que existe neste mundo; pelo contrário, o corpo de cada pessoa será o mesmo que ela tinha neste mundo. Se assim não fosse, seria sem sentido responder aos incrédulos dizendo que sabemos tudo o que a terra consome dos seus corpos e que existe um registro de cada uma das suas partículas. (91)

أَفَعَيِينَا بِالْخَلْقِ الْأَوَّلِ بَلْ هُمْ فِي لَبْسٍ مِنْ خَلْقٍ جَدِيدٍ-( ق—15)

— Então, fomos incapazes de criar pela primeira vez? Mas eles estão em dúvida quanto à nova criação. (Caf: 15)

Em poucas palavras, foi apresentada aos negadores do Além uma verdade tão clara e direta que permanecerá gravada no coração de toda pessoa dotada de bom senso. Se alguém não for um negador de Deus nem tiver chegado a tal extremo de insensatez que considere este reino natural ordenado e o nascimento dos seres humanos dentro dele meros frutos do acaso, não terá alternativa senão reconhecer que somente Deus criou a nós e a este universo. Vemos essa realidade existente neste mundo, e todos os sistemas da terra e dos céus funcionam diante dos nossos olhos. Tudo isso é uma prova evidente de que Deus não foi incapaz de criar este reino natural. Depois disso, se alguém disser que, após a ocorrência do Dia da Ressurreição, esse mesmo Deus não poderá estabelecer uma segunda ordem universal nem nos recriar depois da morte, será preciso dizer que está falando contra a razão. Se Deus fosse incapaz, não teria podido criar pela primeira vez. Quando Ele já nos criou pela primeira vez e, graças à Sua criação, passamos a existir, que razão legítima pode haver para supor que Ele seja incapaz de destruir a Sua própria criação e fazê-la novamente? (92)

A argumentação sobre a inevitabilidade do Além

O Alcorão não considerou suficiente provar, com argumentos irrefutáveis, a possibilidade do Além. Pelo contrário, também provou que a sua ocorrência é necessária. A exigência da razão, da justiça e da moralidade é que exista o Além, onde serão examinadas todas as ações humanas: tudo o que fizeram desde que adquiriram conhecimento até ao instante anterior à morte, bem como todos os efeitos bons ou maus das suas ações que deixaram para trás e que continuam a influenciar as gerações futuras durante longos períodos. Se esse julgamento não ocorrer, e se as boas ações não forem recompensadas nem as más ações forem punidas, isso significará que não existe justiça no mundo de Deus. Aqui, os seres humanos foram criados sem propósito e sem sentido, dotados de razão, da capacidade de distinguir o bem do mal e de autoridade sobre inúmeras coisas e sobre outras pessoas. Na vida presente do mundo, não é possível realizar um julgamento completo, nem uma justiça completa, nem uma recompensa e um castigo plenos. Por isso, é absolutamente necessário que exista um segundo mundo, onde todos os seres humanos que vieram a existir desde o início da criação até ao Dia da Ressurreição possam ser reunidos ao mesmo tempo; onde se possam examinar todas as ações públicas e ocultas e as consequências delas resultantes, determinando a responsabilidade de cada indivíduo; e onde a vida não seja limitada, mas eterna, para que cada pessoa possa sofrer plenamente o castigo que merece e receber plenamente a recompensa a que tem direito. O Alcorão expôs este assunto de várias maneiras e em detalhes, para que os incrédulos não tivessem argumento algum para negar o Além. (93)

أَيَحْسَبُ الْإِنْسَانُ أَنْ يُتْرَكَ سُدًى-( القيامة-36)

—O ser humano pensa que foi deixado sem propósito? (Al-Qiyamah: 36)

Em árabe, ابل سدىchama-se assim o camelo que vagueia livremente, pastando onde e para onde quer. Não há ninguém para cuidar dele. É nesse sentido que usamos a expressão «camelo sem rédeas». Portanto, o sentido do versículo é: será que o ser humano se considera um camelo sem rédeas, pensando que o seu Criador o deixou na Terra sem responsabilidades? Nenhuma responsabilidade lhe foi imposta? Nada lhe foi proibido? Será que jamais chegará o momento em que será interrogado pelos seus atos? É isto que, em outra passagem do Alcorão, é dito da seguinte forma: no Dia da Ressurreição, Deus Altíssimo perguntará aos incrédulos—

أَفَحَسِبْتُمْ أَنَّمَا خَلَقْنَاكُمْ عَبَثًا وَأَنَّكُمْ إِلَيْنَا لَا تُرْجَعُونَ-( المؤمنون-115)

—Pensáveis que vos havíamos criado sem propósito e que jamais haveríeis de retornar a Nós? (Al-Mu’minun: 115)

Nestes dois lugares, a prova da inevitabilidade da vida após a morte é apresentada sob a forma de uma pergunta. O sentido da pergunta é: será que, na realidade, vos considerais animais? Não percebeis uma diferença evidente entre eles e vós: eles não receberam o poder de distinguir o bem do mal, ao passo que vós o recebestes? Em suas ações não se coloca nenhuma questão de bem ou mal moral, enquanto essa questão necessariamente se levantará em relação às vossas ações? Então, como pudestes pensar de vós mesmos que, assim como os animais são irresponsáveis e não terão de prestar contas, vós também sois assim? É possível compreender por que o animal não será ressuscitado uma segunda vez: ele apenas satisfez as exigências específicas do seu instinto natural; não elaborou nenhuma filosofia usando a própria razão, não fundou nenhuma escola religiosa, não fez de ninguém um deus nem se fez deus de alguém. Não realizou nenhum ato que pudesse ser chamado de bom ou mau. Não instituiu nenhuma boa ou má sunna cuja influência continuasse através das gerações. Assim, pode-se considerar aceitável que, ao morrer, ele desapareça, pois nenhuma responsabilidade por qualquer de seus atos lhe é atribuída que tornasse necessária a sua ressurreição para ser interrogado a respeito. Mas como podeis escapar da vida após a morte? Até o momento da vossa morte, continuais praticando atos morais cuja bondade ou maldade, e cuja dignidade de recompensa ou punição, a vossa consciência vos indica. Na vossa opinião, deveria uma pessoa que matou um inocente e logo depois foi vítima de um acidente escapar impunemente, sem que a vítima recebesse qualquer compensação por essa injustiça? A respeito daquele que semeou na Terra sementes de desordem e iniquidade, cujas consequências as pessoas continuaram a sofrer durante vários séculos, será que a vossa consciência afirma sem hesitação que ele também deveria morrer e desaparecer como um inseto, sem ser ressuscitado para prestar contas desses crimes, pelos quais a vida de inúmeras pessoas foi destruída? E aquele que passou toda a vida sofrendo aflições e adversidades, também é, na vossa opinião, uma criatura como os insetos? (94)

لَا أُقْسِمُ بِيَوْمِ الْقِيَامَةِ – وَلَا أُقْسِمُ بِالنَّفْسِ اللَّوَّامَةِ-( القيامة-1-2)

—Não! Juro pelo Dia da Ressurreição e juro pela alma que se censura. Isto significa que está errada a vossa suposição de que a Ressurreição não ocorrerá. Juro pela Ressurreição e pela alma que se censura que a Ressurreição certamente ocorrerá.

Aqui, Allah não mencionou aquilo por cuja causa jurou pelo Dia da Ressurreição e pela alma que se censura, pois a frase seguinte o esclarece. Ele jura para afirmar que Allah recriará o ser humano depois de sua morte e que é plenamente capaz de fazê-lo. A questão agora é: por que se jurou por essas duas coisas? A lógica disso era bastante clara para as pessoas ponderadas naquela época, mas hoje é ainda mais clara.

Tomemos como exemplo o Dia da Ressurreição. A razão de se jurar por ele é que sua chegada é inevitável. Todo o sistema da natureza do universo testemunha que ele não é eterno no início nem eterno no fim. Sua própria natureza declara que ele não existiu desde sempre e que também não existirá para sempre. Antigamente, tampouco havia, na consciência humana, qualquer argumento forte em favor da ideia infundada de que este mundo em constante transformação poderia ser sem princípio e sem fim. Porém, quanto mais o conhecimento humano sobre este mundo aumenta, mais se torna certo para as pessoas que este universo teve um começo, antes do qual não existia, e que inevitavelmente terá um fim, depois do qual não existirá. Com base nisso, Allah jurou pelo próprio Dia da Ressurreição para confirmar que ele ocorrerá. É como o juramento que fazemos a alguém que duvida da própria existência, dizendo-lhe: “Juro pela tua vida: tu existes.” Ou seja, a tua própria existência testemunha que estás vivo.

Mas o juramento pelo Dia da Ressurreição apenas prova que um dia este sistema cósmico será destruído e reduzido a pedaços. Resta a questão de que, depois disso, os seres humanos serão ressuscitados, terão de prestar contas de seus atos e receberão recompensa ou castigo por suas obras boas e más. É por isso que se fez o segundo juramento: pela alma que se censura. Não existe no mundo pessoa alguma totalmente desprovida daquilo que se chama consciência. Nessa consciência há necessariamente um sentimento do bem e do mal. Por mais desorientado e desviado que seja, o ser humano é certamente impedido por sua consciência de praticar certos males e de deixar de fazer certos bens. O fato de ele ter estabelecido um padrão para o bem e o mal, esteja esse padrão correto ou não, prova que o ser humano não é simplesmente um animal, mas um ser moral. Ele possui, por natureza, a capacidade de distinguir o bem do mal. Considera-se responsável por suas próprias boas e más ações. Assim, pode até obter satisfação ao silenciar a censura da consciência pelo mau comportamento que teve para com outra pessoa; mas, quando outra pessoa se comporta mal com ele, seu íntimo exige que aquele que o tratou injustamente seja necessariamente punido. Se a existência, no ser humano, de uma alma censuradora (nafs al-lawwāmah) é uma realidade inegável, então também é inegável que essa alma que se censura constitui um testemunho da vida após a morte, presente na própria natureza humana. Pois a exigência da natureza humana de que o ser humano seja responsabilizado por suas boas e más ações e receba necessariamente recompensa ou castigo não pode ser satisfeita sem uma vida após a morte. Nenhuma pessoa dotada de consciência pode negar que, se o ser humano desaparecesse após a morte, seria privado da recompensa por muitas de suas boas ações e escaparia de receber a justa punição por muitas de suas injustiças. Portanto, enquanto o ser humano não aceitar esta ideia absurda: que uma pessoa dotada de consciência nasceu dentro de um universo sem propósito e que uma pessoa dotada de sentimento moral nasceu num mundo cuja estrutura fundamental não contém qualquer moralidade em todo o seu sistema, ele não poderá negar a vida após a morte. Do mesmo modo, a doutrina da reencarnação também não responde à exigência da natureza. Pois, se o ser humano continuasse a renascer neste mesmo mundo para receber punição ou recompensa por suas ações morais, em cada nascimento voltaria a praticar novas ações morais, que exigiriam novamente punição ou recompensa; nessa cadeia interminável, em vez de se encerrarem suas contas, elas continuariam aumentando. Assim, a exigência da natureza só pode ser satisfeita se o ser humano tiver uma única vida neste mundo. Depois da destruição de toda a humanidade, deverá haver uma segunda vida, na qual, após a devida prestação de contas pelas ações humanas, será aplicada a punição ou concedida a recompensa completas. (95)

وَمَا خَلَقْنَا السَّمَاءَ وَالْأَرْضَ وَمَا بَيْنَهُمَا بَاطِلًا ذَلِكَ ظَنُّ الَّذِينَ كَفَرُوا فَوَيْلٌ لِلَّذِينَ كَفَرُوا مِنَ النَّارِ – أَمْ نَجْعَلُ الَّذِينَ آمَنُوا وَعَمِلُوا الصَّالِحَاتِ كَالْمُفْسِدِينَ فِي الْأَرْضِ أَمْ نَجْعَلُ الْمُتَّقِينَ كَالْفُجَّارِ-(ص-27-28)

-Não criamos estes céus, a Terra e o mundo entre ambos sem propósito. Essa é a suposição dos que descrêem, e haverá destruição para esses descrentes por meio do fogo do Inferno. Trataremos aqueles que creem e praticam boas ações como aqueles que corrompem a Terra? Trataremos os tementes a Deus como os pecadores? (Sād: 27-28)

Em outras palavras, não criamos este universo apenas como um objeto de diversão, desprovido de sabedoria, propósito, justiça ou qualquer consequência resultante das boas ou más ações. O ser humano não foi deixado aqui como um camelo sem rédeas, nem este mundo é um reino sem lei em que cada um faça o que quiser sem ser julgado. Aquele que não aceita a recompensa e o castigo e imagina que, no fim, todos os seres humanos, bons ou maus, morrerão e se misturarão à terra, que ninguém será interrogado e que ninguém sofrerá qualquer consequência por suas boas ou más ações, na realidade considera o mundo um brinquedo e seu Criador um jogador. Sua concepção é que o Criador do universo cometeu um ato absurdo ao criar o mundo e o ser humano nele. Mas, na realidade, é razoável para vós que o justo e o injusto sejam iguais? É aceitável para vós que ninguém receba qualquer recompensa por uma boa ação nem qualquer castigo por uma má ação? É evidente que, se não houver uma vida futura, se não houver interrogatório por parte de Allah e se não houver recompensa nem castigo pelas ações humanas, então não haverá nada que se possa chamar de sabedoria e justiça de Allah. Consequentemente, todo o sistema do universo estará necessariamente mergulhado na desordem. Com base nessa concepção, não haverá no mundo qualquer incentivo ao bem-estar nem qualquer impedimento que afaste da corrupção. Se o governo de Deus — que Allah nos livre — fosse tão desprovido de bom senso, então seria extremamente tolo aquele que, suportando muitos sofrimentos neste mundo, vivesse pessoalmente uma vida virtuosa e trabalhasse pela reforma e pelo aperfeiçoamento da humanidade. E seria inteligente aquele que, encontrando condições favoráveis, aproveitasse a oportunidade para transgredir e desfrutasse a vida em toda espécie de corrupção e pecado. (96)

زَعَمَ الَّذِينَ كَفَرُوا أَنْ لَنْ يُبْعَثُوا قُلْ بَلَى وَرَبِّي لَتُبْعَثُنَّ ثُمَّ لَتُنَبَّؤُنَّ بِمَا عَمِلْتُمْ وَذَلِكَ عَلَى اللَّهِ يَسِيرٌ-(التغابن-7)

—Os negadores declararam em alta voz que, depois da morte, de modo algum seriam ressuscitados. Dize-lhes: “Não! Pelo juramento do meu Senhor, certamente sereis ressuscitados. Depois, certamente sereis informados sobre tudo quanto fizestes no mundo. E isso é muito fácil para Allah.” (At-Taghabun: 7)

Embora antes não houvesse, nem haja hoje, para nenhum negador da vida futura qualquer meio de saber que não existe uma segunda vida depois da morte, esses insensatos sempre fizeram essa afirmação em alta voz. Contudo, não há base alguma, nem racional nem intelectual, para negá-la com certeza.

Em resposta às palavras deles, Allah, o Altíssimo, ordena ao Seu Profeta que diga, jurando por Ele: “Certamente sereis ressuscitados e certamente sereis informados sobre o que fizestes na Terra.” Este é o terceiro lugar no Alcorão em que Allah ordena ao Seu Profeta que diga às pessoas, jurando pelo seu Senhor, que isso certamente acontecerá. Primeiro, na surata Yunus, foi dito: “Eles perguntam: ‘Isso é realmente verdade?’ Dize: ‘Sim, pelo meu Senhor! É verdade, e não tendes poder para impedi-lo.’” (versículo 53)

Depois, na surata Sabá, é dito: “Os negadores perguntam: ‘Por que a Hora não cai sobre nós?’ Dize: ‘Pelo meu Senhor, ela certamente cairá sobre vós.’”

Agora surge a pergunta: que diferença faz anunciar, com ou sem juramento, a notícia da vida futura a alguém que a nega? Se ele nem sequer admite isso, por que haveria simplesmente de admitir que você lhe fala sob juramento? A resposta é que, em primeiro lugar, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) dirigia-se a pessoas que, com base no próprio conhecimento e experiência, sabiam que jamais havia saído de sua boca uma mentira. Por isso, por mais que o difamassem publicamente, não conseguiam imaginar, no íntimo, que um homem tão veraz pudesse alguma vez jurar por Deus algo cuja verdade não tivesse plena convicção de possuir. Em segundo lugar, ele não estava apenas expondo a crença na vida futura; apresentava também provas e argumentos extremamente racionais a seu favor. Contudo, a diferença entre um profeta e um não profeta é esta: o máximo que um não profeta pode alcançar ao apresentar fortes argumentos em favor da vida futura é considerá-la mais provável do que a sua inexistência. Em contrapartida, a posição do profeta está muito acima da de um filósofo. Sua verdadeira dignidade não consiste em ter chegado, mediante argumentos racionais, à conclusão de que a vida futura deveria existir. Sua verdadeira dignidade consiste em possuir o conhecimento de que ela existirá e declarar, com firme convicção, que certamente existirá. Por isso, somente um profeta pode afirmar tal coisa sob juramento. Um filósofo não pode jurar por nenhuma de suas afirmações. A fé na vida futura só pode surgir depois da declaração de um profeta. O argumento do filósofo não tem força suficiente para que, muito menos outras pessoas, o próprio filósofo possa transformá-lo, com base em seu argumento, em artigo de sua fé. Se o filósofo for dotado de pensamento correto, poderá dizer apenas que ela deveria existir; não poderá dizer mais do que isso. Já “ela certamente existirá” é algo que somente um profeta pode dizer.

Depois, sob juramento, não foi dito apenas que sereis ressuscitados após a morte; também foi dito que, naquele momento, certamente sereis informados sobre tudo quanto fizestes no mundo. Esse é o verdadeiro propósito pelo qual a humanidade será ressuscitada uma segunda vez depois da morte. E nisso está contida a resposta à pergunta sobre a necessidade de tal acontecimento. É verdade que, na correta ordem do universo, foi concedida à criatura humana a liberdade de escolher entre a incredulidade e a fé. Foi-lhe dada liberdade para utilizar muitas coisas neste mundo e, ao adotar o caminho da incredulidade ou o da fé, ao longo de toda a vida ela usou essa liberdade de maneira correta ou incorreta, assumindo a responsabilidade por muitas ações benéficas ou prejudiciais. Seria completamente irracional imaginar que, depois de ter feito tudo isso, não houvesse necessidade dos resultados do bem e do mal, nem chegasse jamais um momento em que suas ações pudessem ser examinadas e avaliadas. Quem afirma semelhante absurdo comete necessariamente uma de duas tolices. Ou pensa que este universo é uma realidade regida pela sabedoria, mas que nele uma criatura dotada de livre-arbítrio, como o ser humano, foi deixada sem responsabilidade; ou pensa que se trata de uma criação caótica, por trás da qual não atuava sabedoria alguma. A primeira concepção é contraditória em si mesma, pois, numa ordem cósmica regida pela sabedoria, deixar sem responsabilidade uma criatura dotada de livre-arbítrio é contrário à sabedoria e à justiça. Quanto à segunda concepção, ele não pode apresentar nenhuma análise racional que explique como foi possível existir, numa criação caótica e sem sabedoria, uma criatura dotada de consciência como o ser humano. E de onde surgiu, em sua mente, a noção de justiça? A ideia de que a consciência nasceu da falta de consciência e a justiça surgiu da injustiça só pode ser defendida por um obstinado ou por alguém que, ao estudar filosofia em excesso, tenha adoecido mentalmente.

Em seguida, foi dito que fazer isso é muito fácil para Allah. Esse é o segundo argumento em favor da vida futura. O primeiro argumento dizia respeito à necessidade da vida futura, e este diz respeito à sua possibilidade: para Aquele que criou a grandiosa ordem do universo, nada é difícil; como, então, seria difícil criar o ser humano uma segunda vez, apresentá-lo diante de Si e pedir-lhe contas? (97)

إِنَّ هَؤُلَاءِ لَيَقُولُونَ – إِنْ هِيَ إِلَّا مَوْتَتُنَا الْأُولَى وَمَا نَحْنُ بِمُنْشَرِينَ – فَأْتُوا بِآبَائِنَا إِنْ كُنْتُمْ صَادِقِينَ – أَهُمْ خَيْرٌ أَمْ قَوْمُ تُبَّعٍ وَالَّذِينَ مِنْ قَبْلِهِمْ أَهْلَكْنَاهُمْ إِنَّهُمْ كَانُوا مُجْرِمِينَ – وَمَا خَلَقْنَا السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ وَمَا بَيْنَهُمَا لَاعِبِينَ – مَا خَلَقْنَاهُمَا إِلَّا بِالْحَقِّ وَلَكِنَّ أَكْثَرَهُمْ لَا يَعْلَمُونَ – إِنَّ يَوْمَ الْفَصْلِ مِيقَاتُهُمْ أَجْمَعِينَ-(الدخان—34–40)

Essas pessoas dizem: “Não há nada além da nossa primeira morte. Depois, não seremos ressuscitados uma segunda vez. Se és sincero, faze, então, nossos antepassados mortos ressuscitarem.”

Eles são melhores ou o povo de Tubba e aqueles que os precederam? Nós os destruímos porque eram pecadores. Não criamos os céus, a terra e tudo o que há entre ambos para diversão e passatempo. Criamo-los com verdade. Mas a maioria das pessoas não sabe. O tempo determinado para a ressurreição de todos será o Dia da Decisão. (Ad-Dukhān: 34–40)

A afirmação dos incrédulos era que, quando morressem pela primeira vez, simplesmente desapareceriam. Depois, não haveria mais vida. As palavras “primeira morte” não implicam necessariamente que, depois dela, haverá uma segunda morte.

Quando dizemos que determinada pessoa teve seu primeiro filho, não é necessário, para que essa afirmação seja verdadeira, que ela tenha necessariamente um segundo filho depois. Basta que, antes disso, não tivesse tido nenhum filho. Por isso, os incrédulos não usavam as palavras “primeira morte” no sentido de que depois dela haveria alguma vida e uma segunda morte. Consideravam a primeira morte como a única e definitiva. Seu argumento era: “Como nunca vimos ninguém voltar à vida uma segunda vez depois da morte, temos a firme convicção de que não haverá uma segunda vida após a morte. Se afirmais que haverá uma segunda vida, fazei nossos antepassados ressuscitarem dos túmulos, para que passemos a acreditar na vida após a morte. Se não puderdes fazer isso, entenderemos que vossa afirmação não tem fundamento.”

Aos olhos deles, isso parecia ser uma prova decisiva contra a vida após a morte. Contudo, era absolutamente sem sentido. Quem lhes dissera que aquele que morresse voltaria a esta mesma terra depois de receber uma segunda vida? Alguma vez o Profeta (que a paz esteja sobre ele) ou algum muçulmano afirmara que podia ressuscitar os mortos?

A primeira resposta dada à sua objeção foi que essas pessoas não eram melhores que o povo de Tubba [Tubba era o título dos reis da tribo de Himyar. Eles assumiram o poder no Iêmen em 115 a.C. e governaram até 300 d.C. — Autor]. Nós os destruímos por causa de seus pecados. Em outras palavras, o sentido dessa resposta era que negar a Vida Futura é algo que inevitavelmente torna qualquer indivíduo, grupo ou povo pecador. A decadência moral é sua consequência inevitável, e a história humana testemunha que toda nação que adotou essa visão da vida acabou sendo destruída. Os incrédulos de Meca não alcançaram a influência, o poder e o desenvolvimento obtidos pelo povo de Tubba e, antes deles, por Sabá, pelo povo do Faraó e por outras nações. Mas quando esse desenvolvimento material e essa influência mundana puderam protegê-los das consequências da decadência moral, para que estes se protejam delas com recursos e meios tão limitados?

A segunda resposta dada à sua objeção foi que todo aquele que nega a vida após a morte e a recompensa e o castigo da Vida Futura, na realidade, considera este sistema do universo um brinquedo e seu Criador uma criança tola. Com base nisso, chegou à conclusão de que, depois de os seres humanos causarem toda espécie de desordem no mundo, um dia simplesmente se transformarão em pó, sem que resulte consequência alguma de suas boas ou más ações. Na verdade, este universo não foi criado por alguém que busca diversão, mas por um Criador; e não se pode esperar de um Sábio que pratique atos inúteis. Essa argumentação contra a negação da Vida Futura foi apresentada em vários lugares do Alcorão.

Quanto à sua afirmação: “Fazei nossos antepassados ressuscitarem, se sois sinceros”, foi dada a seguinte resposta: a vida após a morte não é uma brincadeira, de modo que, só porque alguém a nega, um morto seja retirado do túmulo e colocado diante dele. Para isso, o Senhor dos Mundos determinou um tempo, quando ressuscitará pela segunda vez todos os primeiros e os últimos e os reunirá diante de Seu tribunal, para proferir a sentença sobre o caso deles. Quer acrediteis, quer não, isso acontecerá no tempo determinado. Se acreditardes, fareis o bem a vós mesmos, pois, estando ainda em tempo, podereis precaver-vos e preparar-vos para ser bem-sucedidos naquele tribunal. Ou será que tendes tudo aquilo que desejais? Ou tendes um compromisso e uma promessa obrigatória da Nossa parte, válida até o Dia da Ressurreição, de que tudo o que dizeis vos será concedido? Pergunta-lhes: quem, dentre vós, se responsabiliza por isso? Ou será que têm parceiros designados que assumiram essa responsabilidade? Se é assim, que tragam esses parceiros, se são sinceros. (Al-Qalam: 35–41)

Os líderes de Meca diziam aos muçulmanos: “As bênçãos que desfrutamos neste mundo são um sinal de que somos amados por Deus. E a condição miserável em que vocês se encontram é prova de que são desprezados por Deus. Portanto, se realmente existir uma vida futura, como vocês dizem, também lá viveremos em felicidade, enquanto o castigo será para vocês, não para nós.” Em resposta, foi dito: “É contrário à razão que Deus não faça distinção entre os obedientes e os criminosos. Como vocês concluíram que o Criador deste universo é um rei cego, que não verá quem, neste mundo, obedeceu às Suas ordens e se absteve do mal, e quem, sem temor d’Ele, cometeu toda espécie de pecado, injustiça e opressão? Vocês viram apenas a condição miserável dos crentes e a própria felicidade e tranquilidade. Mas não viram a diferença entre o caráter e as ações de vocês e os deles; e, sem qualquer hesitação, declararam que, perante Deus, os obedientes serão tratados como os criminosos e que criminosos como vocês receberão o Paraíso. Com base em quê vocês dizem isso? Possuem algum Livro de Deus no qual isso esteja escrito? Ou fizeram algum pacto com Deus? Se assim for, quem dentre vocês pode apresentar-se e afirmar que Deus assumiu tal compromisso? A verdade é que não há fundamento algum para as afirmações que fazem em defesa própria. Elas também são contrárias à razão. Vocês não poderão mostrar que isso está escrito em nenhum Livro de Deus. Tampouco alguém dentre vocês poderá afirmar que recebeu de Deus semelhante promessa. E não poderão fazer com que nenhum dos que vocês transformaram em deuses testemunhe que assumirá, perante Deus, a responsabilidade de lhes garantir o Paraíso. De onde lhes veio essa falsa concepção? (101)

وَإِذَا الْمَوْءُودَةُ سُئِلَتْ – بِأَيِّ ذَنْبٍ قُتِلَتْ-(التكوير-8-9)

“E quando a menina enterrada viva for interrogada: por que crime foi morta? (At-Takwir: 8–9)

A forma de expressão deste versículo manifesta uma ira tão intensa que não se pode imaginar nada maior. No Dia da Ressurreição, os pais que enterraram viva a filha serão tão desprezíveis aos olhos de Deus que não serão eles interpelados com a pergunta: “Por que mataram esta criança inocente?” Pelo contrário, desviando-se o olhar deles, será perguntado à criança inocente: “Ó desafortunada, por que foste morta?” Ela narrará a sua história e dirá quanta opressão os pais injustos lhe infligiram e como a enterraram viva sob a terra. Além disso, neste breve versículo foram reunidos dois grandes temas, que, em vez de serem expressos por palavras, manifestam-se espontaneamente na própria forma da narrativa. Primeiro, despertou-se entre os árabes a consciência de que a ignorância os havia mergulhado em um abismo tão profundo de decadência moral que enterravam vivos os próprios filhos com as próprias mãos. Mesmo assim, permaneciam obstinados em continuar firmes nessa ignorância e não aceitavam a reforma que o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) pretendia realizar em sua sociedade corrompida e degenerada. Segundo, apresenta-se nele uma prova clara de que a vida futura é indispensável. A criança que foi enterrada viva deve, de algum modo, encontrar reparação. E deve chegar também um momento para aqueles injustos que cometeram essa opressão, em que sejam interrogados por essa crueldade. No mundo não havia ninguém para ouvir o clamor da menina enterrada. Na sociedade da ignorância, esse ato desumano nem sequer era considerado algo ilícito que devesse ser impedido. Nem os pais sentiam vergonha por fazê-lo, nem havia alguém na família que os censurasse. Na sociedade também não havia ninguém capaz de prendê-los. Então, será que, no domínio de Deus, esta enorme injustiça permanecerá sem reparação? (102)

As consequências morais da negação da vida futura

Além de apresentar argumentos e provas tão poderosos sobre a possibilidade e a necessidade da vida futura, o Alcorão Sagrado também afirma que somente a crença na vida futura é aquilo que mantém o caráter e a conduta humana firmados sobre bases morais corretas e sólidas. Sem ela, nada impedirá o ser humano de cometer injustiça e opressão, desregramento e pecados, romper pactos, apropriar-se indevidamente dos bens alheios, praticar más ações e assim por diante. É por isso que, por mais que os que negam a vida futura exibam argumentos com a boca, suas ações concretas revelam que, na realidade, desejam a liberdade da ausência de limites morais e negam a vida futura para conservar essa liberdade. Ao mesmo tempo, o Alcorão identificou os desvios morais que geralmente se haviam espalhado pela sociedade árabe. Em seguida, colocou-se diante das pessoas a seguinte questão: tais transgressões continuariam sendo cometidas se surgisse no ser humano a consciência de que um dia teria de comparecer diante de Deus e prestar contas de cada uma de suas ações? (103)

أَيَحْسَبُ الْإِنْسَانُ أَلَّنْ نَجْمَعَ عِظَامَهُ – بَلَى قَادِرِينَ عَلَى أَنْ نُسَوِّيَ بَنَانَهُ – بَلْ يُرِيدُ الْإِنْسَانُ لِيَفْجُرَ أَمَامَهُ-(القيامة-3-5)

Se aceitarem isso, causarão prejuízo a si mesmos. Pois passarão toda a vida sob a falsa concepção de que tudo o que é bom ou mau está limitado a este mundo. Depois da morte não haverá julgamento, nem se manifestará qualquer consequência permanente de nossas boas ou más ações. (98)

أَمْ حَسِبَ الَّذِينَ اجْتَرَحُوا السَّيِّئَاتِ أَنْ نَجْعَلَهُمْ كَالَّذِينَ آمَنُوا وَعَمِلُوا الصَّالِحَاتِ سَوَاءً مَحْيَاهُمْ وَمَمَاتُهُمْ سَاءَ مَا يَحْكُمُونَ- وَخَلَقَ اللَّهُ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ بِالْحَقِّ وَلِتُجْزَى كُلُّ نَفْسٍ بِمَا كَسَبَتْ وَهُمْ لَا يُظْلَمُونَ(الجاثية-21-22)

Será que aqueles que cometeram injustiça e corrupção imaginam que Nós os trataremos da mesma forma que aqueles que creem e praticam boas obras, fazendo com que sua vida e sua morte sejam iguais? Que péssimo é o julgamento que fazem! Allah criou os céus e a terra com verdade e propósito, para que cada pessoa seja recompensada pelo que fez e para que ninguém seja injustiçado. (Al-Jathiyah: 21-22)

Eis o argumento moral da veracidade do Além. A distinção entre o bem e o mal na moralidade e entre pecado e virtude nas ações exige necessariamente que o destino dos justos e dos injustos não seja o mesmo. Pelo contrário, que os justos recebam a recompensa por suas boas ações e os injustos, a recompensa por suas más ações. Se isso não ocorrer, e se a recompensa pelo pecado e pela virtude for igual, então a distinção entre o bem e o mal na moralidade se tornará completamente sem sentido. Além disso, isso equivaleria a acusar Deus de injustiça. Aqueles que seguem o caminho das más ações no mundo certamente desejam que não haja nem castigo nem recompensa, pois essa ideia é justamente o que impede sua vida de prazeres. Mas é contrário à sabedoria e à justiça do Criador e Senhor do universo que Ele trate da mesma maneira os injustos e os justos, sem considerar como o crente virtuoso viveu e que desordem o incrédulo e pecador criou aqui. Uma pessoa passou toda a vida impondo restrições morais a si mesma, cumprindo os direitos de quem os possui, abstendo-se de oportunidades ilícitas, privilégios e prazeres, e suportando diversos prejuízos por sua honestidade e veracidade. Outras pessoas satisfizeram os desejos de suas paixões por todos os meios possíveis; não reconheceram os direitos de Deus nem se abstiveram de violar os direitos das pessoas, e fizeram tudo o que podiam para obter vantagens e desfrutar dos prazeres da vida. Pode-se esperar agora que Deus ignore essa diferença entre a vida desses dois tipos de pessoas? Se, depois da morte, o destino daqueles cuja vida não foi igual até a morte for igual, que injustiça maior poderia haver no domínio de Deus?

Em seguida, é dito que a criação da terra e dos céus não é um jogo, mas uma ordem intencional e sábia. Dentro dessa ordem, é inconcebível que as pessoas que utilizaram corretamente a autoridade e os meios concedidos por Allah e praticaram o bem, e aquelas que os utilizaram de maneira errada e causaram injustiça e corrupção, acabem todas morrendo, misturando-se ao pó, sem que haja uma segunda vida depois da morte, na qual suas boas e más ações tenham, com base na justiça, consequências boas e más. Se assim fosse, este universo seria o brinquedo de um jogador, e não uma ordem intencional criada por um Ser sábio. (99)

Os versículos 21 a 23 da Surata Al-Jathiyah deixam claramente evidente que os que negam o Além são aqueles que querem servir às suas paixões e consideram a crença no Além um obstáculo à sua liberdade. Depois, quando negam o Além, sua servidão às paixões aumenta ainda mais, e eles se envolvem cada dia mais profundamente em seu desvio. Não há nenhuma forma de corrupção da qual se abstenham. Não hesitam em usurpar os direitos de ninguém. Quando têm oportunidade de cometer injustiça e transgredir, não se pode esperar que se abstenham disso por terem no coração algum respeito pela verdade e pela justiça. Eles veem diante dos próprios olhos acontecimentos dos quais as pessoas podem tirar lições. Mas, ao contrário, concluem deles que o que estão fazendo está certo e que devem fazê-lo. Nenhuma palavra boa lhes é aceitável. Um argumento que poderia ser útil para impedir alguém de praticar o mal não produz qualquer efeito em suas mentes. Pelo contrário, procuram todos os argumentos possíveis em defesa de sua liberdade desenfreada. Em vez de bons pensamentos, suas mentes estão ocupadas em satisfazer os desejos das paixões por qualquer meio. Isso prova que negar o Além é a causa da destruição do caráter humano. O que pode manter uma pessoa dentro dos limites da humanidade é somente a consciência de que não somos irresponsáveis, mas teremos de prestar contas a Deus por cada um de nossos atos. Na ausência dessa consciência, mesmo alguém que seja um grande erudito pode praticar o comportamento mais abominável. (100)

أَفَنَجْعَلُ الْمُسْلِمِينَ كَالْمُجْرِمِينَ – مَا لَكُمْ كَيْفَ تَحْكُمُونَ – أَمْ لَكُمْ كِتَابٌ فِيهِ تَدْرُسُونَ – إِنَّ لَكُمْ فِيهِ لَمَا تَخَيَّرُونَ – أَمْ لَكُمْ أَيْمَانٌ عَلَيْنَا بَالِغَةٌ إِلَى يَوْمِ الْقِيَامَةِ إِنَّ لَكُمْ لَمَا تَحْكُمُونَ – سَلْهُمْ أَيُّهُمْ بِذَلِكَ زَعِيمٌ – أَمْ لَهُمْ شُرَكَاءُ فَلْيَأْتُوا بِشُرَكَائِهِمْ إِنْ كَانُوا صَادِقِينَ-(القلم-35-41)

Será que trataremos os obedientes como os criminosos? O que há com vocês? Que tipo de opinião estão emitindo? Ou será que possuem algum livro no qual leem que

إِنَّ هَؤُلَاءِ يُحِبُّونَ الْعَاجِلَةَ وَيَذَرُونَ وَرَاءَهُمْ يَوْمًا ثَقِيلًا-(الدهر-27)

Eles amam aquilo que pode ser obtido rapidamente (o mundo terreno) e ignoram o dia difícil que virá. (Ad-Dahr: 27)

Em outras palavras, a razão pela qual esses incrédulos coraixitas desejam permanecer obstinadamente imersos no desvio moral e doutrinário, e pela qual seus ouvidos se ensurdeceram diante do chamado do Mensageiro de Allah, é, na realidade, seu mundanismo e sua indiferença em relação à Outra Vida. Por isso, o caminho de uma pessoa comprometida com a verdade é tão diferente do caminho deles que não há possibilidade alguma de conciliação entre ambos. (106)

أَلْهَاكُمُ التَّكَاثُرُ – حَتَّى زُرْتُمُ الْمَقَابِرَ – كَلَّا سَوْفَ تَعْلَمُونَ – ثُمَّ كَلَّا سَوْفَ تَعْلَمُونَ – كَلَّا لَوْ تَعْلَمُونَ عِلْمَ الْيَقِينِ- لَتَرَوُنَّ الْجَحِيمَ – ثُمَّ لَتَرَوُنَّهَا عَيْنَ الْيَقِينِ – ثُمَّ لَتُسْأَلُنَّ يَوْمَئِذٍ عَنِ النَّعِيمِ-(التكاثر-1-8)

A preocupação de obter, em maior medida que os outros, o conforto e os prazeres do mundo terreno manteve-vos mergulhados na negligência e na indiferença. Até que, por fim, (ocupados com esse pensamento,) chegais aos túmulos. De modo algum! Em breve sabereis. Depois, (ficai sabendo,) de modo algum! Em breve sabereis. Se soubésseis com certeza (o resultado dessa conduta), (não agiríeis dessa maneira). Então, certamente sereis interrogados acerca dessas dádivas. (At-Takāthur: 1–8).

الهكمA palavra لهو deriva de. Seu significado original é indiferença. Porém, na língua árabe, essa palavra é usada para designar uma atividade que aumenta tanto o interesse da pessoa que, ao se absorver nela, ela se torna indiferente a outras tarefas importantes. Quando a palavra الهكم é empregada a partir dessa raiz, seu significado é que alguma forma de indiferença vos mantém tão absorvidos que não conservais consciência alguma das outras questões importantes. Seus pensamentos ficam inteiramente dominados por ela, e essa absorção vos torna completamente desatentos.

تكاثر derivado de كثرت . Há três significados: primeiro, as pessoas se esforçam para obter abundância; segundo, esforçam-se para superar umas às outras na obtenção de abundância; terceiro, vangloriam-se umas diante das outras por terem obtido muito mais abundância que as demais.

Portanto, الهكم التكاثر significa que a cobiça pela abundância, isto é, pelo ganho excessivo, vos mantém tão absorvidos uns pelos outros que vos tornais desatentos a questões mais importantes que ela. Aqui não se explicou que tipo de abundância se entende por takāthur, nem de que coisa se entende que alhākum vos tornou desatentos. Também não se explicou aqui a quem se dirige o termo الهاكم . Por não haver essa explicação, essas palavras foram empregadas com um sentido abrangente. O significado de “takāthur” não é limitado; inclui a tentativa de obter o máximo possível de todas as oportunidades e benefícios mundanos, dos meios de prazer e luxo, dos instrumentos de poder governamental e de força; a tentativa de avançar competitivamente à frente dos outros para obter tudo isso; e o orgulho, diante dos demais, pela própria abundância. Assim, الهاكم , o número daqueles a quem se dirige também não é limitado. Pelo contrário, as pessoas de todas as épocas, individual e coletivamente, estão abrangidas por esse chamado. Em outras palavras, tanto os indivíduos quanto as nações adotam a atitude de obter o máximo possível dos interesses mundanos e avançar à frente dos outros por meio da competição nesse campo.

Da mesma forma, como não se especifica de que coisa se tornou desatento no enunciado الهاكم التكاثر , isso também foi expresso em sentido abrangente. Em outras palavras, ele se afastou de Allah e das consequências da Outra Vida; afastou-se dos limites e das responsabilidades morais. Tudo o que há neles é a preocupação de elevar o padrão de vida, sem qualquer preocupação com o quanto o padrão da humanidade está decaindo. Querem cada vez mais riqueza, sem se importar com a maneira como ela é obtida. Os prazeres, o luxo e as satisfações físicas são seus objetos supremos de desejo. Absorvidos nesses prazeres, tornaram-se completamente desatentos às consequências que essa conduta pode produzir. Preocupam-se apenas em acumular cada vez mais poder, mais tropas e mais armas, competindo entre si nesse aspecto. Não refletem que tudo isso são instrumentos para encher a terra de Allah de opressão e injustiça e destruir a humanidade. Em suma, há muitas formas de “takāthur” que mantêm indivíduos e nações tão absorvidos nelas que não pensam em nada além do mundo e de seus prazeres, e esse pensamento continua a absorvê-los até o momento anterior à morte.

Depois de advertir as pessoas contra esse erro, foi dito: vocês estão sob a falsa impressão de que essa abundância mundana e avançar competindo por ela constituem progresso e sucesso. No entanto, isso de modo algum pode ser progresso e sucesso. Em breve vocês saberão de suas más consequências e saberão quão grande era o erro no qual permaneceram imersos durante toda a vida. “Em breve” também pode referir-se à Outra Vida. Pois, para Aquele cujo olhar se estende desde a eternidade sem princípio até a eternidade sem fim, alguns milhares ou mesmo algumas centenas de milhares de anos são apenas uma minúscula fração do tempo. Mas isso também pode significar a morte, pois ela não está distante de nenhum ser humano. E, assim que a morte chegar, ficará claro para a pessoa se as ações e obras nas quais passou toda a sua vida foram causa de sua felicidade ou de sua desventura. (107)

Em seguida, o Alcorão, apresentando alguns exemplos da própria sociedade árabe, explica quais males a aversão à Outra Vida gerou nas pessoas.

—Pensa o ser humano que não poderemos reunir seus ossos? Sim, somos capazes até de reconstituir perfeitamente as pontas de seus dedos. Mas o ser humano deseja continuar praticando más ações no futuro. (Al-Qiyamah: 3–5)

Nos dois primeiros versículos, responde-se aos negadores, como se eles dissessem: como pode acontecer que as partes dos corpos daqueles que morreram há milhares de anos, cujos menores fragmentos se misturaram à terra e desapareceram, cujos ossos se deterioraram e se espalharam sabe-se lá por onde, alguns dos quais morreram queimados pelo fogo, outros foram devorados no ventre de feras e outros se afogaram no mar e serviram de alimento aos peixes, sejam novamente reunidas, e que cada pessoa volte a ser exatamente a mesma pessoa que era dez ou vinte mil anos antes? Allah apresentou uma resposta extremamente racional e poderosa na forma desta breve pergunta: “Pensa o ser humano que não poderemos reunir seus ossos?” Em outras palavras, se lhes tivesse sido dito que essas partes dispersas do corpo se reuniriam espontaneamente em algum momento e que vocês voltariam à vida por si mesmos com esses corpos, seria compreensível que considerassem isso impossível. Mas lhes havia sido dito que isso não aconteceria por si só; ao contrário, Allah o faria. Então, vocês realmente pensam que o Criador do universo, a quem vocês próprios reconhecem como Criador, é incapaz de realizar essa obra? Essa é uma pergunta cuja resposta nenhuma pessoa que reconheça Deus como Criador poderia dar, nem naquela época nem hoje: que, mesmo querendo realizar essa obra, Deus não poderia fazê-la. Se algum tolo dissesse isso, poderia ser-lhe perguntado: como esse Deus, sobre quem você afirma que não pode reunir essas partes, reuniu as incontáveis partes do corpo com o qual você existe agora, obtendo-as do ar, da água, da terra e sabe-se lá de quantos lugares, e criou este corpo? Depois foi dito: por que deveríamos ser incapazes de reunir os grandes ossos e reconstruir a estrutura do seu corpo? Somos, sim, capazes de realizar também essa obra, a ponto de reconstituir perfeitamente as partes mais minúsculas do seu corpo, até mesmo as articulações dos seus dedos, tal como eram antes.

Na frase final, foi diagnosticada a verdadeira doença daqueles que negam a Outra Vida. O que os leva a negar a Outra Vida não é, na realidade, considerá-la impossível. Pelo contrário, a verdadeira razão de sua negação é que aceitar a Outra Vida inevitavelmente imporia sobre eles certas restrições e obrigações morais, e isso lhes é insuportável. Eles querem continuar no futuro vagando por toda parte como bois sem cabresto, tal como têm feito até hoje. Querem receber, também no futuro, plena licença para praticar as injustiças, a opressão, a desonestidade, a imoralidade e os atos perversos que vêm praticando até agora. Não querem que a ideia de que um dia terão de comparecer diante de seu Deus e prestar contas de seus atos os impeça de desfrutar essa liberdade injusta. Portanto, na realidade, não é sua consciência que os impede de crer na Outra Vida; são, antes, os desejos e as paixões de seus instintos que constituem o obstáculo nesse assunto. (104)

É exatamente isso que foi dito no versículo seguinte?

وَمَا يُكَذِّبُ بِهِ إِلَّا كُلُّ مُعْتَدٍ أَثِيمٍ-(المطففين-12)

E ninguém o considera uma mentira, exceto todo transgressor e pecador. (Al-Mutaffifin: 12)

إِنَّ الَّذِينَ يَضِلُّونَ عَنْ سَبِيلِ اللَّهِ لَهُمْ عَذَابٌ شَدِيدٌ بِمَا نَسُوا يَوْمَ الْحِسَابِ-(ص-26)

-Aqueles que se afastam do caminho de Allah terão um castigo severo, porque se esqueceram do Dia do Juízo. (Saad: 26)

كَلَّا بَلْ تُحِبُّونَ الْعَاجِلَةَ – وَتَذَرُونَ الْآخِرَةَ-(القيامة-20-21)

De modo algum! A verdade é que amais as coisas prontamente obtidas (o mundo) e abandonais a Outra Vida. (Al-Qiyamah: 20-21)

Esta é a segunda razão da negação da Outra Vida pelos seus negadores. A primeira razão já foi mencionada acima: eles querem plena liberdade para cometer pecados e desejam escapar das restrições e proibições morais que, inevitavelmente, lhes são impostas depois de aceitarem a Outra Vida. Na realidade, é o desejo das paixões que os incita a negar a Outra Vida; depois, recorrem a argumentos e debates para provar essa sua negação.

Agora é apresentada a segunda razão: como os negadores da Outra Vida têm uma visão estreita e são incapazes de olhar para o futuro, toda a importância, aos seus olhos, é dada aos benefícios deste mundo que se manifestam aqui, enquanto não dão importância alguma às consequências que se manifestarão na Outra Vida. Pensam que se deve obter aqui conforto e facilidades, luxo e prazer, e dedicar a isso todo o esforço e empenho, pois, se conseguirem isso, será como se tivessem obtido tudo — por pior que seja o resultado na Outra Vida. Assim, consideram que a principal tarefa é evitar as perdas e sofrimentos que possam ocorrer aqui, sem olhar para a grande recompensa que se poderá obter na Outra Vida por suportá-los. Querem um negócio à vista. Para um futuro tão distante como a Outra Vida, não estão dispostos a abrir mão de nenhum lucro presente nem a aceitar qualquer perda. Quando, sob a influência dessa mentalidade, apresentavam argumentos sobre a questão da Outra Vida, não havia neles qualquer sabedoria; pelo contrário, por trás deles atuava a mentalidade que os levava à conclusão de que não se podia aceitar a Outra Vida, embora, no íntimo, a sua consciência lhes dissesse que os argumentos apresentados no Alcorão sobre a possibilidade e a inevitabilidade da Outra Vida eram extremamente justos, e que os argumentos que apresentavam contra ela eram completamente irrelevantes. (105)

الَّذِي خَلَقَ الْمَوْتَ وَالْحَيَاةَ لِيَبْلُوَكُمْ أَيُّكُمْ أَحْسَنُ عَمَلًا-(الملك-2)

-Aquele que criou a morte e a vida para vos testar, a fim de ver quem, entre vós, pratica as melhores obras. (Al-Mulk: 2)

Isto é, Allah iniciou a sucessão da vida e da morte dos seres humanos neste mundo para testá-los e ver quais de suas ações são melhores. Nesta breve frase, faz-se alusão a muitas verdades.

Primeiramente, a morte e a vida provêm d’Ele. Não há outro que conceda a vida e a morte.

Em segundo lugar, ao ser humano, enquanto criatura, foi concedido o poder de fazer o bem e o mal. Nem sua vida, nem sua morte são sem propósito. O Criador o criou aqui para ser testado. A vida é, para ele, uma oportunidade para o teste. A morte significa que o período de seu teste chegou ao fim.

Em terceiro lugar, o propósito deste teste é que o Criador concedeu a cada pessoa a oportunidade de agir, para que ela possa manifestar o bem e o mal por meio de suas ações no mundo e demonstrar, na prática, que tipo de pessoa é.

Em quarto lugar, é o Criador quem decide quais ações são boas e quais são más. Certamente, não cabe ao examinado determinar o padrão do bem e do mal. Ao contrário, é o examinador quem estabelece o padrão. Portanto, quem deseja obter sucesso no teste deve saber o que é uma boa ação aos olhos do examinador.

