Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador

Introdução

 وَإِن مِن أُمَّةٍ إِلّا خَلا فيها نَذيرٌ

“Não houve povo algum entre os quais não tenha surgido um admoestador”.

— (Surata Al-Fátiha: 24)

وَلَقَد بَعَثنا فى كُلِّ أُمَّةٍ رَسولًا أَنِ اعبُدُوا اللَّهَ وَاجتَنِبُوا الطّٰغوتَ

“E enviamos a cada povo um mensageiro, que os convocou, dizendo: Adorai a Allah e afastai-vos da obediência ao tagute”.

— (Surata An-Nahl: 36)

هٰذا نَذيرٌ مِنَ النُّذُرِ الأولىٰ

“Este é um dos admoestadores anteriores”.

-(Surata An-Najm: 56)

إِنَّكَ لَمِنَ المُرسَلينَ

“(Ó Muhammad,) certamente és um Mensageiro”. -(Surata Yasin)

قُل ما كُنتُ بِدعًا مِنَ الرُّسُلِ

“(Ó Muhammad,) dize: não sou um Mensageiro inovador”.

-(Surata Al-Ahqaf: 9)

وَما مُحَمَّدٌ إِلّا رَسولٌ قَد خَلَت مِن قَبلِهِ الرُّسُلُ

“Muhammad não é senão um Mensageiro, e muitos Mensageiros já passaram antes dele.” — (Surata Aal Imran: 144

قولوا ءامَنّا بِاللَّهِ وَما أُنزِلَ إِلَينا وَما أُنزِلَ إِلىٰ إِبرٰهۦمَ وَإِسمٰعيلَ وَإِسحٰقَ وَيَعقوبَ وَالأَسباطِ وَما أوتِىَ موسىٰ وَعيسىٰ وَما أوتِىَ النَّبِيّونَ مِن رَبِّهِم لا نُفَرِّقُ بَينَ أَحَدٍ مِنهُم وَنَحنُ لَهُ مُسلِمونَ

فَإِن ءامَنوا بِمِثلِ ما ءامَنتُم بِهِ فَقَدِ اهتَدَوا ۖ  o

“Dize: Cremos em Allah, no ensinamento que nos foi revelado e no ensinamento que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e seus descendentes, e no que foi concedido a Moisés, Jesus e aos demais profetas por parte de seu Senhor; cremos também nisso. Não fazemos distinção entre nenhum deles e somos submissos a Allah. Portanto, se eles crerem da mesma forma que vós crestes, estarão, então, no caminho reto.”

— (Surata Al-Baqarah: 136–137).

لَقَد مَنَّ اللَّهُ عَلَى المُؤمِنينَ إِذ بَعَثَ فيهِم رَسولًا مِن أَنفُسِهِم يَتلوا عَلَيهِم ءايٰتِهِ وَيُزَكّيهِم وَيُعَلِّمُهُمُ الكِتٰبَ وَالحِكمَةَ وَإِن كانوا مِن قَبلُ لَفى ضَلٰلٍ مُبينٍ

“É, na verdade, uma grande mercê de Allah, o Altíssimo, para com os crentes, o fato de Ele ter feito surgir, dentre eles mesmos, um Mensageiro que lhes recita os versículos de Allah, os purifica e lhes ensina o Livro e a sabedoria. Caso contrário, eles certamente estariam em manifesto desvio.” — (Surata Aal Imran: 164).

 اليَومَ يَئِسَ الَّذينَ كَفَروا مِن دينِكُم فَلا تَخشَوهُم وَاخشَونِ ۚ اليَومَ أَكمَلتُ لَكُم دينَكُم وَأَتمَمتُ عَلَيكُم نِعمَتى وَرَضيتُ لَكُمُ الإِسلٰمَ دينًا ۚ

“Hoje aperfeiçoei para vós a vossa religião, completei sobre vós a Minha graça e escolhi para vós o Islam como sistema de vida”.–(Surata Al-Ma’idah: 3)

 

تَاللَّهِ لَقَد أَرسَلنا إِلىٰ أُمَمٍ مِن قَبلِكَ فَزَيَّنَ لَهُمُ الشَّيطٰنُ أَعمٰلَهُم فَهُوَ وَلِيُّهُمُ اليَومَ وَلَهُم عَذابٌ أَليمٌ

وَما أَنزَلنا عَلَيكَ الكِتٰبَ إِلّا لِتُبَيِّنَ لَهُمُ الَّذِى اختَلَفوا فيهِ ۙ وَهُدًى وَرَحمَةً لِقَومٍ يُؤمِنونَ

“Juro por Deus, ó Muhammad, antes de ti enviámos orientação para diversos povos. Mas depois Satanás tornou atraentes para eles as suas más ações. Hoje ele se tornou o seu protetor, e eles se tornaram merecedores de um castigo doloroso. E não te revelámos este Livro senão para que lhes esclareças a verdade sobre a qual divergiram. E também o revelámos para que fosse orientação e misericórdia para aqueles que o aceitam e lhe obedecem”.

–(Surata An-Nahl: 63–64)

يٰأَهلَ الكِتٰبِ قَد جاءَكُم رَسولُنا يُبَيِّنُ لَكُم كَثيرًا مِمّا كُنتُم تُخفونَ مِنَ الكِتٰبِ وَيَعفوا عَن كَثيرٍ ۚ قَد جاءَكُم مِنَ اللَّهِ نورٌ وَكِتٰبٌ مُبينٌ

يَهدى بِهِ اللَّهُ مَنِ اتَّبَعَ رِضوٰنَهُ سُبُلَ السَّلٰمِ وَيُخرِجُهُم مِنَ الظُّلُمٰتِ إِلَى النّورِ بِإِذنِهِ وَيَهديهِم إِلىٰ صِرٰطٍ مُستَقيمٍ

“Ó Gente do Livro! Nosso Mensageiro veio até vós, esclarecendo-vos muitas coisas que ocultais do Livro, e perdoando muitas outras. Chegou-vos, da parte de Allah, uma luz e um Livro claro, por meio do qual Ele guia para os caminhos da paz aqueles que seguem o Seu agrado; por Sua vontade, Ele os tira das trevas para a luz e os guia para o caminho reto.” — (Surata Al-Ma’idah: 15–16).

يٰأَيُّهَا النَّبِىُّ إِنّا أَرسَلنٰكَ شٰهِدًا وَمُبَشِّرًا وَنَذيرًا

وَداعِيًا إِلَى اللَّهِ بِإِذنِهِ وَسِراجًا مُنيرًا

“Ó Profeta! Enviamos-te como testemunha, portador de boas-novas, advertidor, convocador para Ele, com a permissão de Allah, e como uma lâmpada luminosa.” — (Surata Al-Ahzab: 45–46).

يَأمُرُهُم بِالمَعروفِ وَيَنهىٰهُم عَنِ المُنكَرِ وَيُحِلُّ لَهُمُ الطَّيِّبٰتِ وَيُحَرِّمُ عَلَيهِمُ الخَبٰئِثَ وَيَضَعُ عَنهُم إِصرَهُم وَالأَغلٰلَ الَّتى كانَت عَلَيهِم ۚ فَالَّذينَ ءامَنوا بِهِ وَعَزَّروهُ وَنَصَروهُ وَاتَّبَعُوا النّورَ الَّذى أُنزِلَ مَعَهُ ۙ أُولٰئِكَ هُمُ المُفلِحونَ

“Ele ordena-lhes o bem, proíbe-lhes o pecado, torna lícitas para eles as coisas puras e ilícitas as impuras. E remove deles os fardos e as correntes que os oprimiam e acorrentavam. Portanto, os que creem nele, o apoiam e auxiliam, e seguem a luz que foi revelada com ele, esses serão bem-sucedidos.” — (Surata Al-A’raf: 157).

إِنّا أَنزَلنا إِلَيكَ الكِتٰبَ بِالحَقِّ لِتَحكُمَ بَينَ النّاسِ بِما أَرىٰكَ اللَّهُ ۚ وَلا تَكُن لِلخائِنينَ خَصيمًا

“Ó Muhammad! Enviamos-te este Livro com a verdade, para que julgues entre as pessoas conforme o método indicado por Allah e para que não te tornes advogado dos traidores.” — (Surata An-Nisa: 105).

هُوَ الَّذى أَرسَلَ رَسولَهُ بِالهُدىٰ وَدينِ الحَقِّ لِيُظهِرَهُ عَلَى الدّينِ كُلِّهِ ۚ

“Allah é Aquele que enviou Seu Mensageiro com a orientação e a religião da verdade, para fazê-la prevalecer sobre todas as demais formas de vida” — (Surata Al-Fath: 28).

قُل يٰأَيُّهَا النّاسُ إِنّى رَسولُ اللَّهِ إِلَيكُم جَميعًا الَّذى لَهُ مُلكُ السَّمٰوٰتِ وَالأَرضِ ۖ لا إِلٰهَ إِلّا هُوَ يُحيۦ وَيُميتُ ۖ فَـٔامِنوا بِاللَّهِ وَرَسولِهِ النَّبِىِّ الأُمِّىِّ الَّذى يُؤمِنُ بِاللَّهِ وَكَلِمٰتِهِ وَاتَّبِعوهُ لَعَلَّكُم تَهتَدونَ

“Ó Muhammad! Dize: Ó humanidade! Sou o Mensageiro de Allah para todos vós, d’Aquele a quem pertence o reino dos céus e da Terra; não há outra divindade além d’Ele; Ele é o Senhor da vida e da morte. Portanto, crede em Allah e em Seu Mensageiro iletrado, que crê em Allah e em Suas instruções.

وَأوحِىَ إِلَىَّ هٰذَا القُرءانُ لِأُنذِرَكُم بِهِ وَمَن بَلَغَ ۚ

“E dize: Este Alcorão me foi transmitido por revelação, para que, por meio dele, vos advirta, a vós e àqueles a quem ele chegar”.

ما كانَ مُحَمَّدٌ أَبا أَحَدٍ مِن رِجالِكُم وَلٰكِن رَسولَ اللَّهِ وَخاتَمَ النَّبِيّۦنَ ۗ

“Muhammad não é pai de nenhum dos vossos homens, mas é o Mensageiro de Allah e o Selo dos profetas” — (Surata Al-Ahzab: 40).

Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso

Prefácio

Louvado seja infinitamente Allah Todo-Poderoso: o grandioso trabalho que havíamos empreendido foi concluído em grande parte, e espera-se que, com Sua ajuda, o restante também seja concluído.

Se, deixando completamente de lado minha relação organizacional com o Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi, voltarmos sinceramente nossa atenção para seu serviço religioso, surge, sem qualquer sentimento de devoção cega, a percepção de que, nesta época, não se encontra exemplo semelhante, nem mesmo nos mais remotos horizontes do tempo, à maneira como ele apresentou claramente os diversos aspectos da verdade fundamental do Islã e de seu sistema de vida completo, com argumentos e provas tão sólidos, numa forma de expressão tão nova e com tamanha profundidade. O fato é que, graças à contribuição que ele ofereceu, a vida de incontáveis pessoas foi transformada. E esse grande trabalho constitui um enorme capital para o Maulana na vida futura.

Desde que conheci o Maulana até hoje, mantenho com ele uma relação cordial; por isso, meu desejo sincero é que sejam adotadas diversas formas de exposição para divulgar e ampliar o alcance da sabedoria e do pensamento do Maulana. Ao mesmo tempo, também me mantenho acima de uma mentalidade do tipo: usar a personalidade do Maulana, sua reputação e as obras que realizou para promover meus interesses pessoais.

Isso aconteceu há dez ou doze anos. Estávamos alguns amigos íntimos sentados, conversando no quarto do senhor Maulana Maududi. No decorrer da conversa, eu disse que, se o Maulana considerasse apropriado, seria possível compilar uma biografia a partir de seus artigos e outros escritos. Então, meu amigo pediu que essa responsabilidade lhe fosse confiada. Concordei. Porém, quando, mesmo depois de alguns anos, meu amigo não teve a oportunidade de realizar esse trabalho, retomei o assunto com o Maulana, após obter sua permissão. Além desse tema proposto, o Maulana também ofereceu algumas orientações gerais para que trabalhássemos em outros assuntos.

Por fim, depois de iniciarmos o trabalho, percebi que compilar um livro reunindo as declarações fundamentais extraídas de todo o acervo literário do Maulana era muito mais difícil e trabalhoso do que escrever uma obra de pesquisa por conta própria. Pois, além dos seis volumes de Tafhim al-Qur’an, era necessário estudar sua vasta produção literária, identificar nela as declarações fundamentais necessárias e úteis de acordo com o tema, depois copiá-las e, por fim, distribuí-las entre diferentes capítulos e seções, organizando-as sob diversos títulos. Essas tarefas eram tão árduas que eu repetidamente perdia a coragem e pensava que a realização desse grandioso projeto estava além das minhas capacidades.

Felizmente, recebi a ajuda e a colaboração de vários amigos nesse trabalho. Em especial, o Maulana Abdul Wakil Alivi, M.A., trabalhou comigo durante cerca de um ano e meio de tal maneira que não seria exagero dizer que sua contribuição foi a maior de todas neste trabalho.

Depois de o trabalho ter sido concluído em silêncio, após um ano e meio a dois anos de esforço incansável, quando ele foi apresentado ao Maulana, este também se admirou ao perceber quanto material sobre a personalidade do Profeta Mustafa (que a paz esteja com ele) e sua biografia havia acumulado em seus artigos. O Maulana também expressou satisfação ao ver que, pelas mãos de pessoas indignas como nós, havia sido concluída a compilação inicial de uma obra de quase três volumes. O primeiro volume aborda a discussão fundamental, a dignidade da profecia, a administração da revelação, a chegada do Santo Profeta, o ambiente e as circunstâncias da época anterior ao Profeta, a situação do povo ao qual foi apresentada a mensagem e a condição de vários outros grupos. O segundo volume trata dos acontecimentos do período que vai do nascimento do Profeta Mustafa (que a paz esteja com ele) até sua Hégira para Medina; o terceiro volume aborda os momentos culminantes da vida de luta do Santo Profeta em Medina. A compilação do quarto volume ainda está pendente. Ele conterá um retrato das atividades reformadoras do Profeta (que a paz esteja com ele), de seus ensinamentos e da transformação iniciada em diversos aspectos da vida. Que Allah, o Altíssimo, também nos conceda a capacidade de concluir este volume.

A obra foi compilada de tal maneira que os artigos do Maulana e suas diversas declarações fundamentais foram organizados sob diferentes títulos, e a estrutura do conteúdo foi fortalecida, fazendo com que os assuntos necessários ao conhecimento se apresentem progressivamente. Há apenas alguns poucos lugares em que os dois compiladores tiveram de inserir, por iniciativa própria ou a partir de outra obra, algumas observações, indicando também suas fontes. Há dois tipos de notas: uma, as que foram inseridas no artigo original do autor da obra; outra, as que foram acrescentadas pelos dois compiladores. Esses dois tipos de notas foram escritos separadamente. As citações dos artigos do autor apresentadas nos diversos capítulos e seções foram reunidas e indicadas ao final da obra.

É motivo de alegria que o Maulana Sayyid Abul Ala Maududi, apesar de sua doença e de seus compromissos, tenha lido nossa compilação do início ao fim, feito correções em vários pontos e assinalado alguns de seus textos fundamentais para serem acrescentados. Ainda assim, se permanecer algum erro ou falha na compilação desta obra, nós mesmos seremos responsáveis por isso.

Agora, por tudo o que fizemos e pela maneira como o fizemos, rogamos que Allah o aceite e que os leitores obtenham dele os raios de luz da orientação. Fazemos também este pedido aos leitores: se encontrarem algum erro ou falha em algum lugar, ou julgarem necessária a correção de algo, tenham a bondade de nos informar. Insha’Allah, na próxima edição daremos prioridade às suas propostas e sugestões e tentaremos tornar a obra ainda melhor.

— Na’im Siddiqi

 

Palavras dos dois compiladores

Sobre o primeiro volume, é necessário esclarecer que nele foram reunidos, sob títulos de temas diversos, aqueles artigos, discursos e citações necessárias do respeitado Maulana que, por um lado, lançam luz sobre a dignidade da profecia, a administração da revelação, a concepção da religião e outros assuntos relacionados e, por outro, tornam claros o período do advento do Profeta (que a paz esteja com ele) e o ambiente histórico, religioso e político das civilizações anteriores. Embora esta discussão não apresente diretamente os acontecimentos relacionados à biografia do Santo Profeta, ela será, contudo, útil para compreender a personalidade do Santo Profeta (que a paz esteja com ele), sua dignidade e sua luta abrangente. Por isso, consideramos necessário que, antes de estudarem sua biografia, os leitores se familiarizem com essas discussões orientadoras.— Os dois compiladores.

 

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O Islã é, na realidade, o nome daquele movimento que deseja construir todo o edifício da vida humana sobre a concepção e a crença na soberania do Deus Único. Esse movimento vem sendo conduzido desde os tempos mais remotos sobre a mesma base e pelo mesmo método. Sua liderança foi assumida por aqueles que são chamados de profetas e mensageiros de Allah. Se tivermos de conduzir esse movimento, teremos inevitavelmente de seguir o método de ação desses líderes. Pois, além desse, não existe nem pode existir outro método adequado para um movimento dessa natureza. Quando tentamos investigar os passos dos nobres profetas (A.S.) a esse respeito, deparamo-nos com uma grande dificuldade. Sabemos muito pouco sobre as atividades dos profetas que viveram nos tempos antigos. Encontram-se no Alcorão algumas breves indicações, mas não é possível reconstruir a partir delas todo o plano. No Novo Testamento da Bíblia encontram-se alguns relatos não confiáveis sobre Jesus (A.S.) que lançam alguma luz sobre um aspecto: como o movimento islâmico pode ser conduzido em sua fase absolutamente inicial e quais problemas ele precisa enfrentar. Entretanto, Jesus (A.S.) não teve de enfrentar a fase posterior, e tampouco se encontra qualquer indicação a esse respeito. Sobre isso, recebemos uma orientação clara e completa de uma única fonte: a vida do Profeta Muhammad Mustafa (S.A.W.). Nosso retorno a ele não se deve simplesmente ao respeito que lhe temos; na realidade, somos obrigados a voltar-nos para ele a fim de adquirir conhecimento sobre as subidas e descidas deste caminho. Entre todos os líderes do movimento islâmico, somente o Profeta Muhammad (S.A.W.) é o líder em cuja vida podemos conhecer uma descrição completa e extremamente confiável de cada etapa e de cada aspecto, desde o chamado inicial desse movimento até o estabelecimento do Estado Islâmico e, depois, até a estrutura do Estado, sua constituição, suas políticas interna e externa e os princípios e métodos de sua administração.

Prefácio do autor

Em todas as épocas, as pessoas receberam a bênção do Islã por apenas dois meios. Primeiro: a Palavra de Allah. Segundo: Allah não enviou os profetas apenas como instrumentos para transmitir Sua mensagem e ensinar e fazer compreender essa mensagem. Ao mesmo tempo, ordenou-lhes que oferecessem liderança prática e orientação, para que pudessem reformar e corrigir as pessoas e a sociedade com o objetivo de cumprir corretamente a finalidade da Palavra de Allah, corrigir o sistema social corrompido e demonstrar a reconstrução de uma sociedade íntegra e equilibrada.

Essas duas coisas sempre estiveram tão intimamente ligadas que, separando uma da outra, o ser humano não conseguiu obter o conhecimento correto da religião nem alcançar a orientação. Se o Livro de Allah for separado do Profeta, ele se tornará um barco sem timoneiro. Por mais que um viajante inexperiente percorra com ele o mar da vida, jamais conseguirá chegar ao destino. E, se o Profeta for separado do Livro de Allah, o ser humano não conseguirá escapar do perigo de, em vez de encontrar o caminho de Deus, transformar aquilo que não é Deus em Deus. Esses dois resultados foram experimentados pelos povos anteriores. O povo hindu apagou as biografias de seus fundadores religiosos e contentou-se em conservar apenas os livros sagrados. O resultado foi que também acabou por apagar esses livros. Os cristãos, ignorando o Livro, permaneceram agarrados à aba do manto do Profeta e à sua personalidade. Como consequência, transformaram o profeta de Allah em filho de Allah e, mais ainda, no próprio Allah.

Assim como no passado, também na era moderna, para receber a bênção do Islã, as pessoas terão de adotar os mesmos dois meios que vêm sendo utilizados desde tempos imemoriais. Primeiro: a Palavra de Allah, que só pode ser encontrada na forma do Sagrado Alcorão. Segundo: o exemplo do Profeta, que agora está preservado exclusivamente na biografia do Profeta árabe Muhammad (S.A.W.). Assim como no passado, ainda hoje, se quisermos adquirir o conhecimento correto do Islã, o único caminho é compreender o Alcorão a partir do Profeta Muhammad (S.A.W.) e compreender o Profeta Muhammad (S.A.W.) a partir do Alcorão. Aquele que compreendeu esses dois com a ajuda um do outro compreendeu o Islã. Caso contrário, permaneceu privado da compreensão da religião e, consequentemente, também da orientação.

Além disso, como o propósito, o objetivo e a tarefa especial do Alcorão e do Profeta Muhammad (S.A.W.) são os mesmos, tudo depende do quanto se consegue compreender esse propósito e esse objetivo. Se esse ponto for ignorado, veremos que o Alcorão não passa de um conjunto de palavras e frases, e a biografia do Profeta não passa de uma reunião de acontecimentos. Pode-se, demonstrando o máximo empenho na investigação de dados e fatos históricos, obter um conhecimento correto e detalhado da personalidade do Profeta e da época atual, mas não se poderá compreender a força vital da religião. Isso porque essa compreensão não está ligada apenas às palavras do Alcorão e à cronologia dos acontecimentos, mas ao objetivo e à finalidade para os quais o Alcorão foi revelado e para cuja defesa o Profeta surgiu. Quanto mais clara e correta for a concepção desse objetivo e dessa finalidade, mais correta será a compreensão do Alcorão e da biografia do Profeta. E, se a concepção do objetivo e da finalidade for equivocada, a compreensão do Alcorão e do Profeta necessariamente também será equivocada.

É absolutamente verdade que o Alcorão e a biografia do Profeta são como um oceano. Se alguém desejar alcançar todo o seu significado, sua essência, seus benefícios e suas bênçãos, jamais conseguirá fazê-lo. O máximo que se pode tentar é adquirir, tanto quanto possível, o maior conhecimento que estiver ao alcance e, à sua luz, compreender tanto quanto possível a força vital da religião.

Sou grato pela infinita misericórdia de Allah, pois Ele me concedeu a capacidade de concluir Tafhim al-Qur’an, para utilizar todo o esforço e toda a força de que dispunha na tentativa de fazer compreender o Sagrado Alcorão. Depois disso, meu desejo mais íntimo era escrever sobre a biografia do Sagrado Profeta. Entretanto, trinta anos da minha vida se passaram na conclusão da primeira tarefa. Depois disso, já não tinha força para empreender a segunda; e, por não poder iniciá-la, a dor permanecia constantemente inquietando meu coração. Foi então que o senhor Na’im Siddiqi e o senhor Abdul Wakil Alawi me apresentaram esta coletânea de textos sobre a Sira, compilada a partir de meus diversos livros e artigos. Fiquei surpreso ao perceber que havia tanto material em meus escritos sobre um tema tão vasto. Imediatamente, ofereci-lhes espontaneamente minhas sinceras felicitações por esse trabalho incansável e também fiz uma oração pelo bem deles. Isso porque examinaram minuciosamente esses materiais espalhados por diferentes lugares e os compilaram de maneira adequada. Embora esse conjunto de materiais não seja suficiente para elaborar uma obra definitiva sobre a Sira, os temas incluídos nesta compilação, insha’Allah, ajudarão a compreender a personalidade do Sagrado Profeta (S.A.W.) e sua grandiosa contribuição.

É claro que não há dúvida de que tudo o que foi acrescentado a este livro já havia atraído a atenção dos leitores dos meus livros e artigos, e as pessoas também não apreciam a repetição do já mastigado. Contudo, o leitor desta obra perceberá por si mesmo que as ideias que estavam espalhadas em diversos lugares e que foram escritas ao longo dos últimos trinta ou quarenta anos, tendo em vista diferentes ambientes e circunstâncias, encontram-se aqui reunidas em forma de compilação; não se obtém o mesmo benefício estudando os artigos dispersos.

Rogo a Allah, o Sublime, que este livro seja um meio para orientar Seus servos e para minha recompensa na Vida Futura.

-Abul A’la

Lahore

19 de Dhu al-Qi‘dah de 1392 H.

25 de dezembro de 1972 d.C.

Alguns princípios fundamentais sobre a continuidade da profecia

Capítulo 1: A essência da profecia

Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo

A orientação de Allah para a humanidade

O Senhor dos mundos, Criador, Proprietário e Governante de toda a terra, do céu e do universo criado, criou o ser humano nesta parte de Seu vasto império — que conhecemos como Terra. Deu-lhe a capacidade de conhecer, pensar e compreender. Deu-lhe a capacidade de distinguir entre o bem e o mal. Deu-lhe liberdade para examinar, escolher e exercer sua vontade. Concedeu-lhe o direito de exercer sua autoridade. Em suma, concedendo-lhe certo grau de autonomia, estabeleceu-o na Terra como Seu califa ou representante.

Quando Allah, o Senhor do universo, estabeleceu o ser humano nessa posição, gravou firmemente em sua mente que somente Ele é o Proprietário e Governante do ser humano e de todo o universo, e o único digno de toda obediência. Em Seu império, o ser humano não é livre nem está subordinado a qualquer outro; além d’Ele, ninguém tem o direito de receber a obediência, a servidão, a adoração e o culto do ser humano. É verdade que o ser humano foi enviado para esta vida terrena com poder independente, mas, na realidade, este é um período de prova para ele. Depois de julgar suas ações, somente Ele decidirá quem foi aprovado na prova e quem fracassou. A única perspectiva correta para o ser humano é aceitar Allah como seu único Senhor, objeto de adoração e Governante. Deve agir no mundo segundo a lei que Ele estabelecer e viver considerando o mundo um campo de provas, consciente de que seu verdadeiro objetivo é alcançar o sucesso no momento do Juízo Final. Em contrapartida, toda perspectiva diferente desta será justamente o seu objetivo principal. Toda perspectiva diferente desta será vítima do erro. Se o ser humano adotar a primeira perspectiva — liberdade que também lhe foi concedida —, então enfrentará desordem e inquietação no mundo e, depois de encerrar a vida terrena e entrar na vida futura, será lançado no abismo de sofrimento, angústia e desgraça eternos, chamado Inferno.

‘Muçulmano’ (obediente): a ordem de permanecer

O Senhor do universo ordenou ao ser humano que vivesse na Terra em obediência. Ele também mostrou ao primeiro ser humano, Adão (A.S.), a Eva e a seus filhos como deveriam agir na Terra. Esse primeiro ser humano não estava mergulhado nas trevas da ignorância e da falta de conhecimento no momento de sua criação; ao contrário, Allah iniciou sua vida na Terra em um ambiente plenamente iluminado. Ele conhecia a verdade. Também lhe foi concedido o código para conduzir sua vida, e esse modo de vida era a obediência a Allah (isto é, o Islam); ele ensinou a seus filhos a viverem na Terra obedientes a Allah (como muçulmanos).

 

Desvio do caminho correto

Mas, nos séculos seguintes, os seres humanos desviaram-se gradualmente do modo de vida correto (Din) e começaram a trilhar o caminho errado. Por negligência e descuido, acabaram abolindo esse modo de vida e também o distorceram por meio de atitudes desonestas e ações perversas. Transformaram diversos seres humanos, não humanos, imaginários e materiais da Terra e do céu em parceiros da soberania e da autoridade de Allah. Misturando ao conhecimento verdadeiro concedido por Allah diversos tipos de imaginação, idealismo, ideologias e filosofias, criaram, de acordo com seus desejos, inclinações, tendências e visão unilateral, um sistema de vida que fez com que a terra de Allah se enchesse de opressão.

Depois de Allah ter concedido ao ser humano uma autonomia limitada, como poderia Ele usar Seu poder criador para forçar as pessoas desviadas a voltar ao caminho correto? E, depois de ter determinado um prazo para que as diversas tribos e nações humanas atuassem na Terra, também não seria correto que Ele destruísse todos os seres humanos assim que surgisse a rebelião. Desde o primeiro dia da criação humana, Ele assumiu também a responsabilidade de orientar o ser humano dentro do prazo determinado, preservando intacta sua capacidade de autonomia. Portanto, para cumprir essa responsabilidade que assumira, começou a utilizar, dentre os próprios seres humanos, pessoas que criam n’Ele e obedecem à Sua vontade e às Suas ordens. Fez delas Seus representantes. Enviou-lhes Sua mensagem. Concedeu-lhes o conhecimento verdadeiro. Deu-lhes um sistema de vida correto e inequívoco. Designou-as para convocar os filhos desviados de Adão ao caminho correto.

Esses profetas enviados por Allah começaram a surgir em diferentes países e entre diferentes povos. Sua chegada continuou durante milhares de anos. Eram também inumeráveis. A religião de todos eles era a mesma: isto é, a visão verdadeira e correta e o sistema de vida que haviam sido apresentados à humanidade desde o primeiro dia. Todos seguiam a mesma orientação, ou seja, eram seguidores daqueles princípios básicos e eternos de caráter, moralidade e civilização-cultura que haviam sido estabelecidos para a humanidade desde o início da criação. Todos tinham a mesma missão. Sua missão era convocar suas tribos e nações para essa religião e essa orientação e, depois, organizar aqueles que aceitassem o chamado, transformando-os em uma ummah e um grupo que obedeceria à lei de Allah, estabeleceria na Terra a obediência à lei de Allah e se empenharia e lutaria para impedir sua oposição. Cada um desses profetas cumpriu, em sua própria época, a missão que lhe fora confiada para a orientação da humanidade

de maneira apropriada. Contudo, sempre se constatou que um grande número de pessoas não consentia em aceitar seu chamado. E aqueles que aceitavam esse chamado e ingressavam na ummah muçulmana também começavam, pouco a pouco, a corromper-se. Assim, algumas dessas ummahs perdiam completamente a orientação de Allah, enquanto outras acrescentavam e introduziam distorções, por iniciativa própria, na mensagem de Allah, alterando inteiramente sua aparência.

Por fim, o Senhor dos mundos enviou Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, à Arábia, com a mesma responsabilidade com que anteriormente enviara os profetas do passado. Ele convocou tanto as pessoas comuns quanto os seguidores desviados dos profetas anteriores. Sua responsabilidade era convocar todos para a visão correta e o caminho verdadeiro, transmitir novamente a orientação de Allah a todos e transformar aqueles que aceitassem esse caminho e essa orientação em uma ummah que, por um lado, estabeleceria seu sistema de vida com base na orientação de Allah e, por outro, se empenharia e lutaria pela reforma dos habitantes do mundo.

A profecia e o pacto primordial

(Árabe******************(na página 29 do PDF)

“E [ó Profeta (que a paz esteja sobre ele)]! Lembra às pessoas o momento em que teu Senhor extraiu, das costas dos filhos de Adão, sua descendência e os fez testemunhar contra si mesmos, perguntando-lhes: ‘Não sou Eu o vosso Senhor?’ Eles responderam: ‘Sim, certamente sois o nosso Senhor. Testemunhamos isso’. Fiz isso para que, no Dia da Ressurreição, não pudésseis dizer: ‘Nós não sabíamos disso’. Ou para que não pudésseis dizer: ‘Nossos antepassados já haviam iniciado o politeísmo antes de nós, e nós nascemos depois deles. Então, vais nos punir por um erro cometido pelos que estavam desviados?’”

— (Surata Al-A‘raf: 172–173)

Neste versículo é mencionado o propósito pelo qual, na era primordial da criação, foi obtido o reconhecimento de todos os descendentes de Adão. Esse propósito é que as próprias pessoas que adotarem o caminho da rebelião contra Allah sejam consideradas plenamente responsáveis por esse crime. Ao tentar justificar-se nesse assunto, elas não terão a oportunidade de alegar ignorância, nem poderão transferir a responsabilidade por seus erros para seus antepassados e, assim, eximir-se da responsabilidade. Em outras palavras, Allah Ta‘ala considerou esse juramento e pacto primordiais, feitos no início da existência, como prova de que cada ser humano carrega pessoalmente dentro de si o testemunho de que Allah é o único Ilah, o único Rabb e Senhor; por isso, seria errado dizer que alguém pode libertar-se completamente da responsabilidade por seu erro e desvio por ter sido criado em completa ignorância ou em um ambiente de confusão.

Surge agora a pergunta: se esse pacto primordial realmente esteve em vigor, ele está preservado em nossa consciência e memória? Há alguém entre nós que saiba que, antes do início da criação, foi apresentado diante de seu Allah, que lhe foi feita a pergunta “Não sou Eu o vosso Senhor?” e que respondeu “Sim”? Se a resposta for negativa, como pode o juramento cuja lembrança desapareceu de nossa consciência ser considerado uma prova contra nós?

Pode-se responder que, se tivesse sido providenciado que os sinais desse pacto e juramento permanecessem vívidos na consciência e na memória humanas, então teria sido completamente sem sentido enviar o ser humano ao atual campo de provas do mundo. Pois, depois de a questão ter sido revelada, uma prova desse tipo realmente não teria sentido algum. Portanto, embora seus sinais não tenham permanecido vívidos na memória e na consciência, eles certamente estão preservados na mente subconsciente (mente subconsciente) e na intuição (intuição). O estado disso é o mesmo que o de nossos outros sentimentos e conhecimentos obtidos subconscientemente. Todo o potencial daquilo que o ser humano conseguiu alcançar até hoje nos campos da civilização, da cultura, da moralidade e das relações estava, na realidade, latente dentro dele. Tudo o que as forças externas e internas conseguiram fazer em conjunto foi apenas tornar efetivamente presente aquilo que estava latente. É verdade que, se o potencial de determinada coisa não estiver latente no ser humano, nenhum ensinamento, exercício, influência do ambiente ou força interior poderá, de modo algum, fazê-la nascer nele. Do mesmo modo, mesmo depois de milhares de tentativas, essas forças não têm capacidade de eliminar completamente sequer uma das coisas cujo potencial está latente no ser humano. No máximo, podem fazer com que, apesar de toda espécie de deformação, desvio e extravio, essa coisa continue latente no interior, continue esforçando-se para manifestar-se e permaneça sempre pronta para responder à atração e ao apelo externos. Já disse anteriormente que o mesmo se pode afirmar a respeito de todos os nossos sentimentos e conhecimentos obtidos subconscientemente:

Tudo o que foi descrito acima existe ativamente dentro de nós, e obtemos a prova certa de sua existência justamente por meio de tudo aquilo que se manifesta efetivamente através de nós.

Para que tudo isso se manifeste, são necessários lembretes, ensinamento e exercício vindos de fora. Tudo aquilo que se manifesta através de nós é, na realidade, a orientação de Allah para a humanidade exterior.

A resposta ao apelo. E essas respostas vêm da parte das existências ativas dentro de nós.

As tendências errôneas internas e as reações errôneas externas podem reprimir, ocultar e deformar tudo isso, deixando-o quase aniquilado, mas não podem fazê-lo desaparecer por completo. Por essa razão, a correção e a transformação (Conversão) são possíveis tanto por meio dos sentimentos internos quanto dos esforços externos.

O conhecimento intuitivo que adquirimos sobre nossa verdadeira posição neste universo e sobre nossa relação com o Criador do universo encontra-se exatamente no mesmo estado.

A prova de sua existência é que, em todas as épocas da vida humana, em todos os tempos e países, vemos seu surgimento e desenvolvimento em cada comunidade, entre povos, tribos e indivíduos. Em nenhuma época ou era alguma força do mundo foi capaz de eliminá-la.

Sempre que isso se tornou efetivo em nossa vida, foi capaz de produzir bons resultados. Essa é a prova de que corresponde à verdade.

Para que isso surgisse, se manifestasse e assumisse uma forma concreta, sempre foi necessário um apelo externo. Por isso, vemos os profetas de Allah, os Livros celestiais e todos os convocadores da verdade que os seguem empenhados na realização dessa mesma tarefa. Assim, o Alcorão os chama de muẕakkir (aquele que faz lembrar), zikr (lembrança), taẕkirah (recordação), e chama seu trabalho de taẕkīr (fazer lembrar). Isso significa que os profetas, os Livros celestiais e os convocadores da verdade não criam nos seres humanos algo inteiramente novo; apenas desenvolvem e reavivam aquilo que já existia em seu interior.

O veredicto da razão e do intelecto sobre a profecia

Nas grandes cidades, vemos centenas de fábricas e indústrias funcionando com o auxílio da energia elétrica. Bondes e trens circulam. À noite, de repente, milhares de lâmpadas se acendem; no calor, ventiladores giram sobre nossas cabeças dentro das casas. Contudo, não ficamos nem um pouco surpresos ao observar esses fenômenos. Também não há entre nós qualquer divergência quanto à causa por trás do brilho e do movimento desses objetos. Por quê? Porque vemos com nossos próprios olhos os fios aos quais essas lâmpadas estão conectadas. Também sabemos que esses fios estão ligados à usina elétrica. Sabemos ainda que aquele engenheiro está encarregado do trabalho da eletricidade. E é com o auxílio da energia produzida que as lâmpadas elétricas se acendem. Portanto, o motivo pelo qual não surge entre nós nenhuma divergência acerca da causa e do efeito ao observarmos os sinais da eletricidade é que toda a sequência dessas causas e efeitos está ao alcance de nossos sentidos, e nós a percebemos diretamente. Suponhamos que essas lâmpadas se acendessem, os ventiladores girassem ruidosamente, os bondes e trens corressem, e as rodas das fábricas e das máquinas girassem, mas que permanecessem invisíveis os fios por meio dos quais a eletricidade é fornecida a todas essas coisas; que a usina elétrica também estivesse fora do alcance de nossos sentidos; e que não pudéssemos saber que essa fábrica é operada pela energia daqueles que trabalham na usina. Nesse caso, ao observar os sinais da eletricidade, nossa mente se sentiria segura? Haveria entre nós consenso quanto à causa e ao efeito desses sinais? Naturalmente, a resposta seria negativa. Por quê? Porque, quando a causa e o efeito dos sinais permanecem ocultos e ninguém consegue conhecê-los, é perfeitamente natural que a mente se encha de assombro e inquietação, que o cérebro e o intelecto se empenhem em investigar esse profundo mistério e que surjam diferentes concepções, hipóteses e opiniões sobre ele.

Expliquemos a questão um pouco mais claramente. Admitamos que aquilo que antes era apenas uma hipótese exista de fato e efetivamente. Ou seja, que realmente milhares, milhões e dezenas de milhões de lâmpadas elétricas estejam acesas, que milhões e dezenas de milhões de ventiladores elétricos estejam girando, que os veículos estejam correndo e que as rodas das fábricas e das máquinas estejam girando; mas que não tenhamos nenhum meio de saber que força atua dentro delas nem de onde ela vem. As pessoas ficam maravilhadas ao ver esses sinais.

Opiniões diversas de pessoas diversas

Muitos puseram a imaginação para funcionar na busca da causa de tudo isso. Alguns dizem que essas coisas se acenderam por si mesmas e funcionam por si mesmas. Não há, fora da existência delas, nenhuma entidade que lhes tenha dado luz ou movimento; esse é o veredicto da razão e do intelecto sobre a profecia. Outros dizem que é a própria natureza da constituição dos elementos de que são formadas que produziu nelas o estado de luz e movimento. Segundo alguns, por trás deste mundo material existe um grupo de deuses: alguns acendem as lâmpadas, outros conduzem os bondes e trens, outros fazem os ventiladores girar, e outros fazem girar as rodas das fábricas e das máquinas. Há ainda um grupo que, de tanto pensar sobre o assunto, acabou exausto e, por fim, começou a declarar sua incapacidade, dizendo: “Nossa razão é incapaz de penetrar nas profundezas deste prodígio. Só sabemos aquilo que podemos ver e sentir. Nada entendemos além disso. E, quanto àquilo que não entendemos, não podemos declará-lo verdadeiro nem falso.”

Essas pessoas estão envolvidas em divergências entre si. Contudo, em favor de seus próprios pensamentos e contra os pensamentos dos outros, nenhuma delas possui qualquer outro meio de conhecimento além de ideias, conjecturas e imaginações.

 

Uma reivindicação singular

Enquanto essa divergência prosseguia, um homem apareceu e disse: “Deixem de lado todas as vossas opiniões; eu possuo um meio de conhecimento que vós não tendes. Por meio dele, pude saber que estas lâmpadas, ventoinhas, relógios, fábricas e máquinas estão ligadas a certos fios invisíveis, que vós não percebeis. Uma grande usina elétrica fornece energia por esses fios, a qual se manifesta sob a forma de luz e movimento. Nessa usina elétrica há máquinas enormes. Inúmeros funcionários e técnicos as operam. E todos eles estão sob a autoridade de um grande engenheiro. O engenheiro estabeleceu esse sistema com o auxílio de seu próprio conhecimento e poder. Tudo isso funciona sob suas ordens e direção.”

Depois, veio outro homem. Ele também continuou apresentando a mesma coisa, com o mesmo tipo de reivindicação. Em seguida, vieram o terceiro, o quarto e o quinto. Eles também continuaram dizendo a mesma coisa, da mesma maneira que os anteriores. Depois, iniciou-se uma corrente ininterrupta de recém-chegados. Seu número ultrapassou as centenas e os milhares, chegando às centenas de milhares. Todos apresentavam a mesma coisa, com a mesma reivindicação. Apesar das diferenças de lugar, época e circunstâncias, não se observava nenhuma diferença em suas palavras nem em suas reivindicações. Todos diziam: “Possuímos um meio de conhecimento que as pessoas comuns não possuem.” Todos foram chamados de loucos, e foram submetidos a diversas formas de opressão e perseguição. Foram coagidos de todas as maneiras a retirar suas reivindicações, mas todos permaneceram firmes nelas, e nenhuma força do mundo conseguiu fazê-los recuar sequer um palmo de sua posição. Além dessa firmeza e constância, outra característica notável deles era que nenhum era mentiroso, ladrão, usurpador, criminoso, tirano ou consumidor do ilícito. Até seus opositores e inimigos reconheciam isso. Eram todos puros, imaculados e dotados de uma moralidade extraordinária; no trato benevolente e no bom comportamento para com as pessoas, possuíam uma característica única entre toda a humanidade. Neles também não se via nenhum sinal de loucura; pelo contrário, possuíam elevado caráter moral e purificação espiritual. Quanto à apresentação de assuntos mundanos, nem sequer é preciso falar: os maiores sábios, eruditos, teóricos e especialistas do mundo dedicam toda a vida a compreender plenamente seus profundos mistérios e sutilezas.

No tribunal da razão e do discernimento

De um lado, os diversos grupos de negadores, contraditórios entre si; de outro, o grupo dos reivindicantes singulares. O caso de ambos os grupos é apresentado perante o tribunal da razão e do discernimento. Como juiz, a responsabilidade da razão e do discernimento é primeiro compreender devidamente a própria posição; depois, compreender a situação de ambas as partes e, após uma análise comparativa de ambas, decidir qual delas merece precedência.

A situação do próprio juiz é que ele não dispõe de nenhum meio para conhecer o assunto em sua realidade. Ele mesmo não conhece a verdade. Diante dele estão apenas as declarações de ambas as partes, seus argumentos e provas, suas condições pessoais e os sinais e indícios externos. Ele deve examiná-los com o olhar de um investigador. Mas não pode emitir nenhuma decisão além da que indique a maior probabilidade. Isso porque, com base nas informações e descrições que estão sobre sua mesa, não lhe é possível descobrir a verdade real. Ele pode dar preferência à declaração de uma das duas partes, mas não pode, com certeza definitiva, declarar verdadeira a declaração de uma delas e falsa a da outra.

A situação dos negadores

A situação dos que os consideram mentirosos é a seguinte:

Primeiro: suas opiniões sobre a verdade são diversas. Não há entre eles concordância sobre um único assunto sequer. Inclusive, muitas vezes surgem divergências entre os indivíduos do grupo que segue essa doutrina.

Segundo: eles próprios reconhecem que não possuem nenhum meio exclusivo de conhecimento. No máximo, cada grupo apresenta a alegação de que sua conjectura é mais forte que o juízo da razão a respeito da profecia do outro; contudo, todos reconhecem que suas próprias conjecturas são apenas conjecturas.

Terceiro: sua fé, crença e convicção na conjectura em questão não pertencem ao nível da crença inabalável. Há inúmeros exemplos de mudanças de opinião entre eles. É frequente observar que uma pessoa que até ontem apresentava determinada opinião com extrema veemência hoje se opõe à sua própria opinião e apresenta outra. Na maioria dos casos, observa-se que suas opiniões mudam à medida que aumentam sua idade, inteligência, conhecimento e experiência.

Quarto: eles têm apenas um argumento para declarar falsos os alegadores individuais: o fato de que não possuem nenhuma prova certa em apoio às suas próprias alegações. Eles não puderam mostrar os fios invisíveis aos quais, segundo sua alegação, estavam ligadas as lâmpadas e as ventoinhas. Não puderam demonstrar diretamente, por meio de testes e experimentos, a existência da eletricidade. Não puderam mostrar a ninguém a central elétrica. Não puderam mostrar os equipamentos e as máquinas que havia ali. Tampouco puderam proporcionar a alguém um encontro com o engenheiro. Então, como se pode aceitar como verdadeira a alegação deles?

A situação dos alegadores individuais

Por outro lado, a situação dos alegadores individuais é a seguinte:

Primeiro: todos eles estão firmados no consenso. Há entre eles plena concordância em todos os aspectos fundamentais de suas alegações.

Dois: Sua reivindicação unânime é que possuímos um meio de conhecimento que não está disponível às pessoas comuns.

Três: Nenhum deles disse que afirmava isso com base em conjecturas, suposições ou imaginação. Pelo contrário, todos afirmam unanimemente que têm uma relação especial com o engenheiro; os seus funcionários vão até eles, e ele os conduz pela sua própria fábrica, mostrando-lhes tudo. Portanto, sua afirmação é que tudo o que dizem não se baseia em conjecturas ou imaginação, mas em conhecimento verdadeiro e plena convicção.

Quatro: Não há nenhum registro de que qualquer um deles tenha alterado sequer minimamente o seu relato. Cada um deles sustentou a mesma afirmação desde o início da vida até o seu último momento.

Cinco: Seu caráter é extremamente puro e imaculado. Não há nele sequer sinal de mentira, fraude, desonestidade ou engano. Não há razão para pensar que aqueles que são verazes e sinceros em todos os aspectos da vida tenham se unido para mentir justamente sobre essa única questão.

Seis: Também não está comprovado que tenham algum interesse pessoal por trás dessa reivindicação. A maioria deles sofreu extremo sofrimento e perseguição por causa dela, enfrentou perigos, padeceu na prisão, foi submetida a tortura física e expulsa de seu país. Muitos foram até mortos. Tampouco se viu qualquer um deles alcançar prosperidade e abundância. Portanto, não se pode acusá-los de buscar qualquer espécie de interesse pessoal. Pelo contrário, o fato de permanecerem firmes em sua reivindicação singular em circunstâncias tão extremas prova que sua confiança e convicção na própria veracidade eram imensas. Sua convicção havia chegado a tal ponto que nenhum deles retirou sua reivindicação nem mesmo para salvar a própria vida.

Sete: Também não há nenhuma prova de que fossem loucos ou tivessem perdido o juízo. Em todos os aspectos da vida, constatou-se que eram extremamente sábios e dotados de discernimento equilibrado. Mesmo seus opositores, na maioria dos casos, reconheceram a superioridade de seu conhecimento. Então, como se pode aceitar que tenham sido vítimas da loucura justamente nessa única questão? Também se deve considerar a importância do assunto. Para eles, isso havia se tornado uma questão de vida ou morte. Por causa disso, enfrentaram e combateram pessoas de todo o mundo durante anos. Isso constituía a base de todo o seu conhecimento e ensino, algo que muitos dos que os desmentiam também reconheciam.

Oito: Eles jamais disseram que colocariam vocês em contato com o engenheiro ou com seus funcionários. Tampouco disseram: podemos mostrar-lhes a sua fábrica secreta e invisível, ou provar nossa reivindicação por meio de exames, experimentos e observação direta. Eles próprios chamam esse assunto de “invisível” ou oculto. A esse respeito, dizem: confiem em nós e aceitem tudo o que dizemos.

O veredito do tribunal da razão e do discernimento

Depois de analisar a situação e as declarações de ambas as partes, o tribunal apresenta agora sua sentença. Nela se afirma que ambas as partes investigaram as causas internas observando certos sinais e indícios, e cada uma expressou sua própria opinião. À primeira vista, as opiniões de ambas parecem iguais. Em primeiro lugar, nenhuma delas é contrária à razão. Isto é, à luz das leis da razão, não se pode dizer de nenhuma dessas opiniões que seja impossível estar correta. Em segundo lugar, não se pode provar a correção da opinião de nenhuma das partes por meio de testes e experimentos ou da observação direta. Eis o veredito da razão e da consciência acerca da profecia, incluída na primeira opinião.

Nenhum grupo pode apresentar, em favor de sua doutrina, uma prova científica na qual toda pessoa seja obrigada a acreditar. A segunda parte também não tem essa capacidade, nem reivindica tê-la. Contudo, após uma reflexão e uma investigação mais profundas, tornam-se evidentes certos fatos com base nos quais, entre todas as doutrinas, a doutrina da segunda parte parece ser a mais digna de preferência.

Em primeiro lugar, parece algo extraordinário que um número tão grande de pessoas, em diferentes épocas e diferentes países, avance tão unido em apoio a uma doutrina. Todas afirmam unanimemente a mesma coisa: possuem um meio extraordinário de conhecimento e, por meio dele, conheceram as causas internas dos sinais e indícios exteriores. Isso nos inclina a aceitar a veracidade dessa afirmação. Particularmente, vemos que não há a menor contradição entre as informações apresentadas por todos eles, e que suas informações não são contrárias à razão. Além disso, aquilo que não se encontra em algumas pessoas de modo algum pode ser considerado impossível segundo as leis da razão.

Em segundo lugar, ao analisar a condição dos indícios exteriores, cresce ainda mais a convicção de que a doutrina da segunda parte é a correta. Pois lâmpadas, ventiladores, carros e fábricas, entre outras coisas, não se tornaram luminosos ou móveis por si mesmos. Se assim fosse, tornar-se luminosos e mover-se dependeria da própria vontade deles. Mas não é isso que se observa, nem a luz e o movimento são resultados inevitáveis dos elementos de que são constituídos. Pois, quando não estão luminosos nem em movimento, esses mesmos elementos continuam presentes em sua estrutura. Além disso, quando não há luz numa determinada lâmpada, o ventilador também não funciona, o bonde para e a roda da fábrica também não gira. Portanto, as doutrinas apresentadas pela primeira parte para explicar os indícios exteriores não têm qualquer relação, nem mesmo remota, com a razão e a lógica. Aqui parece muito mais correto dizer que alguma força está ativa no interior desses indícios e que sua extremidade de controle está nas mãos de um Ser sábio e poderoso, que utiliza essa força nos diversos indícios dentro de uma ordem determinada.

Quanto à afirmação dos céticos de que isso está além da compreensão de sua razão e de que aquilo que está além de sua razão não pode ser considerado nem verdadeiro nem falso, pode-se responder que isso tampouco se confirma à luz da razão. Pois a ocorrência de um acontecimento não depende de o ouvinte conseguir compreendê-lo depois de ouvi-lo. Para reconhecer que um acontecimento ocorreu, bastam numerosos testemunhos confiáveis e concordantes. Se algumas pessoas confiáveis viessem dizer-nos: vimos pessoas no Ocidente viajando pelo ar em carros de ferro e, sentados em Londres, ouvimos com nossos próprios ouvidos uma canção da América, nesse caso examinaríamos apenas o seguinte: essas pessoas não são mentirosas nem brincalhonas? Não têm nenhum interesse pessoal ligado a fazer tais afirmações? Não sofreram alguma perturbação mental? Se ficar provado que não são mentirosas, brincalhonas ou loucas, que não têm nenhum interesse ligado ao assunto e, além disso, virmos muitas pessoas verazes e inteligentes continuarem afirmando isso com plena convicção e sem qualquer divergência, então certamente aceitaremos o fato. Afinal, que importa se compreendemos ou não o fato de um carro de ferro voar pelo ar ou de uma canção ser ouvida a milhares de quilômetros de distância, sem qualquer meio material real que a conduza de um lugar a outro?

Esse é o veredito da consciência e da razão sobre o assunto. Mas o estado de fé e convicção, chamado iman, não nasce dessa maneira. Para isso, é necessária a percepção interior. É necessária, no íntimo do coração, uma voz que anuncie o fim da falsidade, da dúvida e da hesitação e diga, em linguagem inequívoca: todas as conjecturas e suposições das pessoas são falsas. A verdade é somente aquilo que as pessoas verazes declararam, não com base em suas próprias conjecturas e suposições, mas com base num conhecimento iluminado pela convicção e numa profunda visão interior.

A necessidade e a importância da profecia

A maior necessidade do ser humano

(Árabe****************na página 39 do PDF)

“Cabe a Allah indicar o caminho reto, embora também existam caminhos desviados.”

Ao apresentar aqui argumentos em favor do Tawhid, da misericórdia e de toda a “rububiyyat” de Allah, também foi apresentado, por alusão, um argumento em favor da profecia. O resumo desse argumento é o seguinte:

Para os seres humanos do mundo, são possíveis diversos caminhos de pensamento e ação, e, na realidade, eles também existem. É evidente que todos esses caminhos não podem ser verdadeiros ao mesmo tempo. A verdade é sempre uma só. Portanto, o único modo correto de vida só pode ser aquele que se baseia numa visão de vida correta.

Conhecer essa ideologia correta e o caminho certo é a maior necessidade de cada ser humano. Na verdade, é a necessidade fundamental. Todos os demais bens de que o ser humano necessita por ser um ser de nível elevado apenas satisfazem suas necessidades; mas esta é uma necessidade indispensável para ele enquanto ser humano. Não satisfazê-la significa que toda a vida humana fracassou.

Agora, a questão a considerar é: pode-se imaginar que Allah, que antes de dar existência ao ser humano providenciou tantos recursos e equipamentos para ele e que, depois de lhe dar existência, estabeleceu de modo tão perfeito e abrangente tudo o que era necessário para satisfazer cada necessidade de sua vida biológica, não tenha providenciado a satisfação dessa maior e essencial necessidade da vida humana?

Essa provisão foi completada por meio da profecia. Se alguém quiser negar a profecia, deverá necessariamente dizer que outra provisão Allah fez para orientar a humanidade. Ninguém pode escapar respondendo que Allah concedeu ao ser humano inteligência e capacidade de reflexão para procurar o caminho. Isso porque a inteligência e o pensamento humanos já descobriram anteriormente inúmeros caminhos. Essa é uma prova clara do fracasso humano na busca precisa do caminho simples, correto e reto. Por outro lado, também não é possível dizer que Allah Todo-Poderoso não fez provisão alguma para nos guiar. Pois, no que diz respeito a Allah, dificilmente poderia haver suspeita mais grave do que imaginar que Ele providenciou completamente nosso sustento, nossa inteligência e nosso desenvolvimento enquanto seres vivos, mas não providenciou absolutamente nada para nos formar como seres humanos; ao contrário, deixou-nos na escuridão nesse aspecto.

A orientação islâmica em vez da orientação compulsória

(Árabe**************na página 39 do PDF)

“Se Allah quisesse, teria guiado todos vocês”.

-(Surata An-Nahl: 9)

Ou seja, embora fosse possível para Allah, o Altíssimo, cumprir essa responsabilidade (ou a responsabilidade que Ele próprio assumiu para guiar a humanidade) de tal maneira que todos os seres humanos pudessem ser guiados desde o nascimento, como as demais criaturas desprovidas de liberdade e poder independente, o ser humano possui a liberdade de seguir qualquer caminho que queira, sem distinção de erro, conforme a vontade de Allah. Para usar essa liberdade, foi-lhe concedido o conhecimento. Foi-lhe concedida a capacidade de raciocinar e pensar. Foi-lhe concedida a força da vontade e da determinação. Foi-lhe concedida a capacidade de utilizar inúmeras coisas dentro e fora de si. Além disso, foram estabelecidas, em toda parte, dentro e fora dele, inúmeras causas e condições que podem levá-lo tanto a encontrar o caminho reto quanto a desviar-se dele. Se ele tivesse sido criado seguindo o caminho reto por natureza, tudo isso teria se tornado sem sentido. Nesse caso, não lhe seria possível ascender ao ápice mais elevado do progresso, que ele só pode alcançar mediante o uso correto da liberdade. Por isso, para guiar os seres humanos, Allah, o Altíssimo, abandonou o método da orientação compulsória e adotou o método da profecia e da missão apostólica; assim, a liberdade humana seria preservada, o propósito de sua prova seria cumprido e o caminho simples, reto e justo também lhe seria apresentado por meios racionais.

 

A necessidade de sinais do caminho reto na vida material e moral

(Árabe**************na página 39 do PDF)

“Ele colocou na Terra sinais que orientam o caminho, e também pelas estrelas as pessoas encontram o caminho.” -(Surata An-Nahl: 16).

Ou seja, Allah não criou toda a Terra de um único modo. Pelo contrário, distinguiu cada região da Terra com diferentes tipos de sinais e marcos específicos (Land Marks). Como resultado, as pessoas são beneficiadas de várias maneiras. Conseguem reconhecer seu caminho e seu destino. Este é um dos muitos benefícios disso. O ser humano só consegue compreender plenamente o valor dessa bênção e dádiva de Allah quando tem a oportunidade de ir a alguma região desértica onde não se encontra nenhum sinal distintivo desse tipo. Por isso, permanece sempre apreensivo, temendo perder o caminho. Durante uma viagem marítima, a pessoa pode sentir ainda mais o valor e a importância dessa grande dádiva de Allah. Isso porque, ali, na realidade, não há nenhum sinal de caminho. Mas, tanto no deserto quanto no mar, Allah estabeleceu um sistema natural para orientar as pessoas. Esse sistema consiste nas estrelas do céu, com a ajuda das quais as pessoas vêm encontrando seu caminho desde os tempos antigos até hoje.

Aqui, ao apresentar novamente argumentos e provas em favor do Tawhid, da misericórdia e da “profecia”, também se faz uma alusão sutil à prova da Risalat. Ao ler este versículo, a mente espontaneamente se volta para a seguinte questão: o Deus que providenciou um sistema tão abrangente para orientar o caminho da vida material dos seres humanos poderia permanecer tão indiferente quanto à sua vida moral? Será que Ele não sente sequer a necessidade de oferecer a mínima orientação para a vida moral humana? É evidente que, por maior que seja o prejuízo causado por tomar o caminho errado na vida material, ele é muitas vezes menor do que o prejuízo causado por um erro semelhante na vida moral. Além disso, como se pode alimentar tal preconceito a respeito do Deus Todo-Poderoso e Misericordioso, que demonstra uma atenção tão profunda ao bem-estar dos seres humanos que abriu caminhos para eles até através das montanhas, ergueu marcos no meio de vastas e desoladas planícies e acendeu lâmpadas no céu para salvá-los de perder a direção entre desertos e mares, imaginando que Ele não lhes indicou nenhum caminho para o bem moral, não colocou nenhum marco para torná-lo claro nem acendeu nenhuma luz para iluminá-lo?

A importância da orientação consciente para os seres humanos

(Árabe**************na página 39 do PDF)

“Moisés respondeu ao Faraó: Nosso Senhor é Aquele que deu a cada coisa a sua forma e, em seguida, a guiou.” — (Ta-Ha: 50)

Em outras palavras, foi Ele quem concedeu a cada coisa do mundo sua forma, configuração, força, capacidade, qualidades e características — tudo. Ele criou a mão com a forma e a configuração que lhe permitem realizar as tarefas do mundo. Também concedeu ao pé a forma adequada à sua função. Concedeu aos seres humanos, aos animais, às plantas, à matéria inanimada, ao ar, à água, à luz e aos diversos tipos de coisas a forma que lhes permite desempenhar devidamente na Terra as funções que lhes cabem.

Além disso, Ele não se limitou a dar a cada coisa a sua forma específica; juntamente com isso, também lhe concedeu orientação para seguir seu caminho. Não se encontrará no mundo coisa alguma que, depois de ser criada e receber uma forma específica, não tenha sido ensinada por Ele, por meio da constituição de seu corpo, a maneira de cumprir o propósito de sua criação. Foi Ele quem ensinou ao ouvido a ouvir e ao olho a ver. Foi Ele quem ensinou ao peixe a nadar, ao pássaro a voar, à árvore a produzir flores e frutos e à terra a produzir plantas, hortaliças e colheitas. Em suma, Ele não é apenas o Criador de cada coisa de toda a criação; é também seu professor e seu guia.

Além disso, nessa pequena frase, o honorável Moisés (que a paz esteja com ele) também apresentou, por alusão, o argumento da Risalat. Faraó, naturalmente, recusou-se a aceitá-lo. Seu argumento indica que Deus é o Guia de todo o universo e guia cada coisa de acordo com sua condição e necessidade. A exigência inevitável de Sua condição de Guia universal é que, para orientar os seres humanos em sua vida consciente, Ele não adotaria um método que pudesse ser adequado aos peixes e às aves. O método mais adequado seria que um ser humano consciente fosse designado, em nome d’Ele, para guiar toda a humanidade. Ele apelaria à inteligência, ao conhecimento e à consciência das pessoas, mostrando-lhes o caminho reto.

O que é a profecia?

Allah providenciou por Si mesmo tudo aquilo de que o ser humano necessita para viver neste mundo. Quando uma criança nasce, é enviada ao mundo já acompanhada de tudo o que necessita. Para ver, recebe olhos; para ouvir, ouvidos; para cheirar e respirar, um nariz; para sentir, a sensibilidade do tato na pele do corpo; para se locomover, pernas; para trabalhar, mãos; para pensar, um cérebro; e inúmeras outras coisas são previamente ligadas ao seu pequeno corpo conforme as suas necessidades. Depois, assim que põe os pés na terra deste mundo, recebe tantos recursos para sustentar a vida que não se pode terminar de contá-los nem mesmo contando-os. A luz, o ar, o calor, a água e a terra: tudo é preparado para ela. No seio da mãe, o fluxo de leite já é mantido pronto para ela. No coração da mãe, do pai, dos parentes e até de outras pessoas, também são feitos fluir rios de carinho e afeto; é com a ajuda deles que ela é criada e educada. Depois, à medida que cresce, continua recebendo dia após dia todo tipo de coisa para suprir as suas necessidades. Ao observar essa situação, parece que todas as forças da terra e do céu se dedicaram inteiramente à sua criação, cuidado e serviço.

A todos os seres humanos foi concedida a capacidade necessária para trabalhar neste mundo. Força física, inteligência e discernimento, capacidade de falar e muitas outras aptidões existem, em maior ou menor grau, em cada pessoa. Porém, Allah estabeleceu aqui uma bela ordem. Ele não concedeu igualmente todas as aptidões a todos os tipos de pessoas. Se o tivesse feito, ninguém dependeria de ninguém e ninguém se importaria com ninguém. Por isso, embora Allah tenha criado entre os próprios seres humanos todas as aptidões necessárias às necessidades coletivas da humanidade, fê-lo de tal modo que concedeu a cada pessoa uma aptidão em maior medida. Algumas pessoas recebem mais força para o trabalho físico do que outras. Muitos nascem com uma aptidão especial para determinada profissão ou arte, da qual outros são privados. Alguns possuem mais inteligência e conhecimento do que outros. Alguns nascem comandantes militares. Outros têm aptidão especial para governar e exercer autoridade. Há quem nasça com uma extraordinária capacidade de oratória. Em muitos existe um talento excepcional para a escrita, presente desde o nascimento. Já se viram pessoas muito hábeis em matemática. Chegam a resolver as questões mais complexas dessa área de uma maneira que está além da imaginação dos outros. Uma pessoa inventa coisas extraordinárias, e o mundo fica atônito com as suas invenções. Outra demonstra extraordinária competência no direito. Questões jurídicas extremamente complexas, cujo entendimento ninguém conseguia alcançar após anos de reflexão, ela penetra até o seu âmago com um só olhar. Essas aptidões são concedidas por Allah. Ninguém consegue criar em si mesmo essas aptidões por esforço próprio. Nem mesmo é possível criá-las com a ajuda da educação e do treinamento. Na verdade, são aptidões inatas; Allah, segundo a Sua sutil sabedoria e discernimento, concede-as a quem deseja. Aqui se fala de aptidões extraordinárias. As aptidões comuns do ser humano podem desenvolver-se por meio da educação, do exercício e do hábito. Já as aptidões extraordinárias muitas vezes se manifestam sem qualquer treinamento, ou com um treinamento mínimo. Quando se procura desenvolvê-las por meio de educação e treinamento avançados, podem alcançar um nível extraordinário e exemplar. — Editores

As aptidões mais necessárias à civilização e à cultura humanas são criadas em um número maior de pessoas. E aquelas cuja necessidade é menor são criadas em um número proporcionalmente menor de pessoas. Nascem muitos soldados. Nascem em grande número agricultores, artesãos, tecelões e pessoas aptas para trabalhos semelhantes. Porém, observa-se um número ainda menor de pessoas dotadas de aptidões teóricas e intelectuais, bem como de aptidões políticas e de comando militar. Isso ocorre porque a contribuição delas perdura por centenas de anos e, por isso, a sociedade humana não sente necessidade de muitas personalidades dotadas de aptidões semelhantes às suas.

Uma necessidade mais importante do que a vida humana

O ponto a considerar é que, para tornar bem-sucedida a vida das pessoas neste mundo, somente essas necessidades não são suficientes. Não basta que entre os seres humanos nasçam apenas engenheiros, matemáticos, cientistas, juristas, políticos, economistas e personalidades dotadas de aptidões para várias profissões. Existe para o ser humano uma necessidade ainda maior do que essas. É necessário que entre os seres humanos nasça alguém que lhes mostre o caminho de Allah. A função das outras pessoas consiste apenas em informar quais coisas existem neste mundo para o ser humano e como devem ser utilizadas. Mas também é necessário alguém que informe às pessoas para que foram criadas, quem lhes concedeu neste mundo todos esses recursos e qual é a vontade desse Doador — vontade segundo a qual, vivendo neste mundo, o ser humano pode alcançar o sucesso certo e eterno. Esta é a verdadeira e maior necessidade do ser humano. A razão não está disposta a aceitar que Aquele que providenciou a satisfação até das nossas menores necessidades tenha negligenciado completamente uma necessidade tão grande. Isso jamais é possível.

A posição dos Mensageiros

Assim como as pessoas hábeis em outras ciências, conhecimentos e artes nascem com uma mente especial e uma natureza peculiar, também o profeta nasce neste mundo com uma natureza especial.

Podemos compreender, pelo poema de um poeta nato, que ele nasceu com uma aptidão especial para a poesia. Pois, mesmo que outras pessoas se esforcem milhares de vezes, não conseguirão escrever um poema como o dele. Do mesmo modo, é fácil reconhecer, por meio de suas atividades, um orador nato, um escritor nato, um inventor nato e um líder nato. Isso porque cada um deles demonstra, em seu próprio campo, uma aptidão extraordinária que não é possível aos outros. A situação do profeta é semelhante. Em sua mente e em seu coração surgem ideias que ninguém, exceto ele, é capaz de expressar. Seu olhar penetra espontaneamente nas profundezas de verdades sutis às quais os outros não chegam nem depois de anos de pesquisa. Tudo o que ele diz é aceito por nossa inteligência e confirmado por nosso coração; naturalmente, é assim que deve ser. Suas palavras sobre o mundo mostram-se verdadeiras. Mas nós mesmos, embora desejemos dizer coisas semelhantes, não conseguimos dizê-las. Além disso, sua natureza é tão pura e imaculada que, em todos os assuntos, ele adota um procedimento sincero e digno. Ele jamais diz algo falso. Não pratica nenhum ato mau. Está sempre ensinando a virtude e a sinceridade. Tudo o que diz aos outros, ele próprio demonstra na prática. Nunca se viu, em sua vida, que ele agisse de modo contrário àquilo que diz no momento de agir. Não há interesse pessoal oculto em suas palavras ou ações. Ele se prejudica pelo bem dos outros e não prejudica os outros pelo próprio bem. Toda a sua vida é formada pelos ideais da verdade, da cortesia, da pureza interior, do pensamento elevado e de uma humanidade superior. Mesmo procurando com uma luneta, não se encontrará nele qualquer defeito. Ao observar tudo isso, pode-se reconhecer claramente que esse homem é um verdadeiro profeta de Allah.

A obediência ao profeta

Depois de reconhecer alguém como o verdadeiro profeta de Allah, torna-se indispensável aceitar suas palavras, obedecer-lhe e viver de acordo com seu método. Depois de reconhecer alguém como profeta, não aceitar suas palavras é um ato totalmente contrário à razão. Pois reconhecer alguém como profeta significa admitir que tudo o que ele diz, ele o diz da parte de Allah, e que tudo o que faz, ele o faz de acordo com a vontade de Allah. Portanto, nenhuma palavra ou ação contrária a ele pode ser verdadeira. Assim, depois de reconhecer alguém como profeta, torna-se indispensável aceitar sem hesitação cada uma de suas palavras e submeter-se às suas instruções. Neste caso, não vem ao caso se compreendemos ou não o significado fundamental e os benefícios dessas instruções. O fato de uma palavra ser proferida pelo profeta já é prova suficiente de que ela é verdadeira e de que contém todo tipo de conhecimento, benefício e vantagem. Se não compreendemos o significado de alguma de suas palavras, isso não quer dizer que haja nela algum defeito; significa, antes, que surgiu alguma deficiência em nossa inteligência e em nossa capacidade de compreensão.

Aquele que não é especialista em determinada arte não será capaz de compreender seus aspectos mais sutis. Mas, se não aceitar as palavras do especialista apenas porque não consegue compreendê-las, isso se torna necessário para ele. Depois que um especialista é designado, confia-se inteiramente em seu trabalho e não se interfere nele de forma alguma. Portanto, ninguém pode ser especialista em tudo, e nem todos têm capacidade para compreender todos os assuntos e atividades do mundo. Devemos verificar apenas se determinada pessoa é ou não especialista em sua área; para obter plena certeza a esse respeito, devemos empregar nossa inteligência, conhecimento e toda a nossa cautela. Depois, quando soubermos que ela é um bom especialista, devemos confiar inteiramente em seu trabalho. Interferir então em seu trabalho e dizer a cada passo: “Primeiro explique-me isto; caso contrário, não estou disposto a aceitar” — isso não pode ser chamado de inteligência, mas de pura estupidez. Depois de confiar um processo a um advogado, se alguém continuar discutindo com ele dessa maneira, não há dúvida de que ele expulsará tal cliente de seu escritório. Se alguém perguntar a um médico a razão e a justificativa de cada uma de suas prescrições, ele abandonará o tratamento do paciente em questão. O mesmo se pode dizer sobre a religião. Precisamos adquirir conhecimento sobre Allah. Queremos saber qual é o método de viver de acordo com a vontade de Allah. Não dispomos dos meios para obter esse conhecimento. Portanto, torna-se nosso dever procurar o verdadeiro profeta de Allah. Sem dúvida, ao procurar o profeta, devemos demonstrar extrema inteligência, discernimento e cautela. Pois, se aceitarmos como profeta alguém que na realidade não é profeta, ele nos conduzirá pelo caminho errado. Mas, depois de uma cuidadosa verificação e análise, quando estivermos convencidos de que determinada pessoa é o verdadeiro profeta de Allah, devemos depositar nela nossa confiança completa e cumprir todas as suas instruções.

A necessidade de crer nos profetas

Quando sabemos que o caminho indicado pelo profeta de Allah, da parte de Allah, é o único caminho verdadeiro e reto, compreendemos espontaneamente também que crer no profeta, obedecer-lhe e segui-lo é indispensável para todas as pessoas, e que aquele que abandonar o caminho do profeta e procurar outro caminho com o auxílio de sua própria inteligência e conhecimento certamente se extraviará.

As pessoas cometem erros extremamente graves nesse assunto. Muitos reconhecem a veracidade dos profetas, mas não creem neles nem lhes obedecem. Essas pessoas não são apenas incrédulas, mas também tolas. Pois quem pode ser mais tolo do que aqueles que seguem conscientemente a falsidade?

Muitos dizem: não há necessidade de obedecermos ao nosso Profeta. Podemos conhecer o caminho da verdade por nós mesmos, com o auxílio da nossa inteligência. Isso também é um erro enorme. Qualquer estudante de geometria sabe que só pode haver uma linha reta entre um ponto e outro. Qualquer outra linha traçada será curva ou não chegará ao segundo ponto. O mesmo se aplica ao caminho da verdade, chamado, na terminologia islâmica, Sirat al-Mustaqim (isto é, o caminho reto). Esse caminho começa no ser humano e termina em Allah. De acordo com o princípio geométrico mencionado, ele só pode ser um. Todos os demais caminhos serão curvos ou não chegarão a Allah. Reflitamos agora um pouco sobre o caminho reto. O Profeta indicou esse caminho. Não pode existir um segundo Sirat al-Mustaqim, ou caminho reto. Quem, deixando de lado esse único caminho, procurar outro por conta própria, certamente se defrontará com uma de duas situações: não encontrará caminho algum que o conduza a Allah; ou, caso encontre algum, será um caminho muito sinuoso, que, em vez de uma linha reta, será uma linha curva. Na primeira situação, sua destruição é evidente. Na segunda, não pode haver qualquer dúvida quanto à sua insensatez. Até um animal inferior, ao ir de um lugar a outro, abandona o caminho sinuoso e segue o caminho reto. Já o caso do ser humano, a criatura mais inteligente e engenhosa, é realmente digno de espanto. Um servo virtuoso de Allah mostra-lhe o caminho reto, e ele continua dizendo: “Não seguirei de modo algum o caminho que me mostraste; avançarei pelos caminhos sinuosos, continuarei me desviando e seguirei procurando meu destino.”

Essa é uma verdade que qualquer pessoa pode compreender à primeira vista. Mas, refletindo um pouco mais profundamente, compreender-se-á que quem se recusa a crer no Profeta não pode encontrar caminho algum, reto ou sinuoso, que o conduza a Allah. Pois aquele que não consegue aceitar as palavras de uma pessoa veraz e sincera tem algum defeito em sua mente, fazendo-o voltar as costas à verdade. Pode ser que lhe faltem conhecimento e inteligência; que o orgulho tenha se instalado em seu coração; ou que sua própria natureza seja tão tortuosa que sua mente não esteja preparada para aceitar a mensagem da retidão e da verdade. Pode estar mergulhado na imitação cega dos antepassados e, por isso, não estar disposto a aceitar nada que contrarie as ideias transmitidas como costume desde tempos antigos. Ou pode ser escravo de suas paixões e recusar-se a seguir os ensinamentos do Profeta porque, depois disso, perderia a liberdade de praticar atos ilícitos e virtuosos conforme sua vontade. Se qualquer uma dessas causas estiver presente numa pessoa, tornar-se-á impossível para ela encontrar o caminho de Allah. E, se nenhuma dessas causas estiver presente nela, é absolutamente impossível que uma pessoa verdadeira, honesta e pura se recuse a aceitar os ensinamentos de um verdadeiro Profeta.

O mais importante é que o Profeta é enviado por Allah, e foi Allah quem ordenou que se cresse nele e se obedecesse a ele. Portanto, quem não crê no Profeta rebela-se contra Allah. O governo do qual uma pessoa é súdita nomeará um administrador, e ela deverá obedecer-lhe. Se se recusar a reconhecê-lo como administrador, isso significará que se rebelou contra o governo. Aceitar o governo e não aceitar o administrador por ele nomeado são duas coisas completamente contraditórias. O exemplo de Allah e do Profeta enviado por Ele é semelhante. Allah é o verdadeiro Rei dos seres humanos. Reconhecer como Profeta aquele que Ele enviou para guiar os seres humanos e a quem ordenou que obedecessem, e abandonar a obediência a todos os demais para obedecer somente a ele, é dever de cada ser humano. Quem demonstra indiferença para com ele é certamente um descrente — um kafir. Nesse caso, aceitar ou não aceitar Allah torna-se igualmente sem sentido.

A história da sucessão da profecia num relance

Agora iniciaremos a discussão sobre como começou a vinda dos profetas entre a humanidade e como essa sucessão, progredindo gradualmente, terminou com o último e mais sublime dos profetas.

Allah criou primeiro um ser humano. Depois, criou um casal a partir desse ser humano. Em seguida, deu continuidade à linhagem desse casal. Ao longo de centenas e milhares de anos, ela se espalhou por todo o mundo. Todos os seres humanos que nasceram na Terra são descendentes daquele primeiro casal. As narrativas religiosas e históricas de todos os povos proclamam unanimemente que a linhagem humana começou com um único ser humano. As investigações científicas tampouco provaram que seres humanos separados tenham sido criados em diferentes regiões da Terra. Pelo contrário, a maioria dos cientistas sustenta a ideia de que, no início, nasceu um único ser humano e que todas as pessoas encontradas em qualquer parte do mundo são descendentes desse único ser humano.

Em nossa língua, esse primeiro ser humano é chamado Adão (que a paz esteja sobre ele). Daí surgiu a expressão “filhos de Adão”, que significa a raça humana. Allah fez de Adão (que a paz esteja sobre ele) o primeiro Profeta e ordenou-lhe que ensinasse os preceitos do Islam a seus filhos. Isto é, ordenou-lhe que lhes transmitisse: “Vosso Senhor e o Senhor de todo o mundo é o Allah Único. Deveis adorar somente a Ele. Deveis prostrar-vos somente diante Dele. Deveis pedir ajuda a Ele. Deveis viver no mundo uma vida virtuosa e justa, de acordo com a Sua vontade. Se seguirdes esse caminho, no fim recebereis uma grande recompensa. Mas, se vos afastardes da obediência a Ele, sereis merecedores de um castigo terrível.” Entre os filhos de Adão (que a paz esteja sobre ele), os bons e virtuosos continuaram seguindo o caminho reto indicado pelo pai, mas os maus abandonaram esse caminho. Pouco a pouco, surgiram todas as formas de injustiça e maldade. Alguns começaram a adorar a Lua, o Sol e as estrelas. Outros entregaram-se à adoração de árvores, animais e rios. E muitos passaram a pensar que o vento, a água, o fogo, as doenças, a saúde e as demais forças da natureza tinham deuses distintos. Por isso, diziam que cada uma delas deveria ser adorada. Assim, todos esses deuses ficariam satisfeitos e nos concederiam sua graça. Devido a esse tipo de ignorância, difundiram-se várias formas de shirk e idolatria, dando origem a diferentes religiões. Naquela época, os descendentes de Adão (que a paz esteja sobre ele) já haviam se espalhado por toda a Terra. Surgiram então diferentes povos. Cada povo criou para si uma nova religião. Os costumes, usos e tradições de cada um eram diferentes. Ao esquecer Allah, o ser humano também esqueceu os preceitos que seu antepassado Adão (que a paz esteja sobre ele) havia ensinado a seus filhos. As pessoas começaram a seguir suas próprias paixões. Começaram a difundir-se todos os tipos de maus costumes. Espalharam-se pensamentos baseados em toda espécie de ignorância. As pessoas começaram a confundir a diferença entre o bem e o mal. Muitas coisas ruins passaram a ser consideradas boas, e muitas coisas boas passaram a ser consideradas ruins.

A esse respeito, o seguinte versículo do Alcorão Sagrado descreve o significado e a importância da profecia:

(Árabe*********************************na página 49 do PDF)

“No início, toda a humanidade seguia um único caminho. (Depois, essa situação não permaneceu e surgiram divergências.) Então Allah enviou os profetas. Eles eram anunciadores de boas-novas (para aqueles que seguiam o caminho verdadeiro e reto) e admoestadores (sobre as consequências de seguir o caminho tortuoso e errado). E fez descer com eles o Livro da verdade, para que se pudesse decidir acerca das divergências que haviam surgido entre as pessoas a respeito da verdade. E a causa do surgimento dessas divergências não foi o fato de que, no início, não lhes tivesse sido dado conhecimento. Depois de receberem uma orientação clara, abandonaram a verdade e seguiram caminhos diversos por uma única razão: queriam cometer injustiça e transgredir uns contra os outros. —[Depois da frase “No início, toda a humanidade seguia um único caminho”, a menção às divergências foi deixada implícita. O assunto é tratado no final do versículo.] —(Surata Al-Baqara: 213).”

