Nossa palavra
O falecido Maulana não pôde concluir esta obra durante sua vida. Depois de escrever até a Hégira, ele faleceu. Em urdu, esta parte, até a Hégira, foi publicada em dois volumes. Dividimos o primeiro volume em urdu em dois volumes em bengali. A presente obra é a segunda parte dele. Esperamos publicar o segundo volume em urdu em bengali como o terceiro e o quarto volumes.
A Academia de Pesquisa Sayyid Abul Ala Maududi está se empenhando para apresentar rapidamente todas as obras do Maulana aos leitores de língua bengali. A presente obra foi traduzida pelo próximo colaborador do Maulana, o eminente escritor Sr. Abbas Ali Khan. Não julgamos necessário dizer algo novo aos estimados leitores sobre sua competência no trabalho de tradução, sua perícia no emprego das palavras e a força de sua linguagem.
Agradecemos a Allah, o Altíssimo, por nos ter permitido publicar esta obra em nome da Academia. Que Ele conceda a todos os leitores desta obra a capacidade de compreender a verdadeira missão da profecia. Amém.
Abdus Shahid Nasim
Diretor
Academia de Pesquisa Sayyid Abul Ala Maududi, Daca.
O Islã é, na realidade, o nome daquele movimento que deseja construir todo o edifício da vida humana sobre a concepção e a crença na soberania de um único Allah. Esse movimento vem sendo conduzido desde tempos muito antigos sobre a mesma base e pelo mesmo método. Sua liderança foi assumida por aqueles a quem se chamam profetas e mensageiros de Allah, o Altíssimo. Se tivermos de conduzir esse movimento, teremos inevitavelmente de seguir o método de ação desses líderes. Pois, além deste, não existe nem pode existir qualquer outro método de ação para um movimento desse tipo. Quando tentamos investigar os passos dos nobres profetas (que a paz esteja com eles) a esse respeito, deparamo-nos com uma grande dificuldade. Não podemos saber muita coisa sobre as atividades dos profetas que viveram nos tempos antigos. Encontram-se no Alcorão algumas indicações breves. Mas não é possível deduzir delas todo o plano. No Novo Testamento da Bíblia encontram-se algumas declarações não confiáveis atribuídas a Jesus (que a paz esteja com ele), que lançam alguma luz sobre um aspecto: como o movimento islâmico pode ser conduzido em sua fase absolutamente inicial e quais problemas ele enfrenta. Mas Jesus (que a paz esteja com ele) não teve de enfrentar a etapa posterior, e também não se encontra qualquer indicação a esse respeito. Sobre este assunto, recebemos orientação clara e completa de uma única fonte: a vida do Profeta Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não nos voltamos para ele por causa de nossa reverência por sua pessoa; na realidade, somos obrigados a voltar-nos para ele para adquirir conhecimento sobre as subidas e descidas deste caminho. Entre todos os líderes do movimento islâmico, somente o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o único líder em cuja vida podemos conhecer, desde o chamado inicial desse movimento até o estabelecimento do Estado Islâmico e, posteriormente, a estrutura do Estado, sua constituição, suas políticas interna e externa e os métodos de administração estatal, uma descrição completa e extremamente confiável de cada etapa e de cada aspecto.
Capítulo 13 — O declínio das comunidades anteriores e seus vestígios de destruição
Introdução
Ao estudar a história da humanidade, podemos saber que destino terrível, sucessivamente, se abateu sobre os povos que, considerando o mundo meramente um centro de prazeres, divertimentos e jogos, rejeitaram a verdade anunciada pelos profetas e viveram com base em doutrinas equivocadas. (Tafhim al-Qur’an, Surata al-Anbiya, nota 17)
Os povos amaldiçoados e destruídos observaram os antigos vestígios em ruínas apenas com diversão e curiosidade. Contudo, não extraíram deles nenhuma lição. Isso mostra quão diferente é a visão dos crentes no Além da visão dos descrentes. Um vê apenas um espetáculo ou, no máximo, escreve história. O outro, porém, extrai desses vestígios uma lição moral e alcança informações e conhecimentos que não se limitam à vida terrena. (Tafhim al-Qur’an, Surata al-Furqan, nota 54)
Todos aqueles que foram enviados para reformar e corrigir a humanidade eram habitantes de suas próprias comunidades. Quem foram Hazrat Nuh (que a paz esteja com ele), Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele), Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) e Hazrat Isa (que a paz esteja com ele)? Agora, vejam qual foi o destino dos povos que não aceitaram o convite deles e seguiram suas concepções infundadas e suas paixões desenfreadas. Muitos, viajando a negócios, passaram pelas cidades destruídas de ‘Ad, Thamud, Midian, pelo povo de Lut e por outras comunidades. Não viram absolutamente nada ali? O destino que sofreram neste mundo indica precisamente que, na Outra Vida, sofrerão um destino ainda mais terrível. Por outro lado, aqueles que se corrigiram neste mundo não foram nobres apenas na vida terrena; na Outra Vida, sua condição será ainda melhor e mais feliz. (Tafhim al-Qur’an, Surata Yusuf, nota 79)
Os povos que não deram ouvidos às palavras dos profetas e conduziram sua vida negando o tawhid, a risala e o Além acabaram por merecer o declínio e a destruição. A sequência dos acontecimentos históricos testemunha que as normas morais que Allah, o Altíssimo, enviou por meio dos profetas, bem como a prestação de contas que, de acordo com elas, será exigida dos atos humanos na Outra Vida, são uma verdade absolutamente decisiva. Pois todo povo que, sem se importar com essas normas morais, se considerou acima de toda responsabilidade e presumiu que não teria de prestar contas a ninguém acabou enfrentando a destruição. (Tafhim al-Qur’an, Surata adh-Dhariyat, nota 21)
A razão da destruição dos povos destruídos no passado foi que, quando Allah, o Altíssimo, lhes concedeu grande riqueza e poder, eles, embriagados pelo luxo e pela autoridade, começaram a espalhar a corrupção na Terra. Então, a decadência moral geral da sociedade chegou a tal ponto que já não havia entre eles sequer uma pessoa virtuosa que os impedisse de praticar o mal. E, se ainda existia alguém assim, seu número era tão reduzido que sua voz fraca não conseguia impedi-los de praticar más ações. Por essas razões, esses povos se tornaram merecedores da maldição de Allah, o Altíssimo. (Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 115)
Para aqueles que buscam a verdade, há na Terra de Allah apenas sinais, sinais e mais sinais espalhados por toda parte. Ao observá-los, podem compreender a verdade. Mas os obstinados não creram, mesmo depois de verem tudo isso. Até que venha a paz da parte de Allah, permanecem continuamente imersos no extravio. A esse respeito, a Surata ash-Shu‘ara descreve a situação de sete povos da história. Eles demonstravam a mesma obstinação que os descrentes de Meca demonstravam na época do Profeta Mustafa (que a paz esteja com ele). Ao apresentar esses relatos históricos, Allah, o Altíssimo, chamou a atenção para vários pontos.
Em primeiro lugar, há dois tipos de sinais. Um tipo de sinal está espalhado por toda parte na terra de Allah. Uma pessoa sensata pode, ao observá-los, determinar se aquilo para o qual os profetas de Allah convocam é correto ou não. O segundo tipo de sinal é aquele que foram testemunhados pelo povo de Lot e pelo povo de Aykah. Agora cabe aos incrédulos de Meca decidir que tipo de sinal desejam ver.
Em segundo lugar, em todas as épocas, a mentalidade, os argumentos, as queixas e as desculpas dos incrédulos foram do mesmo tipo. Suas artimanhas e pretextos para não crer também foram os mesmos. Por fim, seu destino também foi o mesmo. Em contrapartida, em todas as épocas, o ensinamento dos profetas foi do mesmo tipo, assim como seu caráter e sua conduta. Seus argumentos diante dos adversários também seguiam o mesmo padrão e, igualmente, a graça de Allah manifestava-se de maneira semelhante. Esses dois exemplos estão registrados na história. (Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shu‘ara, introdução)
Foi concedida às nações do passado a oportunidade de agir em suas respectivas épocas. Mas elas adotaram o caminho da injustiça, da opressão e da rebelião. Não deram ouvidos às palavras dos profetas enviados para guiá-las ao caminho reto. Assim, fracassaram na prova e foram removidas da face da terra. Por fim, chegou a vez dos árabes. Eles receberam a oportunidade de agir no lugar dos povos posteriores. Eles estão de pé no mesmo campo de prova do qual seus predecessores foram expulsos. Foi-lhes dito que, se não quisessem sofrer o destino de seus predecessores, deveriam tirar benefício da oportunidade que lhes fora concedida. Deviam aprender com o destino das nações passadas e não repetir os erros pelos quais elas foram destruídas. (Tafhim al-Qur’an, Surata Yunus, nota 18)
O povo do Profeta Noé (que a paz esteja sobre ele)
Torna-se claro, a partir das indicações do Alcorão e do relato da Bíblia, que a terra onde vivia o povo do Profeta Noé (que a paz esteja sobre ele) é hoje chamada Iraque. A veracidade disso também é comprovada pelas antigas inscrições em pedra e pelas placas de pedra anteriores à Bíblia, encontradas entre os antigos vestígios da Babilônia. Entre elas, é narrada uma história aproximadamente desse tipo, mencionada no Alcorão e na Bíblia, segundo a qual sua morada ficava nas proximidades de Mosul. Além disso, as lendas transmitidas de geração em geração no Curdistão e na Armênia também indicam que, depois da tempestade, da chuva e do dilúvio, a arca do Profeta Noé (que a paz esteja sobre ele) aportou em algum lugar dessa região. Ainda hoje, diversos vestígios do Profeta Noé (que a paz esteja sobre ele) são identificados nas proximidades da ilha de Ibn Umar, ao norte de Mosul, e junto ao monte Ararat, situado na fronteira da Armênia; e entre os habitantes de Nakhchivan ainda é corrente a afirmação de que foi o Profeta Noé (que a paz esteja sobre ele) quem fundou essa cidade.
Ilustração
(A região do povo de Noé e o monte Judi)
Ilustração das provas históricas de uma forte tempestade
Há lendas semelhantes à história acima mencionada de Hadrat Noé (A.S.) na literatura antiga da Grécia, do Egito, da Índia e da China. Além disso, lendas desse tipo têm sido transmitidas desde a Antiguidade em várias regiões da Birmânia, da Malásia, das ilhas do leste da Índia, da Austrália, da América e da Europa. Isso deixa claro que essa história remonta a uma época em que toda a humanidade vivia em um único território e, posteriormente, se dispersou dali por diferentes partes do mundo. Por isso, todas as nações mencionam, em sua história primitiva, uma grande tempestade. Com o passar do tempo, porém, esqueceram seus detalhes reais e cada uma recobriu o acontecimento verdadeiro com uma enorme camada de imaginação, de acordo com suas próprias concepções. (Tafhīm al-Qur’ān, Sura Al-A‘rāf, nota 47)
A montanha Jūdī, onde a arca de Hadrat Noé (A.S.) parou, situa-se na região do Curdistão, a nordeste da ilha de Ibn Umar. Na Bíblia, o local onde essa arca teria aportado é chamado Ararat, nome de uma montanha da Armênia. Trata-se de uma cadeia montanhosa. Essa cadeia chamada Ararat se estende desde os picos elevados da Armênia, ao norte, até o Curdistão, ao sul. Uma das montanhas desse conjunto chama-se Jūdī, nome pelo qual ainda é conhecida. As histórias antigas afirmam que a arca parou nesse local. Com efeito, cerca de duzentos e cinquenta anos antes do nascimento de Hadrat Jesus (A.S.), um líder religioso babilônico chamado Berasus, ao escrever a história de seu país com base em relatos tradicionais antigos, indicou a montanha Jūdī como o local onde a arca de Hadrat Noé (A.S.) aportou. Abydenus, discípulo de Aristóteles, também confirmou isso em sua história. Além disso, ao descrever as condições daquela época, ele afirma que muitos habitantes do Iraque conservavam pedaços da arca e, depois de lavá-los repetidamente, davam de beber essa água aos doentes. (Tafhīm al-Qur’ān, Sura Hūd, nota 46)
A decadência moral do povo de Noé
A partir da situação de Hadrat Noé (A.S.) e de seu povo, descrita no Alcorão, fica claro que esse povo não negava a existência de Allah, nem ignorava Sua realidade. Tampouco se opunha a adorar Allah. Contudo, o desvio em que estava mergulhado era o desvio do shirk. Isto é, considerava outras entidades, além de Allah, Suas parceiras na divindade e acreditava que elas também tinham o direito de receber louvor e adoração. Depois, dessa desorientação fundamental surgiram, de muitas formas, diversas corrupções no seio desse povo. Para representar os deuses e deusas que eles próprios haviam criado e consideravam parceiros de Allah na divindade, formou-se, entre o povo, uma classe especial. Essa classe passou a controlar todos os poderes religiosos, políticos e econômicos. Criou distinções entre os superiores e os inferiores entre as pessoas. Encheu a vida social de injustiça e corrupção, enquanto a imoralidade e o pecado esvaziaram a humanidade de seu conteúdo essencial.
O povo de Hadrat Noé (A.S.)
Os esforços de reforma de Hadrat Noé (A.S.)
*****Árabe*******
Eles haviam espalhado uma enorme rede de engano. — Sura An-Nūh: 22
O engano era o artifício daqueles líderes por meio do qual tentavam incitar o povo contra os ensinamentos de Hazrat Nuh (A.S.). Diziam, por exemplo: “Nuh é apenas um ser humano como vocês. Como se pode aceitar que ele tenha recebido uma revelação de Allah?” (Surata Al-A’raf: 63; Surata Hud: 27.) “Quanto à obediência a Nuh, as pessoas das classes inferiores entre nós aceitaram-na sem compreender. Se suas palavras tivessem realmente alguma importância, nossos anciãos certamente as teriam aceitado.” (Surata Hud: 27.) “Se Allah tivesse desejado enviar um profeta ou mensageiro, teria enviado um anjo.” (Surata Al-Mu’minun: 24.) “Se ele fosse realmente enviado por Allah, teria consigo tesouros, conheceria o invisível e estaria livre, como os anjos, de todas as necessidades humanas.” (Surata Hud: 31.) “Que milagre se vê entre Nuh e seus seguidores que justifique reconhecer sua dignidade?” (Surata Hud: 27.) “Esse homem, na verdade, quer exercer sobre vocês autoridade e domínio.” (Surata Al-Mu’minun: 24.) “Algum jinn o tocou e o enlouqueceu.” (Surata Al-Mu’minun: 25.) (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 48.)
Hazrat Nuh (A.S.) esforçou-se durante muito tempo, com paciência e sabedoria, para mudar essa situação. Mas eles haviam prendido o povo de tal maneira na rede do engano que nenhuma tentativa de reforma surtiu efeito. Por fim, Hazrat Nuh (A.S.) suplicou a Allah: “Ó meu Senhor! Não deixes nenhum desses incrédulos vivo sobre a Terra. Pois, se os deixares, eles desviarão Teus servos e, de sua descendência, todos os que nascerem nascerão como malfeitores, ingratos e incrédulos.” (Aqui se faz alusão à súplica de Hazrat Nuh (A.S.), feita depois de ele ter tentado continuamente, durante um longo período, reformar e corrigir seu povo. Ele suplicou:*****Árabe *****“Ó Allah, já não consigo prosseguir; ajuda-me!” (Surata Al-Qamar: 10.)*****Árabe ******“Ó Senhor! Não deixes nenhum incrédulo sobre a Terra.” — (Surata Nuh: 26.) (Tafhim al-Qur’an, Surata Nuh, nota 16.)
Castigo
A súplica de Hazrat Nuh (A.S.) perante Allah (O Alcorão menciona o longo conflito que se estendeu por vários séculos entre o convite de Hazrat Nuh (A.S.) e a persistência de seu povo na incredulidade. Na Surata Al-Ankabut, é dito que esse conflito durou novecentos e cinquenta anos.*****Árabe******Ao observar, geração após geração, todas as ações de seu povo, Hazrat Nuh (A.S.) não se limitou a concluir que eles eram incapazes de aceitar a verdade; ele também declarou que não havia possibilidade de que, no futuro, surgissem de sua descendência pessoas justas e crentes.*****Árabe *******“Ó Allah! Se os deixares, eles desviarão Teus servos e, de sua descendência, todos os que nascerem serão pecadores e opositores da verdade.” Allah, o Altíssimo, considerou correta essa opinião de Hazrat Nuh e, com base em Seu conhecimento perfeito e infalível, disse:*****Árabe ******“Entre teu povo, aqueles que haviam de crer já creram. E ninguém mais crerá. Portanto, não te aflijas por causa de seu destino.” (Surata Ash-Shu‘ara, nota 85.) A súplica foi aceita. Então o castigo de Allah caiu sobre aquele povo. Da descrição clara do Alcorão, entende-se que o dilúvio começou a partir de um forno específico, de cuja parte inferior brotou uma fonte de água. Em seguida, por um lado, começou uma chuva torrencial vinda do céu e, por outro, fontes começaram a surgir em vários pontos da terra. Na Surata Hud, menciona-se apenas a eclosão de água quente do forno; depois, faz-se alusão à chuva. Mas na Surata Al-Qamar sua descrição é apresentada assim:
(*****Árabe******)
“Abrimos as portas do céu, de onde caiu uma chuva incessante. E fendemos a terra, fazendo brotar fontes por toda parte. E essas duas águas se uniram para cumprir o decreto de Allah.”
Além disso, no Alcorão, o significado do uso da palavra tannur(*****Árabe***) (Alif-Lam) parece indicar que Allah, o Altíssimo, escolheu um forno específico para esse propósito. Então, ao receber o sinal, no momento determinado, água quente começou a subir dele. Mais tarde, ele passou a ser chamado de forno causador da tempestade e do dilúvio. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 48.)
O dilúvio foi mundial?
Esse Dilúvio cobriu o mundo inteiro ou ficou limitado apenas à região onde vivia o povo de Noé? Essa é uma pergunta cuja resposta ainda não foi encontrada. Segundo as narrativas israelitas, a opinião geral é que o Dilúvio ocorreu em toda a Terra (Gênesis 7:18-24). Porém, isso não é afirmado em lugar algum do Alcorão. Pelas indicações e alusões do Alcorão, certamente se pode entender que a humanidade do período posterior ao Dilúvio foi formada a partir do grupo humano que foi preservado do Dilúvio de Noé. Mas isso não implica necessariamente que o Dilúvio de Noé tenha abrangido o mundo inteiro. Pois também se pode dizer, de modo igualmente correto, que naquele tempo os descendentes de Adão estavam limitados àquela região do mundo onde ocorreu o Dilúvio. E a linhagem humana que nasceu depois do Dilúvio espalhou-se gradualmente por todo o mundo. Há dois elementos que apoiam essa hipótese. O primeiro é que, na região banhada pelo Tigre e pelo Eufrates, há evidências de um grande Dilúvio provenientes de relatos históricos, de vestígios antigos e das diferentes camadas do solo. O segundo é que, entre a maioria dos povos da Terra, existe desde a Antiguidade uma lenda sobre um grande Dilúvio. Até mesmo nas antigas lendas de países tão distantes quanto a Austrália, a América e a Nova Guiné há referências a ele. Disso se pode concluir que, em alguma época, talvez os antepassados desses povos tenham vivido na mesma localidade onde ocorreu esse Dilúvio. Depois, quando se espalharam por diferentes partes do mundo, levaram consigo essas lendas. (Tafhim al-Qur’an, surata Hud, nota 42).
A arca de Noé tornou-se um sinal instrutivo
*****Árabe *******
E fiz dela um sinal instrutivo para os habitantes do mundo. — Surata Al-Ankabut: 15
Isso também pode significar que esse terrível castigo ou esse grandioso acontecimento foi transformado em um sinal instrutivo para as gerações posteriores. Porém, pela forma como isso é descrito na surata Al-Qamar (versículo 15), parece que o próprio sinal instrutivo era a arca, que permaneceu no cume da montanha e continuou transmitindo às gerações posteriores a notícia de que ocorrera no mundo um Dilúvio de tal magnitude que a arca ficara retida sobre a montanha. No comentário ao versículo da surata Al-Qamar, Ibn Jarir cita este relato de Qatada e afirma que, na época dos Companheiros, quando os muçulmanos foram à região da Jazira, viram aquela arca sobre o monte Judi (segundo outra versão, perto de uma aldeia chamada Bakirwa). Ainda hoje, ouve-se ocasionalmente que são enviadas expedições em busca da arca de Noé. Diz-se, como explicação, que muitas vezes, quando um avião sobrevoa a cordilheira do Ararat, os pilotos veem no topo da montanha algo semelhante a uma arca. O imã Bukhari, Ibn Abi Hatim, Abd al-Razzaq e Ibn Jarir citam um relato de Qatada segundo o qual, durante a conquista do Iraque e da Jazira pelos muçulmanos, essa arca ainda se encontrava sobre o monte Judi (segundo outra versão, perto da aldeia de Bakirwa), onde foi vista pelos muçulmanos das primeiras gerações. (Tafhim al-Qur’an, surata Hud, nota 46)
O povo de Ad
A denominação
Este era um povo antiquíssimo da Arábia. A história desse povo era transmitida oralmente entre os árabes. Até as crianças pequenas conheciam seu nome. Sua glória, seu esplendor e sua influência eram exemplares. Do mesmo modo, foi exemplar o desaparecimento completo de seu nome e de seus vestígios do mundo. Por causa dessa fama, na língua árabe toda coisa antiga é chamada de ‘adi’. Aos vestígios antigos também se dá o nome de ‘adiyyat’. À terra que não tem dono e permanece inculta chama-se ‘adiyy al-ard’. Esse povo é mencionado com muita frequência na poesia árabe antiga. Os genealogistas árabes mencionam esse povo em primeiro lugar entre todos os povos do passado de seu país. Há um relato no hadith de que certa vez foi à presença do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) um homem dos Banu Zuhal ibn Shaiban, que vivia na região do povo de Ad. Ele contou ao Profeta as histórias sobre esse povo que os habitantes de sua região haviam transmitido de geração em geração desde tempos muito antigos.
A terra natal do povo de ‘Ad
Segundo o ponto de vista do Alcorão, a verdadeira terra natal desse povo era a região de Ahqaf (Ahqaf é o plural da palavra Hikf e, em seu sentido lexicográfico, significa longas dunas de areia ou elevações que, naturalmente, não são como montanhas. Em termos técnicos, porém, denomina a parte ocidental do deserto árabe (Rubu‘ al-Khali) onde não há povoações. — o autor), situada entre o Hijaz, o Iêmen e Iamamah. A partir dali, expandiram-se e estabeleceram sua influência e poder desde a região ocidental do Iêmen até o Iraque. Do ponto de vista histórico, os vestígios desse povo foram quase completamente apagados da face da Terra. Contudo, em algum lugar do sul da Arábia, encontram-se ruínas antigas atribuídas ao povo de ‘Ad.
Diz-se que em certo lugar existe o túmulo do profeta Hud (que a paz esteja sobre ele). Em 1837, um oficial da marinha britânica (James R. Wellested) encontrou em Hisn Ghorab uma inscrição em pedra na qual havia menção ao profeta Hud (que a paz esteja sobre ele). Pela inscrição, parece claro que ela foi escrita por pessoas que seguiam a sharia do profeta Hud (que a paz esteja sobre ele). (Tafhim al-Qur’an, surata Al-‘Ankabut, nota 25)
Ibn Ishaq afirma que os assentamentos do povo de ‘Ad se estendiam de Omã até o Iêmen. O Alcorão nos informa que sua verdadeira terra natal era Ahqaf, de onde eles saíram, espalharam-se pelas regiões vizinhas e dominaram os povos mais fracos. Até hoje, é corrente entre os habitantes do sul da Arábia que o povo de ‘Ad vivia nessa região. A cerca de 125 milhas ao norte da atual cidade de Mukalla, há um lugar em Hadramaut onde construíram um túmulo para o profeta Hud (que a paz esteja sobre ele), conhecido como o túmulo de Hud. Todos os anos, no dia 15 de Sha‘ban, realiza-se ali um ‘urs. Milhares de pessoas se reúnem no local, vindas de diferentes regiões da Arábia. Embora esse túmulo não seja historicamente comprovado, o fato de um grande número de habitantes do sul da Arábia se reunir ali provavelmente demonstra que a lenda local identifica essa região como a terra natal do povo de ‘Ad. Além disso, ainda hoje se encontram em Hadramaut vários vestígios que mostram que os habitantes locais continuam considerando esta a terra natal do povo de ‘Ad.
A situação atual da terra natal do povo de ‘Ad
Ao observar a situação atual de Ahqaf, ninguém pode imaginar que em alguma época uma nação civilizada e poderosa tenha vivido ali. É possível que, milhares de anos atrás, essa fosse uma região verdejante e fértil, que, com as mudanças climáticas ocorridas ao longo do tempo, se transformou numa extensão desértica. Hoje, sua situação é a de uma extensão desértica devoradora, no meio da qual ninguém ousaria permanecer. Em 1843, um oficial militar de Bavirinjia chegou à sua extremidade sul. Ele afirma que, ao ficar sobre as terras altas ao norte de Hadramaut, vê-se essa extensão desértica mil pés abaixo. Em vários pontos há terrenos brancos onde tudo o que cai afunda no mar de areia e se deteriora. Até os beduínos da Arábia temem profundamente essa região. De modo algum se dispõem a ir até lá. Certa vez, quando um beduíno não aceitou levar o oficial militar até ali, ele foi sozinho. Ele afirma: a areia daqui é fina e delicada como pó. Lancei de longe um balde para esse lugar. Em seguida, ele afundou em cinco minutos. A corda com que o havia amarrado e lançado também se desfez imediatamente. (Para mais detalhes, veja: 1. Arabia and the Isles, Harold Ingrams, London, 1946. 2. The Univeiling of Arabia, R.H. Kirman, Lindon, 1937. 3. The Empty Quarter, Philby, London, 1933.) (Tafhim al-Qur’an, surata Al-A‘raf, nota 51)
A prosperidade antes da destruição
Os relatos históricos dos árabes e as atuais descobertas arqueológicas comprovam que o primeiro povo de ‘Ad foi completamente destruído, e até seus vestígios foram eliminados da face da Terra. Os historiadores árabes o consideram um povo extinto. Também é consenso na história árabe que somente aquela parte do povo de ‘Ad que seguia o profeta Hud (que a paz esteja sobre ele) sobreviveu. Essa parte remanescente do povo de ‘Ad foi chamada de Segundo ‘Ad. A inscrição de Hisn Ghorab que mencionamos acima é um de seus vestígios. Considera-se que essa inscrição date de aproximadamente mil e oitocentos anos antes de Cristo. Os especialistas leram o texto original da inscrição, e abaixo são apresentadas algumas de suas frases: Vivemos durante longo tempo nesta fortaleza com tal influência e poder que nem a pobreza nem a prosperidade nos puderam tocar. Nossos rios permaneciam cheios até as bordas, e os governantes eram reis cujos pensamentos eram puros e refinados e que eram rigorosos contra a injustiça e a perversidade. Eles nos governavam segundo a sharia de Hud (que a paz esteja sobre ele), e as boas decisões eram registradas num livro. Acreditávamos em atos milagrosos e na ressurreição depois da morte.
Esta afirmação testemunha a veracidade da descrição corânica de que, por fim, foram aqueles que creram em Hadrat Hud (que a paz esteja sobre ele) os herdeiros da antiga influência, poder e prosperidade do povo de Ad. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Ahqaf, nota 25)
Menção, no Alcorão, à prosperidade, ao orgulho e à arrogância deles
(******Árabe ******)
Recordai-vos da graça e da benevolência de Allah, pois, depois do povo de Noé, Ele vos fez seus sucessores. (Surata Al-A’raf: 69)
Fisicamente, eles eram muito robustos e fortes.
(*****Árabe *****)
Fisicamente, Ele vos fez muito saudáveis e robustos.
Em sua época, eles eram um povo incomparável. Nenhum outro povo lhes era igual.
(*****Árabe******)
Não foi criada no país nenhuma outra nação semelhante a eles. Surata Al-Fajr: 8
Sua civilização era muito avançada. Sua característica era construir edifícios altos sobre colunas elevadíssimas. Por isso, alcançaram fama no mundo.
(*****Árabe********)
Não viste como teu Senhor tratou ‘Ad de Iram, dono de altas colunas? Surata Al-Fajr: 6–7.)
Esse vigor material e físico os encheu de orgulho. Tornaram-se embriagados pelo poder.
(*****Árabe******)
Agora, quanto ao povo de ‘Ad: eles se desviaram do caminho da verdade na terra, comportaram-se com orgulho e arrogância e começaram a dizer: “Quem é mais poderoso do que nós?” Surata Ha-Mim as-Sajdah: 15
Seu poder político estava nas mãos de alguns grandes déspotas, diante dos quais ninguém conseguia sequer proferir uma palavra.
(*****Árabe *****)
E obedeciam às ordens de cada déspota inimigo da verdade. — Surata Hud: 59
Do ponto de vista religioso, não eram negadores de Allah; ao contrário, estavam envolvidos no shirk. Não aceitavam que a servidão e a obediência deveriam ser prestadas unicamente a Allah.
(*****Árabe********)
Disseram a Hud: “Vieste até nós para que adoremos somente a Allah e abandonemos aqueles que nossos antepassados adoravam?” Surata Al-A’raf: 70 (Tafhimul Qur’an, Surata Al-Ahqaf, nota 25)
A razão pela qual o castigo desceu sobre eles
A antiga nação de Ad não foi destruída porque havia alguma inimizade entre ela e Allah, e porque Ele desejava destruí-la por isso. Pelo contrário, eles próprios adotaram um modo de vida que os conduziu à destruição. Allah, o Altíssimo, havia lhes dado a oportunidade de refletir e de se corrigir. Enviou mensageiros para guiá-los. Por meio dos mensageiros, advertiu-os sobre as consequências de seguir o caminho equivocado. Deixou claro para eles qual era o caminho de seu bem-estar e qual era o caminho da destruição. Porém, quando não aceitaram nenhuma oportunidade de reforma e correção e insistiram em seguir o caminho da destruição, então, inevitavelmente, aconteceu com eles aquilo que estava destinado a acontecer. (Tafhimul Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 56
A descrição do castigo no Alcorão
(*****Árabe****)
Por fim, enviei contra eles uma tempestade terrível durante alguns dias funestos, para fazê-los provar a humilhação ainda nesta vida mundana. — Surata Ha Mim as-Sajda: 16
A descrição desse castigo, apresentada em vários lugares do Alcorão Sagrado, é a seguinte: um vento tempestuoso e violento soprou continuamente durante sete noites e oito dias. Com sua intensidade, as pessoas iam caindo e morrendo, como troncos de palmeiras derrubados — Surata Al-Haqqa: 7. Tudo aquilo sobre o que esse vento passava ficava completamente arruinado — Surata Adh-Dhariyat: 42. Quando esse vento começou a soprar, o povo de Ad regozijou-se. Diziam: “Ah! Surgiram nuvens muito densas; choverá, e as coisas secas voltarão à vida.”
Mas o vento veio com tamanha violência que destruiu toda a povoação. (Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shu’ara, nota 86)
( *****Árabe******)
Enviei contra eles uma tormenta violenta num dia funesto. Essa tormenta levantava-os e arremessava-os ao chão repetidamente, como troncos de palmeiras arrancadas pela raiz. — Surata Al-Qamar: 19–20
Isto é, um dia cujo infortúnio se prolongou por vários dias. Na ayat 16 da Surata Ha Mim as-Sajda, (*****Árabe***) foram usadas certas palavras. Na ayat 7 da Surata Al-Haqqa, afirma-se que essa tormenta durou sete noites e oito dias. (Diz-se que o dia em que esse castigo começou foi uma quarta-feira. Assim, surgiu entre as pessoas a crença de que a quarta-feira é um dia funesto e de que não é correto iniciar qualquer trabalho nesse dia. Em apoio a isso, também são citados alguns hadith fracos. Consequentemente, a crença no mau agouro desse dia arraigou-se entre o povo. Por exemplo, há a narração de Ibn Mardawayh e de Al-Khatib al-Baghdadi(*****Árabe******) isto é, que a última quarta-feira do mês é um dia funesto, cujo infortúnio continua. Ibn al-Jawzi considera esse hadith inventado. Ibn Rajab afirma que esse hadith não é autêntico. Hafiz Sakharbi diz que todas as formas pelas quais esse hadith foi narrado são fabricadas. Do mesmo modo, os muhaddithun consideraram fraco este hadith de At-Tabarani, que diz(*****Árabe******) isto é, que a quarta-feira é um dia azarado ou funesto. Algumas outras narrações afirmam que não é correto viajar às quartas-feiras, realizar transações, cortar as unhas ou visitar um doente nesse dia, pois a lepra teria começado nesse dia. Porém, todas essas narrações são fracas e pouco confiáveis, e nenhuma crença pode fundamentar-se nelas. O investigador Al-Munawi diz (*****Árabe****) isto é, que é gravemente proibido alimentar, a esse respeito, uma crença semelhante à dos adivinhos. Pois todos os dias pertencem a Allah. Nenhum dia é, por si mesmo, portador de benefício ou de malefício.
Allama Alusi afirma: todos os dias são iguais. A quarta-feira não possui nenhuma particularidade. Não há nenhum momento entre a noite e o dia que seja bom para uns e mau para outros. Em todo momento, Allah, o Exaltado, cria condições favoráveis para uns e desfavoráveis para outros. — O autor (Tafhim al-Qur’an, Surata Ha-Mim as-Sajdah, nota 20)
O povo de Thamud
Identidade
O povo de Thamud foi o segundo entre os povos mais antigos da Arábia e alcançou a maior fama depois de Aad. Antes da revelação do Alcorão, suas histórias eram conhecidas por todos os árabes. A maior parte dos poemas e discursos da época da Jahiliyyah fazia menção a eles. Também são encontradas referências a eles nas inscrições assírias e nos livros dos antigos historiadores e geógrafos da Grécia, Alexandria e Roma. Alguns vestígios desse povo ainda existiam até pouco antes do nascimento de Jesus Cristo (que a paz esteja com ele). Historiadores romanos dizem que membros desse povo se alistaram no exército romano e lutaram contra os nabateus, pois eram inimigos destes.
O território do povo de Thamud
O território desse povo situava-se na região noroeste da Arábia que ainda hoje é chamada Al-Hijr. Atualmente, uma estação da ferrovia do Hejaz, situada entre Medina e Tabuk, chama-se Mada’in Salih. Esse era o principal local de residência do povo de Thamud e, antigamente, era chamado Hijr. Até hoje, ali podem ser vistos, espalhados por milhares de acres, edifícios de pedra que o povo de Thamud construiu escavando as montanhas. Basta contemplar essa cidade silenciosa e deserta para estimar que, em alguma época, sua população não devia ser inferior a quatrocentos ou quinhentos mil habitantes. (Toda a região do norte do Hejaz, de Rabigh a Uqba, e de Medina e Khaybar a Tayma e Tabuk, ainda está repleta dos vestígios de Thamud. Na época da revelação do Alcorão, é provável que esses vestígios estivessem mais nítidos do que atualmente. — O autor (Surata Al-Qamar, nota 16)
Na época da revelação do Alcorão, as caravanas comerciais do Hejaz atravessavam esses vestígios. Ainda assim, durante uma expedição, quando o Profeta nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) passava por esse caminho, mostrou esses vestígios aos muçulmanos e pediu-lhes que extraíssem ensinamentos dessas antigas ruínas. Em certo lugar, apontou para um poço e disse: este é o poço do qual bebia a camela do profeta Salih (que a paz esteja com ele). Ele ordenou aos muçulmanos que bebessem água somente desse poço. Apontando para um vale montanhoso, disse: era daqui que a mesma camela bebia água. Até hoje esse lugar é conhecido pelo nome de Fajj al-Naqah. (A caminho da expedição de Tabuk, os muçulmanos percorriam e observavam repetidamente os vestígios de Thamud. Reunindo-os, o Profeta nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: aprendam com o destino do povo de Thamud. Disse ainda: esta foi a morada de um povo sobre o qual desceu o castigo de Allah. Este não é um lugar para uma excursão prazerosa, mas um lugar de pranto. Portanto, atravessem rapidamente este local. — O autor (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 59) (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Qamar, nota 16)
Vestígios do povo de Thamud
(*****Árabe******)
Lembrai-vos de quando Allah, o Altíssimo, vos fez sucessores do povo de ’Ad e vos concedeu uma posição tal que hoje construís enormes palácios nas planícies apropriadas que eles haviam preparado e edificais moradias escavando as montanhas. — Surata Al-A‘raf: 74
A arquitetura do povo de Tamud (escavada nas montanhas) era exatamente como a que pode ser vista em Ellora, Ajanta e outros lugares da Índia. Em Mada’in Salih, esses edifícios ainda existem intactos. Ao observá-los, percebe-se o quanto esse povo havia progredido na engenharia. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-‘Ankabut, nota 65)
Al-Hijr era a principal área residencial do povo de Tamud. Suas ruínas podem ser vistas a alguns quilômetros da atual cidade de Al-‘Ula, situada a noroeste de Medina. Esse lugar fica justamente na estrada principal no caminho de Medina para Tabuk. As caravanas passam por este vale. Contudo, seguindo a orientação do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ninguém permanece ali.
No século VIII da Hégira, Ibn Battuta chegou aqui a caminho do Hajj. Ele diz que aqui, nas montanhas vermelhas, ainda existem os edifícios do povo de Tamud. Eles os construíram escavando as montanhas. As obras ornamentais que fizeram permanecem até hoje tão vivas que parece que foram construídas agora mesmo. Nesses lugares, ainda se veem ossos humanos derretidos. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A‘raf, nota 57)
Progresso material e decadência moral
Dos relatos sobre esse povo apresentados no Alcorão Sagrado — na Surata Al-A‘raf, versículos 73–79; na Surata Hud, 61–68; na Surata Al-Hijr, 80–84; na Surata An-Naml, 45–53; na Surata Adh-Dhariyat, 43–45; na Surata Al-Qamar, 23–31; na Surata Al-Haqqah, 4–5; na Surata Al-Fajr, 9; e na Surata Ash-Shams, 11 — sabe-se que o povo ao qual foi concedida prosperidade depois do povo de ’Ad era o povo de Tamud. (*****Árabe****)Mas o progresso civilizacional e a prosperidade deles tiveram o mesmo desfecho que os do povo de ’Ad. Isto é, enquanto o padrão de vida ascendia aos mais altos píncaros do progresso, o nível de humanidade declinava cada vez mais. De um lado, em planícies abertas, palácio após palácio era construído, escavando-se pedras como em Ellora e Ajanta. Do outro, o politeísmo e a idolatria espalhavam-se pela sociedade. A sociedade estava assolada pela opressão e pela tirania. A liderança de pessoas sem caráter havia se estabelecido na sociedade. Os membros da classe superior, em seu orgulho e arrogância, consideravam-se donos de tudo. Apenas as pessoas das classes inferiores responderam ao chamado à verdade apresentado pelo Profeta Salih (que a paz esteja sobre ele). Os membros da classe superior recusaram-se a aceitar o chamado do Profeta, dizendo:
(*****Árabe *****)
Não aceitamos aquilo em que vós crestes.
Três razões para rejeitar a verdade
O povo de Samud recusou-se a seguir o profeta Salih (que a paz esteja sobre ele) por três razões. A primeira era que ele era um ser humano. Não era um super-humano; por isso, não conseguiam reconhecer sua superioridade. Em segundo lugar, ele pertencia ao mesmo povo que eles. Portanto, segundo sua opinião, não havia razão para que ele fosse superior a eles. Em terceiro lugar, segundo eles, ele era apenas um homem comum. Não era um líder poderoso, não tinha seguidores, auxiliares ou um exército consigo, nem possuía influência ou prestígio. Por isso, não se podia aceitar sua superioridade. Eles pensavam que um profeta deveria ser um ser sobre-humano. E, se fosse humano, não deveria nascer em seu país nem entre seu povo; deveria vir de algum outro lugar ou ser enviado de fora. Se nem isso ocorresse, pelo menos teria de ser uma pessoa rica, com fama, influência e prestígio, para que se pudesse aceitar que Deus voltara Sua atenção para ele e o escolhera para guiar as pessoas. (Tafhim al-Qur’an, Surata al-A‘raf, nota 57)
O conflito entre o bem e o mal
Depois que o profeta Salih (que a paz esteja sobre ele) iniciou sua missão, seu povo dividiu-se em dois grupos.
(*****Árabe****)
Subitamente, dividiram-se em dois grupos em conflito. Surata An-Naml, 45
Um grupo creu, enquanto o outro se recusou a crer. Por causa dessa divergência, começou um conflito entre eles. Em outra passagem do Alcorão, é dito:
(*****Árabe******)
Os líderes orgulhosos daquele povo diziam aos crentes fracos: “Acaso sabeis realmente que Salé foi enviado por seu Senhor?” Eles responderam: “Cremos na verdade com a qual ele foi enviado.” Então aqueles homens orgulhosos disseram: “Não acreditamos naquilo em que credes.”
Em outra passagem, as palavras dos líderes daquele povo são descritas assim: “Ó Salé, traz-nos o castigo com que nos ameaças, para vermos, se és realmente um dos mensageiros.” — Surata Al-A‘raf, 7:77.
Pedido de um milagre
(*****Árabe****)
Estamos enviando a camela como uma prova para eles. Agora, observa pacientemente qual será o seu destino. Informa-os de que a água será dividida entre eles e a camela: cada grupo virá beber água no dia que lhe corresponder. — Surata Al-Qamar, 54:27–28.
A explicação das palavras “Estamos enviando a camela como uma prova para eles” é que, de repente, uma camela foi apresentada diante deles, e lhes foi dito: “Ela beberá água sozinha em um dia, e vós e os vossos animais podereis beber no outro.” No dia que lhe correspondia, nenhum de vós deveria ir buscar água a qualquer poço ou nascente, nem levar os vossos animais para beber. Esse desafio foi lançado por alguém a respeito de quem eles próprios diziam que não tinha soldados nem qualquer grupo ou força ao seu lado. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Qamar, nota 17.)
Um sinal decisivo
Nos versículos 154–156 da Surata Ash-Shu’ara, é dito que o povo de Tamude exigiu de Hadrat Salih (A.S.) um sinal que fosse uma prova direta de que ele havia sido enviado por Allah. Em resposta, Hadrat Salih (A.S.) apresentou esta camela. (É isto que também foi dito no versículo 73 da Surata Al-A’raf. — O autor.) Isso prova claramente que a camela surgiu como um milagre. E era um tipo de milagre que alguns profetas apresentaram como prova de sua profecia, a fim de atender às exigências dos negadores. Além disso, o aparecimento milagroso da camela também é comprovado pelo fato de que Hadrat Salih (A.S.), ao apresentá-la, advertiu os incrédulos, dizendo: “A vossa vida está estreitamente ligada à vida desta camela. Ela pastará livremente nos vossos campos e plantações. Num dia ela beberá água, e no dia seguinte beberão água todos os vossos animais. Se tocardes nela, o castigo de Allah cairá imediatamente sobre vós.” É certo que, com tamanha segurança e convicção, só se pode apresentar algo que as pessoas veem com os próprios olhos e reconhecem como extraordinário. Depois disso, a camela continuou por algum tempo a pastar livremente onde quer que quisesse; num dia bebia água sozinha e, no outro, bebiam os demais animais. Eles suportaram tudo isso, embora com extremo desagrado. Por fim, depois de muita deliberação e conspiração, mataram a camela, embora Hadrat Salih (A.S.) não dispusesse de nenhuma outra força que pudesse fazê-los temê-lo. Outra prova disso é que eles estavam aterrorizados por causa da camela e sabiam que, por trás dela, devia haver alguma força que lhe permitia circular entre eles sem temor. (O Alcorão não fornece uma explicação detalhada sobre como era a camela nem sobre como ela surgiu. Nenhum hadith autêntico também traz essa descrição. Portanto, não é necessário aceitar os relatos com base nos quais os exegetas narraram a história do nascimento da camela. Contudo, está comprovado pelo Alcorão que a camela surgiu de forma milagrosa.) (Tafhim al-Qur’an, Surata An-Naml, nota 58)
O assassinato da camela
(*****Árabe******)
Eles mataram a camela e transgrediram a ordem de seu Senhor. — Surata Al-A’raf: 77
Durante bastante tempo, a camela tornou-se um problema para toda a nação. As pessoas passaram a sentir interiormente aversão por ela. Depois, começaram as deliberações e, por fim, um líder obstinado assumiu a responsabilidade de livrar a nação daquela dificuldade. Na Surata Ash-Shams, essa pessoa é mencionada da seguinte maneira(*****Árabe******)De repente, um dos maiores malfeitores da nação se prontificou a cumprir essa tarefa. Na Surata Al-Qamar, é dito(*****Árabe*****)Eles pediram ao seu companheiro que realizasse a tarefa, e ele a aceitou. Então cortou os jarretes da camela. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Qamar, nota 19)
Embora tenha sido um único homem que matou a camela, como é mencionado nas Suratas Ash-Shams e Al-Qamar, toda a nação estava por trás dele e, na realidade, ele satisfez a vontade de toda a nação ao cometer esse crime; por isso, toda a nação foi considerada culpada. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 58.) (Um crime cometido de acordo com a vontade de uma nação, ou pelo qual a nação manifesta aprovação, é considerado um crime nacional, ainda que o autor material seja apenas uma pessoa. Além disso, o Alcorão afirma que um crime cometido mediante declaração pública e aceito pela nação também é considerado um crime nacional. — O autor.)
A conspiração dos malfeitores contra Hadrat Salih (A.S.)
(*****Árabe******)
Havia nove líderes naquela cidade que espalhavam a desordem pelo país e não realizavam nenhuma obra de reforma. Eles disseram uns aos outros: “Jurai por Allah que atacaremos Saleh e sua família de surpresa durante a noite. Depois diremos ao responsável por eles que não estávamos de modo algum presentes no momento da destruição de sua família. Estamos dizendo apenas a verdade.”
Eles executaram esse plano traiçoeiro. Mas Nós também elaboramos um plano que eles não perceberam de modo algum. Vede agora qual foi o resultado de seu plano traiçoeiro. Destruímo-los, juntamente com todo o seu povo. — Surata An-Naml: 48–51
Antes que chegasse o momento determinado para atacarem o Profeta Saleh (que a paz esteja com ele), Allah, o Altíssimo, destruiu-os, juntamente com todo o seu povo.
Parece que tramaram essa conspiração depois de cortarem a corcova da camela. É mencionado na Surata Hud que, quando mataram a camela, o Profeta Saleh (que a paz esteja com ele) advertiu-os, dizendo: “Está bem; agora aproveitai estes três dias, permanecendo tranquilamente em vossas casas; depois, o castigo de Allah cairá sobre vós.”(*****Árabe****)Então talvez tenham pensado: “Venha ou não o castigo prometido por Saleh, por que não acabamos de uma vez tanto com a camela quanto com ele?” Muito provavelmente decidiram atacá-lo naquela mesma noite, na qual estava previsto que o castigo desceria sobre eles. E assim aconteceu: antes que pudessem tocar no Profeta Saleh (que a paz esteja com ele), a mão poderosa de Allah caiu sobre eles. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A‘raf, nota 58)
Descrição do castigo
(*****Árabe*****)O castigo caiu sobre eles.
A descrição desse castigo, apresentada em outra passagem do Alcorão, é a seguinte: quando mataram a camela, o Profeta Saleh (que a paz esteja com ele) disse
(*****Árabe***)
Continuem vivendo em suas casas por mais três dias apenas.
Depois que terminou o prazo desse aviso, no fim da última noite, ocorreu uma tremenda explosão e, junto com ela, começou um terremoto tão intenso que, em um instante, reduziu toda a nação a ruínas. Na manhã seguinte, viram-se espalhados os cadáveres esmagados, como arbustos junto a uma cerca, pisoteados, triturados e destruídos pela passagem dos animais. Não, nem seus palácios de pedra nem suas casas escavadas nas montanhas puderam protegê-los. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 61) (Consulte também a Surata Al-Qamar, versículo 31; a Surata Al-A’raf, versículo 78; e a Surata Al-Hijr, versículos 83–84. Autor da obra.)
Os crentes foram salvos
(*****Árabe****)
Por fim, quando chegou o momento de Nosso decreto, salvamos, por Minha misericórdia, Salih e aqueles que haviam crido com ele, e os protegemos da humilhação daquele dia. Surata Hud: 66
Segundo as lendas correntes na Península do Sinai, quando o castigo caiu sobre o povo de Samud, o profeta Salih (que a paz esteja sobre ele) migrou para lá. Perto do monte de Moisés (que a paz esteja sobre ele) há outro monte chamado Monte do Profeta Salih. Diz-se que foi ali que ele morou. (Tafhim al-Qur’an, Surata An-Naml, nota 65)
O desenvolvimento civilizacional de Samud e suas ruínas
Assim como uma característica marcante do povo de Ad era construir edifícios sobre colunas muito altas, uma característica igualmente marcante do povo de Samud era escavar as montanhas e construir edifícios dentro delas. Por isso, eram famosos entre os povos antigos. Assim como, na Surata Al-Fajr, Ad recebeu o título de Dhatu’l-Imad (os donos das colunas), sobre Samud foi dito que eles esculpiram montanhas nos vales(*****Árabe******) Além disso, o Alcorão também afirma que eles construíam grandes palácios em terrenos rochosos (*****Árabe******) Qual era a razão para construírem palácios desse tipo? O Alcorão (*****Árabe***)lançou luz sobre isso por meio da palavra. Ou seja, fizeram tudo isso por orgulho e arrogância, para exibir sua riqueza, poder e capacidade, bem como sua arte arquitetônica. Além disso, nenhuma necessidade real os levou a realizar esse trabalho. Esse é o estado de uma civilização desregrada. Quando, por um lado, os desprovidos de recursos da sociedade não encontram sequer um lugar onde possam repousar a cabeça e, por outro, os nobres, os ricos e os abastados constroem palácios além do necessário, passam a erguer palácios monumentais destinados à ostentação.
Alguns desses palácios do povo de Samud ainda existem. Eu mesmo os observei em dezembro de 1959. Algumas de suas imagens são apresentadas aqui. Esse lugar está situado alguns quilômetros ao norte de Al-Ula, um local famoso do Hijaz, entre Medina e Tabuk. No tempo do Profeta (que a paz esteja com ele), era chamado Wadi al-Qura. Ainda hoje seus habitantes se referem a esse lugar como Al-Hijr e Mada’in Salih.
Al-Ula ainda é um vale verdejante nessa região. Nele se veem numerosas nascentes e jardins. Porém, nos arredores de Al-Hijr, vê-se uma atmosfera terrivelmente sinistra. A população é quase inexistente. Falta fertilidade. Há alguns poços ali; entre os habitantes locais circula uma lenda sobre um deles. Atualmente, esse poço pode ser visto dentro de um acampamento militar em ruínas; ele está completamente seco. Sua fotografia também é apresentada.
Quando entramos nessa região, assim que nos aproximamos de Al-Ula, avistamos montanhas que pareciam completamente queimadas e tostadas. Tinha-se claramente a impressão de que um terremoto terrível as havia revirado e despedaçado da base ao topo. Também são apresentadas imagens dessas montanhas. Montanhas desse tipo foram vistas a leste, no caminho de Al-Ula para Khaybar, por cerca de quarenta milhas, e ao norte, dentro da Jordânia, por trinta ou quarenta milhas. Isso significa que um terremoto devastou uma área de trezentas ou quatrocentas milhas de comprimento por cem milhas de largura. Alguns edifícios do mesmo tipo que vimos em Al-Hijr, pertencentes aos samuditas, também vimos em Madyan, às margens do golfo de Aqaba, e em Petra, na Jordânia. Em Petra, especialmente, os edifícios dos samuditas e os construídos pelos nabateus existem lado a lado. Há uma diferença tão evidente entre seus ornamentos e seus métodos de construção que qualquer pessoa pode compreender, à primeira vista, que eles não pertencem nem à mesma época nem ao mesmo povo.
O orientalista inglês Dayghty afirma, a fim de provar que o Alcorão é falso, que os edifícios de Al-Hijr não foram construídos pelos samuditas, mas pelos nabateus. Contudo, a diferença entre os edifícios dos dois tipos é tão evidente que somente um cego poderia considerá-los construídos pelo mesmo povo. Minha opinião é que a arte de construir edifícios escavando as montanhas começou com o povo de Samud. Vários milhares de anos depois, nos séculos II e I a.C., os nabateus elevaram essa arte arquitetônica. Mais tarde, em Ellora, essa arquitetura alcançou o auge de seu desenvolvimento. Naturalmente, as cavernas de Ellora são cerca de setecentos anos posteriores às de Petra. (Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shu’ara, nota 106)
O povo de Abraão (que a paz esteja com ele)
Depois de Noé (que a paz esteja com ele), Abraão (que a paz esteja com ele) foi o primeiro profeta que Allah, o Altíssimo, designou para proclamar o chamado universal do Islã. Primeiro, ele próprio percorreu as regiões desde o Iraque até o Egito e desde a Síria e a Palestina até diversas áreas do deserto da Arábia, convidando as pessoas à obediência e à adoração de Allah, o Altíssimo — isto é, ao Islã. Depois, com o objetivo de propagar sua missão, designou seus sucessores em diferentes regiões. No leste da Jordânia, designou seu sobrinho Ló (que a paz esteja com ele); na Síria e na Palestina, seu filho Isaque (que a paz esteja com ele); e, no interior da Arábia, seu filho mais velho, Ismael (que a paz esteja com ele). Então, por ordem de Allah, o Altíssimo, construiu em Meca uma casa chamada Caaba. Por ordem de Allah, considerou essa casa o centro de sua missão. (Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 74)
O local de nascimento de Abraão (que a paz esteja com ele)
Não foi apenas por meio dos resultados das modernas pesquisas arqueológicas que se descobriu a cidade onde Abraão (que a paz esteja com ele) nasceu; elas também lançaram luz sobre a situação das pessoas daquela região em sua época. A seguir, apresenta-se um breve resumo dos resultados da pesquisa publicados por Sir Leonard Woolley em sua obra intitulada Abraham Lindon, de 1953.
Informações históricas e civilizacionais sobre a cidade de Ur
Os especialistas hoje geralmente reconhecem que o surgimento de Hazrat Ibrahim (A.S.) ocorreu por volta de 2100 a.C. Naquela época, a população da cidade de Ur aproximava-se de duzentos e cinquenta mil habitantes. Talvez chegasse até mesmo a quinhentos mil. A cidade era um grande centro comercial e industrial. De um lado, mercadorias chegavam até lá do Pamir e de Nilgiri; de outro, mantinha relações comerciais com a Anatólia. O reino do qual era a capital tinha fronteiras um pouco menos extensas ao norte que o atual Iraque e um pouco mais extensas a oeste. A profissão da maioria dos habitantes do país era a indústria e o comércio. As inscrições daquela época encontradas nas ruínas antigas permitem saber que sua visão da vida era puramente materialista. Adquirir riquezas e acumular em grande quantidade bens destinados ao luxo e ao desfrute era o objetivo de suas vidas. O mercado de juros estava extremamente aquecido. As pessoas tinham uma mentalidade mercantil. Olhavam umas para as outras com desconfiança, e eram muito frequentes os processos judiciais entre elas. A maior parte de suas orações às divindades era por longevidade, prosperidade e sucesso nos negócios. Os habitantes estavam divididos em três classes.
Primeira: os Amilu. Eram pessoas da classe superior. Sacerdotes e funcionários civis comuns estavam incluídos nessa classe.
Segunda: os Mishkinu. Eram comerciantes, industriais e agricultores.
Terceira: os Ardu, isto é, os escravos.
Entre essas três classes, a primeira gozava de um status especial. Seus direitos criminais e civis eram diferentes dos dos demais. O valor de suas vidas e propriedades também era maior que o dos outros.
—————— Figura:
A rota da Hégira de Hazrat Ibrahim (A.S.)
Esta era a cidade e a sociedade onde Abraão (A.S.) abriu os olhos. Pelo estado dele e de sua família que encontramos no Talmude, ele pertencia à classe dos Amilu. Seu pai ocupava o cargo mais elevado do reino. Perante Nimrod, ele era o funcionário de mais alto escalão do reino (Chief officer of the state).
Deuses e deusas, templos dos deuses e rituais de adoração
Nas inscrições de Ur encontram-se os nomes de aproximadamente cinco mil deuses e deusas. Nas diversas cidades do país havia diferentes divindades adoradas. Cada cidade tinha um protetor. Ele era chamado de Rabb al-Balad, ou senhor da cidade. Era considerado o grande deus ou o chefe dos deuses e recebia mais veneração do que todos os demais deuses e deusas. O Rabb al-Balad da cidade de Ur era Nannar (a divindade lunar). Mais tarde, por causa de seu nome, as pessoas chamaram essa divindade de Kamrina. A segunda maior cidade era Larsa, que posteriormente se transformou na capital, substituindo Ur. Seu Rabb al-Balad era Shamash (a divindade solar). Sob esses grandes deuses e deusas havia também muitos deuses e deusas menores. A maioria deles era escolhida entre os planetas e as estrelas do céu, e um pequeno número, entre os elementos da terra. Eles estavam relacionados às pequenas necessidades das pessoas. Suas imagens eram feitas na forma de bonecos, e diante delas realizavam-se todos os tipos de rituais de adoração. As pessoas recorriam a eles para suas necessidades menores. Suas imagens eram feitas na forma de bonecos, e diante delas realizavam-se todos os tipos de rituais de adoração. A imagem de Nannar estava instalada, no alto da montanha mais elevada da cidade de Ur, em um magnífico edifício. Perto dali ficava o templo de Nangul, esposa de Nannar. O templo de Nannar era como um palácio real. Todas as noites, em seu quarto, uma sacerdotisa se vestia como sua noiva. No templo, muitas mulheres eram consagradas em nome da divindade. Elas eram chamadas de devadasis (prostitutas religiosas). Eram vistas com grande respeito as mulheres que consagravam sua virgindade em nome de seu deus ou divindade. É provável que entregar-se uma vez como companheira sexual de um homem desconhecido, pelo caminho da divindade, fosse considerado um caminho de libertação. Nem é preciso dizer que a maioria dos sacerdotes obtinha prazer e satisfação sexual por meio dessa prostituição religiosa.
O status divino de Nannar
Nannar não era apenas uma divindade. Era, antes, o maior proprietário de terras do país, um grande comerciante, um importante industrial e um poderoso governante da esfera política nacional. Numerosos jardins, terras e casas eram consagrados como waqf em nome desse templo. Além dessas rendas, agricultores, proprietários de terras e comerciantes enviavam ao templo, como oferenda, todos os tipos de grãos, leite, ouro e joias, tecidos e outros bens. O templo também realizava negócios em grande escala. Considerava-se que os sacerdotes e seus deuses principais realizavam todas essas atividades para obter proximidade com a divindade. A própria fonte da autoridade governamental da família real era também essa divindade Nannar. O verdadeiro rei era Nannar, e o governante do país governava em seu nome. De acordo com esse princípio, o rei do país era contado entre as próprias divindades adoradas e também era venerado como os deuses.
O início, o desenvolvimento e o fim do reino de Nimrod
O primeiro fundador da dinastia real de Ur, que governava na época de Abraão (A.S.), chamava-se Ur-Nammu. Dois mil e trezentos anos antes do nascimento de Jesus (A.S.), ele estabeleceu um grande reino. Seu reino se estendia, a leste, até Susa e, a oeste, até o Líbano. Dessa dinastia veio o nome Namû, que em árabe se tornou Nimrod. Depois que Abraão (A.S.) emigrou de seu país, uma destruição contínua começou a se abater sobre essa família. Primeiro, os elamitas destruíram a cidade de Ur e levaram Nimrod junto com sua divindade, Nannar. Depois, um governo elamita foi estabelecido em Larsa, sob o qual os habitantes da região de Ur foram reduzidos à escravidão. Em seguida, uma família de origem árabe se fortaleceu na Babilônia e subjugou tanto Larsa quanto Ur. Depois de todas essas devastações, a fé que os habitantes de Ur depositavam em Nannar foi abalada, pois Nannar não conseguiu protegê-los.
A influência dos ensinamentos de Abraão (A.S.) em épocas posteriores
Não se pode afirmar com certeza até que ponto os ensinamentos de Hadrat Ibrahim (a.s.) influenciaram o povo daquele país em épocas posteriores. Contudo, o código de leis elaborado em 1910 a.C. por Hamurabi, rei da Babilônia (Amrafel da Bíblia), foi, direta ou indiretamente, baseado na luz recebida dos profetas. As inscrições detalhadas dessas leis chegaram às mãos de um pesquisador francês de antiguidades e arqueologia em 1902. Ele publicou sua tradução inglesa em 1903, sob o título The Oldest Code of Law, de C. H. W. John. Os princípios e os pormenores dessas leis apresentam semelhanças com a sharia de Hadrat Musa (a.s.).
Um sistema civilizacional completamente politeísta
Se as pesquisas arqueológicas realizadas até o momento estiverem corretas, fica claro, a partir delas, que o shirk no qual estava envolvido o povo de Hadrat Ibrahim (a.s.) não era apenas um conjunto de crenças religiosas e ritos de adoração de ídolos. Na realidade, todo o sistema econômico, cultural, político e social daquele povo funcionava com base nessa crença. Em oposição a isso, o impacto da da‘wah do tawhid com a qual Hadrat Ibrahim (a.s.) se levantou não se limitou à adoração de ídolos; ele desferiu um golpe decisivo contra a pretensão da família real de ser divina, contra sua autoridade e domínio, contra a situação econômica e política dos sacerdotes e das classes superiores e contra todo o sistema geral de vida do país. Transmitir sua da‘wah significava destruir toda a estrutura social, de baixo para cima, e depois reconstruí-la desde os alicerces com base no tawhid. Por isso, assim que a voz de Hadrat Ibrahim (a.s.) ressoou, o povo em geral, Nimrod e os sacerdotes decidiram, todos juntos, silenciá-la. (Tafhim al-Qur’an, Surah al-Shu‘ara, nota 99)
Análise do sistema politeísta de Nimrod
Desde os tempos mais antigos até os dias atuais, todos os povos politeístas têm esta mesma característica: reconhecem Allah como Rabb al-Arbab, isto é, o Senhor de todos os senhores e o Deus de todos os deuses, mas não reconhecem somente esse Senhor e esse Deus como o único Ma‘bud digno de adoração.
Os politeístas sempre dividiram a divindade em duas categorias. A primeira é a divindade sobrenatural, que governa a cadeia de causas e efeitos e à qual as pessoas recorrem para satisfazer suas necessidades e afastar suas aflições. Nessa esfera da divindade, os politeístas associam a Allah espíritos, anjos, jinn e muitas outras entidades. Eles lhes dirigem súplicas, realizam cerimônias de adoração diante deles e oferecem votos e oferendas em seus santuários. A segunda é a divindade, ou autoridade e domínio, no âmbito das atividades culturais e políticas; ela possui o direito de formular as leis para a vida e de exigir obediência. Em praticamente todas as épocas, todos os politeístas do mundo separaram essa segunda forma de divindade de Allah ou a dividiram, juntamente com Ele, entre as famílias reais, os sacerdotes religiosos e os notáveis de gerações passadas e presentes da sociedade. A maioria das famílias reais acabou reivindicando a divindade nesse segundo sentido. Para consolidar sua divindade, reivindicaram ser filhos do deus no primeiro sentido. A classe religiosa conspirou com eles nesse assunto.
A reivindicação de divindade de Nimrod também era do segundo tipo. Ele não negava a existência de Allah. Não alegava ser ele próprio o criador da terra e dos céus nem o administrador do mundo criado. Sua reivindicação, pelo contrário, era ser o governante absoluto deste país do Iraque e de seus habitantes. Sua palavra era a lei; acima dele não havia nenhuma força ou entidade superior perante a qual tivesse de prestar contas. Por isso, qualquer habitante do Iraque que não o reconhecesse como senhor e reconhecesse como senhor alguém além dele era considerado rebelde e traidor.
O impacto da da‘wah do tawhid de Hadrat Ibrahim (a.s.)
Quando Hazrat Ibrahim (a.s.) declarou: “Reconheço somente um Rabb al-‘Alamin como Deus, Ma‘bud e Rabb, e rejeito completamente toda autoridade e domínio que não sejam os d’Ele”, a questão não era apenas até que ponto essa nova crença sua, relativa à religião nacional e às divindades religiosas, seria aceitável; levantou-se também a questão de como se poderia ignorar o golpe que essa crença desferia contra o Estado nacional e seu poder central de governo. Foi por isso que Hazrat Ibrahim (a.s.) foi apresentado diante de Nimrod sob a acusação de rebelião.
Os argumentos irrefutáveis de Hazrat Ibrahim (a.s.)
Quando Hazrat Ibrahim (a.s.) disse a Nimrod que somente Aquele em cujas mãos estão a vida e a morte era seu Senhor, Nimrod respondeu: “A vida e a morte estão em minhas mãos.”
Ibrahim (a.s.) disse: “Muito bem; Allah faz o sol nascer do Oriente. Então, faze-o nascer uma vez do Ocidente, para que vejamos.” Ao ouvir isso, o negador da verdade ficou estupefato.
Embora as primeiras palavras de Hazrat Ibrahim (a.s.) tivessem deixado claro que ninguém além de Allah pode ser Rabb ou Senhor, Nimrod ainda assim respondeu com insolência. Depois das segundas palavras, teria sido difícil para ele responder com uma insolência ainda maior, pois ele próprio sabia que o sol e a lua estavam sujeitos à ordem daquele Allah que Ibrahim (a.s.) havia reconhecido como Rabb. O que poderia dizer em resposta? Contudo, reconhecer a verdade que assim se manifestava diante dele significaria renunciar à sua autoridade e domínio absolutos, para o que o taghut de seu coração não estava preparado. Por isso, permaneceu simplesmente estupefato. Não saiu do santuário da adoração de si mesmo para alcançar a luz da verdade. Se, em vez desse taghut, tivesse tomado Allah como seu wali e auxiliador, após essa pregação de Hazrat Ibrahim (a.s.) o caminho da verdade teria se aberto diante dele.
A fogueira de Nimrod e o jardim de flores de Khalil
É mencionado no Talmude que, depois disso, por ordem do rei, Hazrat Ibrahim (a.s.) foi preso e passou dez dias na prisão. O conselho do rei decidiu queimá-lo vivo. (Tafhimul Qur’an, Surata Al-Baqarah, nota 123)
Segundo o relato do Alcorão, eles também executaram sua decisão. Depois de construir a fogueira, lançaram Hazrat Ibrahim (a.s.) dentro dela. (Sobre o lançamento de Hazrat Ibrahim (a.s.) no fogo, consulte as seguintes passagens do Alcorão: Surata Al-Anbiya: 68–70; Surata Al-‘Ankabut: 24; As-Saffat: 97–98. Os dois compiladores.)
Então Allah, o Altíssimo, ordenou ao fogo: “Torna-te frio e inofensivo para Abraão.” (Isso também é claramente um dos milagres mencionados no Alcorão. Se alguém interpreta esses milagres dessa maneira porque, em sua opinião, nem mesmo para Allah é possível realizar algo extraordinário, afastando-se do curso habitual da administração da natureza, por que não se poupa do incômodo de crer em Allah? E se oferece tal interpretação porque os chamados racionalistas da época atual não estão dispostos a aceitar esse tipo de coisa, queremos perguntar-lhe: ó servo de Allah, quem lhe impôs o fardo de que devo, de uma forma ou de outra, necessariamente aceitar isso? Aquele que não está disposto a aceitar o Alcorão exatamente como ele é, deixe-o entregue à sua própria condição. Que pessoa sensata consideraria justo moldar o Alcorão conforme a sua vontade para fazê-lo aceitá-lo, e que tipo de pregação do Islã seria essa? (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-An’am, nota 52) (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Baqarah, nota 258)
O povo de Abraão foi apagado da face da Terra de tal maneira que não resta em parte alguma qualquer vestígio seu. Se alguém entre eles teve a boa fortuna de continuar existindo, isso ocorreu apenas por meio dos descendentes de Abraão e de seus dois filhos afortunados, Ismael e Isaac. (Quando Allah, o Altíssimo, dirigiu-se a Abraão, declarou:(*****Árabe*****)isto é: “Estou constituindo-te líder de toda a humanidade.” Atualmente, no mundo, os seguidores de todas as religiões baseadas na revelação — muçulmanos, judeus e cristãos — estão igualmente ligados a Abraão. Os compiladores. Embora o castigo que se abateu sobre o povo de Abraão depois de sua partida do país não esteja mencionado no Alcorão, eles foram incluídos entre os povos castigados. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Baqarah, notas 291–292)
Os governantes, eruditos e sacerdotes da Babilônia que quiseram silenciar o chamado de Abraão, bem como os habitantes politeístas que obedeciam àqueles opressores, desapareceram da face da Terra de tal modo que não resta vestígio algum deles em parte alguma. Mas àquele que eles quiseram queimar e reduzir a cinzas pelo crime de exaltar a palavra de Allah, e que por fim teve de abandonar sua pátria de mãos vazias, Allah concedeu a graça de manter seu nome brilhando no mundo há quatro mil anos, e assim permanecerá até o Dia da Ressurreição. Todos os muçulmanos, judeus e cristãos do mundo reconhecem unanimemente esse amado homem do Senhor dos Mundos como líder religioso. Toda a luz de orientação que chegou ao mundo nos últimos quarenta séculos chegou graças a esse homem e a seus filhos puros. Eles certamente receberão uma grande recompensa na Vida Futura; mas também alcançaram neste mundo uma honra tal que, entre aqueles que lutaram de maneira enganosa para conquistar o mundo, ninguém teve a fortuna de obter semelhante honra. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Anbiya, nota 62)
Relato do Talmude
Não há qualquer menção na Bíblia a esse acontecimento importante da vida de Abraão. Nem mesmo qualquer acontecimento de sua vida iraquiana foi incluído nesse Livro. Seu encontro face a face com Nimrod, seu conflito com o pai e o povo, seus esforços e sua luta contra a idolatria, o episódio de ser lançado ao fogo, e finalmente ser obrigado a deixar o país — todos esses assuntos eram, aos olhos do autor do primeiro livro do Antigo Testamento, indignos de menção. Ele menciona apenas sua migração, e ainda assim de tal maneira que parece tratar-se de uma família que se muda de um país para outro em busca de meios de subsistência. A maior divergência entre o Alcorão e a Bíblia está no fato de que, segundo o relato do Alcorão, o pai politeísta de Abraão foi o primeiro a infligir-lhe injustiça. A Bíblia, porém, afirma que seu pai se estabeleceu em Harã levando consigo o filho, o neto e as noras — Antigo Testamento, Gênesis, capítulo 11, versículos 27–32. Depois, de repente, Deus diz a Abraão: “Deixa Harã e vai estabelecer-te em Canaã; farei de ti uma grande nação e te abençoarei; serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei quem te amaldiçoar; e em ti serão abençoadas todas as famílias da Terra.” (O mesmo Gênesis, capítulo 12, versículos 2–3.) Não se consegue entender por que, de repente, essa benevolência se voltou para Abraão. No Talmude, naturalmente, encontram-se muitos dos relatos da época iraquiana da vida de Abraão que são mencionados em diferentes partes do Alcorão. Contudo, quando se comparam os dois, não se veem apenas diferenças nas partes importantes da história; pode-se perceber claramente que a maior parte do relato talmúdico está repleta de afirmações incoerentes e inconcebíveis. Em contrapartida, o Alcorão apresenta um relato claro dos acontecimentos importantes da vida de Abraão. Nele não há disparates. Para informação do leitor, citamos aqui um breve resumo da história narrada no Talmude. Assim, ficará evidente o equívoco daqueles que consideram o Alcorão dependente da Bíblia e da literatura judaica.