Em quinto lugar, o significado implícito do teste é que cada pessoa será recompensada de acordo com suas ações. Pois, sem recompensa, o teste não teria sentido algum. (111)

إِنَّا خَلَقْنَا الْإِنْسَانَ مِنْ نُطْفَةٍ أَمْشَاجٍ نَبْتَلِيهِ فَجَعَلْنَاهُ سَمِيعًا بَصِيرًا – إِنَّا هَدَيْنَاهُ السَّبِيلَ إِمَّا شَاكِرًا وَإِمَّا كَفُورًا-( الدهر-2-3)

Criamos o ser humano a partir de uma gota seminal misturada, para testá-lo, e, com esse propósito, fizemos dele alguém que ouve e vê. Mostramos-lhe o caminho; então, ele pode ser grato ou ingrato. (Al-Insan: 2-3)

Esta é a verdadeira posição do mundo para o ser humano e do ser humano no mundo. Ele não é como as plantas e os animais, cuja finalidade da criação se cumpriria aqui mesmo e que, segundo as leis da natureza, depois de desempenharem sua parte durante um período determinado, morreriam aqui e desapareceriam. Além disso, este mundo não é, para o ser humano, um lugar de castigo, como pensam os ascetas, nem um lugar de recompensa, como pensam os que creem na reencarnação. Tampouco é um pasto ou um lugar de diversão, como pensam os materialistas. Nem é um campo de batalha, como pensam os seguidores de Darwin e Marx. Pelo contrário, é um campo de provas para o ser humano. Aquilo que ele considera sua vida é, na realidade, o período de prova que lhe foi concedido aqui. As forças, capacidades e aptidões que lhe foram dadas no mundo; as coisas que lhe foi dada a oportunidade de utilizar; as responsabilidades com as quais trabalha aqui; e as relações que existem entre ele e as outras pessoas constituem, na realidade, inúmeras questões da prova, que prossegue até o último momento da vida. O resultado não deve ser anunciado neste mundo; ao contrário, depois que essas questões forem examinadas no Além, será decidido se ele foi aprovado ou reprovado. Seu sucesso ou fracasso depende de como trabalhou aqui, do que considerava ser e de como respondeu às questões que lhe foram entregues. Se não se considerou servo de nenhum Deus, ou se se considerou servo de vários deuses e respondeu a todas as questões convencido de que, no Além, não teria de prestar contas ao seu Criador, então todas as suas ações na vida foram erradas. Mas, se se considerou servo de um único Deus, agiu de modo conforme à vontade de Deus e tomou como objetivo a prestação de contas no Além, então foi aprovado nessa prova.

Depois foi dito: Nós o fizemos ouvinte e vidente. Embora o significado dessas duas palavras árabes سميع e بصير seja precisamente ouvinte e vidente, todo falante de árabe sabe que essas duas palavras nunca são usadas para animais. Embora os animais ouçam e vejam. Portanto, ouvir e ver não significam aqui simplesmente as faculdades de audição e visão que também foram dadas aos animais. Pelo contrário, significam os meios pelos quais o ser humano adquire conhecimento e depois obtém benefícios dele. Além disso, como a audição e a visão estão entre os meios mais importantes de aquisição de conhecimento do ser humano, somente essas duas foram mencionadas de forma resumida. Caso contrário, o objetivo original é conceder ao ser humano todos os sentidos por meio dos quais ele adquire conhecimento. Ademais, o conhecimento sensorial concedido ao ser humano é, em suas características, completamente diferente das sensações concedidas aos animais. Pois, por trás de cada sensação humana, há uma mente pensante que reúne as informações obtidas por meio dos sentidos, organiza-as, extrai conclusões delas, forma opiniões e, então, chega a determinadas decisões sobre as quais se constroem sua visão da vida e seu comportamento. Portanto, depois de se dizer que criamos o ser humano para testá-lo, foi dito: para esse propósito, fizemos dele ouvinte e vidente. O verdadeiro significado disso é que Deus lhe concedeu a força do conhecimento e da razão, para que fosse capaz de realizar a prova. É certo que, se o objetivo da Palavra Divina não fosse esse, e fazer dele ouvinte e vidente significasse apenas conceder-lhe as faculdades de ouvir e ver, então uma pessoa cega e surda escaparia da prova. Contudo, enquanto uma pessoa não estiver privada do conhecimento e da razão, não há qualquer possibilidade de ser dispensada da prova.سميع e بصير palavras jamais são usadas. Embora os animais ouçam e vejam. Portanto, ouvir e ver não significam aqui simplesmente as faculdades de audição e visão que também foram dadas aos animais. Pelo contrário, significam os meios pelos quais o ser humano adquire conhecimento e depois obtém benefícios dele. Além disso, como a audição e a visão estão entre os meios mais importantes de aquisição de conhecimento do ser humano, somente essas duas foram mencionadas de forma resumida. Caso contrário, o objetivo original é conceder ao ser humano todos os sentidos por meio dos quais ele adquire conhecimento. Ademais, o conhecimento sensorial concedido ao ser humano é, em suas características, completamente diferente das sensações concedidas aos animais. Pois, por trás de cada sensação humana, há uma mente pensante que reúne as informações obtidas por meio dos sentidos, organiza-as, extrai conclusões delas, forma opiniões e, então, chega a determinadas decisões sobre as quais se constroem sua visão da vida e seu comportamento. Portanto, depois de se dizer que criamos o ser humano para testá-lo, foi dito: para esse propósito, fizemos dele ouvinte e vidente. O verdadeiro significado disso é que Deus lhe concedeu a força do conhecimento e da razão, para que fosse capaz de realizar a prova. É certo que, se o objetivo da Palavra Divina não fosse esse, e fazer dele ouvinte e vidente significasse apenas conceder-lhe as faculdades de ouvir e ver, então uma pessoa cega e surda escaparia da prova. Contudo, enquanto uma pessoa não estiver privada do conhecimento e da razão, não há qualquer possibilidade de ser dispensada da prova.

وَيْلٌ لِلْمُطَفِّفِينَ – الَّذِينَ إِذَا اكْتَالُوا عَلَى النَّاسِ يَسْتَوْفُونَ – وَإِذَا كَالُوهُمْ أَوْ وَزَنُوهُمْ يُخْسِرُونَ – أَلَا يَظُنُّ أُولَئِكَ أَنَّهُمْ مَبْعُوثُونَ – لِيَوْمٍ عَظِيمٍ – يَوْمَ يَقُومُ النَّاسُ لِرَبِّ الْعَالَمِينَ-( المطففين-1-6)

—Desgraça aos fraudadores nas medidas! Quando recebem algo das pessoas, exigem a medida completa. Mas, quando medem ou pesam para elas, causam-lhes prejuízo, dando menos. Será que não compreendem que serão ressuscitados para um Dia grandioso? Um dia em que todas as pessoas se levantarão diante do Senhor dos mundos. (Al-Mutaffifin: 1-6)

مطففينA palavra طفيف deriva de تطفيف E o termo significa, por definição, reduzir fraudulentamente o peso ou a medida. Pois quem pratica esse ato não subtrai uma grande quantidade ao pesar ou medir. Ao contrário, engana cada cliente furtivamente, retirando uma pequena quantidade, e o pobre cliente nem sequer percebe quanto o comerciante lhe causou de prejuízo. É certo que essa injustiça, que estava disseminada na sociedade, jamais poderia ter se espalhado se as pessoas se lembrassem do Além. (108)

كَلَّا بَلْ لَا تُكْرِمُونَ الْيَتِيمَ – وَلَا تَحَاضُّونَ عَلَى طَعَامِ الْمِسْكِينِ – وَتَأْكُلُونَ التُّرَاثَ أَكْلًا لَمًّا – وَتُحِبُّونَ الْمَالَ حُبًّا جَمًّا-( الفجر-17-20)

—De modo algum. (A prosperidade ou a adversidade mundana não são critérios de honra e desonra.) Contudo, não tratam o órfão com dignidade. Não vos incentivais mutuamente a alimentar o necessitado. Devora-se toda a herança de uma só vez e sois ávidos pelo amor ou pela cobiça das riquezas. (Al-Fajr: 17-20)

Isto é, considerar a prosperidade e a adversidade mundanas como critérios de honra e desonra é apenas a vossa visão materialista. Caso contrário, o verdadeiro critério é a beleza do caráter e a perversidade dos costumes. Vossa situação é tal que, enquanto o pai do órfão está vivo, tratais o órfão de uma maneira; quando o pai morre, porém, nem os vizinhos nem os parentes distantes — quanto mais o tio paterno, o tio materno ou até mesmo o irmão mais velho — conseguem suportá-lo. Em vossa sociedade, não existe o costume de alimentar os pobres. Ninguém se dispõe pessoalmente a alimentar um faminto, nem se encontra entre as pessoas o incentivo para pensar em saciar a fome dos necessitados e encorajar uns aos outros a providenciar isso. Na herança, mantivestes as mulheres e as crianças privadas de seus direitos. Além disso, entre os herdeiros do falecido, aquele que é mais forte e influente apropria-se sem hesitação de toda a herança. A parte daqueles que não têm força ou capacidade para obter seu quinhão é perdida. Para vós, não há diferença entre direito e responsabilidade: não tendes a disposição de, considerando isso um dever, entregar honestamente ao legítimo beneficiário aquilo que lhe é devido, tenha ele força para reivindicá-lo ou não. Ao adquirir riquezas, não vos preocupais com o que é permitido ou proibido, nem com o que é lícito ou ilícito. Não hesitais em obter riquezas de qualquer maneira. E, por mais riquezas que adquirais, o fogo de vossa cobiça e avidez jamais se extingue.

أَرَأَيْتَ الَّذِي يُكَذِّبُ بِالدِّينِ – فَذَلِكَ الَّذِي يَدُعُّ الْيَتِيمَ – وَلَا يَحُضُّ عَلَى طَعَامِ الْمِسْكِينِ-( الماعون-1-3)

—Você viu aquele que considera mentira a recompensa e o castigo da Outra Vida? Esse é aquele que repele o órfão e não incentiva a alimentar o necessitado. (Al-Ma’un: 1-3)

Aqui, Allah Todo-Poderoso afirmou, por meio de dois exemplos eloquentes, que tipo de consequências morais a negação da Outra Vida traz para o ser humano. O objetivo principal não é apontar apenas esses dois males, como se, ao não aceitar a Outra Vida, só se manifestassem estas duas consequências: a pessoa repreender os órfãos e não incentivar que se dê alimento aos necessitados. Pelo contrário, entre os inúmeros males que surgem como resultado desse desvio, foram apresentados como exemplos dois atos que toda pessoa de natureza sã admitirá serem extremamente abomináveis. Pretende-se, assim, gravar no coração esta ideia: se esse indivíduo aceitasse que compareceria diante de Deus para prestar contas, não cometeria atos tão repugnantes como usurpar o direito do órfão, oprimi-lo, repreendê-lo e não alimentar pessoalmente o necessitado nem pedir a alguém que o alimentasse. As qualidades dos que creem na Outra Vida foram descritas nas suras Al-Balad e Al-‘Asr. Foi dito que eles aconselham uns aos outros a demonstrar misericórdia para com as criaturas de Deus e aconselham uns aos outros a manter a verdade e cumprir os direitos. (110)

O mundo é um campo de prova para o ser humano

Por um lado, o Alcorão eliminou, de maneira extremamente racional, todas as dúvidas e incertezas das pessoas acerca da possibilidade e da necessidade da Outra Vida; por outro, também lhes explicou que, por causa de sua negligência, elas passaram a considerar o mundo simplesmente um pasto ou um lugar de diversão. Contudo, este é um campo de prova, onde a pessoa está constantemente sendo testada em todos os aspectos pessoais e sociais de sua vida. E essa prova não é realizada sem que ela saiba; ao contrário, Allah Todo-Poderoso tomou todas as providências para lhe explicar de que depende, aqui, seu sucesso ou fracasso.

não permaneceram ignorantes quanto às diferenças entre as ações e aos princípios morais e às diretrizes legais apresentados por eles. Soubessem ou não que haviam adquirido esse conhecimento dos ensinamentos dos profetas e dos Livros de Allah, hoje aqueles que negam os profetas e os Livros revelados, ou que nada sabem sobre eles, também seguem muitas coisas que, na realidade, chegaram até eles, de uma forma ou de outra, por meio dos ensinamentos dos profetas e dos Livros; e não sabem qual é a verdadeira origem de tudo isso. (112)

Há um dia determinado para o julgamento

Depois, o Alcorão afirmou repetidamente que o resultado da prova não será manifestado neste mundo. Pelo contrário, foi determinado um momento para isso, quando as gerações anteriores e posteriores do mundo serão ressuscitadas uma segunda vez e todas serão chamadas a prestar contas. Cada um receberá recompensa ou castigo de acordo com suas obras.

إِنَّ يَوْمَ الْفَصْلِ مِيقَاتُهُمْ أَجْمَعِينَ-( الدخان-40)

-Para todos há um tempo determinado para a decisão. (Dukhān: 40)

قُلْ إِنَّ الْأَوَّلِينَ وَالْآخِرِينَ – لَمَجْمُوعُونَ إِلَى مِيقَاتِ يَوْمٍ مَعْلُومٍ-( الواقعة-49-50)

-Diga-lhes: certamente, todos os primeiros e os últimos serão reunidos juntos, sem dúvida, em um dia cujo momento está determinado. (Al-Wāqi‘a: 49-50)

وَنُفِخَ فِي الصُّورِ فَصَعِقَ مَنْ فِي السَّمَاوَاتِ وَمَنْ فِي الْأَرْضِ إِلَّا مَنْ شَاءَ اللَّهُ ثُمَّ نُفِخَ فِيهِ أُخْرَى فَإِذَا هُمْ قِيَامٌ يَنْظُرُونَ-( الزمر-68)

-E, naquele dia, será soprada a Trombeta, e todos os que estão nos céus e na terra cairão mortos, exceto aqueles que Deus quiser manter vivos (como os anjos). Depois, será soprada nela uma segunda vez, e então, de repente, todos se levantarão e ficarão observando. (Az-Zumar: 68)

وَقِيلَ لِلظَّالِمِينَ ذُوقُوا مَا كُنْتُمْ تَكْسِبُونَ-( الزمر-24)

-E será dito aos injustos: provai o sabor do que praticastes. (Az-Zumar: 24)

Acima, كسب foi usada. Na terminologia corânica, significa o direito à recompensa e ao castigo que a pessoa adquire por meio de suas ações. O verdadeiro ganho daquele que pratica boas obras é tornar-se merecedor da retribuição de Allah. O ganho daqueles que seguem o caminho do desvio é o castigo que receberão na vida futura. (113)

الْيَوْمَ تُجْزَى كُلُّ نَفْسٍ بِمَا كَسَبَتْ لَا ظُلْمَ الْيَوْمَ-(المؤمن-17)

-(Nesse momento será dito:) Hoje, cada pessoa receberá a recompensa por aquilo que ganhou com suas ações no mundo. E ninguém será injustiçado. (Al-Mu’min: 17)

Isto é, nenhuma forma de injustiça será cometida. Deve-se observar que, no que diz respeito à retribuição, a injustiça pode assumir várias formas. Primeira: uma pessoa se torna merecedora de determinada recompensa, mas ela não lhe é concedida. Segunda: não lhe é concedida integralmente a recompensa de que se tornou merecedora. Terceira: alguém não é merecedor de castigo, mas é castigado. Quarta: é merecedor de castigo, mas não é castigado. Quinta: alguém merece um castigo leve, mas recebe um castigo mais severo. Sexta: o oprimido permanece esperando, enquanto o opressor, diante dele, é liberado e vai embora. Sétima: uma pessoa é responsabilizada pelo crime de outra. Allah, o Altíssimo, deseja que nenhuma das formas possíveis de injustiça ocorra em Seu tribunal. (114)

Allah, o Altíssimo, tem conhecimento direto de tudo o que as pessoas fazem no mundo

O Alcorão também afirma que Allah, o Altíssimo, tem conhecimento direto de tudo o que as pessoas fazem neste campo de provação. Nenhuma ação humana, nem mesmo qualquer pensamento ou desejo do coração, pode permanecer oculto para Allah. É por isso que, no Dia do Juízo, as pessoas comparecerão diante daquele Senhor que conhece todas as atividades de suas vidas.

وَأَسِرُّوا قَوْلَكُمْ أَوِ اجْهَرُوا بِهِ إِنَّهُ عَلِيمٌ بِذَاتِ الصُّدُورِ-( الملك-13)

-Quer faleis em segredo ou em voz alta (isso é igual para Ele), pois Ele conhece até o estado dos corações. (Al-Mulk: 13

أَمْ يَحْسَبُونَ أَنَّا لَا نَسْمَعُ سِرَّهُمْ وَنَجْوَاهُمْ بَلَى وَرُسُلُنَا لَدَيْهِمْ يَكْتُبُونَ-( الزخرف-80)

Será que pensam que não ouvimos o que dizem secretamente e em confidência? Pelo contrário, ouvimos tudo. Além disso, os Nossos anjos estão junto deles, registrando tudo. (Az-Zukhruf: 80)

وَنَعْلَمُ مَا تُوَسْوِسُ بِهِ نَفْسُهُ وَنَحْنُ أَقْرَبُ إِلَيْهِ مِنْ حَبْلِ الْوَرِيدِ-( ق-16)

Conhecemos até os maus pensamentos (waswasa) que surgem em sua mente. Estamos mais próximos dele do que sua veia jugular. (Qaf: 16)

Em seguida, foi dito que não apenas lhe concedemos a capacidade de conhecimento e discernimento; também o guiamos, para que pudesse saber qual é o caminho da gratidão e qual é o caminho da incredulidade. Depois, qualquer caminho que ele escolha seguir, a responsabilidade por isso será dele próprio. Na Surata Al-Balad, este assunto é exposto da seguinte forma—

وَهَدَيْنَاهُ النَّجْدَيْنِ

E mostramos claramente a ele ambos os caminhos — o do bem e o do mal.

Novamente, na Surata Ash-Shams, a mesma coisa é apresentada da seguinte forma—

وَنَفْسٍ وَمَا سَوَّاهَا – فَأَلْهَمَهَا فُجُورَهَا وَتَقْوَاهَا

—E juro pela alma humana e por Aquele que a aperfeiçoou, dotando-a de todas as suas forças aparentes e ocultas. Então, inspirou-lhe a sua inclinação para o pecado e o temor a Deus.

Tendo tudo isso em consideração e observando também as explicações detalhadas do Alcorão Sagrado sobre as medidas que Deus tomou para orientar a humanidade, percebe-se que a orientação mencionada neste versículo não significa apenas um único meio de orientação; ao contrário, existem inúmeros meios. Por exemplo:

1. Junto com a capacidade de conhecimento e discernimento, foi dada a cada ser humano uma percepção moral, graças à qual ele pode distinguir entre o bem e o mal. Ele considera más certas ações e qualidades, embora se envolva nelas, e considera boas outras ações e qualidades, embora se mantenha afastado delas. Até mesmo aqueles que, para satisfazer seus interesses e os desejos de suas paixões, inventaram filosofias com base nas quais tornaram lícitos para si muitos pecados e transgressões encontram-se numa situação em que, se outra pessoa lhes fizer essas mesmas transgressões, eles se põem a clamar; então se percebe que, apesar de suas próprias filosofias equivocadas, na realidade consideram-nas más. Do mesmo modo, por mais que alguém considere as boas ações e qualidades fruto de ignorância, estupidez e atraso, quando se beneficia pessoalmente da conduta virtuosa de alguém, sua própria natureza o obriga a considerá-lo digno de respeito.

2. Deus colocou dentro de cada ser humano algo chamado consciência (a alma que censura, nafs al-lawwāmah), que o impede de praticar uma ação má. Por mais que a pessoa acalente essa consciência até fazê-la adormecer, ou tente torná-la insensível, jamais será capaz de eliminá-la completamente. Pode fingir-se descarada e tentar provar a si mesma totalmente desprovida de consciência; pode tentar enganar o mundo por todos os meios, apresentando provas e argumentos forjados; e pode apresentar inúmeras desculpas para seus atos, a fim de enganar também a si própria. Apesar de tudo isso, o crítico que Deus implantou em sua natureza é tão vivo que nem mesmo para uma pessoa imoral ficará oculto o que ela realmente é. É justamente isso que foi dito na Surata al-Qiyamah da seguinte maneira:

—Na verdade, o ser humano conhece muito bem a si mesmo, por mais desculpas e justificativas que apresente.

3. Em toda a natureza, desde a existência do próprio ser humano e da terra ao seu redor até os céus, estão espalhados inúmeros sinais que testemunham que nada disso poderia existir sem Deus. Tampouco vários deuses poderiam construir e administrar esta fábrica do universo. Assim, os sinais do mundo superior e do mundo interior apresentam provas racionais da Ressurreição e da Vida Futura. Se o ser humano fechar os olhos para tudo isso, ou, guiado pelo discernimento, deixar de refletir sobre essas coisas, ou hesitar em aceitar as verdades que elas identificam, a culpa será sua. Deus não deixou de apresentar à humanidade nenhum dos sinais que, da Sua parte, transmitem a verdade.

4. Na própria vida humana, no mundo contemporâneo e nas experiências da história passada, podem ser encontrados inúmeros acontecimentos que comprovam que um governo superior administra o ser humano e toda a natureza do universo. Diante dele, o ser humano é completamente impotente; a Sua vontade prevalece sobre todas as coisas, e o ser humano depende da Sua ajuda. Essas experiências e observações não anunciam essa verdade apenas no mundo exterior; também existe, na própria natureza humana, o testemunho da existência dessa autoridade governante superior. É com base nisso que até mesmo os maiores ateus, em momentos de extremo perigo, estendem as mãos em súplica diante de Deus.

5. A consciência humana e sua natureza influente indicam plenamente que é necessário punir os crimes e recompensar as boas ações. É justamente com base nisso que, em toda sociedade, se estabelece algum tipo de sistema judicial e também se providenciam recompensas para aquilo que é considerado louvável. Isso é uma prova clara de que existe uma relação tão indispensável entre a moralidade e a lei da retribuição (LAW OF RETRIBUTION) que o ser humano não pode negá-la. Ora, se é universalmente reconhecido que, no mundo, existem inúmeros crimes cuja punição completa — longe disso — nem sequer pode ser aplicada, e existem inúmeras boas ações pelas quais a pessoa virtuosa não recebe recompensa alguma, quanto mais a recompensa adequada, então não há alternativa senão aceitar a existência da Vida Futura. Naturalmente, se algum tolo pensar, ou algum precipitado quiser concluir, que uma pessoa que sustenta a ideia de justiça nasceu num mundo que, por si mesmo, não possui qualquer noção de justiça, então isso é outra questão. Mas permanece sob sua responsabilidade responder à pergunta: de onde surgiu, na mente do ser humano nascido num mundo assim, a ideia de justiça?

6. Allah enviou profetas ao mundo e revelou Livros para orientar claramente os seres humanos, nos quais foi explicado com clareza qual é o caminho da gratidão e qual é o caminho da incredulidade, e qual é, depois, o resultado de seguir esses dois caminhos. Esses ensinamentos trazidos pelos profetas e pelos Livros de Allah difundiram-se direta e indiretamente por todo o mundo de maneira tão ampla que nenhum povoado humano pode estar sem a ideia de Deus, a ideia da Vida Futura, do bem e do mal

وَهُوَ مَعَكُمْ أَيْنَ مَا كُنْتُمْ وَاللَّهُ بِمَا تَعْمَلُونَ بَصِيرٌ-( الحديد-4)

-Ele (Allah) está convosco onde quer que estejais. E Allah vê tudo quanto fazeis. (Al-Hadid: 4)

يَعْلَمُ خَائِنَةَ الْأَعْيُنِ وَمَا تُخْفِي الصُّدُورُ – وَاللَّهُ يَقْضِي بِالْحَقِّ-( المؤمن-19-20)

Allah conhece até os olhares furtivos (de vós) e conhece também todos os segredos ocultos nos corações. Allah decidirá com justiça. (Al-Mu’min: 19-20). (115)

Na Vida Futura, serão apresentadas provas de suas ações por meio de testemunhos incontestáveis

No Alcorão Sagrado foi explicado detalhadamente que, na Vida Futura, Allah Todo-Poderoso não decidirá com base apenas no Seu próprio conhecimento. Pelo contrário, Ele está fazendo com que seja preparado um registro completo, detalhado e exato das ações de cada pessoa. Depois, no tribunal da Vida Futura, serão apresentadas provas de todos os atos humanos, provas que não poderão ser negadas de maneira alguma.

إِذْ يَتَلَقَّى الْمُتَلَقِّيَانِ عَنِ الْيَمِينِ وَعَنِ الشِّمَالِ قَعِيدٌ – مَا يَلْفِظُ مِنْ قَوْلٍ إِلَّا لَدَيْهِ رَقِيبٌ عَتِيدٌ-( ق–17–18)

Dois escribas sentam-se à sua direita e à sua esquerda, registrando tudo. Nenhuma palavra sai de sua boca sem que haja ali um guardião pronto para registrá-la. (Caf: 17–18)

O sentido de tudo isso é que, por um lado, Allah, Altíssimo, conhece diretamente os movimentos, os modos de agir, os gestos e os estados interiores do ser humano; por outro, há dois anjos designados para cada pessoa, que registram cada uma de suas palavras. Nenhuma palavra ou ação sua fica ausente do registro deles. Isso significa que, quando o ser humano for apresentado perante o tribunal de Allah, o próprio Allah saberá o que cada um terá feito. E os dois anjos também estarão presentes para apresentar, como prova, os documentos e registros de suas ações. É muito difícil para nós imaginar corretamente que tipo de provas serão esses documentos. Contudo, depois de observar as informações que estão sendo reveladas diante de nós, podemos saber com certeza que, no ambiente em que o ser humano vive e atua, os sons, as imagens, os movimentos e as impressões dos gestos são gravados por toda parte em cada átomo e partícula; e que, dentre eles, qualquer um pode ser reproduzido uma segunda vez exatamente com a mesma expressão e o mesmo som, de tal modo que não haverá a mínima diferença entre o original e a cópia. Hoje, o ser humano realiza isso de forma extremamente limitada, com a ajuda de máquinas. Mas os anjos de Deus não dependem dessas máquinas nem estão limitados por tais restrições. O próprio corpo humano e cada objeto ao seu redor são o filme deles, sobre o qual podem gravar fielmente cada som e imagem, em seu estado mais sutil e minucioso; e, no Dia da Ressurreição, podem fazer o ser humano ouvir, com seus próprios ouvidos e em sua própria voz, tudo aquilo que ele fazia no mundo. Podem mostrar aos seus próprios olhos as imagens em movimento de todas as suas ações, cuja veracidade ele não poderá negar.

Aqui também é preciso compreender bem que, no tribunal da Outra Vida, Allah não castigará ninguém com base apenas em Seu próprio conhecimento. Pelo contrário, Ele punirá após cumprir todas as condições da justiça. Por isso, no mundo, está sendo elaborado um registro completo das palavras e ações de cada pessoa, para que a prova cabal de seus atos seja apresentada por meio de testemunhos incontestáveis. (116)

وَإِنَّ عَلَيْكُمْ لَحَافِظِينَ – كِرَامًا كَاتِبِينَ – يَعْلَمُونَ مَا تَفْعَلُونَ-( الانفطار–10–12)

(Foram designados vigilantes para vós. Eles são escribas honrados, plenamente informados de cada uma de vossas ações. (Infitār: 10–12)

Em outras palavras, quer negueis o Dia do Juízo, quer o considereis uma mentira, quer zombeis dele, isso não altera a verdade. A verdadeira realidade é que o vosso Senhor não vos deixou no mundo como camelos sem rédeas, abandonados à própria sorte. Pelo contrário, designou para cada um de vós um vigilante extremamente honesto. Nenhuma de vossas ações lhes é oculta, quer a pratiqueis na escuridão, num lugar isolado, numa floresta desabitada, ou em qualquer situação na qual estejais certos de que tudo o que fizestes está escondido dos olhos das pessoas.

Para esses anjos vigilantes, Allah, Altíssimo, usouكراما كاتبينas duas palavras. Ou seja, eles são escribas extremamente honrados. Não têm amizade nem inimizade pessoal com ninguém, de modo que demonstrem injustamente compaixão por uns e, por oposição injusta a outros, produzam um registro contrário aos fatos. Também não são traidores, que, sem sequer terem comparecido ao trabalho, inventem e registrem relatórios por conta própria. Tampouco aceitam subornos, recebendo algo para elaborar um relatório falso a favor ou contra alguém. Sua posição está acima de todas essas fraquezas morais. Por isso, tanto os bons quanto os maus devem ter a certeza de que a boa ação de cada pessoa será registrada sem qualquer omissão, e que nenhum pecado que ela não tenha cometido será atribuído a ninguém.

Em seguida, é mencionada a segunda qualidade desses anjos: eles sabem tudo o que vocês fazem. Isto é, a condição deles não é como a dos funcionários dos departamentos CID e DIB do mundo, aos quais, apesar de todos os esforços, muitas coisas permanecem desconhecidas. Eles estão plenamente informados sobre as ações de cada pessoa. Em todos os lugares e em todas as situações, permanecem tão próximos de cada ser humano que este nem sequer percebe que alguém o está vigiando. Eles também sabem com que intenção cada pessoa realizou cada ato. Por isso, o registro que eles elaboram é um registro completo, no qual nada deixa de ser anotado. Sobre isso, é dito no versículo 49 da Surata Al-Kahf que, no Dia da Ressurreição, os pecadores ficarão admirados ao ver que, no registro de suas ações que lhes será apresentado, nada, pequeno ou grande, foi deixado de fora. Tudo o que fizeram, verão diante de si exatamente como foi. (117)

وَأَخْرَجَتِ الْأَرْضُ أَثْقَالَهَا – وَقَالَ الْإِنْسَانُ مَا لَهَا – يَوْمَئِذٍ تُحَدِّثُ أَخْبَارَهَا – بِأَنَّ رَبَّكَ أَوْحَى لَهَا-( الزلزلة-2-5)

-E a terra lançará para fora todos os seus fardos interiores. E o ser humano dirá: “O que está acontecendo com ela?” Nesse dia, ela (a terra) relatará tudo o que ocorreu sobre ela. Isso porque o teu Senhor lhe terá ordenado que assim proceda. (Az-Zilzal: 2-5)

Este é o assunto mencionado no versículo 4 da Surata Al-Inshiqaq, da seguinte maneira:

وَأَلْقَتْ مَا فِيهَا وَتَخَلَّتْ

-E ficará vazia, lançando para fora tudo o que houver dentro dela.

Há vários significados possíveis. Primeiro: ela lançará para fora os mortos, onde quer que estejam na terra, na forma e na condição em que permanecerem. A frase seguinte indica que, naquele momento, todas as partes dispersas e separadas de seus corpos serão reunidas e eles voltarão a viver, novamente, com a mesma forma e aparência que tinham na primeira vida. Pois, se não fosse assim e eles fossem pessoas inteiramente novas, como poderiam dizer: “O que aconteceu com a terra?” E quando pessoas novas, ao verem pela primeira vez a condição da terra, diriam algo assim?

O segundo significado é que ela não se limitará a lançar para fora apenas os mortos. Pelo contrário, também lançará para fora o amontoado de testemunhos sobre as ações, gestos, movimentos e comportamentos de sua primeira vida, que estava enterrado dentro dela.

Depois, pelas palavras seguintes, fica esclarecido justamente que a terra relatará os acontecimentos ocorridos sobre ela.

Um terceiro significado: alguns exegetas também disseram que serão retirados e lançados para fora os montes de ouro, prata, pedras preciosas e riquezas de diversos tipos que se encontram sob a terra, e as pessoas verão que estas são as coisas pelas quais sacrificavam a vida na Terra, por causa das quais cometeram tantos assassinatos, usurparam os direitos dos legítimos titulares, roubaram e pilharam, saquearam por terra e por mar, provocaram guerras e destruíram tantas nações. Naquele dia, tudo isso estará diante delas, sem lhes trazer qualquer benefício; pelo contrário, será apenas causa de castigo.

Na segunda frase, “as pessoas” também pode significar todas as pessoas, pois, assim que voltarem à vida, sua primeira reação será: “O que está acontecendo?”

Mais tarde, será revelada a elas a verdade de que este é o Dia da Ressurreição. Por outro lado, “as pessoas” também pode significar aqueles que negavam a vida após a morte, pois aquilo que consideravam impossível estará acontecendo diante de seus próprios olhos. Com isso, ficarão perplexos e angustiados. Quanto aos que creem, naturalmente não haverá motivo para sua aflição, pois tudo isso estará acontecendo exatamente de acordo com sua fé e sua crença.

No terceiro versículo, ou frase, é dito que a terra relatará sua condição, porque seu Senhor lhe terá ordenado que faça isso. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), após recitar este versículo, perguntou: “Vocês sabem qual será a sua condição?” Os Companheiros responderam: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sua condição será esta: a terra testemunhará os atos de cada homem e de cada mulher realizados sobre sua superfície. Ela dirá: ‘Ele fez tal coisa em tal dia.’ Esta será a condição que a terra relatará.” (Musnad Ahmad, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Jarir, Abd ibn Hamid, Abu al-Mundhir, Hakim, Ibn Mardويه, Bayhaqi).

Rabi‘at al-Jurashi disse que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Protejam-se da terra, pois ela é a base de vocês. Não há ninguém que pratique alguma ação sobre ela sem que ela informe sobre seu ato, seja ele bom ou mau.” (Mu‘jam al-Tabarani).

Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “No Dia da Ressurreição, a terra trará cada ato que tiver sido praticado sobre sua superfície.” Em seguida, ele recitou este versículo. (Mardويه, Bayhaqi).

Foi relatado a respeito de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) que, quando distribuía todos os recursos da tesouraria pública e a deixava vazia, rezava duas rak‘ahs e dizia: “Tu terás de testemunhar que eu te enchi com o que é justo e te esvaziei com o que é justo.” Sobre a terra, foi dito que ela relatará tudo o que tiver ocorrido sobre ela. Para os antigos, pareceria realmente extraordinário que a terra pudesse falar. Mas, na época atual, na era das descobertas da ciência física, do cinema, dos alto-falantes, do rádio, da televisão, dos gravadores, da eletrônica e de outros recursos semelhantes, não é difícil compreender como a terra relatará sua condição. Tudo o que uma pessoa diz com a boca deixa sua marca no ar, nas ondas luminosas, nas paredes das casas, no chão, em cada partícula do teto, nos campos e nas planícies, nas plantações e nas fazendas. Quando Allah quiser, poderá fazer todos esses sons serem reproduzidos exatamente como saíram da boca das pessoas. Naquele momento, cada pessoa ouvirá com os próprios ouvidos que aquele é seu próprio som e lhe é familiar. Todos reconhecerão que aquilo que estão ouvindo é o som e a voz daquela mesma pessoa. Além disso, cada movimento da pessoa, em cada lugar e situação em que realizou algum ato sobre a terra, deixou uma marca em todos os objetos ao seu redor, e sua imagem também ficou gravada neles. Mesmo que tenha realizado algum ato em escuridão completa, pela capacidade de Allah existem raios de luz tais que nem sequer se coloca a questão de luz ou escuridão. Ele pode registrar sua imagem em qualquer circunstância. Todas essas imagens aparecerão diante das pessoas no Dia da Ressurreição como um filme em movimento e mostrarão que trabalhos elas realizaram ao longo da vida, quando e onde.

A verdade é que, embora Allah conheça diretamente, por Si mesmo, as ações de cada pessoa, quando, na Outra Vida, estabelecer o tribunal, qualquer pessoa que Ele castigar será castigada somente depois de satisfazer todas as exigências da justiça. No Seu tribunal, o caso apresentado contra cada criminoso será comprovado por testemunhos tão manifestos que não restará qualquer possibilidade de contestar sua culpabilidade.

Primeiro, será apresentado o registro das obras da pessoa, no qual os Kiraman Katibin, que permanecem constantemente com ela, registram cada palavra e cada ação. Esse registro das obras será colocado em sua mão, e lhe será dito: “Lê o registro das ações da tua vida. Tu mesmo és suficiente para fazer o teu próprio acerto de contas.” (Bani Isra’il: 14) Ao lê-lo, a pessoa ficará atônita, pois não haverá coisa alguma, pequena ou grande, que não tenha sido registrada nele. Depois, o próprio corpo da pessoa, com o qual ela agiu no mundo, testemunhará. No tribunal de Allah, sua própria língua testemunhará tudo quanto ela disse. Suas próprias mãos e pés testemunharão todas as ações que ela os fez realizar. (Nuh: 24) Seus olhos testemunharão tudo quanto ela viu por meio deles. Seus ouvidos testemunharão tudo quanto ouviram por meio deles. Toda a pele de seu corpo testemunhará suas ações. Desnorteada, ela dirá aos seus membros: “Vós também estais testemunhando contra mim?” Seus membros responderão: “Hoje, por ordem de Allah, todas as coisas falam. Por Sua ordem, nós também falamos.” (Ha-Mim Sajdah: 20–22) Depois, serão apresentados testemunhos adicionais provenientes da terra e das coisas ao seu redor, quando a pessoa ouvirá com os próprios ouvidos o som da própria voz e verá com os próprios olhos a imagem exata de suas ações.

Mesmo depois de tudo isso, serão trazidos à luz e colocados diante dela todos os pensamentos, desejos, vontades e propósitos ocultos em seu coração, bem como as intenções com que realizou suas ações. Como foi dito na Surata Al-Adiyat, é por isso que, depois de serem apresentados todos esses argumentos decisivos, claros e incontestáveis, a pessoa ficará atônita e não terá qualquer oportunidade de apresentar uma justificativa em sua defesa. (Consultar a Surata Al-Mursalat, versículos 35–36.) (118)

وَوُضِعَ الْكِتَابُ فَتَرَى الْمُجْرِمِينَ مُشْفِقِينَ مِمَّا فِيهِ وَيَقُولُونَ يَا وَيْلَتَنَا مَالِ هَذَا الْكِتَابِ لَا يُغَادِرُ صَغِيرَةً وَلَا كَبِيرَةً إِلَّا أَحْصَاهَا وَوَجَدُوا مَا عَمِلُوا حَاضِرًا وَلَا يَظْلِمُ رَبُّكَ أَحَدًا-( الكهف-49)

E o registro das obras será colocado diante deles. Nesse momento, verás os criminosos aterrorizados ao contemplarem o que foi registrado no livro de suas vidas, e dirão: “Ai de nossa desgraça! Que tipo de livro é este, que não deixou de registrar nenhuma de nossas ações, pequenas ou grandes?” Tudo quanto fizeram encontrarão diante de si, e o teu Senhor não fará injustiça a ninguém. (Al-Kahf: 49)

Isto é, jamais acontecerá que algo que uma pessoa não tenha cometido seja injustamente registrado em seu registro de obras. Tampouco acontecerá que alguém seja castigado além do seu crime ou que uma pessoa inocente seja castigada. (119)

وَكُلُّ شَيْءٍ فَعَلُوهُ فِي الزُّبُرِ – وَكُلُّ صَغِيرٍ وَكَبِيرٍ مُسْتَطَرٌ-( القمر-52–53)

Tudo quanto fizeram está registrado nos livros. Cada coisa, pequena ou grande, está registrada. (Al-Qamar: 52–53)

Ou seja, que essas pessoas não permaneçam presas à falsa ideia de que seus atos desapareceram em algum lugar. Não; o registro completo de cada indivíduo, grupo e nação está preservado. No devido tempo, ele virá à tona. (120)

يَوْمَ يَبْعَثُهُمُ اللَّهُ جَمِيعًا فَيُنَبِّئُهُمْ بِمَا عَمِلُوا أَحْصَاهُ اللَّهُ وَنَسُوهُ وَاللَّهُ عَلَى كُلِّ شَيْءٍ شَهِيدٌ-( المجادلة-6)

(Esse castigo humilhante ocorrerá) no dia em que Allah ressuscitar todos eles e lhes informará tudo o que fizeram. Eles se esqueceram disso, mas Allah manteve registrados, contando um por um, todos os seus atos; e Allah é testemunha de cada coisa. (Al-Mujādilah: 6)

Ou seja, ainda que eles tenham esquecido, o caso não foi encerrado. Para eles, desobedecer a Deus e violar Seus mandamentos e determinações pode ser algo tão corriqueiro que, depois de fazê-lo, nem sequer se lembram. Pelo contrário, nem consideram isso algo censurável que deva lhes causar qualquer preocupação. Mas, para Deus, isso não é algo trivial. Cada um de seus atos foi registrado em Seu livro. Quem fez determinada ação, quando a fez, com que intenção a fez, qual foi sua própria reação e onde e de que forma suas consequências se manifestaram — tudo isso foi registrado em Seu livro. (121)

الْيَوْمَ نَخْتِمُ عَلَى أَفْوَاهِهِمْ وَتُكَلِّمُنَا أَيْدِيهِمْ وَتَشْهَدُ أَرْجُلُهُمْ بِمَا كَانُوا يَكْسِبُونَ-( يس-65)

-Hoje selamos suas bocas; suas mãos falarão conosco e seus pés testemunharão o que costumavam ganhar no mundo. (Yā Sīn: 65)

Essa ordem será dada aos criminosos empedernidos que se recusarem a reconhecer sua culpa, considerarem falsas as provas e também não admitirem a autenticidade do registro de suas obras. Então Allah ordenará: “Muito bem, calem sua tagarelice e vejam que relatório detalhado os membros de seus corpos apresentarão sobre seus atos.” (122)

يَوْمَ تَشْهَدُ عَلَيْهِمْ أَلْسِنَتُهُمْ وَأَيْدِيهِمْ وَأَرْجُلُهُمْ بِمَا كَانُوا يَعْمَلُونَ-(النور-24)

(Que não se esqueçam daquele Dia) em que seus rostos, suas mãos e seus pés testemunharão suas ações. (An-Nur: 24)

A questão aqui é a seguinte: no versículo acima mencionado da surata Yasin, Deus diz: “Selaremos suas bocas”. Por outro lado, na surata Fussilat, diz que suas bocas testemunharão. Como se pode conciliar essas duas afirmações?

A resposta é que selar suas bocas significa retirar-lhes o direito de falar. Ou seja, depois disso, eles não poderão mais falar segundo a própria vontade. O testemunho dado pela boca significa que suas próprias bocas começarão a narrar a história do que esses opressores fizeram por meio delas: que tipos de incredulidade praticaram, que mentiras contaram, que intrigas criaram e que palavras disseram, em determinadas ocasiões, com o auxílio da boca. (123)

حَتَّى إِذَا مَا جَاءُوهَا شَهِدَ عَلَيْهِمْ سَمْعُهُمْ وَأَبْصَارُهُمْ وَجُلُودُهُمْ بِمَا كَانُوا يَعْمَلُونَ-وَقَالُوا لِجُلُودِهِمْ لِمَ شَهِدْتُمْ عَلَيْنَا قَالُوا أَنْطَقَنَا اللَّهُ الَّذِي أَنْطَقَ كُلَّ شَيْءٍ وَهُوَ خَلَقَكُمْ أَوَّلَ مَرَّةٍ وَإِلَيْهِ تُرْجَعُونَ-(حم السجده-20-21)

—Então, quando todos chegarem lá, seus ouvidos, seus olhos e a pele de seus corpos testemunharão contra eles, relatando tudo o que faziam no mundo. Eles perguntarão à pele de seus próprios corpos: “Por que testemunhastes contra nós?” Elas responderão: “Deus, que deu o poder da fala a todas as coisas, fez-nos falar. Ele vos criou pela primeira vez, e a Ele sereis devolvidos.” (Hamim Sajdah: 20-21)

Nos hadiths, isso foi explicado da seguinte maneira: quando um criminoso obstinado e insolente continuar negando seu crime e rejeitando todas as provas como falsas, então, por ordem de Deus, cada um dos membros de seu corpo testemunhará, um após outro, quais ações ele praticou por meio deles. Esse relato foi transmitido do Profeta (que a paz esteja sobre ele) por Anas, Abu Musa al-Ashari, Abu Said al-Khudri e Ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com eles); e os muhaddiths Muslim, Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, al-Bazzar e outros registraram essa narração.

Este versículo é um daqueles que comprovam que a vida futura não é apenas um mundo espiritual; ao contrário, ali o ser humano será ressuscitado novamente com corpo e alma, exatamente como existe agora no mundo. Mais precisamente, receberá o mesmo corpo no qual se encontra atualmente. Todos os membros e átomos dos quais seu corpo é composto neste mundo serão reunidos no Dia da Ressurreição, e ele será levantado com seu corpo anterior, o mesmo corpo com o qual realizou suas ações no mundo. É evidente que os membros do ser humano só poderão testemunhar ali nesse estado se forem precisamente aqueles membros com os quais ele cometeu os crimes durante sua vida terrena. Os versículos seguintes também apresentam provas decisivas sobre esse assunto: Bani Israil: 49-51, 98; Al-Mu’minun: 35-38, 82-83; An-Nur: 24; As-Sajdah: 10; Yasin: 65, 78-79; As-Saffat: 16-18; Al-Waqi’ah: 47-50; An-Nazi’at: 10-14. (124)

إِنَّا نَحْنُ نُحْيِي الْمَوْتَى وَنَكْتُبُ مَا قَدَّمُوا وَآثَارَهُمْ وَكُلَّ شَيْءٍ أَحْصَيْنَاهُ فِي إِمَامٍ مُبِينٍ-(يس-12)

Certamente, um dia ressuscitaremos os mortos. Estamos registrando tudo o que fizeram. E também preservamos os vestígios que deixaram para trás. Registramos cada coisa em um Livro manifesto. (Yassin: 12)

Disso se soube que o registro das obras do ser humano será compilado de três maneiras. A primeira é que tudo de bom e de mau que cada pessoa faz é registrado por Allah Ta’ala em um livro. A segunda: tudo o que o ser humano imprime nos objetos ao seu redor e nos membros do próprio corpo é preservado. Então, no momento determinado, todo esse registro será apresentado de tal maneira que sua própria voz poderá ser ouvida. Ele verá gravado no painel do coração o relato completo de seus próprios pensamentos, desejos e aspirações. A terceira é que, após a morte, o efeito das boas e más obras que ele deixou sobre as futuras gerações, sua própria sociedade e toda a humanidade continuará sendo registrado em seu livro de contas enquanto e onde quer que esse efeito permaneça vigente. Tudo de bom ou de mau que ensinou aos seus filhos, todo o bem ou a corrupção que espalhou em sua sociedade e todas as flores ou espinhos que semeou para a humanidade continuarão sendo registrados em sua totalidade enquanto essa colheita por ele plantada continuar produzindo frutos bons ou maus no mundo. (125)

وَتَرَى كُلَّ أُمَّةٍ جَاثِيَةً كُلُّ أُمَّةٍ تُدْعَى إِلَى كِتَابِهَا الْيَوْمَ تُجْزَوْنَ مَا كُنْتُمْ تَعْمَلُونَ – هَذَا كِتَابُنَا يَنْطِقُ عَلَيْكُمْ بِالْحَقِّ إِنَّا كُنَّا نَسْتَنْسِخُ مَا كُنْتُمْ تَعْمَلُونَ-(الجاثية-28-29)

-Naquele dia, verás todos os povos ajoelhados. Cada grupo será chamado e lhe será dito: “Vinde e vede o vosso registro de obras.” Será dito a eles: “Hoje sereis recompensados pelas obras que costumáveis praticar.” Este é o Nosso registro de obras, que dá testemunho exato a vosso respeito. Estávamos registrando tudo o que fazíeis. (Jathiya: 28-29)

Registrar não significa apenas escrever em papel. O próprio ser humano já descobriu, neste mundo, vários outros métodos para registrar as palavras e ações das pessoas e depois apresentá-las exatamente em sua forma e aparência originais, e não podemos sequer imaginar que outras possibilidades ainda estarão ocultas no futuro e poderão ser dominadas pelo ser humano. Quem pode saber agora por quais métodos Allah Ta’ala está fazendo registrar cada palavra, cada movimento, cada gesto, e cada aspecto extremamente oculto dos pensamentos, desejos, vontades e aspirações do ser humano? (126)

وَإِذَا الرُّسُلُ أُقِّتَتْ-(المرسلات-11)

-E quando chegar o momento de os Mensageiros serem apresentados. (Al-Mursalat: 11)

Em vários lugares do Alcorão Sagrado foi dito que, quando o caso da humanidade for apresentado no campo da Ressurreição, o Mensageiro de cada povo será apresentado para testemunhar, a fim de que possa dar testemunho de que transmitiu a mensagem de Allah Ta’ala ao seu povo. Este será o primeiro e mais contundente argumento contra os extraviados e pecadores, pelo qual será provado que eles próprios são responsáveis por sua conduta equivocada. Da parte de Allah Ta’ala, nada terá sido deixado de fazer para adverti-los. Como exemplo, consulte a explicação dos seguintes versículos: Surata Al-A’raf: 172-173; Az-Zumar: 69; Al-Mulk: 8. (127)

وَوُضِعَ الْكِتَابُ وَجِيءَ بِالنَّبِيِّينَ وَالشُّهَدَاءِ وَقُضِيَ بَيْنَهُمْ بِالْحَقِّ وَهُمْ لَا يُظْلَمُونَ-(الزمر-69)

—E o registro das obras será trazido e colocado diante deles. Os profetas e todas as testemunhas serão apresentados. Será proferido um julgamento absolutamente justo entre as pessoas, e nenhuma injustiça lhes será cometida. (Zumar: 69)

Os profetas testemunharão que transmitiram a mensagem de Deus. Quanto às outras testemunhas além deles, trata-se das pessoas que testemunharão que, depois dos profetas, transmitiram a mensagem de Deus às pessoas. Também podem ser testemunhas aqueles que testemunharão as obras e ações dos seres humanos. Não é necessário que essas testemunhas sejam apenas seres humanos. Os anjos, os gênios, os animais e as aves, os membros do corpo humano, as casas e os edifícios, as árvores e as plantas, a terra e as pedras — todos estão incluídos entre essas testemunhas. (128)

أَفَلَا يَعْلَمُ إِذَا بُعْثِرَ مَا فِي الْقُبُورِ-وَحُصِّلَ مَا فِي الصُّدُورِ-( العاديات-9-10)

—Acaso ele não sabe o que acontecerá quando for retirado aquilo que está sepultado nas tumbas? E quando aquilo que está oculto nos corações for extraído e examinado? (Adiyat: 9–10)

Em outras palavras, após a morte, a pessoa morta será retirada do lugar e da condição em que permanecer, e será ressuscitada na forma de um ser humano vivo. Serão revelados e expostos todos os desejos, aspirações, intenções, propósitos, concepções e pensamentos que estavam ocultos na mente, bem como os motivos (MOTIVE) ocultos por trás das ações manifestas. Depois, tudo isso será examinado e separado entre o bem e o mal. Em outras palavras, o julgamento não será feito apenas observando o aspecto exterior, isto é, o que a pessoa realmente fez; pelo contrário, os segredos ocultos no coração também serão trazidos à luz, para mostrar com que intenção e propósito a pessoa realizou aquilo que fez. Ao refletir sobre isso, ninguém pode deixar de reconhecer que a justiça verdadeira e perfeita não pode ser encontrada em nenhum outro lugar além do tribunal de Deus.