Ao escreverem a história da “religião” com base em suas próprias ideias e imaginações, os ignorantes dizem que a vida religiosa do ser humano começou no redemoinho sombrio do shirk; depois, por meio de uma evolução gradual, essa escuridão foi dissipada e os raios de luz começaram a brilhar. Assim, finalmente, o ser humano chegou à concepção do tawhid, ou seja, de um único Allah. O Alcorão apresenta uma informação completamente oposta, afirmando que, durante um longo período, os descendentes de Adão permaneceram estabelecidos no caminho verdadeiro e correto e pertenciam a um mesmo grupo, na plena luz do mundo. Depois, as pessoas começaram a inventar novos caminhos e diferentes métodos. Não fizeram isso por não terem sido informadas sobre a verdade; ao contrário, a razão foi que, mesmo conhecendo a verdade, muitas pessoas desejavam obter mais benefícios e vantagens do que seus direitos legítimos. Elas se mostravam interessadas em cometer injustiça, opressão e transgressão umas contra as outras. Para eliminar essas falhas, Allah, o Senhor dos mundos, começou a enviar profetas. Eles não foram enviados para que cada um estabelecesse, em seu próprio nome, os fundamentos de uma nova religião e formasse uma nova ummah. Seu único propósito era tornar novamente clara diante das pessoas essa verdade perdida e transformá-las outra vez em uma única ummah.

A missão dos profetas

Cada profeta recordava ao seu próprio povo as lições esquecidas. Ensinava-o a adorar um único Allah. Mantinha-o afastado do shirk e da idolatria. Abolia seus costumes e tradições de jahiliyyah e ignorância. Ensinava a maneira de viver de acordo com a vontade de Allah e estabelecia leis corretas e precisas, ordenando que fossem seguidas. Não houve país algum no mundo — Bengala, Paquistão e Índia, China, Iraque, Irã, Egito, África, Europa e assim por diante — ao qual não tivesse vindo algum profeta da parte de Allah. A religião de todos eles era uma só. Em nossa própria língua, chamamos essa religião de “Islã”. —[Em geral, as pessoas mantêm a ideia equivocada de que o Islã começou com o Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegando até a chamá-lo de fundador do Islã. Na realidade, essa é uma concepção profundamente errônea. Essa ideia deve ser completamente apagada da mente. É preciso saber claramente que o Islã é, em todos os tempos e em todos os países, a única e verdadeira religião da humanidade, e que todos os profetas enviados por Allah a qualquer lugar do mundo trouxeram a mensagem dessa mesma religião. —(O autor)] Contudo, os métodos de ensino e as leis relativas ao modo de vida de cada um eram um pouco diferentes. Dava-se ênfase à eliminação das tolices, da ignorância, das superstições e dos vícios que haviam se espalhado entre cada povo. Prestava-se maior atenção à correção das ideias errôneas que haviam se difundido. Quando os povos ainda se encontravam nos estágios iniciais em termos de civilização, cultura, educação e conhecimento científico, recebiam ensinamentos simples e uma sharia fácil. Depois, à medida que avançavam gradualmente no caminho do progresso, tanto os ensinamentos quanto a sharia eram ampliados cada vez mais. Mas essa diferença limitava-se apenas à forma e à aparência externas. O espírito e a essência eram os mesmos para todos. Em outras palavras, a crença de todos se baseava no tawhid, e suas ações baseavam-se na honestidade, na virtude, na paz e na segurança, bem como na convicção do castigo e da recompensa na vida futura.

Como as pessoas tratam os profetas

As pessoas tratam os profetas de maneira estranha. Primeiro, infligem-lhes sofrimento físico. Recusam-se a aceitar seus bons conselhos. Muitos são expulsos de sua terra natal e muitos são mortos. Alguns, depois de passarem toda a vida ensinando e aconselhando, conseguem tornar apenas cinco ou dez pessoas seguidoras da verdadeira religião. No entanto, esses amados servos de Allah continuam cumprindo incansavelmente sua responsabilidade. Até que, com o tempo, seus ensinamentos começam a exercer influência. Muitas grandes nações tornam-se suas seguidoras. Depois, o desvio das pessoas assume uma nova forma. Após a morte dos profetas, seus seguidores introduzem mudanças em seus ensinamentos. Nos Livros que eles trouxeram da parte de Allah, os seguidores inserem todo tipo de corrente de pensamento. Inventam novas formas de adoração. Alguns começam a adorar seus próprios profetas. Outros consideram seus profetas encarnações de Allah (isto é, que o próprio Allah desceu à Terra sob forma humana). Alguns chamam seu profeta de filho de Allah. Outros declaram que seu profeta é parceiro de Allah em Sua autoridade e soberania. Assim, de diversas maneiras, passam a manifestar-se a mentalidade estranha e deformada das pessoas. Aqueles que vieram destruir os ídolos e os destruíram têm suas imagens esculpidas, e as pessoas passam a adorá-las. Depois, a sharia que esses profetas haviam deixado para seus seguidores também é distorcida de várias maneiras. Todo tipo de costume da jahiliyyah, histórias agradáveis e relatos falsos é misturado a ela. O que foi misturado a ela —[Os seguidores dos profetas alteram assim sua religião original, isto é, o Islã, e fazem surgir novas religiões. Hoje, elas existem no mundo sob diversos nomes. Por exemplo, a religião ensinada por Jesus (que a paz esteja com ele) era, na realidade, o Islã; mas seus seguidores fizeram do próprio Jesus um deus e, misturando aos ensinamentos e à sharia que ele trouxe muitas ideias inventadas por eles mesmos, criaram uma nova religião, hoje conhecida no mundo como cristianismo. —(O autor)] — não há mais maneira alguma de saber. A história da vida dos profetas também se perdeu de tal modo entre os diversos relatos das pessoas que nada confiável pode ser encontrado sobre eles.

Ainda assim, todos os esforços dos profetas não foram em vão. Apesar de toda espécie de mistura, restou alguma verdade no seio de cada povo. A concepção de Allah e a preocupação com a vida do Além difundiram-se, em alguma medida, entre todos os povos. A probidade, a honestidade, a justiça e a moralidade alcançaram reconhecimento geral em todo o mundo como alguns princípios fundamentais. Os profetas de todas as nações e tribos, cada um deles separadamente, prepararam seus respectivos povos de tal maneira que se tornou possível difundir os ensinamentos de uma religião universal, adequada à humanidade inteira, independentemente de raça, tribo ou nação.

A missão e a posição dos profetas

Ao estudar o Alcorão, percebe-se que os profetas vêm um após outro e todos transmitem a mesma da‘wah aos seus povos:

(Árabe*********************************na página 52 do PDF)

“Ó meu povo, adorai Allah; não tendes outra divindade além d’Ele”.

Na Babilônia ou em Sadum, em Madian ou na região de Hijr, no vale do Nilo ou em qualquer país do mundo, entre povos escravizados, livres, subdesenvolvidos ou elevados ao ápice do progresso político e cultural, desde o século quarenta até o décimo século antes de Cristo ou depois disso, sempre que e onde quer que um profeta tenha vindo da parte de Allah, ele transmitiu às pessoas a mesma da‘wah. A da‘wah de todos eles era: adorai Allah; não tendes outra divindade — isto é, nenhum verdadeiro objeto de adoração ou deus — além d’Ele. Ibrahim deixou claro ao seu povo, em termos inequívocos, que, enquanto não reconhecessem esse princípio fundamental, não poderia haver qualquer cooperação entre vós e nós.

(Árabe*********************************na página 52 do PDF)

Ou seja, enquanto não crerdes no Deus único, a inimizade e o ódio continuarão entre vós e nós; e, antes de ir ao Faraó e apresentar a exigência de (Árabe******) “Envia os Filhos de Israel comigo”, ele declarou (Árabe*******) “Fui enviado pelo Senhor dos mundos” e (Árabe********) transmitiu-lhe a da‘wah: “Moisés disse: Estás disposto à purificação e ao aperfeiçoamento, e queres que eu te mostre o caminho do teu Senhor, para que tenhas temor d’Ele?” E informou-lhe que tu não és o Rabb nem o Senhor; pelo contrário, Aquele que criou todas as coisas e ensinou a todos o modo de viver é o Rabb e o Senhor. (Árabe********) “Ele é o nosso Rabb e Senhor, que deu forma a cada coisa e depois determinou para ela o seu caminho.” — Isto é, Moisés e Aarão cumpriram a mesma responsabilidade que cumpriram os demais profetas, desde Noé até o último profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele). Essa responsabilidade consistia em informar e fazer compreender às pessoas que deveriam reconhecer somente Allah, o Rabb dos mundos, como seu Rabb e Senhor; que, depois desta vida, virá outra na qual deverão comparecer diante de Allah; e que o êxito dependia de aceitar a da‘wah dos profetas de sua época para o tawhid e a crença no Além, e de estruturar a própria vida com base nisso. — (O autor)] O povo de Jesus vivia uma vida subjugada sob o domínio dos romanos. No entanto, ele não convidou os Filhos de Israel nem os diversos povos das regiões vizinhas a conduzir uma guerra de libertação contra o imperialismo romano. Pelo contrário, transmitiu às pessoas a da‘wah de que (Árabe***********) “Na verdade, Allah é o meu Rabb e o vosso Rabb. Portanto, adorai-O; este é o caminho reto.” É evidente que os acontecimentos relatados no Alcorão não pertencem a outro mundo; são acontecimentos da própria Terra em que vivemos e dizem respeito a pessoas de carne e osso como nós. Não há aqui qualquer possibilidade de dizer que os países e povos aos quais vieram os profetas não enfrentavam problemas políticos, econômicos e culturais, nem que não havia necessidade de atraí-los para a solução desses problemas. Apesar disso, quando cada líder do movimento islâmico, em cada país e em cada época, ignorou todos os problemas gerais e locais e colocou diante de si um único problema, dedicando a ele todas as suas forças, podemos concluir que, para eles, esse era a raiz de todos os problemas, e que consideravam a solução de todos os demais problemas da vida dependente da solução desse problema.

Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele), dirigindo-se aos Filhos de Israel, descreve assim o propósito de sua vinda:

(Árabe*********************************(na página 53 do PDF)

“Vim para tornar lícitas algumas coisas que vos haviam sido proibidas. Vede, trouxe-vos um sinal da parte de vosso Senhor. Portanto, temei a Allah e obedecei-me. Allah é meu Senhor e vosso Senhor. Portanto, adorai-O; este é o caminho reto.” — (Surata آل عمران, 50-51)

Assim, soube-se que, tal como a mensagem de todos os outros profetas, a mensagem de Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) também consistia essencialmente em três pontos. — [É necessário dar atenção especial à mensagem de Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele), pois, antes da vinda de Hazrat Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele era o último profeta, e sua mensagem, suas palavras e sua pregação foram completamente deturpadas. — (Compilador)]

Primeiro: a soberania, que é reconhecida exclusivamente como pertencente a Allah. Por isso, a adoração deve ser dedicada a Ele, e todo o sistema da vida moral e cultural deve ser estabelecido com base na obediência somente a Ele.

Segundo: é necessário obedecer às ordens do profeta, como representante do Soberano.

Terceiro: na vida humana, os limites entre o lícito e o ilícito, o permitido e o proibido, devem ser estabelecidos exclusivamente pela lei de Allah. Nesse assunto, as leis estabelecidas por outros serão anuladas. — [Veja o versículo 51 da Surata آل عمران:(Árabe******** na nota da página 54 do PDF)]]

Na realidade, não há a menor diferença entre a mensagem de Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele), Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele), Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) e a mensagem dos demais profetas. Aqueles que consideraram diferentes as missões dos vários profetas e distinguiram entre elas quanto ao objetivo e à natureza cometeram um erro grave. Quem quer que venha até os súditos do Soberano de toda a criação, munido de sua carta de nomeação, terá como único objetivo impedir os súditos de desobedecer e de exercer um governo autônomo; proibi-los-á de associar alguém a Ele na soberania — isto é, de fazer alguém compartilhar com o Soberano na autoridade suprema de governar e de dividir entre ambos sua própria obediência e adoração — e os convidará a servir somente ao verdadeiro Senhor, obedecer-Lhe, adorá-Lo e seguir Suas ordens.

No Alcorão Majestoso, o propósito da vinda dos profetas também é descrito de outra maneira:

(Árabe****************** na página 54 do PDF)

“Esses mensageiros foram enviados como portadores de boas-novas e admoestadores, para que, depois de seu envio, as pessoas não tivessem argumento algum contra Allah. — (Surata An-Nissá: 165)

Em outras palavras, havia um único propósito para o envio desses mensageiros. Era que Allah, o Altíssimo, queria levar Sua prova e evidência ao grau definitivo diante da humanidade, para que, no Dia do Juízo Final, nenhum criminoso desviado tivesse a oportunidade de dizer: “Nós não sabíamos, e o senhor não tomou nenhuma providência para nos informar sobre a verdade e a realidade da questão”. Com esse objetivo, Allah enviou profetas a diferentes regiões do mundo e revelou Livros. Esses profetas transmitiram o verdadeiro conhecimento a um grande número de pessoas e, mesmo depois de partirem deste mundo, deixaram para a humanidade as Escrituras celestiais. Entre esses Livros, em cada época, algum deles permaneceu na Terra para orientar as pessoas pelo caminho verdadeiro e correto. Portanto, se alguém continuasse desviado depois disso, Allah e Seus profetas não seriam culpados por isso. Pelo contrário, o próprio indivíduo seria culpado, pois a palavra de Allah havia chegado até ele, mas ele não a aceitou. Ou seriam culpadas as pessoas que conheciam o caminho verdadeiro e correto, mas, mesmo vendo os servos de Allah mergulhados no desvio, não lhes indicaram o caminho verdadeiro e correto.

Além de serem convocadores à verdade, os profetas e mensageiros também têm o direito de receber obediência. Como é claramente afirmado no Alcorão:

(Árabe****************** na página 55 do PDF)

“Não enviei mensageiro algum senão para que fosse obedecido, com a permissão de Allah.” — (Surata An-Nissá: 64)

Em outras palavras, o mensageiro não vem da parte de Allah apenas para que se creia em sua missão profética e, depois, se possa obedecer à vontade a qualquer outra pessoa. Pelo contrário, o próprio propósito da vinda do mensageiro é que, para viver, se siga exclusivamente o sistema que ele traz, abandonando todos os demais sistemas do mundo, e que, abandonando todas as demais ordens do mundo, sejam cumpridas exclusivamente as instruções que ele transmite da parte de Allah. Para quem não obedece ao mensageiro dessa maneira, não há sentido em reconhecê-lo simplesmente como mensageiro.

Também faz parte da responsabilidade dos profetas empenhar-se e lutar para fazer prevalecer o dīn. No Alcorão Sagrado, é dito:

(Árabe****************** página 55 do PDF)

“Allah enviou o Seu Mensageiro com a orientação e a verdadeira religião, para fazê-la prevalecer sobre todas as demais religiões.” — (Surata At-Tawbah: 33)

No versículo original, foi usada a expressão ‘ad-dīn’. Em sua tradução, escrevi ‘todas as religiões’. Na língua árabe, a palavra dīn é usada como sinônimo de um sistema ou modo de vida cujo fundador é reconhecido como digno de confiança e de ser seguido, e a quem se presta obediência. Portanto, o objetivo da vinda do Mensageiro descrito neste versículo é que ele faça prevalecer, sobre todas as demais religiões — isto é, métodos e sistemas — do mundo, a orientação e a verdadeira religião que trouxe da parte de Allah. Em outras palavras, o Mensageiro nunca é enviado com o propósito de que o sistema de vida que traz fique subordinado a algum outro sistema de vida, seja vencido por ele e passe seus dias definhando, encolhido entre as concessões oferecidas por esse sistema. Pelo contrário, ele vem como representante do Rei da Terra e dos céus. Deseja ver prevalecer o verdadeiro sistema de seu Rei. Se houver no mundo algum outro sistema de vida em vigor, ele deverá necessariamente permanecer subordinado ao sistema de vida concedido por Allah, dispondo apenas de algumas das facilidades que este lhe oferece, tal como ocorre com a condição do sistema de vida dos dhimmis mediante o pagamento da jizya.

A tarefa dos profetas é eliminar a corrupção

Quando as pessoas abandonam a obediência a Allah e começam a obedecer ao próprio nafs ou a outros, desobedecendo à orientação e às instruções de Allah e estruturando sua vida moral, social e cultural com base em princípios, leis e normas inventados por outros, surge a verdadeira corrupção sobre a Terra, dando origem a inúmeras falhas e desvios na ordem do mundo. O objetivo do Alcorão é impedir essa corrupção e corrigir essas falhas e desvios. Ao mesmo tempo, o Alcorão revela também esta verdade: a corrupção não é a realidade original na ordem do mundo; a honestidade, a virtude e as boas ações é que constituem a realidade original, e a corrupção apenas se impõe temporariamente sobre ela devido à ignorância, ao desconhecimento e aos excessos dos seres humanos. Em outras palavras, a vida dos seres humanos no mundo não começou em meio à ignorância, ao desconhecimento, à barbárie, ao shirk, à rebelião e à anarquia moral, para que depois se iniciasse gradualmente um processo de reforma destinado a eliminá-los. Na realidade, a vida humana começou com honestidade e boas ações; posteriormente, pessoas más, por meio de sua insensatez e de suas más ações, foram tornando impuro e turvo esse sistema sagrado. Para eliminar essa corrupção e reformar novamente o sistema de vida dos seres humanos, Allah continuou enviando profetas em todas as épocas. Em cada época, os profetas transmitiram às pessoas este mesmo chamado: abster-se de criar corrupção no sistema mundial estabelecido sobre a honestidade, a virtude e as boas ações — [A visão do Alcorão sobre este assunto é completamente diferente da visão dos evolucionistas. Os evolucionistas, com base em uma linha de pensamento inteiramente equivocada, deram origem à doutrina de que o ser humano saiu das trevas e chegou gradualmente à luz. No início de sua vida havia deformidade e desordem; depois, pouco a pouco, ele estaria se tornando cada vez mais bem estruturado. Ao contrário, o Alcorão afirma que Allah enviou o ser humano ao mundo em um ambiente plenamente luminoso e iniciou sua vida por meio de um sistema benéfico. Depois, ao aceitar por si mesmo a liderança de Satanás, o ser humano entrou repetidas vezes nas trevas e corrompeu repetidamente esse sistema benéfico. Para conduzir o ser humano dessas trevas ao caminho da luz e convocá-lo a abster-se de criar deformidade e corrupção, Allah enviou Seus profetas em todas as épocas.] — disso.

Está implícito na reivindicação da profecia que o profeta deseja transformar integralmente todo o sistema de vida dos seres humanos. Sem dúvida, o sistema político do país também está incluído nisso. Quando alguém se apresenta como representante do Senhor do Universo, disso decorre necessariamente o reconhecimento de que ele exige das pessoas obediência completa a si. Pois o representante do Senhor do Universo jamais vem para permanecer como súdito subordinado a outra pessoa e obedecer-lhe. Pelo contrário, vem para tornar todos obedientes e para ser seu governante e protetor. Nesse caso, reconhecer a dignidade da autoridade governante de um incrédulo é completamente contrário à dignidade de sua missão de mensageiro.

O objetivo do envio dos Mensageiros

(Árabe****************** na página 56 do PDF)

“(E fiz isso para que não acontecesse que), quando uma desgraça lhes sobreviesse por causa das suas próprias ações, dissessem: ‘Ó nosso Senhor! Por que não enviaste um Mensageiro até nós? (Se tivesses enviado um Mensageiro,) teríamos seguido os Teus versículos e estaríamos entre os crentes’”. — (Surata Al-Qasas: 47)

Em vários lugares do Alcorão Sagrado, isto foi descrito como a razão do envio dos Mensageiros. Entretanto, seria um erro concluir, com base nessa descrição do Alcorão, que, para esse fim, deveria sempre vir um Mensageiro a todos os lugares. Enquanto a mensagem de algum Mensageiro permanecer preservada sem alterações no mundo e também existir um meio de fazê-la chegar às pessoas em geral, não haverá necessidade de um novo Mensageiro. Porém, se for necessário acrescentar algo à mensagem anterior ou enviar uma nova mensagem, nesse caso virá um novo Mensageiro. Quando, em algum lugar, [a mensagem anterior] perde a sua capacidade, as pessoas certamente têm a oportunidade de apresentar esta justificativa: não havia absolutamente nenhum meio para lhes fazer conhecer a diferença entre a verdade e a falsidade, nem para lhes indicar o caminho correto; nessas condições, como lhes seria possível encontrar o caminho verdadeiro e correto? Para eliminar essa justificativa, Allah envia um Profeta em situações desse tipo. Assim, depois disso, será possível responsabilizar pelo seu erro aquele que adotar o caminho equivocado.

O Mensageiro não vem da parte de Allah para que se tenha de crer apenas na sua missão profética e, depois, seja permitido obedecer a qualquer outra pessoa conforme a própria vontade. Pelo contrário, o objetivo da vinda do Mensageiro é precisamente este, como foi explicado anteriormente: para viver, deve-se adotar exclusivamente o sistema de vida que ele traz, abandonando todos os demais sistemas de vida, e deve-se obedecer exclusivamente às ordens que o Mensageiro transmite da parte de Allah, ignorando todas as outras ordens. Depois de aceitar somente o Mensageiro, se uma pessoa não fizer isso, então aceitar o seu Mensageiro torna-se algo sem sentido.

A vinda dos Mensageiros antes do tempo do julgamento

(Árabe****************** na página 57 do PDF)

“Não envio os Mensageiros com outro propósito além de cumprir a tarefa de anunciar boas-novas e advertir; mas a condição dos incrédulos é que tentam fazer a verdade ser derrotada usando as armas da falsidade, e ridicularizam os Meus versículos e aquilo sobre o que foram advertidos”. — (Surata Al-Kahf: 56)

Isto é, envio os Mensageiros para advertir as pessoas, antes que chegue o tempo do julgamento, sobre as boas consequências de obedecer à ordem de Allah e as más consequências de desobedecê-la.

(Árabe****************** na página 58 do PDF)

“A única religião perante Allah é o Islã. A única razão pela qual aqueles a quem foi concedido o Livro adotaram outros caminhos em vez desta religião foi que, depois de lhes ter chegado o conhecimento, fizeram isso por transgressão uns contra os outros.” – (Surata آل عمران: 19)

Isso significa que, onde quer que e sempre que um mensageiro tenha vindo da parte de Allah ao mundo, ele trouxe consigo a mensagem da religião do Islã; e sempre que um Livro foi revelado na língua de qualquer povo do mundo, ele ensinou os preceitos do Islã. A razão pela qual, ao distorcerem essa religião original e acrescentarem ou retirarem coisas dela, surgiram entre a humanidade diversas religiões não foi outra senão o fato de as pessoas desejarem obter mais direitos, privilégios e interesses além dos limites de seus direitos legítimos. Por isso, alteraram, segundo seus próprios caprichos, as crenças, os princípios e as normas da religião original.

Os profetas portavam a bandeira da mesma religião

(Árabe****************** na página 58 do PDF)

“E eles fragmentaram sua religião entre si; todos terão de retornar a Mim.” – (Surata الأنبياء: 93)

Todos os profetas que vieram ao mundo portavam a bandeira desta religião. A essência dessa religião original era que Allah é o único Senhor e Sustentador dos seres humanos, e que somente a Ele se deve prestar culto e adoração. Todas as religiões que surgiram posteriormente são formas distorcidas daquela religião original. Uma delas tomou uma doutrina, outra tomou outra doutrina. Uma retirou um de seus aspectos, outra retirou outro. Depois, acrescentaram a elas muitas coisas de sua própria autoria. Desse modo, se se disser que inúmeros profetas as dividiram em centenas de partes, isso poderá ser chamado de uma mentira descarada. O simples fato de essas religiões terem diferentes formas e de estarem associadas a diferentes profetas em diferentes épocas e países não prova que essa diversidade das religiões tenha sido criada pelos profetas. Eles não poderiam ensinar a adoração de outro senhor em lugar do Deus Único.

O pensamento dos profetas antes de receberem a profecia

Podemos saber pelo Alcorão Sagrado que, antes da descida da revelação de Allah, o conhecimento que os profetas possuíam não diferia em nenhum aspecto do conhecimento das pessoas comuns. Antes da descida da revelação, eles não dispunham de nenhum meio de conhecimento que não estivesse disponível aos demais. Por isso, o Alcorão diz: (Árabe*******) “Tu não sabias o que eram o Livro e a fé.” (Ash-Shura: 52) (Árabe*********) “E Allah encontrou-te extraviado e então guiou-te.”

Junto com isso, o Alcorão também nos informa que, antes de receberem a profecia, os profetas ultrapassavam, por meio dos recursos comuns de conhecimento e compreensão que as outras pessoas possuíam, o estágio de crer no invisível. A chegada da revelação fortaleceu o conhecimento que haviam adquirido por meio da percepção. A revelação prestou um testemunho certo e definitivo da veracidade das verdades que suas mentes vinham testemunhando anteriormente. E proporcionou-lhes um conhecimento direto e visual dessas verdades, permitindo-lhes testemunhar sobre elas diante do mundo com plena convicção. Este tema foi mencionado várias vezes na Surata Hud. Primeiro, foi dito a respeito do Nobre Mensageiro:

(Árabe****************** página 59 do PDF)

“Pode acaso ser igual àquele que se apoia numa prova clara proveniente de seu Senhor (isto é, que possui orientação intelectual e natural), a quem chegou também uma testemunha da parte de Allah (isto é, o Alcorão), e antes do qual já existia o Livro de Moisés como guia e misericórdia (podem eles, então, duvidar desta verdade)?” (Surata Hud: 17)

Depois, este tema foi novamente expresso pela boca do Profeta Noé, no terceiro rukūʿ, da seguinte maneira:

(Árabe****************** página 59 do PDF)

“Ó meu povo, refleti: se eu me apoio numa prova clara proveniente do meu Senhor e Ele me concedeu misericórdia da Sua parte (a revelação e a profecia), mas isso permanece oculto aos vossos olhos, acaso poderíamos impor-vos isso à força?” (Surata Hud: 28)

Novamente, no sexto rukūʿ, o Profeta Ṣāliḥ (que a paz esteja com ele), e, no oitavo rukūʿ, o Profeta Shuʿayb (que a paz esteja com ele), repetiram este mesmo tema. Isso deixa perfeitamente claro que repetiram o tema por meio da revelação. Torna-se evidente que, antes de obterem diretamente o verdadeiro conhecimento por meio da revelação, os profetas penetravam profundamente na doutrina do tawḥīd e da vida futura, utilizando corretamente a capacidade natural de reflexão, investigação e observação — capacidade que, na ayah acima, foi (Árabe********) dita como) aquilo que lhes permitia penetrar profundamente na doutrina do tawḥīd e da vida futura. Seu êxito em penetrar nas profundezas da verdade não era um dom concedido por Allah, (Árabe)mas era algo que haviam adquirido por seus próprios esforços (Árabe***) . Depois, Allah concedia-lhes o conhecimento da revelação. Este não era algo adquirido, mas era concedido por Allah.

A observação, a reflexão e a investigação desses sinais naturais, bem como o uso do bom senso (Commonsense), são coisas completamente diferentes das conjecturas, suposições e especulações (Speculation) dos filósofos. O próprio Alcorão Majid procurou incentivar todas as pessoas a utilizar esse recurso. Repetidamente, o Alcorão diz: abram os olhos, observem os sinais naturais de Allah e tentem chegar, a partir deles, a conclusões corretas.

O conhecimento do invisível do Mensageiro

É errada a ideia de que aos Mensageiros foi concedida apenas a quantidade de conhecimento do invisível que Allah pretendia transmitir aos seres humanos. Essa ideia é contrária às claras declarações do Alcorão e dos hadiths. No Alcorão Majid, é dito a respeito de Hazrat Yaqub (que a paz esteja sobre ele) que ele disse aos seus filhos:(Árabe*******) “Eu sei, da parte de Allah, coisas que vocês não sabem.” — (Surata Yusuf: 11)

Além disso, sabemos, por diversos versículos do Alcorão, que os profetas de diferentes povos eram informados antes que o castigo fosse enviado sobre esses povos; contudo, mesmo quando o castigo estava prestes a chegar, eles não informavam suas nações sobre todos os seus detalhes. Hazrat Nuh (que a paz esteja sobre ele) foi informado do castigo com tanta antecedência que, nesse intervalo, construiu a arca. Mas não disse ao seu povo que um castigo de inundação estava prestes a cair sobre eles. Também sabemos, pelos hadiths, que o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi informado de muitos aspectos do invisível que não transmitiu à sua comunidade. Certa vez, em um sermão, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

(Árabe****************** página 60 do PDF)

“Ó comunidade de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)! Juro por Allah: se vocês soubessem o que eu soube, ririam muito pouco e chorariam muito mais.” — (Bukhari: capítulo sobre Sadaqa fil Kusuf)

Em outra ocasião, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe**********) “Vejo vocês atrás de mim exatamente como os vejo à minha frente.” — (Bukhari: capítulo sobre a liderança do imam entre as pessoas).

Em suma, sabemos, por muitos outros hadiths e versículos, que aos Mensageiros foi concedida uma quantidade de conhecimento do invisível muito maior do que aquela que foi transmitida aos servos por meio deles. A razão natural também confirma isso. Pois as pessoas comuns precisam conhecer apenas a parte do invisível relacionada à fé e à crença. Já os Mensageiros não podem limitar-se a conhecer somente essa parte do conhecimento do invisível. Eles precisam conhecer muitas outras coisas que os auxiliam no cumprimento da responsabilidade da missão profética. Por exemplo, os vice-chefes de Estado e os governadores precisam conhecer, até certo nível, a política e os segredos do Estado. Se esses segredos chegassem ao conhecimento do povo em geral, em vez de trazer benefício, causariam prejuízo. Da mesma forma, há muitos segredos na administração do reino de Allah, conhecidos somente pelos representantes especiais de Allah e por Seus Mensageiros. O povo em geral, isto é, as pessoas comuns, não conhece sequer o mínimo desses segredos. Esse conhecimento do invisível ajuda os Mensageiros a cumprir suas responsabilidades, mas não é necessário às pessoas comuns, nem elas têm capacidade para suportá-lo. Em termos muito resumidos, pode-se dizer que o conhecimento do profeta é menor que o conhecimento de Allah e maior que o conhecimento das pessoas comuns. Mas qual é a extensão desse conhecimento? Quanto maior ou quanto menor ele é? Certamente, não temos nenhum instrumento com o qual possamos medi-lo dessa maneira.

Um olhar atento sobre os profetas

Na sociedade humana, os profetas ocupam a posição mais importante e delicada. Na vida de uma pessoa comum, um acontecimento comum não tem nenhuma importância especial. Mas, quando esse mesmo acontecimento ocorre na vida de um profeta, ele se transforma em lei. Por isso, da parte de Allah, mantém-se um olhar atento sobre cada acontecimento da vida dos profetas. Consequentemente, nem o menor de seus passos nem a mais insignificante de suas ações pode ocorrer em oposição à vontade de Allah. Se algum profeta alguma vez realizou algo assim, isso foi imediatamente corrigido. O objetivo era que a lei islâmica e seus princípios fundamentais chegassem às pessoas não apenas através do Livro de Allah, mas também como o excelente modelo de vida do profeta, e que nada, por menor que fosse, pudesse ser incluído neles se não estivesse de acordo com a vontade de Allah.

Conhecimento direto e observação

Allah fez cada um dos profetas observar, de acordo com sua posição, o sistema de administração da Terra e do céu e, removendo o véu entre o mundo material e o mundo invisível, deu-lhes também conhecimento visual de tantos mistérios ocultos sobre os quais eles haviam sido encarregados de convocar as pessoas comuns a crer no invisível. Desse modo, sua posição distinta em relação à dos filósofos tornou-se claramente identificada. Os filósofos falam com base em conjecturas e especulações. Se tivessem pleno conhecimento de sua própria condição e posição, jamais testemunhariam a verdade de qualquer de suas opiniões. Ao contrário, os profetas falam sempre com base no conhecimento direto e na observação. Eles podem testemunhar diante das pessoas nestes termos: “Sabemos muito bem tudo o que estamos dizendo e vimos tudo isso com nossos próprios olhos”.

Força extraordinária–[As forças e capacidades extraordinárias dos profetas, bem como seu sistema especial de treinamento, foram discutidos detalhadamente no parágrafo “A posição do Mensageiro Nobre como pessoa e como profeta”, do capítulo “A missão profética e suas disposições” .]

(Árabe****************** na página 62 do PDF)

“Quando esta caravana partiu do Egito, seu pai, sentado em sua casa em Canaã, disse: ‘Estou sentindo o perfume de José. Não voltem a dizer, vocês, habitantes da casa, que, por ter envelhecido, perdi o juízo’.” –(Surata José: 94)

A partir disso, pode-se ter uma ideia das forças extraordinárias dos profetas. Quando a caravana acabara de partir do Egito levando a camisa de José, o profeta Jacó, sentado a centenas de milhas de distância, sentiu seu odor. Mas isso também permite saber que essa força não era própria dos profetas. Allah lhes havia concedido essa força. Contudo, eles só podiam utilizar essa força na medida e somente no momento que Allah desejasse. José permaneceu no Egito durante anos, mas Jacó nunca sentiu seu perfume. Agora, assim que sua camisa começou a partir do Egito, de repente o olfato de Jacó se tornou tão aguçado que ele começou a sentir seu perfume.

A natureza humana dos profetas

Todos os profetas anteriores eram seres humanos. [Foi acrescentado um parágrafo posterior sobre a natureza humana dos profetas e o conteúdo de sua missão.] Eles não eram uma criação extraordinária de Allah. Enviar um ser humano como mensageiro não é um acontecimento inédito na história.

Os profetas anteriores vieram para realizar a mesma obra que Muhammad (que a paz esteja com ele) realiza agora; assim como a missão e o ensinamento de Muhammad (que a paz esteja com ele), os deles também eram os mesmos. Allah tratou os profetas de modo especial. Grandes calamidades recaíram sobre eles. Eles permaneceram em meio às provações durante anos e anos. As provações atingiram-nos pessoalmente, e seus inimigos também os lançaram em dificuldades. Mas, por fim, vieram para eles as súplicas; Allah as aceitou, removeu seus sofrimentos, derrotou seus inimigos e concedeu-lhes ajuda de forma milagrosa.

Apesar de serem amados e agradáveis a Allah e de terem recebido d’Ele grandes e admiráveis poderes, eles eram servos de Allah e seres humanos. Nenhum deles possuía poder divino.

O significado da infalibilidade dos profetas

Os profetas também são seres humanos. Nenhum ser humano é capaz de permanecer o tempo todo no grau de perfeição prescrito para o crente. Em certas ocasiões, diante de uma situação delicada e emocional, até o melhor dos seres humanos, como um profeta, pode sucumbir por um breve instante à sua fraqueza humana. Porém, assim que percebe, ou Allah faz surgir nele a percepção, de que está descendo abaixo do nível desejado, ele se arrepende. Ao corrigir seu erro, não hesita sequer por um instante. Que prova maior da excelência moral de Noé (que a paz esteja com ele) poderia haver do que esta: seu jovem filho está afundando em águas insondáveis diante de seus olhos; ele vê a cena com os próprios olhos, e o horror dela dilacera-lhe o peito. Mas, assim que Allah o advertiu de que considerar como seu, apenas por ser seu filho biológico, aquele filho que havia abandonado a verdade e se apegado à falsidade era simplesmente uma emoção da época da ignorância, ele retornou ao pensamento correto.

O significado da infalibilidade do profeta não é que lhe tenham sido retiradas a capacidade e a aptidão para pecar e errar, nem que não exista qualquer possibilidade de que um pecado seja cometido por ele. Pelo contrário, significa que o profeta tem capacidade para pecar, mas, embora possua todas as qualidades, emoções, sentimentos e desejos humanos, é tão íntegro e temente a Allah que jamais decide conscientemente cometer um pecado. Em sua consciência existem provas e testemunhos tão grandiosos e poderosos de seu Senhor que, diante deles, os desejos de sua alma jamais podem prevalecer. Ainda assim, se alguma vez ocorrer inadvertidamente algum erro, Allah imediatamente o corrige por meio de uma revelação explícita. Isso porque seu deslize não é apenas o deslize de uma pessoa, mas o deslize de uma comunidade inteira. Se ele se desvia um palmo do caminho da verdade, o mundo inteiro avança vários quilômetros no caminho do desvio.

Alguns versículos relativos às qualidades dos profetas

(Árabe****************** página 63 do PDF)

“E menciona neste Livro Abraão; certamente, ele era um homem veracíssimo e um profeta” — (Surata Maryam: 41)

(Árabe****************** página 63 do PDF)

“E menciona neste Livro Moisés. Ele era um homem escolhido e um mensageiro-profeta. E Eu o chamei do lado direito do Monte e o aproximei por meio de uma conversa confidencial” — (Surata Maryam: 51–52)

(Árabe****************** página 63 do PDF)

“E menciona neste Livro Ismael. Ele era cumpridor da promessa e um mensageiro-profeta. Ordenava à sua família a oração e o zakat, e era um homem agradável ao seu Senhor. E menciona neste Livro Idris. Certamente, ele era um homem veracíssimo e um profeta, e Nós o elevamos a uma posição elevada” — (Surata Maryam: 54–57)

(Árabe****************** página 64 do PDF)

“Esses profetas foram agraciados por Allah; eram descendentes de Adão, dos descendentes daqueles que carregamos com Noé na arca, dos descendentes de Abraão e dos descendentes de Israel, e estavam entre aqueles que Eu guiei e escolhi. Sua condição era tal que, quando lhes eram recitados os versículos do Misericordioso, prostravam-se em lágrimas” — (Surata Maryam: 58)

(Árabe****************** na página 64 do PDF)

“E, antes disso, concedi a Abraão bom senso e conhecimento, e Eu o conhecia muito bem.” – (Surata Al-Anbiya: 51)

(Árabe****************** na página 64 do PDF)

“E salvamos a ele e a Lot, levando-os para uma terra na qual coloquei bênçãos para todos os povos. E concedi-lhe Isaac e Jacó como um acréscimo, e fiz de cada um deles um homem justo. E os estabelecemos como líderes, para guiarem por Nossa ordem, e inspiramos-lhes que praticassem boas ações, estabelecessem a oração e pagassem o zakat. E eles eram adoradores Meus.” – (Surata Al-Anbiya: 71–71)

(Árabe****************** na página 64 do PDF)

“E concedi a Lot autoridade e conhecimento, e salvei-o daquela cidade cujos habitantes praticavam más ações. Na verdade, eram um povo extremamente perverso. Concedi a Lot a Nossa misericórdia, pois ele fazia parte dos justos.” – (Surata Al-Anbiya: 74–75)

(Árabe****************** na página 65 do PDF)

“E concedi essa mesma graça a Noé. Lembrai-vos de que, antes disso, ele Me invocou; então atendi à sua súplica, livrando-o, juntamente com sua família, de uma grande angústia, e ajudei-o contra o povo que desmentia os Meus versículos. Eram pessoas extremamente más; por isso, afoguei a todos eles.”

(Árabe****************** página 65 do PDF)

“E concedi esta mesma bênção a Davi e Salomão. Recorda o tempo em que ambos julgavam um caso relativo a um campo, no qual, durante a noite, haviam entrado as cabras de outras pessoas. E Eu mesmo testemunhava o julgamento deles. Naquela ocasião, ensinei a Salomão o julgamento correto. Contudo, a ambos concedi discernimento sutil e conhecimento. E submeti as montanhas e as aves a Davi; elas glorificavam a Deus. Fui Eu quem fez isso. E, para vosso benefício, ensinei-lhe a arte de fabricar armaduras, para que vos protegessem dos golpes uns dos outros. Sereis, então, agradecidos? E submeti a Salomão o vento veloz, que soprava, por sua ordem, em direção à terra na qual Eu havia depositado bênçãos. E tenho conhecimento de todas as coisas. E submeti a ele muitos dos demônios, que mergulhavam por ele e realizavam também outros trabalhos. E Eu era o guardião de todos eles”.–(Surata Al-Anbiya: 78-82)

A menção, neste contexto, deste acontecimento especial de Hazrat Davi (que a paz esteja sobre ele) e Hazrat Salomão (que a paz esteja sobre ele) tem um propósito: fazer compreender que, apesar de serem profetas e de possuírem forças e capacidades extraordinárias concedidas por Deus, os profetas eram, na realidade, seres humanos. Não havia neles sequer o menor vestígio do poder divino. Neste caso, Hazrat Davi (que a paz esteja sobre ele) não foi auxiliado pela revelação e cometeu um erro ao proferir o veredito. Hazrat Salomão (que a paz esteja sobre ele) foi auxiliado e, consequentemente, pronunciou o veredito correto. Contudo, ambos eram profetas. O objetivo de descrever as qualidades que ambos possuíam também é mostrar que elas eram qualidades concedidas por Deus e que tais qualidades não colocam ninguém no lugar de Deus.

(Árabe*************************página 66 do PDF)

“E concedi esta mesma bênção a Ayyub. Recorda quando ele invocou seu Senhor, dizendo: ‘Fui atingido pela doença, e Tu és o mais misericordioso dos misericordiosos’. Então aceitei sua súplica e removi sua aflição. E não apenas lhe devolvi sua família, mas também lhe concedi outra vez um número igual, por Nossa misericórdia especial, e para que isso servisse de lição aos adoradores”.–(Surata Al-Anbiya: 83-84)

(Árabe*************************página 66 do PDF)

“E concedi esta mesma bênção a Ismael, Idris e Zul-Kifl. Todos eles eram perseverantes, e Eu os incluí em Minha misericórdia, pois eram virtuosos”.–(Surata Al-Anbiya: 85-86)

(Árabe*************************página 66 do PDF)

“E também agraciei o homem do peixe com a Minha graça, e ele pensava que não o submeteríamos a provação. Por fim, das trevas, clamou: ‘Não há divindade além de Ti; glorificado sejas! Sem dúvida, fui um dos injustos’. Então aceitei a sua súplica, livrei-o da angústia e é assim que salvamos os crentes.” — (Surata Al-Anbiya, 87–88)

(Árabe*************************na página 67 do PDF)

“E também Zacarias, quando clamou ao seu Senhor: ‘Ó meu Senhor! Não me deixes sozinho, pois Tu és o melhor dos herdeiros’. Então atendemos à sua súplica, concedemos-lhe João e tornamos sua esposa apta para ele. Eles se apressavam na prática das boas ações, invocavam-Nos com temor e esperança e eram humildes diante de Nós.” — (Surata Al-Anbiya, 89–90)

O propósito de narrar o episódio de Zacarias é explicar que todos esses profetas eram simples servos de Allah e seres humanos. Não havia neles sequer o menor vestígio de divindade. Eles não tinham poder para conceder filhos a outros; pelo contrário, eles próprios suplicavam a Allah por filhos. O propósito de mencionar Jonas é mostrar que, apesar da grandeza e da elevada posição de um profeta glorioso, ele foi imediatamente responsabilizado assim que cometeu um erro. E, quando se prostrou diante de seu Senhor, também foi demonstrada para com ele uma misericórdia extraordinária. Ele foi retirado vivo do ventre do peixe. O propósito de mencionar Jó é informar que ser atingido por aflições não é algo incomum para os profetas. Quando um profeta é acometido por uma calamidade ou por uma doença, ele pede a Allah a cura e a libertação dessa aflição. Eles não podem curar os outros; ao contrário, eles próprios pedem a Allah a cura. Além disso, outro objetivo dessas narrativas é estabelecer esta verdade concreta: todos os profetas reconheceram o Tawhid e não apresentavam suas necessidades diante de ninguém além de Allah. Por outro lado, também faz parte de seu propósito revelar que Allah sempre ajudou Seus profetas de maneira extraordinária. Por maiores que fossem as provações a que fossem submetidos no início, no fim suas súplicas eram aceitas e concretizadas de forma miraculosa.

Capítulo 2 — A Revelação

O significado, a forma e os tipos da Revelação

Significado literal e terminológico

O significado de revelação é fazer um sinal, dar uma indicação, lançar algo na mente, dizer algo secretamente ou enviar uma mensagem. O significado terminológico de revelação é ‘indicação rápida’ e ‘indicação secreta’. Ou seja, é uma indicação feita com rapidez e de tal modo que somente aquele que a faz e aquele a quem é feita podem conhecê-la. Em sentido terminológico, essa palavra é usada para designar uma orientação que, semelhante a um relâmpago, é lançada por Allah na mente de algum de Seus servos.

Não pode surgir sequer a questão de Allah estar pessoalmente presente diante de alguém, ou de alguém estar presente diante d’Ele e, encontrando-se face a face com Ele, falar com Ele. Ele é Sapientíssimo e detentor de poder absoluto. Sempre que deseja estabelecer uma relação com algum servo para orientar a sociedade humana ou guiá-la, nenhum obstáculo ou dificuldade de qualquer espécie pode surgir no caminho da Sua vontade. Para isso, por meio do Seu conhecimento, Ele adota o caminho da revelação.

Tipos de revelação

Embora atualmente a palavra “revelação” seja usada apenas para a revelação enviada aos profetas, essa distinção terminológica não se encontra no Alcorão. De acordo com a descrição corânica, também é enviada revelação ao céu, e todo o seu sistema é administrado de acordo com ela (Árabe**********) também é enviada revelação à terra, que, ao seu sinal, começa a narrar a sua história sem qualquer demora (Árabe******) também é enviada revelação aos anjos, e eles agem de acordo com ela (Árabe***********) As abelhas também aprendem todas as suas atividades por meio da revelação (instrução natural). Assim foi dito no versículo 68 da surata An-Nahl. Naturalmente, essa revelação não se limita às abelhas. O nado dos peixes na água, o voo dos pássaros no espaço e o ato de o recém-nascido beber leite — tudo isso é aprendido por meio da revelação de Allah. Além disso, o modo correto, a opinião precisa ou o caminho correto de pensamento e ação que uma pessoa obtém sem reflexão, pesquisa ou investigação também está incluído nessa revelação (Árabe**********) Nenhum ser humano está privado dessa revelação. A eficácia dessa revelação pode ser observada em todas as descobertas realizadas no mundo, em todas as novas coisas e assuntos inventados para o benefício da humanidade e em todas as grandes e nobres obras realizadas por grandes pensadores, estadistas, conquistadores e escritores. Na verdade, as pessoas comuns também vivenciam inúmeras experiências desse tipo dia e noite. Muitas vezes acontece de, enquanto alguém está simplesmente sentado, surgir uma ideia em sua mente, ou de nascer em sua cabeça uma nova técnica ou uma nova percepção, ou de ver algo em um sonho, e a experiência posterior provar que isso era uma orientação correta que lhe havia sido concedida a partir do invisível. Entre essas diversas formas de revelação, uma forma especial era enviada aos profetas e mensageiros; sua diferença em relação às demais revelações é absolutamente clara. Aquele sobre quem essa revelação desce tem plena consciência de que ela está descendo da parte de Allah. Ele tem plena convicção de que essa revelação provém de Allah. Essa forma de revelação contém crenças, normas, leis e orientações morais e espirituais. Seu objetivo é guiar a humanidade por meio do profeta.

Conceção equivocada

da surata Ash-Shu‘ara’ (Árabe*******)é descrito o modo como chegou a revelação por meio da qual todos os Livros celestiais foram transmitidos aos profetas. Isto é, Allah envia a revelação aos mensageiros por meio de um dos Seus anjos. Algumas pessoas compreenderam equivocadamente o sentido deste versículo e o traduziram assim: “Allah envia um mensageiro que, por ordem d’Ele, transmite a Sua mensagem às pessoas comuns”. Contudo, esta expressão do Alcorão (Árabe**********) (depois, ele — isto é, o anjo — faz descer ou transmite a revelação daquilo que Ele deseja, por Sua ordem) refuta claramente essa interpretação. Em nenhuma passagem do Alcorão a transmissão da mensagem pelos profetas diante das pessoas comuns foi chamada de “revelação”, e na língua árabe tampouco há qualquer possibilidade de expressar a discussão pública das pessoas por meio da palavra “revelação”. O significado lexical de revelação é precisamente um sinal secreto e rápido. Somente alguém absolutamente ignorante da língua árabe poderia usar essa palavra como sinônimo da transmissão da mensagem pelos profetas.

Mais algumas palavras sobre os diversos tipos de revelação

Um tipo de revelação pode ser chamado de revelação jibilّي ou natural. Por meio dela, Allah ensina a cada criatura o seu modo de agir. Essa revelação desce sobre os animais e as aves em maior medida do que sobre os seres humanos e, possivelmente, sobre as plantas e os objetos inanimados em medida ainda maior. O segundo tipo de revelação pode ser chamado de revelação juz’ī (parcial). Por meio dela, Allah ensina a algum de Seus servos uma técnica entre os assuntos relacionados à vida. Essa revelação desce diariamente sobre as pessoas comuns. Todas as grandes descobertas do mundo são realizadas por meio dessa revelação. Ela contribui para grandes inovações teóricas. Sua eficácia pode ser observada por trás de acontecimentos históricos importantes. Vê-se que, no curso de acontecimentos significativos, um evento especial ocorre subitamente, sem reflexão prévia, e exerce uma influência decisiva sobre o curso da história. Esse tipo de revelação desceu sobre a mãe de Moisés. Separada desses dois tipos de revelação, existe ainda outra forma, por meio da qual Allah informa o Seu servo sobre as verdades profundas do invisível e lhe concede orientação quanto ao sistema de vida. O objetivo é que ele transmita esse conhecimento e essa orientação às pessoas comuns e as conduza das trevas para a luz. Essa revelação desce exclusivamente sobre os profetas. O Alcorão deixa claro que, qualquer que seja o nome dado a esse tipo de conhecimento — irqa, ilham, kashf ou, em sentido técnico, revelação — ele não é concedido a ninguém além dos profetas e mensageiros. Esse conhecimento é concedido aos profetas de tal modo que eles conseguem ter plena convicção de que veio da parte de Allah, de que está completamente protegido contra a interferência dos demônios e de que está inteiramente livre da influência dos seus próprios pensamentos, imaginação e desejos. Além disso, segundo a Sharia, esse conhecimento é considerado uma prova incontestável. Obedecê-lo é obrigatório para todas as pessoas, e os profetas são incumbidos de convocar toda a humanidade a crer nele. Ademais, crer nessa revelação é condição indispensável para a salvação na Outra Vida, e ignorá-la indica, em definitivo, o caminho da destruição.

Se a alguma pessoa que não seja profeta for concedida uma parte dessa terceira espécie de revelação, ela permanece no nível de uma indicação tão obscura que, para compreendê-la plenamente, torna-se indispensável recorrer à luz da revelação profética — isto é, apresentá-la ao Alcorão e à Sunnah, verificar se é falsa ou verdadeira e, sendo verdadeira, determinar seu propósito. A pessoa que considera sua própria inspiração (ilhām) um meio independente de orientação, começa a agir de acordo com ela sem submetê-la ao critério da revelação profética e conclama os outros a segui-la não pode ter tal conduta reconhecida como legítima do ponto de vista da Shariah. Essa verdade foi exposta claramente em vários pontos do Alcorão. Em especial, o último versículo da Surata al-Jinn apresenta essa questão livre de toda rigidez e ambiguidade:

(Árabe*************************na página 73 do PDF)

“Ele (Allah) conhece o oculto. E não revela a ninguém o Seu oculto, salvo ao Mensageiro que Ele escolhe para transmitir algum conhecimento do oculto. Então, Ele coloca guardiões à sua frente e atrás dele, para saber que eles transmitiram as mensagens de seu Senhor. Ele abrange tudo o que os cerca e conta todas as coisas.” — (Surata al-Jinn: 27–28)

Por que os melhores homens virtuosos e os mais elevados reformadores sociais entre os muçulmanos não receberam uma revelação intuitiva (kashf) e uma inspiração (ilhām) do mesmo nível que as dos profetas, e por que lhes foi concedida uma espécie inferior de kashf e ilhām subordinados? Refletindo um pouco, pode-se compreender facilmente a razão. A razão pela qual a primeira não lhes foi concedida é que ela marca a linha divisória entre o profeta e a ummah comum. Essa linha divisória não pode, de modo algum, ser eliminada. A razão pela qual a segunda lhes foi concedida é que aqueles que, depois do profeta, se esforçam para dar continuidade à sua obra necessitam de profunda compreensão interior de cada questão da religião e de orientação correta da parte de Allah na luta pelo estabelecimento da religião. Naturalmente, isso é concedido de forma inconsciente a todo servo da religião que possua pensamento sincero e correto. E, se for concedido conscientemente a alguém, será certamente uma recompensa de Allah.

A revelação em sonhos

(Árabe*************************na página 74 do PDF)

“Quando o menino chegou à idade de correr com ele, Ibrahim lhe disse certo dia: ‘Meu filho, vi em sonho que te sacrificava. Agora, dize-me o que pensas a esse respeito.’ Ele respondeu: ‘Meu pai, fazei o que vos é ordenado.’” — (Surata as-Saffat: 102)

Essas palavras deixam claro que o filho do profeta não considerou o sonho de seu pai um simples sonho; ao contrário, considerou-o uma ordem de Allah. E, se de fato não fosse uma ordem de Allah, Ele certamente teria informado, de maneira explícita ou pelo menos por alguma indicação ou insinuação, que o filho de Ibrahim havia tomado equivocadamente aquilo como uma ordem de Allah. Contudo, não há nenhuma indicação desse tipo na discussão anterior ou posterior a esse versículo. Por isso, surgiu no Islã a crença de que os sonhos dos profetas não são meros sonhos; ao contrário, são uma espécie de revelação. É evidente que, se a afirmação com base na qual um princípio tão importante pôde entrar na Shariah de Allah fosse verdadeira, Allah certamente a teria contestado. Para aqueles que reconhecem o Alcorão como a palavra de Allah, é de modo algum aceitável admitir que Allah possa cometer um erro desse tipo.

Revelação às abelhas

(Árabe*************************na página 74 do PDF)

“E veja: teu Senhor revelou às abelhas: ‘Construí vossas casas nas montanhas’.” — (Surata An-Nahl: 68)

O significado lexicográfico de revelação é uma indicação secreta e sutil. Ninguém além daquele que indica e daquele a quem se faz a indicação a percebe. Em razão desse significado apropriado, esta palavra é usada no sentido de ilqā (lançar uma palavra na mente) e ilhām (dar ensinamento e orientação secretos). Uma vez que o ensinamento que Allah concede às Suas criaturas não é ministrado em nenhuma instituição de ensino, mas por um método tão sutil que, aparentemente, não se vê uma pessoa ensinando e outra recebendo o ensinamento, o Alcorão o expressa por meio das palavras revelação, ilhām e ilqā. Atualmente, essas três palavras assumiram três formas terminológicas distintas. A palavra revelação é usada exclusivamente para os profetas; ilhām, para os awliyā e os santos especialmente veneráveis; e ilqā, de modo relativamente geral.

Revelação à mãe de Moisés

(Árabe*************************na página 75 do PDF)

“Lembra-te do tempo em que indiquei à tua mãe uma indicação feita por meio da revelação.” — (Surata Ta-Ha: 38)

(Árabe*************************na página 75 do PDF)

“E inspirámos a mãe de Moisés: amamenta-o. Depois, quando temeres pela sua vida, lança-o ao rio”. — (Surata Al-Qasas: 7)

Isto é, a mãe de Moisés (que a paz esteja com ele) fez isso por inspiração de Allah, e Ele já a havia tranquilizado, assegurando-lhe que, se seguisse esse caminho, não só a vida do seu filho seria salva, como também lho devolveria ao colo, e o seu filho viria a ser posteriormente o Meu Mensageiro.

A revelação dos demónios aos seus companheiros

(Árabe*************************(na página 75 do PDF)

“Os demónios lançam dúvidas e suspeitas nos corações dos seus companheiros, para que discutam convosco”. — (Surata Al-An’am: 121)

A revelação ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não é um acontecimento inédito

(Árabe*************************(na página 75 do PDF)

“Ó Muhammad! Enviámos-te a revelação exatamente como a enviámos a Noé e aos profetas que o sucederam. E também revelámos a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob e aos descendentes de Jacob”.

-(Surata An-Nissá: 163)

O objetivo de dizer isso é informar a todos que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não trouxe nenhuma coisa nova que ninguém antes dele tivesse trazido. Ele não alegou ter sido o primeiro a apresentar algo novo ao mundo; pelo contrário, assim como todos os profetas anteriores receberam orientação da mesma fonte de conhecimento, ele também recebeu orientação dessa mesma fonte. E os profetas que surgiram em diferentes regiões do mundo sempre apresentaram as mensagens da verdade e da justiça; ele apenas repetiu essas mesmas mensagens da verdade e da justiça.

A descida da revelação do Alcorão sobre o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele)

(Árabe*************************na página 76 do PDF)

“E este Alcorão foi enviado a mim por meio da revelação, para que eu possa advertir-vos, bem como a todos aqueles a quem ele chegar”.

(Árabe*************************na página 76 do PDF)

“Quando lhes são recitadas as Minhas claras palavras, aqueles que não esperam encontrar-Me dizem: ‘Traz outro Alcorão em vez deste, ou faz algumas alterações nele’. Dize-lhes, ó Muhammad: ‘Não me cabe fazer nele qualquer alteração por minha própria iniciativa; apenas sigo a revelação que me chega’.”–(Surata Yunus: 15)

Aqui foi comunicado a todos, a respeito do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Não sou o autor deste Livro. Pelo contrário, ele chegou a mim por meio da revelação, e não tenho autoridade alguma para fazer nele qualquer alteração ou acréscimo”. Além disso, também foi esclarecido que não há qualquer possibilidade de acordo nessa questão. Para aceitá-lo, é preciso aceitar toda a religião exatamente como ela é; caso contrário, deve-se rejeitá-la.

(Árabe*************************na página 76 do PDF)

“Portanto, ó Profeta, que não aconteça de abandonares qualquer uma das coisas que estão sendo reveladas a ti como revelação e de teu coração se angustiar por causa disso.”–(Surata Hud: 12)

Isto é, aos nossos olhos, deve ser valorizada a pessoa que é virtuosa e que segue o caminho da justiça, da honestidade e das boas ações com paciência, firmeza e constância. Portanto, devido ao tipo de estreiteza, hostilidade, negligência, zombaria e sarcasmo, bem como às objeções e perguntas nascidas da ignorância, por meio das quais estás sendo confrontado, que nenhuma diferença se manifeste em tua firmeza e constância. Não deves hesitar, sentir medo nem te acanhar ao expor e proclamar aquilo que, por meio da revelação, foi esclarecido diante de ti como verdade, nem ao convidar as pessoas para ela. Que jamais surja em tua mente um pensamento deste tipo: quando as pessoas começam a lançar flechas de zombaria assim que ouvem determinada palavra, como poderia eu apresentá-la diante delas? E, quando elas não estão de modo algum preparadas para ouvir determinada verdade, como poderia eu expô-la diante delas? Quer as pessoas aceitem ou não, continua proclamando com voz destemida, sem diminuir nem acrescentar nada, aquilo que sabes ser a verdade. Depois, tudo o que acontecer ou vier a acontecer está inteiramente nas mãos de Allah.

(Árabe*************************na página 77 do PDF)

“Ó Muhammad! Estas são notícias do invisível. Eu as revelo a ti por meio da revelação. Antes disso, tu não as conhecias, e teu povo também não as conhecia.”–(Surata Hud: 49)

(Árabe*************************na página 77 do PDF)

“Alif-Lam-Ra. Estes são os versículos do Livro que expressa claramente sua mensagem. Nós o revelamos como um Alcorão em língua árabe, para que vós, árabes, possais compreendê-lo bem. Ó Muhammad! Ao revelar este Alcorão a ti, descrevi-te da melhor maneira os relatos e as informações.”–(Surata Yusuf: 1–2)

(Árabe*************************na página 77 do PDF)

“Ó Muhammad! Esta narrativa faz parte das notícias do Invisível, que Eu te revelo. E tu não estavas presente quando os irmãos de José conspiraram entre si, unidos num só grupo.” — (Surata Yussuf: 102).

(Árabe*************************na página 77 do PDF)

“Ó Muhammad! Assim, enviei-te como Mensageiro a um povo antes do qual muitos outros povos já haviam passado, para que lhes transmitas a mensagem que te revelo, enquanto eles renegam o seu Misericordioso.” — (Surata Ar-Ra’d: 30).

Os diversos modos pelos quais a revelação foi enviada ao Mensageiro de Allah (SA)

Foi dito no Alcorão Sagrado:

(Árabe*************************na página 77 do PDF)

“Não é dado a nenhum ser humano que Allah lhe fale diretamente. Porém, Ele lhe fala por meio da revelação (inspiração), ou por detrás de um véu, ou envia um mensageiro (anjo), que, por Sua ordem, revela aquilo que Ele deseja. Certamente, Ele é Sublime e Sábio.” — (Ash-Shura: 51)

Está comprovado pelo Alcorão e pelo Hadith que o Mensageiro de Allah (SA) recebeu orientação por meio desses três métodos.

Primeiro: Pelo relato do hadith, sabe-se, a partir da declaração de Hazrat Aisha que foi citada, que o início da revelação ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocorreu por meio de sonhos verdadeiros. (Bukhari e Muslim.) Mesmo nas etapas posteriores, essa continuidade foi mantida: encontram-se nos hadiths numerosos sonhos do Mensageiro de Allah. Por meio deles, ele era instruído ou informado sobre alguma questão. No Alcorão Sagrado também se encontra o relato detalhado de um de seus sonhos — Surata al-Fath: 27. Além disso, é mencionado em vários hadiths que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Tal e tal coisa foi lançada em meu coração, fui informado disso, foi-me ordenado fazer isto ou fui proibido de fazer aquilo.” Todas essas questões pertencem ao primeiro tipo de revelação. A maioria dos hadiths qudsis pertence a essa categoria.

Segundo: Durante o Mi‘raj, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu o segundo tipo de revelação. Pelos relatos de diversos hadiths autênticos sobre a ordem dada ao Mensageiro de Allah para realizar as cinco orações diárias e sobre suas repetidas súplicas e pedidos a esse respeito, fica claro que, naquele momento, houve entre Allah e Seu servo Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) uma conversa exatamente como a que ocorreu entre Hazrat Musa (que a paz esteja sobre ele) e Allah no monte Tur.

Terceiro: Quanto ao terceiro tipo de revelação, o próprio Alcorão testemunha que ela era enviada ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por intermédio de Jibril (que a paz esteja sobre ele). Isso é mencionado nos versículos 97 da Surata al-Baqara e 192 a 195 da Surata al-Shu‘ara.

Mais algumas observações sobre o assunto

A revelação chegava ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de várias maneiras. Allama Ibn Qayyim apresentou em sua obra Zad al-Ma‘ad a seguinte descrição detalhada:

Primeiro: Sonhos verdadeiros: Esta foi a fase inicial da revelação ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Os sonhos que ele tinha eram claros como a luz do dia.

Segundo: O anjo fazia uma mensagem se firmar em seu coração, embora ele não pudesse vê-lo. Como exemplo, pode-se mencionar um hadith no qual o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ruh al-Qudus (Jibril) lançou — ou soprou — em meu coração esta mensagem: nenhuma criatura morrerá antes de receber integralmente a provisão que lhe foi destinada. Portanto, tema a Allah e aja corretamente, e adote bons métodos para buscar o sustento. E, ao perceber demora na obtenção do sustento, não procure obtê-lo por meio da desobediência a Allah. Pois aquilo que está junto de Allah — isto é, Sua recompensa — só pode ser alcançado por meio da obediência a Ele.”

Terceiro: O anjo assumia a forma humana, vinha diante dele e falava, continuando a falar até que ele conseguisse gravar completamente suas palavras em sua mente. Em algumas ocasiões, os Companheiros chegaram a ver esse anjo.

Quarto: antes de a revelação descer, um sino continuava a soar em seus ouvidos, enquanto o anjo também falava. Esse era o método mais difícil de receber a revelação. Quando a revelação descia dessa maneira, mesmo em dias de frio intenso, o corpo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficava coberto de suor. Quando ele estava montado num camelo, o animal se sentava sob o peso da carga. Certa vez, ele estava deitado, com a cabeça apoiada sobre a coxa de Zaid ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele), quando a revelação começou a descer. A coxa de Zaid ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele) recebeu uma pressão tão grande que quase se quebrou.

Quinto: ele via o anjo na forma original em que Allah o havia criado. Então, tudo o que Allah ordenava era-lhe revelado sob a forma de revelação.

Sexto: Allah fazia descer diretamente sobre ele a revelação. Isso ocorreu quando ele subiu aos céus durante a Ascensão. Allah tornou a oração obrigatória ali e também lhe disse outras coisas.

Sétimo: Allah conversava com ele sem a mediação dos anjos, como havia feito com Moisés, que a paz esteja sobre ele. Essa distinção de Moisés (que a paz esteja sobre ele) é comprovada pelo Alcorão. Quanto ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sua menção encontra-se nos hadiths relativos à Ascensão.

Além disso, alguns também mencionaram outro método. Ele consiste no seguinte: “Allah falou com ele sem qualquer véu. Essa é a opinião daqueles que acreditam que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu Allah. Entretanto, há divergência entre os eruditos antigos e posteriores acerca dessa questão.” (Zad al-Ma’ad, vol. 1, pp. 24–25).

O erudito Jalaluddin Suyuti dedicou um capítulo inteiro de sua obra Itqan, no primeiro volume, à explicação dessa questão. A seguir, apresenta-se um breve resumo de sua discussão:

“Quando se tornou profeta aos quarenta anos, Israfil ficou encarregado de sua instrução e formação durante os três primeiros anos. Nenhuma parte do Alcorão foi revelada por meio dele. Depois, Gabriel ficou encarregado de trazer a revelação. Ele continuou a trazer o Alcorão durante vinte anos. A revelação continuou a chegar das seguintes formas:

Primeiro: um sino continuava a soar em seus ouvidos, e depois ouvia-se a voz do anjo. A vantagem desse método era que, assim que ouvia o som do sino, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) podia desviar o olhar e a mente de todas as direções e concentrar-se unicamente na voz do anjo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que esse método era o mais difícil para ele.

Segundo: uma ideia era firmemente gravada em sua mente e em seu coração, como ele próprio disse.

Terceiro: um anjo vinha sob a forma humana e falava com ele. O Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: este método de revelação era o mais fácil e leve para mim.

Quarto: o anjo vinha a ele em sonho e falava com ele.

Quinto: Allah falava diretamente com ele, dormindo ou acordado, em qualquer estado.

O desafio do Alcorão quanto à sua origem como revelação de Allah

Durante os quarenta anos de sua vida anteriores ao recebimento da profecia, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) não recebeu qualquer educação, treinamento ou convivência que lhe pudesse proporcionar um vasto tesouro de informações, cuja torrente tivesse começado subitamente a fluir de sua boca assim que reivindicou a profecia. Então, nas sucessivas suratas do Alcorão, começaram a ser discutidos diversos temas; mas as pessoas jamais o tinham visto demonstrar interesse por esses assuntos, discuti-los ou expressar pensamentos desse tipo. Até mesmo nenhum amigo íntimo ou parente próximo de seus quarenta anos de vida havia percebido, em seu comportamento e em suas palavras, algo que pudesse ser considerado uma introdução ou um prenúncio daquela grandiosa mensagem. Isso prova claramente que o Alcorão não era fruto de sua própria mente; ao contrário, havia-lhe sido concedido de fora.

(Árabe*************************na página 80 do PDF)

“Ó Muhammad! Tu não estavas presente no canto ocidental quando dei a Moisés este decreto da Sharia. E tampouco o testemunhaste. Pelo contrário, depois disso, até a tua época, fizemos surgir muitas gerações, e longas eras transcorreram sobre elas. Também não estavas entre o povo de Madiã, estando entre eles, nem estavas ao lado do monte Tur naquele momento em que Eu chamei Moisés pela primeira vez. Mas isto é uma misericórdia do teu Senhor — o fato de esta informação estar sendo fornecida a ti — para que advirtas aqueles a quem nenhum admoestador chegou antes de ti. Talvez, com isso, recuperem o bom senso.”

-(Surata al-Qasas: 44–46)

Estas três afirmações foram apresentadas como prova da profecia de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Quando essas palavras foram proferidas, os líderes de Meca e a sociedade geral dos incrédulos empenhavam-se de todas as formas em provar que ele não era profeta e, Deus nos livre, que era um falso pretendente à profecia. Para ajudá-los, havia os eruditos judeus e o clero cristão espalhados por várias regiões do Hijaz. E o mais importante é que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não veio do espaço sideral para recitar este Alcorão. Pelo contrário, ele era um habitante de Meca. Nenhum aspecto de sua vida estava oculto aos olhos dos habitantes de sua própria cidade e de sua tribo. Por isso, ninguém em Meca, no Hijaz ou em toda a Península Arábica ousou dizer tais absurdos como os orientalistas atuais. Embora não fossem de modo algum inferiores a estes na mentira e na apresentação de afirmações inventadas, como poderiam proferir em pleno dia uma mentira tão evidente, na qual ninguém estava disposto a acreditar nem por um instante? Como poderiam dizer: “Ó Muhammad, você reuniu essas informações junto de algum erudito judeu ou sacerdote cristão”? Pois, para esse propósito, não conseguiam sequer mencionar o nome de uma única pessoa em todo o país. Assim que mencionassem o nome de alguém nesse contexto, ficaria provado que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, obtivera dele alguma informação e que você dispunha de uma enorme biblioteca de livros sobre conhecimento, ciência e literatura. Com a ajuda dos livros guardados nessa biblioteca, você estaria proferindo todos esses discursos. Pois, longe de uma biblioteca, eles não conseguiam encontrar nem mesmo um pedaço de papel nas proximidades de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no qual essas informações estivessem escritas. Todos, jovens e velhos, em Meca sabiam que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não sabia ler nem escrever. Tampouco alguém poderia dizer que ele mantinha alguns intérpretes, que traduziam para ele obras escritas em hebraico, latim e siríaco. Até mesmo o mais

desavergonhado entre eles não teria tido coragem de afirmar que, se ele tivesse conversado com algum sacerdote cristão ou erudito judeu da Síria ou da Palestina, o governo romano teria feito de um grão uma montanha e iniciado imediatamente uma campanha de difamação, sem hesitar nem por um instante em divulgar que, Deus nos livre, Muhammad havia aprendido tudo ali e depois ido a Meca para se passar por profeta. Portanto, fica evidente que, numa época em que o desafio do Alcorão trazia uma mensagem de morte para os coraixitas politeístas e a necessidade de provar sua falsidade era muito maior para eles do que para os orientalistas da atualidade, ninguém conseguiu obter de parte alguma qualquer informação que pudesse provar que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dispunha de algum outro meio, além da revelação, para obter aquelas informações, nem foram capazes de identificar tal meio.

Também se deve saber que o Alcorão não lançou esse desafio apenas neste lugar. Pelo contrário, depois de narrar diferentes histórias em vários lugares, declarou:

(Árabe*************************na página 82 do PDF)

“Esta é uma notícia do invisível, que Eu te revelo. Tu não estavas presente junto deles quando lançavam sortes para decidir quem cuidaria de Maria, nem estavas presente quando discutiam.” — (Surata Al Imran: 44).

Depois de narrar o episódio de José, que a paz esteja sobre ele, foi declarado:

(Árabe*************************na página 82 do PDF)

“Esta é uma notícia do invisível, que Eu te revelo por meio da revelação. Tu não estavas presente em lugar algum junto deles — isto é, junto dos irmãos de José — quando chegaram a um acordo sobre sua decisão e quando tramavam seus planos”.

De modo semelhante, depois de narrar detalhadamente o acontecimento do Profeta Noé, foi dito:

(Árabe*************************página 82 do PDF)

“Esta é uma notícia do invisível, que Eu te revelo por meio da revelação. Antes disso, nem tu nem teu povo tínheis conhecimento algum sobre isso” — (Surata Hud: 49).

A menção repetida desse tema tornou claro que, entre as grandes provas apresentadas no Alcorão Sagrado em favor de ser o Livro de Allah e de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ser o Mensageiro de Allah, estava a seguinte: os relatos detalhados de acontecimentos ocorridos centenas ou milhares de anos antes eram ouvidos da boca de um homem iletrado, e, além da revelação, ele não dispunha de nenhuma outra fonte para esse conhecimento. Esta foi uma das razões mais importantes pelas quais os contemporâneos do nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começaram a crer que ele era um verdadeiro profeta de Allah e que a revelação lhe era enviada. Qualquer pessoa pode facilmente imaginar quão importante era, para os opositores do movimento islâmico naquela época, responder a esse desafio e como eles não pouparam esforços para reunir provas contra ele. Além disso, também é fácil imaginar que, se houvesse qualquer espécie de fraqueza, por mínima que fosse, nesse desafio, não teria sido nada difícil para os contemporâneos reunir testemunhos contra ele a fim de prová-lo falso.

A comparação da revelação com a chuva

Em dois lugares do Alcorão encontra-se uma indicação de que a chuva de misericórdia revelada ao nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é comparada à chuva:

(Árabe*************************página 83 do PDF)

“Allah fez descer água do céu, e cada rio e curso de água a recebeu e fluiu de acordo com a sua capacidade” — (Surata Ar-Ra‘d: 17)

Nesta parábola, a revelação descida sobre o Mensageiro de Allah é comparada à chuva, e as pessoas equilibradas e dotadas de fé são comparadas a rios e cursos de água que, repletos até à borda pelas torrentes da misericórdia, continuam a fluir. Por outro lado, o alvoroço criado pelos opositores contra o movimento islâmico é comparado às massas de espuma e aos detritos que, sempre que a corrente da inundação se eleva sobre a superfície da água, começam a executar uma dança tumultuosa com um estrondo ensurdecedor.

(Árabe*************************na página 83 do PDF)

“Não vês que Allah faz descer água do céu e, por meio dela, a terra se torna verde e exuberante?” — (Surata Al-Hajj: 63)

Também aqui se encontra oculta uma indicação do significado exterior. O significado exterior consiste simplesmente em descrever o poder de Allah. Mas a indicação sutil oculta nisso é a seguinte: assim como vedes que, logo que uma gota da chuva que Allah faz cair toca a terra, de repente surge vegetação verde por todos os lados numa terra seca e inculta, da mesma forma, a torrente da misericórdia de Allah que hoje desce sob a forma de revelação em breve apresentará diante de vós uma cena semelhante. Isto é, esta região desértica seca e estéril da Arábia em breve se transformará num jardim de conhecimento, moralidade, caráter e cultura virtuosa, sem precedente em toda a história da humanidade.

A revelação descida sobre o Mensageiro é a misericórdia de Allah

(Árabe*************************na página 83 do PDF)

“Ó meu povo! Refleti: eu me encontrava apoiado numa prova clara proveniente do meu Senhor; então Ele derramou sobre mim uma misericórdia especial da Sua parte” — (Surata Hud: 28)

Foi precisamente isto que, no rukū‘ anterior, foi colocado na boca de Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ou seja, primeiro, ao contemplar os sinais de Allah nos céus e na terra, eu compreendi a essência profunda da doutrina do tawḥīd. Depois, Allah derramou sobre mim a Sua misericórdia — isto é, a revelação — e concedeu-me diretamente o conhecimento das verdades que o meu coração e a minha alma já vinham testemunhando. Assim, também se soube que, antes de receberem a profecia, todos os profetas alcançavam a fé no invisível por meio de seu próprio pensamento, investigação e observação. Depois, quando Allah lhes concedia a dignidade da profecia, concedia-lhes uma fé direta, ou fé pela visão.

(Árabe*************************na página 84 do PDF)

“Ṣāliḥ disse: Ó meu povo! Dizei-me, se eu tivesse uma prova clara da parte do meu Senhor e Ele tivesse derramado sobre mim a Sua misericórdia…” — (Sura Hūd: 63).

O uso da palavra rūḥ para a revelação do Mensageiro

(Árabe*************************na página 84 do PDF)

“Ele faz descer esta rūḥ, ou essência vital, por meio dos anjos, por Sua ordem, sobre quem deseja dentre os Seus servos, com esta orientação: ‘Anunciai às pessoas: não há outra divindade para vós além de Mim; portanto, temei-Me’.” — (Sura an-Naḥl: 2)

O significado de rūḥ, conforme descrito acima, é a essência vital da profecia, preenchido pela qual o profeta age e fala. Esta essência vital da revelação e da profecia possui, na vida moral, uma importância e uma dignidade tão grandes quanto a importância e a dignidade da vida na existência terrena. Por isso, em vários lugares do Alcorão, a palavra rūḥ (essência vital) é usada para expressar esse significado.

(Árabe*************************na página 84 do PDF)

“Eles lhe perguntam sobre o Espírito. Dize-lhes: o Espírito procede da ordem do meu Senhor. Mas vós não recebestes senão uma parcela ínfima do conhecimento”.

—(Surata Bani Isra’il: 85)

Geralmente, pensa-se que aqui “Espírito” significa vida. Ou seja, as pessoas perguntaram ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre a essência da vida. E, em resposta, foi dito que ela procede da ordem de Allah. Porém, não estou de modo algum disposto a aceitar esse significado. Pois ele só é possível quando este versículo é considerado uma frase isolada e independente, desligada da sequência da discussão anterior e posterior. Caso contrário, se o julgarmos no contexto que vinha sendo discutido, surgirão dificuldades muito maiores ao tomar “Espírito” como sinônimo de vida. Haverá uma grave falta de conexão no discurso. Nos três versículos anteriores, o Alcorão foi descrito como um remédio para curar as doenças, e os que negam o Alcorão foram retratados como injustos, ingratos e negadores das dádivas de Allah; e, nos versículos seguintes, são apresentadas provas e argumentos em favor de o Alcorão ser a Palavra de Allah. Nesse contexto, como poderia surgir subitamente, no meio da passagem, uma frase do tipo: “A vida é insuflada nos seres por ordem de Allah”? Sou incapaz de compreender qualquer razão lógica para isso.

Ao considerar o contexto anterior e posterior da frase, ficará claramente evidente que, aqui, “Espírito” não pode significar outra coisa senão “revelação” ou “o anjo portador da revelação”. Na realidade, a pergunta dos politeístas era: de onde estais trazendo este Alcorão? Em resposta, Allah disse: Ó Muhammad! Eles lhe perguntam sobre o Espírito, isto é, sobre a fonte do Alcorão ou o meio pelo qual o Alcorão é recebido. Informa-lhes que este Espírito procede da ordem do meu Senhor. Mas possuís tão pouco conhecimento que não conseguis distinguir entre as palavras de um ser humano e as palavras reveladas por meio da revelação de Allah, e por isso alimentais a dúvida acerca da Palavra de Allah, imaginando que algum ser humano esteja produzindo estas palavras.

Esta interpretação não é preferível apenas porque a relação do versículo com o discurso anterior e posterior a exige; o mesmo tema também foi descrito em outras passagens do Alcorão Sagrado com palavras quase idênticas. Na Surata Al-Mu’min, é dito:

(Árabe******************************na página 85 do PDF)

“Ele faz descer o Espírito, por Sua ordem, sobre quem deseja dentre Seus servos, para advertir as pessoas sobre o Dia do Encontro” —(versículo: 15)

E na Surata Ash-Shura, é dito:

(Árabe******************************na página 85 do PDF)

“E assim enviamos a ti, por nossa ordem, um espírito; tu não sabias o que era o Livro nem o que era a fé.” — (Surata Ax-Xura: 52)

Entre os sábios antigos, Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Qatadah (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hasan al-Basri (que Allah esteja satisfeito com ele) transmitiram esta interpretação. Ibn Jarir atribuiu esta declaração a Ibn Abbas, por intermédio de Qatadah. Contudo, escreveu algo estranho: que Ibn Abbas costumava transmitir essa declaração secretamente. Hasan, autor do tafsir Ruh al-Ma’ani, também citou esta declaração de Qatadah: “Por ‘espírito’ entende-se Jibril (que a paz esteja sobre ele). E a pergunta era: como ele descia e como a revelação descia ao coração do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.”

(Árabe******************************na página 85 do PDF)

“E assim, ó Muhammad, enviamos a vós, por nossa ordem, um espírito.” — (Surata Ax-Xura: 52)

Aqui, por “espírito” entende-se a revelação, ou o ensinamento que foi concedido ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por meio da revelação.