O Talmude afirma que, quando Abraão nasceu, os astrólogos viram certos sinais no céu e aconselharam Nimrod a matar a criança que havia nascido na casa de Terá. Nimrod preparou-se para matá-la. Mas Terá apresentou, em lugar de seu próprio filho, o filho de um escravo e, desse modo, salvou a própria criança. Depois, Terá escondeu sua esposa e o filho pequeno numa caverna. Eles passaram ali dez anos. No décimo primeiro ano, Terá enviou Abraão para junto de Noé. Abraão permaneceu durante trinta e nove anos junto de Noé e casou-se com sua própria sobrinha Sara, que era quarenta e dois anos mais nova que ele. A Bíblia não menciona que Sara fosse sobrinha de Abraão. Segundo a Bíblia, a diferença de idade entre os dois era de apenas dez anos. Antigo Testamento, Gênesis, capítulo 11, versículo 29, e capítulo 17, versículo 17.
Depois, o Talmude afirma que, aos cinquenta anos, Abraão deixou a casa de Noé e voltou para junto de seu pai. Viu que seu pai era um idólatra e que em sua casa havia doze ídolos, um para cada mês do ano. Depois de tentar muitas vezes fazer seu pai compreender, sem sucesso, certo dia, aproveitando uma oportunidade, quebrou todos os ídolos do templo da família. Ao ver aquela situação de seus deuses, Terá foi diretamente a Nimrod e apresentou uma queixa, dizendo: “Aquele filho que nasceu em minha casa cinquenta anos atrás fez isso na minha casa. Agora, faça justiça.”
Nimrod convocou Abraão e interrogou-o. Ele respondeu em termos severos. Nimrod imediatamente mandou prendê-lo e apresentou o assunto ao seu conselho. Depois de deliberar, o conselho recomendou que ele fosse queimado até morrer. De acordo com isso, preparou-se uma enorme fogueira, e Abraão foi lançado nela. Seu irmão e seu sogro Harã também foram lançados ao fogo junto com Abraão. Isso porque, quando Nimrod perguntou a Terá: “Eu queria matar aquele teu filho ainda no dia em que nasceu. Por que, em vez dele, apresentaste outra criança para ser morta?”
Em resposta, Terá disse: “Fiz isso seguindo o conselho de Harã.” Depois dessas palavras, aquele que havia cometido pessoalmente o ato foi libertado, mas o conselheiro foi lançado ao fogo junto com Hadrat Ibrahim (a.s.). Assim que caiu no fogo, Harã ardeu e foi reduzido a cinzas. Contudo, as pessoas viram Ibrahim (a.s.) caminhando tranquilamente. Informaram Nimrod sobre o ocorrido. Então, quando Nimrod veio e viu com os próprios olhos aquele acontecimento extraordinário, gritou: “Ó servo do Deus celestial! Sai do fogo e fica diante de mim.” Hadrat Ibrahim (a.s.) saiu do fogo. Nimrod sentiu-se atraído por ele e o dispensou, presenteando-o com muitos valiosos presentes.
Depois, segundo o relato do Talmude, Hadrat Ibrahim (a.s.) permaneceu ali por dois anos. Nesse ínterim, Nimrod teve um sonho terrível. Os astrólogos o interpretaram e disseram que Ibrahim (a.s.) seria a causa da queda daquele reino. Portanto, deveria ser morto. Enviaram homens para assassiná-lo. Contudo, o escravo Alaiyazar, que o próprio Nimrod havia presenteado a Hadrat Ibrahim (a.s.), revelou o plano do assassinato antes do momento determinado. Como resultado, Hadrat Ibrahim (a.s.) fugiu e refugiou-se na casa de Hadrat Noé (a.s.). Ali, Terá continuou a visitá-lo secretamente. Depois, pai e filho decidiram que seria melhor deixar o país. Hadrat Noé (a.s.) e Sem aprovaram a proposta. Então, Terá partiu de Ur para Harã levando seu filho Ibrahim (a.s.), seu neto Lot (a.s.) e sua nora Sara. — H. Polanef, Seleções do Talmude, Londres, pp. 30–42; Tafhim al-Qur’an, surata al-Anbiya, nota 62.
O povo de Lot
Segundo a Bíblia, Hadrat Ibrahim (a.s.) tinha dois irmãos: Naor e Harã. Hadrat Lot (a.s.) era filho de Harã (Antigo Testamento, Gênesis, capítulo 11, versículo 26). A partir da menção a Hadrat Ibrahim (a.s.) no versículo 26 da surata al-Ankabut, parece claro que, entre seu povo, somente Lot (a.s.) creu nele. (Tafhim al-Qur’an, surata ash-Shu‘ara, nota 73.)
Hadrat Lot (a.s.) era sobrinho de Hadrat Ibrahim (a.s.). Ele deixou o Iraque com seu tio e, durante algum tempo, viajou pela Síria, Palestina e Egito, adquirindo experiência em convite e pregação. Depois, ao ser permanentemente elevado ao cargo de profeta, foi incumbido de reformar e corrigir o povo desviado. Esse povo passou a ser conhecido como o povo de Lot. Os habitantes de Sodoma são chamados de seu povo porque, provavelmente, ele tinha laços de parentesco com essa gente.
A região do povo de Lot
Esse povo vivia naquela região que atualmente é chamada Transjordânia. Ela está situada entre o Iraque e a Palestina. Na Bíblia, a principal cidade desse povo é chamada Sodoma. Ela ficava em algum lugar próximo ao Mar de Lot (Mar Morto). O Talmude afirma que, além de Sodoma, havia outras quatro grandes cidades nessa região. As áreas entre essas cidades eram tão aprazíveis que havia um único jardim com vários quilômetros de extensão, cuja beleza maravilhava as pessoas. Hoje, porém, o nome e a existência desse povo desapareceram completamente da face da Terra. Já não é possível determinar exatamente onde ficavam seus povoados. Apenas o Mar Morto permanece como seu único vestígio, sendo atualmente chamado de Mar de Lot. Entre as calúnias lançadas sobre a vida de Hadrat Lot (a.s.) na Bíblia adulterada pelos judeus está a afirmação de que ele teria ido para a região de Sodoma depois de discutir e brigar com Hadrat Ibrahim (a.s.) (Antigo Testamento, Gênesis, capítulo 13, versículos 1–12). O Alcorão, porém, refuta essa afirmação, dizendo que Deus o enviou como profeta a esse povo. (Tafhim al-Qur’an, surata al-Anbiya, nota 66; Tafhim al-Qur’an, surata al-Ankabut, nota 49.)
Essa região devastada pode ser vista no caminho do Hejaz para a Síria e do Iraque para o Egito. Em geral, grupos de viajantes observam essas ruínas, que ainda hoje permanecem claramente visíveis. A região situa-se a sudeste do Mar de Lot. Geógrafos afirmam, especialmente a respeito de sua parte meridional, que ali se encontram ruínas em quantidade tal como não se vê em nenhum outro lugar do mundo. (Tafhim al-Qur’an, surata al-Anbiya, nota 63.)
A decadência do povo de Lot
(*****Árabe*****)
Um: Acaso vos aproximais dos homens entre as criaturas na Terra e abandonais aquilo que vosso Senhor criou para vós em vossas esposas? Pelo contrário, sois um povo que transgride os limites. — Surata Ash-Shu’ara, 165–166
(*****Árabe****)
Dois: Praticais acaso essa obscenidade que nenhuma criatura da Terra jamais praticou antes de vós? — Surata Al-Ankabut, 28
(*****Árabe*****)
Três: Acaso vos aproximais dos homens, cometeis assaltos nas estradas e praticais más ações em vossas reuniões? — Surata Al-Ankabut, 29
Isto é, tendes relações sexuais com eles. Como foi dito na Surata Al-A’raf—
(*****Árabe*****)
Vocês se aproximam dos homens, deixando de lado as mulheres, para satisfazer a sua luxúria sexual. Depois, o surpreendente é que vocês não praticam esse ato obsceno em segredo; pelo contrário, cometem esse mal publicamente, em suas reuniões, diante uns dos outros. É justamente isso que foi dito na Surata An-Naml: (*****Árabe*****)Vocês chegaram a tal ponto de degradação que cometem esse ato obsceno diante dos espectadores? (Tafhim-ul-Qur’an, Surata Al-A‘raf, nota 63)
As pessoas de caráter virtuoso jamais deixaram completamente de praticar o ato abominável pelo qual o povo de Ló ficará infamemente conhecido para sempre. Contudo, os gregos tornaram-se os únicos(?) detentores dessa glória, pois sua filosofia tentou conferir a esse crime abominável o status de beleza moral. Depois, a Europa e a América modernas preencheram o pouco que ainda faltava nesse aspecto. Foi realizada uma enorme campanha pública em sua defesa. Chegou-se ao ponto de o parlamento de um país como a Alemanha declará-lo legal. Também em outros países ocidentais ele foi legalizado do ponto de vista jurídico. Entretanto, é uma verdade evidente que a homossexualidade é totalmente contrária ao sistema natural. Allah criou todos os seres vivos. Entre a humanidade, um de seus objetivos adicionais é que homens e mulheres formem uma família e, a partir dela, estabeleçam os fundamentos de uma civilização. Foi com esse objetivo que foram criados dois sexos distintos, o masculino e o feminino. Foi criada entre eles uma atração sexual mútua. Sua constituição física e sua disposição psicológica foram plenamente ajustadas, por meio da satisfação recíproca, ao objetivo da vida conjugal. Na atração e na satisfação entre eles existe um prazer que, para cumprir o propósito da natureza, é ao mesmo tempo um estímulo e uma força ativa, além de ser a recompensa desse ato. Mas aquele que age contra esse sistema natural e busca prazer sexual por meio da homossexualidade comete simultaneamente vários crimes. Primeiro, luta contra sua própria constituição natural universal e contra sua disposição psicológica. Desse modo, cria dentro de si uma enorme desordem e perturbação, produzindo efeitos adversos sobre o corpo, a mente e o caráter de ambos. Segundo, comete o crime de trair e usurpar a natureza. Pois o prazer sexual que a natureza havia feito um presente para o serviço da espécie e da civilização, e cuja obtenção havia vinculado ao dever, à responsabilidade e ao direito, ele o obtém por uma via furtiva, sem qualquer serviço prestado e sem cumprir qualquer dever, direito ou responsabilidade. Terceiro, pratica um ato manifesto de egoísmo e traição contra a sociedade humana. Beneficia-se das instituições civilizacionais estabelecidas na sociedade, mas, quando chega a sua vez, em vez de carregar o peso dos direitos, deveres e responsabilidades, utiliza todas as suas forças e capacidades de maneira inteiramente egoísta, por uma via que não é apenas inútil para a sociedade, a civilização e a moralidade, mas certamente prejudicial. Torna-se incapaz de servir à sua descendência e à sua família. Ao menos um homem, juntamente consigo, é levado a envolver-se em uma atividade feminina anormal, abrindo assim o caminho para a desordem sexual e a degradação moral de pelo menos duas mulheres. (Tafhim-ul-Qur’an, Surata Al-A‘raf, nota 63)
( *****Árabe****)
Quarto: Quando os Nossos anjos chegaram até Ló, ele ficou perplexo com a chegada deles e sentiu-se angustiado. Então começou a dizer: “Hoje é um dia de grande aflição.” (Ao verem a chegada daqueles hóspedes,) os membros de seu povo correram espontaneamente para a sua casa. Eles já estavam acostumados a esse tipo de maldade. Ló disse-lhes: “Meus irmãos, aqui estão as minhas filhas. Elas são as mais puras para vocês. Temam a Allah e não me desonrem nem me humilhem por causa dos meus hóspedes. Não há entre vocês nenhum homem sensato?” Eles responderam: “Tu sabes que não temos necessidade alguma das tuas filhas, e sabes também o que queremos.” Surata Hud: 77–79
Pela maneira como o Alcorão apresenta os detalhes desse acontecimento, fica claro que esses anjos chegaram à casa de Ló (que a paz esteja com ele) sob a forma de jovens formosos. Ele não sabia que eram anjos. Por isso, ficou muito preocupado com a chegada daqueles hóspedes e sentiu grande apreensão. Ele sabia quão depravado e descarado era o seu povo.
É possível que Ló (que a paz esteja com ele) estivesse apontando para as mulheres da sua comunidade. Isso porque o profeta é como um pai para o seu povo, e as mulheres da comunidade são, aos seus olhos, como suas próprias filhas. Também é possível que estivesse apontando para as suas próprias filhas. De qualquer modo, em nenhuma das duas hipóteses há razão para supor que Ló (que a paz esteja com ele) lhes estivesse dizendo que cometessem adultério com elas. Não há nenhuma possibilidade de interpretar mal a expressão “elas são as mais puras para vocês”. O propósito de Ló (que a paz esteja com ele) era claramente que eles satisfizessem seus impulsos sexuais pelo método natural e lícito que Allah havia determinado, e para isso não lhes faltavam mulheres.
(*****Árabe******)E não me desonrem nem me humilhem por causa dos meus hóspedes: estas palavras retratam plenamente a mentalidade deles e mostram até que ponto estavam mergulhados na devassidão. A questão não era apenas que haviam abandonado o caminho da natureza e da pureza para seguir uma via obscena e antinatural; sua degradação havia chegado a tal extremo que todas as suas inclinações, desejos e paixões estavam agora voltados exclusivamente para esse único caminho impuro e repugnante. Restara em seus corações apenas o desejo dessa impureza, e eles não sentiam vergonha de dizer, a respeito do caminho da natureza e da pureza, que esse caminho não era para eles. Esse é o grau mais baixo de degradação moral e mental que se pode imaginar. É relativamente fácil compreender o caso de uma pessoa que, por fraqueza mental, se envolve em uma prática ilícita, mas considera o lícito algo desejável e o ilícito algo do qual deve se manter afastada. Essa pessoa ainda pode se corrigir em algum momento. E, mesmo que não se corrija, no máximo pode-se dizer que é uma pessoa desviada. Porém, quando todas as inclinações de uma pessoa se voltam exclusivamente para o ilícito e ela considera que o lícito não é para ela, então não se pode incluí-la entre os seres humanos. Na realidade, ela é um verme repugnante e impuro, criado e alimentado no meio das fezes, cuja natureza e disposição não têm qualquer compatibilidade com a pureza. Se um verme desse tipo nascer na casa de uma pessoa limpa e de bom gosto, esta, na primeira oportunidade, derramará fenol e manterá sua casa pura e limpa, eliminando-o. Então, por quanto tempo poderia Allah suportar sobre a Sua terra a infestação desses vermes repugnantes e impuros? (Tafhim-ul-Qur’an, Surata Al-Hijr, nota 42)
(*****Árabe*****)
Cinco: Nesse ínterim, os habitantes da cidade, tomados de alegria, invadiram a casa de Hazrat Lut. Lut disse: “Meus irmãos, estes são meus hóspedes. Não me desonreis. Temei a Deus e não me humilheis nem me desonreis.” Eles disseram: “Acaso não te proibimos repetidamente de te fazeres responsável pelo mundo inteiro?” Lut, não tendo outra alternativa, disse: “Se realmente quereis fazer alguma coisa, eis aqui as minhas filhas.” — Surata Al-Hijr: 66–71
A partir disso, pode-se imaginar até que ponto havia chegado a depravação moral desse povo. Bastava que alguns hóspedes formosos chegassem à casa de alguém daquela aldeia para que imediatamente uma multidão se reunisse diante de sua casa e exigisse abertamente: “Entrega-nos os teus hóspedes; nós cometeremos atos indecentes com eles.”
Em toda a sua povoação não havia sequer uma pessoa que erguesse a voz contra esses atos perversos. Tampouco lhes restava qualquer sentimento moral que lhes permitisse sentir vergonha ao ver publicamente tais excessos. Quando malfeitores podiam atacar sem medo até a casa de um grande homem e mestre da moralidade como Hazrat Lut (A.S.), é fácil imaginar como o povo comum daquela povoação deve ter sido tratado. (Tafhim-ul-Qur’an, Surata Al-Ankabut, notas 51–52)
Relato do Talmude
Apresentamos aqui um breve resumo do estado desse povo, tal como registrado no Talmude. Isso deixará claro até que nível inferior de anarquia moral esse povo havia descido. O Talmude relata que, certa vez, um viajante elamita atravessava aquela região. Como anoiteceu durante o caminho, teve de permanecer na cidade de Sadom (Sadom). Ele trazia provisões consigo. Ninguém o convidou para ser hóspede. Então, acomodou-se sob uma árvore. Mais tarde, um homem de Sadom insistiu em levá-lo para sua casa e o hospedou ali durante a noite. Antes do amanhecer, fizeram desaparecer o seu jumento, juntamente com sua bagagem. Ele começou a gritar, mas ninguém lhe deu ouvidos. Pelo contrário, os habitantes da aldeia tomaram tudo o que ainda possuía e expulsaram-no da cidade.
Certa vez, Hazrat Sara (A.S.), esposa de Hazrat Ibrahim (A.S.), enviou seu servo Ali Izr a Sadom para obter notícias de Hazrat Lut (A.S.). Ao entrar na cidade, Ali Izr viu um homem de Sadom agarrando e espancando um forasteiro. Quando Ali Izr perguntou por que estavam espancando um viajante indefeso, todos os presentes no mercado se uniram e decapitaram-no.
Certa vez, um homem pobre chegou àquela cidade. Não encontrando em lugar algum algo para comer, ficou prostrado em um lugar, exausto de fome. Ao vê-lo, a filha de Hazrat Lut (A.S.) levou-lhe comida. Por isso, Lut (A.S.) e sua filha foram severamente repreendidos, e disseram-lhes, ameaçando-os, que não lhes permitiriam permanecer na aldeia se fizessem algo assim. Depois de narrar vários acontecimentos desse tipo, o autor do Talmude afirma que, na vida cotidiana, aquelas pessoas eram extremamente injustas, enganadoras e desonestas nas transações. Nenhum viajante podia passar em segurança por sua região. Nenhum pobre conseguia comer sequer um pedaço de pão junto deles. Muitas vezes aconteceu que alguém vindo de fora morreu de fome em sua terra. Então eles lhe tiravam as roupas e o enterravam nu. Se, por infelicidade, algum comerciante de fora chegasse ao seu território, tudo o que possuía era saqueado. Ninguém dava ouvidos à sua queixa. Em seu vale, haviam criado jardins que se estendiam por vários quilômetros. Nesses jardins, cometiam atos indecentes publicamente e com extrema desavergonhada. Nenhuma voz se levantava contra eles, exceto a voz de Lut (A.S.).
Breve descrição do Alcorão
No Alcorão Sagrado, toda esta história é descrita apenas em duas frases:(*****Árabe****)já vinha praticando grandes maldades.(*****Árabe******)Vocês satisfazem o desejo sexual por meio de homens, assaltam os viajantes e praticam abertamente atos sexuais em suas reuniões. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 64)
A reação ao convite do Profeta
Quando Hazrat Lut (a.s.) os chamou à correção, os membros de seu povo, enfurecidos, disseram:
(*****Árabe*******)
(Ó Lut,) se não desistires de todas essas palavras, certamente estarás entre aqueles que foram expulsos desta cidade. — Surata Ash-Shu’ara: 167
Em outras palavras, sabes que, anteriormente, quem se pronunciou contra nós, protestou contra nossas práticas ou agiu contra a nossa vontade foi expulso da nossa cidade. Agora, se fizeres o mesmo, terás o mesmo destino.
Nas Suratas Al-A’raf e An-Naml, é dito que, antes de os perversos desse povo emitirem esse aviso a Hazrat Lut (a.s.), haviam decidido:(*****Árabe*****)Expulsem Lut e sua família de sua cidade. Eles querem manter-se excessivamente puros. (Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, notas 86–88)
A chegada dos anjos
(*****Árabe********)
E quando os Nossos anjos chegaram a Ibrahim com boas-novas, apresentaram-se primeiro diante de Ibrahim (A.S.). Eles lhe deram as boas-novas do nascimento de Hazrat Isaque (A.S.) e, depois, de Hazrat Yaqub (A.S.). Em seguida, disseram que haviam sido enviados para destruir o povo de Lot, pois o povo daquela nação havia transgredido os limites. (Tafhimul Qur’an, Surata Al-Hijr, nota 39)
(*****Árabe*****)
Ibrahim disse: “Mas lá está Lot.” Surata Al-Ankabut: 32
Inicialmente, Hazrat Ibrahim (A.S.) ficou apreensivo ao ver os anjos sob a forma humana, pois a vinda dos anjos com tal aparência costuma estar relacionada a alguma missão terrível. Depois, quando eles lhe deram as boas-novas, sua apreensão desapareceu. Porém, ao saber que essa missão seria dirigida contra o povo de Lot, ele pediu misericórdia para aquela nação (*****Árabe********)Mas seu pedido não foi aceito. Foi-lhe dito: “Não diga nada sobre esse assunto. A decisão do seu Senhor já foi tomada e agora não poderá, de modo algum, ser alterada”(*****Árabe**********) Quando, com isso, Hazrat Ibrahim (A.S.) já não conservava qualquer esperança, ficou preocupado com Hazrat Lot (A.S.). Por isso, disse: “Lá está Lot.” Ou seja, se esse castigo ocorrer enquanto Hazrat Lot (A.S.) estiver presente, como ele e sua família poderão escapar dele? (Tafhimul Qur’an, Surata Al-Hijr, nota 39)
( *****Árabe*******)
Eles disseram: “Sabemos muito bem quem se encontra lá. Salvaremos ele e os demais membros de sua família, exceto sua esposa. Ela estará entre os que ficarão para trás.” — Surata Al-Ankabut: 32
A respeito da esposa de Hazrat Lut (A.S.), é dito no versículo 10 da Surata At-Tahrim que ela não era obediente a Hazrat Lut (A.S.). Por isso, foi decretado a seu respeito que, embora fosse esposa de um profeta, seria submetida ao castigo. É possível que, quando Hazrat Lut (A.S.) migrou e se estabeleceu na região da Jordânia, tenha se casado com uma mulher daquele povo. Porém, mesmo depois de passar longo tempo de sua vida em sua companhia, ela não creu; sua lealdade continuava voltada para o seu próprio povo. Como, perante Allah, o Altíssimo, os laços de parentesco e fraternidade não têm valor algum, cada pessoa é tratada com base em sua fé e seu caráter. Por isso, ser esposa de um profeta não lhe serviu de nada, e seu destino não foi o de seu marido, mas o daquele povo ao qual ela havia ligado sua religião e sua moral. (Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shu’ara, nota 111)
A preocupação de Hazrat Lut (A.S.)
(*****Árabe*******)
E quando os Nossos anjos chegaram junto de Lot, ele ficou angustiado e abatido com a chegada deles. — Surata Al-Ankabut: 33
A razão dessa preocupação era que os anjos haviam vindo sob a forma de jovens extremamente belos. Hazrat Lut (A.S.) conhecia o caráter de seu povo. Por isso, assim que eles chegaram, ficou aflito, pensando em como protegeria esses hóspedes das mãos de seu povo pecador, caso lhes desse abrigo. Por outro lado, se não lhes permitisse ficar, isso seria uma extrema falta de cortesia. Além disso, temia que, se não desse abrigo a esses viajantes, eles próprios seriam lançados à boca dos lobos. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Ankabut, nota 53)
Na Surata Hud, é dito que, quando as pessoas começaram a entrar na casa de Hazrat Lut (A.S.), ele pensou que já não seria possível salvar os hóspedes de modo algum. Então, gritou:(*****Árabe*******) Ah! Se eu tivesse força para vos corrigir, ou pudesse contar com o apoio de alguma autoridade poderosa! Então os anjos disseram:(*****Árabe*******) Ó Lut! Somos anjos enviados por teu Senhor. Eles jamais poderão chegar até ti. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Ankabut, nota 55)
( *****Árabe********)
Eles disseram: Não temas, nem te aflijas. — Surata Al-Ankabut: 33
Isto é: não se preocupe, no que diz respeito a nós, com a possibilidade de eles nos fazerem algum mal, nem com a forma como seremos protegidos deles. Aproveitando essa oportunidade, os anjos revelaram a Hadrat Ló (que a paz esteja com ele) o segredo de que não eram humanos, mas anjos. Eles haviam sido enviados para fazer descer o castigo sobre aquele povo. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-‘Ankabut, nota 56)
Do relato detalhado desse acontecimento apresentado no Sagrado Alcorão e do significado subjacente às suas palavras, torna-se claro que os anjos foram à casa de Hadrat Ló (que a paz esteja com ele) disfarçados de belos rapazes. Hadrat Ló não sabia que eles eram anjos. Por isso, ficou extremamente angustiado com a chegada dos hóspedes, e seu coração se contraiu de preocupação. Ele conhecia bem o seu povo. Sabia como eram adúlteros e a que grau de falta de vergonha haviam chegado. (Assim que esses hóspedes chegaram, os homens de seu povo começaram, sem hesitação, a correr em direção à sua casa. Já estavam acostumados a esse tipo de perversidade. Ló lhes disse: “Ó meus irmãos! Aqui estão minhas filhas; elas são mais puras para vocês. Temam a Deus e não me desonrem por causa dos meus hóspedes. Não há entre vocês sequer um homem de bem?” Eles responderam: “Tu sabes muito bem que não temos necessidade de tuas filhas, e sabes também o que queremos.” — Surata Hud: 78. (Surata Al-‘Ankabut, nota 57)
( *****Árabe********)
Depois, eles tentaram impedir Hadrat Ló de proteger os seus hóspedes. Por fim, cegamos-lhes os olhos. (Dissemos:) “Provai agora o Meu castigo e a advertência!” — Surata Al-Qamar: 37
Hadrat Ló (que a paz esteja com ele) suplicou desesperadamente à multidão enfurecida que desistisse daquele ato abominável. Mas eles não o ouviram. Entraram na casa e tentaram retirar os hóspedes à força. Nesse momento final, de repente, ficaram cegos. Então os anjos ordenaram a Hadrat Ló (que a paz esteja com ele) que saísse daquela cidade, com sua família, antes do amanhecer. Assim que eles saíram, um terrível castigo desceu sobre aquele povo.
Na Bíblia, esse acontecimento é descrito da seguinte maneira: “Então disseram: ‘Sai daí!’ E acrescentaram: ‘Este estrangeiro veio morar sozinho e agora quer ser nosso juiz? Pois faremos contigo coisa ainda pior do que com eles.’ Dito isso, avançaram violentamente contra Ló e tentaram arrombar a porta. Então os dois homens estenderam as mãos, puxaram Ló para dentro da casa, para junto deles, e fecharam a porta. E feriram de cegueira todos, pequenos e grandes, que estavam junto à entrada da casa, de modo que se cansaram procurando a porta.” — Gênesis 19:9–11. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-‘Ankabut, nota 58)
(*****Árabe********)
Eles disseram: “Fomos enviados a um povo criminoso. Faremos chover sobre eles pedras de argila endurecida. Essas pedras foram marcadas, por parte do teu Senhor, para os transgressores.” Surata Adh-Dhariyat: 32–34
Ou seja, cada pedra havia sido marcada para indicar sobre qual pecador deveria ser lançada. (Surata Al-Ankabut, nota 58)
A descida do castigo
(*****Árabe*********)
Então, quando chegou o Nosso momento determinado, reviramos aquela cidade de cima para baixo e fizemos chover continuamente sobre ela pedras de argila endurecida. Cada uma dessas pedras estava marcada junto ao teu Senhor, e esse castigo não estava longe dos injustos. Surata Hud: 82–83(*****Árabe********)
E fizemos cair sobre eles uma chuva torrencial. Essa chuva caiu sobre aqueles que haviam sido previamente advertidos. – Surata Ach-Chuará: 173
É provável que esse castigo tenha ocorrido na forma de um terremoto terrível e de uma explosão vulcânica. O terremoto revirou aquela cidade de cima para baixo, e a matéria vulcânica, ao explodir, fez chover pedras sobre eles. As pedras de argila endurecida eram provavelmente aquelas massas de terra que, nas regiões vulcânicas, assumem a forma de pedra pela combinação do calor subterrâneo com a matéria derretida. Ainda hoje, os destroços da chuva de pedras podem ser vistos por toda a região sudeste do Mar de Lót. (Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 86)
( *****Árabe*******)
onde não encontramos nenhuma outra casa de muçulmanos além de uma.
Em toda a nação e em toda a região havia apenas uma casa na qual se encontrava a luz da fé e do Islã. E essa única casa era a de Hazrat Lute (que a paz esteja sobre ele). Toda a nação restante estava entregue à depravação, e seu país estava repleto de impureza e pecado. Por isso, Allah Todo-Poderoso retirou vivos os habitantes daquela única casa. Depois, uma destruição tão completa abateu-se sobre aquele país que nenhum dos membros daquela nação pecadora pôde sobreviver. (A lei de Allah Todo-Poderoso quanto à recompensa ou à punição — a Lei da Retribuição — é que uma nação não seja destruída por completo enquanto ainda restar nela algum bem significativo. Se, em comparação com a maioria dos perversos, houver mesmo um pequeno grupo que tente resistir à corrupção e convocar as pessoas ao caminho correto, Allah Todo-Poderoso lhe concede a oportunidade de agir. Quando ocorre uma situação em que já não se encontra a menor parcela de bem em uma nação, a política de Allah Todo-Poderoso é proteger, por Seu poder, o pequeno número daqueles que se cansaram de lutar contra a corrupção na cidade, e tratar o restante como um proprietário sensato trata os frutos apodrecidos. (Tafhim al-Qur’an, Surata Adh-Dhariyat, nota 32) (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Qamar, nota 22)
A descrição do castigo na Bíblia
Segue abaixo um breve resumo da luz lançada sobre a descrição desse castigo pelos relatos da Bíblia, pelos documentos antigos da Grécia e da Itália, pelas pesquisas arqueológicas da época moderna e pela observação das antigas ruínas.
Na região desabitada a leste e ao sul do Mar de Lute (Mar Morto), as ruínas de numerosas antigas povoações testemunham que ela foi outrora uma região densamente habitada. Ainda hoje encontram-se ali vestígios de centenas de povoações destruídas. Atualmente, essa região não é tão fértil a ponto de poder sustentar uma população tão numerosa. Os especialistas em arqueologia consideram que a ocupação e a prosperidade dessa região duraram de 2300 a 1900 a.C., e os historiadores consideram que Hazrat Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) viveu cerca de dois mil anos antes de Jesus Cristo. Nesse sentido, as ruínas testemunham que essa região foi destruída na época de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) e de seu sobrinho, Hazrat Lute (que a paz esteja sobre ele).
A parte mais densamente povoada e fértil dessa região é chamada na Bíblia de vale de Siddim. Era extremamente fértil, como o jardim do Senhor (Éden) e como o Egito (Gênesis 13:10). Segundo a opinião dos especialistas modernos, esse vale está agora submerso no Mar de Lute. Há testemunhos disso em várias ruínas. Na antiguidade, o Mar de Lute não se estendia tanto para o sul quanto hoje. A oeste, diante da atual cidade transjordaniana de Al-Karak, havia nesse mar uma pequena ilha chamada Al-Lisan; na antiguidade, ela era o limite extremo das águas. Abaixo dela, onde hoje se espalham as águas, existia anteriormente um vale fértil. Esse era o vale de Siddim, no qual se encontravam as grandes cidades do povo de Lute: Sadum, Amura, Adma, Sanbuem e Dugar. Cerca de dois mil anos antes de Jesus Cristo, um terrível terremoto fendeu e afundou esse vale, e as águas do Mar de Lute cobriram-no. Ainda hoje, essa é a parte mais agitada do Mar de Lute. Contudo, durante o domínio romano, ela não era tão agitada e turbulenta, de modo que as pessoas podiam viajar de Al-Lisan e chegar à Margem Ocidental atravessando as águas. Até aquele período, as florestas submersas junto à margem sul ainda podiam ser vistas claramente. Também se suspeitava da existência de alguns edifícios submersos nas águas.
Sabe-se, pelos relatos bíblicos e pelos antigos escritos gregos e italianos, que havia poços de petróleo e de esfalerita em vários pontos dessa região, e que em alguns lugares também saíam do solo gases inflamáveis. Ainda hoje são encontrados ali petróleo e gás subterrâneos. Pesquisas arqueológicas levaram à hipótese de que, juntamente com o intenso tremor do terremoto, petróleo, gás e esfalerita foram expelidos do solo, e que toda a região foi destruída por essa explosão. A Bíblia diz que, ao receber a notícia dessa destruição, Hazrat Ibrahim (que a paz esteja sobre ele) veio de Hebron para observar a situação do vale e viu fumaça emanando do solo como sai de um forno. (Gênesis, capítulo 19, versículo 28) (Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 91)
( *****Árabe****)
E deixamos nessa cidade um sinal claro.
Por este sinal claro entende-se o Mar de Ló (Mar Morto). Em vários lugares do Alcorão Sagrado, dirigindo-se aos incrédulos de Meca, é dito que ainda existe na estrada principal um sinal do castigo que atingiu essa nação injusta por causa de seus atos; vós o vedes dia e noite quando viajais para a Síria a negócios.
(*****Árabe*****)
Descobertas recentes
Atualmente, admite-se com quase toda a certeza que a parte sul do Mar de Ló adquiriu essa configuração ao afundar no subsolo em consequência de um terrível terremoto. E foi justamente nessa parte submersa que se localizava a cidade central do povo de Ló, Sodoma (Sodom). Nessa área, foram encontrados sob as águas os restos de alguns povoados submersos. Recentemente, tentou-se descer sob as águas, com o auxílio de modernos equipamentos de mergulho, para procurar os vestígios. Contudo, não se tem conhecimento de qualquer resultado positivo dessa tentativa. (Tafhim al-Qur’an, Surata Adh-Dhariyat, nota 34)
(****Árabe*****)
E deixamos ali um sinal para aqueles que temem o castigo doloroso. — Surata Adh-Dhariyat: 37
Este sinal é o Mar de Ló (Mar Morto), cuja parte sul ainda carrega as marcas de uma enorme destruição. Os arqueólogos supõem que a grande cidade do povo de Ló provavelmente afundou sob a terra devido a um terrível terremoto, e que as águas do Mar de Ló se espalharam sobre ela. Isso porque a parte desse mar situada ao sul da pequena ilha chamada Al-Lisan parece ter-se formado posteriormente, e os vestígios do antigo Mar de Ló encontrados dentro dessa ilha são de natureza diferente dos vestígios da região sul. Pode-se deduzir disso que, inicialmente, a parte sul era mais elevada que a superfície daquele mar. Posteriormente, em algum momento, ela afundou. E esse afundamento também parece ter ocorrido dois mil anos antes de Jesus Cristo. Do ponto de vista histórico, esta foi a época de Abraão e de Ló (que a paz esteja sobre ambos). Em 1965, uma equipe americana que pesquisava vestígios encontrou em Al Lesan um enorme cemitério, com mais de vinte mil sepulturas. Disso se deduz que certamente havia uma grande cidade nas proximidades. No entanto, não há ao redor vestígios de nenhuma cidade junto à qual pudesse existir um cemitério tão grande. Isso fortalece a suspeita (figura: ) de que a cidade cujo cemitério era esse tenha sido submersa no mar. Também se observam sinais de destruição por toda a região situada ao sul do mar. Encontram-se no solo tamanhas quantidades de enxofre, alcatrão, gás natural e outras substâncias que, ao observá-las, parece que em algum momento, devido a um raio ou a um terremoto, a explosão de materiais derretidos criou ali um inferno. (Tafhim al-Qur’an, Surata Adh-Dhariyat, nota 34)
O povo de Sabá
Região do povo de Sabá
Sabá era um povo de comerciantes muito famoso do sul da Arábia. Sua capital, Ma’rib, situava-se cinquenta e cinco milhas a nordeste de Sana, a atual capital do Iêmen. Após a queda do reino de Ma’in, por volta de 1100 a.C., começou o progresso e o desenvolvimento do povo de Sabá, que manteve grande influência na Arábia durante mil anos. Então, em 115 a.C., Himyar, o segundo povo mais famoso do sul da Arábia, sucedeu-o. Seu domínio foi estabelecido sobre o Iêmen e o Hadramaut, a oeste, e sobre a região da Abissínia, na África.
Um povo muito grande e famoso
A maior parte do comércio realizado entre o Egito, a Síria, a Grécia e Roma — envolvendo a África Oriental, a Índia, o Extremo Oriente e a própria Arábia — estava nas mãos dos sabeus. Por isso, esse povo era famoso na Antiguidade por sua riqueza. Na verdade, historiadores gregos referiram-se a eles como o povo mais rico do mundo. Além do comércio, uma das principais razões de sua prosperidade era o fato de construírem represas em várias partes do país e organizarem um excelente sistema de irrigação. Como resultado, toda a sua região era verdejante, coberta de plantações e adornada de frutos e flores. Os historiadores gregos também mencionaram a extraordinária fertilidade e a abundância agrícola de sua terra. O Alcorão também faz alusão a isso no segundo rukū da surata Sabá. Do ponto de vista histórico, Sabá era o nome de um povo muito grande do sul da Arábia. Era formado por grandes grupos tribais. Citando uma narração transmitida pelo Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), o imame Ahmad, Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, Ibn Abd al-Barr e Tirmidhi dizem que Sabá era o nome de um homem da Arábia, de cuja descendência surgiram as seguintes tribos: Kindah, Himyar, Azd, Ash‘ariyyan, Madhhij, Anmar (com seus dois ramos, Khash‘am e Bajilah), Amilah, Judham, Lakhm e Ghassan.
Desde os tempos mais antigos, esse povo da Arábia gozava de grande fama no mundo. Uma inscrição de Ur, datada de 2400 a.C., menciona esse povo sob o nome de Sabum. Depois, ele é mencionado repetidamente nas inscrições da Babilônia e da Assíria e, desse modo, também na Bíblia (por exemplo, Salmos 72:15; Jeremias 6:20; Ezequiel 27:22; 38:13; Jó 6:19). Os historiadores e geógrafos da Grécia e de Roma, bem como o geógrafo Teofrasto (Theofrastes), mencionam-no continuamente desde 288 a.C. até alguns séculos depois de Jesus Cristo. Seu território situava-se no canto sudoeste da Arábia, região hoje chamada Iêmen. Sua idade de ouro começou em 1100 a.C.; durante a época de Davi (a.s.) e Salomão (a.s.), sua fama espalhou-se como a de um povo próspero. (Tafhim al-Qur’an, surata Ash-Shu‘ara, nota 114)
A história religiosa de Sabá
A princípio, esse povo era adorador do sol. (A partir do versículo 24 da surata An-Naml do Alcorão, sabe-se que, quando a poupa informou Salomão (a.s.) sobre a situação daquele povo, eles adoravam o sol. As antigas tradições da Arábia também indicam que essa era a religião deles. Citando o relato dos genealogistas, Ibn Ishaq afirma que o antepassado do povo de Sabá era Abd Shams (adorador do sol), e que Sabá era seu título. As tradições dos Filhos de Israel também confirmam isso. Segundo elas, quando a poupa foi até a rainha de Sabá levando a carta de Salomão (a.s.), ela se dirigia à adoração do deus Sol. No caminho, a poupa lançou a carta diante da rainha.) Quando a rainha deles abraçou a fé pelas mãos de Salomão (a.s.) (965–926 a.C.), é muito provável que a maioria deles tenha se tornado muçulmana. Contudo, em algum momento posterior, o politeísmo e a idolatria se disseminaram entre eles, e começaram a adorar Almaqah (deus da lua), Ashter (Zohra), Dhat Hamim e Dhat Badan (deuses do sol), Hobis, Harastam ou Harimat, além de muitos outros deuses e deusas desse tipo. Sua maior divindade era Almaqah. O rei deles considerava-se representante dessa divindade e julgava-se digno de obediência. Foram encontradas no Iêmen numerosas inscrições que mostram que todo o país estava repleto de templos dedicados a esses deuses e deusas, especialmente ao templo de Almaqah. Expressava-se gratidão a eles em todos os assuntos. (Sabe-se pela história que, nos tempos antigos, havia entre o povo de Sabá um grupo de pessoas que acreditava em Allah, o Único, em vez de adorar deuses e deusas. Recentemente, as inscrições encontradas nas ruínas do Iêmen por meio de pesquisas arqueológicas revelaram vestígios desse pequeno grupo. Algumas inscrições datadas de aproximadamente 650 a.C. testemunham que, em vários lugares do reino de Sabá, haviam sido construídos santuários destinados à adoração do Senhor dos céus (Rabbus-Samā’). Em alguns lugares, foi encontrado escrito o nome daquela divindade (em árabe: “um rei que é o Senhor do céu”). Esse grupo existiu continuamente no Iêmen durante vários séculos. Numa inscrição de 378 d.C., encontram-se escritas estas palavras: “(*****Árabe***)isto é, com a ajuda e o auxílio daquela divindade que é a proprietária dos céus e da terra”. Numa outra inscrição daquele período (458 d.C.), foi usada a palavra Rahman para designar essa divindade. As palavras exatas são: “(*****Árabe****)isto é, com a ajuda de Rahman”. (Tafhim al-Qur’an, surata Adh-Dhariyat, nota 35)
No âmbito das modernas pesquisas sobre ruínas antigas, cerca de três mil inscrições foram recolhidas no Iêmen, lançando luz sobre a história desse povo. Se, a isso, forem acrescentados os relatos das histórias árabe, romana e grega, será possível escrever sua história detalhada. Segundo esses relatos, os períodos importantes de sua história são os seguintes:
A era anterior a 650 a.C.
Nessa época, o título dos reis de Sabá era Mukarrib (árabe); muito provavelmente, esta palavra(*****Árabe***)era sinônimo daquela palavra. Isso significa que esse rei se considerava um intermediário entre os seres humanos e Deus; em outras palavras, eles eram reis adivinhos (Priest Kings). Nessa época, sua capital era Sirwah, cujas ruínas ainda podem ser vistas a um dia de viagem a oeste de Marib, num lugar conhecido como Kharibah. Foi nessa época que se lançaram as bases da famosa represa de Marib, que os reis de Sabá ampliaram em diferentes períodos.
O período de 650 a.C. a 115 a.C.
Nessa era, os reis de Sabá abandonaram o título de Mukarrib e adotaram o título de Malik (isto é, rei). Isso significa que, na administração do reino, a política e a influência da irreligiosidade aumentaram em lugar da religião. Nessa época, os reis de Sabá estabeleceram sua capital em Marib, em vez de Sirwah, e promoveram seu extraordinário desenvolvimento. Esse lugar está situado a 3.900 pés acima do nível do mar, sessenta milhas a leste de Sanaã. Até hoje, suas ruínas testemunham que ali existiu outrora uma civilização altamente desenvolvida.
O período de 115 a.C. a 300 d.C.
Nessa época, a tribo de Himyar venceu no reino de Sabá; ela era uma das próprias tribos de Sabá e, em número, era maior que todas as demais. Nessa época, Marib foi despovoada e a capital foi estabelecida em Raydan. Esse era o território central da tribo de Himyar. Mais tarde, essa cidade passou a ser chamada Zafar. Atualmente, suas ruínas podem ser vistas no alto de uma montanha circular perto da atual cidade de Iarim. Nas proximidades vive uma pequena tribo chamada Himyar, e, ao vê-la, não se pode imaginar que essa tribo carregue a memória daqueles que outrora tiveram influência em todo o mundo. Nessa época, a palavra árabe foi usada pela primeira vez como parte do nome do reino(Árabe***)e, gradualmente, o nome de toda a região tornou-se Iêmen. O Iêmen estende-se desde Asir até Áden, no canto sudoeste da Arábia, e desde Bab al-Mandab até Hadramaut. Foi nessa era que começou o declínio dos sabeus.
O período entre 300 d.C. e o surgimento do Islã
Essa era foi a era da destruição do povo de Sabá. Como guerras civis contínuas passaram a ocorrer entre eles, povos estrangeiros começaram a intervir. O comércio e a agricultura sofreram um declínio extremo e, por fim, o povo de Sabá perdeu também sua independência. Aproveitando-se das disputas entre os Raydanitas, os Himyaritas e os Hamdanitas, os Abissínios mantiveram o Iêmen sob seu domínio de 340 a 378 d.C. Depois, embora a independência tenha sido restaurada, começaram a surgir rachaduras na famosa represa de Marib. Finalmente, em 450 ou 451 d.C., o rompimento da represa provocou uma grande inundação, mencionada na Surata de Sabá. Embora depois disso a represa tenha continuado a ser reparada até a época de Abraha, a população que se havia espalhado por toda parte não conseguiu reunir-se novamente. Depois que o sistema de irrigação e a administração agrícola foram destruídos, não puderam mais ser restaurados. (O povo de Sabá ficou tão disperso e fragmentado que isso se tornou um provérbio. Ainda hoje, quando um árabe menciona a dispersão de alguém, diz que essa pessoa se dispersou e se espalhou como o povo de Sabá. Quando, por parte de Allah, começou a diminuir seu bem-estar e conforto, suas várias tribos deixaram suas terras de origem e partiram para diferentes regiões da Arábia. As duas tribos de Aus e Khazraj foram estabelecer-se em Yathrib. A tribo de Khuzāʿa passou a viver na região de Tihama, próxima a Jidá. A tribo de Azd estabeleceu-se em Omã. Lakham, Juzam e Kimmah foram obrigadas a deixar o país. Por fim, já não restou no mundo sequer o nome de um povo chamado Sabá. Sua menção permaneceu apenas nas histórias e relatos.) (Surata An-Naml, nota 29) Em 523 d.C., o rei judeu do Iêmen, Dhu Nuwas, infligiu severa perseguição e tortura aos cristãos de Najran; isso é mencionado no Alcorão Sagrado sob o nome de Ashab al-Ukhdud. Então, o governo cristão da Abissínia invadiu o Iêmen para vingar-se e conquistou todo o país. Depois, Abraha, o vice-rei abissínio do Iêmen, atacou Meca em 570 ou 571 d.C. (pouco antes do nascimento do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)), com o objetivo de destruir a posição central da Caaba e colocar toda a região ocidental de Marib sob a influência romana e abissínia. Mas sobre todo o seu exército caiu uma destruição tão terrível que é descrita no Alcorão Sagrado pelo nome de Ashab al-Fil. Finalmente, em 575 d.C., os iranianos conquistaram o Iêmen, e o domínio iraniano no Iêmen terminou depois que Badhan, o governador iraniano, aceitou o Islã em 628 d.C.
O desenvolvimento material do povo de Sabá
O desenvolvimento do povo de Sabá ocorreu, na realidade, por duas razões: primeiro, a agricultura; segundo, o comércio. Por meio de um excelente sistema de irrigação, a agricultura havia alcançado tal desenvolvimento que, nos tempos antigos, não havia sistema de irrigação semelhante em nenhum outro lugar além da Babilônia. Não havia rios naturais em seu país. Durante a estação das chuvas, a água descia das montanhas através de canais. Construíam represas nesses canais em vários lugares, formando reservatórios, e a partir deles abriam canais que levavam água por todo o país de tal maneira que, segundo o relato do Alcorão, por todos os lados só se viam jardins e pomares. O maior reservatório desse sistema de irrigação ficava no vale entre as montanhas de Balak, nas proximidades da cidade de Marib, e havia sido formado pela construção de uma represa. Porém, quando Allah, o Altíssimo, retirou deles o Seu olhar de misericórdia, essa enorme represa rompeu-se em algum momento do século V da era cristã, e a torrente de grande força que dela se desprendeu fez com que todas as represas se rompessem uma após outra; assim, todo o sistema de irrigação foi destruído. Não foi mais possível restaurar esse sistema. (No Alcorão Sagrado há uma descrição clara desse castigo destrutivo.) Para o comércio, Allah havia concedido a esse povo a melhor posição geográfica, e eles aproveitaram amplamente essa oportunidade. Durante mais de mil anos, esse povo serviu de intermediário comercial entre o Oriente e o Ocidente. De um lado, chegavam aos seus portos a seda da China, as especiarias quentes da Indonésia e de Malabar, os tecidos e legumes da Índia, escravos negros, macacos, penas de avestruz e marfim da África Oriental; de outro, eles enviavam essas mercadorias aos mercados do Egito e da Síria, de onde chegavam a Roma, à Grécia e a outros países. Além disso, em seu país encontravam-se olíbano, madeira de sândalo, almíscar e diversos outros produtos aromáticos e extratos. Os habitantes do Egito, da Síria, de Roma e da Grécia levavam essas mercadorias diretamente consigo. Havia duas rotas para esse vasto comércio: uma marítima e outra terrestre. O controle do comércio marítimo permaneceu nas mãos dos sabeus durante mil anos, pois somente eles conheciam os segredos dos ventos sazonais do Mar Vermelho, das montanhas submersas e dos locais onde os navios podiam ser ancorados. Nenhum outro povo ousava navegar nesse mar perigoso. Por essa rota marítima, transportavam suas mercadorias aos portos da Jordânia e do Egito. A rota terrestre vinha de Áden e Hadramaut e se encontrava em Marib. A partir dali, uma estrada real chegava até Petra, passando por Meca, Jedda, Iatrebe, Al-Ula, Tabuk e Aila. Depois, uma estrada seguia em direção ao Egito e outra em direção à Síria. Nessa rota terrestre, como afirma o Alcorão, suas colônias se estendiam continuamente do Iêmen até a fronteira da Síria, e caravanas de comerciantes percorriam esse caminho dia e noite. Ainda hoje existem nessa região as ruínas de muitas de suas colônias, e nela foram encontradas inscrições nas línguas sabeia e himiarita.
O início do declínio comercial
Por volta do primeiro século da era cristã, começou o declínio de seu comércio. Quando se estabeleceram no Oriente Médio os poderosos domínios gregos e, posteriormente, romanos, começou a surgir entre eles a ideia de que, como os comerciantes árabes haviam obtido o monopólio do comércio e cobravam à vontade pelos produtos do Oriente, era necessário avançar e tomar para si esse comércio. Com esse objetivo, o primeiro a reabrir o antigo canal foi Ptolemeu II, governante de origem grega do Egito (285–246 a.C.), o mesmo canal que, mil e setecentos anos antes, o faraó Sesóstris havia escavado para ligar o Nilo ao Mar Vermelho. Foi por esse canal que o primeiro navio de guerra egípcio entrou no Mar Vermelho. Contudo, esse esforço não produziu resultados significativos contra os sabeus. Depois, os romanos estabeleceram seu domínio sobre o Egito. Então enviaram ao Mar Vermelho navios mercantes ainda mais poderosos, seguidos também por um navio de guerra. Enfrentar essa força estava além da capacidade dos sabeus. Os romanos estabeleceram colônias comerciais em vários portos e providenciaram nelas tudo o que era necessário aos navios. Em seguida, posicionaram forças militares onde consideraram necessário. Por fim, estabeleceram seu domínio militar em Áden. Nessa questão, os governantes romanos e abissínios uniram-se e privaram os sabeus de sua independência.
Depois que perderam o comércio marítimo, restou aos sabeus apenas o comércio terrestre. Porém, havia muitos obstáculos que gradualmente destruíram seu poder. Primeiro, os nabateus expulsaram os sabeus do planalto do Hijaz, entre Petra e Al-Ula, e de todas as suas colônias na Jordânia. Depois, em 106 d.C., os romanos puseram fim ao Império Sabeu e tomaram para si toda a região da Síria e da Jordânia ao longo da fronteira do Hijaz. Em seguida, a Abissínia e Roma empenharam-se conjuntamente em destruir o comércio dos sabeus, aproveitando-se dos conflitos e disputas internas entre eles. Por isso, a Abissínia continuou a intervir repetidamente no Iêmen. Por fim, apoderou-se de todo o país.
Sua civilização luxuosa antes da descida do castigo
Assim, a ira de Allah, o Altíssimo, lançou esse povo do ápice do progresso a um abismo de destruição do qual nenhuma nação amaldiçoada conseguiu erguer novamente a cabeça. Houve um tempo em que, ao ouvirem repetidamente relatos sobre sua riqueza e prosperidade, os gregos e romanos ficavam com água na boca. Estrabão afirma que eles usavam utensílios de ouro e prata. Os telhados, as paredes e as portas de suas casas eram adornados com marfim, ouro, prata e pedras preciosas. Plínio afirma que as riquezas de Roma e da Pérsia fluíam em sua direção. Esse povo era o mais rico do mundo de então, e seu país, bem irrigado e fértil, estava repleto de jardins, pomares, campos de cultivo e animais domésticos. R. T. Mídoro diz que viviam absortos no luxo e que, em vez de lenha, queimavam canela, sândalo e outras madeiras aromáticas como combustível. Do mesmo modo, outros historiadores romanos relatam que, quando os navios mercantes navegavam ao longo da costa marítima próxima de sua região, era possível sentir o aroma dessas madeiras perfumadas. Segundo a história, foram os primeiros a construir, no alto planalto de Saná, edifícios altíssimos, arranha-céus, que durante vários séculos ficaram famosos pelo nome de Qasr Ghumdan (Palácio de Ghumdan). Os historiadores árabes dizem que o edifício tinha vinte andares e que a altura de cada andar era de 36 pés.
Seus dias de felicidade duraram enquanto durou a graça de Allah, o Altíssimo. Quando, em vez de demonstrarem gratidão pelas riquezas que Allah lhes havia concedido, ultrapassaram os limites da ingratidão e da deslealdade, o Todo-Poderoso Senhor Allah retirou deles para sempre o Seu olhar de misericórdia, e até seu nome e seus vestígios foram apagados. (Tafhim al-Qur’an, surata An-Naml, nota 30)
Figura – Área do povo de Tamud.
O povo de Madyan e os companheiros de Al-Aykah
Há divergência entre os exegetas sobre se o povo de Madyan e os companheiros de Al-Aykah eram dois povos distintos ou dois nomes diferentes para o mesmo povo. Um grupo sustenta que eram dois povos separados, e a maior prova disso é que, na surata Al-A‘raf, o profeta Shu‘ayb (que a paz esteja sobre ele) é chamado de irmão do povo de Madyan(*****Árabe****)e, ao mencionar os companheiros de Al-Aykah, diz-se apenas o seguinte:(*****Árabe****)“Quando Shu‘ayb lhes disse”. A expressão “seu irmão” não foi usada. Por outro lado, alguns exegetas consideram ambos como um só povo, pois, nas suratas Al-A‘raf e Hud, também se afirma, a respeito dos companheiros de Al-Aykah, que o convite e os conselhos do profeta Shu‘ayb (que a paz esteja sobre ele) eram do mesmo tipo e que, por fim, não houve diferença em seu destino.
Investigação histórica
A investigação histórica mostra que ambas as afirmações estão corretas. Os companheiros de Madyan e os companheiros de Al-Aykah eram, sem dúvida, duas tribos distintas, mas eram dois ramos diferentes da mesma linhagem. Entre os descendentes do profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele), aqueles que nasceram de sua escrava Catira eram chamados, na história árabe e israelita, de filhos de Catira. Entre eles, uma tribo muito célebre, por descender de Madyan, filho de Abraão, era chamada de midianita ou de povo de Madyan. Sua população se espalhava desde o norte do Hejaz até a parte meridional da Palestina e, daí, até o extremo do vale do Sinai, ao longo das costas do golfo de Aqaba e do mar Vermelho. A cidade de Madyan era seu principal centro e, segundo Abu al-Fida, situava-se a cinco dias de viagem de Ayla, na margem ocidental do golfo de Aqaba — a atual Aqaba. O restante dos filhos de Catira estabeleceu-se no norte da Arábia, entre Tayma, Tabuk e Al-Ula. Entre eles, os filhos de Dadan (dedanitas) eram os mais famosos. Tabuk era seu principal centro, chamado Al-Aykah na antiguidade. No Mu‘jam al-Buldan, ao explicar o termo Al-Aykah, afirma-se que esse era o antigo nome de Tabuk e que é amplamente difundida entre os habitantes de Tabuk a tradição de que, em certa época, Al-Aykah viveu justamente nesse lugar.
Por que o mesmo profeta foi enviado às duas tribos?
A razão pela qual o mesmo profeta foi enviado aos companheiros de Madyan e aos companheiros de Al-Aykah provavelmente era que ambos descendiam da mesma linhagem. Falavam a mesma língua, e suas regiões de habitação eram contíguas. Também é possível que, em algumas áreas, vivessem juntos e, por meio de casamentos, tivessem se tornado parte da mesma sociedade. Além disso, os membros desses ramos dos filhos de Catira dedicavam-se ao comércio, e ambos praticavam esse tipo de corrupção em suas atividades comerciais. Também compartilhavam as mesmas doenças religiosas e morais. Em vários trechos dos primeiros livros da Bíblia, menciona-se que adoravam Baal-Peor; quando os filhos de Israel saíram do Egito e chegaram à região deles, também espalharam entre eles a epidemia do politeísmo e da imoralidade sexual (Livro dos Números, capítulo 25, versículos 1–5). Suas povoações situavam-se em duas grandes rotas do comércio internacional. Uma dessas rotas ia do Iêmen à Síria, e a outra, do golfo Pérsico ao Egito. Como suas povoações estavam localizadas nessas rotas, praticavam extensamente o banditismo e a pilhagem. Não permitiam que as caravanas comerciais de outros povos passassem sem pagar um pesado tributo. Para preservar seu monopólio sobre o comércio internacional, haviam tornado inseguras essas duas rotas. Sobre sua situação, o Alcorão Sagrado afirma o seguinte:(*****Árabe****)Esses dois povos — o povo de Lot e os habitantes de Al-Aykah — permaneciam nas rotas abertas. Seu banditismo é mencionado na surata Al-A‘raf da seguinte maneira:(*****Árabe****)“Não fiqueis à espreita em cada caminho, para amedrontar as pessoas.” Foi por essas razões que Deus, o Altíssimo, enviou o mesmo profeta às duas tribos e lhes transmitiu ensinamentos do mesmo tipo. (Tafhim al-Qur’an, surata Saba, nota 35)
Mais detalhes sobre o povo de Madyan (como este era uma tribo maior e o Alcorão mencionou o profeta Shu‘ayb (que a paz esteja sobre ele) como alguém de parentesco muito próximo a eles, foram apresentados alguns detalhes sobre esse povo. — Compilador)
A verdadeira localização de Madiã situava-se a noroeste do Hejaz e ao sul da Palestina, na costa do Mar Vermelho e do golfo de Ácaba, embora alguns de seus assentamentos também se estendessem pela margem oriental do vale do Sinai. Era um povo dedicado ao comércio. Na Antiguidade, esse povo se estabeleceu na confluência de duas grandes rotas comerciais: a primeira seguia ao longo da costa do Mar Vermelho, do Iêmen até a Síria (Sham), passando por Meca e Yanbu; a segunda ia do Iraque ao Egito. Mesmo após sua extinção, sua fama permaneceu intacta, pois as caravanas comerciais dos árabes, a caminho do Egito e da Síria, passavam dia e noite por suas ruínas.
É preciso lembrar especialmente um fato importante a respeito do povo de Madiã: eles eram descendentes de Madiã, filho de Abraão (a.s.) com sua terceira esposa, Quetura. Segundo o costume dos tempos antigos, aqueles que tinham parentesco de linhagem com algum grande homem eram chamados de Banu Fulano. Todos os que aceitaram o Islã entre os descendentes de Jacó (a.s.) foram chamados de Banu Israel. Do mesmo modo, todos os habitantes da região de Madiã que estavam sob a influência de Madiã, filho de Abraão (a.s.), foram chamados de Banu Madiã, e o nome de seu país tornou-se Madiã ou Midian. Depois de conhecer esse fato histórico, não há qualquer razão para supor que o convite à religião da Verdade tenha sido transmitido pela primeira vez a esse povo pelo profeta Shuayb (a.s.). Na realidade, assim como os Banu Israel, eles também eram muçulmanos no início; e, na época do surgimento de Shuayb (a.s.), sua condição era a de um povo degenerado, tal como era a condição dos Banu Israel na época do surgimento de Moisés (a.s.). Após Abraão (a.s.), ao viverem durante seis ou sete séculos entre povos politeístas e imorais, foram acometidos pela doença do politeísmo e mergulharam na imoralidade. Ainda assim, conservavam intactas sua alegação de fé e sua soberba por causa dela. (Tafhim al-Qur’an, surata Saba, nota 35)
A reação ao convite à reforma e à correção
(*****Árabe*****)
Os chefes do povo, que se recusavam a aceitar as palavras de Shuayb (a.s.), diziam uns aos outros: “Se obedecerdes a Shuayb, certamente sereis arruinados.” — Surata al-A‘raf, 90
Em resposta ao convite à reforma e à correção apresentado pelo profeta Shuayb (a.s.), os chefes e líderes de Madiã diziam, assegurando ao povo que assim era: se aceitásseis o tipo de fé e honestidade ao qual Shuayb (a.s.) vos exorta, e seguísseis os princípios eternos de caráter e fidelidade que ele vos ordena observar, seríeis destruídos. Como continuariam nossos negócios e nosso comércio se seguíssemos a honestidade e comprássemos e vendêssemos com absoluta retidão? Vivemos na confluência da maior rota comercial do mundo e estamos situados nas fronteiras de dois grandes reinos civilizados, como o Egito e o Iraque. Se parássemos de prejudicar as caravanas comerciais e nos tornássemos pacíficos, como pessoas de bem, todas as vantagens econômicas e políticas que obtemos devido à nossa atual posição geográfica chegariam ao fim. Além disso, perderíamos a influência que exercemos sobre os povos vizinhos.
Essa ideia e essa perspectiva não estavam restritas apenas aos chefes do povo de Shuayb (a.s.). Em todas as épocas, pessoas desviadas nutriram esse mesmo temor em relação à verdade, à honestidade e à fidelidade. Os malfeitores de cada época acreditavam que o comércio, a política e as demais atividades mundanas e materiais não podiam funcionar sem desonestidade e corrupção. Entre as desculpas e objeções apresentadas em toda parte contra o convite à Verdade, encontra-se também esta: se um povo abandonasse os caminhos e métodos correntes no mundo e seguisse o convite à Verdade, seria destruído. (Tafhim al-Qur’an, surata Saba, nota 37)
O castigo sobre o povo de Madiã
Sobre os habitantes de Madyan desceu um castigo na forma de uma terrível explosão e de um terremoto (árabe*). Durante muito tempo, essa destruição serviu de exemplo para as nações vizinhas. Em certa passagem do Livro dos Salmos está escrito: “Ó Deus! Certas nações conspiraram contra Ti. Portanto, trata-as da mesma maneira como trataste Madyan” (83:5-9). O profeta Yahya, ao consolar os israelitas em certa ocasião, disse: “Não temais os assírios. Embora estejam se tornando tão opressores para vós quanto os egípcios, em breve o Senhor dos Exércitos fará descer sobre eles o Seu açoite, e o destino deles será o mesmo que foi o dos midianitas.” (Isaías 10:21-26) (Surata Ash-Shu‘ara, nota 115)
O castigo dos habitantes de Ayka
(*****Árabe*****)
Eles o consideraram mentiroso. Por fim, caiu sobre eles o castigo do dia da sombra, e esse foi o castigo de um dia terrível. Surata Ash-Shu‘ara: 189
Não há no Alcorão nem nos hadiths autênticos qualquer descrição do castigo que desceu sobre eles. O que se pode compreender das palavras aparentes é que, como haviam pedido um castigo celestial, por isso Deus, o Altíssimo, enviou sobre eles uma nuvem, que continuou a estender-se sobre eles como um toldo, até que o castigo os destruiu. Pode-se saber claramente pelo Alcorão que a natureza do castigo dos habitantes de Madyan era diferente da do castigo dos habitantes de Ayka. Aqui, por exemplo, é dito que eles foram destruídos pelo castigo do toldo, enquanto sobre os habitantes de Madyan o castigo veio na forma de uma explosão e de um terremoto. Por isso, não é correto tentar combinar os dois episódios em uma única narrativa. Alguns exegetas deram certas explicações sobre o castigo do dia da sombra. Mas não sabemos qual é a fonte desse conhecimento. Ibn Jarir, citando uma declaração de Abdullah ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele), diz: “(*****Árabe****)
Se algum sábio disser o que foi o castigo do dia da sombra, não o consideres correto. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A‘raf, nota 69)
O povo do profeta Yunus (Jonas)
A história da vida do profeta Yunus (Jonas)
Na Bíblia, o profeta Yunus (que a paz esteja com ele) é chamado de Yunah, e viveu entre 860 e 784 a.C.
O profeta Yunus (que a paz esteja com ele) é mencionado no Alcorão em alguns lugares por seu próprio nome, em outros como Dhun-Nun e, em outros ainda, como Sahib al-Hut ou Mawla. Ele não foi chamado de “homem do peixe” porque pescasse ou negociasse com peixes; ao contrário, foi assim chamado porque, por ordem de Allah, um peixe o engoliu. Consulte a surata As-Saffat, versículo 42.
Embora fosse israelita, ele foi enviado ao Iraque para guiar os assírios. Por isso, os assírios são chamados de povo de Yunus. Naquela época, o principal centro de habitação desse povo era a famosa cidade de Nínive, cujas numerosas ruínas ainda podem ser vistas exatamente em frente à cidade de Mossul, na margem oriental do rio Tigre. Nessa região também existe um lugar chamado Yunus, o profeta. Pode-se avaliar quão próspera era essa nação pelo fato de sua capital, Nínive, estender-se por quase sessenta milhas quadradas.
A menção a Yunus no Alcorão e na Bíblia
No Alcorão, esta história é apenas indicada em quatro lugares. Não é fornecido nenhum relato detalhado. Por isso, não se pode afirmar com certeza por que razão especial esse povo teria sido colocado acima da lei de Allah segundo a qual, depois de tomada a decisão de fazer descer o castigo, a fé de alguém já não lhe traz benefício. Na Bíblia há um breve livro chamado Yunah — um pequeno escrito sagrado — no qual se encontram alguns relatos, mas eles não são confiáveis. Primeiro, não se pode considerá-lo um livro celestial, nem foi escrito pelo próprio Yunus (que a paz esteja com ele). Pelo contrário, quatro ou cinco séculos depois dele, alguma pessoa desconhecida registrou a história de Yunus e a inseriu na Bíblia. Segundo, há nele algumas afirmações absurdas que não são dignas de crédito. Apesar disso, tanto das indicações do Alcorão quanto do relato do escrito de Yunus fica claro aquilo que os exegetas transmitiram: o profeta Yunus (que a paz esteja com ele), depois de receber a notícia do castigo, abandonou seu posto e partiu sem a permissão de Allah. (Isto é, antes de receber de Allah a ordem de emigrar, deixou seu país por desgosto de seu povo. Se tivesse deixado seu posto depois de receber a ordem, isso teria sido permitido. Consulte a surata Al-A‘raf, nota 74.) Por isso, quando os assírios, depois de testemunharem o castigo, se arrependeram e pediram o perdão de Allah, Allah, o Altíssimo, perdoou-os. (Para uma discussão detalhada sobre este assunto, consulte Tafhim al-Qur’an, surata As-Saffat, nota 85. Ali são respondidas muitas objeções.) Um princípio permanente da lei de Allah, cuja base e método são descritos no Sagrado Alcorão, é que Allah não castiga um povo enquanto Sua condição não tiver sido cumprida. Portanto, como o profeta não manteve a continuidade de sua exortação até o último momento do prazo concedido àquele povo e emigrou por vontade própria antes do tempo determinado por Allah, a justiça de Allah não permitiu que aquele povo fosse castigado. Isso porque as condições legais, ou seja, o estabelecimento da prova contra aquele povo, ainda não haviam sido completadas.
A destruição final do povo do profeta Yunus (que a paz esteja com ele)
Depois que esse povo abraçou a fé, seu período de vida foi prolongado. Posteriormente, porém, voltou a se perder em pensamento e ação. O profeta Naum (720–698 a.C.) advertiu-os, mas isso não produziu nenhum resultado. Depois, o profeta Sofonias (640–609 a.C.) advertiu-os pela última vez. Isso também foi inútil. Por fim, por volta de 602 a.C., Allah, o Altíssimo, concedeu aos medos a vitória sobre eles. O rei da Média atacou os assírios com o auxílio dos babilônios. O exército assírio foi derrotado e sitiado em Nínive. Durante algum tempo, continuaram resistindo. Então, uma inundação do Tigre rompeu as muralhas da cidade, e os atacantes entraram. Em seguida, incendiaram e destruíram toda a cidade. Até as regiões vizinhas foram devastadas. O rei dos assírios ateou fogo ao próprio palácio real e cometeu suicídio. Com ele, o reino e a civilização assírios foram exterminados para sempre. Nas escavações arqueológicas realizadas atualmente naquela região, encontram-se numerosos vestígios que mostram sinais de incêndio (Tafhim al-Qur’an, surata Al-A‘raf, nota 75).
Os Filhos de Israel
Duas ramificações da descendência de Abraão (A.S.)
Da descendência do Profeta Abraão (A.S.) surgiram duas grandes ramificações. Em uma delas nasceram os descendentes do Profeta Ismael (A.S.), que se estabeleceram na Arábia. Os coraixitas e algumas outras tribos árabes pertenciam a essa ramificação. Como as tribos árabes que não eram descendentes do Profeta Ismael (A.S.) também haviam sido influenciadas pela religião por ele pregada, elas também se relacionavam a ele.