Até mesmo as leis seculares e irreligiosas do mundo consideram, em princípio, necessário que ninguém seja punido apenas com base no aspecto exterior de seu ato. Pelo contrário, também se deve verificar com que intenção ele praticou esse ato. No entanto, nenhum tribunal do mundo dispõe dos meios e recursos pelos quais possa conhecer devidamente essa intenção. Somente Allah, o Altíssimo, pode examinar também a motivação oculta que atua por trás de cada ação exterior do ser humano e, então, decidir a que punição ou recompensa ele é digno.

Além disso, as palavras do versículo deixam claro que esse julgamento não se baseará simplesmente no conhecimento que Allah, o Altíssimo, possuía acerca dos desejos e das intenções interiores. Pelo contrário, no Dia da Ressurreição, todos esses segredos serão desvendados e expostos publicamente, e serão examinados no tribunal aberto, para verificar quanto de bem e quanto de mal havia neles. É por essa razão que as palavrasتحصيل foram utilizadas. حصل ما فى الصدور O significado da palavra também inclui retirar algo e trazê-lo para fora, como separar a polpa e extraí-la depois de espalhar a fibra ou a casca. Depois, também inclui aparar e separar as diversas coisas umas das outras. Portanto, ambos os sentidos são empregados para indicar o conhecimento dos segredos da mente: revelá-los e expô-los, e também separar o bem do mal mediante a seleção. (129)

يَوْمَ تُبْلَى السَّرَائِرُ – فَمَا لَهُ مِنْ قُوَّةٍ وَلَا نَاصِرٍ – وَالسَّمَاءِ ذَاتِ الرَّجْعِ  وَالْأَرْضِ ذَاتِ الصَّدْعِ – إِنَّهُ لَقَوْلٌ فَصْلٌ – وَمَا هُوَ بِالْهَزْلِ-(الطارق-9-14)

-No dia em que os segredos ocultos forem examinados, o ser humano não terá poder algum por si mesmo, nem qualquer auxiliar. Juro pelo céu que faz cair a chuva e pela terra que se fende (na época da produção dos cereais): isto é uma palavra decisiva, não uma brincadeira. (At-Tariq: 9-14)

Segredos ocultos significa todos aqueles atos e ações de cada pessoa que permaneceram como um segredo oculto no mundo, bem como aquelas ações que, embora tenham sido reveladas ao mundo em sua forma exterior, tiveram por trás de si intenções, objetivos e aspirações que atuaram, além de sentimentos interiores e impulsos motivadores que permaneceram ocultos para as pessoas. No Dia da Ressurreição, tudo isso será revelado e virá à luz, e o exame não consistirá apenas em saber que atos uma pessoa praticou, mas também por que os praticou, em benefício de quê, com que intenção e com que objetivo. Do mesmo modo, permaneceu oculto de todo o mundo, inclusive da própria pessoa que realizou o ato, que efeito o ato que ela praticou produziu no mundo, aonde chegou e por quanto tempo continuou vigente. Esse mistério também será desvendado no Dia da Ressurreição, e será feita uma investigação completa sobre que sementes uma pessoa semeou no mundo, em quais campos e por quanto tempo sua colheita foi produzida, e quem a levava para casa.

O significado da última frase é que, assim como a chuva que cai do céu e a terra que se fende, fazendo brotar plantas de seu interior, não são motivo de brincadeira, mas uma realidade concreta, da mesma forma, aquilo sobre o qual o Alcorão fala — que o ser humano terá de retornar novamente ao seu Senhor — não é motivo de brincadeira, mas uma afirmação absolutamente certa, uma realidade incontestável e uma verdade eterna que inevitavelmente se cumprirá. (130)

يُنَبَّأُ الْإِنْسَانُ يَوْمَئِذٍ بِمَا قَدَّمَ وَأَخَّرَ – بَلِ الْإِنْسَانُ عَلَى نَفْسِهِ بَصِيرَةٌ – وَلَوْ أَلْقَى مَعَاذِيرَهُ-(القيامة-13-15)

-Naquele dia, serão comunicados ao ser humano todos os seus atos anteriores e posteriores. Na verdade, o ser humano conhece muito bem a si mesmo, por mais desculpas e justificativas que apresente. (Al-Qiyamah: 13-15)

As palavras exatas são بما قدم واجر Esta é uma expressão de significado abrangente, que pode ter vários sentidos. É possível que tenha sido empregada com todos esses sentidos. Um deles é que, naquele dia, também será dito ao ser humano quais atos bons ou maus ele havia praticado durante sua vida terrena, antes da morte, e enviado antecipadamente para a vida futura; e também será apresentado diante dele o registro do efeito que suas ações boas ou más haviam deixado para trás, efeito que permaneceu vigente por longo tempo entre as gerações futuras.

O segundo significado é que lhe será dito tudo aquilo que deveria ter feito, mas não fez, e tudo aquilo que não deveria ter feito, mas fez.

O terceiro significado é que tudo o que ele fez primeiro e tudo o que fez depois lhe será apresentado em detalhes, com as respectivas datas e anos.

O quarto significado é que lhe será informado tanto o bem ou o mal que praticou quanto aquilo de que se absteve, fosse uma boa ação ou uma má ação.

Contudo, o objetivo real de colocar diante da pessoa o registro de suas obras não será simplesmente informar o criminoso sobre seus crimes. Isso será necessário porque a exigência da justiça não pode ser satisfeita sem provar o crime perante o tribunal. Caso contrário, cada pessoa sabe perfeitamente quem é. Um mentiroso pode enganar o mundo inteiro, mas sabe que está mentindo. Um ladrão pode recorrer a inúmeras artimanhas para ocultar seu roubo, mas não lhe fica oculto, diante de sua própria consciência, que é um ladrão. Um desviado pode apresentar mil argumentos e provas para convencer as pessoas de que o kufr, o ateísmo ou o shirk em que acredita é, na verdade, sua sincera convicção. Mas sua própria consciência não ignora a que está apegado entre essas crenças e o que, de fato, o impede de perceber o erro delas e aceitá-lo. Um opressor, uma pessoa desleal, um libertino e alguém que se alimenta do ilícito podem tentar silenciar também a voz da própria consciência, apresentando diversas desculpas para seus delitos, para que ela deixe de censurá-lo e aceite que realmente existem certas compulsões, algumas conveniências e determinadas necessidades que o levam a fazer tudo isso. Apesar disso, ele certamente sabe contra quem cometeu qual injustiça e de quem usurpou o direito. Por isso, quando forem apresentados no tribunal do Além, todo incrédulo, todo hipócrita, todo pecador e todo criminoso saberá por si mesmo em que condição está diante de Deus. (131)

فَإِذَا جَاءَتِ الطَّامَّةُ الْكُبْرَى – يَوْمَ يَتَذَكَّرُ الْإِنْسَانُ مَا سَعَى-(النازعات-34-35)

-Então, quando ocorrer a grande catástrofe, naquele dia o ser humano se lembrará de todas as suas ações. (An-Nazi‘at: 34-35)

Isto é, quando o ser humano vir que chegou o Dia do Juízo, cuja notícia lhe era anunciada no mundo, antes mesmo de receber o registro de suas obras nas mãos, começará a se lembrar, uma a uma, de todas as coisas que fez no mundo. Algumas pessoas têm, ainda neste mundo, a experiência de que, quando de repente se veem diante de uma situação tão perigosa que a morte parece iminente, toda a imagem de sua vida se projeta subitamente na tela do coração. (132)

وَجِيءَ يَوْمَئِذٍ بِجَهَنَّمَ يَوْمَئِذٍ يَتَذَكَّرُ الْإِنْسَانُ وَأَنَّى لَهُ الذِّكْرَى-يَقُولُ يَا لَيْتَنِي قَدَّمْتُ لِحَيَاتِي-(الفجر-23-24)

-E, naquele dia, a Jahannam será trazida para diante deles. Nesse dia, o ser humano compreenderá tudo. Mas de que lhe servirá compreender? Dirá: “Ah, se eu tivesse enviado algo de antemão para esta vida!” (Al-Fajr: 23-24)

-A primeira ayah ou frase pode ter dois significados. Um deles é que, naquele dia, as pessoas se lembrarão de tudo o que fizeram no mundo e se arrependerão disso. Mas isso não lhes trará benefício algum. O segundo significado é que, naquele dia, as pessoas recuperarão a consciência e compreenderão que tudo o que os profetas haviam dito era correto, e que foram insensatas ao não seguir suas palavras. Mas recuperar a consciência e reconhecer o erro naquele dia não lhes trará benefício algum.

عَلِمَتْ نَفْسٌ مَا قَدَّمَتْ وَأَخَّرَتْ-( الانفطار-5)

-Naquele momento, cada pessoa saberá todos os atos que praticou antes e depois. (Al-Infitar: 5)

– مَا قَدَّمَتْ وَأَخَّرَتْ – pode ter vários significados. Aqui, é usada em todos esses sentidos. Por exemplo:

1. Os atos bons ou maus que a pessoa praticou e enviou adiante são مَا قَدَّمَتْ e aquilo que deixou de fazer é أَخَّرَتْ  مَاNesse sentido, essas palavras correspondem aos termos ingleses COMMISSION e OMISSION.

2. Tudo o que fez primeiro é ما قدمت e tudo o que fez depois é ما اخرت isto é, a lista completa das ações da pessoa será divulgada em ordem cronológica e com os anos e as datas.

3. As boas e más ações que a pessoa praticou durante sua vida são ما قدمت e os efeitos dessas ações que ela deixou para trás na sociedade humana são (134) ما اخرت

يَوْمَئِذٍ يَصْدُرُ النَّاسُ أَشْتَاتًا لِيُرَوْا أَعْمَالَهُمْ – فَمَنْ يَعْمَلْ مِثْقَالَ ذَرَّةٍ خَيْرًا يَرَهُ – وَمَنْ يَعْمَلْ مِثْقَالَ ذَرَّةٍ شَرًّا يَرَهُ-( الزلزلة-6-8)

—Naquele dia, as pessoas retornarão em estados diversos, para que lhes sejam mostradas as suas obras. Então, quem tiver praticado uma boa ação, ainda que do peso de um átomo, verá isso. E quem tiver praticado uma má ação, ainda que do peso de um átomo, verá isso. (Az-Zalzalah: 6–8)

A primeira frase pode ter dois sentidos. Um deles é que cada pessoa comparecerá sozinha, como um indivíduo isolado. Família, grupo, aliança e nação: tudo estará separado. Isso também é mencionado em outros trechos do Alcorão. Por exemplo, na surata Al-An’am, é dito que Allah dirá às pessoas naquele dia: “Agora compareceis diante de Nós sozinhos, tal como vos criamos pela primeira vez.” (versículo 94) Na surata Maryam, é dito: “Eles virão a Nós sozinhos” (versículo 80). “Cada um deles comparecerá sozinho diante de Allah no Dia da Ressurreição.” (versículo 95)

O segundo sentido é que aqueles que morreram em diferentes lugares ao longo de milhares de anos continuarão vindo, em grupos, de todos os recantos da Terra. Assim, é dito na surata An-Naba: “No dia em que for soprada a Trombeta, vireis em grupos.” (versículo 18)

Mostrar-lhes as suas obras significa que será entregue a cada pessoa, virtuosa ou perversa, o seu registro de obras, para que veja o que fez no mundo. Em vários trechos do Sagrado Alcorão é apresentada uma descrição detalhada de que serão entregues os seus registros de obras a todos: incrédulos e crentes, virtuosos e pecadores, obedientes e desobedientes. (Veja Al-Haqqah, versículos 19 e 25, e Al-Inshiqaq, versículos 7–10.)

É importante observar que não há diferença entre mostrar a alguém as suas obras e entregar-lhe o seu registro de obras. Além disso, quando a Terra apresentar os acontecimentos ocorridos sobre ela, o quadro completo do conflito entre a verdade e a falsidade, que perdurou desde os primórdios até o Dia da Ressurreição, ficará exposto diante de todos. Então todos verão o que fizeram aqueles que lutaram pela verdade e que esforços empreenderam, em oposição a eles, os apoiadores da falsidade. Também não é impossível que as pessoas ouçam com os próprios ouvidos todos os discursos e declarações dos que convocavam à orientação e dos que espalhavam o desvio. O registro completo dos panfletos e da literatura de ambos os lados será colocado diante de todos, exatamente como foi. A multidão reunida no campo da Ressurreição verá com os próprios olhos todas as cenas da opressão e da perseguição dos partidários da falsidade contra os partidários da verdade, bem como todos os conflitos e confrontos ocorridos entre ambos.

Em seguida, é dito que quem tiver praticado qualquer boa ação, por mínima que seja, também a verá, e quem tiver praticado qualquer má ação, por mínima que seja, também a verá. O sentido simples disso — e absolutamente correto — é que não haverá a menor boa ou má ação de uma pessoa que não seja registrada no seu registro de obras. Ela certamente a verá. Porém, se entender “ver” como receber e contemplar a recompensa ou o castigo, esse sentido será totalmente incorreto, como se no Além a recompensa de uma boa ação insignificante e o castigo de um pecado insignificante fossem concedidos separadamente a cada pessoa. Ali, ninguém será privado da recompensa de suas boas ações nem será poupado do castigo de seus pecados. Pois, em primeiro lugar, isso significaria que o castigo de cada má ação e a recompensa de cada boa ação seriam concedidos separadamente. Em segundo lugar, significaria também que nem mesmo um crente extremamente virtuoso poderia escapar do castigo por qualquer pequena falha sua, e que nem o pior dos incrédulos, opressores e malfeitores seria privado da recompensa por qualquer mínima boa ação sua. Ambos esses sentidos são contrários às explicações e interpretações do Alcorão e dos hadiths, e a razão também não admite que isso seja uma exigência da justiça. Reflita com bom senso: como se poderia aceitar que um seu criado ou empregado seja extremamente fiel e dedicado, mas que você não perdoe nenhum de seus erros insignificantes e, ao mesmo tempo que lhe paga e recompensa cada serviço, conte cada erro seu e o castigue por cada um deles? Do mesmo modo, não é aceitável à razão que um criado doméstico que você criou e sustentou, por quem demonstrou grande benevolência e generosidade, traia você e retribua sua bondade e seus favores com ingratidão, mas que você ignore sua conduta geral e lhe imponha um castigo separado por cada traição e uma recompensa separada por cada serviço — seja ele trazer um pouco de água em certa ocasião ou prestar o serviço de puxar o leque. Resta agora considerar o Alcorão e os hadiths. O Alcorão e os hadiths apresentam detalhadamente uma lei sobre as recompensas e os castigos de vários tipos de pessoas: crentes, hipócritas, incrédulos, crentes virtuosos, crentes pecadores, crentes opressores e transgressores, incrédulos puros, incrédulos que espalham a corrupção, opressores e outros. Essas recompensas e castigos regem toda a vida humana, desde este mundo até o Além.

A respeito disso, o Alcorão expõe detalhadamente alguns princípios. O primeiro é que as obras dos incrédulos, idólatras e hipócritas — aquelas que são consideradas boas ações — serão anuladas. No Além, eles não receberão recompensa alguma por elas. Se alguma recompensa lhes fosse devida, eles já a receberiam neste mundo. Como exemplos, veja as suratas Al-A’raf: 127; At-Tawbah: 17, 67–69; Hud: 15–16; Ibrahim: 18; Al-Kahf: 104–105; An-Nur: 39; Al-Furqan: 23; Al-Ahzab: 19; Az-Zumar: 65; e Al-Ahqaf: 20.

Em segundo lugar, o castigo pelo pecado será proporcional ao pecado cometido. Porém, a recompensa pela boa ação será maior que a própria ação. De fato, em alguns trechos é explicado que a recompensa de cada boa ação será multiplicada por dez. Em outros, também é dito que Allah aumentará a recompensa pelas boas ações tanto quanto quiser. (Veja Al-Baqarah: 261; Al-An’am: 16; Yunus: 66–67; An-Nur: 38; Al-Qasas: 48; Saba: 37; e Al-Mu’min: 40.)

Terceiro: se o crente se abstiver dos pecados graves, seus pequenos pecados serão perdoados. (Ver: An-Nissá: 31; Ash-Shura: 37; An-Najm: 32).

Quarto: o acerto de contas do crente virtuoso será facilitado. Seus atos maus serão ignorados, e ele será recompensado por seus melhores atos. (Ver: Al-Ankabut: 7; Az-Zumar: 35; Al-Ahqaf: 16; Al-Inshiqaq: 8).

Os hadiths esclarecem ainda mais a questão. Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que, certa vez, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) estava comendo com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse momento, este versículo foi revelado (o último versículo de Az-Zilzal). Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) retirou as mãos da comida e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), verei a recompensa até mesmo dos erros insignificantes que cometi?” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Ó Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), aquilo que te aflige e que consideras insuportável é a retribuição por esses pequenos erros que cometeste; quanto às pequenas boas ações que também possuis, Allah Todo-Poderoso as reservou para ti na Outra Vida.” (Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, At-Tabarani em Al-Awsat, Al-Bayhaqi em Ash-Shu’ab, Ibn al-Mundhir, Al-Hakim, Ibn Marduyah, Abd ibn Hamid).

A respeito deste versículo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Hazrat Abu Ayyub Al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele): “Quem quer que pratique uma boa ação entre vós terá sua recompensa na Outra Vida. E quem cometer qualquer tipo de pecado sofrerá sua punição ainda neste mundo, na forma de infortúnios e doenças.” (Ibn Marduyah). Qatadah, citando Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), transmitiu esta declaração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Allah não comete injustiça contra o crente. No mundo, ao conceder-lhe sustento em troca de suas boas ações, Ele quita a recompensa por elas. Então, quando ocorrer a Ressurreição, não restará nenhuma boa ação em seu registro.” (Ibn Jarir).

Masruq narra, por intermédio de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que ela perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Abdullah ibn Jud’an tratava bem seus parentes na época da ignorância, alimentava os necessitados, recebia os hóspedes e libertava os prisioneiros. Isso lhe será proveitoso na Outra Vida?”

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Não. Antes de morrer, ele jamais disse isto:”

(Árabe***********344*************)

— Ó Deus! Perdoa meus pecados no Dia do Juízo. (Ibn Jarir)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu uma resposta desse tipo também a respeito de algumas outras pessoas que praticavam boas ações na época da ignorância, mas morreram em estado de incredulidade e politeísmo. Contudo, por algumas declarações do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sabe-se que as boas ações de um incrédulo não poderão salvá-lo do castigo do Inferno, embora ele não receba um castigo tão severo quanto o aplicado aos incrédulos injustos, pecadores e malfeitores. Assim, consta em um hadith que Hatim al-Ta’i receberá um castigo mais leve por sua generosidade. (Ruh al-Ma’ani)

Ainda assim, este versículo desperta as pessoas para uma realidade de grande importância: cada boa ação, por menor que seja, tem sua própria importância e dignidade. O mesmo se aplica às más ações: até mesmo um pecado pequeno é incluído na prestação de contas e não deve ser simplesmente ignorado. Por isso, não se deve abandonar uma pequena boa ação por considerá-la insignificante, pois muitas boas ações desse tipo podem, reunidas, ser consideradas uma grande boa ação no registro da prestação de contas perante Allah, o Altíssimo. Da mesma forma, não se deve cometer pecados pequenos, pois muitos pecados desse tipo podem se juntar e transformar-se em um amontoado de pecados. Foi exatamente isso que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou em diversos hadiths. Em uma narração de Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele), citada por Bukhari e Muslim, consta que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Protejam-se do fogo do Inferno, ainda que seja dando em caridade um pedaço de tâmara ou proferindo uma boa palavra.” Também foi corretamente narrada de Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele) outra declaração do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Não considere insignificante nenhuma boa ação, mesmo que seja colocar um pouco de água no recipiente de alguém que deseja água ou encontrar seu irmão com um rosto sorridente.”

Em Bukhari há uma narração de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), segundo a qual o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dirigindo-se às mulheres, disse: “Ó mulheres muçulmanas! Que nenhuma vizinha considere insignificante enviar algo à sua vizinha, mesmo que seja apenas o casco de uma cabra.”

Em Musnad Ahmad, an-Nasa’i e Ibn Majah há uma narração de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), segundo a qual o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia: “Ó Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), mantenha-se afastada até mesmo dos pecados que são considerados pequenos, pois também se prestará contas deles perante Allah.” Em Musnad Ahmad há uma narração de Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele), segundo a qual o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cuidado! Afastem-se dos pecados pequenos, pois eles serão reunidos para uma pessoa e acabarão por destruí-la.” (135)

No Além, ninguém será útil a ninguém

A última declaração importante feita no Alcorão sobre o Além é que, ali, ninguém será útil a ninguém. Cada pessoa estará preocupada apenas consigo mesma. Ninguém pensará em salvar o pai, o filho, o irmão, o marido, a esposa, os amigos, o discípulo ou o mestre espiritual. Cada um carregará o peso de suas próprias ações. Ninguém carregará sequer o peso equivalente a um grão das ações de outra pessoa. O princípio de justiça de Allah não imporá o peso de uma pessoa sobre outra. Nesse momento, a decisão estará somente nas mãos de Allah, o Senhor do Dia do Juízo. Naquele dia, ninguém terá poder para falar; contudo, se Allah der permissão a alguém, essa pessoa dirá apenas a verdade.

وَلَا تَزِرُ وَازِرَةٌ وِزْرَ أُخْرَى وَإِنْ تَدْعُ مُثْقَلَةٌ إِلَى حِمْلِهَا لَا يُحْمَلْ مِنْهُ شَيْءٌ وَلَوْ كَانَ ذَا قُرْبَى-( فاطر-18)

-Ninguém que carregue um fardo carregará o fardo de outra pessoa. Se alguém sobrecarregado chamar alguém para levar seu fardo, ninguém virá para carregar sequer uma pequena parte dele, ainda que seja um parente muito próximo. (Fátir: 18)

O significado de carga é o peso da responsabilidade pelas ações. Ou seja, cada pessoa é pessoalmente responsável por seus atos. Sobre cada um recai apenas a responsabilidade por suas próprias ações. Não há possibilidade de que, por determinação de Allah, o peso da responsabilidade de uma pessoa seja colocado sobre outra. Tampouco é possível que alguém assuma sobre os próprios ombros o peso da responsabilidade de outra pessoa e se entregue à punição por seu crime para salvá-la. Isto foi dito aqui porque, em Meca, os parentes e membros do clã daqueles que aceitavam o Islã lhes diziam: “Abandonem esta nova religião por nossa causa e permaneçam firmes na religião de seus antepassados. A punição e a recompensa serão responsabilidade nossa.”

Na primeira frase, é descrita a lei da justiça de Allah: Ele não responsabilizará uma pessoa pelo pecado de outra. Ao contrário, cada um será considerado responsável pelo próprio pecado. Na frase seguinte, é dito que aqueles que hoje afirmam: “Continuem praticando atos de incredulidade e pecado sob nossa responsabilidade; no Dia da Ressurreição, carregaremos o peso dos seus pecados” estão, na realidade, oferecendo uma falsa garantia. Quando a Ressurreição ocorrer e as pessoas virem o destino que enfrentarão por suas próprias ações, todos ficarão aflitos. O irmão se afastará do irmão, e o pai, do filho. Ninguém estará disposto a carregar sobre os próprios ombros nem sequer o peso equivalente a um grão de outra pessoa. (136)

يَوْمَ يَفِرُّ الْمَرْءُ مِنْ أَخِيهِ – وَأُمِّهِ وَأَبِيهِ – وَصَاحِبَتِهِ وَبَنِيهِ – لِكُلِّ امْرِئٍ مِنْهُمْ يَوْمَئِذٍ شَأْنٌ يُغْنِيهِ-( عبس-34-37)

-Naquele dia, o homem fugirá de seu irmão, de sua mãe, de seu pai, de sua esposa e de seus filhos. Naquele dia, cada um deles estará diante de uma situação que o manterá completamente preocupado consigo mesmo, sem consciência para pensar em qualquer outra pessoa. (Abasa: 34-37)

O significado de fugir é que, naquele dia, ao verem seus amigos mais queridos em perigo, as pessoas fugirão em vez de ajudá-los, para que eles não possam chamá-las em busca de auxílio. Isso também pode significar que, no mundo, por não temerem a Deus e permanecerem negligentes em relação à Vida Futura, cometiam pecados uns pelos outros e desviavam uns aos outros do caminho. Agora, ao verem diante de si as consequências disso, cada um fugirá do outro, para que não possam atribuir-lhes a responsabilidade por sua pecaminosidade e desvio. O irmão temerá o irmão, o filho temerá os pais, o marido temerá a esposa, e os pais temerão os filhos, receando que esse grupo de desafortunados testemunhe contra eles no processo.

وَلَا يَسْأَلُ حَمِيمٌ حَمِيمًا- يُبَصَّرُونَهُمْ يَوَدُّ الْمُجْرِمُ لَوْ يَفْتَدِي مِنْ عَذَابِ يَوْمِئِذٍ بِبَنِيهِ – وَصَاحِبَتِهِ وَأَخِيهِ – وَفَصِيلَتِهِ الَّتِي تُؤْوِيهِ – وَمَنْ فِي الْأَرْضِ جَمِيعًا ثُمَّ يُنْجِيهِ-( المعارج-10-14)

-Nenhum amigo íntimo perguntará por outro amigo íntimo. No entanto, eles serão mostrados uns aos outros. O criminoso desejará, para salvar-se do castigo daquele dia, oferecer como resgate os próprios filhos, a própria esposa, o próprio irmão, sua família mais próxima que lhe dava abrigo e todas as pessoas da Terra, e que esse estratagema lhe proporcione a salvação. (Al-Ma’arij: 10-14)

Ou seja, não será que eles não poderão ver uns aos outros e, por isso, não perguntarão. Ao contrário, verão com os próprios olhos a aflição em que o outro estará. Ainda assim, não perguntarão, pois o perigo estará sobre seus próprios ombros. Por outro lado, desejarão oferecer todos como resgate para obter a própria salvação.

مَا لِلظَّالِمِينَ مِنْ حَمِيمٍ وَلَا شَفِيعٍ يُطَاعُ-(المؤمن-18)

-Para os injustos não haverá nenhum amigo, nem intercessor cuja intercessão seja atendida. (Al-Mu’min: 187)

Por injusto entende-se toda pessoa que, cometendo injustiça contra a verdade, adotou o caminho da falsidade.

Na referida ayah, o حميمtermo significa um amigo que, ao ver alguém sendo atacado, se enfurece e avança rapidamente para protegê-lo. A parte final foi mencionada para refutar a crença dos incrédulos na intercessão. A verdade é que, naquele lugar, os injustos não terão absolutamente nenhum intercessor. Pois, se alguém receber permissão para interceder, somente os servos virtuosos de Allah poderão fazê-lo. E os servos virtuosos de Allah jamais poderão ser amigos dos incrédulos, dos politeístas e dos pecadores, a ponto de pensar em interceder para protegê-los. Contudo, como os incrédulos, os politeístas e os desviados geralmente tinham — e ainda têm — a crença de que as figuras veneráveis a quem se agarram jamais permitirão que entrem no Inferno; ao contrário, ficarão diante deles como uma proteção, conseguirão que sejam perdoados e sua intercessão terá necessariamente de ser aceita. (139)

يَوْمَ يَقُومُ الرُّوحُ وَالْمَلَائِكَةُ صَفًّا لَا يَتَكَلَّمُونَ إِلَّا مَنْ أَذِنَ لَهُ الرَّحْمَنُ وَقَالَ صَوَابًا-( النبأ-38)

-Naquele dia, quando o Espírito (Jibril) e os anjos permanecerem enfileirados, ninguém falará, exceto aqueles a quem Allah, o Misericordioso, conceder permissão, e eles dirão o que é correto. (An-Naba’: 38)

Isto é, no campo da reunião, a terrível influência e majestade da presença divina serão tamanhas que nenhum habitante da Terra ou dos céus ousará abrir a boca espontaneamente diante de Allah ou interferir no julgamento. Falar significa interceder, e foi dito que isso será possível sob duas condições. A primeira é que aquele a quem Allah conceder permissão para interceder em favor de um pecador só poderá interceder em favor dessa pessoa. A segunda condição é que o próprio intercessor diga o que é correto e não faça uma intercessão injusta. Além disso, encontra-se ainda a condição de que aquele em favor de quem se intercederá tenha, neste mundo, pelo menos professado a kalimah; isto é, seja apenas um pecador, não um incrédulo. (140)

يَوْمَ لَا تَمْلِكُ نَفْسٌ لِنَفْسٍ شَيْئًا وَالْأَمْرُ يَوْمَئِذٍ لِلَّهِ-( الانفطار-19)

—Este é o dia em que ninguém terá poder para fazer algo por outra pessoa, e nesse dia a decisão estará inteiramente nas mãos de Allah. (Al-Infitar: 19)

Síntese da discussão

Este foi o quarto ponto da pregação islâmica, apresentado com tamanha força, fundamentação lógica e riqueza de detalhes que, diante dele, não podiam de modo algum prevalecer as zombarias e escárnios dos incrédulos, nem uma exigência tão tola como: “Trazei de volta nossos antepassados”. Com exceção daqueles que lutavam por seus próprios interesses e que necessariamente tinham de lutar, nenhuma pessoa dotada de consciência poderia deixar de refletir que a vida após a morte não é impossível nem contrária à razão. Tampouco é possível que, libertos do sentimento de responsabilidade perante Deus, os padrões de conduta humana neste mundo possam firmar-se solidamente sobre princípios permanentes de verdade e justiça; nem o ser humano pode obter justiça verdadeira e plena por qualquer outro meio senão mediante a ocorrência da Ressurreição após o fim da ordem vigente neste mundo, quando os descendentes de todas as gerações humanas, anteriores e posteriores, serão reunidos e apresentados diante do Senhor do universo, e, com absoluta imparcialidade, será determinada a responsabilidade de cada um, sendo concedido castigo ou recompensa a quem dela for digno. (141)

Quinto parágrafo

Educação moral

Ao apresentar essas crenças fundamentais da pregação islâmica de maneira cativante e acompanhadas de argumentos e provas, ela também expôs às pessoas uma concepção extremamente clara da moralidade. Como resultado, todo ouvinte e leitor do Alcorão pôde compreender claramente que tipo de caráter o Islã aprova e qual desaprova. Qual é, aos seus olhos, o modelo ou ideal de humanidade que é mau e que ele deseja mudar e eliminar? E qual é o ideal de humanidade que é bom e que ele deseja criar, cultivar e desenvolver? O que são, em sua visão, o mal e o dano, por que surgem e que formas assumem na vida humana? E o que os faz desenvolver-se? Inversamente, o que é, em sua visão, o bem, e qual é a sua origem? Como se abre o caminho para a sua manifestação, e sob que formas e aspectos ele se manifesta?

A pregação islâmica afirma que o objetivo do Islã é extirpar pela raiz todas as causas do mal e da corrupção, facilitar e ampliar cada vez mais o caminho do bem e estabelecer o bem, em lugar do mal, em todos os setores da vida, do indivíduo à sociedade. Essa descrição foi apresentada na pregação islâmica com tal riqueza de detalhes, clareza, poder de tocar o coração e linguagem tão compreensível ao senso comum e à razão geral que nem mesmo para aqueles que, na sociedade da Jahiliyyah, haviam permanecido submersos durante centenas de anos no abismo da decadência moral era difícil compreender que, na verdade, o pior modelo de humanidade é aquele que o Islã chama de mau, e que o melhor é aquele segundo cujo molde ele deseja reformar e reconstruir as pessoas e a sociedade. (142)

Alguns fatos fundamentais sobre a moralidade

A esse respeito, primeiramente foram apresentados às pessoas alguns fatos da realidade, para que compreendessem o problema moral em seus aspectos fundamentais.

وَنَفْسٍ وَمَا سَوَّاهَا – فَأَلْهَمَهَا فُجُورَهَا وَتَقْوَاهَا – قَدْ أَفْلَحَ مَنْ زَكَّاهَا- وَقَدْ خَابَ مَنْ دَسَّاهَا-( الشمس-7-10)

—E juro pela alma humana e por Aquele que a aperfeiçoou. Então lhe inspirou sua perversidade e sua piedade. Sem dúvida, prosperou quem a purificou, e fracassou quem a corrompeu. (Xams: 7-10)

A organização da alma humana significa que o Criador lhe concedeu um corpo de forma e estrutura corretas, completamente adequado, em seus braços, pernas, mente e cérebro, para viver como ser humano. Ele lhe concedeu sentidos para ver, ouvir, tocar, saborear e cheirar, os quais, por suas proporções e características próprias, poderiam constituir os meios mais excelentes para adquirir conhecimento. Foi-lhe concedida inteligência, capacidade de pensar, capacidade de tomar decisões por meio do raciocínio, capacidade de conceber, memória, capacidade de discernir o bem do mal, força de vontade e outras faculdades mentais, por meio das quais se torna apto a realizar no mundo as tarefas próprias do ser humano. Ele não foi criado como um malfeitor por natureza nem como um pecador nato; pelo contrário, foi criado sobre uma natureza correta e reta. Não foi deixada qualquer curvatura ou deformidade em sua constituição que o impedisse de seguir o caminho correto, mesmo que desejasse fazê-lo.

A palavra ilham é usada para designar a introdução, por parte de Allah, de algum pensamento ou ideia na mente e no intelecto do servo sem que ele tenha consciência disso. A inspiração, na mente humana, das tendências para o pecado, para as boas ações e para a piedade pode ter dois sentidos. Um deles é que o Criador colocou nele a inclinação, o desejo e o anseio tanto pelas boas ações quanto pelos pecados. E isso é algo que cada ser humano sente dentro de si. O segundo sentido é que Allah concedeu a cada pessoa, em seu estado subconsciente, a noção do que é bom e do que é mau no caráter e no comportamento, e de que o bem e a taqwa (abster-se das más ações) são coisas nobres. Essa noção não é desconhecida do ser humano; pelo contrário, sua natureza está plenamente consciente dessas coisas. O Criador concedeu-lhe inatamente a capacidade de discernir o bem do mal.

Tazkiya é usada no sentido de purificar, fazer crescer e desenvolver. Em sentido oposto, tadsiya é usada no sentido de reprimir, ocultar, seduzir e desencaminhar. O versículo afirma de maneira decisiva que o sucesso ou o fracasso do ser humano depende da questão de qual das tendências boas e más de sua mente ele desenvolve e qual reprime, utilizando as faculdades que Allah lhe concedeu. O sucesso pertence somente àquele que mantém sua mente purificada do pecado, a desenvolve até os elevados cumes da taqwa e faz florescer nela o bem. Fracassa aquele que reprime a tendência virtuosa existente em si, seduz a própria mente e a conduz às tendências más. Depois, torna o pecado tão poderoso que a taqwa fica escondida sob ele, fora da vista, como um cadáver depois de ser enterrado na sepultura. (143)

إِنَّا خَلَقْنَا الْإِنْسَانَ مِنْ نُطْفَةٍ أَمْشَاجٍ نَبْتَلِيهِ فَجَعَلْنَاهُ سَمِيعًا بَصِيرًا – إِنَّا هَدَيْنَاهُ السَّبِيلَ إِمَّا شَاكِرًا وَإِمَّا كَفُورًا-(الدهر-2-3)

—Criamos o ser humano a partir de uma gota de esperma misturado, para testá-lo; por isso, fizemos dele ouvinte e vidente. Nós lhe mostramos o caminho, quer seja agradecido, quer seja ingrato. (Dahr: 2-3)

Do esperma combinado dos pais também nascem animais, assim como o ser humano. Mas a diferença entre o ser humano e os animais é que os animais não foram criados neste mundo para serem postos à prova. O ser humano foi criado para ser posto à prova. Por isso, ao contrário dos animais, Allah o fez ouvinte e vidente. Isto é, concedeu-lhe a capacidade de conhecimento e inteligência, para que pudesse ser apto à prova. Depois, não o deixou simplesmente com essa capacidade; pelo contrário, também lhe mostrou o caminho, para que compreendesse qual é, como servo de Deus, o caminho da gratidão que deve seguir e qual é o caminho da ingratidão ou da deslealdade. Agora, a sua prova consiste em saber se, depois de conhecer a diferença entre os dois caminhos, ele usa essas capacidades para seguir o caminho da gratidão ou o da descrença. (144)

(Árabe**************)

Não lhe demos dois olhos, uma língua e dois lábios? E não lhe mostramos os dois caminhos claramente distintos? (Al-Balad: 8–10)

O significado de dois olhos não é o de olhos de vacas ou búfalos; são, antes, olhos humanos que, quando abertos, permitem ver ao redor sinais que tornam a realidade clara e mostram a diferença entre a verdade e a falsidade. O significado de língua e lábios não é apenas o de instrumentos da fala; é também uma mente dotada de capacidade de discernimento (mente racional), que, com o auxílio desses dois instrumentos, realiza o trabalho de refletir e expressa o que há na mente. Depois, Allah diz: não o deixamos simplesmente dotado de conhecimento, inteligência e capacidade de reflexão, para que escolhesse sozinho o seu caminho. Pelo contrário, para orientá-lo, deixamos claramente diante dele os dois caminhos: o do bem e o do mal, o da virtude e o do pecado, para que, após muita reflexão, pudesse assumir por sua própria responsabilidade qualquer um dos dois. (145)

(Árabe**************)

Criamos o ser humano na mais excelente forma. Depois, fizemo-lo retornar à condição mais inferior. Exceto aqueles que creem e praticam boas obras. (At-Tin: 4–6)

Isso significa que Allah concedeu ao ser humano um corpo de tão elevada dignidade como não concedeu a nenhuma outra criatura. E concedeu-lhe a melhor capacidade de reflexão, conhecimento e inteligência, algo que não concedeu a nenhum outro ser criado. Mas, quando, em vez de seguir o caminho da fé e das boas obras, ele utiliza as forças do próprio corpo e da mente no caminho do mal, Allah lhe concede êxito apenas nas más ações e o faz chegar a uma degradação tão extrema que nem a mais inferior das criaturas consegue alcançar.

Esta é uma realidade que pode ser vista muitas vezes na sociedade humana. Quem quer que mergulhe na ganância, no egoísmo, na autopromoção, na dependência de drogas, na baixeza, na ira desenfreada e em outras disposições semelhantes chega, do ponto de vista moral, ao nível mais baixo. Tomemos apenas um exemplo: quando uma nação fica cega pelo ódio a outra nação, como supera, em ferocidade, todos os animais ferozes? Um animal feroz caça outro apenas para se alimentar; não mata todos os animais de uma só vez. Mas o ser humano comete massacres contra seres da sua própria espécie. Os animais ferozes caçam com as garras e os dentes. Porém, o ser humano, criado na mais excelente forma, continua fabricando, com a sua inteligência e capacidade de invenção, arma destrutiva após arma destrutiva, para poder destruir cidades inteiras. O animal feroz apenas fere ou mata. Mas o ser humano adota, para torturar outros seres humanos como ele próprio, métodos tão dolorosos que nenhum animal feroz poderia sequer imaginá-los. Depois, para satisfazer a sua ânsia de hostilidade e vingança, chega a um nível tão baixo de vileza que faz desfilar nuas as mulheres dos inimigos; dez ou vinte homens estupram cada mulher para satisfazer o seu desejo sexual. Na frente dos pais, irmãos e maridos, violam a honra das suas filhas, irmãs e esposas. Matam as crianças diante dos pais. Obrigam a mãe a beber o sangue do próprio filho. Pessoas vivas são queimadas até a morte e enterradas vivas. Não há no mundo animal feroz algum que possa competir, em qualquer grau, com a bestialidade do ser humano. O mesmo ocorre com outras más qualidades: em qualquer uma delas em cuja direção o ser humano se encaminhe, ele prova ser uma das criaturas mais inferiores. Até mesmo a religião, que para o ser humano é uma das coisas mais sagradas, ele degrada de tal maneira que, depois de chegar ao nível mais baixo da decadência adorando árvores, animais e livros, passa a adorar os órgãos sexuais feminino e masculino. Para agradar aos deuses e deusas, institui também a prática de manter prostitutas sagradas nos templos, e o adultério com elas é considerado uma boa obra. Nos seus mitos ou escrituras religiosas, atribuem-se histórias imaginárias tão obscenas que seriam vergonhosas até para a mais vil das pessoas. (146)

Juntamente com a descrição dessas realidades, o Alcorão descreveu três formas distintas da alma humana. Uma delas é a nafs al-ammārah, que incita o ser humano a praticar o mal. (Yusuf: 53)

A segunda é a nafs al-lawwāmah. Sua função é advertir o ser humano, até certo ponto, sobre seus desejos, vontades e decisões. Depois que ele pratica uma ação má, ela continua a censurá-lo. (Qiyāmah: 2) A terceira é a nafs al-muṭma’innah. Com plena tranquilidade, ela abandona o caminho do mal e adota o caminho da retidão, sem lamentar ter renunciado ao sabor e às oportunidades das ações imorais, nem ter suportado, pelo bem, privação, renúncia e sacrifício, sofrimento, dificuldades e calamidades. Longe de se entristecer com isso, seu coração se sente satisfeito por ter sido salvo da impureza e da sordidez das más ações e por ter alcançado a pureza do bem. O Alcorão chamou esse terceiro tipo de nafs de uma alma preferida por Deus e anunciou-lhe as boas-novas do Paraíso. (Fajr: 27–30)

Causas do desvio

Em seguida, o glorioso Alcorão descreveu, uma a uma, as causas pelas quais as pessoas geralmente se envolvem no desvio. Os incrédulos da Arábia também se envolveram no desvio por causa dessas razões. As causas são as seguintes:

1. Imitação cega dos antepassados

Entre todas essas coisas, a primeira é a imitação cega da religião dos antepassados. Essas práticas eram seguidas unicamente porque vinham sendo observadas desde o tempo dos pais e avós. Eles jamais tentaram refletir, usando a razão, se tudo o que seus pais e avós faziam era ou não racional. A única justificativa ou prova dessa imitação cega era que essa era a tradição dos pais e avós. A esse respeito, o Alcorão apresentou muitos exemplos da história.

Quando Hazrat Hud (A.S.) criticou o povo de ‘Ād por seu desvio e o aconselhou a seguir o caminho correto, eles rejeitaram todas as suas provas, argumentos e exortações, dizendo apenas: “Acaso vieste até nós para que adoremos somente a Deus e abandonemos essas divindades que nossos pais e avós adoravam?” (A‘rāf: 170)

Quando Hazrat Ṣāliḥ (A.S.) tentou instruir o povo de Thamūd, sua resposta foi: “Ó Ṣāliḥ! Antes disso, eras alguém de quem esperávamos muito. Agora queres impedir-nos de adorar as divindades que nossos pais e avós adoravam? Há grande dúvida e incerteza quanto ao caminho para o qual nos convocas, e isso se tornou causa de terrível preocupação e apreensão para nós.” (Hūd: 62)

Quando o profeta Shuayb (A) advertiu o povo de Madyan sobre o seu evidente desvio, a resposta deles foi:

Ó Shuayb! Será que a tua oração te ensina a abandonar os deuses dos nossos antepassados? (Hud: 87)

Quando o profeta Ibrahim (A) disse ao seu pai e ao seu povo: “Que estátuas são estas às quais vos apegastes?”, eles não tiveram outra resposta senão: “Vimos os nossos antepassados adorá-las.” Então o profeta Ibrahim (A) declarou claramente: “Vós e os vossos antepassados estáveis todos num evidente desvio.” (Al-Anbiya: 52–54)

O profeta Ibrahim (A) perguntou-lhes: “Elas respondem ao que lhes dirigis? Podem beneficiar-vos ou prejudicar-vos de algum modo?”

A resposta deles foi: “Não nos importa nada. Só fazemos isso porque vimos os nossos antepassados fazê-lo assim.” (Ash-Shu’ara: 72)

Quando o profeta Musa (A) apresentou o convite à verdade ao Faraó e aos seus cortesãos, acompanhado de sinais evidentes, eles também disseram: “Vieste até nós para nos afastar do caminho no qual vimos os nossos antepassados?” (Yunus: 78)

Ao apresentar esses exemplos, o Alcorão Sagrado declara que todas as nações ignorantes rejeitaram o convite dos seus profetas por meio desse argumento sem fundamento. Ao mencionar as primeiras nações, o Alcorão diz que, sempre que respondiam às provas claras, aos conselhos e às advertências dos seus profetas, diziam apenas: “Não passas de um ser humano como nós. Queres afastar-nos da adoração dos deuses que os nossos antepassados adoravam.” (Ibrahim: 10)

Em outro lugar, é dito: “Ó Profeta! Sempre que enviámos um advertidor a uma cidade antes de ti, os seus habitantes abastados diziam: ‘Vimos os nossos antepassados seguir um determinado caminho e seguimos as suas pegadas.’ Cada profeta perguntava-lhes: ‘Continuareis a seguir esse caminho, mesmo que eu vos mostre um caminho mais reto e correto do que aquele em que encontrastes os vossos antepassados?’ Todos eles respondiam aos profetas: ‘Negamos aquilo para cuja convocação fostes enviados.’” (Az-Zukhruf: 23–24)

Esta não era apenas a condição das nações dos tempos passados; ao contrário, tem sido e continua sendo o costume dos ignorantes de todas as épocas discutir sobre Allah sem qualquer conhecimento, luz ou Livro orientador. Quando lhes é dito: “Vinde para o ensinamento que Allah revelou”, eles respondem: “Não; seguiremos justamente o caminho no qual encontramos nossos antepassados.”

Ainda que Satanás esteja chamando seus antepassados para o Inferno. (Luqmân: 20–21)

Depois de apresentar esses exemplos, o Alcorão adverte diretamente os coraixitas e os árabes: vocês também são como eles. Não refletem, com a ajuda de sua razão e conhecimento, sobre se a religião que seguem é correta ou não. Tampouco ponderam sobre os erros de sua religião, costumes e tradições, que lhes são demonstrados com provas e argumentos. Simplesmente se agarram obstinadamente a algo errado apenas porque isso vem sendo transmitido desde seus antepassados.

Na Surata as-Saffat, é dito que essas pessoas encontraram seus antepassados desviados; por isso, correram rapidamente atrás deles, embora a maioria dos que viveram antes deles também tenha se desviado. (versículos: 69–71)

Na Surata Hud, dirigindo-se ao Nobre Mensageiro, é dito: não tenhas nenhuma dúvida acerca dessas divindades que essas pessoas adoram. Elas são adoradas exatamente como seus antepassados as adoravam. (versículo: 109)

Quando os coraixitas e os árabes foram impedidos de coisas extremamente vergonhosas, como a indecência e a nudez, e lhes foi dito que eles não hesitavam sequer em circum-ambular nus a sagrada Caaba — não poderia haver ato mais abominável do que esse e, portanto, deveriam sentir vergonha disso —, tentaram também considerar isso lícito, sob o pretexto de seguir seus antepassados. De fato, na Surata al-A‘raf, é dito: quando cometem um ato indecente, dizem: “Vimos nossos antepassados fazê-lo, e Allah nos ordenou que o fizéssemos.”

Ó Profeta! Dize-lhes: “Allah jamais ordena a indecência. Acaso dizeis, em nome de Allah, aquilo que não sabeis que Allah ordenou?” (versículo: 28)

Os incrédulos árabes permaneciam firmes em diversos costumes ignorantes e irracionais e, sem qualquer prova, haviam concluído que tudo isso fora estabelecido por Allah. Sobre isso, é dito na Surata al-Ma’ida: “E quando lhes é dito: ‘Vinde para o ensinamento que Allah revelou e vinde ao Mensageiro’, eles respondem: ‘É-nos suficiente aquilo em que encontramos nossos antepassados.’ Acaso continuarão seguindo cegamente seus antepassados, mesmo que estes não possuíssem conhecimento algum nem estivessem no caminho correto?” (versículo: 104)

Assim, os incrédulos da Arábia impuseram a si mesmos muitas restrições relativas ao lícito e ao ilícito. Tudo isso foi inventado por eles e tornado obrigatório com base no fato de que era uma prática transmitida desde tempos antigos. Entre essas coisas, muitas coisas lícitas foram declaradas ilícitas, e muitas coisas ilícitas, vergonhosas e abomináveis foram declaradas lícitas. Sobre isso, é dito na Surata Al-Baqarah: Quando lhes é dito: “Segui a orientação que Allah revelou”, eles respondem: “Não! Seguiremos o caminho em que encontramos nossos antepassados.” E mesmo que seus antepassados não tivessem entendimento algum nem fossem guiados? (Versículo: 170)

Na Surata Al-An‘am, essa imitação cega foi demonstrada como inconsistente e contrária à razão por meio de argumentos e provas tão fortes que até o mais obstinado dos árabes talvez tenha admitido, no íntimo, ao menos uma vez: “Na verdade, estamos seguindo algo absurdo.”