Argumentos e provas em favor da mensagem revelada como revelação

A mensagem revelada a Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é, em essência, a própria mensagem de Allah. Para provar essa verdade, o Alcorão apresenta quatro pontos como testemunho.

Um: Este Livro está repleto de imensa bondade e bênçãos. Isto é, nele foram incluídos os melhores princípios para promover o bem-estar e a prosperidade da humanidade. Nele se encontra o ensinamento da crença correta. Faz parte dele o estímulo à prática de boas ações e a orientação para adotar nobres qualidades de caráter. A regulamentação de uma vida pura e virtuosa é uma de suas características. Por outro lado, este Livro está completamente livre da ignorância, do egoísmo, da estreiteza de visão, da opressão, da injustiça, da obscenidade e de todas as demais más ações — coisas que vocês amontoaram nos Livros celestiais sagrados —.

Dois: Este Livro não apresenta uma orientação diferente das orientações que anteriormente vieram da parte de Allah. Pelo contrário, confirma a veracidade e dá respaldo a tudo o que foi apresentado nos Livros anteriores.

Três: Este Livro foi revelado com o mesmo propósito pelo qual, em cada época, os Livros celestiais foram enviados da parte de Allah. Esse propósito era despertar os negligentes e informá-los sobre as consequências de avançar por caminhos errados e tortuosos.

Quatro: Por meio de seu convite, este Livro não reuniu os adoradores do mundo nem os escravos de seus desejos. Pelo contrário, reuniu e organizou pessoas cujo olhar havia ultrapassado em muito os estreitos limites da vida terrena. Além disso, sob a influência deste Livro, ocorreu nelas uma revolução cuja maior marca é que, entre a humanidade, elas se distinguiram por sua devoção a Allah. Poderia um livro escrito por um impostor e mentiroso, que ele próprio compôs e teve a audácia de cometer o mais abominável crime, declarando-o obra de Allah, algum dia alcançar tais características e resultados?

Capítulo 3 — A necessidade da profecia de Muhammad (s.a.) e suas provas

A razão do envio do Mensageiro de Allah (s.a.) depois dos profetas anteriores

(Árabe******************************na página 89 do PDF)

“E, na verdade, aqueles que receberam a herança do Livro depois dos povos antigos permanecem em uma dúvida inquietante a respeito dele.” — (Surata Ash-Shura: 14)

Quando, após o término da era de cada profeta e de seus seguidores mais próximos, o Livro de Deus chegava às gerações posteriores, elas não o aceitavam com confiança e convicção. Pelo contrário, envolviam-se em profundas dúvidas e conflitos interiores a seu respeito. Havia muitas razões por trás dessa situação. Podemos compreender facilmente essas razões depois de estudar a situação que surgiu no caso da Torá e do Evangelho. As gerações anteriores misturaram palavras humanas a esses dois Livros, mantendo sua língua e redação originais inalteradas, sob a forma de explicações, relatos históricos, diversas tradições ouvidas e questões complementares inventadas pelos juristas, juntamente com o discurso original. Espalharam tanto suas traduções que o original desapareceu, e somente as traduções permaneceram diante do povo. A autenticidade histórica desses textos também foi destruída de tal maneira que hoje ninguém pode afirmar com plena convicção que o livro que tem em mãos é o mesmo Livro original revelado para os habitantes do mundo a Jesus ou a Moisés. Seus líderes e sábios, de tempos em tempos, iniciavam discussões sobre religião, Deus, filosofia, lei, corpo, alma e sociedade, e estabeleciam as bases de ideias que, ao prender as pessoas no labirinto formado por elas, tornavam extremamente difícil escolher o caminho simples e reto da verdade entre milhares de caminhos intrincados. Além disso, o Livro de Deus também não existia em sua forma original e em condição confiável. Portanto, as pessoas não podiam sequer voltar os olhos para uma fonte confiável que pudesse ajudá-las a distinguir a verdade da falsidade.

É digno de nota que, por meio de Hud e Salih, a convocação para a verdadeira religião chegou pela primeira vez à terra árabe. Isso ocorreu na era pré-histórica. Depois vieram Abraão e Ismael. Eles vieram dois mil e quinhentos anos antes do Nobre Mensageiro. Depois deles, e antes do Nobre Mensageiro, o último profeta que veio à terra árabe foi Shuayb, que a paz esteja com ele.

Os árabes já vinham reivindicando anteriormente a vinda de um profeta

(Árabe******************************na página 90 do PDF)

“Eles juravam solenemente que, se algum admoestador viesse até eles, seriam mais fiéis ao caminho da verdade do que todas as nações do mundo”.

-(Surata Fátir: 42)

Antes de o Nobre Mensageiro receber a profecia, ao verem a condição moral corrompida dos judeus e dos cristãos, os árabes em geral, e os coraixitas em particular, costumavam dizer isso.

De modo semelhante, foi dito na Surata Al-An’am:

(Árabe******************************na página 90 do PDF)

“Depois da chegada deste Livro, já não podeis dizer: ‘Aos dois grupos que nos precederam foi concedido um Livro, mas não sabíamos o que liam ou ensinavam.’ E também não podeis alegar: ‘Se um Livro nos tivesse sido revelado, teríamos seguido a orientação correta mais do que eles’.” — (Surata Al-An’am: 156–157)

Na Surata As-Saffat, é dito:

(Árabe******************************na página 90 do PDF)

“Antes, eles costumavam dizer: ‘Ah, se tivéssemos a mesma Recordação que receberam as nações anteriores, seríamos certamente servos de Allah, sinceramente devotados a Ele’.” — (Surata As-Saffat: 167–169)

A necessidade de apresentar uma prova clara

(Árabe******************************na página 90 do PDF)

“Entre o Povo do Livro e os politeístas, aqueles que eram incrédulos não deixariam de sua incredulidade até que lhes chegasse uma prova clara: um Mensageiro da parte de Allah, que recitasse folhas purificadas.” — (Surata Al-Bayyinah: 1–2)

Isto é, uma prova luminosa virá, fazendo-os compreender o erro de cada estado de incredulidade e sua oposição à verdade, e apresentará diante deles, de maneira clara e racional, o caminho reto e correto; sem isso, não havia para eles outro meio de sair do estado de incredulidade. Isso não significa que, assim que essa prova clara chegasse, todos abandonariam a incredulidade. Pelo contrário, significa que, sem a presença dessa prova, de modo algum lhes seria possível escapar à influência desse estado e dele sair. E agora, mesmo após sua chegada, aqueles dentre eles que permanecerem firmes na incredulidade serão responsáveis por isso. Depois disso, não poderão queixar-se diante de Allah, dizendo que Ele não tomou nenhuma providência para guiá-los. Esta questão foi exposta de diversas maneiras em diferentes passagens do Alcorão Sagrado. Por exemplo, na Surata An-Nahl, foi dito: (Árabe******) “Indicar o caminho reto é responsabilidade de Allah.” — (versículo 9) Na Surata Al-Lail, foi dito: (Árabe*******) “Minha é a responsabilidade de guiar.” — (versículo 12)

(Árabe******************************na página 91 do PDF)

“Ó Profeta, revelamos a você como havíamos revelado a Noé e aos profetas que vieram depois dele. A esses Mensageiros foram atribuídas as responsabilidades de anunciar boas-novas e advertir, para que, após a chegada dos Mensageiros, as pessoas não pudessem apresentar qualquer desculpa diante de Allah.” — (Surata An-Nissá: 163–165)

(Árabe******************************na página 91 do PDF)

“Ó povo do Livro! Meu Mensageiro veio até vós, após uma longa interrupção na sucessão dos Mensageiros, para tornar a verdade clara, a fim de que não pudésseis dizer: ‘Nenhum anunciador de boas-novas nem admoestador veio até nós.’ Portanto, vede: agora chegou até vós um anunciador de boas-novas e um admoestador.” — (Surata Al-Má’idah: 19)

(Árabe******************************na página 91 do PDF)

“Aqueles a quem o Livro havia sido concedido anteriormente só divergiram depois que a descrição do caminho verdadeiro se tornou clara.” — (Surata Al-Baiyinah: 4)

Isto é, anteriormente, o povo do Livro, tendo sido vítima de diversas formas de desvio, dividiu-se em numerosos grupos e subgrupos. Não foi porque Allah tivesse deixado de fazer qualquer esforço para enviar provas claras a fim de guiá-los que eles chegaram a essa situação. Pelo contrário, depois que a orientação veio da parte de Allah, eles adotaram essa atitude. Portanto, eles próprios eram responsáveis por seu desvio e extravio, pois a verdade havia sido claramente apresentada a eles. Da mesma forma, como atualmente seus livros já não se encontram preservados em sua forma original e não contêm ensinamentos corretos, Allah enviou um de Seus Mensageiros como uma prova luminosa e, por meio dele, apresentou claramente a verdade a eles, concedendo-lhes um Livro puro e preservado, que contém ensinamentos corretos. Portanto, se mesmo depois disso eles continuarem envolvidos em divergências, toda a responsabilidade recairá sobre eles próprios. Não poderão de modo algum responsabilizar Allah. Esta questão foi exposta de diferentes maneiras em várias passagens do Alcorão Sagrado. Como exemplos, vejam a Surata Al-Baqara, versículos 213 e 253; a Surata آل Imran, versículo 19; e a Surata Al-Má’idah, versículos 16–18. Além disso, se examinardes brevemente as notas que acrescentei ao comentar as suratas correspondentes em Tafhimul Qur’an, será ainda mais fácil compreender esta questão.

Era absolutamente necessário enviar um Mensageiro. Pois, sem distinção entre politeístas e Povos do Livro, todos os habitantes do mundo haviam se afundado em uma forma de kufr da qual jamais poderiam sair sem o auxílio de um Profeta. Eles precisavam do auxílio de um Profeta cuja própria existência fosse uma prova manifesta de sua missão. Ele apresentaria às pessoas o Livro de Allah em sua forma original, intacta e perfeita. Esse Livro estaria livre das adulterações que haviam sido introduzidas nos livros celestiais anteriores. Nele se reuniriam somente ensinamentos verdadeiros, corretos e genuínos.

A escolha do lugar para o envio do Profeta

Ao observar o mapa do mundo, percebe-se imediatamente que, para a profecia destinada ao mundo inteiro, não havia, nem poderia haver, lugar mais adequado na Terra do que a região árabe. Esse país está situado exatamente no centro dos continentes asiático e africano. A Europa também ficava muito próxima dali. Sobretudo naquela época, a maioria dos povos civilizados da Europa estava estabelecida na parte meridional desse continente. E essa região era tão próxima da Arábia quanto a então Hindustão.

Mesmo ao estudar a história daquela época, pode-se saber que, para essa missão profética, nenhuma outra nação era mais adequada do que a nação árabe. As demais grandes nações haviam perdido o vigor depois de manifestarem ao máximo sua força, influência e poder. A nação árabe, por outro lado, estava repleta de uma nova vitalidade. O desenvolvimento da civilização e da cultura havia corrompido os hábitos e a natureza das outras nações. Os árabes, porém, ainda estavam afastados do contato com qualquer civilização avançada. Por isso, essa nação não era luxuosa, amante do conforto nem de natureza inferior. A Arábia do século VI da era cristã estava completamente livre da má influência dos povos civilizados contemporâneos. Todos os atributos humanos fundamentais que podem existir em uma nação situada muito distante da luz da civilização estavam presentes nela. Eram corajosos, destemidos, generosos, cumpridores de suas promessas, dotados de pensamento independente e de espírito livre. Não estavam presos à subjugação de nenhuma outra nação. Para eles, dar a vida em defesa de sua honra era algo extremamente fácil. Um modo de vida simples e sem ostentação era sua característica. Não tinham qualquer relação com o luxo e o amor ao conforto. Sem dúvida, também possuíam muitos vícios, pois durante dois mil e quinhentos anos nenhum Profeta havia surgido em sua terra. — A época de Ibrahim e Ismail, que a paz esteja sobre ambos, foi aproximadamente dois mil e quinhentos anos antes de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Durante esse longo intervalo, nenhum outro Profeta nasceu na Arábia. — Também não havia surgido ali nenhum líder popular capaz de corrigir seu caráter e seus costumes e transformá-los em uma nação verdadeiramente civilizada. Por terem vivido durante centenas de anos uma vida livre e independente no vasto e desolado deserto que se estendia até o horizonte, a ignorância e a insensatez haviam se espalhado entre eles. A ignorância deles havia se condensado e se transformado em uma pedra tão dura que não era tarefa de uma pessoa comum polir essa pedra e transformá-los em seres humanos. Ao mesmo tempo, porém, havia neles uma capacidade tal que, se uma pessoa extraordinária os reformasse e, sob a influência de seus ensinamentos, os inspirasse a adotar um ideal de vida elevado, eles poderiam transformar o mundo inteiro. Para difundir por todo o mundo os ensinamentos do Profeta Universal, era necessária uma nação vigorosa, cheia de vitalidade e de ardor juvenil como essa.

Mesmo ao tratar da língua, veremos que as características da língua árabe são facilmente perceptíveis. Ao estudar essa língua e sua literatura, constata-se que não há outra língua mais adequada para expressar com simplicidade pensamentos elevados, descrever os aspectos mais sutis do conhecimento concedido por Allah e exercer uma influência profunda sobre a mente. Impulsionada por sua enorme força interior, ela penetra, como uma flecha, na região mais profunda do coração. E sua doçura é incomparável. Parece que o néctar transborda. O coração e a mente se inundam com as ondas de sua melodia. Para um Livro como o Alcorão, era necessária uma língua assim.

Assim, pode-se facilmente compreender que, por trás da escolha de um país como a Arábia para o Profeta Universal, havia um grandioso propósito de Allah.

O melhor líder para uma nação ignorante

Durante centenas de anos, uma nação vinha descendo ao abismo da ignorância, da insensatez, da indisciplina e da decadência. Então, certo dia, inesperadamente, sobre ela foi derramada a infinita graça de Allah, o Altíssimo. Ele fez nascer em seu meio o seu melhor e mais excelente líder. Para elevá-los do abismo profundo da ignorância, fez descer sobre esse líder a Sua própria mensagem. Seu propósito era despertá-los do sono da negligência e ajudá-los a avançar, libertos da ignorância e das superstições, pelo caminho de uma vida verdadeira, bela e correta.

Mas os ignorantes do povo e os chefes tribais egoístas lançaram-se contra o líder. Fizeram todos os esforços para fazê-lo fracassar. O tempo continuou avançando. Até que, certo dia, conspiraram para assassiná-lo. Nessa situação, o Altíssimo Allah disse: “Por causa da vossa insensatez, acaso devo interromper os esforços para reformar-vos? Devo pôr fim a esta sequência de aconselhamento? E devo deixar-vos permanecer no abismo da decadência em que estais imersos? Acaso pensais que isso seria o que a Minha misericórdia exige? Já refletistes sobre qual poderá ser o resultado de rejeitar a graça de Allah e, mesmo depois de a verdade ter-se apresentado, empenhar todos os esforços para apegar-vos à falsidade?

Provas intelectuais da profecia do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Feche os olhos por um momento e percorra uma vez o mundo do pensamento. Contemple com atenção plena o mundo de mil e quatrocentos anos atrás. Como era a situação do mundo naquela época?

O mundo de mil e quatrocentos anos atrás

Naquela época, eram muito poucos os meios e recursos para a troca de ideias entre as pessoas do mundo. Os meios de estabelecer relações entre países e povos eram extremamente limitados. O alcance do conhecimento humano era muito estreito. Seu pensamento era bastante imaturo. Em sua mente reinavam a superstição e o medo. No seio da escuridão impenetrável da ignorância, o fio do conhecimento era cada vez mais tênue. A onda de luz avançava com grande dificuldade, afastando as ondas gigantescas do mar de trevas. Naquele mundo não existiam telefone, telégrafo, rádio, trem nem avião. Não havia editoras e gráficas como as de hoje. Não existia abundância de escolas, colégios, madraças e instituições educacionais de diversos tipos. Tampouco havia um sistema amplo de jornais e revistas. O alcance do conhecimento de um erudito daquela época era, em muitos aspectos, inferior até mesmo ao de uma pessoa comum da era atual, que era menos refinada e culta. Mesmo uma pessoa daquela época dotada de pensamento muito lúcido e progressista carregava ideias mais arcaicas do que alguém de mentalidade antiquada nos dias de hoje. Aquilo que todos conhecem na era atual só podia ser conhecido naquela época após anos e anos de esforço, investigação e pesquisa, e com grande dificuldade. Para obter as informações que uma criança pequena de hoje aprende facilmente ao seu redor desde o primeiro momento de consciência, era necessário viajar centenas de quilômetros naquela época. Muitas vezes, era preciso dedicar a vida inteira à busca até mesmo de uma pequena quantidade dessas informações. Na era atual, os assuntos considerados superstições e absurdos contos mitológicos eram tidos como “verdade” naquela época. As ações chamadas hoje de indecentes e bárbaras eram então comuns. Os métodos que a consciência humana atual repudia não eram apenas considerados lícitos pela moralidade daquela época; ninguém conseguia sequer imaginar que pudesse existir método algum contrário a eles. O fascínio das pessoas pelo sobrenatural era tão grande que, enquanto algo não fosse sobrenatural, extraordinário e uma exceção às regras comuns, elas não estavam dispostas a reconhecer sua veracidade e superioridade. Além disso, as pessoas se consideravam extremamente desamparadas, inferiores e insignificantes. Por isso, para elas era inconcebível e inimaginável que qualquer ser humano se tornasse um wali de Allah ou que um wali de Allah fosse um ser humano.

A situação do país árabe

Naquela era de trevas, as trevas eram ainda mais densas em uma parte do mundo. Entre os países conhecidos como civilizados segundo os padrões de civilização daquela época, a Arábia estava situada à margem, isolada e solitária, completamente separada dos demais. Ao seu redor, algum resplendor de conhecimento, arte, civilização e cultura irradiava do Irã, de Roma e do Egito. Mas os vastos mares de areia mantinham a Arábia separada deles. Os comerciantes árabes viajavam a esses países para negociar, montados nos camelos, os navios do deserto, atravessando durante meses longas distâncias. Limitavam-se a trocar mercadorias e regressavam. Não traziam consigo nenhuma luz de conhecimento e civilização. Em seu país não havia instituições de ensino. Bibliotecas eram algo inimaginável. Entre a população não havia cultivo do conhecimento nem qualquer interesse por conhecimento e arte. Em todo o país, apenas um punhado de pessoas sabia ler e escrever. Mas até mesmo o alcance de seus estudos era tão limitado que eram completamente desconhecedoras do conhecimento e das artes de sua época. Sem dúvida, sua língua era altamente desenvolvida e possuía uma capacidade extraordinária de expressar claramente qualquer pensamento elevado. Entre eles também existia um gosto literário de alto nível. Contudo, pelo que conseguimos conhecer de sua literatura, podemos estimar que o alcance de seu conhecimento era extremamente limitado. Seu lugar na civilização e na cultura era o mais baixo possível. Estavam profundamente mergulhados na superstição. Seus pensamentos e sua natureza eram uma expressão nua da ignorância e da barbárie. Suas concepções morais eram inteiramente material de um depósito de lixo velho e apodrecido.

Ali não havia governo, disciplina, lei ou administração regular. Cada tribo era independente. A lei da selva era a única lei existente. Um beduíno árabe não conseguia de modo algum compreender por que não se deveria matar alguém que não pertencesse à sua tribo e por que não se deveria apoderar de seus bens.

Eles possuíam um nível extremamente baixo de moralidade, decoro e civilização-cultura, além de uma mentalidade obscura. Eram quase totalmente desconhecedores das diferenças entre puro e impuro, permitido e proibido, decoroso e indecoroso, e assim por diante. Seu modo de vida era profundamente corrompido. Sua conduta era inteiramente bárbara e desumana. Cometer adultério, jogar, beber álcool, assaltar, matar e pilhar eram atividades cotidianas de suas vidas. Eles ficavam nus sem qualquer constrangimento diante uns dos outros. Suas mulheres também circundavam a Caaba nuas. Sob a influência da ignorância, e simplesmente para impedir que algum homem se tornasse seu genro, enterravam vivas, com as próprias mãos, suas filhas pequenas. Após a morte do pai, casavam-se com suas madrastas. Não conheciam sequer as menores regras e práticas relacionadas à alimentação, ao vestuário e à higiene.

No que dizia respeito à religião, eles eram igualmente participantes da ignorância e do desvio predominantes no mundo de então. Praticavam todas as formas de culto existentes naquele mundo, exceto a adoração do Deus único: a idolatria, a crença em gênios e fantasmas, a adoração das estrelas — em suma, tudo. Não possuíam nenhum conhecimento correto sobre os profetas dos tempos antigos e seus ensinamentos. Sabiam apenas que Abraão e Ismael (que a paz esteja sobre eles) eram seus antepassados, mas não sabiam qual era a religião desses pai e filho, nem a quem adoravam. Também tinham ouvido as histórias dos povos de Ad e de Samud. Contudo, depois de ler os relatos apresentados pelos historiadores árabes, não se encontrará em parte alguma o menor vestígio dos ensinamentos de Salih e Hud (que a paz esteja sobre eles). Por meio dos judeus e dos cristãos, também conheceram as histórias dos profetas dos Filhos de Israel. Mas, para compreender que tipo de histórias eram essas, basta examinar os relatos israelitas citados nas obras de tafsir escritas pelos exegetas muçulmanos. Assim se saberá que tipo de homens eram os profetas conhecidos pelos árabes e pelos Filhos de Israel. Também se perceberá quão baixo era, ao mesmo tempo, o conceito que tinham da profecia.

Surgiu um homem

Naquela época, nasceu neste país um homem. Ainda na infância, foi privado do carinho da mãe, do pai e do avô. Por isso, em uma situação tão lamentável, ele também não recebeu a educação que uma criança árabe poderia normalmente receber. Ao adquirir discernimento e conhecimento, saiu para pastorear cabras com os meninos beduínos. Ao chegar à juventude, ingressou no comércio. Toda a sua convivência e companhia eram com aqueles árabes cuja situação acabei de descrever. Ali não havia o menor vestígio de educação. Eles sequer sabiam ler e escrever minimamente. Não existia ali nenhuma pessoa instruída ou erudita. Ele teve algumas oportunidades de sair da Arábia, mas essas viagens limitaram-se exclusivamente à Síria. E eram apenas viagens comerciais, como as de qualquer outra caravana daquela época. Suponhamos que, durante viagens desse tipo, ele tenha observado alguns sinais de conhecimento e civilização e encontrado algumas pessoas sábias, virtuosas e bem-civilizadas. Mesmo assim, a vida de uma pessoa não se forma por encontros e observações tão dispersos. Eles não são capazes de exercer sobre alguém uma influência tão ampla que o liberte completamente e o separe de sua sociedade e de seu ambiente, levando-o a um mundo superior, onde, depois de chegar, ele pareça não ter qualquer relação com o ambiente de onde veio. Desse modo, não lhe seria possível adquirir um conhecimento de tal nível que elevasse um beduíno iletrado à liderança não apenas de um país, mas do mundo inteiro; não apenas de uma época, mas de todas as épocas. Mesmo que tivesse adquirido algum tipo de conhecimento teórico de pessoas de fora, não haveria como obter informações que ninguém no mundo conhecia naquela época, concepções e princípios de religião, moralidade, civilização e cultura que não existiam em lugar algum, nem o ideal de caráter humano que não se encontrava em parte alguma do mundo de então.

Seus atos

É preciso ter diante de nós a situação e o ambiente não apenas da Arábia, mas do mundo inteiro. Então veremos que este homem, entre aqueles em cujo meio nasceu, passou a infância, atravessou, entre risos e brincadeiras, o período da adolescência até chegar à juventude, e com quem conviveu e negociou dia e noite, desde o início era diferente de todos eles em sua natureza, caráter, hábitos e comportamento. Ele jamais mentia. Toda a nação testemunhava sua veracidade. Nem mesmo seu mais ferrenho inimigo jamais o acusou de ter mentido. Ele nunca dirigiu palavras ásperas a ninguém. Ninguém jamais ouviu de sua boca um insulto ou uma palavra obscena. Ele negociava com as pessoas de todas as formas, mas jamais foi visto criando inimizade com alguém, discutindo ou brigando. Em suas palavras, em vez de dureza, via-se doçura. E essa doçura era revestida de tamanha sinceridade que qualquer pessoa que se relacionasse com ele se tornava sua devota e admiradora. Ele nunca tratou ninguém mal. Nunca usurpou o direito de ninguém. Mesmo depois de negociar durante anos, jamais se apropriou ilegalmente de sequer um centavo alheio. Todos aqueles com quem negociava depositavam plena confiança em sua honestidade. A nação inteira o chamava de “Al-Amin” — digno de confiança. Até seus inimigos depositavam sem hesitar seus bens preciosos sob sua guarda. Ele os guardava com plena fidelidade. Em meio a pessoas sem pudor, demonstrava tamanha modéstia que, desde que adquiriu consciência, ninguém jamais o viu nu. Em meio às pessoas depravadas ao seu redor, oferecia o exemplo do mais puro caráter. Ninguém jamais o viu envolvido em qualquer ato mau. Nunca sequer se aproximou do álcool ou dos jogos de azar. Em meio a pessoas indecentes, demonstrava o mais elevado recato. Odiava toda espécie de maldade e atos obscenos, e em todas as suas ações eram claramente visíveis as marcas da pureza e do recato. Em meio aos nômades do deserto de coração pétreo, ele era a personificação da ternura. Em todas as necessidades e aflições das pessoas, era visto como alguém disposto a ajudar. Ajudava órfãos e viúvas. Oferecia hospitalidade aos viajantes e forasteiros. Nunca causou sofrimento a ninguém. Ao contrário, sofria pessoalmente por causa dos outros. Em meio aos beduínos bárbaros, era profundamente amante da paz. Sofria intensamente ao ver conflitos e derramamento de sangue entre seu próprio povo. Mantinha-se afastado das guerras tribais e intertribais e desempenhava um papel ativo e destacado na promoção da reconciliação e do acordo entre as tribos em conflito. Em meio aos idólatras, possuía uma natureza extremamente equilibrada. Não encontrou, entre a terra e o céu, coisa alguma que pudesse ser adorada. Jamais inclinou a cabeça diante de qualquer criatura. Não aceitava oferendas de culto. Espontaneamente, odiava o shirk e a adoração da criação.

Nesse ambiente completamente adverso, esse homem apresentava características tais que parecia que uma luminosa lâmpada irradiava luz no seio de uma escuridão absolutamente negra, ou que uma joia de imenso valor brilhava em meio a um amontoado de pedras.

Mudança mental e espiritual

Depois de viver durante quase quarenta anos uma vida nobre, pura e virtuosa desse tipo, ocorreu uma revolução em sua vida. Ao ver a escuridão densa e impenetrável que se acumulava ao seu redor, ficou aterrorizado. Queria sair daquele terrível oceano de ignorância, imoralidade, perversidade, anarquia, desordem, shirk e idolatria. Nada naquele ambiente parecia compatível com sua natureza. Afastando-se de todos e indo para o isolamento das montanhas, longe das áreas habitadas, ele permanecia pensando. Em profunda tranquilidade e solidão, passavam-se vários dias seguidos. Jejuando, tornava sua alma, sua mente e seu espírito ainda mais puros e santificados. Continuava refletindo dia após dia, noite após noite. Procurava uma luz capaz de dissipar a escuridão que se adensava ao seu redor. Esforçava-se para adquirir uma força capaz de despedaçar e reconstruir, de forma nova e harmoniosa, o mundo que havia sido conduzido pelo caminho errado.

A mensagem da revolução

De repente, ocorreu uma enorme transformação em sua condição. Subitamente, uma luz irradiou em seu coração, sem que antes houvesse ali sequer o menor vestígio dela. A força da qual anteriormente não havia nenhum sinal nele veio de repente de algum lugar e preencheu todo o seu ser. Ele deixou a solidão da caverna e saiu. Apresentou-se diante de seu povo. Começou a dizer-lhes: “Vós adorais estas estátuas, mas elas não têm poder algum. Não as adoreis. Não existe ser humano, árvore, pedra, espírito ou estrela que possa ser adorado e venerado, diante do qual se possa curvar a cabeça e ao qual se possa obedecer. Esta lua, este sol, esta terra, estas estrelas e tudo o que existe entre a terra e o céu são criação do Deus único, Allah. Foi Ele quem criou a vós e a todas as coisas. É Ele quem dá a vida. Somente em Suas mãos está o poder de dar a morte. Adorai somente a Ele. Obedecei às Suas ordens. Curvai-vos diante d’Ele. O roubo, o assalto, o banditismo, a pilhagem, o assassinato e a opressão que praticais são todos atos pecaminosos. Abandonai-os. Allah não os aprecia. Dizei a verdade. Praticai a justiça. Não mateis ninguém. Não saqueeis os bens de ninguém. Quando receberdes algo, recebei-o justamente. Quando derdes algo, dai-o justamente. Todos vós sois seres humanos. Todos os seres humanos são iguais. Ninguém nasceu com a marca da desonra gravada na testa. Da mesma forma, ninguém entrou no mundo com uma coroa de honra e dignidade sobre a cabeça. A excelência, a honra e a nobreza não estão inerentes à linhagem. Elas residem na obediência a Allah, nas boas ações e na pureza. Aquele que teme Allah é virtuoso e puro. Ele é o melhor dos seres humanos. Caso contrário, não é nada. Depois da morte, todos vós tereis de prestar contas diante de Allah. Tereis de prestar contas diante de Allah, que vê e conhece tudo. Nada podereis esconder d’Ele. Ele determinará vosso destino com base em vossas ações. Diante desse verdadeiro Juiz justo, nenhuma intercessão ou suborno terá utilidade. Ele não perguntará pela linhagem de ninguém. Ali, somente se perguntará pela fé e pelas boas ações. Aquele que possuir esse patrimônio entrará no Paraíso. E aquele que nada disso possuir será lançado no Inferno, carregando sobre a cabeça o cesto do fracasso.” Esta era a mensagem que ele havia trazido da caverna.

A reação do povo

O povo ignorante tornou-se seu inimigo. Começou a insultá-lo. Atirou pedras contra ele. Não por um ou dois dias, mas durante treze anos seguidos, submeteu-o a torturas desumanas. Por fim, expulsou-o de sua terra natal. Não se contentou apenas em bani-lo: mesmo no lugar onde ele buscou refúgio, perseguiu-o. Causou-lhe sofrimento de várias maneiras. Incitou toda a Arábia contra ele. Durante oito anos completos, continuou fazendo guerra contra ele. Ele suportou todos esses sofrimentos com um sorriso, mas não se desviou nem um fio de cabelo de sua resolução e de sua missão.

Por que o povo se tornou seu inimigo? Tratava-se de tomar terras e territórios? Havia alguma questão de vingança de sangue? Ele estava reivindicando deles algum bem mundano? Não, não era isso. Na raiz de toda a disputa estava a seguinte questão: por que ele ensinava a adoração de Allah, a honestidade, a veracidade e a prática do bem? Por que fazia campanha contra a idolatria, o shirk e as más ações? Por que atacava a liderança dos adoradores de ídolos e dos sacerdotes? Por que alertava o povo contra a ilusão da autoridade dos chefes? Por que queria acabar com as distinções entre superiores e inferiores existentes entre os seres humanos? Por que considerava o apego às tribos e à linhagem uma característica da jahiliyyah? Seu povo continuava dizendo: “Tudo o que dizes é contrário aos nossos costumes nacionais e às tradições de nossa linhagem. Portanto, abandona tudo isso; caso contrário, tornaremos difícil a tua própria vida.”

Por que suportar o sofrimento?

Por que aquele homem suportou tantos sofrimentos? Seu povo estava disposto a conceder-lhe a realeza. Queria acumular montanhas de riquezas a seus pés. Havia, porém, uma condição: ele teria de abandonar aqueles ensinamentos. Mas ele rejeitou a proposta deles e preferiu ser oprimido e perseguido em troca de seus ensinamentos. Por que aceitou tudo isso? Havia algum interesse pessoal seu no fato de que os membros de seu povo se tornassem virtuosos e obedientes a Allah? Havia nisso algum interesse maior para ele, diante do qual a ambição de liderança, autoridade estatal, riqueza e conforto fosse absolutamente insignificante? Ou havia aqui algum benefício tão grande que levasse uma pessoa a estar disposta a suportar, consecutivamente, durante cem anos, os mais severos sofrimentos físicos e mentais? Pode-se imaginar para a humanidade algum ideal mais elevado de nobreza, sacrifício e compaixão do que o de uma pessoa continuar sofrendo não por seu próprio interesse, mas pelo interesse e pelo bem dos outros? Aqueles pelo bem dos quais ele se esforçava foram justamente os que o tornaram desabrigado e o expulsaram de sua terra. Mesmo no estrangeiro, continuaram a persegui-lo. Apesar de tudo isso, ele não deixou de desejar o bem deles.

Pode um mentiroso suportar esse tipo de perigo por algo sem fundamento? Pode alguém que começa a agir com base em meras conjecturas manter-se tão firme e resoluto em sua determinação que, mesmo quando montanhas de perigos desabam sobre ele, quando todo o país e o mundo inteiro se levantam contra ele e quando o maior exército do mundo se lança sobre ele, ainda assim não esteja disposto a afastar-se sequer um fio de cabelo de sua determinação? Essa constância e firmeza de propósito testemunham que ele tinha plena convicção de sua própria veracidade. Se houvesse em sua mente a menor dúvida ou hesitação a esse respeito, não lhe teria sido possível enfrentar perigo após perigo durante vinte e um anos consecutivos.

Esse foi um aspecto da mudança de sua condição. O outro aspecto era ainda mais surpreendente.

O outro aspecto da mudança de sua condição

Até os quarenta anos de idade, ele era um árabe como os demais árabes comuns. Naquela época, ninguém conhecia aquele comerciante como um orador extraordinário. Ninguém o tinha visto discutir religião, moralidade, filosofia, direito, política ou organização social. De sua boca, ninguém jamais ouvira uma única palavra sobre Allah, os anjos, as escrituras celestiais, os profetas e as comunidades anteriores, o Dia da Ressurreição, a morte, a vida após a morte e o Paraíso e o Inferno. É verdade que ele tratava as pessoas com extrema bondade, seus modos eram muito corteses e gentis, e possuía o caráter moral mais elevado de sua época. Mas, até completar quarenta anos, não se encontrara nele nada de anormal que levasse as pessoas a imaginar que ele viria a tornar-se alguém extraordinário. Até então, as pessoas o conheciam apenas como um homem silencioso, pacífico, extremamente educado e cortês. Mas, depois dos quarenta anos, quando saiu de uma caverna, de repente viu-se que sua própria fisionomia havia mudado.

Agora ele proclamava uma mensagem extraordinária. Ao ouvi-la, todos os árabes ficaram deslumbrados. Por causa de seu efeito penetrante, até seus mais ferrenhos inimigos tinham medo simplesmente de ouvi-la; temiam que, uma vez que essa mensagem entrasse em seus ouvidos, pudesse ficar para sempre gravada no coração do povo. Sua eloquência e a beleza de sua expressão eram incomparáveis. Na presença dos grandes poetas, oradores e pretensos mestres da linguística da Arábia daquela época, essa mensagem lançou um desafio diante de todos os árabes e repetidamente os desafiou: reuni-vos todos e trazei algo semelhante a qualquer uma de suas frases. Mas ninguém teve coragem de enfrentar esse desafio. Nenhum árabe jamais ouvira uma mensagem tão incomparável.

De repente, ele se revelou um sábio incomparável, um extraordinário reformador social e formador de caráter moral, um notável especialista em política e legislador, um juiz de elevado nível e um comandante militar sem precedentes. Aquele nômade analfabeto começou a falar de conhecimentos e erudição que ninguém havia expressado antes, nem conseguiu expressar depois. Esse homem analfabeto passou a discursar tranquilamente sobre Allah, o mundo invisível e o além. A partir da história dos povos, passou a expor as lições da ascensão e queda de diferentes nações; analisou as ações dos antigos reformadores, criticou as diversas religiões do mundo e resolveu as disputas entre os povos. Passou a ensinar caráter, moralidade, decoro e cultura.

Ele legislou sobre a sociedade e a cultura, o sistema econômico, as transações mútuas e as relações internacionais. Elaborou leis de tal elevada qualidade que os maiores sábios, eruditos e estudiosos do mundo só conseguiram compreender sua verdade intrínseca após anos — ou melhor, uma vida inteira — de pesquisa e investigação. E, à medida que os experimentos e as verificações do mundo avançavam, sua verdade se revelava cada vez mais luminosa.

Esse comerciante silencioso e pacífico jamais empunhara uma espada na vida, nunca recebera treinamento militar e, em toda a sua vida, participara de apenas uma batalha, como um espectador silencioso. Contudo, agora tornou-se um soldado valente. Em campos de grandes batalhas cheias de perigos, seus pés jamais recuaram sequer um fio de cabelo. Agora ele se tornou um comandante militar de enorme poder. Em apenas nove anos, conquistou todo o território árabe. Tornou-se então um dos maiores comandantes e estrategistas militares. Sob a influência da organização militar que ele criou e do estímulo à guerra que inspirou, os árabes sem recursos e afligidos pela falta de equipamentos de guerra derrotaram, em apenas alguns anos, as duas grandes potências do mundo.

Durante quarenta anos, ninguém percebeu sequer o menor indício de inclinação política nesse homem recluso e amante da paz. De repente, ele surgiu como um grande reformador e estadista. Em vinte e três anos, sem o auxílio de ferrovias, telefone, rádio ou imprensa, submeteu a uma única religião, uma única cultura, uma única lei e um único sistema de governo as tribos espalhadas pelo deserto, que se estendia por doze milhões de milhas quadradas: desorganizadas, guerreiras, ignorantes, anárquicas, bárbaras e incivilizadas, sempre envolvidas em conflitos mútuos, desorganizadas, guerreiras, ignorantes, anárquicas, bárbaras e incivilizadas, sempre envolvidas em conflitos mútuos. Ele mudou o rumo de seus pensamentos. Transformou seu caráter. Preencheu de refinamento e decoro seu modo de vida desprovido de modéstia. Converteu sua barbárie e incivilidade em uma vida urbana refinada. Transformou sua desonestidade e seu mau caráter em honestidade, taqwa e elevado caráter moral. Converteu sua anarquia e desordem em uma vida disciplinada, no mais alto grau de obediência à lei e de prontidão para cumprir as ordens do líder. Essa nação era tão estéril que, durante centenas de anos, nenhum personagem notável havia nascido de seu ventre. Mas esse homem recluso fez surgir nela personalidades tão excelsas. Elas se espalharam pelos quatro cantos do mundo para ensinar aos povos a religião e a moralidade.

Método de ação moral

Ele não realizou essa obra por meio de opressão, perseguição, engano ou fraude. Pelo contrário, realizou-a por meio de um tratamento bondoso que conquistava os corações, de cortesia e de ensinamentos cativantes. Com seu bom tratamento, transformava inimigos em amigos. Com afeto e benevolência, derretia os corações. Governava o país com justiça e equidade. Jamais se afastou sequer um fio de cabelo da verdade e da honestidade. Nunca enganou ninguém no campo de batalha. Nunca oprimiu nem mesmo seus inimigos mortais. Nunca enganou ninguém no campo de batalha. Nunca oprimiu nem mesmo seus inimigos mortais. Mesmo depois de vencer aqueles que tinham sede de seu sangue, que o haviam ferido a pedradas, obrigado a abandonar sua terra natal, colocado toda a Arábia contra ele e, no auge da hostilidade e do rancor, haviam arrancado o fígado de seu tio e o mastigado, ele os perdoou. Nunca se vingou de ninguém por ter sido tratado injustamente por essa pessoa.

Apesar de tudo isso, seu autocontrole era incomparável. Seu desapego dos interesses mundanos havia chegado a tal ponto que, mesmo depois de se tornar o rei de todo o país, continuou sendo tão pobre quanto antes. Vivia sob um abrigo de palha e folhas. Uma esteira era sua cama. Vestia roupas grosseiras. Comia a comida dos pobres. Muitas vezes passava fome. Passava a noite inteira ocupado na adoração de Allah. Ajudava e servia os pobres e os aflitos. Nunca hesitava em realizar trabalho físico como um trabalhador. Até o fim de sua vida, não se encontrava nele o menor vestígio de pompa real, do esplendor dos ricos ou da arrogância dos abastados. Misturava-se com todos como uma pessoa comum. Participava de seus sofrimentos, dificuldades, tristezas e dores. Sentava-se entre as pessoas comuns de tal maneira que se tornava difícil para um visitante de fora identificar, naquela reunião, o líder da nação e chefe de Estado. Apesar de ser uma personalidade tão grandiosa, tratava as pessoas mais humildes e insignificantes como se elas fossem iguais a ele. Depois de uma vida inteira de luta e devoção, não deixou nada para si. Doou toda a propriedade que deixou para trás como waqf para a nação. Não estabeleceu nenhum direito especial, por mínimo que fosse, para si ou para seus filhos sobre seus seguidores. Temendo que, no futuro, seus seguidores entregassem toda a zakat apenas a seus filhos, privou até seus próprios filhos do direito de receber zakat.

O construtor da era moderna

As grandes realizações desse grande homem não têm fim. Para obter uma compreensão adequada de sua elevada posição, é preciso agora observar a história mundial em seu conjunto. Nela veremos que esse homem iletrado do deserto da Arábia, nascido quatorze séculos atrás, na era da ignorância, é na realidade o fundador da era moderna e o líder do mundo inteiro. Ele não é apenas o líder daqueles que o reconhecem como líder, mas também daqueles que não o reconhecem como líder. Eles nem sequer percebem como a liderança daquele contra quem fazem propaganda está profundamente ligada a seu modo de pensar, seu modo de vida, seu método de ação e à própria essência de sua era moderna.

Foi esse homem que mudou o rumo do pensamento dos povos do mundo. Ele os conduziu do idealismo, da superstição, da adoração de coisas maravilhosas e do ascetismo ao racionalismo, ao realismo e à religiosidade fundamentada no verdadeiro temor de Allah. Em um mundo que reivindicava acontecimentos sobrenaturais perceptíveis, ele criou a tendência de compreender os milagres intelectuais e de aceitá-los como o critério da verdade. Abriu os olhos daqueles que buscavam sinais do poder de Allah nas exceções às leis naturais e criou neles o hábito de ver os sinais de Allah nos fenômenos naturais (Natural Phenomena). Conduziu os amantes das fantasias, em vez da especulação (Speculation), pelo caminho da racionalidade, do pensamento, da observação e da investigação. Mostrou ao ser humano a linha divisória entre a razão e a emoção. Estabeleceu uma relação entre o materialismo e o espiritualismo. Criou uma relação entre a religião, o conhecimento e a ação, e entre o conhecimento e a ação, por um lado, e a religião, por outro. Com o auxílio da força religiosa, criou no mundo a força científica e, com o auxílio da ciência, criou uma religiosidade autêntica. Arrancou pela raiz a adoração da criação e o shirk, e fortaleceu e estabeleceu a crença no tawhid com o poder do conhecimento, de tal modo que os politeístas e adoradores de ídolos foram obrigados a tingir sua religião com as cores do monoteísmo. Transformou completamente os conceitos fundamentais de moralidade e espiritualidade. Àqueles que consideravam o ascetismo e a austeridade a verdadeira moralidade, e segundo os quais não era possível alcançar o progresso espiritual e a salvação na outra vida se se cumprissem os direitos do corpo e dos desejos e se participasse dos assuntos da vida mundana, foi ele quem mostrou o caminho da excelência moral, do desenvolvimento espiritual e da salvação na outra vida no meio da sociedade, da cultura e da vida profissional mundana. Foi ele quem ensinou ao ser humano seu verdadeiro valor e dignidade. Àqueles que não estavam dispostos a aceitar como guia e líder ninguém além de Bhagavan, dos avatares e do filho de Allah, ele ensinou que seres humanos como eles próprios poderiam tornar-se representantes do reino celeste e califas de Allah, o Senhor dos mundos. Àqueles que consideravam cada pessoa poderosa como seu deus, ele explicou que o ser humano não é nada além de um ser humano. Ninguém nasce com o direito inato à santidade, à autoridade governamental ou à soberania. Ninguém nasce carregando a mácula da impureza, da servidão, da escravidão ou da subordinação. Esse ensinamento foi o gerador da unidade da humanidade, da igualdade, da democracia e da liberdade de pensamento no mundo.

Quando saímos do mundo das ideias e observamos a realidade, veremos que os resultados concretos e eficazes da liderança desse homem iletrado foram extremamente amplos e ilimitados no campo das leis, dos métodos e dos sistemas do mundo. Inúmeros princípios e métodos de moralidade, civilização, cultura, decoro, pureza e higiene saíram de seu ensinamento e se espalharam por todo o mundo. A legislação social que ele instituiu foi amplamente aceita pelo mundo inteiro, e continua sendo aceita até hoje. Com base na legislação econômica que ele estabeleceu, surgiram e continuam surgindo muitos movimentos econômicos no mundo. Por meio do sistema de governo que ele adotou, diversas revoluções ocorreram até hoje no pensamento político mundial, e continuam ocorrendo. Os princípios fundamentais de justiça e direito que ele formulou influenciaram amplamente os sistemas judiciários e o pensamento jurídico do mundo, e sua influência continua atuando silenciosamente. No campo da guerra, da paz e das relações internacionais, foi ele quem, na prática, instituiu normas e sistemas civilizados. Antes dele, o mundo sequer sabia que a guerra podia ter normas e princípios civilizados, ou que as relações e transações entre diferentes povos podiam ser estabelecidas com base na humanidade.

A síntese de todas as virtudes superiores

Na história da humanidade, a personalidade elevada e superior dessa extraordinária pessoa é tão clara e brilhante que, se colocarmos diante dele os maiores personagens da história, desde o início até os dias atuais — aqueles a quem as pessoas chamaram de heróis —, eles parecerão anões insignificantes diante dele. Entre os grandes personagens do mundo, não há sequer um cujas melhores e mais elevadas qualidades tenham conseguido se estender para além de um ou dois campos da vida. Alguns apresentaram doutrinas, mas não tinham capacidade para colocá-las em prática. Outros eram hábeis na ação, mas fracos no pensamento. A autoridade de alguns limitava-se às qualidades políticas. Outros possuíam apenas proezas militares. A visão de alguns se aprofundou tanto em um aspecto da vida social que os demais foram completamente negligenciados. Alguns avançaram pelo caminho da moralidade e da espiritualidade, mas ignoraram inteiramente a economia e a política. Outros avançaram pelo caminho da economia e da política, mantendo a moralidade e a espiritualidade completamente fora de seu campo de visão. Em suma, a história só apresenta grandes personagens unilaterais. Mas esta pessoa é a única exceção nesse aspecto. Todas as qualidades reuniram-se nela. Ele próprio é filósofo e erudito. Ele mesmo aplica sua filosofia à vida prática. É estadista e também comandante militar. É legislador e também mestre da moralidade. Além disso, é líder religioso e espiritual. Sua visão se estende a todos os aspectos da vida humana e não ignora nem mesmo as pequenas questões da vida. Desde as regras de comer e beber e os métodos de higiene corporal até as relações internacionais, ele estabeleceu normas e deu orientações sobre cada assunto. Com base em sua doutrina, deu origem a uma civilização e estabeleceu um equilíbrio perfeito nos diversos campos da vida. Em parte alguma se encontra sequer vestígio de extremismo. Será possível encontrar, nas páginas da história, o nome de alguma segunda pessoa dotada de qualidades tão abrangentes?

Acima do ambiente

Não há sequer um dos maiores personagens do mundo que, em maior ou menor medida, não seja produto de seu próprio ambiente. Mas a situação desta pessoa é diferente de todas as outras. Seu ambiente não exerceu a menor influência na formação de sua personalidade. Não será possível provar, com qualquer argumento ou evidência, que o contexto e o ambiente da Arábia estavam historicamente preparados, naquela época, para dar origem a uma pessoa assim. Forçando muito a interpretação, no máximo se poderia dizer que, por razões históricas, a Arábia daquele tempo precisava de um líder desse tipo. Ele eliminaria a desordem e a anarquia tribais, uniria as tribos sob o vínculo de uma única nacionalidade e, conquistando país após país, abriria o caminho para a prosperidade econômica dos árabes. Em outras palavras, seria um líder árabe nacionalista, portador de todas as características próprias daquela época. Por meio da opressão, da perseguição, do derramamento de sangue, da fraude, do engano e de todos os meios possíveis, ele enriqueceria seu povo. Formaria um império e o deixaria para os habitantes subdesenvolvidos de seu país. Fora isso, não se pode demonstrar nenhuma outra exigência da história árabe daquele período. À luz da filosofia da história de Hegel e da interpretação materialista da história de Marx, no máximo se poderia dizer que, no ambiente então existente na Arábia, era necessário — ou possível — o surgimento de uma pessoa capaz de formar uma nação e estabelecer um império. Mas que explicação a filosofia hegeliana e a marxista darão para o que realmente aconteceu? Naquele tempo e naquele ambiente nasceu uma pessoa que ensinou a mais elevada moralidade e organizou e adornou a humanidade. Uma pessoa cuja visão ultrapassou os limites da linhagem, da tribo, da nação e do país e criou, para toda a humanidade, um sistema moral, espiritual, cultural e político. Uma pessoa que estabeleceu e demonstrou, não no mundo da imaginação, mas na realidade, a administração econômica, as normas políticas e as relações internacionais sobre bases morais, e que realizou uma combinação equilibrada entre espiritualidade e materialismo, reconhecida tanto naquele dia quanto hoje como a mais elevada realização da sabedoria e do discernimento. Pode uma personalidade assim ser considerada produto do ambiente ignorante da Arábia daquele tempo?

Criador da história

Essa pessoa não é apenas produto de seu ambiente; ao observarmos suas obras, vemos que ela está livre dos limites e da influência do espaço e do tempo. Seu olhar rompeu as amarras do tempo e das circunstâncias e avançou, atravessando os limites dos séculos e dos milênios, em direção ao futuro. Ele contemplou o ser humano à luz de todas as épocas e ambientes. Ao mesmo tempo, deu, para a orientação da vida humana, instruções morais e práticas que se ajustam adequadamente a todas as circunstâncias. Ele não pertence àqueles que a história classificou entre os antigos. Sua verdadeira identidade só pode ser expressa assim: ele foi o maior líder de sua época. Era diferente de todos e singular. Foi um líder da humanidade cuja liderança acompanha o curso dinâmico da história e parece igualmente moderna em cada época, como se já o tivesse sido nas épocas anteriores.

Aqueles que são indistintamente chamados de criadores da história são, na realidade, criações da história. Em toda a história da humanidade, só se encontrará um verdadeiro criador da história. Ao observarmos, com olhar investigativo, a situação daqueles que criaram revoluções na história, veremos que, desde antes, os elementos da revolução já estavam sendo formados. Eram esses elementos que determinavam a direção e o curso da revolução conforme as suas exigências. Qual foi, nesse caso, o papel desempenhado pelo líder revolucionário? Ele desempenhou o papel de um ator que, para transformar em realidade as exigências das circunstâncias e do ambiente, atuou num palco cuja montagem e cujo roteiro de representação já estavam inteiramente preparados e definidos. Mas, entre os criadores da história e das revoluções, ele foi o único que constituiu uma exceção. Para ele, os elementos e as causas da revolução estavam ausentes. Por isso, ele próprio inventou e preparou os elementos e as causas da revolução. Onde não se encontravam entre as pessoas a essência vital nem a capacidade efetiva para uma revolução, ele, por seus próprios esforços, formou uma força humana apta a criar uma revolução. Dissolveu a força de sua personalidade extraordinária e derramou-a no coração de milhares de pessoas, moldando-as à sua própria imagem. Seu poder e sua força de vontade criaram todos os elementos da revolução e determinaram sua forma e sua natureza; e, pela força de sua determinação, ele mudou o curso das circunstâncias e conduziu-o na direção que desejava. Será que já se encontrou, em algum lugar ou época do mundo, um criador da história e um revolucionário desse tipo?

Perfeita veracidade

No mundo mergulhado em trevas de mil e quatrocentos anos atrás, nesta região remota de um país tão profundamente sombrio quanto a Arábia, como poderia surgir subitamente, em um pastor e comerciante analfabeto do deserto, uma montanha de conhecimento, luz, força e nobres qualidades tão vastas, além de uma força praticada e desenvolvida em grau tão elevado? Diz-se que tudo isso foi criação de sua mente e de seu cérebro. Eu diria: se tudo isso foi criação de sua mente e de seu cérebro, então ele deveria ter reivindicado não a profecia, mas a divindade. Se ele realmente tivesse feito tal reivindicação, certamente algumas pessoas não teriam se recusado de modo algum a aceitá-lo como deus, sendo ele uma pessoa dotada de todas as virtudes. Pois essas pessoas já haviam transformado Rama em deus, não hesitaram em aceitar Sri Krishna como Bhagavan, elas próprias colocaram Gautama Buda no lugar de deus, fizeram voluntariamente de Jesus, que a paz esteja sobre ele, o filho de Allah, e adoraram também o fogo, a água e o ar. Mas o que ele próprio disse é realmente digno de profunda consideração. Ele não reivindica mérito algum por todas essas suas qualidades. Ele diz: “Sou um ser humano, um ser humano como vocês. Nada do que possuo é meu; tudo pertence a Allah e tudo me foi concedido por Ele. A mensagem que trouxe, à qual toda a humanidade é incapaz de apresentar algo semelhante, também não é minha nem resultado da minha capacidade intelectual. Cada uma de suas palavras veio a mim da parte de Allah. Por isso, somente Allah é digno de louvor. Nenhum dos méritos que demonstrei, nenhuma das leis que promulguei, nenhum dos princípios e valores morais que ensinei às pessoas foi criado por mim. Não tenho capacidade de apresentar coisa alguma com base em minhas aptidões pessoais. Em todos os assuntos, dependo da orientação e das instruções de Allah. Digo e faço somente aquilo que me chega como indicação da parte d’Ele.”

Que verdade maravilhosa! Que extraordinária honestidade e veracidade! Os mentirosos, para se engrandecerem, não hesitam nem por um instante em registrar na conta de seus próprios méritos as melhores realizações dos outros. Além disso, não é nada difícil descobrir a origem dessas realizações. Mas este homem não reivindica como suas nem mesmo qualidades que, caso as atribuísse ao próprio mérito, ninguém poderia provar que eram mentira. Isso porque ninguém conhece qualquer meio de descobrir a origem delas. Que prova maior de veracidade poderia haver? Que pessoa poderia ser mais veraz do que aquela que recebeu de uma fonte extremamente oculta qualidades tão sem precedentes e que, sem hesitação, revela a verdadeira origem delas? Se não o chamarmos de veraz, então a quem chamaremos?

Os argumentos do Alcorão em favor da profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Alguns argumentos importantes— [A discussão e os argumentos apresentados no Alcorão sobre a profecia de Muhammad são tão abrangentes e de alcance tão amplo que não é possível expô-los integralmente em um único artigo. Além disso, se reuníssemos as explicações e análises feitas por Maulana Maududi sobre os argumentos do Alcorão, elas assumiriam a forma de um livro separado. Considerando esses aspectos, reproduzimos aqui a breve discussão do Maulana sobre alguns argumentos especialmente importantes. — (O compilador)]

Foi dito no Alcorão:

(Árabe*****************na página 109 do PDF)

“Ó Profeta, antes disso não lias nenhum livro nem escrevias com a tua própria mão. Se assim fosse, os falsários poderiam ter caído em dúvida. Na verdade, isto são sinais claros nos corações dos sábios.” — (Surata Al-Ankabut: 48–49)

O fundamento central do argumento apresentado neste versículo é que Hazrat (s.a.) era iletrado. Os seus compatriotas, parentes, familiares e membros da sua própria tribo tinham-no visto com os próprios olhos desde o nascimento até à juventude. Eles sabiam muito bem que, durante toda a sua vida, ele nunca tinha lido um livro nem pegado numa pena.

O facto de Hazrat (s.a.) ser iletrado é, por si só, uma prova da profecia

Mencionando o facto concreto de que ele era iletrado, Allah disse: isto prova claramente que a profunda e vasta quantidade de conhecimento sobre os ensinamentos dos Livros celestiais dos tempos antigos, as histórias dos profetas anteriores, as crenças das diversas religiões do passado, a história dos povos primitivos e questões relacionadas com a economia e a organização social, que sai da boca deste Profeta iletrado, não poderia ter sido adquirida por ele de nenhuma outra maneira senão através da revelação. Se ele soubesse ler e escrever, e as pessoas o tivessem visto ler livros, pesquisar e investigar, os falsários talvez tivessem alguma base para suspeitar que esse vasto tesouro de conhecimento poderia ter sido adquirido não por meio da revelação, mas através do estudo e da busca do conhecimento. Porém, o analfabetismo absoluto do Profeta não deixou qualquer espaço para esse tipo de dúvida. — Mesmo depois desta descrição inequívoca do Alcorão e da apresentação deste argumento perfeito, não se pode deixar de ficar admirado com a insolência daqueles que tentam provar que Hazrat (s.a.) era instruído. Contudo, aqui o Alcorão apresenta claramente o analfabetismo de Hazrat (s.a.) como uma prova irrefutável da sua profecia. As narrações nas quais se baseiam para afirmar que Hazrat (s.a.) era instruído ou que mais tarde aprendeu a ler e escrever devem, antes de tudo, ser rejeitadas desde o princípio, pois nenhuma narração contrária ao Alcorão pode ser aceitável. Além disso, são tão fracas que não podem sequer ser tomadas como fundamento de um argumento. Uma delas é a narração de Bukhari sobre o tratado de Hudaybiyyah. Nela é dito que, durante a redação do tratado, o representante dos incrédulos de Meca disse a Hazrat (s.a.): “Apaga ‘Mensageiro de Allah’ de ‘Muhammad, o Mensageiro de Allah’ e escreve ‘Muhammad ibn Abdullah’ (Muhammad, filho de Abdullah).” Hazrat Ali não aceitou apagar as palavras “Mensageiro de Allah”. Então Hazrat (s.a.) tomou o tratado das mãos dele, apagou ele próprio aquelas palavras e escreveu “Muhammad ibn Abdullah”. Este hadith, narrado sob a autoridade do Companheiro Bara ibn Azib, foi citado em quatro lugares em Bukhari e em dois lugares em Muslim, e apresenta diferenças em cada um deles. Num capítulo de Bukhari sobre o tratado, uma das narrações tem a seguinte redação:

(Árabe*****************na página 110 do PDF)

“Hazrat, o Mensageiro de Allah (s.a.), disse a Hazrat Ali (r.a.): ‘Apaga estas palavras.’ Hazrat Ali (r.a.) respondeu: ‘Não posso apagá-las.’ Por fim, Hazrat apagou-as com a própria mão.

Segundo: a redação de outra narração de Bukhari é a seguinte:

(Árabe*****************na página 110 do PDF)

“Então ele disse a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): ‘Apague as palavras “Mensageiro de Allah”.’ Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: ‘Não, juro por Deus, jamais apagarei o seu nome.’ Então Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tomou o tratado e escreveu nele: ‘Este é o acordo celebrado por Muhammad, filho de Abdullah’”.

Terceiro: o terceiro relato de Bukhari foi incluído no capítulo sobre a jizya, transmitido por Bara ibn Azib. Nele se afirma: (Árabe*****************na página 110 do PDF).

“Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não sabia escrever. Ele disse a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): ‘Apague as palavras “Mensageiro de Allah”.’ Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: ‘Juro por Allah! Jamais apagarei isso.’ Então Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Nesse caso, mostre-me o lugar onde estão escritas essas palavras.’ Ele mostrou o lugar a Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apagou as palavras com a própria mão.”

Quarto: o quarto relato de Bukhari foi incluído no Kitab al-Maghazi (capítulo sobre guerras e batalhas). Ei-lo:

(Árabe*****************na página 110 do PDF)

“Então, Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tomou o tratado nas mãos. Embora não soubesse escrever, escreveu: ‘Este é o tratado elaborado por Muhammad, filho de Abdullah’.”

Cinco: outra narração de Bara ibn Azib foi registrada no Kitab al-Jihad de Muslim. Nela se afirma que, como Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) se recusou, Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apagou pessoalmente as palavras ‘Mensageiro de Allah’.

Seis: outra narração do Sahih Muslim afirma que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): ‘Mostre-me onde estão as palavras “Mensageiro de Allah”.’ Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) mostrou-lhe o local. Então Hazrat apagou aquelas palavras e escreveu ali: ‘filho de Abdullah’. É evidente, pela diferença na formulação das diversas narrações, que o narrador intermediário não conseguiu citar literalmente a declaração de Hazrat Bara ibn Azib. A palavra ‘Abdullah’ foi escrita pelo próprio Hazrat. Também é possível que o ocorrido tenha sido o seguinte: quando Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) se recusou a apagar as palavras ‘Mensageiro de Allah’, Hazrat perguntou a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) onde elas estavam, tomou conhecimento do local e apagou-as pessoalmente; depois, mandou Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) ou outro escriba escrever ‘ibn Abdullah’. Outras narrações indicam que talvez Ali e Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele) fossem os dois escribas encarregados de redigir o tratado. (Fath al-Bari, volume 5, p. 217.) Portanto, não há nada de estranho se o trabalho que um escriba não quis realizar tiver sido confiado a outro escriba.

Com base em outra narração citada por Ibn Abi Shaiba e Amr ibn Maimun, sob a autoridade de Mujahid, afirma-se que o Hazrat Rasulullah (SA) sabia ler e escrever. A narração é a seguinte: (Árabe*****************página 111 do PDF)

“O Hazrat Rasulullah (SA) aprendeu a ler e escrever antes de falecer.” Contudo, segundo a análise da cadeia de transmissão, essa narração é muito fraca. Hafiz Ibn Kathir classificou-a como infundada e fraca. Em segundo lugar, se o Hazrat (SA) realmente tivesse aprendido a ler e escrever posteriormente, isso teria se tornado amplamente conhecido. Muitos Companheiros teriam narrado o fato, e também teria vindo à tona com quais Companheiros o Hazrat (SA) havia aprendido a ler e escrever. Mas, além de Awn ibn Abdullah, ninguém transmitiu essa narração. Mujahid soube disso por intermédio de Awn. Awn também não era um Companheiro, mas um tabi‘i (a geração imediatamente posterior aos Companheiros), e ele tampouco declarou com certeza de qual Companheiro ou de quais Companheiros havia obtido essa informação. Sob esse aspecto, a fraqueza dessa narração também é evidente. Com base numa narração tão fraca, nenhuma afirmação que contradiga os fatos reais pode ser aceita.

Que um homem iletrado apresentasse um livro como o Alcorão e, aparentemente sem qualquer preparação prévia, demonstrasse um talento e uma maturidade extraordinários é, sem dúvida, algo anormal. Para as pessoas instruídas e perspicazes, isso constitui o mais luminoso dos sinais da profecia daquele homem iletrado — esse argumento também foi discutido no artigo intitulado “A profecia de Muhammad à luz da pedra de toque do indivíduo”. Contudo, ali o tema foi apresentado sem analisar os argumentos do Alcorão. — (Compilador.) — Tome-se a biografia de qualquer figura histórica do mundo e examine-se: as causas e condições envolvidas na formação de sua personalidade e no desenvolvimento de seu talento podem ser encontradas no ambiente em que viveu. Observa-se uma correspondência clara entre os elementos que formaram sua personalidade e seu contexto. Mas não se encontram no ambiente em que viveu as qualidades extraordinárias que se encontram na personalidade do Hazrat Muhammad (SA). Muito menos na sociedade árabe. Nem mesmo no ambiente mais remoto das sociedades dos países vizinhos com os quais os árabes mantinham relações se encontram elementos que tenham a mínima semelhança com os componentes da personalidade do Hazrat Muhammad (SA). É nesse contexto de fato que se reúne o conjunto dos sinais mencionados acima. — [Aqui o Alcorão responde àqueles acusadores que exigiam a apresentação de milagres como condição prévia para aceitar a profecia do Grande Profeta (SA). — (Compilador.)] Não importa que os ignorantes não encontrem nele nenhum sinal. Mas aqueles que são instruídos, ao verem esses sinais, compreenderam que ele possuía esse talento sem precedentes e que não poderia ser outra coisa senão um profeta.

(Árabe*****************página 112 do PDF)

“Eles dizem: ‘Por que não lhe foram enviados sinais da parte de seu Senhor?’ Dize: ‘Os sinais estão somente com Allah. Eu vim apenas para advertir claramente. Não lhes basta que tenhamos feito descer sobre ti o Livro, que lhes é recitado? De fato, nele há misericórdia e exortação para os crentes’.” — (Surata Al-Ankabut: 50–51)

Ou seja, o fato de um livro como o Alcorão ter sido revelado a ti, apesar de seres iletrado, não é por si só um grande milagre? Isso não é suficiente para crer na tua profecia? Mesmo depois disso, ainda resta necessidade de algum outro milagre? Os demais milagres são de natureza diferente. Somente aqueles que os viram os estão ouvindo ser recitados e continuarão a ouvi-los. Vocês podem vê-los o tempo todo.

Apresentação da vida anterior à profecia como prova

(Árabe*****************página 112 do PDF)

“Anteriormente, passei algum tempo entre vós.” — (Surata Yunus: 16)

Os politeístas coraixitas acreditavam que o Alcorão era uma composição inventada por Muhammad (s.a.). Ele estaria tentando, sem motivo, fazê-la passar por uma revelação concedida por Deus. Por outro lado, a afirmação de Muhammad (s.a.) era que aquele não era um livro de sua autoria, mas que lhe havia chegado por revelação da parte de Deus. O versículo acima apresenta um forte argumento para refutar essa concepção dos politeístas e apoiar a afirmação do Profeta (s.a.). Deixemos de lado as demais provas e argumentos. Mas a vida real do Profeta (s.a.) estava diante dos olhos deles. Antes da profecia, ele havia passado quarenta anos inteiros entre eles. Nascera na própria cidade deles. Diante dos olhos deles, passara pela infância e pela juventude e chegara à maturidade. Seus encontros e convivência, sua moradia e alimentação, suas relações sociais, suas transações, seus casamentos e todas as demais relações sociais eram com eles. Nada na sua vida lhes era desconhecido ou oculto. Que prova poderia ser mais irrefutável que um conhecimento tão íntimo e uma evidência tão direta? Na sua vida, duas coisas eram extremamente claras, e todos os habitantes de Meca as conheciam.

Primeiramente, ao longo de toda a vida de quarenta anos anterior à profecia, ele não recebeu nenhuma educação ou convivência na qual se pudesse encontrar a origem do conhecimento multifacetado que demonstrou imediatamente após reivindicar a profecia. Nos capítulos do Alcorão, são discutidos de modo contínuo diversos temas; antes da revelação do Alcorão, nunca se viu Muhammad (s.a.) ocupar-se deles, falar sobre eles ou expressar opiniões a respeito deles. Além disso, quando, ao completar quarenta anos, ele subitamente começou a fazer o convite à fé, nenhum sinal de preparação ou planejamento para isso fora percebido, ao longo de todos aqueles quarenta anos, em seus modos e conversas por qualquer de seus amigos íntimos ou parentes próximos. Isso prova claramente que o Alcorão não é fruto de seu cérebro; sua origem ocorreu em algum lugar externo e ele foi introduzido em seu interior. Pois o cérebro humano não é capaz de apresentar subitamente algo em qualquer estágio da vida sem que, no estágio anterior, já se tenham manifestado sinais de sua preparação, desenvolvimento e crescimento. Foi por isso que alguns homens astutos de Meca compreenderam que afirmar que o Alcorão se originara no cérebro do Profeta (s.a.) seria pura tolice. Então mudaram de estratégia e começaram a dizer que certamente havia outra pessoa nos bastidores que ensinava todas aquelas coisas a Muhammad (s.a.). Mas essa afirmação revelou-se ainda mais absurda que a anterior. Pois não apenas em Meca, mas em toda a Arábia, não havia uma única pessoa dotada de capacidade suficiente para que se pudesse apontá-la e dizer: “Foi fulano quem compôs essas palavras” ou “ele seria capaz de compô-las”. Na verdade, quem possui uma capacidade assim não pode permanecer desconhecido e ignorado em nenhuma sociedade.

A segunda característica marcante da vida do Profeta (s.a.) antes da profecia era que em seu caráter não se encontrava nem o menor vestígio de qualquer defeito do tipo mentira, fraude, engano, trapaça, baixeza ou vileza. Em toda a sociedade não havia ninguém que pudesse dizer ter observado qualquer falha desse tipo em seu comportamento durante aqueles longos quarenta anos de convivência. Pelo contrário, toda pessoa que entrava em contato com ele o via como um homem extremamente veraz, justo, de bom caráter e digno de confiança. Apenas cinco anos antes da profecia, ocorreu um famoso incidente durante a reconstrução da Caaba. Surgiu uma disputa entre os diferentes clãs dos coraixitas sobre quem retiraria a sagrada Pedra Negra e a recolocaria em seu devido lugar. Por fim, chegaram a um acordo: na manhã seguinte, aceitariam como árbitro a primeira pessoa que entrasse no Santuário Sagrado. No dia seguinte, viram que Muhammad (s.a.) fora o primeiro a entrar no Santuário Sagrado. Assim que o viram, começaram a exclamar: “Este é justamente aquele homem justo! Estamos de acordo. Este é Muhammad!” Desse modo, antes mesmo de ser designado para o posto de profeta, Deus obteve formalmente de todo o clã dos coraixitas um testemunho em favor de sua justiça. Depois disso, como se poderia sequer imaginar que aquele “Al-Amin” pudesse recorrer à injustiça e à falsidade? Como seria possível que uma pessoa que jamais, em toda a sua vida, recorrera à mentira, mesmo em algo insignificante, nem praticara fraude ou trapaça, de repente começasse a recorrer a uma mentira tão grande e a uma fraude tão terrível, fazendo algumas palavras inventadas por ela serem ouvidas pelo povo e passando-as por palavras de Deus?

(Árabe*******************************************na página 114 do PDF)

“E assim, ó Muhammad, por Nossa ordem, enviamos a ti uma revelação espiritual. Antes disso, não sabias o que eram o Livro nem a fé.” — (Surata Ash-Shura: 52)

De fato, antes de receber a profecia, o Mensageiro de Deus (s.a.) jamais poderia sequer imaginar que deveria receber um livro ou que isso estivesse prestes a acontecer. Ele nada sabia sobre os Livros celestiais nem sobre seu conteúdo. Da mesma forma, sua fé em Deus era verdadeira. Mas não sabia que, juntamente com isso, era necessário crer também em muitas coisas relacionadas aos anjos, à profecia, aos Livros celestiais e à Vida Futura. Para os habitantes de Meca, também, o anúncio de sua profecia foi totalmente súbito e inimaginável. Antes daquele anúncio repentino, ninguém poderia testemunhar que alguma vez tivesse ouvido de sua boca qualquer palavra dizendo que se devia crer no Livro de Deus ou nisto ou naquilo. É evidente que, se alguém começasse antecipadamente a preparar-se para se fazer passar por profeta, não poderia ser tão indiferente à sua própria profecia que aqueles que conviveram com ele dia e noite durante quarenta anos jamais ouvissem de sua boca uma única palavra sobre o Livro e a fé, e que, assim que completasse exatamente quarenta anos, ele subitamente começasse a proferir longos discursos sobre esses assuntos.

(Árabe*******************************************na página 114 do PDF)

“Tu jamais poderias esperar que o Livro te fosse revelado — isso só aconteceu pela graça de Allah; portanto, não sejas um apoiador dos incrédulos.” — (Surata al-Qasas: 86) Estas palavras são apresentadas como prova da profecia de Muhammad (s.a.). Vejamos primeiro o caso de Hazrat Musa (a.s.). Ele nem sequer imaginava que se tornaria profeta e seria incumbido de uma importante responsabilidade. Muito menos desejava ou aspirava tornar-se profeta; a possibilidade disso jamais lhe passou pela mente. De repente, ele foi chamado do caminho e feito profeta, e por meio dele foram realizados feitos extraordinários, sem qualquer semelhança com sua vida anterior. Exatamente o mesmo aconteceu na vida de Muhammad (s.a.). Até o dia anterior àquele em que desceu da caverna de Hira anunciando sua missão profética, os habitantes de Meca conheciam muito bem seu modo de vida, o que fazia, o tipo de conversas que mantinha, os assuntos que discutia e a natureza de suas atividades e inclinações. É verdade que essa parte de sua vida era um exemplo ardente de honestidade, veracidade, fidelidade e bom caráter. Era a vida de um homem extremamente cortês, pacífico e inofensivo, firme em suas promessas e pactos, muito cuidadoso em restituir os direitos e haveres alheios e extraordinariamente benevolente. Essas eram as características mais importantes e notáveis de sua vida. Ainda assim, não havia nele nada que pudesse levar alguém sequer a imaginar que aquele homem piedoso e virtuoso logo reivindicaria a profecia. Entre os que mantinham estreito contato com ele, seus parentes, vizinhos ou amigos, ninguém poderia dizer que ele já estivesse se preparando para ser profeta. Logo após aquele momento decisivo na caverna de Hira, ele começou subitamente a falar sobre assuntos dos quais ninguém jamais o ouvira falar; a linguagem, a terminologia e as palavras especiais que passou a usar eram desconhecidas para todos os que o conheciam. Ele jamais se levantara para fazer uma exortação, um sermão ou uma palestra. Jamais entrara em campo com qualquer movimento ou missão de pregação. Nenhuma de suas atividades dava a entender que estivesse planejando empreender um programa para resolver os problemas da vida social ou promover uma reforma religiosa ou moral. Até o dia anterior àquele momento revolucionário, ele passava alegremente o tempo com os filhos, cuidava dos hóspedes, ajudava os pobres e necessitados, tratava bem os parentes e, de tempos em tempos, retirava-se para adorar em solidão. Que um homem cortês e inofensivo como esse aparecesse subitamente diante do povo com uma proclamação capaz de abalar o mundo, começasse a transmitir uma mensagem revolucionária, produzisse um incomparável acervo literário e apresentasse uma nova filosofia de vida, um novo método de pensamento e um novo sistema moral e social, distintos de todas as ideias e caminhos predominantes no mundo, foi sem dúvida um acontecimento extraordinariamente surpreendente e excepcional. Isso jamais poderia surgir como resultado do método ou planejamento de um homem, nem de uma iniciativa ou esforço voluntário. Pois qualquer tentativa, iniciativa, organização ou preparação desse tipo teria necessariamente de avançar atravessando as etapas da evolução histórica. E teria necessariamente de avançar atravessando essas etapas. E essas etapas jamais poderiam permanecer ocultas aos companheiros e associados constantes de qualquer homem. Se a vida de Hazrat (s.a.) tivesse avançado atravessando essas etapas, centenas de pessoas em Meca teriam dito: “Sabíamos que esse homem um dia faria alguma reivindicação sensacional.” Mas a história testemunha que, embora os habitantes de Meca tenham levantado contra Hazrat (s.a.) todas as outras acusações possíveis, jamais levantaram essa acusação.

Por outro lado, os hadith que descrevem as circunstâncias do início da revelação mostram que o próprio Hazrat (s.a.) não desejava receber a profecia, nem a esperava ou aguardava; ao contrário, deparou-se subitamente com esse acontecimento de maneira completamente inesperada e inconcebível. Depois de seu primeiro encontro com Jibril (a.s.) e da inauguração de sua missão profética mediante a revelação dos primeiros versículos da Surata al-Alaq, Hazrat (s.a.) chegou em casa tremendo, vindo da caverna de Hira. Então disse à família: “Cubram-me. Cubram-me.” Depois de algum tempo, quando o estado de medo havia diminuído um pouco, contou tudo à sua esposa, Khadija (r.a.), e disse: “Temo que eu vá morrer.” Khadija (r.a.) respondeu imediatamente: “Nunca! Allah jamais o desonrará. Você mantém os laços de parentesco, ajuda os necessitados e desamparados, honra os hóspedes e está sempre pronto a colaborar em toda boa ação.” Em seguida, levou Hazrat (s.a.) até Waraqa ibn Nawfal. Waraqa era primo de Khadija (r.a.), um eminente erudito do Povo do Livro e um homem sincero. Depois de ouvir de Hazrat (s.a.) o relato de tudo o que havia acontecido, disse tranquilamente: “O quê? Eles me expulsarão daqui?” Hazrat (s.a.) perguntou: “O quê? Eles me expulsarão daqui?” Waraqa respondeu: “Sim. Sempre que alguém trouxe no passado algo semelhante ao que você trouxe, seu próprio povo imediatamente se tornou seu inimigo.”

Quando uma pessoa simples se vê inesperadamente diante de um acontecimento extremamente extraordinário e anormal, a transformação que naturalmente pode ocorrer nela está perfeitamente retratada neste episódio. Se o Mensageiro de Allah (s.a.) já tivesse a intenção de tornar-se profeta, se pensasse que alguém como ele deveria ser profeta e, aguardando essa profecia em meditação solitária, permanecesse ansioso, pensando em quando o anjo viria levar-lhe uma mensagem, então, ao ocorrer o episódio da caverna de Hira, teria saltado de alegria, descido a montanha exultante de felicidade e orgulho, ido diretamente ao povo e anunciado em voz alta sua profecia. Mas onde estava aquela alegria, e onde estava aquela voz altiva? Ali, ele se deitou depois de se envolver em um cobertor. Quando sua mente se acalmou um pouco, contou tudo à esposa em voz baixa. Disse-lhe: “Hoje, sozinho na caverna de Hira, deparei-me com esta calamidade. Não sei o que será de mim. Sinto que minha vida está em perigo.” Nem é preciso dizer quão diferente isso é da reação que se esperaria de alguém que aspirasse à profecia.

Ninguém pode conhecer melhor do que uma esposa a vida, o caráter e o modo de pensar de seu marido. Se Khadija (r.a.) soubesse de antemão que seu marido aspirava à profecia e passava o tempo contando as horas, esperando a chegada do anjo, não teria respondido daquela maneira. Teria respondido de outro modo. Teria dito: “Por que está assustado? Você finalmente obteve aquilo por que ansiava há tanto tempo. Agora vá e comece o negócio de mestre e discípulos. Estou me preparando para administrar as oferendas e os donativos que chegarem.” Mas, à luz do conhecimento que havia adquirido da vida de Hazrat (s.a.) durante quinze anos de vida conjugal, compreendeu em um instante que, qualquer que fosse o visitante que pudesse chegar a um homem tão honesto e altruísta, não poderia ser Satanás, nem Allah poderia submetê-lo a alguma calamidade grave. Na verdade, aquilo que ela viu era inteiramente verdadeiro.

A situação de Waraqa ibn Nawfal era igualmente assim. Ele não estava atrás deles. Era parente do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seu cunhado muito próximo. Como erudito cristão, sabia o que eram a profecia, o Livro e a revelação, e tinha a capacidade de distinguir o genuíno das coisas artificiais e inventadas. Por ser alguns anos mais velho que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), havia observado toda a sua vida desde a infância. Ao ouvir dele próprio o relato do acontecimento na caverna de Hira, também declarou imediatamente: “Este visitante é certamente o anjo que costumava trazer a revelação ao Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele). Pois aqui também prevaleciam circunstâncias semelhantes às do Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele).” Era um homem simples, de caráter completamente perfeito e imaculado. Sua mente era inteiramente transparente e livre. Longe de desejar a profecia, ele jamais sequer imaginara recebê-la. De repente, em pleno estado de consciência e lucidez, viu-se publicamente diante desse acontecimento extraordinário e sem precedentes. Por isso, Waraqa pôde concluir, sem qualquer reflexão, que ali não havia nenhuma ilusão dos desejos nem qualquer engano de Satanás. Pelo contrário, aquele homem honesto e veraz, que ele conhecia de longa data, vira exatamente aquilo que havia visto, livre de qualquer vontade ou aspiração própria; havia contemplado a verdadeira realidade. A conclusão de Waraqa era tão exata e irrefutável quanto um cálculo matemático.