A segunda ramificação originou-se do Profeta Isaque (A.S.). Nessa ramificação nasceram o Profeta Jacó (A.S.), José (A.S.), Moisés (A.S.), Davi (A.S.), Salomão (A.S.), João (A.S.), Jesus (A.S.) e muitos outros profetas. Como o nome do Profeta Jacó (A.S.) era Israel, essa linhagem passou a ser chamada de Bani Israel. Como resultado de sua pregação, os demais povos que aceitaram sua religião ou perderam sua identidade ao se fundirem com eles, ou, embora distintos quanto à linhagem, tornaram-se seus seguidores no aspecto religioso. Quando essa ramificação foi vitimada pela humilhação e pela decadência, surgiram entre eles o judaísmo e o cristianismo. (Surata Ach-Chu’ara, nota 117)
No versículo 20 da Surata Al-Ma’idah, Allah, o Altíssimo, faz alusão à antiga influência e ao poder de Bani Israel. A época de seu poder e prosperidade ocorreu muito antes do Profeta Moisés (A.S.). Por um lado, grandes profetas como Abraão (A.S.), Isaque (A.S.), Jacó (A.S.) e José (A.S.) nasceram entre esse povo; por outro, durante a época do Profeta José (A.S.) e depois dela, eles tiveram a ventura de conquistar grande autoridade e domínio no Egito. Durante longo período, foram os maiores governantes do mundo civilizado de então. Sua influência e seu poder prevaleciam por toda parte. Geralmente, as pessoas começam a história do progresso de Bani Israel com o Profeta Moisés (A.S.). Contudo, o Alcorão afirma claramente que a época do progresso de Bani Israel já havia passado antes do Profeta Moisés (A.S.). O Profeta Moisés (A.S.) apresentava esse período como a herança passada de seu povo. (Surata Al-Anbiya, nota 83)
A era do politeísmo da pior espécie na Palestina
Após a morte do Profeta Moisés (A.S.), quando Bani Israel entrou na Palestina, vários povos habitavam aquela região, como os hititas, amorreus, cananeus, jebuseus, filisteus e outros. Entre eles prevalecia o politeísmo da pior espécie. O nome de sua principal divindade era El, chamado de pai dos deuses. Ele era comparado a um touro. Sua esposa chamava-se Asherah; deles surgiu uma vasta linhagem de deuses e deusas, cujo número chegou a setenta. Entre seus filhos, o mais poderoso era Baal(***Árabe***)considerado o deus que fazia chover e promovia o crescimento dos cereais, além de ser tido como o senhor do céu e da terra. Na região setentrional, sua esposa era chamada de Anat, e na Palestina, de Astarte. Essas duas divindades femininas eram consideradas deusas do amor, da paixão e da procriação. Havia ainda um deus responsável pela morte; outro tinha a responsabilidade de preservar a saúde; e outro era encarregado de provocar epidemias e fome. Assim, todo o domínio divino estava distribuído entre muitos deuses. Atribuíam-se a essas divindades características e atos tão repugnantes que até pessoas de moral extremamente depravada não gostavam de ter qualquer relação com elas. Ora, é evidente que aqueles que transformam seres tão obscenos e vis em deuses e os adoram dificilmente podem evitar mergulhar no nível mais abjeto da moralidade. Por isso, a condição deles, revelada pelas escavações arqueológicas, testemunha uma extrema decadência moral. Em sua sociedade existia o costume de sacrificar crianças. Seus templos eram antros de prostituição. Transformar mulheres em devadasis (prostitutas religiosas), mantê-las nos templos e fornicar com elas era considerado parte da adoração. Muitas outras formas de depravação semelhantes se difundiram entre eles.
A causa da decadência moral de Bani Israel
Na Torá, a orientação dada a Bani Israel por intermédio de Moisés (A.S.) determinava claramente que a Palestina deveria ser tomada das nações idólatras, que eles deveriam manter-se afastados de viver e conviver com essas nações e de sua influência nociva sobre a moral, as ideias e as crenças. Porém, quando Bani Israel entrou na Palestina, esqueceu a orientação acima mencionada. Não estabeleceram um reino unificado. Entregaram-se ao fanatismo tribal. Cada tribo preferia separar-se, tomando para si uma parte do território conquistado. Por causa dessa divisão, nenhuma tribo conseguiu tornar-se suficientemente forte para purificar completamente seu território dos politeístas. Por fim, aceitaram viver junto deles. Além disso, em vários pontos de seus territórios conquistados havia pequenas cidades-Estado dessas nações politeístas, que os israelitas não conseguiram submeter. Essa acusação é feita no Livro dos Salmos. (Uma acusação semelhante é colocada na boca do Profeta Davi (A.S.): segundo a ordem de Deus, eles não destruíram aquelas nações; ao contrário, misturaram-se com elas, aprenderam suas más ações e começaram a adorar seus deuses, o que se tornou uma armadilha para eles. Sacrificaram suas filhas aos demônios e derramaram o sangue de seus filhos e filhas inocentes — por isso, a ira de Deus caiu sobre eles; tornaram-se detestáveis para sua própria herança, e Ele a entregou ao domínio daquelas nações, fazendo com que seus inimigos se tornassem seus governantes. Salmos, capítulo 106, versículos 34–41.)
Expiação
A primeira expiação que os israelitas tiveram de sofrer foi esta: por meio dessas nações, o politeísmo penetrou entre eles, abrindo também caminho para outras doenças morais. No Livro dos Juízes, da Bíblia, há esta acusação: os filhos de Israel pecaram diante de Deus, começaram a adorar Baal e abandonaram o Deus de seus antepassados, que os havia tirado do Egito; passaram a prostrar-se diante dos deuses das nações vizinhas e provocaram a ira de Deus. Abandonaram Deus e continuaram adorando Baal e Astarote, e o fogo da ira de Deus caiu sobre os filhos de Israel. Capítulo 2, versículos 11–13.
A segunda expiação que tiveram de sofrer foi esta: as nações cujas cidades-Estado eles haviam deixado independentes, juntamente com os filisteus, cujo território inteiro não havia sido conquistado, uniram-se e formaram uma coalizão contra os israelitas. Depois, lançando ataques repetidos, expulsaram-nos de grande parte da Palestina. Chegaram até a tomar deles a Arca da Aliança de Deus (Tabut). Por fim, os israelitas sentiram a necessidade de estabelecer um reino unido sob um único governante. A pedido deles, o profeta Samuel (1020 a.C.) fez de Saul seu rei. (Este relato é apresentado na surata Al-Baqarah, seção 32.)
A era da prosperidade e da bênção
Esse reino unido teve três governantes: Saul (1020–1004 a.C.), Hazrat Davi (1004–965 a.C.) e Hazrat Salomão (965–926 a.C.). Esses governantes realizaram as tarefas que os filhos de Israel haviam deixado inacabadas depois de Hazrat Moisés. Somente os reinos dos fenícios, na costa marítima ao norte, e dos filisteus, na costa marítima do sudoeste, permaneceram intactos. Não foi possível conquistá-los; considerou-se suficiente transformá-los em aliados tributários.
A era da anarquia e da crise
Após Hazrat Salomão, os filhos de Israel voltaram a ficar absortos na cobiça e nos desejos mundanos. Em meio a disputas e conflitos mútuos, estabeleceram dois reinos separados. O reino dos israelitas no norte da Palestina e no leste da Jordânia teve Samaria como capital, enquanto a capital do reino da Judeia, estabelecido no sul da Palestina e em Edom, foi Jerusalém. Desde o primeiro dia, houve rivalidade e conflito entre esses dois reinos, que continuaram até o fim. Os governantes e habitantes do reino de Israel foram os primeiros e os mais profundamente influenciados pelas crenças politeístas e pela imoralidade das nações vizinhas. Essa situação atingiu o auge quando o governante Acabe se casou com Jezabel, uma princesa pagã de Sidom. Naquele período, com o auxílio do poder estatal e de todos os seus recursos e instrumentos, o politeísmo e a imoralidade começaram a espalhar-se entre os israelitas como uma inundação poderosa. Hazrat Elias e Hazrat Eliseu fizeram esforços desesperados para conter essa inundação. Mas a nação não se afastou do caminho de decadência para o qual corria. Finalmente, a ira de Allah caiu sobre o reino de Israel na forma dos assírios, e, a partir do século IX a.C., os ataques assírios prosseguiram continuamente. Nessa época, o profeta Amós (787–747 a.C.) e, depois, o profeta Oseias (747–735 a.C.) advertiram repetidamente os israelitas. Mas eles estavam tão mergulhados na negligência e na desatenção que as advertências produziram o efeito contrário. Por fim, o governante israelita notificou o profeta Amós para deixar o país e interromper sua atividade profética no reino de Samaria. Pouco tempo depois, o castigo de Allah caiu sobre o reino de Israel e seus habitantes. Em 721 a.C., Sargão, o poderoso governante dos assírios, conquistou Samaria e pôs fim ao reino de Israel; milhares de israelitas foram mortos. Mais de vinte e sete mil israelitas influentes foram expulsos do país e obrigados a dispersar-se de modo separado e fragmentado pelos distritos orientais do reino assírio. Pessoas de outras nações foram trazidas de fora e reassentadas nas regiões israelitas. Os poucos israelitas que permaneceram, vivendo junto com os recém-chegados, acabaram esquecendo sua própria civilização e cultura nacional.
O segundo Estado dos filhos de Israel, estabelecido no sul da Palestina sob o nome de Judeia, também se envolveu muito rapidamente no politeísmo e na imoralidade depois de Hazrat Salomão. Contudo, comparativamente, o ritmo de sua decadência era mais lento que o do reino de Israel. Por isso, foi-lhe concedido um prazo um pouco maior. Embora, à semelhança do que fizeram ao reino de Israel, os assírios também atacassem repetidamente esse reino, destruíssem suas cidades e sitiassem sua capital, esse Estado não foi destruído pelas mãos dos assírios. Sobreviveu apenas como aliado tributário. Depois, quando, apesar dos esforços contínuos de Hazrat Isaías e Hazrat Jeremias, os habitantes da Judeia não abandonaram a idolatria e a imoralidade, em 598 a.C. o rei da Babilônia, Nabucodonosor, tomou todo o reino da Judeia, incluindo Jerusalém, e o rei da Judeia foi feito prisioneiro. Mesmo assim, suas más ações não chegaram ao fim. Apesar dos conselhos de Hazrat Jeremias, em vez de corrigirem seu caráter, rebelaram-se contra a Babilônia e tentaram mudar seu destino. Finalmente, em 587 a.C., Nabucodonosor lançou um ataque repentino e destruiu todas as cidades grandes e pequenas da Judeia. Jerusalém e o Templo de Salomão foram reduzidos a pó de tal maneira que nem sequer restou uma única parede. Um grande número de judeus foi expulso do país e disperso por toda parte. Os que permaneceram também continuaram humilhados e subjugados pelas nações vizinhas. (Surata Yunus, notas 98–100.)
O papel dos Filhos de Israel durante o período de cativeiro sob o domínio da Babilônia(**********Árabe***************)
E começaram a seguir aquilo que os demônios apresentavam em nome do reino de Salomão. Contudo, Salomão jamais adotou a incredulidade. Foram esses demônios que praticavam a incredulidade e ensinavam magia às pessoas. Eles se tornaram especialmente atraídos por aquilo que havia sido revelado aos dois anjos, Harute e Marute, em Babilônia. Entretanto, sempre que esses anjos ensinavam isso a alguém, advertiam claramente: “Vede, somos apenas uma prova; portanto, não vos entregueis à incredulidade.” Apesar disso, eles aprendiam com os anjos precisamente aquilo por meio do qual se podia separar o marido da esposa. Todavia, é evidente que, sem a permissão de Alá, não poderiam prejudicar ninguém por esse meio. Ainda assim, aprendiam coisas que não lhes eram benéficas, mas prejudiciais, e sabiam muito bem que, para quem adquirisse tais coisas, não haveria no Além parcela alguma de bem. Quão péssima é a coisa pela qual vendem a própria vida! Ah! Se ao menos soubessem. — Surata Al-Bácara: 102
Por “demônios” entendem-se tanto os demônios dos jinn quanto os demônios humanos. Aqui, ambos estão incluídos. Quando chegou a época do declínio moral e material dos israelitas, a escravidão, a ignorância, o infortúnio, a pobreza, a humilhação e a desonra não lhes deixaram qualquer entusiasmo, estímulo ou firme determinação. Então sua atenção se voltou para a magia, as práticas ocultas, os trabalhos mágicos e os amuletos. Começaram a procurar métodos pelos quais todos os problemas pudessem ser resolvidos, sem qualquer esforço ou empenho, apenas por meio de sopros, fórmulas e encantamentos. Naquele tempo, Satanás continuava a enganá-los, dizendo-lhes que o vastíssimo reino de Salomão e seu poder extraordinário eram todos resultado de desenhos mágicos e fórmulas, e que ele lhes revelaria tudo isso. Eles consideraram essas coisas bênçãos inesperadas e ficaram obcecados por elas. Depois disso, já não lhes restava interesse ou apego algum pelo Livro de Alá, nem a voz de quem convocava à verdade chegava aos seus ouvidos.
Foram apresentadas várias interpretações sobre o versículo acima. Mas, pelo que pude compreender, quando toda a nação dos israelitas vivia cativa e escravizada na Babilônia, Alá teria enviado até eles dois anjos em forma humana, para testá-los. Assim como os anjos foram até o povo de Lot sob a forma de belos jovens, esses dois anjos teriam ido até os israelitas sob a forma de piedosos mestres e ascetas. Ali, por um lado, abriram um mercado de magia e, por outro, advertiam-nos com provas e argumentos decisivos, dizendo: “Vede, viemos apenas para vos testar. Não arruineis a vossa vida futura.” Apesar disso, eles ficaram loucos para aceitar as práticas mágicas e os amuletos apresentados pelos anjos.
Não há motivo para alguém se admirar de os anjos assumirem forma humana para realizar uma tarefa. Eles são servidores do vasto reino de Alá. No cumprimento de suas responsabilidades, podem adotar, em cada momento, o método que se fizer necessário. Quanto sabemos nós sobre quantos anjos, ao nosso redor, estão realizando tarefas sob forma humana neste momento? Contudo, ensinar aos anjos algo que é essencialmente mau pode ser comparado ao seguinte: imaginemos um policial sem uniforme entregando como suborno a um funcionário corrupto uma nota previamente identificada. O objetivo é prendê-lo em flagrante no momento em que comete o crime, para que depois ele não tenha qualquer possibilidade de alegar sua inocência.
Naquela época, o que as pessoas mais procuravam eram as práticas mágicas e os amuletos, por meio dos quais um homem separava outra pessoa de sua esposa e fazia com que ela se apaixonasse por ele. Esse era o grau mais baixo do declínio moral ao qual haviam chegado. Se o maior desejo dos membros de uma nação é tentar seduzir a esposa de outro homem, separar uma mulher casada de seu marido, atraí-la para si e considerar esse ato uma grande vitória, que declínio moral poderia ser maior do que esse?
A relação conjugal é, na realidade, a base da civilização humana. Se a relação entre a mulher e o homem for saudável e correta, a civilização humana será saudável e correta. Em contrapartida, se surgir uma fissura na relação entre a mulher e o homem, a civilização humana também será destruída. Portanto, é o pior dos malfeitores e causadores de desordem aquele que golpeia com o machado uma árvore cuja permanência de pé sustenta a existência dele próprio e de toda a sociedade. Está registrado num hadith que Iblis envia, de seu centro de operações, um representante para cada região da Terra. Depois, esses representantes retornam e apresentam seus relatórios. Um diz: “Causei tal sedição ou calamidade.” Outro diz: “Introduzi tal ato de perversidade.” Mas Iblis diz a cada um deles: “Nada fizeste.” Então chega um deles e diz: “Separei o marido da esposa.” Ao ouvir isso, Iblis o abraça pelo pescoço e diz: “Tu, sim, fizeste um trabalho digno de reconhecimento!”
Ao refletirmos sobre este hadith, podemos compreender claramente por que foi ordenado aos anjos enviados para testar os Filhos de Israel que lhes ensinassem a prática de separar o marido da esposa. (Surata Al-Bácara, nota 100)
A era do renascimento
Os samaritanos e os israelitas não conseguiram mais sair do abismo de decadência moral e doutrinária em que haviam mergulhado. Porém, entre os habitantes de Judá que haviam sobrevivido, havia um homem que, permanecendo firme no bem, convocava ao bem. Ele continuou trabalhando pela reforma e correção dos judeus remanescentes. Também inspirou ao arrependimento aqueles que haviam sido exilados na Babilônia e em outras regiões. Por fim, a misericórdia de Allah Todo-Poderoso veio em seu auxílio. O reino da Babilônia caiu. Em 539 a.C., o conquistador iraniano Ciro (ou Cosroes) conquistou a Babilônia. No ano seguinte, promulgou um decreto declarando que os israelitas estavam autorizados a retornar à sua terra natal e a se reinstalar nela. Então, grupos de judeus começaram a dirigir-se à Judeia. Esse processo continuou por muito tempo. Ciro permitiu aos judeus reconstruir novamente o Templo de Salomão. Entretanto, alguns povos vizinhos que haviam se estabelecido ali havia pouco tempo criaram obstáculos. Finalmente, em 522 a.C., Dario I (Dara) nomeou Zorobabel, neto do último rei da Judeia, governador da Judeia. Sob a supervisão dos profetas Ageu, Zacarias e Josué, ele reconstruiu o sagrado Templo. Depois, em 450 a.C., o profeta Esdras chegou à Judeia com um grupo de exilados. Por meio de um decreto do imperador iraniano Artaxerxes, foram-lhe concedidos os seguintes poderes: “Nomeia governantes e juízes com base no conhecimento que te foi dado pelo teu Deus, para que se estabeleça a justiça entre todos os que estão além do rio e conhecem a lei do teu Deus. Ensina os que não a conhecem e pune imediatamente, conforme a lei, todos os que desobedecerem à lei do teu Deus e ao decreto do rei, seja com a pena de morte, o exílio, o confisco dos bens ou a prisão.” Livro de Esdras, capítulo 8, versículos 25–26.
Valendo-se desse decreto, o profeta Esdras realizou a grandiosa tarefa de reavivar a religião de Moisés (que a paz esteja sobre ele). Reuniu de todas as partes os homens virtuosos da nação judaica e estabeleceu uma organização sólida. Depois de editar o quinto livro da Bíblia, no qual está incorporada a Torá, publicou-o. Organizou um sistema de educação religiosa para os judeus. Tentou eliminar, mediante a aplicação das leis da Sharia, os erros e defeitos que haviam penetrado entre os Filhos de Israel, sob a influência de outros povos, no campo doutrinário e moral. Ordenou que os judeus se divorciassem das mulheres politeístas com quem haviam se casado. E fez os Filhos de Israel prestarem um novo juramento de adorar Allah e obedecer à Sua lei.
Em 445 a.C., outro grupo de exilados retornou à Judeia sob a liderança de Neemias. O imperador iraniano nomeou Neemias governador de Jerusalém e autorizou-o a reconstruir a cidade para nela habitar. Assim, depois de cento e cinquenta anos, Bayt al-Maqdis voltou a ser povoado e tornou-se o centro da religião e da civilização judaicas. Entretanto, os israelitas do norte da Palestina e da Samaria não obtiveram qualquer benefício do trabalho de reforma e renascimento realizado pelo profeta Esdras. Pelo contrário, construíram seu próprio centro religioso no monte Gerizim, em oposição a Bayt al-Maqdis, e tentaram transformá-lo na qibla do Povo do Livro. Desse modo, a distância entre judeus e samaritanos aumentou ainda mais.
A hegemonia grega e a luta contra ela
Com a queda do Império Iraniano, as conquistas de Alexandre e o posterior ressurgimento dos iranianos, o destino dos judeus sofreu reveses durante algum tempo. Após a morte de Alexandre, seu império dividiu-se em três reinos. A região da Síria coube ao reino selêucida, cuja capital era Antioquia. Seu governante, Antíoco III, tomou a Palestina em 198 a.C. Era politeísta e não tolerava a religião nem a civilização judaicas. Exerceu pressão política e econômica e começou a difundir a civilização grega. Uma parcela significativa dos próprios judeus tornou-se marionete em suas mãos. Essa interferência externa provocou divisão entre os judeus. Um grupo adotou as roupas, a língua, o modo de vida e os esportes gregos. O segundo permaneceu firme em sua própria civilização. Quando Antíoco IV, chamado Epifânio, isto é, “manifestação de Deus”, subiu ao trono em 175 a.C., tentou, com seu poder despótico, extirpar a religião e a civilização judaicas. Mandou instalar uma enorme estátua no Templo de Bayt al-Maqdis e obrigou os judeus a prostrarem-se diante dela. Proibiu os sacrifícios no altar sacrificial. Em seu lugar, ordenou aos judeus que oferecessem sacrifícios nos altares dos politeístas. Decretou a pena de morte para todos os que mantivessem a Torá em suas casas, observassem os mandamentos do Sabbath ou circuncidassem as crianças. Mas os judeus não se submeteram a essa tirania. Entre eles começou um grande movimento, conhecido na história como a Revolta dos Macabeus. Embora, nesse conflito, os judeus de orientação grega demonstrassem toda espécie de simpatia pelos gregos e, na prática, ajudassem os opressores de Antioquia a frustrar a revolta dos Macabeus, a influência da força religiosa que o profeta Esdras havia infundido nos corações dos judeus comuns era tão grande que todos se juntaram aos Macabeus. Por fim, expulsaram os gregos e estabeleceram seu próprio Estado religioso independente, que permaneceu intacto até 67 a.C. As fronteiras desse Estado se expandiram até abranger todo o território que outrora estivera sob o domínio dos Estados da Judeia e de Israel. Além disso, grande parte da Filístia também passou a fazer parte dele, embora nem sequer nos tempos dos profetas Davi e Salomão (que a paz esteja sobre ambos) tivesse se submetido ao seu domínio. (Surata al-Ma’idah, nota 42.)
A era da segunda catástrofe
A força moral e religiosa com que o movimento dos Macabeus havia começado foi gradualmente se enfraquecendo. Depois, o mundanismo tomou conta deles. Por fim, surgiu uma cisão entre eles, e eles próprios convidaram o conquistador romano Pompeu a tomar a Palestina. Assim, em 63 a.C., Pompeu tomou Bayt al-Maqdis e privou os judeus de sua independência. A política permanente dos conquistadores romanos era preferir alcançar seus objetivos por meio de governantes locais, em vez de estabelecer diretamente a lei e a ordem nas regiões conquistadas. Por isso, estabeleceram na Palestina, sob sua supervisão, um Estado nativo, que em 40 a.C. passou às mãos de um judeu astuto chamado Herodes. Ele ficou conhecido como Herodes, o Grande. Seu domínio sobre toda a Palestina e a Jordânia Oriental manteve-se de 40 a.C. a 4 a.C. De um lado, patrocinava os líderes religiosos para manter os judeus satisfeitos; de outro, enriquecia a civilização romana e demonstrava o máximo de lealdade ao Império Romano. Desse modo, conquistou a satisfação do imperador romano César. Nesse período, a decadência religiosa e moral dos judeus atingiu o auge.
Após Herodes, seu reino foi dividido em três partes:
Um de seus filhos, Arquelau, tornou-se governante da Samaria, da Judeia e do norte da Idumeia. Porém, no ano 6 d.C., o imperador romano Augusto o destituiu e colocou todo o seu território sob a administração de um governador romano; esse sistema permaneceu em vigor até 41 d.C. Foi nesse período que Jesus (que a paz esteja com ele) surgiu para reformar e corrigir os Filhos de Israel. Todos os líderes religiosos judeus se opuseram conjuntamente a ele, e o governador romano Pôncio Pilatos tentou condená-lo à morte.
Herodes Antipas, o segundo filho de Herodes, tornou-se governante da região da Galileia, no norte da Palestina, e da Transjordânia. Foi ele quem, por ordem de uma dançarina, decapitou João (que a paz esteja com ele) e lhe ofereceu sua cabeça como presente.
Seu terceiro filho, Filipe, tornou-se rei de uma vasta região que se estendia do monte Hermon até o rio Yarmouk. Ele era mais devotado e afeiçoado à civilização romana e grega do que seu pai e seus irmãos. Na sua região não havia sequer a pouca oportunidade que existia em outras áreas da Palestina para a propagação de alguma mensagem benéfica.
No ano 41 d.C., os romanos nomearam Herodes Agripa, neto de Herodes, o Grande, governante das regiões que haviam sido governadas por Herodes, o Grande. Depois de assumir o poder, ele iniciou uma perseguição extrema contra os seguidores de Jesus (que a paz esteja com ele) e empregou todas as suas forças para eliminar o movimento de piedade e reforma moral que se desenvolvia sob a liderança dos apóstolos.
Para se ter uma ideia exata da situação dos judeus comuns e de seus líderes religiosos naquela época, é necessário ler as críticas que Jesus (que a paz esteja com ele) fez em seus discursos. Esses discursos estão registrados nos quatro Evangelhos. Contudo, para se compreender essa situação, basta saber que, quando um homem santo e virtuoso como João (que a paz esteja com ele) foi decapitado diante dos olhos daquela nação, não se ouviu sequer uma palavra de protesto contra essa extrema crueldade. Não apenas isso: todos os líderes religiosos da nação exigiram a condenação de Jesus (que a paz esteja com ele) à morte. Mas, salvo um pequeno número de pessoas fiéis à verdade, não havia ninguém que lamentasse essa desgraça. O cúmulo da infelicidade foi que, quando Pôncio Pilatos perguntou àquelas pessoas desafortunadas: “Hoje é o vosso dia de alegria. De acordo com o costume, tenho o direito de libertar um dos condenados à morte. Dizei: devo libertar Jesus ou o ladrão Barrabás?”, a multidão respondeu em uníssono: “Libertai Barrabás.” Essa foi como que a última oportunidade, concedida por Allah Todo-Poderoso, para que aquela nação aceitasse a verdade.
A punição da catástrofe
Pouco tempo depois, começou um conflito extremo entre os judeus e os romanos. Entre os anos 64 e 66 d.C., os judeus declararam abertamente uma rebelião. Herodes Agripa II e o procurador romano Floro fracassaram ambos em sufocá-la. Por fim, o Império Romano adotou uma severa medida militar para eliminar a rebelião, e Tito conquistou Jerusalém pela espada em 70 d.C. No massacre que se seguiu, cento e trinta mil pessoas foram mortas. Sessenta e sete mil foram capturadas e transformadas em escravos. Milhares de pessoas foram capturadas e enviadas para trabalhar nas minas do Egito. Milhares foram levadas para várias cidades, onde eram empurradas diante de feras selvagens nos anfiteatros e no Coliseu, ou obrigadas a participar de combates de espada, para o divertimento das multidões. Todas as jovens altas e belas foram escolhidas para o prazer dos vencedores. A cidade de Jerusalém e o Templo foram reduzidos a ruínas. Depois disso, a influência e o poder dos judeus foram completamente eliminados da Palestina, de tal modo que, durante dois mil anos, eles não tiveram oportunidade de voltar a erguer a cabeça. O sagrado Templo de Jerusalém também nunca mais pôde ser reconstruído. Mais tarde, o imperador Adriano repovoou a cidade, que então recebeu o nome de Élia. Durante muito tempo depois disso, a entrada dos judeus ali permaneceu proibida. (Surata Al-Isra, notas 6–7)
A última oportunidade concedida
Como os Filhos de Israel permaneceram envolvidos em pecados durante vários séculos consecutivos, apesar das repetidas advertências e repreensões, sua conduta nacional continuava a deteriorar-se. Eles mataram vários profetas sucessivamente e tornaram-se sedentos do sangue de qualquer homem nobre que os convidasse às boas ações e ao caminho verdadeiro e correto. Por isso, Allah, o Altíssimo, enviou simultaneamente dois grandes profetas, como Hazrat Isa (A) e Hazrat Yahya (A), para estabelecer a prova contra eles e apresentar-lhes a verdade de forma definitiva. Eles possuíam sinais tão claros de terem sido enviados por Allah que somente aqueles cuja hostilidade cega à verdade e cuja insolência contra ela haviam chegado ao extremo poderiam negá-los. Mas os Filhos de Israel perderam também esta última oportunidade. Não apenas rejeitaram o convite desses dois profetas; além disso, por ordem de uma dançarina, decapitaram um sábio como Hazrat Yahya (A), um de seus principais homens. Depois disso, gastar tempo e energia adicionais para repreender e censurar os Filhos de Israel tornou-se inútil. Por isso, Allah, o Altíssimo, chamou Seu profeta para junto de Si e escreveu sobre a vida dos Filhos de Israel, até o Dia da Ressurreição, a maldição da humilhação. (Surata Al-Baqara, notas 104–106)
Hazrat Yahya (A) e o tratamento dos Filhos de Israel para com ele
Reunindo os relatos sobre Hazrat Yahya (A), espalhados por diferentes passagens da Bíblia, apresenta-se aqui um retrato de sua vida santa:
Segundo o relato de Lucas, Hazrat Yahya (A) era seis meses mais velho que Hazrat Isa (A). As mães de ambos eram parentes próximas. Por volta dos trinta anos de idade, foi-lhe confiada a missão profética. Segundo o relato de João (John), ele iniciou o trabalho de pregar em nome de Allah na região da Transjordânia. Ele dizia: “Sou a voz de um pregador no deserto. Tornai reto e fácil o caminho de Deus.” João 1:23
Marcos afirma que ele fazia as pessoas se arrependerem dos pecados e batizava os arrependidos (Baptize — instrução religiosa), isto é, fazia-os tomar banho após o arrependimento, para que a alma e o corpo se tornassem puros. Muitas pessoas da Judeia e de Jerusalém (Jeruzalem) tornaram-se seus devotos. Elas iam até ele para serem batizadas (Marcos 1:4–5). Por isso, ele alcançou fama como Yahya, o Batista (John the Baptist). Em geral, os Filhos de Israel haviam reconhecido sua missão profética. Eis a declaração de Isa (A), segundo Mateus (Mathew) 21:26: “Entre os nascidos de mulher, ninguém surgiu maior que Yahya, o Batista, ou João” (Mateus 11:11). Ele vestia roupas de pelos de camelo e usava um cinto amarrado à cintura. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre (Mateus 3:4). Ao mesmo tempo que levava essa vida de pobreza ascética, proclamava: “Arrependei-vos, pois o reino dos céus está próximo” (Mateus 3:2). Isto é, o início da pregação de Hazrat Isa (A) estava próximo. Por isso, ele era chamado de confirmador de Hazrat Masih (Isa). É isso que foi dito sobre ele no Alcorão(*****Árabe****)como aquele que confirma a veracidade de um decreto da parte de Allah (de Hazrat Isa, A).
Ele aconselhava as pessoas a fazerem a oração e jejuarem. Mateus 9:14; Lucas 5:33; Lucas 11:1.
Ele dizia às pessoas: “Quem tiver duas roupas deverá distribuir uma delas àquele que não tem nenhuma. E quem tiver alimento deverá fazer o mesmo.” Os cobradores de impostos perguntaram: “Senhor, o que devemos fazer?” Ele respondeu: “Não cobreis mais do que aquilo que vos foi determinado.” Os soldados perguntaram: “Qual é a ordem para nós?” Ele respondeu: “Não oprimi ninguém nem tomeis injustamente coisa alguma de quem quer que seja. Contentai-vos com o vosso salário.” Lucas 3:10–14.
Quando os eruditos corrompidos dos Filhos de Israel, os fariseus e os saduceus, foram até ele para receber instrução, ele os repreendeu, dizendo: “Ninhada de serpentes! Quem vos ensinou a fugir da ira que se aproxima? Não penseis em dizer: ‘Abraão é nosso pai.’ Não penseis nisso de modo algum. —— Agora o machado está posto junto à raiz das árvores. Toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Mateus (Mathew) 3:7–10.
Ele estava cumprindo a missão de pregar a verdade no reino de Herodes Antipas, o governante judeu de sua época. Herodes Antipas estava completamente imerso na civilização romana. Por causa dele, o pecado e a corrupção se espalhavam por todo o país. Ele havia levado para sua própria casa Herodias, esposa de seu irmão Filipe, e a mantinha como sua companheira de leito. Por isso, Hazrat Yahya (que a paz esteja com ele) repreendeu Herodes e criticou sua vida pecaminosa. Por esse crime, Herodes o prendeu e o enviou para a cadeia. Apesar disso, considerava-o um homem puro e sincero, respeitava-o e também sentia medo e temor ao ver sua enorme influência entre o povo. Mas Herodias pensava que a força moral que Hazrat Yahya (que a paz esteja com ele) estava incutindo na nação fazia com que uma mulher como ela parecesse, aos olhos das pessoas, extremamente desprezível e vil. Por isso, decidiu firmemente matá-lo. Por fim, aproveitou a ocasião durante a celebração do aniversário de Herodes. Durante a festa, sua filha dançou muito bem. Encantado com ela, Herodes disse: “Dize-me o que desejas.” A moça perguntou à sua mãe adúltera o que deveria pedir. A mãe respondeu: “Pede a cabeça decepada de Yahya.” Então ela, juntando as mãos, disse a Herodes: “Ordene que tragam imediatamente a cabeça decepada de Yahya numa bandeja e a coloquem diante de mim.” Herodes ficou preocupado. Mas como poderia rejeitar o pedido de sua filha amada? Imediatamente, apresentou como presente à dançarina a cabeça decepada do profeta Yahya numa bandeja. Mateus 14:3–12; Marcos 6:17–29; Lucas 3:19–20. (Surata Al-Isra, nota 8)
Hazrat Isa (que a paz esteja com ele) e o comportamento dos Filhos de Israel para com ele(**********Árabe*******)
E menciona, no Livro, a história de Maryam (Maria), quando ela se afastou de seu povo e se retirou para um lugar isolado, a leste, e se ocultou deles atrás de um véu. — Surata Maryam: 16
Na Surata Al Imran, foi dito que a mãe de Hazrat Maryam, conforme seu voto, colocou Maryam para dedicar-se à adoração em Bait al-Maqdis, e que Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele) assumiu a responsabilidade por seus cuidados e sustento. Também foi mencionado que o mihrab onde Hazrat Maryam se recolheu ficava na parte oriental de Bait al-Maqdis. Segundo o costume geral, ela pendurou uma cortina e protegeu-se dos olhares das pessoas. Aqueles que, apenas para manter a concordância com a Bíblia,(*****Árabe*****)interpretaram isso como Nazaré cometeram um erro. Pois Nazaré fica ao norte de Jerusalém, e não a leste.(*****Árabe********)
Então lhe enviamos o Nosso espírito (o anjo), e ele apareceu diante dela sob a forma de um homem perfeito. Maryam exclamou de repente: “Se és um homem temente a Deus, busco proteção contra ti junto ao Misericordioso.” Ele respondeu: “Sou apenas o anjo do teu Senhor. Fui enviado para te conceder um filho puro.” Maryam disse: “Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e eu não sou uma mulher depravada?” O anjo respondeu: “Assim será. Teu Senhor disse: ‘Isso é muito fácil para Mim’, e faço isso para tornar este menino um sinal para as pessoas e uma misericórdia da Minha parte. E isso acontecerá.” — Surata Maryam: 17–21
Quando Hazrat Maryam ficou admirada, o anjo disse: “Assim será.” Isso jamais pode significar que um homem te tocará e dele será gerado um filho em teu ventre. O significado claro é, ao contrário, que terás um filho sem que homem algum te toque. Uma linguagem semelhante suscitou a admiração de Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele), e também ali o anjo deu a mesma resposta. É evidente que o significado adotado ali será o mesmo aqui. Da mesma forma, na Surata Adh-Dhariyat (versículos 28–30), quando o anjo anuncia a Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) a boa-nova de um filho, Hazrat Sarah diz: “Como poderá nascer um filho de uma velha estéril como eu?” Então o anjo lhe dá esta mesma resposta:(*****Árabe*****)“Será assim.” Isso significa que ela terá um filho apesar de ser idosa e estéril. Além disso, se(*****Árabe*****)o significado for interpretado como sendo que um homem te tocará e, desse modo, nascerá de ti um filho como acontece com todas as mulheres do mundo, então as duas frases seguintes perderão o sentido. Qual seria, então, a necessidade de dizer: “Teu Senhor diz que fazer isso é muito fácil para Mim e quero tornar este menino um sinal”? A palavra “sinal” foi usada aqui claramente no sentido de um milagre, e esta frase aponta para esse significado: “Fazer isso é muito fácil para Mim.” Portanto, o significado da declaração de Allah, o Altíssimo, não é outro senão que Ele deseja apresentar este menino aos Filhos de Israel como um milagre. A descrição seguinte esclarece por si mesma como a pessoa de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele) está sendo apresentada como um milagre.(*****Árabe****)Maryam concebeu aquela criança e, durante a gravidez, retirou-se para um lugar distante. Então as dores do parto levaram-na para debaixo de uma tamareira. Ela dizia: “Ah! Quem dera eu tivesse morrido antes disso e tivesse sido completamente esquecida.” O anjo chamou-a de baixo de seus pés, dizendo: “Não te aflijas! Teu Senhor fez correr, abaixo de ti, uma fonte. Sacode para ti o tronco desta tamareira, e cairão sobre ti tâmaras frescas, umas após outras. Come as tâmaras, bebe a água da fonte e tranquiliza os olhos. E, se encontrares algum ser humano, dize-lhe: ‘Fiz um voto de jejuar para o Misericordioso; por isso, hoje não falarei com ninguém.’” Depois, levando seu filho, ela foi até seu povo. Eles disseram: “Ó Maryam! Cometeste algo realmente terrível. Ó irmã de Harun! Teu pai não era um homem mau, nem tua mãe era uma mulher de má conduta.” Surata Maryam: 22–28
O lugar distante significa Bait Lahm. Era perfeitamente natural que Hazrat Maryam saísse de seu retiro e fosse para lá. A filha da família extremamente pura dos Filhos de Israel, a família de Bani Harun, estava instalada em Bait al-Maqdis, dedicada à adoração de Allah. De repente, ela ficou grávida. Se, nessa situação, tivesse permanecido no próprio local de seu retiro e as pessoas descobrissem sua gravidez, não apenas os membros da família, mas também as demais pessoas da sociedade tornariam difícil sua sobrevivência. Por isso, a pobre mulher, depois de ser submetida a essa difícil prova de fogo, deixou silenciosamente sua cela de retiro. Assim, enquanto fosse da vontade de Allah, ficaria protegida da censura e da repreensão de seu povo e da desonra pública geral. Este acontecimento constitui, por si só, uma grande prova de que Hazrat Isa (que a paz esteja com ele) nasceu sem pai. Se Hazrat Maryam fosse casada e tivesse concebido um filho de seu marido, não haveria razão alguma para que abandonasse tudo e fosse sozinha para um lugar distante a fim de dar à luz, em vez de ir para a casa de seu pai ou para a casa de seus sogros.
Por isso, pode-se imaginar a aflição que ela sofria. Ao considerar a delicadeza da situação, todos podem compreender que essas palavras não saíram de sua boca por causa das dores do parto. Pelo contrário, ela estava angustiada, pensando em como poderia escapar dignamente da terrível provação na qual Allah a havia colocado. De algum modo, ela ainda havia conseguido manter a gravidez em segredo. Mas agora, para onde iria com aquela criança? O que Hazrat Maryam quis dizer com essas palavras fica claro pelas palavras subsequentes do anjo: “Não te aflijas”. Quando uma mulher casada tem o seu primeiro filho, por mais que se contorça com as dores do parto, não há razão para que se preocupe. O significado de “não te aflijas” é: não terás de dizer nada sobre a criança. Se alguém perguntar sobre o seu nascimento, caberá a nós responder. (Convém observar que, na sociedade dos Bani Israel, era costume jejuar permanecendo em silêncio, sem falar. Essas palavras deixam claro qual era a verdadeira causa da preocupação de Hazrat Maryam. Observe-se que, se o primeiro filho de uma mulher casada tivesse nascido de acordo com o curso normal deste mundo, que necessidade haveria de jejuar permanecendo em silêncio?)
(*****Árabe****)(Ó irmã de Aarão) pode ter dois significados. Um é aceitar o significado aparente e considerar que Maryam tinha um irmão chamado Aarão. O segundo é que, de acordo com o uso da língua árabe, “irmã de Aarão” deve ser entendido como “uma mulher da família de Aarão”. Isso porque esse modo de expressão é corrente na língua árabe. Por exemplo, costumava-se chamar um membro da tribo de Mudar de(*****Árabe***)“ó irmão de Hamdan”. A evidência para aceitar o primeiro significado é que esse sentido também foi transmitido pelo Profeta (s.a.w.). O argumento em favor do segundo significado é que as circunstâncias e o contexto exigem essa interpretação. Pois, aparentemente, a comoção que se espalhou entre o povo por causa desse acontecimento não pode ter sido provocada pelo fato de a irmã solteira de um homem desconhecido chamado Aarão ter aparecido com uma criança nos braços. A razão pela qual as pessoas se aglomeraram ao redor de Maryam só pode ter sido que uma mulher da linhagem de Aarão, pertencente a uma das famílias mais puras dos Bani Israel, havia sido encontrada naquela situação. Embora, em princípio, não se possa aceitar outra interpretação quando existe um hadith marfu, o significado da forma como esse hadith foi citado em obras como Muslim, Nasa’i e Tirmidhi não pode ser que essas palavras tenham necessariamente o sentido de “irmã de Aarão”. Tudo o que foi relatado por Hazrat Mughirah ibn Shu’bah é que os cristãos de Najran perguntaram a Hazrat Mughirah: no Alcorão, Hazrat Maryam é chamada de irmã de Aarão, embora Aarão tenha falecido várias centenas de anos antes dela. Qual é o significado dessas palavras do Alcorão?
Hazrat Mughirah (r.a.) não conseguiu responder a essa pergunta. Mais tarde, apresentou o assunto ao Profeta (s.a.w.). O Profeta (s.a.w.) disse: “Por que não respondeste dizendo que os Bani Israel costumavam dar a seus filhos os nomes dos profetas e dos homens piedosos?” A declaração do Profeta (s.a.w.) deixa claro que, em vez de permanecer sem resposta, é possível enfrentar a pergunta com esse tipo de resposta.(*****Árabe****)Maryam apontou para a criança. Eles disseram: “Como poderemos falar com ela? É apenas um bebê deitado no berço.” Então a criança falou: “Sou servo de Allah. Ele me deu o Livro e me fez profeta. Onde quer que eu esteja, Ele me tornou abençoado. Ordenou-me que cumprisse regularmente a oração e pagasse o zakat enquanto eu viver. Fez-me cumpridor dos direitos de minha mãe. Não me fez arrogante nem de caráter perverso. A paz esteja sobre mim no dia em que nasci, no dia em que eu morrer e no dia em que eu for ressuscitado.” Este é Isa, filho de Maryam, e esta é a verdade sobre ele, a respeito da qual as pessoas duvidam. — Surata Maryam, 29–34
Este é o sinal que foi apresentado aos Bani Israel na pessoa de Hazrat Isa. Antes de lhes aplicar um castigo exemplar por suas contínuas transgressões, desordens e pecados, Allah desejou apresentar-lhes a verdade fundamental de forma definitiva e dar-lhes uma última oportunidade de se corrigirem. Por isso, adotou este método: fez com que a jovem casta e devota da família de Aarão, que estava entregue ao retiro espiritual no Baitul-Maqdis e sob os cuidados de Hazrat Zakariya (a.s.), engravidasse sem ser casada. O objetivo era que, quando ela retornasse à população com o recém-nascido, se produzisse grande alvoroço em toda a nação e todos voltassem os olhos para ela. Então, conforme esse plano, quando uma multidão começou a se reunir diante de Hazrat Maryam, Allah fez o recém-nascido falar. Isso para que, quando essa criança crescesse e recebesse a honra da profecia, houvesse entre a nação numerosas pessoas capazes de testemunhar que haviam visto, ainda na infância, um milagre extraordinário nessa pessoa. Mesmo assim, se essa nação se recusasse a aceitar sua profecia e, em vez de reconhecer sua obediência, negasse sua missão profética e tentasse apresentá-lo como criminoso e crucificá-lo, receberia um castigo educativo tão severo como jamais fora aplicado a qualquer nação do mundo. (Surata Al-Isra, nota 9)
(Para uma explicação detalhada, consulte Tafhim al-Qur’an, volume 1, Surata Al Imran, notas 44 e 53; Surata An-Nisa, notas 212 e 213; volume 3, Al-Anbiya, notas 88–90; e Surata Al-Mu’minun, nota 43.) Eles foram mencionados pela primeira vez na Surata Al-Furqan, versículo 38. Depois, foram mencionados novamente na Surata Qaf, versículo 12. Em ambos os lugares, porém, seus nomes são citados junto aos daqueles que quiseram rejeitar os profetas como mentirosos. Nenhum relato é fornecido. (Não foi possível encontrar nenhuma informação histórica sobre quem eram os Companheiros de ar-Rass. Os exegetas apresentaram vários relatos, mas nenhum deles é seguramente aceitável. O máximo que se pode dizer é que se tratava de uma nação que matou seu profeta lançando-o em um poço ou deixando-o pendurado nele. Em árabe, rass significa um poço antigo. — Tafhim al-Qur’an, volume 3, Al-Furqan, nota 52.)
Segundo a tradição árabe, há dois lugares famosos chamados Rass: um no Najd e o outro no norte do Hijaz. Agora é difícil determinar de qual desses dois lugares eram habitantes os Companheiros de ar-Rass. Nenhum relato oferece uma descrição confiável de sua história. O máximo que se pode afirmar com segurança é que se tratava de uma nação que lançou seu profeta em um poço. Contudo, o modo como o Alcorão Sagrado faz apenas uma alusão a eles e deixa o assunto de lado permite supor que, na época da revelação do Alcorão, os árabes em geral conheciam essa nação. Mais tarde, seu relato não pôde ser preservado pela história. (Surata Al Imran, nota 51)
Uma visão abrangente de toda a humanidade
Quando o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) foi incumbido de transmitir o chamado islâmico, o mundo exigia soluções para diversos tipos de problemas morais, civilizacionais, econômicos e políticos. Naquela época, os impérios Romano e Persa ainda existiam. Havia também divisão de classes e prosseguia a injusta exploração econômica (Economics Exploitation). A corrupção moral também estava disseminada. Mesmo na própria terra do Profeta havia muitos problemas complexos. As regiões orientais e meridionais da Arábia, até o Iêmen, incluindo a fértil província do Iraque, estavam sob o domínio persa. Ao norte, o domínio romano se estendia até a fronteira do Hijaz. No próprio Hijaz, os capitalistas judeus haviam erguido grandes fortalezas. Eles mantinham os árabes presos na rede da usura. Exatamente em frente à costa ocidental, estava estabelecido o governo cristão da Abissínia, que havia atacado Meca apenas alguns anos antes. Entre o Hijaz e o Iêmen, em Najrān, vivia um grupo que professava a mesma religião que eles e mantinha com eles certo vínculo econômico e político. (Surata Maryam, nota 12)
Roma, Grécia e Índia
As histórias do Coliseu de Roma (Colodseum) ainda estão preservadas nas páginas da história. Milhares de infelizes eram vítimas dos combates de espada (Gladiatory) e do entretenimento dos nobres e dignitários romanos. Empurrar escravos para diante de animais ferozes, degolá-los como se fossem animais ou queimá-los no fogo para assistir ao espetáculo, a fim de divertir os convidados ou receber os amigos, não era considerado uma ação condenável na maior parte da Europa e da Ásia. Matar prisioneiros e escravos, submetendo-os a diversos castigos, era uma prática comum daquela época. Não apenas os nobres ignorantes e sedentos de sangue, mas também, nos estudos e reflexões dos grandes sábios e filósofos gregos e romanos, muitos métodos brutais de matar pessoas inocentes eram considerados legítimos. Mestres da moral como Aristóteles e Platão não consideravam condenável conceder à mãe o direito de separar de seu corpo uma parte dele (o feto ou o filho no ventre). Portanto, matar fetos não era ilegal na Grécia e em Roma. O pai tinha o direito de matar o filho, e os legisladores romanos orgulhavam-se de que o direito do pai sobre os filhos fosse tão ilimitado, característica essa da lei. Para os discípulos de Zenão, os estoicos (Stoics), indiferentes à felicidade e à tristeza, o suicídio não era uma falta; ao contrário, era uma ação honrosa, a ponto de se convocar uma assembleia para cometer suicídio nela. Até um sábio como Platão não o considerava crime. A esposa ser degolada pelo marido era considerada exatamente como ele degolar um animal doméstico seu. A lei grega não estabelecia nenhuma punição para isso. A Índia, berço da preservação da vida, estava à frente de todos nesse aspecto. Ali, queimar viva a viúva junto ao cadáver do marido era uma prática legal. (Pode-se perguntar: a esposa não era queimada na pira funerária do marido; pelo contrário, ela mesma se queimava. Mas a questão é que a pressão social, de várias formas, é que a obrigava a cometer esse terrível suicídio, e a religião também o exigia.) A vida dos shudras não tinha valor algum. Como esses infelizes haviam nascido dos pés de Brahma, matá-los era considerado lícito para Brahma. Ouvir os hinos dos Vedas era um pecado tão grave para os shudras que derramar metal fundido em seus ouvidos e matá-los não era apenas permitido, mas obrigatório. O costume de lançar crianças na água era tradicional e, segundo esse costume, os pais lançavam o primeiro filho no Ganges. Consideravam essa crueldade uma causa de boa fortuna. (Surata Maryam, notas 14–19, 21)
A aflição universal do shirk
Quais eram as concepções religiosas do mundo quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) começou a transmitir o chamado ao tawhid? Os politeístas idólatras adoravam deuses e divindades feitos de diversos materiais, como madeira, pedra, ouro e prata. Eles possuíam forma, aparência e corpo. As divindades proliferavam de maneira regular. Não havia deusa sem marido nem deus sem esposa. Também precisavam comer e beber. Seus sacerdotes faziam disso um negócio. Muitos politeístas acreditavam que Deus aparecia sob forma humana e que algumas pessoas eram suas encarnações. Embora os cristãos afirmassem reconhecer um único Allah, o seu Allah também tinha pelo menos um filho. Além do Pai e do Filho, o Espírito Santo tinha a honra de compartilhar a divindade. Havia até uma mãe e uma sogra de Deus. Os judeus também afirmavam reconhecer um único Deus. Contudo, seu deus não estava isento de atributos terrenos, corporais e de outras qualidades humanas. Ele se movimentava e se manifestava sob forma humana. Chegava até a lutar corpo a corpo com algum de seus servos. Também tinha um filho (Uzair). Além desses grupos religiosos, os magos eram adoradores do fogo, e os sabeus adoravam os astros. (O Caminho da Revolução Islâmica, p. 24–25, em urdu)
A fitna da falsa divisão da humanidade em castas
Desde os tempos mais antigos até hoje, em todas as épocas, os seres humanos geralmente ignoraram a humanidade e traçaram ao redor de si mesmos um círculo: consideravam seus semelhantes aqueles que nasciam dentro dele e estrangeiros os que nasciam fora dele. Esse círculo não era traçado com base em qualquer fundamento intelectual ou moral, mas no nascimento acidental. Em alguns lugares, seu fundamento era nascer em determinada família, tribo ou linhagem; em outros, nascer em certa região geográfica ou entre um povo de determinada raça ou língua. Sobre essa base, a diferença criada entre as pessoas não se limitou a que aquele que era considerado semelhante recebesse apenas mais amor, ajuda e solidariedade do que os demais; pelo contrário, essa diferença assumiu a pior forma de ódio, hostilidade, desprezo, opressão e perseguição contra os outros. Para isso, foram elaboradas filosofias, inventadas religiões, criadas leis e formulados princípios morais. Nações e Estados adotaram tudo isso como doutrina permanente e o impuseram durante séculos. Com base nisso, os judeus consideram os Filhos de Israel criaturas escolhidas por Allah e, segundo suas próprias orientações religiosas, chegaram a colocar os direitos e a dignidade dos não israelitas abaixo dos direitos e da dignidade dos israelitas. Essa divisão de classes deu origem, entre os hindus, ao sistema de castas, sob cuja perspectiva se estabeleceu a elevada dignidade dos brâmanes. Em comparação com os membros das castas superiores, todos os demais seres humanos eram considerados inferiores e impuros, e os brancos eram lançados no orgulho da extrema humilhação dos negros. Não é necessário consultar as páginas da história para investigar a opressão e a injustiça praticadas contra os negros na África e na América em razão da distinção entre brancos e negros. No século XX em que vivemos, todos podem vê-las com os próprios olhos. Por trás do tratamento dispensado pelos europeus aos povos de origem indígena que encontraram ao entrar no continente americano, bem como aos povos fracos da Ásia e da África sobre os quais estabeleceram seu domínio, estava a concepção de que a vida, os bens e a honra daqueles que nasciam fora das fronteiras de seu país e de sua nação eram lícitos para eles, e de que tinham o direito de saqueá-los, transformá-los em escravos e, se necessário, exterminá-los da face da Terra. O nacionalismo ou culto à nação dos povos ocidentais tornou uma nação tão feroz contra as demais que seus piores exemplos foram vistos nas guerras dos tempos recentes e ainda podem ser vistos hoje. Em particular, ao observar os horrores produzidos na última grande guerra pela filosofia racista da Alemanha nazista e pela ideia da superioridade da raça nórdica, pode-se facilmente perceber quão enorme e destrutivo era o desvio cuja correção e reforma motivaram a revelação deste versículo do Alcorão.(****Árabe******)
Ó humanidade! Nós vos criamos a partir de um homem e de uma mulher. Depois, fizemos de vós povos e tribos, para que vos reconheçais uns aos outros. Na verdade, o mais honrado de vós perante Allah é aquele que mais O teme e é mais justo. Certamente, Allah conhece todas as coisas e está bem informado sobre tudo. — Surata Al-Hujurat: 13
A religião e os costumes sociais dos árabes idólatras
A sociedade idólatra árabe em um relance
Naquela época de escuridão, havia uma região da Terra onde as trevas haviam se tornado ainda mais densas. Entre os países considerados civilizados segundo os padrões daquela época, a Arábia havia ficado isolada. Ao seu redor, nos países da Pérsia, de Roma e do Egito, ainda se podiam encontrar alguns raios de conhecimento, ciência, artes, civilização e urbanidade. Mas grandes oceanos de areia mantinham os árabes separados deles. Os comerciantes árabes viajavam montados em camelos, percorrendo durante meses o caminho até esses países para negociar, e voltavam depois de realizar apenas a troca de mercadorias. Nenhuma luz de conhecimento ou civilização vinha com eles. Em seu país não havia professores nem bibliotecas. Entre o povo não havia prática de educação nem interesse por conhecimento, ciência ou artes. Em todo o país, havia apenas algumas pessoas capazes de ler e escrever. Eles possuíam, sem dúvida, uma língua elevada, por meio da qual tinham extraordinária capacidade de expressar ideias profundas. Também possuíam um gosto literário muito refinado. Contudo, ao examinar o que de sua literatura chegou até nós, percebe-se quão limitado era seu conhecimento, quão baixo era seu nível de civilização e cultura, quão supersticiosos eram, quanto de ignorância e brutalidade havia marcado seu pensamento e seu caráter e quão repulsivas eram suas concepções morais.
Ali, como era de se esperar, não havia governo nem leis. Cada tribo era independente em seu próprio território. Aplicava-se apenas a lei da selva. Quem tivesse poder sobre outra pessoa matava-a e se apoderava de seus bens. Um beduíno árabe simplesmente não conseguia entender por que não deveria matar alguém que não pertencesse à sua tribo e por que não deveria tornar-se proprietário de seus bens.
Qualquer noção de moralidade, civilização e urbanidade que existisse entre eles era extremamente rudimentar e desarticulada. Eles quase desconheciam a diferença entre puro e impuro, permitido e proibido, decência e indecência. Seu modo de vida era extremamente sujo. Seus costumes eram brutais. O adultério, o consumo de álcool, o roubo, o banditismo, o assassinato e o derramamento de sangue haviam se tornado hábitos comuns de sua vida. Eles ficavam nus sem hesitação diante uns dos outros. Até mesmo suas mulheres davam voltas ao redor da Caaba nuas. Enterravam vivas, com as próprias mãos, as filhas que tinham gerado, movidos apenas pela ideia nascida da ignorância de que ninguém deveria vir a ser seu genro. Após a morte do pai, casavam-se com suas madrastas. Não possuíam sequer o senso comum sobre alimentação, hábitos, vestuário e taharah, ou pureza. No que dizia respeito à religião, compartilhavam da ignorância e do desvio em que o mundo daquela época estava mergulhado (a situação religiosa dos árabes será discutida adiante — os compiladores). Entre eles eram praticadas todas as formas de culto e adoração existentes no mundo naquela época: adoração de ídolos, adoração de espíritos dos mortos, adoração dos planetas e das estrelas; em suma, tudo isso em lugar da adoração e obediência a um único Deus. Não possuíam conhecimento correto sobre os profetas antigos nem sobre seus ensinamentos. Sabiam apenas que Abraão e Ismael eram seus antepassados. Mas não sabiam qual era a religião desses dois pais, pai e filho, nem a quem eles adoravam. Também conheciam bem as histórias de Ad e Tamude. Contudo, ao ler os relatos registrados pelos historiadores árabes, percebe-se que neles não há sequer vestígio dos ensinamentos dos profetas Saleh e Hud. Por intermédio dos judeus e dos cristãos, também chegaram até eles as histórias da vida dos profetas dos Filhos de Israel. Para compreender como eles eram, basta examinar de relance os relatos israelitas citados pelos comentaristas do Islã. Isso permitirá saber que tipo de homens eram os profetas conhecidos pelos árabes e pelos próprios Filhos de Israel, e quão degradada era sua concepção sobre a profecia. (Tafhim al-Qur’an, introdução à Surata Al-Ikhlas)
O orgulho de seguir Abraão e Ismael
Os árabes da época da Jahiliyyah consideravam-se seguidores de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e de Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele). Por isso, acreditavam que a religião que seguiam era a religião aprovada por Allah. Contudo, ao longo dos séculos posteriores, líderes religiosos, chefes tribais, anciãos das famílias e outras pessoas acrescentaram ao ensinamento religioso que haviam recebido de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) e de Hazrat Ismail (que a paz esteja com ele) vários tipos de crenças, mandamentos, costumes e práticas. As gerações posteriores passaram a considerar tudo isso parte da religião verdadeira e a observá-lo com devoção e reverência. Como não havia, nas narrativas, na história ou em quaisquer livros, nenhum registro preservado pelo qual se pudesse saber o que era a religião verdadeira e quando, por quem e de que maneira cada coisa havia sido posteriormente acrescentada a ela, toda a religião dos árabes se tornou duvidosa para eles. Não podiam afirmar com certeza que algo fosse parte daquela religião verdadeira enviada por Allah. Tampouco sabiam que essas coisas eram bid‘ah (inovações introduzidas em nome da religião) e costumes e práticas errôneos acrescentados posteriormente pelas pessoas. (Surata Al-Hujurat, nota 12)
Alguns dos ídolos mais famosos dos politeístas árabes
Al-Lat
Seu templo ficava em Ta’if. Os Banu Thaqif eram tão devotos dela que, quando Abraha avançava com seu exército de elefantes para atacar Makkah com o objetivo de destruir a Kaaba, os membros dos Banu Thaqif, apenas para proteger o santuário de seu ídolo, providenciaram para o tirano Abraha uma escolta armada no caminho para Makkah, a fim de que ele não tocasse em Al-Lat. No entanto, assim como todos os árabes, os membros dos Banu Thaqif também reconheciam que a Kaaba era a Casa de Allah.
Há divergência entre os eruditos quanto ao significado de Al-Lat. Segundo a investigação de Ibn Jarir At-Tabari, trata-se da forma feminina de Allah. Em outras palavras, a palavra original era(***Árabe***)(Allahātun), que foi transformada em(***Árabe***)(Al-Lat). Segundo Zamakhshari, esta deriva de(***Árabe****)uma palavra cujo significado é virar-se ou inclinar-se para alguém. Como os politeístas voltavam o rosto para ela durante a adoração, inclinavam-se diante dela e circundavam-na, ela foi chamada de Al-Lat. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia que derivava de(***Árabe***)uma palavra cujo significado é amassar e misturar. Ele e Mujahid dizem que se tratava de um homem que vivia numa rocha montanhosa perto de Ta’if e alimentava os peregrinos com sattu e kana. Após sua morte, as pessoas construíram um templo sobre aquela rocha e passaram a adorá-lo. Contudo, a respeito de Al-Lat, dois veneráveis eruditos como Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e Mujahid disseram que se dizia “Al-Lat”, e não a outra forma. Em segundo lugar, o Alcorão menciona Al-Lat, Al-Uzza e Manat, as três, como deusas; entretanto, de acordo com a descrição acima, Al-Lat era um homem, e não uma mulher.
Al-Uzza
A palavra Al-Uzza(***Árabederiva de Izzat, e significa “aquela que possui honra”. Era a principal deusa dos coraixitas, e seu templo situava-se num lugar chamado Huraaz, no vale de Nakhlah, entre Makkah e Ta’if(***Árabe. Os membros dos Banu Shayban, aliados dos Banu Hashim, eram os guardiões desse templo. Os coraixitas e pessoas de outras tribos visitavam-na e ofereciam-lhe presentes. Também faziam sacrifícios em seu nome. Assim como acontecia com a Kaaba, levavam-lhe animais destinados a oferendas, e ela era honrada mais do que todos os outros deuses e deusas. Ibn Hisham relata que, quando Abu Luhayha estava prestes a morrer, Abu Lahab foi visitá-lo. Viu que ele estava chorando. Abu Lahab perguntou: “Por que está chorando?” Ele respondeu: “Não estou chorando por medo da morte. Estou chorando porque não sei como Al-Uzza será adorada depois de mim.” Abu Lahab disse: “Ela não era adorada em sua vida por consideração a você, nem sua adoração cessará depois de você.” Abu Luhayha disse: “Agora estou tranquilo, pois alguém me sucederá depois de mim.”
Manat
Seu templo situava-se num lugar chamado Qudayma, na costa do Mar Vermelho, entre Meca e Medina, e especialmente os membros de Banu Khuza’a, Aws e Khazraj eram profundamente devotos dela. Faziam sua ziyarat e seu tawaf, e ofereciam-lhe sacrifícios votivos. Durante o Hajj, quando os peregrinos terminavam o tawaf da Casa de Allah e os ritos de Arafat e Mina, partiam dali para visitar Manat, entoando: «Labbayka, labbayka». Aqueles que tencionavam realizar esse segundo Hajj não faziam o sa’y entre Safa e Marwa.
Os deuses e deusas do povo de Noé
Entre os deuses e deusas do povo de Noé, a Surata de Noé menciona apenas os nomes daqueles que, posteriormente, os árabes começaram a adorar. No início do Islã, havia templos dedicados a eles em vários lugares da Arábia. É possível que os descendentes posteriores tenham ouvido, da boca daqueles que sobreviveram ao dilúvio, falar dos antigos deuses e deusas do povo de Noé; e, quando a jahiliyyah se espalhou novamente entre seus descendentes, eles fizeram imagens desses deuses e deusas e recomeçaram a adorá-los.
Os deuses e deusas do povo de Noé
Entre os deuses e deusas do povo de Noé, a Surata de Noé menciona apenas os nomes daqueles que, posteriormente, os árabes começaram a adorar. No início do Islã, havia templos dedicados a eles em vários lugares da Arábia. É possível que os descendentes posteriores tenham ouvido, da boca daqueles que sobreviveram ao dilúvio, falar dos antigos deuses e deusas do povo de Noé; e, quando a jahiliyyah se espalhou novamente entre seus descendentes, eles fizeram imagens desses deuses e deusas e recomeçaram a adorá-los.
Primeiro: Wadd era o deus de Banu Kalb ibn Wabra, um ramo da tribo de Quda’a. Eles haviam construído seu templo em Dumat al-Jandal. Nas antigas inscrições árabes, seu nome aparece escrito como Waddam Abam. Segundo a descrição de Kalbi, o ídolo tinha sido feito à imagem de um homem de corpo enorme. Os coraixitas também o reconheciam como deus, e entre eles seu nome era Udd. Na história, é mencionada uma pessoa chamada Abd Wadd, assim denominada em referência a ele.
Segundo: Suwa(***Árabe***)
Era a deusa da tribo de Hudhayl, e seu ídolo tinha a forma de uma mulher. Seu templo ficava num lugar chamado Rubaït, próximo de Yanbu.
Terceiro: Yaguth
Yaguth era o deus do ramo An’um da tribo de Tayy e de alguns ramos da tribo de Madhhij. Os membros da tribo de Madhhij haviam instalado sua estátua num lugar chamado Jurna, entre o Iêmen e o Hijaz. Ela tinha a forma de um tigre. Entre os coraixitas, também se encontravam pessoas chamadas Abd Yaguth.
Quarto: Yauq
Era o deus de Khaiwan, um ramo da tribo de Hamdan, na região do Iêmen. Tinha a forma de um cavalo.
Quinto: Nasr
Nasr era o deus de Zul-Kula, um ramo da tribo de Himyar, na região de Himyar. Num lugar chamado Balkha, havia uma estátua sua na forma de um asno. Nas antigas inscrições rupestres do povo de Sabá, seu nome aparece escrito como Nasur. As pessoas chamavam seu templo de Bait Nasur e seus adoradores de Ahl Nasur. Entre as ruínas de antigos templos encontradas na Arábia e nas regiões adjacentes, em muitas portas de templos podem ser vistas estátuas de asnos. (Tafhim al-Qur’an, Surata Al-An’am, nota 109)
A famosa estátua de Baal(***Árabe***)
Invocais Baal e abandonais o melhor dos criadores? — Surata As-Saffat: 125
O significado lexicográfico de Baal é senhor, chefe e proprietário. Essa palavra também é usada para marido. Em diversos lugares do Alcorão, ela foi empregada com este último significado, como na Surata Al-Baqarah, versículo 228; na Surata An-Nissá, versículo 128; na Surata Hud, versículo 72; e na Surata An-Nur, versículo 31. Porém, os povos da antiga linhagem sassânida usavam essa palavra no sentido de divindade ou deus. Eles chamavam uma divindade específica de Baal. Em particular, Baal era a maior divindade dos fenícios do Líbano (Phoenicians), e sua esposa, Astarte (Ashtoreth), era a maior deusa de todas. Há divergência entre os pesquisadores quanto a saber se Baal representava o sol ou o planeta Júpiter (Jupiter), e se Astarte representava a lua ou o planeta Vênus (Venus). De qualquer modo, está historicamente comprovado que o culto de Baal se espalhou por todo o Oriente Médio, desde a Babilônia até a Síria. Em especial, os povos idólatras do Líbano, da Síria e da Palestina estavam profundamente envolvidos nele.
Quando os Filhos de Israel saíram do Egito, foram reassentados na Palestina e na Jordânia oriental e, desobedecendo às rigorosas proibições da Torá, começaram a estabelecer casamentos e relações sociais com os povos idólatras. Então também foram afetados por essa doença. A Bíblia diz que essa decadência moral e religiosa começou entre os Filhos de Israel imediatamente após a morte de Hazrat Yusha bin Nun, o primeiro califa de Musa (que a paz esteja sobre ele).
Os filhos de Israel passaram a fazer aquilo que era mau aos olhos do Senhor e começaram a servir às divindades de Baal. — Abandonaram o Senhor e seguiram outras divindades, isto é, as divindades dos povos que viviam ao redor deles, prostrando-se diante delas. Juízes 2:11–13
Assim, os filhos de Israel habitaram entre os cananeus, heteus, amorreus, perizeus, heveus e jebuseus; casaram-se com as filhas deles, deram suas próprias filhas em casamento aos filhos deles e serviram às suas divindades. — Juízes 3:5–6
Naquela época, o culto de Baal havia penetrado entre os israelitas de tal maneira que, segundo o relato da Bíblia, foi construído um altar de sacrifícios de Baal em um de seus povoados, onde eram realizados sacrifícios. Um israelita temente a Deus, incapaz de suportar aquela situação, destruiu secretamente o local dos sacrifícios durante a noite. No dia seguinte, numa grande assembleia, o povo exigiu a execução daquele homem que havia destruído aquele centro de shirk. Por fim, Hazrat Samuel, Talut, Hazrat Dawud (que a paz esteja sobre ele) e Hazrat Sulayman (que a paz esteja sobre ele) transformaram completamente aquela situação. Eles não apenas reformaram os Filhos de Israel, mas também suprimiram, de modo geral, o shirk e a idolatria em todo o seu reino. Porém, após a morte de Hazrat Sulayman (que a paz esteja sobre ele), a sedição voltou a levantar a cabeça e, especialmente, o Estado israelita do norte da Palestina mergulhou no culto de Baal. (Surata An-Najm, nota 15)
Uma concepção elevada de Allah juntamente com a idolatria
Os idólatras da Arábia reconheciam que Allah é o Criador dos céus e da terra. Era Ele quem fazia sucederem-se o dia e a noite. Foi Ele quem deu existência ao sol e à lua. Nenhum deles acreditava que esses atos fossem obra de Lat, Hubal, Uzza ou de qualquer outra divindade. (Surata Nuh, nota 17)
O Alcorão menciona em vários lugares qual era a concepção e a crença dos idólatras árabes a respeito de Allah. Por exemplo, na Surata Az-Zukhruf, consta: se lhes perguntares quem os criou, certamente dirão: Allah (versículo 87). Na Surata Al-Ankabut, consta: se lhes perguntares quem criou os céus e a terra e quem submeteu o sol e a lua ao seu controle, certamente dirão: Allah. E se lhes perguntares quem fez descer água do céu e deu vida à terra que jazia como morta, certamente dirão: Allah. Versículos 61 e 63
Na Surata Al-Mu’minun, está dito: “Dize-lhes: A quem pertence a terra e todos os seus habitantes? Dizei-me, se sabeis. Eles certamente responderão: A Allah. Pergunta-lhes: Quem é o Senhor dos sete céus e do Trono majestoso? Eles certamente responderão: Allah. Dize-lhes: Se sabeis, dizei-me: A quem pertence o domínio e a soberania sobre todas as coisas? E quem protege, enquanto ninguém pode proteger contra Ele? Eles certamente responderão: Tudo isso pertence a Allah.” — Versículos 84–89
Na Surata Yunus, foi dito: “Pergunta-lhes: Quem vos provê o sustento do céu e da terra? Quem tem autoridade sobre a audição e a visão que vos foram concedidas? Quem faz sair o vivo do morto e o morto do vivo? E quem governa a ordem do universo? Eles certamente responderão: Allah.” (Versículo 31.) Em outro trecho da Surata Yunus, está dito: “Quando embarcais e navegais alegremente com vento favorável, mas depois o vento contrário se intensifica, as ondas começam a golpeá-los de todos os lados e os viajantes pensam que estão cercados por uma tempestade violenta, então invocam Allah com devoção sincera, dizendo: ‘Se nos salvares deste perigo, certamente seremos Teus servos agradecidos.’ Mas, quando Ele os salva, são eles mesmos que se afastam da verdade e começam a espalhar a rebeldia pela terra.” (Versículos 22–23.) Isso foi expresso assim na Surata Bani Isra’il: “Quando uma aflição vos atinge no mar, desaparecem todos aqueles a quem invocais além d’Aquele Allah único; mas, quando Ele vos salva e vos conduz à terra firme, afastais-vos d’Ele.” (Versículo 67.) (Surata As-Saffat, nota 71)
A participação de deuses e deusas nos bens juntamente com Allah
Eles, os idólatras, reconheciam que a terra pertencia a Allah e que era Ele quem produzia as plantações. Também reconheciam que Allah era o Criador daqueles animais e que, durante a vida, deles recebiam serviços. Contudo, acreditavam que aqueles deuses e deusas, anjos, gênios, estrelas do céu e espíritos dos veneráveis falecidos lhes dirigiam olhares de benevolência e que, por sua intercessão e bênção, a graça de Allah lhes havia sido concedida. Por isso, separavam duas partes da produção de seus campos e de seus animais. Uma parte era dedicada a Allah, como expressão de gratidão por Ele lhes ter concedido aquelas plantações e aqueles animais. A segunda parte era destinada às oferendas aos deuses e deusas protetores de sua tribo ou família, para que sua benevolência continuasse a ser derramada sobre eles. (Surata Al-Ikhlas, nota 2)
Dar precedência aos ídolos sobre Allah
A parte dos bens que separavam em nome de Allah também era reduzida por meio de vários artifícios e subterfúgios. De todas as maneiras, procuravam aumentar a parte de seus parceiros que eles próprios haviam criado. Isso mostra que davam a esses parceiros mais importância do que davam a Allah. Por exemplo, se caísse alguma coisa dos cereais, frutos e semelhantes que eram separados em nome de Allah, ela era entregue à parte dos parceiros. E, se algo caísse da parte dos parceiros ou se misturasse à parte de Allah, era entregue à parte dos parceiros. Mas, no caso contrário, nada era acrescentado à parte de Allah. Se, por causa de uma seca, precisassem consumir as colheitas destinadas às oferendas votivas, comiam a colheita da parte de Allah. Porém, tinham medo de tocar na parte dos associados de Allah, receando que alguma calamidade pudesse ocorrer. Se, por qualquer motivo, faltasse algo na parte dos parceiros, isso era compensado com a parte de Allah. Mas, se faltasse algo na parte de Allah, não davam sequer um grão da parte dos associados. Quando alguém criticava esse tipo de comportamento, apresentavam várias desculpas enganosas para acalmar a consciência. Diziam, por exemplo: ‘Allah é rico; se algo faltar em Sua parte, isso não Lhe causará prejuízo algum. Mas estes pobres servos não são ricos como Allah. Por isso, se faltar ou sobrar alguma coisa, eles reclamarão.’