Nessa mesma surata, é dito: Eles reservaram para Allah uma parte das colheitas dos campos e dos animais domésticos que Ele próprio criou, e dizem: “Isto é para Allah” — segundo sua própria alegação — “e isto é para os nossos associados.” Mas o que é destinado aos seus associados não chega a Allah, enquanto o que é destinado a Allah chega aos seus associados. [Isto é, se alguma coisa caísse da colheita, dos frutos ou de outras coisas que eram separadas em nome de Allah, ela era incluída na parte dos associados. Mas, se algo caísse da parte dos associados ou fosse encontrado na parte de Deus, era devolvido à parte deles. Se, da parte do campo destinada às oferendas aos associados, a água alguma vez corresse para a parte destinada às oferendas a Deus, toda a colheita era incluída na parte dos associados. Mas, se ocorresse o contrário, nada era acrescentado à parte de Deus. Se, por causa da falta de chuva, surgisse a necessidade de utilizar para si mesmos a parte das oferendas, eles consumiam a parte de Deus. Porém, tinham medo de tocar na parte dos associados, temendo que alguma calamidade lhes sobreviesse. Se, por qualquer razão, a parte dos associados diminuísse, ela era completada com a parte de Deus. Mas, se a parte de Deus diminuísse, nem sequer um grão da parte dos associados era dado à parte de Deus. — O Autor.]

E, da mesma forma, seus associados tornaram atraente, para muitos politeístas, o ato de matar os próprios filhos, a fim de precipitá-los na destruição e tornar duvidosa, para eles, a sua religião. [Isto é, lançá-los na confusão de que isso também fazia parte da religião que haviam recebido de Abraão e Ismael (que a paz esteja sobre ambos). Aqui fica claro que “associados” não significa ídolos ou outras divindades, mas aqueles líderes religiosos que, em épocas posteriores, propagaram crenças falsas e práticas religiosas. E as pessoas as seguem como se devessem seguir a lei de Deus. — O Autor.]

Eles dizem: “Estes animais de criação e estas colheitas são reservados; ninguém pode comer deles, exceto aqueles a quem nós alimentamos.” Isso é uma invenção deles. Há também animais cuja montaria e cujo uso para transporte de cargas foram proibidos. E há animais sobre os quais não mencionam o nome de Allah, atribuindo falsamente a Allah a proibição de mencionar Seu nome sobre eles. … E dizem ainda: “O que está no ventre desses animais é reservado aos nossos homens e proibido às mulheres; mas, se nascer morto, todos — homens e mulheres — participarão dele.” Considerai estes oito pares: dois da espécie dos ovinos e dois da espécie dos caprinos. Dize: “Ele proibiu os dois machos, as duas fêmeas ou o que os ventres das duas fêmeas contêm? Informai-me com conhecimento verdadeiro, se sois verídicos.” E há também dois da espécie dos camelos e dois da espécie dos bovinos. Dize: “Ele proibiu os dois machos, as duas fêmeas ou o que os ventres das duas fêmeas contêm? Estáveis presentes quando Allah vos ordenou isso?” E quem é mais injusto do que aquele que atribui falsidades a Allah para desviar as pessoas, sem conhecimento? Certamente, Allah não guia os injustos. (Versículos: 136-144)

2. A imitação equivocada dos ricos e dos líderes

O Alcorão identificou outra causa de desvio, próxima da imitação cega dos antepassados, que não é inferior a ela em nenhum aspecto na tarefa de tornar as pessoas desenfreadas e arruinar a sociedade. Trata-se de seguir os ricos, os líderes, os mestres religiosos e os chefes abastados da própria nação ou do mundo. Sem refletir para onde eles as conduzem, as pessoas os seguem apenas por essa razão. Por isso, no Dia da Ressurreição, esses seguidores dirão arrependidos: “Ó nosso Senhor! Seguimos nossos chefes e nossos grandes, e eles nos desviaram do caminho. Ó nosso Senhor! Impõe-lhes um castigo dobrado e lança sobre eles uma grande maldição.” (Al-Ahzab: 67-68)

“Ó nosso Senhor! Mostra-nos aqueles entre os gênios e os humanos que nos desviaram. Nós os pisotearemos, para que sejam os mais humilhados e desonrados.” (Ha-Mim As-Sajdah: 29)

-(Quando Allah infligir o castigo), ocorrerá uma situação em que os líderes e principais personalidades que eram seguidos no mundo declararão que romperam todas as relações com seus seguidores. Mas eles verão o castigo, e toda a continuidade de seus meios e recursos será interrompida. Aqueles que os seguiam no mundo dirão: “Ah! Se ao menos nos fosse dada outra oportunidade, nós nos afastaríamos deles da mesma forma que hoje eles se afastam de nós, rompendo suas relações conosco.” Allah certamente apresentará diante deles todas as obras que praticavam neste mundo, de tal modo que sentirão apenas vergonha e pesar. Contudo, não encontrarão nenhuma saída para escapar do fogo do Inferno. (Al-Baqara: 166-167)

—Ah, se pudésseis ver a situação desses injustos quando forem colocados diante de seu Senhor e discutirem uns com os outros! Aqueles que eram subjugados no mundo dirão aos grandes: “Se não fosse por vós, teríamos sido muçulmanos.” Os grandes dirão aos subjugados: “Acaso vos impedimos de aceitar a orientação quando ela vos chegou? Vós éreis culpados por vós mesmos.” Os subjugados dirão aos grandes: “Não! Antes, isso foi uma conspiração contínua, noite e dia, quando nos dizíeis: ‘Negaremos Allah e atribuiremos semelhantes a Ele.’” (Sabá: 31-33)

O Alcorão descreveu esta realidade como uma lei universal: aquilo que finalmente destrói uma sociedade é a degradação moral de seus membros abastados e de sua classe superior. Quando chega o momento do infortúnio de uma nação, seus ricos e influentes entregam-se aos pecados e começam a praticar diversas más ações, como a opressão, a tirania e a imoralidade; por fim, essa desordem e depravação destroem toda a nação. O Alcorão diz:

(Árabe*****************)

—Quando decidimos destruir uma cidade, ordenamos aos seus habitantes abastados, e então eles começam a praticar nela toda espécie de depravação. Assim, a sentença do castigo é aplicada àquela cidade, e nós a destruímos. (Bani Isra’il: 16)

3. Orgulho e arrogância

A terceira causa importante do desvio identificada pelo Alcorão é que a pessoa se recusa a aceitar a verdade porque considera humilhante admitir que sua visão está errada. Ou pensa que, se aceitar essa verdade, perderá a elevada posição que ocupa na sociedade desviada. Ou considera prejudicial à sua alta posição abandonar a própria opinião e aceitar a opinião de outra pessoa, por mais equivocada que seja a sua opinião e por mais verdadeira que seja a apresentada pelo outro.

O Alcorão Sagrado expôs repetidamente diante das pessoas esta causa do desvio, para destruir o orgulho e a arrogância que haviam se tornado obstáculos à aceitação da verdade, e para que elas conhecessem a causa do desvio daqueles porta-estandartes da perdição que, em sua própria época ou em épocas passadas, eram obstáculos ao caminho da verdade.

Como exemplo, na Surata Nuh é citada esta declaração de Noé (que a paz esteja sobre ele): “Ó meu Senhor! Convoquei o meu povo, dia e noite, para que viesse à verdade. Mas o resultado do meu chamado foi que eles se afastaram ainda mais. E sempre que os convidei para a verdade, para que Tu os perdoasses, eles taparam os ouvidos com os dedos, cobriram o rosto com as roupas, persistiram em sua conduta e se ensoberbeceram.” (Nuh: 6–7) [A arrogância significa que eles consideraram humilhante para sua honra submeter-se à verdade e aceitar os conselhos do Mensageiro de Deus. Suponha, por exemplo, que uma pessoa virtuosa aconselhe alguém corrompido; este, em resposta, fica balançando a cabeça, afasta-se pisando duramente no chão e vai embora. Isso é rejeitar um conselho com arrogância. — O autor]

Na Surata do Crente é narrada esta história: quando o Faraó manifestou a intenção de matar Moisés (que a paz esteja sobre ele), um homem sincero de sua corte aconselhou-o, com compaixão e boa vontade, usando argumentos sensatos, a abandonar a conduta equivocada e seguir o caminho correto. Mas ele não deu ouvidos a nada e permaneceu obstinado. Ao analisar isso, Allah diz:

(Árabe***********)

“Assim Allah sela o coração de todo arrogante e opressor.” (O Crente: 35)

Em outras palavras, quando um coração se enche do espírito da arrogância, da tirania e da opressão, suas portas se fecham a toda palavra de conselho e de verdade; então Allah coloca sobre ele o selo de Sua maldição, de tal modo que, por mais que alguém tente guiá-lo ao caminho correto, ele jamais se corrige.

Na Surata Al-A‘raf é dito que, quando Allah escreveu para Moisés (que a paz esteja sobre ele) a orientação em tábuas de madeira, advertiu-o também, dizendo: “Desviarei dos Meus sinais aqueles que se ensoberbecem na terra sem direito. Mesmo que vejam qualquer sinal, jamais acreditarão nele. Ainda que o caminho correto se apresente diante deles, não o seguirão; mas, se virem o caminho tortuoso, adotá-lo-ão.” (Al-A‘raf: 146)

Na Surata Al-Baqarah é dito: “Entre as pessoas há também aquele cuja fala sobre a vida mundana vos agrada. Ele jura repetidamente por Allah que tem boas intenções, mas é o maior inimigo da verdade. Depois de dizer essas coisas, quando se afasta, emprega todos os seus esforços em criar desordem e corrupção, destruindo as plantações e a descendência humana. Allah, porém, não gosta da corrupção. E, quando lhe é dito: ‘Teme a Allah’, seu orgulho o mantém firme no pecado.” (Al-Baqarah: 204–206)

Na Surata Al-Muddaththir é apresentado o comportamento de um dos chefes de Meca. Ele havia dito claramente aos chefes coraixitas que todas as acusações que faziam contra Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) eram falsas. O Alcorão era uma palavra extremamente doce e agradável; sua raiz era muito profunda e seus ramos, frutíferos. Mas, quando se viu diante da questão de preservar sua liderança mediante uma falsa acusação contra este Mensageiro, deu prioridade à segunda alternativa e, lutando contra a própria consciência, acabou inventando uma acusação. Seu coração, porém, sabia que estava lançando uma mentira evidente apenas para manter sua superioridade. O Alcorão apresenta esse retrato dele e expõe sua perversidade:

—Ele refletiu e tentou inventar algumas palavras. Que desgraça recaia sobre ele! Como tentou inventar palavras! Depois olhou para as pessoas. Em seguida, franziu a testa e fez uma careta. Depois virou-se e caiu na armadilha da arrogância. Por fim, disse: “Isto não é senão magia, nada mais. Isso já vem sendo transmitido desde os tempos antigos. Isto não passa de palavra humana.” (Al-Muddaththir: 18–25)

4. Considerar a prosperidade e a adversidade mundanas como critério do bem e do mal

Em seguida, o Alcorão afirma que outra grande causa do desvio é a ideia de que os resultados visíveis neste mundo são o critério do bem e do mal. Se alguém aqui é próspero, mesmo que sua prosperidade se deva a más ações, considera-se que é bem-sucedido e vitorioso. E aquele que aqui é pobre, mesmo que sua pobreza venha acompanhada de boas ações, é considerado fracassado. Em outras palavras, o bem seria aquilo cujo resultado se mostra aparentemente bom neste mundo, e o mal seria aquilo cujo resultado se mostra aparentemente mau neste mundo. Não se considera quanta subsistência ilícita e quantas más ações existem por trás desse bem aparente, nem quanta prática virtuosa e riqueza de elevado caráter moral existem por trás daquele mal aparente. O Alcorão apresentou exemplos dessa perspectiva equivocada também a partir da história passada e tornou-a claramente manifesta nas próprias palavras e atitudes dos habitantes de Meca e dos árabes.

Na história de Noé (que a paz esteja com ele), é dito que os líderes da sociedade de seu povo recusaram aceitar seus ensinamentos e sua orientação, alegando que aqueles que haviam acreditado nele eram pobres e não ocupavam posição elevada na sociedade.

(Árabe************)

—Eles disseram: “Devemos seguir-te, uma vez que as pessoas das classes mais baixas te seguiram?” (Ash-Shu‘ara: 111)

Na história de صالح (que a paz esteja com ele), também há uma menção clara de que os ricos e influentes de seu povo perguntaram aos seus pobres seguidores:

(Árabe**************)

Vocês sabem realmente que Salih é o mensageiro de seu Senhor?

Eles respondem: (Árabe*******************)

Cremos naquilo com que ele foi enviado.

Em resposta, os abastados dizem:

(Árabe*************)

—Não cremos naquilo em que vocês creem. (Al-A’raf: 75-76)

Em outras palavras, não cremos naquilo que pessoas de classe inferior como vocês aceitaram.

A respeito de todos os profetas, o Alcorão afirma que foram os abastados de seus povos que se opuseram a eles, e sua perspectiva era que aquele que teve a sorte de obter grande riqueza e muitos filhos neste mundo estava estabelecido na verdade.

(Árabe*************)

—E nunca aconteceu de enviarmos um admoestador a alguma cidade sem que seus habitantes abastados dissessem: “Não cremos na mensagem com a qual foste enviado”; e dissessem também: “Nós possuímos mais riquezas e filhos do que vós e jamais seremos castigados.” (Sabá: 34-35)

Essa era a maneira de pensar dos incrédulos de Meca e da Arábia na época do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Alcorão mencionou repetidamente que ela era equivocada.

Na Surata Maryam, é dito: quando são recitados para eles os Nossos versículos claros, os incrédulos dizem aos crentes: “Dizei-nos: qual dos nossos dois grupos está em melhor condição e quais de nós têm as reuniões mais grandiosas?”

Contudo, antes deles, destruímos muitas nações semelhantes, que eram mais ricas do que eles e os superavam em ostentação manifesta. (Maryam: 73-74)

Na Surata Al-Mu’minun, é dito: “Pensam eles que, ao lhes concedermos riquezas e filhos, estamos ajudando-os? Ou que o fazemos para promover o bem deles? Não, não é assim; eles não têm consciência da verdadeira realidade. Na verdade, aqueles que temem o seu Senhor, que creem nos versículos do seu Senhor, que não associam ninguém ao seu Senhor e que, quando dão—seja o que for que deem—têm o coração tremendo por saberem que retornarão ao seu Senhor, esses se apressam para o bem e o alcançam.” (Versículos: 55-61)

Para compreender isso, a Surata Al-Fajr primeiro descreveu a transgressão e a rebeldia contra Allah de nações e impérios grandiosos, como os de ‘Ad, Thamud e Faraó; depois afirmou que o ser humano ainda permanece imerso na falsa ideia de que as bênçãos e riquezas mundanas constituem a verdadeira honra, enquanto a pobreza e as dificuldades financeiras deste mundo constituem a verdadeira desonra. Contudo, elas não são o critério de honra e desonra. (Al-Fajr: 15-16)

5. Seguir os desejos da própria natureza e as conjecturas

Ao falar das causas do desvio, o Alcorão identifica outra causa importante: as pessoas, baseando-se apenas em suposições e conjecturas, decidem considerar algo verdadeiro e outra coisa falsa. Ou então fazem de seus próprios desejos uma divindade e passam a adorá-la de tal modo que arrastam sua vontade nessa direção. O Alcorão advertiu repetidamente as pessoas contra esse erro: em vez de se perderem e vagarem pelo vale das conjecturas e dos desejos, devem seguir o caminho reto da razão e do conhecimento, quer tenham adotado o caminho concedido por Deus, quer estejam seguindo o caminho escolhido segundo seus próprios desejos, para verificar se ele é correto e racional.

Na surata Al-A‘raf é apresentado o exemplo de um homem que, apesar de possuir conhecimento, ao se tornar escravo de seus desejos, transforma-se num cão mundano. Depois, ao examinar pessoas como ele, é dito: “Criamos para o Inferno muitos dos gênios e dos seres humanos. Eles têm corações, mas não compreendem com eles; têm olhos, mas não veem com eles; têm ouvidos, mas não ouvem com eles. São como animais; na verdade, são ainda mais inferiores. Esses são os que vivem imersos no sono da negligência e da desatenção.” (Versículos: 173–179)

Na surata Al-Anfal são mencionadas aquelas pessoas que, mesmo depois de ouvirem tudo, agem como se não tivessem ouvido nada. Em seguida, é dito que, de fato, perante Deus, entre todas as criaturas vivas, as piores criaturas são os mudos e surdos que não utilizam a razão e o discernimento. (Versículo: 22) Mudos e surdos não significa que sejam mudos e surdos fisicamente; refere-se, antes, àquelas pessoas que não ouvem a verdade nem falam a verdade.

Nenhuma das divindades que os idólatras associaram ao Senhor do universo na divindade possui atributos ou autoridade divinos. Depois de apresentar, na surata Yunus, nos versículos 31 a 35, uma a uma as provas e evidências disso, é afirmado claramente que eles não foram transformados em deuses com base em qualquer conhecimento. Pelo contrário, por mera conjectura, as pessoas passaram a acreditar que eles também possuíam alguma participação na divindade. A maioria deles não segue senão conjecturas. Na realidade, a conjectura não satisfaz necessidade alguma da verdade. (Versículo: 46)

Na surata Al-Hajj, chamando a atenção para as ruínas das antigas comunidades desviadas, é dito: “Não viajaram eles pela terra para ver — ao contemplarem as ruínas de suas cidades destruídas — se seus corações poderiam compreender e seus ouvidos ouvir? Na verdade, não são os olhos que ficam cegos, mas os corações que estão nos peitos.” (Versículo: 46)

Assim, na surata Al-Furqan, depois de chamar a atenção para o destino do povo de Noé, de ‘Ad, de Thamud, dos Companheiros de Ar-Rass, do povo do Faraó e do povo de Lot, dirigindo-se ao Mensageiro de Deus — que a paz esteja com ele — é dito: “Viste aquele que tomou seu próprio desejo como seu deus? Poderias assumir a responsabilidade de guiar ao caminho reto alguém que consideras incapaz de ouvir e compreender? Eles são como animais; na verdade, são ainda mais inferiores.” (Versículos: 43–44)

Isso também é dito na surata Al-Jathiyah: “Ó Profeta, já consideraste a situação daquele que tomou seu próprio desejo como seu deus e a quem Deus, apesar de possuir conhecimento, lançou no desvio? Ele selou seu coração e seus ouvidos e colocou um véu sobre seus olhos. Então, quem, além de Deus, poderá guiá-lo?” (Versículo: 23)

6. Considerar o mal belo e permanecer imerso na falsidade

Outro assunto que o Alcorão considera uma das grandes causas da perdição da sociedade é o fato de as pessoas começarem a considerar boas as más ações. Ao agir contra a verdade, não sentem qualquer desconforto interior. Pelo contrário, entregam-se a isso, sentem orgulho disso e não veem necessidade alguma de conhecer a verdade. De fato, está dito na Surata Fátir: haverá algum fim para a perdição daquele cujas más ações foram embelezadas e adornadas, fazendo com que ele as considere boas? (Versículo: 8)

E na Surata Al-Mu’min está dito que, quando as pessoas estiverem sendo castigadas no Inferno, lhes será dito: este destino vos sobreveio porque, no mundo, estáveis entregues à falsidade e vos orgulháveis dela. (Versículo: 75)

7. A ideia de que as boas ações e a fidelidade à verdade destroem a vida mundana da pessoa

O Alcorão Sagrado também menciona essa ideia como uma das grandes causas da perdição. Na Surata Al-A‘raf, consta que, quando o profeta Shu‘ayb (que a paz esteja com ele) ordenou a seu povo que deixasse de dar peso inferior ao devido, saquear caravanas e praticar banditismo, os notáveis do povo disseram às pessoas:

(Árabe************)

– Se seguirdes Shu‘ayb, certamente sereis destruídos. (Versículo: 90) Era como se o sentido de suas palavras fosse: se formos honestos no comércio, será que os negócios continuarão? E, se vivemos no caminho das caravanas comerciais, como conservaríamos nossa prosperidade financeira se não praticássemos banditismo e, tornando as estradas perigosas, não cobrassemos pesados pedágios das caravanas? Era exatamente isso que os chefes coraixitas diziam ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele).

(Árabe**************)

– Se seguirmos contigo esta orientação, seremos arrancados de nossa terra num só golpe. (Al-Qasas: 75) Em outras palavras, toda a influência e o prestígio que temos sobre os árabes se devem ao fato de sermos aqui os líderes religiosos dos politeístas da Arábia. É por isso que nosso comércio é tão próspero. É por isso que nossas caravanas desfrutam de segurança em todas as estradas e regiões do país. E é por isso que todas as tribos da Arábia nos consideram com respeito. Se aceitarmos tuas palavras e adotarmos o caminho que apresentas, toda a Arábia se tornará nossa adversária. O prestígio que temos no país chegará ao fim, e nem sequer será possível permanecer em segurança em Meca.

8. A concepção politeísta da intercessão

Desde os tempos mais remotos, em todas as épocas, esta foi uma das principais causas do extravio; e, quando o convite islâmico teve início na Arábia, também teve de enfrentar esse extravio. As pessoas pensavam que havia alguns servos queridos de Allah cuja palavra jamais poderia ser contrariada. Se alguém se agarrasse firmemente à sua aba, os satisfizesse com oferendas, votos e atos de adoração, então poderia fazer no mundo o que quisesse. A sua intercessão o protegeria de todos os crimes e pecados. Existindo um meio tão fácil de obter a misericórdia de Allah e realizar os desejos do coração, quem teria necessidade de prender aos pés as correntes da taqwa e da piedade, privando-se do prazer de cada pecado e das oportunidades de toda injustiça e transgressão? Os incrédulos da Arábia diziam:

(Árabe**************)

— Nós só os adoramos para que eles nos aproximem de Allah. (Az-Zumar: 3) Ou seja, a corte de Allah está tão elevada que, que capacidade temos nós de chegar diretamente até ela? Por isso, fizemos desses homens veneráveis um meio para nos conduzirem até lá.

(Árabe**********)

Eles são os nossos intercessores junto de Allah. (Yunus: 18)

Enquanto esta crença equivocada existir, nenhum convite às boas ações e ao bem poderá ser bem-sucedido. Por isso, o Alcorão a atacou repetidamente e demonstrou, com argumentos tão sólidos, que ela não tem fundamento, que nenhuma pessoa dotada de bom senso poderia continuar apoiando uma intercessão tão tola.

Na surata Al-Mumin foi dito: Ó Profeta! Adverte essas pessoas sobre o dia que se aproxima, quando os corações chegarão às gargantas e elas permanecerão em silêncio, suportando a angústia. Não haverá nenhum amigo íntimo dos injustos, nem qualquer intercessor cuja palavra seja aceita. Allah conhece a traição dos olhos e também o que os peitos ocultam. Allah julgará com equidade e justiça. E aqueles a quem esses idólatras invocam, em vez de Allah, não decidirão absolutamente nada. Na verdade, Allah ouve e conhece todas as coisas. (Versículos: 18–20)

Estes versículos despedaçaram completamente a crença na concepção politeísta da intercessão. Em primeiro lugar, é contrário à razão e à justiça que se interceda em favor de um opressor. Além disso, é contrário à majestade divina de Deus que, entre os Seus servos, haja alguém cuja intercessão Ele seja obrigado a aceitar. Em outras palavras, Deus seria forçado a aceitar a sua intercessão. Mais importante ainda, é inconcebível que, perante Deus, seja aceita a intercessão de pessoas que se levantariam em defesa de criminosos que cometeram injustiças no mundo e desejariam que Deus perdoasse o opressor criminoso por consideração a elas. E há algo ainda mais importante: um juiz que conhece plenamente o crime de uma pessoa e deve decidir o seu caso com justiça concederia a alguém o direito de interceder em favor desse criminoso, embora nem sequer soubesse o que essa pessoa, o criminoso, teria feito?

Em outro lugar, a concepção de intercessão é refutada com argumentos contundentes. Foi dito que aqueles a quem essas pessoas invocam em vez de Deus não têm qualquer direito à intercessão. Exceto aquele que testemunha a verdade com base no conhecimento; esse é um caso diferente. (Az-Zukhruf: 86)

Isto é, a pessoa que acredita, acerca de alguma divindade ou de algum santo, que eles certamente têm o direito de interceder e possuem uma autoridade de intercessão que não pode ser rejeitada deve apresentar-se e prestar, com base no conhecimento, um testemunho verdadeiro sobre essa questão. É absolutamente sem sentido aceitar uma crença cuja veracidade não pode ser atestada com base no conhecimento, apoiando-se apenas em lendas ou em conjecturas. Em outras palavras, aqueles que afirmam que certas entidades possuem esse tipo de autoridade jamais podem dizer: “Sabemos que elas têm essa autoridade e estamos prestando um testemunho correto.”

Mas o Alcorão também não negou a intercessão. Pelo contrário, afirmou repetidamente que somente pode interceder aquele a quem Deus tenha concedido permissão, e que só se pode interceder em favor daquele cuja intercessão Deus esteja disposto a ouvir. A condição adicional é que essa pessoa interceda de acordo com a verdade e não diga nada contrário à verdade e à justiça. Ainda assim, aceitar ou não a intercessão permanece sob o poder de decisão de Deus. Ele jamais é obrigado a aceitar a intercessão de alguém. A explicação detalhada do Alcorão sobre este assunto é a seguinte:

(Árabe****************)

Quem poderia interceder perante Ele sem a Sua permissão? (Al-Bácara: 255)

(Árabe**************)

E, perante Ele, a intercessão de nada servirá, exceto em favor daquele a quem Ele tiver concedido permissão. (Sabá: 23)

(Árabe***************)

-No dia em que o Espírito (Hazrat Jibril (A)) e os anjos permanecerem enfileirados. Ninguém falará, exceto aquele a quem o Misericordioso tiver permitido, e ele dirá a verdade. (An-Naba: 38)

(Árabe*****************)

-Ó Profeta! Dize: toda a intercessão está sob a autoridade de Allah. A soberania dos céus e da terra pertence somente a Ele. (Az-Zumar: 44)

Isto é, ouvir ou não ouvir a intercessão, aceitá-la ou rejeitá-la, está inteiramente sob a autoridade de Allah. Ele é o Senhor da soberania de todo o universo. Ninguém tem poder para interceder sem a Sua permissão, e ninguém possui tal posição que Allah seja obrigado a ouvir e aceitar a sua intercessão.

Exemplos de boas e más condutas na história da humanidade

Todas as causas do desvio cuja descrição detalhada o Alcorão apresentou estavam presentes na sociedade dos coraixitas e dos árabes. Quando cada um deles ouvia isso, percebia que, na realidade, todas essas causas do desvio existiam entre eles. Depois, o Alcorão Sagrado apresenta, a partir da história humana, exemplos individuais de caráter e conduta elevados, bem como exemplos de conduta desprezível, para que as pessoas compreendam claramente que tipo de seres humanos o Islã deseja formar e que tipo de pessoas ele desaprova, cuja reforma deveria ser realizada, ou cuja presença a sociedade deveria eliminar, ou que, por fim, Allah Todo-Poderoso destruiu neste mundo, transformando-as em objetos de Sua ira. Examinemos esta exposição do Alcorão em sequência e na ordem cronológica dos acontecimentos históricos.

O relato dos dois filhos de Adão (A)

O primeiro acontecimento instrutivo encontrado na história da humanidade é o episódio dos dois filhos de Hazrat Adão (a.s.). Nele podem ser observados dois tipos de comportamento, em oposição um ao outro. Os dois irmãos oferecem sacrifícios: o sacrifício de um é aceito, enquanto o do outro não é. Então o segundo, enfurecido pela inveja, diz ao próprio irmão: “Eu te matarei.” Seu irmão responde: “Allah aceita os sacrifícios dos tementes a Deus.” (Isto é, não sou culpado pelo fato de teu sacrifício não ter sido aceito. Esforça-te para corrigir as falhas de teu caráter e de tuas ações, pelas quais teu sacrifício não foi aceito.) “Mas, se estás decidido a matar-me, eu não te matarei, pois temo Allah, o Senhor dos mundos. Em vez de lutar contigo e tornar-me cúmplice do pecado do homicídio injusto, darei preferência a que carregues sozinho tanto o meu pecado quanto o teu, reunindo-os sobre ti mesmo.”

Por fim, aquele irmão injusto matou o próprio irmão. Depois, arrependeu-se profundamente.

Depois de narrar esse acontecimento, num ambiente em que a vida humana não tinha valor algum e em que os homicídios e a violência eram ocorrências diárias, o Alcorão transmite aos seres humanos uma mensagem grandiosa. O Alcorão diz: quem matar alguém por qualquer razão que não seja em retaliação por um homicídio ou por causar corrupção na terra será como aquele que matou toda a humanidade; e quem salvar uma única vida será como aquele que deu vida a toda a humanidade. (Alcorão, Al-Ma’idah: 27–32; ver.)

Hazrat Noé (a.s.) e seu povo

O primeiro povo da história a desencadear sobre o mundo uma tempestade de rebeldia contra Deus foi o povo de Hazrat Noé (a.s.). Em vários lugares, o Alcorão narra a história desse povo: por um lado, descreve o comportamento do povo e de seus líderes, pelo qual todos acabaram sofrendo punição; por outro, apresenta o exemplo luminoso do comportamento do próprio Hazrat Noé (a.s.). Na Sura Al-Ankabut, afirma-se que, diante da oposição extrema, ele continuou tentando reformar aquele povo durante novecentos e cinquenta anos, com extraordinária paciência e tolerância (versículo 14). Por todos os meios possíveis e com grande compaixão, não deixou de orientar as pessoas para o caminho correto. Mas os líderes do povo não permitiram que nenhum de seus esforços tivesse êxito. (Toda a Sura Noé.) Chamaram-no de louco e o repreenderam e censuraram. (Al-Qamar: 9.) Humilharam e desonraram a ele e a seus pobres seguidores. (Hud: 27.) Ameaçaram-no, dizendo que, se não desistisse, seria morto a pedradas. (Ash-Shu’ara: 116.) Mas ele declarou com voz firme: “Se minha existência e minha admoestação vos são insuportáveis, então fazei contra mim tudo o que quiserdes e não me deis trégua alguma. Minha confiança está em Allah.” (Yunus: 71.)

Depois, quando o conflito atingiu seu ponto máximo, seu povo disse: “Traz-nos o dilúvio com que nos ameaças.” De fato, Hazrat Noé (a.s.) começou a construir a arca diante dos olhos deles, para que ele e os crentes que o acompanhavam pudessem nela embarcar e salvar-se do dilúvio que se aproximava. Mas seu povo começou a zombar e escarnecer ao vê-lo construir a arca. Diziam: “A loucura do velho finalmente o levou a preparar-se para navegar com um navio em terra firme.” Eles não sabiam que, muito em breve, aquela terra firme se transformaria num mar, cuja onda seria como uma montanha. Nele, todo o povo, inclusive o filho de Noé (a.s.), se afogaria e morreria; e a arca, que estava sobre a terra, acabaria encalhando numa montanha. (Hud: 32–44.)

A etapa final dessa história é apresentada da seguinte forma: quando Hazrat Noé (a.s.) viu seu filho afogar-se juntamente com os incrédulos, dominado pelo afeto e pelo amor paternal humanos, suplicou a Allah que o salvasse. Allah o repreendeu, dizendo: “Não sejas ignorante. Ele é, de fato, teu filho, mas não pertence à tua família; pelo contrário, suas ações não são virtuosas.” Assim que ouviu a resposta à sua súplica, Hazrat Noé (a.s.) implorou perdão e disse: “Ó meu Senhor! Busco refúgio em Ti contra pedir-Te aquilo de que não tenho conhecimento. Se não me perdoares, estarei entre os perdidos.” (Hud: 44–47.)

O povo de Ad e Hazrat Hud (a.s.)

Ad era um povo famoso da Arábia, conhecido até pelas crianças árabes. As pessoas também sabiam que esse povo havia sido destruído pelo castigo de Deus. Sobre ele, o Alcorão esclarece quais vícios de caráter possuía, além do politeísmo e da idolatria. Na Sura Fussilat, afirma-se que se entregavam à arrogância sobre a terra sem qualquer direito e diziam: “Quem é mais poderoso do que nós?” (versículo 15.) Na Sura Al-Fajr, afirma-se que se rebelaram contra Deus na terra e nela espalharam muita corrupção. (Versículos 6–12; ver.) Na Sura Ash-Shu’ara, Hazrat Hud (a.s.) lhes diz: “Que comportamento é esse? Em cada lugar elevado construís um monumento grandioso e ergueis enormes palácios, como se fôsseis viver para sempre. E, quando castigais alguém, fazeis isso como tiranos.” (Versículos 128–130.) Eles obedeciam às ordens de todo tirano e inimigo da verdade. (Hud: 59.) Por mais que Hazrat Hud (a.s.) tentasse fazê-los compreender, eles respondiam a tudo com transgressão, hostilidade e artimanhas de oposição. Por fim, tal como Hazrat Noé (a.s.), ele também teve de dizer ao seu povo: “Fazei contra mim, todos juntos, tudo o que puderdes, e não me deis trégua alguma. Minha confiança está em Allah, que é meu Senhor e vosso Senhor. Não há criatura alguma cuja cabeça não esteja sob Seu poder.” (Hud: 55–56.)

Por fim, disseram ao profeta: “Se és sincero, então traz-nos o castigo com que nos ameaças.” Quando aquele castigo começou a aproximar-se pela frente, esses insensatos imaginaram que era uma nuvem que iria irrigar seu vale. Mas era uma tempestade destruidora, que arrasou todas as coisas. (Al-Ahqaf: 22–25.)

Tamud e Hazrat Salih (a.s.)

Depois de Ad, entre os povos antigos da Arábia, os Thamud eram um povo muito famoso. Seus vestígios em ruínas estão espalhados por todo o norte do Hijaz e ainda podem ser vistos. As caravanas comerciais dos coraixitas passavam por esses lugares em direção ao Sham (Síria). Também era do conhecimento de todos que um terremoto terrível destruiu aquele povo, fazendo com que as montanhas daquela região continuassem desmoronando até os dias de hoje. O Alcorão afirma que, ao se rebelar contra Deus, esse povo não se limitou a cometer shirk e adorar ídolos; pelo contrário, desencadeou na terra de Deus uma onda de rebelião e corrupção. (Al-Fajr: 6–12; Al-A’raf: 74.) Os líderes e chefes daquela sociedade eram transgressores e promotores da corrupção, por meio dos quais nenhuma obra de reforma ou correção podia ser realizada. (Ash-Shu’ara: 151–152.) Para desfrutar do luxo e demonstrar sua própria posição, construíam palácios em lugares abertos e escavavam as montanhas para erguer grandes mansões. (Al-A’raf: 74; Ash-Shu’ara: 149.) Uma característica daquela sociedade decadente era que, de um lado, os pobres não encontravam sequer um lugar onde abrigar a cabeça, enquanto, de outro, a classe rica construía palácios suntuosos. Para esses ricos, Hazrat Salih (que a paz esteja com ele) não era digno de que se acreditasse nele, pois pessoas pobres haviam crido nele. (Al-A’raf: 75–76.) Quando Hazrat Salih (que a paz esteja com ele) os convocou à adoração de Deus e lhes ordenou que se abstivessem da opressão, da corrupção e do luxo, nove grandes coalizões tribais promotoras da corrupção consultaram-se entre si e disseram: “Jurem por Deus e decidam que atacaremos Salih e sua família de surpresa durante a noite. Depois diremos ao wali de Salih, isto é, ao chefe de sua tribo, que não estávamos presentes quando sua família foi morta e que estamos dizendo a pura verdade.” (An-Naml: 48–49.) Allah Todo-Poderoso frustrou sua conspiração. Eles exigiram de Hazrat Salih (que a paz esteja com ele) um milagre. Em resposta à exigência deles, Allah Todo-Poderoso fez surgir diante deles uma camela. Sua própria existência já era um milagre. Então, por meio de Hazrat Salih (que a paz esteja com ele), foram advertidos de que essa camela pastaria onde quisesse, nos campos e plantações deles. Em um dia, somente ela beberia água; no dia seguinte, todos vocês e seus animais beberiam. Se a tocassem com más intenções, o castigo cairia sobre vocês. (Ver Al-A’raf: 73; Hud: 64; Ash-Shu’ara: 155.)

Durante algum tempo, eles continuaram a tratar aquela camela com temor. Por fim, embora soubessem que ela era um milagre, chamaram o mais corajoso de seus chefes e disseram: “Livra-nos deste problema.” Ele assumiu a responsabilidade pela tarefa e matou-a. Depois de demonstrarem tal insolência, desafiaram Hazrat Salih (que a paz esteja com ele), dizendo: “Faz vir sobre nós o castigo com que nos ameaças.” (Al-A’raf: 77.) Hazrat Salih (que a paz esteja com ele) disse: “Está bem; desfrutem e alegrem-se em suas casas durante três dias.” Depois veio um terremoto terrível, acompanhado de um estrondo como de um trovão, que destruiu todo o povo, exceto Hazrat Salih (que a paz esteja com ele) e os crentes; suas casas transformaram-se em ruínas, como se jamais tivessem sido habitadas. (Al-A’raf: 78; Hud: 65; Al-Qamar: 31.)

Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele)

O caráter e a conduta mais exemplares apresentados no Alcorão são os de Hazrat Ibrahim, que a paz esteja com ele. Os árabes o reconheciam como líder de sua religião. Foi por estarem ligados a ele que se estabeleceram as bases de toda a glória, orgulho, honra, dignidade, influência e prestígio dos coraixitas. O Alcorão lhes diz que beleza e distinção havia nele para que Allah, Senhor dos mundos, considerasse aquele servo Seu khalil (amigo). (An-Nisa: 125.) Allah disse: “Farei de ti um líder para todas as nações.” (Al-Baqarah: 124.) Quando se tornou evidente para ele a verdade de que não há senhor nem divindade além de Allah, e que seu pai e todo o seu povo estavam desviados, abandonou a imitação cega de seus antepassados. Não demorou um só instante para abandonar a religião de seu povo e voltar-se inteiramente à obediência do Criador da terra e dos céus. Não permaneceu apenas como um adorador sincero de Deus em sua própria esfera; pelo contrário, declarou publicamente a seus antepassados e ao seu povo: “Estou profundamente desgostoso com esta religião vossa, repleta de shirk, e considero que estais em evidente desvio.” (Al-An’am: 74–81.) Disse claramente a seu pai: “Ao adorares, sem discernimento nem autoridade, divindades cegas e surdas, na realidade estás adorando Satanás.” Seu pai o repreendeu severamente e expulsou-o de casa. (Maryam: 43–46.) Depois de tentar fazê-los compreender por meio de argumentos, quando eles não aceitaram, entrou oportunamente em seu templo e quebrou seus ídolos, mostrando-lhes na prática que aqueles a quem adoravam eram incapazes não apenas de adorar, mas até mesmo de se proteger. (Al-Anbiya: 53–67; As-Saffat: 85–96.) Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) foi levado diante do rei do país, que reivindicava ser um senhor. Sem medo, disse: “Não reconheço ninguém como senhor, exceto Aquele em cujas mãos estão minha vida e minha morte.” Ele respondeu: “A vida e a morte também estão em minhas mãos.” Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) disse: “Allah faz o sol nascer no leste; faze-o nascer no oeste.” Com essas palavras, deixou o rei arrogante sem resposta. (Al-Baqarah: 258.)

Prepararam para ele uma enorme fogueira. Decidiu-se que Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) seria lançado nela e queimado vivo. Ainda assim, ele se preparou para não curvar a cabeça diante da falsidade e para morrer consumido pelo fogo em defesa da verdade. Foi pela graça e benevolência de Allah Todo-Poderoso que Ele tornou o fogo frio e inofensivo para ele. Mas ele próprio não deixou de demonstrar que podia aceitar ser lançado ao fogo, porém não podia abandonar a verdade e aceitar adorar a falsidade. (Al-Anbiya: 68–70; As-Saffat: 97–98.)

Por fim, quando se deparou com a questão de abandonar a religião ou deixar sua terra, não abandonou a religião; pelo contrário, abandonou para sempre sua casa, sua família, seu povo e sua terra e partiu confiando em Deus. Sabia quão arriscado era deixar o próprio país e tornar-se estrangeiro; especialmente naquela época, conhecia bem o perigo de sair da proteção de seu povo e partir para uma região desconhecida. Ainda assim, disse com o coração resoluto: “(Árabe***********)Estou indo para o meu Senhor; certamente Ele me guiará.” (As-Saffat: 99.)

Na velhice, depois de muitas súplicas e rogos, nasceu-lhe um filho. Então seu Senhor o submeteu a mais uma difícil prova de fogo. Indicou-lhe: “Deixa este filho ainda de peito, junto com sua mãe, naquele lugar deserto e desolado de Meca, onde desejo construir Minha Casa.” Ele também se preparou para cumprir essa ordem e, levando sua esposa e seu filho desde seu lar na Palestina por centenas de quilômetros, deixou-os ali, confiando inteiramente em Deus. (Al-Hajj: 26; Ibrahim: 37.) Depois, teve de enfrentar uma prova de fogo ainda mais difícil. Quando aquele filho cresceu e atingiu a idade em que já podia correr ao lado do pai, veio a indicação de que deveria sacrificá-lo por Deus. Ele também se preparou para cumprir essa ordem. Quando estava prestes a passar a faca pela garganta do filho, Allah Todo-Poderoso aceitou seu sacrifício e enviou um grande sacrifício para servir-lhe de resgate. (As-Saffat: 100–107.)

Ele não estava disposto a mostrar favoritismo a ninguém quando se tratava de Deus e de Sua religião. Ao abandonar sua terra natal, disse claramente ao seu povo: “Para sempre surgiu inimizade e separação entre nós e vocês, até que creiam no Deus Único” (Al-Mumtahanah: 4). Ele prometeu orar pelo perdão de seu pai e também orou. Porém, quando percebeu que seu pai era inimigo de Allah, rompeu igualmente o vínculo de amor com ele (At-Tawbah: 114). Esse era o caráter e esse era o comportamento que o chamado islâmico apresentava às pessoas como modelo.

Hazrat Lut (que a paz esteja com ele) e o povo de Lut

Hazrat Lut (que a paz esteja com ele) era sobrinho de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e migrou com ele em direção à Palestina. Perto do lugar que ele havia escolhido para sua moradia vivia um povo extremamente perverso; em termos de maldade e depravação, não havia outro igual no mundo. Allah, o Altíssimo, confiou-lhe a difícil missão de reformá-los e, fazendo dele um profeta, enviou-o à região deles. A situação daquele povo era tal que as relações sexuais entre homens eram algo comum. Eles não as praticavam em segredo; pelo contrário, faziam-no abertamente, uns diante dos outros e em reuniões públicas. Além disso, praticavam assaltos. Nenhuma pessoa ou caravana conseguia atravessar aquela região em segurança (An-Naml; Al-Ankabut: 29).

Durante muitos anos, Hazrat Lut (que a paz esteja com ele) advertiu-os a temer a Deus e exortou-os a abandonar aquelas más ações. A resposta deles foi: “Ó Lut! Se não parares de dizer essas coisas, expulsar-te-emos daqui” (Ash-Shu’ara: 167). Hazrat Lut não deu importância a essas ameaças e continuou pregando. Então, após consultarem-se mutuamente, decidiram expulsar a família de Lut de sua cidade, dizendo que eles se apresentavam como pessoas muito puras e inocentes (Al-A’raf: 82; Al-Ankabut: 56). Por fim, Allah, o Altíssimo, decidiu castigá-los e adotou um método extraordinário para executar esse castigo. Enviou alguns anjos à casa de Hazrat Lut, na forma de jovens formosos, como hóspedes. Assim que chegaram, uma onda de alegria e entusiasmo percorreu toda a cidade. As pessoas correram em grupos para a casa de Hazrat Lut (que a paz esteja com ele), com a intenção de cometer atos perversos com aqueles jovens. Hazrat Lut (que a paz esteja com ele) suplicou repetidamente: “Não me desonrem por causa dos meus hóspedes.” Eles não deram atenção às suas palavras; pelo contrário, repreenderam-no, dizendo: “Não te proibimos repetidamente de te tornares motivo de vergonha para todo o mundo?” (Al-Hijr: 70).

Então os anjos disseram a Hazrat Lut (que a paz esteja com ele): “Somos anjos enviados por Deus e fomos enviados para fazer descer o castigo sobre este povo. Antes do amanhecer, deves sair daqui com os membros da tua família.” As pessoas que haviam avançado contra a casa de Hazrat Lut foram cegadas. Sua cidade foi virada de cabeça para baixo, e pedras foram lançadas sobre eles de tal modo que cada uma estava marcada, indicando qual pedra destruiria qual pessoa (Hud: 82–83). Era um povo tão miserável que, em toda aquela região, não se encontrava a casa de nenhum crente além da casa de Lut (que a paz esteja com ele) (Adh-Dhariyat: 36). E mesmo naquela única casa, a própria esposa de Lut (que a paz esteja com ele) era incrédula; a respeito dela, ele recebeu a ordem de não levá-la consigo, pois ela também deveria sofrer o castigo (Hud: 81). O Alcorão narrou essa história em vários lugares para mostrar às pessoas como é um povo sem caráter, qual é o seu destino e em que condições trabalharam os profetas de Allah.

A história de Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele)

Em seguida, historicamente, chega a vez da história de Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele), sobre a qual foi revelada uma surata completa do Alcorão, apresentando o caráter bom e o mau um diante do outro. De um lado, é mostrado o caráter dos irmãos de Yusuf (que a paz esteja com ele): simplesmente porque seu honrado pai, Hazrat Yaqub (que a paz esteja com ele), amava mais seu filho mais novo, Yusuf (que a paz esteja com ele), eles decidiram, após deliberarem, matá-lo ou lançá-lo em algum lugar e depois tornar-se pessoas honestas. Então enganaram o pai, levaram o irmão para fora sob o pretexto de uma viagem e de diversão e o lançaram em um poço seco. Depois, mancharam sua camisa com sangue falso, levaram-na de volta e disseram ao pai que um lobo o havia apanhado e devorado.

O comportamento dos homens daquela caravana de comerciantes foi tal que encontraram Hazrat Yusuf (que a paz esteja com ele) no poço seco, transformaram o menino oprimido em mercadoria e foram vendê-lo no Egito.

Vejam o caráter da esposa do Aziz do Egito, cujo marido havia comprado Hazrat Yusuf (A.S.) e em cuja casa ele foi criado até chegar à juventude. Sua falta de pudor era tal que ela convidou Hazrat Yusuf (A.S.) para o pecado. Ele fugiu, recusando-se, e ela correu atrás dele. Nesse momento, seu marido chegou. Então ela lançou contra ele a falsa acusação de que ele havia tentado desonrá-la. Quando sua mentira foi comprovada e as mulheres da alta sociedade começaram a falar sobre seu amor por ele, ela as convidou e reuniu, trazendo Hazrat Yusuf (A.S.) diante delas para dizer: “Se não me apaixonei por um jovem tão belo, então por quem me apaixonei?” Depois, disse diante de todas as presentes: “Se ele não consentir em manter uma relação ilícita comigo, mandá-lo-ei para uma das prisões.”

O comportamento das mulheres da alta sociedade do Egito foi tal que, ao verem a beleza de Hazrat Yusuf (A.S.) naquela reunião, cortaram as próprias mãos. Elas também se apaixonaram por ele e começaram a tentar atraí-lo para si.

Vejam o comportamento dos juízes do Egito, que fizeram Hazrat Yusuf (A.S.) pagar pelo declínio moral das próprias mulheres e, embora inocente, o enviaram à prisão por vários anos.

Por outro lado, exemplos da pureza moral do caráter de Hazrat Yusuf (A.S.) vêm sendo apresentados um após o outro. Ele suportou a prisão, mas não suportou macular-se com o pecado. Mesmo assim, não surgiu nele qualquer orgulho por sua taqwa. Com extrema humildade, suplicou a Allah Ta’ala: “Ó meu Senhor e Sustentador! A prisão é mais amada por mim do que aquilo para o qual essas pessoas me convidam. Se não me protegeres das armadilhas preparadas por essas mulheres, inclinarei-me para elas e me tornarei um dos ignorantes.”

Mesmo na prisão, ele procurava orientar os servos de Allah pelo aconselhamento e pela exortação, mostrando-lhes o caminho reto, e não deixava escapar nenhuma oportunidade de transmitir a verdade. Um único episódio é narrado na Surata Yusuf, dos versículos 36 a 40, pelo qual se sabe como, durante sua longa permanência na prisão, ele continuou cumprindo a responsabilidade da da‘wah para Allah.

Depois, quando interpretou um sonho relacionado ao reino do Egito, o rei, impressionado, expressou o desejo de libertá-lo e recebê-lo em audiência. Mas ele recusou-se a sair da prisão até que a esposa do Aziz do Egito e as outras mulheres que a acompanhavam testemunhassem sua pureza de caráter e confessassem a própria culpa.