De fato, no contexto da completa honestidade, veracidade e absoluta iliteracia de sua vida anterior à profecia, a revelação ter sido enviada de maneira tão repentina e inesperada constitui uma prova tão brilhante da veracidade da profecia que é impossível negá-la para qualquer pessoa dotada de conhecimento real. O Alcorão apresenta isso em vários lugares como uma prova da profecia. Por exemplo, na Surata Yunus, Allah diz:

(Árabe*******************************************na página 117 do PDF)

“Ó Profeta! Dize: Se Allah não quisesse, eu jamais poderia recitar este Alcorão para vós, nem vos informar a seu respeito. Passei entre vós uma parte considerável da minha vida. Será que não compreendeis nem mesmo isso?” — (versículo 16)

Na Surata Ash-Shura, Allah diz:

(Árabe*******************************************na página 114 do PDF)

“Ó Profeta! Tu não sabias de modo algum o que era o Livro nem o que era a fé. Porém, transformei esta revelação em uma luz. Por meio dessa luz, guio ao caminho correto quem desejo entre os Meus servos.” — (versículo 52)

Para uma explicação mais detalhada sobre este assunto, consulte Tafhim al-Qur’an, Surata Yunus, nota 21; Surata Al-Ankabut, notas 88–92; e Surata Ash-Shura, nota 84.

A vida pura e imaculada do Mensageiro de Allah (s.a.), a influência extraordinária de seus ensinamentos sobre o caráter dos nobres Companheiros e os temas elevados tratados pelo Alcorão — tudo isso constitui sinais extremamente luminosos. Para quem conhece as biografias dos profetas e os ensinamentos dos Livros celestiais, é muito difícil nutrir dúvidas.

(Árabe*******************************************na página 118 do PDF)

“(Ele é) um Mensageiro enviado por Allah, que recita as Escrituras purificadas, nas quais se encontram escritos verdadeiros e corretos.” — (Surata Al-Bayyina: 2–3)

Aqui, a própria pessoa do Mensageiro de Allah (s.a.) é apresentada como uma prova luminosa. Pois sua vida, antes e depois da profecia; a apresentação de um Livro como o Alcorão, apesar de ser iletrado; a extraordinária revolução ocorrida na vida dos crentes por influência de seus ensinamentos e sua companhia; a crença e a doutrina inteiramente racionais; a adoração extremamente perfeita e pura; o caráter mais nobre e imaculado; e o ensino dos melhores princípios e normas para a vida humana — tudo isso constitui uma prova clara de que ele é o Mensageiro de Allah. A perfeita harmonia e concordância entre as palavras e as ações de Hazrat (s.a.), bem como a continuidade de seu trabalho de da‘wah com coragem inabalável e dedicação firme, enfrentando toda espécie de oposição e obstáculos — essas características incomparáveis são sinais evidentes de que ele é o Mensageiro de Allah.

O Alcorão é uma obra milagrosa e uma prova da profecia

(Árabe*******************************************na página 118 do PDF)

“Sem dúvida, este Livro foi revelado pelo Senhor dos mundos. Ou será que dizem: ‘Ele o inventou’? Não. Pelo contrário, ele é a verdade proveniente de teu Senhor.” — (Surata As-Sajdah: 2–3)

Aqui, não se afirma apenas que este Livro foi revelado pelo Senhor dos mundos. Com ainda maior ênfase, afirma-se também que ele é, sem dúvida, o Livro de Allah. Não há o menor espaço para dúvida de que este Livro foi revelado por Allah. Se essa afirmação categórica for lida à luz do contexto real da revelação do Alcorão e da exposição anterior e posterior do próprio Alcorão, compreender-se-á que, ao mesmo tempo, nela é apresentada uma alegação e demonstrada sua prova. Essa prova não era desconhecida dos habitantes de Meca diante dos quais a alegação foi apresentada. Eles conheciam toda a vida daquele que recitava este Livro, tanto a vida anterior quanto a posterior ao início de sua recitação. Eles podiam perceber a clara diferença entre a linguagem e o estilo de expressão deste Livro e a linguagem e o estilo próprios de Muhammad (s.a.). Compreendiam claramente que a maneira de falar de uma mesma pessoa não poderia apresentar duas formas tão diferentes. Observavam a beleza literária absolutamente milagrosa deste Livro. E, por serem falantes da mesma língua, podiam ver com seus próprios olhos que todos os poetas e literatos da Arábia eram incapazes de produzir uma literatura semelhante à sua. — [O Alcorão foi apresentado com este desafio: “(Árabe**** na nota) “Trazei, então, uma surata semelhante a ele.” Este desafio tornou ainda mais evidente o caráter milagroso do Alcorão. Incapazes de responder ao desafio, os opositores reconheceram silenciosamente que essa literatura não era obra humana. Allah declarou o caráter milagroso do Alcorão uma prova da veracidade da profecia de Hazrat (s.a.). — (Os compiladores)] Eles também não desconheciam a enorme diferença entre a linguagem dos poetas, literatos, oradores e sacerdotes da Arábia e a linguagem do Alcorão, nem o nível elevadíssimo dos temas apresentados no Alcorão. Não encontravam sequer o menor vestígio do egoísmo que está presente na literatura e nas ações de um impostor na literatura do Alcorão e na da‘wah daquele que o transmitia. Mesmo examinando com microscópio, não conseguiam descobrir que tipo de pessoas, entre a nação, estava sendo atraído pela da‘wah de Hazrat (s.a.) — que, ao reivindicar a profecia, convidava para si mesmo, sua família, sua tribo ou sua nação —, enquanto podiam ver com os próprios olhos a grande revolução que estava ocorrendo na vida dessas pessoas. Tudo isso constituía uma prova irrefutável a favor da reivindicação da profecia. Nesse contexto, bastava afirmar que não havia espaço para dúvida de que este Livro havia sido revelado pelo Senhor dos mundos.

As profecias da Torá e do Evangelho sobre o Profeta universal

Uma importante declaração de Jesus, filho de Maria

(Árabe*******************************************na página 120 do PDF)

“Lembra-te do que disse Jesus, filho de Maria: ‘Ó descendentes de Israel! Fui enviado a vós como Mensageiro, confirmando a veracidade da Torá que veio antes de mim’.” — (Surata As-Saff, 6)

Esta afirmação pode ser interpretada de três maneiras, e as três interpretações são corretas. A primeira é: por que eu não trouxe uma religião diferente e inovadora? Eu trouxe a mesma religião que Moisés trouxe. Não vim para refutar a Torá; pelo contrário, vim apoiá-la e declarar sua veracidade. É prática eterna de todo Mensageiro de Deus apoiar o Mensageiro anterior e declarar sua veracidade. Eu também sigo essa prática. Portanto, não há razão para hesitardes em reconhecer que sou Mensageiro.

A segunda interpretação é que a profecia da Torá sobre a minha vinda como Mensageiro foi confirmada ou cumprida pela minha missão. Portanto, em vez de vos opordes a mim, deveríeis acolher-me, dizendo: ‘Chegou o Profeta cuja vinda havia sido anunciada pelos profetas anteriores.’

Quando se lê a afirmação em questão do Alcorão em conjunto com o que vem depois, a terceira interpretação que se apresenta é esta: declaro verdadeira a profecia da Torá sobre a auspiciosa vinda de Ahmad (que a paz esteja com ele), o Mensageiro de Deus, e eu mesmo profetizo sua vinda. À luz desta terceira interpretação, a declaração de Jesus (que a paz esteja com ele) equivale a apoiar e confirmar a boa-nova que Moisés (que a paz esteja com ele) havia anunciado ao seu povo sobre o advento do Profeta universal.

A clara profecia da Torá

Nesse discurso dirigido ao povo, Moisés (a.s.) disse: “O teu Senhor fará surgir para ti, dentre o teu próprio povo, isto é, dentre os teus próprios irmãos, um profeta semelhante a mim. Ouvi-o. Essa vinda ocorrerá conforme o pedido que fizeste ao teu Senhor no dia da assembleia, quando estavas em Horebe. Tu disseste: ‘Que eu não volte a ouvir a voz do meu Senhor, nem torne a ver este fogo terrível, para que eu não morra.’ O Senhor me disse: ‘Eles têm razão no que dizem. Farei surgir para eles, dentre os seus irmãos, um profeta; porei as minhas palavras em sua boca, e ele lhes dirá apenas o que eu lhe ordenar. E daquele que não ouvir as palavras que ele disser em meu nome, exigirei contas’.” — (Deuteronômio, capítulo 18, versículos 15–19)

Esta é uma profecia explícita da Torá. Ela não se aplica a ninguém além de Muhammad (s.a.w.). Nela, Moisés (a.s.) comunica ao seu povo a promessa de Deus: “Farei surgir para ti, dentre os teus irmãos, um profeta.” É sabido que, quando se diz “irmãos” de uma nação, não se está falando de uma família ou tribo daquela própria nação. “Irmãos” de uma nação significa outra nação da mesma linhagem. Se o sentido fosse que surgiria um profeta dentre os próprios filhos de Israel, teria sido dito: “Farei surgir para vós, dentre vós mesmos, um profeta.” Portanto, os irmãos dos filhos de Israel só podem ser, necessariamente, os filhos de Ismael, pois estes são da mesma linhagem dos filhos de Israel por serem descendentes de Abraão (a.s.). Além disso, há outra razão pela qual essa profecia não pode se aplicar a nenhum profeta dos filhos de Israel: depois de Moisés (a.s.), não veio apenas um profeta entre os filhos de Israel; vieram muitos profetas. Toda a Bíblia contém relatos sobre esses profetas.

Há ainda outro aspecto digno de atenção nessa profecia. O profeta que virá será um profeta semelhante a Moisés (a.s.). Evidentemente, isso não significa semelhança na aparência ou na história de vida. Nesse aspecto, nenhuma pessoa é igual a outra. Também não significa apenas a semelhança no fato de ser profeta, pois todos os profetas que vieram depois de Moisés (a.s.) eram semelhantes a ele nesse aspecto. Portanto, nenhum profeta específico pode reivindicar a característica de ser semelhante a Moisés (a.s.) apenas por isso. Depois de excluir esses dois aspectos da semelhança, resta aquele que pode ser considerado uma característica do profeta posterior: uma legislação distinta, isto é, um sistema jurídico diferente. O profeta que vier trará, à semelhança de Moisés (a.s.), um sistema jurídico próprio — esse é o sentido da profecia. Ninguém além de Muhammad (s.a.w.) possui essa característica, pois todos os profetas dos filhos de Israel que vieram antes dele seguiram o sistema jurídico trazido por Moisés (a.s.). Nenhum deles veio com um sistema jurídico diferente.

A validade dessa interpretação das palavras da Torá é demonstrada ainda mais claramente pelas palavras seguintes: “Aquele profeta surgirá conforme o pedido que fizeste ao teu Senhor no dia da assembleia, quando estavas em Horebe. Tu disseste: ‘Que eu não volte a ouvir a voz do meu Senhor, nem torne a ver este fogo terrível, para que eu não morra.’ O Senhor me disse: ‘Eles têm razão no que dizem. Farei surgir para eles, dentre os seus irmãos, um profeta; porei as minhas palavras em sua boca. Ele dirá apenas o que eu lhe ordenar.’” O pedido mencionado aqui, feito quando Moisés (a.s.) recebeu pela primeira vez as determinações da sharia, significa que, se no futuro nos fosse concedida alguma sharia, isto é, algum sistema jurídico, que ela não fosse concedida nas circunstâncias terríveis descritas tanto no Alcorão quanto na Bíblia. (Ver Surata Al-Bácara, versículos 55, 56 e 63; Surata Al-Araf, versículos 155–171; Êxodo, 19:17–18.) Em resposta, Moisés (a.s.) informou aos filhos de Israel que Deus havia atendido a esse pedido. Ele disse: “Farei surgir para eles um profeta por cuja boca proclamarei as minhas palavras.” Ou seja, quando o sistema jurídico fosse concedido no futuro, não se repetiriam as circunstâncias terríveis que haviam surgido no vale do monte Horebe. Ao contrário, ao profeta que recebesse essa responsabilidade seriam simplesmente ensinadas de cor as palavras de Deus, e ele as transmitiria às pessoas. Ao examinar atentamente essa declaração explícita, pode-se afirmar sem dúvida que Muhammad (s.a.w.) é o verdadeiro alvo dessa profecia. Depois de Moisés, somente ele recebeu uma sharia independente. Quando a sharia foi concedida ao pé do monte Horebe, houve uma grande reunião popular dos filhos de Israel; porém, quando a sharia foi concedida a Muhammad (s.a.w.), não houve uma assembleia semelhante. E as circunstâncias que surgiram ali jamais se repetiram quando os mandamentos da sharia foram promulgados.

A boa-nova do advento de Muhammad no Evangelho

O Alcorão menciona da seguinte forma a boa-nova sobre o advento de Muhammad anunciada por Jesus (a.s.):

(Árabe*******************************************na página 122 do PDF)

“Recorda as palavras de Jesus, filho de Maria. Ele disse: ‘Ó filhos de Israel! Eu vim a vós como Mensageiro de Deus, confirmando a veracidade da Torá que veio antes de mim, e anunciando a boa-nova de um Mensageiro chamado Ahmad, que virá depois de mim’.” — (Surata As-Saf: 6)

Este é um versículo importante do Alcorão. Os opositores do Islã travaram muitos debates sobre este versículo. Também tentaram fazer interpretações criminosamente distorcidas. Isso porque nele se afirma que Hazrat Jesus (a.s.) anunciou claramente, mencionando o nome de Hazrat Rasulullah (s.a.w.), as boas-novas de sua vinda. —[Além disso, há profecias sobre a vinda de Hazrat (s.a.w.) em várias passagens da Bíblia como um todo. Sobre isso, o Alcorão diz resumidamente:

(Árabe********* na nota)

“O Povo do Livro encontra escrito, na Torá e no Evangelho, aquilo que lhe diz respeito.” —(Surata Al-A‘raf: 147)

Por exemplo, são notáveis as seguintes passagens da Torá e do Evangelho que fazem referência a Muhammad (s.a.w.): Deuteronômio, capítulo 18, versículos 15–19; Evangelho segundo Mateus, capítulo 21, versículos 33–46; Evangelho segundo João, capítulo 1, versículos 10–21; Evangelho segundo João, capítulo 14, versículos 15–17, 25–30; Evangelho segundo João, capítulo 15, versículos 25–26; Evangelho segundo João, capítulo 16, versículos 7–15. 77 — Autores e compiladores.] Por isso, é necessário discutir este assunto com algum detalhe.

Primeiro: “Muhammad” e “Ahmad”: Neste versículo, o nome de Rasulullah (s.a.w.) é mencionado como Ahmad. Ahmad tem dois significados: aquele que mais louva e o mais digno de louvor entre os homens mais louvados. Sabe-se, por hadiths autênticos, que este também era um dos nomes de Hazrat (s.a.w.). No compêndio de hadiths de Muslim e de Abu Dawud al-Tayalisi, é narrado por Hazrat Abu Musa al-Ash‘ari (r.a.) que Hazrat (s.a.w.) disse: (Árabe********) “Eu sou Muhammad, eu sou Ahmad e eu sou Al-Hashir (o reunidor).” Vários hadiths com este sentido, narrados por intermédio de Hazrat Jubair ibn Mut‘im, foram citados pelo Imam Malik, Bukhari, Muslim, Darimi, Tirmidhi e Nasai em seus respectivos compêndios de hadiths. Este nome de Hazrat (s.a.w.) também era conhecido e corrente entre os Companheiros. Um verso do poema de Hassan ibn Thabit é o seguinte:

(Árabe*******************************************na página 123 do PDF)

“Allah, os anjos que se aglomeram ao redor de Seu Trono e os homens santos enviaram bênçãos sobre o bendito Ahmad.” A história também mostra que Hazrat Muhammad (s.a.w.) não era conhecido apenas por esse nome; seu nome Ahmad também era conhecido por todos. Em todo o acervo literário da nação árabe, não se sabe de ninguém, antes de Hazrat (s.a.w.), que fosse conhecido pelo nome Ahmad. Depois de Hazrat (s.a.w.), inúmeros meninos receberam os nomes Ahmad e Ghulam Ahmad. O fato de esse nome ser tão conhecido e famoso por toda a Ummah, desde a época da profecia até hoje, é a maior prova disso. Se esse não fosse o nome de Hazrat (s.a.w.), então, de qual Ahmad aqueles que deram aos próprios filhos o nome Ghulam Ahmad consideram que esses filhos são servos?

Segundo: Hazrat Messias, Hazrat Elias (a.s.) e “Aquele Profeta”: O Evangelho segundo João (Yuhanna) testemunha que, na época da vinda de Hazrat Jesus (a.s.), os Filhos de Israel aguardavam três pessoas. Eram o Messias, Elias (isto é, o reaparecimento de Hazrat Elias (a.s.)) e ‘aquele Profeta’.

“E Yuhanna [Hazrat Yahya (a.s.)] deu testemunho de que, quando os judeus enviaram sacerdotes de Jerusalém até ele para lhe perguntarem: ‘Quem és tu?’, ele confessou e não negou. Confessou que não era o Messias. Eles lhe perguntaram: ‘Então, quem és tu? És Elias?’ Ele respondeu: ‘Não.’ ‘És tu aquele Profeta?’ Ele respondeu: ‘Não.’ Então lhe disseram: ‘Quem és, então?’ Ele respondeu: ‘Sou a voz de um arauto no deserto: endireitai o caminho de Allah.’ Perguntaram-lhe: ‘Se não és o Messias, nem Elias, nem aquele Profeta, por que reivindicas a profecia?’–(1:19-25)”

Destas palavras fica claro, sem qualquer ambiguidade, que, além do Messias (a.s.) (Jesus) e do profeta Elias (a.s.), os Filhos de Israel aguardavam ainda outro profeta, e esse profeta não era Hazrat Yahya (a.s.). A crença de que esse profeta viria era tão difundida entre os Filhos de Israel que bastava dizer ‘aquele Profeta’ para que todos compreendessem de quem se tratava. Nem sequer era necessário dizer: ‘Aquele cuja vinda foi anunciada na Torá.’ Também se soube, por isso, que a vinda do profeta a quem aludiam estava comprovada de modo irrefutável. Pois, quando Hazrat Yahya (a.s.) foi questionado sobre todas essas coisas, ele não disse: ‘Não virá mais profeta algum. De que profeta estais perguntando?’

III: O conteúdo do Evangelho de João:Vejamos agora as profecias narradas consecutivamente no Evangelho de João (Yuhanna ou Yahya), dos capítulos 14 ao 16:

“E pedirei ao Pai que vos envie outro Consolador, para que permaneça convosco eternamente, isto é, o Espírito da Verdade, que os habitantes do mundo não podem receber, porque não o veem nem o conhecem. Vós o conheceis, pois ele permanece convosco e está em vós.”–(14:16-17)

“Eu vos disse estas coisas enquanto ainda estava convosco. Mas o Consolador, isto é, o Espírito glorioso, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas. E ele vos fará recordar tudo o que vos disse.”–(14:25-26)

‘Depois disso, não vos falarei muito mais, pois o príncipe deste mundo está chegando. Ele nada tem em mim.’–(14:30)

“Mas, quando vier o Consolador, que vos enviarei da parte do Pai, isto é, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho a meu respeito.”=(15:26)

“Mas digo-vos a verdade: é melhor para vós que eu vá, pois, se eu não for, o Consolador não virá até vós; mas, se eu for, eu o enviarei até vós.”–(16:7)

“Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar agora. Porém, quando ele, isto é, o Espírito da verdade, vier, guiar-vos-á a todo o caminho da verdade; pois não falará por iniciativa própria. Falará somente o que ouvir e vos anunciará as coisas futuras. Ele manifestará a minha glória, pois receberá de mim e vos anunciará. Tudo quanto o Pai tem é meu. Por isso vos disse que ele receberá de mim e vos anunciará” — (16:12-15_

Quarto: O significado das profecias acima:Para compreender corretamente o sentido das palavras acima, é preciso saber primeiro que Jesus (A.S.) e os habitantes da Palestina de seu tempo falavam o siríaco, uma forma regional da língua aramaica. Já duzentos ou duzentos e cinquenta anos antes do nascimento de Jesus (A.S.), durante o governo da dinastia selêucida, a língua hebraica desaparecera daquela região, sendo substituída pelo siríaco. É verdade que, sob a influência do domínio selêucida e, depois, dos imperadores romanos, a língua grega também penetrou naquela área. Mas isso ficou restrito a uma classe específica. Somente aqueles que ocupavam ou desejavam ocupar diversos cargos na administração governamental e, por isso, se haviam tornado extremamente helenizados, cultivavam a língua grega. O povo comum da Palestina usava uma forma dialetal específica do siríaco. Essa língua era diferente do siríaco hoje falado na região de Damasco. Os habitantes da Palestina eram tão ignorantes da língua grega que, quando o comandante romano Tito discursou aos habitantes de Jerusalém após conquistar a cidade em 70 d.C., foi necessário traduzir seu discurso para o siríaco. Isso mostra que tudo quanto Jesus (A.S.) disse aos seus discípulos foi dito em siríaco.

A segunda coisa que é preciso saber é que todos os quatro Evangelhos incluídos na Bíblia foram escritos por pessoas de língua grega que abraçaram o cristianismo depois da ascensão de Jesus (A.S.). Os relatos das palavras e ações de Jesus (A.S.) chegaram ao conhecimento delas por meio de cristãos de língua siríaca, não por escrito, mas sob a forma de relatos orais. Elas traduziram esses relatos siríacos e os registraram por escrito. Nenhum desses Evangelhos foi escrito antes de 70 d.C. Em particular, o Evangelho de João foi provavelmente escrito um século depois de Jesus (A.S.), na cidade de Éfeso, na Ásia Menor. Além disso, não foi preservado nenhum exemplar original da língua grega em que esses Evangelhos foram escritos inicialmente. Entre os manuscritos gregos recolhidos de vários lugares antes da invenção da imprensa, nenhum é anterior ao século IV. Por isso, é difícil dizer quantas alterações foram feitas nesses Evangelhos ao longo de trezentos anos. Ademais, o fato de os cristãos terem considerado legítimo fazer alterações nos Evangelhos conforme a própria vontade torna a questão ainda mais duvidosa. O autor do artigo intitulado “Bíblia”, da Encyclopaedia Britannica, afirma:

“Foram feitas alterações significativas e deliberadas nos Evangelhos. Por exemplo, em alguns lugares, extensos trechos de outras fontes foram incorporados literalmente aos Evangelhos. … Essas alterações foram feitas deliberadamente. Aqueles que encontravam em algum lugar uma passagem para incluí-la no texto original e se habituavam a considerar que tinham o direito de incorporá-la quando ela melhorava a qualidade da obra ou a tornava mais instrutiva foram os que fizeram esse tipo de alteração. Vários acréscimos foram feitos já no século II, mas não se sabe de onde foram obtidos.”

Nesse contexto, é difícil afirmar com certeza se as palavras de Jesus (A.S.) que encontramos nos Evangelhos foram citadas exatamente como foram proferidas ou se sofreram alguma alteração.

A terceira questão importante é que, mesmo depois de os muçulmanos estabelecerem seu domínio na Palestina, a língua dos cristãos dali continuou sendo o siríaco por quase trezentos anos. No século IX cristão, o árabe substituiu o siríaco. As informações sobre o cristianismo obtidas pelos eruditos muçulmanos dos três primeiros séculos por meio desses habitantes da Palestina de língua siríaca são mais confiáveis do que as informações obtidas por aqueles que as receberam após sucessivas traduções do siríaco para o grego e depois do grego para o latim. Pois é muito mais provável que as palavras originais, proferidas por Jesus (A.S.) em siríaco, tenham permanecido intactas entre eles.

Cinco: Ele será o líder do mundo inteiro:À luz dos fatos incontestáveis acima, deve-se considerar que, nas declarações citadas do Evangelho de João, Jesus (A.S.) anuncia um profeta que viria depois dele. A respeito dele, diz que será o líder do mundo inteiro, que “permanecerá para sempre”, mostrará todos os caminhos da verdade e dará testemunho em favor dele próprio [de Jesus (A.S.)]. Nas declarações de João, expressões como “Espírito glorioso” e “Espírito da verdade” foram mencionadas, complicando o sentido original. Apesar disso, ao ler essas declarações com profunda atenção, fica claro que aquele cuja vinda foi anunciada não é um espírito, mas um ser humano, uma pessoa específica. O ensinamento dessa pessoa será universal, abrangente e permanecerá até o Dia do Juízo. Para essa pessoa específica foi usada, na tradução urdu, a palavra “Madadgar” (auxiliador). Os cristãos afirmam enfaticamente que se trata de Paracletus, mas até os próprios eruditos cristãos ficaram confusos ao determinar seu significado. Na língua grega original, a palavra Paracleto foi usada com vários sentidos: chamar para algum lugar, chamar em busca de ajuda, ameaçar ou advertir, exortar, inspirar, suplicar, implorar e orar. Além disso, essa palavra também possui vários sentidos helênicos: consolar, acalmar e encorajar. Em nenhum dos lugares em que aparece na Bíblia qualquer desses sentidos se ajusta. O estudioso da Bíblia Orígenes traduziu-a em alguns lugares por Consolator e, em outros, por Deprecator, mas os demais comentaristas da Bíblia rejeitaram ambas as traduções. Primeiro, porque esse sentido não é correto do ponto de vista da gramática grega. Segundo, porque esse sentido não funciona nas frases em que a palavra foi usada. Alguns outros tradutores traduziram-na por Teacher. Contudo, esse sentido também não pode ser aceito com base no uso da língua grega. Tertuliano e Agostinho traduziram-na por Advocate; outros a traduziram por Assistant, alguns por Comforter e outros ainda por Consoler (ver Encyclopaedia of Biblical Literature: verbete “Paracletes”).

O interessante agora é que existe outra palavra na própria língua grega: Pariclytos, que significa “louvado”. É exatamente um sinônimo de “Muhammad”. Sua notável semelhança de pronúncia com Paractetus é digna de nota. Não seria de admirar que os eruditos cristãos, acostumados a alterar livremente seus livros religiosos conforme seus próprios caprichos, ao considerarem essa palavra da profecia mencionada por João contrária às suas crenças e doutrinas, tivessem feito uma pequena alteração em sua grafia. Para verificar isso, como não existe em lugar algum o Evangelho grego original escrito por João, pode-se investigar qual dessas duas palavras foi realmente utilizada nele.

Seis: Munhamanna:Contudo, mesmo que se soubesse qual palavra João realmente usou em grego, não seria possível chegar a uma conclusão sobre o assunto. Pois, qualquer que tenha sido o texto que ele escreveu, ele não passava de uma tradução. Já dissemos que a língua de Jesus (que a paz esteja sobre ele) era o siríaco palestino. Portanto, qualquer palavra que ele tenha usado em sua profecia deveria ser uma palavra siríaca. Felizmente, encontramos essa palavra siríaca original na Sira de Ibn Hisham. Ao mesmo tempo, também ficamos sabendo por Ibn Hisham qual era seu equivalente grego. Citando a autoridade de Muhammad ibn Ishaq, Ibn Hisham transcreveu a tradução completa dos versículos 23 a 27 do capítulo 15 e do primeiro versículo do capítulo 16 do Evangelho de Yuhannas (Yuhanna, isto é, João). Nessa tradução, em vez da palavra grega “Paráclito”, foi usada a palavra siríaca Sunhamanna. Em seguida, Ibn Ishaq ou Ibn Hisham explicou que a palavra siríaca Munhamanna significa Muhammad em árabe e Paráclito em grego. — (Ibn Hisham, volume I, p. 248).

É importante observar que, historicamente, até o século IX o siríaco era a língua comum dos habitantes da Palestina. Essa região estava sob domínio islâmico desde a primeira metade do século VII. Ibn Ishaq faleceu em 768 e Ibn Hisham em 828. Ou seja, durante a vida de ambos, os cristãos da Palestina falavam siríaco, e nenhum dos dois teria tido qualquer dificuldade para se comunicar com os cristãos de sua própria terra. Além disso, naquela época, milhões de cristãos de língua grega também viviam nas áreas sob domínio muçulmano. Por isso, não lhes era difícil saber qual palavra grega tinha o mesmo significado que determinada palavra siríaca. Agora, se a palavra siríaca Munhamanna foi usada na tradução citada por Ibn Ishaq, e se Ibn Ishaq ou Ibn Hisham explicou que seu equivalente em árabe era Muhammad e em grego, Paráclito, então não resta dúvida de que Jesus (que a paz esteja sobre ele) anunciou a vinda de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), pronunciando seu nome. Ao mesmo tempo, ficamos sabendo que a palavra originalmente usada no Evangelho grego de João era Pariclytos. Mais tarde, os eruditos cristãos a modificaram para Paracletos.

Sete: O testemunho do Negus:Uma prova histórica ainda mais antiga é o relato de Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre a Hégira para a Abissínia. Quando o Negus convocou à corte os emigrantes muçulmanos que haviam chegado à Abissínia e ouviu da boca de Jafar, filho de Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele), um relato detalhado sobre os ensinamentos e os princípios do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), disse:

(Árabe******************************************na página 127 do PDF)

“Saúdo a vós e ao grande homem de cuja presença viestes. Testemunho que ele é o Mensageiro de Allah. Ele é aquele a respeito de quem mencionamos no Evangelho.” Esse acontecimento também foi narrado em diversos hadiths por Jafar (que Allah esteja satisfeito com ele) e Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela). Isso mostra que, já no início do século VII da era cristã, o Negus sabia que Jesus (que a paz esteja sobre ele) havia profetizado a vinda de um profeta. Mostra também que o Evangelho fornecia uma identificação tão clara desse profeta futuro que o Negus não teve a menor hesitação em compreender que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era esse profeta. Contudo, esse relato não permite saber se o Negus tomou conhecimento dessa profecia de Jesus (que a paz esteja sobre ele) por meio do Evangelho de João ou se havia, naquela época, algum outro meio de conhecê-la.

Oito: O Evangelho de Barnabé:Os quatro Evangelhos que a Igreja cristã estabeleceu como confiáveis e reconhecidos (Evangelhos conciliares) não são, na realidade, meios confiáveis nem mesmo para conhecer a vida de Jesus (que a paz esteja sobre ele) e quais eram seus verdadeiros ensinamentos e princípios, quanto mais para conhecer as profecias de Jesus (que a paz esteja sobre ele) a respeito de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Pelo contrário, o meio mais confiável e fidedigno encontra-se justamente no Evangelho de Barnabé, que a Igreja cristã classifica como ilegal e suspeito. Os cristãos tomaram muitas medidas para manter esse livro oculto. Durante centenas de anos, ele desapareceu do mundo. No século XVI, havia apenas uma cópia de sua tradução italiana na biblioteca do papa Sisto (Sixtus). Contudo, não era permitido a ninguém lê-la. No início do século XVIII, ela caiu nas mãos de um homem chamado John Toland. Depois, passando de uma pessoa para outra, chegou à Biblioteca Imperial de Viena em 1738. Em 1907, uma tradução inglesa dessa cópia foi impressa pela Clarendon Press, de Oxford. Mas, logo após sua impressão, parece que o mundo cristão percebeu que esse livro estava prestes a destruir os fundamentos da religião instituída em nome de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Por isso, as cópias impressas foram feitas desaparecer por meios astuciosos. Depois disso, esse Evangelho não voltou a ser publicado. No século XVIII, ainda era possível encontrar em alguns lugares outra cópia da mesma tradução italiana, vertida para o espanhol. George Sale mencionou essa cópia no prefácio de sua tradução inglesa do Alcorão. Mas ela também desapareceu em algum lugar. Hoje, não há qualquer vestígio dela. Tive a oportunidade de ver uma fotocópia da tradução inglesa publicada por Oxford e a li minuciosamente. Minha impressão é que se trata de um tesouro inestimável. Mas os cristãos, movidos apenas por obstinação e teimosia, privaram-se dele.

Sempre que o Evangelho de Barnabé é mencionado nos livros cristãos, ele é rejeitado como falso e forjado, sob a alegação de que talvez algum muçulmano o tenha escrito e falsamente atribuído a Barnabé; mas isso é uma mentira descarada. Neste Evangelho há, em vários trechos, profecias claras sobre Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) (Há texto ilegível na primeira linha da página 129**********************) É a essa mentira que se recorreu. Em primeiro lugar, basta ler este Evangelho para compreender claramente que ele jamais poderia ter sido escrito por um muçulmano. Em segundo lugar, se tivesse sido escrito por algum muçulmano, teria tido ampla circulação na sociedade muçulmana, e haveria muitas referências a ele nos livros dos sábios muçulmanos. Contudo, a realidade é que, antes da publicação da introdução à tradução inglesa de George Sale (Há texto ilegível no final da quarta linha da página 129******) os muçulmanos nem sequer sabiam que tal Evangelho havia existido. Autores como At-Tabari, Al-Yaqubi, Al-Masudi, Al-Biruni, Ibn Hamza e Ibn Taymiyya possuíam, entre os muçulmanos, conhecimentos particularmente profundos sobre as escrituras cristãs. No entanto, em nenhuma de suas obras se encontra sequer a menor indicação do Evangelho de Barnabé nas discussões sobre a doutrina cristã. A relação mais confiável dos livros existentes nas bibliotecas do mundo muçulmano é a de Ibn An-Nadim, em seu ‘Al-Fihrist’, e a de Haji Khalifa, em seu ‘Kashf az-Zunun’. Contudo, nenhum dos dois faz qualquer menção a ele. Até o século XIX, nenhum erudito muçulmano sequer pronunciou o nome do Evangelho de Barnabé. A terceira e maior prova de sua falsidade é que o Evangelho de Barnabé estava incluído na lista de livros religiosos que continham crenças errôneas e doutrinas enganadoras, elaborada durante o pontificado do papa Gelásio I, 75 anos antes do nascimento do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), e cuja leitura foi proibida por meio de um decreto clerical. Surge então a pergunta: de onde teriam vindo os muçulmanos, naquela época, para produzir esse falso Evangelho?

Nove: O que é o Evangelho de Barnabé? Antes de citar as profecias de Jesus (que a paz esteja sobre ele) acerca do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), presentes no Evangelho de Barnabé, é necessário apresentar uma breve descrição desse Evangelho, para que se possa compreender sua importância e também entender por que os cristãos são tão hostis a ele.

Nenhum dos autores dos quatro Evangelhos que foram incluídos na Bíblia como legítimos e confiáveis era um discípulo de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Além disso, nenhum autor de qualquer Evangelho afirmou que havia reunido o conteúdo a partir de informações obtidas dos discípulos de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Tampouco deram qualquer explicação sobre as fontes das quais recolheram suas informações. Assim, não se sabe se aqueles de quem obtiveram as informações foram testemunhas diretas dos acontecimentos narrados e ouvintes das palavras citadas, ou se estas chegaram ao seu conhecimento por algum outro meio. Em contrapartida, o autor do Evangelho de Barnabé afirma: “Eu sou um dos doze companheiros mais antigos de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Permaneci com ele do início ao fim, e neste livro registro tudo o que ouvi com meus próprios ouvidos e vi com meus próprios olhos.” E não apenas isso. No epílogo da obra, ele diz: “Ao se despedir deste mundo, Jesus (que a paz esteja sobre ele) me disse que era minha responsabilidade eliminar os mal-entendidos que haviam surgido entre as pessoas a respeito dele e informar-lhes os fatos verdadeiros.”

Quem era esse Barnabé? No livro dos Atos dos Apóstolos, da Bíblia, menciona-se repetidamente um homem de origem judaica e cipriota com esse nome. Seu contributo para a propagação e expansão do cristianismo e para ajudar e apoiar os seguidores de Jesus (que a paz esteja sobre ele) é muito elogiado. Contudo, em nenhum lugar se diz quando ele adotou o cristianismo, e seu nome também não aparece na lista dos doze companheiros mais antigos apresentada nos três Evangelhos. Portanto, não é possível afirmar se o Barnabé da Bíblia foi realmente o autor deste Evangelho ou se foi outra pessoa. A lista dos doze companheiros apresentada por Mateus e Marcos difere da lista apresentada por Barnabé em apenas dois nomes. Um deles é Tomé. Barnabé colocou seu próprio nome em vez do de Tomé. O segundo é Simão, o Cananeu. No lugar de Barnabé, é mencionado Judas, filho de Jacó. Esse segundo nome também aparece no Evangelho de Lucas. Por isso, não seria errado supor que, em algum momento posterior, o nome de Tomé tenha sido inserido apenas para retirar Barnabé da lista dos doze companheiros. Com isso, abrir-se-ia o caminho para ignorar o Evangelho de Barnabé. Na realidade, aos olhos dos eruditos cristãos, alterações desse tipo nas escrituras religiosas não constituíam um ato ilegal.

Se alguém ler o Evangelho de Barnabé com espírito imparcial e olhar generoso, comparando-o com os quatro Evangelhos correntes, não poderá deixar de considerá-lo muitas vezes superior a eles. Nele, a vida de Jesus (que a paz esteja sobre ele) é narrada com muito mais detalhes. Pelo modo da narração, parece que alguém realmente presenciava todos os acontecimentos e estava pessoalmente envolvido neles de alguma maneira. Em comparação com as histórias fragmentárias dos quatro Evangelhos, seu relato histórico é muito mais ordenado e bem estruturado. Isso também facilita muito a compreensão da sequência dos acontecimentos. Os ensinamentos de Jesus (que a paz esteja sobre ele) são apresentados neste Evangelho de forma muito mais clara e tocante do que nos outros quatro. As discussões sobre o ensino da unicidade de Deus (tawhid), a refutação do politeísmo (shirk), os atributos de Deus, o incentivo à adoração e as nobres virtudes morais são nele muito vigorosas, bem fundamentadas e detalhadas. Das parábolas instrutivas no contexto das quais Jesus (que a paz esteja sobre ele) apresentou esses ensinamentos, os outros quatro Evangelhos não contêm sequer um por cento. Também se aprende com grande riqueza de detalhes, a partir deste Evangelho, com que discernimento e habilidade Jesus (que a paz esteja sobre ele) ensinava aos seus discípulos a religião de Deus e lhes proporcionava treinamento prático. Quem tiver o mínimo conhecimento da linguagem, do estilo narrativo e do caráter de Jesus (que a paz esteja sobre ele) será obrigado, ao ler este Evangelho, a reconhecer que ele não é uma história inventada por alguém posterior; pelo contrário, nele Jesus (que a paz esteja sobre ele) apresenta sua verdadeira natureza com muito mais clareza do que nos quatro Evangelhos correntes. E as contradições entre suas diferentes declarações, encontradas nos quatro Evangelhos, não deixam neste Evangelho sequer o menor vestígio.

A maneira como a vida e os ensinamentos de Jesus estão descritos neste Evangelho parece exatamente a vida e o ensino de um verdadeiro profeta. Ele se apresentou como profeta. Declarou a veracidade de todos os profetas e Livros anteriores e afirmou claramente que, além do ensinamento dos profetas, não há outro caminho para alcançar a verdade. Quem ignora os profetas, na realidade ignora o próprio Deus. Ele pregou, tal como todos os demais profetas, as mesmas crenças acerca da unicidade de Deus, da missão profética e da Vida Futura. Ensinou a oração, o jejum e o zakat. Pelas repetidas descrições que Barnabé fez de suas orações, sabe-se que, assim como em nossa época, ele orava nos horários do fajr, zuhr, asr, maghrib, isha e tahajjud, e sempre fazia a ablução antes da oração. Além dos demais profetas, declarou também que Davi e Salomão eram profetas, embora os judeus e os cristãos tenham excluído esses dois da lista dos profetas. Segundo este Evangelho, ele reconheceu Ismael como o zabih — aquele que foi preparado para ser sacrificado após ser degolado — e fez um erudito judeu admitir que o profeta Israel recorreu inutilmente à astúcia e ao engano ao declarar Isaac como zabih, quando, na realidade, Ismael é que era o zabih. O ensinamento sobre a Vida Futura, a Ressurreição e o Paraíso e o Inferno, expresso neste Evangelho, aproxima-se do ensinamento do Alcorão.

Décimo: Por que os cristãos se opõem ao Evangelho de Barnabé:A presença frequente, no Evangelho de Barnabé, de claras profecias sobre a vinda do Mensageiro de Deus não é a única razão pela qual os cristãos passaram a rejeitá-lo. Isso porque eles já haviam rejeitado o Evangelho muito antes do nascimento do Profeta. Para compreender qual é a verdadeira razão de sua insatisfação com ele, é necessário fazer uma discussão um pouco mais detalhada.

Os primeiros seguidores de Jesus reconheciam-no apenas como profeta. Eles seguiam o sistema legal trazido por Moisés, isto é, a Sharia. Em matéria de crença, culto e mandamentos, não se consideravam separados dos demais filhos de Israel. Sua única divergência com os judeus era que, além de reconhecerem Jesus como profeta, também o reconheciam como o Messias, um profeta de posição especial. Os judeus, porém, não queriam reconhecê-lo como Messias. Mais tarde, quando Paulo passou a fazer parte desse grupo, começou a pregar essa religião também entre os romanos, os gregos e outros não judeus e não israelitas; para esse fim, modificou as crenças, os mandamentos e os princípios da religião pregada por Jesus, criando uma religião inteiramente nova. Essa pessoa jamais teve a companhia de Jesus. Pelo contrário, durante sua vida foi seu ferrenho opositor e, por vários anos após sua morte, foi inimigo de seus companheiros. Depois, quando entrou nesse grupo e começou a criar uma nova religião, nem então apresentou ao povo qualquer declaração de Jesus como fundamento dela. Tomou apenas suas próprias ideias e imaginações como fundamento. Por trás da criação dessa nova religião havia somente o objetivo de estabelecer uma religião que fosse amplamente aceita por todos os não judeus do mundo. Declarou que os seguidores de Jesus estavam livres de todos os mandamentos da lei judaica. No que dizia respeito à alimentação, aboliu a distinção entre o lícito e o ilícito. Aboliu a circuncisão, que era uma prática especialmente detestada pelos não judeus. Além disso, determinou como dever de fé acreditar que Jesus era uma divindade e o filho de Deus, e que, ao morrer crucificado, havia expiado o pecado original de toda a humanidade. Isso porque os politeístas tendiam precisamente a aceitar tais ideias. Os companheiros mais antigos de Jesus opuseram-se severamente a essas noções recém-introduzidas. Mas, pela porta que Paulo abriu, uma enorme e poderosa corrente de cristãos não judeus entrou no cristianismo. Aquele pequeno grupo não conseguiu de modo algum conter essa corrente. Ainda assim, até o final do terceiro século cristão, não era nada pequeno o número daqueles que não reconheciam Jesus como divindade. Porém, no início do quarto século (352 d.C.), o concílio de Niceia tornou o império cristão sob a influência de Paulo. Durante o reinado do César Teodósio, essa doutrina tornou-se a religião oficial do império. Depois disso, era natural que todos os livros contrários à religião oficial fossem rejeitados e que somente os livros favoráveis a essa doutrina fossem aceitos. Em 367 d.C., uma carta de Atanásio anunciou pela primeira vez uma lista dos livros aceitos e reconhecidos. Em seguida, em 382 d.C., um concílio presidido pelo papa Dâmaso aprovou essa lista. Depois, no final do século V, o papa Gelásio, ao conceder reconhecimento definitivo a essa lista, anunciou também uma lista dos livros rejeitados. Contudo, nenhum erudito cristão jamais pôde afirmar que Jesus tivesse ensinado qualquer uma das crenças com base nas quais se decidiu quais escrituras seriam aceitas ou rejeitadas, crenças essas pregadas por Paulo. Mesmo entre os Evangelhos incluídos nas escrituras aceitas, não se encontra, nas próprias palavras de Jesus, apoio a nenhuma dessas crenças. O Evangelho de Barnabé foi rejeitado justamente por ser contrário a essas crenças oficiais do cristianismo. Logo no início da obra, seu autor descreve assim o objetivo de sua composição: “Refutar o equívoco daqueles que, vítimas do engano dos demônios, chamam Jesus de filho de Deus, e corrigir também aqueles que consideram desnecessária a circuncisão e tornam lícitos os alimentos proibidos. Paulo também é uma das principais vítimas desse engano satânico”. Barnabé diz que, durante a vida de Jesus, ao presenciarem seus milagres, alguns dos soldados romanos politeístas começaram a chamá-lo de Deus, e outros, de filho de Deus. Gradualmente, isso se espalhou por todos os filhos de Israel como uma doença contagiosa. Jesus ficou profundamente irritado e perturbado com isso. Repetidamente, protestou com veemência contra essa concepção equivocada a seu respeito. Em vez de ir pessoalmente a vários lugares, enviava os discípulos; e, por sua oração, milagres semelhantes aos realizados pelo próprio Jesus também eram realizados pelos discípulos. O objetivo era impedir que as pessoas considerassem Deus ou filho de Deus aquele que realizava milagres. A esse respeito, Barnabé cita os longos discursos proferidos por Jesus contra essa crença equivocada e explica, em vários trechos, quanto Jesus se sentia aflito com a propagação dessa confusão e desse desvio. Barnabé refuta claramente a doutrina pregada por Paulo sobre a morte de Jesus na cruz. Ao relatar acontecimentos que afirma ter visto com os próprios olhos, diz que, quando Judas Iscariotes, depois de receber suborno do principal sacerdote judeu, veio com os soldados para entregar Jesus, quatro anjos, por ordem de Deus, elevaram-no ao alto. Ao mesmo tempo, a aparência e a voz do próprio Judas Iscariotes foram transformadas para serem exatamente como as de Jesus. Assim, em lugar de Jesus, foi ele próprio crucificado. Desse modo, o Evangelho de Barnabé destrói os próprios fundamentos do cristianismo criado por Paulo e apoia plenamente a narrativa do Alcorão. No entanto, essas coisas foram registradas no Evangelho de Barnabé cento e quinze anos antes da revelação do Alcorão, e foi justamente por isso que ele foi rejeitado pelos sacerdotes cristãos.

Décimo primeiro: As profecias detalhadas do Evangelho de Barnabé:Esta discussão deixa claro que o Evangelho de Barnabé é, na realidade, mais fiel e confiável do que os quatro Evangelhos atualmente conhecidos. Nele, os ensinamentos, a biografia e as declarações de Hazrat Jesus (A.S.) foram representados corretamente. Os cristãos tiveram, por meio deste Evangelho, uma rara oportunidade de corrigir suas crenças equivocadas e conhecer os verdadeiros ensinamentos de Hazrat Jesus (A.S.), mas perderam-na por mera obstinação e teimosia. Na verdade, isso é uma grande desventura para eles. De qualquer modo, as profecias de Hazrat Jesus (A.S.) sobre o Honorável Mensageiro de Allah (S.A.W.), registradas por Barnabé, são tais que, em alguns lugares, Hazrat Jesus (A.S.) é visto pronunciando o nome do Honorável (S.A.W.); em outros, ele diz apenas “o Mensageiro de Allah”; em outros, emprega a palavra “Messias”; em outros ainda, chama-o de “Admirável” (Admirable); e, em certos lugares, pronuncia claramente uma frase equivalente a “La ilaha illallahu Muhammadur Rasulullah”. Não me é possível citar todas essas profecias. Isso porque são tão numerosas e, em alguns lugares, estão ligadas a diferentes contextos e às narrativas que as precedem e sucedem, assumindo uma dimensão tão ampla, que, se fossem reunidas, poderiam formar um livro bastante volumoso. Aqui citarei apenas algumas delas como exemplos:

“O número dos profetas enviados por Allah era de cento e quarenta e quatro mil. Todos eles falaram de maneira breve e pouco clara. Porém, depois de mim virá a luz de todos os profetas e dos justos. Ele esclarecerá aquilo que havia de obscuro nas palavras dos profetas, pois é o Mensageiro de Allah.” — (Capítulo 17)

“Os fariseus e os levitas disseram: Se não és o Messias, Elias ou qualquer outro profeta, por que ensinas uma nova doutrina e por que te apresentas como superior ao Messias? Yasu [Hazrat Jesus (A.S.)] respondeu: Pelos milagres que Allah manifesta através de mim, fica claro que digo apenas o que Allah quer. Caso contrário, não me considero digno de ser tido como superior a ele (ao Messias), como dizeis. Não sou digno sequer de desatar as correias das sandálias ou os cordões dos sapatos daquele Mensageiro de Allah a quem chamais Messias. Ele foi criado antes de mim, embora venha depois de mim. Ele trará a verdadeira palavra, de modo que não haverá limite para a expansão de sua religião.” — (Capítulo 42).

“Digo-vos com toda a certeza: todo profeta que veio até agora nasceu como um sinal da misericórdia de Allah destinado unicamente a uma nação. Por isso, as mensagens desses profetas não se espalharam para além do povo ao qual foram enviados. Porém, quando vier o Mensageiro de Allah (S.A.W.), Allah, por assim dizer, selá-lo-á com o selo de Sua própria mão. Assim, ele levará a misericórdia de Allah a todas as nações do mundo influenciadas por seus ensinamentos e lhes mostrará o caminho da salvação. Ele virá poderoso e dominante sobre os que se afastam de Allah e destruirá a idolatria de tal maneira que Satanás ficará agitado.” [Depois, numa longa conversa com os discípulos, Hazrat Jesus (A.S.) declara claramente que ele surgirá entre os descendentes de Hazrat Ismael (A.S.)]. — (Capítulo 43).

“É por isso que vos digo que esse Mensageiro de Allah será uma luz resplandecente, da qual toda criatura de Allah se alegrará. Pois inteligência e exortação, sabedoria e força, temor e amor, firmeza e moderação serão os adornos de seu caráter e a fonte de sua inspiração. Ele será fortalecido pela força vivificante da generosidade e da misericórdia, da justiça, do temor a Deus, da cortesia e da tolerância. As qualidades com que Allah adornou outras de Suas criaturas, ele as possuirá em triplo grau. Não se pode expressar em palavras quão abençoada será a época de seu advento. Sabei com certeza: eu o vi e lhe prestei homenagem, assim como todo profeta o viu e lhe prestou homenagem. Assim que Allah contemplou sua alma, concedeu-lhe a profecia. Quando o vi, minha alma encheu-se de paz. Então disse: Ó Muhammad! Que Allah seja teu auxílio e me torne digno de amarrar os cadarços de teus sapatos. Pois, mesmo que eu alcance essa pequena honra, serei considerado um grande profeta e uma alma virtuosa de Allah” — (Capítulo 44).

“Não vos aflijais nem tenhais medo por eu partir. Pois não fui eu quem vos criou. Pelo contrário, Deus, o Criador de todos nós — que também vos criou — cuidará de vós. E estais pensando em mim? Vim ao mundo neste tempo para preparar o caminho para aquele Mensageiro de Deus que será o guia para a salvação dos habitantes do mundo. ….. Indiriyas disse: “Ó mestre! Indica-nos os sinais dele, para que possamos reconhecê-lo”. Yasu respondeu: Ele não virá durante o vosso tempo de vida. Virá algum tempo depois de vós. Ele virá numa época em que, devido à corrupção do Evangelho, não restarão mais de trinta crentes. Nesse estado, Allah terá misericórdia do mundo. Ele enviará Seu Mensageiro, sobre cuja cabeça uma nuvem branca projetará sua sombra; por meio disso ele será reconhecido como o servo escolhido de Allah. Por meio dele, os habitantes do mundo obterão o verdadeiro conhecimento de Allah. Ele enfrentará com grande força os que se afastam de Deus e eliminará a idolatria do mundo. Estou muito feliz por isso. Pois, por meio dele, obteremos o verdadeiro conhecimento de nosso Deus, Sua majestade será proclamada e os habitantes do mundo saberão que tudo o que eu disse era verdadeiro e correto. Ele se vingará daqueles que me considerarem algo maior que um ser humano. …. Ele trará uma verdade mais clara do que a verdade trazida por todos os outros profetas” — (Capítulo 72).

“O pacto com Allah havia sido feito em Jerusalém, na mesquita de Salomão — e em nenhum outro lugar. Contudo, acreditai em minhas palavras: chegará um dia em que Deus derramará Sua misericórdia sobre outra cidade. Então será possível adorá-Lo corretamente em todos os lugares, e Allah, por Sua graça, aceitará as orações verdadeiras em toda parte. …… Na verdade, apareci como um profeta salvador para os descendentes de Israel, mas depois de mim virá o Messias enviado por Deus para todos os habitantes do mundo. Foi para ele que Deus criou o mundo inteiro. Então Allah será adorado em todo o mundo e Sua misericórdia será derramada” — (Capítulo 83).

“(Yasu disse ao sumo sacerdote:) Juro pelo Deus Eterno, por quem estou disposto a sacrificar a minha vida: eu não sou o Messias por quem todas as nações do mundo aguardam. Deus prometeu ao nosso pai Abraão, a respeito desse Messias, dizendo: ‘Por meio da tua descendência, todas as nações do mundo serão abençoadas’. (Gênesis, capítulo 22:18.) Porém, quando Deus me levar deste mundo, Satanás se rebelará novamente de tal modo que os ímpios me aceitarão como Deus e filho de Deus. Por isso, minhas palavras e ensinamentos serão tão profundamente deturpados que será difícil restarem sequer trinta crentes. Nesse momento, Deus terá misericórdia do mundo e enviará aquele Mensageiro para quem criou todas as coisas do mundo. Ele virá do sul com grande poder e destruirá os ídolos juntamente com os idólatras. Ele arrancará dos demônios o poder com que Satanás se apoderou dos seres humanos. Aos que crerem nele, trará a graça de Deus para a sua salvação. Felizes serão aqueles que seguirem as suas palavras.” — (Capítulo 16).

“O sumo sacerdote perguntou: Depois desse Mensageiro de Deus, virá ainda algum profeta? Yasu respondeu: Não virá mais nenhum profeta verdadeiro. Contudo, virão muitos falsos profetas. Estou muito preocupado por causa disso, pois, em razão do justo decreto de Deus, Satanás os lançará à arena, e eles se esconderão atrás do meu Evangelho.” — (Capítulo 17).

“O sumo sacerdote perguntou: Por que nome será conhecido esse Messias e por quais sinais se poderá reconhecer a sua vinda? Yasu respondeu: O nome desse Messias será ‘Louvável’. Pois, quando Deus criou a sua alma, foi Ele mesmo quem lhe deu esse nome, e ali lhe concedeu uma posição sublime. Então Deus lhe disse: ‘Ó Muhammad! Espera, pois por tua causa criarei o Paraíso, o mundo e muitas outras coisas, e te darei tudo isso como presente. Depois, quem desejar o bem para ti será beneficiado, e quem proferir maldição contra ti será amaldiçoado. Quando te enviar ao mundo, enviar-te-ei como profeta salvador. A tua palavra será verdadeira. O céu e a terra não permanecerão firmes, mas a tua religião permanecerá firme.’ O seu santo nome é Muhammad.” — (Capítulo 97).

Barnabé escreveu que, certa vez, Jesus (que a paz esteja com ele) disse aos discípulos: Um dos meus discípulos, Judas Iscariotes, me venderá aos inimigos por trinta moedas. Depois, Jesus (que a paz esteja com ele) disse:

“Estou certo de que, depois disso, aquele que me vender será morto em meu nome. Pois Deus me elevará acima da terra e mudará de tal modo o rosto daquele traidor que todos pensarão que sou eu. Mesmo assim, após a sua morte infame, durante algum tempo eu serei difamado; porém, quando chegar o santo Mensageiro de Deus, Muhammad, essa infâmia será apagada. Deus fará isso porque proclamei a veracidade daquele Messias. Ele me concederá esta recompensa: as pessoas saberão que estou vivo e que não tenho qualquer relação com aquela morte infame.” — (Capítulo 113).

[Jesus (que a paz esteja com ele) disse aos discípulos:] “Digo-vos com certeza: se a verdade não tivesse sido apagada do Livro de Moisés, Deus não teria dado outro livro ao nosso pai Davi. E, se o livro de Davi não tivesse sido deturpado, Deus não me teria dado o Evangelho. Pois o nosso Deus não é mutável. Por isso, disse a todos a mesma coisa. Assim, quando vier o Mensageiro de Deus, ele purificará o meu Livro, que foi corrompido por pessoas contrárias a Deus.” — (Capítulo 124).

Duas respostas às dúvidas

Nestas profecias claras e detalhadas, há apenas três pontos que, à primeira vista, suscitam algumas dúvidas. Primeiro: nestas citações e em muitos outros lugares do Evangelho de Barnabé, Jesus (que a paz esteja com ele) negou ser o Messias. Segundo: não apenas nestas citações, mas também em muitos outros trechos do Evangelho de Barnabé, está escrito o verdadeiro nome árabe do Mensageiro de Deus, Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Contudo, não é costume dos profetas mencionar o nome verdadeiro de um profeta futuro ao profetizar a seu respeito. Terceiro: nele, o Mensageiro de Deus é chamado de Messias.

A resposta à primeira dúvida é que não somente no Evangelho de Barnabé, mas também no Evangelho de Lucas, é mencionado que Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) proibiu os discípulos de chamá-lo de Messias. É digna de atenção a seguinte citação de Lucas (9:20-21):

“Ele lhes disse: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: O Messias de Allah. Então ele lhes ordenou severamente que não contassem isso a ninguém.”

Talvez a razão fosse que os Filhos de Israel esperavam um Messias sobre o qual tinham a ideia de que derrotaria os inimigos pela força da espada. Por isso, Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) disse: “Eu não sou esse Messias; ele virá depois de mim.”

A resposta à segunda dúvida é que, na tradução italiana do Evangelho de Barnabé atualmente disponível no mundo, o nome de Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) está, de fato, escrito como Muhammad. Mas ninguém sabe de quais línguas este livro chegou ao italiano, por meio de sucessivas traduções. É desnecessário dizer que o Evangelho original de Barnabé deve ter sido escrito em siríaco, pois essa era a língua de Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) e de seus companheiros. Se esse livro original fosse encontrado, seria possível ver que nome de Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava escrito nele. Como ele não foi encontrado, pode-se apenas supor que, na realidade, Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) talvez tenha usado precisamente a palavra “Munhamanna”. Na narrativa de Ibn Ishaq, anteriormente citada por nós com referência ao Evangelho de João, também se encontra a menção dessa mesma palavra. Depois que Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) usou a palavra Munhamanna, vários tradutores a traduziram. E, ao perceber que o nome do futuro profeta mencionado na profecia correspondia exatamente à palavra “Muhammad”, algum tradutor posterior talvez tenha escrito justamente esse nome. O fato de esse nome estar claramente escrito não permite, por si só, suspeitar que todo o Evangelho de Barnabé seja uma obra inventada por algum muçulmano.

A resposta à terceira dúvida é que a palavra “Messias” é um termo israelita. No Sagrado Alcorão, ela é usada especificamente em nome de Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) apenas porque os judeus não o reconheciam como “Messias”. Caso contrário, ela não é um termo corânico, nem é usada em nenhum lugar do Alcorão como sinônimo do termo israelita. Portanto, se Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) aplicou a palavra Messias ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e o Alcorão não a empregou dessa maneira, isso não significa que o Evangelho de Barnabé esteja atribuindo a Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) um título que o Alcorão rejeita. Na realidade, o antigo costume dos Filhos de Israel era que, quando alguma coisa ou pessoa era designada para um propósito religioso ou espiritual, ela era consagrada mediante a aplicação de óleo sobre a coisa ou sobre a cabeça da pessoa. Na língua hebraica, essa aplicação de óleo era chamada de “mashah”, e aquele sobre quem ela era realizada era chamado de “Messias”. Os objetos necessários ao local de culto eram ungidos dessa maneira e consagrados ao local de culto. Os sacerdotes também eram ungidos assim quando eram designados para o serviço sacerdotal. Quando um rei ou profeta era escolhido por Allah para o cargo de rei ou para o ofício profético, também era ungido. Segundo os relatos da Bíblia, vários “Messias” surgiram entre os Filhos de Israel. Hazrat Aarão (que a paz esteja com ele) era Messias como sacerdote. Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele), como sacerdote e profeta; Talut, como rei; Hazrat Davi (que a paz esteja com ele), como rei e profeta; Melquisedeque, como rei e sacerdote; e Hazrat Eliseu, como profeta, eram Messias. Mais tarde, porém, a aplicação de óleo deixou de ser obrigatória para a designação de alguém. Ser escolhido por Allah passou a ser a única condição para ser Messias. Por exemplo, no capítulo 19 do Primeiro Livro dos Reis, é mencionado que Allah ordenou a Hazrat Elias (que a paz esteja com ele): unge Hazael para que seja rei da Síria, unge Jeú, filho de Ninsi, para que seja rei de Israel, e unge Eliseu para que seja profeta em teu lugar. Nenhum deles teve óleo aplicado à cabeça. A unção havia sido realizada simplesmente pela proclamação da decisão de Allah de designá-los. Assim, segundo a concepção dos israelitas, “Messias” é, na realidade, sinônimo de “designado por Allah”. Foi nesse sentido que Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) chamou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de Messias. (Para uma explicação do significado israelita da palavra Messias, consulte a Cyclopaedia of Biblical Literature, no verbete “Messias”.)

Capítulo: 4 — Líder do mundo

Líder do mundo

(A herança universal de todo o mundo)

-[Esta é uma transmissão radiofônica. Ela foi transmitida pela All India Radio em 1941, alguns anos antes da divisão do país. Os ouvintes desta palestra não eram apenas muçulmanos. Havia também hindus, siques, cristãos e parses.—(Os compiladores)]

Nós, muçulmanos, chamamos Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) de líder mundial. Em linguagem simples, isso significa senhor do mundo. Em hindi, sua tradução seria mestre do mundo. Em inglês, Leader of the world. À primeira vista, trata-se de um título grandioso. Contudo, os feitos da grande personalidade a quem esse título foi atribuído são realmente tais que chamá-lo de líder mundial não constitui o menor exagero. Pelo contrário, isso é simplesmente a verdade dos fatos.

Pensem: a primeira condição para aceitar alguém como líder do mundo é que ele tenha trabalhado não pelo bem de uma determinada nação, raça ou classe, mas pelo bem de toda a humanidade. Pode-se honrar quanto se queira um líder patriota ou nacionalista por ele ter servido à sua própria nação; mas, se você não pertence ao seu país e à sua nação, ele de modo algum pode ser seu líder. Que relação teria um indiano com uma pessoa cujo amor, desejo de bem e todas as atividades voltadas ao bem público estivessem limitados apenas à China e à Espanha, para que a aceitasse como líder? Se essa pessoa considerar sua própria nação superior às demais, os povos das outras nações serão obrigados a odiá-la. Os povos de todas as nações só podem aceitar alguém como seu líder quando ele vê todos os seres humanos e todas as nações com o mesmo olhar, deseja igualmente o bem de todos e, em seu propósito de promover o bem, jamais dá preferência a uma nação em detrimento de outra.

A segunda condição para ser líder de toda a humanidade é que o ideal e os princípios fundamentais apresentados por ele sirvam de orientação para as pessoas do mundo inteiro e contenham a solução para todos os problemas importantes da vida humana. A própria palavra líder significa guia ou orientador. A necessidade de um líder existe para que ele mostre qual caminho conduz ao bem e à prosperidade. Portanto, somente aquele que pode indicar a todas as pessoas do mundo o caminho para o bem de todas elas é um líder mundial.

A terceira condição indispensável para ser um líder mundial é que sua orientação não fique limitada às fronteiras de um determinado tempo ou época; ao contrário, que mantenha a mesma utilidade e validade em todas as circunstâncias e em todas as épocas, seja igualmente comprovada como infalível e correta e seja igualmente digna de ser seguida. Um líder cuja liderança seja útil em uma época e inútil em outra—vigente em certo período e obsoleta em outro—não pode ser chamado de líder mundial. Somente pode ser líder mundial aquele cuja liderança permanecerá eficaz enquanto o universo existir.

A quarta e mais importante condição é que ele não se limite a apresentar um ideal, mas demonstre a aplicação desse ideal que propôs na vida real e, com base nele, construa uma sociedade viva e desperta. Aquele que cumpre seu dever apenas apresentando um ideal pode, no máximo, ser um pensador; não pode ser um líder. Para ser líder, é indispensável demonstrar a concretização do ideal.

Vejamos agora até que ponto essas quatro condições estão presentes na pessoa que chamamos de líder mundial:

Primeiro, pensem na primeira condição. Ao ler a biografia de Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), pode-se compreender à primeira vista que ela não é a biografia de um nacionalista ou patriota—mas a biografia de um amante da humanidade e de um proponente de uma doutrina universal. Aos seus olhos, todos os seres humanos eram iguais. Ele não se preocupava com os interesses particulares de nenhuma linhagem, classe, nação, raça ou país. Não reconhecia distinção alguma entre ricos e pobres, abastados e humildes, brancos e negros, árabes e não árabes, orientais e ocidentais, arianos e não arianos. Considerava todos membros de uma única raça humana. Durante toda a sua vida, ninguém ouviu de sua boca uma única palavra ou frase, nem viu em sua vida uma única ação, que pudesse dar motivo para suspeitar que, em vez de toda a humanidade, ele tivesse uma relação estreita com os interesses de uma classe humana específica. É por isso que, ainda durante sua vida, assim como os árabes, também abissínios, iranianos, romanos, egípcios e israelitas se tornaram seus companheiros e colaboradores. E, após sua morte, em todas as regiões da Terra, pessoas de todas as raças e comunidades o aceitaram como seu próprio líder, tal como se pertencessem à sua mesma nação. É graças a esse seu humanismo puro que hoje se pode ouvir até mesmo da boca de um indiano distante—[É importante observar aqui que, quando a palestra foi transmitida, a Índia ainda não havia sido dividida.—(Os compiladores)]—elogios àquele homem nascido na Arábia há mais de mil anos.

Examinemos agora conjuntamente a segunda e a terceira condições. Muhammad (s.a.) não perdeu tempo discutindo os problemas temporários e regionais de povos e países específicos. Em vez disso, dedicou todas as suas forças à solução do maior problema da humanidade no mundo. Pois, uma vez solucionado esse grande problema, todos os pequenos problemas de todas as pessoas se resolvem por si mesmos. Esse grande problema é o seguinte:

“A direção e a administração do universo estão, na realidade, sendo conduzidas segundo determinado princípio; a direção e a administração da vida humana também devem seguir exatamente esse mesmo princípio. Pois o ser humano é uma parte do universo; se agir contra o conjunto, o desastre e a desordem tornar-se-ão inevitáveis.”

A maneira mais fácil de compreender bem isso é ampliar um pouco o próprio olhar e tentar ultrapassar os limites do espaço e do tempo. É preciso contemplar amplamente o mundo inteiro e imaginar que todos os seres humanos que viveram no mundo desde o princípio da criação até hoje, e que nele viverão no futuro até a eternidade, estão diante dos olhos. Depois, deve-se refletir sobre qual é, e qual pode ser, a causa fundamental de todas as calamidades e desastres que sobrevêm ou podem sobrevir à vida humana. Quanto mais se pensar nessa questão e quanto mais se fizerem análises, ponderações e pesquisas, uma única resposta será encontrada.

Essa resposta é:

“A rebeldia e a desobediência do ser humano contra o Criador são a causa fundamental de todas as calamidades, infortúnios, desastres e desordens.”

Pois, depois de desobedecer ao Criador, o ser humano tem dois caminhos abertos diante de si. Não pode deixar de escolher um deles. Ou considera-se arbitrário e irresponsável, faz tudo o que deseja e, por isso, torna-se um opressor; ou obedece a poderes além do Criador, fazendo surgir no mundo incontáveis formas de desastre, desordem e anarquia. Por que, em ambos os casos, surgem consequências tão ruins? A resposta simples e clara é que, por serem contrárias à realidade, tais ações inevitavelmente produzem más consequências. Este universo é, na realidade, o reino de Deus. Ele é o proprietário da terra, do sol, da lua, do ar, da água e da luz — de todas essas coisas. O ser humano é súdito e servo nato (Born Subject) em Seu reino. Embora seja parte da própria lei pela qual todo esse reino funciona, se o ser humano agir contra essa lei, as consequências destrutivas de seu comportamento serão inevitáveis. Se imaginar que não existe nenhuma autoridade sobre ele e que não é responsável perante ninguém, essa concepção será contrária à realidade. Portanto, quando age arbitrariamente e de modo irresponsável, decidindo por si mesmo segundo que regras conduzirá a própria vida, o resultado inevitavelmente se manifesta de forma negativa. Do mesmo modo, reconhecer alguém além do Criador como poderoso e dotado de autoridade, temê-lo ou desejar obter algum benefício dele, e curvar-se diante de seu domínio e autoridade também são atitudes contrárias à verdade real. Pois, de fato, ninguém além do Criador é digno dessa posição. Por isso, seu resultado também é venenoso. O ser humano deve curvar a cabeça diante da autoridade verdadeira estabelecida sobre toda a Terra, deve sacrificar diante dela seu próprio eu e sua individualidade. Deve reservar somente a ela sua obediência e servidão e, em vez de elaborar por si mesmo os princípios e as leis de sua vida, ou permitir que outros os elaborem, deve recebê-los do Dono dessa autoridade.

Foi justamente essa proposta de reforma fundamental que Muhammad (s.a.) apresentou para a vida humana. Neste mundo livre dos grilhões do Oriente e do Ocidente, onde quer que os seres humanos estejam estabelecidos, essa única proposta reformadora pode corrigir todas as suas atividades deficientes e desordenadas. Essa proposta também está livre dos grilhões do passado e do futuro. Era tão pura e eficaz há mil e quinhentos anos quanto é hoje, e continuará sendo assim daqui a dez mil anos.

Resta agora a última condição. É uma verdade histórica que Muhammad (s.a.) não se limitou a apresentar o esboço de um ideal imaginário; ao contrário, estabeleceu, com base nesse esboço, uma sociedade viva e demonstrou isso na prática. Em seu breve período de 23 anos, inspirou milhões de pessoas a se submeterem e obedecerem à autoridade de Deus. Libertou-as da servidão aos próprios desejos e da obediência a entidades além de Deus. Depois, organizando-as, fundou, com base na obediência e na servidão exclusivas a Deus, um novo sistema moral, social, econômico e estatal. Assim, por meio de um processo prático, demonstrou a toda a humanidade quão melhor, mais puro e mais justo é o modo de vida baseado nos princípios e no programa que ele apresentou, em comparação com os demais modos de vida.

Esta é a grandiosa contribuição do Profeta Muhammad (s.a.). É por ter deixado essa contribuição que o reconhecemos como líder mundial ou senhor de todo o mundo. Sua contribuição não se destinava a nenhuma nação específica; era a herança coletiva de toda a humanidade. Nela, o direito de ninguém é menor ou maior que o de qualquer outro. Qualquer pessoa pode beneficiar-se dessa herança. Não consigo entender que motivo alguém poderia ter para nutrir ódio contra ela.

A verdadeira contribuição do Senhor do Universo

-[Este foi um discurso radiofônico transmitido pela Rádio Paquistão em 1948, após a divisão do país.]

É sabido por todo o mundo que o Profeta Universal, Muhammad (s.a.), foi um dos membros do grupo escolhido por Deus que, desde os tempos primordiais, surgiu em diferentes épocas para ensinar à humanidade a adoração de Deus, a obediência a Ele e o bom caráter. O ensinamento sobre a obediência e a servidão ao Deus Único, bem como sobre levar uma vida moralmente íntegra, que os profetas e sábios do mundo sempre transmitiram, foi também o ensinamento de Muhammad (s.a.). Ele não apresentou nenhuma teoria inovadora sobre Deus, nem ensinou um tipo de caráter excepcionalmente novo, diferente daquele que os profetas anteriores haviam ensinado sobre a moralidade. Já que não o fez, surge naturalmente a pergunta: qual foi, então, sua verdadeira contribuição — aquela pela qual o consideramos o maior ser humano da história? A resposta é que, antes do Profeta Muhammad, as pessoas certamente tinham conhecimento da existência e da unicidade de Deus. Contudo, não sabiam qual era a relação entre essa teoria filosófica e o caráter humano. Também não conheciam os princípios fundamentais do bom caráter. Naquela época, as pessoas estavam familiarizadas com os princípios superiores do caráter, mas ninguém sabia bem como esses princípios deveriam ser aplicados e concretizados nas diferentes áreas da vida. A fé em Deus, os princípios morais e a vida prática do ser humano eram três coisas completamente separadas. Não havia entre elas qualquer conexão científica, relação estreita ou vínculo eficaz. O Profeta Muhammad (s.a.) reuniu essas três coisas sob um único sistema. Por meio de sua integração, edificou uma civilização e uma cultura completas. Ele não limitou o esboço dessa civilização e cultura ao mundo da imaginação; ao contrário, estabeleceu-as também no mundo real.

A fé é uma força que impulsiona à ação

O Profeta Muhammad (s.a.) disse: a fé em Deus não consiste simplesmente em aceitar uma teoria filosófica; por sua própria natureza e origem, essa fé exige naturalmente um tipo específico de caráter. Esse caráter deve refletir-se no comportamento da vida prática do ser humano. A fé é como uma semente. Assim que essa semente germina no coração humano, por impulso de sua própria natureza começa a fazer nascer a árvore de um modo de vida ativo específico. Desde o tronco dessa árvore até cada um de seus galhos, ramos, folhas e folhagens, circula a seiva vital extraída dessa semente. Assim como é impossível plantar no solo um caroço de manga e obter dele um limoeiro, também é impossível plantar no coração humano a semente da servidão a Deus e, dela, fazer surgir uma vida materialista corrompida pela falta de caráter. O caráter que nasce da obediência e da servidão a Deus não pode ser igual ao caráter formado pelo politeísmo, pelo ateísmo ou pelo ascetismo. A disposição e a natureza desses conceitos sobre a vida humana são completamente diferentes. A natureza de cada um exige um tipo de caráter distinto do dos demais.

Um caráter de devoção a Deus para toda a vida

O caráter que nasce da obediência a Deus não se restringe a uma classe especial de santos e dervixes, como se só pudesse manifestar-se nas casas de retiro ou em aposentos isolados de meditação e ascetismo; ao contrário, é desejável que esse caráter seja aplicado amplamente a toda a vida humana e a cada uma de suas dimensões. Se um comerciante é devoto de Deus, não há razão para que o caráter de temor a Deus não se manifeste em seus negócios. Se um juiz é devoto de Deus, e um policial é devoto de Deus, não se pode esperar que o primeiro manifeste um caráter contrário a Deus na sala do tribunal, nem que o segundo o manifeste na delegacia ou no posto policial. Do mesmo modo, se uma nação é temente e amante de Deus, é natural que o caráter de obediência a Deus se manifeste em sua vida urbana ou municipal, em suas atividades estatais, na política internacional, na guerra e na paz. Caso contrário, a fé dessa nação em Deus não poderia ter significado algum.

Os ensinamentos do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele)

A questão agora é que tipo de caráter a devoção a Deus exige e de que maneira essa moralidade pode manifestar-se na vida prática das pessoas e em suas concepções individuais e sociais; trata-se de um tema tão amplo que não é possível expressá-lo numa discussão breve. Contudo, citarei, como exemplo, algumas palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). A partir dessas palavras, será possível compreender quão bela harmonia existe, no sistema de vida que ele legou, entre a fé, as obras e o caráter moral. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse:

(Árabe******************************************na página 146 do PDF)

“A fé tem muitos ramos. O seu fundamento é não reconhecer ninguém além de Deus como divindade. E o seu ramo final é remover do caminho aquilo que causa dano. A modéstia também é um ramo da fé”.

(Árabe******) “A pureza do corpo e das roupas é metade da fé”.

 

(Árabe******************************************na página 146 do PDF)

“Crente é aquele de quem as pessoas não têm receio quanto à sua vida e aos seus bens”.

 

(Árabe******************************************na página 146 do PDF)

“Aquele que não possui honestidade e confiança não tem fé, e aquele que não cumpre a promessa não tem religião”.

 

(Árabe******************************************na página 146 do PDF)

“Quando sentires alegria por uma boa ação e remorso por uma má ação, então (compreenderás que) és um crente”.

 

(Árabe*********) “A paciência e a generosidade são chamadas de fé”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“A fé mais elevada consiste em que tua inimizade e tua amizade sejam por Allah, que o nome de Allah esteja continuamente em teus lábios e que desejes para os outros aquilo que desejas para ti. E que detestes para os outros aquilo que detestas para ti”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“A fé mais completa entre os crentes pertence àquele cujo caráter é o melhor e que trata com maior bondade os membros de sua família”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“Quem crê em Allah e no Último Dia deve cuidar do hóspede e não causar dano ao vizinho. E, se tiver algo a dizer, que diga algo bom ou que permaneça calado”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“O crente nunca é caluniador, maldizente, obsceno ou grosseiro em sua fala”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“O crente pode ser qualquer outra coisa, mas não pode ser desonesto nem mentiroso”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“Por Allah, ele não é crente! Por Allah, ele não é crente!! Aquele de cujo mal o vizinho não está a salvo”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“Não é crente aquele que enche o próprio estômago enquanto seu vizinho permanece com fome”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“Aquele que, apesar de ter capacidade para dar vazão à sua ira, a contém, Allah enche seu coração de fé e tranquilidade”.

(Árabe******************************************na página 147 do PDF)

“Aquele que reza para ser visto pelas pessoas comete shirk; aquele que jejua para ser visto pelas pessoas comete shirk; e aquele que faz caridade para ser visto pelas pessoas também comete shirk”.

(Árabe******************************************na página 148 do PDF)

“Aquele que reúne em si quatro defeitos é um hipócrita completo: trai a confiança, mente quando fala, quebra a promessa quando promete e ultrapassa os limites ao discutir”.

(Árabe******************************************na página 148 do PDF)

“Dar falso testemunho é um pecado tão grave que chega perto do shirk.”

(Árabe******************************************na página 148 do PDF)

“Aquele que luta contra sua própria inclinação para permanecer obediente a Allah é o verdadeiro mujāhid. E aquele que abandona as coisas proibidas por Allah é o verdadeiro muhājir.”

(Árabe******************************************na página 148 do PDF)

“Sabeis quem, no Dia da Ressurreição, será o primeiro a encontrar um lugar sob a sombra de Allah? Os ouvintes disseram: Allah e o Mensageiro de Allah sabem melhor. Então o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: aqueles que, quando a verdade lhes é apresentada, a aceitam; quando um direito lhes é reivindicado, entregam-no de coração aberto; e que, em relação aos outros, decidem da mesma forma que desejariam que se decidisse em relação a eles.”

(Árabe******************************************na página 148 do PDF)

“Se me garantirdes seis coisas, eu vos garantirei o Paraíso: quando falardes, direis a verdade; quando fizerdes uma promessa, cumpri-la-eis; quando um depósito for confiado a qualquer um de vós, honrá-lo-eis; afastar-vos-eis do adultério; proteger-vos-eis do olhar lascivo; e abster-vos-eis da injustiça.”

(Árabe******************************************na página 148 do PDF)

“O enganador, o avarento e aquele que alardeia as suas doações não poderão entrar no Paraíso.”

(Árabe******************************************na página 148 do PDF)

“A carne formada de alimento ilícito não entrará no Paraíso. Para aquele cuja carne foi nutrida com alimento ilícito, o fogo — ou seja, o Inferno — é o destino apropriado.”

(Árabe******************************************na página 149 do PDF)

“Allah se ira contra aquele que vende um artigo defeituoso e não informa o comprador sobre o seu defeito, e os anjos continuam a amaldiçoá-lo.”

(Árabe******************************************na página 149 do PDF)

“Mesmo que uma pessoa viva repetidas vezes e seja martirizada repetidas vezes no caminho de Allah, ainda assim não poderá entrar no Paraíso se não pagar a sua dívida.”

(Árabe******************************************na página 149 do PDF)

“Seja homem ou mulher, mesmo que passe sessenta anos de sua vida em obediência a Allah, mas, quando a morte se aproximar, fizer um testamento lesando o direito de alguém, a entrada de ambos no Inferno será inevitável”.

(Árabe******************************************na página 149 do PDF)

“Aqueles que tratam mal os subordinados não entrarão no Paraíso”.

(Árabe******************************************na página 149 do PDF)

“Sabe qual é uma ação melhor do que o jejum, a oração e a caridade? É resolver as desavenças entre as pessoas. E romper as relações mútuas é uma ação tão grave que, por causa dela, todas as boas ações de uma pessoa são destruídas”.

(Árabe******************************************na página 149 do PDF)

“Na verdade, indigente é aquele que, no Dia do Juízo, chegará levando consigo uma grande quantidade de orações, jejuns e zakat, mas também terá insultado alguém, caluniado alguém, usurpado os bens de alguém, derramado o sangue de alguém ou espancado alguém. Então, Deus distribuirá cada uma de suas boas ações entre essas pessoas injustiçadas. Ainda assim, como sua dívida não terá sido quitada, os pecados delas serão lançados sobre ele, e ele será lançado no Inferno”.

(Árabe******************************************na página 149 do PDF)

“Ninguém será privado da salvação, a menos que tranquilize sua consciência com uma justificativa plausível para seus atos maus”.