Para compreender o que estava na raiz dessas superstições, é preciso saber que a parte de seus bens que os árabes ignorantes separavam para Allah era gasta em auxílio aos pobres, necessitados, órfãos, viajantes e outros. Já a parte separada para as oferendas aos associados de Allah talvez fosse diretamente para o bolso dos líderes religiosos ou fosse oferecida aos santuários. Assim, indiretamente, acabava no estômago dos sacerdotes idólatras. Por isso, seus líderes religiosos interesseiros haviam gravado firmemente em suas mentes, por meio de séculos de ensinamentos religiosos, a ideia de que não havia problema se algo faltasse na parte de Allah, mas que não deveria faltar nada na parte dos favoritos de Allah; pelo contrário, seria melhor que houvesse algo a mais. (Surata Al-Ikhlas, nota 2)
Qual era a verdadeira perdição dos idólatras?
Embora os politeístas de Meca não negassem que todas as riquezas eram dádivas de Allah, e também reconhecessem a graça de Allah sobre essas riquezas, o erro que cometiam era que, juntamente com os agradecimentos a Allah por essas riquezas e bênçãos, também agradeciam, por palavras e ações, a muitas dessas entidades. Pois, sem qualquer argumento ou prova, consideravam-nas intervenientes e parceiras na concessão dessas bênçãos ou riquezas.
É a isso que o Alcorão se refere como negação da graça de Allah. O Alcorão apresentou como uma regra completa o princípio de que, se alguém demonstra ingratidão pela graça do benfeitor perante quem não é o benfeitor, então, na realidade, está sendo ingrato para com o verdadeiro benfeitor. Do mesmo modo, o Alcorão apresentou como um princípio que, se, sem qualquer argumento ou prova, se supõe a respeito do benfeitor ou do doador das riquezas que ele não concedeu essas dádivas por sua própria graça e benevolência, mas sim por intermédio de determinada pessoa, ou em honra de determinada pessoa, ou mediante a intercessão ou intervenção de determinada pessoa, isso também será, na realidade, uma negação de sua dádiva. (Surata Al-An’am, nota 105)
A concepção dos árabes sobre seus próprios deuses
Embora os árabes estivessem envolvidos no shirk e fossem extremamente fanáticos nesse assunto, a raiz de seu shirk estava limitada apenas à superfície e não havia alcançado a profundidade. Em nenhum lugar e em nenhum momento a raiz do shirk conseguiu penetrar profundamente na natureza humana. Pelo contrário, a grandeza da adoração exclusiva de Allah estava presente no mais íntimo de seu coração. Para despertá-la e fazê-la vibrar, era necessário apenas friccionar vigorosamente um pouco a superfície.
Vários acontecimentos da história da Jahiliyyah testemunham esses dois fatos. Por exemplo, durante o ataque de Abraha, todos os habitantes de Quraysh, jovens e idosos, homens e mulheres, sabiam que os ídolos guardados na Caaba não podiam impedir aquela calamidade; somente Allah podia proteger aquela Casa. Até hoje estão preservados os poemas e cânticos laudatórios que os poetas contemporâneos recitaram celebrando a destruição dos Companheiros do Elefante. Cada palavra deles testemunha que consideravam esse acontecimento uma manifestação extraordinária do poder de Allah. Não nutriam a menor ideia de que seus deuses tivessem qualquer participação nisso. Nesse acontecimento, também se revelou diante de Quraysh e de todos os politeístas a forma mais vil do shirk: quando Abraha chegou a Taife a caminho de Meca, os habitantes de Taife ficaram apavorados, temendo que ele talvez destruísse também o templo de seu deus Lat. Por isso, ofereceram seus serviços a Abraha para a destruição da Caaba e enviaram com ele sua própria guarda armada, para que pudesse conduzi-los com segurança até Meca pelas estradas montanhosas. A amarga experiência desse acontecimento continuou a atormentar os coraixitas por muito tempo, e durante vários anos eles atiraram pedras sobre o túmulo do homem que havia comandado a guarda de Taife.
Além disso, Quraysh e os demais árabes relacionavam sua religião ao Profeta Ibrahim (A.S.). Consideravam muitas de suas próprias práticas religiosas e sociais, especialmente os ritos do Hajj, como parte da religião de Ibrahim.
Eles também sabiam que o Profeta Ibrahim (A.S.) era um adorador exclusivo de Allah. Ele jamais adorou ídolos. Em suas tradições também estava registrado quando a adoração de ídolos se difundiu entre eles e quem trouxe cada ídolo, quando e de onde.
Pode-se ter uma ideia do grau de devoção e respeito que os árabes comuns tinham por seus deuses pelo fato de que, quando ocorria algo contrário às suas orações e desejos, muitas vezes também insultavam seus deuses e suspendiam suas oferendas. Um árabe queria vingar o assassinato de seu pai e foi até o deus Dhu al-Khalasa, onde lançou sortes para consultar o destino. A sorte que saiu dizia: “Não faças isso”. Então, enfurecido, começou a dizer(*****Árabe****)
Ó Zul-Khalasa, se estivesses no meu lugar e teu pai tivesse sido morto, jamais dirias esta mentira: “Não te vingues do opressor.”
Certa vez, um árabe levou seu rebanho de camelos a um templo chamado Sa’d, na esperança de obter alguma bênção. Mas o ídolo era comprido, largo e de aparência grotesca, e estava coberto de sangue de sacrifícios. Ao vê-lo, os camelos fugiram amedrontados em todas as direções. Furioso ao ver os camelos dispersarem-se assim, ele começou a atirar pedras contra o deus, dizendo: “Que Deus te destrua! Vim em busca de bênçãos, e tu expulsaste meus camelos?” (Ao observar a situação de diferentes ângulos, pode-se compreender facilmente que havia em seus corações um profundo respeito pela adoração de Allah. Porém, de um lado, seu conservadorismo decorrente da ignorância e, de outro, os sacerdotes dos ídolos dos coraixitas empenhavam-se em disseminar hostilidade contra a adoração de Allah. Temiam que, se terminasse a devoção e o respeito pelos deuses e deusas, sua posição central na Arábia chegasse ao fim. Além disso, seus meios de subsistência seriam interrompidos. A religião do politeísmo, estabelecida sobre esses apoios, não podia manter-se honrosamente diante do chamado ao monoteísmo. Por isso, o Alcorão, dirigindo-se aos politeístas, afirma que a principal razão pela qual os seguidores do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) alcançaram superioridade em sua sociedade é estarem livres do politeísmo e firmados na pura adoração de Allah. Sob esse aspecto, quer os politeístas reconhecessem verbalmente ou não a superioridade dos muçulmanos, sentiam sua importância em seus corações.) (Surata An-Nahl, nota 64)
Havia muitos deuses e deusas sobre os quais circulavam histórias repugnantes e obscenas. Os ídolos de Isaf e Na’ila estavam instalados sobre os dois montes de Safa e Marwa. Era famosa a história de que eles eram um homem e uma mulher que haviam cometido adultério dentro da Caaba. Por esse crime, Allah os transformara em pedra. Quando essa é a verdadeira identidade de determinados deuses e deusas, não pode haver lugar para devoção ou respeito por eles no coração dos adoradores. (Surata Al-An’am, nota 106)
A adoração dos ídolos dos predecessores virtuosos
Entre várias tribos árabes, como Rabia, Ghassan, Kalb, Taglib, Quda’a, Kinanah, Harith, Ka’b e Kinda, havia muitos judeus e cristãos. Ambas as religiões estavam envolvidas na veneração e nas festividades em honra dos profetas, santos e mártires. Além disso, embora não fossem a maioria, muitas das divindades dos politeístas árabes eram originalmente seres humanos. As gerações posteriores fizeram deles deuses. Está narrado em Al-Bukhari, segundo Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que Wadd, Suwa, Yaghuth, Ya’uq e Nasr eram nomes de homens virtuosos. As pessoas das gerações posteriores fizeram deles divindades adoradas. É narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que Isaf e Na’ila eram ambos seres humanos. Relatos semelhantes também são encontrados acerca de Lat, Manat e Uzza. Também foi narrada a crença dos politeístas de que Lat e Uzza eram tão queridos por Allah que, no inverno, Allah permanecia perto de Lat, e, no verão, junto de Uzza. Que Allah nos livre! Glorificado e Exaltado seja Ele, acima do que descrevem. (Surata Al-Furqan, nota 84)
A adoração dos habitantes dos túmulos
Na ayah 21 da Surata An-Nahl, as falsas divindades particularmente refutadas não são anjos, jinns, demônios nem ídolos feitos de madeira e pedra. Pelo contrário, são habitantes dos túmulos. Isso porque anjos e demônios são seres vivos. Para eles,(*****Árabe****)não podem ser empregadas, e não se pode sequer levantar a questão da ressurreição dos ídolos de madeira e pedra após a morte. Por isso,(***Árabe****)essas palavras também os excluem da consideração. Ora, nesta ayah,(***Árabe****)seu significado será necessariamente os profetas, santos, mártires, justos e outros muçulmanos extraordinários, aos quais grupos de devotos extremistas atribuem diversos títulos, como doadores, removedores das calamidades, ouvintes das súplicas, benfeitores dos pobres ou salvadores dos necessitados, Ganj Bakhsh e outros semelhantes, e a quem começam a dirigir pedidos e súplicas para satisfazer seus desejos. Se alguém responder que não existia na Arábia nenhuma divindade desse tipo, diremos que isso apenas prova sua ignorância quanto à história da época de ignorância da Arábia. (Surata Al-Furqan, nota 84)
A adoração das representações femininas dos anjos
Pode-se saber, a partir dos relatos originais, que entre os coraixitas, os Juhaina, os Banu Salama, os Khuzā’a, os Banu Mulāya e outras tribos da Arábia havia a crença de que os anjos eram filhas de Allah, exaltado seja. (A refutação dessas crenças oriundas da ignorância foi apresentada em diversos lugares do Alcorão. Veja, por exemplo, a Surata An-Nissā, versículo 117; An-Naml, versículos 57–58; Banī Isrā’īl, versículo 40; Az-Zukhruf, versículos 16–19; e An-Najm, versículos 21–27.) Eles consideravam os anjos divindades femininas, faziam estátuas deles em forma de mulher, vestiam-nas com roupas femininas e adornavam-nas com joias, dizendo: “Estas são todas filhas de Allah.” Adoravam-nas e faziam votos em seus nomes para que seus desejos fossem realizados.
Invocação do destino
Quando sua ignorância era contestada, eles invocavam o destino. Diziam: “Se Allah não aprovasse isso, como poderíamos adorar essas estátuas?”
Ora, o meio para conhecer aquilo de que Allah gosta ou não gosta são Seus Livros, e não as ações que ocorrem no mundo por Sua vontade. No mundo, não apenas a idolatria, mas também o roubo, o banditismo, o assassinato e o adultério ocorrem por Sua vontade. Será possível, com esse argumento, declarar permitido ou justo cada um desses atos maus que acontecem na Terra? O fato de uma ação ocorrer no mundo por vontade de Allah não significa que Allah esteja satisfeito com ela.
Seguimento cego dos antepassados
Quando lhes perguntavam se, além desse argumento equivocado, tinham algum outro argumento comprovado, respondiam: “Isso vem sendo transmitido por nossos pais e avós.” Ou seja, para eles, isso era prova suficiente da veracidade de qualquer religião. Entretanto, Ibrahim (que a paz esteja com ele), cuja descendência era motivo de todo orgulho e honra, abandonou a religião de seus pais e antepassados e saiu de casa. Ele rejeitou esse tipo de seguimento cego de seus antepassados, pois não havia qualquer prova ou evidência racional para isso. Se essas pessoas tinham de seguir seus antepassados, por que, em vez de seguir seus mais ilustres antepassados, o Profeta Ibrahim (que a paz esteja com ele) e o Profeta Ismail (que a paz esteja com ele), seguiram seus antepassados mais ignorantes?
A argumentação dos árabes idólatras a partir do desvio dos cristãos
Quando lhes perguntavam se algum profeta ou algum Livro enviado por Allah havia ensinado que alguém além de Allah era digno de adoração, eles apresentavam como prova as ações dos cristãos, dizendo: “Eles também aceitaram Isa ibn Maryam como filho de Allah e o adoram.” Contudo, a questão não era se os seguidores de algum profeta haviam cometido shirk. A questão era se algum profeta havia ensinado o shirk. Isa ibn Maryam alguma vez disse: “Eu sou filho de Allah, portanto adorai-me”? O ensinamento de todos os profetas do mundo era também o seu: “Meu Deus é Allah e vosso Deus também é Allah. Portanto, adorai somente a Ele.” (Surata An-Nahl, nota 19)
Tipos de deuses e deusas adorados pelos politeístas
As entidades às quais os politeístas de todo o mundo, e também os árabes, dirigiam suas súplicas além de Allah eram de três tipos. (Em outra obra, o autor expôs a questão de outra maneira, dizendo que nas religiões politeístas se encontram três coisas distintas. A primeira são os ídolos, imagens ou símbolos que se tornam objetos de adoração. A segunda são as pessoas ou entidades que são de fato consideradas divindades e que são representadas na forma de estátuas, imagens e semelhantes. A terceira são as ideias e crenças que governam esses atos de adoração e práticas politeístas. (Surata An-Nahl, nota 19.) Um: uma criação sem vida e sem conhecimento. Dois: os homens piedosos e veneráveis que já partiram deste mundo. Três: os indivíduos desviados que eram eles próprios desviados e também desviaram outros. É absolutamente evidente que as divindades ou deuses do primeiro tipo nada sabem das súplicas daqueles que os adoram. Quanto aos deuses do segundo tipo, isto é, aqueles que eram amados por Allah neste mundo, há duas razões para que também nada saibam. Uma é que eles se encontram junto de Allah em uma condição tal que nenhuma voz humana lhes transmite a notícia de que aqueles a quem ensinaram, durante toda a vida, a suplicar a Allah agora dirigem súplicas a eles próprios. Essa notícia não lhes é transmitida porque nada poderia ser mais doloroso para eles. E Allah Todo-Poderoso de modo algum deseja causar sofrimento às almas de Seus servos piedosos. Depois, ao refletirmos sobre os deuses do terceiro tipo, descobriremos que há também duas razões para que nada saibam. Uma é que estão presos como acusados na prisão de Deus, onde nenhuma voz do mundo chega. A segunda é que Allah e Seus anjos lhes transmitem a notícia de que sua missão no mundo está alcançando grande êxito e que, após sua morte, as pessoas os transformaram em deuses. Uma notícia desse tipo lhes seria muito agradável. Mas Allah Todo-Poderoso de modo algum deseja alegrar as almas dos injustos e pecadores. (Surata Az-Zukhruf, introdução.)
Aqueles anjos que, neste mundo, foram adorados como deuses e deusas, e aqueles gênios, espíritos, antepassados, profetas, santos e mártires aos quais, por serem considerados parceiros de Deus em Seus atributos, foram concedidos direitos que na realidade pertenciam a Deus, declararão claramente ali, na Outra Vida, aos que os adoravam: “Nós absolutamente não sabíamos que vocês nos adoravam. Nenhuma de suas súplicas, pedidos, apelos, gritos de aflição, votos e oferendas, louvores, recitações em nosso nome, prostrações, beijos em santuários ou adoração em mausoléus chegou até nós.” (Surata Al-A’raf, nota 148.)
Práticas da prostituição na Arábia
Na Arábia havia dois tipos de prostituição. Um era a prostituição doméstica (prostituição privada); o segundo era a prostituição em bordéis públicos. A prostituição doméstica era praticada principalmente por escravas libertas que não tinham tutor, ou por alguma mulher livre que não contava com o patrocínio de uma família ou tribo. Elas permaneciam em alguma casa para exercer essa profissão e faziam acordos com vários homens, segundo os quais eles as sustentariam e continuariam a atender às suas necessidades. Quando nascia um filho, o homem que a mulher declarava ser o pai da criança aceitava-o como seu filho. Era como uma instituição reconhecida na sociedade, que os habitantes da época da ignorância consideravam uma espécie de casamento. Abu Dawud
O segundo tipo, isto é, a prostituição propriamente dita, era praticado por todas as escravas. E dividia-se ainda em dois tipos. Um deles consistia em que os homens fixavam uma quantia para suas jovens escravas e lhes diziam que deveriam ganhar determinada soma todos os meses. As infelizes, praticando a prostituição repetidamente, satisfaziam as exigências de seus senhores. De que outra maneira poderiam ganhar uma quantia tão grande? Além disso, não havia para as jovens escravas outro meio de receber uma remuneração várias vezes maior que a remuneração comum.
O segundo consistia em que os homens instalavam suas jovens escravas em cubículos e penduravam bandeiras sobre as portas, de modo que, vistas de longe, já se podia compreender que era ali que os homens podiam satisfazer suas necessidades. Essas mulheres eram chamadas de Kalikiyat(***Árabe***) e seus cubículos eram chamados de Mawakhir(***Árabe***). Grandes hipócritas mantinham bordéis desse tipo. O próprio Abdullah ibn Ubayy, chefe dos hipócritas, possuía também um bordel desse tipo. No entanto, antes da chegada do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a Medina, os habitantes de Medina haviam decidido fazê-lo seu rei; e foi ele quem esteve à frente de todos na disseminação da falsa calúnia contra Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Em seu bordel havia seis belas escravas. Ele não apenas obtinha dinheiro por meio delas, mas também as fazia atender os hóspedes que chegavam de várias regiões da Arábia. Os filhos ilegítimos que nasciam delas eram usados para aumentar o número de servos e criados a seu serviço. (Surata Al-Ahqaf, nota 6.)
Adivinhação do destino nos templos dos ídolos
Os politeístas de Meca haviam designado o ídolo Hubal, situado no interior da Caaba, para a adivinhação. Consultava-se junto a ele o que estava escrito no destino, buscavam-se notícias do futuro ou resolviam-se disputas e conflitos mútuos. Em seu templo eram mantidas sete flechas, nas quais estavam gravadas diversas palavras e frases. Quando surgia a questão de realizar ou não alguma ação, a pessoa ia até o guardião das flechas de Hubal. O guardião determinava o destino por meio das flechas. Aquilo que estava escrito na flecha que saía era aceito como a decisão de Hubal. (Surata Yunus, nota 37)
Método de fazer nazr–niyaz
Era costume dos árabes fazerem votos a respeito de algum animal ou da produção de um campo, declarando que aquilo estava destinado ao niyaz de certo templo ou de certo ídolo. Nem todos podiam comer desse niyaz. Havia algumas regras para isso, com base nas quais diferentes tipos de nazr e niyaz só podiam ser consumidos por determinadas classes de pessoas. (Surata An-Nur, nota 59)
Alguns dos animais destinados aos votos e às oferendas dos árabes eram daqueles sobre os quais não era considerado permitido pronunciar o nome de Allah. Era proibido realizar o Hajj montado neles, pois, para o Hajj, era necessário recitar: “Labbayka Allahumma labbayk”. Assim, ao ordenhar esses animais, montar neles, abatê-los ou comer sua carne, tomavam-se precauções para que o nome de Allah não fosse pronunciado. (Surata Al-Ma’idah, nota 14)
A respeito dos animais destinados aos votos, os árabes também tinham uma norma de sua lei inventada: se nascesse uma cria no ventre daquele animal, somente os homens poderiam comê-la, sendo proibido às mulheres. Porém, se a cria nascesse morta ou morresse depois, era permitido que todos, homens e mulheres sem distinção, a comessem. (Surata Al-An’am, nota 111)
Soltar animais doados em nome da religião
Na época da Jahiliyyah, os árabes soltavam animais de várias maneiras em nome da religião. Aos animais soltos dessa forma eram dados nomes diferentes.
Chamavam-se bahira as camelas que haviam parido cinco vezes e, na última vez, haviam dado à luz uma cria macho. Fazia-se um corte em sua orelha e ela era solta livremente. Depois disso, ninguém podia montar em seu dorso; não se podia beber seu leite, abatê-la nem retirar sua lã. Ela podia pastar livremente onde quisesse e beber água de onde quisesse.
Chamavam-se sa’iba os camelos ou camelas que eram libertados como forma de agradecimento após o cumprimento de um voto, a cura de uma doença ou o fim de uma calamidade. Além disso, a camela que tivesse dado à luz dez vezes, sempre filhotes fêmeas, também era libertada.
Wasila: se o primeiro filhote de uma cabra fosse macho, ele era abatido em nome de Allah. Se fosse fêmea na primeira vez, era mantida para si. Porém, quando do ventre da cabra nasciam simultaneamente um macho e uma fêmea, o macho não era abatido, mas libertado em nome de Allah. Seu nome era wasila.
Ham: se o neto de um camelo se tornasse apto para ser montado, o camelo velho era libertado. Além disso, o camelo que gerasse dez filhotes também era libertado (Sura al-An’am, nota 112).
O Hajj dos árabes na época da Jahiliyyah
Em suma, entre os costumes de culto supersticioso praticados na Arábia havia o seguinte: quando alguém vestia o ihram para o Hajj, ao chegar à sua casa não entrava pela porta. Em vez disso, escalava o muro pelos fundos ou fazia um buraco nele e entrava por ali. Além disso, mesmo depois de retornar de uma viagem, entrava em casa escalando o muro pelos fundos ou fazendo um buraco no muro; também entrava pela porta traseira. (Sura al-An’am, nota 114) Os antigos árabes também mantinham a concepção, baseada na ignorância, de que era censurável fazer qualquer coisa para ganhar o sustento durante o Hajj. Pois, para eles, ganhar o sustento era uma atividade mundana, e fazê-lo durante um ato religioso como o Hajj era muito condenável. (Sura al-Ma’idah, nota 118) Depois do Hajj, os árabes se reuniam, e nessas assembleias narravam com orgulho os feitos de seus antepassados e divulgavam sua própria vanglória e arrogância. (Sura al-Baqarah, nota 199)
Adivinhação de presságios favoráveis e desfavoráveis a partir de fenômenos naturais
O crescimento e o declínio da Lua são um fenômeno que, em todas as épocas, atraiu a atenção das pessoas; a respeito dele, diversos tipos de superstições, concepções, crenças e costumes eram e ainda são difundidos entre os povos do mundo. Esse tipo de superstição também era difundido entre os árabes. Eles extraíam da Lua presságios favoráveis ou desfavoráveis; determinavam certas datas para viajar e outras para iniciar trabalhos; consideravam certas datas favoráveis ou desfavoráveis para casamentos; e acreditavam que o nascer e o pôr da Lua, seu crescimento e declínio, seu movimento e os planetas, entre outras coisas, influenciavam o destino das pessoas. Tais concepções e crenças também existiam entre os árabes, assim como entre os demais povos. Entre eles eram praticados diversos ritos e métodos supersticiosos a esse respeito. (Sura al-Baqarah, nota 221)
Superstições a respeito dos jinn
Hazrat Ibn Abbas relata que, na época da Jahiliyyah, quando um árabe passava a noite em algum lugar desolado e desabitado, gritava: “Buscamos refúgio no senhor deste lugar (um jinn).” Isso também é mencionado em outras narrativas sobre a época da Jahiliyyah. Por exemplo, quando a água e o alimento para os animais acabavam em algum lugar, os beduínos nômades enviavam um deles a outro local em busca de água e pastagem para os animais. Depois, quando chegavam ao novo lugar indicado por essa pessoa, antes mesmo de desmontarem de suas montarias, gritavam: “Buscamos a proteção do senhor deste lugar, para que possamos permanecer aqui a salvo de todos os perigos.” Eles acreditavam que todo lugar onde não houvesse presença humana pertencia a algum jinn e que, se alguém permanecesse ali sem buscar sua proteção, ele próprio causaria perturbações ou permitiria que outros jinn causassem perturbações. (Surata An-Nisá, nota 88)
Poligamia
Na época da Jahiliyyah, não havia limite para o número de casamentos. Cada homem mantinha dez ou doze esposas. Quando as despesas aumentavam por causa do grande número de esposas, acabavam, por necessidade, usurpando os direitos dos sobrinhos órfãos, das sobrinhas e de outros parentes necessitados. (Surata Al-Baqarah, nota 198) Chegavam até mesmo a casar-se com suas madrastas. (Surata Al-Jinn, nota 7).
Tratamento das mulheres menstruadas
Como os habitantes de Medina eram influenciados pelos judeus, em sua sociedade as mulheres eram consideradas impuras durante a menstruação, assim como entre os judeus. Não se podia comer a comida preparada por suas mãos nem beber água servida por elas. Não se podia sentar na mesma cama que elas. Até tocar suas mãos era considerado algo ruim. Durante esses dias, a mulher permanecia intocável dentro de sua própria casa. (Surata An-Nisá, nota 4)
O costume de divorciar repetidamente
Na época da Jahiliyyah na Arábia, havia uma grande injustiça social: o homem tinha o direito de divorciar-se repetidamente de sua esposa. Quando um homem ficava insatisfeito com sua esposa, divorciava-se dela repetidas vezes e depois a aceitava novamente. Como resultado, a desventurada não podia viver com o marido nem se libertar de seu vínculo para casar-se com outro homem. (Surata An-Nisá, nota 88)
Abusos contra os órfãos
Na época da ignorância, os homens casavam-se com as meninas órfãs que viviam sob a proteção de outros, observando sua riqueza e beleza ou pensando que, por não terem nenhum tutor, poderiam subjugá-las à vontade; e as oprimiam. (Surata An-Nissá, nota 49)
Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) explica que eles cometiam diversos tipos de injustiça contra as meninas órfãs que viviam sob a proteção deles e possuíam os bens deixados por seus pais. Se a menina, além de rica, fosse também bonita, eles próprios desejavam casar-se com ela e desfrutar tanto de sua riqueza quanto de sua beleza. Mas, se fosse feia, não se casavam com ela nem permitiam que outros se casassem, para que ninguém pudesse assumir o papel de seu tutor e reivindicar seus direitos. (Surata Al-Bácara, nota 250)
Como as meninas órfãs eram tratadas?
Um acontecimento extraordinário relacionado a isso foi narrado pelo cádi Abu’l Hasan al-Mawardi em sua obra Alamun Nabuwat. Ele conta que Abu Jahl era o tutor de uma menina órfã. Certo dia, a menina foi até ele em estado de nudez e pediu que lhe fosse entregue uma parte dos bens deixados por seu pai. Mas o tirano Abu Jahl nem sequer olhou para ela. A pobre menina, então, voltou desiludida, depois de permanecer algum tempo de pé. Os líderes dos coraixitas zombaram dela e disseram: “Vá queixar-se a Muhammad (que a paz esteja com ele). Ele intercederá junto a Abu Jahl e fará com que você receba seus bens.” A pobre menina não sabia qual era a relação entre Abu Jahl e o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), nem com que intenção aqueles malfeitores lhe davam tal conselho. Ela foi diretamente até o Honorável (que a paz esteja com ele) e contou-lhe toda a sua situação. O Profeta (que a paz esteja com ele) levantou-se imediatamente e, levando-a consigo, foi até Abu Jahl, seu pior inimigo. Ao vê-lo, Abu Jahl recebeu-o respeitosamente. Então, quando o Profeta (que a paz esteja com ele) lhe pediu que entregasse à menina órfã o que lhe era de direito, ele imediatamente lhe deu os bens da órfã. Os líderes dos coraixitas esperavam essa oportunidade para divertir-se observando o que aconteceria entre os dois. Porém, quando viram aquilo, aproximaram-se atônitos de Abu Jahl e o censuraram, dizendo: “Você abandonou a sua religião?” Abu Jahl respondeu: “Por Allah, não abandonei a minha religião. Mas parecia-me que Muhammad (que a paz esteja com ele) tinha uma arma à sua direita e outra à sua esquerda, e que, se eu não obedecesse às suas palavras, essas armas penetrariam no meu corpo.” (Surata An-Nissá, nota 4) Esse acontecimento não permite saber apenas como, naquela época, os líderes da tribo mais desenvolvida e nobre da Arábia tratavam os órfãos e outras pessoas desamparadas; ele também mostra quão grandioso era o caráter do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) e quanto temor esse caráter inspirava no coração de seu mais ferrenho inimigo. Outro acontecimento semelhante foi mencionado em Tafhimul Qur’an, volume III, página 146.390)
Métodos de matar os filhos
Entre os árabes, eram praticados três métodos de matar os filhos.
1. Se a filha permanecesse viva, alguém acabaria tornando-se seu genro; numa luta tribal, ela poderia cair nas mãos do inimigo ou, de alguma outra forma, tornar-se motivo de vergonha. Dominados por essa ideia, matavam as filhas.
2. Para não terem de assumir a responsabilidade pelo sustento, matavam os filhos com a ideia de que, devido aos baixos rendimentos, eles se tornariam um fardo insuportável.
3. Sacrificavam-se os filhos para obter a satisfação dos deuses e deusas. (Alcorão, Al-Ma’un, nota 5)
Privação das mulheres e das crianças da herança
Na Arábia, as mulheres e as crianças eram privadas da herança, e a concepção das pessoas a esse respeito era que os únicos dignos de receber herança eram os homens capazes de lutar e de sustentar a família. Além disso, entre os herdeiros do falecido, o mais forte reunia e usurpava toda a herança sem qualquer impedimento, privando aqueles que não tinham força para reivindicar sua parte. Para eles, não havia qualquer importância nos direitos e nas responsabilidades, de modo que pudessem, com honestidade e considerando isso um dever, garantir os direitos daqueles que tivessem ou não força para obter o que lhes cabia. (Alcorão, Al-Ma’un, nota 5)
Um costume relativo à herança
Entre os árabes, havia o costume de que aqueles que celebravam um pacto de amizade ou de irmandade se tornavam herdeiros dos bens uns dos outros. Da mesma forma, os filhos adotivos, ou aqueles a quem se chamava de filhos, também recebiam herança. (Alcorão, Al-An’am, nota 107)
Enterro das meninas vivas
Na Arábia, o cruel costume de enterrar vivas as meninas existia desde os tempos antigos por diversas razões. A primeira era a dificuldade financeira; por isso, as pessoas queriam reduzir o número de bocas a alimentar e não assumir o pesado encargo de criar muitos filhos. Criavam-se os meninos na esperança de que, mais tarde, ajudariam a obter o sustento. Já as meninas eram mortas porque teriam de ser criadas até chegarem à idade adulta. A segunda razão era a insegurança, pela qual se criavam os meninos, pois quanto mais filhos um homem tivesse, mais ajudantes teria. Em contrapartida, as meninas eram mortas porque, durante as lutas tribais, seria necessário protegê-las. Elas não serviam para nada na defesa. Em terceiro lugar, em meio à insegurança geral, havia o temor de que, quando as tribos inimigas atacassem umas às outras de surpresa, as mulheres capturadas fossem levadas para ser escravas ou vendidas a alguém em algum lugar. Por essas razões, difundiu-se na Arábia o costume de cavar um buraco diante da mulher justamente durante as dores do parto, para que, caso nascesse uma menina, ela fosse lançada nele e coberta de terra. Se a mãe não consentisse, ou se os familiares dela interviessem, o pai, ainda que contra a vontade, criava a menina por alguns dias. Depois, em algum momento, levava-a para o campo e enterrava-a viva. Sobre a perversidade praticada nesse assunto, um homem contou ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) um acontecimento de sua época de Jahiliyyah. Ele disse: “Eu tinha uma filha que era muito apegada a mim. Quando eu a chamava, ela vinha correndo até mim. Certo dia, chamei-a e parti com ela. No caminho, encontrei um poço; segurei-a pela mão, empurrei-a e lancei-a dentro dele. As últimas palavras que ouvi foram: ‘Ai, papai! Ai, papai!’” Ao ouvir isso, o Profeta chorou, e as lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Um dos presentes disse: “Ó homem, você fez o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sofrer?” O Profeta disse: “Não o impeçam; deixem-no ser questionado sobre aquilo que lhe causa um sentimento tão profundo.” Então disse-lhe: “Conte o seu acontecimento.” Ele contou novamente sua história. Dessa vez, o Profeta da misericórdia (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chorou tanto que sua barba abençoada ficou encharcada de lágrimas. Depois disse: “Allah perdoou tudo o que aconteceu na época da Jahiliyyah. Comece agora sua vida novamente.” (Sunan al-Darimi, primeiro capítulo)
Não se deve pensar que os árabes não sentiam absolutamente nada diante de uma crueldade tão extrema e desumana. É verdade que, por mais decadente que seja uma sociedade, as pessoas não podem tornar-se insensíveis a atos de opressão desse tipo. Por isso, o Alcorão Sagrado não descreveu em detalhes a crueldade dessa prática. Mas, numa linguagem que faz arrepiar o corpo, limitou-se a dizer que chegará um dia em que se perguntará às meninas enterradas vivas por que foram mortas. (E quando se perguntar às meninas enterradas vivas por que foram mortas — Alcorão, At-Takwir: 8–9.) O modo de expressão desse versículo manifesta uma ira tão intensa que é impossível imaginar algo maior. Aos olhos de Allah, os pais que enterraram vivas as próprias filhas são tão abomináveis que não lhes será perguntado diretamente: “Por que vocês mataram essas crianças inocentes?” Em vez disso, desviando-se o olhar deles, perguntar-se-á à criança inocente: “Ó grupo de desafortunadas, por que fostes mortas?” Então elas contarão sua história horripilante: quanto os pais opressores as maltrataram e como as enterraram vivas. Além disso, esse breve versículo contém duas grandes questões que, embora não sejam expressas em palavras, podem ser compreendidas pelo modo como foi formulado. A primeira é que se despertou entre os árabes a consciência de que a Jahiliyyah os havia levado ao extremo da decadência moral: eles matavam os próprios filhos, enterrando-os vivos com as próprias mãos. Ainda assim, permaneciam obstinados, decididos a continuar firmes em sua Jahiliyyah e absolutamente relutantes em aceitar aquela reforma, ou em permitir que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a realizasse em sua sociedade desviada e decadente. A segunda é que isso apresenta uma prova clara da inevitabilidade da Vida Futura. As crianças que foram mortas por terem sido enterradas vivas deveriam, de algum modo, obter reparação, e deveria chegar um momento em que os opressores que cometeram semelhante crueldade fossem questionados. Não havia ninguém no mundo para ouvir o clamor das crianças enterradas vivas. Na sociedade da Jahiliyyah, essa prática havia sido completamente legalizada. Nem os pais sentiam vergonha por isso, nem havia na família alguém que os repreendesse. Tampouco havia na sociedade alguém que os responsabilizasse por tal ato. Então, no reino de Deus, essa opressão permaneceria sem reparação? (Alcorão, An-Nisa, nota 55)
Também se pode saber, pela história da Arábia, que mesmo na época da Jahiliyyah muitos sentiam repulsa por esse costume cruel. At-Tabarani relata que Farazdaq Kabir, Sasaya ibn Najati al-Mujashi’i, compareceu perante o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Na época da Jahiliyyah também pratiquei algumas boas ações. Uma delas foi ter salvado 360 meninas de serem enterradas vivas. Para salvar a vida de cada uma, dei dois camelos como resgate. Receberei alguma recompensa por isso?” O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Certamente receberás uma recompensa por isso, e ela é que Allah, o Altíssimo, te concedeu a bênção do Islam.”
Vingança pelo assassinato
Na época da Jahiliyyah, era costume que, quando alguém de um grupo ou tribo era morto, seu povo exigisse da família, tribo ou grupo do assassino um sangue de valor equivalente ao que atribuíam à vida do morto. Eles não se contentavam simplesmente em matar o assassino para vingar o morto. Estavam dispostos a tirar centenas de vidas em troca da vida de uma só pessoa. Se alguém de posição elevada fosse morto por uma pessoa de posição inferior de outro grupo, não consideravam suficiente matar o verdadeiro assassino. Pelo contrário, desejavam que alguém de posição elevada da tribo do assassino fosse morto, ou que várias pessoas do grupo adversário fossem mortas em troca do morto. Por outro lado, se, segundo a sua avaliação, o morto fosse uma pessoa de posição inferior e o assassino fosse mais respeitado, de modo algum toleravam que o assassino fosse morto em troca do morto. (Surata At-Tanwir, nota 9)
A concepção de vestimenta e a nudez
Os árabes usavam roupas apenas para proteger o corpo dos efeitos da beleza e do clima. Porém, não davam qualquer importância ao seu objetivo fundamental: cobrir as partes íntimas do corpo. Não sentiam medo nem vergonha de expor as suas partes íntimas diante dos outros. Banhar-se nu em lugares públicos, sentar-se à beira do caminho para urinar ou defecar e não se importar quando, ao tirar a roupa, as partes íntimas ficavam descobertas eram práticas comuns do dia a dia. O mais vergonhoso é que, durante o Hajj, a maioria deles circundava a Caaba nua, realizando o tawaf, e as suas mulheres eram ainda mais despudoradas do que eles nesse aspecto. Na visão deles, isso era um ato religioso, e praticavam essas coisas acreditando que eram boas ações. (Surata At-Tanwir, nota 9)
Insegurança e anarquia em toda a Arábia
A insegurança prevalecia por toda a Arábia, fazendo com que o terror se espalhasse por todo o país; por todos os lados ocorriam assassinatos e pilhagens. As tribos lançavam ataques repentinos umas contra as outras. Ninguém podia passar a noite em segurança, pois todos temiam que, a qualquer momento, o inimigo atacasse o seu povoado. Era uma situação da qual todos tinham conhecimento e cuja gravidade todos sentiam. Embora aqueles cujos bens haviam sido saqueados lamentassem e os saqueadores se alegrassem, quando chegava a vez de o saqueador sofrer o infortúnio, ele também percebia que se tratava de um ato abominável no qual eles estavam envolvidos. (Surata Al-Baqara, nota 177)
Era costume dos árabes que, quando pretendiam atacar um povoado, avançassem na escuridão da noite, para que o inimigo não ficasse alerta, e se lançassem repentinamente sobre ele ao amanhecer, de modo que pudessem enxergar tudo à luz da aurora, sem que a luz do dia estivesse ainda tão forte a ponto de permitir ao inimigo observar os seus movimentos, preparar-se e enfrentá-los. (Surata Al-A’raf, nota 15)
A situação da Arábia naquela época era tal que não havia em todo o país nenhum povoado cujos habitantes pudessem viver em paz. Pois estavam constantemente aterrorizados, temendo que algum grupo de saqueadores lançasse de repente um ataque. Não havia pessoa alguma que pudesse sair dos limites de sua tribo, pois era praticamente impossível que uma ou duas pessoas retornassem vivas e escapassem de ser capturadas e escravizadas. Não havia caravana que pudesse viajar em segurança, pois havia o risco de serem assaltados em vários pontos do caminho. Contudo, pagando subornos aos influentes chefes tribais ao longo de todo o percurso, as caravanas conseguiam atravessá-lo em segurança. (Surata Al-Adiyat, introdução)
Algumas outras religiões dos árabes
Hanifas
Embora as pessoas da época da Jahiliyyah não possuíssem um conhecimento detalhado sobre a religião, não lhes era desconhecido que a verdadeira religião era o tawhid e que os profetas, que a paz esteja sobre eles, jamais ensinaram a adoração de ídolos. As informações que haviam chegado aos árabes por meio dos profetas de sua própria terra preservavam essa verdade. Eles também tinham conhecimento dela através dos ensinamentos de profetas que haviam surgido nas terras vizinhas, como Moisés, Davi, Salomão e Jesus, que a paz esteja sobre eles.
Era muito conhecida na tradição árabe a ideia de que, nos tempos antigos, a verdadeira religião dos árabes era a religião de Ibrahim, e que a adoração de ídolos havia sido iniciada entre eles por um homem chamado Amr ibn Luhay. Apesar da ampla disseminação do shirk e da idolatria, havia em vários lugares pessoas que rejeitavam o shirk, proclamavam o tawhid e condenavam publicamente a adoração de ídolos. Pouco antes da época do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia muitas pessoas sobre as quais a história informa que eram hanifas. Entre elas destacavam-se Quss ibn Sa’idah al-Iyadi, Umayyah ibn Abi al-Salt, Suwaid ibn Amr al-Mustaliki, Waki ibn Salam ibn Zuhayr al-Iyadi, Amr ibn Jundub al-Juhani, Abu Qays Salamah ibn Abi Anas, Zayd ibn Amr ibn Amr ibn Jundub al-Juhani, Abu Qays Salamah ibn Abi Anas, Zayd ibn Amr ibn Amr ibn Nufayl, Waraqah ibn Nawfal, Uthman ibn al-Huwayrith, Ubaydullah ibn Jahsh, Amir ibn al-Azwarb al-Adwani, Allaf ibn Shihab al-Tamimi, al-Mutalammis ibn Umayyah al-Kinani, Zuhayr ibn Abi Sulma, Khalid ibn Sinan ibn Qays al-Absi, Abdullah al-Qudai e muitos outros. Essas pessoas declaravam publicamente que o tawhid era a verdadeira religião e afirmavam claramente que não tinham nenhuma relação com a religião dos idólatras. É certo que essa convicção se formara em seus corações sob a influência dos ensinamentos dos profetas. Além disso, pelas inscrições encontradas no Iêmen em consequência de pesquisas arqueológicas realizadas nos séculos IV e V da era cristã, sabe-se que naquela época existia ali uma religião monoteísta, cujos seguidores reconheciam somente Ar-Rahman e o Senhor dos céus e da terra como o único Deus. Uma inscrição datada de 378 foi encontrada nas ruínas de um santuário, na qual se lia que esse santuário havia sido construído para a adoração do Deus ou Senhor dos céus. Numa inscrição de 465 estavam escritas as palavras que constituíam uma prova da crença monoteísta. Outra inscrição dessa época foi encontrada em um túmulo, na qual estavam escritas as(***Árabe***)palavras. Do mesmo modo, em Zabad, local situado no norte da Arábia, entre os rios Eufrates e Qinnasrin, foi encontrada uma inscrição datada de 512, na qual estavam escritas as(****Árabe*****)palavras. Tudo isso prova que, antes da chegada do Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a influência dos ensinamentos dos profetas não havia desaparecido completamente do território árabe. Havia, no mínimo, muitos meios de recordar-lhes que o seu Deus era apenas um. (Surata Al-Adiyat, nota 3)
Os monoteístas que se encontravam entre os árabes abstinham-se de três pecados aos quais a maioria dos árabes estava entregue: associar parceiros a Allah, matar injustamente e cometer adultério. (O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mencionou isso em muitos hadiths. Por exemplo, Abdullah ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que certa vez perguntaram ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Qual é o maior pecado?” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:(*****Árabe****)isto é: que tomes alguém como rival de Allah, embora Allah tenha criado a ti. Perguntaram: “E depois?” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:(****Árabe*****)que mates teu filho por medo de que ele compartilhe contigo o alimento. Depois perguntaram: “E depois?” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:(****Árabe****)isto é: que cometas adultério com a esposa do teu vizinho. (Bukhari, Muslim, Tirmidhi, Nasa’i, Ahmad.) Embora existam muitos outros pecados maiores, esses três eram os mais predominantes na sociedade árabe daquele período. Por isso, foi destacada como característica dos muçulmanos a existência, em meio à sociedade inteira, de algumas pessoas que se abstinham desses pecados. (Surata Quraysh, nota 5)
Sabeus
Antigamente, eram conhecidas duas categorias sob o nome de sabeus. Uma delas era formada pelos seguidores de Yahya, que a paz esteja sobre ele, muitos dos quais viviam na Jazira, região setentrional do Iraque. Seguindo Yahya, que a paz esteja sobre ele, praticavam a iniciação religiosa (batismo). A segunda categoria adorava as estrelas. Diziam que sua religião provinha de Seth e Idris, que a paz esteja sobre eles. Acreditavam que os planetas e satélites governavam os elementos, e que os anjos governavam os planetas e satélites; Harwan era seu centro. Seus ramos espalhavam-se por várias regiões do Iraque. Essa segunda categoria tornou-se mais famosa devido ao grande desenvolvimento de sua filosofia, ciência e medicina; muito provavelmente, porém, é à primeira categoria que se faz referência aqui, pois a segunda provavelmente ainda não era conhecida por esse nome no período da revelação do Alcorão. (Sobre isso, Mahmud Shukri Alusi reuniu as seguintes informações: os sabeus eram uma das melhores comunidades. Quanto mais as pessoas sabem sobre sua religião, mais divergem a respeito dela. Dividiam-se em dois grupos: crentes e descrentes. Eram o povo de Ibrahim al-Khalil, que a paz esteja sobre ele. Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, havia sido enviado a eles. Seu local de residência era Harwan, onde também ficavam as casas dos sabeus. Dividiam-se em dois grupos: um estabelecido sobre a religião hanif e outro idólatra. Os idólatras reverenciavam sete astros e doze grandes personalidades, mantendo suas imagens em seus templos. Possuíam templos específicos para cada um desses astros. Esses eram seus maiores locais de adoração, como as igrejas dos cristãos e as sinagogas dos judeus. Eles construíram um grande templo para o Sol, um para a Lua, um para Vênus, um para Júpiter, um para Mercúrio, um para Mercúrio, um para Marte, um para Saturno e outro também para a causa primordial. Para cada astro tinham ritos de adoração e súplicas específicos. Assim como os muçulmanos, também realizavam cinco orações por dia.)
Alguns dentre eles também jejuavam no mês de Ramadan. Também realizavam a oração voltados para a Caaba. Tinham respeito por Meca e acreditavam em viajar para Meca para realizar o hajj. Consideravam carniça, sangue e carne de porco haram. No que dizia respeito ao casamento, também consideravam proibidas aquelas mulheres que os muçulmanos consideravam proibidas. Um grupo do conselho real de Bagdá pertencia a essa religião. Um deles, chamado Bilal ibn al-Muhsin al-Sabi, era habilidoso em escrever ensaios e poemas e era editor de um famoso jornal militar. Ele jejuava com os muçulmanos, adorava com eles, pagava o zakat e considerava haram aquilo que era haram. Acredita-se que a essência de sua religião consistia em adotar os aspectos bons das religiões existentes no mundo e manter-se afastado dos aspectos maus. Por isso eram chamados de sabeus, ou kharij, isto é, aqueles que saíram. Abandonavam o conjunto das práticas e normas de cada religião e seguiam apenas aquilo que consideravam correto.
Os coraixitas incrédulos chamavam o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) de sabeu e seus companheiros de subat. Quando alguém saía de um grupo e passava para outro, usava-se este provérbio: (****Árabe***)Extraído da tradução para o urdu de Bulugh al-Adab — compilado pelos dois compiladores — (Surata As-Sajdah, nota 5).
Majus
Como os povos, além dos judeus e dos cristãos, aos quais foram enviados Livros celestiais haviam apagado ou distorcido seus livros, e nada dos ensinamentos dos profetas podia ser encontrado em suas crenças e práticas, não se podia chamá-los de Povo do Livro. Por essa razão, os majus não foram chamados de Povo do Livro. No entanto, eles seguiam Zoroastro, a respeito de quem se pode suspeitar que fosse um profeta. A respeito dos majus de Hajar, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) disse: (****Árabe****)Tratai-os como ao Povo do Livro. Ele não disse que eles eram Povo do Livro. Depois, quando escreveu aos majus de Hajar, deixou isto explícito em sua carta:( ****Árabe*****)Se aceitardes o Islã, tereis os mesmos direitos que nós temos, e sobre vós serão impostas as mesmas obrigações indispensáveis que recaem sobre nós. Quanto aos que, dentre vós, recusarem, será imposta a jizya. Contudo, não se poderá comer nada do que for abatido por eles, nem será permitido casar-se com suas mulheres.
Os adoradores do fogo do Irã (A respeito dos adoradores do fogo entre os árabes, Mahmud Shukri al-Alusi diz: Entre os árabes havia vários tipos de pessoas assim. Parece que essa religião penetrou entre eles por meio dos iranianos e dos majus. Diz-se que ela existe no mundo desde a época dos adoradores do fogo. Caim foi a primeira pessoa a construir um templo para a adoração do fogo e a adorá-lo. Depois, essa religião encontrou lugar entre os majus. Eles construíram muitos templos para a adoração do fogo e estabeleceram para eles dotações, guardiões, vigias e outros serviços semelhantes. Não permitiam que esse fogo fosse apagado nem por um instante. Os Fariditas ergueram um templo do fogo e construíram outro em Bucara. Bahman construiu um em Sijistão, e Abu Qatadah construiu um ao lado de Bucara.)
Há vários tipos de adoradores do fogo. Um grupo dentre eles considera haram lançar qualquer ser vivo ao fogo e queimar o corpo por meio dele. Há outro grupo que leva a adoração do fogo a tal extremo que oferece a si mesmo e aos próprios filhos em sacrifício ao fogo.
Entre os adoradores do fogo, há também alguns que são religiosos. Sentam-se junto ao fogo em jejum e fazem chilla. Seu costume é incentivar a veracidade, a lealdade, a honestidade, a castidade e a justiça.
Ibn Qutaybah diz, na obra Kitab al-Ma’arif, que os costumes da religião majus existiam entre os Banu Tamim. Zurara ibn Udas al-Tamimi e seu filho Hajib ibn Zurara faziam parte deles. Ele havia se casado com sua filha, mas depois se arrependeu. Um deles, Aqra ibn Habis, posteriormente aceitou o Islã e juntou-se aos Companheiros. Abu al-Aswad, avô de Waki ibn Hassan, também era majus — extraído da tradução de Bulugh al-Adab, volume 3, pp. 138–141.) Dois deuses na luz e nas trevas (Acreditamos que várias ramificações dos majus e suas formas chegaram à Arábia. Entre os árabes, foi escrito um capítulo intitulado «Os dois deuses do grupo zoroastrista e a crença na luz e nas trevas», cujo conteúdo é o seguinte:)
Essas pessoas diziam que havia dois criadores. O criador do bem era a luz, ou Nur, e o criador do mal era a escuridão. Eles eram sem princípio e eternos, poderosos, sensíveis e dotados de percepção sensorial, ouvindo e vendo.
Algumas pessoas acreditavam que Deus, depois de permanecer sozinho por algum tempo, ficou entediado, e maus pensamentos surgiram em Sua mente — Deus nos livre —, então assumiu uma forma corpórea e caiu na escuridão; e dela surgiu Iblis. — Extraído da tradução de Bulugh al-Adab, volume 3, pp. 130–131 — compiladores. Manat. Eles se consideravam seguidores de Zoroastro. Sua religião e moralidade foram corrompidas pela heresia da comunidade de Mazdak. Chegou-se até mesmo a estabelecer entre eles o costume de casar-se com a própria irmã.
Ateísmo
A essência do ateísmo
Aqueles que veem apenas a superfície das coisas são levados pela vida terrena a muitas ilusões. Alguns pensam que a vida e a morte estão limitadas apenas a este mundo e que não haverá uma segunda vida. Portanto, faça aqui mesmo tudo o que tiver de fazer. (Tafhimat, volume 2, pp. 322–323).
Algumas pessoas de modo algum admitem que Allah, o Altíssimo, seja o Criador de todas essas coisas. Tudo isso seria resultado do movimento da matéria, ou fruto de um acidente no qual não haveria a intervenção de nenhum artífice nem de qualquer habilidade artística. (É importante observar que o Alcorão também apresenta uma breve descrição dos ateus e refuta o erro de sua doutrina. Isso significa que esse grupo também existia na Arábia, embora em número muito reduzido. Foi com base nisso que Maulana Maududi apresentou uma breve discussão sobre esse grupo. Sobre os ateus árabes, Allama Mahmud Ali discutiu o seguinte comentário. Sobre os ateus árabes, Allama Shukri Alusi fez o seguinte comentário: na Arábia havia uma classe de ateus que considerava a obra completamente separada do artífice. Sua afirmação, conforme mencionada no Alcorão, era esta:(Árabe******)isto é, a vida é apenas a vida deste mundo. (Nascemos e morremos), e nada além do tempo, ou do ciclo do tempo, nos destrói.
Entre suas duas correntes, a doutrina considerada mais aceitável foi descrita da seguinte maneira:
Na realidade, não há absolutamente nenhuma origem ou princípio. Tudo simplesmente se dirige da energia para a ação. Assim, quando a matéria que inicialmente possui energia se manifesta em direção à ação, sua composição e suas propriedades surgem espontaneamente; não são criadas a partir de outra coisa. Além disso, eles dizem que o universo existe desde o princípio dos tempos e continuará assim eternamente. Não haverá nele nenhuma mudança, nem será destruído, apesar de estar em atividade.
No livro Al-Milal wa an-Nihal, de Shah Rastani, é discutido o tema dos ateus, e o resumo dessa discussão é o seguinte:
Eles negam a ressurreição da criação. Dizem que a natureza (Nature) dá a vida e o tempo destrói. — Extraído da tradução urdu de Bulughul Adab — compiladores
Refutação do ateísmo juntamente com o shirk
A esse respeito, consulte a surata An-Naml, versículo 60. Foi dito: «Quem é Aquele que criou os céus e a terra e fez descer para vós água do céu, mediante a qual fizemos brotar belos jardins, cujas árvores não vos era possível fazer brotar? Há, junto com Allah, algum outro deus associado a Ele nessas obras?» (Não há.) Pelo contrário, essas pessoas estão se desviando do caminho verdadeiro. — Tafhimul Quran
Nessas perguntas e nas que se seguem, não se refuta apenas o shirk dos idólatras; refuta-se também o ateísmo. Por exemplo, nesta primeira pergunta, indaga-se: quem faz chover e, por meio da chuva, produz plantas de diferentes espécies? Se refletirmos profundamente, compreenderemos que a reunião, na terra, dos elementos necessários à vida de diferentes tipos de plantas, na proporção exata ou em quantidade um pouco menor; sua elevação contínua do mar e sua distribuição correta, em diferentes épocas, por diversas partes da Terra; o cultivo e o crescimento do reino vegetal; e o estabelecimento de proporções e cooperação mútuas entre as forças da terra, da água, do ar, do calor e outras, com o objetivo de suprir todas as necessidades do reino das aves — poderiam acaso ocorrer espontaneamente, por acidente, sem o perfeito planejamento de um Grandíssimo Sábio, Sua administração cheia de sabedoria, Seu poder invencível e Sua vontade indomável? Seria possível que cada acontecimento acidental continuasse ocorrendo corretamente durante milhares — ou melhor, trilhões — de anos? Somente uma pessoa obstinada, movida por cego preconceito, poderia insistir em chamar isso de acontecimento acidental. Para uma pessoa conscienciosa e dotada de discernimento, é de modo algum possível fazer uma afirmação tão absurda e aceitá-la como verdadeira. (Surata Saba, nota 76)
A ordem e a harmonia não são acontecimentos acidentais
Também não é simples que a terra seja o lugar de inúmeras habitações de diferentes tipos. Este globo terrestre encontra-se suspenso no espaço, sem apoiar-se em coisa alguma. Apesar disso, não há nele instabilidade nem tremor. Se houvesse sequer uma pequena vibração, suas terríveis consequências, no caso de um terremoto, poderiam ser facilmente imaginadas por nós. Nesse caso, nenhuma habitação sobre ele seria possível. Sobre este globo terrestre conserva-se, até uma altura de quinhentas milhas, uma camada fina e densa de ar, que protege a Terra do impacto da queda de meteoros devastadores. Caso contrário, os vinte milhões de meteoros que diariamente caem sobre a Terra a uma velocidade de trinta milhas por segundo provocariam em sua superfície uma destruição catastrófica. É essa camada de ar que regula a temperatura. Ela eleva o vapor deste oceano, forma nuvens e faz chover em diferentes lugares. Ela fornece os gases necessários aos seres humanos, aos animais e ao reino vegetal. (Ela é o meio pelo qual transmitimos e recebemos o som; sem ela, a conversação não seria possível.) Minerais e substâncias químicas são fornecidos em grande quantidade, sendo absolutamente indispensáveis às plantas, aos animais e aos seres humanos. Sobre este mundo terrestre foram dispostas reservas inesgotáveis de água subterrânea, na forma de mares, rios, lagos, lagoas, cascatas e nascentes. Até nos cumes das montanhas foi estabelecido um sistema para congelar a água e fazê-la derreter e fluir. Além disso, foi criada a gravidade para manter reunidos esta água, o ar e todas as substâncias disponíveis na Terra. — Ademais, foi criada a gravidade para manter reunidas todas as substâncias disponíveis nesta Terra. — Ademais, esta Terra foi colocada a uma distância especial do Sol, extremamente favorável a todos os seres vivos que nela habitam.—
Aqui foram mencionadas apenas algumas das harmonias que tornaram a Terra atualmente habitável. Se uma pessoa dotada de discernimento refletir sobre essas questões, tendo-as diante de si, não poderá, nem por um instante, imaginar que tais harmonias tenham se estabelecido espontaneamente, como resultado de um acidente, sem o planejamento de um Criador Sábio. Tampouco poderá imaginar que alguma divindade masculina ou feminina, jinn, profeta, wali ou anjo possua sequer a mínima autoridade na elaboração e execução desse grandioso plano criador. (Rasail wa Masail, vol. 1, p. 38)
A vida e sua recriação ou repetição
A teoria de que os fatores necessários à origem da vida se reuniram de modo totalmente fortuito, nas quantidades exatas, fazendo com que a vida passasse a existir por si mesma, pode certamente ser uma fantasia anticientífica dos ateus. Mas, se a lei das ocorrências fortuitas (Lei das Mudanças) da matemática for aplicada a isso, a possibilidade de tal acontecimento ocorrer não será outra senão zero.
A vida não é encontrada em uma única forma, mas em inúmeras formas. Até o presente, foram descobertas na Terra cerca de um milhão de espécies de seres vivos e aproximadamente duzentas mil espécies de plantas. Essas milhões de espécies de seres vivos diferem claramente umas das outras em sua estrutura e em suas características específicas. Essa diversidade é tão evidente e incontestável que, desde os tempos mais remotos de que se tem conhecimento, elas preservaram continuamente suas próprias formas e características específicas; assim, nenhum darwinista seria capaz de oferecer qualquer explicação ou análise racional para essa enorme variedade de diferenças entre as espécies da vida, exceto pelo plano criador de um Deus único.
Consideremos agora um pouco a reprodução da criação. O Criador estabeleceu na forma, na estrutura e na composição de cada espécie animal e vegetal um mecanismo que, a partir de suas inúmeras individualidades, produz continuamente incontáveis descendentes exatamente com a mesma forma específica, natureza e características. Nessas bilhões de pequenas fábricas, a fábrica de criação de uma determinada espécie jamais, mesmo por engano, produz um exemplar de espécie diferente. As observações e experiências da moderna ciência da genética apresentaram fatos surpreendentes a esse respeito. Em cada muda de árvore foi depositada a capacidade de assegurar a continuidade de sua própria espécie até as gerações seguintes por meio de um sistema tão completo que os descendentes possam possuir todas as características distintivas de sua espécie, e cada uma de suas individualidades possa manter corretamente, em forma e natureza, sua própria configuração específica distinta em comparação com os indivíduos de todas as demais espécies. O elemento responsável pela estabilidade e pela reprodução da espécie fica protegido em uma parte de uma célula de cada muda. Ele não pode ser visto de modo algum sem um microscópio mais potente. Esse minúsculo engenheiro controla com precisão o cultivo e o desenvolvimento da planta jovem, conduzindo-os por um caminho exato — ou pelo próprio caminho de sua configuração específica! — O mesmo ocorre também no mundo dos seres vivos e na humanidade.
A criação de nenhum deles cessou depois de ocorrer uma única vez. Pelo contrário, não se pode imaginar quão grandiosa é a fábrica de reprodução da criação que funciona por toda parte. Nela, incontáveis seres de espécies semelhantes continuam a passar a existir a partir das diversas individualidades de cada espécie.—-
A origem de todos esses sistemas não apenas torna inevitável a existência de um Criador onisciente e sutilmente sábio, mas também exige absolutamente, para que continuem funcionando corretamente a cada instante, um diretor e controlador, uma entidade eternamente viva e eterna (Deus), que não seja negligente, nem por um momento sequer, na condução dessa fábrica.
Assim como essas grandes verdades e realidades desarraigam o ateísmo do ateu, também desarraigam o shirk do politeísta (Tafhim al-Qur’an, Surata An-Naml, nota 73)
Dois aspectos da essência da natureza do universo
(Árabe*****)
Será que nunca refletiram entre si? Allah criou a terra, os céus e tudo quanto existe entre ambos com verdade e por um prazo determinado. — Surata Ar-Rum: 8
Neste trecho, são apresentados mais dois argumentos sobre a Vida Futura. Afirma-se que, se o ser humano observar profundamente a ordem do universo exterior à sua própria existência, descobrirá duas verdades.
A primeira é que este universo foi criado com verdade. Ele não é uma brincadeira de criança, na qual alguém, apenas para se distrair, constrói uma casa de brinquedo com barro. Tanto construir essa casa quanto destruí-la seriam atos sem sentido. Pelo contrário, este universo é um sistema regido por uma gestão responsável. Cada um de seus átomos testemunha claramente que foi criado com perfeita sabedoria e cuidadosa deliberação. Em cada coisa vigora uma lei e um conjunto de princípios. Tudo tem uma finalidade. Toda a civilização humana, todo o seu sistema econômico e todos os seus conhecimentos, ciências e artes testemunham por si mesmos que, depois de se conhecerem as leis ativas por trás de cada coisa do mundo, se cada objeto tivesse sido criado como um brinquedo sem propósito e mantido como uma marionete, não seria possível conceber aqui ciência alguma, nem qualquer civilização ou cultura. Como poderia a consciência e a inteligência humanas aceitar que o Ser de suprema sabedoria, que criou este mundo com tão sutil inteligência, propósito e objetivo, que concedeu a uma criatura como o ser humano elevadas capacidades mentais e físicas, poder, autonomia, liberdade de escolha e sentimentos morais, colocando em suas mãos incontáveis recursos do mundo que Ele próprio criou, tivesse criado o ser humano sem finalidade? O ser humano realizará na terra ações construtivas ou destrutivas, praticará pecado ou virtude, justiça ou injustiça, adotará honestidade ou falsidade; depois morrerá simplesmente e se misturará à terra, sem que haja qualquer recompensa ou consequência por suas boas ou más ações? Deixará, por meio de cada uma de suas ações, efeitos bons ou maus na vida dele próprio, na vida de incontáveis pessoas semelhantes a ele e sobre inúmeras coisas do mundo; depois, imediatamente após sua morte, todo o registro de suas obras será recolhido e lançado ao rio? Que poderia ser mais ridículo do que isso? Ao observar profundamente a administração deste universo, a segunda verdade torna-se evidente. Ela é que nada aqui é eterno. Cada coisa tem um prazo determinado e, ao chegar ao seu limite, chega ao fim. O mesmo se aplica, em conjunto, a toda a criação. Todas as forças ativas aqui são limitadas. Permanecem atuantes até certo momento. Em algum momento, inevitavelmente, sua existência desaparece e este sistema também chega ao fim. Antigamente, alguns filósofos e cientistas diziam que a Terra era sem começo e indestrutível; devido à limitação do conhecimento, suas palavras tinham certa aceitação. Porém, no longo debate entre ateus e crentes em Allah sobre a novidade e a antiguidade da Terra, a ciência moderna apoiou definitivamente a posição dos crentes em Allah. Já não resta aos ateus qualquer possibilidade de afirmar, em nome da inteligência e do conhecimento científico, que o mundo existe desde toda a eternidade, continuará existindo eternamente e que a Ressurreição jamais ocorrerá. O materialismo antigo baseava-se na ideia de que a matéria nunca é destruída, podendo apenas mudar de forma. Com base nisso, podia-se dizer que este mundo material não tinha começo nem fim. Contudo, a descoberta da energia atômica (Atomic energy) provou completamente que essa ideia era errônea. Descobriu-se que a energia se transforma em matéria e a matéria em energia, de tal modo que, nesse processo, ela não conserva nem forma nem qualquer configuração amorfa. A segunda lei da termodinâmica (second Law of Thermo Dynamics) provou que este mundo material não é sem começo, nem eternamente permanente e indestrutível. Inevitavelmente, ele deve ter um começo e um fim. Por isso, já não é possível negar a Ressurreição com base na ciência. Se a própria ciência se rendeu neste assunto, com que argumento a filosofia negará a Ressurreição? (Tafhim al-Qur’an, Surata An-Naml, nota 74)
A era anterior a Hadrat Musa (que a paz esteja sobre ele)
Foi na descendência de Hadrat Yaqub, filho de Hadrat Ishaq, que nasceram Hadrat Yusuf, Hadrat Musa, Hadrat Dawud, Hadrat Sulaiman, Hadrat Isa e outros nobres profetas, que a paz esteja sobre todos eles. Como o nome de Hadrat Yaqub era Israel, seus descendentes passaram a ser chamados de Bani Israel. Em consequência de sua pregação, as nações que aceitaram sua religião ou abandonaram sua identidade e se fundiram entre eles, ou, embora permanecessem genealogicamente distintas deles, tornaram-se suas seguidoras no aspecto religioso. (Tafhim al-Qur’an, Surata An-Naml, nota 80)
A lenda dessa nação diz que Allah travou uma luta corpo a corpo com seu ilustre antepassado Hadrat Yaqub. A luta prosseguiu durante toda a noite. Amanheceu, mas Allah não conseguiu vencê-lo. Então Allah disse: “Agora, deixe-me ir.” Yaqub respondeu: “Não o deixarei ir enquanto não me conceder uma bênção.” Allah disse: “Seu nome não será Yaqub, mas Israel, pois você venceu na prova de força entre Deus e o homem.” (Que Allah nos proteja de tal blasfêmia.) (Veja a tradução moderna de The Holy Sepulchre, Jewish Publications Society of America, 1954, Gênesis, capítulo 32, versículos 25–29. A Bíblia traduzida pelos cristãos também relata o episódio dessa maneira. Na nota da tradução judaica, o significado da palavra Israel é dado como “He who striveth with God” — “aquele que luta com Deus”. Depois, na enciclopédia da literatura bíblica, eruditos cristãos explicaram a palavra Israel como “Wrestler with God”, isto é, “aquele que luta corpo a corpo com Deus”. No livro bíblico de Oseias(Árabe***)é apresentada a identidade de Hadrat Yaqub nestes termos: enquanto possuía força e capacidade, ele lutou com Deus; depois, lutou com os anjos e venceu — capítulo 12, versículo 4. 418 (Surata Ar-Rum, nota 6)
O passado glorioso dos Bani Israel
Por um lado, nesta linhagem nasceram grandes profetas, como Hazrat Ibrahim (A.S.), Hazrat Ishaq (A.S.) e Hazrat Yusuf (A.S.); por outro, na época de Hazrat Yusuf (A.S.) e depois dele, eles tiveram a ventura de conquistar o poder e a autoridade governamental no Egito. Durante longo tempo, foram os maiores governantes do mundo civilizado de então, e sua influência e prestígio predominavam por toda parte.
Em geral, as pessoas começam a história do progresso e desenvolvimento de Bani Israel com Hazrat Musa (A.S.). Mas a explicação do Alcorão sobre essa questão é que a verdadeira época de progresso e desenvolvimento de Bani Israel já havia passado antes de Hazrat Musa (A.S.). Hazrat Musa (A.S.) apresentava a seu povo o seu glorioso passado. (Surata Al-Ma’idah: 20) — Surata Al-Baqara, nota 123
Origem e denominação do judaísmo
A religião verdadeira que Hazrat Musa (A.S.) e os profetas anteriores pregaram era o Islam. Nenhum desses profetas era judeu, nem o judaísmo surgiu em sua época. Quanto à origem dessa religião com base em seu nome, ela remonta a uma época muito posterior. Essa religião foi atribuída a Judá, o quarto filho de Yaqub (A.S.), quando essa família se tornou proprietária do Estado que passou a ser chamado Judéia. As demais tribos de Bani Israel estabeleceram um Estado separado, que se tornou conhecido como Samaria. Depois, os assírios não apenas destruíram Samaria, mas também apagaram todos os vestígios das tribos israelitas que haviam fundado esse Estado. Restaram então apenas as linhagens de Judá e Benjamim. Por causa da influência e do prestígio da linhagem de Judá, eles foram chamados de judeus. Nessa linhagem, sacerdotes, rabinos e eruditos, de acordo com suas próprias concepções, inclinações e tendências, construíram ao longo de centenas de anos uma estrutura de crenças, costumes, métodos e práticas religiosas; essa estrutura é chamada judaísmo ou religião judaica. Sua formação começou no século IV a.C. e continuou até o século V d.C.