Então chegou o momento em que ele se tornou governante do Egito. Nessa época, seus irmãos, que o haviam lançado num poço seco, começaram a ir repetidamente até ele para pedir cereais. E ele continuou lhes dando os grãos. Mas jamais lhe ocorreu pensar em vingar-se da opressão que haviam cometido contra ele. No início, eles nem sequer sabiam quem era o governante do Egito de quem recebiam os cereais. Somente Hazrat Yusuf (A.S.) os reconheceu. Mas, quando vieram pela terceira vez, Yusuf (A.S.) lhes disse: “Eu sou o irmão de vocês, contra quem cometeram a injustiça que conhecem.” Então confessaram o próprio crime. A resposta de Yusuf foi:

(Árabe*****************)

—Hoje não sereis responsabilizados pelos vossos crimes. Que Allah vos perdoe; Ele é o mais misericordioso dos misericordiosos. Depois, ele não apenas mandou buscar no Egito seu honrado pai, Hazrat Yaqub (a.s.), mas também chamou seus irmãos com suas famílias e os reinstalou com todas as honras.

Na Surata Yusuf, a culminância da grandeza do caráter desse nobre homem é mostrada no fato de que ele não manifestou qualquer orgulho ou arrogância por causa de sua elevada posição. Pelo contrário, ele se dirige a Allah, curvando humildemente a cabeça em servidão, e suplica:

—Ó meu Senhor! Tu me concedeste autoridade no Estado e me ensinaste a compreender profundamente todas as coisas. Ó Criador dos céus e da terra! Tu és meu Protetor e Amigo nesta vida e na Outra. Faze-me morrer como muçulmano e reúne-me aos virtuosos. (Yusuf: 101)

Hazrat Shu‘ayb (a.s.), o povo de Madian e o povo de Aykah

O Sagrado Alcorão também narra a história do povo de Madian e dos companheiros de Aykah, que habitavam a região setentrional do Hijaz. Sobre eles é dito que, além de adorarem outros juntamente com Allah, seus defeitos morais incluíam dar menos na medida, praticar assaltos e espalhar conflitos e desordem. Allah enviou Hazrat Shu‘ayb (a.s.) como profeta ao povo de Madian. A responsabilidade de reformar o povo de Aykah também foi confiada a ele. Durante muitos anos, ele os exortou, advertindo-os do temor de Allah e aconselhando-os a abandonar aqueles atos perversos. Porém, pouquíssimos creram nele, enquanto os demais permaneceram firmes em sua conduta. Os chefes de Madian disseram a Hazrat Shu‘ayb: “A tua oração ordena-te que abandonemos os deuses de nossos antepassados ou que deixemos de fazer com nossas riquezas o que quisermos?” (Hud: 87) Em outras palavras, sua insistência era que deveriam adorar outros além de Allah porque seus antepassados os haviam adorado. Insistiam também em ter liberdade para obter riquezas conforme sua própria vontade, fosse por meio de pilhagem, de desonestidade no comércio ou de opressão dos fracos. Diziam ao seu povo: “Se seguirdes Shu‘ayb, certamente perecereis.” (Al-A‘raf: 9) Na visão deles, o progresso e o desenvolvimento da nação dependiam de adquirir riquezas por todos os meios ilícitos. Adotar meios legítimos significava, para eles, que a nação seria destruída. Eles ameaçaram Hazrat Shu‘ayb (a.s.), dizendo: “Expulsaremos-te, assim como os que creram contigo.” (Al-A‘raf: 88) Também disseram: “Consideramos-te um homem fraco entre nós. Se não fosse pela tua tribo, certamente te apedrejaríamos. Não tens força suficiente para prevalecer sobre nós.” (Hud: 91) Em resposta, Hazrat Shu‘ayb (a.s.) os envergonhou, dizendo: “Minha tribo é mais poderosa contra vós do que Allah? E vós O deixastes para trás.” (Hud: 92)

Os companheiros de Aykah também trataram Hazrat Shu‘ayb dessa maneira. Não aceitaram nenhum de seus conselhos e responderam: “Se és veraz, faze cair sobre nós um fragmento do céu.” (Ash-Shu‘ara: 87)

Por fim, ambos os povos foram submetidos ao castigo de Allah e destruídos. Durante suas viagens comerciais à Síria, os coraixitas passavam por aquelas regiões onde esses dois povos haviam sido atingidos pelo castigo. Por isso, não podiam deixar de ser profundamente impressionados por essa narrativa do Alcorão.

A história do Faraó e de Hazrat Musa (a.s.)

Era conhecido em todo o mundo o terrível acontecimento histórico de que o Faraó e seus exércitos foram vítimas do castigo de Deus e afundaram nas profundezas do mar. Numerosos judeus e cristãos viviam na Arábia, por meio dos quais todos os árabes sabiam que Moisés, que a paz esteja com ele, havia sido enviado a eles como profeta e que, ao apresentar milagres extraordinários, os convidara à verdade. No entanto, mesmo depois de presenciarem os milagres, eles não creram. Os próprios coraixitas também estavam informados sobre esses milagres de Moisés, que a paz esteja com ele. Na realidade, uma das acusações que faziam contra o Profeta, que a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele, era também esta:

(Árabe***************)

—Por que não foram dados a este profeta os mesmos milagres que foram dados a Moisés, que a paz esteja com ele? (Al-Qasas: 48)

Com base nisso, o Alcorão narra detalhadamente, em diversos lugares, a história de Moisés, que a paz esteja com ele, e do Faraó. Nela, os comportamentos bons e maus são apresentados claramente às pessoas, juntamente com suas características.

Os crimes do Faraó foram identificados um a um. Ele demonstrou uma terrível arrogância na terra, dividiu o povo em dois grupos, humilhava e desonrava intensamente um deles, matava seus filhos homens e deixava vivas as filhas. Na realidade, ele estava entre os corruptores. (Al-Qasas: 4) Em outras palavras, a norma de seu governo não era que todos os cidadãos do país fossem iguais perante a lei e recebessem direitos iguais. Pelo contrário, ele adotara uma política que permitia dividir os habitantes do país em diferentes grupos. Alguns, aos quais eram concedidos privilégios e benefícios, eram considerados o grupo governante; outros eram considerados governados e eram subjugados e oprimidos. Entre estes últimos, os filhos de Israel eram especialmente submetidos à mais extrema perseguição e opressão. Ele matava seus filhos homens e deixava vivas as filhas, para que sua descendência fosse gradualmente extinta e para que, depois de as mulheres passarem ao domínio dos egípcios, nascesse uma linhagem egípcia. Por isso, quando Moisés, que a paz esteja com ele, nasceu em uma família israelita, Deus Todo-Poderoso inspirou sua mãe a colocá-lo em uma cesta e lançá-lo ao rio quando temesse que seu filho fosse morto. (Al-Qasas: 7)

O retrato completo da maneira como o Faraó tratava sua própria nação egípcia foi condensado em uma única frase da surata Az-Zukhruf.

—Ele considerava sua própria nação desprezível e insignificante, e eles lhe obedeciam. Na realidade, eram pessoas perversas. (Az-Zukhruf: 54)

Assim, ficam evidentes tanto a política do Faraó quanto o estado de decadência moral de sua nação.

Quando alguém tenta exercer um governo tirânico em um país e, para isso, emprega todos os tipos de artifícios, pratica toda espécie de fraude e engano, negocia a consciência no mercado aberto e oprime cruelmente aqueles que não se deixam comprar, então, diga-o ou não em palavras, revela por meio de suas ações que, na realidade, considera os habitantes desse país insignificantes em termos de consciência, caráter e coragem. Ele passa a acreditar que pode conduzir esses tolos, covardes e desprovidos de consciência para onde quiser. Depois, quando seus métodos se estabelecem com êxito no país e seus habitantes permanecem escravizados, com as mãos submissamente juntas, ele prova por seus atos que eles são exatamente como os havia imaginado. A verdadeira razão pela qual caem nesse estado desonroso é que, em sua essência, são transgressores. Não se importam com o que é a verdade e com o que é a falsidade; com o que é a justiça e com o que é a opressão; nem com o que merece honra: a veracidade, a lealdade e a nobreza, ou a mentira, a desonestidade e a baixeza. Em vez de tudo isso, o que realmente importa para eles é apenas o interesse pessoal, pelo qual se dispõem a apoiar todo opressor, curvar a cabeça diante de todo poderoso, aceitar toda mentira e silenciar toda voz da verdade.

Quando o Profeta Moisés, acompanhado de seu irmão, o Profeta Aarão, chegou à corte do Faraó como mensageiro de Allah, e apresentou, um após outro, milagres tão claros que nem mesmo a pessoa mais tola poderia imaginar que se tratava de um truque de magia, ele continuou a chamá-los de magia apenas por causa de seu orgulho e arrogância. Seus cortesãos continuaram a repetir servilmente o que ele dizia. Quanto à transformação do bastão em uma serpente monstruosa, seus habilidosos mágicos convidados reconheceram que aquilo não era fruto de sua perícia, mas um milagre de Allah.

Restam os outros milagres: conforme o anúncio prévio do Profeta Moisés, todo o Egito foi atingido pela fome, que depois foi afastada graças à sua súplica; após seu anúncio, uma terrível tempestade de chuva assolou todo o país e, novamente por sua súplica, cessou; depois de seu anúncio, houve uma terrível invasão de gafanhotos, que também foi afastada por sua súplica. Do mesmo modo, conforme seu anúncio, piolhos, pequenos insetos, rãs e o castigo do sangue espalharam-se sucessivamente por todo o país e foram afastados apenas por sua súplica. Isso não deixava qualquer dúvida de que não se tratava da magia de um mágico, pois nenhum mágico jamais foi capaz, nem poderia ser capaz, de realizar tais coisas. Esses milagres revelavam que eram manifestações extraordinárias do poder de Allah, o Senhor dos mundos. Por isso, após cada castigo, o Faraó e seus cortesãos diziam ao Profeta Moisés: “Suplique ao seu Senhor, com base na posição que você ocupa diante d’Ele, para que este castigo seja afastado de nós. Então aceitaremos sua palavra.” Mas, depois que a aflição passava, eles quebravam sua promessa. (Al-A‘raf: 134–135; Az-Zukhruf: 49–50)

O Alcorão afirma claramente que, em seu íntimo, eles acreditavam que o Profeta Moisés estava sobre a verdade. Ainda assim, por causa da injustiça e da arrogância, continuavam a negar. (An-Naml: 14) Essa verdade tornou-se completamente evidente quando o Faraó começou a afundar com suas tropas e gritou: “Reconheço que não há divindade além d’Aquele em quem os filhos de Israel creem, e sou um dos muçulmanos.” (Yunus: 90)

Assim, mesmo depois de conhecer a verdade, ele, juntamente com seus cortesãos, tornou-se adorador da falsidade e cometeu injustiça e arrogância em excesso. Seus cortesãos lhe disseram: “Senhor! Permitirá que Moisés e seu povo continuem assim, para espalhar a corrupção no país e abandonar a adoração de você e de suas divindades?”

Ele respondeu: “Não. Ordeno agora mesmo que sejam mortos os filhos homens deles e que as filhas sejam deixadas vivas.” (Al-A‘raf: 127)

Na realidade, foi renovada a ordem que havia sido emitida antes do nascimento do Profeta Moisés. Depois, foi emitida uma nova ordem: que também fossem mortos os filhos homens daqueles que haviam acreditado em Moisés, enquanto as filhas deveriam ser deixadas vivas. (Al-Mu’min: 25)

Ele disse ao Profeta Moisés: “Se aceitares outra divindade além de mim, certamente te lançarei na prisão.” (Ash-Shu‘ara: 29) Em sua corte lotada, declarou: “Ó chefes! Não conheço outra divindade para vós além de mim.” (Al-Qasas: 38) E disse destemidamente: “Sou o vosso senhor supremo.” (An-Nazi‘at: 24) Com extrema insolência, disse ao seu ministro Haman: “Constrói para mim uma torre elevada; subirei até ela para ver onde está o deus de Moisés.” (Al-Qasas: 38; Al-Mu’min: 36–37) Certa vez, chegou a decidir matar Moisés e disse aos cortesãos: “Deixai-me; matarei Moisés. Depois, que ele invoque o seu deus.” (Al-Mu’min: 26)

Um tipo de comportamento é o que se pode observar nestas histórias em Faraó, nos seus cortesãos e no seu povo. Outro comportamento instrutivo é o dos magos do Egito, que haviam se reunido de diversas partes do país para enfrentar o Profeta Moisés (A.S.), em apoio à sua própria religião. Eles disseram a Faraó: “Se vencermos, receberemos alguma recompensa?”

Faraó respondeu: “Não apenas uma recompensa; ao contrário, sereis incluídos entre os que desfrutam da minha proximidade.”

Mas quando aqueles mesmos magos viram que os seus sortilégios haviam sido derrotados pelo milagre de Moisés (A.S.), compreenderam que ali não havia magia, mas sim o poder divino. Então caíram em prostração e exclamaram: “Cremos no Senhor dos mundos, o Senhor de Moisés (A.S.) e de Aarão (A.S.).”

De repente, ocorreu entre eles uma transformação tão grandiosa que, mesmo depois de Faraó os ameaçar cortar-lhes as mãos e os pés e crucificá-los, eles não se importaram com nada disso. Disseram-lhe claramente: “Faz o que tiveres de fazer. Não nos afastaremos da verdade evidente que reconhecemos por tua causa, nem do nosso Criador.” (Al-A‘raf: 113–126; Ta-Ha: 70–73; Ash-Shu‘ara: 41–51; ver.)

Outro comportamento foi o de um dos cortesãos de Faraó. Ele havia crido de coração, mas mantinha a sua fé em segredo. Porém, quando Faraó decidiu matar Moisés (A.S.), ele se levantou diante de toda a corte e disse: “Matareis um homem apenas porque diz: ‘Meu Senhor é Deus’?”

Em seguida, proferiu um longo e vigoroso discurso, citado consecutivamente nos versículos 28 a 44 da Surata Al-Mu’min. Em seu discurso, advertiu abertamente Faraó, os altos funcionários e membros do seu governo, bem como o povo, sobre o castigo de Deus. Exortou todos a seguir o caminho correto. Não se importou com as consequências que teria de sofrer por dizer essa verdade.

O comportamento mais extraordinário desta história é o de Moisés (A.S.). Ele pertencia a um povo que levava uma vida extremamente humilhante. Não possuíam sequer a coragem moral de lamentar um pouco o assassinato dos seus filhos. O próprio Moisés (A.S.) era acusado de ter matado um egípcio, e havia contra ele uma ordem de prisão. Deixou o país e buscou refúgio em Madian durante vários anos. Nessas circunstâncias, Deus Todo-Poderoso fez dele um profeta e ordenou-lhe que enfrentasse um governante tirânico como Faraó, munido, como sinais miraculosos, de um cajado e da mão luminosa. Confiando em Deus, chegou à corte de Faraó sem qualquer força militar. Não se amedrontou com as suas ameaças. Não se curvou diante da sua opressão e tirania. Continuou enfrentando situações extremamente difíceis durante muitos anos. Quando Faraó anunciou publicamente que o mataria, ele calou-o dizendo estas palavras—

(Árabe**************)

—Busco refúgio no meu e no vosso Senhor contra todo arrogante prepotente que não crê no Dia do Juízo. (Al-Mu’min: 27)

Outros exemplos históricos

Assim, ao apresentar no Alcorão muitos outros exemplos históricos, tornou-se claro que tipo de comportamento e caráter o Islã aprecia e que tipo de pessoa lhe desagrada. De um lado, estavam o profeta Davi (que a paz esteja com ele) e o profeta Salomão (que a paz esteja com ele), que, embora ocupassem tronos reais, jamais se afastaram do temor a Deus e da adoração a Deus. Em vez de orgulho e arrogância, permaneceram firmes no caminho da gratidão e da obediência. Sempre que percebiam que Deus os estava submetendo a uma prova, naquele mesmo instante inclinavam humildemente a cabeça diante d’Ele. (Sad: 17–24, 34–35; An-Naml: 19–40, cf.)

A rainha de Sabá, embora governasse um povo idólatra, quando tomou conhecimento da verdade, aceitou-a sem hesitação e não se preocupou nem um pouco com o fato de seu povo idólatra vir ou não a apoiá-la. (An-Naml: 44)

Na surata Yā-Sīn, é mencionado um homem da verdade, cujo povo se opôs a três profetas e se preparava para matá-los a pedradas. Nessa situação perigosa, ele correu de uma extremidade da cidade, exortando seu povo; demonstrou, com argumentos, o erro deles por não aceitarem os mensageiros, declarou claramente a sua própria fé e, por fim, abandonou toda esperança de preservar a vida. Isto é, eles o mataram. Ainda assim, nenhuma maldição saiu de sua boca contra os injustos. Pelo contrário, ele desejava: “Ah, se o meu povo soubesse por meio de que coisa meu Senhor me concedeu a honra e a felicidade de receber o perdão!” (Yā-Sīn: 13–27)

Depois, é mencionada a Gente da Caverna, que, para proteger a própria fé da opressão de um povo idólatra, refugiou-se numa caverna montanhosa, confiando unicamente em Deus, sem pensar por quanto tempo teria de permanecer indefesa naquele abrigo. Sua única preocupação era não se desviar do caminho da fé. (Al-Kahf: 13–20)

Por outro lado, o Alcorão também menciona Qarun. Ele era um membro do povo do profeta Moisés (que a paz esteja com ele). Contudo, por sua devoção ao mundo, juntou-se aos cortesãos mais próximos do Faraó. Tornou-se dono de uma imensa fortuna por meios ilícitos e passou a orgulhar-se disso. Quando pessoas virtuosas o aconselhavam a levar uma vida correta, ele rejeitava seus esforços, dizendo: “Tudo o que conquistei é fruto da minha própria capacidade.” As pessoas fascinadas pelo mundo, ao verem seu esplendor, consideravam-no muito afortunado e desejavam também ter uma sorte semelhante. Mas, quando Deus o fez ser tragado pela terra junto com suas riquezas e seu palácio, isso se tornou uma lição para aqueles que desejavam alcançar uma fortuna como a dele. (Al-Qasas: 76–82)

Deus havia transformado em um paraíso terrestre a terra onde o povo de Sabá vivia. Porém, quando adotaram o caminho da desobediência a Deus, Ele os destruiu com uma terrível inundação. Seus jardins e pomares transformaram-se em moitas de arbustos amargos, e eles foram dispersos de tal maneira que isso se tornou um exemplo proverbial entre os árabes. (Sabá: 15–19)

O pior exemplo foi apresentado pelos judeus. Desobedecendo a Deus, eles provocaram duas grandes corrupções na história, pelas quais também tiveram de sofrer punição. Na primeira vez, os governantes severos dos babilônios e dos assírios os expulsaram. Na segunda, os romanos os dispersaram da Palestina por todo o mundo. Depois dessa última dispersão, eles chegaram à Arábia. Cada uma de suas falhas morais era conhecida pelos árabes. Ao identificá-las, o Alcorão disse às pessoas que Deus detesta profundamente indivíduos com esse tipo de defeitos. Eles se entregavam conscientemente a pecados contrários aos ensinamentos da religião, com o objetivo de satisfazer seus interesses mundanos e os desejos de suas paixões, confiando que certamente seriam perdoados. (Al-A‘raf: 169)

Eles diziam: “Não cometemos pecado algum ao usurpar os bens dos não judeus e tratá-los mal.” (Al ‘Imran: 175) Seus sábios, mestres e ascetas consumiam injustamente os bens das pessoas. (At-Tawbah: 34) A usura era amplamente praticada entre eles, embora fosse proibida em sua religião. (An-Nisa’: 161)

Eles atribuíam injustamente ao profeta Salomão as práticas satânicas que haviam tornado próspero o comércio de magia e feitiçaria, com o auxílio de fantasmas e espíritos. (Al-Baqarah: 102)

Entre eles haviam se espalhado todos os tipos de desordem e pecado, e eles haviam abandonado o caminho de impedir uns aos outros de praticar o mal. Por isso, afundavam no abismo da degradação moral. (Al-Ma’idah: 79) Esses são vícios que o Alcorão descreveu como causas gerais da destruição de todos os povos. De fato, depois de narrar, na surata Hud, os episódios em que os povos antigos foram repetidamente submetidos ao castigo, foi dito: “Por que não havia, entre as gerações que vos precederam, pessoas que proibissem a corrupção na terra? Houve apenas poucos, que Nós salvamos dentre eles. Quanto aos injustos, entregaram-se ao luxo que lhes havíamos concedido em abundância e eram criminosos.” (Versículos: 116–117)

As desordens condenadas pelo Alcorão

Esse foi um modo de exposição pelo qual o Alcorão apresentou seus ensinamentos morais ao narrar acontecimentos históricos. O segundo modo de exposição consiste em condenar diretamente os maus comportamentos, ações e caracteres encontrados entre os coraixitas, os árabes e a sociedade humana em geral. Eram atos tão maus que ninguém ousava chamá-los de bons. Em contraste com eles, o Alcorão explica quais são as virtudes, o caráter e as ações corretas com que o Islã deseja adornar o indivíduo e a sociedade. São virtudes cuja grandeza moral ninguém era capaz de negar.

Agora apresentaremos os defeitos condenados pelo Alcorão, sobre os quais ele advertiu as pessoas, dizendo que o Islã deseja purificar a vida humana deles.

—Certamente haverá destruição para todo aquele que insulta as pessoas em sua presença e está acostumado a difamar pelas costas; que acumula riquezas e as conta repetidamente; e que pensa que sua riqueza permanecerá com ele para sempre. (Al-Humazah: 1–3)

—Vistes aquele que nega a recompensa e o castigo da Outra Vida? Esse é aquele que repele o órfão e não incentiva a alimentar o necessitado. (Isto é, não se incentiva a si mesmo a fazê-lo, nem incentiva outros a fazer algo para saciar a fome dos pobres e necessitados.) Depois, ai dos que rezam, mas são negligentes e descuidados em relação à própria oração; dos que rezam por ostentação e se abstêm de fornecer às pessoas até mesmo as coisas necessárias. (Al-Ma’un)

A condição do ser humano é tal que, quando seu Senhor o põe à prova e, para testá-lo, lhe concede honra e bênçãos, ele diz: “Meu Senhor honrou-me.” Mas, quando o põe à prova e, com base nisso, restringe seu sustento, ele diz: “Meu Senhor humilhou-me.” Nunca! (Isto é, essa não é a medida de honra e desonra.) Ao contrário, vós não tratais os órfãos com honra, não vos incentivais mutuamente a alimentar os necessitados, consumis toda a riqueza da herança e vos entregais completamente ao amor pela riqueza. (Al-Fajr: 15–20)

—Aqueles que consomem injustamente os bens dos órfãos enchem o ventre de fogo. (An-Nissá: 10)

—A preocupação em acumular cada vez mais e em superar uns aos outros na conquista dos bens mundanos manteve-vos mergulhados na negligência. Até que, por causa dessa preocupação, chegastes aos túmulos. Nunca! (Isto é, isso não é nenhum bem.) Em breve sabereis. (At-Takáthur: 1–3)

—Nunca obedeças a alguém que jura excessivamente e é desprezível; que insulta, amaldiçoa e espalha intrigas; que impede o bem e se entrega à injustiça e à transgressão; que é excessivamente perverso, insolente e de caráter vil, além de ser de origem ignóbil. (Não te submetas à sua pressão apenas porque) ele possui muita riqueza e muitos filhos. (Al-Qalam: 10–14)

—Ai dos fraudadores, cuja condição é esta: quando recebem das pessoas, exigem a medida completa, mas, quando medem ou pesam para elas, dão-lhes menos. Não compreendem que serão ressuscitados num Dia grandioso? Esse será o dia em que toda a humanidade permanecerá diante do Senhor dos mundos. (Al-Mutaffifin: 1–6)

—Medi com justiça e corretamente, e não altereis o fiel da balança (para enganar o comprador), fazendo-o subir ou descer. (Ar-Rahmán: 9)

—(No Dia da Ressurreição, os habitantes do Paraíso) perguntarão aos habitantes criminosos do Inferno: “O que vos levou ao Inferno?” Eles responderão: “Não fazíamos parte dos que rezavam; não alimentávamos os órfãos; participávamos também daqueles que forjavam palavras contrárias à verdade; e negávamos o Dia da Retribuição.” (Al-Muddaththir: 40–46)

-(No Dia da Ressurreição, quando o habitante do Inferno for levado acorrentado, será dito:) Ele não acreditava no Deus Todo-Poderoso, nem incentivava a alimentar o necessitado. Portanto, hoje, aqui, ele não tem nenhum amigo compassivo, nem alimento algum, exceto o exsudato das feridas, que ninguém come além dos criminosos. (Al-Haqqah: 33–37)

-Ele diz: “Gastei uma fortuna.” Será que pensa que ninguém o viu? (Al-Balad: 6–7)

-Gastar uma fortuna significa despender dinheiro em excesso para exibir sua riqueza e manifestar seu orgulho e arrogância. O sentido da última frase é: será que esse exibidor de orgulho e arrogância pensa que não há ninguém para observar como ele adquiriu sua riqueza e em que obra e com que intenção a esbanjou?)

-A recompensa daqueles que gastam sua riqueza no caminho de Allah, não procuram recompensa de ninguém depois de gastar, nem causam sofrimento à pessoa beneficiada, está junto de seu Senhor; e não haverá motivo de tristeza nem de medo para eles.

Uma palavra bondosa e o perdão são melhores do que uma caridade seguida de sofrimento. (Al-Baqarah: 262–263)

-Não anuleis vossa caridade, procurando recompensa e causando sofrimento, como aquele que gasta sua riqueza para ser visto pelas pessoas. (Al-Baqarah: 264)

-Aquele que é avarento em gastar os bens que Allah lhe concedeu por Sua graça não deve pensar que isso é bom para ele; ao contrário, isso é extremamente mau para ele. Aquilo que ele acumula por avareza será transformado, no Dia da Ressurreição, em grilhões para seus pescoços. (Al ‘Imran: 180)

A avareza não consiste apenas em a pessoa não gastar sua riqueza consigo mesma nem com seus filhos. Ao contrário, avareza é continuar esbanjando tudo em seus luxos, diversões e na exibição de sua riqueza, mas não ter vontade de gastar em nenhuma boa ação.

-Allah jamais gosta de uma pessoa arrogante e orgulhosa da própria superioridade. Nem daquele que é avarento, incentiva os outros a serem avarentos e oculta aquilo que Allah lhe concedeu por Sua graça. (Nissá: 36-37)

-Somente aqueles que se protegem da avareza do coração alcançarão o sucesso. (Tagabun: 16)

-Não fales com as pessoas virando o rosto para elas, nem andes pela terra com arrogância. Allah não gosta de nenhum presunçoso arrogante. Adota moderação no teu modo de andar e abaixa um pouco a tua voz. Entre todos os sons, o mais desagradável é o zurro do jumento. (Luqman: 18-19)

-Não cobiceis aquilo que Allah concedeu a alguns de vós mais do que a outros. (Nissá: 32)

Ver alguém superior a si em algum aspecto e ficar inquieto é a causa principal da inveja e da rivalidade, pelas quais a pessoa permanece sofrendo uma angústia interior. Deseja o mal dessa pessoa para alcançar o próprio bem. E, como não consegue obter esse progresso por meios lícitos, recorre a meios ilícitos.

-Ó Profeta! Dize às pessoas: Meu Senhor certamente proibiu as ações obscenas, públicas ou ocultas, os atos pecaminosos e a transgressão contra a verdade. E proibiu que considereis alguém associado a Allah sem que Ele tenha revelado qualquer prova a esse respeito, e que digais sobre Allah aquilo de que não tendes conhecimento de que provém de Allah. (A’raf: 33)

-Não useis o nome de Allah em juramentos cujo propósito seja abster-vos de praticar o bem, de temer a Allah e de promover a reconciliação entre as pessoas. (Baqara: 224)

-Cumpri o pacto feito com Allah quando tiverdes firmado um acordo com Ele. E não quebreis os vossos juramentos depois de os terdes confirmado, tendo tomado Allah como testemunha sobre vós. Allah está bem ciente de todas as vossas ações. Não sejais como a mulher que fiou laboriosamente o seu fio e depois o desfez em pedaços. Não useis os vossos juramentos como instrumento de engano e fraude entre vós, para que um grupo obtenha mais vantagens do que outro. Na verdade, Allah testa-vos por meio desses juramentos e pactos. (Nahl: 91-92)

-E haverá maldição para aqueles que, depois de firmarem o pacto com Allah, o quebram; rompem todos os laços que Allah ordenou que fossem mantidos e espalham a corrupção pela terra. Para eles haverá maldição e, na Outra Vida, uma péssima morada. (Ar-Ra’d: 25)

-Quando um rei entra em um país, ele o devasta e humilha seus cidadãos honrados. É isso que eles fazem. (An-Naml: 34)

-Os vícios morais condenados na Surata Al-Hujurat são: zombar uns dos outros, insultar, chamar por nomes ofensivos, alimentar suspeitas injustas, espionar a situação alheia e difamar os outros pelas costas. (Ver versículos 11-12.)

-Certamente sofreram uma grande perda aqueles que, por ignorância, mataram seus próprios filhos. (Al-An’am: 140)

-Quando algum deles recebe a notícia do nascimento de uma filha, seu rosto se cobre de escuridão e ele contém a raiva como se engolisse um gole de sangue. Esconde-se das pessoas, perguntando-se como poderia aparecer diante delas depois dessa má notícia. Pensa se deveria conservar a menina, apesar da humilhação, ou enterrá-la na terra. (An-Nahl: 58-59)

-(No Dia do Juízo, quando as pessoas forem apresentadas diante de seu Senhor,) perguntar-se-á à menina enterrada viva: “Por que crime foste morta?” (At-Takwir: 8-9)

-Quem comete um crime ou pecado e depois o atribui a um inocente carrega sobre os ombros uma grande calúnia e um grande pecado. (An-Nisa: 112)

-Não defendas nenhum traidor. Allah não aprecia o traidor nem aquele que se entrega habitualmente ao pecado. (An-Nisa: 105-107)

-O traidor comparecerá no Dia da Ressurreição levando consigo a sua traição. Então, cada pessoa receberá plenamente a recompensa pelo que adquiriu, e ninguém será injustiçado. (Al ‘Imran: 161)

-Não traiais conscientemente os depósitos que vos foram confiados. (Al-Anfal: 27)

-A usura que dais para que os bens das pessoas aumentem não aumenta perante Allah. Mas o zakat que dais buscando a satisfação de Allah, na verdade, esses que dão o zakat multiplicam os seus bens. (Ar-Rum: 39)

-Não consumais injustamente os bens uns dos outros. Mas, se for uma transação realizada com o consentimento mútuo, será diferente. Não mateis uns aos outros. … E, se alguém entre vós fizer isso com opressão e transgressão, certamente o lançaremos no Jahannam. (An-Nisa: 29-30)

-Não consumais injustamente os bens uns dos outros, nem os apresenteis aos juízes com o propósito de consumirdes conscientemente uma parte dos bens das pessoas. (Al-Baqarah: 188)

-Isso também significa que não deveis tentar obter benefícios ilegais subornando o juiz. Mesmo sabendo que os bens pertencem, na realidade, a outra pessoa, não leveis o caso ao tribunal apenas com o propósito de que essa pessoa não consiga provar a sua propriedade, ou de que vencereis o processo por meio de alguma manipulação.

-As testemunhas não devem recusar-se a prestar testemunho quando forem convocadas para testemunhar, e não deveis ocultar o testemunho. Quem o ocultar terá o coração manchado pelo pecado. (Al-Baqarah: 282-283)

-Afastai-vos da mentira. (Al-Hajj: 30)

Isto também inclui o falso testemunho, sobre o qual o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O falso testemunho equivale ao shirk para com Allah.”

-Quem interceder por uma boa ação terá uma parte dela, e quem interceder por uma má ação terá uma parte dela. (Nissá: 85) Ou seja, também será participante da ação boa ou má.

-Nos versículos 4 a 23 da Surata An-Nur, condena-se severamente a imputação de falsas acusações às mulheres castas, a sua divulgação depois de ouvi-las e a propagação da obscenidade na sociedade. Considero suficiente citar apenas os versículos, sem detalhar o assunto. Além disso, isto não se limita às mulheres; acusar os homens de buhtan ou de falsas acusações também é pecado.

-Vivei com vossas esposas da melhor maneira. (Nissá: 19)

-Quando vos divorciardes das mulheres e o fim do seu período de espera se aproximar, então mantende-as de forma honrosa ou separai-vos delas de forma honrosa. Não as retenhais para prejudicá-las e transgredir contra elas. Quem fizer isso cometerá injustiça contra si mesmo. (Al-Bácara: 231)

-Casai-vos com as mulheres com a permissão dos seus tutores e pagai-lhes o mahr de maneira reconhecida, para que o vínculo matrimonial seja preservado. Não vos entregueis livremente à conduta sexual, nem estabeleçais secretamente relações sexuais ilícitas. (Nissá: 25)

-Ó Profeta! Toma das mulheres o compromisso de que não associarão ninguém a Allah, não cometerão adultério, não matarão os próprios filhos, não forjarão falsas acusações que tragam diante de si e não te desobedecerão em qualquer assunto justo e reconhecido. (Al-Mumtahina: 12)

-Há duas explicações sobre o significado de forjar e trazer uma falsa acusação. Primeiro: uma mulher acusar outras mulheres de estabelecerem relações ilícitas com homens que não lhes são legítimos e divulgar essa acusação. Segundo: uma criança ser gerada por outro homem, enquanto o marido é enganado, fazendo-o acreditar que a criança é dele.

—Ó filhos de Adão! Fizemos descer para vós vestimentas para cobrir as partes íntimas dos vossos corpos. E elas também são um meio de adornamento. Ó filhos de Adão! Que Satanás não vos lance na provação, como fez ao expulsar do Paraíso os vossos pais (Adão e Eva, que a paz esteja com ambos—

e lhes retirou as vestimentas, para que as suas partes íntimas se tornassem visíveis uma à outra. (Al-A‘raf: 26–27)

—Ó Profeta (que a paz esteja com ele)! Dize-lhes: quem proibiu os adornos de Allah, que Ele produziu para os Seus servos, e quem proibiu as coisas boas e puras da alimentação? (Al-A‘raf: 32)

—A inovação do monasticismo foi inventada por eles próprios (os cristãos). Nós não a impusemos como obrigação sobre eles. (Al-Hadid: 27)

—Dos frutos das tamareiras e das videiras, extraís bebidas intoxicantes e também obtereis uma boa provisão. (An-Nahl: 67) Isto é, usais a boa provisão que Allah vos concedeu para produzir uma coisa má, isto é, uma substância que provoca intoxicação.

O Alcorão condenou esses maus caracteres, qualidades e ações. Ninguém podia negar a nocividade de tudo isso. Nenhum indivíduo entre os coraixitas e os árabes tinha coragem de afirmar que a sua sociedade era pura de tais transgressões. Tampouco alguém poderia dizer que entre os mensageiros de Allah () ou entre os seus companheiros se encontrava qualquer uma das transgressões e males dos quais o Alcorão procurava afastar as pessoas. Exceto os obstinados e teimosos, todos os que possuíam uma mentalidade pura e livre de superstições não tinham outra alternativa senão admitir que, na realidade, as pessoas e a sociedade deveriam manter-se afastadas desses males, e que não cometia crime aquele que desejasse purificar a vida humana de tudo isso.

Orientação moral abrangente

Ao identificar essas más ações, o Alcorão também apresentou repetidamente uma orientação moral abrangente, cujas nobres qualidades influenciavam o coração e a mente; e nenhuma pessoa de natureza sã tinha outra alternativa senão aceitá-las como verdadeiras. Isso era especialmente atraente porque não se limitava a descrevê-las. Pelo contrário, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), que as apresentava, e aqueles que nele criam observavam-nas integralmente. A seguir, elas são citadas de forma क्रमिकamente ordenada:

—Allah ordena a justiça, a benevolência e a dádiva aos parentes. Ele proíbe a indecência, o pecado, a injustiça e a transgressão. Ele vos exorta para que tireis ensinamento. (An-Nahl: 90)

—Ó Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)! Dize às pessoas: «Vinde, vou recitar-vos aquilo que o vosso Senhor vos proibiu: não associeis ninguém à Sua divindade; tratai bem os pais; não mateis os vossos filhos por temor da pobreza — Nós vos provemos e também os proveremos; não vos aproximeis das ações indecentes, sejam elas públicas ou ocultas; não mateis nenhuma pessoa que Allah tenha tornado sagrada, exceto com justa causa e de acordo com a verdade. Estas são as coisas que Ele vos ordenou observar, para que possais agir com compreensão e discernimento. Não vos aproximeis dos bens do órfão, exceto da melhor maneira, até que ele alcance a idade da maturidade. Dai o peso e a medida com justiça; não impomos a nenhuma pessoa uma responsabilidade além da sua capacidade. Quando falardes, falai com justiça, ainda que se trate de um parente. E cumpri a promessa feita a Allah.»

[A promessa feita a Allah significa aquilo que uma pessoa promete a Allah; inclui também as promessas feitas às pessoas em nome de Allah. E inclui ainda a promessa que se estabelece espontaneamente entre o ser humano e Allah, e entre uma pessoa e outra, quando alguém nasce na terra de Allah, numa sociedade humana. Embora, nesse último pacto, natural, a vontade e a consciência humanas não desempenhem qualquer papel na sua celebração, ele não é, quanto à dignidade de ser honrado, inferior em nenhum aspecto ao pacto assumido conscientemente. — O autor.]

Allah vos exortou acerca dessas questões, para que tireis ensinamento. (Al-An’am: 151–152)

—O vosso Senhor decretou: primeiro, não adorareis ninguém além d’Ele; ao contrário, adorareis somente a Ele.

Segundo: tratareis bem os pais. Se um deles, ou ambos, chegarem à velhice enquanto estiverem sob os vossos cuidados, não lhes digais sequer «uff», nem os repreendais; falai-lhes com respeito. Permanecei diante deles com humildade e submissão, e continuai a suplicar: «Ó meu Senhor, tem misericórdia deles, assim como eles me criaram com ternura e carinho na infância.» O vosso Senhor conhece muito bem o que há nos vossos corações. Se sois virtuosos, Ele é certamente perdoador para todos aqueles que, conscientes dos seus pecados, adotam uma atitude de servidão.

Terceiro: dai aos parentes o que lhes é de direito, e dai também ao necessitado e ao viajante o que lhes é de direito.

Quarto: não gasteis com extravagância. Os que gastam com extravagância são irmãos de Satanás, e Satanás é ingrato para com o seu Senhor.

Cinco: E, se tiverdes de afastar-vos deles — isto é, dos necessitados — porque estais buscando a misericórdia de Allah na qual esperais, então respondei-lhes com palavras corteses e brandas.

Seis: Não mantenhais as mãos atadas ao pescoço — isto é, não sejais avarentos —, pois, se o fizerdes, sereis censurados e ficareis impotentes. Vosso Senhor amplia o sustento para quem quer e o restringe para quem quer. Ele está plenamente ciente de Seus servos e os observa.

Sete: Não mateis vossos filhos por medo da pobreza. Nós lhes proveremos o sustento, e também a vós. Na verdade, matá-los é um grande erro.

Oito: E não vos aproximeis do adultério. Com efeito, é uma ação extremamente obscena e um caminho muito ruim.

Nove: E não cometais o crime de matar uma vida que Allah proibiu, exceto por justa causa. Quanto àquele que foi morto injustamente, concedemos a seu wali o direito ao qisas. Mas ele não deve transgredir no tocante ao assassinato. Ele será auxiliado.

Dez: E não vos aproximeis dos bens dos órfãos, exceto da melhor maneira, até que atinjam a maturidade.

Onze: E cumpri os pactos e as promessas. Acerca da promessa sereis interrogados no Dia da Ressurreição.

Doze: Quando medirdes com um recipiente, enchei-o completamente; e, quando pesardes na balança, fazei-o com uma balança exata. Isso é melhor como procedimento e também melhor quanto ao resultado.

Treze: Não persigas aquilo sobre o qual não tens conhecimento algum. Sabe com certeza que os olhos, os ouvidos e o coração serão interrogados sobre tudo.

Catorze: Não andes pela terra com arrogância. Tu não poderás fender a terra, nem atingir a altura das montanhas.

O mal de cada um desses mandamentos é detestável aos olhos do teu Senhor. Estas são algumas das palavras sábias que o teu Senhor te revelou (Bani Israel: 23-30).

Adorai Allah e não associeis nada a Ele nessa adoração. Tratai bem os pais. Tratai com bondade os parentes, os órfãos e os necessitados. Tratai com misericórdia e benevolência o vizinho parente, o vizinho estranho, o companheiro ao lado, o viajante e os escravos e escravas que estão sob o vosso domínio. (Nissa: 36)

Não é piedade voltardes o rosto para o Oriente ou para o Ocidente. A piedade consiste em a pessoa crer sinceramente em Allah, no Dia do Juízo, nos anjos, no Livro e nos profetas; e, por amor a Allah, dar dos seus bens preferidos aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, aos viajantes e aos que pedem ajuda; e gastar para libertar pessoas da vida de escravidão. Estabelecer a oração e pagar o zakat. Piedosos são aqueles que, quando fazem um pacto, cumprem a sua promessa, perseveram na pobreza e nas aflições e permanecem firmes na luta (entre a verdade e a falsidade). Esses são os verazes e os tementes. (Baqara: 177)

Certamente prosperaram os crentes que adotam humildade e submissão em suas orações, que protegem as suas partes íntimas (da nudez e da imoralidade sexual), exceto com suas esposas e com as escravas sob seu domínio, caso em que não serão censurados por não as protegerem. Mas aqueles que procuram algo além disso são transgressores. E prosperaram os crentes que guardam os seus depósitos e os seus pactos e protegem as suas orações. (Muminun: 1-9)

Os verdadeiros servos do Misericordioso são aqueles que caminham humildemente pela terra e, quando os ignorantes lhes dirigem palavras (de discussão), dizem: “A paz esteja convosco.” Aqueles que passam a noite prostrados e em pé, em oração, diante do seu Senhor. Aqueles que suplicam: “Ó nosso Senhor! Livra-nos do castigo do Inferno. O seu castigo é, de fato, destruidor da vida. Como morada e abrigo, ele é verdadeiramente péssimo.” Aqueles que, quando gastam, não são extravagantes nem mesquinhos, mas estabelecem os seus gastos de forma equilibrada entre esses dois extremos. Aqueles que não invocam outra divindade junto com Allah, não matam injustamente nenhuma pessoa cuja vida Allah proibiu e não cometem adultério. Quem fizer isso receberá a retribuição do seu pecado. No Dia da Ressurreição, o castigo lhe será duplicado, e permanecerá nele humilhado. Contudo, aqueles que se arrependem desses pecados, creem e começam a praticar boas ações, esses terão os seus maus atos transformados por Allah em boas ações. Ele é muito perdoador. Quem se arrepende e começa a praticar boas obras retorna a Allah como deve retornar.

Os verdadeiros servos do Misericordioso são aqueles que não dão falso testemunho e que, ao passar por alguma atividade vã, afastam-se dela com extrema cortesia e decoro. Quando são exortados com os versículos do seu Senhor, não permanecem cegos e surdos diante deles. Aqueles que suplicam: “Ó nosso Senhor! Concede-nos, por meio de nossas esposas e de nossos filhos, a alegria dos nossos olhos, e faz de nós líderes dos tementes.” (Furqan: 63-74)

—Tudo quanto vos foi concedido aqui não passa de provisão para viverdes alguns dias neste mundo. E o que está junto de Allah é melhor e permanente. Isso é para aqueles que creem e depositam sua confiança em seu Senhor. [Isto é, não depositam sua confiança em sua própria força, inteligência, capacidade e meios, mas na graça de Allah, e creem que somente a orientação concedida por Ele é verdadeira e correta. Também creem que, junto d’Ele, nenhuma recompensa por uma boa ação será perdida — autor.]

Aqueles que se mantêm afastados dos grandes pecados e das ações vergonhosas; e, quando se enfurecem, perdoam. Aqueles que obedecem às ordens de seu Senhor, estabelecem a oração, conduzem seus assuntos com base na consulta mútua e gastam do sustento que lhes concedemos. [A palavra “sustento” significa sustento lícito. Em nenhum lugar do Alcorão os bens ilícitos são chamados de sustento de Allah. O significado do versículo é que,

a. Ele gasta do sustento lícito que lhe demos.

b. Ele não acumula esse sustento, mas o gasta.

c. Dela, ele também gasta no caminho de Deus. Não gasta tudo consigo mesmo.]

Quando se comete uma transgressão contra ele, ele a enfrenta. A retribuição de uma ação má é uma ação má equivalente. Mas aquele que perdoa e promove a reconciliação terá sua recompensa junto de Allah. Allah não gosta dos injustos. E não se pode censurar aqueles que, depois de sofrerem uma injustiça, se defendem. A censura cabe àqueles que cometem injustiça contra os outros e transgridem injustamente na terra. Para tais pessoas haverá um castigo doloroso. Contudo, quem persevera com paciência e perdoa pratica uma das ações de grande coragem. (Shura: 36–43)

O ser humano foi criado ansioso. Por isso, quando alguma calamidade o atinge, fica extremamente aflito; e, quando alcança prosperidade, começa a ser avarento. Mas estão livres desses defeitos aqueles que oram, aqueles que observam constantemente a oração (seguem corretamente suas regras e procedimentos); aqueles em cujos bens há um direito determinado para os que pedem ajuda e os privados [isto é, decidiram que, de seus bens, há uma parte destinada aos que pedem ajuda e aos privados, a qual continuarão a entregar. Aquele que pede ajuda é uma pessoa necessitada que solicita auxílio. O privado é alguém sobre quem ele fica sabendo que, coitado, foi privado dos meios de subsistência necessários para atender às suas necessidades. Quer venha pedir ou não; depois de conhecer sua situação, ele próprio o ajuda. — O autor.] aqueles que consideram verdadeiro o Dia do Juízo e temem o castigo de seu Senhor. Pois o castigo de seu Senhor não é algo de que se possa estar seguro; aqueles que protegem suas partes íntimas (da nudez e do adultério), exceto com suas esposas e escravas (com as quais não serão censurados por não protegerem suas partes íntimas); contudo, aqueles que desejam algo além disso são transgressores; aqueles que cumprem os compromissos e promessas que assumiram, aqueles que permanecem firmes na veracidade ao prestar testemunho e aqueles que zelam por suas orações. (Al-Ma’arij: 19–34)

Apressai-vos pelo caminho que conduz ao perdão de vosso Senhor e ao Paraíso, cuja extensão é como a dos céus e da terra, preparado para os tementes a Deus.

Aqueles que gastam seus bens no caminho de Allah tanto em tempos de prosperidade como de dificuldade, contêm a ira e perdoam as faltas dos outros. Tais pessoas virtuosas são as preferidas de Allah. Sua condição é esta: quando cometem alguma má ação — isto é, algum pecado — e cometem injustiça contra si mesmas, lembram-se de Allah e pedem perdão pelo pecado. E quem pode perdoar os pecados senão Allah? E não persistem deliberadamente naquilo que fizeram. (Al-i Imran: 133-135)

—Habitantes do Paraíso são aqueles que cumprem seus votos [O significado de voto é uma boa ação que a pessoa jurou voluntariamente realizar com o propósito de obter a satisfação de Allah — autor.] e temem o Dia cuja calamidade será vista espalhando-se por todos os lados. Eles alimentam, por amor a Allah, os órfãos, os necessitados e os cativos, dizendo: “Nós vos alimentamos somente pela causa de Allah. Não desejamos de vossa parte recompensa alguma nem agradecimento. Tememos de Allah o castigo daquele Dia, um dia longo e terrível, cheio de adversidades.” (Dahr: 7-10)

Correi para o caminho que conduz ao perdão de vosso Senhor e ao Paraíso, cuja extensão é como a dos céus e da terra. Esse Paraíso foi preparado para os tementes a Allah, aqueles que gastam seus bens tanto em tempos de prosperidade como de dificuldade, reprimem a ira, perdoam as faltas dos outros — e Allah ama os virtuosos. Sua condição é esta: quando, em algum momento, cometem uma ação indecente ou cometem injustiça contra si mesmos por meio de algum pecado, lembram-se de Allah e pedem perdão pelo pecado. E quem pode perdoar os pecados além de Allah? Eles não persistem conscientemente naquilo que fizeram. (Al-i Imran: 133-135)

Ensinamentos sobre a nobreza de caráter

Essas orientações éticas detalhadas são de tal natureza que nenhuma pessoa inclinada à reforma, que possua algum senso moral e discernimento entre o bem e o mal, pode deixar de ser influenciada por elas. O Alcorão não considerou suficiente dizer apenas isso. Pelo contrário, esclarece cada uma das virtudes morais, explicando com quais qualidades o Islã deseja adornar o ser humano; e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus Companheiros demonstraram na prática que essas qualidades não são meras coisas para serem proferidas com a boca. Ao contrário, onde quer que o Islã tenha encontrado um caminho para entrar na vida, adornou essa vida com tais qualidades. Como não é possível apresentar aqui uma descrição detalhada, cito alguns exemplos.