(Árabe******************************************na página 150 do PDF)

“O comerciante que retém mercadorias para aumentar os preços é amaldiçoado”.

(Árabe******************************************na página 150 do PDF)

“Aquele que retém alimentos por quarenta dias na esperança de um aumento de preço não terá relação alguma com Allah”.

(Árabe******************************************na página 150 do PDF)

“Mesmo que, depois de reter alimentos por quarenta dias, alguém os doe, ainda assim o pecado de tê-los retido não será perdoado.

Foram apresentadas algumas das muitas declarações do Profeta Muhammad (s.a.). A partir delas, pode-se compreender como o Hazrat (s.a.) estabeleceu a relação entre a fé e o caráter, e entre o caráter e todos os setores da vida. Todo leitor de história sabe que essas declarações do Hazrat (s.a.) não eram meras palavras; com base nelas, ele estabeleceu, no mundo real, todo o sistema civilizacional e político de um país inteiro. Esta é a sua grandiosa contribuição, pela qual ele é o maior líder da humanidade.

Capítulo 5 – O selo da profecia

O significado e a argumentação do selo da profecia

 

A interpretação correta do selo da profecia

Enquanto a civilização e a cultura humanas não haviam alcançado um estágio em que a mensagem de um profeta pudesse ser amplamente difundida entre todos, e enquanto não havia surgido um grupo humano capaz de preservar a mensagem do profeta, seus ensinamentos e seu modelo moral, difundindo-os por todas as regiões do mundo, a sucessão da profecia continuou. Profetas continuaram a ser enviados a diferentes países e povos. Porém, quando, por um lado, a civilização e a cultura humanas alcançaram um desenvolvimento suficientemente elevado, permitindo que a mensagem de um profeta assumisse um caráter universal, e, por outro, organizou-se um grupo humano que aceitava a orientação verdadeira e adquirira a capacidade de preservar intactos o Livro de Allah, a vida do profeta portador do Livro e sua liderança integral e efetiva, deixou de haver necessidade de enviar outro profeta para cumprir a missão profética — [aqueles que, ao explicar o selo da profecia, afirmam que ele não é necessário para o conhecimento humano, na realidade insultam a sucessão da profecia e a atacam. O significado dessa explicação seria: a orientação do profeta só é necessária até certo estágio do conhecimento; depois disso, o ser humano deixa de depender da liderança do profeta. — Autor]

As condições especiais da época anterior ao Mensageiro Nobre (s.a.)

No início, vinham profetas distintos para cada povo. Seus ensinamentos ficavam limitados ao próprio povo. Isso acontecia porque, naquela época, os diversos povos do mundo estavam separados uns dos outros. Não havia muita convivência entre eles. Cada povo parecia estar confinado dentro dos limites de sua própria terra natal. Nessas condições, era difícil difundir um ensinamento comum entre todos os povos. Além disso, as condições dos diferentes povos eram completamente distintas. A ignorância era muito grande. Por causa dessa ignorância, as falhas que surgiam na crença e no caráter assumiam formas diferentes em cada lugar. Por isso, era necessário que os profetas de Allah oferecessem ensinamentos e orientação distintos a cada povo, eliminassem gradualmente os pensamentos errôneos e difundissem os pensamentos corretos, abandonassem os métodos da jahiliyyah e os ensinassem pouco a pouco a seguir leis de nível mais elevado, formando-os exatamente como se educam e se criam as crianças por meio do ensino e do cuidado. Só Allah sabe quantos milhares de anos se passaram na educação dos povos dessa maneira. Enfim, com o progresso, chegou um dia em que a humanidade ultrapassou os limites da infância e alcançou a idade adulta. Com o desenvolvimento do comércio, dos negócios, das artes e dos ofícios, estabeleceram-se também relações mútuas entre os povos. Começaram as viagens marítimas e terrestres, desde a China e o Japão até os países distantes da Europa e da África. A maioria dos povos passou a utilizar alfabetos. O conhecimento e a ciência se expandiram, e começou o intercâmbio de ideias e de estudos entre os diferentes povos. Nasceram grandes guerreiros conquistadores. Eles fundaram impérios vastíssimos e submeteram vários países e povos a um único sistema político. Assim, a diferença, a distância e a separação que existiam entre os antigos descendentes da humanidade começaram gradualmente a diminuir. Criaram-se então as condições para enviar ao mundo inteiro o ensinamento único e a única sharia do Islã. Há dois mil e quinhentos anos, a condição humana havia progredido tanto que as próprias pessoas esperavam uma religião única, adequada a todos. Embora o budismo não fosse uma religião completa e contivesse apenas algumas normas morais, ainda assim ultrapassou as fronteiras da Índia e se difundiu, de um lado, até a China, a Mongólia e o Japão e, de outro, até o Afeganistão e Bucara. Os pregadores do budismo chegaram a terras muito distantes enquanto difundiam essa religião. Algumas centenas de anos depois, surgiu o cristianismo. Embora o Hazrat Jesus (a.s.) tenha trazido os ensinamentos do Islã, após seu desaparecimento foi criada uma religião deficiente e deformada sob o nome de cristianismo. Os cristãos difundiram essa religião desde o Irã até as regiões mais distantes da Europa. Esses acontecimentos demonstram claramente que o mundo daquela época esperava espontaneamente uma religião universal. Ele havia se preparado a tal ponto que, embora ainda não tivesse encontrado uma religião completa e correta, começou a difundir entre a humanidade até mesmo aquelas religiões imaturas e incompletas.

A perfeição da religião e o selo da profecia

Nessa época, um profeta, isto é, Hazrat Muhammad (s.a.w.), foi enviado à terra da Arábia para todo o mundo e toda a humanidade; foi-lhe confiada a responsabilidade de transmitir ao mundo inteiro os ensinamentos completos do Islã e a lei abrangente que lhe haviam sido concedidos.

Portanto, sem dúvida, na época atual não há outro meio de conhecer o caminho verdadeiro e simples do Islã além dos ensinamentos de Muhammad (s.a.w.) e do glorioso Alcorão. Muhammad (s.a.w.) é o Profeta de Allah para toda a humanidade. A sucessão ou cadeia dos profetas foi encerrada com ele. Tudo o que o Deus Altíssimo desejava conceder à humanidade em termos de orientações e leis foi enviado por meio deste último Profeta. Agora, crer neste último Profeta de Allah é indispensável para toda pessoa que busca a verdade e deseja tornar-se uma serva obediente de Allah. Seguir os ensinamentos que ele transmitiu e o método que ensinou faz parte dos deveres indispensáveis dessas pessoas.

Provas do encerramento da profecia

Para quem compreende o significado da profecia, não é de modo algum difícil perceber que um profeta não nasce todos os dias e que não é indispensável haver sempre um profeta entre cada povo. A vida dos ensinamentos e da orientação do profeta é a própria vida do profeta. Enquanto seus ensinamentos e sua orientação permanecerem vivos. A era dos profetas anteriores chegou ao fim, porque as pessoas distorceram os ensinamentos que eles haviam transmitido. Nenhum dos livros que eles trouxeram existe hoje em sua forma original. Seus seguidores também não podem afirmar hoje que possuem, em sua forma original e não adulterada, o livro que seu profeta trouxe. Eles também se esqueceram das biografias de seus próprios profetas. Hoje não se encontra em parte alguma um relato exato e confiável da vida de qualquer um dos profetas anteriores. Nem sequer se pode afirmar com certeza em que época e onde nasceram, ou que obras realizaram. Também não se pode afirmar com certeza onde viveram e que obras realizaram. Tampouco se sabe com certeza onde viveram, quais ensinamentos transmitiram e de que palavras e ações impediram as pessoas. Mas a era da profecia de Muhammad (s.a.w.) ainda continua, porque seus ensinamentos e sua orientação permanecem vivos. O Alcorão que ele trouxe existe em sua forma intacta, com suas palavras originais. Em nenhuma parte dele houve a alteração de uma única letra. Nem um ponto, nem uma vogal ou sinal de pronúncia foi invertido ou modificado. Os acontecimentos de sua vida, suas palavras e suas ações — tudo foi preservado com exatidão. Quatorze séculos estão se passando, mas na história tudo isso permanece tão claro e vívido que parece que vemos Hazrat Muhammad (s.a.w.) com nossos próprios olhos. Na história do mundo, a vida de nenhuma pessoa foi preservada tanto quanto a do Nobre Mensageiro (s.a.w.). Podemos sempre aprender com a vida do Nobre Mensageiro (s.a.w.) em cada aspecto de nossa existência. Esta é a maior prova de que não há necessidade de outro profeta depois do Nobre Mensageiro (s.a.w.).

Pode haver somente três razões para que um profeta venha depois de outro.

Uma. Os ensinamentos do primeiro profeta desapareceram, e tornou-se necessário apresentá-los novamente.

Duas. Os ensinamentos do primeiro profeta não são completos, e surgiu a necessidade de corrigi-los e ampliá-los.

Três. Os ensinamentos do primeiro profeta estão limitados a um povo específico, e há necessidade de outro profeta distinto para os demais povos. – [Como quarta razão, também se poderia mencionar mais uma. É possível enviar outro profeta para ajudar um profeta que esteja presente. Mas não mencionei essa razão, porque o glorioso Alcorão apresenta apenas dois exemplos disso. Não se pode concluir, a partir desses dois exemplos excepcionais, que exista perante Allah uma regra geral para o envio de profetas auxiliares. – O autor]

Um: Os ensinamentos e a orientação de Hazrat Muhammad (s.a.) permanecem vivos. Pode-se saber, a qualquer momento, qual era a sua religião, que orientação ele trouxe, que tipo de modo de vida estabeleceu e quais métodos tentou abolir e pôr fim. Os meios para conhecer essas questões foram plenamente preservados. Portanto, não há necessidade de que venha nenhum profeta para apresentar novamente, de tempos em tempos, os seus ensinamentos e orientações.

Dois: Por meio do Rasul-e-Karim (s.a.), foi transmitido ao mundo o ensinamento completo do Islã. Agora não há necessidade de acrescentar ou retirar nada dele, nem há nele qualquer deficiência ou lacuna que exija a vinda de um profeta para ser preenchida. Assim, a segunda razão também deixou de existir.

Três: O Rasul-e-Karim (s.a.) foi enviado como profeta não para uma nação específica, mas para todas as pessoas do mundo. Seus ensinamentos são suficientes para toda a humanidade. Desse modo, a terceira razão também deixou de existir.

É por isso que o Rasul-e-Karim (s.a.) foi chamado de Khatamun Nabiyyin, ou seja, o último profeta. Isso significa que a sucessão dos profetas chegou ao fim com ele. Agora o mundo não precisa mais de nenhum profeta; pelo contrário, precisa de pessoas que sigam o caminho do Rasul-e-Karim (s.a.) e conduzam outros por ele, compreendam seus ensinamentos, ajam de acordo com eles e estabeleçam em todo o mundo o governo da lei com a qual ele veio ao mundo.

O meio de orientação para toda a humanidade

(Árabe*******************************************(na página 156 do PDF)

“Ó Profeta, enviei-te como portador de boas-novas e admoestador para toda a humanidade, mas a maioria das pessoas não sabe disso.” — (Surata Saba: 28)

Isso significa que não foste enviado apenas para as pessoas desta cidade, deste país ou desta época; pelo contrário, foste enviado para as pessoas e as nações de todo o mundo até o Dia do Juízo, mas os teus compatriotas contemporâneos não compreendem a tua dignidade e o teu valor. Eles não têm consciência de quão grande, ilustre e magnífica pessoa lhes foi enviada. O Profeta Karim (s.a.) não foi enviado apenas para o seu próprio país e a sua própria época; pelo contrário, o fato de ter sido enviado para toda a humanidade até o Dia do Juízo é mencionado em vários lugares do Alcorão. Por exemplo:

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“E este Alcorão me foi revelado para que, por meio dele, eu vos advirta, a vós e àqueles a quem ele chegar”.

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Ó Profeta, dize: Ó pessoas, sou o Mensageiro de Allah para todos vós”.

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“E não te enviamos senão como misericórdia para todos os mundos”.

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Bendito seja Aquele que fez descer o Alcorão sobre o Seu servo, para que ele seja um admoestador para todos os mundos”.–(Surata Al-Furqan: 1).

O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também expôs esta mesma afirmação de várias maneiras em diversos hadiths. Por exemplo:

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Fui enviado para todos, sem distinção entre brancos e negros”.

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Fui enviado, de modo geral, para toda a humanidade. Entretanto, antes de mim, cada profeta era enviado apenas ao seu próprio povo”. — Narrado por Abdullah ibn Umar, segundo o Musnad Ahmad.

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Inicialmente, cada profeta era enviado a um povo específico, enquanto eu fui enviado a toda a humanidade”. — Segundo Bukhari e Muslim, narrado por Jabir ibn Abdullah.

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“A relação entre o meu envio como profeta e a Hora é exatamente assim” — dizendo isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou dois dedos da própria mão. — (Bukhari e Muslim).

O significado disso é que, assim como não há um terceiro dedo entre esses dois dedos, também não há nenhum intervalo de profecia entre mim e a Hora. A Hora virá imediatamente depois de mim. Permanecerei estabelecido como profeta até a Hora.

Portador de boas-novas e admoestador para toda a humanidade

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Enviamos-te com a verdade, como portador de boas-novas e admoestador. E não há povo algum ao qual não tenha sido enviado um admoestador.” — (Surata Fátir: 24).

O significado do primeiro versículo é: Ó Profeta! A tua única função é advertir as pessoas. Depois disso, se alguém ainda não se despertar e continuar mergulhando no abismo do desvio, não tens responsabilidade alguma por essa pessoa. Não te foi atribuída a responsabilidade de fazer os cegos enxergar nem de fazer os surdos ouvir.

A afirmação feita no segundo versículo foi mencionada em vários lugares do Nobre Alcorão. Seu ponto principal é que nenhum povo surgiu no palco do mundo sem que Allah, o Altíssimo, tivesse enviado um profeta para guiá-lo. Na Surata Ar-Ra’d, versículo 7, é dito (Árabe******) Na Surata Al-Hijr, versículo 10, é dito (Árabe***********)। Na Surata An-Nahl, versículo 36, é dito (Árabe*****)। Na Surata Ash-Shu’ara, versículo 208, é dito (Árabe*******) Mas, para evitar confusão a esse respeito, é preciso compreender claramente duas coisas. Primeiro: para as pessoas da região até onde pode chegar o chamado de um profeta, ele é suficiente. Portanto, não se pode dizer que seja necessário enviar profetas distintos para cada povoado e cada tribo. Segundo: enquanto os sinais do chamado e da orientação de um profeta, bem como as marcas de sua liderança, permanecerem preservados no mundo, não haverá necessidade de um novo profeta. Tampouco é necessário enviar um profeta separadamente para cada homem de um povo.

A misericórdia de Allah para toda a humanidade

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Ó Muhammad! Eu te enviei à Terra; isto é, na verdade, Minha misericórdia para os habitantes da Terra.” – (Surata Al-Anbiya: 107)

Uma outra tradução deste versículo também pode ser: “Enviei-te como misericórdia para os habitantes da Terra.” Em ambos os casos, seu verdadeiro significado é que a vinda do Mensageiro nobre (s.a.) é, na realidade, a misericórdia e a graça de Allah para a humanidade. Pois ele veio para despertar o mundo adormecido. Deu-lhe o conhecimento para tornar clara a diferença entre a verdade e a falsidade. Acima de tudo, informou-lhe inequivocamente qual é o caminho da destruição e qual é o caminho da paz e da segurança. Os incrédulos de Meca consideravam a profecia do Mensageiro nobre (s.a.) uma causa de perigo e sofrimento para si mesmos. Diziam: “Este homem criou divisão entre o nosso povo; separou-o como se separa a carne da unha.” Em resposta, foi dito: “Ó grupo de insensatos, aquele que considerais um perigo é, na verdade, a misericórdia e a graça de Allah para vós.”

Um Mensageiro para toda a humanidade

(Árabe*******************************************na página 156 do PDF)

“Ó Muhammad, dize: ‘Ó humanidade, vim para todos vós como Mensageiro daquele Allah que possui a soberania e a autoridade sobre a Terra e os céus.’” – (Surata Al-A’raf: 158). “Para cada ummah há um Mensageiro.” – (Surata Yunus: 47).

A palavra ‘ummah’ não foi empregada aqui apenas como sinônimo de povo; ela foi usada no sentido de que, depois da vinda de um Mensageiro, todos aqueles a quem chega a sua da‘wah são sua ummah. Além disso, para isso não é necessário que o Mensageiro permaneça vivo e esteja fisicamente entre eles; pelo contrário, mesmo após o falecimento do Mensageiro, enquanto seus ensinamentos permanecerem vivos e enquanto estiver aberto a cada pessoa o caminho para saber o que ele realmente ensinou, todos os habitantes do mundo serão considerados sua ummah. A norma mencionada na discussão seguinte será aplicável a eles. Nesse contexto, após a vinda de Muhammad (s.a.), todas as pessoas do mundo são sua ummah e permanecerão sua ummah enquanto o Alcorão existir em estado autêntico e inalterado. Por isso, o versículo não diz: “Para cada povo há um Mensageiro”, mas diz: “Para cada ummah há um Mensageiro.”

Em vez de enviar um profeta a cada povoação, Allah fez de Muhammad (s.a.) um profeta e o enviou para o mundo inteiro.

(Árabe******************************** na página 159 do PDF)

“Se eu quisesse, enviaria a cada povoado um admoestador”. — (Surata Al-Furqan: 51)

Isto é, essa tarefa estava além do meu poder. Se eu quisesse, poderia fazer surgir um profeta em todos os lugares. Mas, em vez disso, enviei um único profeta para o mundo inteiro. Assim como um único sol é suficiente para o mundo inteiro, também este único sol da orientação é suficiente para todos os habitantes do mundo.

No Alcorão Sagrado, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) recebeu os títulos de “admoestador”, “informador” e “aquele que adverte contra as consequências funestas da negligência e do desvio”. Além disso, recebeu o título de “admoestador para toda a humanidade”. Ele também foi retratado como admoestador para todos os habitantes do mundo. Disso se sabe que o chamado do Alcorão e a missão apostólica de Muhammad (que a paz esteja com ele) não se destinam a uma determinada região, mas ao mundo inteiro; não apenas à sua própria época, mas a todas as épocas vindouras. Este tema foi descrito em vários lugares do Alcorão.

Por exemplo:

(Árabe******************************** na página 159 do PDF)

“Ó humanidade, vim como Mensageiro de Allah para todos vós”.

(Árabe******************************** na página 159 do PDF)

“Este Alcorão foi-me revelado para que, por meio dele, eu vos advirta, bem como àqueles a quem ele chegar.” – (Surata Al-An’am: 19)

“Enviámos-te para toda a humanidade como portador de boas-novas e admoestador.” – (Surata Saba: 28)

No hadith, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) esclareceu ainda mais este assunto e disse repetidamente:(Árabe***********) “Fui enviado a todos, sem distinção entre brancos e negros.” Ele disse ainda:(Árabe**************)

 “Anteriormente, cada profeta era enviado especificamente ao seu povo, enquanto eu fui enviado, de modo geral, para toda a humanidade.” – (Bukhari e Muslim).

Disse ainda:(Árabe**********) “Fui enviado para toda a criação, e, com a minha vinda, a sucessão dos profetas foi encerrada.”

O último Profeta de Allah

(Árabe******************************** na página 159 do PDF)

“O momento do acerto de contas das pessoas está próximo, mas elas se afastam e permanecem na negligência.” – (Surata Al-Anbiya: 1)

Isso significa que a Ressurreição está próxima. Em outras palavras, o dia em que o ser humano comparecerá diante de seu Senhor e Sustentador para apresentar as contas de todas as suas ações não está distante. O fato de a humanidade ter entrado no último capítulo de sua história, com a missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele), é um de seus sinais. Agora, em comparação com o início de sua história, ela está mais próxima do fim. O período inicial e o período intermediário já passaram. Agora começou o período final. Foi isso que o Nobre Mensageiro descreveu em um hadith. Ele levantou dois dedos e disse:(Árabe************) “Fui enviado numa situação em que eu e a Ressurreição estamos exatamente como estes dois dedos da minha mão, colocados lado a lado.” Isto é, depois de mim, resta apenas esperar a Ressurreição. Não haverá outro profeta entre mim e ela. Se desejais alcançar a orientação, alcançai-a por meio da minha missão; depois disso, não virá nenhum outro guia ou admoestador para mostrar o caminho certo.

Importantes indicações sobre a finalidade da profecia

(Árabe******************************** página 159 do PDF)

“Lembra-te de quando Allah firmou um pacto com os profetas: ‘Hoje vos concedi o Livro e a sabedoria. Se amanhã outro Mensageiro vier até vós, confirmando a verdade do ensinamento que já possuís, então devereis crer nele e ajudá-lo’. Então Allah perguntou: ‘Aceitais este pacto e estais preparados para assumir a pesada responsabilidade do compromisso para comigo a esse respeito?’ Eles responderam: ‘Sim, aceitamos o pacto’.” – (Surata Aal Imran: 81)

Isto significa que todo profeta é vinculado por esse pacto. E a responsabilidade do pacto ao qual o profeta é vinculado recai necessariamente também sobre seus seguidores. O pacto que lhes é imposto é este: quando Allah enviar um profeta para propagar e estabelecer a religião cuja propagação e estabelecimento vos foram confiados, devereis cooperar com ele. Não podereis alimentar inveja nem hostilidade contra ele. Não podereis considerar-vos proprietários exclusivos da religião. Não podereis opor-vos à verdade. Pelo contrário, onde quer que uma pessoa seja enviada por Minha parte para erguer a bandeira da verdade, devereis reunir-vos sob sua bandeira.

Aqui é preciso compreender claramente que, antes de Muhammad (que a paz esteja com ele), todo profeta era vinculado por esse pacto. É por isso que cada profeta informava sua comunidade sobre o profeta que viria depois e deixava a instrução de cooperar com ele. Contudo, não se encontra em lugar algum do Alcorão e dos hadith sequer um indício de que tal pacto tenha sido tomado de Muhammad (que a paz esteja com ele), ou de que ele tenha informado sua comunidade sobre um profeta que viria depois dele e ordenado que o seguissem. – [A questão da profecia é extremamente delicada; não é necessário explicar isso. Da aceitação ou rejeição do profeta dependem a fé e a descrença do ser humano, bem como sua salvação ou destruição. Entretanto, no Alcorão Sagrado, longe de se anunciar a vinda de outro profeta depois do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), ele é chamado de último profeta. E o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), em vez de convocar sua comunidade e ordenar-lhe que cresse em algum profeta que viesse depois, deixou claro em inúmeros hadith que nenhum profeta viria depois dele e que a sucessão da profecia terminara com ele. A questão é: Allah e Seu Mensageiro tinham alguma inimizade contra nossa religião e nossa fé? Viria algum profeta depois do Mensageiro de Allah, enquanto Allah e Seu Mensageiro teriam dito algo que nos faria incorrer em descrença por não o aceitarmos e ser lançados no castigo da Outra Vida? Seria isso de algum modo possível? – (O autor)]

(Árabe******************************** página 161 do PDF)

“Ó filhos de Adão! Lembrai-vos: se vier até vós, dentre vós mesmos, algum Mensageiro que vos recite os Meus versículos, então aqueles que se abstiverem da desobediência e se corrigirem não terão motivo algum para temer nem para se entristecer.” – (Surata Al-A’raf: 35)

Em todos os lugares do Alcorão Majيد onde é mencionado o episódio do banimento de Adão (que a paz esteja com ele) e Eva (que a paz esteja com ela) do Paraíso, isso é afirmado (para isso, veja a Surata Al-Baqarah, versículos 38-39, e a Surata Ta-Ha, versículos 123-124). Portanto, aqui também se deve considerar que esta afirmação está relacionada ao mesmo episódio. Isto é, desde o início da vida humana, isso lhe havia sido explicado de maneira inequívoca.

Alguns versículos como argumento contra os negadores do Khatm an-Nubuwwat

(Árabe********************************na página 162 do PDF)

“E lembra-te também do pacto que tomei de todos os profetas; de ti também, e de Noé, Abraão, Moisés e Jesus, filho de Maria; de todos eles tomei um pacto firme.” — (Surata Al-Ahzab: 7)

Neste versículo, Allah, o Altíssimo, lembra ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) que, assim como de todos os profetas, também de você Allah tomou um pacto firme. É seu dever cumprir rigorosamente esse pacto. A que pacto se refere esta expressão? Se considerarmos o assunto que vem sendo discutido anteriormente, fica claro que se trata de um pacto segundo o qual o profeta obedecerá a todas as ordens de Allah e fará com que os outros também lhes obedeçam. Transmitirá integralmente às pessoas as palavras de Allah e não deixará de fazer nenhum esforço para implementá-las na prática. Em vários lugares do Alcorão Majid é mencionado esse pacto. Por exemplo:

(Árabe********************************na página 162 do PDF)

“Allah estabeleceu para vós a religião que havia prescrito a Noé, e que foi revelada a ti, ó Muhammad, e que havia prescrito a Abraão, Moisés e Jesus, com a recomendação de que estabeleçais a religião e não vos dividais nela.” — (Surata Ash-Shura: 13)

(Árabe********************************na página 162 do PDF)

“E, ó muçulmanos, recordai o favor de Allah para convosco, quando Ele vos revelou o Seu Livro, com a determinação de que explicásseis os seus ensinamentos e não os ocultásseis.” – (Surata Aal Imran: 187)

(Árabe******************************** página 162 do PDF)

“E recordai quando celebrei um pacto com os Filhos de Israel: não adorareis ninguém além de Allah.” – (Surata Al-Baqara: 83)

(Árabe******************************** página 162 do PDF)

“Não foi tomada deles a promessa do Livro? Apegai-vos firmemente ao que vos revelei e recordai a orientação nele contida. Talvez vos protejais da desobediência a Allah.” – (Surata Al-A’raf: 169–171)

(Árabe******************************** página 162 do PDF)

“E, ó muçulmanos, recordai o favor de Allah para convosco e o pacto que Ele firmou convosco, quando dissestes: ‘Ouvimos e obedecemos.’” – (Surata Al-Ma’idah: 7)

No contexto específico, a razão pela qual Allah, o Altíssimo, faz recordar este pacto é que o Profeta (que a paz esteja com ele), temendo a censura dos inimigos, hesitava em romper o costume vigente da época da ignorância no que dizia respeito a uma relação de parentesco nominal (não consanguínea). O assunto estava relacionado ao casamento com uma mulher. Por isso, ele sentia vergonha repetidamente. Pensava: por mais que eu faça isto com boas intenções e apenas com o propósito de reformar a sociedade, os inimigos continuarão dizendo que, na realidade, isto foi feito somente para satisfazer os próprios desejos sensuais e que este homem apenas assumiu o disfarce de reformador para enganar o povo. Por isso, Allah diz ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele): “Tu és o Meu mensageiro designado. Assim como com todos os outros mensageiros, tenho contigo um pacto firme: cumprirás pessoalmente toda ordem que Eu der e ordenarás aos demais que também a cumpram. Portanto, não te importes com a censura e as calúnias de ninguém. Não tenhas vergonha de ninguém. Não temas ninguém. Faz sem hesitação aquilo que desejo realizar por teu intermédio.”

Um grupo tomou deste pacto o significado de que os profetas posteriores ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e suas comunidades haviam assumido um compromisso. Foi-lhes exigido que cressem no profeta que viesse posteriormente e que o apoiassem. Com base nessa interpretação, esse grupo afirma que a porta da profecia continua aberta mesmo depois do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e que também foi assumido pelo nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o compromisso de que a comunidade do profeta que viesse depois dele creria nele. Contudo, o contexto anterior e posterior do versículo declara inequivocamente a falsidade dessa interpretação. No contexto em que este versículo foi proferido, não há qualquer possibilidade de afirmar que um profeta viria depois do Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e que sua comunidade teria de crer nesses profetas. Se esse significado fosse adotado, o versículo se tornaria aqui completamente deslocado e sem relação com o assunto. Além disso, as palavras do versículo não possuem nenhum significado claro do qual se possa compreender que tipo de compromisso foi assumido aqui. Portanto, para saber que tipo de compromisso é mencionado neste trecho, devemos examinar os outros lugares do Alcorão Sagrado onde se faz referência aos compromissos assumidos pelos profetas. Se em todo o Alcorão Sagrado houvesse menção a apenas um compromisso, e este dissesse respeito aos profetas que viriam posteriormente, então seria razoável pensar que, também aqui, ao mencionar um compromisso, se estivesse falando daquele mesmo compromisso. Mas todo estudioso do Alcorão que o examine com atenção sabe que, neste Livro, há muitos compromissos assumidos pelos profetas e por suas comunidades; será correto compreender aqui o compromisso que se relaciona ao contexto da discussão anterior e posterior. Não será de modo algum correto atribuir aqui o significado de um compromisso cuja discussão não tem qualquer lugar neste contexto. O resultado dessa interpretação equivocada deixa claro que algumas pessoas, em vez de receber orientação do Alcorão, tentam dar orientação ao próprio Alcorão.

(Árabe******************************** na página 164 do PDF)

“E quem poderia ser mais injusto do que aquele que inventa uma mentira e a atribui a Allah, ou rejeita como falsas os verdadeiros versículos de Allah? Certamente, os criminosos jamais prosperarão.” — (Surata Yunus: 17)

Alguns tolos interpretaram “prosperidade” como longevidade, prosperidade material ou progresso mundano. Desse modo, querem extrair deste versículo o significado de que, se uma pessoa permanece viva depois de reivindicar a profecia, ou alcança grande progresso no mundo, ou vê sua mensagem espalhar-se, deve ser aceita como um verdadeiro profeta, pois alcançou a prosperidade. Se ele não fosse um verdadeiro profeta, teria sido morto assim que reivindicasse falsamente a profecia, ou teria sido deixado morrer de fome, e sua mensagem não poderia espalhar-se pelo mundo. Contudo, só pode apresentar do Alcorão esse tipo de argumento ignorante quem não conhece o significado do termo técnico corânico “falāh”, ou desconhece a lei de Allah, mencionada no Alcorão, segundo a qual Ele concede aos criminosos prazo e oportunidade. Essa pessoa não entende em que sentido o termo foi usado neste contexto.

A primeira questão é que um criminoso não pode alcançar a prosperidade. Essa afirmação não foi feita, no contexto da discussão deste versículo, num sentido que a transformasse em critério para verificar a reivindicação de alguém à profecia, levando as pessoas comuns a examinar por si mesmas os pretendentes à profecia segundo esse critério e a decidir aceitar a reivindicação daquele que encontrassem próspero e rejeitar a daquele que vissem fracassar. Pelo contrário, o sentido da afirmação aqui é: “Sei com certeza que os criminosos não podem alcançar a prosperidade. Portanto, não posso cometer eu mesmo esse crime reivindicando falsamente a profecia; e posso afirmar com certeza a respeito de vocês que estão cometendo o crime de tratar como mentiroso um verdadeiro profeta. Por isso, vocês não poderão alcançar a prosperidade.”

Falāh, ou prosperidade, também não foi usado no Alcorão no sentido limitado de sucesso mundano. Pelo contrário, significa uma prosperidade contínua, da qual não resulta o menor vestígio de perda. Não há problema se, na fase inicial da vida mundana, não houver nela qualquer aspecto de prosperidade. Um pregador manifesto do desvio pode viver confortavelmente no mundo, alcançar o auge da prosperidade e do progresso material, e sua mensagem de desvio pode conquistar enorme popularidade e espalhar-se por toda parte; mas, na terminologia corânica, isso não é a prosperidade assim denominada, e sim perda e fracasso manifestos. Também pode acontecer que um pregador da verdade enfrente grandes provações no mundo, fique esmagado sob o peso das calamidades, aflições e sofrimentos, a ponto de perder a consciência, e que nem uma só pessoa se junte ao seu grupo. Mas, na linguagem do Alcorão, isso não é perda nem fracasso; é, ao contrário, a verdadeira prosperidade.

Além disso, foi afirmado com toda clareza em vários lugares do Alcorão que Allah não se apressa em capturar os criminosos; ao contrário, concede-lhes tempo e oportunidade suficientes para se corrigirem. E, se eles utilizam ilegalmente esse tempo e essa oportunidade e se corrompem ainda mais, Allah lhes concede uma trégua e, muitas vezes, faz chover sobre eles Suas dádivas. Como resultado, eles manifestam plenamente todas as más ações ocultas em seu íntimo e, por meio de seus atos, tornam-se merecedores de um castigo que, por estarem dotados de qualidades perversas, é justamente o que lhes cabe. Portanto, considerar que o fato de a corda de um falso pretendente se alongar é prova de que ele permanece firme na orientação será um erro gravíssimo. A lei de Allah de conceder trégua, tolerância e oportunidades aplica-se igualmente aos pretendentes à falsa profecia, assim como a todos os criminosos. Não há qualquer argumento ou prova para considerar estes últimos fora do alcance dessa lei. Além disso, quando Allah concedeu a Satanás uma oportunidade até o Dia da Ressurreição, em parte alguma foi dito: “Todas as formas de fraude e engano que pratica serão permitidas, mas, se você estabelecer por sua própria iniciativa um falso e impostor profeta, esse engano jamais será permitido”; nem foi dito: “Todas as formas de fraude e engano que você praticar por sua própria iniciativa serão permitidas, mas, se estabelecer um falso e impostor profeta, essa fraude jamais poderá produzir efeito.”

Em resposta ao que digo, talvez alguém possa citar os versículos 44 a 47 da Surata Al-Haqqah, onde se afirma:

(Árabe******************************** na página 165 do PDF)

Isto é: “Se Muhammad tivesse inventado alguma declaração em meu nome, eu o agarraria pela mão e cortaria sua artéria cardíaca”. Mas o que é dito nestes versículos é que, se aquele que foi enviado por Allah como um verdadeiro profeta inventasse uma mentira e a apresentasse como revelação de Allah, seria imediatamente detido. Afirmar, com base nesta declaração, que a garantia de que um pretendente à profecia que não seja detido é verdadeira não passa de uma falácia de princípio. A exceção ao princípio de Allah de conceder oportunidade e dar trégua, comprovada por este versículo, aplica-se unicamente ao verdadeiro profeta. Isso não prova que aquele que reivindica falsamente a profecia também esteja incluído nessa exceção. Todos sabem que as leis promulgadas para os funcionários públicos não se aplicam apenas a eles; de acordo com o código penal, os mesmos procedimentos aplicados aos malfeitores e criminosos comuns também lhes serão aplicados. Além disso, o que foi dito nestes versículos da Surata Al-Haqqah também não foi dito para informar às pessoas um critério para verificar os profetas. Ou seja, não se deve pensar que, se uma mão sair atravessando o véu do invisível e, de repente, cortar sua artéria cardíaca, ele é um mentiroso e impostor, e que, caso contrário, deve ser aceito como verdadeiro. Se não fosse possível verificar o profeta por meio de seu caráter, de suas ações e de tudo aquilo que apresentou, determinando se é um profeta verdadeiro ou impostor, talvez fosse necessário aceitar um critério tão irracional.

Reivindicação de profecia após o Último Profeta

Pergunta:Na página 236 de Tarjumanul Quran (janeiro-fevereiro), o senhor escreveu: “Minha experiência é que Allah nunca concede prosperidade e estabilidade à falsidade. Sempre segui este princípio: nunca respondo às palavras daqueles que considero indiferentes à veracidade e à honestidade, e destituídos do temor de Allah. Allah pode puni-los por isso… e, neste mundo, se Allah quiser, sua vergonha será exposta”.

Permitam-me declarar que li os livros da Jamaat Ahmadia e também estive envolvido em suas atividades. Nesse contexto, apresento as seguintes perguntas.

Primeiro: isso não é apenas a sua experiência; pelo contrário, no Alcorão Sagrado, Allah disse: “Allah não ama os mentirosos”. E também: “A maldição de Allah está sobre os mentirosos”. Além disso, sobre mentirosos desse tipo, que(Árabe**********) a sua punição consiste em serem imediatamente capturados e lançados no Inferno,(Árabe*************) nessa situação, se Mirza Ghulam Ahmad era um mentiroso, por que (a) Allah, o Altíssimo, ainda não o capturou? (b) Por que o número de membros da organização está aumentando e a missão de Mirza Sahib — conhecida entre os muçulmanos como desvio — está se fortalecendo? Além disso, atualmente, as raízes dessa organização se firmaram também fora do país. (c) Já se passaram sessenta anos desde que Mirza Sahib trouxe sua mensagem; por quanto tempo esperaremos pela decisão de Allah? Atualmente, eles continuam progredindo e prosperando. (d) Por que os grupos e indivíduos que se opõem a essa organização não abandonam sua oposição e não entregam a questão nas mãos de Allah?

Segundo: na página 242 de Tarjumanul Quran, um apoiador alemão da sua organização levantou, em Berlim, a questão da cooperação com a Jamaat Ahmadia na propagação do Islã. Se o senhor também considera correta a atividade deles de propagação do Islã, por que não coopera com eles no Paquistão?

Resposta: Você está tratando a questão de alguém que reivindica a profecia com tanta leviandade! Esse método não é de modo algum adequado para tomar uma decisão sobre um assunto tão importante. Tudo o que eu havia escrito dizia respeito a uma acusação claramente falsa. Alguns indivíduos interesseiros levantaram essa acusação contra mim. Você está aplicando isso ao caso de alguém que, de fato, reivindicou a profecia. Você deve saber que, no caso de alguém que reivindica a profecia, uma de duas situações é necessariamente verdadeira. Se a sua reivindicação for verdadeira, é incrédulo aquele que não o aceita. E, se ele for mentiroso, é incrédulo aquele que o aceita. Você quer tomar uma decisão sobre uma questão tão delicada baseando-se apenas no fato de que Allah, o Altíssimo, ainda não o puniu, de que o seu grupo está prosperando e de que estamos dizendo: ‘Até quando esperaremos a decisão de Allah?’? Então, na sua opinião, devemos entender que, depois de qualquer pessoa reivindicar a profecia, se o seu grupo continuar a prosperar e, dentro do prazo de espera que você propôs, Allah não a punir, isso por si só será suficiente para aceitá-la como profeta? Na sua opinião, esse é o critério para verificar a profecia?(Árabe**********) Aquilo que você tentou provar a partir disso está, na realidade, fundamentalmente errado. O que foi dito neste versículo é que, se Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que é de fato o Profeta de Allah, continuar a inventar por conta própria alguma declaração sem ser uma revelação de Allah e apresentá-la em nome de Allah, sua traqueia será cortada. Não é correto entender disso que a traqueia de alguém que, na realidade, não é profeta e se apresenta como profeta recorrendo à mentira também será cortada. Além disso, neste versículo Allah, o Altíssimo, não apresentou como critério para distinguir o profeta verdadeiro do falso a ideia de que o pretendente à profecia cuja traqueia não for cortada é um profeta verdadeiro, enquanto aquele cuja traqueia for cortada é um falso profeta. Certamente, esse método de distorcer o significado dos versículos do Alcorão, arrastando-os e forçando-os, não é uma maneira criada por você mesmo; pelo contrário, você o aprendeu com o grupo de Mirza Sahib. Isso prova justamente que esse grupo não tem temor de Allah.

A afirmação de qualquer pessoa que reivindique a profecia depois do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não será avaliada segundo o critério que você apresentou. Pelo contrário, será rejeitada com plena certeza. Pois o Alcorão e o Hadith fizeram uma declaração inequívoca sobre esse assunto. Ali se afirma que nenhum profeta virá depois do Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Estou ciente dos argumentos que Mirza Sahib e seus seguidores apresentam em defesa de que a porta da profecia continua aberta, mas quero informar-lhe que esses argumentos só podem influenciar uma pessoa ignorante e de conhecimento limitado. Depois de examinar os argumentos deles, uma pessoa dotada de conhecimento e discernimento só poderá certificar-se da ignorância deles.

A publicação, em Tarjuman al-Qur’an, da carta da Alemanha — isso não significa que consideremos literalmente verdadeiras todas as afirmações daquela carta. Nosso objetivo era, por meio daquela carta, criar inspiração nos corações dos muçulmanos do nosso país e ajudá-los. Eles haviam abraçado o Islã recentemente. Como poderiam saber quantas fitnas estavam surgindo no mundo islâmico? Agora eles são dos nossos. Caso contrário, por causa da ignorância, poderiam tornar-se vítimas de qualquer fitna.

Pergunta: Recebi a sua resposta. Infelizmente, ela não conseguiu dissipar as minhas dúvidas. Eu havia citado justamente as suas palavras — “Allah punirá pessoalmente o mentiroso” — e, à luz delas, perguntado: por que o castigo de Allah não recai sobre Mirza Ghulam Ahmad Qadiani, a quem todos os muçulmanos consideram mentiroso, e como Allah tem permanecido durante tanto tempo observando o desvio dos Seus servos?

Estudei, com espírito investigativo, 25 livros escritos por Mirza Sahib. Depois, também li alguns livros de eruditos muçulmanos escritos contra ele; reconheço, naturalmente, que não pude ler nenhum livro seu sobre esse assunto. Contudo, minha reação geral aos livros dos eruditos é a seguinte:

Eles distorceram os escritos de Mirza Sahib, adotaram interpretações errôneas e as atribuíram a Mirza Sahib.

Eles não possuem conhecimento completo sobre o assunto acerca do qual escreveram. Mais tarde, entrei em correspondência com eles. Porém, a maioria deles optou pelo silêncio. O que em geral compreendi dos livros de Mirza Sahib foi o seguinte: o próprio Mirza Sahib e as suas mensagens estão completamente imersos no amor pelo Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Foi com base nisso que comecei a considerar a reivindicação de Mirza Sahib. E agora, para mim, está comprovado como verdade que:

Primeiro: As reivindicações de Mirza Sahib não são contrárias ao Alcorão e ao Hadith.

Segundo: a profecia do senhor Mirza não diminui a dignidade do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele); pelo contrário, se, graças a Moisés (que a paz esteja sobre ele), pode haver profetas em todas as cidades, então, graças à dignidade de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), deve haver em todas as aldeias pessoas que dirão: “Alcançamos a felicidade de falar com Allah praticando a Sharia de Muhammad”. O próprio senhor Mirza disse:

“Esta fonte que Allah fez brotar para a criação

é apenas uma minúscula gota do oceano da perfeição de Muhammad”.

Agora o senhor voltou a me dar permissão para verificar as alegações do senhor Mirza. Por gentileza, poderia provar, à luz do Alcorão Sagrado, que alguma das alegações do senhor Mirza é falsa e ajudar-me a seguir o caminho correto?

Resposta: A carta anterior poderia ter dissipado a sua dúvida, se o senhor realmente quisesse dissipá-la. Tudo o que escrevi no Tarjuman al-Qur’an dizia respeito àqueles que me acusavam falsamente. E, nesse assunto, foi expressa a confiança em Allah de que Ele certamente castigaria os mentirosos; mas o senhor está aceitando isso como um critério para verificar a alegação de alguém que reivindica a profecia. Além disso, adotou o critério de tal maneira que, se se verificar que o pretendente à profecia não está sendo castigado, ele necessariamente terá de ser considerado um profeta verdadeiro. Aquele que for castigado neste mundo é mentiroso e desviado, enquanto aquele que não for castigado é veraz e guiado — será isso realmente um critério correto para determinar se as pessoas são verazes ou mentirosas, e guiadas ou desviadas?

O senhor disse algo estranho: já se passaram 60 anos desde que o senhor Mirza reivindicou a profecia; quanto tempo mais se deve esperar? O senhor apresentou um critério estranho para verificar a veracidade da reivindicação de profecia. Na sua opinião, que tipo de castigo deveria receber um falso pretendente? Explique isso um pouco mais detalhadamente. Se pensa que uma mão vinda do invisível surgirá e cortará sua garganta, eu diria que esse castigo nem sequer foi aplicado a Musaylima, o Mentiroso, que reivindicou falsamente a profecia durante a vida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Se pensa que aquele que reivindica a profecia e é morto pelas mãos dos homens é um mentiroso, então o que dirá sobre os profetas cuja veracidade foi declarada pelo próprio Allah e a respeito dos quais Ele também informou que foram mortos por seus próprios povos? Certamente o senhor leu no Alcorão os dois versículos seguintes:

(Árabe*******************************************na página 169 do PDF)

Creio que, à luz desses versículos, o senhor deveria reexaminar as suas próprias ideias. A reivindicação de profecia não pode ser verificada por meio de um critério desse tipo. O que deve ser examinado no caso de um profeta é: qual é a sua posição à luz das palavras de Allah anteriores a ele? O que ele trouxe? Como é o seu modo de vida? Aceitar como profeta verdadeiro alguém que não passa completamente nesse critério apenas porque o senhor não o vê sendo castigado neste mundo com os próprios olhos é um erro gravíssimo.

Se a reivindicação daquele que alega ser profeta não for examinada à luz do primeiro dos três critérios que mencionei acima e comprovada plenamente como absolutamente genuína, fica demonstrado o último ponto: nenhum novo profeta poderá surgir depois do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Nesse caso, não há necessidade alguma de verificar o que trouxe o profeta que surgiria depois do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele), nem que tipo de pessoa ele seria. Embora, a meu ver, considerando o segundo e o terceiro critérios, Mirza Sahib esteja tão distante do grau da profecia que, mesmo que a porta da profecia estivesse aberta, nenhuma pessoa sensata poderia sequer imaginá-lo como profeta, depois da decisão clara e inequívoca do Alcorão e do Hadith considero esta discussão desnecessária; mais do que isso, considero-a uma extrema insolência diante de Allah e do Mensageiro (que a paz esteja com ele).

Se perguntarem que argumento há no Alcorão e no Hadith em favor de que a porta da profecia foi completamente fechada, não é possível responder a isso em uma carta. Se Allah, o Altíssimo, nos conceder tempo e oportunidade, escreverei, se Allah quiser, um artigo detalhado sobre este assunto. Caso contrário, este tema certamente surgirá no comentário da surata Al-Ahzab, e então poderá ser discutido. — [A discussão aparece poucas páginas adiante, no artigo intitulado “Uma discussão investigativa sobre a doutrina do selo da profecia”. — (Compilador)]

Outro argumento dos cadianitas contra o selo da profecia

Pergunta:No Tafhim al-Qur’an, na explicação da surata Al Imran,(Árabe*****) na nota 69, o senhor escreveu: “É preciso compreender também o seguinte: antes de Muhammad (que a paz esteja com ele), esse compromisso foi tomado de cada profeta; com base nele, cada profeta informou sua comunidade sobre o profeta que viria depois dele e ordenou que o apoiassem. Contudo, não se encontra em parte alguma do Alcorão ou do Hadith qualquer menção de que um compromisso desse tipo tenha sido tomado de Muhammad (que a paz esteja com ele), ou de que ele tenha ordenado à sua própria comunidade que acreditasse em um profeta que surgiria posteriormente, dando-lhe essa incumbência.”

Depois de ler estas frases, surgiu em minha mente o seguinte pensamento: embora o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) não tenha dito exatamente isso, no Alcorão Sagrado, na surata Al-Ahzab, um compromisso é mencionado da seguinte maneira:

(Árabe*******************************)

Aqui, por meio da palavra “minaka” (de você), o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) é interpelado. E o compromisso mencionado aqui foi referido na surata Al Imran. Pela menção do compromisso nos versículos citados em ambas as suratas, Al Imran e Al-Ahzab, entende-se que o mesmo compromisso que havia sido assumido dos outros profetas também foi assumido do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele).

Na realidade, essa questão surgiu em minha mente depois que li um livro dos ahmaditas. Nele, um dos versículos mencionados dessas duas suratas é usado para explicar o outro. Além disso, foi feita uma extensa discussão sobre a palavra “minaka”.

Resposta:(Árabe*****************) Se os senhores qadianitas apresentaram sinceramente o argumento que extraem deste versículo da Surata Al-Ahzab, isso revela sua ignorância e estupidez. Mas, se o fizeram deliberadamente com o objetivo de enganar as pessoas, então seu desvio se torna evidente. Eles extraíram uma afirmação do versículo da Surata Aal Imran (Árabe****************) versículo no qual se menciona que os profetas e seus povos assumiram o compromisso de obedecer a qualquer profeta que viesse posteriormente. Depois, extraíram uma segunda afirmação do versículo acima mencionado da Surata Al-Ahzab. Ali se afirma que, juntamente com os demais profetas, também foi tomado um compromisso do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele). Em seguida, unindo as duas coisas, eles próprios inventaram esta terceira afirmação: que também foi tomado do Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) o compromisso de crer em qualquer profeta que viesse posteriormente e de ajudá-lo e apoiá-lo. Contudo, no versículo que menciona o compromisso tomado dos profetas que viriam posteriormente, Deus, o Altíssimo, em nenhum lugar diz que esse compromisso foi tomado de Muhammad (que a paz esteja com ele). E, no versículo que menciona um compromisso tomado de Muhammad (que a paz esteja com ele), em nenhum lugar se afirma que esse compromisso estava relacionado à obediência a algum profeta que viesse posteriormente. A questão agora é: qual é a justificativa para unir duas afirmações distintas e criar uma terceira afirmação que não existia em nenhum lugar do Alcorão? Poderiam existir três argumentos ou fundamentos para isso. Primeiro: se, depois da revelação desse versículo, o Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) tivesse reunido os Companheiros e anunciado: “Ó pessoas! Deus tomou de mim o compromisso de que crerei no profeta que vier depois de mim e o ajudarei e apoiarei. Portanto, por serem obedientes a mim, assumam também esse compromisso”, então isso poderia servir de fundamento. Mas não encontramos em lugar algum, em toda a coletânea de livros de hadith, sequer um hadith contendo essa declaração. Pelo contrário, encontramos inúmeros hadiths que deixam claro que a cadeia da profecia foi encerrada com o Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) e que nenhum profeta virá depois dele. Seria sequer concebível que um compromisso tão importante tivesse sido tomado do Profeta Nobre (que a paz esteja com ele), que ele o tivesse negligenciado dessa maneira e, ao contrário, tivesse proferido palavras pelas quais grande parte de sua comunidade ficou privada de crer em algum profeta enviado por Deus?

Se no Alcorão houvesse menção a um único compromisso tomado de todos os profetas e de seus povos, isso poderia constituir o segundo argumento ou fundamento para aceitar essa afirmação. E esse compromisso seria crer no profeta que viesse posteriormente. Em todo o Alcorão não haveria menção a nenhum outro compromisso além desse. Nesse caso, poderia ser apresentado o argumento de que o mesmo compromisso também é mencionado no versículo citado da Surata Al-Ahzab. Mas aqui também não há margem para apresentar tal argumento. O Alcorão menciona não um, mas muitos compromissos. Por exemplo, na décima seção da Surata Al-Baqarah, é mencionado que os Filhos de Israel assumiram o compromisso de adorar a Deus, tratar bem os pais e abster-se de derramamento de sangue entre si. Na décima nona seção da Surata Aal Imran, todos os Povos do Livro assumiram este compromisso: não ocultariam os ensinamentos do Livro de Deus que lhes fora entregue, mas os divulgariam publicamente. Na vigésima primeira seção da Surata Al-A’raf, os Filhos de Israel assumiram o compromisso de não dizer nada em nome de Deus senão a verdade, de apegar-se firmemente ao Livro concedido por Deus e de guardar seus ensinamentos. Na primeira seção da Surata Al-Ma’idah, recorda-se aos seguidores de Muhammad (que a paz esteja com ele) um compromisso que haviam assumido com Deus: “Assumis com Deus o compromisso de ouvir e obedecer”. A questão agora é: quando não se diz qual era o compromisso mencionado no versículo em questão da Surata Al-Ahzab, por que, para identificá-lo, escolher precisamente o compromisso mencionado na nona seção da Surata Aal Imran, em vez de qualquer um dos muitos compromissos citados? Para isso, seria certamente necessário um fundamento. E tal fundamento não existe em lugar algum. Se alguém responder que, como em ambos os casos se fala de compromissos tomados dos profetas, um versículo foi usado para explicar o outro, direi que nenhum dos demais compromissos tomados dos povos dos profetas foi tomado diretamente deles; foram tomados por intermédio dos profetas. Além disso, todo aquele que estuda profundamente o Alcorão sabe que de cada profeta foi tomado o compromisso de apegar-se firmemente ao Livro de Deus e obedecer às suas determinações.

O terceiro argumento ou fundamento poderia ser o contexto da discussão anterior e posterior da Surata Al-Ahzab. Se ali houvesse uma indicação clara de que, por “compromisso”, se entendia o compromisso de crer nos profetas que viriam posteriormente, então seria correto aceitar essa afirmação. Mas aqui ocorre justamente o contrário. O contexto da discussão, antes e depois, opõe-se totalmente a essa interpretação. A Surata Al-Ahzab começa com estas palavras:

“Ó Profeta! Teme a Deus, não obedeças aos incrédulos e aos hipócritas, age conforme a revelação que teu Senhor te envia e deposita tua confiança em Deus.” Em seguida, ordena-se a eliminação do costume, existente desde a época da ignorância, de tomar filhos adotivos, bem como de todas as superstições e tradições associadas a ele. Depois, afirma-se que, entre os vínculos não sanguíneos, há apenas um que possui mais dignidade que o vínculo de sangue: o vínculo entre o profeta e os crentes. Por causa desse vínculo, as esposas do Profeta têm, para os crentes, a mesma dignidade de suas mães e são proibidas para eles como suas mães. Em todos os demais assuntos, somente o vínculo de sangue é reconhecido, segundo o Livro de Deus, como fundamento da proibição do casamento e do direito à herança. Depois de estabelecer essa norma, Deus, o Altíssimo, recorda-lhe o compromisso que sempre tomou de todos os profetas e, consequentemente, também do Profeta Nobre (que a paz esteja com ele). Qualquer pessoa dotada de bom senso pode perceber onde, nesse contexto, haveria espaço para recordar o compromisso de crer em um profeta que viesse posteriormente. No máximo, haveria espaço para recordar o compromisso pelo qual todos os profetas foram vinculados a apegar-se firmemente ao Livro de Deus, guardar seus mandamentos, colocá-los em prática e divulgá-los publicamente. Avançando um pouco mais, vemos que Deus, o Altíssimo, ordena claramente ao Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) que ele próprio se case com a ex-esposa divorciada de seu filho adotivo Zaid, eliminando assim o conceito equivocado da época da ignorância segundo o qual as pessoas consideravam o filho adotivo como se fosse seu filho biológico. Quando os incrédulos e os hipócritas levantaram objeções sucessivas contra isso e se empenharam em difamá-lo, Deus, o Altíssimo, respondeu-lhes uma após outra.

1. Primeiramente, Muhammad (que a paz esteja com ele) não é pai de nenhum homem dentre vós; portanto, a esposa divorciada desse homem não poderia tornar-se ilícita para ele

2. E se disserdes: mesmo sendo ela lícita para ele, que necessidade havia de ele se casar com ela? A resposta é que ele é o Mensageiro de Allah. É responsabilidade dele avançar pessoalmente e abolir aquilo que Allah deseja eliminar.

3. Além disso, era ainda mais necessário que ele fizesse isso porque não era simplesmente um Mensageiro; era o último Mensageiro. Se ele não abolisse esses costumes e práticas da jahiliyyah, depois dele não viria nenhum profeta para fazê-los desaparecer.

Ao ler esta última afirmação em conjunto com a anterior, qualquer pessoa certamente dirá que, no contexto dessas afirmações, o compromisso cuja lembrança foi feita ao Profeta (que a paz esteja com ele) sem dúvida alguma não era um compromisso de crer em algum profeta que viesse posteriormente.

Agora reflita: estas três poderiam ser as únicas bases para aceitar, a partir do versículo em questão, o significado declarado pelos qadianis. Cada uma dessas três bases é irrelevante para a afirmação deles; pelo contrário, é oposta a ela. Além disso, se eles tiverem um quarto argumento ou fundamento, pergunte-lhes qual é. E obtenha deles também a resposta a esses três argumentos. Caso contrário, será justo considerar que, dominados pela ignorância e pela insensatez — ou depois de terem expulsado completamente do coração o temor de Allah —, adotaram esse significado do versículo para desencaminhar as pessoas simples. De qualquer modo, não consigo entender: se o senhor Mirza era um profeta, como é que a era de seus ‘companheiros’ ainda não terminou, enquanto toda a sua ummah já passou a ser incluída entre os ‘tabi‘in e os tabi‘ al-tabi‘in’? Mesmo assim, a situação deles é tal que pessoas pertencentes à sua ummah continuam apresentando publicamente, a partir do Livro de Allah, argumentos desse tipo, errôneos e falsos, sem que se levante uma única voz em toda a ummah contra essa ignorância.

Três argumentos do versículo sobre o selo da profecia

(Árabe****************************(na página 174 do PDF)

“Muhammad não é pai de nenhum dos vossos homens; pelo contrário, é o Mensageiro de Allah e o último dos profetas. E Allah tem conhecimento de todas as coisas.” — (Surata Al-Ahzab: 40)

O contexto em que a discussão sobre o término da profecia surgiu na Surata Al-Ahzab é o seguinte: na Arábia, ao filho adotivo era concedido integralmente o status de filho biológico. Ele recebia herança como um filho biológico. Assim como mãe, pai, irmãos e irmãs viviam juntos numa mesma família, o filho adotivo também convivia com a esposa e os filhos do pai adotivo. Depois de se tornar filho adotivo, entre ele e o pai adotivo estabeleciam-se todos os tipos de relações que, devido ao vínculo sanguíneo, normalmente se estabeleciam entre parentes. Allah queria abolir esse costume. Por isso, declarou primeiro que chamar alguém de filho apenas com a boca não o torna seu filho verdadeiro (versículo 4). Contudo, devido a centenas de anos de tradição e costume, era impossível arrancar facilmente das mentes o senso de dignidade e a noção de proibição matrimonial que haviam criado raízes. Portanto, era necessário romper efetivamente essa prática. Foi então que ocorreu o caso de Hazrat Zayd (r.a.) e Hazrat Zaynab (r.a.). Hazrat Zayd, filho adotivo do nobre Mensageiro (s.a.w.), divorciou-se de sua esposa Zaynab. O nobre Mensageiro (s.a.w.) percebeu que aquela era a oportunidade decisiva para romper essa perigosa prática da Jahiliyyah. Enquanto ele próprio não se casasse com a mulher divorciada de seu filho adotivo, não desapareceria a concepção ignorante de considerar o filho adotivo como um filho verdadeiro e biológico. Mas ele também sabia que o grupo de hipócritas de Medina, as comunidades judaicas dos arredores de Medina e a sociedade dos incrédulos de Meca provocariam enorme alvoroço contra essa sua atitude. Eles não deixariam escapar nenhuma oportunidade de difamá-lo por causa disso e de fazer propaganda contra o Islam. Por isso, embora sentisse a necessidade de tomar uma medida prática, hesitava. Finalmente, por ordem de Allah, o Altíssimo, casou-se com Hazrat Zaynab (r.a.). Assim, conforme os temores anteriormente previstos, levantou-se uma tempestade de objeções. Uma torrente de censuras e calúnias começou a correr. Até mesmo nos corações de muçulmanos piedosos surgiram vários tipos de dúvidas e suspeitas. Em resposta a todas essas objeções, censuras, calúnias e dúvidas, foram revelados os versículos 37 a 40 da quinta seção da Surata Al-Ahzab.

No início desses versículos, Allah, o Altíssimo, diz que esse casamento ocorreu por Minha ordem. A razão é que não há absolutamente nada censurável em os crentes se casarem com a esposa divorciada de seu filho adotivo. Em seguida, diz que não é próprio de nenhum profeta hesitar por medo de alguém no cumprimento da ordem de Allah. Depois, encerra esta discussão apresentando as seguintes palavras:

“Muhammad não é pai de nenhum dos vossos homens; porém, é o Mensageiro de Allah e o último dos profetas.” Aqui se compreende claramente, a partir dessa frase, que Allah, o Altíssimo, deseja apresentar três argumentos em resposta aos que levantavam objeções. Com essa única frase, foram cortadas pela raiz todas as objeções e calúnias que os adversários lançavam contra o casamento do nobre Mensageiro (s.a.w.).

A primeira objeção deles era: em sua própria lei religiosa, a esposa do filho é proibida ao pai; apesar disso, como ele pôde casar-se com a esposa de seu próprio filho? Em resposta, foi dito que esse casamento não era censurável, pois o homem cuja esposa divorciada foi desposada não era filho verdadeiro de Muhammad (s.a.w.), e Muhammad (s.a.w.) também não era seu pai verdadeiro. Por isso foi dito: “Muhammad (s.a.w.) não é pai de nenhum dos vossos homens”. Ou seja, aquele cuja esposa divorciada foi desposada nem sequer era filho de Muhammad (s.a.w.). Então, por que seria proibido casar-se com sua esposa divorciada? Todos sabem que Muhammad (s.a.w.) não tinha filho algum.

A segunda objeção deles era: se o filho adotivo não é um filho verdadeiro, então casar-se com sua esposa abandonada poderia, no máximo, ser permitido; mas que necessidade havia de casar-se justamente com ela? Em resposta, foi dito: “Porém, ele é o Mensageiro de Allah”. Isto é, por ser Mensageiro, essa ação passou a fazer parte de sua responsabilidade: eliminar todas as concepções de parentesco sanguíneo relacionadas àquilo que o costume de vocês havia tornado injustamente proibido, embora fosse lícito, tornar isso lícito e dissipar, a esse respeito, todo tipo de dúvida e suspeita.

Em terceiro lugar, havia ainda outra razão para sua necessidade: Muhammad (s.a.w.) não é simplesmente um profeta; ele é o último profeta. Isto é, depois dele não virá nenhum profeta — muito menos um mensageiro. Se durante sua época não fosse possível reformar alguma lei ou prática social, não haveria possibilidade alguma de que um profeta vindo depois dele concluísse essa tarefa iniciada. Portanto, era absolutamente necessário que ele eliminasse essa importante prática da Jahiliyyah. Pois, se essa prática da Jahiliyyah não fosse eliminada por suas mãos agora, não haveria possibilidade de que morresse até o Dia da Ressurreição. Depois dele não virá nenhum profeta. Não haverá ninguém para completar aquilo que ele deixar por concluir.

Com ênfase adicional, foi dito: “Allah tem conhecimento de todas as coisas”. Isto é, Allah sabe por que era necessário, naquele momento, eliminar essa prática da Jahiliyyah por meio de Muhammad (s.a.w.); Allah sabe que prejuízo haveria de outro modo. Agora, não virá mais nenhum profeta da parte d’Ele. Portanto, se Ele não eliminar imediatamente essa prática por meio de Seu último profeta, no futuro não haverá outra personalidade que, ao se opor a essa prática, possa fazer com que ela seja abolida para sempre em toda a comunidade muçulmana do mundo. Mesmo que os reformadores posteriores se oponham a ela, as ações de nenhum deles terão uma influência tão duradoura e universal que pessoas de todos os países e de todas as épocas as aceitem sem hesitação e as sigam. Além disso, nenhum deles possuirá uma personalidade sagrada de tal natureza que o fato de ter realizado essa ação — isto é, de ela ser sua Sunnah — consiga eliminar da mente das pessoas todo o ódio e todo o desconforto que surgirem contra essa prática.

É lamentável que, na época atual, um grupo tenha aberto a porta para uma enorme tribulação ao interpretar incorretamente este versículo. Por isso, depois de apresentar uma discussão completa sobre o tema do término da profecia, tratarei detalhadamente, numa etapa posterior, da discussão sobre o término da profecia, a fim de remover as confusões espalhadas por esse grupo.

 

Discussão acadêmica sobre a crença no selo da profecia

Na época atual, um grupo criou uma grande fitna da nova profecia. Eles (Árabe****************************) interpretam a expressão ‘Khatam an-Nabiyyin’, mencionada no versículo, como “o selo dos profetas”. Eles querem dizer que, depois do Mensageiro de Allah (s.a.w.), muitos outros profetas virão ao mundo depois de receberem o seu selo. Ou, em outras palavras, ninguém será profeta até receber o selo do Mensageiro de Allah (s.a.w.).

Contudo, quando se considera este versículo no contexto especial da cadeia de acontecimentos em que foi revelado, não há qualquer possibilidade de aceitar esse significado para a expressão em questão. Pelo contrário, ao aceitar esse significado, desaparece a própria necessidade do uso da expressão nesse contexto, e ele se torna contrário ao verdadeiro objetivo do discurso. Enquanto se respondiam às objeções levantadas contra o casamento de Zaynab (r.a.) e às diversas dúvidas e suspeitas dele resultantes, dizer subitamente no meio da exposição: “Muhammad é o selo dos profetas”, isto é, todos os profetas que vierem chegarão selados por Muhammad (s.a.w.); não seria isso uma afirmação completamente descabida e irrelevante? O surgimento repentino dessa afirmação no meio da narrativa anterior e posterior não apenas seria descabido, como também enfraqueceria o argumento apresentado em resposta aos contestadores. Nessa situação, uma excelente oportunidade teria surgido para os contestadores. Eles poderiam facilmente dizer: “Teria sido melhor não realizar esse ato durante a sua vida; assim, não haveria possibilidade de qualquer perigo. Se era tão necessário abolir esse mau costume, então qualquer um dos profetas que viessem depois de você, selados por você, poderia aboli-lo.”

O grupo mencionado adotou outro significado distorcido para a expressão. Ou seja, interpretou ‘Khatam an-Nabiyyin’ como ‘Afdal an-Nabiyyin’. Isso significa que a porta da profecia continua aberta, mas que a profecia alcançou a sua plenitude no Mensageiro de Allah (s.a.w.). Porém, ao aceitar esse significado, também não se escapa do reaparecimento da confusão mencionada anteriormente. Ele não tem qualquer relação com a discussão anterior e posterior. Pelo contrário, transmite um significado completamente oposto à sequência dos acontecimentos anteriores e posteriores. Os incrédulos e os hipócritas poderiam dizer: “Senhor, ainda que fossem de menor posição que a sua, continuariam vindo outros profetas depois de você; portanto, poderia deixar esse trabalho para eles. Que necessidade tão indispensável havia de ser você mesmo a cumprir a responsabilidade de eliminar esse mau costume?”

O significado lexical da expressão Khatam an-Nabiyyin

Considerando a relação com a discussão anterior e posterior, pode-se afirmar definitivamente que, aqui, a expressão Khatam an-Nabiyyin significa o encerramento da sucessão. Isto é, nenhum outro profeta virá depois do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Contudo, este não é apenas o seu significado à luz do contexto anterior e posterior; também do ponto de vista lexical, este é o seu único significado correto. De acordo com os dicionários árabes e os provérbios correntes, a palavra ‘khatam’ significa: colocar um selo, fechar, chegar ao fim e concluir uma tarefa, ficando livre da responsabilidade.

Khatamal amal (Árabe***) significa: faragha min al-amal (Árabe*****) isto é, concluiu o trabalho.

Khatamal inaa (Árabe****) significa: fechou a abertura do recipiente e colocou um selo sobre ela, para que nada pudesse sair do seu interior e nada de fora pudesse entrar nele.

Khatamal kitab (Árabe******) significa: fechou a carta e selou sua abertura, fazendo com que a carta fosse preservada.

Khatama ‘alal qalb (Árabe*******) significa: o sabor que se sente por último depois de beber alguma bebida.

Khatimatu kulli shay’in ‘aqibatuhu wa akhiratuhu (Árabe**********) isto é, o khatima de cada coisa significa seu resultado e seu fim.

Khatamash-shay’a balagha akhirahu (Árabe*********) isto é, concluir algo significa chegar até o seu fim. É nesse sentido que se entende khatm do Alcorão e, com base nesse significado, o último versículo de cada surata é chamado de “khawatim”.

Khatamul-qawmi akhiruhum (Árabe*******) isto é, o último indivíduo da nação é o khatamul-qawm. (Consulte: Lisan al-‘Arab, Qamus e Aqrab al-Mawarid.) — [Aqui mencionei apenas três dicionários. Mas por que somente esses três? Se alguém abrir qualquer dicionário confiável da língua árabe, encontrará ali precisamente os significados e explicações acima mencionados da palavra “khatam”. Contudo, os que negam o khatm da profecia ignoraram completamente seu significado lexicográfico para abrir uma brecha na fortaleza protegida da religião de Allah. Eles querem dizer que, quando uma pessoa é chamada de “khatamush-shu‘ara”, “khatamul-fuqaha” ou “khatamul-mufassirin”, não se entende com isso que, depois daquele a quem esse título foi dado, nenhum outro poeta, jurista ou exegeta tenha nascido. Pelo contrário, significa que, nessa pessoa, foi consumada a perfeição do conhecimento ou da arte mencionada. Entretanto, o uso de títulos desse tipo com o objetivo de exaltar sobremaneira alguma coisa jamais faz com que o significado lexicográfico de khatam seja “perfeito” ou “excelente”, e seu uso no sentido de “último” não é considerado incorreto.]

Somente alguém ignorante das regras gramaticais pode dizer algo assim. Não é regra de nenhuma língua que, se uma palavra é ocasionalmente usada de modo indireto com algum significado diferente de seu sentido original, esse significado se torne seu sentido original e seu uso no sentido lexicográfico original seja proibido. Quando se disser diante de um árabe: “Jaa khatamul-qawm” (Árabe*****) ele jamais pensará que chegou o mais excelente ou perfeito membro da tribo; pelo contrário, entenderá que todos os membros da tribo chegaram, até mesmo o último deles.

É preciso lembrar também que foram os próprios seres humanos que deram a algumas pessoas títulos como khatamush-shu‘ara, khatamul-fuqaha, khatamul-muhaddithin e outros semelhantes. E o ser humano não tem capacidade alguma de saber se, depois daquele a quem chama de khatamush-shu‘ara ou khatamul-fuqaha, nascerá ou não outra pessoa dotada dessa qualidade. Portanto, para exaltar sobremaneira sua qualidade e reconhecer sua perfeição, não há alternativa, na linguagem humana, senão usar palavras com títulos desse tipo. Porém, quando Allah Todo-Poderoso declara que uma determinada qualidade foi encerrada em uma pessoa, não vejo razão para usar essa declaração também em sentido indireto, como ocorre com as palavras empregadas pelos seres humanos. Se Allah chamasse alguém de khatamush-shu‘ara, sem dúvida isso significaria que seria impossível nascer outro poeta depois da pessoa em questão, pois Allah conhece o invisível e o futuro, ao passo que o ser humano não conhece o invisível nem o futuro. Como poderia ser equivalente alguém ser chamado, da parte de Allah, de khatamun-nabiyyin e alguém receber, da parte dos seres humanos, o título de khatamush-shu‘ara? — (O Autor)]

É por isso que todos os lexicógrafos e exegetas, unanimemente, deram à expressão khatamun-nabiyyin o significado de “akhirun-nabiyyin” — isto é, o último dos profetas. Segundo os dicionários árabes e o uso proverbial, “khatam” não significa o selo dos correios, cuja marca é colocada sobre a carta para que ela seja postada; significa, antes, o selo aplicado na abertura do envelope com o objetivo de que nada possa sair de dentro dele e nada de fora possa entrar nele.

As palavras do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele)

As diversas explicações do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) também confirmam o significado que a discussão anterior e posterior do Alcorão e o aspecto lexicográfico conferem à palavra. Como exemplo, mencionarei aqui alguns hadiths:

(Árabe***************************************na página 179 do PDF)

“O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: Os Mensageiros de Allah governavam os Filhos de Israel. Quando um profeta falecia, outro profeta o sucedia; mas, depois de mim, não haverá profeta, haverá apenas califas.” — (Bukhari, capítulo dos méritos)

(Árabe***************************************na página 179 do PDF)

“O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: O exemplo da minha situação e da situação dos profetas que me precederam é o de um homem que construiu um edifício e o adornou, tornando-o muito belo e elegante. Porém, em um dos seus cantos, faltava o lugar de um tijolo. As pessoas circulavam ao redor do edifício, admiravam sua beleza e diziam: ‘Por que não foi colocado um tijolo neste lugar?’ Portanto, eu sou esse tijolo e sou também esse profeta. (Isto é, depois da minha chegada, o edifício da profecia alcançou sua plenitude; agora não há nele nenhum espaço vazio cuja preenchimento exigiria novamente a vinda de outro profeta.” — (Bukhari, Livro dos Méritos, capítulo sobre o Selo dos Profetas).

Quatro hadiths com este mesmo conteúdo foram mencionados no capítulo ‘O Selo dos Profetas’, do Livro das Virtudes. No último hadith, foi acrescentado o seguinte trecho (Árabe********) isto é: ‘Então eu vim e encerrei a sucessão dos profetas’.

Este hadith foi narrado no Tirmidhi Sharif, com as mesmas palavras, no capítulo ‘As virtudes do Profeta’, do Livro dos Méritos, e no capítulo ‘Os exemplos’, do Livro da Etiqueta.

O hadith foi mencionado no Musnad de Abu Dawud al-Tayalisi na cadeia de transmissão do hadith narrado por Jabir ibn Abdullah. Sua parte final é (Árabe******) ou seja, por meu intermédio a sucessão dos profetas foi encerrada.

Um hadith desse tipo, com pequenas diferenças de redação, foi narrado no Musnad de Ahmad por Ubai ibn Ka‘b, Abu Sa‘id al-Khudri e Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele).

(Árabe***************************************na página 180 do PDF)

“O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: Foi-me concedida superioridade sobre os demais profetas em seis aspectos: (a) foi-me concedida a capacidade de proferir palavras breves, mas plenamente expressivas; (b) fui auxiliado com força e autoridade; (c) os bens obtidos como espólio foram tornados lícitos para mim; (d) a terra foi transformada em mesquita para mim (isto é, segundo a minha sharia, a oração pode ser oferecida em qualquer lugar do mundo, e não apenas em locais específicos de culto) e o solo foi transformado em meio de purificação (isto é, não somente com água, mas também com o auxílio do solo, mediante o tayammum, pode-se alcançar a purificação, ou seja, realizar a ablução e o banho ritual); (e) fui enviado como Mensageiro para todo o mundo; e (f) a sucessão dos profetas foi encerrada comigo.” — (Muslim, Tirmidhi e Ibn Majah).

(Árabe***************************************na página 180 do PDF)

“O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: A sucessão da missão apostólica e da profecia foi encerrada. Portanto, depois de mim não virá nenhum Mensageiro nem profeta.” — (Tirmidhi, Kitab al-Ru’ya, capítulo sobre o desaparecimento da profecia; Musnad de Ahmad, narrado por Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele)).

 

(Árabe***************************************na página 181 do PDF)

“O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: Eu sou Muhammad e sou Ahmad. Sou aquele que apaga; por meu intermédio, a incredulidade será apagada. Sou aquele que reúne; depois de mim, as pessoas serão reunidas no campo da Ressurreição. (Isto é, depois de mim resta apenas o Dia da Ressurreição.) Sou aquele que chega por último (e aquele que chega por último é aquele) depois de quem não virá nenhum profeta.” — (Bukhari e Muslim, Kitab al-Fada’il, capítulo sobre os nomes do Profeta; Tirmidhi, Kitab al-Adab, capítulo sobre os nomes do Profeta; Muwatta, Kitab sobre os nomes do Profeta; Mustadrak de Hakim, Kitab al-Tarikh, capítulo sobre os nomes do Profeta).

(Árabe***************************************na página 181 do PDF)

“O Mensageiro de Deus (s.a.w.) disse: Certamente, Allah não enviou nenhum profeta que não advertisse sua comunidade sobre o Dajjal. (Mas ele não surgiu na época deles.) Agora eu sou o último profeta, e vocês são a última comunidade. O Dajjal certamente surgirá agora entre vocês”.–(Ibn Majah, Kitab al-Fitan, capítulo sobre o Dajjal).

(Árabe***************************************na página 181 do PDF)

“Abdur-Rahman ibn Jubayr disse: Ouvi Abdullah ibn Amr ibn al-As dizer: Certo dia, o Mensageiro de Deus (s.a.w.) saiu de sua casa e veio até nós. Ele veio como se estivesse se despedindo de nós. Disse três vezes: ‘Eu sou Muhammad, o Profeta iletrado’. Depois disse: ‘Depois de mim não haverá outro profeta’”.–(Musnad Ahmad, narração de Abdullah ibn Amr ibn al-As).

(Árabe***************************************na página 181 do PDF)

“O Mensageiro de Deus (s.a.w.) disse: Depois de mim não haverá mais profecia. Restarão apenas palavras portadoras de boas-novas. Perguntaram: Ó Mensageiro de Allah! O que são as palavras portadoras de boas-novas? Em resposta, ele disse: Um sonho bom. Ou disse: Um sonho auspicioso. Isto significa que já não há qualquer possibilidade de a revelação de Allah descer. No máximo, pode-se dizer que, se Allah, o Altíssimo, der alguma indicação a alguém, isso ocorrerá somente por meio de um sonho bom”.–(Musnad Ahmad, narrado por Abu at-Tufayl; an-Nasa’i, Abu Dawud).

(Árabe***************************************na página 182 do PDF)

“O Profeta (s.a.w.) disse: Se houvesse algum profeta depois de mim, Umar ibn al-Khattab teria alcançado essa honra”.–(at-Tirmidhi, Kitab al-Manaqib).

(Árabe***************************************na página 182 do PDF)

“O Mensageiro de Allah disse a Hazrat Ali: ‘A tua relação comigo é como a relação de Harun com Musa. Contudo, não haverá profeta depois de mim’.” — (Bukhari e Muslim, Kitab Fada’il al-Sahaba).

Bukhari e Muslim narraram este hadith ao relatarem a Batalha de Tabuk. No Musnad de Ahmad, foram narrados dois hadiths com este conteúdo, transmitidos por Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas. O final de um desses hadiths é:(Árabe********) ‘Lembrai-vos de que não haverá profecia depois de mim’. Abu Dawud al-Tayalisi, o Imam Ahmad e Muhammad Ishaq citaram um hadith detalhado sobre este assunto, pelo qual se sabe que, antes de partir para a Batalha de Tabuk, o Mensageiro de Allah decidiu deixar Hazrat Ali encarregado da proteção e administração de Medina Tayyiba. Por causa disso, os hipócritas começaram a dizer várias coisas a seu respeito. Ele foi ter com o Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Vais deixar-me entre as crianças e as mulheres?” Então o Mensageiro de Allah consolou-o, dizendo: ‘A tua relação comigo é como a relação de Harun com Musa’. Isto é, tal como Hazrat Musa, ao partir para o Monte Tur, deixou Hazrat Harun para cuidar dos Filhos de Israel, também eu te deixo para proteger Medina. Mas, ao mesmo tempo, surgiu no coração do Mensageiro de Allah o receio de que essa comparação com Hazrat Harun pudesse mais tarde dar origem a alguma fitna. Por isso, imediatamente esclareceu a questão, dizendo: ‘Mas lembra-te: nenhuma pessoa será profeta depois de mim’.”

(Árabe***************************************na página 182 do PDF)

“Hazrat Thawban narrou que o Mensageiro de Allah disse: ….. E o fato é que surgirão trinta mentirosos entre a minha ummah. Cada um deles reivindicará ser profeta. Contudo, não haverá profeta depois de mim.” — (Abu Dawud, Kitab al-Fitan).

Abu Dawud narrou outro hadith com este conteúdo, no ‘Kitab al-Malahim’, transmitido por Hazrat Abu Huraira. Tirmidhi narrou estes dois hadiths através de Hazrat Thawban e de Hazrat Abu Huraira. As palavras do segundo hadith são:

(Árabe***************************************na página 183 do PDF)

“Isto é, surgirão cerca de trinta impostores. Cada um deles reivindicará ser o Mensageiro de Allah.”

(Árabe***************************************na página 183 do PDF)

“O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: entre os filhos de Israel que viveram antes de vós, houve muitos homens com quem se falou (Allah falou), embora não fossem profetas. Se houver alguém assim em minha comunidade, será Umar.” – (Bukhari, Livro das Virtudes).

No Muslim, no hadith que apresenta este mesmo conteúdo, (Árabe****) em vez de (Árabe****)foi usada a palavra. Contudo, as duas palavras, mukallam e muhaddath, são sinônimas. Isto é, trata-se de uma pessoa com quem Allah, o Altíssimo, falou, ou com quem falou por detrás de um véu. Daqui se sabe que, se alguém desta comunidade pudesse ter tido a felicidade de falar com Allah, além da profecia, esse alguém teria sido exclusivamente Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

(Árabe***************************************na página 183 do PDF)

“O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: depois de mim não haverá mais nenhum profeta, e depois da minha comunidade não haverá mais nenhuma comunidade.” – (Bayhaqi, Kitab al-Ru’ya; Tabarani).