A orientação divina que havia chegado aos profetas estava incorporada nela apenas em mínima medida, e seus aspectos fundamentais haviam sido distorcidos. Por isso, em muitos lugares do Alcorão, eles são chamados(Árabe****)— isto é, “ó pessoas que vos tornastes judeus”. Nem todos entre eles eram israelitas; havia também pessoas que haviam adotado a religião judaica. Onde o Alcorão se dirige a Bani Israel, utiliza-se a expressão Bani Israel. E onde se dirige aos seguidores da religião judaica, utiliza-se a expressão(Árabe***) . (Surata Al-Ma’idah, nota 42)
Os judeus na época de Hazrat Yusuf (A.S.)
Após uma análise comparativa da Bíblia e da história egípcia, os pesquisadores da era moderna sustentam a opinião de que, entre os reis pastores (Kykoss Kings), o governante cujo nome aparece na história egípcia como Apophis foi contemporâneo de Hazrat Yusuf (A.S.).
A capital do Egito era Misfis. Suas ruínas podem ser vistas quatorze milhas ao sul do Cairo. Hazrat Yusuf (A.S.) chegou ali aos dezessete ou dezoito anos de idade. Permaneceu durante dois ou três anos na casa do Aziz do Egito. Passou oito anos na prisão. Aos trinta anos, tornou-se governante do Egito e continuou administrando o país de forma absoluta durante oitenta anos. No nono ou décimo ano de seu governo, trouxe seu pai, com toda a família, da Palestina para o Egito. Reassentou-os na região entre Cairo e Damieta. Na Bíblia, o nome dessa região é dado como Yushan ou Dushan. (O Talmude afirma que, quando a notícia da chegada de Hazrat Yaqub (A.S.) alcançou a capital, Hazrat Yusuf (A.S.) saiu ao encontro dele acompanhado dos eminentes emires e notáveis do reino, dos altos funcionários militares e civis, e levou-o à capital com grande pompa. Durante dois dias foram realizados festejos. Todos participaram do cortejo festivo, homens, mulheres e crianças, sem exceção. Uma onda de alegria e júbilo espalhou-se por todo o país. (Surata Al-Hashr, nota 4) Eles continuaram vivendo nessa região até a época de Hazrat Musa (A.S.). Segundo o relato da Bíblia, Hazrat Yusuf (A.S.) viveu cento e dez anos e, no momento de sua morte, recomendou a Bani Israel que, quando deixassem o Egito, levassem consigo seus restos mortais. (Surata Al-Jumu’ah, nota 10)
Graças a ele, eles se estabeleceram no Egito. Ele, isto é, Hadrat Yusuf (que a paz esteja com ele), era ele próprio um profeta. Depois dele, durante quatro ou cinco séculos, o poder governamental do Egito permaneceu em suas mãos. Durante esse período, certamente realizaram uma ampla obra de divulgação do Islã no Egito. Entre os egípcios que aceitaram o Islã, não apenas sua religião, mas também sua civilização e todo o seu modo de vida se distinguiram dos egípcios não muçulmanos e passaram a assumir a mesma identidade dos Bani Israel. Assim como os hindus da Índia consideravam os muçulmanos estrangeiros no período anterior à Partição, os egípcios também consideravam todos eles forasteiros. Eles chamavam os muçulmanos egípcios de Bani Israel, assim como os muçulmanos não árabes eram chamados de maometanos. Eles próprios, devido aos vínculos religiosos, culturais e matrimoniais, separaram-se dos egípcios não muçulmanos e passaram a estar ligados aos Bani Israel. Por isso, quando começou no Egito um intenso movimento nacionalista, a perseguição e a opressão não recaíram apenas sobre os Bani Israel; os muçulmanos egípcios também foram vítimas disso juntamente com eles. Depois, quando os Bani Israel deixaram o país, os muçulmanos egípcios também partiram com eles e foram incluídos entre os Bani Israel. Nosso entendimento é corroborado por várias alusões e indicações da Bíblia. Por exemplo, ao narrar, no Livro do Êxodo, o acontecimento da saída dos Bani Israel do Egito, o autor da Bíblia diz que com eles havia uma grande multidão semelhante (12:38). Esses muçulmanos não israelitas eram chamados estrangeiros e forasteiros. Entre as orientações dadas a Hadrat Musa (que a paz esteja com ele) na Torá, encontra-se o seguinte: “Para vós e para esses forasteiros que vivem convosco vigorará, de geração em geração, a mesma lei. Perante Deus, os forasteiros terão o mesmo status que vós tendes” (25:14–15), o autor. (Surata Yusuf, nota 69)
A revolução nacionalista no Egito
Após o fim da era de Hadrat Yusuf (que a paz esteja com ele), ocorreu no Egito uma revolução nacionalista. Quando os coptas retomaram o poder governamental, o governo nacionalista empreendeu todos os esforços para destruir o poder dos Bani Israel. Não se limitaram a humilhar e desonrar os Bani Israel e a empregá-los em trabalhos de baixo nível; adotaram também uma política de matar seus filhos homens e poupar suas filhas, com o objetivo de reduzir sua população, para que suas mulheres passassem gradualmente ao controle dos coptas e, em vez de uma linhagem israelita, surgisse entre elas uma linhagem copta. O Talmude acrescenta que essa revolução ocorreu pouco mais de um século após a morte de Hadrat Yusuf (que a paz esteja com ele). O novo governo nacionalista primeiro privou os israelitas de suas terras férteis, casas e outros bens e, depois, os destituiu de todos os cargos de responsabilidade no governo. Mesmo depois, quando os governantes coptas perceberam que os Bani Israel e os egípcios que compartilhavam sua religião eram suficientemente influentes, começaram a humilhá-los e desonrá-los de várias maneiras. Passaram a submetê-los a trabalhos pesados por pouca remuneração. Esta é a explicação da descrição corânica segundo a qual o Faraó humilhava e desonrava um grupo dos habitantes do Egito(Árabe****)e da passagem da Surata Al-Baqara em que Deus, o Altíssimo, declara que a casa do Faraó infligia um severo castigo aos Bani Israel. (Surata Yusuf, nota 68)
A chegada de Hadrat Musa (que a paz esteja com ele)
Os Bani Israel viveram durante vários séculos uma vida de humilhação e pobreza. Nessa situação, Deus, o Altíssimo, fez nascer entre eles Musa (que a paz esteja com ele). Por meio dele, libertou esse povo das correntes da escravidão. Depois, fez descer sobre eles o Livro e, sob sua influência, aquele povo pisoteado e oprimido recebeu a luz da orientação e tornou-se uma nação célebre no mundo. (Surata Yusuf, nota 68)
A pregação de Hadrat Musa (que a paz esteja com ele)
Hadrat Musa (que a paz esteja com ele) foi até o Faraó com um convite para duas coisas. Primeiro: que ele aceitasse a adoração de Deus (o Islã); segundo: que libertasse da opressão e perseguição o povo dos Bani Israel, que já era muçulmano desde antes. (Surata Al-Qasas, nota 5)
Por outro lado, Hadrat Musa (que a paz esteja com ele) ensinou aos Bani Israel o seguinte:
Buscai a ajuda de Allah e tende paciência. Esta terra pertence a Allah, e Ele faz herdar esta terra a quem deseja. O sucesso final pertence àqueles que agem temendo-O.
A mentalidade mesquinha dos Filhos de Israel
Naquele período de crise, alguns jovens e moças demonstraram a coragem de aceitar a verdade e reconhecer como seu líder aquele que carregava o estandarte da verdade (Moisés, que a paz esteja com ele). Contudo, os pais e os anciãos do povo não tiveram essa boa fortuna. A mentalidade de buscar oportunidades, os interesses mundanos e o desejo de levar uma vida tranquila haviam-nos dominado de tal modo que não conseguiram aceitar essa verdade. Isso porque consideravam esse caminho extremamente arriscado. Pelo contrário, impediam os jovens, dizendo: “Não vos aproximeis de Moisés (que a paz esteja com ele); caso contrário, vós mesmos atraireis sobre vós a ira do Faraó e trareis também uma calamidade sobre nós.” (Surata As-Sajdah, nota 36)
A razão de seu comportamento não era que tivessem a menor dúvida de que Moisés (que a paz esteja com ele) era sincero e de que sua mensagem estava fundamentada na verdade. Pelo contrário, a razão era que eles e seus anciãos e veneráveis não estavam dispostos a sofrer a crueldade do Faraó ajudando Moisés (que a paz esteja com ele). Embora, do ponto de vista genealógico e religioso, pertencessem à comunidade de Abraão, Isaque, Jacó e José (que a paz esteja com eles), a covardia produzida pela vida de escravidão não havia deixado neles força alguma para que fossem eles próprios portadores da bandeira da fé e da orientação, ou para que apoiassem os portadores dessa bandeira, diante do domínio da descrença e do desvio. (Surata Al-A‘raf, nota 86) Deve-se observar que houve um período de opressão e perseguição durante o reinado de Ramsés II, antes do nascimento de Moisés (que a paz esteja com ele). O segundo período de perseguição começou após a chegada de Moisés, durante o reinado do Faraó Merneptá. Em ambos os períodos, vigorava o mesmo costume: os filhos dos Filhos de Israel eram mortos, enquanto as filhas eram deixadas vivas. (Surata Yunus, nota 78)
Qual foi o papel dos israelitas comuns nesse conflito entre Moisés (que a paz esteja com ele) e o Faraó pode ser inferido do seguinte trecho da Bíblia:
Quando eles (Moisés e Aarão) saíram da presença do Faraó, viram que eles (os israelitas) estavam parados na estrada à espera de encontrá-los. Eles disseram: “Que Deus faça justiça contra vós! Vós nos tornastes odiosos aos olhos do Faraó e de seus servos, e pusestes uma espada em suas mãos para nos matar.” Livro do Êxodo 6:20–21.
É relatado no Talmude que os Filhos de Israel diziam a Moisés (que a paz esteja com ele) e a Aarão (que a paz esteja com ele): “Nosso exemplo é como o de um lobo que agarrou uma cabra, enquanto o pastor tenta salvá-la. Então, com o puxão de ambos os lados, a cabra foi despedaçada. Do mesmo modo, seremos destruídos pelos puxões entre vós e o Faraó.” (Surata Yunus, nota 79)
A migração dos Filhos de Israel do Egito (Em vez de entrar em detalhes sobre os métodos pelos quais Moisés (que a paz esteja com ele) apresentou sua mensagem ao Faraó, as acusações feitas contra ele, os castigos admoestatórios enviados sobre os faraônicos em sua época e a situação dos próprios israelitas, destacamos este aspecto de importância histórica: como eles responderam à mensagem de Moisés (que a paz esteja com ele) apenas com a rejeição, por ordem de Allah, o Altíssimo, Moisés (que a paz esteja com ele) adotou o caminho da migração para libertar os Filhos de Israel. — Os compiladores
A vida no deserto do povo de Moisés
Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele), levando os filhos de Israel, chegou à região do monte Sinai, passando por Mara, Eliam e Refidim. Depois, permaneceu ali por pouco mais de um ano. (A história da vida dos filhos de Israel no deserto é muito importante sob vários aspectos. Durante esse período, eles foram agraciados milagrosamente com recursos especiais. Nessa época, os sinais de sua antiga vida de escravidão vieram à tona por meio de diversos comportamentos equivocados. Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele) empenhou-se arduamente em corrigi-los. Sob esse aspecto, foi uma época de treinamento. — Os compiladores.) Foi ali que a maior parte das instruções da Torá lhe foi revelada.
A ordem de conquistar a Palestina
Então, foi-lhe ordenado: “Conquista a Palestina com os filhos de Israel. Ela vos foi dada como herança.” Assim, Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele), levando os filhos de Israel, chegou ao deserto de Parã, passando pelo caminho de Avir e Hazerote. Dali, enviou uma delegação para verificar a situação da Palestina. Ao chegar ao lugar chamado Cades, essa delegação apresentou seu relatório. Com exceção de Josué e Calebe, o relatório da delegação foi desanimador. Ao ouvi-lo, os filhos de Israel começaram a clamar e recusaram-se a partir para a campanha contra a Palestina.
O segundo período de errância no deserto como punição
Foi decidido por parte de Alá, o Altíssimo, que os filhos de Israel vagariam por essa região durante quarenta anos, como pessoas desorientadas, e que, com exceção de Josué e Calebe, os descendentes da geração atual não veriam a Palestina. Então, os filhos de Israel passaram a vagar desorientados entre o deserto de Parã, o deserto de Sur e o deserto de Zim, entrando em conflitos e disputas com os amalequitas, amorreus, edomitas, midianitas, habitantes de Moabe e outros.
A conquista da Palestina e o período posterior
A conquista da Palestina
Pouco antes de se completarem quarenta anos, Hazrat Harun (que a paz esteja com ele) faleceu no monte Hor. Depois, Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) entrou na região de Moab com os Bani Israel e, após conquistar toda aquela região, chegou até Hesbom e Shittim. Ali, no monte Abarim, Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) deu o último suspiro. Após sua morte, seu primeiro sucessor, Hazrat Yusha, atravessou o rio Jordão pelo lado oriental e conquistou a cidade de Jericó, ou Ariha. Esta foi a primeira cidade da Palestina que caiu nas mãos dos Bani Israel; depois, em pouco tempo, toda a Palestina ficou sob seu domínio. (Antes da conquista da Palestina, os Bani Israel estavam envolvidos em diversas tribulações. Depois da conquista, a desordem e a perversidade começaram a se alastrar entre eles. Eles também tiveram de sofrer as consequências disso.
A exortação de Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) aos Bani Israel para protegê-los da decadência
No versículo 7 da Surata Ibrahim, Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) deixou esta recomendação: “E lembrai-vos de quando vosso Senhor proclamou: ‘Se fordes gratos, certamente vos concederei ainda mais; mas, se fordes ingratos pela Minha graça, certamente o Meu castigo será severo para vós.’” (Essa recomendação era necessária porque, depois de serem agraciados com as riquezas concedidas por Allah, os Bani Israel continuavam repetidamente a demonstrar desobediência e ingratidão. Hazrat Musa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tentou corrigi-los e inspirá-los ao arrependimento. Não era infundada a suspeita de que, se alcançassem o auge da conquista da Palestina, Satanás facilmente os mergulharia na desobediência. Por isso, sua atenção foi dirigida a este princípio de Allah, que se manifesta na forma de desobediência por parte de uma nação que recebeu riquezas. — Os compiladores)
Uma explicação detalhada do discurso proferido sobre este assunto foi registrada na Bíblia, no quinto livro da Torá. Pouco antes de sua morte, Hazrat Musa (que a paz esteja com ele), nesse discurso, pediu aos Bani Israel que se lembrassem dos acontecimentos importantes de sua história. Em seguida, repetiu, a partir do livro da Torá, as instruções que haviam sido transmitidas aos Bani Israel por seu intermédio. Depois, proferiu um longo discurso. —- Algumas partes de seu discurso são extremamente comoventes e instrutivas. A título de exemplo, citamos abaixo algumas delas:
Mas, se não deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, e não tiveres o cuidado de cumprir todos os mandamentos e estatutos que hoje te ordeno, então todas estas maldições virão sobre ti e te alcançarão. Serás amaldiçoado na cidade e serás amaldiçoado no campo. —— Em qualquer trabalho a que te dedicares, o SENHOR enviará sobre ti maldição, perturbação e repreensão. —- O SENHOR fará com que sofras a praga até seres exterminado da terra que estás entrando para possuir. —- O céu sobre a tua cabeça será de bronze, e a terra debaixo de ti será como ferro. —- O SENHOR fará com que sejas derrotado diante dos teus inimigos; sairás contra eles por um caminho, mas fugirás diante deles por sete caminhos. Casarás tua filha, mas outro homem se deitará com ela. Construirás uma casa, mas não morarás nela; plantarás uma vinha, mas não desfrutarás de seus frutos. Teu gado será abatido diante de ti; — os inimigos que o SENHOR enviar contra ti te escravizarão enquanto padeces de fome, sede, nudez e toda espécie de privação; e, até que Ele te destrua, eles colocarão um jugo de ferro sobre o teu pescoço. — E o SENHOR te dispersará entre todos os povos, de uma extremidade da terra à outra. — (28:15–16) (Surata Taha, notas, 53–54)
O chamado reformador de Hazrat Yusha
Setenta anos depois da saída do Egito (quando os Bani Israel se entregaram à adoração de ídolos — compiladores), pode-se facilmente deduzir, a partir do que Hazrat Yusha bin Nun, primeiro sucessor de Hazrat Musa (que a paz esteja com ele), disse em seu discurso final perante a assembleia, o quanto a vida de escravidão no Egito havia corrompido a mentalidade dos Bani Israel. Seu discurso foi o seguinte:
Portanto, agora temei o SENHOR e servi-O com sinceridade e verdade; afastai os deuses que vossos antepassados serviram do outro lado do rio Eufrates e no Egito, e servi ao SENHOR. Se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei hoje a quem servireis; —- mas eu e minha família serviremos ao SENHOR. — Josué 24:14–15
Disto se pode inferir que, mesmo depois de viverem durante quarenta anos sob a orientação e a formação de Moisés (a.s.) e durante vinte e oito anos sob a orientação e a formação de Hazrat Yusha, esse povo não conseguiu eliminar de sua mente e de seu coração aquelas influências que haviam se espalhado até a medula de seus ossos durante a era de submissão ao Faraó. (A perversidade da natureza e o espírito covarde desse povo foram descritos detalhadamente no Alcorão Sagrado. Sua relutância em responder ao chamado de Hazrat Moisés (a.s.) no Egito; a adoração do bezerro sob a influência de Sameri logo após sua libertação do Egito; quando Hazrat Moisés (a.s.) ordenou que sacrificassem uma vaca, fizeram repetidas perguntas em vez de obedecer sinceramente; depois de receberem gratuitamente o maná e a salwa como bênçãos de Alá no deserto do Sinai, exigiram os alimentos antigos das cidades em vez de demonstrar gratidão; recusaram-se a obedecer às ordens durante a jihad; violaram as instruções do Yawm al-Sabt; distorceram o Livro de Alá; assassinaram os profetas, fizeram falsas acusações contra eles e transmitiram conhecimento em troca de dinheiro; ocultaram a verdade. Em suma, toda a história de Banu Israel está maculada dessa maneira. — Os compiladores
Após a conquista da Palestina
Após a morte de Hazrat Moisés (a.s.), quando Banu Israel entrou na Palestina, várias nações viviam ali, como os hindis, amorreus, cananeus, heveus, jebuseus, filisteus e outras. Entre eles prevalecia uma forma extremamente degradada de politeísmo. — Todo o domínio divino estava distribuído entre muitos deuses e deusas. — Atribuíam a esses deuses e deusas tantos atributos e atos repugnantes que até mesmo uma pessoa de caráter extremamente imoral não gostaria de ser associada a eles. — O costume de sacrificar filhos era amplamente praticado em sua sociedade. Seus templos haviam se transformado em antros de adultério. Transformar mulheres em deusas, mantê-las nos templos e cometer adultério com elas era considerado parte da adoração.
As orientações dadas a Banu Israel por meio de Hazrat Moisés (a.s.) na Torá afirmavam claramente que eles deveriam destruir aquelas nações e tomar-lhes a Palestina, além de manter distância tanto de sua convivência quanto de seus vícios morais e doutrinários.
Contudo, ao entrar na Palestina, Banu Israel esqueceu essas orientações. Não estabeleceu um Estado unificado. Entregou-se ao tribalismo. Cada tribo preferia separar-se, tomando para si uma parte do território conquistado. (As tribos entre as quais foi dividido o pequeno território da Palestina eram: Banu Yaduhá, Banu Shamun, Banu Dani, Banu Yamin, Banu Afraim, Banu Ruban, Banu Jadd, Banu Musa, Banu Ashkar, Banu Zebubun, Banu Naftali, Banu Asher e outras (pesquisa do autor).
Por terem se separado dessa maneira, nenhuma de suas tribos era suficientemente forte para manter seu próprio território completamente livre dos politeístas. Por fim, aceitaram coexistir com eles. A primeira consequência que tiveram de suportar foi que, por meio dessas nações, o politeísmo se infiltrou entre eles, abrindo-se também o caminho para outros detritos e corrupções morais. (A segunda consequência que tiveram de suportar foi que aquelas nações cujas cidades-Estado haviam sido deixadas independentes, juntamente com os filisteus (cujo território inteiro permanecia inconquistado), formaram uma aliança contra Banu Israel e lançaram repetidos ataques, desalojando-os de grande parte de seu território. Chegaram até a tomar deles a Arca da Aliança de Deus. Por fim, Banu Israel sentiu a necessidade de estabelecer um reino unificado sob um governante. — Os três governantes desse reino unificado foram Hazrat Talut, Hazrat Daud (a.s.) e Hazrat Sulaiman (a.s.). Esses governantes realizaram as tarefas que Banu Israel havia deixado inconcluídas depois de Moisés (a.s.). — Autor, 437 (Surata Ibrahim, nota 12)
Sabe-se pela Bíblia que, até a época de Talut, as cidades de Saida, Sur, Dur, Mujadda, Bayt Sham, Jazar, Jerusalém e outras estavam sob o domínio dos politeístas, e a civilização pagã dessas cidades continuava exercendo enorme influência sobre Banu Israel. Além disso, nas fronteiras das tribos israelitas haviam sido estabelecidos Estados bastante poderosos dos filisteus, edomitas, moabitas e amonitas. Eles lançavam ataques sucessivos e tomavam vastas áreas dos israelitas. Por fim, a situação havia chegado a tal ponto que Banu Israel teria sido expulso dali pelas orelhas, se Alá, o Altíssimo, não tivesse reunido os israelitas sob a liderança de Talut no momento oportuno. (Surata al-A’raf, nota 98)
A época da primeira catástrofe de Banu Israel
Após Hazrat Suleiman, os israelitas ficaram terrivelmente dominados pela cobiça e pelos desejos mundanos. Travaram guerras entre si e estabeleceram dois reinos distintos. O Estado de Israel foi estabelecido no norte da Palestina e no leste da Jordânia. Por fim, Samaria foi estabelecida como sua capital. O Estado da Judeia foi estabelecido no sul da Palestina e na região de Edom. Jerusalém tornou-se sua capital. Desde o primeiro dia, começaram entre esses dois Estados uma rivalidade extrema e conflitos incessantes, que continuaram até o fim.
Entre eles, os governantes e habitantes do Estado israelita foram os primeiros e os mais profundamente influenciados pelas crenças e concepções politeístas, bem como pela corrupção moral das nações vizinhas. Hazrat Elias e Hazrat Al-Yasa, que a paz esteja sobre ambos, esforçaram-se ao máximo para conter essa onda. Mas essa nação não voltou atrás do caminho de decadência pelo qual corria. Por fim, a ira de Deus, na forma dos assírios, caiu sobre os israelitas, e até o século IX a.C. continuaram os ataques incessantes dos assírios, que haviam conquistado a Palestina.
Em 620 a.C., Sargão, o cruel governante da Assíria, conquistou Samaria e pôs fim ao Estado de Israel.
O segundo Estado dos Filhos de Israel, estabelecido no sul da Palestina sob o nome de Judeia, também se envolveu muito rapidamente no politeísmo e na imoralidade após Hazrat Suleiman.
Embora os assírios também lançassem ataques contínuos contra esse Estado, como haviam feito contra o Estado de Israel, destruindo suas cidades e cercando sua capital, ele não chegou ao fim pelas mãos dos assírios. Permaneceu apenas como um aliado tributário. —- Finalmente, em 587 a.C., o rei da Babilônia, Nabucodonosor, lançou um ataque de grandes proporções e reduziu a ruínas todas as cidades, grandes e pequenas, da Judeia. Ele arrasou Jerusalém e o Templo de Salomão de tal forma que nem sequer uma de suas paredes pôde permanecer de pé. Um grande número de judeus foi expulso de sua região e dispersado por diferentes países. (Surata Al-Isra, nota 7)
Mais uma oportunidade concedida por Deus
Após a vitória dos assírios, o povo de Samaria e de Israel nunca mais conseguiu se reerguer de sua extrema decadência na fé, na crença e na moralidade. Contudo, ainda restavam algumas pessoas entre os habitantes da Judeia. Entre os que haviam permanecido na Judeia, elas continuaram o trabalho de reforma e correção. Inspiraram ao arrependimento aqueles que haviam sido exilados na Babilônia e em outras regiões. Então, a graça de Deus Todo-Poderoso veio em seu auxílio. O Estado da Babilônia caiu. Em 531 a.C., o conquistador persa Ciro (Curas ou Cosroes) conquistou a Babilônia. No segundo ano de seu reinado, emitiu um decreto declarando que os israelitas estavam autorizados a retornar à sua terra e a se restabelecer nela.
Ciro permitiu que os judeus reconstruíssem o Templo de Salomão. Contudo, as tribos vizinhas que haviam se estabelecido naquela região continuaram a criar obstáculos durante algum tempo. Por fim, em 522 a.C., Dario I nomeou Zorobabel, neto do último rei da Judeia, como governador da Judeia. Sob a supervisão do profeta Ageu, do profeta Zacarias e do sumo sacerdote Ishr, ele reconstruiu o sagrado Templo.
Nesse período, Uzair (que a paz esteja com ele) realizou um grande trabalho para restaurar a religião de Moisés (que a paz esteja com ele). Reuniu, de todos os lugares, todas as pessoas virtuosas e benéficas do povo judeu e estabeleceu uma organização sólida. Editou e publicou os livros da Bíblia, incluindo a Torá. Organizou a educação religiosa dos judeus. Ao promulgar as leis da Sharia, começou a corrigir os defeitos mentais e morais que haviam penetrado entre os israelitas sob a influência de povos estrangeiros. As mulheres idólatras com quem os judeus haviam se casado foram divorciadas deles. Os filhos de Israel renovaram o juramento de adorar a Deus e obedecer às Suas leis. Depois de cento e cinquenta anos, Bayt al-Maqdis voltou a ser povoado e tornou-se o centro da religião e da civilização judaicas.
A dominação grega e o movimento macabeu
Antíoco III conquistou a Palestina no ano 98 a.C. Ele era o governante do reino selêucida, cuja capital era Antioquia. Esse conquistador grego era, do ponto de vista religioso, idólatra e também despótico. Não tolerava a religião, a civilização nem a cultura judaicas. Para enfrentá-las, começou a promover a civilização grega mediante pressão política e econômica, e uma grande parte dos próprios judeus tornou-se seu instrumento. Essa intervenção externa provocou uma divisão no povo judeu. Um grupo adotou as vestimentas, a língua, o sistema social e os esportes gregos, enquanto o outro permaneceu firme em sua própria civilização.
Quando Antíoco IV subiu ao trono, em 157 a.C., cujo título era Epifânio, isto é, a manifestação de Deus, tentou, mediante o uso de um poder despótico, extirpar a religião e a civilização judaicas (não são mencionadas aqui as instruções detalhadas que ele promulgou, cujo objetivo era atingir as crenças religiosas gerais dos judeus, seus cultos e ritos, seus símbolos religiosos e os princípios fundamentais de sua organização social). No entanto, os judeus não se submeteram a essa tirania. Pelo contrário, iniciou-se entre eles um grande movimento, conhecido na história como a revolta macabeia. Embora os judeus influenciados pelos gregos demonstrassem simpatia pelos gregos e cooperassem plenamente com os tiranos de Antioquia na repressão da revolta macabeia, a força vital da devoção religiosa que Uzair havia incutido nos judeus comuns era tão intensa que todos se juntaram ao grupo dos macabeus. Por fim, expulsaram os gregos e estabeleceram seu Estado religioso. Esse Estado permaneceu até 67 a.C. Seus limites se expandiram até abranger toda a região que outrora estivera sob o domínio dos dois Estados, a Judeia e Israel. Além disso, conquistaram grande parte da Filístia, que nem mesmo havia podido ser submetida no tempo de Davi (que a paz esteja com ele). (Surata Al-Isra, nota 7)
A segunda calamidade e suas consequências
O movimento macabeu, que havia prosseguido com inspiração religiosa e moral, começou gradualmente a se desintegrar. A inspiração religiosa degenerou em cobiça pelos prazeres mundanos e em cerimônias externas sem vida. Por fim, surgiu uma divisão entre eles, e convidaram o conquistador romano Pompeu a vir à Palestina. Assim, Pompeu concentrou-se na conquista da Palestina em 63 a.C. e, ao tomar Bayt al-Maqdis, destruiu a independência dos judeus. Contudo, a política permanente dos conquistadores romanos era preferir, em vez de governar diretamente as regiões conquistadas, nomear governantes locais e alcançar seus objetivos por meio deles. Por isso, estabeleceu na Palestina um Estado nativo sob sua autoridade. Finalmente, em 40 a.C., esse Estado passou ao domínio de um judeu astuto chamado Herodes. Ele ficou conhecido como Herodes, o Grande. De um lado, mantinha os judeus satisfeitos apoiando os líderes religiosos; de outro, mantinha o César satisfeito promovendo a civilização romana e demonstrando o mais alto grau de lealdade ao Império Romano. Naquela época, a decadência religiosa e moral dos judeus chegou ao extremo.
No ano 41 d.C., os romanos nomearam Herodes Agripa, neto de Herodes, o Grande, governante de todas as regiões que haviam estado sob o domínio de Herodes, o Grande. Depois de assumir o poder, Herodes Agripa lançou uma perseguição extrema contra os seguidores do Messias (que a paz esteja com ele).
Para obter uma compreensão correta da condição dos líderes religiosos judeus naquela época, é necessário conhecer a crítica que Jesus (que a paz esteja com ele) lhes fez em seu discurso.
Diante dos olhos desse povo, um homem de caráter imaculado como o profeta Yahya (que a paz esteja com ele) foi decapitado. Mas ninguém se manifestou contra essa atrocidade. Depois, toda a nação exigiu a execução do profeta Jesus (que a paz esteja com ele). — Até mesmo quando Pôncio Pilatos perguntou a esses desventurados: — Digam: devo libertar Jesus ou Barrabás, o ladrão? Todo o povo respondeu em uníssono: libertem Barrabás. Esse foi, da parte de Deus, o desfecho final de todas as provas e argumentos apresentados contra essa nação.
Pouco tempo depois, começaram violentos confrontos entre os judeus e os romanos. Entre os anos 164 e 166 d.C., os judeus declararam abertamente uma revolta.
Por fim, o Império Romano adotou medidas militares rigorosas, reprimiu a revolta e, no ano 70 d.C., Tito conquistou Jerusalém pela força. Nessa ocasião, cento e trinta e três mil pessoas foram mortas no massacre. Setenta e seis mil foram capturadas e reduzidas à escravidão. Milhares de pessoas foram enviadas à força para trabalhar nas minas egípcias. Milhares foram usados em várias cidades para serem lançados às feras nos anfiteatros e nos coliseus, ou para servirem de vítimas nos combates de espada. Moças belas e de alta estatura foram escolhidas para os vencedores. A cidade de Jerusalém e o Templo foram reduzidos a ruínas. Depois disso, a influência judaica na Palestina desapareceu de tal modo que, durante dois mil anos, eles não tiveram oportunidade de levantar novamente a cabeça. (Surata Al-Isrá, nota 7)
Alterações na Torá (A estrutura do judaísmo foi formada a partir das mudanças e acréscimos que os pregadores, comentaristas, oradores e estudiosos judeus acrescentaram por iniciativa própria à Palavra de Deus na Torá. — Os compiladores)
No quinto livro da Torá, no último discurso do profeta Moisés (que a paz esteja com ele) ali transcrito, os Filhos de Israel são repetidamente instados a prestar o seguinte juramento:
Guardai firmemente no coração as instruções que vos transmiti; ensinai-as às gerações futuras; falai delas ao levantar-vos e ao sentar-vos, ao dormir e ao despertar; escrevei-as nas ombreiras das portas de vossas casas.
Além disso, em seu testamento, ele disse que, depois de entrarem nas fronteiras da Palestina, sua primeira tarefa deveria ser colocar grandes pedras sobre o monte Ebal e gravar nelas as instruções da Torá.
Além disso, o profeta Moisés (que a paz esteja com ele) entregou um exemplar da Torá aos Filhos de Levi e ordenou-lhes que, a cada sete anos, no dia da Festa dos Tabernáculos, reunissem em todos os lugares homens, mulheres e crianças, sem exceção, e lhes recitassem todo o Livro (a Torá), palavra por palavra. Apesar disso, a indiferença dos Filhos de Israel para com o Livro de Deus aumentou gradualmente a tal ponto que, setecentos anos depois do profeta Moisés (que a paz esteja com ele), nem o herdeiro do Templo de Salomão nem o governante judeu de Jerusalém sabia que eles possuíam um livro chamado Torá.
O maior defeito dos eruditos judeus era que, em vez de disseminarem o conhecimento do Livro de Allah, mantinham-no oculto entre uma classe especial de rabis e comerciantes da religião, afastando-o até mesmo do contato do próprio povo judeu, para não falar das pessoas comuns. Depois, quando a corrupção começou a se espalhar entre eles devido à ignorância geral, os eruditos não apenas deixaram de tentar reformá-los e corrigi-los; pelo contrário, para manter intacta sua popularidade entre o povo, conferiam, por meio de palavras e ações ou mediante uma postura de silêncio, um certificado de legitimidade à heresia e à inovação religiosa que se difundiam entre as massas. (Sura Al-Isra, nota 9)
Eles não apenas alteraram, conforme seus próprios desejos, o significado da Palavra Divina, mas também misturaram à Palavra Divina, na Bíblia, seus próprios comentários, a história nacional, superstições e conjecturas, filosofias imaginárias e leis formuladas segundo suas próprias reflexões. (Segundo o Alcorão, a situação dos eruditos judeus era a seguinte: a maioria dos sábios, pires e dervixes judeus consumia ilicitamente os bens das pessoas e as afastava do caminho de Allah — Sura At-Tawba, 34. Os opressores vendiam pareceres religiosos, aceitavam subornos, saqueavam as oferendas votivas e inventavam práticas religiosas de tal modo que as pessoas pudessem comprar deles suas justificativas. Nada em suas vidas ou mortes, nem mesmo seus casamentos, podia ocorrer sem que eles ficassem satisfeitos, e as pessoas os consideravam responsáveis por determinar seu destino. E não era só isso: em benefício próprio, esses comerciantes da religião prendiam as pessoas nas redes do desvio. Se alguma voz da verdade se levantasse, eles eram os primeiros a se empenhar em espalhar suas redes de fraude para bloquear-lhe o caminho.) Apresentavam tudo isso às pessoas como se tivesse vindo de Allah. Toda filosofia histórica, toda explicação dos comentaristas, toda concepção e crença acerca de Allah formulada pelos eruditos filósofos e toda pesquisa jurídica dos especialistas nas escrituras encontraram lugar na Bíblia, e tudo isso se transformou na Palavra de Deus. Tornou-se obrigatório crer nisso, e afastar-se disso passou a significar afastar-se da religião.
Segundo nosso conhecimento, os cinco livros do Antigo Testamento (Pentateuco) não são a verdadeira Torá. A verdadeira Torá desapareceu da face da Terra. O próprio Antigo Testamento fornece apoio a essa tese. Por ele sabemos que, no fim de sua vida, Moisés, que a paz esteja sobre ele, compilou a Torá com a ajuda de Josué e a colocou numa arca (Gênesis 31:24–27). Após sua morte, quando Nabucodonosor incendiou Bayt al-Maqdis no século VI antes de Cristo, aquela sagrada arca também foi queimada, juntamente com os livros que os renovadores de sua lei haviam produzido depois de Moisés. Duzentos ou duzentos e cinquenta anos após essa destruição, Uzair, que a paz esteja sobre ele, segundo o próprio relato da Bíblia, recompôs esse livro com os sacerdotes e clérigos dos Filhos de Israel, com o auxílio da inspiração celestial. Porém, o curso do tempo também não permitiu que esse livro recém-composto permanecesse em sua forma original. Quando a onda das conquistas universais de Alexandre, o Grande, se expandiu pelo Oriente Médio junto com o Império Grego, levando consigo as ciências e a literatura, todos os livros da Torá foram traduzidos para o grego em 280 a.C. Depois, gradualmente, as cópias hebraicas foram abandonadas e a tradução grega se tornou corrente. Portanto, a cadeia de transmissão da Torá que hoje temos diante de nós não chega de modo algum até Moisés, que a paz esteja sobre ele. Mas isso não significa que nenhuma parte da verdadeira Torá esteja incluída na Torá atual, nem que ela seja inteiramente uma falsificação. O que realmente queremos dizer é que, nesta Torá, muitas outras coisas foram misturadas à Torá original. E também não é impossível que grande parte da Torá original não tenha sido incorporada a ela. Se hoje alguém estudar este livro com profunda perspicácia, perceberá claramente que, nele, os comentários dos eruditos judeus, a história nacional dos Filhos de Israel, as pesquisas jurídicas dos especialistas israelitas nas escrituras e muitas outras coisas foram misturados à Palavra de Allah de tal maneira que é extremamente difícil separar e identificar a Palavra de Allah. É extremamente difícil separar e identificar a Palavra de Allah.
Com isso, também queremos deixar claro que, segundo a perspectiva do Alcorão, a religião da Torá era a mesma religião do Alcorão; e, assim como Muhammad, que a paz esteja sobre ele, era um profeta do Islã, Moisés, que a paz esteja sobre ele, também era um profeta do Islã. No início, os Filhos de Israel seguiam justamente essa religião. Mais tarde, porém, acrescentando e retirando muitas coisas da religião original conforme seus próprios desejos, eles elaboraram, sob o nome de judaísmo, um novo sistema religioso. (Isto é, a Torá atual não é o Islã trazido por Moisés, que a paz esteja sobre ele; pelo contrário, é a manifestação do judaísmo, a forma distorcida daquela religião, o Islã. — Os compiladores) (Sura Al-Baqara, nota 16)
Na realidade, por Torá entendem-se aquelas instruções que foram reveladas a Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) durante cerca de quarenta anos, desde o início de sua missão profética até sua morte. Entre elas, havia dez mandamentos que lhe foram entregues gravados em tábuas de pedra. As instruções restantes foram registradas por ordem de Hazrat Musa, reproduzidas em doze cópias e distribuídas entre as doze tribos dos Filhos de Israel. Uma cópia também foi entregue aos Filhos de Levi, para que pudessem preservá-la. É esse livro que se chama Torá. Ele foi preservado como um livro permanente até a primeira destruição de Baitul Maqdis. A cópia entregue aos Filhos de Levi foi colocada, juntamente com as tábuas de pedra, na Arca da Aliança. Os Filhos de Israel conheciam-na justamente como a Torá. Sua negligência para com ela chegou a tal ponto que, durante o reinado de Josias, rei da Judeia, quando o Templo de Salomão estava sendo reformado, o sumo sacerdote (isto é, o substituto do responsável pelo Templo e o principal líder religioso da nação) encontrou de repente o livro da Torá guardado em certo lugar. Considerando-o um objeto extraordinário, entregou-o ao escriba real. O escriba, por sua vez, apresentou-o ao rei como se algo maravilhoso tivesse sido descoberto. Foi por isso que, quando Bakht Nasr conquistou Jerusalém e transformou toda a cidade, juntamente com o Templo, em ruínas, o pequeno número de exemplares da verdadeira Torá, já esquecida pelos Filhos de Israel, desapareceu para sempre. Depois, no tempo de Hazrat Uzair, quando o restante dos Filhos de Israel foi libertado do cativeiro babilônico, retornou a Jerusalém e Baitul Maqdis foi reconstruído, Uzair, com a ajuda de alguns anciãos da nação, compilou toda a história dos Filhos de Israel. Essa história está agora incorporada nos primeiros dezessete livros da Bíblia. Em quatro livros dessa história — o Segundo Livro (Êxodo), o Terceiro Livro (Levítico), o Quarto Livro (Números) e o Quinto Livro (Deuteronômio) — é narrada a vida de Hazrat Musa (que a paz esteja com ele), e também foram inseridas, nos lugares apropriados dessa narrativa e na ordem cronológica de sua revelação, as palavras da Torá que chegaram às mãos de Hazrat Uzair e dos anciãos que o auxiliaram. Atualmente, chama-se Torá ao conjunto das partes da Torá que estão espalhadas e dispersas na narrativa da vida de Musa (que a paz esteja com ele). O sinal pelo qual se podem reconhecê-las é o seguinte: quando, ao narrar a história, o autor da biografia diz: “Deus disse isto a Musa (que a paz esteja com ele)” ou “Musa disse: vosso Deus diz isto”, é aí que começa uma parte da Torá. Quando começa novamente o relato da vida, começa uma parte da Torá; e quando o relato da vida recomeça, termina uma parte da Torá. No meio, onde o autor da Bíblia acrescentou algo como comentário e explicação, é muito difícil para as pessoas comuns determinar se aquilo é alguma parte da Torá original ou seu comentário e explicação. Essa Torá adulterada é a fonte do judaísmo. Mas o fato instrutivo é que os judeus jamais tentaram estabelecer a Torá tal como ela era e em sua forma original. Tampouco divulgaram fielmente suas instruções, nem as puseram em prática. Foi por isso que o Alcorão levantou a questão.(Árabe *****)(Surata Al-Baqara, nota 90)
A condição religiosa e social dos judeus na época da chegada do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele)
Não existe uma história confiável dos judeus da Arábia
Não existe em lugar algum do mundo uma história confiável dos judeus da Arábia. Eles não deixaram, em nenhum livro ou inscrição, qualquer relato a partir do qual se possa lançar luz sobre seu passado. Nenhum historiador ou autor judeu de fora da Arábia fez qualquer menção a eles. Por isso, diz-se que, depois de chegarem à terra árabe, separaram-se dos membros de sua própria nação, e, consequentemente, os judeus do mundo não os consideravam de modo algum como parte de seu povo. Isso porque haviam abandonado até a língua hebraica, a civilização e os nomes, adotando a língua e os costumes árabes. Nas ruínas do Hijaz, nas inscrições encontradas, não há nenhum vestígio de judeus anterior ao primeiro século da era cristã; encontram-se apenas alguns nomes judaicos. Por isso, a maior parte da história dos judeus da Arábia baseia-se nas lendas correntes entre os árabes, sendo que uma parte delas foi divulgada pelos próprios judeus.
Os judeus do Hijaz afirmavam que foram os primeiros a se estabelecer aqui no final da época de Hazrat Musa (que a paz esteja com ele). Narravam o acontecimento da seguinte maneira: Hazrat Musa enviou um grupo de soldados para expulsar os amalequitas de Yathrib. Eles receberam também a ordem de não deixar vivo nenhum membro daquela nação. O grupo de soldados dos Filhos de Israel veio até aqui e executou a ordem do profeta. Porém, o jovem filho do rei dos amalequitas era muito formoso. Eles o pouparam e retornaram com ele para a Palestina. Naquela época, Hazrat Musa já havia falecido. Seus sucessores criticaram severamente o ato, dizendo que deixar vivo um amalequita era totalmente contrário à ordem do profeta e às determinações da Sharia. Por essa razão, expulsaram aqueles soldados de seu grupo, e eles tiveram de retornar a Yathrib e estabelecer-se aqui. — Kitab al-Aghani, volume 19, p. 94.
Assim, os judeus afirmavam que haviam se estabelecido aqui mil e duzentos anos antes de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele). Entretanto, não existe qualquer prova histórica disso. É provável que os judeus tenham inventado essa história para, apresentando-se aos árabes como descendentes de uma antiga e nobre linhagem, exercer influência e autoridade sobre eles.
Segundo os próprios relatos dos judeus, sua segunda migração ocorreu em 587 a.C., quando o rei da Babilônia, Bakht Nasr, destruiu Baitul Maqdis e dispersou os judeus por todo o mundo. Os judeus da Arábia diziam que, naquela época, suas diversas tribos chegaram à terra árabe e se estabeleceram em Wadi al-Qura, Tayma e Yathrib (Futuh al-Buldan, al-Baladhuri). Mas também não há qualquer prova histórica disso. É provável que, com isso, quisessem igualmente provar sua antiguidade.
Na realidade, o fato comprovado é que, quando os romanos massacraram os judeus em massa na Palestina, em 77 d.C., e depois os expulsaram de lá, em 102 d.C., muitas tribos judaicas fugiram e buscaram refúgio no Hijaz. Isso se devia ao fato de essa região ser adjacente ao sul da Palestina; depois de chegarem, permaneceram em todos os lugares onde encontraram nascentes e terras férteis e bem irrigadas. Gradualmente, expandiram sua influência e autoridade sobre a região por meio de conspirações e do comércio de juros. Foi nessa época que estabeleceram seu domínio sobre Aila, Maqna, Tabuk, Tayma, Wadi al-Qura, Fadak e Khaybar. As tribos de Banu Qurayza, Banu Nadir, Banu Bahdal e Banu Qaynuqa, entre outras, também tomaram Yathrib e ali se estabeleceram.
Entre os grupos que se estabeleceram em Yathrib, as tribos de Banu Nadir e Banu Qurayza eram as mais renomadas, pois pertenciam à classe dos sacerdotes e rabinos. Entre os judeus, eram consideradas nobres. Dentro de sua própria comunidade, possuíam uma espécie de Estado religioso. Quando se estabeleceram em Medina, algumas tribos árabes já viviam ali. Depois de derrotá-las, apoderaram-se das terras férteis e bem irrigadas. Cerca de três séculos depois, em 450 ou 451 d.C., ocorreu no Iêmen uma grande inundação, mencionada no segundo rukūʿ da surata Sabá. Por causa dessa inundação, várias tribos do povo de Sabá foram obrigadas a deixar o Iêmen e espalhar-se por diferentes regiões da Arábia. Entre elas, os Gassânidas estabeleceram-se na Síria, os Lakhmidas em Hira (Iraque), os Banu Khuzaʿa entre Jidá e Meca, e Aws e Khazraj foram estabelecer-se em Yathrib. Como os judeus haviam estabelecido seu domínio sobre Yathrib, no início não deram a Aws e Khazraj qualquer oportunidade de se firmarem. Essas duas tribos árabes foram obrigadas a viver em terras áridas. Então, trazendo um grupo de soldados, esmagaram o poder dos judeus. Assim, a autoridade plena de Aws e Khazraj estabeleceu-se sobre Yathrib. As duas grandes tribos judaicas, Banu Nadir e Banu Qurayza, foram obrigadas a sair da cidade e viver nos arredores. Quanto à terceira tribo, Banu Qaynuqa, como estava em conflito com aquelas duas tribos, permaneceu na própria cidade. Contudo, para permanecer ali, teve de buscar a proteção da tribo de Khazraj. Em contrapartida, Banu Nadir e Banu Qurayza buscaram a proteção da tribo de Aws, para poderem viver em segurança nos subúrbios de Yathrib.
A situação dos judeus na época do surgimento do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)
Antes da chegada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a Medina, até o início da Hégira, a situação dos judeus em geral no Hijaz, e particularmente em Yathrib, era a seguinte:
Em todos os aspectos — vestuário, língua, civilização e cultura — eles haviam assimilado os costumes dos árabes. Até os nomes da grande maioria deles haviam se tornado árabes. Entre as doze tribos judaicas que se estabeleceram no Hijaz, nenhuma tinha nome hebraico, exceto Banu Zaura. Com exceção de um pequeno número de seus eruditos, ninguém sequer conhecia a língua hebraica. Na poesia dos poetas judeus da época da ignorância que chegou até nós, não se percebe, em sua língua, concepção ou temática, nenhuma característica distinta da poesia árabe que permita diferenciá-la. Também se estabeleceram relações matrimoniais entre eles e os árabes. Na realidade, entre eles e os árabes em geral não havia outra diferença além da religião. Apesar disso, não se fundiram com os árabes e mantiveram rigorosamente o fanatismo judaico. Adotavam publicamente os costumes árabes porque, de outro modo, não poderiam viver na Arábia.
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Por adotarem esses costumes árabes, os orientalistas caíram no equívoco de pensar que talvez eles não fossem israelitas, mas árabes seguidores do judaísmo, ou, no mínimo, que a maioria deles fosse composta de judeus árabes. Contudo, não existe qualquer prova histórica de que os judeus tenham realizado alguma vez atividade de pregação religiosa no Hijaz, ou de que seus eruditos tenham convidado os árabes ao judaísmo, como faziam os sacerdotes e missionários cristãos. Pelo contrário, vemos entre eles um terrível fanatismo por serem israelitas, além de orgulho e arrogância de linhagem. Chamavam os árabes de ummī. Ummī não significa analfabeto, mas sim selvagem e bárbaro. Sua crença era que os ummī não tinham direito a nenhum dos direitos humanos que os israelitas mereciam. Para os israelitas, era lícito e puro pilhar, por meios lícitos ou ilícitos, os bens e riquezas dos ummī. Com exceção dos chefes árabes, não consideravam os árabes comuns suficientemente dignos para serem convertidos ao judaísmo e receberem igual status. Não há qualquer prova histórica, nem qualquer testemunho na tradição árabe, de que alguma tribo árabe ou alguma grande família tenha adotado o judaísmo. Há, contudo, menções a algumas pessoas que se tornaram judias. Além disso, em vez de se dedicarem à pregação religiosa, os judeus estavam interessados apenas no comércio. Por isso, o judaísmo não se difundiu no Hijaz como religião. O que se consolidou foi apenas o orgulho e a arrogância de algumas tribos israelitas. Naturalmente, os eruditos e pīres judeus haviam desenvolvido intensamente o comércio de amuletos, adivinhação e magia, entre outras práticas, e, por isso, seu conhecimento e suas práticas exerciam influência sobre os árabes. (Al-Jihād fī al-Islām, pp. 380–382)
Sua situação econômica
Em comparação com as tribos árabes, sua situação econômica era muito sólida. Como haviam vindo das regiões mais civilizadas da Palestina e da Síria, conheciam muitas artes e técnicas que os árabes desconheciam. Também mantinham relações comerciais com o mundo exterior. Por essas razões, estavam em suas mãos tanto a importação dos cereais para Yathrib e o norte do Hijaz quanto a exportação das tâmaras dessas regiões. A maior parte da criação de galinhas e da piscicultura estava sob seu controle. Fabricavam tecidos. Em vários lugares mantinham tavernas, e importavam vinho da Síria para vendê-lo ali. A maioria dos membros de Banu Qaynuqa trabalhava como ourives, ferreiros e fabricantes de recipientes. Nessas atividades comerciais, os judeus praticavam lucros exorbitantes. Mas seu maior negócio era a usura. Haviam envolvido os habitantes árabes das redondezas em sua rede de juros. Em especial, os xeques e chefes das tribos árabes, endividados, eram acometidos da doença de ostentar luxo e poder. Acabavam presos na rede de dívidas dos judeus. Estes emprestavam dinheiro a juros elevados; depois, o devedor ficava tão enredado na capitalização dos juros que se tornava extremamente difícil libertar-se. Assim, deixavam os árabes completamente desprovidos do ponto de vista econômico. O resultado natural disso era que, em geral, os árabes nutriam ódio contra eles. Seus interesses comerciais e econômicos exigiam que não se tornassem amigos de uns árabes e inimigos de outros, nem participassem de suas disputas mútuas. Por outro lado, seus interesses também exigiam que não se permitisse aos árabes permanecer unidos, mas que fossem mantidos envolvidos em lutas e conflitos uns contra os outros. Pois sabiam que, se as tribos árabes se unissem, não lhes permitiriam conservar as vastas propriedades, pomares e terras férteis de que haviam se tornado donos por meio da usura. Além disso, para sua própria segurança, cada tribo precisava da proteção de alguma tribo poderosa, para que ninguém pudesse atacá-la. Por esse motivo, não apenas tinham de participar das lutas entre as tribos árabes, como muitas vezes uma tribo judaica se unia à sua tribo árabe aliada para lutar contra outra tribo judaica, ao lado da tribo de Khazraj. Pouco antes da Hégira, na sangrenta batalha travada entre Aws e Khazraj no local chamado Buʿāth, lutaram ao lado de seus respectivos aliados. (Tafhīm al-Qurʾān, surata Āl ʿImrān, nota 2)
A aparência exterior ostensiva de religiosidade
Os judeus acreditavam no tawhid, na risalah, na revelação, na vida futura e nos anjos. Também reconheciam as normas da Sharia que haviam sido reveladas por parte de Allah ao seu profeta, o honrado Moisés (que a paz esteja com ele). Em princípio, a religião deles também era o mesmo Islã cujos ensinamentos o profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) transmitia. Porém, vários séculos de decadência os haviam lançado para muito longe da religião original. (Naquela época, já haviam transcorrido cerca de dezenove séculos desde o falecimento de Moisés (que a paz esteja com ele). Segundo a história israelita, o honrado Moisés (que a paz esteja com ele) faleceu em 1272 a.C., e o profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) foi investido com a dignidade da profecia em 610 d.C. — o autor.)
Esforçavam-se para que ele não pudesse ter êxito em sua obra de reforma. Na realidade, eram muçulmanos desviados. Por causa da inovação religiosa, da distorção da verdade, da preocupação com questões minuciosas, das disputas, do desperdício de tempo com assuntos desnecessários após abandonar os assuntos importantes (deixar o cérebro de lado e ficar roendo os ossos), da absorção pelos desejos e pela cobiça do mundo após esquecerem Allah, e de outras coisas semelhantes, sua decadência chegou a um limite tão extremo que chegaram a esquecer até mesmo seu verdadeiro nome, muçulmanos, e permaneceram simplesmente judeus, em vez de se considerarem muçulmanos. Transformaram a religião de Allah em um patrimônio recebido por herança da linhagem israelita. (Surata Al-Hashr, introdução)
Fanatismo religioso e de linhagem
Os judeus acreditavam que a honestidade, a probidade, a sinceridade e a lealdade deveriam existir apenas nas relações mútuas entre judeus. Não havia mal algum em apropriar-se dos bens daqueles que não eram judeus. Isso não era apenas uma concepção fruto da ignorância do povo judeu; na realidade, todo o sistema religioso do judaísmo foi elaborado de tal modo que, nas questões morais, a cada passo estabelece uma distinção entre israelitas e não israelitas: a mesma coisa que é ilícita para os israelitas é lícita para os outros. A mesma coisa que é direito dos israelitas não é direito dos não israelitas. Por exemplo, a instrução da Bíblia diz: “Podes cobrar dos estrangeiros, mas aquilo que tens com teu irmão tua mão deverá perdoar.” (Deuteronômio 15:3.) Em um lugar, foi proibido cobrar juros. Mas pode-se emprestar a um estrangeiro com juros, enquanto não se deve emprestar com juros ao próprio irmão. (Deuteronômio 23:20.) Em outro lugar está escrito: “Se alguém roubar um animal dentre os filhos de Israel, seus irmãos, e o tratar como escravo ou o vender, e for apanhado, esse ladrão será morto.” (Deuteronômio 24:7.) No Talmude consta que, se um boi israelita ferir um boi não israelita, não será necessário pagar qualquer indenização. Mas, se o boi de um não israelita ferir um boi israelita, será necessário pagar indenização. Se alguém encontrar alguma coisa caída em algum lugar, deverá verificar a que povo pertencem os moradores da localidade vizinha. Se forem israelitas, deverá anunciar o achado. Se forem não israelitas, deverá apropriar-se do objeto. O rabino Ismael diz: se um processo entre um ummi e um israelita chegar perante um cádi, e o cádi puder fazer o seu irmão religioso vencer de acordo com a lei israelita, deverá fazê-lo vencer e dizer que isso foi feito segundo a lei deles. E, se puder fazê-lo vencer no processo de acordo com a lei dos ummis, deverá fazê-lo vencer e dizer: “Isso foi feito segundo a vossa lei.” Mas, se não for possível fazê-lo vencer segundo nenhuma das leis, deverá utilizar qualquer artifício para fazê-lo vencer no processo. O rabino Samuel diz: deve-se aproveitar todo erro de um não israelita. (Surata Al-Hashr, introdução)
Abandonar a questão principal e apegar-se aos pormenores
Os eruditos judeus observavam com grande cuidado os pequenos detalhes da Sharia. Pelo contrário, passavam todo o tempo discutindo minuciosamente questões insignificantes. Seus doutores da lei haviam formulado decisões sobre esses pormenores após muita reflexão. Porém, o shirk era, para eles, uma questão tão insignificante que não pensavam em evitar praticá-lo, nem tentavam proteger o povo das ideias e ações politeístas. Sua consciência tampouco os impedia de fazer amizade com os politeístas e de ajudá-los e apoiá-los. (Surata Al-Baqara, introdução)
Distorção da Sharia em favor dos nobres
Um exemplo de como os judeus se afastaram dos preceitos de sua religião encontra-se no caso que os judeus de Khaybar levaram à presença do Profeta (que a paz esteja sobre ele) para que fosse julgado. O caso era o seguinte: uma mulher de uma família nobre de Khaybar havia mantido relações sexuais ilícitas com um homem. Segundo a Torá, a punição para isso era o rajm, isto é, a morte por apedrejamento (Deuteronômio 22:23–24). Porém, os judeus não queriam aplicar essa punição. Assim, após consultarem-se entre si, decidiram aceitar o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) como árbitro nesse caso. Se ele desse uma sentença diferente do rajm, eles a aceitariam; mas, se decretasse o rajm, não a aceitariam. Então, o caso foi apresentado ao Profeta. Ele ordenou o rajm, mas eles se recusaram a aceitá-lo. O Profeta (que a paz esteja sobre ele) perguntou-lhes: “Qual é a punição para isso em vossa religião?” Eles responderam: “Açoitá-los, pintar seus rostos com cal e fazê-los montar de costas sobre um jumento.” O Profeta (que a paz esteja sobre ele) perguntou solenemente a seus eruditos: “A Torá prescreve essa punição para o adúltero e a adúltera casados?” Eles deram novamente uma resposta falsa. Entretanto, um homem chamado Ibn Surayya era, segundo o próprio relato dos judeus, o maior erudito da Torá naquele tempo, e permanecera calado. Dirigindo-se a ele, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: “Pelo Deus que vos libertou das mãos do Faraó e que vos concedeu a sharia no monte Tūr, pergunto-te: qual é, verdadeiramente, a punição pelo adultério escrita na Torá?” Ele respondeu: “Se você não tivesse feito esse juramento, eu não teria dito. A verdade é que a punição pelo adultério é realmente o rajm. Mas, quando o adultério se espalhou em nossa sociedade, nossos governantes adotaram o costume de deixar livre o nobre que cometesse adultério. Se alguém das classes inferiores cometesse adultério, era apedrejado. Depois, quando começou a surgir descontentamento entre o povo, a lei foi alterada, determinando-se que o adúltero e a adúltera deveriam ser açoitados, ter o rosto pintado com cal e ser colocados de costas sobre um jumento.” (Surata Āl ʿImrān, nota 64)
Alterações no lícito e no ilícito da sharia
Quando os judeus se rebelaram contra a sharia revelada por Allah, o Altíssimo, e se arrogaram legisladores da sharia, passaram a fazer uma análise minuciosa de muitas coisas puras e lícitas. Entre elas estavam os animais de casco fendido, isto é, o avestruz, o cisne e semelhantes. Em segundo lugar, a gordura de bovinos e caprinos. Na Bíblia, as determinações que proibiam esses dois tipos de coisas foram inseridas na Torá. Contudo, essas coisas não eram proibidas na Torá; foram proibidas somente depois de Moisés (que a paz esteja sobre ele). A história também testemunha que a atual lei religiosa judaica foi formulada pelo rabino Yehuda no final do segundo século cristão. (Surata An-Nisāʾ, nota 80)
A atitude irracional dos judeus em relação ao Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele)
O Alcorão diz:(Árabe****)“E agora, quando lhes chegou um Livro da parte de Allah, que tipo de atitude demonstraram para com ele? Embora esse Livro confirme a verdade daquilo que já estava em sua posse e, antes de sua chegada, eles pedissem vitória e auxílio contra os descrentes. Ainda assim, quando essa coisa chegou diante deles e eles também a reconheceram, recusaram-se a aceitá-la.” — Surata Al-Baqarah: 89
Antes da chegada do Profeta (que a paz esteja sobre ele), os judeus aguardavam ansiosamente e defendiam aquele profeta cuja vinda havia sido anunciada por seus profetas. Eles suplicavam que, se ele chegasse logo, o domínio dos descrentes terminaria e começaria uma era de prosperidade para eles. Os próprios habitantes de Medina testemunham que, antes da chegada do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), os judeus contavam os dias, esperando o profeta que viria no futuro, e diziam a todo momento: “Está bem, continuem a oprimir quem quiserem. Quando esse profeta vier, cuidaremos dos opressores.” Os habitantes de Medina ouviam essas palavras. Por isso, quando tomaram conhecimento da realidade do Profeta (que a paz esteja sobre ele), começaram a dizer uns aos outros: “Vejam, não permitam que esses judeus levem vantagem sobre vocês. Vamos abraçar a fé nele antes deles.” Mas o surpreendente é que aqueles mesmos judeus, que contavam as horas aguardando a chegada do profeta vindouro, tornaram-se, depois de sua chegada, seus maiores opositores.
“E eles também o reconheceram” — diversas provas dessa afirmação do Alcorão foram encontradas naquela época. O testemunho mais confiável é o de Umm al-Mu’minin, a senhora Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela era filha de um renomado erudito judeu e sobrinha de outro erudito. Ela disse: “Quando o Profeta (que a paz esteja sobre ele) chegou a Medina, meu pai e meu tio foram ambos visitá-lo e conversaram longamente com ele. Depois que retornaram para casa, ouvi com meus próprios ouvidos os dois conversarem da seguinte maneira:”
Tio: “Será que este é realmente o profeta cuja boa-nova foi anunciada em nossos Livros?”
Pai: Juro por Allah, é verdade.
Tio: Tu acreditas nisso?
Pai: Sim, acredito.
Tio: Então, o que pretendes fazer agora?
Pai: Enquanto eu viver, continuarei a opor-me a ele e não permitirei que diga coisa alguma. (Ibn Hisham, 2.º volume, p. 165, nova edição) (Surata Al-Ma’idah, nota 70)
A criação de intrigas hostis pelos judeus
Os árabes eram geralmente iletrados. Em comparação com eles, a prática do conhecimento era naturalmente muito mais difundida entre os judeus. Havia entre eles, individualmente, grandes eruditos cuja fama se espalhara para além da Arábia. Por isso, a influência educacional dos judeus na Arábia era muito grande. Além disso, os seus sábios, guias religiosos e sacerdotes reforçavam e ampliavam essa influência por meio do esplendor exterior dos seus santuários religiosos e do comércio de exorcismos, amuletos e talismãs. Os habitantes de Medina, em particular, eram muito influenciados por eles, pois grandes tribos judaicas viviam nas suas proximidades. Mantinham contato com eles dia e noite. Por meio desse contato, eram profundamente influenciados, tal como uma população iletrada costuma ser influenciada por vizinhos mais instruídos, mais civilizados e dotados de eminentes personalidades religiosas. Nessas circunstâncias, quando o Profeta (que a paz esteja sobre ele) se apresentou como profeta e começou a convidar as pessoas ao Islão, era natural que os iletrados fossem aos judeus, o Povo do Livro, e perguntassem: “Vós sois seguidores de um profeta e seguis um Livro; dizei-nos: entre nós há alguém que afirma ser profeta — qual é a vossa opinião sobre ele e sobre os seus ensinamentos?” Mesmo depois de o Profeta (que a paz esteja sobre ele) chegar a Medina, muitas pessoas continuaram a dirigir-se dessa maneira aos sábios judeus. Contudo, esses sábios judeus nunca lhes diziam a verdade. Era-lhes difícil dizer que o tawhid que ele apresentava estava errado, ou que havia algum erro no que ele dizia sobre os profetas, os Livros celestiais, os anjos e a Outra Vida, ou que algum dos princípios morais que ensinava estava errado. Mas também não estavam dispostos a admitir claramente que tudo o que ele apresentava era verdadeiro. Não conseguiam negar abertamente a verdade, nem estavam dispostos a aceitá-la com simplicidade. Entre esses dois caminhos, adotaram o método de lançar na mente de cada questionador alguma insinuação contra o Profeta (que a paz esteja sobre ele), contra o seu grupo e contra a sua grande obra; faziam-lhe alguma acusação e lançavam contra ele uma calúnia absurda, capaz de provocar dúvidas, hesitação e conflito na mente das pessoas; e levantavam questões de vários tipos que causavam constrangimento às pessoas e as levavam a tentar constranger também o Profeta e os seus companheiros. Foi esse o seu comportamento que motivou a seguinte advertência dirigida a eles na Surata Al-Baqarah: não cubrais a verdade com o véu da falsidade; não tenteis suprimir e ocultar a verdade por meio de propaganda falsa, da criação maliciosa de dúvidas e de acusações; e não tenteis enganar o mundo misturando a verdade com a falsidade. — Surata Al-Baqarah, 2:42 (A extensão dos malefícios dos judeus é muito ampla. Presos na teia das suas insinuações, hipócritas surgiram dentro da comunidade islâmica. Em todos os assuntos, eles demonstraram alguma audácia contra o Profeta (que a paz esteja sobre ele), tentaram repetidamente assassiná-lo, e a sua máxima insolência foi envolver-se em atos destrutivos nos momentos decisivos das guerras. Essas suas insolências serão mencionadas nos seus devidos lugares. — O autor)
O surgimento e o desenvolvimento do cristianismo
Explicação da palavra nasara
É equivocada a ideia de algumas pessoas de que a palavra nasara deriva de Nazaré, que era a terra natal do Messias (que a paz esteja sobre ele). Na realidade, essa palavra deriva de nusrat. Sua base é a declaração que os discípulos fizeram em resposta à pergunta do Messias (que a paz esteja sobre ele): (Árabe*****)“Quem me ajudará no caminho de Allah?” — disseram os discípulos (Árabe***)“Nós somos auxiliadores na causa de Allah.” Os autores cristãos geralmente formaram essa concepção equivocada apenas pela semelhança externa entre as duas palavras: na história inicial do cristianismo, havia um grupo chamado nazarenos (Nazarenes), cujos membros eram chamados, com desprezo, de nazarenos e ebionitas; assim, pensaram que o Alcorão havia usado o nome deles para todos os cristãos. Contudo, o Alcorão afirma claramente que eles próprios disseram: “Nós somos nasara” — (Surata آل عمران, 52) — e é verdade que os cristãos jamais adotaram para si o nome nazarenos. (Surata Al-Baqarah, nota 95)
Cabe observar a esse respeito que Jesus, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), jamais deu a seus seguidores o nome de “jesuítas” ou “cristãos”. Isso porque ele não veio fundar uma nova religião em seu próprio nome. Seu propósito na pregação era reviver a religião que Moisés (que a paz esteja sobre ele), assim como os profetas anteriores e posteriores, havia trazido. Por isso, não formou nenhuma comunidade separada do conjunto dos Filhos de Israel e dos seguidores da Lei de Moisés, nem estabeleceu para ela qualquer nome permanente. Seus primeiros seguidores não se consideravam distintos da comunidade israelita; tampouco se constituíram em um grupo permanente ou determinaram para si um nome e símbolos distintivos. Eles iam adorar no próprio templo de Jerusalém junto com os judeus comuns e consideravam-se obedientes à Lei de Moisés. — Veja Atos dos Apóstolos 3:1; 10:14,15; 21:21.
A separação dos seguidores de Jesus do povo israelita
Mais tarde, o processo de separação começou por dois lados. De um lado, entre os seguidores de Jesus (que a paz esteja sobre ele), São Paulo aboliu a obrigatoriedade da Lei e declarou que somente crer no Messias era suficiente para a salvação. De outro lado, os eruditos judeus consideraram os seguidores do Messias um grupo desviado e separaram-nos do povo israelita. Apesar dessa separação, inicialmente não foi dado nenhum nome específico a esse novo grupo. Os próprios seguidores do Messias às vezes usavam para si a palavra “discípulos” (alunos); às vezes empregavam as palavras “crentes” e “fiéis” para seus companheiros; e, outras vezes, eram chamados de “santos” — (Atos dos Apóstolos 2:44; 4:32; 9:26; 11:29; 13:52; 15:1–23; Romanos 15:25; Colossenses 1:2). Por outro lado, os judeus às vezes os chamavam de galileus e, outras vezes, de seita herética dos nazarenos — (Atos dos Apóstolos 24:5; Lucas 13:2). Eram chamados assim por escárnio, pois a terra natal de Jesus (que a paz esteja sobre ele) era Nazaré, que fazia parte da região da Galileia, na Palestina. Contudo, esse nome pejorativo não se difundiu a tal ponto que pudesse adquirir prestígio como designação dos seguidores do Messias.
Como eles passaram a ser chamados de messiânicos ou cristãos?
O nome “cristãos” foi dado pela primeira vez a esse grupo no ano 43 ou 54 da era cristã pelos habitantes pagãos de Antioquia, quando Paulo e Barnabé foram até lá e começaram a realizar atividades de pregação religiosa — (Atos dos Apóstolos 11:26). Eles foram chamados assim por zombaria, por parte dos opositores, e os seguidores do Messias recusaram-se a aceitar esse nome para si. Contudo, quando seus inimigos continuaram a dirigir-se a eles por esse nome, seus líderes disseram: “Se vocês são chamados de cristãos por serem associados ao Messias, que vergonha há nisso?” (1 Pedro 4:16). Assim, eles próprios passaram gradualmente a designar-se pelo nome que seus inimigos lhes haviam atribuído em tom de zombaria. Por fim, desapareceu entre eles até mesmo a consciência de que esse era um nome pejorativo pelo qual eram chamados.
Por isso, o Alcorão Sagrado não chama os seguidores do Messias pelos nomes de messiânicos ou cristãos. Pelo contrário, recorda-lhes que, na realidade, são descendentes daqueles a quem Jesus, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), se dirigiu dizendo (Árabe*****)“Quem há que me ajude no caminho de Allah?” — e eles responderam (Árabe****)“Nós somos auxiliadores no caminho de Allah.” Por isso, em seu sentido original ou fundamental, eles são nasara ou ansar. Hoje, porém, os missionários cristãos, em vez de expressarem gratidão ao Alcorão por lhes recordar isso, queixam-se de que o Alcorão os chama de nasara, em vez de messiânicos ou cristãos. (Surata Al-Baqarah, nota 58)
A época do surgimento do cristianismo
O judaísmo e o cristianismo são criações posteriores. O judaísmo surgiu, com seu nome, suas características e seus ritos e métodos, nos séculos III e IV antes de Cristo. O conjunto de conceitos, crenças e doutrinas religiosas específicas chamado cristianismo só veio a existir muito tempo depois de Jesus, o Messias. Surge então naturalmente a pergunta: se estar na orientação ou no caminho da verdade depende do judaísmo, do cristianismo ou exclusivamente do cristianismo, de que coisa receberam orientação Abraão e os demais profetas, que nasceram muitos séculos antes dessas duas religiões e que são reconhecidos também por judeus e cristãos como pessoas guiadas? É certo que essa coisa não era o judaísmo nem o cristianismo. Assim, torna-se evidente que a orientação dos seres humanos não depende das características religiosas que deram origem a diversos grupos, como os judeus e os cristãos. Pelo contrário, ela depende, na realidade, de seguir esse caminho reto universal, por meio do qual as pessoas têm recebido orientação em todas as épocas.