—Ajudai-vos mutuamente na prática do bem e na piedade. E não vos ajudeis mutuamente no pecado e na transgressão. Temei a Allah, pois Allah é severo no castigo. (Ma’idah: 2)

—(O honorável Moisés, que a paz esteja sobre ele,) disse: “Ó meu Senhor! Depois da graça que me concedeste, jamais serei um apoiador dos criminosos.” (Qasas: 17)

—Retribui o mal com aquilo que é melhor. Nós conhecemos muito bem as coisas que eles tramam contra ti. E ora: “Ó meu Senhor! Busco refúgio em Ti contra as incitações de Satanás e busco refúgio em Ti para que ele não se aproxime de mim.” [Isto é: pede refúgio a Allah para que Satanás jamais possa incitar-te a responder a um insulto com outro insulto, a uma mentira com outra mentira, a uma injustiça com outra injustiça, ou à injustiça e à violação de um direito com injustiça e violação de um direito — autor.] (Muminun: 96-98)

-Eles repelem o mal com o bem e gastam da provisão que lhes concedemos. Quando ouvem palavras vãs, abstêm-se de lhes responder e dizem: “Nossas ações são para nós, e vossas ações são para vós. Que a paz esteja convosco. Não queremos adotar o caminho dos ignorantes.” (Al-Qasas: 54-55)

-Destinaremos a morada da Vida Futura (o Paraíso) àqueles que não desejam a supremacia na terra nem desejam causar corrupção. (Al-Qasas: 83)

-(São crentes) aqueles que, se lhes concedermos autoridade na terra, estabelecerão a oração, instituirão o sistema do zakat, ordenarão o bem e impedirão o mal. (Al-Hajj: 41)

-(As pessoas guiadas para a luz de Allah) são encontradas em casas que Ele permitiu que fossem elevadas e nas quais Seu nome fosse lembrado. Nelas, essas pessoas glorificam-No de manhã e à noite; pessoas que não são distraídas pelos negócios, pelo comércio e pelas compras da lembrança de Allah, do estabelecimento da oração e da entrega do zakat. Elas temem o dia em que os corações se revirarão e os olhos se petrificarão. (An-Nur: 36-37)

-Ó vós que credes! Que vossas riquezas e vossos filhos não vos distraiam da lembrança de Allah. Aqueles que assim procederem serão os perdedores. (Al-Munafiqun: 9)

-Ó vós que credes! Mantende-vos firmes na justiça e sede testemunhas por Allah, ainda que a justiça e o testemunho contra vós mesmos, contra vossos pais ou contra vossos parentes próximos recaia.

Se a pessoa em questão for rica ou pobre, Allah é mais solícito por ela do que vós. Portanto, não vos abstendes de fazer justiça a eles seguindo a paixão. E, se distorcerdes as palavras para agradá-los ou vos afastardes da verdade, sabei que Allah está plenamente ciente de tudo quanto fazeis. (An-Nissa: 135)

-Ó vós que credes! Mantende-vos firmes na verdade por Allah e sede testemunhas da justiça. Que a animosidade contra qualquer povo não vos leve a ponto de não poderdes agir com justiça. Sede justos, pois isso está mais próximo da taqwa, e temei Allah. Allah está plenamente ciente de tudo quanto fazeis. (Al-Ma’idah: 8)

-Lutai contra aqueles que lutam contra vós no caminho de Allah, mas não transgridais os limites. Allah não ama os transgressores. (Al-Baqara: 194)

-Se alguém vos atacar, atacai-o na mesma medida em que ele vos atacou, e temei a Allah. E sabei que Allah está com os que se abstêm do mal. (Al-Baqara: 194)

-Se quiserdes vingar-vos, vingai-vos na mesma medida em que fostes agredidos. Mas, se tiverdes paciência, isso será melhor para os pacientes. (An-Nahl: 126)

-Certamente ouvireis dos seguidores do Livro e dos idólatras palavras muito dolorosas. Mas, se tiverdes paciência diante de tais palavras (provocadoras) e vos mantiverdes firmes na devoção a Allah, isso será, sem dúvida, uma grande demonstração de determinação. (Al Imran: 186)

-Allah não gosta que as pessoas profiram palavras más, exceto no caso daquele que sofreu uma injustiça. [Isto é, o oprimido tem o direito de erguer a voz contra o opressor — o autor.][ (An-Nisa: 148)

-Allah ordenou-vos que entregueis os depósitos aos seus legítimos depositários. [Com esta ordem de Allah, os cidadãos da sociedade muçulmana são instruídos a não trair os depósitos que lhes forem confiados. Pelo contrário, qualquer depósito que lhes tenha sido confiado deve ser devidamente restituído. De modo geral, toda a sociedade e seus dirigentes são instruídos a confiar os cargos de responsabilidade (cargos de confiança) a pessoas capazes de suportar o peso desse encargo. Não confieis a liderança religiosa, a liderança nacional nem os cargos de administração do país a pessoas incompetentes, corruptas, tacanhas e de caráter desonesto. Pois a liderança de pessoas íntegras arruína toda a sociedade — o autor.]

E, quando julgardes entre as pessoas, julgai com justiça.

-Somente os sensatos aceitam a admoestação (e sua conduta é esta): cumprem a promessa feita a Allah e não rompem os pactos. Mantêm os laços que Allah ordenou que fossem mantidos. Temem o seu Senhor e receiam ter de prestar contas rigorosas diante d’Ele. Aqueles que são pacientes buscando a satisfação de seu Senhor, estabelecem a oração, gastam, pública e secretamente, daquilo com que Nós os provemos, e repelem o mal com o bem. (Ar-Ra’d: 19-22)

-Não podereis alcançar a virtude enquanto não gastardes, no caminho de Deus, daquilo que amais. E tudo quanto gastardes, Deus dele está ciente. (Al Imran: 92)

-Ó crentes! Gastai, no caminho de Deus, a melhor parte da riqueza que adquiristes e daquilo que Nós fizemos sair da terra para vós; e não escolhais deliberadamente as coisas mais ruins para dar. Pois vós mesmos jamais as aceitaríeis, a não ser com desdém. Deus não necessita de vossos gastos. Ele é dotado das qualidades mais excelentes. (Al-Baqara: 267)

-Se fizerdes caridade publicamente, isso será bom; mas, se a mantiverdes oculta e a distribuirdes entre os pobres, será melhor para vós. Por meio dessas ações, muitos de vossos pecados serão apagados, e Deus sabe tudo quanto fazeis. (Al-Baqara: 271)

-Se o devedor estiver em dificuldade financeira, concedei-lhe prazo até que alcance a prosperidade. E, se perdoardes a dívida como caridade, isso será melhor para vós, se soubésseis. (Al-Baqara: 280)

-Do fogo do Inferno) será afastado aquele que é extremamente temente a Deus e doa seus bens para alcançar a purificação. Ninguém lhe fez um favor pelo qual ele tenha de retribuir. Ele apenas faz isso buscando a satisfação de Deus, o Grandioso e o Sublime. (Al-Lail: 17-20)

-Gastai da riqueza que vos concedemos antes que a morte chegue a algum de vós, e ele diga: “Meu Senhor, se me concedesses um breve prazo, eu daria caridade e estaria entre os virtuosos.” (Al-Munafiqun: 10)

-Entregai aos órfãos os seus bens. Não troqueis o que é bom pelo que é mau, nem consumais os bens deles misturando-os aos vossos. Isso é um grande pecado. (An-Nissá: 2)

-Ó Profeta, dize aos homens crentes que baixem o olhar e guardem suas partes íntimas (da nudez e do adultério)… E dize às mulheres crentes que baixem o olhar, guardem suas partes íntimas e não exibam sua beleza, exceto aquilo que aparece naturalmente. Que cubram o peito com as pontas de seus véus e não exibam sua beleza senão diante daqueles mencionados na Surata An-Nur, tais como o marido, o pai, o sogro, o filho e outros. E que, ao caminhar, não batam os pés de modo a revelar a beleza que ocultam. (An-Nur: 30-31)

—Se temerdes a Deus, não faleis com voz suave e sedutora, para que alguma pessoa de natureza perversa não cobice. Pelo contrário, falai palavras claras e diretas. Permanecei em vossas casas e não vos exibais com adornos e vestimentas como nos tempos da antiga jahiliyyah. (Al-Ahzab: 32–33)

—Ó pessoas! Não torneis ilícitas as coisas puras que Allah vos tornou lícitas. E não transgridais; Allah não ama os transgressores. Comei das coisas puras e lícitas que Allah vos concedeu e afastai-vos da desobediência Àquele em Quem credes. (Al-Ma’idah: 87–88)

—Os homens e as mulheres crentes são amigos uns dos outros. Ordenam o bem e impedem o mal, estabelecem a oração, pagam o zakat e obedecem a Allah e ao Seu Mensageiro. (At-Tawbah: 71)

—Aqueles que desejam honra e dignidade devem saber que toda a honra pertence a Allah. O que ascende é a palavra pura, e a ação virtuosa a eleva. (Fatir: 10)

—E Nós vos testamos, submetendo-vos tanto à prosperidade quanto à adversidade. (Al-Anbiya: 35)

[Isto é, testamo-vos para saber se, em situação próspera, não vos tornais arrogantes, opressores, esquecidos de Deus e escravos das paixões, e se, em situação de pobreza ou adversidade, não adotais caminhos vis, indignos e ilícitos. É próprio de uma pessoa mesquinha tornar-se um faraó em boa situação, arrastar-se pelo chão na adversidade e adotar qualquer meio lícito ou ilícito para mudar sua situação. O dever do crente é permanecer firme na veracidade em todas as circunstâncias — o autor.]

Não somente indivíduos virtuosos, mas também uma sociedade virtuosa é desejável

Juntamente com as virtudes morais acima mencionadas, o Alcorão também afirma que o objetivo do Islã não é apenas formar pessoas virtuosas, mas também reuni-las para constituir uma sociedade virtuosa. Pois, sem isso, é absolutamente impossível salvar a humanidade dos danos e alcançar a prosperidade. Embora este assunto tenha sido exposto de diversas maneiras em muitos lugares, apresentaremos aqui apenas dois exemplos.

(Árabe****************)

-Acaso não lhe demos dois olhos, uma língua e dois lábios? E não lhe mostramos os dois caminhos claros (do bem e do mal)? Mas ele não se aventurou a subir a encosta íngreme? E o que te fará compreender o que é a encosta íngreme? Libertar alguém das correntes da escravidão ou alimentar, num dia de fome, um órfão próximo ou um necessitado coberto de pó. Depois, ser daqueles que creem e exortam uns aos outros à paciência e à misericórdia. (Al-Balad: 8-17)

Características de uma sociedade virtuosa

Entre essas ações, foram apresentados como exemplos um ou dois atos individuais de bondade — como libertar um escravo ou alimentar um órfão próximo e um necessitado coberto de pó — dentre as inúmeras boas ações que devem existir no indivíduo.

Mas, juntamente com isso, também se considerou necessário que pessoas virtuosas desse tipo não permanecessem isoladas e dispersas. Pelo contrário, deveriam unir-se a essas pessoas, formar uma comunidade com aqueles que creem e exortam uns aos outros à paciência e à misericórdia para com as criaturas de Deus, para que, por meio deles, pudesse surgir uma sociedade paciente e compassiva. Uma sociedade que permanecesse firme na pureza moral, se mantivesse afastada dos atos pecaminosos e da incitação ao pecado, enfrentasse corajosamente as dificuldades e os obstáculos do caminho da verdade, permanecesse firmemente estabelecida nesse caminho e não fosse opressora nem de coração empedernido para com as criaturas de Deus, mas, ao contrário, fosse misericordiosa e afetuosa. Uma sociedade desse tipo não pode ser formada sem fé em Deus e na Vida Futura, nem sem uma confiança e uma convicção inabaláveis na lei trazida por Ele. Por isso, inevitavelmente, essas qualidades só podem estabelecer-se sobre bases sólidas numa sociedade muçulmana, que não se desprenda delas mesmo diante de qualquer provação ocorrida na vida terrena.

(Árabe******************)

Pelo tempo! O ser humano está, na verdade, em grande perdição, exceto aqueles que creem, praticam boas obras e exortam uns aos outros à verdade e à paciência.

Aqui, tempo pode significar o tempo passado ou a história. Ou pode significar o tempo que passa, que transcorre a cada momento. Jurar por ele significa que ele é testemunha da realidade que será apresentada a seguir.

Aqui, a palavra “ser humano” foi usada em seu sentido pleno. Por isso, pode significar cada indivíduo, o conjunto dos seres humanos ou toda a humanidade.

A palavra khusr pode significar dano, prejuízo e fracasso — o oposto de prosperidade, lucro e sucesso.

As quatro qualidades das quais dependem o sucesso e a prosperidade da humanidade

Nessas poucas frases breves, foi declarado com certeza, mediante um juramento, que tanto a história passada quanto a situação atual testemunham que o ser humano, como indivíduo, como povo e como espécie, está imerso não na prosperidade, mas no prejuízo. Somente aqueles que possuem as quatro qualidades a seguir estão a salvo desse prejuízo.

Iman

Isto é, ter a firme convicção de que somente Allah, Único e sem associado, é o Criador, o Proprietário, o Provedor, Aquele que satisfaz as necessidades, o Adorado e o Governante; somente a Ele devem ser prestados culto, obediência e glorificação. E a orientação trazida pelo Mensageiro de Allah é a verdade que deve ser seguida. Além disso, por vida não se entende apenas a vida temporária deste mundo; depois dela começará uma vida eterna, na qual os seres humanos terão de prestar contas de todas as suas ações realizadas neste mundo. Em seguida, terão de suportar sua recompensa ou seu castigo. Este iman é a primeira condição para alcançar o sucesso e a prosperidade. Pois, sem ele, não há nada que possa estabelecer uma base sólida para a conduta, o caráter e o comportamento, sobre a qual se possa construir o edifício de uma vida virtuosa e pura.

Sem isso, por mais bela que a vida humana pareça exteriormente, sua condição será como a de um navio sem âncora, levado pelas ondas do interesse próprio, das ambições e das fantasias. Ele não atracará em lugar algum.

Boas ações

A relação dessa qualidade com a fé é como a relação entre a semente e a árvore. A fé é uma semente sem a qual não pode nascer a árvore das boas ações. Ainda que na vida de algumas pessoas possam ser encontradas, sem fé, certas qualidades aparentes e temporárias e algumas virtudes, a árvore representa todas as boas ações cuja germinação e desenvolvimento na vida daquele ser humano são exigidos pela razão e pela lógica — daquele em cuja vida foi plantada a semente da fé. Se essa semente foi plantada em algum lugar, mas a árvore das boas ações não nasceu, deve-se entender que o coração dessa pessoa se transformou no túmulo da semente, e não há qualquer garantia de que ela será salva da perdição. Isso porque, juntamente com a fé, as boas ações constituem a segunda condição para ser salvo da perdição.

As duas qualidades mencionadas acima podem ser encontradas individualmente nas pessoas e podem garantir apenas o sucesso individual. Porém, o sucesso coletivo não é possível sem que se forme uma sociedade dotada dessas qualidades e na qual também estejam presentes aquelas duas qualidades adicionais que esta surata estabeleceu como condições para ser salvo da perdição.

Exortar uns aos outros à verdade

A palavra haqq é o oposto de batil. Ela é geralmente usada em dois sentidos. Primeiro, para algo correto, verdadeiro, justo e conforme à realidade, seja no que diz respeito à fé, à crença e às convicções, seja no que diz respeito aos assuntos mundanos. Segundo, para aquilo que é haqq e que cabe ao ser humano cumprir, seja um direito de Deus, dos seres humanos ou de si próprio. Portanto, exortar à verdade significa que a sociedade dos verdadeiros crentes não será tão insensível a ponto de permitir que a falsidade erga a cabeça e viole os direitos das pessoas enquanto todos observam silenciosamente o espetáculo. Pelo contrário, sua consciência coletiva estará tão viva, e seus membros considerarão isso como seu dever, que, onde quer que a falsidade erga a cabeça ou onde quer que se veja o haqq sendo violado, as pessoas entrarão em ação para se opor à falsidade e apoiar a verdade. Ninguém se contentará em ser, por si mesmo, seguidor da verdade, sincero e justo, nem em garantir apenas os direitos dos seus titulares; pelo contrário, exortará também os outros a agir dessa maneira. É isso que protege e garante a sociedade contra a decadência moral. Se essas nobres qualidades não forem encontradas em uma sociedade, ela não poderá escapar da perdição. Ao contrário, à medida que a desordem geral aumenta, torna-se difícil até mesmo assegurar os direitos dos indivíduos.

Exortar uns aos outros à paciência

O significado lexicográfico da palavra “sabr” é resistir e impedir, ou refrear-se e abster-se. Na língua árabe, essa palavra é usada no sentido de tolerância, paciência, autocontrole, firmeza de vontade e empenho resoluto e corajoso no enfrentamento de uma força obstrutiva. Porém, no Alcorão Sagrado, ela é usada com um sentido tão amplo que toda a vida do crente se transforma em uma vida de sabr.

O significado de sabr segundo o Alcorão

Essa palavra é usada no Alcorão em mais de cem passagens. Ao refletir sobre essas passagens, pode-se compreender que ela foi usada nos seguintes sentidos.

Manter os próprios sentimentos, tendências, aspirações e inclinações dentro dos limites estabelecidos por Allah.

Por maiores que sejam as oportunidades de obter ganhos e desfrutar dos prazeres proporcionados pela desobediência a Deus, não se deixar desviar pela cobiça e aceitar de bom grado as perdas, sofrimentos e privações que se tenha de suportar por obedecer a Deus.

Manter os desejos sob controle durante toda a vida, rejeitando toda incitação de Satanás ao pecado e toda aspiração dos próprios desejos. Permanecer firme na verdade diante de toda tentação e todo temor. Suportar as perdas e sofrimentos que resultem da adoção da honestidade neste mundo. Rejeitar todas as oportunidades e vantagens que possam ser obtidas por meios ilícitos.

Longe de se inquietar por inveja e desejo ao ver o esplendor dos que se alimentam do ilícito, nem sequer lhe dirigir o olhar, e compreender serenamente que a pureza sem ostentação que Allah lhe concedeu por Sua graça é superior àquela imundície e corrupção reluzentes.

Assumir todos os tipos de riscos por abraçar a fé. Suportar com bravura a opressão e a tirania dos inimigos da verdade. Permanecer firme no apoio à verdade diante da tempestade da oposição e do avanço das calamidades e adversidades. Não se submeter à falsidade nem dar lugar no coração à ideia de fazer concessões a ela.

Não se deixar espontaneamente agitar pelos excessos, zombarias e propaganda caluniosa dos opositores; pelo contrário, continuar em silêncio, livre de emoções, realizando corretamente o trabalho de pregação e reforma, mesmo que não se vislumbre, num futuro distante, qualquer possibilidade de que ele produza resultados.

Não perder a paciência diante de comportamentos extremamente provocadores e, precipitadamente, tomar medidas erradas que sejam contrárias à estratégia apropriada para a pregação da verdade e prejudiciais ao objetivo da pregação.

Continuar lutando, ano após ano, contra os seguidores da falsidade, que transgridem todos os limites da ética e da moralidade e vivem embriagados pelo poder e pela força. Mas, em circunstância alguma, abandonar a honestidade e adotar, como eles, táticas injustas.

Não se deixar abater nem ficar desanimado ao ver a fraqueza da verdade diante da falsidade, os fracassos contínuos daqueles que lutam para estabelecer a verdade e o sucesso dos líderes da falsidade. Nunca, ao se tornar vítima da frustração, do desânimo e da falta de coragem, pensar que a luta para estabelecer a verdade é inútil e que agora o correto é acomodar-se, satisfeito com a pouca religiosidade que se pode encontrar sob um governo de incredulidade e perversidade. Mesmo em meio à extrema adversidade, continuar tentando manter a verdade elevada, com determinação e coragem.

Um crente paciente não faz tudo isso para obter sua recompensa ainda neste mundo. Pelo contrário, ele acredita que receberá sua recompensa na segunda vida, que começará após a morte.

Ele também não se torna tão infantil que, quando chegam dias prósperos e alcança sucesso neste mundo, se transforme num faraó por orgulho e arrogância. E, quando chegam tempos difíceis, não fica lamentando nem hesita em adotar os meios mais vis para superar a adversidade.

Ele mantém seu equilíbrio em todas as circunstâncias. Não muda com o tempo. Pelo contrário, permanece sempre firme numa conduta justa e correta. Quando as circunstâncias lhe são favoráveis e, mesmo tendo ascendido ao auge da riqueza, da honra e da fama, não se embriaga com a consciência de sua superioridade. Quando, em algum momento, é esmagado pelo moinho das aflições, calamidades e sofrimentos, não permite que isso destrua suas qualidades humanas. Quer a prova enviada por Deus venha na forma de uma dádiva ou de uma adversidade, sua capacidade de suportar permanece intacta.

O propósito da Surata «Asr» é que o ser humano só pode salvar-se da perdição quando, individualmente, for crente, virtuoso, partidário da verdade e paciente, e quando, por meio dessas pessoas, surgir uma sociedade na qual cada um aconselhe o outro à verdade e à paciência.

Essa ferramenta da educação moral era tão poderosa que os idólatras coraixitas e os incrédulos da Arábia não dispunham de nenhum meio para combatê-la. Por mais acusações que aqueles que se opunham ao Profeta (que a paz esteja com ele) e ao Islã levantassem, nenhuma pessoa dotada de consciência poderia acreditar que uma educação moral de tão alto nível pudesse ser transmitida por um egoísta, um louco ou um mágico. (147)

 

Sexta seção

Estabelecimento da ummah muçulmana universal

Um dos princípios mais importantes da Da‘wat Islamiya era que, na realidade, toda a humanidade é uma só e que todos são iguais enquanto seres humanos. As diferenças de natureza, raça, linhagem, tribo, língua e terra natal criadas por Allah entre eles existem apenas para fins de identificação, de modo que possa surgir entre eles um espírito de cooperação. Essas diferenças não existem para que surjam divergências e desentendimentos, para que se desenvolva inimizade, para que um grupo considere outro desprezível e inferior e a si mesmo nobre e distinto, nem para que um grupo se empenhe em subjugar, saquear e exterminar outro. Dentro do âmbito dessa igualdade humana fundamental, se alguma coisa pode legitimamente e justamente provocar distinção entre as pessoas, ela é a diferença de crença e pensamento, com base na qual elas se reúnem e formam uma comunidade. E, entre esta ummah, se alguma coisa pode legitimamente ser causa de superioridade e grandeza, é a taqwa: isto é, temer a Allah, abster-se de desobedecê-Lo e, lembrando-se da prestação de contas na Vida Futura, evitar seguir o caminho do erro.

Com base nessa teoria ou doutrina, o Islam deixou entre os povos do mundo apenas uma diferença, a diferença entre iman e kufr. Todo aquele que, seja qual for o país, nação, tribo, raça ou linhagem a que pertença, e qualquer que seja a sua língua, aceitar o tawhid de Allah da maneira como Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o apresentou, aceitar Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como o último Mensageiro de toda a humanidade, aceitar o Alcorão como o último Livro de Allah e crer na Vida Futura, é um mu’min e irmão dos mu’minun, membro da jama‘at dos mu’minun, integrante da ummah muçulmana, e possui, sob todos os aspectos, direitos iguais na sociedade muçulmana. Em contrapartida, quem não professar essa crença será um kafir. Seja ele pai, mãe, irmão, irmã, filho, filha, esposa ou marido de um mu’min, a pertença à mesma tribo, à mesma terra natal ou à mesma raça não lhe confere qualquer precedência. O mu’min pode manter com essa pessoa os vínculos humanos, mas, sob todos os demais aspectos, a sua sociedade será distinta da sociedade muçulmana. Nos assuntos mundanos, pode manter com ela as relações que normalmente existem entre as pessoas. Porém, em matéria de Din, não pode manter com ela amizade e amor, nem formar juntamente com ela uma jama‘at e uma sociedade. Mesmo que seu pai seja kafir, não pode fazer uma súplica de maghfirah por ele. Se tiver de enfrentar uma guerra por causa do Din, o irmão lutará contra o irmão e o pai contra o filho, sem hesitar sequer em matá-lo. Se o país e a nação se tornarem obstáculos no caminho do Din, abandonará a casa, a família, a nação e o país, fazendo hijrah; mas não sacrificará o Din pela nação e pelo país.

O nome desta ummah era simplesmente ummah muçulmana. A ummah de cada Profeta era muçulmana, e assim também foram chamados aqueles que creram em Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, ela estava aberta a todas as pessoas da Terra, fossem elas de qualquer país, do Oriente ou do Ocidente, do Norte ou do Sul. Nenhuma nação possuía uma característica que fosse negada às outras. O seu fundamento não estava no fato de alguém ter nascido de determinada origem; ao contrário, estava em crer conscientemente. E todos os povos do mundo que pudessem compartilhar dessa fé poderiam ingressar nesta ummah com direitos iguais.

Além disso, não era uma ummah que se limitava a aceitar a fé e permanecer sentada. Era, antes, uma ummah de da‘is (convocadores) e muballighs. Cada um dos seus membros era um trabalhador de um movimento, e o seu objetivo mais amado era transmitir aos outros a verdade que havia chegado até ele por meio de Allah e de Seu Mensageiro. Esforçar-se para salvar do desvio neste mundo e do castigo de Allah na Vida Futura o maior número possível de pessoas.

Era uma questão que deixou consternados não apenas os coraixitas, mas todas as tribos da Arábia. Durante milhares de anos, todo o seu sistema social estivera fundamentado no tribalismo. Este era o seu protetor. Os laços de sangue eram a base de suas relações, bem como de sua ajuda e cooperação mútuas. Era sobre isso que se baseavam sua nobreza, honra e prestígio. Cada tribo vangloriava-se diante das outras, alegando que seus antepassados haviam contribuído para esta ou aquela causa. Então, quando viram surgir entre eles uma convocação que estava arrancando o tribalismo pela raiz, retirando pessoas de cada grupo e tribo e reunindo-as numa comunidade permanente com um nome distinto — pessoas que não reconheciam nem povo nem tribo, mas construíam, sobre uma crença e uma convicção, os fundamentos de uma fraternidade e amizade universais; que punham fim a todas as antigas concepções de orgulho e nobreza, igualando nobres e plebeus; e que consideravam a diferença entre kufr e iman como a base da amizade e da inimizade, separando o filho do pai, o irmão do irmão e o marido da esposa — então o limite de sua paciência foi ultrapassado. Não lhes era possível aceitar essa grande revolução social. Decidiram que aquele rebento deveria ser destruído ainda no início, para que dele jamais pudessem surgir flores, nem das flores jardins e pomares. Mas aqueles que possuíam algum conhecimento e bom senso, cujas mentes não estavam fechadas pelos cadeados da superstição e do fanatismo, compreenderam que aquela era a grande cura capaz de pôr fim à hostilidade, ao ódio e à animosidade tribais e unir toda a Arábia. E, indo ainda mais longe, poderia unir os povos do mundo inteiro com a mesma corda.

A plena importância deste aspecto da Da‘wat Islamiya, cujo resumo foi apresentado acima, só poderá ser compreendida quando as pessoas conhecerem, através do Alcorão, seus detalhes. (148)

O nome desta ummah sempre foi ummah muçulmana. A ummah de cada profeta era muçulmana, e assim também foram chamados aqueles que creem em Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, ela estava aberta a todas as pessoas da Terra, fossem elas de qualquer país, do Oriente ou do Ocidente, do Norte ou do Sul. Nenhuma nação possuía uma característica que fosse negada às outras. Seu fundamento não estava no fato de alguém ter nascido em determinado lugar, mas em abraçar conscientemente e com conhecimento o iman. E todas as pessoas do mundo que pudessem compartilhar desse iman poderiam integrar-se a esta ummah com direitos iguais.

Depois, esta não era uma ummah que simplesmente aceitava e permanecia sentada. Pelo contrário, era uma ummah da‘iya (convocadora) e muballigh. Cada um de seus membros era um trabalhador de um movimento. Seu objetivo mais querido era transmitir aos outros a verdade que havia chegado até ele por meio de Allah e de Seu Mensageiro. Esforçar-se para salvar do desvio neste mundo e do castigo de Allah na Outra Vida o maior número possível de pessoas.

Era algo que deixara agitados não apenas os coraixitas, mas todas as tribos da Arábia. Durante milhares de anos, todo o seu sistema social estivera fundamentado no tribalismo. A tribo era aquilo a que estavam ligados e sobre o qual sua sociedade estava estabelecida. Ela era seu protetor. Os laços de sangue eram a base de suas relações, vínculos e ajuda mútua. Sua nobreza e honra dependiam disso. Cada tribo se vangloriava diante das outras com base nas contribuições que seus antepassados haviam feito em determinados assuntos. Quando perceberam que entre eles estava surgindo um chamado que arrancava o tribalismo pela raiz, que retirava pessoas de cada grupo e tribo e, reunindo-as, formava uma comunidade permanente sob um nome distinto — pessoas que não reconheciam nem nação nem tribo, mas construíam, com base numa crença, os fundamentos de uma fraternidade e amizade universais —, que eliminava todas as antigas concepções de orgulho e nobreza, igualando nobres e plebeus, e que considerava a diferença entre incredulidade e fé como fundamento da amizade e da inimizade, separando o filho do pai, o irmão do irmão e o marido da esposa, então sua paciência se esgotou. Não lhes era possível aceitar essa enorme revolução social. Decidiram destruí-la ainda no início, para que dela jamais pudesse surgir uma flor, nem de suas flores a possibilidade de um jardim exuberante. Contudo, aqueles que possuíam algum conhecimento e discernimento, e cujas mentes não estavam trancadas pelos cadeados da superstição e do fanatismo, perceberam que aquele era justamente o grande remédio capaz de pôr fim à inimizade e ao ódio tribais e unir toda a Arábia. Depois, ultrapassando a Arábia, poderia unir os povos do mundo inteiro por meio de uma mesma corda.

A plena importância deste aspecto da Dawa islâmica, cujo resumo foi apresentado acima, só poderá ser compreendida quando as pessoas conhecerem seus detalhes por meio do Alcorão. (148)

Todos os seres humanos são iguais em sua essência, e o único critério de superioridade entre eles é a taqwa

A primeira verdade fundamental que o Alcorão apresentou a esse respeito foi que toda a humanidade é descendente de um mesmo pai e uma mesma mãe e, com base nisso, todos os seres humanos são iguais em sua essência.

يَا أَيُّهَا النَّاسُ اتَّقُوا رَبَّكُمُ الَّذِي خَلَقَكُمْ مِنْ نَفْسٍ وَاحِدَةٍ وَخَلَقَ مِنْهَا زَوْجَهَا وَبَثَّ مِنْهُمَا رِجَالًا كَثِيرًا وَنِسَاءً – (النساء 1)

— Ó seres humanos! Temei vosso Senhor, que vos criou de uma só pessoa e dela criou seu par, e de ambos espalhou pela terra muitos homens e mulheres. (An-Nissa: 1)

A segunda verdade fundamental importante apresentada pelo Alcorão foi que a multiplicidade de povos e tribos criada dentro da unidade humana existe apenas para que eles possam reconhecer-se mutuamente. O critério de grandeza entre eles não é a linhagem, a cor, a língua ou a terra natal, mas a qualidade moral da taqwa.

يَا أَيُّهَا النَّاسُ إِنَّا خَلَقْنَاكُمْ مِنْ ذَكَرٍ وَأُنْثَى وَجَعَلْنَاكُمْ شُعُوبًا وَقَبَائِلَ لِتَعَارَفُوا إِنَّ أَكْرَمَكُمْ عِنْدَ اللَّهِ أَتْقَاكُمْ –( الحجرات- 13)

— Ó gente! Nós vos criamos de um homem e de uma mulher. Depois, fizemos de vós povos e tribos, para que vos reconhecêsseis uns aos outros. Na verdade, perante Allah, os mais honrados entre vós são os que possuem maior temor de Allah, isto é, os que mais se protegem da desobediência a Allah.

Neste versículo, dirigindo-se a toda a humanidade, foi identificada aquela grande desorientação que sempre causou a perturbação e a corrupção universais no mundo: o fanatismo pela linhagem, pela cor, pela língua, pela terra natal e pelo nacionalismo. Desde os tempos mais antigos até hoje, em todas as épocas, as pessoas geralmente ignoram a humanidade e continuam criando ao seu redor pequenos círculos, considerando seus membros como pertencentes a si e os nascidos fora deles como estranhos. Esses círculos não foram construídos sobre bases intelectuais e morais; ao contrário, foram erguidos sobre a base acidental do nascimento. Em alguns lugares, sua base é nascer em determinada família, tribo ou entre um povo que fala uma língua específica. Depois, a distinção entre os próprios e os estranhos, estabelecida com base nesses fundamentos, não se limitou a tratar com mais amor e a prestar mais ajuda e cooperação àqueles considerados como próprios do que aos outros. Pelo contrário, essa distinção assumiu as formas mais abjetas de ódio, inimizade, desprezo, opressão e tirania. Foram elaboradas filosofias para justificá-la. Foram inventadas religiões. Foram redigidos códigos e criados princípios morais, e nações e Estados fizeram disso sua doutrina permanente, aplicando-a durante centenas de anos. Com base nisso, os judeus consideraram os Filhos de Israel não apenas a criação predileta de Deus, mas até mesmo os filhos de Deus; e, em suas próprias normas religiosas, reduziram os direitos e a dignidade dos que não eram Filhos de Israel a um nível inferior ao dos israelitas. Entre os hindus, essa distinção deu origem ao sistema de castas, segundo o qual foi estabelecida a superioridade dos brâmanes. Em comparação com as classes superiores, todos os demais foram considerados inferiores e impuros. Os shudras foram lançados no próprio abismo da humilhação e da desonra. Não é necessário procurar nas páginas da história a opressão exercida sobre os negros da África e da América em razão da distinção entre negros e brancos. Mesmo no século XX, todos podem vê-la com os próprios olhos. O tratamento dado pelos europeus aos indígenas americanos ao entrarem no continente americano, bem como o tratamento que deram aos povos fracos depois de estabelecerem seu domínio na Ásia e na África, tinha em seu âmago a ideia de que a vida, os bens, a honra e a castidade dos nascidos fora das fronteiras de seu próprio país e de sua própria nação eram lícitos para eles. Eles tinham o direito de saqueá-los e escravizá-los; tinham até mesmo o direito de apagá-los da face da Terra, se necessário. O culto à nação praticado pelos povos ocidentais transformou uma nação em feras selvagens para as demais nações, e o pior exemplo disso foi visto nas guerras recentes e ainda é visto hoje. Especialmente ao observar a violência demonstrada pela filosofia racista da Alemanha nazista e pela ideia da superioridade da raça nazista na guerra mundial passada, pode-se facilmente avaliar quão grave e destrutiva era essa desorientação, para cuja eliminação e correção foi revelado este versículo do Alcorão Sagrado.

Neste breve versículo, Allah, o Altíssimo, dirigindo-se a toda a humanidade, apresentou três realidades extremamente importantes.

Primeiro: todos vós sois iguais na origem. Toda a vossa humanidade passou a existir a partir do mesmo homem e da mesma mulher. Todas as linhagens hoje existentes no mundo são, na realidade, ramos e ramificações de uma mesma linhagem primordial, que começou com o mesmo pai e a mesma mãe. Em nenhuma parte dessa continuidade da descendência existe fundamento para a distinção e para a superioridade ou inferioridade às quais vos entregais por meio de conceções equivocadas. O mesmo Deus é o vosso Criador. Não é que diferentes deuses tenham criado diferentes seres humanos. Todos nasceram da mesma matéria e dos mesmos elementos, e não uns de elementos puros e outros de matérias impuras e inferiores, a partir dos quais os habitantes de diferentes regiões do mundo teriam nascido separadamente.

Segundo: apesar de serem iguais na origem, é natural que estejais divididos em povos e tribos. É evidente que não é possível que todas as pessoas do mundo pertençam a uma única família. Com o crescimento da descendência, era inevitável que surgissem inúmeras famílias; depois, era igualmente natural e inevitável que das famílias surgissem tribos e povos. Assim, depois de se estabelecerem em diferentes regiões da Terra, era inevitável que a cor, a aparência, a língua e os modos de vida se diferenciassem. Também era natural que os habitantes de uma mesma região se tornassem mais próximos uns dos outros e que os habitantes de regiões distantes ficassem mais afastados. Mas a exigência dessas diferenças e divergências naturais jamais foi que, com base nelas, se estabelecesse uma distinção entre superiores e inferiores, nobres e não nobres, baixos e elevados. Que uma linhagem exibisse sua superioridade sobre outra; que as pessoas de uma cor considerassem inferiores e desprezíveis as de outra; que um povo estabelecesse superioridade e domínio sobre outro; e que, nos direitos humanos, um grupo obtivesse preferência sobre outro.

A razão pela qual o Criador organizou os grupos humanos na forma de povos e tribos foi apenas que essa era a maneira natural de promover o reconhecimento mútuo e a ajuda e cooperação entre eles. Desse modo, os membros de uma família, de um grupo de parentes, de uma tribo e de um povo poderiam, juntos, formar uma ordem social universal e ajudar-se uns aos outros nas atividades da vida. Mas foi pura ignorância satânica transformar aquilo que Allah, o Altíssimo, havia criado como um meio natural de reconhecimento em motivo de orgulho, arrogância e ódio, convertendo-o, por fim, em opressão e crueldade.

Terceiro: se existe e pode existir algum fundamento para a superioridade entre as pessoas, ele é apenas a superioridade moral. Todos os seres humanos são iguais quanto ao nascimento, pois seu Criador é um só. Sua matéria e seu modo de nascimento são os mesmos, e a genealogia de todos remonta à mesma mãe e ao mesmo pai. Além disso, o nascimento de uma pessoa em determinado país ou entre determinado povo ou grupo é um acontecimento acidental, no qual sua vontade, escolha, esforço e caráter não têm participação alguma. Não há razão justa para que, por esse aspecto, alguém alcance superioridade sobre outro. O verdadeiro fundamento pelo qual uma pessoa pode ser superior a outra é que tema mais a Deus do que os demais, se mantenha afastada dos atos pecaminosos e siga o caminho da virtude e da pureza. Tal pessoa, seja qual for sua linhagem, povo ou país, merece respeito com base em suas próprias qualidades. Já aquele cuja conduta é o oposto é uma pessoa de baixo nível, seja negra ou branca, oriental ou ocidental.

Essas realidades, descritas em um breve versículo do Alcorão, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) explicou detalhadamente em seus diversos sermões. No sermão que proferiu após o tawaf, por ocasião da conquista de Meca, disse:

(Árabe*******************)

Louvado seja aquele Deus que removeu de vós os defeitos da jahiliyyah e o seu orgulho e arrogância. Ó gente! Todos os seres humanos podem ser divididos em apenas duas categorias. A primeira: o virtuoso e temente a Deus, que é honrado aos olhos de Deus. A segunda: o pecador e desafortunado, que é desprezível aos olhos de Deus. Caso contrário, toda a humanidade é descendente de Adão. E Deus criou Adão a partir do barro.

Durante o Hajj de despedida, em um sermão proferido em meados dos Ayyam al-Tashriq, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

(Árabe******************)

— Ó gente! Prestai atenção. O vosso Deus é um só. Nenhum árabe tem superioridade sobre um não árabe, nem um não árabe sobre um árabe; nenhum branco sobre um negro, nem um negro sobre um branco; e nenhum negro sobre um branco, exceto com base na taqwa. O mais honrado entre vós aos olhos de Allah é aquele que, entre vós, é o mais temente a Deus. Dizei: transmiti-vos a minha mensagem? A multidão respondeu: Sim, ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse: Então, que os presentes transmitam esta mensagem aos ausentes.

Em um hadith, ele disse:

(Árabe***************)

— Todos vós sois descendentes de Adão. E Adão foi criado a partir do barro. Que as pessoas abandonem o orgulho em relação aos seus antepassados. Caso contrário, serão mais vis e desprezíveis aos olhos de Allah do que um insignificante inseto.

Ele também disse:

(Árabe************)

—No Dia da Ressurreição, Allah não vos perguntará sobre a vossa linhagem. Perante Allah, o mais honrado entre vós é aquele que é mais piedoso.

Ele também disse:(Árabe****************)

—Allah não olha para a vossa aparência nem para as vossas riquezas. Ele olha para os vossos corações e para as vossas obras.

Esses ensinamentos não se limitaram apenas a palavras. Pelo contrário, o Islão estabeleceu, em conformidade com eles, uma fraternidade universal entre os crentes e demonstrou-a na prática, sem qualquer distinção de raça, linhagem, língua, país ou nacionalidade. Nela não há lugar para conceitos de superioridade e inferioridade, intocabilidade, discriminação, divisão ou fanatismo. Todos os que desejam participar dela podem fazê-lo — e de facto o fizeram — com direitos absolutamente iguais, independentemente da sua linhagem, povo ou país. Até os opositores do Islão tiveram de reconhecer que o princípio da igualdade e da unidade humanas foi concretizado com tal êxito na sociedade muçulmana que não existe exemplo semelhante em nenhuma religião ou sistema do mundo, nem jamais existiu. Somente o Islão é essa religião ou sistema de vida que reuniu as inúmeras linhagens e povos espalhados por todo o mundo, transformando-os numa única comunidade, com base num único credo. (149)

Esta regra eterna também será aplicada na Outra Vida

Prosseguindo, o Alcorão informa o ser humano de que, em vez da linhagem, do povo e do país, este método de divergência e união com base no credo e nas obras também será aplicado dessa forma na segunda vida da Outra Vida, depois do fim deste mundo atual. Todos os grupos estabelecidos neste mundo com base em outros critérios serão desfeitos.

وَيَوْمَ تَقُومُ السَّاعَةُ يَوْمَئِذٍ يَتَفَرَّقُونَ-( الروم-14)

-No dia em que a Hora ocorrer, nesse dia todas as pessoas serão divididas em grupos distintos. (Ar-Rum: 14)

Todos os grupos e nações do mundo que foram formados com base na raça, linhagem, terra natal, língua, tribo, parentesco e interesses políticos e econômicos serão desfeitos naquele dia, e haverá uma nova divisão em grupos, baseada na pureza da crença, do caráter e dos costumes. Por um lado, dentre as nações passadas e posteriores da humanidade, os crentes e as pessoas virtuosas serão selecionados e separados, formando um grupo. Por outro lado, os seguidores de diferentes ideologias desviadas e os que sustentam diversas crenças falsas, bem como os praticantes de diferentes tipos de injustiça e criminosos, serão selecionados e separados daquele vasto oceano de pessoas, formando grupos distintos. Em outras palavras, aquilo que o Islã considera, neste mundo, a verdadeira base para separar e unir as pessoas — e que os adoradores da jahiliyyah se recusam a aceitar na vida terrena — será justamente a base sobre a qual elas serão separadas e reunidas na Outra Vida. O Islã afirma que a verdadeira coisa que separa e une as pessoas é a crença e o caráter. Os que creem e estabelecem seu modo de vida sobre a orientação de Deus constituem uma única ummah, sejam eles de qualquer região do mundo. Já os que adotam o caminho da descrença e da transgressão constituem uma ummah diferente, sejam de qualquer país ou linhagem. A nacionalidade desses dois grupos não pode ser a mesma. Eles não podem caminhar juntos neste mundo formando um único modo de vida universal, nem seu destino pode ser o mesmo na Outra Vida. Do mundo à Outra Vida, seus caminhos e destinos são distintos. Os adoradores da jahiliyyah sempre proclamaram firmemente que a formação dos grupos deve basear-se na linhagem, no país e na língua, e ainda hoje permanecem firmes nessa ideia. Aqueles que são semelhantes nesses aspectos deveriam, mesmo ignorando sua religião e sua crença, tornar-se uma nação e unir-se contra outras nações semelhantes. E essa nacionalidade deveria ter um sistema de vida no qual os seguidores do monoteísmo, do politeísmo e do ateísmo pudessem conviver juntos. Essa era a ideia de Abu Jahl, Abu Lahab e dos líderes dos coraixitas. Repetidamente, eles acusavam Muhammad (que a paz esteja com ele), dizendo que, com a chegada desse homem, havia surgido divisão entre nossa nação. Contra essa ideia, o Alcorão adverte aqui, dizendo que todas essas divisões que vocês estabeleceram neste mundo sobre as bases disponíveis acabarão sendo desfeitas. A divisão permanente entre a humanidade ocorrerá com base na crença, na visão de mundo, no caráter e nos costumes — precisamente sobre essas bases que o Islã deseja estabelecer na vida terrena. Como podem ter o mesmo caminho de vida aqueles cujo destino não é o mesmo? (150)

Ummah muçulmana

Depois de considerar todos os seres humanos como uma só comunidade, conforme a descrição acima, o Islã declarou que somente a taqwa é o critério de distinção entre eles. Na perspectiva do Islã, taqwa significa seguir as crenças e as instruções mencionadas por Deus, por Seu Mensageiro e em Seu Livro. Significa também, tendo em vista a prestação de contas na Outra Vida, abandonar a atitude de desobediência e adotar a conduta de obedecer às ordens. Por isso, o Islã divide toda a humanidade em duas partes: uma, os que creem; e a segunda, os que não creem. Ele transforma os crentes em uma única ummah e dá-lhe o nome de Ummah muçulmana, da qual todos os crentes do mundo podem participar. E esse não é um nome novo, reservado por Muhammad (que a paz esteja com ele) apenas para aqueles que creem nele. Pelo contrário, desde os tempos mais antigos, Deus deu esse mesmo nome às ummahs de todos os profetas.

هُوَ سَمَّاكُمُ الْمُسْلِمِينَ مِنْ قَبْلُ وَفِي هَذَا-( الحج-78)

-Deus já vos havia dado anteriormente o nome de muçulmanos, e também neste Alcorão. (Al-Hajj: 28)

O tratamento “vós” não foi dirigido especialmente apenas aos crentes que estavam presentes quando este versículo foi revelado, ou que depois se juntaram à fileira dos crentes. Pelo contrário, a segunda pessoa desse tratamento refere-se a todas as pessoas que, desde o início da história humana, creram no monoteísmo, na Outra Vida, na missão profética e nos Livros celestiais. Em suma, aqueles que, no passado, seguiam esta religião da verdade não eram chamados de nuítas, abraâmicos, mosaicos ou por nomes semelhantes; seu nome era muçulmanos, isto é, submissos a Deus. E ainda hoje não são chamados de maometanos, mas de muçulmanos. Por não compreenderem isso, as pessoas consideram enigmática a questão de qual Livro anterior ao Alcorão teria dado o nome aos seguidores de Muhammad (que a paz esteja com ele). Não é necessário que a palavra árabe “muçulmano” tenha sido usada em todas as línguas. Porém, qualquer que tenha sido, em qualquer língua, o nome dado àqueles que aceitaram os profetas, ele é equivalente a muçulmano. (151)

A universalidade e a atemporalidade da ummah muçulmana

الَّذِينَ آتَيْنَاهُمُ الْكِتَابَ مِنْ قَبْلِهِ هُمْ بِهِ يُؤْمِنُونَ – وَإِذَا يُتْلَى عَلَيْهِمْ قَالُوا آمَنَّا بِهِ إِنَّهُ الْحَقُّ مِنْ رَبِّنَا إِنَّا كُنَّا مِنْ قَبْلِهِ مُسْلِمِينَ-( القصص-52-53)

—Aqueles a quem anteriormente concedemos o Livro creem nele (no Alcorão). E, quando ele lhes é recitado, dizem: “Cremos nele. Com efeito, ele é a verdade proveniente de nosso Senhor. Já éramos muçulmanos desde antes.” (Al-Qasas: 52-53)

Isto é, antes disso também críamos nos profetas e nos Livros celestiais; por isso, naquela época, não tínhamos outra religião além do Islã. Depois, aceitamos também o profeta que agora veio da parte de Allah trazendo o Livro. Portanto, na realidade, não houve nenhuma mudança em nossa religião. Pelo contrário, assim como éramos muçulmanos no início, continuamos sendo muçulmanos agora.

Esta declaração dos Povos do Livro que creem, citada no Alcorão, esclarece explicitamente que Islã não é apenas o nome da religião trazida pelo Profeta Muhammad (s.a.w.), e que o termo “muçulmano” não se limita exclusivamente aos seguidores do Profeta (s.a.w.). Pelo contrário, desde todos os tempos, a religião de todos os profetas foi o Islã, e seus seguidores sempre foram muçulmanos. Esses muçulmanos só se tornaram descrentes quando, posteriormente, se recusaram a aceitar algum profeta verdadeiro que veio depois. Mas aqueles que inicialmente acreditavam no profeta e depois creram no profeta que veio posteriormente não sofreram qualquer ruptura em seu Islã: assim como eram muçulmanos antes, continuaram sendo depois.

É surpreendente que alguns grandes eruditos também tenham sido incapazes de compreender esta realidade. Mesmo depois de verem este versículo tão claro, não ficaram satisfeitos. Allama Suyuti escreveu um tratado detalhado sobre o assunto. Ele afirma que o termo “muçulmano” é reservado exclusivamente à ummah de Muhammad (s.a.w.). Então, quando este versículo lhe foi apresentado, ele próprio disse: “Minha argumentação e minhas provas chegaram ao fim.” Contudo, disse que voltou a suplicar a Allah que, nesse assunto, lhe concedesse a abertura do peito e a convicção. Por fim, em vez de mudar sua opinião, permaneceu firme nela e apresentou várias interpretações deste versículo, cada uma mais fraca que a anterior. Uma de suas interpretações, por exemplo, é que “ان كنا من قبله مسلمينsignifica: pretendíamos tornar-nos muçulmanos antes da chegada do Alcorão. Pois havíamos recebido em nosso Livro a notícia de sua vinda, e também desejávamos que, quando ele chegasse, aceitássemos o Islã.

Sua segunda interpretação é que, nesta frase, مسلمينa palavra é omitida depois de به. Isto é, desde o início aceitávamos o Alcorão, pois esperávamos sua chegada e já havíamos crido nele antecipadamente. Por isso, éramos muçulmanos não com base na aceitação da Torá e do Evangelho, mas com base na aceitação do Alcorão antes de sua revelação.

Sua terceira interpretação era que, desde o início, estava escrito em nosso destino que aceitaríamos o Islã após a chegada de Muhammad (s.a.w.) e do Alcorão. Por isso, na realidade, já éramos muçulmanos desde o princípio. Nenhuma dessas interpretações parece revelar qualquer efeito da abertura do peito concedida por Allah.