(Árabe***************************************na página 183 do PDF)

“O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse: eu sou o último profeta, e a minha mesquita é a última mesquita.” – [Os que negam o selo da profecia argumentam, a partir deste hadith, que, assim como o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) chamou a sua mesquita de última mesquita, embora ela não seja a última mesquita — depois dela foram construídas inúmeras mesquitas no mundo —, da mesma forma ele disse que era o último profeta. O significado disso, segundo eles, seria que ainda viriam profetas depois dele. Naturalmente, no sentido da excelência, ele seria o último profeta, e a sua mesquita, a última mesquita. Mas, na realidade, esse tipo de interpretação distorcida apenas prova que essas pessoas foram privadas da capacidade de compreender o significado das palavras de Allah e do Mensageiro (que a paz esteja com ele). No local de Sahih Muslim onde este hadith foi narrado, basta considerar conjuntamente todos os hadiths sobre o assunto para que fique claro em que sentido o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) chamou a sua mesquita de última. Ali, o Imam Muslim citou as narrações de Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e da Mãe dos Crentes, Hazrat Maymuna (que Allah esteja satisfeito com ela), nas quais se afirma que existem no mundo apenas três mesquitas que possuem superioridade sobre as mesquitas comuns. Quem reza nelas recebe uma recompensa mil vezes maior do que nas demais mesquitas. Por isso, é permitido viajar exclusivamente para rezar nessas três mesquitas. Com exceção destas três, não é permitido viajar para qualquer outra mesquita do mundo com o propósito específico de rezar nela, deixando de lado todas as demais. Entre essas três mesquitas especiais, a primeira é a Mesquita Sagrada. Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele) construiu-a. A segunda é a Mesquita de Aqsa. Hazrat Sulaiman (que a paz esteja com ele) construiu-a. A terceira é a Mesquita do Profeta, em Medina. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) construiu-a. O significado das palavras do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) é que, uma vez que depois dele não virá nenhum profeta, depois da sua mesquita não será construída no mundo uma quarta mesquita onde a recompensa pela oração seja maior do que nas outras mesquitas e para a qual seja permitido viajar com o propósito de rezar. – (O autor)] (Muslim, Livro do Hajj, capítulo sobre a virtude de rezar nas mesquitas de Meca e Medina).

Numerosos Companheiros narraram estes hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), e muitos muhaddiths os registraram com cadeias de transmissão extremamente fortes e confiáveis. Depois de estudá-los, fica claro que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), usando palavras diferentes em situações diferentes e de várias maneiras, deixou claramente estabelecido que era o último profeta. Depois dele não virá nenhum profeta. A sucessão da profecia foi encerrada com ele, e quem, depois dele, reivindicar ser mensageiro ou profeta será um dajjal e um mentiroso. – [Os que negam o selo da profecia citam, em oposição a todos esses hadiths do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), a seguinte narração atribuída a Hazrat Aisha. Nela se diz:(Árabe**************) isto é: “Dizei: certamente ele é o selo dos profetas, mas não digais que depois dele não haverá profeta.” Contudo, em primeiro lugar, apresentar qualquer declaração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) em oposição à ordem explícita do nobre Profeta (que a paz esteja com ele) nada mais é do que extrema insolência e falta de respeito. Além disso, a declaração acima atribuída a Hazrat Aisha não é mencionada. Nenhum famoso compilador de hadith registrou esse hadith em sua obra. A declaração acima é citada do livro de exegese chamado Durre Mansur e do dicionário de hadith chamado Takmila-ye Majma-ul-Bahar. Porém, não há qualquer menção à sua cadeia de transmissão.

Apresentar a mais fraca declaração atribuída a uma mulher entre os Companheiros para rejeitar os inúmeros e claros hadiths do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), narrados pelos maiores e mais destacados muhaddiths com cadeias de transmissão corretas e confiáveis, não passa de extrema insolência. Que explicação poderia ser mais forte, confiável e autorizada do que a expressão corânica “Khatam an-Nabiyyin”? Aqui, a palavra do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) é a cadeia de transmissão e a prova final. Além disso, quando ela interpreta um versículo do Alcorão, transforma-se numa prova ainda mais forte. A questão agora é: quem compreendeu o Alcorão mais profundamente do que o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), e quem, além dele, poderia ter autoridade para interpretá-lo? Quem existe que possa atribuir outro significado ao término da profecia, e nós estaríamos dispostos sequer a pensar nisso, quanto mais a aceitá-lo?

O consenso dos Companheiros

Depois do Alcorão e da Sunnah, o consenso ou concordância dos nobres Companheiros ocupa o terceiro lugar em importância. Todas as narrativas históricas confiáveis comprovam que, imediatamente após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), os nobres Companheiros, por consenso, combateram todos os que reivindicavam a profecia e todos os que reconheciam a profecia deles.

A esse respeito, o caso de Musailima, o Mentiroso, é especialmente digno de menção. Ele não negava a profecia do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele); ao contrário, afirmava que havia sido feito parceiro do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) na profecia. Na carta que escreveu a ele antes do falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), dizia-se:

(Árabe***************************************na página 185 do PDF)

Isto é: “De Musailima, o Mensageiro de Allah, para Muhammad, o Mensageiro de Allah. Que a paz esteja sobre você. Saiba que fui associado a você na missão profética”. (Tarari, volume 2, p. 399, edição impressa no Egito). Além disso, também se dizia nela a frase: “Testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Allah”.

Mesmo depois de reconhecerem em termos tão claros a missão de Muhammad, ele foi considerado incrédulo e fora do Islã, e combateu-se contra ele. Também está comprovado pela história que os Banu Hanifa creram nele de boa-fé. Contudo, estavam enganados ao pensar que o próprio Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) o havia associado à sua missão profética. Além disso, alguém que havia recebido o ensinamento do Alcorão em Medina apresentou-lhes versículos do Alcorão como se tivessem sido revelados a Musailima. (Al-Bidaya wa an-Nihaya, de Ibn Kathir, volume 5, p. 51). Apesar disso, os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) não os reconheceram como muçulmanos e combateram contra eles. Não há possibilidade de afirmar que os Companheiros os combateram não por apostasia, mas pelo crime de rebelião. Se algum dia fosse necessário combater muçulmanos rebeldes, segundo a lei islâmica não seria permitido escravizar os prisioneiros de guerra. Nem mesmo se um dhimmi declarasse rebelião: depois de capturados, também não poderiam ser escravizados. Entretanto, durante a guerra contra Musailima e seus seguidores, Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) anunciou que suas meninas e seus meninos menores seriam escravizados. Depois da captura, constatou-se que realmente foram escravizados. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) tornou-se proprietário de uma das prisioneiras de guerra pertencentes a esse grupo. O filho nascido dessa prisioneira foi Muhammad Hanifiyya — Hanifiyya significa uma mulher da tribo Hanifiyya —, que mais tarde se tornou uma figura amplamente conhecida no Islã. (Al-Bidaya wa an-Nihaya, volume 6, pp. 316–325).

Disso fica claro que o crime pelo qual os nobres Companheiros combateram contra eles não foi um crime de rebelião; foi, antes, o fato de que um homem reivindicou a profecia depois de Muhammad (que a paz esteja sobre ele), e as pessoas creram nele. Essa medida foi tomada imediatamente após o falecimento do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) a liderou, e todo o conjunto dos Companheiros o apoiou unânime e conjuntamente. Que exemplo do consenso dos Companheiros poderia ser mais claro do que este!

O consenso dos sábios

Na Sharia, depois do consenso dos Companheiros, a prova mais forte do quarto nível é o consenso dos sábios das gerações posteriores aos Companheiros. Considerando a questão por esse prisma, verifica-se que, desde o primeiro século da Hégira até hoje, os sábios de todas as regiões do mundo muçulmano, em todas as épocas, sempre concordaram que:

Depois de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ninguém pode ser profeta; e quem, depois dele, reivindicar a profecia, ou aceitar essa falsa reivindicação, é um incrédulo. Ele não tem lugar na comunidade islâmica.

Apresento algumas provas a esse respeito:

Primeiro: na época do Imam Abu Hanifa (80–150 H.), um homem reivindicou a profecia.

Ele disse: “Dêem-me uma oportunidade; apresentarei o sinal milagroso da minha profecia.” Ao ouvir isso, o Imam disse: “Quem pedir a ele qualquer sinal milagroso também se tornará um incrédulo. Pois o Mensageiro de Allah disse: (Árabe*******) “Não há profeta depois de mim.” (Manaqib Imam Azam Abu Hanifa, escrito por Ibn Ahmad Makki, vol. 1, p. 161, publicado em Hyderabad em 1321 H.).

Segundo: o erudito Ibn Jarir Tabari (224–310 H.), em seu famoso tafsir do Alcorão,(Árabe***********) ao explicar o versículo, escreveu:(Árabe***************) isto é: “Aquele que encerrou a profecia e lhe colocou um selo. Portanto, até o Dia da Ressurreição, sua porta não se abrirá para mais ninguém.” — (Tafsir de Ibn Jarir, vol. 22, p. 12).

Terceiro: o Imam Tahawi (239–321 H.), em sua obra ‘Aqida Salafiyya’, ao descrever a crença dos principais sábios anteriores, especialmente dos Imams Abu Hanifa, Abu Yusuf e Muhammad (que Allah esteja satisfeito com eles), registrou a seguinte crença a respeito da profecia: “Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) é o servo amado de Allah, Seu profeta escolhido e Seu mensageiro amado. Ele é o último dos profetas, o imam dos tementes a Allah, o líder dos mensageiros e o amigo do Senhor dos mundos. Depois dele, toda reivindicação de profecia é desvio e apenas outro nome para a adoração dos próprios interesses.” — (Sharh al-Tahawiyya fi al-Aqida al-Salafiyya, Dar al-Ma’arif, Egito, pp. 15, 87, 96, 97, 100 e 102).

Quarto: Allamah Ibn Hazm Andalusi (384–456 H.) escreveu: “Sem dúvida, a cadeia da revelação terminou depois do Mensageiro de Allah (S.A.). A prova disso é que a revelação chega unicamente a um profeta, e Allah, o Altíssimo, disse: ‘Muhammad não é o pai de nenhum dos vossos homens, mas é o Mensageiro de Allah e o último dos profetas’.” — (Al-Muhalla, vol. 1, p. 26).

Quinto: o Imam Ghazali (450–505 H.) disse: — [Aqui reproduzo integralmente a declaração do Imam Ghazali em seu idioma original. A razão é que os que negam o encerramento da profecia desafiaram vigorosamente a autenticidade desta citação. — O autor]

(Árabe***********************************************************************************na página 187 do PDF)

Isto é: “Se esta porta — a porta de negar a aceitação do consenso como prova — for aberta, suas consequências serão terríveis. Por exemplo, se alguém disser que é possível a vinda de outro profeta depois do nosso Profeta Muhammad (S.A.), então, para provar que é permitido hesitar em qualificá-lo como incrédulo, será indispensável recorrer ao consenso. Isso porque a razão não determina que tal coisa seja ilícita. Quanto ao Alcorão e ao hadith, para alguém que sustente esta crença não será nada difícil atribuir um significado inventado às duas expressões: ‘Não há profeta depois de mim’ e ‘o último profeta’. Ele poderá dizer que ‘o último profeta’ significa o término da vinda dos mais nobres mensageiros. E, se lhe disserem que a palavra ‘profetas’ foi usada em seu sentido geral, tampouco lhe será difícil interpretar esse termo geral. A respeito da frase ‘não há profeta depois de mim’, ele poderá dizer: ‘Não foi dito que não há mensageiro depois de mim’. Existe uma diferença entre mensageiro e profeta. A posição do profeta é superior à do mensageiro. Em suma, podem ser proferidos muitos disparates desse tipo. E não é possível fechar o caminho para a atribuição de vários significados inventados por meio de uma análise meramente linguística. Pelo contrário, consideramos que, no que diz respeito à atribuição de um significado aparente — inventado — às alegorias, há possibilidade de significados ainda mais remotos. Também não podemos dizer, acerca daqueles que adotam tais significados, que estão negando o Alcorão e o hadith. Mas, em resposta à sua afirmação, diremos que toda a comunidade muçulmana entendeu unanimemente, a partir desta expressão — isto é, ‘não há profeta depois de mim’ — e da condição do Nobre Profeta (S.A.), que o significado das palavras do Nobre Profeta (S.A.) era: depois dele não virá nem profeta nem mensageiro. Além disso, toda a comunidade muçulmana decidiu conjuntamente que, neste assunto, não há espaço para qualquer ta’wil, significado inventado ou interpretação remota. Portanto, tal pessoa não pode ser chamada de outra coisa senão negadora do consenso.” — (Al-Iqtisad fi al-I‘tiqad, Al-Matba‘at al-Abdiyyah, Egito, p. 114).

Sexto: Muhy al-Sunnah al-Baghawi (falecido em 510 H.) escreveu em seu tafsir, Ma‘alim al-Tanzil: “Por meio do Mensageiro de Allah (S.A.), Allah, o Altíssimo, encerrou a cadeia da profecia. Portanto, ele é o último profeta…” Ibn Abbas disse: “Allah, o Altíssimo, decidiu nesta ayah que não haverá profeta depois de Muhammad (S.A.).” — (vol. 3, p. 158).

Sétimo: Allamah al-Zamakhshari escreveu no Tafsir al-Kashshaf: “Se disserdes: como o Mensageiro de Allah (S.A.) pode ser o último profeta, quando o Hazrat Isa (A.S.) descerá no fim dos tempos?, responderei: o significado de o Mensageiro de Allah (S.A.) ser o último profeta é que, depois dele, ninguém será investido no cargo de profeta. Hazrat Isa (A.S.) foi feito profeta antes do Mensageiro de Allah (S.A.). Depois de descer posteriormente, seguirá a Sharia do Mensageiro de Allah (S.A.) e rezará voltado para a sua qibla. Isto é, fará parte da ummah do Mensageiro de Allah (S.A.).” — (vol. 2, p. 215).

Oitavo: Qadi Iyad (falecido em 544 H.) escreveu que toda pessoa que reivindique a profecia para si, ou considere possível alcançar a profecia por esforço próprio e, ao menos por meio da purificação, elevar-se ao nível de um profeta — como pensam alguns filósofos e sufis de mente desviada —, bem como toda pessoa que não reivindique a profecia, mas reivindique receber revelação, é incrédula e desmente a profecia do Mensageiro de Allah (S.A.). Isso porque ele informou que é o último profeta e que nenhum profeta virá depois dele. Também informou, da parte de Allah, que encerrou a profecia e foi enviado para toda a humanidade. Toda a comunidade muçulmana concorda que, neste caso, deve ser aceito o sentido aparente das palavras e que não há qualquer possibilidade de adotar outro significado. Portanto, não há dúvida, à luz do Alcorão, do hadith e do consenso, quanto à incredulidade dos grupos mencionados. — (Al-Shifa, vol. 2, pp. 270–271).

Nono: Allamah Shahristani (falecido em 548 H.) escreveu em sua famosa obra Al-Milal wa al-Nihal: “Assim, quem disser que virá algum profeta depois de Muhammad (S.A.) [exceto Hazrat Isa (A.S.)] — quanto à sua incredulidade, não há divergência nem mesmo entre duas pessoas.” — (vol. 3, p. 249).

Dez: O Imame Razi (543–606 H.) escreveu em sua obra Tafsir-e Kabir, ao explicar o versículo “Khataman Nabiyyin”: O propósito de usar a expressão “Khataman Nabiyyin” nesta passagem é o seguinte: se, depois de um profeta, vier outro profeta, este último poderá completar aquilo que o profeta anterior tiver deixado incompleto no que diz respeito aos conselhos e às instruções; mas aquele depois de quem não virá profeta algum será muito afetuoso para com sua comunidade e lhe dará uma orientação clara. Isso porque seu exemplo é como o de um pai que sabe que, após sua morte, seu filho não terá outro tutor nem protetor. — (vol. 6, p. 581).

Onze: Allama Baydawi (falecido em 685 H.) escreveu em seu Tafsir Anwarut Tanzil: Isto é, ele é o último profeta. Ele encerrou a sucessão dos profetas. Ou, por causa dele, foi colocado um selo sobre a sucessão dos profetas. O fato de Hazrat Jesus (a.s.) descer depois dele não constitui qualquer objeção ao encerramento da profecia, pois ele descerá como seguidor da religião do Mensageiro de Allah (s.a.). — (vol. 4, p. 164).

Doze: Allama Hafizuddin Nasafi (falecido em 810 H.) escreveu em seu Tafsir Madarekut Tanzil: O Mensageiro de Allah (s.a.) é o Khatamun Nabiyyin, isto é, ele é o último profeta. Depois dele, nenhuma outra pessoa será feita profeta. O caso de Hazrat Jesus (a.s.) é que ele foi investido no cargo de profeta antes do Mensageiro de Allah (s.a.). Mais tarde, quando descer, será seguidor da Shariah do Mensageiro de Allah (s.a.). Em outras palavras, fará parte da comunidade do Mensageiro de Allah (s.a.). — (p. 471).

Treze: Allama Alauddin Baghdadi (falecido em 725 H.) escreveu em seu Tafsir Khazin:(Árabe******) Isto é, Allah encerrou a profecia com o Mensageiro de Allah (s.a.). Portanto, depois dele não há profecia alguma, nem há, depois dele, qualquer associado à sua profecia.(Árabe**********) Isto é, Allah sabe que depois dele não há profeta algum. — (pp. 471–472).

Quatorze: Allama Ibn Kathir escreveu em seu famoso tafsir: Em seguida, fica evidente, a partir do versículo em questão, que não há outro profeta depois do Profeta Muhammad (s.a.). E, quando não há profeta depois dele, nem sequer se coloca a questão de um mensageiro. Isso porque a missão de mensageiro é uma dignidade específica, enquanto a dignidade de profeta é geral: todo mensageiro é profeta, mas nem todo profeta é mensageiro. Quem reivindicar essa dignidade depois do Mensageiro de Allah (s.a.) será mentiroso, impostor, Dajjal, extraviado e alguém que extravia os outros. Por mais que provoque perturbações na ordem natural e crie uma ilusão diante dos olhos das pessoas por meio de truques mágicos, sua alegação não poderá ser aceita. … Até o Dia da Ressurreição, a condição de toda pessoa que reivindicar essa dignidade será a mesma. — (vol. 3, pp. 493–494).

Quinze: Allama Jalaluddin Suyuti (falecido em 911 H.) escreveu em seu Tafsir Jalalayn:(Árabe*************) Isto é, Allah sabe que não há outro profeta depois do Mensageiro de Allah (s.a.), e que, depois da descida de Hazrat Jesus (a.s.), ele seguirá a Shariah do Mensageiro de Allah (s.a.). — (p. 768).

Dezesseis: Allama Ibn Nujaym (falecido em 970 H.) escreveu no capítulo Kitab al-Siyar, seção sobre a apostasia, de sua famosa obra de usul al-fiqh, Al-Ashbah wan-Nazair: Se alguém não considerar o Profeta Muhammad (s.a.) o último profeta, não é muçulmano. Isso porque conhecer essas afirmações e reconhecê-las faz parte das questões indispensáveis da religião. — (p. 179).

Dezessete: O Shaykh Ismail Haqqi (falecido em 1137 H.) escreveu, ao explicar o versículo mencionado em seu Tafsir Ruhul Bayan: Asim — famoso imame da ciência do tajwid — leu a palavra “Khatam” com fatḥa sobre a letra ta. Seu significado é um instrumento de encerramento, por meio do qual se coloca um selo.

Isto é, o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) veio depois de todos os profetas, e por seu intermédio foi colocado um selo sobre a sucessão dos profetas. Em persa, isso seria chamado de “Mohre Paygambarã”. Isto é, por seu intermédio a porta da profecia foi selada e fechada, e a sucessão dos mensageiros foi encerrada. Outros recitadores leram “Khatimun Nabiyyin”, colocando kasra sob a letra “ta”. Seu significado é que ele era aquele que selava; em outras palavras, aquele que selava os profetas. Assim, essa palavra também se tornou sinônima de “Khatam”. Portanto, depois do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os sábios de sua ummah receberão, por herança, somente a representação dele. Com sua morte, encerrou-se imediatamente a herança da profecia, e a descida de Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele) depois dele não constituirá qualquer defeito em sua profecia. Isso porque o significado de Khatimun Nabiyyin é que, depois dele, ninguém será feito profeta, e Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele) foi feito profeta antes dele. Portanto, ele será incluído entre os seguidores do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), rezará voltado para a qibla do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e fará parte de sua ummah. Naquele momento, nenhuma revelação será enviada a Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele), e ele não promulgará nenhuma nova norma. Pelo contrário, será representante do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). …..A posição unânime de Ahl al-Sunna wa’l-Jama‘at é que não há profeta depois do nosso Profeta. Pois Allah disse:(Árabe********************) Isto é, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o Mensageiro de Allah e o último dos profetas. E o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: (Árabe*****) “Não há profeta depois de mim.” Portanto, quem disser hoje que há um profeta depois de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) será chamado de incrédulo, pois negará a declaração explícita do Alcorão e do hadith. Com efeito, depois de provas e argumentos claros, a verdade foi separada da falsidade. E a reivindicação de quem reivindicar a profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) será considerada falsa. – (volume 22, p. 188).

Dezenove: Fatawa-e-Alamgiri: Por ordem do imperador Alamgir do Hindustão, os ilustres sábios do subcontinente registraram conjuntamente esta obra no ano mil da Hégira. Nela se afirma: se alguém acreditar que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não é o último profeta, não é muçulmano. E, se reivindicar ser o Mensageiro de Allah ou um profeta, será declarado incrédulo. – (volume 2, p. 263).

Vinte: Allama Shawkani (falecido em 1255 da Hégira) escreveu em seu tafsir Fath al-Qadir: Toda a comunidade muçulmana leu a palavra “Khatim” com kasra sob a letra “ta”. Somente Asim a leu com fatha. O significado da primeira leitura é que o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encerrou a sucessão de todos os profetas, isto é, veio por último. O significado da segunda é que ele desempenhou o papel de selo para todos os mensageiros; e seu significado é que, por seu intermédio, a sucessão dos profetas foi selada e fechada. Com isso, seu grupo alcançou plena perfeição. – (volume 4, p. 275).

Vinte e um: Allama Alusi (falecido em 1280 da Hégira) escreveu no tafsir Ruh al-Ma‘ani: A palavra nabi tem um sentido mais abrangente que rasul. Portanto, o fato de o rasul ser Khatamun Nabiyyin significa que ele também é Khatam al-Mursalin. Ele é o último profeta e o último mensageiro; isso significa que, depois de ele ter recebido neste mundo o atributo da profecia, esse atributo foi eliminado para sempre entre os seres humanos e os gênios. – (volume 22, p. 32). Quem reivindicar receber a revelação da profecia depois do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) será considerado incrédulo. Não há espaço para divergência entre os muçulmanos quanto a isso. – (volume 22, p. 38). O Alcorão declarou em linguagem inequívoca que o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o último profeta. O Alcorão declarou em linguagem inequívoca que o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o último profeta. A Sunna do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) explicou isso claramente, e toda a comunidade muçulmana agiu de acordo com isso. Portanto, quem fizer qualquer reivindicação contrária será considerado incrédulo. – (volume 22, p. 39).

Aqui mencionei as explicações e opiniões dos maiores sábios, juristas, exegetas e especialistas em hadith do mundo muçulmano, desde o Hindustão até o Marrocos e a Andaluzia, e da Turquia até o Iêmen. Junto com seus nomes, mencionei também suas datas de nascimento e falecimento. À primeira vista, qualquer pessoa poderá estimar que entre eles estão incluídos os maiores sábios da história do Islã, desde o primeiro até o décimo terceiro século da Hégira. Eu também poderia ter mencionado aqui as opiniões dos sábios do décimo quarto século da Hégira. Mas deliberadamente não citei suas opiniões. Pois alguém poderia dizer, em resposta às suas opiniões e explicações, que eles expuseram esse significado do selo da profecia por teimosia contra o reivindicador da profecia desta época. Por isso citei as opiniões dos sábios das épocas anteriores. É evidente que não se coloca sequer a questão de qualquer divergência deles com alguém da época atual. Essas opiniões provaram definitivamente que, desde o primeiro século da Hégira até hoje, todo o mundo muçulmano tomou unanimemente a expressão Khatamun Nabiyyin no sentido de último profeta. Os muçulmanos de todas as épocas sustentaram a mesma crença: depois do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a porta da profecia foi fechada para sempre. Também não houve qualquer divergência entre os muçulmanos quanto ao fato de que, depois do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), qualquer pessoa que reivindicar ser mensageiro ou profeta, e qualquer pessoa que aceitar sua reivindicação, tornar-se-ão incrédulas.

À luz desta discussão, toda pessoa sensata pode chegar à conclusão de que, diante do significado da expressão Khataman Nabiyyin comprovado pelos dicionários árabes, do significado evidenciado pelo contexto corânico, da explicação dada pelo Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), do consenso dos Companheiros veneráveis sobre essa explicação e daquilo que toda a comunidade muçulmana, desde depois dos Companheiros veneráveis até hoje, tem aceitado inequivocamente, existe acaso espaço ou possibilidade para adotar um segundo significado, isto é, para abrir a porta da profecia a algum novo reivindicador? E como se pode reconhecer como muçulmanas aquelas pessoas que não apenas conceberam a ideia de abrir a porta da profecia, mas permitiram que uma pessoa entrasse por essa porta reivindicando a profecia e ainda creram em sua profecia?

Nesse contexto, é preciso considerar ainda três questões.

Uma questão importante

A primeira coisa é que a questão da profecia é extremamente delicada. Segundo o ponto de vista do Alcorão, este tema faz parte dos fundamentos da crença islâmica. A fé e o kufr de uma pessoa dependem de ela aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se alguém for um profeta e as pessoas não acreditarem nele, tornam-se incrédulas. Por outro lado, se, embora uma pessoa não seja profeta, as pessoas a aceitarem como tal, também se tornam incrédulas. Em uma situação tão delicada, não se pode de modo algum imaginar qualquer descuido da parte de Allah. Se não estivesse destinado a vir nenhum outro profeta depois do profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o próprio Allah teria declarado isso no Alcorão em linguagem clara e inequívoca, tê-lo-ia anunciado publicamente por meio do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e o próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) jamais teria partido deste mundo antes de informar completamente toda a ummah de que, depois dele, viriam outros profetas e de que deveríamos acreditar neles. Que inimizade Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teriam contra nossa religião e nossa fé, para que, depois do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a porta da profecia permanecesse aberta e algum profeta entrasse por ela, em alguém que, se não acreditássemos, não poderíamos continuar sendo muçulmanos — e, no entanto, não apenas fôssemos mantidos desinformados sobre isso, mas, ao contrário, Allah e Seu Mensageiro tivessem dito em conjunto tantas coisas que, durante mil e trezentos anos, toda a ummah pensou — e ainda pensa — que nenhum outro profeta virá depois do profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?

Admitamos, para efeito de argumentação, que a porta da profecia esteja aberta e que algum profeta tenha de fato surgido. Nessa situação, nós o negaríamos sem hesitação. O único temor poderia ser o interrogatório perante Allah. Mas, se no Dia da Ressurreição Ele nos pedisse explicações sobre isso, apresentaríamos diretamente perante Seu tribunal os registros mencionados. Ficaria provado, que Allah nos livre, que foram o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro que nos lançaram nesse kufr. Podemos afirmar sem medo que, depois de ver esses registros, Allah, o Altíssimo, não nos castigará por não termos acreditado em um novo profeta. Mas, se a porta da profecia estiver realmente fechada, sem possibilidade de vir outro profeta, e, apesar disso, uma pessoa acreditar em alguém que reivindica a profecia, então ela deveria refletir se, para escapar do crime desse kufr, poderia apresentar perante o tribunal de Allah algum registro que lhe desse esperança de salvação. Antes de comparecer ao tribunal, ela deveria analisar aqui mesmo as provas e os documentos reunidos para sua própria prestação de contas. E, comparando-os com as provas que apresentamos, deveria julgar se algum indivíduo sensato, confiando na defesa em que ela se apoia para agir assim, poderia assumir o risco de sofrer o castigo do kufr.

Qual é, então, a necessidade de um novo profeta?

O segundo ponto importante é que ninguém pode desenvolver em si a qualidade da profecia por progredir na adoração e nas boas ações. A profecia não é uma recompensa concedida a alguém em troca de um grande serviço. Pelo contrário, é uma dignidade que Allah, o Altíssimo, concede a uma pessoa específica quando surge uma necessidade especial. Quando essa necessidade aparece, Allah estabelece uma pessoa nessa dignidade; e, quando ela não existe ou deixa de existir, Allah não continua enviando profetas um após outro sem razão. Se tentarmos descobrir no Majid Alcorão em que circunstâncias surge a necessidade de enviar um profeta, saberemos que os profetas foram enviados somente em quatro tipos de situações:

Primeira: surge a necessidade de enviar um profeta a um determinado povo porque nenhum profeta havia chegado anteriormente entre eles, e a mensagem de um profeta enviado a outro povo também não havia chegado até eles.

Segunda: surge a necessidade de enviar um profeta porque as pessoas esqueceram o ensinamento do profeta anterior ou o distorceram, tornando-se impossível seguir o caminho que esse profeta havia mostrado.

Terceira: por meio do profeta anterior, a instrução do povo não alcançou a perfeição, e tornou-se necessário um profeta adicional para completar a religião.

Quarta: tornou-se necessário outro profeta para ajudar e apoiar um profeta.

É desnecessário dizer que, após o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), nenhuma das razões acima mencionadas continua presente.

O Alcorão afirma por si mesmo que o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi enviado como guia para todo o mundo. A história cultural do mundo mostra que, desde o recebimento de sua missão profética, existem no mundo condições que permitem que seu convite alcance todas as nações. Depois disso, não há necessidade de enviar profetas separados a cada povo.

O Alcorão também afirma, e todos os relatos do Hadith e da Sira dão testemunho disso, que os ensinamentos do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram preservados de forma inteiramente correta e pura. Neles não ocorreu qualquer distorção ou alteração. Até hoje, nem uma única palavra do Alcorão que ele trouxe foi acrescentada ou retirada. E isso também não poderá ocorrer até o Dia da Ressurreição. As orientações que ele deu por meio de suas palavras e ações também nos chegam de tal maneira que parece que vivemos em sua própria época. Portanto, a segunda necessidade também chegou ao fim.

Além disso, o Alcorão Sagrado declara em termos claros que, por meio do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Allah completou Sua religião. Portanto, para a completude da religião, também não há mais necessidade de nenhum profeta.

Resta agora a quarta necessidade. Minha posição a esse respeito é que, se para isso fosse necessário algum profeta, ele teria sido enviado juntamente com o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em sua época. Mas todos sabem que nenhum profeta desse tipo foi enviado durante a época do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Portanto, essa razão também foi invalidada.

Agora queremos saber: qual seria a quinta razão para a vinda de um novo profeta após o Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)? Se alguém disser que toda a ummah se desviou e que, portanto, é necessário um novo profeta para reformá-la, perguntaremos: até hoje veio ao mundo algum profeta em algum lugar com o simples propósito de reformar, para que hoje venha um profeta apenas para esse trabalho? A razão pela qual um profeta é enviado é que a revelação lhe é transmitida. E a revelação é necessária para trazer uma nova mensagem ou para proteger a mensagem anterior da distorção. Depois que o Alcorão de Allah e a Sunnah do Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram preservados, quando a religião alcançou sua completude e todas as possíveis necessidades da revelação chegaram ao fim, resta apenas a necessidade de um reformador para a reforma — não a necessidade de um profeta.

Uma nova profecia não é portadora de uma mensagem de misericórdia para a ummah atual

O terceiro ponto importante é que, assim que um profeta surge entre um povo, a questão da fé e da descrença se levanta entre eles. Aqueles que aceitarem esse profeta passarão a fazer parte de uma ummah. E aqueles que o rejeitarem certamente passarão a fazer parte de outra ummah distinta. Esse tipo de divergência entre as ummahs não será considerado uma divergência parcial ou insignificante. Pelo contrário, no nível da fé em um profeta, ela se tornará uma divergência fundamental, em consequência da qual um grupo jamais poderá se unir ao outro enquanto não abandonar suas próprias crenças e convicções. Além disso, na prática, as fontes de orientação e de lei para ambos serão diferentes. Pois um grupo formulará suas leis a partir da revelação e da Sunnah de seu próprio profeta, enquanto o segundo grupo recusará diretamente aceitar ambas como fontes de sua lei. Portanto, jamais será possível que os dois criem juntos uma única sociedade.

Após observar estas verdades luminosas, qualquer pessoa poderá compreender claramente que o “encerramento da profecia” é uma grande misericórdia de Allah Todo-Poderoso para a comunidade muçulmana. Graças a isso, toda a comunidade muçulmana pôde integrar uma fraternidade eterna e universal. Essa realidade protegeu os muçulmanos de divergências fundamentais que poderiam semear entre eles as sementes de uma separação permanente. Portanto, aquele que reconhece o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como guia e líder, e não deseja voltar-se para nenhuma outra fonte de orientação além de seus ensinamentos, pertence a essa fraternidade e pode passar a fazer parte dela a qualquer momento. Se a porta da profecia não tivesse sido fechada, a comunidade muçulmana jamais teria encontrado essa unidade, pois, após a vinda de cada profeta, essa unidade seria despedaçada.

A razão e a consciência humanas também confirmam que, depois de estabelecer uma religião universal e perfeita e preservá-la de toda distorção e alteração, a porta da profecia deveria ser fechada. Assim, seguindo conjuntamente esse último Profeta, os muçulmanos de todo o mundo poderiam permanecer para sempre como membros da mesma ummah, e a vinda repetida de novos profetas não causaria divisões contínuas dentro da ummah sem necessidade. Quer se trate de um profeta “zilli” ou “buruzi” — chama-se profeta “zilli” ao profeta que segue o profeta anterior, e profeta “buruzi” àquele que não segue o profeta anterior —, de um profeta pertencente à ummah ou de um profeta portador de uma sharia e de um Livro, qualquer pessoa que fosse profeta e fosse enviada por Allah teria inevitavelmente este resultado: os que a aceitassem formariam uma ummah, e os que não a aceitassem seriam considerados incrédulos. Essa divisão torna-se inevitável quando surge uma necessidade real de enviar um profeta — e somente então. Porém, quando não há necessidade de sua vinda, de modo algum se pode esperar, diante da sabedoria e da misericórdia de Allah, que Ele envolva Seus servos no conflito entre a fé e a incredulidade e não lhes conceda a oportunidade de pertencerem conjuntamente a uma única ummah. Portanto, tudo o que é comprovado pelo Alcorão, pela Sunnah e pelo consenso dos sábios é também reconhecido pela razão humana como correto; e a conclusão é que, na época atual, a porta da profecia deve permanecer fechada.

 

O significado do “Messias Prometido” à luz dos hadiths

Os que convocam para uma nova profecia costumam dizer aos muçulmanos ignorantes que os hadiths mencionam a vinda do “Messias Prometido” e que o “Messias” era um profeta. Portanto, a sua vinda não afeta de modo algum o encerramento da profecia. Pelo contrário, tanto o encerramento da profecia é verdadeiro quanto a vinda do Messias Prometido é verdadeira.

A esse respeito, dizem ainda que Jesus, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), não é o “Messias Prometido”. Ele já morreu. Aquele cuja vinda foi anunciada no hadith seria o “semelhante ao Messias” — isto é, um messias semelhante a Jesus (que a paz esteja sobre ele). E ele seria certo indivíduo que apareceu recentemente. Aceitá-lo não é contrário à crença no encerramento da profecia.

Para rasgar o véu desse engano, transcrevemos aqui, com suas fontes, os hadiths autênticos mencionados sobre este assunto nos livros confiáveis de hadith. Ao examinar esses hadiths, cada pessoa poderá compreender por si mesma o que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse e como ele é retratado hoje. — [É pertinente observar que a questão da vinda ou não do Messias Prometido não tem relação alguma com o Alcorão. Toda a sua base está nos hadiths. Portanto, se algum messias tiver de vir, deve ser aquele cuja menção se encontra nos hadiths corretos e confiáveis. E, se os hadiths relativos ao Messias não forem aceitos, nem sequer se coloca a questão da vinda do Messias. A base desta crença estará, portanto, nos hadiths; mas apontar, sem razão, diversos defeitos entre os hadiths corretos e confiáveis que anunciam a vinda do Messias é mera palhaçada. — (O autor).]

Hadith sobre a descida de Jesus (que a paz esteja sobre ele)

(Árabe******************************************na página 196 do PDF)

“Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: certamente, o filho de Maria descerá entre vós como um governante justo. Então quebrará a cruz, destruirá os porcos e porá fim à guerra (em algumas narrações, em vez de ‘guerra’ aparece a palavra ‘jizya’, isto é, ele abolirá a jizya). —[Em outras palavras, as diferenças religiosas serão eliminadas e as pessoas ingressarão na única religião do Islã. Consequentemente, não haverá mais necessidade de guerra, nem será cobrada jizya de ninguém. —(O autor).] Nessa época, a riqueza aumentará tanto que não haverá quem a aceite e (a situação chegará a tal ponto que as pessoas) considerarão uma única prostração feita por Allah mais valiosa que o mundo e tudo o que há nele. —[O significado de quebrar a cruz e destruir os porcos é que o cristianismo desaparecerá como religião independente. Toda a estrutura do cristianismo se baseia na crença de que Allah crucificou e condenou à morte o Seu único filho [isto é, Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele)] e que, com isso, os pecados de todos os seres humanos foram expiados. A diferença entre os cristãos e as comunidades dos outros profetas é que eles aceitaram somente essa crença e rejeitaram toda a lei de Allah. Chegaram até a declarar lícita a carne de porco — algo que era proibido pelas leis de todos os profetas. Assim, quando o próprio Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele) vier e disser: ‘Não sou filho de Allah, não fui crucificado e não expiei os pecados de ninguém’, a própria base da crença cristã será completamente destruída. Do mesmo modo, quando disser: ‘Não tornei lícita a carne de porco para os meus seguidores, nem os libertei das normas e proibições da lei’, será eliminado o segundo traço distintivo do cristianismo.]”

A narração de Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) em outro hadith é a seguinte:

(Árabe******************************página 197 do PDF)

Isto é: “A Hora não acontecerá até que Hazrat Jesus, filho de Maria (que a paz esteja sobre ele), desça”. … Tudo o que foi dito depois disso está inteiramente de acordo com o hadith acima mencionado. —(Bukhari, Livro das Injustiças, capítulo sobre quebrar a cruz; Ibn Majah, Livro das Provações, capítulo sobre a provação do Dajjal).

(Árabe******************************página 197 do PDF)

“Foi narrado por Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Qual será a vossa situação quando o filho de Maria descer entre vós e, nesse momento, o vosso imã for nomeado dentre vós?” —[Isto é, Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele) não conduzirá a oração. Ele rezará atrás do imã previamente designado pelos muçulmanos. —(O autor).]

(Árabe******************************página 197 do PDF)

“Foi narrado por Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Jesus, filho de Maria, descerá. Ele destruirá os porcos e apagará a cruz. Serão feitas várias orações por ele em um único horário. Ele distribuirá tanta riqueza que, por fim, não se encontrará quem a receba. Abolirá o kharaj. Permanecendo no lugar chamado Rawha —[Rawha é o nome de um lugar situado a 25 milhas de Medina]—, dali realizará o hajj ou a umrah, ou ambos.” —[É digno de nota que aquele que, na época atual, foi considerado o ‘símile do Messias’ ou semelhante ao Messias nunca realizou hajj nem umrah em toda a sua vida. —(O autor).]

[O narrador permaneceu em dúvida sobre qual das duas coisas o Mensageiro de Allah (s.a.w.) havia dito.]

(Árabe*******************************************página 198 do PDF)

“Hazrat Abu Huraira (r.a.) narrou: [Depois de descrever o aparecimento do Dajjal, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse:] Enquanto isso, os muçulmanos continuarão se preparando para lutar contra ele, formarão fileiras e a iqama para a oração será concluída. Nesse momento, Jesus, filho de Maria (a.s.), descerá e liderará os muçulmanos na oração. Assim que o inimigo de Allah, o Dajjal, o vir, começará a derreter-se como o sal se dissolve na água. Mesmo que Jesus (a.s.) o deixe nesse estado, ele derreterá e morrerá. Porém, Allah, o Altíssimo, fará com que ele seja morto pelas mãos de Hazrat Jesus (a.s.). Ele mostrará aos muçulmanos a lâmina de sua lança manchada com o sangue do Dajjal.”

(Árabe*******************************************página 198 do PDF)

“Foi narrado por Hazrat Abu Huraira (r.a.). O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: Entre mim e ele [isto é, Hazrat Jesus (a.s.)] não haverá outro profeta, e ele descerá. Assim que o virdes, reconhecei-o. Ele será de estatura mediana, de tez entre o vermelho e o branco, com aparência de alguém que acaba de sair do banho. Vestirá duas peças de roupa amarelas, mas elas de modo algum estarão molhadas. Ele lutará contra as pessoas pela causa do Islã. Quebrará a cruz em pedaços. Destruirá os porcos. Abolirá o imposto da jizya. Em sua época, Allah eliminará todas as demais religiões do mundo, exceto o Islã. Ele, o Messias, matará o Dajjal e permanecerá no mundo durante quarenta anos. Depois morrerá, e os muçulmanos realizarão a oração fúnebre por ele.”

(Árabe*******************************************página 198 do PDF)

“Hazrat Jabir ibn Abdullah (r.a.) disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (s.a.w.) dizer: Depois, Jesus, filho de Maria, descerá. O emir dos muçulmanos lhe dirá: ‘Venha, conduza a oração.’ Mas ele responderá: ‘Não; vós mesmos sois emires uns dos outros.’ —[Isto é, o vosso emir deve ser dentre vós mesmos.] Ele dirá isso em consideração à honra que Allah, o Altíssimo, concedeu a esta comunidade.”

(Árabe*******************************************página 199 do PDF)

“Hazrat Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou, a propósito de Ibn Sayyad: Em seguida, Umar ibn al-Khattab pediu: Ó Mensageiro de Allah, permita-me matá-lo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Se este for aquela pessoa — isto é, o Dajjal —, vocês não serão seus assassinos; será Isa ibn Maryam (que a paz esteja sobre ele) quem o matará. E, se ele não for aquela pessoa, vocês não têm o direito de matar ninguém dentre os protegidos.”

(Árabe*******************************************na página 199 do PDF)

“Hazrat Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: A respeito do Dajjal, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Esse Isa ibn Maryam (que a paz esteja sobre ele) aparecerá subitamente entre os muçulmanos. As pessoas se levantarão para a oração. Dirão a ele: Ó Ruhullah, avance. Mas ele dirá: Não; vocês devem seguir o seu imã. Ele conduzirá a oração. Depois da oração do fajr, os muçulmanos sairão para enfrentar o Dajjal. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando aquele mentiroso vir Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele), começará a derreter-se, assim como o sal se dissolve na água. Então ele avançará contra o Dajjal e o matará. Nesse momento, as árvores e as pedras gritarão: Ó Ruhullah! O judeu está escondido atrás de mim. Não restará vivo nenhum dos seguidores do Dajjal que Hazrat Isa (que a paz esteja sobre ele) não mate.”

(Árabe*******************************************na página 200 do PDF)

“Hazrat Nawwas ibn Sam’an Kalbi (que Allah esteja satisfeito com ele), citando as palavras do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a respeito do Dajjal, disse: Durante essas ações do Dajjal, Allah enviará o Messias ibn Maryam (que a paz esteja sobre ele). Ele descerá na região oriental de Damasco, junto ao minarete branco, usando duas vestes de cor amarela e apoiando as mãos sobre os ombros de dois anjos. Quando baixar a cabeça, parecerá que dela escorrem gotas de água. E, quando a levantar, parecerá que gotas de água brilham como pérolas. Todo incrédulo cujo corpo for tocado pelo seu hálito — cujo alcance chegará até onde alcançar a sua vista — não permanecerá vivo. Em seguida, Ibn Maryam perseguirá o Dajjal e o capturará junto ao portão de Ludd — [pode-se mencionar aqui que Ludd (Lydda) está situada a apenas algumas milhas de Tel Aviv, a capital do atual Estado de Israel, na Palestina. Os judeus construíram ali um grande aeroporto. — (Autor)]”

(Árabe*******************************************na página 200 do PDF)

“Foi narrado por Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele): O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: O Dajjal surgirá entre a minha ummah e permanecerá durante quarenta — não sei se quarenta dias, quarenta meses ou quarenta anos — [estas são as palavras do Companheiro Hazrat Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele)]. Depois, Ele enviará Isa ibn Maryam (que a paz esteja sobre ele). O seu rosto será como o de Urwah ibn Masud (um certo Companheiro). Ele perseguirá o Dajjal e o matará. Depois disso, durante sete anos, as pessoas viverão em tal estado que não haverá inimizade nem sequer entre duas pessoas.”

(Árabe*******************************************na página 200 do PDF)

“Hazrat Hudhaifa ibn Asid al-Ghifari narrou: certa vez, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) veio honrar nossa assembleia. Naquele momento, estávamos envolvidos em uma discussão entre nós. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) perguntou: O que estais discutindo? As pessoas responderam: Estamos discutindo sobre a Ressurreição. Ele disse: Ela de modo algum ocorrerá enquanto não aparecerem dez sinais. Em seguida, mencionou os dez sinais: a fumaça, o Dajjal, a Besta da Terra, o nascer do sol no Ocidente, a descida de Jesus, filho de Maria, Gog e Magog, e três enormes desmoronamentos de terra — no Oriente, no Ocidente e na Península Arábica. Por fim, um fogo gigantesco surgirá do Iêmen e conduzirá as pessoas para o campo da reunião”.

(Árabe*******************************************na página 201 do PDF)

“Foi narrado por Sauban, o escravo liberto do Mensageiro de Allah (s.a.w.). O Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: Allah salvou do fogo do Inferno dois exércitos da minha comunidade. Um deles é o que atacará o Hindustão. O segundo é o que permanecerá junto de Hazrat Jesus, filho de Maria (a.s.)”.

(Árabe*******************************************na página 201 do PDF)

“Mujammi ibn Jariya al-Ansari disse: ouvi o Mensageiro de Allah (s.a.w.) dizer: O filho de Maria matará o Dajjal junto ao portão de Lod”.

(Árabe*******************************************na página 201 do PDF)

“Abu Umama Bahili narrou, em um longo hadith sobre o Dajjal: quando o imame dos muçulmanos avançar para conduzir a oração do fajr, exatamente nesse momento Jesus, filho de Maria (a.s.), descerá sobre eles. O imame recuará para dar precedência a Jesus (a.s.). Mas Jesus (a.s.) colocará a mão sobre seu ombro e dirá: Não, conduze tu mesmo a oração, pois eles se levantaram por tua causa. Assim, o próprio imame conduzirá a oração. Depois de concluir a oração, Jesus (a.s.) dirá: Abri a porta. Então a porta será aberta. Do lado de fora, o Dajjal estará esperando com setenta mil soldados judeus armados. Assim que seu olhar cair sobre Hazrat Jesus (a.s.), ele começará a derreter-se como o sal se dissolve na água. Ele fugirá. Jesus (a.s.) dirá: Tenho para ti um golpe do qual de modo algum poderás escapar. Então ele o prenderá na terra, junto ao portão oriental de Lod, e Allah concederá a vitória sobre os judeus… e a terra ficará tão repleta de muçulmanos quanto um recipiente se enche de água. Todos abraçarão a declaração de fé, e no mundo ninguém será adorado além de Allah”.

(Árabe*******************************************na página 202 do PDF)

“Uthman ibn Abil As disse: Ouvi o Mensageiro de Allah (s.a.w.) dizer: …..e Isa ibn Maryam (a.s.) descerá no momento da oração do fajr. O emir dos muçulmanos lhe dirá: Ó Ruhullah! Conduza a oração. Ele responderá: Os membros desta ummah são eles próprios seus emires. Então, o emir dos muçulmanos avançará e conduzirá a oração. Depois de concluída a oração, Isa (a.s.) avançará com seu exército em direção ao Dajjal. Ele matará o Dajjal com sua própria arma, e seus seguidores serão derrotados e fugirão. Mas não encontrarão lugar algum onde se esconder. Até as árvores clamarão: Ó crente, há um incrédulo escondido aqui. E as pedras também clamarão: Ó crente, há um incrédulo escondido aqui”.

(Árabe*******************************************na página 203 do PDF)

“Samura ibn Jundub narrou (em um longo hadith) que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: Então, pela manhã, Isa ibn Maryam (a.s.) virá entre os muçulmanos, e Allah Todo-Poderoso concederá ao Dajjal e ao seu exército uma derrota. Até mesmo a muralha e o tronco da árvore clamarão: Ó crente, eis que este incrédulo está escondido atrás de mim; venha e mate-o”.

(Árabe*******************************************na página 203 do PDF)

“Foi narrado por Imran ibn Husayn que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: Entre a minha ummah haverá sempre um grupo estabelecido na verdade, e ele prevalecerá sobre o grupo adversário. Por fim, chegará o decreto de Allah Todo-Poderoso, e Isa (a.s.), filho de Maryam, descerá” — (Musnad Ahmad).

(Árabe*******************************************na página 203 do PDF)

“Hazrat Aisha (r.a.), ao falar sobre o Dajjal, disse que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) afirmou: Então Isa (a.s.) descerá. Ele matará o Dajjal. Depois, Isa (a.s.) permanecerá no mundo durante quarenta anos como um imã e governante justo”.

(Árabe*******************************************na página 203 do PDF)

“Sufaina, o escravo liberto do Mensageiro de Allah (s.a.), narrou a respeito do Dajjal que o Mensageiro de Allah (s.a.) disse: Então, Isa (a.s.) descerá, e Allah Todo-Poderoso o matará (o Dajjal) nas proximidades de uma passagem fronteiriça chamada ‘Afik’ — [Atualmente, Afik é chamado de ‘Fik’. Afik é a última cidade do atual Estado da Síria, na fronteira entre a Síria e Israel. A alguns quilômetros a oeste, diante dela, há um lago chamado Tabaria. Este é a nascente do rio Jordão. A sudoeste dele, entre as montanhas, numa área baixa, há uma estrada. Essa estrada desce cerca de mil e quinhentos pés e chega ao lugar onde o rio Jordão sai através de Tabaria. Esse caminho é chamado Aqabah de Afik (a passagem montanhosa inferior de Afik). — Autor.]”

(Árabe*******************************************na página 203 do PDF)

“Hazrat Hudhaifa ibn al-Yaman, ao narrar a respeito do Dajjal, disse que o Mensageiro de Allah (s.a.) disse: Então, quando os muçulmanos estiverem se preparando para a oração, Isa ibn Maryam (a.s.) descerá diante de seus olhos. Ele conduzirá os muçulmanos na oração. Depois, ao concluir a oração, dirá às pessoas: Afastem-se do caminho entre mim e este inimigo de Allah… E Allah Todo-Poderoso concederá aos muçulmanos domínio sobre as tropas do Dajjal. Os muçulmanos continuarão a matá-los em grande número. Por fim, até as árvores e as pedras clamarão: Ó servo de Allah, ó servo do Misericordioso, ó muçulmano, vede: aqui há um judeu; matai-o. Assim, Allah os destruirá, e os muçulmanos obterão a vitória. Eles derrubarão as cruzes, destruirão os porcos e abolirão a jizya”.

(Este hadith foi transmitido de forma resumida por Muslim, e Hafiz Ibn Hajar o considerou autêntico em Fath al-Bari, volume 2, página 450).

Estes vinte e um hadiths foram registrados, com cadeias de transmissão autênticas, nos livros confiáveis de hadith por meio de quatorze Companheiros. Além disso, muitos outros hadiths sobre esse assunto foram registrados em outras coletâneas de hadith. Contudo, como a discussão se tornaria longa, não os citamos aqui. Citamos apenas os hadiths mais fortes e mais confiáveis quanto à narração e à cadeia de transmissão.

O que é comprovado por esses hadiths?

Qualquer pessoa que leia estes hadiths poderá compreender por si mesma que neles não há menção a nenhum Messias prometido, a um ‘semelhante ao Messias’ ou a uma ‘manifestação do Messias’. Além disso, atualmente, nenhuma pessoa nascida da união de um pai e do ventre de uma mãe pode afirmar que é o Messias sobre quem o Profeta Universal, Hazrat Muhammad Mustafa (s.a.), fez uma profecia. A declaração inequívoca destes hadiths informa que aquele Isa (a.s.) que nasceu, há dois mil anos, no ventre de Hazrat Maryam (a.s.), sem pai, é quem descerá. É completamente irrelevante discutir, a esse respeito, se ele morreu ou se permanece em algum lugar em estado de vida. Mesmo que, para fins de argumentação, se aceite que ele morreu, ainda assim pode-se dizer que Allah tem poder para devolvê-lo à vida. — [Aqueles que negam o poder de Allah de ressuscitar devem compreender o significado do versículo 259 da Surata Al-Baqara. Nesse versículo, Allah diz que manteve um de Seus servos morto por cem anos e depois o devolveu à vida. — Autor.] Além disso, Allah pode manter um de Seus servos vivo por milhares de anos em algum lugar deste vasto universo criado por Ele e, conforme Sua vontade, fazê-lo retornar a este mundo a qualquer momento. À luz do poder infinito de Allah, isso não parece de modo algum algo extraordinário. É evidente que a pessoa que aceita o hadith como verdadeiro não pode deixar de reconhecer a existência daquele que virá no futuro. Pois, além dos hadiths, não se pode encontrar em nenhum outro lugar a base da crença que se formou acerca da vinda daquele que virá. Mas este estranho fenômeno é observado somente aqui: a crença na vinda daquele que virá é aceita com base nos hadiths, mas, quando esses mesmos hadiths afirmam claramente que aquele que virá não é um ‘semelhante ao Messias’ (uma pessoa semelhante ao Messias), mas será o próprio Isa ibn Maryam (a.s.), isso é novamente negado.

A segunda afirmação que emerge destes hadiths de forma clara e inequívoca é que Hazrat Isa ibn Maryam (a.s.) não descerá uma segunda vez como profeta. Não lhe será enviada revelação. Ele não trará nenhuma nova mensagem ou norma da parte de Allah. Também não fará qualquer acréscimo ou redução na sharia de Muhammad. Tampouco será enviado ao mundo para a revitalização da religião do Islã. Ele não virá convidar as pessoas a crerem nele, nem formará uma comunidade separada com aqueles que crerem nele. — [Os eruditos muçulmanos expuseram este assunto de maneira extremamente clara. Allama Taftazani (722–792 H.) escreveu em sua obra Sharh Aqaid al-Nasafi:(Árabe****************************************************************************

É uma verdade comprovada que Muhammad (s.a.w.) é o último Profeta. Se for dito que, nos hadiths, se menciona a vinda de Jesus (a.s.) depois dele, responderemos: sim, é verdadeira a afirmação sobre a vinda de Jesus (a.s.). Contudo, ele será seguidor de Muhammad (s.a.w.), pois a sua sharia havia sido revogada. Portanto, nenhuma revelação lhe será transmitida, nem ele estabelecerá novas leis; pelo contrário, atuará como representante de Muhammad, o Mensageiro de Allah (s.a.w.).

E foi precisamente isso que o erudito Allama Alusi afirmou em seu Tafsir Ruh al-Maʻani:

(Árabe*******************************************)

“Quando Jesus (a.s.) descer, permanecerá em seu posto profético e não será removido de sua posição anterior, a profecia. Contudo, não seguirá a sua antiga sharia, pois ela foi revogada tanto para ele quanto para todas as demais pessoas. Daí em diante, em todas as questões fundamentais e secundárias, seguirá esta sharia, a sharia de Muhammad. Portanto, assim como nenhuma revelação lhe chegará, ele também não terá autoridade para promulgar qualquer lei. Ao contrário, atuará entre esta ummah como representante (na’ib) do Mensageiro (s.a.w.) e como um dos governantes da ummah de Muhammad. (Volume 22, p. 32.) O Imam Razi (r.a.) explicou ainda mais claramente esta questão nas seguintes palavras:”Árabe**********************)

“A era dos profetas chegou ao fim com Muhammad (s.a.w.). Após a vinda de Muhammad (s.a.w.), cessou a vinda dos profetas. Portanto, não é de modo algum irracional que, após a descida de Jesus (a.s.) nos tempos atuais, ele seja seguidor de Muhammad (s.a.w.).” Ele será enviado ao mundo com uma responsabilidade específica: destruir completamente a fitna do Dajjal. Por isso, descerá de tal maneira que não restará entre os muçulmanos qualquer margem para dúvida quanto à sua descida. Os muçulmanos entre os quais ele descer compreenderão sem dúvida que ele é o mesmo Jesus, filho de Maria (a.s.), sobre quem o Mensageiro de Allah (s.a.w.) profetizou, e que desceu no tempo determinado, conforme as palavras do Mensageiro de Allah (s.a.w.). Ele se juntará ao grupo dos muçulmanos e fará a oração atrás do imam dos muçulmanos daquele tempo. — Embora alguns hadiths (n.º 5 e 21) afirmem que, após a descida de Jesus (a.s.), ele próprio conduzirá a primeira oração, a maioria dos hadiths, especialmente alguns dos mais fortes (n.º 3, 7, 9, 15 e 16), indica que ele recusará conduzir a oração e fará avançar o imam e líder dos muçulmanos daquele período. Os muhaddiths e mufassirs aceitaram unanimemente essa opinião. Ele fará avançar justamente aquele que liderar os muçulmanos naquele tempo, para que ninguém possa nutrir a dúvida de que ele retornou para reassumir a missão profética com o seu anterior status de profeta. Sem dúvida, na presença de um profeta de Allah, nenhuma outra pessoa pode ser imam ou líder de um grupo. Assim, a sua inclusão no grupo dos muçulmanos como simples indivíduo proclamará espontaneamente que ele não veio como profeta. Por isso, não se coloca de modo algum a questão de que a sua vinda possa abrir a porta da profecia.”

Sem dúvida, a sua vinda é comparável à chegada de um antigo chefe de Estado durante o governo de um chefe de Estado em exercício. Nessa situação, o antigo chefe de Estado pode vir e participar de alguma função estatal sob a autoridade do atual chefe de Estado. Até uma pessoa de bom senso pode compreender facilmente que a simples chegada de um antigo chefe de Estado durante o governo de outro chefe de Estado não viola a lei. Contudo, a lei seria certamente violada em duas situações: primeiro, se o antigo chefe de Estado viesse e tentasse novamente exercer a função de chefe de Estado; segundo, se alguém negasse também os atos realizados por ele quando era chefe de Estado. Isso equivaleria a contestar a validade de tudo o que foi feito durante o seu mandato como chefe de Estado. Se nenhuma dessas duas situações ocorrer, a simples chegada do antigo chefe de Estado não produzirá qualquer mudança na situação jurídica. O caso da segunda vinda de Jesus (a.s.) é semelhante. Se, com a sua simples chegada, ele passasse a exercer a função ligada ao selo da profecia, ou se alguém negasse também o seu antigo status profético, então a ordem da profecia de Allah seria violada. A narrativa dos hadiths fechou completamente esses dois caminhos. Por um lado, os hadiths declaram claramente que não há profeta depois do Profeta Muhammad (s.a.w.); por outro, informam que Jesus (a.s.) descerá novamente. Isso deixa claro que essa segunda vinda não terá por objetivo exercer a missão profética.

Da mesma forma, com a sua vinda, não surgirá novamente entre os muçulmanos a questão da descrença e da fé. Ainda hoje, se alguma pessoa não crer na sua profecia anterior, tornar-se-á incrédula. O próprio Profeta Muhammad (s.a.w.) também se tornaria incrédulo se não cresse nessa sua profecia. O próprio Profeta Muhammad (s.a.w.) também tinha fé nessa sua profecia. Toda a umma do Profeta Muhammad (s.a.w.) crê nele desde o início. Os muçulmanos não crerão em nenhuma nova profecia. Pelo contrário, assim como hoje, naquele dia também crerão na profecia anterior de Isa ibn Maryam (a.s.). Assim como esta situação atualmente não é contrária ao selo da profecia, também não será contrária a ele naquele dia. A última coisa que se pode saber por meio destes hadiths e de muitos outros é que o Dajjal que será enviado para eliminar a fitna mundial do Dajjal por meio de Hazrat Isa (a.s.) será de origem judaica. Ele se apresentará como o “Messias”. Nenhuma pessoa que desconheça a história dos judeus e o seu pensamento e crenças religiosas será capaz de compreender o significado desta questão. Depois da morte de Hazrat Sulaiman (a.s.), quando os Filhos de Israel foram vítimas da decadência social e religiosa e da queda política, e depois a sua decadência continuou por muito tempo, até que, por fim, os governantes da Babilônia e da Assíria os subjugaram, expulsaram-nos do país e dispersaram-nos por diferentes regiões do mundo, os profetas dos Filhos de Israel continuaram a anunciar-lhes boas-novas de que um Messias viria da parte de Allah e os libertaria daquela extrema humilhação. Diante dessas profecias, os judeus aguardavam a vinda de um Messias. Ele seria um rei. Conquistaria terras por meio da guerra. Reuniria os Filhos de Israel, trazendo-os de diferentes países para a Palestina, e estabeleceria um Estado poderoso para eles. Porém, quando Hazrat Isa ibn Maryam (a.s.) surgiu, contradizendo essas esperanças e aspirações, eles se recusaram a aceitá-lo como o “Messias” enviado da parte de Allah. Tentaram matá-lo. Desde então até hoje, o mundo judaico conta os dias na expectativa daquele Messias Prometido (Promissed Messiah), cuja vinda lhes havia sido anunciada. Há centenas de anos, a nação judaica vive alimentando o sabor imaginário do quadro que foi traçado sobre ele em suas obras literárias e religiosas. Sentam-se cheios de esperança, aguardando que esse Messias Prometido seja um poderoso líder militar e político. Ele reconquistará para os judeus toda a região do Nilo ao Eufrates — região que os judeus consideram seu território herdado — e reunirá judeus vindos de todo o mundo. Ao observar a situação atual do Oriente Médio e analisar os acontecimentos à luz das profecias do Mensageiro de Allah (s.a.w.), ver-se-á que, conforme as palavras do Grande Profeta (s.a.w.), o cenário está completamente preparado para a vinda do principal Dajjal, que desempenhará o papel do Messias Prometido dos judeus. A expulsão dos muçulmanos de uma grande parte da Palestina

(Há um mapa na página 208 do PDF***************************************)

o Estado judaico com que os líderes de Israel sonham

aconteceu. Ali foi estabelecido um Estado judaico chamado Israel. Judeus de diferentes países do mundo chegam em grupos e estabelecem ali as suas moradias. A América, a Grã-Bretanha e a França transformaram-no numa enorme potência militar. Com o auxílio dos capitalistas judeus, cientistas e industriais judeus estão conduzindo-o rapidamente pelo caminho do progresso. Para os países muçulmanos ao seu redor, essa força tornou-se um grande perigo. Os governantes desse Estado não esconderam de modo algum o seu desejo de ocupar o “país recebido” como herança. No mapa anterior foi apresentada uma reprodução do projeto do futuro Estado judaico que eles vêm propondo há muito tempo. Nesse mapa, vê-se

(Há um mapa na página 209 do PDF***************************************)

o local da descida do verdadeiro Messias, Hazrat Isa (a.s.)

que eles desejam estender o seu império por toda a Síria, o Líbano e a Jordânia, por quase todo o Iraque, além de Iskenderun, na Turquia, da península e da região do delta do Sinai, no Egito, e até as terras altas do Hijaz e do Najd, na Arábia, incluindo Medina Munawwara. Diante dessa situação, compreende-se claramente que, no futuro, ao som de uma guerra mundial, eles tentarão ocupar essas regiões, e, nessa ocasião, o chamado principal Dajjal surgirá como o seu Messias Prometido. O Mensageiro de Allah (s.a.w.) não se limitou a anunciar a sua vinda; também disse que, naquele tempo, montanhas de calamidades cairiam sobre os muçulmanos e que cada dia lhes pareceria um ano. Por isso, ele próprio pediu refúgio a Allah contra a fitna do Messias Dajjal e ordenou aos muçulmanos que também pedissem refúgio.

Para enfrentar esse Messias Dajjal, Allah não enviará nenhum “semelhante ao Messias”; enviará, sim, o verdadeiro Messias. Dois mil anos atrás, os judeus se recusaram a aceitar esse verdadeiro Messias e, segundo o que sabiam, crucificaram-no e eliminaram-no da face da Terra. Esse verdadeiro Messias não descerá na Índia, na África ou na América; descerá em Damasco, pois naquela época a guerra estará ocorrendo justamente ali. Por favor, observe também o segundo mapa anterior. Ele mostra que Damasco fica a apenas 50 a 60 milhas da fronteira de Israel. Se você se lembrar do conteúdo do hadith que mencionei anteriormente, será fácil compreender que o Messias Dajjal entrará na Síria com um exército de setenta mil judeus e se apresentará diante de Damasco. Exatamente nesse momento, Hazrat Isa (a.s.) descerá, depois do amanhecer, junto a um minarete branco na parte oriental de Damasco, e, após a oração do fajr, sairá com os muçulmanos para enfrentar o Dajjal. Diante do seu violento ataque, o Dajjal recuará e retornará em direção a Israel pela passagem montanhosa de Afik (veja o hadith nº 21). Ele, porém, o perseguirá. Por fim, o Dajjal será morto por sua mão no aeroporto de Lydda (hadiths nº 10, 14 e 15). Depois disso, os judeus serão capturados e mortos em todos os lugares, e a existência da nação judaica desaparecerá (hadiths nº 9, 15 e 21). Depois que a verdade for proclamada por Hazrat Isa (a.s.), a religião cristã também desaparecerá (hadiths nº 1, 2, 4 e 6), e todas as comunidades se unificarão dentro da comunidade muçulmana (hadiths nº 6 e 15).

Esta verdade inequívoca emerge do hadith sem qualquer tipo de obscuridade ou ambiguidade. Depois desta longa discussão, não resta qualquer espaço para dúvida a este respeito: o negócio que está sendo conduzido em nosso país em nome do “Messias Prometido” não passa de uma gigantesca fraude.

Apresentarei agora o aspecto mais ridículo desta fraude. Aquele que declarou ser idêntico ao Messias mencionado nesta profecia apresentou pessoalmente a seguinte divertida declaração para provar que era Jesus, filho de Maria:

“Ele (isto é, Deus) deu-me o nome de Maria na terceira parte de Barahin-e-Ahmadiyya. Depois, conforme foi revelado em Barahin-e-Ahmadiyya, fui criado durante dois anos com as qualidades de Maria.…… Depois, o espírito de Jesus foi introduzido em mim, à semelhança de Maria, e, em sentido figurado, fui engravidado. Finalmente, alguns meses mais tarde — não mais de dez meses — por meio da revelação mencionada na quarta parte de Barahin-e-Ahmadiyya, fui transformado de Maria em Jesus. Assim, tornei-me Jesus, filho de Maria.” — (Kisht-i-Nuh, páginas 87, 88 e 89)

Ou seja, primeiro ele se tornou Maria. Depois, engravidou a si próprio. Em seguida, nasceu do próprio ventre como Jesus, filho de Maria. Mesmo assim, surgiu outro problema. Pois, segundo o hadith, Jesus, filho de Maria, descerá em Damasco. Damasco é, há vários milhares de anos, uma famosa e universalmente conhecida cidade da Síria. Ainda hoje, esta cidade está identificada por esse nome nos mapas do mundo. Assim, este problema foi resolvido por meio de outra declaração divertida:

“É importante observar que o significado da palavra Damasco me foi revelado por Deus da seguinte forma: neste lugar, foi dado o nome de Damasco a uma cidade onde vivem pessoas de natureza semelhante à de Yazid, impuras e seguidoras dos hábitos e pensamentos de Yazid.……. Por essa razão, mantém semelhança e relação com Damasco.” — (Izala-e-Auham, notas 63 a 73)

Ainda resta uma complicação. Segundo o hadith, Ibn Maryam descerá junto a um minarete branco. Este problema foi resolvido com extrema facilidade. Isto é, o próprio senhor Messias veio e construiu o seu próprio minarete. Agora diga: quem irá fazê-lo compreender que, segundo a descrição do hadith, o minarete já estará presente no local antes da descida de Ibn Maryam? No entanto, aqui se vê que o minarete está sendo construído depois da chegada do senhor Messias Prometido.

A última e mais complexa dificuldade ainda permanece. Isto é, segundo a descrição do hadith, Jesus, filho de Maria (a paz esteja sobre ele), matará o Dajjal no portão de entrada de Lydda. Ao tentar resolver este problema, inicialmente foram proferidas muitas afirmações absurdas. Às vezes, uma aldeia de Bait al-Muqaddas foi reconhecida como Lydda. (Izala-e-Auham, publicado pela Anjuman Ahmadia Lahore, edição resumida, página 220). Em outras ocasiões, foi dito que Lydda designa pessoas que discutem inutilmente. ….. “Quando a discussão inútil do Dajjal atingir o seu auge, surgirá o Messias Prometido e acabará com toda a sua discussão.” (Izala-e-Auham, página 730). Mas, quando nem mesmo isso resolveu o problema, declarou-se claramente que Lydda (Lud em árabe) significa a cidade de Ludhiana, no Punjab. Matar o Dajjal no portão de entrada de Ludhiana significa que, apesar da oposição dos malfeitores, foi ali que ocorreu pela primeira vez a baiat pelas mãos do senhor Mirza. — (Al-Huda, página 99)

Qualquer pessoa dotada de bom senso, ao fazer uma análise imparcial dessas declarações e relatos, será obrigada a concluir que aqui foi encenada, em plena luz do dia e publicamente, uma falsa personificação (False Impersonation) por parte de um mentiroso camaleônico.

 

Algumas outras interpretações enganosas dos cadianis

 

Contradição explícita ao Alcorão e aos hadiths

Quando Allah e Seu Mensageiro resolvem uma questão por meio de uma determinação clara e inequívoca, afastar essa determinação explícita, extrair dos versículos e hadiths não relacionados ao assunto o significado que convém aos próprios interesses, sustentar uma crença completamente contrária às determinações claras do Alcorão e dos hadiths e agir de acordo com isso é o mais extremo desvio, ou melhor, a pior forma de rebelião contra Allah e o Mensageiro. Quem adota publicamente um caminho contrário a Allah e à Sua determinação comete uma forma relativamente menor de rebelião. Mas distorcer os próprios pronunciamentos e determinações de Allah e de Seu Mensageiro contra a decisão deles e utilizá-los em benefício próprio não é uma rebelião insignificante. Sobre aqueles que fazem isso, não podemos de modo algum pensar que obedecem sinceramente às ordens de Allah e de Seu Mensageiro. Para resolver a questão de saber se Sayyidina Muhammad (que a paz esteja com ele) é o último profeta e se algum outro profeta virá depois dele, poderíamos concentrar nossa atenção em(Árabe**************) e (Árabe*****)entre outros versículos, se Allah e Seu Mensageiro não tivessem dado em algum lugar do Alcorão e dos hadiths uma resposta específica a essa questão. Mas, quando recebemos de Allah, no versículo sobre o “Selo dos Profetas”, e do Mensageiro, em inúmeros hadiths autênticos e confiáveis, uma resposta inequívoca precisamente a essa questão, então voltar a atenção para, entre outros versículos, e deles aceitar um significado contrário às determinações claras do Alcorão e dos hadithsÁrabe*********) e (Árabe*******) entre outros versículos, só pode ser obra de alguém que não tem no coração nem o menor temor de Allah e que nem sequer acredita que um dia, depois de morrer, terá de prestar contas diante de Allah. Como exemplo, pode-se mencionar o seguinte: uma seção da lei penal do país classifica determinado ato como crime em linguagem inequívoca. Porém, uma pessoa empenha-se de todas as formas para provar que esse crime é uma ação lícita. Para esse fim, deixando de lado essa seção específica, começa a procurar, em seções não relacionadas da lei, algum indício mínimo ou alguma afirmação ligeiramente ambígua. Depois, juntando essas coisas à força, tenta provar que o ato que a seção clara da lei classifica como crime não é crime. Se as autoridades policiais e os tribunais deste mundo não estão dispostos a aceitar provas e testemunhos, como se pode esperar que isso seja aceito no tribunal de Allah?

Provar à força

Depois de ler os versículos dos quais os cadianis querem provar sua tese, ficamos admirados com o método que empregam para apresentar suas provas. Percebe-se que esses versículos não têm o significado que eles querem extrair e forçar de qualquer maneira. Vejamos qual é o verdadeiro significado dos versículos sobre os quais fizeram tais acrobacias: (Árabe*********) O que é dito no versículo 69 da Surata An-Nissá é apenas isto: aqueles que obedecem a Allah e ao Mensageiro serão companheiros dos profetas, dos verazes, dos mártires e dos justos. Como se pode concluir disso que aqueles que obedecem a Allah e ao Mensageiro se tornarão profetas, ou então verazes, mártires ou justos? Depois, reflita uma vez sobre o versículo 19 da Surata Al-Hadid. Nele é dito:

(Árabe*******************************************na página 213 do PDF)

Isto é: “E aqueles que creem em Allah e em Seus mensageiros são os verazes e os mártires junto ao seu Senhor.” Isso deixa claro que, como resultado da fé, uma pessoa pode alcançar apenas a posição de veraz e mártir. Quanto aos profetas, basta aos crentes serem seus companheiros. De modo algum é possível que alguém se torne profeta como recompensa por alguma ação. Por isso, no versículo da Surata An-Nissá, foi dito que aqueles que obedecem a Allah e ao Mensageiro estarão junto dos profetas, dos verazes e dos mártires. E no versículo da Surata Al-Hadid foi dito: aqueles que creem em Allah e no Mensageiro tornar-se-ão eles próprios verazes e mártires.

E, no versículo 35 da Surata Al-A’raf (Árabe**********) é dito que isso está relacionado a uma narrativa. Essa narrativa se estende dos versículos 11 a 36 da Surata Al-A’raf. Ao analisá-lo à luz do conteúdo anterior e posterior dessa narrativa, fica claro que esse chamado foi dirigido aos filhos de Adão na primeira fase da criação da humanidade. Como se pode obter desses versículos a ideia de que eles falam da vinda de profetas depois do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele)? Aqui se fala, na verdade, do momento em que o Hazrat Adão (que a paz esteja com ele) e sua esposa foram expulsos do Paraíso e trazidos para o mundo.

O significado correto do versículo da Surata Al-A‘raf

O significado que os senhores qadianis extraem do versículo 35 da Surata Al-A‘raf, isolando-o de seu contexto anterior e posterior, é completamente oposto ao significado que se obtém quando ele é analisado em seu devido lugar. Na realidade, a sequência de ideias em cujo contexto esse versículo foi revelado é apresentada continuamente desde o segundo rukū‘ até aproximadamente a metade do quarto rukū‘ da Surata Al-A‘raf. Primeiro, no segundo rukū‘, é narrada a história de Adão e Eva. Depois, no terceiro e no quarto rukū‘, são feitos comentários sobre o resultado dessa história. Ao ler o versículo 35 à luz dessa discussão contextual, fica claro que aquilo que é dito ao dirigir-se a (Árabe******)por meio dessa expressão está relacionado ao início da criação, e não ao período da revelação do Alcorão. Em outras palavras, seu propósito é mostrar que, desde o início da criação, os filhos de Adão foram advertidos de que sua salvação dependeria da obediência à orientação que lhes seria enviada por Allah.

Versículos com este conteúdo foram inseridos em três lugares do Alcorão. Em cada um deles, são apresentados no contexto da narrativa sobre Hazrat Adão e Hazrat Eva (que a paz esteja com eles). O primeiro versículo aparece na Surata Al-Baqara (versículo 38), o segundo na Surata Al-A‘raf (versículo 35) e o terceiro na Surata Ta-Ha (versículo 123). Além da profunda semelhança entre o conteúdo desses três versículos, também é notável a semelhança de seu contexto e das circunstâncias em que foram apresentados.

Os exegetas do Alcorão consideram este versículo da Surata Al-A‘raf, assim como os demais versículos, relacionado à história de Hazrat Adão e Eva (que a paz esteja com eles). O erudito Ibn Jarir (que Allah tenha misericórdia dele), ao explicar este versículo em seu tafsir, citou as palavras de Hazrat Abu Sayyar al-Sulami e escreveu: “Allah, o Altíssimo, dirigiu-se aqui a Hazrat Adão (que a paz esteja com ele) e à sua família simultaneamente e no mesmo momento.” O Imam Razi (que Allah esteja satisfeito com ele), ao explicar este versículo em seu Tafsir al-Kabir, escreveu: “Se a expressão ‘ó Profeta’ tiver sido dirigida ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), embora ele seja o último Profeta, então seu significado será que Allah está apresentando aqui Sua norma a respeito das comunidades.” O erudito Alusi afirmou em seu tafsir Ruh al-Ma‘ani: “Aqui é narrado em forma de história aquilo que aconteceu com cada povo. Interpretar aqui a comunidade do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) no sentido de Bani Adão constituiria um grave erro e seria contrário ao significado claro. Isso porque a palavra ‘mensageiros’ foi usada no plural, e não no singular, ‘mensageiro’ (Árabe***) .” O sentido da parte final da afirmação de Alusi é que, se aqui a comunidade de Muhammad estivesse sendo abordada, jamais se poderia dizer a ela: “Entre vós virão mensageiros.” Pois, entre esta comunidade, não se cogita a vinda de outro mensageiro além de um único Mensageiro, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

O significado do versículo da Surata Al-Mu’minun

(Árabe*******************************************na página 214 do PDF)

Isto é: “Ó mensageiros! Comei alimentos puros e lícitos e praticai boas ações; certamente, Eu tenho pleno conhecimento de tudo quanto fazeis.” — (Surata Al-Mu’minun: 51)

Se este versículo não for separado de seu contexto anterior e posterior, será de modo algum impossível atribuir-lhe o significado que os qadianis lhe atribuíram. O discurso em cujo contexto este versículo foi revelado prossegue ininterruptamente desde o segundo rukū‘. Nesses versículos, após discorrer sobre todos os profetas e seus povos, desde Hazrat Noé (que a paz esteja com ele) até Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele), afirma-se: “Em todos os países e em todas as épocas, os profetas transmitiram às pessoas um único ensinamento; seu método era um só e idêntico, e Allah, o Altíssimo, concedeu-lhes bênçãos do mesmo tipo. Em contrapartida, os povos desviados sempre abandonaram o caminho de Allah e se entregaram a más ações.” No contexto dessa narrativa, este versículo de modo algum foi revelado com o seguinte significado: “Ó mensageiros! Comei alimentos puros e lícitos e praticai boas ações, vós que vireis depois de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).” Pelo contrário, o significado deste versículo é que Allah, o Altíssimo, deu esta mesma ordem a todos os profetas que vieram desde Hazrat Noé (que a paz esteja com ele) até Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): comei alimentos puros e lícitos e praticai boas ações.

Também a partir deste versículo, os exegetas nunca entenderam que a porta da profecia se abriu após o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Se desejar investigar mais profundamente e obter maior tranquilidade mental, poderá ler a discussão deste ponto em diversas obras de tafsir.

Apresentação das provas do erro dos qadianitas a partir dos hadithes

(Árabe*******************************************na página 215 do PDF)

Ou seja, até mesmo a partir deste hadith — “se Ibrahim [filho do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)] tivesse sobrevivido, certamente teria sido um profeta” — a prova apresentada pelos qadianitas é equivocada por quatro razões.

Primeira: a cadeia de transmissão da narração em que isso é apresentado como uma declaração do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é fraca, e nenhum muhaddith considerou essa cadeia confiável.

Segunda: grandes muhaddithes, como Nawawi e Ibn Abd al-Barr, consideraram não confiável o conteúdo deste hadith. O Imam Nawawi escreveu em sua obra ‘Tahdhib al-Asma wa al-Lughat’:

(Árabe*******************************************na página 215 do PDF)

Ou seja: “A afirmação escrita por alguns dos primeiros sábios — de que, se Ibrahim [filho de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)] tivesse permanecido vivo, teria sido um profeta — não é verdadeira. Isso se deve ao fato de ser uma ousadia falar sobre o invisível e a algo semelhante a proferir uma palavra sem reflexão nem ponderação”.