Em segundo lugar, as próprias Escrituras sagradas dos judeus e dos cristãos testemunham que Abraão não adorava, venerava, servia nem reconhecia a obediência a ninguém além do Deus único. Sua missão também consistia em não associar ninguém a Deus em Seus atributos e características. Portanto, é absolutamente claro que tanto o judaísmo quanto o cristianismo se desviaram do caminho verdadeiro seguido por Abraão, pois o shirk foi introduzido nessas duas religiões. (Surata Al-Maida, nota 36)
Os cristãos qualificarem Jesus como Deus
Em primeiro lugar, os cristãos cometem o erro de considerar a pessoa do Messias uma entidade composta de humanidade e divindade (Divinity), fazendo com que a realidade do Messias permaneça para eles como um enigma. Quanto mais seus eruditos tentaram resolver esse enigma por meio de jogos de palavras e conjecturas, mais se envolveram em complicações. Entre eles, aquele em cuja mente predominou o aspecto humano dessa personalidade composta insistiu que Jesus, o Messias, era filho de Deus e um dos três deuses eternos. Aquele em cuja mente predominou o aspecto da divindade (uluhiyyah) considerou o Messias uma manifestação corpórea de Deus, transformou-o inteiramente em Deus e adorou-o como Deus. Aqueles que tentaram encontrar um caminho intermediário entre essas duas posições empregaram toda a sua capacidade em interpretações verbais por meio das quais o Messias continuou a ser chamado de homem e, ao mesmo tempo, passou a ser considerado Deus. Deus e o Messias são duas entidades distintas e também uma só. (Surata Al-Maida, nota 36)
O significado de Jesus, filho de Maria, ser a Palavra de Deus
(Árabe*****)
O Messias Jesus, filho de Maria, não era senão o Mensageiro de Deus e uma ordem Sua. — Surata An-Nissa: 171
Na realidade, foi usada a palavra Kalima. O significado do envio de uma Kalima a Maria é que Allah, o Altíssimo, decretou no útero de Maria que ela concebesse sem ter sido fecundada por nenhum homem. Aos cristãos havia sido inicialmente revelado justamente este mistério do nascimento do Messias sem pai. Porém, desviados pela filosofia grega, primeiro consideraram a palavra Kalima como sinônimo de fala ou faculdade da linguagem. Depois, aceitaram essa fala e faculdade da linguagem como o significado do atributo próprio de Allah, o Altíssimo, de falar. Em seguida, chegaram à conclusão especulativa de que esse atributo próprio de Allah entrou no ventre de Maria e assumiu uma forma corpórea, manifestando-se como o Messias. Assim, surgiu entre os cristãos a falsa ideia de que o Messias era Allah, e consolidou-se a crença errônea de que o próprio Allah, ou o atributo da fala entre Seus atributos eternos, se manifestara na forma do Messias. (Sura Al-Baqara, nota 135)
A concepção da Trindade
No versículo 171 da Sura An-Nisa, o Messias é chamado de um espírito proveniente de Allah, e na Sura Al-Baqara o assunto é expresso assim: «Nós o fortalecemos com o Espírito Puro.»(Árabe*****)O significado de ambas as declarações originais é que Allah, o Altíssimo, concedeu ao Messias um espírito tão puro que está acima do pecado, é perfeitamente veraz e adornado com a excelência de um caráter completo. Foi essa a definição transmitida aos cristãos. Eles a exageraram: consideraram o Ruhun min Allah como o próprio espírito de Allah e interpretaram o Espírito Santo (Holy Ghost) como sendo o espírito puro de Allah que assumira uma forma dentro do Messias. Assim, fizeram do Espírito Santo um terceiro deus, juntamente com Allah e o Messias. Esse foi o segundo extremo exagero dos cristãos, pelo qual se desviaram. O mais curioso é que até hoje se encontra no Evangelho de Mateus a seguinte afirmação: um anjo disse em sonho a José, o carpinteiro: «Ó José, filho de Davi! Não temas receber Maria, tua esposa, pois o que há em seu ventre é pelo poder do Espírito Santo.» (Capítulo 1:2). (Sura Al-Maida, nota 39)
A realidade é que os cristãos reconhecem simultaneamente o Tawhid e a Trindade. Com base nas declarações claras do Messias encontradas nos Evangelhos, nenhum cristão pode negar que Allah é um só e que não há outro deus além d’Ele. Eles não têm alternativa senão reconhecer que o Tawhid é a verdadeira religião. Porém, desde o início, foram dominados pela falsa ideia de que a Palavra de Allah se manifestara na forma do Messias e que o Espírito de Allah assumira uma forma nele. Por essa razão, consideraram desnecessário para si mesmos reconhecer a divindade do Messias e do Espírito Santo juntamente com a divindade de Allah, o Criador do universo, e acabaram tornando isso obrigatório. Por se imporem essa crença à força, o assunto tornou-se para eles um enigma insolúvel: como aceitar a crença no Tawhid apesar da crença na Trindade, e a crença no Tawhid apesar da crença na Trindade? Os eruditos cristãos vêm tentando resolver esse problema criado por eles próprios há cerca de mil e oitocentos anos. Devido às diferentes interpretações, formaram-se numerosos grupos pequenos; cada grupo declarou o outro incrédulo ou kafir, e, em meio a disputas e conflitos, igreja após igreja foi se separando. Toda a força da sua teologia foi empregada nessa tarefa. No entanto, esse problema não foi criado por Deus nem pelo Messias enviado por Ele, e não há solução para a ideia de que se deve reconhecer três deuses e, depois, manter intacta a unidade de Deus. Foram seus exageros e excessos que criaram esse problema. A única solução é que abandonem os exageros e as hipérboles, renunciem à ideia da divindade do Messias e do Espírito Santo, reconheçam somente Allah como o único Deus e considerem o Messias Seu profeta, sem atribuir-lhe, de forma alguma, qualquer participação na divindade. (Sura An-Nisa, nota 212)
O politeísmo e a adoração de figuras religiosas
Em meados do século V da era cristã, o politeísmo, a adoração de figuras religiosas e a adoração de túmulos adquiriram grande força entre os cristãos em geral e, especialmente, nas igrejas católicas romanas. A adoração passou a ser praticada nos santuários dos veneráveis, e estátuas do Messias, de Maria e das houris celestiais foram colocadas nas igrejas. Pouco antes do surgimento dos Companheiros da Caverna, em 431 d.C., realizou-se em um lugar chamado Éfeso um concílio dos líderes religiosos de todo o mundo cristão. Nesse concílio, consolidaram-se a crença na divindade do Messias e a ideia de que Maria era a mãe de Deus. Ao observar essa história, pode-se compreender claramente que(Árabe***)a expressão do Alcorão alude àquelas pessoas que, em oposição aos seguidores sinceros do Messias, haviam se tornado, naquela época, líderes e autoridades do povo cristão, detendo em suas mãos a autoridade religiosa e política. Na realidade, eram eles os porta-estandartes do politeísmo. Foram eles que decidiram que se erguesse um mausoléu sobre os Companheiros da Caverna e que este fosse objeto de adoração. (Sura An-Nisa, nota 212)
O cristianismo atual e São Paulo
Os primeiros seguidores de Jesus, que a paz esteja com ele, reconheciam-no como profeta. Eram seguidores da Lei de Moisés. Em matéria de crenças, mandamentos, preceitos e adoração, não se consideravam de modo algum diferentes dos demais israelitas. Sua única divergência com os judeus era que eles reconheciam Jesus como o Messias e tinham fé nele, enquanto os judeus se recusavam a reconhecê-lo como Messias. Mais tarde, quando São Paulo se juntou a esse grupo, o grupo dos seguidores de Jesus, começou a difundir essa religião entre os romanos, os gregos e outros povos não judeus e não israelitas. Para esse propósito, introduziu uma nova religião cujas crenças, princípios fundamentais e instruções eram completamente diferentes da religião apresentada por Jesus. São Paulo nunca teve qualquer companhia de Jesus; pelo contrário, durante sua vida foi seu ferrenho opositor. Mesmo depois disso, durante vários anos, continuou sendo o maior inimigo de seus seguidores. Quando então se juntou ao grupo e começou a introduzir uma nova religião, ainda assim não apresentou nenhuma declaração de Jesus como autoridade. Pelo contrário, a base dessa nova religião era sua revelação e inspiração, ou suas emoções e exaltações espontâneas. Seu objetivo ao introduzir essa nova religião era que ela fosse de tal natureza que pudesse ser aceita pelas massas não judias do mundo (gentios). Declarou que um cristão estava livre de todas as restrições da Lei judaica. Aboliu as proibições de lícito e ilícito relativas à alimentação e à bebida. Também aboliu a circuncisão, que era detestada pelos povos não judeus do mundo. Por fim, formulou também a crença na divindade do Messias, em sua condição de filho de Deus e em sua crucificação como expiação pelos pecados de toda a humanidade, pois isso estava de acordo com a natureza dos politeístas comuns. Os primeiros seguidores do Messias opuseram-se a essa nova inovação e crença religiosa. Porém, pela porta que São Paulo havia aberto, entrou nessa nova religião uma inundação tão grande de cristãos não judeus que aquele pequeno grupo não conseguiu resistir. Ainda assim, até o final do século III d.C., havia numerosas pessoas que negavam a crença na divindade do Messias.
A disseminação da doutrina e crença paulina
No início do século IV (325 d.C.), o Concílio de Niceia (Nicaea Council) declarou a doutrina e crença paulina como a religião incontestável e universalmente aceita do cristianismo. Depois, o imperador romano adotou o cristianismo e, durante o reinado do imperador Teodósio, essa religião tornou-se a religião do Estado. Naturalmente, todos os livros que eram contrários a essa doutrina e crença foram rejeitados, enquanto foram considerados confiáveis aqueles que estavam de acordo com essa nova doutrina e crença. Em 367 d.C., por meio de uma carta de Atanásio I, foi anunciada a lista dos livros confiáveis e universalmente aceitos. Depois, ela foi aprovada em uma assembleia presidida por Damasias (Damasias). No final do século V, ao declarar universalmente aceita essa coletânea de livros, o papa Gelásio (Gelasius) também preparou uma lista dos livros que eram inaceitáveis. Contudo, nenhum erudito cristão jamais pôde afirmar que, quanto à doutrina e crença paulina com base na qual se decidia quais escritos religiosos eram confiáveis ou não, algum de seus ensinamentos de crença tivesse sido transmitido por Jesus. Pelo contrário, nem mesmo nas palavras de Jesus contidas nos livros da Bíblia incluídos entre os escritos confiáveis se encontra qualquer prova dessa nova doutrina e crença. (Surata An-Nisá, nota 215)
O surgimento do ascetismo e suas causas
Durante duzentos anos após Jesus, o ascetismo não tocou as igrejas cristãs. Contudo, desde o início já se encontravam vestígios dele no cristianismo (deturpado), e nele estavam presentes aquelas concepções que deram origem a essa prática. Considerar a renúncia e o desprendimento das coisas materiais como o caráter ideal, e considerar a vida de dervixe superior ao casamento e à vida mundana, constituem a base do ascetismo; ambas as coisas já existiam no cristianismo desde o princípio. Especialmente por se considerar o celibato sinônimo de pureza, passou a ser visto como indesejável que aqueles que exerciam atividades religiosas na igreja se casassem e, tornando-se pais e mães, se ocupassem dos encargos da vida familiar. Por volta do século III, isso assumiu a forma de uma fitna, e o ascetismo começou a espalhar-se pelo cristianismo como uma epidemia.
Três causas
Do ponto de vista histórico, houve três grandes causas:
Primeira: para conter a imoralidade sexual, a pecaminosidade e o apego ao mundo, que haviam se disseminado amplamente na antiga sociedade politeísta, os eruditos cristãos adotaram uma postura extremista em vez de manter o equilíbrio. Deram tanta importância à castidade que consideraram impura a relação entre homens e mulheres, mesmo quando ocorria por meio do casamento. Adotaram uma severidade tão grande contra a vida mundana que passou a ser considerado pecado um homem religioso possuir bens, e tornou-se um padrão de caráter que a pessoa fosse desprovida de recursos e renunciasse à vida familiar em todos os aspectos. Assim, em resposta à luxúria e ao desfrute da sociedade politeísta, adotaram uma postura tão extremista que evitar os prazeres, destruir os impulsos e eliminar os desejos se tornaram objetivos do caráter. Fazer o corpo sofrer por meio de várias formas de austeridade passou a ser considerado a perfeição da espiritualidade e sua prova.
Segunda: quando o cristianismo alcançou o sucesso e começou a difundir-se entre o povo, a igreja, visando promover e expandir sua religião, passou a incorporar todo ato pecaminoso que agradava às pessoas. No lugar da antiga idolatria, começou a adoração de santos, dervixes e sábios. No lugar das imagens de Hórus (Horus) e Ísis (Isis), começou a adoração de imagens de Cristo e de Maria. Em vez da Saturnália (Saturnalia), começou a ser celebrada a festa de Sams. Os dervixes cristãos começaram a praticar todos os amuletos, talismãs, fórmulas mágicas, astrologia, adivinhação e práticas de expulsão de gênios e demônios da antiguidade.
Assim, como o povo considerava enviado por Allah qualquer pessoa que permanecesse suja e nua, vivendo em algum buraco ou caverna nas montanhas, essa concepção de ser um dos protegidos de Allah ganhou popularidade na Igreja cristã, e livros com relatos milagrosos de pessoas desse tipo começaram a ser escritos entre os cristãos.
Três: para determinar os limites da religião, os cristãos não possuíam nenhuma sharia detalhada nem uma sunnah ou tradição clara. Eles haviam abandonado a sharia de Moisés, e não se encontrava nenhuma orientação completa apenas no Injil. Por isso, influenciados por certas filosofias e costumes externos e baseando-se em suas próprias inclinações e tendências, os eruditos cristãos começaram a introduzir vários tipos de bid‘ah na religião. O ascetismo era uma delas.
A origem do ascetismo e seus líderes
Os eruditos e líderes do cristianismo adotaram a filosofia e os métodos do ascetismo dos monges budistas, dos iogues e sannyasis hindus, dos eremitas ascetas (Anchorites) do antigo Egito, dos ascetas do Irã, e de Pelto e seus seguidores. Eles consideravam isso um método de purificação da alma, um meio de desenvolvimento espiritual e uma forma de alcançar a proximidade de Allah. Não foram pessoas comuns que cometeram esse erro. Do século III ao século VII, isto é, até a época da revelação do Alcorão, todos aqueles que, no Oriente e no Ocidente, eram reverenciados como grandes eruditos religiosos, sábios e líderes do cristianismo — tais como Santo Atanásio, São Basílio, São Gregório, São Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho, São Bento, Gregório Magno e outros — eram todos renunciantes do mundo e porta-estandartes do ascetismo. Foi por seus esforços que o ascetismo se estabeleceu na Igreja.
O primeiro monge e o primeiro khanqah ou mosteiro
A história mostra que o ascetismo entre os cristãos começou no Egito. Seu fundador foi Santo Antônio (250 d.C.–350 d.C.). Ele foi o primeiro monge cristão. Estabeleceu seu primeiro khanqah no lugar chamado Paspir, na região de Faiyum, hoje conhecido como Dayr al-Maymun. Depois, construiu um segundo khanqah ou mosteiro (Monk) às margens do Mar Vermelho, atualmente chamado Dayr Mar Antonios. As regras e os métodos fundamentais do ascetismo entre os cristãos foram adotados a partir de seus escritos e orientações.
Construção de mosteiros por toda parte
Após esse início, começou em todo o Egito uma intensa construção de mosteiros, e mosteiros para monges e monjas foram construídos em vários lugares. Alguns deles eram construídos para acomodar, juntos, três mil monges. Em 325 d.C., surgiu no Egito um monge cristão chamado Pacomius, que construiu dez grandes mosteiros para monges e monjas. Depois, essa prática se espalhou pela Síria, Palestina e por vários países da África e da Europa. No início, os administradores da Igreja enfrentaram enormes dificuldades em relação a esse ascetismo. Isso porque consideravam a renúncia ao mundo, o celibato, a pobreza e a ausência de bens como ideais da vida espiritual, mas não consideravam pecado que as pessoas se casassem, tivessem filhos e possuíssem bens, como faziam os monges. Finalmente, sob a influência de pessoas como Atanásio (falecido em 303 d.C.), São Basílio (falecido em 379 d.C.), Santo Agostinho (falecido em 430 d.C.) e Gregório Magno (falecido em 609 d.C.), muitos costumes e métodos do ascetismo ingressaram devidamente na administração da Igreja.
Características da continuidade do ascetismo
A seguir, são descritas resumidamente algumas características dessa inovação ascética:
Uma: sua primeira característica é a prática de austeridades rigorosas e a tortura do corpo por meios sempre novos.
Duas: permanecer sempre sujo e imundo era a segunda característica. Eles se mantinham afastados da limpeza e da higiene. Para eles, tomar banho ou molhar o corpo era contrário à adoração de Allah. Consideravam a limpeza do corpo uma impureza da mente.
Três: o ascetismo, na prática, tornou absolutamente ilícita a vida conjugal e eliminou cruelmente as relações matrimoniais. Todos os escritos dos séculos IV e V estão repletos da afirmação de que a virgindade é o mais elevado padrão moral e que castidade significa abster-se completamente de relações sexuais, mesmo entre marido e mulher. Considerava-se que a perfeição da vida pura consistia em a pessoa destruir completamente o seu nafs, sem deixar nele qualquer desejo de prazer corporal. Segundo eles, era necessário eliminar os desejos, pois estes fortaleciam os instintos bestiais. Para eles, prazer e pecado eram usados com o mesmo sentido. Até mesmo desfrutar da alegria, a seus olhos, equivalia a esquecer Allah. São Basílio declarou proibidos tanto o riso quanto o sorriso. Com base nessas ideias, as relações matrimoniais entre homem e mulher eram consideradas impuras por eles. Para um monge, era proibido não só casar-se, mas até mesmo contemplar a figura de uma mulher. Se fosse casado, deveria abandonar a esposa e partir. Também se incutia nas mulheres a ideia de que, se quisessem entrar no reino dos céus, deveriam permanecer virgens por toda a vida; seriam noivas ou esposas do Messias e teriam a sorte de se tornar a mãe de Deus, isto é, a sogra do Messias (Mother in Law of God). Em outro lugar, ele diz que a primeira tarefa do caminhante desse caminho (salik) é cortar, com o machado da castidade, a madeira das relações conjugais. Como resultado desses ensinamentos, depois de despertada a motivação religiosa, a primeira consequência sobre um homem cristão e uma mulher cristã era que sua vida conjugal feliz chegava para sempre ao fim.
A administração da Igreja continuou, durante três séculos, a opor-se, tanto quanto podia, a essa concepção extrema e radical. No século IV, consolidou-se gradualmente a ideia de que era extremamente abominável que alguém encarregado de exercer uma função na Igreja fosse casado. Em 362 d.C., o Concílio de Gengra (Council of Gengra) foi a última instituição ou assembleia a considerar ideias e crenças desse tipo contrárias à religião. Porém, pouco tempo depois, em 386 d.C., o Sínodo Romano aconselhou todos os sacerdotes a se manterem afastados das relações conjugais. No ano seguinte, Sirício determinou que qualquer sacerdote que se casasse ou mantivesse relações com a esposa depois do casamento seria destituído do cargo.
Quatro: o aspecto mais doloroso do ascetismo é que ele também rompeu os laços entre pais e mães, irmãos e irmãs, e filhos e descendentes. Aos olhos dos santos e monges cristãos, o amor dos filhos pelos pais, o amor dos irmãos e irmãs entre si e o amor dos pais pelos filhos também eram pecados. Para eles, era indispensável, visando ao progresso espiritual, que a pessoa rompesse todos os laços. A perspectiva do ascetismo a esse respeito era que aquele que desejasse o amor de Deus deveria romper todos os vínculos do amor humano que, neste mundo, o ligavam a pais, irmãos, irmãs e filhos.
Cinco: o hábito de tratar os parentes próximos com crueldade, brutalidade e dureza fazia com que seus sentimentos humanos desaparecessem. A consequência disso foi que infligiam extrema opressão e perseguição àqueles com quem tinham divergências religiosas. Até o século IV, o cristianismo dividiu-se em oitenta ou noventa pequenos grupos. Santo Agostinho contou 88 desses grupos em sua própria época. Esses grupos nutriam extremo ódio uns pelos outros. Eram os monges que acendiam o fogo desse ódio. Os monges também estavam na vanguarda quando se tratava de queimar e matar os adversários que mantinham opiniões divergentes. O auge desses conflitos entre grupos ocorreu em Escandária, ou Alexandria.
Seis: não se reduziu a aquisição de riquezas mundanas, apesar da renúncia, do desapego aos bens materiais e da vida de faquir e dervixe. No início do século V, a situação havia chegado a tal ponto que o bispo de Roma vivia em seu próprio palácio, em grande esplendor. Quando sua carruagem saía às ruas, seu luxo e magnificência não ficavam, em nenhum aspecto, atrás dos do imperador romano. À medida que o fluxo de riquezas para os mosteiros e as igrejas se estendeu até o século VII (a época da revelação do Alcorão), ele assumiu a forma de uma poderosa inundação. — Em especial, a causa dessa decadência foi que, quando o povo começou a nutrir uma reverência excessiva pelos monges, impressionado por sua extraordinária ascese e pelo extremo de sua luta contra os desejos, muitos indivíduos ávidos por riquezas vestiram trajes de dervixe e ingressaram no grupo dos monges; sob o disfarce da renúncia ao mundo, eles tornaram tão próspero o negócio de obter riquezas mundanas que até os maiores ambiciosos do mundo se sentiam inferiorizados diante deles.
Sete: também no que diz respeito à castidade, o ascetismo, ao lutar contra a natureza, sofreu repetidas derrotas. Nos mosteiros, havia práticas tão rigorosas de repressão dos desejos que os sacerdotes ascetas viviam juntos e, às vezes, para um exercício ainda mais severo, passavam a noite na mesma cama. São Evágrio (St. Evagrius), elogiando a repressão dos desejos praticada por esse tipo de sacerdote na Palestina, diz que eles tomavam banho junto com mulheres praticantes de ascetismo, viam-se uns aos outros, tocavam-se e até se abraçavam. Ainda assim, a natureza não podia ser vencida. — Aqueles que lutam contra a natureza não escapam de sua vingança. Ao desafiar a natureza, o ascetismo acabou caindo no profundo abismo da imoralidade; sua história vergonhosa é uma mancha indelével na história religiosa do período entre os séculos VIII e XI. — Nas obras escritas pelos autores medievais, foram registradas numerosas acusações de que os conventos ou mosteiros das freiras haviam se transformado em palcos de imoralidade. Dentro de suas quatro paredes, ocorria o assassinato desenfreado de recém-nascidos. Sacerdotes e funcionários religiosos das igrejas mantinham relações ilícitas até mesmo com aquelas com quem lhes era proibido contrair matrimônio. Os crimes contra a natureza nos mosteiros também assumiram grandes proporções. (Surata Al-Kahf, nota 20)
O valor histórico dos livros da Bíblia
Assim como entre os judeus, também entre os cristãos não foi possível conservar as Escrituras celestiais. Por isso, ideias equivocadas, crenças e instruções penetraram na religião por meio da distorção. Se a Bíblia original (o Injil) tivesse sido preservada, o cristianismo não teria surgido em sua forma atual. A seguir, apresenta-se a pesquisa de Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi sobre os livros da Bíblia. (Os compiladores)
Investigação sobre as fontes
O conjunto de livros que hoje chamamos de Injil ou Bíblia contém, na realidade, quatro grandes livros: Mateus (Mathew), Marcos (Mark), Lucas (Luke) e João (John). Contudo, nenhum deles é um livro revelado a Hazrat Isa (a.s.). Assim como no Sagrado Alcorão estão reunidos todos os versículos e suratas revelados por Allah a Muhammad (s.a.w.), não se encontra reunida em nenhum livro a revelação que foi feita a Hazrat Isa (a.s.); além disso, esses livros reúnem os bons conselhos e as orientações transmitidos pelos discípulos de Hazrat Isa (a.s.) ou pelos discípulos dos discípulos. Neles, registraram, conforme seu conhecimento, a situação de Hazrat Isa (a.s.) e seus ensinamentos.
O livro atribuído a Mateus
Como não se conhece a fonte de nenhum dos livros mencionados acima, eles não são particularmente confiáveis. O primeiro livro foi atribuído ao apóstolo de Hazrat Masih, Mateus, mas está comprovado pela história que não foi escrito por Mateus. O verdadeiro livro de Mateus, Ligia (Ligia), desapareceu. O livro atribuído a Mateus foi escrito por uma pessoa desconhecida. Na composição dessa obra, ela também se valeu do livro de Lujia, além de outros livros. Nela, o próprio Mateus é descrito como se fosse uma pessoa desconhecida. (Mateus, capítulo 9, versículo 9, diz: “Yasu avançou e viu um homem chamado Mateus no posto de cobrança de impostos.” É evidente que o autor de um livro não poderia descrever a si mesmo dessa maneira.) Além disso, pela leitura desse livro, sabe-se que a maior parte de seu conteúdo foi tomada do Injil de Marcos. Pois, dos seus 1.068 versículos, 470 encontram-se literalmente no Injil de Marcos. Se o autor dessa obra fosse um apóstolo, não haveria necessidade alguma de recorrer à ajuda de alguém que não era apóstolo e que jamais havia visto Hazrat Isa (a.s.). Os eruditos cristãos dizem que esse livro foi escrito no ano 70 d.C., isto é, 41 anos depois de Hazrat Isa (a.s.). Alguns dizem que esse livro foi composto no ano 70 d.C.
Obra atribuída a Marcos
A segunda obra é atribuída a Marcos, e geralmente se admite que o próprio Marcos é o autor desta obra. Mas está comprovado que ele jamais se encontrou com Jesus Cristo nem foi seu discípulo. (Alguns dizem que, quando Jesus Cristo foi crucificado, ele ficou de pé, observando o espetáculo. Naturalmente, também não há qualquer prova disso. — Autor.) Na realidade, ele era discípulo do apóstolo Pedro (São Pedro). Tudo o que ouvia dele, registrava em língua grega. Por isso, os autores cristãos o chamavam de porta-voz de Pedro. Supõe-se que esta obra foi escrita entre 63 e 70 d.C.
Obra atribuída a Lucas
A terceira obra é atribuída a Lucas. É universalmente reconhecido que Lucas jamais viu o Messias nem recebeu dele qualquer ensinamento. Ele era discípulo de São Paulo. Foi sempre companheiro de Paulo e, em seu Evangelho, registrou tudo como porta-voz do próprio Paulo. Contudo, o próprio Paulo chama este Evangelho de seu próprio Evangelho. Mas está comprovado que o próprio São Paulo foi privado da companhia do Messias e, segundo os relatos cristãos, abraçou o cristianismo seis anos depois da crucificação do Messias. Por isso, não se encontra absolutamente uma cadeia de transmissão narrativa entre Lucas e o Messias. Também não há uma história estabelecida sobre a composição do Evangelho de Lucas. Segundo alguns, foi escrito em 57 d.C., e, segundo outros, em 74 d.C. Mas, segundo eminentes pesquisadores como Hering, Miksgifart e Plumer, esta obra não foi escrita antes de 80 d.C.
Obra atribuída a João
A quarta obra é atribuída a João. Segundo as pesquisas modernas, esta obra não foi escrita pelo célebre apóstolo João. Pelo contrário, é obra de um indivíduo de origem desconhecida chamado João (Yahya ou John). Esta obra foi escrita muito depois do Messias, em 90 d.C. ou ainda mais tarde. Hering a situa, de forma ainda mais tardia, em 110 d.C. A cadeia de transmissão narrativa de nenhuma dessas obras chega até o Messias. Não se pode afirmar com certeza, com base em suas cadeias de transmissão, o que o Messias disse e o que não disse. Contudo, uma pesquisa aprofundada revela que há amplo espaço para dúvidas quanto às provas e evidências dessas obras.
Seis razões para a falta de confiabilidade dos Evangelhos
Há divergências nos relatos dos quatro primeiros Evangelhos. Até mesmo o Sermão da Montanha, que constitui a base da doutrina e da educação cristãs, foi relatado de maneiras diferentes e com sentidos opostos em Mateus, Marcos e Lucas.
Segundo: nos quatro Evangelhos, são claras as ideias e reações de seus autores. Parece que Mateus se dirigiu aos judeus e que lhes concedeu uma oportunidade final. Marcos se dirigiu aos romanos e desejava familiarizá-los com a doutrina israelita. Lucas é o porta-voz de Paulo e deseja apoiar suas reivindicações contra os demais apóstolos. Parece ter sido influenciado pelas correntes filosóficas que se difundiram entre os cristãos no final do primeiro século. Assim, entre esses quatro Evangelhos, as divergências de significado tornam-se maiores que as divergências de palavras.
Terceiro: todos os livros dos Evangelhos foram escritos em grego. Entretanto, a língua de Jesus e de todos os seus apóstolos era o siríaco. Devido às diferenças linguísticas, é perfeitamente natural que também houvesse divergências na interpretação das ideias.
Quarto: não houve tentativa de registrar os Evangelhos antes do segundo século cristão. Até 150 d.C., a ideia geral era que a transmissão oral era mais útil do que a transmissão escrita. No final do segundo século, surgiu o desejo de registrá-los por escrito. Contudo, os escritos daquela época não eram considerados confiáveis. O primeiro texto autêntico e confiável do Novo Testamento foi aprovado no Concílio de Cartago, realizado em 397 d.C.
Quinto: as versões mais antigas dos Evangelhos atualmente disponíveis datam de meados do quarto século cristão. A segunda versão é do quinto século, e a terceira versão incompleta, que se encontra na biblioteca do papa romano, também não é mais antiga que o quarto século. Portanto, é difícil dizer até que ponto os Evangelhos atualmente existentes correspondem aos Evangelhos que circulavam nos três primeiros séculos.
Sexto: não houve nenhuma tentativa de memorizar os livros dos Evangelhos como se fez com o Alcorão. A transmissão deles dependia de relatos baseados no significado. Naturalmente, eles não poderiam estar livres da deficiência da memória e da influência das ideias pessoais dos narradores. Mais tarde, quando se iniciou o trabalho de escrita, este ficou à mercê dos copistas. Ao copiar, cada um podia facilmente retirar tudo o que considerasse contrário às suas ideias e acrescentar aquilo cuja ausência lhe parecesse indesejável.
Por todas essas razões, não podemos afirmar com certeza que os quatro Evangelhos contenham os verdadeiros ensinamentos de Jesus Cristo. Toda esta discussão foi realizada à luz das seguintes obras:
Dummelow – Comentário sobre a SANTA BÍBLIA
W. K. Cheyne – ENCICLOPÉDIA BÍBLICA
Willman – História do Cristianismo
Os verdadeiros ensinamentos de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele)
O mais excelente registro documental dos ensinamentos e da instrução de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele)
Os quatro Evangelhos que a Igreja cristã chama de escrituras religiosas confiáveis e universalmente reconhecidas (Lanocical Gospcls) não constituem um meio confiável para conhecer a vida e os ensinamentos de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele); ao contrário, há um meio muito mais confiável. Os cristãos fizeram esforços especiais para mantê-lo oculto. Durante vários séculos, ele não podia ser encontrado em lugar algum do mundo. (No século XVI, um volume da tradução italiana desta obra encontrava-se na biblioteca do Papa Sictas (Sixtas), e ninguém tinha permissão para lê-lo. No início do século XVIII, ele caiu nas mãos de um homem chamado John Tuckland. Depois de passar por várias mãos, chegou à Biblioteca Imperial de Viena em 1738. Em 1907, a tradução inglesa daquele livro foi publicada pela Clarendon Press de Oxford. É provável que, assim que foi publicado, o mundo cristão tenha percebido que aquele livro estava, na verdade, cortando pela raiz a religião que é atribuída a Hazrat Isa. Por isso, os exemplares impressos foram feitos desaparecer por meios especiais. Depois disso, não surgiu qualquer oportunidade de republicá-lo. Outro volume, encontrado no século XVIII, havia sido traduzido do italiano para o espanhol. George Sale menciona-o no prefácio de sua tradução inglesa do Alcorão. Esse volume também foi feito desaparecer. Agora não resta qualquer vestígio dele. — (Autor) O fato de não se ter permitido que uma obra permanecesse, fosse por simples pesquisa ou como registro histórico, é um exemplo da suposta liberalidade intelectual do mundo ocidental. — Compiladores
Recentemente, Lonsdale e Laura Ragg traduziram para o italiano o manuscrito do Evangelho de Barnabé conservado na Biblioteca Imperial de Viena. Esta obra foi publicada pelo waqf Begum Ayesha Bawani, de Karachi. — Tradutor)
Tive a oportunidade de ler uma cópia fotostática da tradução inglesa publicada em Oxford e li-a minuciosamente, do princípio ao fim. Percebi que ela é um tesouro imenso do qual os cristãos, por causa de seu extremo fanatismo, obstinadamente se mantiveram privados. (Sempre que o Evangelho acima mencionado é citado na literatura cristã, ele é rejeitado sob a alegação de que se trata de um evangelho forjado, provavelmente composto por algum muçulmano e atribuído a Barnabé. Mas isso é uma mentira terrível. A razão dessa mentira é que, em várias passagens, há profecias claras sobre o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Em primeiro lugar, a leitura do livro deixa claro que ele não é obra de um muçulmano. Em segundo lugar, se tivesse sido escrito por um muçulmano, estaria disponível em grande quantidade entre os muçulmanos, e haveria referências a ele nos livros escritos pelos eruditos muçulmanos. Mas a realidade é que, até então, nenhum muçulmano conhecia sua existência, como se vê no prefácio da tradução inglesa do Alcorão feita por George Sale. Tabari, Yaqubi, Masudi, Al-Biruni, Ibn Hazm e outros autores, que entre os muçulmanos conheciam a literatura cristã, não fizeram sequer a menor alusão ao Evangelho de Barnabé ao discutirem o cristianismo. Entre os melhores catálogos dos livros encontrados nas bibliotecas do mundo islâmico destacam-se o Al-Fihrist, de Ibn al-Nadim, e o Kashf al-Zunun, de Haji Khalifa. Também neles não há qualquer menção a ele. Antes do século XIX, nenhum erudito muçulmano chegou sequer a pronunciar o nome do Evangelho de Barnabé. A terceira e maior prova é que o Evangelho de Barnabé (Evngelium Barnabe) estava entre os livros proibidos na época do primeiro Gelásio, setenta e cinco anos antes do nascimento do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). A pergunta é: que muçulmano poderia ter composto essa obra forjada naquela época? — Autor)
Nenhum dos autores das quatro obras que foram consideradas legítimas e confiáveis e inseridas na Bíblia era companheiro de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele). Nenhum deles afirmou que havia aprendido algo com os companheiros de Hazrat Isa e o acrescentado ao Evangelho que escrevera. Tampouco mencionaram as fontes pelas quais obtiveram tais conhecimentos. Assim, não se pode dizer que o narrador relatou os acontecimentos que testemunhou pessoalmente e tudo o que ouviu, ou que essas informações lhe chegaram por uma ou mais fontes. Em contrapartida, o autor do Evangelho de Barnabé afirma: “Sou um dos doze primeiros apóstolos do Messias. Estive com o Messias do princípio ao fim e registro nesta obra os acontecimentos que vi com meus próprios olhos e as palavras que ouvi com meus próprios ouvidos.” Não só isso: no final da obra, ele diz que, ao partir deste mundo, o Messias lhe declarou: “É tua responsabilidade eliminar a concepção errônea que se espalhou entre as pessoas sobre mim e apresentar-lhes a realidade.” (Quem era esse Barnabé? O nome dessa pessoa é mencionado repetidamente no livro original da Bíblia; ele pertencia a uma família judia de Chipre. Sua contribuição para a propagação do cristianismo e para ajudar e apoiar o Messias é elogiada. Entretanto, em nenhum lugar se afirma quando ele adotou o cristianismo. Seu nome não aparece na lista dos doze primeiros apóstolos apresentada no Evangelho. Portanto, não se pode afirmar se o autor deste Evangelho era aquele Barnabé ou outra pessoa. Há duas divergências entre a lista dos apóstolos apresentada por Barnabé e as listas dadas por Mateus e Marcos. Uma diz respeito a Lucas, em cujo lugar Barnabé registra seu próprio nome. A segunda diz respeito a Simão, o Cananeu, em cujo lugar ele menciona Judas, filho de Jacó. Este segundo nome também aparece no Evangelho de Lucas. Por isso, é correto supor que, em algum momento posterior, o nome de Lucas foi inserido para excluir Barnabé do grupo dos apóstolos, a fim de evitar o Evangelho deste. Para os estudiosos cristãos, fazer esse tipo de alteração em livros religiosos não é considerado ilegal. — Autor)
Características distintivas do Evangelho de Barnabé
Se alguém estudar este Evangelho com mente aberta, liberto de todo tipo de preconceito cego, e o comparar com os quatro Evangelhos do Novo Testamento, não terá alternativa senão concluir que o Evangelho de Barnabé é muitas vezes superior a esses quatro Evangelhos. Nele, a situação de Jesus (que a paz esteja com ele) é descrita em detalhes, e o relato é registrado de tal modo que parece que alguém está vendo tudo realmente com os próprios olhos. Em comparação com as narrativas incoerentes dos quatro Evangelhos relacionadas a esses acontecimentos, os relatos históricos de Barnabé são muito mais coesos e permitem compreender melhor a sequência dos fatos.
Os ensinamentos corretos de Jesus (que a paz esteja com ele) e um estilo de exposição cativante
Em comparação com os quatro Evangelhos, o Evangelho de Barnabé descreve os ensinamentos de Jesus (que a paz esteja com ele) de maneira detalhada e em linguagem comovente. Os temas do ensinamento do tawhid, da refutação do shirk, dos atributos de Allah, da força vital da adoração e do caráter sublime são apresentados de forma muito lógica e detalhada. Dos exemplos instrutivos por meio dos quais o Messias explicou esses assuntos, nem sequer um décimo pode ser encontrado nos quatro Evangelhos. Isso também deixa claro com quanta sabedoria o Messias educava e treinava seus discípulos. Se alguém tiver mesmo um conhecimento superficial de sua linguagem, de seu estilo de exposição, de sua natureza e de seu senso de gosto, depois de ler este Evangelho será obrigado a admitir que ele não é uma narrativa forjada que alguém poderia ter composto posteriormente. Pelo contrário, neste livro não se encontra qualquer vestígio das contradições presentes nas diversas declarações dele nos quatro Evangelhos.
Concordância com os ensinamentos de todos os profetas
No Evangelho em questão, a vida de Jesus (que a paz esteja com ele) e seus ensinamentos são apresentados exatamente à semelhança da vida e dos ensinamentos de um profeta. Ele se apresenta como um profeta e declara a veracidade de todos os profetas e Livros anteriores. Afirma claramente que, sem os ensinamentos dos profetas, não há outro meio de alcançar a verdade. Quem abandona os profetas, na realidade, abandona Allah. Ele apresenta exatamente o conceito de tawhid, risalah e vida futura ensinado por todos os profetas. Incentiva a oração, o jejum e o zakat. Pela descrição de suas orações, que Barnabé apresenta em muitos lugares, sabe-se que ele as realizava nos horários do fajr, zuhr, asr, maghrib, isha e tahajjud. Ele sempre fazia também a ablução antes da oração. Reconhecia Davi e Salomão (que a paz esteja com eles) como profetas, embora judeus e cristãos os tenham excluído da lista de seus profetas. Considerava Ismael (que a paz esteja com ele) o sacrificado e fez um sábio declarar que, na realidade, Ismael era o sacrificado. Os israelitas, mediante interpretações forçadas, fizeram de Isaque (que a paz esteja com ele) o sacrificado. Seus ensinamentos sobre a vida futura, a Ressurreição, o Inferno e o Paraíso são praticamente semelhantes aos do Alcorão.
O propósito da composição do livro
Foi mencionado acima que o autor deste livro explicou, no início, o propósito de sua composição. Ele afirma que o objetivo de escrever este livro é corrigir o pensamento daqueles que, instigados por Satanás, consideram Jesus filho de Allah, julgam desnecessária a circuncisão e tornam lícitos os alimentos proibidos — entre os quais está também o enganado Paulo.
Ele afirma ainda que, quando Jesus (que a paz esteja com ele) estava presente no mundo, durante sua época, os soldados romanos foram os primeiros a começar a chamá-lo de Deus e, alguns deles, de filho de Deus, depois de verem seus milagres. Em seguida, esse contágio atingiu o povo israelita. Como resultado, Jesus (que a paz esteja com ele) ficou extremamente aflito. Repetidamente, refutou com grande severidade essa concepção equivocada sobre ele e lançou maldição sobre aqueles que diziam tais coisas a seu respeito. Depois, enviou seus discípulos por toda a Judeia para refutar essa crença e, por meio de suas orações, fez com que os discípulos também manifestassem aqueles milagres, para que as pessoas abandonassem a ideia de que aquele por meio de quem um milagre se manifesta é Deus ou filho de Deus. Ele registra neste livro um relato detalhado da maneira rigorosa como Jesus (que a paz esteja com ele) refutou essa crença equivocada. Afirma também, em vários lugares, o quanto Jesus (que a paz esteja com ele) ficou aflito por causa da propagação desse desvio.
Além disso, ele também refuta a crença de São Paulo de que o Messias morreu depois de ser crucificado. Ao narrar o acontecimento que testemunhou, diz que, quando Judas Iscariotes, depois de receber um suborno do sumo sacerdote dos judeus, levou consigo os soldados para prender Jesus (que a paz esteja sobre ele), quatro anjos, por ordem de Allah, levaram Jesus (que a paz esteja sobre ele), e a aparência, os traços e a voz do próprio Judas Iscariotes tornaram-se exatamente iguais aos de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Foi Judas, e não Jesus, que foi colocado na cruz. Desse modo, este Evangelho corta pela raiz o cristianismo introduzido por São Paulo, e o clero cristão o rejeitou precisamente com base no relato apresentado no Alcorão. (É uma grande infelicidade dos cristãos que, por meio do Evangelho de Barnabé, tenham tido a oportunidade de corrigir suas crenças e aprender os verdadeiros ensinamentos de Jesus (que a paz esteja sobre ele), mas, movidos apenas pela obstinação, tenham perdido essa oportunidade.) — O autor (Surata Al-Hadid, nota 54)
Os ensinamentos de Jesus (que a paz esteja sobre ele) nos quatro Evangelhos correntes
Como as condições e circunstâncias em cujo contexto o nosso senhor Messias (que a paz esteja sobre ele) apresentou aos habitantes da Palestina o convite ao Governo divino se assemelham às nossas condições atuais, há orientação para nós em seu método de atuação.
O convite ao tawhid
E um dos professores lhe perguntou: entre todos os mandamentos, qual é o primeiro? Jesus respondeu: o primeiro é este: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; e amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente e com toda a tua força. O professor lhe disse: Muito bem, Mestre, disseste a verdade, pois Ele é um só, e não há outro além dele. — Marcos 12:28–32
Adorarás somente o Senhor teu Deus e somente a Ele prestarás culto. — Lucas 4:8
O Governo divino
Portanto, orai desta maneira: Ó nosso Pai que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. — Mateus 6:9–10
No último versículo, o Messias deixa claro o seu objetivo. A ideia equivocada comum era que o reino de Deus significava um reino espiritual. O versículo acima demonstra que essa ideia é errônea. Seu objetivo explícito era que a lei de Deus e as determinações da Sharia fossem aplicadas da mesma forma que Sua lei natural vigora em toda a criação. Ele estava preparando pessoas para essa revolução.
Um chamado à luta contra a falsidade
Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar separação entre o pai e o filho, entre a mãe e a filha, e entre a sogra e a nora; e os próprios familiares serão inimigos do homem. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.
A provação é inevitável no caminho da verdade
E quem não tomar a sua cruz e não me seguir não é digno de mim. Quem procura preservar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por minha causa, preservá-la-á. — Mateus 10:38–39
Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo (a expressão «eu» significa adoração de si mesmo e interesse pessoal — autor), tome a sua cruz e siga-me. — Mateus 16:24
E o irmão entregará o irmão à morte, e o pai entregará o filho; e os filhos se levantarão contra os pais e os farão morrer. E sereis odiados por todos por causa do meu nome; mas quem permanecer firme até o fim será salvo. Mateus 10:21–22
Se alguém vem a mim e não considera seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até a sua própria vida, como algo inferior, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega a sua própria cruz também não pode ser meu discípulo. Com efeito, se alguém quiser construir uma fortaleza, quem dentre vós, antes de tudo, não se sentará para calcular as despesas e verificar se tem recursos para concluí-la? Pois, se lançar o fundamento e não puder terminá-la, todos os que a virem começarão a zombar dele, dizendo: Este homem começou a construir, mas não pôde terminar. Ou qual rei, ao sair para guerrear contra outro rei, não se sentará primeiro para considerar se, com dez mil soldados, poderá enfrentar aquele que vem contra ele com vinte mil? Se não puder, enquanto o outro ainda estiver longe, enviará uma delegação para perguntar pelas condições de paz. Assim também, qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo. — Lucas 14:26–34
Um movimento revolucionário
Estes versículos ou hinos provam claramente que Jesus não surgiu apenas para pregar uma religião. Pelo contrário, seu principal objetivo era transformar todo o sistema civilizacional e político; por isso, era de se esperar um conflito e uma confrontação com o Estado judeu, a autoridade dos juristas e dos fariseus — em suma, com todos os adoradores dos próprios desejos e dos próprios interesses. Por isso, ele dizia claramente às pessoas que a obra que estava prestes a realizar era terrivelmente perigosa e que somente aqueles que estivessem preparados para enfrentar todos os perigos e adversidades poderiam acompanhá-lo.
Incentivo à tolerância
Mas eu vos digo: não resistais ao mal; antes, se alguém vos ferir na face direita, voltai-lhe também a outra. E, se alguém quiser levar-vos a juízo e tomar-vos a túnica, deixai-lhe também o manto. E, se alguém vos obrigar a caminhar uma milha, caminhai com ele duas. — Mateus 5:39-41
E não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei, porém, aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o corpo. — Mateus 10:28
Convite para abandonar o apego ao mundo e pensar na vida futura
Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões arrombam e roubam. Mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não arrombam nem roubam. — Mateus 6:19-20
Ninguém pode servir a dois senhores, pois há de odiar um e amar o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber, nem com o vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes? Olhai para as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, o vosso Pai celestial as alimenta. Não sois vós muito mais valiosos do que elas? E qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à sua estatura? E por que vos preocupais com as vestes? Considerai os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam. Contudo, eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, não fará ele muito mais por vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos preocupeis, dizendo: Que comeremos? Ou: Que beberemos? Ou: Que vestiremos? Pois os gentios é que buscam todas essas coisas; vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas elas. Buscai, porém, primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. — Mateus 6:24-33
Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei à porta, e ela vos será aberta. — Mateus 7:7
O propósito de ensinar a suportar as dificuldades
É um equívoco comum pensar que Hazrat Jesus (a.s.) ensinou a rejeição do ascetismo e a indiferença em relação às coisas materiais. Contudo, no início desse movimento revolucionário, não havia alternativa senão ensinar às pessoas a paciência, a tolerância, o tawakkul em Allah e outras virtudes semelhantes. Quando um sistema cultural e político está estabelecido e se expandindo sobre o mundo com toda a sua força, tendo em suas mãos todos os meios e recursos da vida, nenhum grupo pode levantar-se para uma revolução em tal lugar enquanto não afastar do coração o amor à vida e à riqueza, não estiver preparado para suportar dificuldades e não se dispuser a aceitar grandes perdas. Lutar contra um sistema estabelecido significa, na realidade, atrair sobre si toda espécie de perigos e aflições. Aqueles que têm de realizar essa tarefa devem estar preparados para receber um segundo golpe depois de levar o primeiro. Se perderem a roupa que vestem, devem também estar prontos para abandonar o manto. Devem apagar do coração a preocupação com o alimento e o vestuário. Não se pode esperar obter sustento lutando contra aqueles em cujas mãos estão os tesouros do sustento. Portanto, somente aquele que consegue voltar as costas aos meios e recursos e lançar-se nesse caminho confiando unicamente em Allah pode lutar contra eles.
O manifesto abrangente do Governo Divino
Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. — Mateus 11:28–30
Provavelmente não se poderia redigir o manifesto do Governo Divino em linguagem mais breve e, contudo, mais tocante do que esta. O jugo do governo dos homens sobre os homens é extremamente duro e pesado. Às pessoas esmagadas sob esse fardo duro e pesado, o arauto do Governo Divino pode transmitir esta mensagem: o jugo do governo, ou a grave responsabilidade, que ele deseja colocar sobre elas é tão suave quanto leve.
O poder de governar é um grande serviço
Mas ele lhes disse: Os reis das nações dominam sobre elas, e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. Vós, porém, não sereis assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais jovem, e o que governa seja como aquele que serve. — Lucas 22:25–26
O Messias transmitia esses ensinamentos aos seus apóstolos e companheiros. Há várias declarações sobre isso nos Evangelhos. O sentido de todas elas é: depois de expulsarem o Faraó e Nimrod, não se tornem vocês mesmos Faraós e Nimrods.
Crítica aos eruditos e líderes religiosos judeus
Então Jesus disse às multidões e aos seus discípulos: Os escribas e os fariseus estão sentados na cadeira de Moisés. Portanto, tudo quanto vos disserem, fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras, porque dizem e não fazem. Atam fardos pesados e difíceis de suportar e os põem sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens, pois alargam os seus filactérios e alongam as franjas das suas vestes; amam o primeiro lugar nos banquetes, os primeiros assentos nas sinagogas, as saudações nas praças e ser chamados de Rabi (mestre) pelas pessoas. — Mateus 23:2-7
Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fechais o reino dos céus diante dos homens; vós mesmos não entrais, nem permitis que entrem os que estão tentando entrar. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque percorreis o mar e a terra para fazerdes um prosélito e, quando ele se torna um, o fazeis duas vezes mais filho do inferno do que vós. — Mateus 23:13-15
Guias cegos! Coais um mosquito, mas engolis um camelo. — Mateus 23:24
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda espécie de impureza. Assim também vós, por fora, mostrais aos homens que sois justos, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniquidade. — Mateus 23:27-28
Essa era a condição dos portadores e transmissores da Shariah naquela época. Apesar de possuírem conhecimento da religião, eles mesmos se desviavam por adorarem os próprios desejos. No caminho desta revolução, eram eles que criavam mais obstáculos do que os governantes romanos.
A conspiração dos líderes religiosos contra Jesus
Então os fariseus foram consultar-se sobre como poderiam apanhá-lo numa armadilha por meio de suas palavras. E enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos (na época de Jesus, havia em uma parte da Palestina um Estado judeu semelhante a um reino local, que reconhecia a sujeição ao Império Romano. Geralmente, era chamado Estado herodiano, em referência ao seu fundador, Herodes. Aqui, por herodianos, entendem-se os policiais e agentes do CID do Estado — autor.) para dizer-lhe: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas verdadeiramente o caminho de Deus, e não temes pessoa alguma, pois não te deixas influenciar pelos homens. Dize-nos, pois: qual é a tua opinião? É lícito ou não pagar tributo a César?” Mas Jesus, compreendendo a malícia deles, disse: “Hipócritas, por que me pondes à prova? Mostrai-me a moeda do tributo.” Então lhe trouxeram um denário. Ele lhes disse: “De quem são esta imagem e esta inscrição?” Eles responderam: “De César.” Então ele lhes disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” — Mateus 22:15–21
Desse acontecimento, sabe-se que tudo isso era, na realidade, uma manobra ardilosa. Para frustrar esse movimento, os fariseus queriam provocar, antes do tempo, um conflito entre Jesus e o governo, para que o movimento fosse esmagado pela força do governo antes de se tornar forte. Por isso, diante dos agentes do CID herodiano, foi levantada a questão de saber se era permitido pagar tributo a César. A resposta significativa dada pelo Messias é interpretada por todos, cristãos e não cristãos, no sentido de que a adoração é devida a Deus, e a obediência, ao governo existente entre vós. Mas, na realidade, ele não disse que era correto pagar tributo a César, pois isso teria sido contrário à sua missão; tampouco disse que não se podia pagar-lhe tributo, porque, até então, seu movimento ainda não havia chegado a um estágio em que ele ordenasse a suspensão do pagamento de tributos. Por isso, ele proferiu estas palavras sutis: devolvei a César o nome e a imagem de César, e gastai no caminho de Deus o ouro que Deus criou. Depois que essa conspiração fracassou, os fariseus subornaram outro dos próprios discípulos do Messias, convencendo-o a concordar que o Messias deveria ser preso num momento em que não houvesse risco de um confronto popular. Essa estratégia funcionou. Judas Iscariotes entregou o Messias para ser preso.
O processo dos judeus eminentes contra Jesus
Depois, todos eles se levantaram em grupo e levaram-no a Pilatos. E começaram a acusá-lo, dizendo: “Descobrimos que este homem está pervertendo a nossa nação, proibindo pagar tributo a César e afirmando ser ele próprio o Cristo, o rei.” — Lucas 23:1–2. Então Pilatos disse aos principais sacerdotes e à multidão reunida: “Não encontro culpa alguma neste homem.” Mas eles insistiam com mais veemência, dizendo: “Ele incita o povo, ensinando em toda a Judeia, desde a Galileia até aqui.” — Lucas 23:4–5. Contudo, eles continuavam a clamar em alta voz e com veemência que ele fosse crucificado, e seus clamores se intensificaram. — Lucas 23:23
Semelhança com a missão do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) durante o período de Meca
Assim, a missão do Messias no mundo fracassou devido aos esforços daqueles que se consideravam herdeiros de Moisés. À luz das evidências e dos testemunhos históricos, a duração total da missão profética do Messias situou-se entre um ano e meio e três anos. Nesse breve período, ele realizou tanto quanto o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) realizou nos três primeiros anos de sua vida em Meca. Se alguém analisar comparativamente essas passagens acima dos Evangelhos e as suratas mecânicas do Alcorão, juntamente com os hadiths do período em que ele permaneceu em Meca, verá uma considerável semelhança entre ambos. (Al-Jihad fi’l-Islam, pp. 407–410)
A verdadeira causa do desvio dos cristãos
(Árabe)————————
Dize: Ó Povo do Livro! Não cometais excessos injustos em matéria de religião e não sigais as ideias daqueles que, antes de vós, se desviaram por si mesmos, desviaram muitos outros e se afastaram do caminho verdadeiro. — Surata Al-Ma’idah: 77
Os excessos dos cristãos e a doença da imitação cega dos outros
Aqui se faz referência àquelas nações desviadas cujas concepções errôneas, crenças e métodos equivocados os cristãos adotaram. Faz-se referência especialmente à filosofia grega; influenciados por suas ideias, eles se desviaram daquele caminho reto para o qual haviam sido originalmente guiados. As concepções e crenças mantidas pelos primeiros seguidores do Messias eram, em grande parte, semelhantes à verdade que eles próprios haviam testemunhado e cuja doutrina lhes fora transmitida por seu guia e líder. Porém, os cristãos posteriores, por um lado, cometeram excessos extremos ao demonstrar sua reverência pelo Messias e, por outro, influenciados pelas crenças cegas e pela filosofia das nações vizinhas, começaram a oferecer interpretações filosóficas exageradas de suas próprias crenças e doutrinas. Depois, inventaram uma religião inteiramente nova, que não tinha sequer a mais remota relação com os verdadeiros ensinamentos do Messias.
Análise crítica de um erudito cristão
A descrição de um erudito religioso cristão chamado Reverend Charles Anderson Scott é especialmente digna de atenção a esse respeito. Seu extenso artigo intitulado Jesus Cristo (0024462 0923620) pode ser encontrado na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica. Nesse artigo, ele afirma:
Nos três primeiros Evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas), não há nada que permita supor que os autores desses Evangelhos considerassem Jesus algo diferente de um ser humano. Para eles, ele era um homem; um homem que foi abençoado por receber o espírito de Deus e que mantinha com Deus uma relação tão ininterrupta que seria apropriado chamá-lo de filho de Deus. O próprio Mateus o menciona como filho de um carpinteiro e, em outra passagem, diz que, depois de Pedro reconhecê-lo como o Messias, chamou-o à parte e o repreendeu — (Mateus 16:22). Em Lucas, vemos que, após a crucificação, quando dois discípulos de Jesus se dirigiam a Emaús, referiram-se a ele dizendo que era um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo (Lucas 24:19).
É especialmente digno de atenção que, embora antes da composição do Evangelho de Marcos já se tivesse difundido entre os cristãos o uso geral da palavra Senhor (Lord) para Jesus, nem no Evangelho de Marcos nem no de Mateus Jesus é mencionado uma única vez por esse termo. Em contrapartida, em ambas essas obras o termo é usado com muito mais frequência para Deus. Os três Evangelhos mencionam vigorosamente e com a devida dignidade os sofrimentos de Jesus. Porém, excetuando-se as palavras de Marcos sobre o resgate (Marcos 10:45) e algumas palavras no final, não se encontra em parte alguma qualquer indicação de que a morte de Jesus tivesse relação com o pecado humano e sua expiação.
Ele acrescenta:
Que Issu se apresentava como um profeta fica claro nos vários discursos dos Evangelhos. Por exemplo: “Hoje, amanhã e depois de amanhã devo prosseguir, pois não pode acontecer que um profeta pereça fora de Jerusalém.” — (Lucas 13:33). Na maior parte das vezes, ele se referia a si mesmo como filho de Adão——- Issu nunca se referiu a si mesmo como filho de Deus. Quando outros contemporâneos seus usavam essa expressão a respeito dele, isso não significava outra coisa senão que ele era considerado o Messias. Naturalmente, ele pretendia designar a si mesmo apenas pela palavra “filho”. ——- Além disso, também usava metaforicamente a palavra “Pai” para descrever sua relação com Deus —— ele não se considerava único quanto a essa relação. Pelo contrário, considerava também os homens dos primeiros tempos seus companheiros nessa profunda relação com Deus. Contudo, experiências posteriores e um estudo profundo da natureza humana obrigaram-no a concluir que, nesse aspecto, ele era único e solitário.
Este autor afirma novamente:
Estas palavras pronunciadas por Pedro por ocasião do Pentecostes apresentam Issu como um homem enviado por Deus, precisamente como seus contemporâneos o conheciam e consideravam —- pelos Evangelhos sabemos que Issu, desde a infância até a juventude, passou naturalmente por todas as etapas do desenvolvimento físico e mental. Sentia fome e sede, cansava-se e dormia. Ficava surpreso e perplexo. Também precisava obter das pessoas informações sobre os fatos. Sofreu dores e aflições e morreu. Ele não apenas não afirmou que ouvia e via todas as coisas; pelo contrário, negou isso. ——- Na realidade, afirmar que ele era hâzir-nâzir (onouvinte e onividente) seria contrário a toda a concepção que obtemos dos Evangelhos. Além disso, tal afirmação não teria qualquer compatibilidade com os acontecimentos das provações de fogo ocorridas nos lugares chamados Getsêmani e Calvário. Para demonstrar compatibilidade, seria necessário considerar esses acontecimentos completamente infundados. Deve-se admitir que, quando o Messias enfrentou essas situações, estava limitado pelas restrições comuns do conhecimento humano. E, se havia alguma exceção dentro desses limites, era apenas que nele existiam uma visão profética do futuro e um conhecimento direto e seguro acerca de Deus. Quanto à possibilidade de considerar o Messias onipotente, há ainda menos espaço para isso nos Evangelhos. Em lugar algum se encontra qualquer indicação de que ele agisse independentemente, sem se importar com Deus. Pelo contrário, ao fazer repetidamente súplicas desse tipo — de que não havia outro meio de escapar daquele perigo senão pela oração — ele reconhecia claramente que dependia inteiramente de Deus. É um testemunho importante da confiabilidade histórica desses Evangelhos o fato de que, embora eles não tenham sido redigidos antes de a Igreja cristã começar a considerar o Messias uma divindade, esses documentos preservam, por um lado, o testemunho de que o Messias era de fato um ser humano e, por outro, não contêm qualquer testemunho de que o Messias se considerasse Deus.
O reverendo Scott afirma ainda:
Somente São Paulo declara que, no momento da ressurreição, foi por meio desse ato de ressurreição que Issu foi publicamente investido, com pleno poder, da dignidade de filho de Deus. —- A expressão “filho de Deus” traz consigo a indicação de uma verdadeira filiação natural. Em outro lugar, São Paulo esclareceu a questão ao chamar Issu de próprio filho de Deus. Não se pode determinar agora se foram os primeiros cristãos ou São Paulo quem usou, em sentido propriamente religioso, o termo de tratamento “Senhor” para o Messias. É provável que tenha sido o primeiro grupo. Mas não há dúvida de que foi Paulo quem começou a usar esse tratamento em seu sentido pleno. Depois, empregou em relação ao Senhor Jesus Cristo muitas concepções e termos técnicos que, nas antigas Escrituras sagradas, eram reservados ao Senhor Jeová (Allah). Assim, tornou sua afirmação ainda mais explícita. Ao mesmo tempo, considerou o Messias igual a Deus em conhecimento, entendimento e grandeza, e chamou-o, em sentido simples, de filho de Deus. Apesar disso, mesmo depois de igualar o Messias a Deus em vários aspectos, absteve-se de proclamá-lo absolutamente como Allah.
A análise de outro especialista cristão
Em um artigo intitulado “Cristianismo” na Enciclopédia Britânica, o reverendo George William Fox, ao discutir as crenças fundamentais da Igreja cristã, afirma: a estrutura intelectual do trinitarismo foi adotada dos gregos. Sobre ela foi remodelada a doutrina judaica. Sob esse aspecto, temos diante de nós uma mistura extraordinariamente confusa. O pensamento religioso é bíblico, mas foi remodelado à maneira de uma filosofia estrangeira.
Os termos Pai, Filho e Espírito Santo foram adotados de fontes judaicas. Embora Issu tenha usado muito raramente o último termo, e, mesmo quando São Paulo o empregou, seu significado fosse completamente obscuro, na literatura judaica essa palavra havia assumido quase a forma de uma personalidade. Portanto, os elementos dessa crença pertencem à religião judaica (embora, antes de serem incorporados àquela combinação, ela também tivesse sido influenciada pelo pensamento grego), enquanto a questão em si é puramente grega. A ideia sobre a qual se baseou a origem dessa crença não era nem moral nem religiosa. Pelo contrário, era uma questão inteiramente filosófica: qual é a natureza da relação mútua entre Pai, Filho e Espírito, esses três? A resposta dada pela Igreja está incluída na crença adotada no Concílio de Niceia. Em todas as suas características, ela é um símbolo do pensamento grego.
O testemunho da história da Igreja
A esse respeito, merece especial atenção o artigo intitulado “Church History”, da Encyclopaedia Britannica:
Antes do fim do terceiro século cristão, o Messias era geralmente aceito como a manifestação corpórea do Verbo. Contudo, muitos cristãos não reconheciam o Messias como Deus. No quarto século, surgiu uma intensa controvérsia sobre essa questão, que abalou os próprios alicerces da Igreja. Finalmente, no Concílio de Niceia, em 325 d.C., a ideia da divindade do Messias foi devidamente reconhecida em nível oficial como doutrina cristã e formulada mediante o uso de termos específicos. Embora a controvérsia tenha continuado por algum tempo, ao final a decisão de Niceia prevaleceu. No Oriente e no Ocidente, ela foi aceita de tal maneira que se considerava que os cristãos que professavam a doutrina correta deveriam acreditar nela. Ao se reconhecer o Filho como Deus, o Espírito também foi reconhecido como Deus e colocado, juntamente com o Pai e o Filho, na fórmula do batismo e entre os símbolos religiosos tradicionais. Assim, como consequência da concepção do Messias estabelecida em Niceia, a doutrina da Trindade tornou-se parte inseparável da religião cristã. Depois, a afirmação de que a divindade do Filho havia assumido forma na pessoa do Messias criou um segundo problema. Sobre isso, prosseguiram debates durante o quarto século e por bastante tempo depois. A questão era: que relação havia, na pessoa do Messias, entre a divindade e a humanidade? Em 451 d.C., o Concílio de Calcedônia propôs a solução de que, na pessoa do Messias, havia duas naturezas completas. Mesmo depois de unidas, ambas permaneciam intactas, sem qualquer alteração em suas características distintas. No Concílio realizado em Constantinopla, em 680 d.C., acrescentou-se que ambas as naturezas também possuíam vontades distintas. Ou seja, o Messias possuía duas vontades ao mesmo tempo. —- Nesse período, a Igreja Ocidental dedicou especial atenção às questões do pecado e da graça, e durante muito tempo houve debates sobre qual era o papel de Deus e qual era o papel do ser humano na salvação. Finalmente, no Segundo Concílio de Orange, em 529 d.C., foi adotada a doutrina de que, devido à expulsão de Adão do Paraíso, a condição de cada ser humano é tal que ele não pode dar sequer um passo em direção à salvação enquanto não receber, pela graça de Deus, uma nova vida mediante o batismo cristão. Mesmo depois de iniciar essa nova vida, ele não permanecerá firme no bom estado enquanto a graça de Deus não se tornar seu auxílio para a eternidade. E essa graça eterna de Deus só pode ser obtida por meio da Igreja Católica.
O resultado da controvérsia
A partir dessas descrições dos eruditos cristãos, fica claro que a primeira coisa que desviou os cristãos foi o excesso na doutrina e na veneração e reverência. Foi com base nesse excesso que se usaram, para o Messias, os termos Senhor e Filho de Deus. Atribuíram-lhe os atributos de Deus e inventaram a doutrina da expiação. No entanto, não havia o menor vestígio dessas ideias nos ensinamentos do Messias. Depois, quando a atmosfera venenosa da filosofia afetou profundamente o coração e a mente dos cristãos, em vez de compreenderem esse desvio inicial e tentarem livrar-se dele, começaram a defender o erro de seus predecessores e a interpretá-lo. Em vez de retornar aos verdadeiros ensinamentos do Messias, continuaram inventando novas doutrinas apenas com o auxílio das Escrituras e da filosofia. Nestes versículos do Sagrado Alcorão, os cristãos foram advertidos contra esses desvios. (Tafhim al-Qur’an, Surata As-Saff, nota 8)
A crença de que o ser humano é pecador por natureza
Os Livros Celestiais não apresentaram nenhuma ideia de que o ser humano fosse pecador por natureza, embora o cristianismo venha considerando isso sua doutrina fundamental há mil e quinhentos ou dois mil anos. Hoje, os próprios eruditos católicos começaram a afirmar que essa doutrina não tem fundamento. O reverendo Herbert Haag (Haag), renomado estudioso da Bíblia, afirma em seu recente livro “Is Original Sin In Scripture” que, entre os primeiros cristãos, pelo menos até o terceiro século, não existia a doutrina de que o ser humano fosse pecador por natureza. À medida que essa ideia começou a se disseminar entre as pessoas, os eruditos cristãos passaram dois séculos contestando-a. Por fim, no quinto século, Santo Agostinho, valendo-se da força de sua argumentação, incluiu-a entre as doutrinas fundamentais dos cristãos: a humanidade teria herdado, por descendência, o peso do pecado de Adão. Agora, não há outra saída senão alcançar a salvação por meio da expiação do Messias. (O movimento de independência na Índia e os muçulmanos, vol. 2, pp. 191–199)
Chamar Hazrat Maryam de mãe de Deus
Em 431 d.C., realizou-se em Éfeso uma sessão de um concílio dos líderes religiosos do mundo cristão. Nesse concílio, a doutrina da divindade de Hazrat Isa e a doutrina de que os cristãos consideravam apenas Hazrat Maryam como mãe de Deus tornaram-se doutrinas oficiais da Igreja. Os cristãos não se limitaram a transformar apenas o Messias e o Espírito Santo em deuses; pelo contrário, também fizeram da mãe do Messias uma divindade permanente. Não há na Bíblia qualquer indicação da divindade de Hazrat Maryam ou de sua pureza divina. Durante trezentos anos após o Messias, o mundo cristão permaneceu alheio a essa ideia. No final do século III, alguns eruditos religiosos de Alexandria foram os primeiros a difundir a doutrina da divindade de Maryam e a adoração de Maryam. A princípio, porém, a Igreja não estava disposta a aceitá-la. Pelo contrário, considerava a adoração de Maryam uma doutrina desviada. Depois, quando começou no mundo cristão uma tempestade de debates em torno da ideia de Nestório de que na essência do Messias havia a reunião de duas essências distintas e permanentes, realizou-se em Éfeso, no ano 431 d.C., uma sessão desse concílio para resolver a questão. Depois desse concílio, essa prática começou a espalhar-se rapidamente dentro da própria Igreja. Quando chegou o momento da revelação do Alcorão, Hazrat Maryam havia-se tornado uma deusa tão grandiosa que o Pai, o Filho e o Espírito Santo se haviam tornado insignificantes diante dela. Estátuas suas foram instaladas em igrejas por toda parte. Cerimônias de adoração passaram a ser realizadas diante de suas estátuas. Faziam súplicas a ela. Ela era considerada aquela que ouvia as lamentações, afastava as calamidades e socorria os necessitados. Para um servo cristão, o maior meio de alcançar a salvação era obter a ajuda e a proteção da mãe de Deus. Numa introdução a uma lei, o imperador Justiniano declarou Hazrat Maryam a auxiliadora de seu reino. Seu famoso general Narses pediu a ajuda de Hazrat Maryam no campo de batalha. O imperador Heráclio, contemporâneo do Profeta Muhammad, acreditava que, pela bênção daquela imagem, sua bandeira não seria derrotada. Embora, mais tarde, sob a influência do movimento de reforma, os cristãos protestantes tenham se levantado contra a adoração de Maryam, a Igreja Católica Romana ainda hoje acredita nessa doutrina. (Tafhim al-Qur’an, Surata al-Ma’idah, nota 101)
Profecias sobre o Último Profeta na Torá e no Evangelho
(As profecias mencionadas na Torá deveriam ter sido descritas separadamente no capítulo sobre os judeus, e as palavras do Evangelho deveriam ter sido apresentadas à parte. Porém, o sábio autor descreveu ambas as profecias de tal maneira conjunta que, se fossem separadas, a importância da discussão diminuiria. Por isso, ele as descreveu juntas.)
(Árabe———-)
E recorda as palavras de Jesus, filho de Maryam, quando ele disse: Ó filhos de Israel! Sou o Mensageiro de Allah enviado a vós, confirmando a veracidade da Torá que veio antes de mim e que permanece, e anunciando as boas-novas de um Mensageiro que virá depois de mim, cujo nome será Ahmad. — (Surata as-Saff: 6) (Foi feita uma importante discussão sobre este versículo controverso; a discussão aparecerá mais adiante.)