A questão é que, não apenas neste único lugar, mas em muitos lugares do Alcorão, foi exposta esta verdade fundamental: a verdadeira religião é somente o Islã (a submissão a Allah). E, no reino criado por Deus, não pode haver para os servos de Deus nenhuma outra religião além desta. Desde o início da humanidade, todo profeta que veio para orientar as pessoas veio com esta religião. E os profetas (que a paz esteja com eles) sempre foram, eles próprios, muçulmanos. Eles exortaram seus seguidores a permanecerem muçulmanos. Aqueles de seus seguidores que se curvaram diante da ordem de Deus proclamada por meio da profecia foram muçulmanos em todas as épocas. Apresentam-se abaixo alguns exemplos a esse respeito:

إِنَّ الدِّينَ عِنْدَ اللَّهِ الْإِسْلَامُ-( آل عمران-19)

-Na verdade, a única religião aceita por Allah é o Islã.

وَمَنْ يَبْتَغِ غَيْرَ الْإِسْلَامِ دِينًا فَلَنْ يُقْبَلَ مِنْهُ-( آل عمران-85)

-E quem buscar uma religião diferente do Islã, isso jamais será aceito dele. (Al Imran: 85)

Hazrat Noé (que a paz esteja com ele) disse:

إِنْ أَجْرِيَ إِلَّا عَلَى اللَّهِ وَأُمِرْتُ أَنْ أَكُونَ مِنَ الْمُسْلِمِينَ-( يونس-72)

-Minha recompensa cabe somente a Allah. E foi-me ordenado que estivesse entre os muçulmanos. (Yunus: 72)

A respeito de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e de seus filhos, foi declarado:

إِذْ قَالَ لَهُ رَبُّهُ أَسْلِمْ قَالَ أَسْلَمْتُ لِرَبِّ الْعَالَمِينَ – وَوَصَّى بِهَا إِبْرَاهِيمُ بَنِيهِ وَيَعْقُوبُ يَا بَنِيَّ إِنَّ اللَّهَ اصْطَفَى لَكُمُ الدِّينَ فَلَا تَمُوتُنَّ إِلَّا وَأَنْتُمْ مُسْلِمُونَ – أَمْ كُنْتُمْ شُهَدَاءَ إِذْ حَضَرَ يَعْقُوبَ الْمَوْتُ إِذْ قَالَ لِبَنِيهِ مَا تَعْبُدُونَ مِنْ بَعْدِي قَالُوا نَعْبُدُ إِلَهَكَ وَإِلَهَ آبَائِكَ إِبْرَاهِيمَ وَإِسْمَاعِيلَ وَإِسْحَاقَ إِلَهًا وَاحِدًا وَنَحْنُ لَهُ مُسْلِمُونَ-( البقرة-131-133)

-Quando seu Senhor lhe disse: “Submeta-se”, ele respondeu: “Submeti-me ao Senhor dos mundos.” E Ibrahim recomendou isso a seus filhos, e também Yaqub: “Ó meus filhos! Allah escolheu esta religião para vocês. Portanto, não vos alcance a morte senão enquanto sois “muçulmanos”.

(Ó judeus,) acaso estáveis presentes quando a morte se aproximou de Yaqub? Quando ele perguntou a seus filhos: “A quem adorareis depois de mim?” Eles responderam: “Adoraremos o vosso Deus e o Deus de vossos antepassados, Ibrahim, Ismail e Ishaq, um único Deus, e somos submissos a Ele.” (Al-Baqarah: 131-133)

مَا كَانَ إِبْرَاهِيمُ يَهُودِيًّا وَلَا نَصْرَانِيًّا وَلَكِنْ كَانَ حَنِيفًا مُسْلِمًا-( آل عمران-67)

-Ibrahim não era judeu nem nazareno; ao contrário, era um muçulmano sincero. (Al Imran: 67)

Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) fazem pessoalmente esta súplica:

رَبَّنَا وَاجْعَلْنَا مُسْلِمَيْنِ لَكَ وَمِنْ ذُرِّيَّتِنَا أُمَّةً مُسْلِمَةً لَكَ-( البقرة-128)

—Ó nosso Senhor! Torna-nos muçulmanos para Ti e suscita, dentre a nossa descendência, uma comunidade que seja muçulmana para Ti. (Al-Baqarah: 128)

Na narrativa do profeta Lot (que a paz esteja com ele), é dito:

فَمَا وَجَدْنَا فِيهَا غَيْرَ بَيْتٍ مِنَ الْمُسْلِمِينَ-(الذاريات-36)

—Não encontramos na cidade do povo de Lot nenhuma casa de muçulmanos, exceto uma (a própria casa do profeta Lot, que a paz esteja com ele). (Adh-Dhariyat: 36)

O profeta José suplica perante Deus:

تَوَفَّنِي مُسْلِمًا وَأَلْحِقْنِي بِالصَّالِحِينَ-(يوسف-101)

—Faze-me morrer muçulmano e inclui-me entre os justos. (Yusuf: 101)

O profeta Moisés (que a paz esteja com ele) diz ao seu povo:

يَا قَوْمِ إِنْ كُنْتُمْ آمَنْتُمْ بِاللَّهِ فَعَلَيْهِ تَوَكَّلُوا إِنْ كُنْتُمْ مُسْلِمِينَ-(يونس-84)

—Ó meu povo! Se credes em Allah, então confiai nEle, se sois muçulmanos. (Yunus: 84)

A verdadeira religião dos Filhos de Israel não era o judaísmo, mas sim o Islã. Amigos e inimigos, todos sabiam disso. De fato, estas foram as últimas palavras do Faraó quando estava se afogando no mar:

آمَنْتُ أَنَّهُ لَا إِلَهَ إِلَّا الَّذِي آمَنَتْ بِهِ بَنُو إِسْرَائِيلَ وَأَنَا مِنَ الْمُسْلِمِينَ-( يونس-90)

—Reconheço que não há divindade além dAquele em Quem os Filhos de Israel creram, e que faço parte dos muçulmanos. (Yunus: 90)

A religião de todos os profetas dos Filhos de Israel também era este Islã.

إِنَّا أَنْزَلْنَا التَّوْرَاةَ فِيهَا هُدًى وَنُورٌ يَحْكُمُ بِهَا النَّبِيُّونَ الَّذِينَ أَسْلَمُوا لِلَّذِينَ هَادُوا-( المائدة-44)

—Fizemos descer a Torá, na qual há orientação e luz. Com base nela, o profeta que era muçulmano julgava os assuntos daqueles que se haviam tornado judeus. (Al-Ma’idah: 44)

Esta era a religião de Salomão (que a paz esteja com ele). Com efeito, ao crer nela, a rainha de Sabá disse:

أَسْلَمْتُ مَعَ سُلَيْمَانَ لِلَّهِ رَبِّ الْعَالَمِينَ-( النمل-44)

—Submeti-me, juntamente com Salomão, a Allah, o Senhor dos mundos. (An-Naml: 44)

Esta era a religião de Jesus (que a paz esteja com ele) e de seus discípulos:

وَإِذْ أَوْحَيْتُ إِلَى الْحَوَارِيِّينَ أَنْ آمِنُوا بِي وَبِرَسُولِي قَالُوا آمَنَّا وَاشْهَدْ بِأَنَّنَا مُسْلِمُونَ-( المائدة-111)

—E quando revelei aos discípulos: “Crede em Mim e em Meu Mensageiro”, disseram: “Cremos; e testemunha que somos muçulmanos.” (Al-Ma’idah: 111)

Se alguém, a esse respeito, nutrir dúvidas, alegando que seria impossível que as palavras árabes Islã e muçulmano fossem usadas em diferentes países e línguas, isso será uma afirmação de manifesta ignorância. Pois o que realmente importa não são essas palavras árabes, mas o significado para o qual elas foram usadas em árabe. Na realidade, o que é dito nestes versículos é que a verdadeira religião enviada por Deus não é o cristianismo, nem o mosaísmo, nem o maometismo; é, antes, inclinar a cabeça em submissão diante do mandamento de Deus transmitido por meio dos profetas e dos Livros celestiais. E todo servo de Deus que, em qualquer lugar e em qualquer época, adotou essa conduta tornou-se seguidor da verdade da mesma religião universal e eterna. Para todos os que adotaram essa religião com verdadeira compreensão e sinceridade, aceitar Jesus (que a paz esteja com ele) depois de Moisés (que a paz esteja com ele), e Muhammad (que a paz esteja com ele) depois de Jesus (que a paz esteja com ele), não foi uma mudança de religião; foi, antes, a exigência natural e racional de seguir a verdadeira religião. Em contrapartida, aqueles que ingressaram no grupo dos profetas sem qualquer reflexão, ou nele nasceram, e para quem o fanatismo nacional, genealógico e partidário assumiu a forma da verdadeira religião permaneceram judeus e cristãos; e, após a chegada de Muhammad (que a paz esteja com ele), ficou exposto o erro de sua ignorância. Pois, ao rejeitarem o Último Profeta, não apenas recusaram permanecer muçulmanos dali em diante, mas seu comportamento também provou que anteriormente não eram muçulmanos. Eram simplesmente devotados à personalidade de um profeta ou de alguns profetas, ou haviam transformado em religião a obediência cega aos antepassados. (152)

O processo de formação da umma muçulmana

Assim, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) não apenas revitalizou a religião que vinha sendo seguida desde antes; ele também estabeleceu novamente a comunidade que, desde a época de todos os profetas, vinha sendo denominada comunidade muçulmana. Todos aqueles que haviam se unido a essa comunidade, vindos de diferentes tribos, famílias e regiões, ele os tornou auxiliares e apoiadores uns dos outros, irmãos uns dos outros, compassivos e solidários uns com os outros. Tornou igualmente invioláveis a vida, os bens e a honra de todos; considerou iguais os direitos e as responsabilidades de todos e não concedeu a ninguém qualquer privilégio que os demais não possuíssem. Para o ambiente árabe, dominado pelo culto às tribos e afligido pelo fanatismo, isso era algo extraordinário, que seus corações e mentes de modo algum estavam preparados para aceitar. (153)

É narrado por Ibn Zayd que, certo dia, Abu Lahab, tio do Mensageiro (que a paz esteja com ele), perguntou-lhe: “Que benefício terei se aceitar a tua religião?” O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “O mesmo que obterão os demais que creem.” Ele perguntou: “Então não haverá também para mim — tio do Mensageiro — nenhuma posição especial?” O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “O que mais deseja?”

Abu Lahab disse:(Árabe******************)

— Que seja destruída esta religião na qual eu sou igual às demais pessoas. (Ibn Jarir) (154)

Em oposição a essa ideia fanática, o Alcorão declarou claramente:

لَنْ تَنْفَعَكُمْ أَرْحَامُكُمْ وَلَا أَوْلَادُكُمْ يَوْمَ الْقِيَامَةِ

— No Dia da Ressurreição, nem os vossos laços de parentesco vos serão úteis, nem os vossos filhos. (Al-Mumtahana: 3)

Aqui, os laços de sangue permanecerão plenamente, mas ali não trarão qualquer benefício. A realidade essencial é a fé, que será útil no Dia da Ressurreição. Por isso, também neste mundo, vossos laços de parentesco devem fundamentar-se na fé.

إِنَّمَا وَلِيُّكُمُ اللَّهُ وَرَسُولُهُ وَالَّذِينَ آمَنُوا الَّذِينَ يُقِيمُونَ الصَّلَاةَ وَيُؤْتُونَ الزَّكَاةَ وَهُمْ رَاكِعُونَ-( المائدة-55)

-Verdadeiramente, vosso amigo é Allah, Seu Mensageiro e aqueles que creem, que estabelecem a oração, dão o zakat e se prostram diante de Deus. (Al-Ma’idah: 55)

إِنَّمَا الْمُؤْمِنُونَ إِخْوَةٌ فَأَصْلِحُوا بَيْنَ أَخَوَيْكُمْ-( الحجرات-10)

-Os crentes são, na verdade, irmãos uns dos outros. Portanto, reconciliai-vos entre vossos irmãos. (Al-Hujurat: 10)

Este e outros versículos semelhantes estabeleceram uma irmandade universal de todos os muçulmanos do mundo. Há nesta doutrina a bênção de que, entre os seguidores de qualquer outra religião ou ideologia, não se encontra a irmandade que foi criada entre os muçulmanos e que ainda existe até hoje. O Profeta (que a paz esteja com ele) expôs sua importância e suas exigências em muitos discursos, pelos quais toda a sua força vital foi despertada ainda mais.

Hazrat Jarir bin Abdullah relata: o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) tomou de mim o juramento de lealdade em três assuntos: primeiro, que eu estabelecesse a oração; segundo, que continuasse a pagar o zakat; e terceiro, que permanecesse desejoso do bem de todo muçulmano. (Bukhari, Kitab al-Iman).

Hazrat Abdullah bin Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: insultar um muçulmano é fisq (um ato pecaminoso), e lutar contra ele é kufr (descrença). (Bukhari, Kitab al-Iman). No Musnad Ahmad, este assunto é narrado por Hazrat bin Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), citando seu pai.

Hazrat Abu Hurairah (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: para todo muçulmano, a vida, os bens e a honra de outro muçulmano são invioláveis. (Muslim, Kitab al-Birr wa as-Silah).

Hazrat Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) relatam que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O muçulmano é irmão do muçulmano; não o oprime, não o abandona nem o humilha. É maldade suficiente para uma pessoa humilhar seu irmão muçulmano.” (Musnad Ahmad)

Hazrat Sahl ibn Sa‘d as-Sa‘idi (que Allah esteja satisfeito com ele), citando as palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), disse: “A relação de um crente com o grupo dos crentes é como a relação da cabeça com o corpo. Ele sente o sofrimento de um membro dos crentes exatamente como a cabeça sente a dor de cada parte do corpo.” — Musnad Ahmad. (155)

Hazrat Nu‘man ibn Bashir (que Allah esteja satisfeito com ele) narra este hadith do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

(Árabe***************************)

Os crentes são como um único corpo no que diz respeito à compaixão, ao amor e à solidariedade mútuos. Quando uma parte do corpo sofre, todo o corpo é acometido de insônia e febre por causa dela.

Hazrat Abu Musa al-Ash‘ari (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe**********************)

O crente é para outro crente como uma parede, cujas partes se fortalecem umas às outras.

Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) citou este hadith do Mensageiro:(Árabe***************)

—O muçulmano é irmão do muçulmano: não o oprime nem se abstém de ajudá-lo. Quem se empenha em satisfazer alguma necessidade de seu irmão, Allah empenha-Se em satisfazer a sua necessidade. E quem salvar um muçulmano de alguma aflição, Allah o salvará das aflições do Dia da Ressurreição. E quem ocultar as faltas de algum muçulmano, Allah ocultará as suas faltas no Dia da Ressurreição. (156)

Hazrat Jaber bin Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abu Talha bin Sahl Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) narraram este hadith do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

(Árabe***********************)

—Quando um muçulmano está sendo humilhado e desonrado, e sua honra está sendo atacada, se ninguém se adiantar para ajudá-lo, então Allah, o Altíssimo, também não o ajudará quando ele estiver necessitado da ajuda de Allah. Mas, se alguém ajudar um muçulmano quando sua honra estiver sendo atacada e ele estiver sendo humilhado, então Allah, o Altíssimo, também o ajudará quando ele desejar que Allah lhe conceda auxílio. (157)

Hazrat Abdullah bin Amr bin As (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou:(Árabe****************)

—Muçulmano é aquele de cuja boca e mãos os muçulmanos estão a salvo.

Hazrat Abu Bakra Nufai bin Al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, durante o sermão do Dia do Sacrifício, na ocasião da Peregrinação de Despedida, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

(Árabe******************)

—Atenção! Depois de mim, não vos torneis como os incrédulos, golpeando o pescoço uns dos outros.

Hazrat Anas (ra) narra que o Profeta (sa) disse certa vez: (Árabe******************)

—Ajudai o vosso irmão, seja ele opressor ou oprimido. Alguém perguntou: Se ele for oprimido, eu o ajudarei; mas, se for opressor, como poderei ajudá-lo?

O Profeta respondeu: (Árabe************************)

—Impede-o de cometer injustiça e afasta-o dela. Pois isso será ajudá-lo. (Bukhari)

Hazrat Abdullah bin Amr bin As (ra) narra que o Profeta (sa) disse: (Árabe******************)

—O sangue dos crentes tem o mesmo valor. E, contra o inimigo, todos eles são como uma só mão.

Hazrat Anas bin Malik (ra) cita este hadith do Profeta (sa): (Árabe****************)

—Foi-me ordenado combater as pessoas até que testemunhem que não há divindade além de Allah e que Muhammad é o Mensageiro de Allah. Quando testemunharem isso, se voltarem na direção da nossa qibla, comerem dos animais que abatemos e rezarem como nós, então o seu sangue e os seus bens tornam-se ilícitos para nós. Naturalmente, se houver algum direito devido contra eles, isso é outra questão. Eles terão os mesmos direitos que os muçulmanos e estarão sujeitos às mesmas responsabilidades que os muçulmanos—

Uma ummah portadora da bandeira da da’wah e do movimento

Mas esta ummah não era do tipo em que algumas pessoas, depois de crerem, simplesmente permanecessem em seu lugar invocando Allah, praticando boas obras e sendo umas para as outras apoiadoras, auxiliadoras, bem-intencionadas e compassivas. Indo além disso, a missão desta ummah era difundir a da’wah do Islã entre todas as pessoas. Ordenar o bem e impedir o mal. Toda esta ummah foi escolhida e formada entre todos os povos e tribos para reformar e corrigir esses servos de Allah. Sua relação com todos os povos seria uma relação de verdade e justiça, e não teria com ninguém uma relação de injustiça e falta de equidade. Se a questão tivesse permanecido limitada à primeira condição, os coraixitas e os politeístas da Arábia estariam dispostos a tolerá-la em alguma medida. Mas a segunda condição era tal que eles viam que esta ummah não apenas desejava crescer e se expandir; pelo contrário, cada indivíduo e toda a comunidade, coletivamente, estavam muito ativos na propagação de seu movimento. Com isso, o temor dos coraixitas ultrapassou os limites da paciência. Pois viam que, todos os dias, pessoas de seu próprio grupo abandonavam-no e se juntavam ao novo grupo. (158)

وَمَنْ أَحْسَنُ قَوْلًا مِمَّنْ دَعَا إِلَى اللَّهِ وَعَمِلَ صَالِحًا وَقَالَ إِنَّنِي مِنَ الْمُسْلِمِينَ-(همالسجده-33)

—E quem pode ter palavras melhores do que aquele que chama para Allah, pratica boas obras e diz: “Sou muçulmano”? (Hámim Assajda: 33)

Nos versículos 30 a 32, foi dito anteriormente aos muçulmanos que permanecer firmes na adoração de Allah e, depois de seguir esse caminho, não se afastar dele é, por si só, aquela boa ação neste mundo que torna a pessoa amiga dos anjos e merecedora do Paraíso. Em seguida, neste versículo, foi-lhes dito que o grau de ação acima do qual não pode haver grau algum é este: praticar boas obras pessoalmente e chamar os outros à adoração de Allah. Dizer sem temor, mesmo em um ambiente de extrema oposição, “Sou muçulmano”, em um ambiente no qual declarar o Islã e manifestá-lo significava atrair o perigo para si. Para compreender plenamente a importância desta declaração, é necessário manter diante dos olhos o ambiente em que ela foi proferida. Naquela época, qualquer pessoa que revelasse ser muçulmana sentia como se estivesse entrando em uma floresta de feras, onde todos corriam para despedaçá-la e devorá-la. Indo além disso, a pessoa que abrisse a boca para propagar o Islã era como alguém que chamasse as feras e lhes dissesse: “Venham, despedacem-me e devorem-me.” Em tal situação, foi dito que adotar o caminho reto, reconhecendo Allah como Senhor, e não dele se desviar é uma grande e fundamental boa ação. Mas a boa ação de grau superior é que a pessoa se levante e diga: “Sou muçulmano”, e chame as pessoas para Allah sem se importar com as consequências. Ao realizar esse trabalho, deverá manter suas próprias ações tão puras e imaculadas que ninguém tenha oportunidade de apresentar qualquer acusação contra o Islã e contra aquele que porta sua bandeira. (159)

Instruções aos muçulmanos para a liderança mundial

وَكَذَلِكَ جَعَلْنَاكُمْ أُمَّةً وَسَطًا لِتَكُونُوا شُهَدَاءَ عَلَى النَّاسِ وَيَكُونَ الرَّسُولُ عَلَيْكُمْ شَهِيدًا-( البقرة-143)

—E assim fizemos de vós uma comunidade excelente, para que sejais testemunhas perante toda a humanidade, e o Mensageiro seja testemunha perante vós. (Al-Baqarah: 143)

Esta foi a declaração da liderança mundial da Ummah de Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Assim, também havia uma indicação para a orientação de Allah, por meio da qual os seguidores do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) poderiam alcançar o caminho reto e, progredindo cada vez mais, alcançar uma posição tal que seriam considerados a “Ummah Wasat”. Essa indicação também se referia à mudança da qibla, que os ignorantes consideram simplesmente como voltar o rosto de uma direção para outra. Na realidade, a mudança da qibla de Bayt al-Maqdis para a Caaba significava que Allah, de modo ordenado, retirava dos Filhos de Israel a posição de liderança do mundo e estabelecia a Ummah de Muhammad nessa posição.

A expressão “Ummah Wasat” possui um significado tão abrangente que não é possível fazer-lhe justiça na tradução por meio de uma única outra palavra. Significa um grupo grandioso e nobre, que adota a equidade, a justiça e a moderação. Ele alcançará uma posição de liderança entre as nações do mundo. Sua relação com todos será igual, e essa relação será baseada na veracidade, não na falsidade nem na injustiça.

Quando se afirma que fostes feitos uma Ummah Wasat para serdes testemunhas perante as pessoas e para que o Mensageiro seja testemunha perante vós, isso significava — e ainda significa — que, no Dia do Juízo, quando toda a humanidade for reunida para ser julgada, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), como representante responsável de Allah, testemunhará a vosso respeito que transmitiu integralmente e sem alteração o ensinamento sobre o pensamento correto, as boas ações e um sistema baseado na justiça que Allah lhe havia confiado, e que o demonstrou na prática, agindo de acordo com ele. Depois, por sucederdes o Mensageiro, tereis de vos apresentar como testemunhas perante as pessoas em geral e testemunhar que fizestes todo o possível, sem negligência alguma, para transmitir-lhes tudo o que o Mensageiro vos transmitiu e mostrar-lhes tudo o que ele vos mostrou.

Assim, quando uma pessoa ou um grupo é agraciado neste mundo por Allah com a posição de testemunha, isso significa, na realidade, que é agraciado com a posição de liderança. De um lado, isso envolve honra e autoridade; de outro, o pesado fardo da responsabilidade. Isso significa que, assim como o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) foi para esta Ummah uma testemunha viva do temor a Allah, da sinceridade, da justiça e da defesa da verdade, esta Ummah também deve ser uma testemunha viva para o mundo inteiro. De tal modo que, ao observar todas as suas palavras e ações, seu caráter e sua conduta, o mundo possa saber: isto é o temor a Allah; assim é a sinceridade; isto é a justiça; assim é a defesa da verdade. O Islã veio para transformar as pessoas do mundo em algo assim. (160)

Características da Ummah muçulmana

كُنْتُمْ خَيْرَ أُمَّةٍ أُخْرِجَتْ لِلنَّاسِ تَأْمُرُونَ بِالْمَعْرُوفِ وَتَنْهَوْنَ عَنِ الْمُنْكَرِ وَتُؤْمِنُونَ بِاللَّهِ-( آل عمران—110)

Sois a melhor Ummah surgida para o mundo (para orientar as pessoas e reformá-las). Ordenais o bem, impedis as ações injustas e credes em Allah. (Al Imran: 110)

Neste versículo, é dito aos seguidores do Profeta (que a paz esteja com ele) que o posto de liderança e orientação do mundo, do qual os Filhos de Israel foram destituídos por sua incompetência, é o posto no qual agora vocês foram estabelecidos. Isso porque, em termos de caráter e ações, vocês se tornaram agora o melhor grupo do mundo, e surgiram entre vocês as qualidades indispensáveis para uma liderança justa. Isto é, o impulso e o empenho para estabelecer as boas ações e eliminar as más ações, e aceitar Allah, que não tem parceiro, como seu Ilah e seu Senhor, tanto na fé quanto nas ações. Portanto, essa responsabilidade de liderança mundial foi confiada a vocês. (161)

وَالْمُؤْمِنُونَ وَالْمُؤْمِنَاتُ بَعْضُهُمْ أَوْلِيَاءُ بَعْضٍ يَأْمُرُونَ بِالْمَعْرُوفِ وَيَنْهَوْنَ عَنِ الْمُنْكَرِ وَيُقِيمُونَ الصَّلَاةَ وَيُؤْتُونَ الزَّكَاةَ وَيُطِيعُونَ اللَّهَ وَرَسُولَهُ-( التوبة71)

—Os homens crentes e as mulheres crentes são aliados uns dos outros. Eles ordenam o bem e proíbem o mal, estabelecem a oração, dão o zakat e obedecem a Allah e ao Seu Mensageiro. (At-Tawbah: 71)

Em outras palavras, os homens e mulheres crentes se tornaram um grupo cujos membros possuem igualmente todas essas características: amam tanto as boas ações que ordenam aos habitantes do mundo que as pratiquem; odeiam tanto as más ações que procuram afastar o mundo delas. A lembrança de Allah é, para eles, uma necessidade indispensável da vida, como era para os Companheiros. Seus corações e mãos estão abertos para gastar seus bens no caminho de Allah. A obediência a Allah e ao Mensageiro tornou-se um traço natural de suas vidas. Essa natureza moral universal e esse modo de vida os uniram uns aos outros. (162)

Incentivo a sacrificar a própria vida

Também foi criado entre os membros desta comunidade o impulso de dar prioridade à sua religião acima de todas as coisas. Eles estarão prontos para sacrificar tudo por ela, mas não estarão prontos para sacrificá-la por coisa alguma.

Se for possível adorar a Allah permanecendo no próprio país, junto da família e em sua própria casa, não há problema algum. Mas, se isso não for possível, sua prova consistirá em saber se abandonará a adoração de Allah por causa da casa, dos filhos, da família e do amor à pátria, ou se deixará tudo isso pela adoração de Allah, assumindo o risco da hijra e do exílio.

وَالَّذِينَ هَاجَرُوا فِي اللَّهِ مِنْ بَعْدِ مَا ظُلِمُوا لَنُبَوِّئَنَّهُمْ فِي الدُّنْيَا حَسَنَةً وَلَأَجْرُ الْآخِرَةِ أَكْبَرُ لَوْ كَانُوا يَعْلَمُونَ-( النحل-41)

Àqueles que emigraram depois de suportarem a opressão, Nós lhes concederemos, já neste mundo, uma excelente morada; e a recompensa da Outra Vida é muito maior. (An-Nahl: 41)

يَا عِبَادِيَ الَّذِينَ آمَنُوا إِنَّ أَرْضِي وَاسِعَةٌ فَإِيَّايَ فَاعْبُدُونِ-كُلُّ نَفْسٍ ذَائِقَةُ الْمَوْتِ ثُمَّ إِلَيْنَا تُرْجَعُونَ-وَالَّذِينَ آمَنُوا وَعَمِلُوا الصَّالِحَاتِ لَنُبَوِّئَنَّهُمْ مِنَ الْجَنَّةِ غُرَفًا تَجْرِي مِنْ تَحْتِهَا الْأَنْهَارُ خَالِدِينَ فِيهَا نِعْمَ أَجْرُ الْعَامِلِينَ-الَّذِينَ صَبَرُوا وَعَلَى رَبِّهِمْ يَتَوَكَّلُونَ-وَكَأَيِّنْ مِنْ دَابَّةٍ لَا تَحْمِلُ رِزْقَهَا اللَّهُ يَرْزُقُهَا وَإِيَّاكُمْ وَهُوَ السَّمِيعُ الْعَلِيمُ-(العنكبوت56-60)

—Ó Meus servos que crestes! Em verdade, a Minha terra é ampla; adorai-Me, pois, somente a Mim. Toda alma provará a morte; depois, todos sereis reconduzidos a Mim. Quanto aos que creem e praticam boas obras, certamente os instalaremos nas elevadas câmaras do Paraíso, sob as quais correm rios, onde permanecerão eternamente. Que excelente recompensa para os que praticam boas obras! Isso é para aqueles que perseveraram e confiaram em seu Senhor. E quantas criaturas há que não carregam consigo o seu sustento! Allah lhes dá o sustento, assim como vos dá o vosso sustento. Ele é o Oniouvinte, o Onisciente. (Al-Ankabut: 56–60)

A Surata Al-Ankabut permite compreender qual foi a inspiração que se manifestou na comunidade muçulmana naquele período.

O primeiro versículo fazia alusão à hijra; isto é, se a adoração de Allah em Meca se tornasse difícil, deixai o país. A terra de Allah não é estreita. Ide para onde puderdes viver como servos de Allah. Vós não deveis adorar a vossa nação e o vosso país; deveis, antes, adorar o vosso próprio Deus. Disso se sabe que a verdadeira coisa não é a nação, a terra natal nem o país, mas sim a adoração de Allah. Se alguma vez as exigências do amor à nação, à terra natal e ao país entrarem em conflito com as exigências da adoração de Allah, então será o momento da prova de fogo da fé do crente. O verdadeiro crente adorará somente a Allah e rejeitará o país e a nação. Aqueles que falsamente alegam possuir fé abandonarão a fé e permanecerão ligados ao seu país e à sua nação. Este versículo deixa claro, a esse respeito, que um verdadeiro adorador de Allah pode ser patriota e amar a sua nação, mas não pode adorar a nação nem o país. Para ele, a adoração de Allah é mais querida do que qualquer outra coisa; por ela, sacrificará tudo no mundo, mas não a sacrificará por coisa alguma deste mundo.

O significado do segundo versículo é: não vos preocupeis com a vida, pois ela certamente partirá a qualquer momento. Ninguém vem ao mundo para permanecer eternamente. Portanto, a questão que deve preocupar-vos não é como salvar a vida, mas como preservar a fé e como cumprir as exigências da adoração de Allah. Por fim, tereis de retornar justamente a Mim. Se vierdes do mundo tendo perdido a fé para salvar a vida, o resultado será um; mas, se vierdes tendo perdido a vida para salvar a fé, o resultado será outro. Portanto, concentrai toda a vossa preocupação nisto: quando retornardes a Mim, com o que retornareis? Com uma fé sacrificada pela vida, ou com uma vida sacrificada pela fé?

O terceiro versículo afirma que, se, por seguirdes o caminho da fé e da piedade, permanecerdes privados de todas as bênçãos mundanas e morrerdes com um aparente fracasso do ponto de vista terreno, deveis acreditar que certamente haverá compensação. Não apenas haverá compensação; pelo contrário, recebereis também a melhor das recompensas.

O quarto versículo afirma que, na Outra Vida, a melhor recompensa será para aqueles que permanecem firmes na fé, enfrentando toda espécie de calamidade, sofrimento, aflição e perseguição; para aqueles que assumem os riscos da fé e não lhe voltam as costas; que, mesmo vendo com os próprios olhos as facilidades, os benefícios e os ganhos de abandonar a fé, não lhes dão atenção; que, mesmo vendo o progresso e a prosperidade dos incrédulos, dos pecadores e dos libertinos, não lhes dão importância; que não confiaram nas suas riquezas, nos seus negócios, no seu comércio e na sua tribo e família, mas confiaram no seu próprio Senhor; que, desprezando os meios e recursos mundanos, se prepararam para enfrentar o simples choque e confronto de forças e, quando necessário, deixaram as suas casas e partiram; que depositaram no seu Senhor a convicção de que a recompensa por permanecer firmes na fé e na piedade jamais será perdida. E também mantiveram a confiança de que Ele ajudará, já neste mundo, os Seus servos crentes e piedosos e lhes concederá, na Outra Vida, a melhor recompensa pelas suas obras.

No último versículo, foi dito que, depois de emigrardes, não deveis preocupar-vos apenas com a vossa segurança, mas também com o vosso sustento. Vede: inúmeros animais, aves e criaturas aquáticas movimentam-se diante dos vossos olhos na água, na terra e no espaço. Aonde quer que vão, pela graça de Allah, encontram algum meio de subsistência. Portanto, não percais a coragem por vos preocupardes pensando: “Se abandonarmos as nossas casas em nome da fé, de onde obteremos alimento?” Do mesmo modo que Allah provê o sustento de Suas inúmeras criaturas, também proverá o vosso. (163)

A natureza das relações entre os crentes e os incrédulos

Por um lado, foi claramente declarado que tipo de relação deve existir entre os membros da comunidade muçulmana e quão intimamente eles devem estar ligados à religião e à fé. Por outro lado, foi explicado que tipo de relação os muçulmanos devem manter com os incrédulos.

لَا يَتَّخِذِ الْمُؤْمِنُونَ الْكَافِرِينَ أَوْلِيَاءَ مِنْ دُونِ الْمُؤْمِنِينَ-( آل عمران-28)

-Os crentes jamais tomarão os incrédulos como amigos, deixando de lado os crentes. (Al Imran: 28)

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لَا تَتَّخِذُوا الْكَافِرِينَ أَوْلِيَاءَ مِنْ دُونِ الْمُؤْمِنِينَ-( النساء-144)

-Ó vós que credes! Não tomeis os incrédulos como vossos amigos, deixando de lado os crentes. (An-Nissá: 144)

أَمْ حَسِبْتُمْ أَنْ تُتْرَكُوا وَلَمَّا يَعْلَمِ اللَّهُ الَّذِينَ جَاهَدُوا مِنْكُمْ وَلَمْ يَتَّخِذُوا مِنْ دُونِ اللَّهِ وَلَا رَسُولِهِ وَلَا الْمُؤْمِنِينَ وَلِيجَةً-( التوبة-16)

-Pensais que sereis deixados assim, sem mais nem menos, embora Allah ainda não tenha mostrado quem, dentre vós, lutou em Seu caminho e não tomou ninguém como amigo íntimo, exceto Allah, o Mensageiro e os crentes. (At-Tawba: 16)

Neste versículo da surata At-Tawba, o discurso é dirigido àqueles que haviam se tornado muçulmanos recentemente. Foi-lhes dito que, enquanto não atravessassem esta prova de fogo e demonstrassem, na realidade, considerar Allah e Sua religião mais queridos do que suas próprias vidas, bens, irmãos e amigos, não seriam considerados crentes verdadeiros. Até agora, porém, evidentemente, a vossa situação é a seguinte: como o Islam triunfou e se espalhou por todo o país graças aos esforços incansáveis dos verdadeiros crentes e dos primeiros predecessores, vós vos tornastes muçulmanos. (164)

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لَا تَتَّخِذُوا آبَاءَكُمْ وَإِخْوَانَكُمْ أَوْلِيَاءَ إِنِ اسْتَحَبُّوا الْكُفْرَ عَلَى الْإِيمَانِ وَمَنْ يَتَوَلَّهُمْ مِنْكُمْ فَأُولَئِكَ هُمُ الظَّالِمُونَ – قُلْ إِنْ كَانَ آبَاؤُكُمْ وَأَبْنَاؤُكُمْ وَإِخْوَانُكُمْ وَأَزْوَاجُكُمْ وَعَشِيرَتُكُمْ وَأَمْوَالٌ اقْتَرَفْتُمُوهَا وَتِجَارَةٌ تَخْشَوْنَ كَسَادَهَا وَمَسَاكِنُ تَرْضَوْنَهَا أَحَبَّ إِلَيْكُمْ مِنَ اللَّهِ وَرَسُولِهِ وَجِهَادٍ فِي سَبِيلِهِ فَتَرَبَّصُوا حَتَّى يَأْتِيَ اللَّهُ بِأَمْرِهِ وَاللَّهُ لَا يَهْدِي الْقَوْمَ الْفَاسِقِينَ-( التوبة-23-24)

-Ó vós que crestes! Não tomeis vossos pais e irmãos como amigos íntimos se eles preferem a descrença à fé. Aqueles dentre vós que os tomarem como amigos serão os injustos. Ó Profeta! Dize-lhes: se vossos pais, vossos irmãos, vossas esposas, vossos amigos e parentes, os bens que adquiristes, vossas esposas, vossos amigos e parentes, os bens que adquiristes, vosso comércio, cuja estagnação temeis, e vossas casas, das quais gostais, forem mais queridos para vós do que Allah, Seu Mensageiro e o jihad em Seu caminho, então aguardai até que Allah tome Sua decisão a vosso respeito. E Allah não guia o povo transgressor.

قَدْ كَانَتْ لَكُمْ أُسْوَةٌ حَسَنَةٌ فِي إِبْرَاهِيمَ وَالَّذِينَ مَعَهُ إِذْ قَالُوا لِقَوْمِهِمْ إِنَّا بُرَآءُ مِنْكُمْ وَمِمَّا تَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ كَفَرْنَا بِكُمْ وَبَدَا بَيْنَنَا وَبَيْنَكُمُ الْعَدَاوَةُ وَالْبَغْضَاءُ أَبَدًا حَتَّى تُؤْمِنُوا بِاللَّهِ وَحْدَهُ-( الممتحنة-4)

-Tendes um excelente exemplo em Ibrahim (que a paz esteja com ele) e em seus companheiros, quando disseram ao seu povo: “Estamos livres de vós e dos ídolos que adorais além de Allah. Rejeitamo-vos, e entre nós e vós estabeleceram-se para sempre a inimizade e o ódio, e começou a oposição, até que creiais no Allah Único.” (Al-Mumtahina: 4)

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لَا تَتَّخِذُوا عَدُوِّي وَعَدُوَّكُمْ أَوْلِيَاءَ تُلْقُونَ إِلَيْهِمْ بِالْمَوَدَّةِ وَقَدْ كَفَرُوا بِمَا جَاءَكُمْ مِنَ الْحَقِّ يُخْرِجُونَ الرَّسُولَ وَإِيَّاكُمْ أَنْ تُؤْمِنُوا بِاللَّهِ رَبِّكُمْ إِنْ كُنْتُمْ خَرَجْتُمْ جِهَادًا فِي سَبِيلِي وَابْتِغَاءَ مَرْضَاتِي-( الممتحنة-1)

-Ó crentes! Se saístes [deixando vossos lares] para combater em Meu caminho e buscar a Minha satisfação, não tomeis como amigos os Meus inimigos e os vossos inimigos. Vós lhes demonstrais amizade, embora eles tenham rejeitado a verdade que vos chegou. Eles expulsaram o Mensageiro e a vós de vossas casas porque crestes em Allah, vosso Senhor. (Al-Mumtahina: 1)

لَا تَجِدُ قَوْمًا يُؤْمِنُونَ بِاللَّهِ وَالْيَوْمِ الْآخِرِ يُوَادُّونَ مَنْ حَادَّ اللَّهَ وَرَسُولَهُ وَلَوْ كَانُوا آبَاءَهُمْ أَوْ أَبْنَاءَهُمْ أَوْ إِخْوَانَهُمْ أَوْ عَشِيرَتَهُمْ أُولَئِكَ كَتَبَ فِي قُلُوبِهِمُ الْإِيمَانَ وَأَيَّدَهُمْ بِرُوحٍ مِنْهُ-( المجادلة-22)

-Nunca vereis aqueles que creem em Allah e no Além manterem amizade com os que se opuseram a Allah e ao Seu Mensageiro, ainda que sejam seus pais, filhos, irmãos ou membros de sua família. São pessoas em cujos corações Allah gravou a fé e às quais fortaleceu e honrou com um espírito vindo d’Ele. (Al-Mujādilah: 22)

Neste versículo da Surata Al-Mujādilah são apresentadas duas questões: uma de princípio e outra, a descrição de um acontecimento real.

Em princípio, afirma-se que a fé na religião da verdade e o amor pelos inimigos da religião são duas coisas mutuamente contraditórias. De modo algum se pode conceber a união dessas duas coisas. É absolutamente impossível que a fé e o amor pelos inimigos de Allah e do Mensageiro possam coexistir no mesmo coração. Do mesmo modo, no coração de uma pessoa não podem coexistir simultaneamente o amor por sua própria pessoa e o amor por seus inimigos. Portanto, se virdes alguém que afirma ter fé e, ao mesmo tempo, mantém relações de amor com pessoas contrárias ao Islã, não deveis deixar-vos confundir pela ideia de que talvez, apesar de tal comportamento, ele seja sincero em sua afirmação de fé. Aqueles que mantêm simultaneamente a mesma relação com o Islã e com os seus opositores devem refletir cuidadosamente sobre sua própria condição e perguntar-se o que realmente são: crentes ou hipócritas? Se tiverem sequer um pouco de sinceridade e conservarem alguma consciência de que, moralmente, a hipocrisia é a pior conduta para o ser humano, devem abandonar essa tentativa de montar em dois barcos. A fé exige deles uma decisão firme. Se quiserem permanecer crentes, terão de romper todo parentesco e toda relação que entre em conflito com o Islã. Se aceitarem outra relação como mais querida do que a relação com o Islã, deverão abandonar a falsa afirmação de fé.

Até aqui, trata-se da questão de princípio. Mas Allah, o Altíssimo, não considerou suficiente expor aqui apenas o princípio. Pelo contrário, apresentou também um acontecimento real, como exemplo diante daqueles que afirmam ter fé: os que eram verdadeiramente crentes romperam, diante dos olhos de todos, todos os vínculos que constituíam um obstáculo à religião de Allah. Foi um acontecimento real que toda a Arábia pôde testemunhar nas batalhas de Badr e Uhud. Os nobres Companheiros que emigraram de Meca para Medina combateram seus próprios clãs e parentes próximos exclusivamente por Allah e por Sua religião.

Hazrat Abu Ubaydah (r.a.) matou seu pai, Abdullah ibn al-Jarrah. Hazrat Mus’ab ibn Umayr (r.a.) matou seu próprio irmão, Ubayd ibn Umayr. Hazrat Umar (r.a.) matou seu tio materno, As ibn Hisham ibn al-Mughirah. Hazrat Abu Bakr (r.a.) preparou-se para lutar contra seu próprio filho, Abd al-Rahman. Hazrat Ali (r.a.), Hazrat Hamzah (r.a.) e Hazrat Ubaydah ibn al-Harith mataram Utbah, Shaybah e al-Walid ibn Utbah, que eram seus parentes próximos. Hazrat Umar (r.a.) pediu ao Profeta (s.a.w.), a respeito dos prisioneiros da batalha de Badr, que todos fossem mortos e que cada um dentre nós matasse seu próprio parente. Nessa batalha de Badr, um homem dos Ansar estava capturando e amarrando Abu Aziz ibn Umayr, irmão consanguíneo de Mus’ab ibn Umayr. Ao ver isso, Hazrat Mus’ab gritou: “Amarra-o firmemente. A mãe dele é muito rica; ela te dará um grande resgate por sua libertação.” Abu Aziz disse: “Sendo meu irmão, dizes uma coisa dessas?” Hazrat Mus’ab respondeu: “Neste momento, tu não és meu irmão; este Ansari que te capturou é que é meu irmão.” Nessa mesma batalha de Badr foram feitos prisioneiros Abbas, tio do próprio Profeta (s.a.w.), e Abu al-As, seu genro (marido de Zaynab (r.a.), filha do Profeta). Contudo, não lhes foi dispensado nenhum tratamento diferenciado com base no parentesco com o Mensageiro (s.a.w.), que os distinguisse, ainda que minimamente, dos demais prisioneiros. Assim, no mundo dos acontecimentos reais, foi mostrado aos habitantes do mundo como é um muçulmano genuíno e como é sua relação com Allah e com a Sua religião.

Ad-Daylami cita, transmitida por Hazrat Mu’adh (r.a.), a seguinte súplica do Mensageiro de Allah (s.a.w.):

“-Ó Deus! Não permitas que um fājir (em outra transmissão, um fāsiq) me demonstre bondade, fazendo nascer em meu coração amor por ele. Pois encontrei na revelação que fizeste descer que não encontrarás aqueles que creem em Allah e na religião do Além nutrindo amor pelos que se opõem a Allah e ao Seu Mensageiro. (165)

Não se pode abandonar a fé por consideração a ninguém.

وَوَصَّيْنَا الْإِنْسَانَ بِوَالِدَيْهِ حَمَلَتْهُ أُمُّهُ وَهْنًا عَلَى وَهْنٍ وَفِصَالُهُ فِي عَامَيْنِ أَنِ اشْكُرْ لِي وَلِوَالِدَيْكَ إِلَيَّ الْمَصِيرُ – وَإِنْ جَاهَدَاكَ عَلَى أَنْ تُشْرِكَ بِي مَا لَيْسَ لَكَ بِهِ عِلْمٌ فَلَا تُطِعْهُمَا وَصَاحِبْهُمَا فِي الدُّنْيَا مَعْرُوفًا-( لقمان-14-15)

—Nós mesmos ordenamos ao ser humano que reconheça os direitos de seus pais. Sua mãe o carregou no ventre, suportando sofrimento sobre sofrimento, e foram necessários dois anos para o desmamar. (Por isso, nós o aconselhamos:) Sê grato a Mim e a teus pais. A Mim será o vosso retorno. Mas, se eles te pressionarem para que associes a Mim alguém de quem não tens conhecimento de que seja Meu associado, jamais lhes obedeças. Contudo, trata-os bem neste mundo. (Luqman: 14-15)

وَوَصَّيْنَا الْإِنْسَانَ بِوَالِدَيْهِ حُسْنًا وَإِنْ جَاهَدَاكَ لِتُشْرِكَ بِي مَا لَيْسَ لَكَ بِهِ عِلْمٌ فَلَا تُطِعْهُمَا-( العنكبوت-8)

—Nós orientamos o ser humano a tratar bem seus pais. Mas, se eles te pressionarem para que associes a Mim outro ser, que tu não reconheces como Meu associado, não lhes obedeças. (Al-Ankabut: 8)

A respeito deste versículo da surata Al-Ankabut, os relatos de Muslim, Tirmidhi, Ahmad, Abu Dawud e Nasa’i afirmam que ele foi revelado sobre Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele aceitou o Islã aos 18 ou 19 anos. Sua mãe era Hamna bint Sufyan ibn Umayya (sobrinha de Abu Sufyan). Quando soube que seu filho havia se tornado muçulmano, ela disse: “Enquanto não renegares Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não comerei nem beberei. Tampouco me sentarei à sombra. Honrar a mãe é uma ordem de Allah. Se não obedeceres ao que digo, estarás desobedecendo também a Allah.”

Hazrat Sa’d ficou terrivelmente aflito com isso e, ao comparecer perante o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), contou-lhe tudo. Foi então revelado este versículo a respeito do caso. É possível que outros jovens que haviam aceitado o Islã nos primeiros tempos em Meca também tenham enfrentado essa situação. Por isso, este assunto foi repetido com grande ênfase naquele versículo da surata Luqman que citamos acima.

O objetivo do versículo é este: se, entre toda a criação, alguém possui o maior direito sobre uma pessoa, são certamente seus pais; contudo, se até os pais a obrigarem a praticar o politeísmo, não se deve obedecer-lhes. Quanto mais isso não deve ser feito por ordem de qualquer outra pessoa. As palavras da instrução eram وان جاهدكisto é, se ambos empregarem toda a sua força para obrigar-te. Disso se soube que até mesmo uma pressão relativamente menor, ou a pressão exercida por apenas um dos pais, deve ser rejeitada. Além disso, é digno de atenção ماليس لك به علمSeu significado é: aquele que tu não reconheces como Meu associado. Foi apresentada uma justificativa legítima para não obedecer aos pais. Certamente os pais também têm o direito de que os filhos os sirvam, os honrem e respeitem, e sigam suas instruções lícitas. Mas ninguém tem o direito de seguir cegamente os pais contra aquilo que conhece. Um filho ou uma filha não pode seguir uma religião simplesmente porque ela é a religião de seus pais. Se os filhos souberem que a religião dos pais é falsa, devem abandoná-la e adotar uma religião correta. Mesmo sob a pressão dos pais, não devem seguir um caminho cuja desorientação seja evidente. E, se essa atitude deve ser adotada em relação aos pais, pode sê-lo em relação a qualquer pessoa no mundo. Não é correto seguir cegamente pessoa alguma, até que se saiba que ela está firmemente estabelecida na verdade. (166)

وَقَالَ الَّذِينَ كَفَرُوا لِلَّذِينَ آمَنُوا اتَّبِعُوا سَبِيلَنَا وَلْنَحْمِلْ خَطَايَاكُمْ وَمَا هُمْ بِحَامِلِينَ مِنْ خَطَايَاهُمْ مِنْ شَيْءٍ إِنَّهُمْ لَكَاذِبُونَ – وَلَيَحْمِلُنَّ أَثْقَالَهُمْ وَأَثْقَالًا مَعَ أَثْقَالِهِمْ وَلَيُسْأَلُنَّ يَوْمَ الْقِيَامَةِ عَمَّا كَانُوا يَفْتَرُونَ-( العنكبوت-12-13)

— Os incrédulos dizem aos crentes: “Segui o nosso caminho, e nós carregaremos o peso dos vossos erros.” No entanto, eles não carregarão nada dos seus erros. Estão certamente mentindo. Sim, carregarão os seus próprios fardos e, além dos seus próprios fardos, muitos outros fardos. E, no Dia da Ressurreição, certamente serão chamados a prestar contas pelas falsidades que inventam. (Al-Ankabut: 12-13)

O sentido dessas palavras dos incrédulos era que as afirmações sobre a vida após a morte, a ressurreição, o acerto de contas, a recompensa e coisas semelhantes eram engano e fraude; mas, se de fato existisse uma vida após a morte e nela houvesse algum interrogatório, então assumimos a responsabilidade de carregar sobre os nossos próprios ombros, perante Deus, todo o castigo. Estamos dizendo: abandonai esta nova religião e retornai à religião dos vossos antepassados.