O erudito Allama Ibn Abd al-Barr escreveu na obra ‘Tam­hid’:

(Árabe*******************************************na página 215 do PDF)

Isto é: “Não sei que tipo de afirmação é esta. Na família de Noé (que a paz esteja sobre ele) nasceu um filho que não era profeta. Ora, se fosse indispensável que o filho de um profeta se tornasse profeta, então hoje todos no mundo seriam profetas, pois todos são descendentes de Noé (que a paz esteja sobre ele)”.

Terceiro: na maioria das narrações, este hadith é apresentado como uma declaração dos Companheiros, e não do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, eles afirmaram claramente que, como não haveria outro profeta depois do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Allah Todo-Poderoso levou consigo o seu filho. Como exemplo, a narração de Bukhari afirma:

(Árabe*******************************************na página 216 do PDF)

“Ismail ibn Abi Khalid disse: Perguntei a Abd al-Rahman ibn Abi Awfa, um Companheiro: ‘Você viu Ibrahim, o filho do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?’ Ele respondeu: ‘Ele morreu ainda na infância. Se Allah Todo-Poderoso tivesse decidido enviar algum profeta depois de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), teria mantido seu filho vivo. Mas não há outro profeta depois do Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)’.”

Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) transmitiu uma narração quase semelhante a esta. Ele disse:

(Árabe*******************************************na página 216 do PDF)

“Se ele tivesse permanecido vivo, teria sido um profeta. Mas ele não permaneceu vivo. Pois o vosso profeta é o último dos profetas.” — (Tafsir Ruh al-Ma‘ani, vol. 22, p. 3)

Quarto: mesmo que nessa narração, na qual esta afirmação é atribuída ao nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e que foi considerada fraca e não confiável, não houvesse a explicação dos nobres Companheiros, e mesmo que as declarações dos especialistas em hadith não estivessem anexadas a ela, ainda assim ela de modo algum seria aceitável. Isso porque o princípio unânime da ciência do hadith é que, se o conteúdo de uma narração entrar em conflito com numerosos hadiths autênticos, ela não pode ser aceita em hipótese alguma. Vejamos, então: de um lado, há numerosos hadiths autênticos, com cadeias de transmissão sólidas, nos quais se afirma claramente que, depois do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), a porta da profecia foi fechada; de outro, há esta única narração, que sugere a possibilidade de a porta da profecia permanecer aberta. Ao analisar essas duas situações, como se pode rejeitar a grande quantidade de narrações em favor desta única narração?

Palavras finais

Tanto segundo o Nobre Alcorão quanto segundo os nobres hadiths, a profecia é um assunto fundamental da religião. Isto é, a fé e a descrença do ser humano se fundamentam nela, e com base nisso será decidido o seu sucesso ou fracasso na vida futura. Quem não aceitar um profeta verdadeiro tornar-se-á incrédulo. Do mesmo modo, quem aceitar um falso profeta também se tornará incrédulo. Sobre um assunto de tamanha importância fundamental, Allah e o Seu Mensageiro (que a paz esteja com ele) forneceram orientação de modo claro e inequívoco. Eles já haviam tomado as providências para que a religião e a fé das pessoas não fossem colocadas em perigo e para que Allah e o Seu Mensageiro (que a paz esteja com ele) não fossem responsabilizados pelo extravio delas. Outro ponto digno de atenção neste caso é que, antes do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), em nenhuma época de nenhum profeta havia sido declarado que a continuidade da profecia terminara e que nenhum outro profeta viria. Isso significa que, naquela época, a porta para a vinda dos profetas permanecia aberta; portanto, ninguém tinha o direito de rejeitar a reivindicação de alguém que alegasse ser profeta, dizendo que nenhum outro profeta viria. Além disso, naquela época os profetas continuavam a predizer a vinda dos profetas que os sucederiam. Eles tomavam de seus seguidores o juramento de obedecer aos profetas que viriam posteriormente. Essas práticas reforçavam ainda mais a ideia de que, se alguém se apresentasse como profeta, não se poderia rejeitá-lo de imediato, sem qualquer reflexão. Ao contrário, examinavam-se profundamente a sua pregação, personalidade, ações e condição, a fim de saber se ele era realmente um profeta de Allah ou um falso pretendente à profecia. Porém, depois da vinda do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), essa situação se inverteu completamente. O assunto não se limitou ao fato de que Muhammad (que a paz esteja com ele) não predisse a vinda de nenhum profeta depois dele e não tomou da comunidade o juramento de obedecer-lhe; pelo contrário, o Alcorão declarou que Muhammad (que a paz esteja com ele) é o último profeta, e ele afirmou, em numerosos hadiths autênticos e confiáveis, com linguagem clara e inequívoca, que aquele que se levantasse depois dele reivindicando a profecia seria o Dajjal. A questão é: aos olhos de Allah e do Seu Profeta, a situação do Islã e da descrença das pessoas atualmente não é delicada e importante? Somente os crentes posteriores ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) tinham o direito de ser protegidos da prova da descrença? Por isso, Allah e os Seus Mensageiros teriam providenciado para informar somente a eles, em termos inequívocos, que a porta da profecia permanecia aberta e que a sucessão dos profetas continuaria? Mas será que agora, deliberadamente e com pleno conhecimento, eles nos lançaram nesse perigo? Em outras palavras, de um lado permanece a possibilidade de surgir um profeta, e, por aceitá-lo ou não, podemos tornar-nos crentes ou incrédulos. Por outro lado, Allah e os Seus Mensageiros não apenas deixaram de nos informar sobre a vinda de um profeta, mas foram além e continuam dizendo repetidamente coisas que nos levam a pensar que a porta da profecia foi fechada e, por isso, não conseguimos aceitar o pretendente à profecia. A sua razão e consciência realmente lhes dizem que Allah e o Seu Mensageiro Muhammad (que a paz esteja com ele) poderiam cometer conosco um engano desse tipo?

Os qadიანitas podem interpretar como quiserem a expressão “Khātam an-Nabiyyīn”. Mas, no mínimo, não poderão negar que ela também pode significar o encerramento da sucessão profética, e que, entre os sábios e o povo da comunidade, noventa e nove lakhs, noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove pessoas em cada crore interpretam essa expressão exatamente nesse sentido. A questão é: em relação a um assunto tão delicado quanto a profecia — da qual dependem a fé e a descrença dos muçulmanos — deveria Allah ter usado uma linguagem da qual toda a comunidade de Muhammad, exceto um pequeno número de qadიანitas, entendesse que nenhum outro profeta viria? Além disso, as declarações do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) não deixam qualquer margem para uma interpretação diferente nesse assunto. Nessas declarações, afirma-se de modo inequívoco que nenhum profeta virá depois dele. A questão é: o Profeta de Allah teria alguma inimizade contra nós que fizesse com que viesse um profeta depois dele, enquanto ele, ao contrário, nos deixaria a instrução de não aceitá-lo, para que nos tornássemos incrédulos e fôssemos para o Inferno?

Nessa situação, por mais atraente que seja a aparência de uma pessoa, mesmo que as suas profecias se comprovem cem por cento verdadeiras e apesar de seus milhares de méritos, não consideraremos sequer digna de consideração a sua reivindicação de profecia. Pois ela só seria digna de consideração se houvesse a possibilidade de vir um profeta. Assim, tão logo ouvirmos falar de qualquer pretendente à profecia, nós o chamaremos de mentiroso com plena certeza e não atribuiremos qualquer importância aos seus argumentos e provas apresentados em favor da profecia. Se isso for descrença, não teremos responsabilidade por ela. Pois, para apresentarmos nossa defesa perante Allah no Dia da Ressurreição, temos conosco o Alcorão e os hadiths do Mensageiro.

 

Capítulo 6 — A vida pessoal e a vida profética de Muhammad (que a paz esteja com ele)

Seguir e obedecer ao Grande Profeta

Para aqueles que abraçam o Islã e passam a fazer parte da ummah muçulmana, o Mensageiro deixa de ser apenas um mensageiro; torna-se, ao mesmo tempo, professor, mestre formador e modelo vivo do modo de vida islâmico. Acima de tudo, passa a ocupar para eles a posição de um líder exemplar, cuja obediência absoluta é indispensável em todas as épocas.

Professor, formador e ser humano exemplar

Como professor, a responsabilidade do Grande Profeta (s.a.) é explicar, analisar e esclarecer plenamente a todos tudo aquilo que Allah ensinou e aconselhou, bem como todas as leis, normas e proibições que revelou. É isso que se afirma nesta passagem do Alcorão:(Árabe*********) “Ele lhes ensinará o Livro e a sabedoria (para pôr em prática os ensinamentos do Livro), formará os muçulmanos segundo as leis e normas e moldará suas vidas conforme esse modelo (Árabe******)». E, como ser humano exemplar, o papel do Mensageiro (s.a.) é apresentar-se como a encarnação dos ensinamentos do Alcorão — sua vida será exatamente o reflexo do tipo de vida que um muçulmano deve levar de acordo com o Livro de Allah. Por meio de cada uma de suas palavras e ações, saber-se-á como se deve falar, como se deve utilizar corretamente as próprias forças e que tipo de conduta, na vida terrena, é desejada pelo Livro de Allah. Tudo o que se opõe a isso é contrário à vontade desse Livro. O sentido destes dois versículos do Alcorão é precisamente esse:(Árabe************) “Há, na vida do Mensageiro de Allah, um excelente modelo ou exemplo para vós”.(Árabe**************************) “Ele não fala por desejo próprio; tudo quanto diz lhe chega por meio da revelação”. Ao mesmo tempo, o Mensageiro também é o comandante ou líder dos muçulmanos. Mas não é um líder cujas palavras e ações possam ser objeto de divergência ou contestação. Pelo contrário, é um líder a respeito de quem o Alcorão diz:(Árabe******************) “Se entrardes em disputa sobre qualquer assunto, apresentai-o a Allah e ao Mensageiro”.Árabe*****************) “Quem obedece ao Mensageiro obedece a Allah”. Ele não é um líder apenas durante sua vida; é, antes, o líder de toda a nação muçulmana até o Dia da Ressurreição. Suas instruções são obrigatórias para os muçulmanos em todas as épocas e em todas as circunstâncias.

Não é apenas um pregador e mensageiro

Uma passagem do Alcorão (Árabe******) “Sua responsabilidade é apenas transmitir o chamado de Allah”. E, com base em outros versículos semelhantes, algumas pessoas tentam provar que a função do Mensageiro se limita à pregação. Essas pessoas esquecem que o Mensageiro é apenas um pregador enquanto as pessoas ainda não abraçaram o Islã, e isso somente para aqueles que ainda não aceitaram seus ensinamentos. Mas, para aqueles que abraçaram o Islã e passaram a fazer parte da ummah muçulmana, o Mensageiro não é apenas um pregador; é, ao mesmo tempo, seu líder, governante, legislador, juiz, professor e mestre formador e, acima de tudo, um ser humano exemplar cuja imitação e cujo seguimento são obrigatórios.

A distinção que alguns quiseram fazer entre Muhammad, filho de Abdullah, e Muhammad, o Mensageiro de Allah que pregou o Islã, de modo algum é comprovada pelo Sagrado Alcorão. No Alcorão, é apresentada apenas uma identidade do Grande Profeta: ele é Profeta e Mensageiro. Cada palavra que dizia, dizia na qualidade de Mensageiro de Allah, e cada ação que realizava, realizava na qualidade de Mensageiro de Allah. Assim, justamente por ocupar a posição de Mensageiro, ele era simultaneamente pregador e mestre, formador e purificador de caráter, juiz e governante, líder e administrador. Até mesmo todas as atividades de sua vida pessoal, familiar e social eram conduzidas e realizadas na qualidade de Mensageiro. Em todos esses aspectos da vida, ele possuía uma conduta perfeita, pura e imaculada, como um ser humano completo, um muçulmano obediente e um crente sincero. Seguir e imitar essa sua vida pura, imaculada e santa é indispensável para alcançar a satisfação de Allah e o sucesso na vida futura. O próprio Allah, o Altíssimo, declarou isso no versículo 21 da surata Al-Ahzab do Sagrado Alcorão:

(Árabe*******************************************na página 222 do PDF)

Não há, em nenhuma passagem do Alcorão, nem mesmo o menor indício de que tenha sido feita qualquer distinção entre os diferentes aspectos da vida do Honorável (s.a.) como profeta, como ser humano e como governante. Como poderia tal distinção ser possível? Sendo ele o Mensageiro de Allah, é indispensável que toda a sua vida esteja sujeita à Sharia de Allah, siga-a e represente as normas islâmicas. Ele jamais poderia realizar qualquer ação ou adotar qualquer conduta que desagradasse a Allah.

Ele não era guiado pelos desejos carnais nem pelos caprichos da mente.

Que o venerável Mensageiro de Allah (s.a.) era livre dos maus desejos e não era guiado pelos próprios caprichos foi afirmado claramente nos primeiros versículos da surata An-Najm do sagrado Alcorão. Foi dito: (Árabe**********) “Vosso companheiro [isto é, o venerável Muhammad (s.a.)] não se desviou para um caminho mau nem se extraviou.” (Árabe********) “Ele não fala por capricho próprio.” (Árabe**********) “Cada uma de suas palavras não é senão revelação que lhe foi transmitida.” (Árabe********) “Um mestre poderosíssimo ensinou-lhe.” Algumas pessoas pensam que esses versículos apenas afirmam que o Alcorão é uma revelação. Alguns incrédulos negavam precisamente isso. Contudo, não vejo nesses versículos sequer a menor indicação ao Alcorão. (Árabe*****) Neste versículo (Árabe)o pronome refere-se às palavras do Mensageiro (s.a.). Isto é, (Árabe*********) “Ele não profere palavra alguma por seu próprio capricho.” É à palavra “palavra” presente nessa frase que se faz referência. Não há base nesses versículos para afirmar que, pelas palavras do Mensageiro (s.a.), se pretende designar exclusivamente o Alcorão. Esses versículos afirmam que toda palavra proferida pela boca do Mensageiro (s.a.) é revelação e está livre do impulso dos desejos e dos caprichos da mente. O propósito desse certificado concedido pelo Alcorão é que aqueles a quem o Mensageiro foi enviado possam saber, com plena tranquilidade e certeza, que o Mensageiro (s.a.) jamais se desviou nem minimamente e que, se ele falasse segundo os próprios caprichos, em vez de falar da parte de Allah, ninguém confiaria nele como Mensageiro. Os incrédulos também negavam precisamente isso, isto é, que ele fosse Mensageiro. Pensavam que — que Allah nos livre — o profeta Muhammad (s.a.) havia enlouquecido, ou que algum ser humano o ensinava secretamente, ou que ele próprio inventava palavras. Allah, o Altíssimo, revelou esses versículos da surata An-Najm para remover esse equívoco e declarou em linguagem inequívoca que o vosso companheiro não se desviou nem se extraviou. Ele tampouco profere palavras inventadas. Tudo o que sai de sua boca é verdade e é revelado da Minha parte. Nenhum ser humano, jinn ou Satanás lhe recita ou ensina isso; quem o ensina é um mestre de poder imenso. O próprio venerável Mensageiro de Allah (s.a.), apontando para a própria língua, disse exatamente isto: (Árabe*****) “Juro por Allah, em cuja mão está minha vida e minha morte: nada além da verdade sai desta língua.”

É obrigatório segui-lo em todas as circunstâncias

É profundamente lamentável que algumas pessoas não queiram aceitar que é necessário obedecer ao Mensageiro (s.a.) em todas as circunstâncias. Dizem que não se afirmava que também fossem revelação as conversas que o venerável Mensageiro de Allah (s.a.) mantinha em sua própria casa com suas esposas ou, fora dela, com outras pessoas, e que os incrédulos tampouco se preocupavam com isso. Quero dizer que, tudo o que o venerável Mensageiro de Allah (s.a.) fazia, em qualquer situação, fazia-o como Mensageiro. Tudo nele estava livre do extravio e da lascívia dos desejos. Todas as suas palavras e ações emanavam da natureza e da consciência perfeitas, infalíveis e firmemente apegadas à verdade com as quais Allah, o Altíssimo, o criou, e permaneciam dentro dos limites de temor a Allah e pureza que haviam sido estabelecidos para ele. Em sua sublime personalidade havia um excelente exemplo e modelo digno de imitação e seguimento para toda a humanidade. Com efeito, é por meio desse modelo que aprendemos, no Islã, o que é lícito e ilícito, o que é halal e o que é haram; quais coisas agradam a Allah e quais Lhe desagradam; em quais assuntos temos liberdade para expressar nossas próprias opiniões e realizar reflexão e investigação, e em quais não a temos. Esse mesmo modelo nos ensina como obedecer aos líderes e governantes, como resolver todos os problemas com base na consulta mútua e qual é, afinal, o significado da democracia em nossa religião, o Islã.

O profeta Muhammad (s.a.) era um comandante nomeado por Allah, o Altíssimo

O Mensageiro de Allah (s.a.) não era um emir eleito ou nomeado pelo povo, nem se tornou emir por iniciativa própria. Ele era um emir e líder designado pelo próprio Allah. O papel que desempenhava como líder não era diferente de seu papel como Mensageiro; na verdade, ele era líder das pessoas precisamente como Mensageiro de Allah. Para falar com mais exatidão, ele não era líder nem emir, mas obediente às ordens de Allah. É verdade que lhe foi ordenado consultar seus seguidores. Isso se devia ao fato de que ele deveria apresentar-se à sua ummah como um exemplo de consulta. Por meio de suas próprias ações, ele ensinava os verdadeiros princípios da democracia. Não seria correto concluir disso que sua posição era igual à dos demais líderes. Para os demais líderes, foi estabelecido por lei que devem necessariamente agir após consultar os outros. (Árabe******)“Todas as suas questões devem ser conduzidas por meio de consulta mútua”. E, quando surgisse uma divergência durante a consulta, deveriam buscar diretamente a orientação de Allah e do Mensageiro (s.a.), isto é, do Alcorão e da Sunnah: (Árabe*************************) (Se divergirdes entre vós sobre qualquer assunto, recorrei a Allah e ao Mensageiro para obter a decisão sobre esse assunto). Contudo, ao ordenar ao Mensageiro de Allah (s.a.) que consultasse os outros, foi dito imediatamente também: (Árabe*******) “E, quando tomares uma decisão firme sobre qualquer questão, deposita tua confiança em Allah”. Isso deixa claro que ele não dependia da consulta. Ainda assim, foi-lhe ordenado consultar os outros apenas para que, pelas mãos sagradas do Mensageiro (s.a.), fosse estabelecido o fundamento de um verdadeiro sistema de governo democrático.

A obediência ao Mensageiro como líder ou emir

Também a esse respeito, alguns se encontram presos a uma concepção equivocada. Dizem que a obediência ao Profeta (s.a.) como líder se limitava ao período de sua vida. Isso, porém, não está correto. Eles apresentam como prova as palavras do versículo 20 da Surata Al-Anfal (Árabe********) e delas deduzem que a ordem de obedecer às palavras do Mensageiro (s.a.) foi dada somente àqueles que, naquela época, podiam ouvi-lo. Contudo, esse não é o verdadeiro significado do versículo. Já no primeiro versículo da Surata Al-Anfal foi dito: (Árabe*************) “Se sois crentes, obedecei a Allah e ao Mensageiro”. Além disso, no versículo 5, foram repreendidos aqueles que hesitavam interiormente em atender ao chamado do Mensageiro (s.a.) para o jihad. Depois, no versículo 13, foi dito: (Árabe***************) “Quem discutir com Allah e com Seu Mensageiro deve saber que Allah é severo no castigo”.

Logo após dizer essas coisas, no versículo 20, foi dito:

(Árabe*******************************************na página 225 do PDF)

“Ó crentes! Obedecei à ordem de Allah e obedecei à ordem do Mensageiro. Não desobedeçais à ordem quando a estiverdes ouvindo”. Neste versículo e nos versículos anteriores, a obediência à ordem de Allah é repetidamente mencionada junto com a obediência ao Mensageiro. O objetivo é mostrar que obedecer à ordem do Mensageiro equivale, por si só, a obedecer à ordem de Allah. É preciso observar ainda outro ponto. Em todos os lugares, é usada a palavra ‘Mensageiro’; a palavra ‘emir’ não é usada em parte alguma. Nem há sequer a menor indicação implícita de que ‘Mensageiro’ signifique um cargo como o de líder ou emir, uma posição distinta da posição do Mensageiro (s.a.). Ao mesmo tempo, é digno de nota que foi proibido ignorar a ordem do Mensageiro (s.a.), e a expressão “quando a estiverdes ouvindo” significa claramente: mesmo depois de ouvirdes repetidamente minhas ordens, não vos recuseis a obedecer ao meu Mensageiro (s.a.). Aqui, o termo ‘vós’ não significa apenas os muçulmanos vivos durante a vida do Mensageiro (s.a.); inclui também todos os crentes que ouvirem a mensagem do Alcorão até o Dia da Ressurreição. Para todos eles, é obrigatório obedecer e pôr em prática cada ordem do Mensageiro, independentemente da forma como ela lhes chegue.

Um argumento estranho

Alguns argumentam que a responsabilidade de liderança do nobre Profeta (s.a.) era igualmente temporária, como ocorre com os demais líderes. Afinal, nos dias de hoje é impossível lutar com lanças e espadas como nas batalhas de Badr e Uhud. Que argumento estranho! O uso das armas que o Mensageiro de Allah (s.a.) utilizava naquela época pode ter sido limitado às circunstâncias particulares daquele período. Isso não significa que as restrições e normas éticas que ele observava na guerra e ordenava que outros também observassem fossem próprias de uma época específica. Pelo contrário, por meio delas, ele estabeleceu para os muçulmanos um código de guerra permanente.

Na realidade, do ponto de vista da Sharia, não é de grande importância quais armas Hazrat (que a paz esteja com ele) usava na guerra — espada, fuzil ou canhão. O que realmente importa é com que objetivo ele usava essas armas e que tipo de derramamento de sangue provocava por meio delas. O modelo que ele apresentou através das diversas guerras constitui um modelo eterno e completo para a jihad islâmica. Portanto, ideal e doutrinariamente, o Profeta Universal Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) é, até o Dia da Ressurreição, o comandante supremo de todos os exércitos muçulmanos de todas as épocas.

A posição singular da liderança do Profeta

Certo cavalheiro, ao mostrar a diferença entre o emirado e a missão profética, afirma que os muçulmanos têm o direito de debater e discordar de seu líder — ao passo que não se pode discordar do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Pergunto a esse cavalheiro: como pode a liderança do Mensageiro (que a paz esteja com ele) ser igual à liderança dos demais líderes? Diante daquele líder não era permitido sequer falar em voz alta; na Surata Al-Hujurat foi declarado que bastaria falar em voz alta para que todas as boas obras de uma vida inteira fossem anuladas, e na Surata An-Nissa foi advertido que quem discutisse com ele seria lançado no Inferno. Poderia um muçulmano ter o direito de discordar de sua decisão? Certamente não. Então, como poderia a liderança desse líder ser igual à liderança dos demais líderes? O direito de discordar dos demais líderes foi concedido aos muçulmanos.

Os três níveis da obediência

Algumas pessoas sustentam a concepção equivocada de que as ordens corânicas relativas à obediência ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) são sinônimas da obediência ao emir ou líder. A seguir, apresenta-se uma citação de uma opinião desse tipo:

“Onde quer que a ordem de obedecer a Allah e ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) seja mencionada conjuntamente no Alcorão, seu significado é, em termos gerais, obedecer à liderança dos muçulmanos que adota o Alcorão como fundamento da lei e da constituição e que é dirigida pelo próprio Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) ou por seu califa. Por exemplo, o Alcorão diz a respeito dos espólios de guerra: (Árabe************) “As pessoas perguntam-te acerca dos espólios de guerra. Dize: ‘Os espólios de guerra pertencem a Allah e ao Mensageiro’”. É sabido que essa determinação relativa aos espólios não se limitava às guerras do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), mas deveria ser igualmente observada também nos períodos posteriores. Essa ordem (que a paz esteja com ele), isto é, a autoridade da liderança muçulmana contemporânea, está confiada às mãos dela. Portanto, a dignidade que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) possuía como líder é exatamente a mesma de seus califas.

Essa opinião é claramente apenas uma distorção da verdade. O Sagrado Alcorão menciona com toda clareza três níveis de liderança: a obediência a Allah, a obediência ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) e a obediência aos ‘ulul amr’. Obedecer a Allah significa obedecer aos mandamentos do Alcorão. Obedecer ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) significa seguir e imitar suas palavras e ações. Já obedecer aos ‘ulul amr’ significa obedecer à liderança que governa e orienta os muçulmanos de acordo com a obediência a Allah e ao Mensageiro e com as normas do Islã. Quanto aos dois primeiros níveis, a posição do Alcorão é clara e inequívoca. O Alcorão declara repetidamente que não há espaço para a menor controvérsia acerca das ordens de Allah e do Mensageiro (que a paz esteja com ele). A tarefa dos muçulmanos é simplesmente ouvi-las e agir de acordo com elas. Depois que Allah e o Mensageiro tiverem declarado uma decisão sobre determinado assunto, nenhum outro muçulmano tem autoridade alguma para tomar uma nova decisão a esse respeito. Em outras palavras, basta tentar levantar qualquer objeção, oposição ou controvérsia nesses dois níveis para ser excluído do Islã. Quanto ao terceiro, o Alcorão afirma que a obediência ao emir ou líder está subordinada a Allah e ao Mensageiro. Quando surgir controvérsia, oposição ou divergência, a questão deverá ser resolvida de acordo com as normas de Allah e do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Diante de uma instrução tão clara e explícita, não há margem para dizer que Allah e o Mensageiro significam a liderança dos muçulmanos. De modo algum é possível colocar no mesmo nível a liderança do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) e a liderança dos líderes muçulmanos comuns. A esse respeito, (Árabe**************) “O argumento que se tentou apresentar a partir do versículo não está correto. O fato de os espólios pertencerem a Allah e ao Mensageiro significa que eles devem ser gastos em benefício da sociedade, da organização e do Estado islâmicos estabelecidos por Allah e pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele). Como se pode entender, a partir desse versículo, que Allah e o Mensageiro significam a liderança muçulmana?”

A tentativa equivocada de estabelecer uma distinção entre as atividades religiosas e sociais

Não há no Alcorão sequer a mais sutil indicação que permita considerar apenas as atividades religiosas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como um modelo eterno e atemporal, e considerar suas orientações e decisões relativas às questões sociais e civilizacionais aplicáveis somente a uma época específica. Se houver no Alcorão algum versículo à luz do qual seja possível fazer uma distinção entre esses dois tipos de atividades, seria bom que alguém o indicasse. Até onde sei, esta é a determinação clara do Alcorão:

(Árabe*******************************************na página 227 do PDF)

“Depois que Allah e Seu Mensageiro decretam uma decisão sobre qualquer assunto, nenhum homem ou mulher crente tem mais autoridade para tomar uma nova decisão acerca de seus próprios assuntos. E quem desobedecer a Allah e ao Mensageiro estará manifestamente extraviado.” — (Surata Al-Ahzab: 36)

Neste versículo, não foi estabelecido nenhum limite de época ou período. Não há fundamento para dizer que os homens e mulheres crentes mencionados aqui significam apenas os homens e mulheres crentes durante a vida do Mensageiro de Allah. Tampouco o assunto das ordens ou decisões de Allah e do Mensageiro foi limitado exclusivamente à religião; ao contrário, inclui todos os tipos de questões: religiosas e sociais, civilizacionais, econômicas e políticas. Allah e o Mensageiro significam Allah e o Mensageiro, e jamais a autoridade ou liderança. Qualquer emir ou ulul amr certamente será um crente. E aqui se afirma que, depois que Allah e o Mensageiro tomam uma decisão sobre qualquer assunto, nenhum homem ou mulher crente conserva qualquer direito de tomar uma decisão por conta própria — quer a decisão seja tomada por uma pessoa sozinha, quer por todos em conjunto. Em seguida, afirma-se que quem se opuser a isso se extraviará. Isso significa que a ordem que Allah e Seu Mensageiro estabeleceram, com base em suas instruções e leis, para a comunidade ou sociedade islâmica não pode ser preservada senão pela observância literal dessas leis e normas.

Se as pessoas, ignorando o que Allah disse e o que Seu Mensageiro fez, adotarem algum caminho baseado em sua própria vontade e arbítrio, essa ordem não se manterá.

O conceito islâmico sobre a obediência ao Profeta e a liberdade de expressão

 

Um cavalheiro escreveu:

“Na história de Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) e Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), narrada na Surata Al-Ahzab, surge uma pergunta. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Zayd,(Árabe**********) (Conserva tua esposa no vínculo conjugal e teme a Allah), mas Zayd contrariou essa instrução do Profeta e divorciou-se de Zaynab. Não há dúvida de que esse ato contrariou a ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Entretanto, na forma como o Alcorão narra o episódio, não se encontra, de maneira explícita ou implícita, nada que indique que Allah tenha reprovado minimamente essa oposição de Zayd. Pelo contrário, no início do relato, Zayd é descrito como um servo agraciado por Allah,(Árabe*********) (sobre quem Allah derramou Sua graça). Disso surge a impressão de que talvez não haja problema em agir contra a ordem do Profeta e de que, mesmo que a palavra do Profeta seja comprovada, obedecer-lhe não é tão indispensável quanto obedecer à ordem de Allah.”

Não há qualquer complexidade na questão, e a dúvida do questionador poderia ser eliminada em poucas palavras. Mas, na realidade, do mesmo lugar de onde surge a dúvida também se originam várias concepções equivocadas. E as raízes dessas concepções estão profundamente arraigadas. Portanto, juntamente com a remoção dessa dúvida, lancemos também alguma luz sobre suas raízes e ramificações.

O direito de dar ordens pertence exclusivamente a Allah

O Alcorão declarou, em linguagem ainda mais clara e inequívoca que os demais Livros celestiais, que não há outro além de Allah que seja o Legislador supremo e soberano, o Comandante e o Governante. (Árabe*********) (Ninguém além de Allah tem o direito de legislar e governar.) Somente Allah, o Altíssimo, pode ordenar como quiser: (Árabe********) Certamente, Allah, o Altíssimo, ordena aquilo que deseja.) Somente Ele é o Governante cujas ordens não admitem qualquer questionamento: (Árabe********) (Não se pode questionar nenhum de Seus atos.) É obrigatório obedecer somente a Allah, e isso é obrigatório porque, por sua própria natureza, o ser humano é Seu servo ou escravo. Ele foi criado precisamente para servir a Allah. (Árabe*************) (Criei os gênios e os seres humanos somente para que Me adorem ou sirvam.) O ser humano não é criatura, servo nem dependente de ninguém além de Allah. Portanto, não é obrigatório para ninguém obedecer a outro ser humano. (Árabe*******************) (Eles perguntam: temos alguma participação na autoridade governamental? Dize-lhes: a autoridade governamental pertence exclusivamente a Allah). Assim como nenhum ser humano possui autoridade soberana e absoluta sobre outro ser humano, também ninguém é obrigado a obedecer às ordens de outro, além de Deus, apenas porque a ordem provém daquela pessoa específica.

A autoridade governamental de seres humanos sobre seres humanos

O Alcorão deseja retirar dos ombros do ser humano o jugo da obediência a qualquer entidade além de Allah. Deseja transformá-lo em servo obediente de Allah, o verdadeiro Senhor e Governante soberano. Depois, deseja conceder-lhe plena liberdade de pensamento e de consciência. Na realidade, esse era o objetivo principal da revelação do Alcorão. Por isso, vemos que foi o Alcorão que travou a maior luta contra a servidão e a escravidão dos seres humanos. A seu ver, nenhum ser humano tem o direito de declarar, por sua própria vontade, que algo é ilícito ou lícito, e de exigir que suas ordens e proibições sejam aceitas como as ordens e proibições de Allah. O Alcorão não reconhece em nenhum ser humano uma autoridade absoluta desse tipo. Pelo contrário, declarou que seguir tais ordens e proibições é shirk. Declarou que são mushrik aqueles que consideram os ulemás, os pirs e murshids, os padres e sacerdotes e os governantes como (Árabe*********) ou deuses alternativos a Allah e os colocam no lugar de Deus, aceitando suas palavras sem questionamento. Quando algumas pessoas demonstram uma obediência tão absoluta a outras, inevitavelmente passam a considerá-las seus senhores e a si mesmas suas escravas. Uma pessoa só pode estar disposta a entregar voluntariamente, diante de outra, toda a liberdade de sua consciência, mente e corpo quando a considera acima de todos os erros e falhas, completamente inocente e sem mácula; ou quando pensa que ela, por direito próprio, tem o poder de ordenar e proibir qualquer coisa e possui um direito inato de governar e exercer autoridade. Ou quando pensa que somente ela possui todo o poder de causar dano ou benefício, e que somente ela tem o poder de conceder ou suspender o sustento. Acreditar que qualquer criatura ou coisa, além de Allah, possui tais atributos é a origem do shirk e da servidão. Em contrapartida, o princípio fundamental da doutrina do tawhid é crer que nenhuma criatura ou coisa, além de Allah, possui qualquer desses atributos, e rejeitar a autoridade ou o direito de governar de todos os demais. A libertação e a liberdade completas do ser humano da servidão à criação são o resultado inevitável desse princípio.

Como se deve obedecer ao Profeta

Depois de compreender a discussão acima, deve-se refletir sobre como deve ser prestada a obediência ao Profeta (que a paz esteja com ele), que o Islã tornou obrigatória e da qual depende a religião. Essa obediência de modo algum se deve ao fato de o Profeta ser uma pessoa distinta, como filho de Imran, filho de Maria ou filho de Abdullah, e de, por ser essa pessoa distinta, ter o direito de ordenar e proibir e de determinar o que é lícito e ilícito. Se fosse assim, Deus nos livre, o próprio Profeta se tornaria um dos muitos deuses além de Deus, isto é, um dos senhores além de Deus. E, desse modo, pelas próprias mãos dele, fracassaria o objetivo para o qual ele foi enviado como profeta. O Alcorão expressou esse assunto em linguagem extremamente clara. Ele afirma que, como pessoa, o Profeta é um ser humano como os demais.(Árabe********************) “Ó Profeta! Dize: ‘Meu Senhor está acima de todas as imperfeições. Na verdade, não sou mais que um ser humano a quem foi concedida a dignidade de Mensageiro’.”(Árabe******************) “Seus profetas lhes disseram: ‘Nós somos apenas seres humanos como vós’.” Contudo, por ser profeta, surge uma enorme diferença entre ele e os demais seres humanos. Quando lhe foi concedida a profecia, também lhe foi confiado o poder de governar. Deus diz:(Árabe******************) “Eles são os profetas a quem concedi o Livro, o poder de governar e a profecia.” Aqui, a palavra “governo” ou poder de governar compreende tanto o poder de tomar decisões quanto a autoridade estatal. Portanto, fica evidente que o poder e a autoridade estatal que estão nas mãos do Profeta não são pessoais, mas poder e autoridade confiados por Deus. Por isso, obedecer-lhe é obedecer ao próprio Deus. Deus diz:(Árabe******************) “Quem obedece ao Mensageiro obedece, na verdade, a Deus.” O objetivo de enviar o Profeta é que ele promulgue, da parte de Deus, Suas instruções, e que os muçulmanos as sigam. Deus diz:(Árabe******************) “Não enviamos profeta algum senão para que, por ordem de Deus, ele seja obedecido.” Assim, o mandamento do Mensageiro (que a paz esteja com ele) é, na verdade, o mandamento de Deus: sua obediência deve ocorrer por ordem de Deus. Desse modo, a ordem do Mensageiro (que a paz esteja com ele) é a própria ordem de Deus. Ninguém tem o menor direito de levantar qualquer questionamento a esse respeito. Deus diz:

(Árabe************************************na página 231 do PDF)

“Quanto àquele que, depois de a orientação se tornar clara, se opõe e disputa com o Profeta e segue um caminho diferente do caminho dos crentes, Eu o conduzirei para aquilo para o qual ele se voltou. Depois, lançá-lo-ei no Inferno. E que péssimo destino é o Inferno!”

Obediência incondicional

Longe de desobedecer de fato ao Mensageiro (que a paz esteja com ele), mesmo que alguém acalente no íntimo a intenção de desobedecer, certamente perderá a fé. Deus, o Altíssimo, disse:

(Árabe******************************na página 231 do PDF)

“Por Deus, eles jamais serão crentes até que te aceitem como juiz nas disputas entre si e não sintam o menor constrangimento em aceitar a decisão que profiras, submetendo-se completamente diante dela.”

A desobediência ao Mensageiro traz ao ser humano perda e fracasso eternos. Deus, o Altíssimo, diz:

(Árabe******************na página 232 do PDF)

“Sobre aqueles que cometeram kufr e desobedeceram ao Mensageiro, no Dia da Ressurreição cairá uma calamidade tal que desejarão que toda a Terra seja colocada sobre eles”.

O Profeta não transforma as pessoas em seus escravos

A religião e a fé dependem da obediência ao Profeta e da plena submissão a ele. Isso também foi esclarecido de modo ainda mais explícito: a orientação depende da obediência minuciosa ao Profeta. (Árabe******************) Já foi dito anteriormente que essa obediência não é devida ao Profeta enquanto ser humano ou indivíduo. Os profetas não são enviados para transformar as pessoas em seus próprios servos e escravos; ao contrário, são enviados precisamente para tornar as pessoas obedientes a Allah. A esse respeito, Allah diz:

(Árabe******************na página 232 do PDF)

“Não é apropriado que Allah conceda a qualquer ser humano o Livro, a autoridade e a profecia e, depois, ele diga às pessoas: ‘Tornai-vos meus servos em vez de servos de Allah’. Não; ao contrário, ele dirá: ‘Tornai-vos servos de Allah’”.

O Profeta não veio para obrigar as pessoas a obedecerem aos seus desejos e aspirações pessoais, para impor-lhes a influência de sua própria grandeza e santidade, privá-las do direito de sustentar suas opiniões diante das opiniões dele e fazer com que deixassem suas mentes e intelectos inativos perante ele. Isso seria precisamente a adoração de outro que não Allah, cuja erradicação foi justamente a razão da vinda do Profeta.

O Profeta veio justamente para romper todas as espécies de grilhões da servidão humana que foram colocados sobre os ombros das pessoas. Allah diz: (Árabe******************) “E ele (o Profeta) remove deles todos os fardos que lhes foram impostos e os liberta dos grilhões aos quais estão presos”. O Profeta veio para retirar das pessoas a autoridade e o poder que elas haviam usurpado de determinar os direitos e deveres humanos e de estabelecer arbitrariamente os limites entre o lícito e o ilícito. Allah diz: (Árabe******************) “Não tendes o direito de declarar lícito ou ilícito, com vossas próprias bocas, aquilo que quiserdes”. A profecia surgiu justamente para libertar as pessoas da servilidade que se havia apoderado delas, levando-as a curvar a cabeça diante das ordens e decisões humanas. O Alcorão recorda isso às pessoas, dizendo: (Árabe******************) “Que nenhum ser humano dentre nós tome outro ser humano como seu Senhor em vez de Allah”. Portanto, como poderia ser legítimo que um profeta rompesse os grilhões da escravidão de uns sobre os ombros das pessoas e depois as prendesse novamente com os grilhões de sua própria escravidão? Como poderia ser razoável que ele retirasse de todos os demais o direito de determinar o lícito e o ilícito e, logo depois, se apossasse dele para si, afastando todos os outros do trono do poder e da autoridade e sentando-se ele próprio sobre esse trono? O Profeta que censura os judeus e os cristãos por terem tomado seus líderes religiosos e sacerdotes como senhores em vez de Allah, (Árabe******************) como poderia dizer: ‘Agora, abandonando Allah, tomai-me como Senhor ou deus e servi como escravos à minha vontade e aos meus desejos’?

A obediência ao Profeta na qualidade de Profeta

Foi precisamente por isso que Allah, o Altíssimo, fez Seu próprio Profeta declarar repetidamente esta verdade: a obediência que foi ordenada ao crente, aquela de cuja observância depende a existência ou ausência da fé, e da qual o crente não tem o direito de se afastar nem sequer na medida de um fio — quanto mais abandoná-la — não é, na realidade, a obediência ao Profeta enquanto homem, mas sim a obediência a ele enquanto Profeta. Isto é, deve-se obedecer à ordem, ao conhecimento, à orientação, à lei e às normas que o Profeta transmite às pessoas da parte de Allah. Dessa discussão ficou claro que o vínculo de obediência com o qual o Islã prende as pessoas não é, na realidade, a obediência a um homem, mas a obediência ao próprio Allah. Allah diz:

(Árabe****************** na página 233 do PDF)

“Ó Profeta! Revelamos-te este Livro verdadeiro para que julgues entre as pessoas conforme a justiça que Allah te mostrou.” — (Surata An-Nissá: 105).

(Árabe****************** na página 233 do PDF)

“E aqueles que não julgam conforme a lei revelada por Allah são, na verdade, os injustos.” — (Surata Al-Máida: 45).

Assim como todas as outras pessoas são obrigadas a seguir a lei de Allah, o próprio Profeta, enquanto homem, também é obrigado a segui-la. (Árabe******************) “Sigo unicamente aquilo que me é revelado.” — (Surata Al-An’am: 50)

A obediência ao Profeta está subordinada à ordem de Allah

Além dos versículos acima mencionados, muitos outros versículos provam claramente que a obediência pertence exclusivamente a Allah, e a ninguém mais. Se há alguma possibilidade de servidão a qualquer coisa além de Allah, ou de domínio e autoridade de uns seres humanos sobre outros, isso não ocorre na qualidade de seres humanos. É verdade que se deve obedecer ao Profeta, mas isso se deve ao fato de Allah lhe ter concedido autoridade para emitir ordens. Deve-se obedecer aos governantes e administradores porque eles foram incumbidos de aplicar e implementar as ordens de Allah e do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Deve-se obedecer aos sábios porque eles esclarecem os mandamentos e proibições de Allah e do Mensageiro (que a paz esteja com ele), bem como os limites do lícito e do ilícito estabelecidos por Ele. Se qualquer um deles apresentar um mandamento de Allah, é dever de todo muçulmano curvar-se diante dele. Ele não tem o direito de contestar sua lógica ou validade. Diante de Allah, nenhum crente possui liberdade de pensamento ou de opinião. Mas, se uma pessoa apresentar não um mandamento de Allah, mas sua própria opinião ou concepção, o muçulmano não é obrigado a aceitá-la. Nesse caso, ele tem liberdade para pensar independentemente e sustentar sua própria opinião. Tem o direito de discordar voluntariamente dela. E isso não se aplica apenas aos sábios e governantes: não há impedimento algum em discordar até mesmo de uma opinião pessoal.

O propósito da vida do Grande Profeta (que a paz esteja com ele) eradois

Um dos propósitos da vida do Grande Profeta (que a paz esteja com ele) era colocar no pescoço das pessoas a corrente da servidão e da obediência a Allah. O outro era libertar as pessoas das correntes da obediência e da servidão a outros seres humanos. Essas duas tarefas faziam parte de sua responsabilidade como Profeta, e ambas tinham a mesma importância. Para concluir a primeira tarefa, era indispensável obrigar todos os muçulmanos a obedecer-lhe na qualidade de Profeta, pois a obediência a Allah dependia justamente da obediência a ele. Por outro lado, para concluir a segunda tarefa, era igualmente necessário que, antes de tudo, por meio de suas ações e conduta, ele gravasse firmemente no coração dos muçulmanos esta verdade: eles não eram obrigados a obedecer, na condição de ser humano, a nenhum homem — nem mesmo a Muhammad, filho de Abdullah —, e seus corações eram completamente livres da servidão a seres humanos. Essa era uma tarefa extremamente difícil. Na mesma pessoa reuniam-se as qualidades da profecia e da humanidade. Não era possível separá-las traçando uma linha divisória clara. Contudo, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) realizou essa tarefa com extraordinária habilidade, mediante a sabedoria concedida por Allah. De um lado, como Profeta, recebeu uma obediência que nenhum herói da história mundial jamais recebeu em qualquer época. De outro, como ser humano, concedeu a seus seguidores devotados uma liberdade individual tal que nem mesmo o mais democrático dos líderes do mundo conseguiu algum dia conceder tamanha liberdade a seus seguidores.

Não é necessário explicar quão grande era a influência e a autoridade que ele exercia sobre seus seguidores na qualidade de Profeta, nem quão respeitado e popular era entre os muçulmanos. Entretanto, apesar de toda essa influência e poder, ele separava, em sua conduta diária, sua dignidade humana de sua dignidade profética com uma perfeição sem paralelo. Ao mesmo tempo que recebia, como Profeta, essa obediência incondicional e inequívoca, concedia, como ser humano, plena liberdade de opinião às pessoas e até as incentivava a discordar de suas opiniões pessoais. Quem refletir profundamente sobre esse assunto certamente compreenderá que tal autocontrole absoluto, tal extraordinária capacidade de discernimento e tamanha sabedoria e visão só eram possíveis para um Profeta. Por um lado, percebe-se que, embora a dignidade pessoal do Profeta fosse distinta, ela se dissolvia na dignidade do ofício profético. Por outro, também fica claro que, por meio de sua conduta pessoal, ele continuava cumprindo a responsabilidade da profecia. Pessoalmente, ensinava-lhes como utilizar a liberdade de pensamento no trato com as pessoas. Informava-lhes que o ser humano pode exercer sua liberdade de opinião e de pensamento diante de qualquer pessoa. Mesmo diante do mais nobre dos homens — aquele que, como mensageiro de Allah, é obrigado a reconhecer como a pessoa mais digna de todas — ele possui essa liberdade e pode exercê-la. Se alguém, além de um Profeta, tivesse tamanho poder e influência sobre as pessoas, certamente as transformaria em seus escravos e estabeleceria sobre elas um domínio absoluto, como fizeram, em diferentes épocas e países, sacerdotes, clérigos, pirs e reis. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe************************************página 235 do PDF)

“Eu também sou um ser humano. Quando eu lhes der uma ordem referente a assuntos de sua religião, sigam-na. Mas, quando eu disser algo segundo minha própria opinião, saibam que sou apenas um ser humano”.

Alguns exemplos de incentivo à liberdade de opinião

Certa vez, o venerável Profeta (que a paz esteja com ele) deu alguns conselhos aos proprietários dos pomares de Medina sobre o cultivo de tamareiras. Os proprietários dos pomares seguiram esses conselhos, mas isso não trouxe muito benefício. Quando informaram o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) a esse respeito, ele disse:

(Árabe************************************na página 235 do PDF)

“Eu apenas havia dito algo baseado em uma suposição. Não aceitem o que digo quando se baseia apenas em conjecturas, suposições e minha opinião pessoal. Sim, quando digo algo da parte de Allah, aceitem-no, pois jamais atribuí falsidade a Allah.”

Na batalha de Badr, o local onde o Profeta (s.a.w.) havia montado inicialmente sua tenda não era muito adequado. O Companheiro Hazrat Hubab ibn al-Mundhir (r.a.) perguntou-lhe: “Este local foi escolhido por orientação da revelação ou apenas como estratégia militar?” O Hazrat (s.a.w.) respondeu que não fora por orientação da revelação. Então Hubab disse: “Nesse caso, na minha opinião, deveríamos avançar mais e montar a tenda em tal lugar.” O Hazrat (s.a.w.) aceitou sua sugestão e agiu de acordo com ela.

A respeito dos prisioneiros de guerra de Badr, o Hazrat (s.a.w.) consultou os Companheiros e também expressou sua própria opinião como um membro comum do grupo. Nessa questão, Hazrat Umar (r.a.) manifestou uma opinião divergente da do Mensageiro de Allah (s.a.w.) e de Hazrat Abu Bakr (r.a.). Esse é um acontecimento famoso da história. Na mesma reunião, o Hazrat (s.a.w.) também mencionou seu genro Abu al-As e disse aos Companheiros: “Se vocês permitirem, o colar que foi recebido de Abu al-As como resgate pode ser devolvido a ele.” Somente depois que todos os Companheiros deram sua aprovação de bom grado ele lhe devolveu o colar.

Durante a batalha da Trincheira, o Hazrat (s.a.w.) quis fazer um acordo de paz com a tribo de Banu Ghatafan. Os líderes dos Ansar disseram: “Se isso for uma orientação da revelação, não há o que dizer. Mas, se for uma opinião pessoal do Hazrat (s.a.w.), temos uma opinião divergente.” O Hazrat (s.a.w.) aceitou a opinião deles e rasgou com as próprias mãos o rascunho do acordo de paz.

O tratado de Hudaybiyyah não agradou aos Companheiros, pois, à primeira vista, parecia um tratado de capitulação. Hazrat Umar (r.a.) expressou publicamente sua opinião divergente. Porém, quando o Hazrat (s.a.w.) disse: “Estou fazendo isto na qualidade de profeta”, todos, embora um pouco descontentes por seu senso islâmico de respeito, não tiveram coragem de proferir sequer uma palavra. Até o momento anterior à sua morte, Hazrat Umar (r.a.) continuou a se arrepender de várias maneiras desse erro: ter discordado do Hazrat em uma questão que ele estava prestes a realizar na qualidade de Mensageiro.

Após a batalha de Hunayn, os Ansar ficaram descontentes com a cortesia que ele demonstrou, na distribuição dos espólios de guerra, para com os não muçulmanos de atitude relativamente mais liberal. O Hazrat mandou chamá-los. Para defender sua posição, ele não disse: “Sou um profeta — farei o que quiser”; em vez disso, agiu como o chefe de um governo democrático que, diante dos membros da oposição, faz um discurso argumentativo para estabelecer sua opinião. Ele não lhes fez um apelo do tipo: “Se vocês têm fé no Mensageiro (s.a.w.), aceitem isto”; antes, apelou à sua razão e às suas emoções e só os dispensou depois de tê-los convencido.

Isso diz respeito ao modo como ele tratava as pessoas de elevada posição social. O Grande Profeta (s.a.w.) despertou até entre os escravos e as escravas um espírito de independência. Uma escrava chamada Barirah passou a sentir aversão por seu marido e abandonou sua companhia. O marido, porém, era profundamente apegado a ela. Ao ver o choro do marido, o Hazrat (s.a.w.) disse a Barirah: “Não seria ruim se você voltasse para seu marido.” Ela perguntou: “Ó Mensageiro de Allah (s.a.w.)! O senhor está dando uma ordem?” O Hazrat (s.a.w.) respondeu: “Não é uma ordem; estou apenas recomendando.” Ela disse: “Se é apenas uma recomendação, não quero voltar para ele.”

Há muitos outros exemplos desse tipo. Isso mostra que, quando se podia compreender, pelos gestos ou por uma declaração explícita do Profeta (que a paz esteja com ele), que ele estava falando com base em sua própria opinião, as pessoas expressavam livremente suas opiniões, e ele também as incentivava a fazê-lo. Em tais casos, expressar uma opinião divergente não era apenas permitido, mas também era algo de que ele gostava; muitas vezes, ele próprio retirava sua opinião.

O significado do episódio de Zayd

Vejamos agora o episódio de Zayd. Havia vários tipos de relação entre ele e o Santo Profeta (que a paz esteja com ele). Uma relação era que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) era seu líder, e Zayd era seu seguidor. Outra relação era que o Profeta era seu cunhado, e Zayd era seu concunhado. — [Zaynab era prima paterna do Santo Profeta (que a paz esteja com ele), e havia se casado com Zayd.] A terceira relação era que o Profeta (que a paz esteja com ele) era seu pai adotivo e tutor, e Zayd era seu filho adotivo. Zayd não conseguiu se dar bem com sua esposa. Por isso, decidiu divorciar-se dela. Nessas circunstâncias, o Profeta lhe deu exatamente o tipo de conselho que seria natural um cunhado dar ao seu concunhado e um pai adotivo ao filho que criou. Em outras palavras, disse-lhe: “Teme a Allah e não te divorcies de tua esposa.” Contudo, devido à diferença de temperamento e natureza entre os dois, o ódio que havia surgido entre o marido e a esposa era sentido pelo próprio Zayd com muito maior intensidade. Isso não dizia respeito à sua religião nem à sua fé; tratava-se, antes, de um sentimento psicológico. Por isso, não aceitou o conselho do Profeta e divorciou-se dela. A oposição que ele manifestou nesse caso não foi uma oposição a um Mensageiro. Tampouco o conselho dado pelo Profeta foi dado na qualidade de Mensageiro de Allah. Portanto, ele não ficou descontente, e Allah, o Altíssimo, também não ficou descontente. Mas, se no lugar do Mensageiro (que a paz esteja com ele) estivesse alguém que tivesse criado uma pessoa desde a infância, que lhe tivesse demonstrado favores e benevolência, que, apesar da desonra da escravidão, tivesse casado sua própria irmã com ela e que, depois, visse essa pessoa divorciar-se de sua irmã apesar de sua proibição, então tal indivíduo certamente ficaria descontente. Contudo, o Profeta (que a paz esteja com ele) não era apenas seu tutor e cunhado; era também o Mensageiro de Allah. Libertar as pessoas da servidão a outras pessoas e devolver-lhes os direitos humanos que haviam perdido era seu dever como Mensageiro. Por isso, ele não deu uma ordem, mas um conselho. E não demonstrou o menor descontentamento pelo fato de esse conselho ter sido desobedecido. Isso mostra que, em sua personalidade, as funções próprias do Profeta eram distintas e, ao mesmo tempo, intimamente interligadas. Na aplicação de ambas, ele manteve um equilíbrio tão extraordinário que somente um profeta poderia mantê-lo. Mesmo como ser humano, agia de tal maneira que as responsabilidades e os deveres da profecia eram cumpridos simultaneamente e de forma espontânea.

O ensinamento do Profeta sobre a liberdade de pensamento

Foi sob a influência da semente da liberdade de pensamento que o Santo Profeta (que a paz esteja com ele) havia plantado e do ensinamento que transmitira, por meio de suas ações e conduta, para que as pessoas expressassem opiniões independentes ao mesmo tempo que obedeciam às instruções de Allah, que os Companheiros Nobres (que Allah esteja satisfeito com eles) eram mais obedientes às ordens de Allah do que todas as outras pessoas e mais independentes e democráticos do que todos os demais. Mesmo diante de grandes personalidades, preservavam sua independência e seu espírito democrático para expressar suas próprias opiniões. Mesmo diante de grandes personalidades, não renunciavam à liberdade de expressar suas próprias opiniões. A ideia de que uma opinião deveria estar acima de qualquer crítica apenas por pertencer a uma grande personalidade não encontrava lugar em suas mentes. Entre eles havia pessoas que eram superiores e cuja superioridade eles próprios reconheciam — e que o mundo de hoje também reconhece —, mas nunca aceitaram as opiniões dessas pessoas apenas com base em sua superioridade; ao contrário, algumas vezes as aceitavam e outras vezes as rejeitavam livremente. Logo depois do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), os maiores defensores da liberdade de opinião foram os Califas Bem-Guiados. Seguindo o exemplo de seu grande líder, eles não apenas toleraram a liberdade das pessoas, mas também a incentivaram. Nunca disseram nem mesmo a uma pessoa muito humilde: “Nós somos os melhores dos seres humanos; portanto, aceitem nossas palavras sem hesitação.”

A liberdade de pensamento após o Califado Bem-Guiado

Depois dos Califas Bem-Guiados, os governantes omíadas e abássidas tentaram, de várias maneiras, retirar a liberdade de pensamento e de opinião: às vezes por meio de ameaças, às vezes mediante dura opressão e perseguição e, outras vezes, oferecendo incentivos. Apesar disso, o impulso para o pensamento independente permaneceu intacto por muito tempo entre os tabi‘un, sucessores dos Companheiros, entre os tabi‘ al-tabi‘in, seus sucessores, e até mesmo entre os muçulmanos das gerações posteriores. Na história do Islã, até os primeiros dois ou três séculos, podem ser encontrados exemplos extremamente brilhantes disso. Naturalmente, diante de governantes e autoridades, o sentimento de independência era uma questão relativamente insignificante. A maior prova da liberdade de espírito e de consciência é que a pessoa se abstém de imitar cegamente até mesmo aquela personalidade que considera extremamente venerável e santa, em cujo íntimo reserva profunda reverência e estima; mesmo diante dela, pensa livremente e forma sua própria opinião. Encontramos esse espírito de independência entre os sábios e eruditos daquela época.

A liberdade de pensamento dos juristas e imãs

Quem poderia ter uma personalidade mais pura e respeitável do que os Companheiros? E quem poderia ser mais respeitoso para com eles do que os tabi‘in? Apesar disso, eles criticavam livremente as opiniões dos Companheiros, analisavam suas divergências mútuas e, rejeitando a opinião de um, adotavam a de outro. Sobre as divergências entre os Companheiros, o Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele) disse sem hesitação:(Árabe**************) “Entre as opiniões dos Companheiros há tanto o certo quanto o errado. Portanto, formem sua opinião após refletirem e ponderarem por si mesmos.” Da mesma forma, o Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) disse:(Árabe*********************) “De duas opiniões diferentes, uma deve necessariamente estar errada.”

Nenhum desses próprios imams jamais disse: “Não cometemos erro algum. Abandonem seu próprio raciocínio e sigam apenas nossa imitação.” Sempre que o Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) expressava sua opinião sobre algum assunto, dizia imediatamente:

(Árabe************************************na página 239 do PDF)

“Esta é a minha opinião. Se estiver correta, provém de Allah; e, se estiver errada, provém de mim, e peço perdão a Allah.”

O Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia,(Árabe***************************) “Não permitam que uma opinião equivocada se transforme no modelo de toda a comunidade muçulmana.”

O Hazrat Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

(Árabe************************************na página 239 do PDF)

“Cuidado! Que nenhum de vocês siga cegamente alguém em questões do Islã, de modo que, se a pessoa seguida for crente, ele também se torne crente, e, se a pessoa seguida for incrédula, ele também se torne incrédulo. Na verdade, não se deve imitar ninguém em ações más e erradas.”

O Imam Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

(Árabe************************************PDF, página 239)

“Sou apenas um ser humano. Minha opinião pode estar errada ou correta. Refleti e pesquisai sobre minha opinião. Aceitai tudo o que encontrardes de acordo com o Alcorão e a Sunnah, e rejeitai tudo o que encontrardes em contradição com o Alcorão e a Sunnah”.

É um acontecimento célebre na história que o califa abássida Almançor quis instituir o livro Al-Muwatta do Imam Malik como constituição vigente em todo o mundo muçulmano e desejava abolir todas as escolas jurídicas em vigor, instituindo apenas a escola maliquita. Mas o próprio Imam Malik não lhe permitiu fazê-lo, pois não queria privar os outros da liberdade de pensar, pesquisar, expressar opiniões e praticar o ijtihad.

O Imam Abu Yusuf (que Allah tenha misericórdia dele) disse:(Árabe********************PDF, página 240)

“Não é permitido que outros sigam a opinião que expressamos sem conhecer sua fonte”.

O Imam al-Shafi‘i (que Allah tenha misericórdia dele) disse:

(Árabe************************************PDF, página 240)

“Aquele que adquire conhecimento sem provas é como alguém que recolhe lenha na escuridão da noite. Ele colocará sobre a cabeça um feixe de lenha, sem saber que há uma serpente escondida nele, que o picará”.

A era do declínio da liberdade concedida pelo Islã no campo do pensamento

A força vital da liberdade irrestrita de pensamento, investigação, opinião e busca da verdade que o nobre Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) havia despertado entre seus seguidores continuou entre os muçulmanos por quase três séculos. Depois disso, o despotismo dos emires e nobres, dos governantes e eruditos, e dos pīres começou a destruir essa força vital. O direito das pessoas reflexivas ao pensamento independente, bem como o direito de ver e falar, também lhes foi retirado. Desde as cortes até as madraças e os khanqahs, os muçulmanos passaram a ser ensinados a viver como escravos. Eles foram firmemente acorrentados à escravidão total da mente, da alma e do corpo. Os governantes, fazendo com que se prostrassem diante deles em rukū‘ e sujūd, criaram uma mentalidade de escravidão. Os diretores das madraças, ao mesmo tempo que ensinavam a devoção a Allah, também incutiam em suas mentes o veneno da veneração dos mestres. E o método da bay‘ah, que vinha sendo praticado desde a época do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), foi deturpado pelos pīres e murshids, que prenderam os muçulmanos nas correntes de uma espécie de “escravidão sagrada”. Essas correntes eram tão terríveis que parece que a humanidade jamais conseguiu inventar, para um ser humano, correntes mais duras e pesadas do que essas.

Como resultado, as pessoas começaram a curvar a cabeça diante de outros além de Allah; começaram a cruzar as mãos diante deles como na oração; olhar diretamente para as pessoas passou a ser considerado falta de respeito; começaram a beijar as mãos e os pés das pessoas; seres humanos se tornaram deuses e provedores de sustento para outros seres humanos; as pessoas passaram a arrogar-se, por conta própria, o direito de ordenar e proibir, tornando-se indiferentes às provas do Alcorão e da Sunnah; começaram a considerar os seres humanos livres de defeitos e erros; e as ordens e opiniões humanas passaram a ser consideradas, na prática, tão obrigatórias quanto as ordens de Allah, ainda que não fossem consideradas, em termos de crença e ‘aqīdah, como tais. Quando se chegou a esse estado, deve-se entender que se havia dado as costas ao chamado eterno feito pelo Profeta de Allah. Esse chamado é:

(Árabe************************************na página 241 do PDF)

“(Vinde,) não adoraremos nem obedeceremos a ninguém além de Allah, e não associaremos nada a Ele. E nenhum de nós tomará outro de nós como senhor além de Allah.” Depois disso, nenhum progresso intelectual, moral ou espiritual será possível. O declínio será sua consequência inevitável.

 

A missão profética e as disposições islâmicas relacionadas a ela

No que diz respeito à obediência ao Mensageiro, há consenso geral de que nenhum mensageiro tem direito à obediência enquanto indivíduo. A obediência e o seguimento de Moisés (que a paz esteja com ele) não se devem ao fato de ele ser Moisés, filho de ‘Imrān; Jesus (que a paz esteja com ele) também não pode receber obediência por ser Jesus, filho de Maryam. Da mesma forma, a obediência ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) não é obrigatória pelo fato de ele ser Muhammad, filho de ‘Abdullah. Tudo o que se deve fazer em termos de obediência e seguimento é feito unicamente porque essas grandes personalidades são Mensageiros de Allah. Allah concedeu-lhes um conhecimento verdadeiro e uma orientação que não concedeu às pessoas comuns. Para que vivessem neste mundo, Ele lhes ensinou, segundo a Sua vontade, os métodos corretos de vida que as pessoas comuns não podem alcançar por sua própria razão e entendimento, nem com a ajuda de qualquer pessoa além dos profetas. A divergência existente agora diz respeito a isto: em quais assuntos a obediência e o seguimento do Mensageiro (que a paz esteja com ele) são exigidos e quais são os seus limites.

A perspectiva de um grupo

Um grupo afirma que a obediência e o seguimento devem ser prestados somente ao Livro que o Mensageiro (S.A.) trouxe da parte de Allah. Depois de transmitir esse Livro às pessoas, termina a responsabilidade do Mensageiro (S.A.) como enviado. A partir de então, ele é simplesmente um ser humano como os demais. Se uma pessoa comum for comandante e líder nacional, deve-se obedecer-lhe apenas por necessidade de disciplina e ordem, mas isso não constitui um dever religioso. Se uma pessoa comum for instruída, sábia e legisladora, será seguida por causa de suas qualidades. Contudo, isso será inteiramente facultativo, não um dever obrigatório; portanto, o mesmo deve aplicar-se ao Mensageiro. Em todos os assuntos que não sejam a transmissão do Livro, sua posição é meramente pessoal. Se, como indivíduo, ele for comandante ou líder, sua obediência será devida somente enquanto ocupar essa posição — não permanentemente. Se ele for juiz, suas sentenças e decisões terão validade apenas dentro de sua jurisdição específica. Fora dessa jurisdição, suas sentenças e decisões, enquanto juiz sábio, poderão ser aceitas, no máximo, como precedente; porém, sua posição como legislador e instituidor de normas não será reconhecida. Se ele for um pensador sábio, os conhecimentos e ensinamentos morais que apresentar poderão ser aceitos quanto ao seu mérito, tal como se aceitam ensinamentos semelhantes de outros sábios, virtuosos e eruditos. Não se considerará que uma palavra faz parte da religião simplesmente por ter saído da boca de um Mensageiro. Do mesmo modo, se ele for um homem de caráter nobre e sua vida, em seus modos, conduta, comportamento e transações, for considerada um modelo de excelência, nós o aceitaremos voluntariamente como exemplo, assim como somos livres para tomar como modelo a vida íntegra de uma pessoa comum. Contudo, nenhuma de suas ações ou palavras terá, para nós, no campo moral, social ou econômico, o status de uma lei de cumprimento obrigatório.

A perspectiva de um segundo grupo

Outro grupo fez uma pequena alteração nessa opinião. Sua posição é a seguinte: a tarefa do Mensageiro (S.A.) não se limitava a transmitir o Livro; também fazia parte de sua responsabilidade demonstrar, na prática, a implementação das instruções nele contidas, para que a nação muçulmana pudesse segui-las exatamente. O método prático detalhado de cumprimento das normas do Livro — relativo, por exemplo, à adoração — que o Mensageiro (S.A.) ensinou também deve ser seguido como um dever religioso e será considerado parte do seguimento do próprio Livro. Contudo, além das normas contidas no Livro, nenhuma das atividades que o Mensageiro realizou nas diferentes esferas de sua vida pessoal — como juiz, reformador social, pensador, cidadão e membro de um grupo — pode constituir elemento de uma lei eterna e universal cuja observância e obediência possam ser consideradas um dever religioso.

A opinião do terceiro grupo

Segundo o terceiro grupo, a responsabilidade e a dignidade do Mensageiro (S.A.) como enviado abrangem uma grande parte de sua vida. Em questões de moralidade, conduta social, transações econômicas, decisões administrativas e judiciais, bem como em muitos outros assuntos semelhantes, as palavras e ações do Mensageiro fazem parte das próprias normas de Allah. Segundo eles, nesses assuntos, as palavras e ações do Mensageiro constituem, para toda a Ummah, o melhor modelo e um exemplo de cumprimento obrigatório. Contudo, eles defendem a distinção entre sua vida pessoal e sua vida profética. Consideram que existem certos aspectos da vida do Mensageiro (S.A.) que estão fora de sua vida profética, mas não conseguiram separar claramente a vida exemplar que deve ser imitada, nem explicar a partir de que limite o Mensageiro (S.A.) passa a ter simplesmente a condição de um ser humano.

A opinião do quarto grupo

A opinião do quarto grupo é que, embora a vida pessoal e a vida profética do Mensageiro (que a paz esteja com ele) sejam consideradas diferentes quanto à dignidade, na realidade são uma só, não sendo possível estabelecer entre elas qualquer distinção efetiva. A dignidade da missão profética não é como as demais posições do mundo, nas quais o responsável permanece responsável enquanto está sentado em seu posto e, assim que dele se retira, passa imediatamente a fazer parte do grupo das pessoas comuns. A partir do momento em que o Mensageiro recebe a responsabilidade da missão profética, permanece investido dela até a morte. Durante todo esse período, ele não pode, nem por um instante, envolver-se em qualquer ato contrário aos princípios do reino como representante do qual foi enviado. Seja líder ou chefe de Estado, seja um membro comum da sociedade; seja marido, pai, irmão, parente ou amigo, a responsabilidade da missão profética exerce autoridade absoluta sobre todas as atividades de sua vida. A responsabilidade e a dignidade da missão profética jamais se separam de sua pessoa, nem por um instante. Assim como é o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) quando dirige a oração, também o é quando se encontra na intimidade de sua esposa. Tudo o que faz nos diversos âmbitos da vida, ele o faz sob a orientação de Deus. Está sempre sob a rigorosa supervisão de Deus. Por isso, é obrigado a realizar cada ato dentro dos limites determinados por Deus. Desse modo, por meio de suas palavras, ações e todo o seu comportamento, ele mostra aos habitantes do mundo que todo o sistema da vida individual e coletiva do ser humano deve ser estabelecido com base nesses princípios e que, dentro desses limites, a liberdade de ação humana deve permanecer restrita. Ele cumpre essa grande responsabilidade tão adequadamente no âmbito governamental quanto na vida pessoal e familiar. Se comete o menor deslize em qualquer assunto, é imediatamente advertido. Qualquer erro seu necessariamente se torna causa do erro de toda a comunidade muçulmana. O objetivo de seu envio como Mensageiro é que, vivendo no seio da sociedade, apresente ao povo uma imagem real da vida de um verdadeiro muçulmano. Ele não apenas os orientará, por meio de suas atividades pessoais, transformando-os individualmente em muçulmanos excelentes; ao mesmo tempo, implementará as normas sociais, políticas, econômicas e morais do Islã e estabelecerá uma verdadeira sociedade islâmica. Por isso, é extremamente necessário que esteja livre de erros e falhas, para que possa ser imitado com plena certeza e para que suas palavras e ações possam ser aceitas como o verdadeiro critério dos ensinamentos e ideais islâmicos. É inegável, naturalmente, que existem diferentes níveis de obrigatoriedade na imitação e no seguimento das palavras e ações do Profeta. Algumas são indispensáveis, do nível de fard ou wajib; outras são relativamente melhores, do nível de mustahabb; e outras pertencem apenas ao nível da busca da perfeição. No conjunto, porém, toda a vida do Profeta é um modelo. Ele foi enviado com o objetivo de que os filhos de Adão o seguissem e se moldassem à sua semelhança. Quanto mais uma pessoa avançar na imitação desse modelo, mais poderá tornar-se um ser humano perfeito e um muçulmano perfeito; mas quem permanecer abaixo até mesmo do nível mínimo indispensável de imitação será, na proporção de seu atraso, pecador, desobediente, desviado e amaldiçoado.

Na minha opinião, é precisamente este último grupo que está estabelecido sobre a verdade. Quanto mais reflito e pesquiso à luz do Sagrado Alcorão e da razão, mais firme se torna minha convicção quanto à veracidade desta última opinião.

A formação especial dos profetas desde a infância

Ao ler os relatos sobre os profetas encontrados no Sagrado Alcorão, compreende-se o significado da profecia. À luz desses relatos, não me parece que Deus Todo-Poderoso simplesmente escolha de repente um transeunte e lhe confie a responsabilidade de transmitir Seu Livro às pessoas, ou que nomeie alguém para a profecia como um funcionário por determinado período, o qual, depois de realizar uma tarefa específica em um prazo determinado, seja dispensado e possa então fazer o que quiser. Pelo contrário, vejo que, sempre que Deus deseja enviar um profeta a um povo, Ele cria especialmente uma pessoa capaz de cumprir a responsabilidade da profecia. Ele já lhe concede as melhores qualidades humanas e as mais elevadas forças e capacidades mentais e espirituais necessárias para preservar essa posição de extrema importância. Desde o nascimento, Ele o cria e educa sob Sua supervisão especial.

Antes de conceder-lhe a profecia, Ele o manteve afastado de toda espécie de falha e desvio de caráter, extravio e má conduta, e o protegeu de todo tipo de perigo e destruição. Criou-o em um ambiente no qual a capacidade necessária à profecia, ultrapassando os limites de sua potência, se transformava progressivamente em eficácia. Depois, quando ele alcançou a plena maturidade, concedeu-lhe de Sua parte conhecimento, capacidade de tomar decisões e orientação para o caminho correto. Assim, colocou-o no sublime trono da profecia e fez com que cumprisse perfeitamente essa tarefa. Desde que ascendeu a esse trono até o momento de exalar o último suspiro, sua vida foi dedicada ao cumprimento dessa grave responsabilidade. Apresentar fielmente diante de seu povo os versículos revelados por Deus, depois ensinar o conhecimento detalhado e a sabedoria do Livro de Deus, e realizar a purificação integral das almas humanas: esse era o trabalho deles. Fora isso, não tinham outra ocupação. Dia e noite, em seus deslocamentos e em seus momentos de repouso, a única preocupação deles era saber como reconduzir ao caminho correto, por meio do Livro, os desviados e como tornar aqueles que haviam entrado no caminho correto aptos a ascender aos mais elevados níveis de progresso. Eram funcionários em tempo integral. Nunca tinham pausa nem férias. Seu trabalho tampouco tinha qualquer horário determinado. Para que não pudessem cometer nenhum pecado, mantinha-se sobre eles uma rigorosa vigilância da parte de Deus. Eram severamente protegidos dos desejos e paixões do ego e das instigações de Satanás. A maneira como deveriam conduzir suas atividades diárias não era deixada inteiramente à sua consciência, inteligência e discernimento humanos; pelo contrário, sempre que, ao seguirem seus próprios desejos ou seu julgamento pessoal, se desviavam sequer pela espessura de um fio do caminho correto, seu erro lhes era apontado e eles eram conduzidos ao caminho reto. Isso porque o propósito de seu nascimento e de sua nomeação para o posto de profeta era precisamente que guiassem os servos de Deus pelo caminho correto. Se se desviassem desse caminho sequer pela espessura de um fio, as pessoas comuns se afastariam dele centenas de quilômetros.

O Alcorão testemunha cada letra desta minha afirmação. O fato de os profetas serem escolhidos para a profecia antes mesmo do nascimento e de serem criados especialmente para esse propósito torna-se evidente na história de vários profetas. Por exemplo, antes mesmo do nascimento de Isaac, Abraão (que a paz esteja com ele) recebeu a boa-nova de seu nascimento e de sua futura profecia.

(Árabe************************************na página 245 do PDF)

“Anunciei a Abraão a boa-nova de Isaac, como um profeta virtuoso, e concedi bênçãos a ele e a Isaac.” – (Surata As-Saffat: 112-113)

Sobre José, seu pai Jacó soube, ainda durante a sua infância, que Deus o havia escolhido como profeta e que também lhe concederia Suas dádivas em plenitude, tal como havia concedido a Abraão e Isaac. Quando Zacarias suplicou por um filho, Deus lhe anunciou a boa-nova da seguinte forma:

(Árabe************************************na página 246 do PDF)

“Deus te anuncia a boa-nova de um filho chamado João. Ele virá da parte de Deus como confirmador de um decreto. Será um líder e um homem de grandeza. E estará entre os profetas e os virtuosos.”

Um anjo foi enviado especialmente a Maria para anunciar-lhe, a respeito de Jesus, que lhe seria concedido um filho puro e imaculado. Quando chegou o momento do parto, Deus providenciou especialmente as condições para o nascimento. – (Surata Maria: seção 2, vide). Depois, também é digno de nota o caso daquele pastor israelita. Deus o chamou ao vale sagrado de Tuwa e falou com ele. Ele não era como os demais pastores: no Egito, foi criado especialmente para destruir o mau governo do Faraó e libertar os Filhos de Israel da escravidão. Para protegê-lo da morte, providenciou-se que fosse colocado numa caixa e lançado ao rio. A caixa flutuante chegou justamente à casa do Faraó, pelas mãos de quem ele seria derrotado e destruído. Ele foi criado com uma aparência atraente, para que pudesse conquistar o coração da família do Faraó. (Árabe********) Garantiu-se que nenhum leite de mulher entrasse em sua boca e que sua criação fosse concluída sob a especial supervisão de Deus. (Árabe**********) A partir desses exemplos, sabe-se que os profetas eram criados especialmente para a profecia.

Capacidades extraordinárias e aptidão especial para a ação

É importante observar que aqueles que nascem dessa maneira não são como as pessoas comuns. Eles surgem dotados de capacidades extraordinárias. São pessoas extremamente puras e de caráter virtuoso. A natureza e a estrutura de sua mente são tais que tudo o que dizem, dizem de maneira extremamente direta e simples. Não há em seu caráter e temperamento qualquer tendência a adotar passos equivocados ou uma visão distorcida. Desde o nascimento, são formados de tal maneira que, sem intenção e apenas por meio de sentimentos intensos e da intuição, conseguem chegar a decisões corretas, algo que outras pessoas não conseguem fazer nem depois de longas reflexões e pesquisas. Eles não precisam adquirir conhecimento. Seu conhecimento é inato e concedido por Deus. O conhecimento do que é verdadeiro, do que é falso, do que é errado e do que é correto está arraigado neles. Por natureza, pensam corretamente e falam corretamente. Como exemplo, pode-se mencionar Jacó. Assim que ouviu o relato do sonho de José, surgiu uma suspeita em sua mente. Os irmãos do menino não o deixariam vivo. Eles queriam levar José consigo para brincar. Jacó não apenas percebeu sua má intenção, como também compreendeu perfeitamente a falsa desculpa que mais tarde tentariam apresentar. Ele diz, (Árabe*************) (Temo que, por não prestardes atenção nele, um tigre o devore num momento em que não estejais vigiando-o.) Depois, quando os irmãos de José trouxeram e mostraram a túnica ensanguentada, Jacó, assim que a viu, disse, (Árabe**************) “Vosso ego tornou fácil para vós uma tarefa difícil.” Mais tarde, quando os irmãos de José voltaram do Egito e disseram que seu filho havia roubado, e, para fazê-lo acreditar, disseram que perguntasse aos habitantes da aldeia de onde haviam vindo, ele deu novamente a mesma resposta: “Vosso ego tornou fácil para vós uma tarefa difícil.” Então enviou novamente os filhos ao Egito, dizendo-lhes (Árabe********************) (Ide e procurai José e seu irmão). Era como se, apesar de ter passado muito tempo, ele acreditasse que José estava vivo e ainda se encontrava no Egito. Depois, quando os filhos de Jacó partiram do Egito levando a túnica de José, Jacó começou a sentir, de longe, o cheiro de José. Esses acontecimentos permitem compreender quão poderosas e extraordinárias eram as forças psicológicas e espirituais dos profetas. Isso não era uma característica exclusiva de Jacó; todos os profetas se encontravam na mesma condição. Sobre João, Deus diz:

(Árabe************************************na página 247 do PDF)

“Eu lhe concedi, ainda na infância, a capacidade de tomar decisões corretas, ternura e pureza de coração”.–(Maryam: 12–13).

Quando Hazrat Isa (a.s.) estava no colo de sua mãe, fez-se com que ele proclamasse:

(Árabe************************************na página 247 do PDF)

“Ele me criou como alguém abençoado, onde quer que eu esteja, e ordenou-me observar a oração e pagar o zakat durante toda a vida. E fez-me nascer como cumpridor dos direitos de minha mãe. Não me fez tirânico nem desobediente”.

Sobre o Santo Profeta (s.a.w.), Allah disse (Árabe**************) “Com efeito, estás no mais elevado nível de caráter moral”.–(Surata Al-Qalam: 4)

Estas são as qualidades e características inatas e naturais dos profetas, com as quais eles nascem. Depois, Allah aperfeiçoa ainda mais essas qualidades inatas e os conduz a desempenhar um papel ativo. Por fim, concede-lhes aquilo que o Alcorão chama, entre outros nomes, de ilm e hukm (conhecimento e capacidade de tomar decisões), hidayat (orientação) e bayyina (sinais claros). Hazrat Noé (a.s.) disse ao seu povo:

(Árabe************************************na página 248 do PDF)

“Eu adquiri de Allah um conhecimento que vocês não adquiriram”.

Foi mostrado a Hazrat Ibrahim (A.S.) o ordenado sistema de Allah sobre os céus e a terra (Surata Al-An’am). Depois de concluir essa observação, quando retornou tendo alcançado o conhecimento certo, disse a seu pai:

(Árabe************************************na página 248 do PDF)

“Ó meu pai! Eu adquiri um conhecimento que você não adquiriu. Portanto, siga-me. Eu lhe mostrarei o caminho reto”. – (Surata Maryam: 43)

Sobre Hazrat Yaqub, Allah disse:

(Árabe************************************na página 248 do PDF)

“Certamente, ele possuía o conhecimento que Eu lhe havia concedido. Contudo, a maioria das pessoas não conhece esse mistério”. – (Surata Yusuf: 68)

Sobre Hazrat Yusuf, foi dito:

(Árabe************************************na página 248 do PDF)

“Quando ele alcançou a maturidade, concedi-lhe conhecimento e capacidade de julgar e decidir”.–(Sura Yusuf: 22).