Estas palavras de Hazrat Isa fazem alusão àquela boa-nova que Hazrat Musa transmitiu à sua nação, dirigindo-se a ela, sobre o Mensageiro de Allah. (Os cristãos também creem nos ensinamentos de Hazrat Musa e na Torá.) Nela, ele diz:
Surgirá um profeta
O Senhor, teu Deus, suscitará para ti, dentre o teu povo, dentre os teus irmãos, um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis. Pois foi isso que pediste ao Senhor, teu Deus, no Horebe, no dia da assembleia, dizendo: Que eu não torne a ouvir a voz do Senhor, meu Deus, nem veja novamente este grande fogo, para que eu não morra. Então o Senhor me disse: Eles falaram bem. Suscitarei para eles, dentre os seus irmãos, um profeta semelhante a ti; porei as minhas palavras em sua boca, e ele lhes dirá tudo o que eu lhe ordenar. — Deuteronômio 18:15–19
A clara profecia da Torá
Esta é a clara profecia da Torá, que não pode ser atribuída a ninguém além do Profeta Muhammad (s.a.w.). Nela, o Profeta Moisés (a.s.) transmite ao seu povo esta ordem de Allah, o Altíssimo: “Farei surgir para ti um profeta dentre os teus irmãos.” Deve-se observar que “irmãos” de uma nação não pode significar uma tribo ou linhagem da própria nação. Pelo contrário, pode significar uma nação que tenha com ela uma estreita relação de parentesco. Se isso significasse que um profeta surgiria do próprio povo dos Filhos de Israel, teria sido dito: “Farei surgir para vós um profeta dentre vós mesmos.” Portanto, “os irmãos dos Filhos de Israel” necessariamente significa os Filhos de Israel, que são seus parentes por linhagem, por serem descendentes de Abraão (a.s.). Além disso, essa profecia não pode se referir a nenhum profeta dos Filhos de Israel, pois depois de Moisés (a.s.) surgiram entre os Filhos de Israel não apenas um, mas muitos profetas, mencionados por toda a Bíblia.
A segunda afirmação contida nessa boa-nova é que o profeta enviado seria semelhante ao Profeta Moisés. É absolutamente claro que essa semelhança não se refere à aparência do rosto, à constituição física ou às condições de vida. Pois, nesses aspectos, ninguém é igual a outra pessoa. Tampouco significa simplesmente uma semelhança nas qualidades proféticas, pois essas qualidades são encontradas igualmente nos profetas que vieram depois de Moisés (a.s.). Portanto, não poderia ser uma característica exclusiva de um determinado profeta ser semelhante a Moisés (a.s.) nesse aspecto. Depois de excluídas essas duas possibilidades, não resta outra base para a semelhança, pela qual se possa compreender a característica do profeta vindouro, senão que ele seria semelhante a Moisés (a.s.) por trazer uma Sharia permanente e completa. Essa característica não é encontrada em ninguém além de Muhammad (s.a.w.). Pois todos os profetas que vieram entre os Filhos de Israel antes dele seguiram a Sharia de Moisés. Nenhum deles veio com uma Sharia permanente e completa.
Essa interpretação se torna ainda mais forte pelas seguintes palavras da profecia: “Isso acontecerá de acordo com o pedido que fizeste ao Senhor, teu Deus — isto é, tu, ó Filhos de Israel — no dia da assembleia, em Horebe, dizendo: ‘Que eu não volte a ouvir a voz do Senhor, meu Deus, nem torne a ver este grande fogo, para que eu não morra.’ Então o Senhor me disse: ‘Eles falaram bem. Farei surgir para eles, dentre os seus irmãos, um profeta semelhante a ti; porei as minhas palavras em sua boca.’”
Aqui, Horebe se refere à montanha onde as primeiras instruções da Sharia foram dadas ao Profeta Moisés (a.s.). O significado do pedido dos Filhos de Israel mencionado aqui é que, se uma Sharia fosse concedida no futuro, ela não deveria ser concedida em meio àquela situação terrível que se criou quando a Sharia foi concedida nas proximidades do monte Horebe. Essa situação é mencionada no Alcorão e também ocorreu por ocasião da prestação do juramento de fidelidade. Essa situação é mencionada tanto no Alcorão quanto na Bíblia. (Surata Al-Baqara, versículos 55–56; Surata Al-A’raf, versículos 155 e 171; Bíblia, Livro do Êxodo, 19:17–18.) Em resposta, Moisés (a.s.) disse aos Filhos de Israel que Allah, o Altíssimo, havia aceitado essa súplica. Ele declarou: “Enviarei para eles um profeta em cuja boca colocarei a Minha palavra.” Isto é, quando a Sharia futura fosse concedida, não seria criada a situação terrível que havia ocorrido nas proximidades do monte Horebe. Ao contrário, assim que ele fosse investido na dignidade de profeta, a palavra de Allah seria colocada em sua boca. Ele a comunicaria ao povo. Depois de considerar essas afirmações claras, pode restar alguma dúvida de que aquele sobre quem foi feita a profecia não poderia ser outro senão o Profeta Muhammad (s.a.w.)? Depois de Moisés (a.s.), foi somente ao Profeta Muhammad (s.a.w.) que foi concedida uma Sharia permanente e completa. Quando essa Sharia foi concedida, não houve nenhuma assembleia popular como a dos Filhos de Israel nas proximidades do monte Horebe. No momento em que as normas da Sharia foram estabelecidas, não foi criada uma situação semelhante à que ocorrera ali. (Surata At-Taghabun, nota 5.)
Discussão detalhada do versículo acima mencionado da Surata As-Saff
O versículo da Surata As-Saff cuja tradução foi apresentada no início deste capítulo é um dos versículos mais importantes do Sagrado Alcorão. Os opositores do Islã levantaram uma terrível objeção contra esse versículo e cometeram a mais baixa forma de traição à fé. Pois esse versículo afirma que foi anunciada a boa-nova da vinda do Profeta, mencionando claramente o nome de Jesus (a.s.). Por isso, é necessário discutir detalhadamente esse assunto.
Primeiro: nele, o nome do Profeta (s.a.w.) é apresentado como Ahmad. Ahmad tem dois significados. Um é a pessoa que mais louva Allah, o Altíssimo. O segundo é a pessoa que é mais louvada; ou seja, aquela que é mais digna de louvor entre os servos. Está comprovado por hadiths autênticos que esse também era um dos nomes do Profeta (s.a.w.). Segundo uma narração de Hazrat Abu Musa Al-Ashari (r.a.), no Muslim e em Abu Dawud, o Profeta (s.a.w.) disse: (Árabe——) “Eu sou Muhammad, sou Ahmad e sou Al-Hashir.” Essa mesma questão foi narrada por Hazrat Jubair ibn Mut’im (r.a.) e citada pelo Imam Malik, por Bukhari, Muslim, Darimi, Tirmidhi e Nasai. Esse nome do Profeta (s.a.w.) era famoso entre os nobres Companheiros. Hazrat Hassan ibn Thabit (r.a.) diz em sua poesia: (Árabe*******)(Árabe*******)
Allah, os anjos que se aglomeram ao redor de Seu Trono e todos os seres santos enviam bênçãos ao abençoado Ahmad.
Também está provado pela história que o nome do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não era apenas Muhammad, mas também Ahmad. Em toda a literatura árabe não se encontra nenhum exemplo de alguém chamado Ahmad antes do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois dele, incontáveis pessoas receberam os nomes Ahmad e Ghulam Ahmad. Que prova maior poderia haver de que, desde a época de sua profecia até hoje, esse nome é tão famoso e conhecido em toda a comunidade muçulmana? Se esse não fosse seu nome, então, de qual Ahmad aqueles que deram a seus filhos o nome Ghulam Ahmad os consideravam servos?
Dois: o Evangelho de João testemunha que, na época da vinda do Messias, os filhos de Israel aguardavam três pessoas. Primeiro, o Messias; segundo, Elias, isto é, o retorno de Elias; e terceiro, aquele Profeta.
As palavras do Evangelho são as seguintes:
E este é o testemunho de João: quando os judeus enviaram de Jerusalém alguns sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: «Quem é você?», ele confessou e não negou; confessou que não era o Cristo. Eles lhe perguntaram: «Então, quem é? Você é Elias?» Ele respondeu: «Não sou.» «Você é aquele Profeta?» Ele respondeu: «Não.» Então lhe disseram: «Quem é você? Para que possamos responder àqueles que nos enviaram. O que você diz a seu respeito?» Ele disse: «Eu sou a voz de alguém que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.» Eles haviam sido enviados pelos fariseus. E perguntaram-lhe: «Se você não é o Cristo, nem Elias, nem aquele Profeta, por que está batizando?» — João 1:19-25
Estas palavras provam que os filhos de Israel aguardavam outro Profeta além do Messias e de Elias. E ele também não era Yahya. A crença na vinda desse Profeta era tão famosa e universalmente conhecida entre os filhos de Israel que mencionar «aquele Profeta» era suficiente para indicar quem era; não era necessário dizer que suas boas-novas haviam sido anunciadas na Torá. Além disso, soube-se que a vinda do Profeta a quem se referiam era certa. Pois, quando Yahya foi interrogado com essas perguntas, ele não disse: «Nenhum outro Profeta virá; de quem vocês estão falando?»
As boas-novas do Evangelho escrito por João
Três: vejamos agora aquelas profecias que foram narradas sucessivamente nos capítulos 14 a 16 do Evangelho de João: «E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Auxiliador, para que permaneça convosco para sempre: o Espírito da verdade, que o mundo não pode ver nem conhecer; mas vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós.» — João 14:25-26
Não falarei mais muito convosco, porque vem o governante do mundo, e ele nada tem em mim — 14:30
Aquele que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, quando esse Auxiliador vier, ele dará testemunho a meu respeito. — 15:26
Contudo, digo-vos a verdade: é melhor para vós que eu vá, pois, se eu não for, esse Auxiliador não virá até vós; mas, se eu for, eu vo-lo enviarei. — 16:7
Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas agora não podeis suportá-las. Contudo, quando ele, o Espírito da verdade, vier, guiar-vos-á e conduzir-vos-á a toda a verdade, porque não falará por si mesmo; mas dirá tudo o que ouvir e anunciar-vos-á também os acontecimentos futuros. Ele me glorificará, porque tomará do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso vos disse que ele toma do que é meu e vo-lo anunciará. 16:12–15
Será o líder mundial vindouro
Nas declarações acima do Evangelho escrito por João, Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele) anuncia as boas-novas sobre alguém que virá depois dele. A respeito dele, afirma que será o senhor do mundo ou líder mundial (Sarwar-e Alam), permanecerá para sempre, mostrará todos os caminhos da verdade e dará testemunho dele próprio (de Hazrat Isa). Nessas declarações de João, tentou-se obscurecer o assunto mediante o uso de expressões como Ruhul Qudus e Espírito da verdade, entre outras. Contudo, ao ler atentamente todas as palavras, fica claro que aquele cuja vinda foi anunciada não é um espírito, mas um ser humano, uma pessoa especial cujo ensinamento será amplo e abrangente e permanecerá intacto até o Dia da Ressurreição. Para essa pessoa especial, a tradução urdu empregou a palavra “Auxiliador”, e, quanto à palavra usada no Evangelho original escrito por João em língua grega, os cristãos afirmam enfaticamente que era Paracletus.
Surge uma controvérsia entre os cristãos em torno da palavra Paracletus
Os próprios eruditos cristãos enfrentam extrema dificuldade para determinar o significado da palavra. Na língua grega original, a palavra Paraclete possui vários significados: chamar para algum lugar, clamar por ajuda, advertir, inspirar, incitar, orar, entre outros. Essa palavra também recebe significados gregos como consolar, acalmar e encorajar. Em nenhum dos lugares em que aparece na Bíblia seu significado se mostra apropriado. Orígenes usou em uma de suas traduções a palavra Consolator (consolador) e, em outra, Deperecator. Contudo, outros comentaristas rejeitaram ambas. Primeiro, isso não é correto segundo a gramática grega. Segundo, esse significado não se aplica em nenhum lugar onde a palavra aparece. Alguns outros comentaristas usaram a palavra Teacher (mestre) na tradução, mas, segundo as regras de uso da língua grega, esse significado não pode ser aceito. Tertuliano e Agostinho deram preferência à palavra Advocate (advogado). Outros ainda usaram palavras como Assistant (assistente), Confortur e Consoler (consolador). — (Veja Encyclopaedia of Biblical Literature — verbete “Paracleture”).
A possibilidade de uma alteração verbal
Ora, o interessante é que, na língua grega, existe outra palavra: Periclytos. Seu significado é “louvado”. Essa palavra é totalmente equivalente à palavra Muhammad em significado, e há uma grande semelhança de pronúncia entre Periclytos e Paracletus. Não é impossível que os eruditos e sacerdotes cristãos, acostumados a alterar livremente suas escrituras conforme a própria vontade, tenham considerado essa palavra da profecia citada por João contrária às suas crenças e, por isso, introduzido nela certa modificação. Como o Evangelho original escrito por João em grego antigo não existe hoje em lugar algum, é difícil provar qual dessas duas palavras era usada nele.
A palavra original em siríaco
Não se pode chegar a uma conclusão apenas com base na palavra que João teria usado originalmente em grego, pois esse texto era uma tradução da língua original. A língua do Messias era o siríaco da Palestina. Portanto, a palavra que ele usou em seu Evangelho necessariamente seria uma palavra siríaca. Felizmente, encontramos essa palavra siríaca original na biografia escrita por Ibn Hisham (Sīrat Ibn Hisham). Nesse mesmo livro também descobrimos qual era a palavra grega equivalente. Ibn Hisham, citando Muhammad ibn Ishaq, transcreveu a tradução completa dos capítulos 15, versículos 23–27, e 16, versículo 1, do Evangelho escrito por João. Nessa tradução, em vez de usar a palavra grega Farqlit (Paracletus/Periclytos), ele usou a palavra Munhamanna. Depois, Ibn Ishaq ou Ibn Hisham explica que o significado de Munhamanna é Muhammad em siríaco e Periclytos em grego (Ibn Hisham, vol. 1, p. 248).
Agora, é importante observar que, historicamente, a língua dos habitantes comuns da Palestina foi o siríaco até o século IX. Essa região passou a fazer parte dos territórios sob domínio islâmico a partir de meados do século VII. Ibn Ishaq faleceu em 768 d.C., e Ibn Hisham, em 828 d.C. Isso significa que, durante a época de ambos, os cristãos da Palestina falavam siríaco. Não era muito difícil para esses dois historiadores estabelecer contato com os súditos cristãos de seu próprio país. Além disso, naquela época, milhões de cristãos de língua grega viviam nos territórios sob domínio islâmico. Portanto, não lhes era nada difícil saber qual palavra grega era equivalente a determinada palavra siríaca. Ora, se a palavra siríaca Munhamanna foi usada na tradução de Ibn Ishaq, e se Ibn Ishaq, em sua explicação, usou em árabe a palavra equivalente Muhammad e, em grego, Periclytos, então não resta dúvida de que Jesus, filho de Maria, anunciou pelo nome o Profeta Muhammad e deu as boas-novas de sua vinda. Ao mesmo tempo, fica claro que a palavra original usada no Evangelho escrito por João em grego era Periclytos, que mais tarde os eruditos cristãos alteraram para Paracletus.
O reconhecimento da verdade pelo rei Negus
Um testemunho histórico ainda mais antigo encontra-se no relato de Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: quando Negus convocou à sua corte os emigrantes que haviam migrado para a Abissínia e ouviu de Ja’far ibn Abu Talib falar dos ensinamentos e da orientação do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), disse:
Parabéns a vocês e Àquele de quem vieram. Testemunho que ele é o Mensageiro de Allah e que é precisamente aquele cuja vinda Jesus, filho de Maria, anunciou.
Esta narrativa é relatada em vários hadiths pelo próprio Hazrat Jafar e por Hazrat Umm Salama. Dela não se comprova apenas que, no início do século VII, o Negus sabia que Hazrat Jesus havia feito uma profecia sobre um profeta; comprova-se também que uma indicação clara desse profeta se encontrava no Evangelho, razão pela qual não foi difícil ao Negus concluir que o profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era esse profeta. Naturalmente, não se pode saber por meio desta narrativa se o Negus tomou conhecimento das boas-novas de Hazrat Jesus através do Evangelho escrito por João ou se havia outro meio pelo qual tomou conhecimento delas.
As boas-novas do Evangelho de Barnabé
Nas profecias que Barnabé citou em seu Evangelho a respeito do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em alguns lugares Hazrat Jesus mencionou o nome do profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); em outros, chamou-o de Mensageiro de Allah; em outros, usou para ele a palavra Messias; em outros, Admirável; e em outros ainda empregou uma frase tão clara que é inteiramente equivalente a “Não há divindade senão Allah, Muhammad é o Mensageiro de Allah” (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não é possível citar integralmente todas essas boas-novas. Isso porque são tão numerosas e foram apresentadas em vários lugares, com diferentes formas de exposição dos contextos anteriores e posteriores, que se poderia compor um livro inteiro a partir delas. A seguir, são citados alguns exemplos: (O Evangelho de Barnabé, traduzido para o inglês por LONSDALE e LAUR RAAG, foi publicado em 1907 pela Clarendon Press, de Oxford. Para os leitores instruídos em inglês, a citação da referida obra é apresentada em inglês — o tradutor.)
Os profetas que Allah enviou ao mundo, cujo número é de cento e quarenta e quatro mil, falaram de maneira ambígua. Mas, depois de mim, surgirá o esplendor de todos os profetas e dos santos, e iluminará a escuridão das palavras dos profetas, porque ele é o Mensageiro de Allah. (Pois todos os profetas, que são cento e quarenta e quatro mil, a quem Deus enviou ao mundo, falaram obscuramente. Mas, depois de mim, virá o Esplendor de todos os Profetas e dos santos, e lançará luz sobre a escuridão de tudo o que os profetas disseram, porque ele é o Mensageiro de Deus. (Capítulo 17, Evangelho de Barnabé). (Capítulo 17))
Os fariseus e os levitas disseram: “Se você não é o Messias, nem Elias, nem qualquer outro profeta, por que então está ensinando uma nova doutrina e se apresentando como superior até mesmo ao Messias?” Jesus respondeu: “Os milagres que Deus realiza por minhas mãos mostram que faço aquilo que Deus quer. Caso contrário, na realidade não me considero digno de ser maior do que aquele de quem vocês falam. Não sou digno sequer de desatar as amarras das meias ou as correias dos sapatos do Mensageiro de Deus, a quem vocês chamam de Messias, que foi criado antes de mim, virá depois de mim e trará as palavras da verdade, para que sua fé não tenha fim.” — Versículo 42. (Eles disseram: “Se você não é o Messias, nem Elias, nem qualquer profeta, por que prega uma nova doutrina e se faz mais importante do que o Messias?”
Jesus respondeu: “Os milagres que Deus realiza por minhas mãos mostram que faço aquilo que Deus quer; na verdade, não me considero como aquele de quem vocês falam, pois não sou digno de desatar as amarras das meias ou as correias dos sapatos do Mensageiro de Deus, a quem vocês chamam de Messias, que foi criado antes de mim, virá depois de mim e trará as palavras da verdade, para que sua fé não tenha fim.” (Capítulo 42. O Evangelho de Barnabé).
Digo-vos verdadeiramente que todo profeta que veio nasceu apenas para uma nação, como sinal da misericórdia de Deus. Por isso, as palavras dos profetas não alcançaram ninguém além do povo para o qual foram enviados. Mas, quando vier o Mensageiro de Deus, Deus lhe dará, por assim dizer, o selo de Sua própria mão. Ele virá com autoridade sobre os ímpios e destruirá a idolatria de tal maneira que Satanás ficará confundido. (Depois de uma longa conversa com os discípulos,) Hazrat Jesus, que a paz esteja com ele, declara claramente que esse profeta nascerá entre os filhos de Ismael, e não entre os filhos de Isaac. — Capítulo 43. (Digo-vos verdadeiramente que todo profeta, quando vem, nasce para uma única nação, trazendo a marca da misericórdia de Deus. E assim, suas palavras não se estendiam senão ao povo para o qual foram enviados. Mas, quando vier o Mensageiro de Deus, Deus lhe dará, por assim dizer, o selo de Sua mão, de modo que ele levará salvação e misericórdia a todas as nações do mundo que receberem sua doutrina. Ele virá com poder contra os ímpios e destruirá a idolatria, de tal modo que deixará Satanás confundido. Crede em mim, pois vos digo verdadeiramente que a promessa foi feita em Ismael, não em Isaac. (Capítulo 43 — Evangelho de Barnabé))
Por isso vos digo que o Mensageiro de Deus é um esplendor pelo qual quase tudo o que Deus criou se alegrará. Pois ele é adornado com o espírito do entendimento e do conselho, o espírito da sabedoria e da força, o espírito do temor e do amor, o espírito da prudência e da temperança. Ele é adornado com o espírito da caridade e da misericórdia, o espírito da justiça e da piedade, o espírito da gentileza e da paciência. Deus lhe concedeu essas qualidades em quantidade três vezes maior do que a concedida a todas as Suas criaturas. Quão abençoado será o tempo em que ele vier ao mundo! Crede que eu o vi e lhe prestei reverência. Assim, todos os profetas o viram. Ao ver seu espírito, Deus lhe concedeu a profecia, e, quando o vi, minha alma se encheu de consolação. Então disse: “Ó Muhammad, que Deus esteja contigo e que Ele me torne digno de amarrar a correia do teu sapato. Pois, se eu alcançar essa honra, tornar-me-ei um grande profeta e um santo de Deus.” — Capítulo 44. (Por isso vos digo que o Mensageiro de Deus é um esplendor que dará alegria a quase tudo o que Deus criou, pois ele é adornado com o espírito do entendimento e do conselho, o espírito da sabedoria e da força, o espírito do temor e do amor, o espírito da prudência e da temperança. Ele é adornado com o espírito da caridade e da misericórdia, o espírito da justiça e da piedade, o espírito da gentileza e da paciência, que recebeu de Deus três vezes mais do que deu a todas as Suas criaturas. Ó tempo abençoado, quando ele vier ao mundo! Crede em mim: eu o vi e lhe prestei reverência, assim como todo profeta o viu. Vendo seu espírito, Deus lhes concede a profecia. E, quando o vi, minha alma se encheu de consolação, dizendo: “Ó Muhammad, que Deus esteja contigo e que Ele me torne digno de amarrar a correia do teu sapato; pois, obtendo isso, serei um grande profeta e santo de Deus.” (Capítulo 44).
Não deixem que seus corações se encham de tristeza, nem tenham medo. Pois não fui eu quem os criou; ao contrário, Deus é o nosso Criador, e foi Ele quem os criou. Ele cuidará de vocês. Quanto a mim, vim agora ao mundo para preparar o caminho para o Mensageiro de Deus — ele trará a salvação ao mundo. Mas tenham cuidado para não serem enganados, pois virão muitos falsos profetas e, usando o meu nome, corromperão a minha Bíblia.
Então Andrew disse: Mestre, diga-nos alguns de seus sinais, para que possamos reconhecê-lo.
Jesus disse: Ele não virá no vosso tempo. Virá alguns anos depois de vós, quando o meu Evangelho (Bíblia) estiver tão corrompido que, no máximo, restarão trinta crentes. Nesse tempo, Deus terá misericórdia do mundo e enviará o Seu Mensageiro, sobre cuja cabeça uma nuvem fará sombra. Por meio disso, ele será reconhecido como o escolhido de Deus, e através dele Deus será conhecido no mundo. Ele terá grande poder contra os ímpios e extirpará a idolatria do mundo. Sinto grande alegria, pois por meio dele será possível conhecer o nosso Deus e proclamar a Sua santidade. O mundo conhecerá a minha veracidade. Ele se vingará daqueles que me considerarem algo maior do que um homem; ele trará uma verdade mais clara do que a verdade de todos os profetas. — Capítulo 72 (Que o teu coração não se perturbe, nem tenhas medo, pois não fui eu quem te criou, mas Deus, nosso Criador, que te criou, te protegerá. Quanto a mim, vim agora ao mundo para preparar o caminho para o Mensageiro de Deus, que trará a salvação ao mundo. Mas cuidado para não serdes enganados, pois virão muitos falsos profetas que tomarão as minhas palavras e corromperão o meu Evangelho. Então André disse: Mestre, dize-nos algum sinal para que possamos reconhecê-lo. Jesus respondeu: Ele não virá no vosso tempo, mas virá alguns anos depois de vós, quando o meu Evangelho tiver sido anulado, de modo que mal restarão trinta fiéis. Nesse tempo, Deus terá misericórdia do mundo e enviará o Seu Mensageiro; sobre a sua cabeça repousará uma nuvem branca, pela qual ele será reconhecido como o eleito de Deus e por meio dele será manifestado ao mundo. Ele virá com grande poder contra os ímpios e destruirá a idolatria sobre a terra. E isso me alegra, porque por meio dele o nosso Deus será conhecido e glorificado, e ficará demonstrado que eu sou verdadeiro; ele executará vingança contra aqueles que disserem que sou mais do que um homem. Ele virá com uma verdade mais clara do que a de todos os profetas. — Capítulo 72, O Evangelho de Barnabé.)
O juramento de Deus foi feito em Jerusalém, na mesquita de Salomão, e não em outro lugar. Mas crede: chegará um tempo em que Deus fará descer a Sua misericórdia sobre outra cidade. Então será possível adorá-Lo verdadeiramente em todos os lugares, e Deus, por Sua misericórdia, aceitará a oração correta em todos os lugares.
Jesus disse: Na verdade, fui enviado como profeta da salvação para os filhos de Israel. Mas depois de mim virá o Messias, enviado por Deus para o mundo inteiro, para quem Deus criou todo este mundo. Então Deus será adorado em todo o mundo, e a Sua misericórdia descerá. — Capítulo 82 (Pois a promessa de Deus foi feita em Jerusalém, no templo de Salomão, e não em outro lugar. Mas crede em mim: chegará um tempo em que Deus concederá a Sua misericórdia a outra cidade, e em todos os lugares será possível adorá-Lo em verdade. E Deus, em todos os lugares, aceitará a verdadeira oração com misericórdia. Na verdade, fui enviado à casa de Israel como profeta da salvação, mas depois de mim virá o Messias, enviado por Deus para todos os mundos, para quem Deus criou o mundo. Então, em todo o mundo, Deus será adorado e a misericórdia será recebida. — Capítulo 82, O Evangelho de Barnabé.)
Jesus disse: Juro pelo Deus eterno, em cuja mão está a minha vida, que não sou o Messias cuja vinda todas as nações do mundo aguardam, e a respeito de quem Deus prometeu ao nosso pai Abraão, dizendo: por meio da tua descendência, todas as nações do mundo serão abençoadas.
Mas, quando Deus me retirar do mundo, Satanás se rebelará dessa maneira, fazendo com que os ímpios creiam que sou Deus e filho de Deus. Por isso, eles corromperão as minhas palavras e os meus ensinamentos. A tal ponto que, com muita dificuldade, restarão então trinta fiéis. Nesse tempo, Deus demonstrará misericórdia ao mundo e enviará o Seu Mensageiro, para quem criou todas estas coisas do mundo; ele virá do sul com poder e destruirá os ídolos juntamente com os idólatras. Retirará de Satanás o domínio que ele conquistou sobre os homens. Trará a misericórdia de Deus para aqueles que crerem nele. Felizes os que aceitarem as suas palavras. — Capítulo 96 (Jesus respondeu: Como Deus vive, diante de cuja presença está a minha alma, não sou o Messias que todas as tribos da terra esperam, assim como Deus prometeu ao nosso pai Abraão, dizendo: na tua descendência abençoarei todas as tribos da terra. Mas, quando Deus me retirar do mundo, Satanás levantará novamente esta maldita sedição, fazendo os ímpios crerem que sou Deus e filho de Deus; por isso, as minhas palavras e a minha doutrina serão corrompidas, de modo que mal restarão trinta fiéis. Então Deus terá misericórdia do mundo e enviará o Seu Mensageiro, para quem criou todas as coisas; ele virá do sul com poder e destruirá os ídolos juntamente com os idólatras, e retirará de Satanás o domínio que ele exerce sobre os homens. Trará consigo a misericórdia de Deus para a salvação daqueles que nele crerem. Bendito seja aquele que acreditar nas suas palavras. — Capítulo 96, O Evangelho de Barnabé.)
O sacerdote perguntou: Por que nome será chamado esse Messias, e quais sinais anunciarão a sua vinda?
Jesus responde: O nome desse Messias é Admirável. Pois, quando Deus criou sua alma, Ele mesmo lhe deu esse nome e a colocou em uma posição celestial. Deus disse: “Espera, ó Maomé! Por tua causa criarei o Paraíso, o mundo e muitas outras coisas, e te concederei tudo isso como recompensa. Aqueles que te favorecerem serão favorecidos, e aqueles que te amaldiçoarem serão amaldiçoados. Quando te enviar ao mundo, enviar-te-ei como o profeta da salvação. Tua palavra será verdadeira; de tal modo que a terra e o céu deixarão de existir, mas tua religião permanecerá. Portanto, seu nome abençoado é Maomé.” — Capítulo 97. (Então disse o sacerdote: Como será chamado o Messias e que sinal revelará sua vinda?)
Jesus respondeu: O nome do Messias é Admirável. Pois o próprio Deus lhe deu esse nome quando criou sua alma e a colocou em um esplendor celestial. Deus disse: “Espera, Maomé; por tua causa criarei o paraíso, o mundo e uma grande multidão de criaturas, dos quais te faço presente, de modo que quem te abençoar será abençoado e quem te amaldiçoar será amaldiçoado. Quando te enviar ao mundo, enviar-te-ei como meu mensageiro da salvação, e tua palavra será verdadeira, de modo que o céu e a terra perecerão, mas tua fé jamais perecerá. Maomé é seu nome abençoado.” (Capítulo 97 — O Evangelho de Barnabé).
O sacerdote perguntou: Depois desse Mensageiro de Deus, virão também outros profetas? Jesus respondeu: Depois dele não virá nenhum verdadeiro profeta enviado por Deus. Mas virão muitos falsos profetas, por causa dos quais sofro profundamente. Pois Satanás os fará surgir por justo decreto de Deus, e eles se esconderão sob o pretexto do meu Evangelho. — (Capítulo 97) (O sacerdote respondeu: Depois da vinda do mensageiro de Deus, virão outros profetas? Jesus respondeu: Depois dele não virão verdadeiros profetas enviados por Deus, mas virá um grande número de falsos profetas, pelos quais sofro, pois Satanás os suscitará pelo justo julgamento de Deus, e eles se esconderão sob o pretexto do meu Evangelho. — Capítulo 97 — O Evangelho de Barnabé.) Jesus disse: Sabei, ó Barnabé, que um único dentre meus discípulos me venderá aos inimigos por trinta moedas. Estou certo de que aquele que me vender será morto em meu nome. Pois Deus me elevará da terra e mudará a aparência desse traidor de tal modo que todos pensarão que ele sou eu. Contudo, quando ele morrer essa morte vergonhosa, durante muito tempo minha própria desonra será narrada. Mas, quando vier o santo Mensageiro de Deus, Maomé, minha má fama será removida. Deus fará isso porque reconheci a veracidade dele (de Maomé). Ele me recompensará desta maneira: as pessoas saberão que estou vivo e que não tenho relação alguma com essa morte vergonhosa. — (Capítulo 112) (Sabei, ó Barnabé — e serei vendido por um dos meus discípulos por trinta moedas; por isso estou certo de que aquele que me vender será morto em meu nome, pois Deus me elevará da terra e mudará a aparência do traidor, de modo que todos acreditarão que ele sou eu. No entanto, quando ele morrer de uma morte infame, permanecerei por muito tempo no mundo sob essa desonra. Mas, quando Maomé vier, o sagrado Mensageiro de Deus, essa infâmia será retirada. E Deus fará isso porque confessei a verdade do Messias, que me dará esta recompensa: serei reconhecido como vivo e como estranho a essa morte infame. — Capítulo 112 — O Evangelho de Barnabé.)
Em verdade vos digo que, se a verdade não tivesse sido corrompida no Livro de Moisés, Deus não teria dado a nosso pai Davi um segundo livro. E, se o livro de Davi não tivesse sido corrompido, Deus não me teria dado o Evangelho. Pois nosso Deus não é mutável e deu a mesma mensagem a todos os homens. Portanto, quando vier o Mensageiro de Deus, ele limpará as corrupções que os ímpios introduziram em meu Livro. — (Capítulo 124) (Em verdade vos digo que, se a verdade não tivesse sido apagada do Livro de Moisés, Deus não teria dado a nosso pai Davi o segundo livro. E, se o Livro de Davi não tivesse sido contaminado, Deus não me teria confiado o Evangelho, visto que o Senhor nosso Deus é imutável e falou apenas uma mensagem a todos os homens. Portanto, quando vier o Mensageiro de Deus, ele virá para limpar tudo aquilo com que os ímpios corromperam o meu Livro. — Capítulo 124 — O Evangelho de Barnabé.)
O cristianismo na Arábia
Adição dos dois compiladores
[Quando foram reunidos alguns materiais ou elementos para este título, sentiu-se a falta dos assuntos necessários para iniciar a discussão. Foi possível preencher essa lacuna reunindo materiais das obras de outros autores. Eles são apresentados abaixo como citações. — [Os dois compiladores]]
Primeiro: O cristianismo entrou na Arábia no século III cristão, quando a imoralidade e as inovações religiosas (novas doutrinas inventadas) se espalhavam gradualmente pelas igrejas do Oriente. Os historiadores em geral dizem que esta foi a época de Dhu Nuwas. Contudo, não concordo com isso, pois ele morreu cerca de quatrocentos anos antes. A expansão dessa religião ocorreu sobretudo em Najran, e ela não se difundiu muito no restante da Arábia. Naturalmente, o cristianismo se espalhou entre as tribos de Banu Rabia e Ghassan e, em certa medida, entre os Qudáia. Nota da tradução para o urdu da História de Ibn Khaldun, primeiro volume, por Allama Hakim Ahmad Husain Allahabadi.
Dois: O cristianismo foi difundido em Rabia, Gassã e em algumas partes de Quda’a. Parece que eles adotaram o cristianismo dos romanos, pois os árabes viajavam frequentemente por seus territórios para fins comerciais. Em Hira, várias tribos árabes aceitaram o cristianismo conjuntamente. Eram chamados de Abbād. Entre eles estava também Adi ibn Zayd al-Abbadi. Havia também cristãos entre os Banu Aghl. (Bulugh al-Adab, tradução urdu de Pir Muhammad Hasan, volume III, p. 152.)
Três: Os Banu Gassã adotaram o cristianismo em 330 d.C. Depois, essa religião se espalhou pelo Irã, pela Arábia, pelo Bahrein, pelo deserto de Farã, por Dumat al-Jandal e pelas regiões às margens do Eufrates e do Tigre. O Negus e o César empenharam-se conjuntamente na propagação dessa religião. De 395 a 513 d.C., foram feitos esforços especiais para difundi-la, e grande quantidade de exemplares do Evangelho foi distribuída no Iêmen. — Rahmatul-lil-Alamin, volume I, p. 31, nota.
Quatro: Antes dos Tubbaʿ, todas as classes de Saba eram adoradoras dos astros. Seus maiores deuses eram Shams e Almaqah. Na língua himiarita, a lua é chamada de Almaqah. Em 330 d.C., sob a influência dos romanos egípcios na costa africana, atrás do Iêmen, o cristianismo provocou agitação. Com o auxílio dos romanos da Síria, a cidade de Najrã, na extremidade do Iêmen, adotou o cristianismo. Sob a influência de todos esses fatores, nem os Tubbaʿ do Iêmen conseguiram proteger-se do cristianismo. Embora a adoração dos astros tenha sido abandonada, seus ídolos não foram removidos. Então, ao lado de Shams, Almaqah e Astarte, começou também a aparecer o nome de Rahman, nome que, na era pré-islâmica, era reservado aos judeus e aos cristãos.
Cinco: Nessa região, o judaísmo e o cristianismo eram as duas religiões civilizadas e reveladas. Eram rivais entre si. Como se soube no capítulo anterior, havia conflitos entre o povo sabeu de Himyar e os romanos e abissínios. Por isso, os Tubbaʿ de Himyar davam preferência ao judaísmo em vez do cristianismo. Não se encontra nenhuma prova de que algum Tubbaʿ, além de Abd Kalil, tenha adotado o cristianismo. Segundo os relatos dos árabes, Abd Kalil também era cristão. Uma inscrição em pedra também comprova que eles eram cristãos. Entre os Tubbaʿ restantes, havia uma pequena quantidade de adoradores dos astros e uma maioria de judeus. A História de Tabari diz que, antes de todos, Asyad Abu Karab(Árabe***)adotou o judaísmo. A religião da realeza espalhou-se também entre o povo em geral. Assim, eclodiu no Iêmen um conflito entre o judaísmo e o cristianismo.
Seis: Os romanos, ao abrirem uma rota marítima, fizeram declinar o mercado de Saba. Não satisfeitos com isso, atacaram o Iêmen em 20 a.C. O abissínio de Aksum, que a princípio nascera no mesmo país que os romanos egípcios e mais tarde se tornara adepto dessa religião, expressava repetidamente seu desagrado diante das provocações dos romanos. Himyar não deixava passar nenhuma oportunidade. Sempre que podia, saqueava no mar os comerciantes romanos. No norte da Arábia, o Irã e Roma estavam envolvidos em conflitos mútuos. Era natural que Himyar simpatizasse com os iranianos.
Os romanos quiseram pôr fim à questão por meio de um tratado. No final do século VI d.C., o César de Roma, Justiniano, enviou um embaixador ao Iêmen, junto ao Tubbaʿ. ——- Essa proposta de paz não conseguiu extinguir o fogo da hostilidade. Naquela época, Dhu Nuwas era o governante.
Sete: Os comerciantes romanos chegavam às regiões costeiras do Iêmen com mercadorias para o comércio e, por onde passavam, distribuíam, juntamente com as mercadorias, também os presentes do cristianismo. Sacerdotes cristãos também viajavam pelo interior do país com objetivos específicos. Primeiro em Áden e depois em Adana, onde antes se adoravam árvores, o cristianismo floresceu e prosperou. As técnicas e artes que hoje se veem na Europa já existiam no passado. Sob o pretexto do comércio, sempre se alcançaram objetivos religiosos e políticos. Naquela época também se alcançaram objetivos religiosos e políticos sob o pretexto desse comércio. Por meio dessas técnicas, Najrã, no Iêmen, transformou-se no centro do cristianismo. Em outras palavras, tornou-se para os romanos e os abissínios um lugar de esperança e apoio. Os judeus himiaritas ardiam de ira ao ver isso.
A história dos Companheiros do Fosso
(A partir daqui começa o texto do próprio autor)
São descritos vários episódios em que se acenderam fogueiras em valas e os crentes foram lançados nelas. Isso mostra que, muitas vezes, tais perseguições demoníacas foram praticadas no mundo.
Relato de Hazrat Suhaib Rumi (que Allah esteja satisfeito com ele)
Entre esses episódios, há um que Hazrat Suhaib Rumi (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Havia um rei que tinha um feiticeiro. Quando envelheceu, ele disse ao rei: “Dê-me um menino que aprenda magia comigo.” O rei encarregou um menino dessa tarefa. Enquanto ia e voltava à casa do feiticeiro, o menino começou a encontrar-se com um monge, que provavelmente era seguidor de Hazrat Massih (que a paz esteja sobre ele). Influenciado pelas palavras do monge, o menino creu. Depois, ao receber sua educação espiritual do monge, adquiriu poderes sobrenaturais. Por meio dele, os cegos passaram a recuperar a visão e os leprosos a ser curados. Quando o rei soube que o menino havia crido no tawhid, primeiro matou o monge e depois quis matar o menino. Porém, não foi possível matá-lo com nenhum instrumento. Finalmente, o menino disse: “Se quiser matar-me, reúna o povo e atire uma flecha contra mim dizendo: ‘Em nome do Senhor deste menino.’”
O rei matou o menino dessa maneira. Depois desse acontecimento, o povo exclamou em uníssono: “Cremos no Senhor deste menino.” Os conselheiros do rei disseram: “Foi exatamente isso que o senhor queria evitar. As pessoas abandonaram a sua religião e adotaram a religião daquele menino.” Ao ver essa situação, o rei ficou terrivelmente furioso. Então mandou cavar valas à margem da estrada e enchê-las de fogo ardente. Depois, todos os que não aceitaram abandonar a fé foram lançados no fogo (Ahmad, Muslim, Nasa’i, Tirmidhi, Ibn Jarir, Abd al-Razzaq, Ibn Abi Shaybah, Tabarani, Abd ibn Humayd).
Episódio relatado por Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele)
Um segundo episódio foi relatado por Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: um rei do Irã embriagou-se ao beber vinho e cometeu adultério com a própria irmã. Assim, estabeleceu-se entre os dois uma relação ilícita. Quando o caso veio à tona, o rei declarou que Deus havia tornado lícito o casamento com a irmã. O povo não aceitou isso, então o rei obrigou-o a aceitar tal declaração por meio de vários tipos de punição. Os que se recusaram a aceitá-la começaram a ser lançados em valas de fogo. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, a partir de então, entre os magos (adoradores do fogo), começou o costume de casar-se com mulheres que lhes eram proibidas. — Ibn Jarir
Relato israelita
O terceiro relato foi transmitido por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). É possível que ele tenha citado esse acontecimento de uma narrativa israelita. Ele disse: os babilônios obrigaram os Filhos de Israel a abandonar a religião de Hazrat Musa (que a paz esteja sobre ele). Aqueles que se recusaram a abandonar essa religião foram lançados em fossos cheios de fogo. — Ibn Jarir, Abd ibn Humayd.
O acontecimento de Najran
O acontecimento de Najran é o mais famoso. Historiadores islâmicos como Ibn Hisham, Tabari, Ibn Khaldun e os autores da obra Mu’jam al-Buldan, entre outros, narraram esse acontecimento. Em resumo, o rei himiarita de Iêmen, Tubban As’ad Abu Karib, certa vez foi a Yathrib e, influenciado pelos judeus, adotou o judaísmo. Depois, levou consigo para o Iêmen dois sábios dos Banu Qurayza. Ali, promoveu amplamente o judaísmo. Após sua morte, seu filho Dhu Nuwas o sucedeu. Ele atacou Najran, a sólida fortaleza dos cristãos no sul da Arábia, com o objetivo de eliminar o cristianismo dali e obrigar seus habitantes a adotar o judaísmo. Ibn Hisham diz que essas pessoas eram seguidoras da verdadeira religião de Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele). Ao chegar a Najran, ele convocou o povo a aceitar o judaísmo, mas eles se recusaram. Então, grande número de pessoas foi lançado em fossos cheios de fogo e queimado até morrer, enquanto muitas outras foram mortas. Ao todo, vinte mil pessoas foram mortas. Entre os habitantes de Najran, um homem chamado Dhu Tha’laban conseguiu fugir. Segundo uma versão, ele foi até o César de Roma; segundo outra, foi até o rei da Abissínia, o Negus, e pediu providências contra aquela atrocidade. De acordo com a primeira versão, o César informou o Negus; de acordo com a segunda, o Negus pediu ao César que enviasse navios de guerra. De qualquer modo, por fim, setenta mil soldados abissínios, sob o comando de um comandante chamado Aryat, invadiram o Iêmen. Dhu Nuwas foi morto. O Estado judeu chegou ao fim, e o Iêmen tornou-se parte do reino cristão da Abissínia.
Missionários cristãos no Iêmen
Os relatos dos historiadores islâmicos não são apenas confirmados por outras fontes históricas; por meio delas, também se conhecem muitos detalhes adicionais. O primeiro domínio dos abissínios cristãos radicais sobre o Iêmen foi estabelecido em 34 d.C. e permaneceu intacto até 378 d.C. A partir dessa época, missionários cristãos começaram a entrar no Iêmen. Em um período próximo àquele, chegou a Najran um asceta cristão viajante chamado Faymiyun, devoto de Deus e dotado do poder de realizar descobertas e milagres. Ele explicou aos habitantes de lá quão ruim era a idolatria. Graças à sua pregação, os habitantes de Najran aceitaram o cristianismo. Seu sistema de governo era dirigido por três autoridades. A primeira era um chefe poderoso, semelhante aos líderes tribais. Cabiam a ele os assuntos externos, os tratados internacionais e o comando do exército. A segunda era o guardião, responsável pela administração dos assuntos internos. A terceira era o usquf, ou bispo, cuja função era oferecer liderança religiosa. Najran era uma cidade extremamente importante no sul da Arábia. Era um centro de comércio, negócios e indústria. Ali havia fábricas de seda, couro e armas. As famosas vestimentas iemenitas também eram produzidas ali. Por isso, Dhu Nuwas atacou esse lugar importante não apenas por motivos religiosos, mas também políticos e econômicos. Ele matou Haritha, a principal autoridade de Najran — chamado Arethas pelos historiadores siríacos. Diante de sua esposa, Ruma, suas duas filhas foram mortas, e ela foi obrigada a beber o sangue delas. Em seguida, ela também foi morta. Os ossos do usquf Paulo foram retirados da sepultura e queimados. Mulheres e homens, crianças e idosos, padres e sacerdotes, todos foram lançados nos fossos cheios de fogo. Segundo os relatos, entre vinte e quarenta mil pessoas foram mortas. Esse acontecimento ocorreu em 523 d.C.; em 525 d.C., os abissínios invadiram o Iêmen, mataram Dhu Nuwas e puseram fim ao seu reino himiarita. A prova de sua autenticidade encontra-se nas inscrições de Hisn Ghorab, descobertas no Iêmen por arqueólogos modernos.
Testemunhos oculares do acontecimento dos Companheiros do Fosso
Diversos escritos e artigos do século VI cristão apresentam relatos detalhados desse acontecimento dos Companheiros do Fosso; alguns foram escritos naquela mesma época, a partir de informações ouvidas de testemunhas oculares. Entre seus autores, três eram contemporâneos do acontecimento. Um chamava-se Procópio, e o segundo era Cosmos Indico-Pleustis. Por ordem do Negus Elesboan, ele traduzia para o inglês as obras gregas de Ptolomeu e vivia na cidade costeira de Adolis, na Abissínia. O terceiro era João Malala (Johannes Malala). Historiadores posteriores citaram esse acontecimento a partir de seu relato. Depois, João de Éfeso (falecido em 585 d.C.) registrou, em sua história da Igreja, a narrativa da perseguição aos cristãos de Najran. Ele citou o acontecimento de uma carta do bispo Simeão, narrador contemporâneo. Essa carta havia sido escrita em nome do Abade Von Gabula. Em sua carta, Simeão citou o acontecimento a partir de um relato testemunhado pelos habitantes do Iêmen. A carta foi publicada em Roma em 1881 d.C. e voltou a ser publicada em 1890 d.C., no contexto de um relato sobre a situação dos mártires cristãos. O Patriarca Dionísio e Zacarias de Mitilene também descreveram esse acontecimento em suas histórias siríacas. O bispo Paulo de Edessa escreveu um poema de lamento, ou elegia, pelos mortos de Najran, que ainda existe. A obra escrita em siríaco, Al-Himyar, e sua tradução inglesa, Book of Himyarites, foram publicadas em Londres em 1924 d.C. Essa obra reconhece a veracidade dos relatos dos historiadores muçulmanos. No Museu Britânico existem alguns manuscritos abissínios daquela época e de períodos próximos, que oferecem apoio a essa narrativa. Philby escreveu em seu relato de viagem Arabian Highlands que o local de Najran onde ocorreu o acontecimento dos Companheiros do Fosso continua sendo bem conhecido do povo até hoje. Perto de Umm Kharaq existem, em um lugar, algumas imagens esculpidas na pedra; e os habitantes atuais de Najran sabem onde ficava o local da Caaba de Najran — eles mesmos lhe deram o nome de Caaba, e ela era conhecida como a Caaba de Najran — (Nota do autor).
Construção de um palácio na forma da Caaba
Depois que os cristãos abissínios conquistaram Najrã, construíram ali um edifício com o formato da Caaba. Eles queriam conferir-lhe uma posição central, em lugar da Casa da Caaba situada em Meca. Seus sacerdotes usavam turbantes e consideravam-na um santuário inviolável. O Império Romano enviava ajuda financeira para essa Caaba. Nessa Caaba de Najrã, os sacerdotes, liderados por seu bispo principal e outros dignitários, compareceram à presença do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) para debater, e ocorreu o famoso episódio da mubāhala, mencionado no versículo 61 da surata Āl ʿImrān. (Surata as-Saff, nota 7)
Estabelecimento do domínio cristão no Iêmen
Para vingar a perseguição que Zu Nuwās, o governante judeu do Iêmen em Najrã, havia infligido aos seguidores do Messias (que a paz esteja com ele), o governo cristão da Abissínia invadiu o Iêmen, pôs fim ao domínio himiarita e estabeleceu o domínio abissínio sobre toda a região em 525 d.C. Tudo isso ocorreu com a cooperação mútua entre o governo romano de Constantinopla e o governo da Abissínia, pois, naquela época, os abissínios não possuíam nenhuma frota marítima relevante. Os romanos forneceram os navios de guerra, e os abissínios, com o auxílio deles, desembarcaram na costa do Iêmen com setenta mil soldados. É preciso saber, desde logo, que nada disso foi simplesmente resultado de uma motivação religiosa. Pelo contrário, havia objetivos econômicos e políticos por trás de tudo, e foram eles que os estimularam a agir. A vingança pelo sangue dos cristãos perseguidos não passava de um pretexto. Desde o dia em que o Império Romano estabeleceu seu domínio sobre o Egito e a Síria, seu objetivo era retirar das mãos dos árabes e assumir para si o comércio entre os países da África Oriental, da Índia, da Indonésia e de outras regiões e os territórios sob o domínio romano, comércio sobre o qual os árabes vinham desfrutando de um monopólio havia vários séculos. Assim, poderia usufruir integralmente dos lucros e destruir a intermediação dos comerciantes árabes. Com esse objetivo, nos anos 24 ou 25 a.C., o imperador Augusto enviou uma grande expedição naval à costa ocidental da Arábia, sob o comando do general Élio Galo (Aelius Gallus), para submeter ao seu domínio a faixa de terra que se estendia do sul da Arábia até a Síria. Mas as difíceis condições geográficas da Arábia fizeram essa tentativa fracassar. Depois, os romanos estabeleceram sua frota no Mar Vermelho, fazendo cessar todo o comércio marítimo dos árabes. Restou-lhes a possibilidade de comerciar somente por terra. Para conquistar também essa rota terrestre, formaram uma aliança com o governo cristão da Abissínia e ajudaram-no a conquistar o Iêmen, fornecendo-lhe navios de guerra.
Como Abraha se tornou governante do Iêmen
Os historiadores apresentaram diferentes relatos sobre o exército abissínio que invadiu o Iêmen. Ibn Kathir afirma que a expedição foi liderada por dois comandantes: um era Aryat e o outro, Abraha. Muhammad ibn Ishaq diz que ambos concordam quanto ao fato de que, mais tarde, Aryat e Abraha entraram em conflito, Aryat foi morto e Abraha assumiu o poder sobre o país. Depois, ele persuadiu o imperador a nomeá-lo representante do imperador da Abissínia no Iêmen. Por outro lado, os historiadores gregos e siríacos afirmam que, depois da conquista do Iêmen, quando os abissínios começaram a matar, um por um, os chefes iemenitas que lhes ofereciam resistência, certo chefe — cujo nome, segundo os historiadores gregos, era Esymphaesus — reconheceu a autoridade dos abissínios, aceitou pagar tributo e obteve do imperador da Abissínia uma carta de nomeação para o cargo de governador do Iêmen. Contudo, o exército abissínio se rebelou contra ele e colocou Abraha como governador em seu lugar. Esse homem era escravo de um comerciante grego do porto abissínio de Adulis. Ele conseguiu ampliar sua influência no exército abissínio que havia invadido o Iêmen. Todos os exércitos que o imperador da Abissínia enviou para subjugá-lo ou se uniam a ele ou eram derrotados. Por fim, após a morte do imperador da Abissínia, seu sucessor reconheceu Abraha como seu representante no Iêmen. Os historiadores gregos o mencionam como Abrames, e os historiadores siríacos, como Abraham. Abraha provavelmente é a pronúncia abissínia; em árabe, sua pronúncia é Ibrāhīm.
Gradualmente, esse homem (Abraha) tornou-se o rei independente do Iêmen, embora reconhecesse apenas nominalmente a supremacia do imperador da Abissínia. Ele se apresentava como representante do imperador. Pode-se avaliar o alcance de sua influência pelo fato de que, quando concluiu a restauração da represa de Ma’rib e realizou uma grande celebração, os embaixadores do imperador romano, do imperador iraniano, do governante de Hira, do governante de Gassã e de outros participaram da festividade. Seu relato encontra-se numa inscrição instalada na represa de Ma’rib. Essa inscrição ainda existe, e Glaser a transcreveu.
A campanha para estabelecer autoridade política, comercial e religiosa sobre os árabes
Depois de consolidar plenamente seu domínio sobre o Iêmen, Abraha começou a agir precisamente com o objetivo que o Império Romano e seus aliados cristãos abissínios tinham em mente desde o início desta expedição: por um lado, promover e expandir o cristianismo na Arábia e, por outro, assumir o controle do comércio que, por meio dos árabes, se realizava entre os países do Oriente e os territórios sob domínio romano. Essa necessidade tornou-se mais premente porque, em consequência do conflito de poder entre Roma e o reino sassânida do Irã, todas as rotas comerciais dos romanos com os países orientais foram interrompidas. Por isso, Abraha construiu uma enorme igreja em Saná, a capital do Iêmen. Os historiadores árabes deram-lhe os nomes de Al-Qalīs, Al-Qulaīs ou Al-Qulaīyās. Esta é a pronúncia árabe da palavra grega Ekklesia/Ecclesia. A palavra urdu kalisa também deriva do grego. Muhammad ibn Ishaq afirma que, depois de concluir essa obra, Abraha informou o imperador da Abissínia de que não descansaria enquanto não desviasse a peregrinação dos árabes da Caaba para essa igreja. (Depois de obter autoridade política sobre o Iêmen, o esforço contínuo dos cristãos consistia em estabelecer uma segunda Caaba em oposição à Caaba e transformá-la no centro dos árabes. Eles também construíram uma Caaba em Najrã, mencionada anteriormente. — Autor.) Ibn Kathir afirma que Abraha proclamou publicamente sua intenção no Iêmen e a divulgou entre o povo. O objetivo dessa iniciativa era enfurecer os árabes, para que fizessem algo que pudesse servir de pretexto para invadir Meca e destruir a Caaba. Muhammad ibn Ishaq afirma que, depois desse anúncio, um árabe conseguiu entrar de algum modo em sua igreja e defecou e urinou nela. Ibn Kathir afirma que esse ato foi cometido por um coraixita. Muqatil ibn Sulayman afirma que alguns jovens coraixitas foram à igreja e atearam-lhe fogo. Se algum desses acontecimentos realmente ocorreu, não havia nada de surpreendente nisso. Pois um anúncio desse tipo, feito por Abraha, provocou intensa agitação, e, na era da antiga jahiliyyah, não seria incompreensível que algum árabe, algum coraixita ou alguns jovens, tomados pela indignação, profanassem a igreja ou ateassem fogo nela. Também não é impossível que o próprio Abraha tenha mandado alguém fazer isso secretamente, a fim de criar um pretexto para atacar Meca. Desse modo, ele pretendia alcançar seus dois objetivos: destruir os coraixitas e aterrorizar todos os árabes. Enfim, qualquer que tenha sido o acontecimento, quando Abraha soube que pessoas que veneravam a Caaba haviam insultado sua igreja, jurou que não se sentaria tranquilamente enquanto não reduzisse a Caaba a pó.
A agressão de Abraha contra Meca
Então, no ano 570 ou 571 da era cristã, ele marchou em direção a Meca com sessenta mil soldados e trinta e um elefantes — segundo outra versão, nove elefantes. No caminho, primeiro um chefe iemenita chamado Dhu Nafar tentou barrá-lo à frente de um exército árabe. Porém, foi derrotado e capturado. Depois, na região de Khath’am, um chefe árabe chamado Nufayl ibn Habib al-Khath’ami preparou-se para enfrentá-lo com os homens de sua tribo. Mas também foi derrotado e capturado. Para salvar a própria vida, concordou em servir de guia. Quando chegaram perto de Taife, os Banu Thaqif concluíram que não tinham capacidade para resistir a um exército tão grande. Temiam que ele destruísse o templo de sua deusa Al-Lat. Por isso, seu chefe Mas’ud foi encontrar-se com Abraha acompanhado de uma delegação. Ele disse: “O templo que você veio destruir não é este; está em Meca. Não destrua este templo. Estamos lhe dando homens para servirem de escolta e lhe mostrarem o caminho para Meca.” Abraha aceitou o que disseram. Então os Banu Thaqif enviaram com Abraha um homem chamado Abu Righal. Quando Meca ainda estava a três farsakh de distância, Abu Righal morreu num lugar chamado Mughammas ou Mughammas. Durante muito tempo, os árabes atiraram pedras sobre seu túmulo. Durante anos e anos, censuraram os Banu Thaqif, porque haviam ajudado os invasores de Meca a proteger o templo de Al-Lat.
A reação dos habitantes de Meca
Ibn Ishaq afirma que Abraha ordenou que sua vanguarda avançasse a partir de Mughammas. Eles saquearam muitos animais domésticos dos habitantes de Tihama e dos coraixitas. Entre eles estavam duzentos camelos de Abd al-Muttalib, avô do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Depois, Abraha enviou um de seus representantes a Meca. Por meio dele, mandou dizer: “Não vim lutar contra vocês. Vim destruir aquela Casa da Caaba. Se não lutarem, não atentarei contra suas vidas nem contra seus bens.”
Por meio de seu representante, ele também informou que, se os habitantes de Meca tivessem algo a dizer, deveriam enviar-lhe seu chefe. Naquela época, o principal chefe de Meca era Abd al-Muttalib. O representante de Abraha encontrou-se com ele e transmitiu-lhe a mensagem de Abraha. Abd al-Muttalib disse: “Não temos força para lutar contra Abraha. Esta é a Casa de Deus. Se Ele quiser, irá protegê-la.” O representante disse: “Venha comigo até Abraha.” Ele aceitou e partiu com ele.
Abd al-Muttalib era uma pessoa tão imponente que Abraha ficou impressionado com ele. Desceu de seu trono e foi ao seu encontro, dizendo: “O que você deseja?” Ele respondeu: “Devolva-me os camelos que você capturou.” Abraha disse: “Ao vê-lo, fiquei extremamente impressionado. Mas você me pede a devolução dos camelos e nada diz sobre a Casa que é o santuário da religião de vocês e de seus antepassados. Com isso, sua posição aos meus olhos diminuiu.” Ele respondeu: “Sou apenas o dono dos meus camelos e estou lhe fazendo um pedido por eles. Quanto à Casa, por que fala dela? Essa Casa tem um Senhor; Ele mesmo a protegerá.” Abraha disse: “Ele não poderá proteger Sua Casa do meu ataque.” Abd al-Muttalib respondeu: “Você sabe, e Ele sabe.” Dito isso, levantou-se, e Abraha devolveu-lhe os camelos.
A narrativa de Ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) é diferente. Nela, não há menção alguma a um pedido pelos camelos. Segundo a narrativa que Abd ibn Humayd, Ibn al-Mundhir, Ibn Mardawayh, Al-Hakim, Abu Nu’aym e Al-Bayhaqi transmitiram dele, quando Abraha chegou a um lugar chamado As-Sifah — situado perto dos limites do haram, entre as montanhas de Arafat e Taife — Abd al-Muttalib foi pessoalmente ao seu encontro e disse: “Que necessidade havia de você vir até aqui? Se precisava de alguma coisa, bastava informar-nos, e nós a teríamos levado até você.” Ele respondeu: “Ouvi dizer que esta Casa é uma casa de paz e segurança. Vim pôr fim à sua segurança.” Abd al-Muttalib disse: “Esta é a Casa de Deus. Até hoje, Ele não permitiu que ninguém interferisse nela.” Abraha respondeu: “Não iremos embora sem reduzi-la a pó.” Abd al-Muttalib disse: “Tome de nós o que quiser e volte.” Mas Abraha não aceitou e ordenou que seu exército avançasse, deixando Abd al-Muttalib para trás.
Se deixarmos as discrepâncias entre essas duas narrativas em seus devidos lugares e não dermos preferência a nenhuma delas sobre a outra, fica claro que Meca e as tribos ao seu redor não tinham força para lutar contra um exército tão imenso e proteger a Caaba. Portanto, pode-se compreender que os coraixitas não fizeram nenhuma tentativa de resistir-lhe. Na ocasião da Batalha dos Confederados, os coraixitas conseguiram reunir apenas cerca de dez ou doze mil homens, incluindo as tribos politeístas e judaicas. Como poderiam enfrentar sessenta mil soldados?
Muhammad ibn Ishaq diz que, ao retornar do local onde se encontrava o exército de Abraha, Abdul-Muttalib disse aos coraixitas que se refugiassem nas montanhas com seus filhos, para que não fossem massacrados em massa. Depois, ele e alguns chefes coraixitas dirigiram-se ao Haram e ficaram junto às correntes da porta da Caaba, suplicando a Allah Todo-Poderoso que protegesse Sua Casa e seus guardiões. Naquele momento, havia 360 ídolos dentro da Caaba. Contudo, naquela situação extrema, eles se esqueceram deles e levantaram as mãos apenas para suplicar a Allah. Nas súplicas citadas pela história, não foi pronunciado o nome de ninguém além de Allah, o Único. Ibn Hisham transcreveu, da biografia de Abdul-Muttalib, os seguintes versos: (Árabe**********)
Ó Allah! O servo protege a sua própria casa; protege também a Tua Casa.
(Árabe *******)
Que amanhã ele não prevaleça sobre a sua cruzada e as suas artimanhas.
(Árabe*******)
Se quiseres deixá-los, assim como a nossa qibla, entregues à sua própria sorte, então faze o que quiseres.
As-Suhayli citou, em Rawd al-Unuf, um poema sobre este assunto.
(Árabe ******)
Hoje, ajuda o teu descendente contra o descendente dos cruzados e seus adoradores.
Ibn Jarir cita o seguinte poema de Abd al-Muttalib, que ele recitou enquanto fazia a súplica:
(Árabe******)
Ó inimigo da Casa, teu inimigo. Impede-os de destruir a própria cidade.
O milagre de Deus para a proteção da Caaba
Depois de fazer as súplicas acima, Abd al-Muttalib e seus companheiros subiram à montanha. No dia seguinte, Abraha avançou para entrar em Meca. Mas o seu elefante especial, chamado Mahmud, que marchava à frente de todos, de repente sentou-se. Bateram nele violentamente e o feriram, golpeando-lhe os olhos e as costas. Mas ele não se moveu de modo algum. Quando tentavam fazê-lo avançar para leste, sul ou norte, ele corria. Porém, quando o conduziam em direção a Meca, sentava-se e não queria avançar de maneira alguma. Nesse ínterim, bandos de pássaros vieram do lado do Mar Vermelho, carregando pequenas pedras nos bicos e nas patas, e começaram a arremessá-las contra o exército de Abraha. O corpo de quem quer que fosse atingido por essas pedras começava a derreter. Muhammad ibn Ishaq e Ikrima dizem que, onde quer que uma pedra caísse, o corpo começava a coçar. A parte que era coçada se abria, e a carne caía. Segundo outra narração de Ibn Abbas, a carne e o sangue escorriam como água, deixando os ossos expostos. O próprio Abraha sofreu o mesmo. A carne de seu corpo começou a cair em pedaços. De onde quer que caísse um pedaço, escorriam pus e sangue. Em meio a esse tumulto e desordem, eles começaram a fugir em direção ao Iêmen. Encontraram Nufayl ibn Habib, que haviam trazido de Khash’am para lhes mostrar o caminho, e disseram-lhe: “Agora, mostra-nos o caminho de volta.” Ele recusou-se categoricamente e disse—(Árabe*****)Agora, onde há lugar para fugir, quando Deus está perseguindo por trás? O insolente (Abraha) está agora derrotado, não vitorioso.
Durante essa fuga, começaram a cair e morrer por toda parte. Ata ibn Yasaar diz que nem todos morreram imediatamente. Alguns morreram ali mesmo, e outros caíram e morreram no caminho durante a fuga. Abraha morreu depois de chegar a Khash’am. (Deus Altíssimo não se limitou a infligir esse castigo aos abissínios. Pelo contrário, em três ou quatro anos, eliminou para sempre o domínio dos abissínios no Iêmen. A história mostra que, depois do incidente do Elefante, o poder deles no Iêmen foi completamente destruído. Chefes iemenitas proclamaram revoltas em vários lugares. Então, um chefe iemenita chamado Sayf ibn Dhi Yazan pediu ajuda militar ao Irã. Apenas mil soldados vieram do Irã em seis navios. Isso foi suficiente para eliminar o domínio abissínio. Esse acontecimento ocorreu em 475 d.C. — O autor.)
Este acontecimento ocorreu no lugar chamado Muhassir, próximo ao vale de Muhassab, entre Muzdalifa e Mina. Segundo as narrações de Sahih Muslim e Abu Dawud, no relato da Peregrinação de Despedida do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), transmitido pelo Imam Ja’far Sadiq de seu pai, o Imam Baqir, e este de Hazrat Jabir ibn Abdullah, é dito que, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se dirigia de Muzdalifa para Mina, acelerou o passo ao atravessar o vale de Muhassir. O Imam Nawawi afirma em seu comentário que o acontecimento do Povo do Elefante ocorreu neste local. Por isso, é uma sunnah atravessar rapidamente esse lugar. O Imam Malik narra no Muwatta que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: toda Muzdalifa é lugar de permanência, mas não permaneçais no vale de Muhassir.
O testemunho desse acontecimento na literatura árabe
No poema de Nufayl ibn Habib, citado por Muhammad ibn Ishaq, ele descreveu o acontecimento que presenciou:(Árabe********)
Ó Rudayna! Ah, se pudesses ver! Mas não poderás ver aquilo que vimos perto do vale de Muhassab.
(Árabe******)
Agradeço a Allah quando vi as aves, embora temesse que as pedras caíssem sobre nós.
(Árabe*******)
Todos eles procuravam Nufayl, como se os abissínios tivessem alguma dívida a cobrar-lhe.
Foi, de fato, um grande acontecimento, que se tornou famoso em toda a Arábia e sobre o qual os poetas compuseram poemas. Nesses poemas, fica claro que todos qualificaram esse acontecimento como uma manifestação miraculosa do poder de Allah Ta‘ala. Ninguém sequer sugeriu, por alusão ou insinuação, que os ídolos adorados na Caaba tivessem qualquer participação nele. Por exemplo, Abdullah ibn Ayzibara diz:
(Árabe ******)
Eram sessenta mil que não puderam retornar à sua terra. E, depois que não retornaram, seu doente (Abraha) estava vivo.
(Árabe *******)
Antes deles, Ad e Jurhum estiveram aqui. E Allah está presente sobre os servos. Ele os manteve estabelecidos.
Abu Qubays ibn Aslat diz:
(Árabe*******)
Levantai-vos, adorai vosso Senhor e tocai os cantos da Baytullah entre as montanhas de Meca e Mina.
(Árabe********)Quando o auxílio do Senhor do Trono chegou até vós, o exército daquele rei expulsou aquelas pessoas de tal maneira que algumas ficaram caídas no chão, enquanto outras foram mortas a pedradas.
Alguns relatos importantes sobre o assunto
Além disso, Hazrat Umm Hani (que Allah esteja satisfeito com ela) e Hazrat Zubair ibn Awwam (que Allah esteja satisfeito com ele) disseram que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Os coraixitas não adoraram ninguém além de Allah, o Único, durante dez anos (segundo outra opinião, sete anos).” O relato de Umm Hani foi registrado pelo Imam Bukhari em sua História, e por Tabarani, Hakim, Ibn Marduyah e Baihaqi em suas respectivas coletâneas de hadith. O relato de Hazrat Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) foi citado por Tabarani, Ibn Marduyah e Ibn Asaf. Ele é corroborado pelo relato mursal de Hazrat Said ibn al-Musayyab, registrado por Khatib al-Baghdadi em sua História.
O nascimento do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)
Os árabes chamaram o ano em que esse acontecimento ocorreu de ‘Amul Fil’, ou Ano do Elefante. Foi nesse mesmo ano que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nasceu. Os muhaddithin e os historiadores estão quase de acordo quanto ao fato de que esse acontecimento ocorreu no mês de Muharram, e que o nascimento do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocorreu no mês de Rabi al-Awwal. Segundo a maioria, ele nasceu cinquenta dias depois do acontecimento do Elefante.
Por que o Alcorão menciona brevemente esse acontecimento?