Relata-se, a respeito de vários chefes coraixitas, que, no início, quando algumas pessoas aceitavam o Islã, esses homens iam encontrar-se com elas e diziam coisas desse tipo. Também se relata, a respeito de Umar (que Deus esteja satisfeito com ele), que, quando ele abraçou a fé, Abu Sufyan e Harb ibn Umayya ibn Khalaf foram encontrá-lo e disseram-lhe exatamente isso.

Por isso se disse que, em primeiro lugar, é absolutamente impossível que alguém assuma perante Deus a responsabilidade por outra pessoa e que, por causa da promessa de alguém, o pecador escape pessoalmente ao castigo dos seus pecados. Pois, lá, cada pessoa será responsável por suas próprias obras.(Árabe************************)

Mas, mesmo que isso fosse possível, quando a consequência do kufr e do shirk se apresentar sob a forma de um Inferno ardente, quem terá a coragem de, por constrangimento diante da promessa feita neste mundo, dizer: “Senhor! Perdoai e enviai ao Paraíso a pessoa que, por causa das minhas palavras, abandonou a fé e seguiu o caminho da apostasia ou da renúncia à religião. E estou pronto para sofrer, juntamente com o castigo do meu kufr, também o castigo do kufr dela”? (167)

É proibido implorar perdão para os incrédulos

مَا كَانَ لِلنَّبِيِّ وَالَّذِينَ آمَنُوا أَنْ يَسْتَغْفِرُوا لِلْمُشْرِكِينَ وَلَوْ كَانُوا أُولِي قُرْبَى مِنْ بَعْدِ مَا تَبَيَّنَ لَهُمْ أَنَّهُمْ أَصْحَابُ الْجَحِيمِ-( التوبة-113)

-Não cabe ao Profeta e aos crentes pedir perdão pelos idólatras, ainda que sejam seus parentes, quando lhes está claro que são merecedores do Inferno. (At-Tawba: 113)

Pedir perdão por alguém significa, em primeiro lugar, demonstrar simpatia e amor por essa pessoa. Em segundo lugar, significa considerar seus erros dignos de perdão. Isso se aplica àquele que faz parte dos obedientes, mas é apenas pecador. Porém, demonstrar simpatia e amor por quem é abertamente rebelde, e considerar seus crimes perdoáveis, não é apenas errado em princípio; além disso, nossa própria obediência — nós que pedimos perdão — torna-se suspeita. Se, apenas por causa do parentesco, quisermos que ele seja perdoado, isso significa que, para nós, o vínculo de parentesco é mais valioso que a exigência da obediência a Deus. Significa também que nosso amor por Deus e por Sua religião não é desinteressado nem imparcial. E, quanto à relação amistosa que mantemos com os rebeldes contra Deus, queremos que o próprio Deus aceite essa relação e certamente perdoe nossos parentes, mesmo que lance no Inferno os demais culpados do mesmo crime. Tudo isso é falso e contrário à sinceridade e à obediência. É também contrário à fé, cuja exigência é que nosso amor por Deus e por Sua religião seja absolutamente imparcial: os amigos de Deus são nossos amigos, e os inimigos d’Ele são nossos inimigos. Por isso, Deus Todo-Poderoso não disse: “Não peçais perdão pelos idólatras”; antes, disse: “Não vos convém, não é vosso dever, pedir perdão por eles”. Isto é, se, depois de Minha proibição, vós vos abstiverdes disso, tal abstinência não será grande coisa. O sentimento de obediência em vós deve ser tão intenso que demonstrar simpatia por quem se rebela contra Mim e considerar seus crimes dignos de perdão vos pareça, por si só, algo impróprio para vós mesmos.

Aqui também se deve compreender que a simpatia pelos rebeldes contra Deus foi proibida apenas quando essa simpatia interfere na questão da religião. Já a solidariedade humana, a compaixão e a benevolência para com parentes próximos nas relações mundanas, a caridade, a generosidade e o tratamento afetuoso não são proibidos; pelo contrário, são louváveis. Quer o parente seja incrédulo ou crente, seus direitos mundanos devem ser plenamente cumpridos. É preciso ajudar os necessitados e providenciar meios de subsistência para os desafortunados. Não se deve deixar de oferecer ajuda e solidariedade aos doentes e feridos. Deve-se estender uma mão afetuosa e carinhosa aos órfãos. Nessas questões, jamais se deve fazer distinção entre quem é muçulmano e quem não é.

O casamento com eles e as relações de herança também são proibidos

لَا هُنَّ حِلٌّ لَهُمْ وَلَا هُمْ يَحِلُّونَ لَهُنَّ-( الممتحنة-10)

-Nem as mulheres muçulmanas são lícitas para os incrédulos, nem os incrédulos são lícitos para elas. (Al-Mumtahana: 10)

وَلَا تُمْسِكُوا بِعِصَمِ الْكَوَافِرِ-( الممتحنة-10)

-E (vós também) não mantenhais as mulheres incrédulas presas aos vossos vínculos matrimoniais. (Al-Mumtahana: 10)

Há, contudo, esta diferença nesta determinação: os homens muçulmanos podem casar-se com as mulheres do Povo do Livro, conforme está dito no versículo 5 da Surata Al-Ma’idah. Quanto às mulheres muçulmanas, a questão é que elas não são lícitas nem permitidas a ninguém além de um homem muçulmano.

وَلَا تَنْكِحُوا الْمُشْرِكَاتِ حَتَّى يُؤْمِنَّ وَلَأَمَةٌ مُؤْمِنَةٌ خَيْرٌ مِنْ مُشْرِكَةٍ وَلَوْ أَعْجَبَتْكُمْ وَلَا تُنْكِحُوا الْمُشْرِكِينَ حَتَّى يُؤْمِنُوا وَلَعَبْدٌ مُؤْمِنٌ خَيْرٌ مِنْ مُشْرِكٍ وَلَوْ أَعْجَبَكُمْ-( البقرة(Al-Baqarah: 221)

—Não vos caseis com mulheres politeístas até que creiam. Uma escrava crente é melhor do que uma mulher de nobre linhagem politeísta, ainda que ela vos agrade muito. E não deis vossas filhas em casamento a homens politeístas até que creiam. Um escravo crente é melhor do que um politeísta de nobre linhagem, ainda que ele vos agrade muito. (Al-Baqarah: 221)

É narrado por Usama ibn Zayd que o Mensageiro de Deus disse: —(Árabe*****************)

—Nem um muçulmano pode herdar de um incrédulo, nem um incrédulo pode herdar de um muçulmano. (Bukhari, Muslim, Nasa’i, Ahmad, Tirmidhi, Ibn Majah, Abu Dawud).

Os incrédulos são de dois tipos, e a diferença no tratamento que lhes é dado

Assim, depois de separar completamente a comunidade muçulmana dos incrédulos, foi estabelecida uma diferença, sob um aspecto, no tratamento dos muçulmanos para com os dois tipos de incrédulos. Isto é: Deus não vos proíbe tratar com bondade e justiça aqueles que não vos combateram por causa da religião e não vos expulsaram de vossas casas. Deus ama os que são justos. O que Ele vos proíbe é fazer amizade com aqueles que vos combateram por causa da religião, vos expulsaram de vossas casas e ajudaram uns aos outros na vossa expulsão. E aqueles que fizerem amizade com eles são injustos. (Al-Mumtahanah: 8–9)

Em outras palavras, foi ordenado aos muçulmanos que procedam com base na distinção entre os incrédulos inimigos e os incrédulos não inimigos. Devem tratar bem aqueles incrédulos que jamais lhes fizeram mal. Um excelente esclarecimento disso encontra-se em um acontecimento. Abu Bakr tinha uma esposa incrédula, em cujo ventre nasceu sua filha Asma bint Abi Bakr. Ela permaneceu em Meca. Depois do Tratado de Hudaybiyyah, quando começaram as viagens entre os habitantes de Meca e Medina, a esposa incrédula de Abu Bakr veio a Medina para visitar a filha. Ela também trouxe alguns presentes.

A própria Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Então fui pessoalmente ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e perguntei se podia visitar minha mãe e tratá-la com consideração por nosso parentesco. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sim, visita-a e trata-a também com consideração por seu parentesco” (Musnad Ahmad, Bukhari, Muslim). Disso se conclui que é permitido a um muçulmano ajudar seus pais, irmãos e demais parentes não muçulmanos, desde que eles não sejam inimigos do Islã. Da mesma forma, também se pode dar caridade a um pobre dhimmi (Ahkam al-Qur’an, Ruh al-Ma‘ani). (169)

A verdadeira posição da Ummah muçulmana

Assim, a comunidade (grupo) que passou a existir não era, em sentido algum, uma nação. Sua verdadeira posição pode ser bem compreendida por meio das palavras utilizadas no Alcorão e nos hadiths.

Hizb

Uma dessas palavras é “hizb”, usada em dois lugares para designar os muçulmanos (Al-Ma’idah, versículo 56; Al-Mujadalah, versículo 22). Essa palavra é precisamente sinônima de partido ou grupo. Em ambos os lugares, os muçulmanos são chamados de “Hizbullah” (o grupo de Allah). Ou seja, são as pessoas desse grupo que se consagraram ao trabalho de Allah. Uma nação se constitui com base na linhagem e na família, enquanto um grupo se constitui com base em princípios e ideologia. Nesse sentido, os muçulmanos, na realidade, não são uma nação, mas um grupo. Pois foram separados do restante do mundo e vinculados uns aos outros unicamente porque creem em determinado princípio e ideologia e os seguem. Já aqueles cujos princípios e ideologia não coincidem com os deles, mesmo que sejam seus parentes mais próximos, não têm com eles qualquer afinidade.

O Alcorão reconhece apenas dois grupos entre os habitantes da Terra: um é o grupo de Allah (Hizbullah), e o outro é o grupo de Satanás (Hizb al-Shaytan). Por maiores que sejam as diferenças de princípios e ideologia dentro do grupo de Satanás, o Alcorão considera todos eles iguais. Isso porque seu modo de pensar e de agir não é islâmico e, apesar das pequenas divergências, todos concordam em obedecer a Satanás. O Alcorão diz:

اسْتَحْوَذَ عَلَيْهِمُ الشَّيْطَانُ فَأَنْسَاهُمْ ذِكْرَ اللَّهِ أُولَئِكَ حِزْبُ الشَّيْطَانِ أَلَا إِنَّ حِزْبَ الشَّيْطَانِ هُمُ الْخَاسِرُونَ-(المجادلة-19)

—Satanás tomou controle deles e fez com que esquecessem a lembrança de Allah. Eles são as pessoas do grupo de Satanás. Ficai atentos: são as pessoas do grupo de Satanás que sofrerão a perdição. (Al-Mujadalah: 19)

Bem ao contrário, por mais diferentes que sejam entre si os membros do partido de Deus em termos de linhagem, pátria, raça, língua, história e tradições — e por mais que entre seus antepassados tenha existido uma inimizade marcada por derramamento mútuo de sangue —, quando chegaram a concordar quanto ao pensamento e ao modo de vida prescritos por Deus, foi como se tivessem sido unidos pela corda divina (Hablullah); e, ao ingressarem nesse novo grupo, romperam todos os seus vínculos com os partidários do partido de Satanás.

Ummah

A segunda palavra usada no Alcorão, em quatro lugares (Al-Baqarah: 128, 143; Aal Imran: 104, 110), no sentido de grupo, é ummah. Essa palavra também é usada muitas vezes nos hadiths. Chama-se ummah ao grupo cujos membros são reunidos por algum assunto abrangente. Assim, as pessoas de uma determinada época eram chamadas de ummah. As pessoas de uma mesma linhagem ou de um mesmo país também eram chamadas de ummah. Contudo, a verdadeira base da universalidade pela qual os muçulmanos são chamados de ummah não é a linhagem, a pátria ou os interesses econômicos; é, antes, a missão de sua vida, seus princípios fundamentais e seu modo de conduzir a vida. Com efeito, o Alcorão diz:

(Árabe***************)

— Sois a melhor ummah que foi suscitada para a humanidade. Ordenais o bem, proibis o mal e credes em Deus. (Aal Imran: 110)

(Árabe***************)

— E assim fizemos de vós uma ummah intermediária, para que sejais supervisores da humanidade e para que o Mensageiro seja vosso supervisor. (Al-Baqarah: 143)

É claramente evidente, a partir desses dois versículos, que o “muçulmano” é, na realidade, um grupo internacional. De todas as nações do mundo foram escolhidas as pessoas que foram preparadas para seguir um princípio específico, executar um programa específico e cumprir uma missão. Como essas pessoas saíram de cada nação e, depois de se transformarem em um grupo, deixaram de ter vínculo com qualquer nação, constituem uma ummah própria. Contudo, depois de romperem os vínculos com todas as nações, foi estabelecida entre elas e todas as nações uma segunda relação. Essa relação consiste em que elas desempenharão no mundo a responsabilidade de comandantes do exército de Deus. As palavras “sois supervisores da humanidade” dizem que o muçulmano foi nomeado por Deus comandante no mundo; e as palavras “foi suscitada para a humanidade” afirmam claramente que a missão dos muçulmanos é uma missão internacional. O cerne dessa missão é que, por meio da aplicação de todas as forças intelectuais, morais e materiais, o líder do partido de Deus, Sayyiduna Muhammad, possa tornar efetivo no mundo o sistema de pensamento e ação que Deus lhe concedeu e possa fazer prevalecer esse sistema sobre todos os demais sistemas e métodos —(Árabe****************)É sobre essa base que o muçulmano foi constituído como uma ummah.

Jamaat

O terceiro termo técnico que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) usou em muitos lugares para designar a condição coletiva dos muçulmanos é “Jamaat”; e este termo também é sinônimo de grupo, tal como “Hizb”.

Ao se prestar atenção a muitos hadiths desse tipo, percebe-se que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) evitou usar “Qawm”, “Sha’b” ou qualquer outro termo equivalente, empregando em seu lugar o termo técnico “Jamaat”. Ele nunca disse: “Permanecei sempre com o Qawm”, nem: “A mão de Allah está sobre o Qawm”. Pelo contrário, em todos esses casos, usava a palavra “Jamaat”. A razão disso é simplesmente — e talvez seja porque — ela é mais adequada para expressar a forma de união dos muçulmanos. A palavra “Qawm”, em geral, é usada num sentido pelo qual uma pessoa pode pertencer a uma nação, seja qual for a doutrina ou o princípio que siga, desde que tenha nascido entre aquele povo e esteja ligada a ele por seu nome, seu modo de vida e suas relações sociais.

A diferença entre um grupo ideológico e um grupo nacional

Há, então, um tipo de grupo que possui uma determinada ideologia e um programa de ação política tendo em vista as circunstâncias específicas de uma nação ou de um país. Esse tipo de grupo é simplesmente um partido político. Por isso, pode atuar como parte integrante da nação por meio da qual surgiu, e de fato atua dessa maneira.

O segundo tipo é aquele que surge com uma ideologia e uma visão universais. Para ele, existe uma ideologia universal destinada a toda a humanidade, independentemente de nação ou pátria. Ele deseja moldar toda a vida de uma maneira específica. Quer reorganizar segundo seu próprio modelo todos os aspectos, desde sua ideologia e modo de vida, sua crença e seu pensamento, seus princípios e sua moralidade, até os pormenores da conduta individual e da organização social coletiva. Deseja estabelecer uma cultura permanente e uma civilização específica. Embora também seja um grupo, não é do tipo que pode atuar como parte de uma nação. Ele se eleva acima do nacionalismo limitado. Sua missão é eliminar os preconceitos cegos que deram origem, no mundo, a diferentes nações com base na linhagem, na raça, na língua, na pátria e na tradição. Como esse grupo poderia vincular-se a essas nações? Em lugar das nacionalidades hereditárias e históricas, cria uma nacionalidade racional. Em lugar da nacionalidade herdada, cria uma nacionalidade expansiva. Ele próprio se transforma numa nacionalidade destinada a reunir, em seu âmbito, todos os povos do mundo com base na unidade de pensamento e cultura. Contudo, embora seja uma nacionalidade nesse sentido, continua sendo um grupo. Isso porque sua adesão não depende do nascimento fortuito das pessoas; depende, antes, da adesão consciente à ideologia e ao modo de vida sobre os quais esse grupo foi constituído.

Na realidade, muçulmano é o nome dado a esse segundo tipo de grupo. Não é um grupo formado dentro de uma nação. Pelo contrário, é um tipo de grupo que surge com o objetivo de estabelecer uma ordem permanente e abrangente de vida, civilização e cultura, e que deseja, ultrapassando as estreitas fronteiras dos pequenos nacionalismos, formar uma grande nacionalidade universal sobre bases racionais. É correto chamá-lo de nação no sentido de que ele não está disposto a vincular-se emocionalmente a nenhuma das nações do mundo baseadas na linhagem, na história e na tradição. Pelo contrário, constrói separadamente seu próprio edifício cultural de acordo com sua visão da vida e sua concepção da sociedade. Mas, embora seja uma nação distinta nesse sentido, na realidade continua sendo um grupo. Isso porque o simples nascimento casual não pode tornar ninguém membro desse grupo enquanto a pessoa não acreditar em sua ideologia e não a seguir. Assim, o fato de uma pessoa ter nascido em outra nação não a impede de sair de sua própria nação e juntar-se ao grupo, caso esteja disposta a acreditar em sua ideologia. Portanto, tudo o que dissemos significa, na realidade, que a nacionalidade dos muçulmanos se baseia no fato de eles constituírem um grupo. A condição de grupo é a raiz, e a condição de nacionalidade é seu ramo. Se a condição de grupo for separada dela, ela se reduz a uma simples nação, e isso representa sua decadência. Mais que isso, significa, na realidade, a negação de sua existência como muçulmana.

Resumo da discussão

Embora a organização distinta da Ummah muçulmana sob a liderança do Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) e a formação de uma sociedade completamente separada da sociedade não muçulmana só tenham sido possíveis gradualmente, ao longo de alguns anos, e não da noite para o dia, a natureza do chamado islâmico fez com que as pessoas percebessem para onde esse movimento estava avançando e que revolução acabaria por trazer. Por isso, aqueles que queriam preservar a antiga sociedade da jahiliyyah ficaram extremamente inquietos e empregaram todas as suas forças para impedir o surgimento dessa nova Ummah em seu próprio meio. (171)

Sétima seção

A diferença entre a obra de um profeta e a de um líder não profético

Ao final desta discussão, consideramos necessário compreender claramente, à luz de tudo o que foi dito até aqui, a diferença entre a liderança e o método de atuação de um profeta e os de um líder não profético.

Quando o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) recebeu a missão de transmitir o chamado islâmico na Arábia, havia no mundo inteiro — inclusive em sua própria terra — inúmeros problemas morais, civilizacionais, econômicos e políticos cuja solução era indispensável. Os dois impérios, Romano e Iraniano, encontravam-se no auge do despotismo. As desigualdades de linhagem e de classe estavam em seu ponto extremo. A opressão dos poderosos contra os fracos era insuportável. Várias formas de exploração econômica ilegal também se desenvolviam plenamente. A corrupção moral dos piores tipos havia se espalhado. A Arábia estava atormentada por problemas ainda maiores do que os desses países. O povo que vivia no mesmo país e falava a mesma língua estava dividido em inúmeras tribos, embora houvesse entre elas relações de parentesco mútuo quanto à linhagem e à descendência. Não existia entre eles sequer a ideia de uma “nação árabe”. Cada pessoa considerava sua própria tribo como sua nação. Por toda parte eram evidentes a desordem, as guerras civis, a insegurança, a ignorância, a decadência moral, a opressão e a tirania, a fome e a pobreza. Potências estrangeiras aproveitavam-se dessas fraquezas da Arábia e continuavam a infiltrar-se no país. Ao norte, sua ocupação já havia alcançado as fronteiras do Hejaz. O governo romano espalhava dinheiro e missionários pelo interior da Arábia para ampliar sua influência. O reino cristão da Abissínia, situado do outro lado da costa ocidental, vinha atacando o Iêmen e tentando conquistá-lo havia muito tempo. Certa vez, chegou até a enviar seu exército a Meca. O Irã havia estabelecido seu domínio sobre a costa oriental da Arábia e sobre algumas regiões do interior. Mais tarde, sua autoridade chegou até o Iêmen. A maior parte das terras férteis do Hejaz permanecia, havia vários séculos, sob o controle de judeus vindos de fora. Com sua rede de usura, eles mantinham os habitantes da Arábia presos.

Em tais circunstâncias, se surgisse na Arábia um líder do tipo reformador, ele talvez iniciasse sua obra tentando impedir os costumes e tradições da jahiliyyah, a corrupção moral e as guerras civis entre os próprios habitantes. Ou, levantando a questão dos ricos e dos pobres, incitaria e inflamaria os pobres contra os ricos, para que a fome do povo fosse saciada e a pobreza eliminada. Se surgisse um líder de natureza política, tentaria conquistar os árabes e torná-los seus seguidores, seduzindo-os com estas palavras: “Eu os transformarei em uma nação poderosa, expulsarei do país os saqueadores estrangeiros, transformarei a Arábia em um grande reino, promoverei o desenvolvimento do comércio, dos negócios e das artes, aumentarei seus recursos econômicos, eliminarei sua fome e, depois de adquirir força, lançarei agressões contra os países vizinhos, para que suas riquezas aumentem enormemente.”

Em todas essas atividades, a questão do caráter nem sequer se colocaria, e ele não hesitaria nem por um instante em recorrer a qualquer fraude, conspiração, astúcia, uso da força ou massacre para garantir o êxito de sua liderança política. Além disso, ambos os tipos de liderança seriam lideranças nacionalistas. Mesmo que se elevassem acima do fanatismo de sua própria tribo, no máximo chegariam ao fanatismo árabe; não conseguiriam alcançar uma perspectiva de consideração pelas outras nações e países.

O método de atuação distintivo do movimento islâmico

Primeiro, observemos por um momento o Mensageiro de Deus, enviado por Deus (s.a.). A situação e os problemas eram então precisamente aqueles descritos acima. Todos eram importantes, e nenhum podia ser negligenciado. O Profeta (s.a.) também não os considerava questões a serem ignoradas. No devido tempo, não apenas resolveu cada um deles um após outro, como também realizou e demonstrou aquela grandiosa revolução cuja concepção nenhum reformador não profético ou líder político poderia sequer ter imaginado. Contudo, ao iniciar sua missão, voltou-se de todas essas questões e concentrou toda a sua atenção em uma única reforma fundamental, que era a chave para resolver todos os problemas. Embora tenha nascido em uma tribo e numa cidade, desde o primeiro dia do movimento islâmico seu olhar estava voltado para toda a humanidade, à qual se levantara para convocar ao caminho reto. E a reforma fundamental para a qual concentrou todos os seus esforços, deixando de lado todos os demais problemas, era esta:

1. Que as pessoas creiam no tawhid, abandonem a adoração de todos os demais e adotem a adoração do Deus Único, considerando Seu mandamento de cumprimento obrigatório.

2) Que reconheçam Muhammad, o Mensageiro de Deus (s.a.), como Mensageiro de Deus e sigam toda a orientação, os ensinamentos e as leis que, por meio dele, chegaram da parte de Deus.

3) Que reconheçam o Alcorão como a palavra de Deus e cumpram necessariamente suas ordens em todos os momentos.

4) Que creiam na Vida Futura e conduzam seus assuntos mundanos tendo em mente que, finalmente, após a morte, deverão comparecer diante de Deus e prestar contas de seus atos.

5) Que sigam, quanto aos aspectos bons e maus do caráter, os princípios imutáveis apresentados por Deus, por Seu Mensageiro e por Seu Livro.

6) Aqueles entre as pessoas que aceitarem este chamado deverão formar uma ummah que se levantará como portadora da bandeira desse chamado e deverá preparar-se para assumir enormes riscos de vida e de bens a fim de fazê-lo triunfar. Deverão permanecer plenamente unidos entre si e, formando uma sociedade própria para o futuro, romper suas relações de amizade, afeição e convivência social efetiva com a incredulidade e os incrédulos. (172)

A importância deste método de ação

A razão pela qual, inicialmente, se voltou as costas para todos os demais aspectos e se empregou toda a força exclusivamente nessa única reforma fundamental foi, em primeiro lugar, que esta era a obra correta e justa. E a verdadeira tarefa do Mensageiro é apresentar a verdade. A segunda razão era que, do ponto de vista do movimento islâmico, a verdadeira causa de todos os males e desordens que surgem na vida moral e civilizada do ser humano é ele se considerar independente e isento de responsabilidade; considerar-se seu próprio ilah e, deixando de lado o Ilah do universo, considerar outras pessoas ou entidades como detentoras dos atributos, da autoridade e dos direitos divinos. Enquanto esse mal e essa desordem permanecerem na raiz, nenhuma reforma superficial ou meramente aparente poderá, segundo a visão do Islã, eliminar a degradação individual ou os males coletivos. Se o mal for removido de um lado, ele erguerá a cabeça e se manifestará de outro. Portanto, o início da reforma só pode ocorrer da seguinte maneira: por um lado, deve-se remover da mente das pessoas a falsa ideia de independência e de ausência de prestação de contas, e dizer-lhes que o mundo em que vivem não é, na realidade, um reino sem governante. Pelo contrário, existe de fato um Rei soberano, e elas são súditas por nascimento. O Seu reinado não depende de que elas o reconheçam. Elas não podem pôr fim à Sua soberania, nem podem sair do Seu domínio e ir para outro lugar. Enquanto essa realidade imutável existir, a sua falsa ideia de liberdade não passa de uma concepção tola e equivocada, cujas consequências terão de suportar. A exigência da realidade é que se prostrem diretamente diante d’Ele e permaneçam como servos ou escravos obedientes. Por outro lado, também se deve apresentar-lhes este aspecto da realidade: em toda esta criação existe um único Rei, um único Proprietário e um único detentor da autoridade e do domínio. Aqui, ninguém mais tem o direito de dar ordens, e, na realidade, a ordem de ninguém mais prevalece. Portanto, que não sejam servas de ninguém além d’Ele, que não obedeçam às ordens de ninguém e que não se prostrem diante de ninguém. Aqui não existe nenhum His Majesty; a majestade pertence exclusivamente àquele Ser único. Aqui não existe nenhum His Highness; a verdadeira alteza só Lhe convém. Aqui não existe nenhum His Holiness; toda a santidade pertence exclusivamente a Ele. Aqui não existe nenhum His Lordship; todo o senhorio é uma parte que Lhe pertence. Aqui não existe legislador algum. A lei pertence unicamente a Ele; o direito de legislar e de punir a violação da lei pertence somente a Ele. Aqui não existe governo algum, nem qualquer doador benevolente, rei ou imperador, wali ou autoridade, removedor de aflições e calamidades, ou ouvinte de súplicas e solucionador de preces angustiadas. Ninguém possui as chaves do poder de governar. Ninguém é detentor de superioridade. Tudo, desde a terra até o céu, é formado por servos, escravos e obedientes. Há apenas um Senhor e Mestre. Portanto, é preciso abandonar toda forma de servidão, obediência e submissão, tornar-se servo e obediente somente d’Ele e aceitar apenas o Seu comando e governo.

Esta é a base fundamental de todas essas reformas. Sobre essa base, todo o edifício do caráter individual e do sistema coletivo é demolido e reduzido a ruínas, para depois ser reconstruído segundo um projeto especial. E todos os problemas da vida humana que surgiram desde Adão (que a paz esteja sobre ele) até hoje, e que surgirão de agora até o Dia do Juízo, serão resolvidos com base nela e de uma nova maneira.

O método de iniciar o convite do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não adotou, para convidar as pessoas a essa reforma fundamental, um método baseado em preparativos ou introduções prévios, pelo qual primeiro realizaria algumas ações de natureza política e social para conquistar influência entre as pessoas; depois, usando essa influência, obteria certos poderes governamentais e, empregando-os, conduziria as pessoas até essa etapa. Nada disso. Vemos ali alguém proclamando exclusivamente La ilaha illallah. Sua atenção não se voltou para nada menos que isso. A razão não foi apenas a coragem própria de um profeta e o entusiasmo pela transmissão da mensagem; na realidade, este é o método de ação do movimento islâmico. A influência e o poder que podem ser produzidos por outros meios não ajudam de modo algum a obra dessa reforma. Aqueles que colaboram com as pessoas com base em qualquer coisa que não seja ‘La ilaha illallah’ não serão úteis ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na obra de reconstrução sobre esse fundamento. Nesta obra, será mais proveitosa a participação daqueles que, assim que ouvirem La ilaha illallah, correrem em direção ao proclamador. É isso que os atrairá. Eles farão dessa realidade a base de suas vidas e, apoiados nela, avançarão para agir. Portanto, a exigência da estratégia e do programa especiais necessários para conduzir o movimento islâmico é que a obra comece diretamente com o convite ao tawhid, sem qualquer introdução.

A abrangência do conceito de tawhid

Esse conceito de tawhid não é apenas uma crença religiosa. Com ele, é extirpado todo o sistema da vida individual e social que se construiu sobre os fundamentos da liberdade humana e da autoridade e do domínio de outros além de Allah. E, sobre um segundo fundamento, é construído um novo edifício. Hoje, as pessoas ouvem calmamente o muezim do mundo elevar a voz com ‘Ashhadu alla ilaha illallah’. Nem o proclamador sabe o que está dizendo, nem os ouvintes percebem nele qualquer significado ou propósito. Mas, se soubessem que o objetivo dessa proclamação é declarar uma revolta contra todo o sistema atualmente vigente e estabelecer em seu lugar um novo sistema, creiam que essa voz não seria tolerada em parte alguma. Quer você vá lutar contra alguém ou não, o próprio mundo virá lutar contra você. Assim que elevar essa voz, parecerá que, de repente, a terra e o céu se tornaram seus inimigos, e você verá serpentes, escorpiões e feras por todos os lados.

A razão do sucesso desse método de ação

Foi isso que se viu naquela época, quando o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proclamou publicamente essa mensagem. O mensageiro fez seu chamado consciente e deliberadamente, e os ouvintes também o compreenderam; por isso, decidiram firmemente pôr fim àquela voz. Os adoradores de ídolos e os sacerdotes viram nela uma ameaça ao seu bramanismo e ao seu papismo; os ricos, aos seus tesouros; os usurários, aos seus negócios baseados em juros; os adoradores das linhagens, à sua superioridade hereditária; os adoradores dos costumes, às suas tradições e usos; os adoradores da nação, ao seu nacionalismo; e os adoradores dos antepassados, aos métodos e caminhos herdados de seus pais e avós. Em outras palavras, todos os adoradores de ídolos passaram a temer que seus próprios ídolos fossem destruídos por uma única voz. Por isso, de acordo com o princípio de que a incredulidade é uma só comunidade, aqueles que antes estavam em conflito uns com os outros uniram-se para lutar contra esse novo movimento. Nessa situação, somente se aproximaram do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aqueles cuja visão era lúcida, que tinham capacidade de compreender e aceitar a realidade e que possuíam tamanho amor pela honestidade que, ao saberem que algo era verdadeiro, se dispunham a lançar-se ao fogo e a brincar com a morte por sua causa. Eram pessoas assim que esse movimento necessitava. Elas começaram a chegar uma a uma, duas a duas, quatro a quatro, enquanto os conflitos e confrontos aumentavam. O sustento de alguns foi interrompido; familiares expulsaram outros de casa; amigos e entes queridos romperam relações com alguns. Uns foram presos; outros foram arrastados sobre a areia escaldante; alguns foram publicamente recebidos com pedras e insultos; os olhos de uns foram arrancados e a cabeça de outros foi esmagada. Houve ainda tentativas de comprar alguns mediante a oferta de mulheres, riquezas, reinos e tudo o que fosse possível imaginar. Tudo isso aconteceu e precisava acontecer. Sem essas provações, o movimento islâmico não poderia ter se fortalecido nem avançado.

O método natural para selecionar e educar os trabalhadores

O resultado inevitável disso foi que pessoas de caráter extremamente fraco e de vontade débil não conseguiam aproximar-se desse movimento. Os que vieram eram os mais capazes entre os filhos de Adão e, na realidade, aqueles de que se necessitava. Não havia outro meio de selecionar pessoas aptas entre os incapazes senão que todos os que chegassem passassem pelo fogo da provação. Além disso, os que vieram não tiveram de enfrentar perigos por interesses pessoais nem por objetivos familiares ou nacionais. Pelo contrário, tudo o que tiveram de suportar foi somente pela verdade e pela sinceridade, por Allah e pela Sua satisfação. Por isso apanharam, morreram de fome e sede e foram vítimas da opressão e da perseguição do mundo inteiro. O resultado foi que neles começou a formar-se a mentalidade islâmica correta e necessária. Formou-se neles um caráter islâmico firme e confiável. A sinceridade surgiu em sua adoração a Allah e continuou a crescer. Era natural que as realidades islâmicas se desenvolvessem nesse poderoso campo de treinamento constituído pelas provações e calamidades. Quando uma pessoa se levanta para alcançar um objetivo e avança enfrentando por ele conflitos e confrontos, esforços extremos, perigos, sofrimentos, inquietação, prisão e opressão, fome e sede, exílio e outras provações, então, graças à sua experiência pessoal, todas as realidades desse objetivo passam a dominar seu íntimo. Depois, toda a sua personalidade se transforma de acordo com esse objetivo. Como auxílio para alcançar a perfeição nesse aspecto, a oração foi a primeira obrigação que lhe foi imposta, para que fossem eliminados todos os riscos de ilusões ou obscuridade da visão e para que seu olhar permanecesse fixo em seu objetivo. Ao reconhecer repetidamente a autoridade daquele que aceitou como seu governante, ele deveria tornar-se firme em sua crença. A convicção de que Aquele segundo cuja ordem ele deve agir no mundo é o Conhecedor do oculto e do manifesto, o Dono louvadíssimo e o Soberano de toda a Sua criação deveria enraizar-se completamente em seu coração, de modo que, em nenhuma circunstância, nele encontrasse lugar a ideia de obedecer a alguém além d’Ele.

A razão da expansão do chamado islâmico

Por um lado, os recém-chegados eram educados dessa maneira; por outro, o movimento islâmico se expandia por causa desses conflitos e confrontos. Quando as pessoas viam que um pequeno grupo era espancado, preso e expulso de casa, certamente surgia nelas a curiosidade, e tentavam descobrir a razão de toda aquela agitação. Quando ficavam sabendo que aquilo não era por mulheres, dinheiro ou propriedades, que não havia qualquer interesse pessoal envolvido e que esses servos de Allah apanhavam apenas porque a verdade de uma questão lhes havia sido revelada, surgia espontaneamente em seus corações o desejo de saber qual era, afinal, essa coisa pela qual aquelas pessoas suportavam tantas calamidades. Depois, quando descobriam que essa coisa era “Lā ilāha illā Allāh” e que, por meio dela, ocorria uma revolução desse tipo na vida humana; quando viam que pessoas haviam entrado em campo com esse chamado, rejeitando todas as oportunidades mundanas por amor exclusivo à verdade e sacrificando suas vidas, riquezas e filhos, seus olhos se abriam e as camadas que cobriam seus corações começavam a ser removidas. Nesse contexto, essa verdade atingia seu alvo como uma flecha. Essa foi a razão pela qual todos, exceto aqueles que haviam sido cegados pelo orgulho de sua posição pessoal, pela ignorância da obediência cega aos antepassados ou pelo fascínio dos interesses mundanos, começaram a sentir-se atraídos por esse movimento. Alguns se sentiram atraídos rapidamente; outros resistiram a essa atração durante muitos anos. Mas, cedo ou tarde, toda pessoa amante da verdade e desinteressada teve de se vincular a essa verdade.

A extraordinária influência do caráter do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Durante esse período, o líder do movimento, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), esclareceu, por meio de sua vida, os princípios fundamentais do movimento e todos os aspectos por cuja causa ele existia. De cada palavra sua, de cada ato seu e de cada uma de suas atividades emanava a verdadeira força vital do Islã, e as pessoas compreendiam o que era o Islã.

Sua esposa, a honorável Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), era a mulher mais rica do Hejaz. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) negociava com o patrimônio dela. Quando começou o chamado ao Islã, todos os seus negócios foram encerrados. Como ele estava totalmente ocupado com seu trabalho de divulgação e, depois de transformar toda a Arábia em sua inimiga, já não era possível continuar com as atividades comerciais. Ao longo de alguns anos, marido e mulher consumiram na propagação desse movimento tudo o que restava dos dias anteriores. Por fim, quando foram para Taife, aquele que outrora fora o principal comerciante do Hejaz não conseguiu sequer obter um burro para sua montaria.

Os coraixitas ofereceram ao nobre Profeta (s.a.) o trono do governo do Hijaz. Disseram: “Faremos de você o nosso rei, casá-lo-emos com a mais bela jovem da Arábia e depositaremos montanhas de riquezas aos seus pés, sob a condição de que abandone este movimento.” Mas aquele que havia surgido para a libertação e o bem-estar da humanidade rejeitou todas essas propostas e aceitou sofrer insultos e ser apedrejado.

Os coraixitas e os líderes árabes disseram: “Maomé (s.a.), como podemos ir sentar-nos junto de você e ouvir as suas palavras, quando na sua assembleia estão sempre sentados escravos, pobres e — Deus nos livre — pessoas de classe inferior? Você reuniu ao seu redor aqueles que, para nós, são os mais baixos entre os homens. Afaste-os, para que possamos encontrar-nos com você.” Mas aquele que viera igualar os homens, sem distinção entre superiores e inferiores, recusou expulsar os pobres para agradar aos ricos.

Em prol do movimento, o Profeta (s.a.) não se preocupou com os interesses de seu país, de seu povo, de sua tribo ou de sua família. Próprios eram para ele os que abraçavam a fé; alheios eram os que não a abraçavam. Foi isso que gravou firmemente no coração dos povos a convicção de que ele surgira, como ser humano, para o bem da humanidade; e foi isso também que atraiu para o seu chamado cada país e cada povo. Se tivesse se preocupado com a sua família, que interesse teriam por essa preocupação aqueles que não eram haxemitas? Se estivesse ansioso para preservar, de qualquer maneira, a autoridade dominante dos coraixitas, que interesse teriam os não coraixitas em participar desse empreendimento? Se trabalhasse pela superioridade dos árabes, que necessidade teriam Bilal (r.a.), da Abissínia, Suhaib (r.a.), de Roma, e Salman (r.a.), do Irã, de ajudá-lo em sua missão? Na realidade, o que atraía a todos era a pura adoração de Deus e a posição acima dos interesses pessoais, familiares e nacionais. (173)

Referências

1. Acréscimo do autor

2. Tafhim al-Qur’an: volume 2, Bani Isra’il, nota 92

3. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Az-Zumar, nota 64

4. Acréscimo do autor]

5. Tafhim al-Qur’an: volume 1, Al-An’am, nota 29

6. Adição do autor

7. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Az-Zumar, nota 27

8. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Ash-Shura, nota 38

9. Tafhim al-Qur’an: volume 2, At-Tawbah, nota 31

10. Adição do autor

11. Tafhim al-Qur’an: volume 3, Al-Qasas, notas 80–85

12. Adição do autor

13. Tafhimul Quran: volume 3, Al-Anbiya, nota 5

14. Tafhimul Quran: volume 3, Al-Furqan, notas 14–17

15. Adição do autor

16. Tafhimul Quran: volume 3, Al-Anbiya, nota 10

17. Tafhimul Quran: volume 5, At-Taghabun, notas 11–13

18. Tafhimul Quran: volume 2, Bani Israil, nota 108

19. Tafhimul Quran: volume 2, Yusuf, nota 79

20. Adição do autor

21. Tafhim al-Qur’an: 2º volume, Banī Isrā’īl, nota 63

22. Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Az-Zukhruf, notas 30–32

24. Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Al-Mu’min, notas 75–76

25. Tafhim al-Qur’an: 2º volume, An-Nahl, nota 4

26. Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Al-Ahqaf, notas 15–16

27. Tafhim al-Qur’an: 3º volume, Ash-Shu’ara, nota 81

28. Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Sad, nota 8

29. Adição do autor

30. Tafhim al-Qur’an: 3.º volume, Al-Mu’minun, nota 27

31. Tafhim al-Qur’an: 3.º volume, Muminiin, nota 36

32. Tafhim al-Qur’an: 5.º volume, At-Tur, nota 22

33. Tafhim al-Qur’an: 6.º volume, At-Takwir, nota 21

34. Tafhim al-Qur’an: 3.º volume, Ash-Shu’ara, notas 130–133

35. Tafhim al-Qur’an: 4.º volume, Ad-Dukhan, nota 12

36. Tafhim al-Qur’an: 2.º volume, An-Nahl, nota 70

37. Tafhim al-Qur’an: 3.º volume, Al-Qasas, nota 64

38. Adição do autor

39. Tafhimul Qur’an: 3.º volume, Al-Furqan, nota 18

40. Tafhimul Qur’an: 4.º volume, Saba, notas 66–67

41. Tafhimul Qur’an: 3.º volume, Saba, notas 66–67

42. Tafhimul Qur’an: 6.º volume, Al-Qalam, notas 2–4

43. Tafhimul Qur’an: 2.º volume, Al-A’raf, nota 143

44. Tafhimul Qur’an: 3.º volume, Ash-Shu’ara, nota 142

45. Tafhimul Qur’an: 3.º volume, Ash-Shu’ara, nota 143

46. Tafhimul Quran: volume 3, Ash-Shu’ara, nota 144

47. Tafhimul Quran: volume 5, At-Tur, nota 25

48. Tafhimul Quran: volume 2, Bani Israil, nota 54

49. Tafhimul Quran: volume 5, Qaf, nota 5

50. Tafhimul Quran: volume 3, Al-Furqan, nota 55

51. Tafhimul Quran: volume 2, Bani Israil, nota 106

52. Tafhimul Quran: volume 3, Al-Ankabut, nota 91

53. Tafhimul Quran: volume 6, Al-Muddaththir, nota 39

54. Tafhimul Quran: 1º volume, Al-An’am, nota 5–7

55. Tafhimul Quran: 1º volume, Al-An’am, nota 26–27

56. Tafhimul Quran: 2º volume, Ar-Ra’d, nota 47

57. Tafhimul Quran: 3º volume, Al-Ankabut, nota 88

58. Tafhimul Quran: 2º volume, Yunus, nota 21

59. Tafhimul Quran: 3º volume, Al-Qasas, nota 109

60. Adição do autor

61. Tafhimul Quran: 4º volume, As-Sajda, nota 1

62. Tafhim-ul-Qur’an: 4º volume, As-Sajdah, nota 2–4

63. Tafhim-ul-Qur’an: 2º volume, Yunus, nota 45

64. Tafhim-ul-Qur’an: 2º volume, Bani Isra’il, nota 105

65. Tafhim-ul-Qur’an: 2º volume, Hud, nota 14

67. Tafhim-ul-Qur’an: 2º volume, Yunus, nota 46

68. Tafhim-ul-Qur’an: 3º volume, Al-Furqan, notas 44–46

69. Tafhim-ul-Qur’an: 2º volume, An-Nahl, notas 102–106

70. Tafhim-ul-Qur’an: 3º volume, Al-Furqan, nota 12

71 . Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Hāmīm Sajda, nota 54

72 . Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Hāmīm Sajda, nota 1

73 Acréscimo do autor

74. Acréscimo do autor

75. Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Al-Jāthiya, nota 44

76. Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Al-Jāthiya, nota 34

77. Tafhim al-Qur’an: 2º volume, Ar-Raʿd; nota 12

78. Tafhim al-Qur’an: 4º volume, Saba, nota 10

79. Tafhimul Quran: volume 6, An-Nazi’at, nota 4

80. Tafhimul Quran: volume 4, Yasin, notas 64–67

81. Tafhimul Quran: volume 2, Bani Isra’il, nota 56

82. Tafhimul Quran: volume 2, Hajj, notas 5–6

83. Tafhimul Quran: volume 4, As-Sajdah, notas 20–21

84. Tafhimul Quran: volume 4, As-Saffat, notas 8–9

85. Tafhimul Quran: volume 4, Al-Mu’min, nota 79

86. Tafhimul Quran: volume 6, An-Nazi’at, nota 14

87. Tafhim al-Qur’an: volume 4, As-Saffat, nota 8–12

88. Tafhim al-Qur’an: volume 6, Al-Ghashiyah, nota 7

89. Tafhim al-Qur’an: volume 5, Qaf, nota 4

90. Tafhim al-Qur’an: volume 5, Qaf, nota 4

91. Tafhim al-Qur’an: volume 5, Qaf, nota 4

92. Tafhim al-Qur’an: volume 5, Qaf, nota 18

93. Adição do autor

94. Tafhim al-Qur’an: volume 6, Al-Qiyamah, nota 24

95. Tafhimul Qur’an: volume 6, Al-Qiyamah, nota 2

96. Tafhimul Qur’an: volume 4, Sad, notas 29–30

97. Tafhimul Qur’an: volume 5, At-Taghabun, notas 15–17

98. Tafhimul Qur’an: volume 4, Ad-Dukhan, notas 31–32

99. Tafhimul Qur’an: volume 4, Al-Jathiyah, notas 27–28

100. Tafhimul Qur’an: volume 4, Al-Jathiyah, nota 33

101. Tafhimul Qur’an: volume 6, Al-Qalam, notas 19–23

102. Tafhimul Qur’an: volume 6, At-Takwir, nota 9

103. Adição do autor

104. Tafhimul Quran: volume 6, Qiyamah, notas 3–5

105. Tafhimul Quran: volume 6, Qiyamah, nota 15

106. Tafhimul Quran: volume 6, Dahr, nota 21

107. Tafhimul Quran: volume 6, Takathur, notas 1–3

108. Tafhimul Quran: volume 6, Mutaffifin, nota 1

109. Tafhimul Quran: volume 6, Fajr, notas 11–14

110. Tafhimul Quran: volume 6, Ma’un, nota 7

111. Tafhimul Qur’an: volume 6, Al-Mulk, nota 4

112. Tafhimul Qur’an: volume 6, Ad-Dahr, notas 3–5

113. Tafhimul Qur’an: volume 4, Az-Zumar, nota 45

114. Tafhimul Qur’an: volume 4, Al-Mu’min, nota 28

115. Adição do autor

116. Tafhimul Qur’an: volume 5, Qaf, nota 21

117. Tafhimul Qur’an: volume 6, Al-Infitar, nota 7

118. Tafhimul Qur’an: volume 6, Az-Zilzal, notas 2–4

119. Tafhim al-Qur’an: volume 3, Al-Kahf, nota 46

120. Tafhim al-Qur’an: volume 5, Al-Qamar, nota 28

121. Tafhim al-Qur’an: volume 5, Al-Mujadalah, nota 17

122. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Yasin, nota 55

123. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Yasin, nota 55

124. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Hamim Sajda, nota 25

125. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Yasin, nota 9

126. Tafhim al-Qur’an: volume 4, Al-Jathiyah, nota 42

127. Tafhimul Quran: volume 4, Az-Zumar, nota 80

128. Tafhimul Quran: volume 6, Al-Adiyat, nota 8

129. Tafhimul Quran: volume 6, At-Tariq, notas 5–7

130. . Tafhimul Quran: volume 6, At-Tariq, notas 5–7

131 Tafhimul Quran: volume 6, Al-Qiyamah, notas 9–10

132. Tafhimul Quran: volume 6, Al-Qiyamah, nota 20

133. Tafhimul Quran: volume 6, Al-Fajr, nota 17

134. Tafhimul Quran: volume 6, Al-Infitar, nota 3

135. Tafhimul Quran: volume 6, Zilzal, notas 5–7

136. Tafhimul Quran: volume 4, Fátir, notas 39–40

137. Tafhimul Quran: volume 6, Abasa, nota 22

138. Tafhimul Quran: volume 6, Ma’arij, nota 11

139. Tafhimul Quran: volume 4, Mu’min, nota 31032

140. Tafhimul Quran: volume 6, Naba, notas 23–24

141. Adição do autor

142 Adição do autor

143. Tafhim al-Qur’an: volume 6, Ash-Shams, notas 4–6

144. Adição do autor

145. Tafhim al-Qur’an: volume 6, Al-Balad, notas 9–10

146. Tafhim al-Qur’an: volume 6, At-Tin, notas 2–4

147. Adição do autor

148. Adição do autor

149. Tafhim al-Qur’an: volume 5, Al-Hujurat, nota 28

150. Tafhim al-Qur’an: volume 3, Ar-Rum, nota 18

151. Tafhimul Qur’an: volume 3, Hajj, nota 132

152. Tafhimul Qur’an: volume 3, Qasas, nota 73

153. Adição do autor

154. Tafhimul Qur’an: volume 6, Lahab, introdução

155. Tafhimul Qur’an: volume 5, Hujurat, nota 18

156. Tafhimul Qur’an: volume 6, Balad, nota 14

157. Tafhimul Qur’an: volume 5, Hujuratak, nota 26

158. Adição do autor

159. Tafhim al-Qur’an: tomo 4, Hâmîm Sajda, nota 136

160. Tafhim al-Qur’an: tomo 1, Al-Baqara, nota 144

161. Tafhim al-Qur’an: tomo 1, Al ‘Imran, nota 88

162. Tafhim al-Qur’an: tomo 2, At-Tauba, nota 80

163. Tafhim al-Qur’an: tomo 3, Al-Ankabut, notas 94–99

164. Tafhim al-Qur’an: tomo 2, At-Tauba, nota 18

165. Tafhim al-Qur’an: tomo 5, Al-Mujadala, nota 37

166. Tafhim al-Qur’an: tomo 3, Al-Ankabut, notas 17–18

167. Tafhimul Quran: volume 3, Al-Ankabut, nota 17-18

168. Tafhimul Quran: volume 2, At-Tawbah, nota 111

169. Tafhimul Quran: volume 5, Al-Mumtahanah, nota 13

170. Extraído de «O Estado Islâmico»: páginas 159-176

171. Acréscimo do autor

172. Acréscimo do autor

173. Extraído de «O caminho da revolução islâmica»