Ao refletirmos sobre a Surata Al-Fil à luz do relato histórico detalhado apresentado acima, torna-se claro por que essa surata menciona tão brevemente apenas o castigo de Allah contra os Companheiros do Elefante. O acontecimento não era de modo algum antigo. Todas as crianças de Meca o conheciam. De modo geral, os árabes também o conheciam. Todos os árabes diziam que nenhum deus ou divindade havia protegido a Caaba do ataque de Abraha. Pelo contrário, Allah, o Altíssimo, a havia protegido, depois que os chefes dos coraixitas suplicaram a ajuda de Allah. Durante alguns anos, os coraixitas ficaram tão impressionados com esse acontecimento que não adoraram ninguém além de Allah. Por isso, não havia necessidade de uma menção detalhada a ele na Surata Al-Fil. Considerou-se suficiente recordar esse acontecimento, para que, especialmente os coraixitas e, de modo geral, os árabes, refletissem que aquilo a que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) os convocava não era outra coisa senão abandonar todas as divindades e adorar somente Allah, o Altíssimo. Além disso, deveriam refletir que, se recorressem à força e à coerção para silenciar esse chamado à verdade, também enfrentariam o castigo que havia despedaçado os Companheiros do Elefante. (Surata As-Saff, nota 8)
O cristianismo após o surgimento do Selo dos Profetas
[Por serem portadores dos Livros revelados, tanto os judeus quanto os cristãos deveriam ter estado muito próximos do Islã, pois, originalmente, sua religião também era o Islã. Especialmente a relação dos cristãos com o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) deveria ter sido mais estreita por duas razões. Primeiro: por meio da missão do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), a obra deixada pelo Profeta Jesus (que a paz esteja com ele) seria completada. Segundo: as profecias sobre o advento do último Profeta estavam presentes em maior número nos livros religiosos dos cristãos do que nos dos judeus. Muitos daqueles que conheciam essas profecias aguardavam a chegada do último Profeta. O célebre erudito cristão Waraqah ibn Nawfal era um deles. O interessante é que ocorreram alguns acontecimentos entre os cristãos e o último Profeta que deveriam ter levado os cristãos a adotar uma atitude diferente em relação ao último Profeta e aos muçulmanos. Contudo, o judaísmo dos judeus e o cristianismo dos cristãos criaram, em relação aos muçulmanos, uma separação que gradualmente se tornou enorme. Em resposta ao excelente comportamento dos muçulmanos, eles passaram a nutrir extrema hostilidade. Essa hostilidade transformou-se nas Cruzadas. Depois dessas cruzadas, a política mundial dos cristãos, juntamente com os judeus, contra a comunidade do Islã tornou-se extremamente odiosa. — [Os compiladores]
O reconhecimento da veracidade da missão profética por Waraqah ibn Nawfal (fontes históricas informam que, antes de Waraqah ibn Nawfal, quando o monge Bahira viu o Profeta (que a paz esteja com ele) durante sua viagem à Síria, percebeu nele os sinais de um profeta. A esse respeito, Ibn Khaldun diz: quando o Profeta (que a paz esteja com ele) completou doze anos de idade, viajou à Síria com Abu Talib. Ao perceber nele os sinais de um profeta, o monge Bahira chamou seus compatriotas e informou-os sobre a missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele). Isso consta nas obras biográficas e é de conhecimento geral. Mais tarde, pela segunda vez, ele foi à Síria com Maysarah, seu escravo, levando as mercadorias de Umm al-Mu’minin Khadijah al-Kubra, filha de Khuwaylid ibn Asad ibn Abd al-Uzza. Quando passava perto do monge Nastura, este percebeu nele os sinais da missão profética e informou Maysarah a seu respeito. Ao retornar, Maysarah contou tudo à Senhora Khadijah (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois de ouvir isso, Khadijah, que Allah esteja satisfeito com ela, propôs a Muhammad (que a paz esteja com ele) que se casasse com ela. — Ibn Khaldun, tradução urdu, volume 1, p. 36 — tradutor: Allamah Hakim Ahmad Hasan Usmani. Quer se atribua ou não algum valor a esse relato à luz da investigação histórica, não há razão para espanto se, ao observar o rosto e a personalidade influente do Mensageiro (que a paz esteja com ele), alguém tivesse declarado que ele era o profeta prometido cuja descrição se encontra nos livros antigos. Além disso, o fato de dois monges cristãos — Bahira e Nustura — terem visto o Mensageiro (que a paz esteja com ele) em sua infância e percebido nele os sinais da missão profética constitui, sob algum aspecto, uma prova irrefutável para os cristãos. Se os cristãos aceitarem como verdadeiro o relato de que seus próprios dois monges perceberam em Muhammad (que a paz esteja com ele) os sinais da missão profética, então também deveriam admitir que o profeta que viria no futuro e receberia a revelação não poderia precisar que qualquer profeta lhe ensinasse algo sobre as funções da missão profética. Maulana Maududi refutou da seguinte maneira o argumento equivocado que os cristãos construíram com base no relato do monge Bahira: nenhum dos inimigos contemporâneos do Profeta (que a paz esteja com ele) afirmou que, quando ele encontrou o monge Bahira na infância, havia aprendido tudo aquilo com ele. Tampouco afirmaram que, quando viajava ao exterior na juventude para fazer negócios, havia adquirido esses conhecimentos com monges cristãos e rabinos judeus. Isso porque conheciam todas as circunstâncias de suas viagens. Ele tampouco viajava sozinho; pelo contrário, centenas de pessoas de sua própria cidade os chamavam de mentirosos. Todos os habitantes de Meca lhes perguntavam: se esse homem havia adquirido esses conhecimentos de Bahira aos doze ou treze anos, ou começado a adquiri-los aos vinte e cinco anos, quando passou a viajar ao exterior para fazer negócios, por que vocês esconderam tudo isso até ele completar quarenta anos? Afinal, ele não morava em nenhum outro lugar; pelo contrário, vivia entre vocês? — [Os compiladores]
Depois do primeiro encontro com o anjo na caverna de Hira, quando o Profeta (que a paz esteja com ele) chegou em casa aterrorizado e trêmulo, a Senhora Khadijah (que Allah esteja satisfeito com ela) foi a primeira a consolá-lo. Depois, levou-o até seu primo Waraqah ibn Nawfal. Na época da ignorância, Waraqah havia adotado o cristianismo. Ele escrevia o Evangelho em árabe e hebraico. Tinha envelhecido muito e ficara cego. A Senhora Khadijah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse-lhe: “Meu irmão, ouça o que aconteceu com seu sobrinho.”
Waraqah disse ao Mensageiro (que a paz esteja com ele): “Meu sobrinho, diga-me, o que você viu?”
O Profeta (que a paz esteja com ele) contou tudo o que havia visto. Waraqah disse: “Este é o Namus — o anjo que traz a revelação — que Allah, o Altíssimo, enviou ao Profeta Moisés (que a paz esteja com ele). Ah! Se eu tivesse força durante o período de sua missão profética e estivesse vivo até o momento em que seu povo o expulsasse!”
O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Essas pessoas me expulsarão?”
Waraqah disse: “Certamente. Nunca aconteceu de alguém trazer aquilo que você trouxe sem que fosse hostilizado. Se eu viver até esse momento, ajudá-lo-ei com todas as minhas forças.”
Poucos dias depois, porém, Waraqah morreu. ——— Hitni era um habitante muito idoso de Meca. Conhecia o Profeta desde sua infância e, devido a quinze anos de estreito parentesco, havia observado sua condição ainda mais de perto. Quando ouviu esse acontecimento, não o considerou waswasa, uma inspiração da mente. Pelo contrário, assim que ouviu o relato, disse: “Este é o mesmo Namus que Allah, o Altíssimo, enviou a Moisés (que a paz esteja com ele).” Isso significa que, em sua opinião, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) era uma pessoa de tão elevada posição que não havia nada de surpreendente em ele ser agraciado com o grau da missão profética. (Surata al-Buruj, nota 4)
A primeira Hégira dos muçulmanos para um reino cristão
Quando a situação em Meca se tornou insuportável, no mês de Rajab do quinto ano da missão profética, o Profeta (s.a.w.) disse:(Árabe ******)
Seria melhor que partísseis e fôsseis para a Abissínia. Ali há um rei sob cujo governo ninguém é oprimido. Essa é uma terra abençoada. Permanecereis ali até que Allah afaste de vós esta tribulação. — O Profeta (s.a.w.) falou com grande generosidade ao elogiar o reino cristão da Abissínia. Considerando a justiça de seu governante, esse único episódio da Hégira dos muçulmanos para lá teria sido suficiente para que as relações entre muçulmanos e cristãos se tornassem amistosas e fortes; mas, infelizmente, eles ergueram uma barreira de hostilidade. — Os compiladores
De acordo com essa orientação do Profeta (s.a.w.), onze homens e quatro mulheres partiram primeiro para a Abissínia. Os coraixitas os perseguiram até a costa marítima. Mas, felizmente, eles encontraram navios a tempo no porto de Shu‘aybah. Assim, escaparam de ser capturados. Alguns outros fizeram a Hégira alguns meses depois. Ao final, setenta e três homens, onze mulheres e sete pessoas que não eram coraixitas reuniram-se na Abissínia. Em Meca, permaneceram apenas quarenta pessoas com o Profeta (s.a.w.). (Surata Al-‘Alaq, introdução)
A sinceridade do rei cristão da Abissínia
O episódio da Hégira será descrito detalhadamente mais adiante. Aqui basta dizer que, quando os representantes diplomáticos dos politeístas de Meca perseguiram os emigrantes muçulmanos, apresentaram suas próprias alegações contra eles e levantaram objeções à missão profética do Profeta (s.a.w.) e à sua pregação, o rei cristão Negus pediu a Ja‘far (r.a.) que recitasse uma parte da revelação enviada ao Profeta. Ja‘far (r.a.) recitou o início da Surata Maryam, que tratava de Yahya (a.s.) e de Isa (a.s.). O Negus escutava e chorava; tanto que sua barba ficou molhada. Quando Ja‘far (r.a.) terminou sua recitação, o Negus disse: “Esta mensagem e tudo aquilo que Isa (a.s.) trouxe emanam da mesma fonte.” (O rei em cuja corte os emigrantes muçulmanos de Meca compareceram reconheceu a veracidade da crença e da perspectiva dos muçulmanos. Também aceitou como verdadeira a doutrina do Profeta (s.a.w.). Nesse aspecto, a perspectiva do rei Negus era a mais próxima do Islam. Mais tarde, quando o Profeta (s.a.w.) apresentou a mensagem do Islam por meio de cartas a vários reis e governantes, enviou uma carta desse tipo também ao rei da Abissínia. Ele aceitou a mensagem do Santo Profeta (s.a.w.) e enviou uma carta em resposta. — Rahmatul-lil-‘Alamin, Qazi Salman Mansur Puri, volume I, pp. 209–212 — Os compiladores.) (Surata Al-Furqan, nota 12)
Aquela delegação diplomática de Meca subornou os líderes religiosos da corte real e os conquistou para seu lado; no dia seguinte, na corte, ‘Amr ibn Al-‘As levantou esta questão:
Chamai-os e perguntai-lhes qual é sua concepção e crença a respeito de Isa ibn Maryam?
O Negus convocou novamente os emigrantes. Em seguida, apresentou-lhes as perguntas formuladas por Amr ibn al-As. Então, o venerável Ja‘far ibn Abu Talib levantou-se e disse, com o coração destemido:
(Árabe *******)
Ao ouvir isso, o Negus apanhou do chão uma palha e disse: “Juro por Allah: o que disseste não acrescenta sequer isto ao que é o venerável Jesus (a.s.).” (Introdução à Surata Maryam)
A atitude especial dos muçulmanos em relação à Abissínia
Em Abu Dawud e no Musnad de Ahmad está registrado um ensinamento do Profeta (s.a.w.), no qual ele estabeleceu esta orientação em relação à Abissínia—(Árabe**********)Em outra narração,(Árabe ********)isto é: enquanto os abissínios permitirem que permaneçais livremente entre eles, permiti também que eles vivam livremente.
Parece que, de acordo com essa orientação, durante a época dos Califas Bem-Guiados não foi tomada nenhuma medida contra a Abissínia. É provável que o significado dessa orientação fosse que se deveria honrar o abrigo que os abissínios haviam oferecido aos muçulmanos em tempos de perigo e, tendo isso em mente, não se deveria tomar a iniciativa de avançar contra eles, para que o mundo não alimentasse o conceito equivocado de que os muçulmanos eram um povo ingrato. Também se percebe outra razão. Observando a posição geográfica da Abissínia e sua história passada, o Profeta (s.a.w.) havia concluído que, para a defesa do Hijaz, o centro geográfico do Islã, era necessário manter relações amistosas com a Abissínia. Por isso, talvez ele tenha ordenado que o convite islâmico chegasse àquele país por meios pacíficos e que se mantivesse, tanto quanto possível, afastado de guerras e conflitos. (Introdução à Surata Maryam)
A atitude de Muqawqis, do Egito
Após o Tratado de Hudaybiyyah, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou cartas aos governantes das regiões vizinhas — segundo o autor de Rahmatul-lil-Alamin, no primeiro dia de Muharram do sétimo ano da Hégira, o Profeta (s.a.w.) escreveu cartas em nome de diversos governantes e as enviou por meio de mensageiros. A maioria deles era cristã, e suas reações também foram positivas. O rei Negus da Abissínia, Ashama ibn Abjar, aceitou o Islã. O governante do Bahrein, Mundhir ibn Sawa, aceitou o Islã, e a maioria de seus súditos tornou-se muçulmana. Os governantes de Omã, Jaifer e Abd, filhos de Julandi, também se submeteram ao Islã após refletirem sobre o assunto. O governador de Damasco, Mundhir ibn al-Harith ibn Abu Shamir, demonstrou grande ira ao receber a carta do Profeta (s.a.w.), mas depois de se conter despediu o mensageiro com presentes e outros donativos. Hawza ibn Ali, governante de Yamama, exigiu metade do Estado Islâmico. Porém, morreu pouco tempo depois. Em Bayt al-Maqdis, Heraclius era o governador sob o rei de Constantinopla. Ao receber a carta do Profeta (s.a.w.), convocou uma grande assembleia. Tomou todas as providências necessárias para reunir informações sobre o Profeta (s.a.w.). Por acaso, Abu Sufyan encontrava-se ali naquela ocasião por motivos comerciais. Heraclius chamou Abu Sufyan à corte e fez-lhe várias perguntas sobre o Profeta (s.a.w.), para poder formar uma opinião sobre sua condição de profeta. Por fim, dirigindo-se a Abu Sufyan, descreveu sua própria reação da seguinte maneira:
Foi-nos dito que estes são os sinais do Profeta prometido. Eu pensava que um profeta surgiria, mas não imaginava que surgiria da Arábia. Abu Sufyan, se respondeste corretamente, um dia ele certamente governará este lugar onde estou sentado (a Síria e Bayt al-Maqdis). Como seria maravilhoso se eu pudesse chegar até ele e tivesse a felicidade de lavar-lhe os pés. — Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, pp. 206–224) Farwa ibn Amr al-Khuza’i era governador da região da Síria, sob a autoridade do imperador romano. Ele aceitou o Islã. César mandou chamá-lo e ordenou-lhe que abandonasse o Islã. Quando ele se recusou, foi martirizado. — Os compiladores.) Entre aqueles a quem enviou cartas estava o Patriarca, governador romano de Alexandria. Os árabes o chamavam de Muqawqis. Quando Hazrat Hatib ibn Abi Balta’a (r.a.) compareceu perante ele levando a carta do Profeta (s.a.w.), ele não aceitou o Islã em resposta à carta, mas recebeu cordialmente o mensageiro. Em resposta à carta, disse: “Sei que ainda falta surgir um profeta. Contudo, suponho que ele surgirá da Síria. Ainda assim, recebi cordialmente o vosso mensageiro e estou enviando ao vosso serviço duas jovens. Elas são de uma nobre linhagem copta.” — Ibn Sa’d
Uma dessas duas jovens era Sirin e a outra era Maria, a Copta. (Os cristãos chamavam Hazrat Maryam de Maria.)
Durante o regresso do Egito, no caminho, Hazrat Hatib apresentou a ambas o convite ao Islã, e as duas aceitaram o Islã. Quando foram apresentadas na corte do Profeta (s.a.w.), Sirin foi entregue à posse de Hazrat Hassan ibn Thabit, e Hazrat Maria (r.a.) foi recebida nos sagrados aposentos internos do Profeta (s.a.w.). No 8.º ano da Hégira, nasceu de seu sagrado ventre Hazrat Ibrahim, filho do Mensageiro (s.a.w.). — (Al-Isti’ab, Al-Isaba) (Surata Maryam, introdução)
O Profeta (s.a.w.) e os cristãos de Najran
No nono ano da Hégira, uma delegação cristã de Najran apresentou-se perante o Profeta (s.a.w.). Najran está situada entre o Hijaz e o Iêmen. Naquela época, havia setenta e três povoados naquela região e dizia-se que, entre seus habitantes, havia cento e vinte mil homens aptos para a guerra. Todos os habitantes eram cristãos e estavam sob a liderança de três chefes. Um deles era chamado Aqib, a quem era concedida a posição de líder da nação. O segundo era chamado Sayyid. Ele cuidava dos assuntos políticos e culturais. O terceiro era o Usquf (bispo), cuja função era exercer a liderança religiosa. Depois da conquista de Meca, todos os árabes passaram a acreditar que o futuro do país estava agora nas mãos do Profeta Muhammad (s.a.w.). Assim, começaram a chegar à corte do Profeta delegações de diferentes partes do país. Os três chefes de Najran chegaram a Medina acompanhados de quarenta representantes. (Naquela ocasião, o Profeta (s.a.w.) apresentou aos representantes o convite ao tawhid descrito no Alcorão e, ao explicar a continuidade da profecia, refutou a atribuição de uma posição divina a Hazrat Isa (a.s.), bem como as demais crenças equivocadas dos cristãos. Alguns dos representantes foram influenciados por esse convite, mas a obstinação dos bispos e sacerdotes tornou-se um obstáculo. Por fim, por ordem de Allah, o Profeta (s.a.w.) convidou-os à mubahala, dizendo: se tendes plena confiança na veracidade de vossa crença, vinde e supliquemos juntos a Allah, dizendo: que a maldição de Allah recaia sobre aquele entre nós que for mentiroso. Mas nenhum deles aceitou. Como resultado, tornou-se evidente, não apenas para os membros ingênuos entre os representantes, mas também para o povo comum, cristão e não cristão, que os líderes cristãos de Najran professavam uma crença na qual eles próprios não acreditavam.
Por fim, atendendo ao pedido dos habitantes de Najran, o Profeta (s.a.w.) redigiu um tratado e enviou-o a eles. Registraremos esse tratado na parte seguinte. — Os compiladores) (Rasā’il wa Masā’il, vol. 1, p. 290)
Apêndice
Há ainda duas questões relacionadas com este capítulo. A primeira: no conflito entre Roma e o Irã, o apoio moral dos muçulmanos estava do lado dos cristãos. A segunda: em Tabuk, os muçulmanos foram obrigados a empunhar armas contra os cristãos.
Um relato detalhado do conflito entre Roma e o Irã encontra-se no artigo intitulado “A profecia da vitória de Roma”. (Profecia, 1º volume, volume.) Consulte o terceiro volume para a descrição da expedição de Tabuk.)
As amplas relações dos árabes com diversos países
Ao observar a história econômica da Arábia na era pré-islâmica e as relações que ela mantinha com o mundo exterior, pode-se concluir que não havia país isolado do mundo árabe cujos habitantes desconhecessem o mundo além de seus vales e desertos.
Estabelecimento de grandes centros comerciais
Os dados disponíveis da história antiga comprovam que, naquela época, todo o comércio entre a China, a Índia, outros países orientais e a África Oriental, de um lado, e o Egito, a Síria, a Ásia Menor, a Grécia e Roma, de outro, era realizado por intermédio da Arábia. Esse comércio se desenvolvia por três grandes rotas. A primeira era a rota principal que vinha do Irã, passando pelo Iraque e pela Síria. A segunda era a rota marítima do Golfo Pérsico. Por essa rota, todas as mercadorias desembarcavam na costa oriental da Arábia e depois seguiam adiante por Dumá al-Jandal ou Tadmor (Palmyra). A terceira era a rota marítima do Oceano Índico. Por essa rota, as mercadorias que circulavam atravessavam Hadramaut e o Iêmen. Essas três rotas passavam por regiões habitadas pelos árabes. Eles compravam mercadorias de um lado e as vendiam do outro. Também realizavam o transporte (carrying trade). Cobrando pesados impostos dos comerciantes que atravessavam seus territórios, assumiam a responsabilidade de fazê-los passar em segurança. Dessa maneira, mantinham profundas relações com o comércio internacional. Há menção, na Torá, às atividades comerciais dos israelitas em 1700 a.C. Mil e quinhentos anos antes de Jesus, esse comércio era realizado em Midiã e Dedã, no norte do Hijaz, e continuou por vários séculos depois. Na época de Salomão e Davi (100 a.C.), a tribo sabeia do Iêmen e, depois, a tribo himiarita viajavam para realizar atividades comerciais nos primeiros séculos da era cristã. Na época contemporânea ao Messias, os judeus da Palestina chegaram à Arábia e estabeleceram-se em lugares como Khaybar, Wadi al-Qura (atual Al-Ula), Tayma e Tabuk. Suas relações religiosas, culturais e comerciais com os judeus da Síria e do Egito continuaram. Eram sobretudo os judeus que importavam cereais e vinho da Síria e do Egito. A partir do século V, os coraixitas começaram a participar efetivamente do comércio exterior. Até a época do Profeta, mantinham amplas relações comerciais, por um lado, com o Iêmen e a Abissínia e, por outro, com o Iraque, o Egito e a Síria. A maior parte do comércio do Irã com o Iêmen, no leste da Arábia, passava de Hira por Yamama (atual Riade), depois pela região de Banu Tamim, até Najran e o Iêmen.
Relações políticas e culturais
Além dessas relações comerciais, os árabes mantinham profundas relações políticas e culturais com os países civilizados vizinhos. No século VI a.C., em Tayma, no norte do Hijaz, o rei da Babilônia Naboridus estabeleceu sua capital de verão. Como seria possível que a organização econômica e política da Babilônia fosse desconhecida pelos habitantes do Hijaz? Do século III a.C. até a época do Profeta, existiram sucessivamente o Estado nabateu de Petra, o Estado sírio de Tadmor (Palmyra) e, depois, os Estados árabes de Hira e Ghassan, estendendo-se desde o Iraque até a fronteira do Egito e desde as fronteiras do Hijaz e do Najd até as fronteiras da Argélia e da Síria. Esses Estados mantinham profundas relações políticas, culturais e econômicas, de um lado, com a Grécia e Roma e, de outro, com o Irã. Além disso, com base nos vínculos de linhagem, as tribos do interior da Arábia também mantinham amplas relações com eles. Os Ansar de Medina e o governante de Ghassan eram descendentes da mesma linhagem e mantinham relações recíprocas. Na época do Profeta, seu ilustre poeta, Hassan ibn Thabit, costumava visitar os governantes gassanidas. Os coraixitas mantinham boas relações com os emires de Hira. Chegaram até mesmo a aprender conhecimentos com eles, e a escrita que receberam de Hira mais tarde tornou-se famosa como a escrita de Kufa.
Além disso, em todas as partes da Arábia, os grandes xeques, as famílias nobres e os comerciantes renomados possuíam numerosos escravos e escravas provenientes de Roma, da Grécia e do Irã. Nas guerras entre o Irã e Roma, os prisioneiros de guerra feitos escravos de ambos os lados que eram considerados excedentes às necessidades eram vendidos nos mercados abertos. A Arábia era um grande mercado para essa mercadoria. Entre esses escravos havia muitos homens altamente instruídos e civilizados. Havia também entre eles pessoas dedicadas às artes, ao comércio e a diversas profissões. Os xeques e comerciantes árabes lhes confiavam muitos trabalhos. Em Meca, Taife, Yathrib e outras cidades centrais havia um número enorme de escravos, que prestavam valiosos serviços a seus senhores como trabalhadores qualificados.
Condições econômicas particulares
É preciso observar também outro aspecto da história econômica da Arábia. Em nenhuma época a Arábia foi autossuficiente no que dizia respeito aos alimentos, nem se desenvolveram ali indústrias capazes de atender às necessidades da população. Os gêneros alimentícios sempre eram importados do exterior, e a maior parte dos produtos manufaturados, inclusive os tecidos para vestuário, também era importada. Na época próxima à do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), esse comércio de importação estava em grande parte nas mãos de dois grupos. Um deles era formado pelos coraixitas e pelos Banū Thaqīf; o segundo era constituído pelos judeus. Contudo, eles importavam as mercadorias apenas para vendê-las por atacado. Não era função deles percorrer as pequenas localidades do interior do país e as tribos para vender no varejo. As tribos também não estavam dispostas a aceitar que essas pessoas desfrutassem de todos os lucros do comércio e que os seus próprios membros não tivessem nenhuma oportunidade nesse comércio monopolista. Assim, como atacadistas, essas pessoas vendiam mercadorias no valor de milhões aos comerciantes varejistas do interior do país, e uma quantidade considerável das mercadorias era vendida a crédito. (Tafhīm al-Qurʾān, Sura At-Taḥrīm, nota 2)
Panorama da situação política
Qual era a situação política do país quando o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a profecia? Que linha de ação ele adotou nessa situação? A história testemunha que, naquela época, a Arábia estava cercada por todos os lados por Estados tirânicos. Até mesmo no interior do país a influência imperialista das nações vizinhas já havia se expandido. Pouco antes do nascimento do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o exército abissínio avançou até a cidade onde ele nasceu. O Iêmen, a província mais fértil da Arábia, foi subjugado primeiro pelos abissínios e depois pelos iranianos. As costas meridional e oriental da Arábia estavam sob a influência dos iranianos. A influência iraniana havia se estendido até as fronteiras de Najd. Ao norte, a influência do Império Romano estava presente até Aqaba e Maʿan, ou melhor, até Tabuk. Os dois Estados vizinhos mantinham as tribos árabes envolvidas em conflitos e confrontos mútuos para servir aos seus próprios interesses. Desse modo, expandiam sua influência no interior da Arábia. O césar de Constantinopla intervinha, em diversas ocasiões, nos assuntos de pequenas cidades-Estado como Meca. Cada grande potência queria submeter a nação árabe ao seu domínio. Isso porque, embora a terra dessa nação fosse árida, ela própria não era estéril. Para a conquista do mundo, era possível recrutar dessa nação os melhores guerreiros. (Sura Āl ʿImrān, nota 29)
A mensagem da Sīra
[Discurso do Maulana proferido no comício convocado pelo sindicato estudantil da Universidade do Punjab, no novo campus da referida universidade, em 22 de outubro de 1975.]
Senhor vice-reitor, senhor presidente do sindicato estudantil e estudantes!
Fui convidado para dizer algumas palavras, nesta reunião de hoje, sobre a mensagem da Sīra do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ao abordar esse tema à luz da razão, surge logo a pergunta: por que a mensagem da Sīra de um único profeta? Por que não a mensagem de outra pessoa? É necessário começar discutindo, entre os profetas, somente a Sīra de Sayyidunā Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), porque estamos certos de que não é na biografia de nenhum guia dos tempos antigos ou modernos, mas somente na biografia de um profeta, que podemos encontrar orientação ou o caminho. Não é na vida de qualquer outro profeta ou líder religioso, mas na biografia do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que podemos obter a orientação correta e completa de que, na realidade, necessitamos.
A necessidade da orientação proveniente de Allah, o Altíssimo
Não há como negar esta verdade: Allah, o Altíssimo, é a única fonte do conhecimento. Foi Ele quem criou o universo e o ser humano. Quem, além d’Ele, poderia conhecer os profundos mistérios do universo e a própria natureza e essência do ser humano? Somente o Criador pode conhecer a Sua criação; e a criação só pode conhecer aquilo que o seu Criador lhe der a conhecer. A criação não possui nenhum meio próprio pelo qual possa conhecer a verdadeira realidade.
Neste assunto, é preciso compreender claramente a diferença entre duas coisas, para que não surja nenhuma confusão na discussão. Uma delas consiste nos dados que vocês podem obter por meio dos sentidos; a partir deles, cabe a vocês realizar o trabalho de reflexão, investigação, raciocínio, experimentação, observação e descoberta. Pesquisem tudo o que encontrarem ao seu redor. Adquiram conhecimento das forças que atuam nessas coisas. Compreendam as leis e normas naturais que operam nelas. Depois, avancem pelo caminho do progresso. Contudo, nesse aspecto, o seu Criador não os deixou sozinhos. Ao longo das diversas etapas da história, Ele continuou a apresentar-lhes, de modo imperceptível e gradualmente, o mundo que criou, abrindo diante de vocês as portas de novos conhecimentos. De tempos em tempos, por meio da inspiração, Ele continua a dar a certas pessoas indicações que lhes permitem descobrir algo novo ou conhecer algum novo princípio ou método. Ainda assim, tudo isso está dentro do âmbito do conhecimento humano, para o qual não há necessidade de um profeta nem de um Livro Celestial. Para esse propósito, também foram dados ao ser humano os meios e recursos necessários à obtenção dos dados desejados. A segunda categoria é constituída por aquilo que está acima das nossas perceções sensoriais. Está completamente fora do nosso alcance. Não podemos medi-lo nem conhecê-lo por meio do nosso próprio conhecimento. Quando um filósofo ou cientista apresenta uma opinião a esse respeito, fá-lo apenas com base em suposições e conjecturas. Isso não pode ser chamado de conhecimento. Trata-se dos dados últimos deles; quanto às teorias controversas sobre esse assunto, nem mesmo aqueles que as propuseram podem declarar com certeza os seus limites. Se os limites do seu conhecimento fossem conhecidos, eles próprios não poderiam acreditar nele, nem poderiam convidar outra pessoa a fazê-lo.
A necessidade de obedecer aos profetas
Ora, se for obtido algum conhecimento do segundo tipo mencionado acima, isso só poderá ocorrer por ordem de Allah, o Altíssimo, pois todos os mistérios e todos os dados são conhecidos por Ele. O meio pelo qual Allah, o Altíssimo, concede esse conhecimento aos seres humanos é a revelação, que só é enviada aos profetas. Allah, o Altíssimo, jamais fez até hoje algo como imprimir um Livro e entregá-lo nas mãos de cada pessoa, dizendo-lhes: “Leiam este livro e descubram qual é a realidade profunda de vocês e do universo; descubram também, de acordo com essa realidade, como devem conduzir a sua vida no mundo.” Pelo contrário, para transmitir esse conhecimento à humanidade, Ele sempre utilizou os profetas como intermediários, para que eles não se limitassem a ensinar esse conhecimento, mas também o explicassem, demonstrassem na própria vida como agir de acordo com ele, tentassem conduzir ao caminho reto aqueles que se lhe opunham e organizassem, sob a forma de uma sociedade, aqueles que o aceitassem, de modo que esse conhecimento se manifestasse em todos os níveis da sua vida.
Esta breve exposição deixa claro que, para receber orientação, dependemos unicamente da vida e do exemplo de um profeta. Se alguém que não é profeta não seguir um profeta, por maior que seja a sua erudição, conhecimento ou excelência, não poderá ser nosso guia. Isso porque não possui o verdadeiro conhecimento; e quem não possui o verdadeiro conhecimento não pode oferecer-nos um sistema de vida verdadeiro e correto.
A razão pela qual não recebemos orientação dos profetas além de Muhammad (que a paz esteja com ele)
A questão agora é a seguinte: entre aqueles que reconhecemos como profetas e os líderes religiosos que se pode supor terem sido talvez profetas, por que tentamos obter orientação somente da vida e do exemplo do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele)? Isso se deve a algum fanatismo ou existe uma razão lógica para isso?
Quero dizer que há uma razão extremamente justa para isso. Embora saibamos e reconheçamos com certeza como profetas aqueles profetas mencionados no Alcorão, nenhum relato confiável que contenha os ensinamentos e a vida de qualquer um deles chegou até nós de modo que possamos segui-lo. Hazrat Noé, Hazrat Abraão, Hazrat Isaque, Hazrat José, Hazrat Moisés e Hazrat Jesus — que a paz esteja sobre todos eles — foram, sem dúvida, profetas. Cremos em todos eles. Mas nenhum dos Livros revelados a eles existe hoje em forma preservada, de modo que possamos obter orientação a partir dele. A biografia de nenhum deles chegou até nós de maneira tão preservada e confiável que possamos adotá-los como nossos guias nas diversas esferas de nossa vida individual e coletiva. Se alguém quiser escrever algo sobre os ensinamentos e a vida desses profetas, não poderá escrever mais do que algumas páginas, e mesmo isso terá de ser feito com a ajuda do Alcorão. Pois, além do Alcorão, não existe nenhum material ou fonte autêntica sobre eles.
Os livros da religião judaica e a situação dos profetas
Diz-se que os ensinamentos de Hazrat Moisés — que a paz esteja sobre ele — e dos profetas que vieram depois dele estão no Antigo Testamento da Bíblia. Mas examine a Bíblia do ponto de vista histórico. Ela foi destruída no século VI antes de Cristo, quando Jerusalém foi destruída. Junto com ela, também foram destruídos os registros dos outros profetas que haviam partido antes daquela época. No século V antes de Cristo, quando os israelitas foram libertados do cativeiro na Babilônia, Hazrat Uzair — que a paz esteja sobre ele — compilou, com a ajuda de outros anciãos, a biografia de Hazrat Moisés e a história dos Filhos de Israel. Nela, inseriu, conforme julgou apropriado, aqueles versículos que haviam chegado às suas mãos e às mãos de seus auxiliares. Depois, do século IV ao século II antes de Cristo, diferentes pessoas — não sei quem eram — compilaram os registros daqueles profetas que haviam partido vários séculos antes. Não sei de que fontes fizeram isso. Por exemplo, trezentos anos antes de Hazrat Jesus — que a paz esteja sobre ele —, alguém escreveu um livro em nome de Hazrat Jonas — que a paz esteja sobre ele — e o inseriu na Bíblia. No entanto, ele fora profeta no século VIII antes de Cristo. O Zabur (Salmos) foi escrito quinhentos anos depois da morte de Hazrat Davi — que a paz esteja sobre ele —, e nele foram incluídos, além dos poemas de Hazrat Davi, poemas de outros cem poetas. Não sei por que fonte essas informações chegaram aos compiladores do Zabur. Hazrat Salomão — que a paz esteja sobre ele — morreu 933 anos antes de Hazrat Jesus — que a paz esteja sobre ele —, e os provérbios de Hazrat Salomão foram escritos 250 anos antes de Hazrat Jesus. Neles também foram incluídas as palavras de muitos outros sábios.
Em suma, a cadeia de transmissão de nenhum livro da Bíblia remonta aos profetas a quem esses livros são atribuídos. Além disso, a Bíblia escrita em hebraico foi destruída quando Jerusalém foi destruída pela segunda vez, no ano 70 depois de Cristo. Restaram apenas traduções dela para o grego. Essa tradução foi feita entre 258 antes de Cristo e o século I antes de Cristo. No século II depois de Cristo, eruditos judeus compilaram uma Bíblia hebraica a partir de todos os manuscritos que haviam restado. O livro mais antigo que se encontra é datado de 916 depois de Cristo. Fora esse, não existe outra Bíblia hebraica. Os manuscritos hebraicos encontrados nas cavernas de Qumran, perto do Mar Morto, também datam, no máximo, dos séculos II e I antes de Cristo. Neles, encontram-se apenas alguns fragmentos dispersos da Bíblia. A compilação dos cinco primeiros livros da Bíblia corrente entre os samaritanos tem como exemplar mais antigo um livro escrito no século XI depois de Cristo. A tradução grega feita nos séculos III e II antes de Cristo continha incontáveis erros e falhas. A partir dela, fez-se uma tradução para o latim nos séculos II e III depois de Cristo. Com que critério esses materiais e fontes sobre a vida e os ensinamentos de Hazrat Moisés — que a paz esteja sobre ele — e dos profetas posteriores a ele podem ser considerados autênticos?
Além disso, entre os judeus havia alguns relatos fundamentais transmitidos de geração em geração, chamados Lei Oral. Eles permaneceram não escritos durante treze ou catorze séculos. No final do século II e no início do século III depois de Cristo, o rabino Yehuda ben Shimon deu-lhes forma escrita sob o nome de Mishná. Os eruditos judeus da Palestina escreveram seu comentário, chamado Halacá, e os eruditos da Babilônia escreveram outro, chamado Hagadá, nos séculos III e V depois de Cristo. O conjunto dessas três obras é chamado Talmude. Nenhum desses relatos possui uma cadeia de transmissão que permita saber quais pessoas os transmitiram e a quem foram transmitidos.
A situação dos livros do cristianismo de Hazrat Jesus
A situação da biografia e dos ensinamentos de Hazrat Jesus — que a paz esteja sobre ele — é algo semelhante. O Injil original, que havia sido revelado por meio da revelação divina, era recitado oralmente por Hazrat Jesus ao povo. Seus discípulos também o transmitiam oralmente a outras pessoas de tal maneira que os relatos sobre o profeta e os versículos do Injil acabaram se misturando. Nada disso foi escrito durante a vida de Hazrat Jesus nem depois dela. O trabalho de escrita foi realizado por cristãos cuja língua era o grego. Ora, a língua de Hazrat Jesus era o siríaco ou o aramaico. Seus discípulos também falavam essa língua. Muitos autores de língua grega ouviam esses relatos em aramaico e os escreviam em grego. Nenhuma obra escrita por esses autores foi composta antes do ano 70 depois de Cristo. Nenhum deles transmitiu a cadeia de transmissão de qualquer acontecimento ou declaração de Hazrat Jesus, pela qual se pudesse saber de quem haviam ouvido tais palavras. Além disso, as obras que escreveram também não foram preservadas. Milhares de livros gregos do Novo Testamento da Bíblia foram reunidos, mas nenhum deles é anterior ao século IV depois de Cristo. Pelo contrário, a maioria data do período entre o século XI e o século IV depois de Cristo. No Egito, foram encontrados alguns fragmentos escritos sobre papiro. Mesmo entre eles, nenhum é anterior ao século III. Não se pode saber quem, quando e onde fez a tradução do grego para o latim. No século IV, esses textos foram reexaminados por ordem do papa. Depois, no século XVI, abandonaram-nos e fizeram uma nova tradução do grego para o latim. A tradução dos quatro Evangelhos do grego para o siríaco foi provavelmente feita por volta do ano 200 depois de Cristo. Mas o manuscrito mais antigo dessa tradução atualmente disponível também foi escrito no século IV. O livro manuscrito do século V que foi encontrado é bastante diferente. Entre as traduções do siríaco para o árabe, nenhuma é anterior ao século VIII. O interessante é que foram escritos cerca de setenta livros dos Evangelhos, mas os líderes cristãos aprovaram apenas quatro deles e rejeitaram os restantes. Não sei por que foram aprovados nem por que foram rejeitados. Pode a biografia de Hazrat Jesus e seus ensinamentos, escritos com base em materiais e fontes desse tipo, ser considerada autêntica em algum grau?
A situação da biografia e dos ensinamentos de Zoroastro
A situação dos demais líderes religiosos também não é diferente. Tomemos, por exemplo, Zoroastro (Zoroaster), cuja data exata de nascimento ainda não é conhecida. No máximo, pode-se dizer que ele existiu duzentos e cinquenta anos antes da conquista do Irã por Alexandre, isto é, quinhentos e cinquenta anos antes de Jesus Cristo. Seu livro, o Avesta, já não existe em sua língua original, e a língua em que foi escrito ou transmitido oralmente também é hoje uma língua morta. No século IX da era cristã, parte dele foi traduzida, com comentários, em nove volumes. Porém, os dois primeiros volumes foram destruídos, e o mais antigo volume que hoje se encontra data de meados do século XIII. Essa é a situação do livro apresentado por Zoroastro. Resta agora a questão de sua própria biografia. Sobre isso, não sei muito mais do que o seguinte: ele começou a pregar aos quarenta anos de idade. Dois anos depois, o rei Gushtasp aceitou sua autoridade, e sua religião tornou-se a religião oficial. Ele morreu aos setenta e sete anos. Depois da morte de Gushtasp, quanto mais tempo passava, mais histórias e relatos fantásticos de diversos tipos eram inventados sobre ele. Nenhum deles pode receber valor histórico.
A situação do budismo
Buda é uma das personalidades religiosas mais famosas do mundo. Assim como no caso de Zoroastro, pode-se supor que ele também tenha sido um profeta. Contudo, ele não apresentou livro algum. Seus seguidores tampouco alegaram que ele tivesse trazido algum livro. Seus seguidores tampouco alegaram que ele tivesse trazido algum livro. Seus seguidores tampouco alegaram que ele tivesse trazido algum livro. O trabalho de reunir suas palavras e sua vida começou cem anos depois de sua morte. Esse trabalho continuou durante vários séculos. Entretanto, em nenhum dos livros considerados textos fundamentais do budismo foi incluída uma cadeia de transmissão que permitisse saber por qual fonte chegaram aos seus compiladores os relatos sobre a vida, as palavras e os ensinamentos de Buda. Somente a biografia e os ensinamentos do Profeta Muhammad estão preservados.
Disso se sabe que, se recorrermos aos demais profetas e líderes religiosos, não se encontra, a respeito deles, nenhuma fonte comprovada pela qual possamos obter, com tranquilidade e convicção firme, orientação a partir de seus ensinamentos e de suas biografias. Depois disso, não nos resta outro caminho senão recorrer a um profeta que nos deixou um Livro confiável, acima de toda adulteração e mistura, e cuja vida detalhada, palavras e ensinamentos chegaram até nós por fontes confiáveis, das quais podemos obter orientação. Na história de todo o mundo, a única personalidade assim é a pessoa sagrada do Profeta Muhammad.
O Alcorão, o Livro de Deus, está plenamente preservado
O Profeta Muhammad apresentou um livro, o Alcorão, afirmando claramente que ele é a palavra de Deus Altíssimo, revelada a ele. Quando examinamos esse Livro, sentimos com certeza que nele não ocorreu nenhum tipo de mistura. Nenhuma palavra do próprio Profeta foi incorporada a ele. Pelo contrário, suas palavras foram mantidas completamente separadas. Assim como ocorreu com a Bíblia, a vida e as ações do Profeta, a história da Arábia e os acontecimentos surgidos durante a revelação do Alcorão não foram misturados nem acrescentados a esta palavra de Deus Altíssimo. Nesta pura Palavra de Deus (Palavra de Deus), nem sequer uma palavra de qualquer outra pessoa além de Deus foi incorporada. Nenhuma palavra foi omitida de seu texto. Ela chegou intacta desde a época do Mensageiro de Deus até os nossos dias.
Desde o momento em que este Livro começou a ser revelado ao Profeta, ele mandou que fosse escrito. Sempre que uma revelação lhe era enviada, chamava imediatamente algum escriba e mandava que ele a registrasse; depois de escrita, ela era lida novamente para ele e, quando se certificava de que o escriba a havia registrado corretamente, guardava-a em um lugar seguro. A respeito de cada revelação recebida, ele informava ao escriba em qual surata deveria ser inserida, antes ou depois de qual versículo. Assim, ele foi organizando o Alcorão em ordem progressiva, até que finalmente o Alcorão foi completado.
Além disso, desde o início do Islã foi determinado, a respeito da oração, que nela se deveria recitar o Alcorão. Por isso, os nobres Companheiros começaram a memorizá-lo assim que os versículos eram revelados. Muitos memorizaram o Alcorão inteiro, enquanto um número ainda maior de pessoas preservou na memória partes maiores ou menores dele. Além disso, entre os diversos Companheiros, aqueles que sabiam ler e escrever também registravam por conta própria diferentes partes do Alcorão. Assim, ainda durante a vida do Profeta, o Alcorão foi preservado de quatro maneiras:
Primeiro: ele próprio fez com que o texto fosse escrito integralmente por escribas da revelação.
Segundo: muitos Companheiros memorizaram o Alcorão inteiro, palavra por palavra.
Terceiro: entre os nobres Companheiros — que Allah esteja satisfeito com eles — não havia ninguém que não tivesse memorizado alguma parte do Alcorão, fosse ela pequena ou grande.
Quarto: numerosos Companheiros instruídos escreveram o Alcorão por iniciativa própria e, recitando-o para o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, certificaram-se de sua exatidão.
Portanto, é uma verdade histórica inegável que o Alcorão que hoje temos conosco é, letra por letra, exatamente aquilo que o Profeta Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — apresentou como a Palavra de Allah. Após a morte do Profeta, seu primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele —, reuniu todos os hafizes e as partes escritas, e fez com que o Alcorão completo fosse escrito em forma de livro. Durante o período de Hazrat Uthman — que Allah esteja satisfeito com ele —, todas essas cópias foram oficialmente enviadas aos centros do mundo islâmico. Duas dessas cópias ainda existem no mundo: uma em Istambul e a segunda em Tashkent. Quem quiser pode pegar qualquer exemplar impresso do Alcorão Sagrado e compará-lo com elas. Não encontrará diferença alguma. E como poderia haver alguma diferença, quando, desde a época do Profeta até hoje, existem, geração após geração, milhões e milhões de hafizes? Se alguém alterasse sequer uma palavra, esses hafizes identificariam o erro. Na parte final do século passado, um instituto da Universidade de Munique, na Alemanha, reuniu, de várias regiões do mundo islâmico, 42 mil exemplares manuscritos e impressos do Alcorão Sagrado, provenientes de todas as épocas. Realizou-se uma pesquisa sobre eles durante cinquenta anos. Por fim, o relatório apresentado declarou que, além de erros de escrita, não havia qualquer outra diferença nesses livros. Tratava-se de exemplares do Alcorão Sagrado que abrangiam o período do primeiro ao décimo quarto século da Hégira, coletados em todas as partes do mundo. Lamentavelmente, o instituto foi destruído pelos bombardeios da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Mas os resultados de sua pesquisa não desapareceram do mundo.
Outro aspecto digno de nota sobre o Alcorão é que a língua na qual ele foi revelado é uma língua viva. Aproximadamente cento e vinte milhões de pessoas, do Iraque ao Marrocos, usam o árabe como língua materna, e centenas de milhões de pessoas do mundo não árabe o leem e ensinam. A gramática, os dicionários, a pronúncia de suas palavras e suas expressões idiomáticas na língua árabe são hoje exatamente como eram há mil e quatrocentos anos. Ainda hoje, toda pessoa instruída em árabe consegue lê-lo e compreendê-lo da mesma maneira que os árabes de mil e quatrocentos anos atrás conseguiam compreendê-lo.
Esta é uma importante característica do Profeta Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — que nenhum outro profeta ou líder religioso, além dele, possuiu. O Livro que lhe foi revelado por Allah, o Altíssimo, para orientar a humanidade existe em sua língua original, com suas palavras originais, sem qualquer alteração.
A plena confiabilidade da sira e da sunnah do Mensageiro
Ao observar sua segunda característica, constata-se que, entre todos os profetas e líderes religiosos, ele é único nesse aspecto. Essa característica é que, assim como o Livro que lhe foi concedido, sua Sira também foi preservada, e dela podemos obter orientação em todos os aspectos da vida. Entre as numerosas pessoas que o viram desde a infância até os últimos momentos de sua vida, que observaram seu estado e suas ações, ouviram suas palavras e seus sermões, e o ouviram ordenar ou proibir algo, muitas conservaram tudo isso profundamente no coração e o transmitiram às gerações seguintes. Segundo alguns especialistas, chegava a cem mil o número daqueles que transmitiram às gerações posteriores relatos dos acontecimentos que haviam visto com os próprios olhos e ouvido com os próprios ouvidos. O Profeta (que a paz esteja sobre ele) mandou escrever certas ordens e determinações e as entregou a algumas pessoas ou as enviou a elas; as gerações posteriores receberam esses registros. Entre os Companheiros, havia pelo menos seis pessoas que registraram os hadiths e os apresentaram ao Profeta (que a paz esteja sobre ele), para que não houvesse neles qualquer erro. As gerações posteriores tiveram acesso a essas informações escritas e, após o falecimento do Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele), pelo menos cinquenta Companheiros reuniram por escrito relatos sobre sua vida, suas ações e suas palavras; esses tesouros de conhecimento também chegaram às mãos daqueles que se dedicaram à reunião e compilação dos hadiths. Depois, o número dos Companheiros que transmitiram oralmente informações relacionadas à Sira chegou a cem mil, como mencionei há pouco. E isso não é algo surpreendente. Pois cento e quarenta mil pessoas estiveram presentes na Peregrinação de Despedida realizada pelo Profeta (que a paz esteja sobre ele). Um número tão imenso de pessoas o viu realizar a peregrinação, aprendeu com ele seus ritos e procedimentos e ouviu o sermão que proferiu naquela ocasião. Como seria possível que, ao retornar às suas regiões depois de participar da peregrinação com o Profeta em uma ocasião tão importante, tantas pessoas não tivessem sido questionadas por seus parentes, amigos e vizinhos sobre os detalhes daquela peregrinação, nem lhes tivessem perguntado sobre os ritos e procedimentos do hajj? A partir disso, imagine com que interesse as pessoas, depois que uma personalidade tão grandiosa como o Profeta (que a paz esteja sobre ele) partiu deste mundo, procurariam saber, junto daqueles que o haviam visto e ouvido suas orientações, sobre sua vida e suas ações, suas palavras, suas instruções e sua orientação.
Desde o início, adotou-se o seguinte método em relação às narrações transmitidas pelos nobres Companheiros (que Deus esteja satisfeito com eles) às gerações posteriores: quem atribuísse alguma palavra ao Profeta (que a paz esteja sobre ele) tinha de dizer de quem a ouvira e de quem, antes dessa pessoa, ela havia sido ouvida, seguindo a cadeia de transmissão. Assim, examinava-se toda a cadeia de transmissão até o Profeta (que a paz esteja sobre ele), para que se pudesse ter a certeza de que a palavra havia sido realmente transmitida por ele. Se não fossem encontrados todos os elos da cadeia de transmissão, surgia dúvida quanto à sua autenticidade. Da mesma forma, se a cadeia chegasse até o Profeta (que a paz esteja sobre ele), mas algum narrador intermediário fosse considerado indigno de confiança, essa narração não poderia ser aceita. Se refletir um pouco, perceberá que a biografia de nenhuma outra pessoa no mundo foi compilada dessa maneira. Essa é uma característica exclusiva do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele): nenhuma palavra a seu respeito foi aceita sem uma cadeia de transmissão. E, ao examinar essa cadeia, não se verificava apenas se a sequência de transmissão de um hadith chegava até o Profeta; verificava-se também se todos os narradores envolvidos eram confiáveis. Para esse fim, as biografias dos narradores foram examinadas minuciosamente, e obras detalhadas foram compostas sobre o assunto. Por meio delas, sabe-se quem era confiável e quem não era, como eram o caráter e a conduta de cada um, quem possuía uma memória vigorosa e quem não possuía, quem havia encontrado a pessoa de quem copiara a narração e quem havia registrado uma transmissão em seu nome sem jamais tê-la encontrado. Dessa forma, foram reunidas informações tão amplas sobre os narradores que ainda hoje podemos saber se determinado hadith foi transmitido por uma fonte confiável ou não confiável. Pode-se encontrar, na história da humanidade, uma segunda pessoa cuja biografia tenha sido registrada com fontes tão confiáveis? Existe algum exemplo de milhares de obras terem sido compostas sobre a vida de pessoas que transmitiram algo a respeito de um único indivíduo, a fim de determinar a autenticidade da biografia desse indivíduo? A verdadeira razão do enorme esforço empregado pelos eruditos cristãos e judeus da época atual para lançar dúvidas sobre a autenticidade dos hadiths não é outra senão o ressentimento causado pelo fato de não existir nenhuma cadeia de transmissão relacionada às suas escrituras e às biografias de seus líderes religiosos. É por causa dessa aflição que abandonaram a honestidade intelectual ao criticar o Islã, o Alcorão e o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele).
Cada aspecto da vida do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) era conhecido e amplamente divulgado.
A única característica da Sira do Profeta (que a paz esteja sobre ele) não é apenas o fato de ela ter chegado até nós por meio de fontes extremamente confiáveis; outra característica especial é que se encontram tantos detalhes sobre cada aspecto de sua vida como não se encontram sobre a vida de nenhuma outra pessoa. Como era sua família, como foi sua vida antes da profecia, como recebeu a profecia, como a revelação lhe chegava, como difundiu o chamado islâmico, como enfrentou a oposição e os obstáculos, como educou seus companheiros, como vivia com sua família, como tratava suas esposas e filhos, como era seu comportamento com amigos e inimigos, que ensinamentos morais transmitia, o que ordenava por meio de seu próprio caráter, que atos proibia, quais atos viu e não proibiu e quais atos viu e proibiu: tudo isso se encontra minuciosamente nos livros de hadith e de Sira. Ele também foi um general militar, e dispomos de relatos detalhados de todas as guerras travadas sob seu comando. Foi também um juiz, e podemos consultar o registro completo de todos os processos apresentados diante dele. Sabemos igualmente que decisão proferiu em cada caso. Ele também saía para inspecionar o mercado e observava como as pessoas realizavam suas compras e vendas. Quando via uma prática incorreta, proibia-a; e quando via uma prática correta, aprovava-a. Em suma, não existe nenhum aspecto da vida sobre o qual ele não tenha oferecido orientação detalhada.
Por isso, afirmamos, sem preconceito e com pleno conhecimento e convicção, que, entre todos os profetas e líderes religiosos, o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) é a única personalidade à qual toda a humanidade pode recorrer em busca de orientação e direção. Pois o Livro que ele apresentou foi preservado com suas palavras originais, e os detalhes de sua Sira, indispensáveis para a orientação, chegaram até nós por fontes confiáveis.
Agora devemos observar que mensagem e que orientação sua Sira sagrada nos transmite.
Sua mensagem destina-se a toda a humanidade.
A primeira coisa que se destaca aos nossos olhos em sua pregação é que ele se dirige ao ser humano como ser humano, ignorando as distinções de raça, linhagem, língua e pátria, e apresenta certos princípios benéficos para toda a humanidade. Quem aceitar esses princípios será muçulmano e se tornará membro de uma ummah muçulmana universal, seja negro ou branco, oriental ou ocidental, árabe ou não árabe. Onde quer que exista um ser humano, qualquer que seja o país, a nação ou a linhagem em que tenha nascido, qualquer que seja a língua que fale e qualquer que seja a cor de sua pele, a mensagem do Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) é para ele. Se aceitar os princípios apresentados por ele, será incluído na ummah muçulmana com direitos iguais. Não há nesta ummah qualquer discriminação, superioridade ou inferioridade, distinção de linhagem ou classe, nem diferença linguística, étnica ou geográfica que, depois de estabelecida a unidade da fé, separe uma pessoa de outra.
O melhor remédio contra o fanatismo racial e de linhagem
Se refletir, compreenderá que esta é uma grande bênção que a humanidade recebeu graças ao Profeta Muhammad, o Árabe (que a paz esteja sobre ele). O que mais destruiu o ser humano foi esta distinção estabelecida entre as pessoas. Em alguns lugares, ele foi mantido como impuro e intocável. Foi privado dos direitos desfrutados pelo brâmane. Em outros, foi considerado digno de ser exterminado, porque havia nascido na Austrália e na América justamente quando os estrangeiros precisavam expulsá-lo de sua terra. Em outros lugares, foi capturado e transformado em escravo, sendo obrigado a trabalhar como um animal. Porque havia nascido na África e sendo obrigado a trabalhar como um animal. Porque havia nascido na África e sua pele era negra. Em suma, para a humanidade, essa distinção baseada em nação, pátria, linhagem, raça e língua tem sido, desde a Antiguidade até hoje, causa de enormes perigos. Guerras e conflitos têm ocorrido com base nela. Com base nela, um país ocupou outro. Uma nação saqueou outra e muitas linhagens foram completamente destruídas. O Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) apresentou um remédio para essa doença que até os inimigos do Islã reconhecem. Isto é: ninguém conseguiu, como o Islã, alcançar tamanho êxito na solução das distinções de raça, linhagem e terra natal.
Quando Malcolm X, famoso líder dos americanos de ascendência africana e antigo porta-bandeira da propagação do ódio extremo dos negros contra os brancos, foi ao hajj depois de aceitar o Islã e viu pessoas de todas as linhagens, raças, países e línguas vindo de leste e oeste, norte e sul para realizar o hajj; todos vestindo o mesmo tipo de roupa de ihram, todos proclamando no mesmo tom “Labbaik, Labbaik”, realizando juntos o tawaf e orando na mesma congregação atrás do mesmo imame, ele gritou que esta era a única solução correta para o problema da raça e da linhagem, e não aquilo que vínhamos fazendo até então. Este pobre homem foi morto pelos opressores, mas sua autobiografia publicada ainda existe. Por meio dela, podemos saber quão profundamente ele foi influenciado pelo hajj.
O hajj é apenas uma das formas de adoração do Islã. Se alguém observar com os olhos abertos os ensinamentos do Islã como um todo, não poderá apontar para nenhum aspecto deles e dizer que se destinam aos interesses de alguma raça, tribo, linhagem ou classe específica. Toda a religião testemunha que se destina à humanidade inteira e que, aos seus olhos, são iguais todas as pessoas que aceitam seus princípios e entram na fraternidade universal por ele criada. Ela não trata nem o não muçulmano de modo semelhante ao que os brancos fizeram com os negros, nem ao que as potências imperialistas fizeram com os não comunistas sob seu domínio, ou até mesmo com os membros indesejados de seu próprio grupo.
Agora devemos examinar quais eram os princípios que o Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apresentou para o bem da humanidade, e que elemento havia neles capaz não apenas de garantir o bem-estar da humanidade, mas também de unir toda a humanidade por um mesmo vínculo e transformá-la em uma única ummah.
A concepção mais abrangente da unicidade de Allah, o Altíssimo
O tema principal desse princípio é aceitar a wahdaniyyah, ou unicidade, de Allah, o Altíssimo. Não apenas no sentido de que Allah existe, nem simplesmente no sentido de que Allah é único. Mas no sentido de que o único Criador, Proprietário, Governante e Soberano deste universo é Allah, o Altíssimo. Em toda a criação não existe outro ser que possua autoridade e poder de governo, que tenha o direito de ordenar e proibir, cuja declaração de algo como haram torne esse algo haram, ou cuja declaração de algo como halal torne esse algo halal. Ninguém além de Allah possui tal direito e autoridade. Pois somente Aquele que é o Criador, o Proprietário e o Senhor tem o direito de ordenar aos Seus servos, no mundo que criou, que façam aquilo que Ele quiser e de proibi-los daquilo que Ele quiser. A mensagem do Islã é: aceitem Allah, o Altíssimo, nessa condição. Aceitem-No de tal modo que não sejamos servos de ninguém além Dele; ninguém tenha o direito de nos governar contrariando Sua lei; não fomos criados para inclinar a cabeça diante de ninguém além Dele; e nossa vida e nossa morte estão sob Sua autoridade. Quando quiser, Ele pode nos conceder a morte; e pode manter-nos vivos pelo tempo que quiser. Se a morte vier da parte Dele, não haverá no mundo força alguma capaz de nos salvar. E, se Ele quiser manter-nos vivos, nenhuma força do mundo poderá nos destruir. Esta é a concepção islâmica sobre Allah.
De acordo com essa concepção, toda a criação, da terra ao céu, é obediente e submissa a Allah, e a tarefa do ser humano que vive dentro dessa criação é também permanecer obediente e submisso a Allah. Se ele se tornar livre e arbitrário, ou aceitar a obediência a alguém além de Allah, todo o sistema de sua vida entrará em contradição com o sistema do universo. Em outras palavras, tente compreender assim: todo o universo funciona sob o comando de Allah, e ninguém pode alterar essa verdade essencial. Agora, se obedecermos ao comando de alguém além de Allah, ou seguirmos, conforme nosso próprio desejo, na direção que quisermos, isso significará que todo o veículo de nossa vida está se movendo na direção oposta à do veículo do universo. Com isso, um conflito eterno continuará entre nós e o universo.
Por outro lado, reflita: de acordo com a concepção do Islã, o modo correto de vida para o ser humano é unicamente obedecer a Allah. Isso porque ele é uma criatura e Allah é o seu Criador. Por ser uma criatura, é errado que ele seja livre e arbitrário, assim como é errado que se submeta, em obediência servil, a alguém além do Criador. Qualquer um dos dois caminhos que ele adote será contrário à verdade, e as consequências venenosas do conflito com a verdade terão de ser suportadas pelo próprio causador do conflito; a verdade não sofrerá qualquer dano com isso.
O convite à adoração de Allah
O convite do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) é: põe fim a esse conflito. A norma e o modo de vida devem ser aqueles do Senhor de todo o universo. Não te apresentes como legislador, nem reconheças a outra pessoa o direito de impor sua lei aos servos de Allah sobre a terra de Allah. Somente a lei do Criador do universo é a verdadeira lei; todas as demais leis são falsas e inválidas.
O convite à obediência ao Mensageiro
Tendo chegado até este ponto, apresenta-se diante de nós a segunda etapa do convite do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Trata-se de sua declaração inequívoca: sou o Profeta de Allah, o Altíssimo, e Ele enviou, por meu intermédio, Sua lei para a humanidade. Eu mesmo estou submetido a essa lei. Nem eu próprio tenho autoridade para fazer qualquer alteração nela. Fui ordenado apenas a segui-la. Também não tenho o direito de criar algo novo por minha própria iniciativa. Este Alcorão é uma lei que me foi revelada por Allah. Minha Sunna é uma lei que aplico por ordem de Allah. O primeiro de todos a inclinar a cabeça diante dessa lei sou eu(Árabe****)Depois, conclamo todas as pessoas a abandonarem a obediência às leis alheias e a obedecerem a esta lei.
O Mensageiro de Allah é aquele que tem direito à obediência depois de Allah
Que ninguém tenha a dúvida de como o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) poderia obedecer à sua própria Sunna, quando essa Sunna consiste em suas próprias palavras e ações. A verdadeira questão é que, assim como o Alcorão provém de Allah, também as ordens que ele dava como Mensageiro, aquilo que proibia que se fizesse e o modo de proceder que estabelecia provinham de Allah. Isso é o que se chama Sunna do Mensageiro, e ele próprio a obedecia exatamente da maneira que era obrigatório que todos os crentes a obedecessem. Isso se torna completamente claro quando os nobres Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, perguntavam ao Profeta (que a paz esteja com ele) sobre algum assunto: “Ó Mensageiro de Allah! O senhor está dizendo isso por ordem de Allah ou esta é a sua própria opinião?” O Profeta respondia: “Não é por ordem de Allah; é, antes, minha própria opinião.” Depois de saberem disso, os nobres Companheiros, não concordando com a opinião do Profeta, apresentavam suas próprias propostas. Então o Profeta (que a paz esteja com ele) abandonava sua opinião e aceitava a proposta deles. Isso também ficava claro quando o Profeta (que a paz esteja com ele) consultava os seus Companheiros. Essa consulta provava que, sobre aquele assunto, não havia chegado nenhuma instrução da parte de Allah. Pois, se houvesse uma ordem de Allah, não haveria qualquer questão de consulta. Isso ocorreu muitas vezes na vida do Profeta (que a paz esteja com ele), e encontramos seus relatos detalhados nos hadiths. Pelo contrário, os nobres Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, dizem: “Não vimos ninguém que consultasse mais do que o Profeta.” Se refletirem sobre isso, compreenderão que também fazia parte da Sunna do Profeta consultar sobre aquilo a respeito do qual não havia nenhuma instrução de Allah. O Mensageiro de Allah, para não mencionar qualquer outro governante, jamais declarou que sua opinião pessoal deveria ser aceita por outros como uma ordem incontestável. Dessa forma, o Profeta (que a paz esteja com ele) treinou a umma a agir com base na consulta e mostrou às pessoas que aquilo sobre o qual houver uma instrução de Allah deve ser seguido sem hesitação. E, onde não houver nenhuma instrução de Allah, o direito de exercer livremente sua própria opinião deve ser usado sem temor.
A verdadeira carta da liberdade
Esta é uma carta de liberdade para a humanidade, que ninguém, exceto o Dīn al-Ḥaqq, concedeu à humanidade. O servo de Allah será servo somente de Allah. Não será servo de ninguém mais. Nem mesmo será servo do Mensageiro de Allah. Esta carta libertou o ser humano da servidão — isto é, da submissão e obediência — a todos, exceto a Allah, e pôs fim, para sempre, à divindade, ao senhorio e à autoridade de uns seres humanos sobre outros.
Junto com isso, a maior dádiva que esta mensagem concedeu à humanidade foi a supremacia de uma lei que nenhum rei, ditador, assembleia legislativa democrática ou nação que tenha adotado o Islã tem o direito de abolir, distorcer ou alterar. Essa lei concede ao ser humano valores permanentes do bem e do mal, que não podem ser modificados para transformar o bem em mal e o mal em bem.
A concepção da prestação de contas perante Allah
A terceira coisa que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) ensinou às pessoas foi que você terá de prestar contas perante Allah. Você não foi deixado no mundo como um animal sem rédeas, para fazer tudo o que quiser, pastar à vontade em qualquer campo ou fazenda e não haver ninguém para interrogá-lo. Pelo contrário, você terá de prestar contas ao seu Criador e Senhor de cada palavra sua e de todas as ações de toda a sua vida voluntária. Depois da morte, você será ressuscitado e terá de comparecer perante o seu Senhor para ser interrogado. Esta é uma força moral tão grandiosa que, se ocupar um lugar na consciência humana, sua condição será como se houvesse sempre um guarda junto dele, advertindo-o contra cada tendência para o delito e impedindo-o a cada passo. Haja ou não, do lado de fora, uma polícia para prendê-lo e um governo para puni-lo, dentro dele estará sentado um crítico que investigará todas as falhas; por medo de ser descoberto por ele, jamais poderá desobedecer a Allah em segredo, na floresta, na escuridão profunda ou mesmo em algum lugar desabitado. Não há método melhor do que este para reformar e corrigir a moral humana e formar nela um caráter firme. Por mais que se tente formar o caráter por qualquer outro método, não se poderá avançar além de afirmar que as boas ações serão benéficas na vida mundana, as más ações serão prejudiciais e a honestidade é um princípio nobre. Isso significa que, se em princípio as más ações e a desonestidade forem benéficas e não houver receio de qualquer prejuízo, então elas poderão ser praticadas sem hesitação. A consequência dessa perspectiva é que aqueles que possuem conduta honesta na vida pessoal tornam-se, em sua conduta nacional, extremamente desonestos, fraudulentos, saqueadores, opressores e tirânicos. Além disso, mesmo na vida pessoal, embora sejam honestos em alguns assuntos, tornam-se extremamente desonestos em outros. Vocês verão que, por um lado, são honestos nas transações e educados no comportamento; por outro, são alcoólatras, adúlteros, jogadores, extremamente imorais, corrompidos e desonrados. Eles dizem que a vida privada de uma pessoa é uma coisa, e a vida social ou pública é outra. Quando alguém aponta algum defeito em sua vida pessoal, respondem prontamente: “Cuide da sua própria vida.”
Exatamente o oposto é a crença na vida futura. Ela significa que o pecado é sempre pecado, seja benéfico ou prejudicial na vida mundana. Na vida daquele que cultiva a consciência de prestar contas perante Allah, os dois âmbitos — o pessoal e o social — não podem ser separados. Quando ele adota a honestidade, não o faz por ser ela um princípio excelente. Pelo contrário, a honestidade passa a fazer parte de seu próprio ser, e ele nem consegue imaginar que possa algum dia ser desonesto. Sua crença lhe ensina que, se for desonesto, cairá abaixo do nível dos animais. Como foi declarado no Alcorão —(Árabe******)
Criamos o ser humano na mais excelente forma. Depois, fizemo-lo retornar, tornando-o o mais inferior dos inferiores.
Assim, sob a liderança do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), as pessoas não obtiveram apenas uma lei imutável que contém valores morais eternos; obtiveram também, para o caráter e a conduta pessoais e nacionais, uma base absolutamente firme e inabalável. Essa lei não depende de circunstâncias externas, de modo que, se houver um governo, uma polícia ou um tribunal, você possa seguir o caminho correto, e, caso contrário, tenha de permanecer criminoso.
O cultivo do caráter na vida mundana em vez do ascetismo
A pregação do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) transmite-nos ainda outra importante lição. A saber: o caráter não se destina às câmaras isoladas dos que renunciaram ao mundo, nem às khanqahs dos dervixes; destina-se, antes, a triunfar em todos os setores da vida mundana. A elevação espiritual e moral que o mundo procura entre os pobres e os dervixes, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) colocou-a no trono do governo e no assento do juiz. Ele ensinou a trabalhar no comércio e nos negócios com temor de Allah e honestidade, e ensinou à polícia e aos soldados a taqwa e o temor de Allah. Eliminou das pessoas a ideia equivocada de que só pode ser um wali de Allah aquele que abandona o mundo e permanece apenas repetindo “Allah, Allah”. Ele disse que isso não é a santidade; a verdadeira santidade consiste em que uma pessoa, seja governante, juiz, comandante militar, chefe de uma delegacia, comerciante, industrial ou alguém envolvido em qualquer outro aspecto da vida mundana, demonstre a cada momento temor de Allah, retidão e fidelidade, justamente quando sua fé for submetida à prova de fogo. Assim, ele retirou o caráter e a espiritualidade do recanto isolado do ascetismo e levou-os à economia e à vida social, à política e aos tribunais, e aos campos de guerra e de paz. Depois, estabeleceu nesses lugares o governo de um caráter virtuoso e puro.
O grandioso efeito da orientação do Profeta (que a paz esteja com ele)
Este foi o grandioso efeito de sua orientação e direção(Árabe***): aqueles que, no início da missão profética, eram ladrões, ele deixou numa condição tal que se tornaram dignos de confiança e protetores da vida, dos bens, da honra e da dignidade das pessoas. Aqueles que ele encontrou saqueando os bens alheios, deixou-os como pessoas que concediam direitos, protegiam os direitos e incentivavam os demais a conceder os direitos alheios. Antes dele, o mundo conhecia apenas governantes que mantinham os súditos subjugados por meio da opressão e da tirania, e que exerciam sua autoridade e domínio vivendo em palácios elevados aos céus. O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) apresentou a esse mesmo mundo governantes que caminhavam pelos mercados como pessoas comuns e conquistavam os corações por meio da justiça, da equidade e do julgamento imparcial. Antes dele, o mundo conhecia soldados que, ao entrar num país, promoviam massacres por toda parte, incendiavam as cidades e destruíam a honra e a castidade das mulheres das nações conquistadas. Ele apresentou novamente a esse mesmo mundo exércitos que, ao entrar vitoriosos numa cidade, não interferiam de modo algum na vida de ninguém, exceto no exército inimigo, e chegavam até a devolver os impostos arrecadados da cidade conquistada. A história da humanidade está repleta de relatos da conquista de vários países e cidades. Mas não se encontra na história nenhum exemplo semelhante à conquista de Meca. Na própria cidade cujos habitantes haviam oprimido e perseguido o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) durante treze anos, sua entrada como vencedor ocorreu de tal maneira que ele caminhava com a cabeça inclinada diante de Allah. Sua testa quase tocava a sela do camelo, e não havia em sua conduta o menor vestígio de orgulho ou arrogância. Quando aquelas pessoas, que durante treze anos haviam praticado contra ele toda espécie de opressão e perseguição, que haviam obrigado o Mensageiro a emigrar e que, mesmo depois da emigração, haviam lutado contra ele durante oito anos, foram derrotadas, compareceram diante dele e imploraram misericórdia, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), em vez de se vingar, disse:(Árabe*****)Hoje não haverá punição para vocês. Vão; vocês estão libertados.
Se alguém quiser compreender o efeito que o exemplo do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) teve sobre a ummah muçulmana, que observe a história. Verá como os muçulmanos se comportaram quando entraram na Espanha como conquistadores e como os cristãos se comportaram quando os venceram. Durante as Cruzadas, verá como os cristãos trataram os muçulmanos quando entraram em Bayt al-Maqdis e como os muçulmanos trataram os cristãos quando retomaram Bayt al-Maqdis das mãos deles.
A sira do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) é um oceano tão vasto que não é possível abrangê-lo em nenhum livro, nem sequer conceber sua extensão numa única palestra. Ainda assim, lancei, tanto quanto possível e de forma resumida, alguma luz sobre alguns de seus aspectos mais importantes. Felizes são aqueles que receberão orientação para a vida por meio desta única orientação.(Árabe*****)
— Fim —