Na ayat 14 da Sura Al-Qasas, o mesmo é dito também a respeito de Hazrat Moisés (A). A Hazrat Lot também foram concedidos o mesmo conhecimento e a capacidade de julgar e decidir.–(Sura Al-Anbiya: 74)

Ao próprio Hazrat Muhammad (S.A.A.S.) também foi concedido esse conhecimento extraordinário:

(Árabe************************************na página 248 do PDF)

“Allah revelou para ti o Livro e a sabedoria, e concedeu-te o conhecimento que antes não tinhas”.–(Sura An-Nisa: 113)

(Árabe************************************na página 248 do PDF)

“Dize: Estou sobre um caminho claro e luminoso, vindo do meu Senhor”.–(Sura Al-An’am: 57)

(Árabe************************************na página 249 do PDF)

“Dize: este é o meu caminho. Eu convoco para Allah, com conhecimento e discernimento, tanto eu como aqueles que me seguem.” – (Surata Yusuf: 108)

Devido a esse conhecimento e à capacidade de julgar e decidir, surge entre os profetas e as pessoas comuns uma diferença tão grande quanto a que existe entre uma pessoa que enxerga e uma pessoa cega.

(Árabe************************************na página 248 do PDF)

“Eu sigo apenas aquilo que me é revelado. (Ó Muhammad!) Dize: podem o cego e aquele que possui visão ser iguais?” – (Surata Al-An’am: 50)

Aquilo de que se fala nesses versículos não é apenas o Livro; trata-se, antes, de uma luz sempre radiante no coração dos profetas. Por isso, é mencionada separadamente do Livro. Essa coisa é descrita como uma qualidade e característica dos profetas. Com a ajuda desse raio de luz, eles investigam os fatos e procuram também soluções para os problemas que lhes são continuamente apresentados. Os sábios eruditos chamaram isso de “revelação oculta”. Isto é, trata-se de uma orientação interior e de uma percepção assimilada, que está sempre presente para eles a cada momento, e com cuja ajuda lidam com qualquer assunto. Em questões cujo significado profundo outras pessoas não conseguem compreender, mesmo após longa reflexão, nem conseguem distinguir o certo do errado, a visão do profeta, graças à luz concedida por Allah e ao conhecimento intuitivo, é capaz de desvendar, num instante, os mistérios mais profundos.

A proteção e supervisão especiais de Allah sobre os profetas

Também podemos saber pelo Alcorão que Allah Todo-Poderoso não concedeu aos profetas apenas conhecimento profundo, capacidade de julgar e decidir, e extraordinário conhecimento e sabedoria; além disso, Ele mantém sobre eles uma atenção especial, protege-os dos erros e das falhas e impede que se desviem, seja pela influência das pessoas, pela instigação de Satanás ou pelos sussurros de seus próprios desejos. Mesmo quando, ao aplicar seu próprio discernimento, eles cometem um erro ao tomar alguma decisão, Allah imediatamente os corrige. Tomemos o caso do Profeta Yusuf. Quando a esposa de um importante funcionário do governo egípcio daquela época quase fez Yusuf cair em sua armadilha, Allah o protegeu da prática do mal, mostrando-lhe a Sua clara “prova”.

(Árabe************************************na página 249 do PDF)

“Ela desejou praticar um ato indecente com José, e ele também teria desejado praticá-lo com ela, se não tivesse visto a prova de seu Senhor. Assim aconteceu para que Eu pudesse afastá-lo do mal e da indecência. Com efeito, ele era um dos servos que escolhi para Mim.” – (Surata Iúçufe: 24).

Quando foi ordenado a Hazrat Moisés e Aarão que se apresentassem diante do Faraó, eles ficaram com medo, receando que o Faraó pudesse persegui-los. Então Deus disse: “Não temais. Estou convosco, vendo e ouvindo tudo” (Surata Tá-Há: 45–46). Eles haviam sentido medo por causa da fraqueza humana. Deus, o Altíssimo, removeu essa grave fraqueza por meio da revelação.

Hazrat Noé, ao ver seu filho prestes a morrer afogado, soltou um grito angustiado!(Árabe*****************) “Ó Senhor! Este é meu filho.” Isso foi uma fraqueza humana. Deus, o Altíssimo, imediatamente esclareceu-lhe este significado: ele podia ser seu filho biológico, mas não fazia parte de sua “família”, pois era um malfeitor. Sob o efeito da emoção do amor paterno, uma fraqueza humana ocultou por alguns instantes da percepção interior do Profeta esta verdade: diante da verdade, pai, filho, irmão ou irmã nada significam. Por meio da revelação, Deus retirou o véu que cobria seus olhos. Hazrat Noé sentiu-se tranquilizado.

Também no caso do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) ocorreram várias vezes acontecimentos semelhantes. Às vezes, por sua misericórdia e compaixão naturais; às vezes, por seu entusiasmo irresistível em conduzir os incrédulos ao Islã; às vezes, pelo desejo de conquistar o coração dos incrédulos; às vezes, na tentativa de retribuir pequenos favores prestados pelas pessoas; às vezes, pelo desejo de despertar nos corações dos hipócritas a inspiração da fé; e, às vezes, por causa da fraqueza humana, ocorreram de sua parte erros ou equívocos de ijtihad. Mas, sempre que isso acontecia, Deus o corrigia por meio de uma revelação explícita e clara. Por exemplo:

(Árabe************************************na página 250 do PDF)

“Ele virou o rosto, contrariado, porque o cego veio até ele.”

 

(Árabe************************************na página 250 do PDF)

“Não é apropriado para nenhum profeta ter prisioneiros de guerra consigo”.

 

(Árabe************************************na página 250 do PDF)

“Que Allah te perdoe, ó Profeta; por que lhes deste permissão para se absterem de ir à guerra?” — (Surata At-Tawbah: 43).

(Árabe************************************na página 250 do PDF)

“É igual para eles que peças ou não peças perdão por eles. Mesmo que peças perdão por eles setenta vezes, Allah jamais os perdoará” — (Surata At-Tawbah: 80).

(Árabe************************************na página 251 do PDF)

“Daqui em diante, quando qualquer um deles morrer, jamais faças a oração fúnebre por ele”.

(Árabe************************************na página 251 do PDF)

“Ó Profeta! Por que tornas proibido aquilo que Allah tornou lícito para ti?

Estes versículos dão testemunho da especial supervisão e proteção de Allah sobre os profetas.

Algumas pessoas tentam provar, a partir destes versículos, que os profetas cometiam erros. Eles não estavam livres de falhas e equívocos. Especialmente o grupo Ahl al-Qur’an, contrário aos hadiths, sente grande prazer em apontar os erros do Profeta com base nestes versículos. No entanto, são precisamente estes versículos que demonstram claramente que Allah assumiu pessoalmente a responsabilidade de proteger o Seu Profeta dos erros e falhas e de manter a vida dos profetas estabelecida sobre o critério da verdade. Esta questão não foi mencionada apenas nos versículos citados; ela também foi exposta, em termos gerais, em vários outros lugares do Alcorão. Por exemplo:

(Árabe************************************na página 251 do PDF)

“Se não fosse pela graça e misericórdia de Allah para contigo, um grupo dentre eles já teria decidido desviar-te do caminho da verdade. Mas, na realidade, eles não podem fazer nada além de desviar a si mesmos. Eles não podem causar-te nenhum dano. Isso porque Allah revelou-te o Livro e a sua sabedoria profunda, e ensinou-te aquilo que antes não sabias”.–(Surata An-Nissá: 113)

(Árabe************************************na página 251 do PDF)

“Eles quase conseguiram desviar-te daquilo que te revelámos, para que inventasses algo novo em Meu nome; então, ter-te-iam tomado como amigo. E, se não te tivéssemos mantido firme, ter-te-ias inclinado um pouco para eles”.–(Surata Bani Isra’il: 73-74)

(Árabe************************************na página 252 do PDF)

“Sempre que enviei antes de ti um profeta ou mensageiro, e quando ele desejou algo, Satanás lançou sugestões em seus desejos e aspirações. Porém, é desígnio de Allah que Ele elimine toda sugestão que Satanás lançar no coração do profeta. Em seguida, Ele fortalece os Seus sinais.” – (Surata Al-Hajj: 52)

A partir desses ensinamentos fundamentais e dos exemplos dos acontecimentos anteriores, torna-se claro que Allah assumiu pessoalmente a responsabilidade de manter a vida de Seu profeta conforme o padrão desejado e estabeleceu medidas rigorosas para corrigir imediatamente qualquer mínimo deslize do profeta — seja esse deslize uma questão pessoal ou algo relacionado à vida pública. E, uma vez aceita essa verdade como princípio, disso se prova naturalmente também que todas as palavras do profeta às quais Allah, o Altíssimo, não fez nenhuma objeção passaram no padrão desejado por Allah. Deve-se considerar que todas elas foram aprovadas por Allah.

Análise comparativa

A partir da discussão apresentada até aqui, o significado da profecia tornou-se claro. Segundo a primeira das quatro opiniões mencionadas, o significado da profecia seria que, quando um ser humano, tendo permanecido durante toda a vida semelhante aos demais seres humanos em todos os aspectos, atinge certa idade, é subitamente escolhido para receber a revelação de Allah. Com exceção do Livro revelado a ele, nenhuma de suas opiniões, reflexões, decisões, instruções e assim por diante seria, de modo algum, diferente ou especial em relação às pessoas comuns. Segundo a segunda opinião, o significado da profecia seria que a única diferença entre o profeta e as pessoas comuns consiste em que, juntamente com a revelação do Livro, também lhe são comunicados os detalhes práticos das disposições do Livro. Depois de adquirir essa característica, ele seria apenas um líder como os líderes comuns e um juiz como os juízes comuns. A terceira opinião expressa a seguinte concepção sobre a profecia: a profecia seria apenas um estado ou transformação temporária e aparente sobre a natureza humana do profeta; mesmo depois de surgir esse estado ou transformação, a natureza humana do profeta e sua natureza profética permaneceriam completamente separadas. De acordo com essa concepção, torna-se indispensável dividir a vida do profeta em duas partes, considerando imitável e digna de ser seguida somente a parte da vida relacionada à profecia. É desnecessário dizer que todas essas três opiniões são infundadas e equivocadas.

O profeta é dotado das qualidades humanas mais completas e excelentes

O que podemos saber da descrição da profecia apresentada pelo Sagrado Alcorão é que o profeta não nasce e cresce como uma pessoa comum para, de repente, ser escolhido como profeta em determinado momento; ao contrário, ele nasce precisamente para a profecia. Embora seja humano e não esteja acima das limitações naturais que Allah estabeleceu para o ser humano, dentro desses limites ele é o ser humano mais completo e excelente. Nele, essas qualidades existem na mais elevada medida e de forma plena. Suas forças físicas, mentais, intelectuais e espirituais encontram-se presentes com o máximo equilíbrio. Sua capacidade de percepção é tão sutil que ele alcança o conhecimento divino acerca do certo e do errado sem qualquer reflexão, apenas por meio de sua aguda sabedoria e profunda intuição. É a esse conhecimento divino obtido por meio da sabedoria que se faz referência neste versículo:(Árabe*******) (Então, infundiu nele as tendências para o bem e para o mal). A natureza do profeta é tão saudável e correta que, sem receber qualquer instrução externa, ele abandona o caminho do pecado e segue o caminho da taqwa e da justiça apenas por força de seus sentimentos e inspirações naturais. Sua consciência e seu coração são tão puros e imaculados que ele consegue compreender com precisão, em todos os assuntos necessários, o modo de agir escolhido por Allah. No versículo do Alcorão:(Árabe**********) [Ele segue espontaneamente, por sua natureza saudável, o caminho desejado por Allah. Isso é a humanidade perfeita e, graças a essa qualidade, ele é, em sentido verdadeiro e na realidade, o califa ou representante de Allah. Depois que o profeta alcança essa maturidade e perfeição características, Allah o estabelece na posição de guia de toda a humanidade. E, ao receber de Allah ainda mais luz do conhecimento, ele se torna um “Sirajam Munir”, ou seja, uma lâmpada luminosa, designada como meio de educação, orientação e instruções para a reforma e o bem-estar da humanidade. É isso que, na linguagem corrente, se chama profecia e missão. Portanto, não é correto dizer que a profecia é algo temporário, imposto à capacidade humana do profeta em determinado momento. Pelo contrário, a realidade é que ela é a capacidade da humanidade plena que se eleva à profecia. A posição da profecia não é semelhante à de uma pessoa nomeada representante do rei (Viceroy). Se outra pessoa estivesse disponível em seu lugar, ela também seria nomeada representante do rei da mesma maneira. Na verdade, a profecia é algo inato. A própria personalidade do profeta constitui sua identidade profética. A única diferença é que, antes da descida da revelação, sua identidade profética permanece inativa e adormecida; depois da descida da revelação, torna-se ativa. É como um fruto doce: ele nasce como fruto doce, mas sua doçura se manifesta depois que chega a um determinado estágio.]

Versículos relevantes

Agora será possível compreender bem o significado das declarações feitas por Allah Todo-Poderoso, em diversos lugares, acerca da profecia e da identidade profética. Com o objetivo de torná-las fáceis de compreender, mencionarei esses versículos em uma sequência especial:

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“Esta é a regra de Allah: Ele não vos concederá diretamente o conhecimento do invisível. Em vez disso, para essa tarefa, escolherá quem quiser dentre os Seus mensageiros. Portanto, crede em Allah e em Seus mensageiros” — (Surata آل عمران: 179)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“Não enviei mensageiro algum senão para que fosse obedecido, com a permissão de Allah” — [isto é, o mensageiro não tem, pessoalmente, o direito de receber obediência; ele deve ser obedecido somente com a permissão ou por ordem de Allah — (autor)] — (Surata An-Nissá: 64)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“Quem obedece ao Mensageiro, na verdade, obedece a Allah”.

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“Pela estrela quando desaparece. Vosso companheiro não está extraviado nem desviado. Ele não fala por desejo próprio. O que quer que diga não é senão revelação que lhe foi transmitida” — (Surata An-Najm: 1–4)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“Eu sigo apenas aquilo que me é revelado.”–(Surata Al-An’am: 50)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“No Mensageiro de Allah há para vós um excelente exemplo.”–(Surata Al-Ahzab: 21)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“(Ó Muhammad!) Dize: se amais Allah, então segui-me; Allah vos amará.”–(Surata Al ‘Imran: 31)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“É dever dos crentes que, quando são chamados a Allah e ao Seu Mensageiro, para que ele (o Mensageiro) julgue entre eles, digam somente: ‘Ouvimos e obedecemos’. Esses são os bem-sucedidos. E somente se obedecerdes ao Mensageiro encontrareis o caminho reto.”–(Surata An-Nur: 51–54)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“(Ó Profeta!) Não, pelo teu Senhor, eles não serão crentes de modo algum até que te aceitem como árbitro em suas divergências e conflitos. Depois, sem sentirem qualquer constrangimento diante da tua decisão, submeter-se-ão e a aceitarão plenamente, de cabeça baixa.” — (Surata An-Nissá: 65)

(Árabe********************************************na página 254 do PDF)

“Quando Allah e Seu Mensageiro tiverem decidido uma questão, nenhum homem ou mulher crente terá o direito de decidir por si mesmo sobre seus próprios assuntos. E quem desobedecer a Allah e a Seu Mensageiro terá caído em evidente desvio.” — (Surata Al-Ahzab: 36)

Basta analisar esses versículos para que todo o significado da questão seja desvendado.

A diferença entre o Profeta e as pessoas comuns

No primeiro versículo, é descrita a diferença entre o Profeta e as pessoas comuns, e também é explicado por que se deve crer nele. É desígnio de Allah não conceder individualmente a cada pessoa o conhecimento relativo ao invisível ou ao oculto — isto é, aquelas realidades verdadeiras que estão fora do alcance da percepção sensorial humana, embora seja indispensável conhecê-las para elaborar, para as pessoas, um sistema de vida correto e preciso no mundo terreno. Na linguagem do Alcorão, é isso que se chama invisível ou oculto. Por exemplo: qual é a verdadeira identidade do ser humano? Ele é livre ou está submetido? Se está submetido, a quem? Que tipo de relação tem com esse Senhor? Terá de prestar contas a Ele? Se tiver, onde? Como? Segundo qual critério? Em que assuntos? E, caso seja bem-sucedido na prestação de contas, qual será a recompensa; e, caso fracasse, qual será o resultado? Antes que se obtenham as respostas a essas perguntas — não com base em conjecturas e suposições, mas com base no conhecimento certo — não se pode elaborar nenhuma lei para a vida humana. Esse é o “conhecimento do invisível” mencionado por Allah no versículo. — (Autor da obra)] mas concedê-lo a uma pessoa escolhida. Por isso, é dever obrigatório das pessoas comuns crer nessa pessoa escolhida.

A obediência ao Profeta é incondicional e ilimitada

O sentido do segundo versículo é que ter fé no Mensageiro não significa apenas reconhecê-lo como Mensageiro; juntamente com isso, é indispensável obedecer ao Mensageiro, isto é, seguir suas ordens. Não apenas neste versículo, mas em todos os lugares do Alcorão onde é ordenada essa obediência, a ordem é incondicional. Em nenhum lugar foi dito que se deve obedecer ao Mensageiro em determinada situação e que, fora dela, não é necessário obedecer-lhe. Portanto, é certo que, segundo o Alcorão, o Mensageiro é um governante designado por Allah, cuja autoridade é absoluta e cujas ordens devem ser cumpridas integralmente em todas as circunstâncias; obedecê-las é dever de todo crente. Naturalmente, se o próprio Mensageiro limitar seu poder de governo a algum limite específico, subordinado à lei divina, isso fica a seu critério. Se quiser, ele pode fazê-lo e conceder às pessoas liberdade de pensamento e ação além dos limites determinados. Aos próprios crentes não foi concedido nenhum poder ou direito de definir os limites da autoridade do Mensageiro. Eles estão inteiramente e de modo absoluto sob sua autoridade e subordinados às suas ordens. Se o Mensageiro lhes ordenasse adotar algum método específico até mesmo na agricultura, no comércio, na ferraria e em atividades semelhantes, eles teriam de obedecer à sua ordem sem hesitação nem constrangimento.

A obediência ao Profeta não é como a obediência a uma pessoa comum

Quando foi dada uma ordem de obediência tão incondicional e ilimitada, era necessário deixar claro que ela não era como a obediência a uma pessoa comum. Isso porque os incrédulos ignorantes o consideravam simplesmente uma pessoa comum. Eles diziam às pessoas: (Árabe************) “Acaso ele não é apenas uma pessoa comum como vós?”

(Árabe********************************************página 256 do PDF)

“Ele não passa de um ser humano como vós; além disso, quer obter superioridade sobre vós”.

(Árabe********************************************página 256 do PDF)

“Se obedecerdes a uma pessoa como vós, certamente estareis perdidos”.

Na realidade, obedecer ao Profeta é obedecer ao próprio Allah. Isso porque tudo o que o Profeta diz, diz da parte de Allah, e tudo o que faz, faz sob a ordem de Allah. Ele não diz nada segundo seus próprios desejos; segue unicamente a revelação de Allah. Portanto, deve-se ter a certeza de que, ao obedecer-lhe, não há qualquer risco de se desviar ou tomar um caminho diferente.

Revelação não recitada para a orientação do Profeta—[uma revelação que não está registrada no Livro e não é recitável. —(Editor)]

É isso que foi exposto no terceiro, quarto e quinto versículos. Alguns dizem que aquilo que foi chamado de revelação no quarto e no quinto versículos era o Livro de Allah, e que nenhuma outra revelação além do Livro era enviada aos profetas; mas essa concepção está completamente errada. Está comprovado pelo Sagrado Alcorão que aos profetas não era enviado apenas o Livro; ao contrário, para orientá-los, Allah, o Altíssimo, enviava-lhes revelações continuamente. À luz dessas revelações, eles seguiam o caminho correto, emitiam decisões acertadas sobre os problemas cotidianos e implementavam as medidas necessárias. Pode-se mencionar como exemplo que o Profeta Noé (que a paz esteja sobre ele) construiu a arca sob a supervisão de Allah e de acordo com Sua revelação, para se proteger do dilúvio.

(Árabe********************************************página 257 do PDF)

“(Ó Noé!) Constrói a arca sob a Minha supervisão e conforme a Minha revelação”.

Ao Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele) foram mostrados o funcionamento dos céus e da Terra e o processo de dar vida aos mortos. Ao Profeta José foi ensinada a interpretação dos sonhos. (Árabe************) “Este é um dos conhecimentos que Allah me concedeu.” Com o Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) falou-se no monte Tur. Foi-lhe perguntado: “O que é isso em tua mão?” Ele respondeu: “É o meu bastão. Com ele, apascento as cabras.” Foi-lhe ordenado: “Lança o bastão.” Quando o bastão tomou a forma de uma serpente, o Profeta Moisés ficou com medo e estava prestes a fugir correndo. Então veio a revelação: (Árabe*********) “Ó Moisés! Não tenhas medo; avança. Estás seguro.” Novamente foi emitida uma ordem: (Árabe*********) “Vai ter com o Faraó. Ele se rebelou.” Ele pediu o Profeta Aarão para ajudá-lo. Seu pedido foi aceito. Enquanto os dois irmãos iam ter com o Faraó, estavam com medo. Allah os tranquilizou, dizendo: (Árabe*********) “Não tenhais medo. Estou convosco; vejo e ouço tudo.” Depois, ao ver as serpentes feitas pelos magos na corte do Faraó, o Profeta Moisés ficou com medo. Então veio a revelação: (Árabe*********) “Não tenhas medo; tu serás o vencedor.” Depois que fracassaram todas as tentativas de conduzir o Faraó ao caminho reto, foi ordenado a Moisés: (Árabe*********) “Parte durante a noite com os Meus servos. Sereis perseguidos.” Quando chegaram à margem do rio, veio a ordem divina: (Árabe*********) “Golpeia o rio com o teu bastão.”

Agora surge a pergunta: entre todas essas revelações, alguma delas foi enviada sob a forma de um Livro para a orientação de toda a humanidade? A partir desses exemplos, não resta a ninguém qualquer dúvida de que Allah está sempre atento aos Profetas e, sempre que surge a possibilidade de eles errarem em seus pensamentos e opiniões humanos, Ele os conduz ao caminho correto por meio da revelação. A revelação enviada por meio dos Profetas para a orientação de todas as pessoas e registrada em forma de Livro, por parte de Allah, como um guia e um código de vida aplicável, é de natureza diferente da revelação aqui em discussão.

Alguns exemplos da revelação não recitada revelada ao Profeta

Esse tipo de “revelação não recitada” e a revelação secreta eram enviadas ao Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Vários versículos do Alcorão fazem alusão a esse assunto. Inicialmente, o Profeta fez de Bayt al-Maqdis a qibla. Não há nenhuma instrução a esse respeito no Livro de Allah. Porém, quando foi ordenado que essa qibla fosse ab-rogada e que Bayt al-Haram (a Caaba) fosse adotada como qibla, foi dito:

(Árabe***********************************na página 258 do PDF)

“Eu determinei a qibla que antes tinhas apenas para que se distinguisse entre quem obedece ao Mensageiro e quem lhe desobedece”.–(Surata Al-Baqarah: 143)

Ficou claro a partir deste versículo que Bayt al-Maqdis foi inicialmente estabelecida como qibla com base na revelação.

Durante a batalha de Uhud, o venerável Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse aos muçulmanos que Allah enviaria anjos para ajudá-los. Mais tarde, Allah mencionou no Alcorão essa declaração do venerável Mensageiro da seguinte forma: (Árabe******************) “Allah transformou essa promessa em boas-novas para vós”.–(Surata Al Imran: 126)

Portanto, é indubitável que essa promessa foi feita pelo próprio Allah.

Após a batalha de Uhud, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) ordenou aos muçulmanos que partissem para a batalha do Segundo Badr. Contudo, essa ordem não é mencionada em lugar algum do Alcorão. Mais tarde, porém, Allah confirmou a ordem do Profeta, dizendo que ela provinha d’Ele.

(Árabe***********************************na página 258 do PDF)

“aqueles que, mesmo depois de terem sido feridos na batalha, responderam novamente ao chamado de Allah e do Mensageiro”.

A menção à saída de Sua Eminência de Medina para a batalha de Badr é feita assim: (Árabe************) “Assim como Allah te fez sair de tua casa” — (Surata Al-Anfal: 5)

Nenhuma ordem para sair de casa foi mencionada no Alcorão, mas depois Allah reconheceu a veracidade disso, dizendo que ele havia saído por ordem d’Ele, e não voluntariamente.

Mais tarde, durante a batalha, Allah mostrou um sonho ao Seu Profeta:

(Árabe***********************************na página 258 do PDF)

“Quando Allah te mostrou em sonho que eles eram poucos” — (Surata Al-Anfal: 43)

Quando os espólios de guerra foram distribuídos, os hipócritas começaram a torcer o nariz. Então Allah informou que essa distribuição havia sido feita por ordem do próprio Allah.

(Árabe***********************************na página 259 do PDF)

“Se ao menos eles tivessem ficado satisfeitos com o que Allah e Seu Mensageiro lhes haviam dado” — (Surata At-Taubah: 59)

Na ocasião do Tratado de Hudaybiyyah, todos os Companheiros eram contrários ao tratado. As condições do tratado pareciam inaceitáveis para todos. Mas o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aceitou-o. Mais tarde, Allah confirmou isso, dizendo que aquele tratado provinha do próprio Allah.

(Árabe***********************************na página 259 do PDF)

“Concedi-te uma vitória manifesta.” — (Surata Al-Fath: 1)

Síntese dos versículos mencionados

À luz dos versículos do Alcorão, poderiam ser encontrados muitos outros exemplos desse tipo. Mas não é meu objetivo mencionar aqui todos os versículos. O objetivo é apenas provar que a relação de Allah com o Profeta não era meramente temporária e de curta duração, como se a relação entre Ele e o Profeta se estabelecesse somente quando este quisesse transmitir alguma mensagem às pessoas e se rompesse logo depois. Pelo contrário, a verdadeira realidade é que Ele mantém sempre uma atenção especial sobre aquele que escolhe como Profeta e continua sempre a guiá-lo e orientá-lo por meio da revelação. Dessa maneira, assegura que o Profeta cumpra corretamente a sua responsabilidade em cada momento da vida e que nenhum ato ou palavra desagradável a Allah seja cometido por seu intermédio. Os primeiros versículos da Surata An-Najm apresentam essa verdade. Já disse na primeira parte desta discussão, e o Sagrado Alcorão também deixou isso claro, que os Profetas são mantidos sob a supervisão constante de Allah; são protegidos dos erros e falhas; e, caso tropecem por causa de fraquezas humanas, Ele os corrige, aponta-lhes o erro e os conduz ao caminho reto. A menção, no Sagrado Alcorão, das falhas e deslizes do Nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e dos demais Profetas, bem como das advertências de Allah a esse respeito, jamais tem por objetivo fazer com que as pessoas percam a confiança nos Profetas. Tampouco tem por objetivo fazer com que pensem — que Allah nos livre —: se os Profetas cometem erros como nós, como seria possível segui-los e obedecer-lhes com certeza? Na realidade, o objetivo é informar que Allah não concedeu aos Profetas liberdade irrestrita para seguir seus próprios desejos ou agir segundo suas opiniões, julgamentos e raciocínios. Como foram encarregados de conduzir as pessoas comuns ao caminho reto, receberam a ordem rigorosa de obedecer continuamente e estritamente aos mandamentos de Allah e de não seguir, nem no menor assunto, um caminho que desagrade a Allah. Por isso, no Alcorão, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi repreendido até por questões insignificantes, sem qualquer importância na vida das pessoas comuns. Por exemplo, comer ou não comer mel; não dar atenção a um cego e sentir-se incomodado porque ele interrompeu sua discussão instrutiva; ou pedir perdão por alguém. Essas coisas não são de modo algum importantes, mas Allah não permitiu que o Profeta agisse, nem mesmo em questões tão pequenas, conforme sua própria vontade ou a vontade de outrem. Da mesma forma, dispensar alguém de participar de uma guerra e libertar alguns prisioneiros de guerra mediante resgate são assuntos corriqueiros para um líder, mas, no caso do Profeta, constituem acontecimentos de extrema importância. Por isso, ele foi advertido por meio de uma revelação explícita. Por quê? Porque o Profeta de Allah não é como os líderes comuns, que podem fazer o que quiserem segundo seu próprio julgamento e raciocínio. Em razão de estar incumbido da grandiosa responsabilidade da profecia, se, ao tomar uma decisão com base em seu próprio julgamento, o Profeta não conseguir compreender corretamente a indicação da revelação oculta de Allah e avançar sequer um palmo contra a vontade de Allah, Ele considera necessário corrigi-lo por meio de uma revelação explícita.

A veracidade do Profeta é plenamente confiável

Allah, o Altíssimo, descreveu essa qualidade e característica de Seu Profeta para que tivéssemos plena confiança na veracidade do Profeta e pudéssemos manter uma fé inabalável de que as palavras e os atos do Profeta estão acima da perdição, do desvio, do seguimento dos desejos e das falhas e deficiências do pensamento e das concepções humanas. Em cada passo da vida, ele permanece firme sobre a Sırat al-Mustaqim indicada por Allah. Seu caráter puro é um modelo tão perfeito da moralidade islâmica que não contém o menor vestígio de defeito ou falha. Allah, o Altíssimo, estabeleceu especialmente esse modelo completo e perfeito para que, entre Seus servos, quem desejasse tornar-se Seu servo amado pudesse seguir e imitar o Profeta sem medo nem hesitação. Esse objetivo é descrito no sexto e no sétimo versículos mencionados acima. O sexto versículo diz que, para vós, há um modelo no Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O sétimo versículo apresenta o seguimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como o único meio de tornar-se objeto do amor de Allah.

Toda a vida do Profeta é ‘um excelente modelo’

Aqui também vemos que, ao se declarar a vida do Profeta como o melhor modelo, não se menciona qualquer condição ou limite. Em outras palavras, toda a vida do Profeta é, em todos os aspectos, para todas as pessoas, em todos os campos e circunstâncias da vida, o melhor modelo que deve ser seguido necessariamente. Neste caso, não há qualquer possibilidade de impor condições ou limites sob nenhum aspecto. A personalidade profética foi apresentada, em sua totalidade, como o melhor modelo, e a obediência integral a ele é indispensável. Isso significa que, quanto mais se seguir e imitar o Profeta, e quanto mais se puder desenvolver na própria vida uma semelhança qualitativa com suas virtudes, mais será possível aproximar-se de Allah e mais se poderá tornar amado por Allah.

O alcance das exceções

Contudo, declarar a vida do Venerável, em sua totalidade, como um modelo ou exemplo a ser imitado e ordenar sua obediência integral não significa que, em todos os aspectos da vida, todas as pessoas tenham de fazer exatamente tudo o que ele fez e da maneira como ele fez, nem que devam seguir sua vida pura de tal modo que não seja possível distinguir o original da imitação. Essa não é a intenção do Alcorão, nem poderia ser. Trata-se, na realidade, de uma orientação breve e fundamental. Podemos saber como aplicar essa orientação por meio dos ensinamentos do próprio Venerável Mensageiro de Allah e do modo de vida dos Companheiros. Não é possível fazer aqui uma análise detalhada disso. Em resumo, quero dizer que, no caso das ações que têm o status de obrigatórias, necessárias e fundamentais no Islã, deve-se obedecer e imitar o Profeta de forma exata e íntegra; não se pode desviar nem sequer a espessura de um fio. Isso inclui as normas relativas à oração, ao jejum, à peregrinação, ao zakat, à purificação e assim por diante, bem como tudo o que ele ordenou acerca dessas questões e as regras gerais da vida islâmica, como as atividades sociais, econômicas e políticas e suas normas detalhadas. Em algumas dessas questões, o Mensageiro de Allah limitou-se a ordenar a manutenção da moralidade e da decência e a adoção de métodos razoáveis. Outras são de tal natureza que, à sua luz, podemos determinar quais métodos de ação são compatíveis com o Islã e quais não são. Nesse caso, quem deseja sinceramente imitar o Mensageiro de Allah e, com esse propósito, estuda seus hadiths e seu código de conduta pode facilmente saber em quais assuntos a imitação do Mensageiro deve ser exata e em quais assuntos deve extrair de seus hadiths e de sua conduta apenas os princípios gerais de moralidade, racionalidade, benefício e bem-estar. Porém, as pessoas de natureza argumentativa levantam todo tipo de pretexto nesse assunto. Dizem: o Mensageiro de Allah falava em árabe; nós também teremos de falar em árabe? Ele se casou com mulheres árabes; nós também teremos de nos casar com mulheres árabes? Ele usava um determinado tipo de roupa; nós também devemos usar roupas desse tipo? Ele comia determinados alimentos; nós também devemos comer esses alimentos? Ele se relacionava, sentava-se e comportava-se com as pessoas de uma maneira específica; nós também teremos de fazer tudo exatamente da mesma maneira? É lamentável que não parem sequer para pensar que o essencial não é a língua, mas a norma moral de falar que ele sempre observava. O importante não é casar-se com uma mulher árabe ou não árabe; o importante é como devemos tratá-la, como estabeleceremos seus direitos e como exerceremos sobre ela nossa autoridade legal legítima. Nesse aspecto, não pode haver modelo melhor para a vida familiar de um muçulmano do que o exemplo que o Profeta deixou em seu tratamento para com suas esposas. Quem disse que usar exatamente o mesmo tipo de roupa que o Venerável usava é uma norma da Sharia? E quem ordenou que todo muçulmano deva comer exatamente os alimentos que ele comia? Nesses assuntos, aquilo que deve ser imitado é o temor a Allah, a pureza, a limpeza e a decência que ele observava ao comer e vestir-se. Assim podemos compreender como aplicar o ensinamento conciso de conduta que o Alcorão nos deu sobre o equilíbrio entre o ascetismo e o hedonismo, de modo que, por um lado, não haja desperdício nem esbanjamento e, por outro, não se rejeitem inutilmente as coisas lícitas. O mesmo se aplica a todos os demais aspectos da vida pessoal e coletiva do Venerável. Toda a sua grandiosa e pura vida é um excelente modelo para a vida de um muçulmano verdadeiramente temente a Allah. A Venerável Aisha disse com toda razão que:(Árabe**********) isto é, se quiserdes saber como uma pessoa crente deve viver no mundo de acordo com os ensinamentos e o espírito do Sagrado Alcorão, estudai o modo de vida de Muhammad. Vereis que aquilo que está resumido no Alcorão como Islã se encontra desenvolvido na vida do Mensageiro de Allah.

O Mensageiro é Mensageiro em todos os momentos

É motivo de satisfação que o terceiro grupo não pense como o primeiro e o segundo. Ainda assim, alguns hadiths fizeram nascer em suas mentes a dúvida de que “talvez o Mensageiro de Allah não tenha sido Mensageiro em todas as situações e em todos os momentos, e que nem todas as suas palavras e ações tenham sido proferidas e realizadas na qualidade de Mensageiro”. As narrativas que deram origem a esse mal-entendido, na realidade, apontam para outra questão. Na verdade, o Profeta foi o Mensageiro de Allah em cada instante e em todas as situações, e sua tarefa consistia em manter sempre diante dos olhos o propósito para o qual havia sido enviado como Profeta. Ele não se tornou Profeta para privar completamente as pessoas da liberdade de pensamento e opinião, nem para tornar inoperantes e inúteis sua consciência e sua razão. Ele não veio ensinar às pessoas do mundo agricultura, indústria e ofícios, nem foi enviado para administrar os negócios, o comércio e os assuntos pessoais das pessoas.

A atenção do Profeta ao verdadeiro propósito da missão profética

O objetivo da vida do Santo Profeta era apenas um: consolidar o Islão como crença e convicção no coração das pessoas e torná-lo efetivo, na prática, no caráter pessoal dos indivíduos e no sistema social. Além desse objetivo fundamental, ele jamais prestou atenção a qualquer outra coisa. E, embora muito raramente dissesse algo sobre algum assunto, logo acrescentava: “Vós sois livres quanto às vossas opiniões e às vossas atividades”. Ele disse: (Árabe****************) “Vós conheceis melhor os assuntos mundanos.” Os Companheiros, porém, estavam sempre dispostos a obedecer de todo o coração a cada palavra do Profeta, considerando-a uma palavra do Mensageiro, e julgavam necessário obedecer-lhe e segui-lo em todos os assuntos. Por isso, sempre que o Profeta dizia algo sobre um assunto mundano, os Companheiros pensavam que talvez aquilo também fosse uma instrução dada na qualidade de Mensageiro. Contudo, jamais aconteceu que ele lhes desse uma ordem sobre algo sem relação com o propósito de sua vinda e os obrigasse a obedecê-la. Não ter demonstrado, durante vinte e três anos, nem por um instante, negligência quanto ao seu propósito e objetivo; estar a cada momento consciente da sutil diferença entre o que fazia parte de seu propósito e o que não fazia; e, apesar de possuir plena autoridade e domínio sobre seus seguidores, não lhes dar ordens sobre assuntos irrelevantes — tudo isso prova que a dignidade profética jamais se separava de sua pessoa. Entretanto, não é correto imaginar que tudo quanto o Nobre disse sobre assuntos mundanos não tivesse como fonte a revelação. Naturalmente, tais palavras não eram instruções suas; ele não as proferia com o tom de quem dá uma ordem, nem as pessoas as aceitavam como instruções. Ainda assim, tudo quanto saía de sua boca sagrada era, do princípio ao fim, correto e verdadeiro. Por exemplo, os hadiths do Nobre relacionados à medicina estão repletos de afirmações extremamente sábias. Ao ler esses hadiths, é surpreendente pensar como um homem iletrado da Arábia, que jamais fora médico nem realizara qualquer pesquisa sobre medicina, pôde conhecer fatos dessa ciência que hoje, após séculos de testes e experiências, estão sendo comprovados como verdadeiros. Nas palavras sábias do Nobre encontram-se centenas de exemplos desse tipo. Embora essas coisas não façam parte das responsabilidades da missão profética, Allah dotou Seus Mensageiros, por natureza, de capacidades extraordinárias que não servem apenas ao cumprimento das responsabilidades da missão profética, mas também deixam marcas de excelência em todos os assuntos. É evidente que a arte de fabricar armaduras não pode ter qualquer relação com a missão profética. Ainda assim, o Profeta Davi demonstrou extraordinária habilidade também nesse ofício. O próprio Allah disse: “Fui Eu quem lhe ensinou essa arte”.(Árabe**********************) “Ensinei-lhe a fabricação de armaduras, para que vos protegesseis, por meio delas, dos ataques uns dos outros.” — (Surata al-Anbiya: 80). Que relação poderia haver entre aprender a linguagem das aves e cumprir as responsabilidades da missão profética? Contudo, o Profeta Salomão adquiriu domínio dessa capacidade. Ele próprio disse: (Árabe**********) “Foi-me ensinada a linguagem das aves.” — (Surata an-Naml: 16). Que relação poderia haver entre a carpintaria, a construção de barcos e o cumprimento das responsabilidades da missão profética? Contudo, Allah não disse ao Profeta Noé: “Constrói um barco resistente”. Em vez disso, disse: (Árabe***********) “Constrói o barco sob a Nossa supervisão, conforme a Nossa revelação.” — (Surata Hud: 37)

As duas partes da vida do Profeta

Desta discussão ficou claro que não é correto dizer que os Profetas recebiam apenas a revelação diretamente relacionada ao cumprimento das responsabilidades da missão profética. Na realidade, toda a sua vida estava submetida às ordens de Allah. A única diferença é que uma parte de suas vidas é de tal natureza que imitá-la exatamente constitui uma condição indispensável para ser muçulmano. Há outra parte cuja imitação integral não é obrigatória, isto é, indispensável, para todos os muçulmanos. Contudo, para quem deseja tornar-se um servo amado e próximo de Allah, não há alternativa senão imitar plenamente a Sunnah do Profeta. Mesmo uma falha mínima nesse aspecto resultará numa diminuição proporcional na obtenção da proximidade e na condição de servo amado. Pois, para tornar-se amado por Allah, não existe absolutamente outro caminho senão seguir o Profeta. (Árabe***********) “Segui-me; então Allah vos amará.”

A diferença entre a liderança do Profeta e as demais lideranças

A partir da discussão acima, tornou-se claro qual é a diferença entre a liderança do Profeta e a liderança de outros líderes, bem como entre os julgamentos e decisões do Profeta e os julgamentos e decisões de outros juízes. Ainda assim, no final citei três versículos que tornaram o assunto ainda mais claro. Esses versículos provam que submeter-se às instruções do Mensageiro de Allah (s.a.) e aceitar as suas decisões é uma condição indispensável para ser um crente. Quem se recusar a fazê-lo deixará de ser crente. Existe tal posição para algum outro líder ou juiz? Se não existe, então que erro gravíssimo é afirmar que, sempre que as palavras “Allah” e “Mensageiro” aparecem juntas no Alcorão, isso significa liderança. É precisamente esta afirmação de Maulana Aslam Jayrajpuri que considero censurável. Considero essa declaração, em todos os seus aspectos, contrária ao Alcorão. Também reconheço a obrigação de obedecer ao Ulil Amr. Depois do Mensageiro de Allah (s.a.), obedecer ao Ulil Amr é um dever indispensável. As funções do Estado islâmico que o Mensageiro de Allah (s.a.) desempenhava durante a sua vida serão desempenhadas pelo Ulil Amr, e, em todos os assuntos da sociedade e do Estado, a decisão do Ulil Amr será decisiva e final. Mesmo que alguém, com base no seu próprio conhecimento, compreenda que a decisão do Ulil Amr é contrária a Allah e ao Mensageiro, ainda assim deverá, embora permaneça firme na sua própria opinião, obedecer à decisão dele até certo limite. Isso, porém, não significa que aquilo que o Alcorão designa por “Allah e o Mensageiro” seja liderança, nem que uma ordem emitida pela liderança seja exatamente a ordem de Allah e do Mensageiro. Se assim fosse, quando os líderes e as autoridades se desviassem e os governantes e responsáveis começassem a praticar atos contrários ao Alcorão e à Sunnah, os muçulmanos ficariam sem saída e desamparados. Mesmo sabendo que estariam avançando rumo à destruição inevitável, não teriam outra alternativa senão seguir os seus passos e obedecer-lhes. Em tal situação, se alguém se levantasse contra isso e reivindicasse seguir o caminho de Allah e do Mensageiro, então, segundo a fatwa de Maulana Aslam Jayrajpuri, os governantes desviados e opressores poderiam declarar aquele pobre homem inimigo de Allah e matá-lo, sem que isso fosse considerado errado. Poderiam dizer: “Ora, homem, Allah e o Mensageiro somos nós mesmos. Por qual Allah e Mensageiro queres agora conduzir-nos?”

 

Análise da vida pessoal do Mensageiro (s.a.) e da sua vida como Profeta

As traduções árabes dos meus dois artigos intitulados “A visão do Islã sobre a liberdade” e “A obediência e a imitação do Mensageiro” foram publicadas no jornal Al-Muslimun, de Damasco. Naquela ocasião, os eruditos da Síria chamaram a minha atenção, dizendo que havia certa discrepância entre os dois artigos. Era necessário eliminar essa discrepância. Um cavalheiro de Damasco levantou a seguinte questão no meu primeiro artigo:

“Como ser humano, era o venerável Muhammad (s.a.) semelhante a qualquer pessoa comum entre nós? Como ser humano, existia também no seu coração o desejo de exercer domínio pessoal sobre as outras pessoas e de submetê-las ao seu próprio poder e autoridade? Se isso existia, então que significado poderiam ter a sua infalibilidade como Profeta e a proteção que recebeu como ser humano? A sua vida humana antes da profecia e a sua vida como Profeta fundiram-se numa só ou permaneceram separadas? É possível separar esses dois aspectos da sua vida, de modo que se possa obter a liberdade de obedecer ao Profeta Muhammad (s.a.) e opor-se ao ser humano Muhammad? O que ele disse como Profeta é obrigatório, e temos o direito de nos opor ao que disse como ser humano. Mas à luz de que princípio podemos traçar uma linha divisória entre esses dois tipos de palavras? Não há absolutamente nenhum impedimento em opor-se à opinião pessoal do Profeta? Muhammad (s.a.) transmitia aos muçulmanos a ideia de que não era necessário obedecer-lhe como ser humano? Ele os incentivava a discordar da sua opinião pessoal? Com base nesses argumentos e provas, é verdade que o venerável Umar (r.a.) se opôs ao venerável Profeta enquanto ser humano?”

O artigo que se segue foi escrito precisamente em resposta a essas perguntas:

Foi-me dito que os meus dois artigos publicados nos números seis, sete e oito do sexto volume de Al-Muslimun, sob os títulos “A visão do Islã sobre a liberdade” e “A obediência e a imitação do Mensageiro”, apresentam afirmações contraditórias entre si, e que é necessário resolver essa contradição. Em outras palavras, o primeiro artigo afirma que a vida pessoal do Profeta e a sua vida como Profeta são distintas. O Islã exorta à obediência à vida profética, e não à obediência à vida pessoal. No entanto, no segundo artigo nega-se que essas duas vidas do Profeta sejam distintas e afirma-se enfaticamente que o Profeta tem uma única vida: a vida profética. Foi solicitado que se esclarecesse como resolver essa contradição. Além disso, um cavalheiro de Damasco levantou algumas questões sobre o meu primeiro artigo, “A visão do Islã sobre a liberdade”. As perguntas foram publicadas no número 7 de Al-Muslimun. Nós as citamos no início. As duas perguntas são bastante semelhantes. Por isso, respondo a ambas no mesmo breve artigo.

Na realidade, o problema tem dois aspectos. Um é o aspecto teórico. Nele, a questão a ser examinada é: qual é a verdade essencial e absoluta? O segundo é o aspecto prático. Nele, a questão a ser considerada é: para obter orientação a partir da personalidade do Profeta, devemos aceitar toda a sua vida como uma vida profética para nós, e ele é somente um Profeta? Ou devemos dividi-lo em duas partes, obedecer à sua vida profética e deixar de lado o restante?

Primeiro: o aspecto teórico da discussão

Primeiro, discutamos o aspecto teórico. O Sagrado Alcorão declarou em linguagem inequívoca que há uma distinção entre a vida pessoal dos profetas e sua vida profética. Eles não vêm para transformar as pessoas em seus próprios escravos; vêm para fazê-las servas ou escravas de Allah.

(Árabe***************************na página 266 do PDF)

“Não é lícito a nenhum ser humano que Allah lhe conceda o Livro, o poder de governar e a profecia e, em seguida, ele diga às pessoas: ‘Tornai-vos meus servos, em vez de servos de Allah’.” — (Surata آل عمران: 79)

A eles eram atribuídas simultaneamente duas responsabilidades. Primeiro: libertar as pessoas da servidão a todos os seres humanos ou coisas além de Allah, até mesmo da servidão a eles próprios. Segundo: submetê-las à servidão exclusiva de Allah.

(Árabe***************************na página 266 do PDF)

“(Ó Profeta,) dize: ‘Ó povo do Livro, vinde a uma palavra comum entre nós e vós: não adoraremos ninguém senão Allah, não Lhe associaremos parceiro algum e ninguém dentre nós tomará outros como senhores em vez de Allah’.” — (Ali Imran: 64)

A ordem de obedecer incondicionalmente ao Mensageiro em todos os assuntos relacionados ao Islã não lhe foi dada como um direito pessoal; ela existe apenas porque Allah informa, unicamente por meio do Mensageiro, aquilo que Lhe agrada e quais são Suas ordens. Por isso, foi declarado que obedecer ao Mensageiro é, em si, obedecer a Allah. No Alcorão, foi dito:

(Árabe***************************na página 267 do PDF)

“Enviei cada Mensageiro com o propósito de que fosse obedecido, com a permissão de Allah.” — (Surata An-Nissá: 64)

(Árabe***************************na página 267 do PDF)

“Quem obedece ao Mensageiro obedece ao próprio Allah.” — (Surata An-Nissá: 80)

Juntamente com isso, também está comprovado pelo Alcorão e por numerosos hadiths que o respeitável Rasulullah (que a paz esteja com ele) jamais exigiu, para aquilo que disse ou fez segundo sua própria opinião, e não por ordem de Allah, o mesmo tipo de obediência absoluta que exigiu quando disse ou fez algo por ordem de Allah. Apresentei muitos exemplos disso em meu artigo intitulado “A visão do Islã sobre a liberdade”. Em particular, o divórcio de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), dado por Zayd apesar da proibição do Profeta, sem que Allah e Seu Mensageiro demonstrassem qualquer desagrado com isso, é um exemplo marcante. Além da explicação que ofereci sobre isso naquele artigo, não se pode dar nenhuma outra explicação. E, a respeito da polinização das tamareiras, o Rasulullah (que a paz esteja com ele) disse em termos inequívocos:

(Árabe***************************na página 267 do PDF)

“Eu também sou apenas um ser humano. Quando eu lhes der alguma instrução sobre o Islã, sigam-na. Mas, quando eu disser algo segundo minha própria opinião, lembrem-se de que sou apenas um ser humano. Eu havia feito uma suposição. Não aceitem aquilo que eu disser com base em conjecturas desse tipo. Porém, quando eu disser algo da parte de Allah, aceitem-no, pois jamais disse algo falso acerca de Allah. Vocês conhecem melhor os assuntos relacionados à sua vida terrena.” — (Muslim)

Essa é a diferença em princípio. Vejamos agora seu aspecto prático.

Dois: o aspecto real e prático

Na realidade, a questão era extremamente delicada e complexa. Allah enviara um ser humano como Seu único representante, investido de uma responsabilidade dupla: por um lado, ele libertaria toda a humanidade da servidão à sua própria personalidade e a todas as criaturas, concedendo-lhe independência, e ele mesmo a treinaria nessa liberdade. Por outro lado, esse mesmo homem incentivaria as pessoas a obedecerem incondicionalmente a Allah, e a fonte dessa obediência a Allah seria sua própria pessoa enquanto Mensageiro. Essas duas tarefas, aparentemente contraditórias, tinham de ser desempenhadas pela mesma pessoa ao mesmo tempo; e os limites entre elas estavam tão intimamente ligados que ninguém, exceto o próprio Allah e Seu Mensageiro, poderia traçar uma linha divisória entre as duas. Além disso, sua complexidade e delicadeza se tornam ainda mais intensas quando se consideram três aspectos. Primeiro, quando o Honorável Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) incentivava as pessoas a obedecerem a ele sob a orientação de Allah, não havia dúvida de que estava cumprindo precisamente a responsabilidade da Risalat. Porém, quando ensinava aos seus Companheiros, inteiramente devotados a ele, a libertarem-se da servidão mental à sua personalidade e a exercerem a liberdade de pensamento e opinião; quando os encorajava, diante dele próprio, a exercerem a liberdade de pensamento em oposição à sua opinião pessoal, mostrando-lhes que, nesse aspecto, eram livres, mas que, nesse outro, eram obrigados a obedecer plenamente, mesmo então ele estava, na realidade, cumprindo uma parte da responsabilidade da Risalat. Este é um campo em que se torna difícil para nós compreender a diferença entre sua vida pessoal e sua vida profética e agir de acordo com essa diferença. Aqui, essas duas vidas estão tão intimamente entrelaçadas que, na prática, resta entre elas apenas uma diferença teórica. Mesmo ao realizar alguma ação em sua condição pessoal, ele era visto, na prática, cumprindo a responsabilidade da profecia.

Em segundo lugar, aquilo que aparentemente constitui uma questão inteiramente pessoal — como comer e beber, vestuário, casamento, viver com as esposas e os filhos, atividades domésticas, banho e higiene, urinar e defecar, entre outras coisas — também não era uma questão puramente pessoal na vida do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele); pelo contrário, mesmo nessas coisas estavam incluídos ensinamentos relativos aos limites, às disposições e às normas da Sharia. Por isso, torna-se difícil para as pessoas determinar onde, nessas questões, terminava a atuação do Mensageiro Muhammad e começava a atuação de Muhammad como indivíduo.

Em terceiro lugar, aprendemos no Sagrado Alcorão que a vida do Profeta, em sua totalidade, constitui um modelo — cada um de seus aspectos é, para nós, um farol de verdade e justiça. Nenhuma de suas palavras ou ações está minimamente manchada pelo impulso da paixão, pelo desvio ou pela confusão. A esse respeito, merecem atenção algumas declarações do Alcorão:

(Árabe***************************na página 268 do PDF)

“Para vós, na vida do Mensageiro de Allah, há o melhor dos modelos”.

(Árabe***************************na página 268 do PDF)

‘Ó Profeta! Enviámos-te como testemunha para a humanidade, portador de boas-novas, admoestador, aquele que convoca para Ele, com a permissão de Allah, e como uma lâmpada resplandecente”.

(Árabe***************************na página 268 do PDF)

“Vosso companheiro não se desviou nem se extraviou. Ele não fala por capricho próprio; tudo o que diz não é senão revelação que lhe foi transmitida.” — (Surata An-Najm: 2–4)

Por essas razões, segundo a Shariah, não temos o direito de estabelecer uma distinção entre a vida profética e a vida pessoal do Profeta; na prática, tal distinção também não é possível. Não podemos nós mesmos determinar os limites entre essas duas partes da vida do Profeta. Não somos capazes de afirmar especificamente que determinado assunto pertence à esfera da vida profética do Profeta, enquanto este ou aquele assunto pertence à esfera de sua vida pessoal. Portanto, não temos autoridade para decidir que é obrigatório aceitar uma delas e opcional aceitar a outra. Somente uma declaração explícita do próprio Mensageiro de Allah, ou um princípio formulado à luz de vários de seus ensinamentos, pode ser aceito como o único meio de determinar essa distinção.

Alguns exemplos dignos de nota

Durante a época do Mensageiro de Allah, há exemplos de que os Companheiros, antes de expressarem sua opinião pessoal sobre alguma palavra ou ação dele, perguntavam se tal palavra ou ação se baseava em uma ordem de Allah ou em sua opinião pessoal. Quando descobriam que se tratava apenas de sua opinião pessoal, só então apresentavam sua própria opinião. Na Batalha de Badr, Khabbab ibn al-Mundhir perguntou, antes de expressar sua opinião, se a escolha daquele lugar havia sido feita com base na revelação ou apenas como estratégia militar. Pois, se tivesse sido feita com base na revelação, não nos seria permitido alterá-la nem um pouco. Na Batalha da Trincheira, Sa’d ibn Mu’adh, antes de expressar sua opinião sobre a decisão de fazer um acordo com a tribo dos Banu Ghatafan, perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! Esta decisão foi tomada com base na revelação — sobre a qual não temos possibilidade de opinar — ou desejais fazer isso apenas por vossa própria vontade?”

Às vezes, o próprio Mensageiro de Allah informava que aquilo que havia dito sobre determinado assunto não fora dito por ordem de Allah nem promulgado como norma do Islam, mas que ele apenas expressara sua opinião pessoal. Como exemplo disso, já foi mencionada anteriormente a explicação que ele deu acerca da polinização das tamareiras.

Às vezes, era possível compreender, pela própria natureza da instrução, que ele a havia dado apenas em caráter pessoal. Por exemplo, ele disse a Zayd:(Árabe**********) “Não te divorcies de tua esposa. Teme a Allah.” Ficava claro que essa instrução não era uma ordem legal do Profeta dirigida a um crente, mas o conselho do chefe da família a um membro mais jovem dela. Por isso, apesar da instrução do Profeta, Zayd divorciou-se de Zaynab. Como Allah e o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não demonstraram qualquer desagrado por isso, compreende-se que Zayd havia entendido corretamente o nível a que pertencia a instrução do Profeta.

Meios de determinar a posição profética em épocas posteriores

Há muitos exemplos desse tipo que podem ser encontrados durante a vida do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, ainda hoje é possível determinar essa distinção, à luz dos princípios da Shariah, em muitos outros assuntos. Tomemos, por exemplo, a questão das roupas e da alimentação do Profeta. Um aspecto era que o tipo específico de medidas e corte das roupas que ele usava era comum na Arábia daquela época, e ele escolhia essas roupas segundo seu próprio gosto. Do mesmo modo, os alimentos que consumia eram habitualmente preparados nas casas dos árabes de seu tempo, e esses alimentos correspondiam ao seu gosto. Outro aspecto era que, por meio de suas palavras e ações relativas à alimentação e ao vestuário, ele ensinava os costumes e as normas islâmicas referentes a esses assuntos. Sabemos, pelos próprios princípios ensinados pelo Profeta, que o primeiro aspecto pertencia à sua vida pessoal, enquanto o segundo fazia parte da vida profética. Pois a Shariah, para ensinar as normas que ele fora encarregado por Allah de transmitir, não incluiu em seu âmbito a questão de que tipo de corte as pessoas deveriam dar às suas roupas ou de que modo deveriam preparar seus alimentos. Naturalmente, a Shariah incluiu em seu âmbito a definição dos limites do lícito e do ilícito, do permitido e do proibido, no que diz respeito às roupas e aos alimentos, bem como o ensino da cortesia e das boas maneiras compatíveis com o caráter, a civilização e a cultura dos crentes.

Podemos conhecer essa distinção por meio de uma declaração explícita do Profeta ou a partir dos princípios da Sharia que ele ensinou; em ambos os casos, os ensinamentos do Profeta são a fonte desse conhecimento. Portanto, também para determinar as ações abrangidas pela vida pessoal do Profeta, teremos de recorrer à vida profética. E não temos nenhuma possibilidade de estabelecer um contato direto com a vida pessoal, ignorando a vida profética. No meu artigo intitulado “Obediência e imitação do Mensageiro”, adverti os negadores dos hadiths precisamente sobre esse assunto. O erro fundamental deles é que, por iniciativa própria, distinguem entre Muhammad bin Abdullah como Mensageiro e Muhammad bin Abdullah como ser humano, traçando uma linha divisória entre as ações abrangidas por cada um. Depois, isentam a si mesmos da parte da vida profética que eles próprios escolheram. Entretanto, qualquer distinção que exista, na realidade, entre a vida pessoal do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) e a vida profética está restrita unicamente a Allah e ao Mensageiro de Allah. Isso nos foi informado apenas para que não caíssemos numa confusão doutrinária e não passássemos a considerar Muhammad, filho de Abdullah, como aquele que, em si mesmo, tem direito à verdadeira obediência. Mas, para a Ummah, na prática, ele tem uma única condição: a condição de Mensageiro. Mesmo qualquer liberdade que tenhamos quanto à obediência a Muhammad como ser humano foi concedida pelo próprio Mensageiro Muhammad. Foi o Mensageiro Muhammad quem determinou os limites dessa liberdade para nós e foi ele também quem nos ensinou como exercê-la.

Depois de ler os meus dois artigos, após esta explicação e análise, não poderá restar qualquer possibilidade de mal-entendido.

 

A posição e as responsabilidades da profecia à luz do Alcorão

–[Este artigo foi escrito para esclarecer as diversas perguntas, dúvidas e suspeitas dos negadores dos hadiths — (o compilador)]

As funções do Mensageiro são de quatro tipos

Em quatro lugares do Sagrado Alcorão, foi apresentada a seguinte descrição das responsabilidades do Profeta (que a paz esteja com ele):

 

(Árabe***************************na página 271 do PDF)

“E recorda quando Ibrahim e Ismael estavam lançando os alicerces desta Casa (a Caaba)……………….(então fizeram esta súplica:) Nosso Senhor! Envia para esse povo, dentre eles mesmos, um Mensageiro que lhes recite os Teus versículos, lhes ensine o Livro e a Sabedoria e os purifique.” (Surata Al-Baqara: 127–129)

(Árabe***************************na página 271 do PDF)

“Assim como enviámos para vós um Mensageiro dentre vós, que vos recita os Meus versículos, vos purifica, vos ensina o Livro e a sabedoria, e vos ensina muitas outras coisas que não conhecíeis.” — (Surata Al-Baqarah: 151)

(Árabe***************************na página 271 do PDF)

“Com efeito, Allah concedeu uma grande graça aos crentes ao enviar-lhes um Mensageiro dentre eles mesmos, que lhes recita os Seus versículos, os purifica e lhes ensina o Livro e a sabedoria.” — (Surata آل عمران: 164)

(Árabe***************************na página 271 do PDF)

“Ele é Allah, que enviou aos iletrados um Mensageiro dentre eles mesmos, que lhes recita os versículos de Allah, os purifica e lhes ensina o Livro e a sabedoria.” — (Surata Al-Jumu’ah: 2)

O que é repetidamente afirmado nestes versículos é que Allah não enviou o Seu Mensageiro apenas para recitar os versículos do Alcorão, mas que havia ainda três outros objetivos para o seu envio.

Primeiro, ele ensinaria às pessoas o Livro.

Em segundo lugar, ele ensinará as técnicas e os métodos para agir de acordo com as exigências do referido Livro.

Em terceiro lugar, ele purificará os indivíduos e a estrutura social. Ou seja, por meio de treinamento direto, removerá seus defeitos individuais e coletivos, para que neles se desenvolvam virtudes excelentes e floresça um sistema social perfeito.

É evidente que, depois de recitar os versículos do Alcorão, ensinar o Livro e a sabedoria foi uma tarefa adicional. Caso contrário, mencioná-la separadamente teria sido inútil. Do mesmo modo, os métodos que ele adotava com o objetivo de treinar os indivíduos e a sociedade também eram tarefas adicionais à recitação do Alcorão. Caso contrário, não faria sentido mencionar separadamente o trabalho de treinamento. A questão agora é: essas duas responsabilidades que ele recebeu — a de ensinar e a de treinar, além de recitar o Alcorão — ele as assumiu por iniciativa própria ou Allah, o Altíssimo, o designou para essas duas funções? Depois dessa declaração clara e inequívoca do Sagrado Alcorão, como pode alguém que tem fé neste Livro ousar dizer que essas duas responsabilidades não faziam parte de sua missão profética e que as tarefas que realizava no âmbito dessas responsabilidades eram executadas não como Mensageiro, mas em caráter pessoal? Se não é possível ter tal audácia, então, depois de simplesmente recitar e fazer ouvir as palavras do Alcorão, não seria rejeitar a própria missão profética deixar de reconhecer como uma certificação obtida de Allah e dotada de autoridade o trabalho adicional que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou ao ensinar o Livro e a sabedoria, bem como o treinamento dos indivíduos e da sociedade que completou por meio de suas palavras e ações?

O papel do Mensageiro como intérprete do Livro de Allah

Allah disse na surata An-Nahl:

(Árabe***************************na página 272 do PDF)

“Ó Profeta! Eu te revelei este Livro com o propósito de que explicasses e esclarecesses às pessoas este ensinamento que lhes foi revelado.” — (versículo 44)

Este versículo deixa claro que também fazia parte da responsabilidade do Profeta explicar e esclarecer as instruções e os conselhos que Allah deu no Alcorão. Até mesmo uma pessoa comum, dotada de bom senso, pode compreender pelo menos isto: a explicação de um livro não se completa simplesmente lendo-o em voz alta; ao contrário, o intérprete precisa dizer mais do que as palavras principais do livro, para que o ouvinte compreenda plenamente seu conteúdo. Se alguma afirmação do livro estiver relacionada a uma questão prática, o intérprete, por meio de uma demonstração prática, informa que o Autor aprova que se aja daquela maneira. Caso contrário, se alguém perguntar pelo significado e pela explicação do conteúdo de um Livro e lhe forem apenas recitadas as próprias palavras do Livro, nem mesmo uma criança aceitará isso como explicação. A questão agora é: de acordo com o enunciado deste versículo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era intérprete do Alcorão como indivíduo ou havia sido designado como intérprete? Aqui, Allah, o Altíssimo, afirma que o propósito de revelar o Alcorão ao Mensageiro era que o Mensageiro explicasse seu significado por meio de suas palavras e ações. Então, como é possível separar e dissociar da responsabilidade integral de sua missão profética a responsabilidade de explicar o Alcorão que lhe foi confiada? E como se pode, depois de aceitar o Alcorão que ele trouxe, rejeitar a explicação que ele ofereceu? Isso não equivaleria a rejeitar a própria missão profética?

Com efeito, este versículo é uma prova irrefutável contra aqueles que, naquela época, negavam a profecia de Muhammad (s.a.w.), alegando que o Livro de Allah não poderia vir por intermédio de um ser humano; da mesma forma, é também uma prova irrefutável contra aqueles que hoje negam os hadiths e defendem aceitar somente o Alcorão, sem a explicação e a interpretação do Profeta. Em geral, eles apresentam quatro argumentos a esse respeito. Às vezes dizem que o Profeta não ofereceu explicação ou interpretação alguma, tendo apenas transmitido o Livro de Allah. Às vezes dizem que somente o Livro de Allah deve ser seguido e que a explicação e a interpretação do Profeta são desnecessárias. Às vezes dizem que, atualmente, somente o Livro de Allah existe em estado confiável, enquanto a explicação e a interpretação do Profeta ou não existem de modo algum, ou, se existem, não se encontram em estado confiável. Todas essas quatro opiniões entram em conflito com o referido versículo do Alcorão. Em particular, a primeira opinião significa que, tendo o Livro de Allah sido enviado por intermédio do Profeta, em vez de ser enviado por meio dos anjos ou entregue diretamente às mãos dos seres humanos, o Profeta teria frustrado precisamente o propósito para o qual ele foi enviado. E a quarta opinião não é senão uma declaração de negação tanto do Alcorão quanto da profecia de Muhammad (s.a.w.). Para os que fazem tal declaração, não resta outra alternativa senão seguir o caminho dos que reivindicam uma nova profecia e uma nova revelação. Isso porque, nesse versículo, Allah considera a explicação e a interpretação do Profeta indispensáveis para alcançar o objetivo da profecia e declara igualmente que a necessidade e a validade da profecia do Profeta só podem ser comprovadas por meio da explicação do Livro de Allah. Se for considerada correta a afirmação dos negadores dos hadiths de que, nessas circunstâncias, a explicação dada pelo Profeta já não existe no mundo, torna-se inevitável chegar a duas conclusões. Primeiro: é preciso considerar extinta a existência da profecia de Muhammad como modelo a ser imitado — que Allah nos proteja — e aceitar que nossa relação com o Profeta Muhammad (s.a.w.) é semelhante à nossa relação com os profetas anteriores, como Hazrat Hud, Salih e Shu’ayb. Devemos ter fé nos profetas anteriores e reconhecer como verdadeira a sua mensagem, mas, como não temos diante de nós nenhum modelo deles que possa ser imitado, não podemos nem somos obrigados a imitá-los. Ao chegar a essa conclusão, sentir a necessidade de um novo profeta torna-se algo natural e evidente. Depois disso, somente um tolo poderia insistir na questão do selo da profecia.

Segundo: quando, segundo o próprio julgamento de Allah, o Alcorão, sem a explicação do Profeta, não é suficiente por si só para orientar, não se pode aceitar a afirmação dos chamados seguidores do Alcorão, por mais alto que proclamem que ele é suficiente. Se a alegação do demandante for de um tipo e o testemunho da testemunha de outro, nenhum dos dois pode ser estabelecido. Portanto, ao chegar a essa conclusão, é preciso dizer que o próprio Alcorão está provando a necessidade de um novo Livro. Que a maldição de Allah recaia sobre os que propagam tais opiniões destruidoras da fé. Na realidade, ao rejeitar os hadiths dessa maneira, eles estão tentando provocar a ruína do próprio Islã.

O Mensageiro como líder e modelo a ser seguido

Allah, o Altíssimo, diz na surata Al Imran:

(Árabe***************************na página 274 do PDF)

“Dize: ‘Ó Profeta!, se amais Allah, segui-me; Allah vos amará. ….. E dize: ‘Obedecei a Allah e ao Mensageiro’. Mas, se se voltarem para trás, sabei que Allah não ama os incrédulos’.” — (Surata Al Imran: 31–32)

Na surata Al Ahzab, Ele diz:

(Árabe***************************na página 274 do PDF)

“No Mensageiro de Allah há um excelente modelo para vós. Esse modelo é para toda pessoa que espera encontrar Allah e o Último Dia.” — (Versículo 21)

Nesses dois versículos, o próprio Allah está colocando Seu Mensageiro (s.a.w.) na posição de liderança. Ele ordena que lhe obedeçamos. Declara que sua vida deve ser imitada. Ele deixa claro que, se não obedecerdes ao Mensageiro, não deveis esperar nenhum bem de Mim. Sem essa obediência, não podeis obter o Meu amor. Abster-se da obediência é kufr. A questão agora é: o Profeta Muhammad (s.a.w.) tornou-se ele próprio líder dos homens, os muçulmanos o escolheram ou Allah o nomeou? Na linguagem do Alcorão, ele é claramente declarado líder nomeado e escolhido por Allah. Nessas circunstâncias, como seria possível recusar-se a obedecer-lhe e imitá-lo? Se alguém responder que obedecer ao Mensageiro significa obedecer ao Alcorão, isso não pode ser chamado de outra coisa senão delírio; pois, se esse fosse o significado, então (Árabe*********) — em vez de (Árabe***********) (seguir o Alcorão) seria dito. Nesse caso, não haveria absolutamente nenhum sentido em chamar a vida do Mensageiro de “excelente modelo”.

O papel do Mensageiro como legislador

Ao mencionar o Mensageiro de Allah (s.a.w.) na sura Al-A‘raf, Allah, o Altíssimo, disse:

(Árabe***************************na página 275 do PDF)

“Ele ordena às pessoas o que é bom, impede-as de fazer o que é mau, torna lícitas para elas as coisas puras, torna ilícitas as coisas impuras e livra-as do peso das obrigações e proibições que lhes haviam sido impostas anteriormente.” — (Sura Al-A‘raf: 157)

Este versículo deixa claro que Allah, o Altíssimo, concedeu ao Mensageiro de Allah (s.a.w.) poderes legislativos. A lista das normas e proibições de Allah não termina nas descrições, presentes no Alcorão, do que é lícito e ilícito, nem do que é bom e mau; aquilo que o Profeta ordenou ou proibiu também faz parte da lei de Allah. Isso porque o Profeta formulou essas normas e proibições exercendo a autoridade que Allah lhe concedeu. Na sura Al-Hashr também se encontra uma declaração igualmente clara:

(Árabe***************************na página 275 do PDF)

“Aceitai o que o Mensageiro vos der e abstende-vos daquilo que ele vos proibir; e temei a Allah. Allah é severo no castigo”.–(Versículo: 7)

Nenhum destes dois versículos pode ser interpretado como se neles se tratasse apenas das normas e proibições incorporadas no Alcorão. Seria mais apropriado considerar isso não uma interpretação, mas uma tentativa de corrigir e, portanto, alterar os versículos de Allah. Pois aqui Allah afirma claramente que ordenar o bem, impedir o mal e determinar o que é halal e haram são tarefas do Mensageiro — e não tarefas do Alcorão. Há alguém que queira dizer que Allah se enganou e que, em vez de Alcorão, mencionou por engano o nome do Mensageiro? — (Que Allah nos livre)

O papel do Mensageiro (que a paz esteja com ele) como juiz

Allah, o Altíssimo, mencionou em vários lugares do Alcorão que nomeou o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) como juiz. Eis alguns versículos dignos de atenção, por exemplo:

(Árabe***************************na página 275 do PDF)

“(Ó Profeta!) Em verdade, revelámos-te o Livro para que julgues entre as pessoas conforme a orientação que Allah te mostrou”.–(Surata An-Nissá: 105)

(Árabe***************************na página 276 do PDF)

“(Ó Profeta!) Dize: Creio no Livro que Allah revelou e foi-me ordenado que julgue com justiça entre vós”.–(Surata Ash-Shura: 15)

(Árabe***************************na página 276 do PDF)

“Quando os crentes são chamados a Allah e ao Seu Mensageiro para que ele julgue entre eles, dizem: ‘Ouvimos e obedecemos’”.–(Surata An-Nur: 51)

(Árabe***************************na página 276 do PDF)

“Quando lhes é dito: ‘Vinde ao Livro que Allah revelou e ao Mensageiro’, verás os hipócritas afastarem-se de ti”.–(Surata An-Nissá: 61)

(Árabe***************************na página 276 do PDF)

“Mas não! Por teu Senhor, eles não serão crentes até que te tomem como árbitro em suas disputas e não encontrem, em seus corações, qualquer resistência à tua decisão, submetendo-se a ela com plena aceitação”.–(Surata An-Nissá: 65)

Esses versículos afirmam claramente que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não era um juiz autonomeado nem escolhido pelos muçulmanos. Ele era um juiz nomeado por Allah. O terceiro versículo mostra que sua responsabilidade como juiz não era distinta nem separada da responsabilidade da missão profética. Como Mensageiro, ele também era juiz. Portanto, enquanto um crente não aceitar também a obediência ao Mensageiro como juiz, sua fé na missão profética não pode ser correta. No quarto versículo (Árabe**********) menciona separadamente o Alcorão e o Mensageiro, deixando claro que existem duas fontes eternas de julgamento para a tomada de decisões: uma é o Alcorão, no aspecto da lei, e a outra é o Mensageiro enquanto juiz. Desobedecer a qualquer um dos dois é atitude de hipócrita, não de crente. O último versículo afirma de modo categórico e inequívoco que aquele que não aceita o Mensageiro como juiz não é crente. Mais ainda: mesmo que alguém sinta a menor hesitação ou constrangimento em aceitar a decisão do Mensageiro, sua fé se perde. Após essas declarações explícitas do Alcorão, ninguém pode dizer que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era de fato juiz, mas não como Mensageiro; que era simplesmente um juiz ou magistrado, como os juízes e magistrados comuns. Assim, do mesmo modo que as sentenças dos juízes e magistrados comuns não são fonte da lei, as decisões judiciais do Profeta também não seriam fonte da lei. Isso porque nenhum magistrado comum do mundo possui tal dignidade que, se alguém não acatar sua sentença, criticá-lo ou sentir hesitação em aceitá-la, corra o risco de perder a fé.

O papel do Mensageiro como governante e chefe de Estado

O Alcorão declarou repetidamente com clareza que o Profeta (que a paz esteja com ele) era o governante e chefe de Estado nomeado por Allah, e que essa posição de autoridade também lhe havia sido concedida precisamente na qualidade de Mensageiro.

(Árabe***************************na página 277 do PDF)

“Não enviamos Mensageiro algum senão para que fosse seguido com a permissão de Allah (sanção).” – (Surata An-Nisā’: 64)

(Árabe***************************na página 277 do PDF)

“Quem obedece ao Mensageiro obedece ao próprio Allah.” – (Surata An-Nisā’: 80)

(Árabe***************************na página 277 do PDF)

“(Ó Profeta!) Certamente, aqueles que te prestam juramento de fidelidade prestam juramento de fidelidade a Allah.” – (Surata Al-Fath: 10)

(Árabe***************************na página 277 do PDF)

“Ó vós que credes — obedecei a Allah e obedecei ao Mensageiro. E não torneis vãs as vossas boas obras.” — (Surata Muhammad: 33)

(Árabe***************************na página 277 do PDF)

“Nenhum homem ou mulher crente tem o direito de tomar uma decisão própria sobre qualquer assunto quando Allah e Seu Mensageiro já tiverem decidido a respeito dele. E quem desobedece a Allah e ao Seu Mensageiro está envolvido num claro desvio.”

(Árabe***************************na página 277 do PDF)

“Ó vós que credes, obedecei a Allah e obedecei ao Mensageiro! E obedecei aos vossos ulul amr. Então, se surgir alguma divergência ou discordância sobre qualquer assunto, vede o que Allah e o Mensageiro disseram a respeito — se credes em Allah e no Dia Derradeiro.” — (Surata An-Nissá: 59)

É claramente evidente, a partir desses versículos, que o Mensageiro não era o governante autoproclamado do Estado que ele próprio estabelecera, nem era um chefe de Estado eleito pelo povo; pelo contrário, era um chefe de Estado nomeado por Allah. A administração de seu Estado não era algo separado ou distinto do status e das responsabilidades de sua missão profética. Pelo contrário, ser Mensageiro significava ser um governante cuja obediência e seguimento deveriam ser prestados em todos os aspectos. Obedecer-lhe era obedecer ao próprio Allah. E prestar-lhe o juramento de obediência (bay‘ah) era prestar o juramento de obediência ao próprio Allah. Desobedecer-lhe significava desobedecer ao próprio Allah, e a consequência disso era que nenhuma boa ação das pessoas seria aceita por Allah. E, em relação àquilo sobre que o Mensageiro tivesse decidido, os crentes — entre os quais estão incluídos toda a ummah, seus governantes e toda a “liderança central” — não tinham o direito de tomar qualquer decisão por conta própria.

Por fim, o versículo expõe essa afirmação de maneira ainda mais clara e decisiva. Nesse versículo, são dadas, sucessivamente, três ordens de obediência:

Primeiro, a obediência a Allah.

Depois, a obediência ao Mensageiro.

Em terceiro lugar, a obediência aos ulul amr (a quem os negadores dos hadith costumam chamar de “liderança central”).

A primeira coisa que se compreende disso é que o Mensageiro não está incluído entre os ulul amr; pelo contrário, sua posição é diferente e superior à deles. Depois de Allah, sua posição ocupa o segundo nível. Em segundo lugar, pode-se divergir dos ulul amr, isto é, dos responsáveis e detentores de autoridade. Mas não se pode divergir do Mensageiro. Em terceiro lugar, para resolver as divergências, deve-se recorrer a duas fontes reconhecidas. Uma é Allah e a segunda, imediatamente depois, é o Mensageiro de Allah. Se a única fonte para a resolução fosse Allah, não haveria sentido algum em mencionar o Profeta. Aqui, recorrer a Allah significa, durante a vida do Mensageiro, comparecer pessoalmente diante dele. E, após o falecimento do Mensageiro, recorrer à sua sunnah ou aos seus hadith.

Além disso, examinando a questão mais profundamente, compreender-se-á que, mesmo durante a vida do próprio Mensageiro, na maioria dos casos os problemas eram resolvidos com base nos hadith ou na sunnah do Mensageiro. No final da época do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), o governo islâmico havia se expandido por toda a Península Arábica. Em um país tão vasto e imenso, com uma área de dez a doze milhões de milhas quadradas, de modo algum era possível obter diretamente do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) uma decisão judicial sobre cada questão. Assim, inevitavelmente, no governo islâmico daquela época, para que governadores, juízes e outros administradores proferissem decisões, a única outra fonte de direito, depois do Alcorão, da qual era necessário valer-se não era outra senão a sunnah ou os hadith do Mensageiro.

O funcionamento do sistema judicial na época do Profeta (que a paz esteja com ele)

Durante a vida do Profeta (que a paz esteja com ele), quando algum problema lhe era apresentado diretamente, ele próprio o resolvia, esclarecendo qual era a vontade de Allah e do Mensageiro. Porém, os problemas enfrentados por todos os habitantes do Estado Islâmico não eram apresentados a ele, nem sua solução era obtida diretamente dele. Em vez disso, ele nomeava, em diversas regiões do país, pessoas que ensinavam a religião ao povo; nas questões do dia a dia, as pessoas consultavam essas pessoas para saber quais eram as instruções do Livro de Allah e que tipo de ensinamentos o Mensageiro de Allah havia transmitido. Além disso, em cada localidade eram nomeados emires, funcionários públicos e juízes, que resolviam por si mesmos as questões relacionadas às suas respectivas áreas de atuação. Para essas pessoas, (Árabe************)o método que o Profeta preferia para cumprir o objetivo era descrito no famoso hadith de Muadh ibn Jabal (que Allah esteja satisfeito com ele):

(Árabe***************************na página 279 do PDF)

“Quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) nomeou Muadh ibn Jabal como juiz e o enviou ao Iêmen, perguntou-lhe: ‘Como você dará seus veredictos?’ Ele respondeu: ‘De acordo com a orientação encontrada no Livro de Allah.’ Então o Profeta perguntou: ‘E se isso não for encontrado no Livro de Allah?’ Muadh (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: ‘Então, de acordo com a sunnah do Mensageiro.’ O Profeta perguntou novamente: ‘E se isso também não for encontrado na sunnah do Mensageiro?’ Ele respondeu: ‘Aplicarei meu próprio discernimento e me esforçarei para fazer ijtihad, buscando chegar à decisão correta.’ Então o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: ‘Louvado seja Allah, que concedeu ao representante do Mensageiro a capacidade de adotar o método escolhido pelo Mensageiro.’ — (Tirmidhi, Abu Dawud)”

A posição do Mensageiro nos princípios constitucionais do sistema de vida islâmico

(Árabe***************************na página 279 do PDF)

“Ó vós que credes! Obedecei a Allah, obedecei ao Mensageiro e àqueles que têm autoridade sobre vós. E, se divergirdes sobre qualquer questão, submetei-a à consideração de Allah e do Mensageiro, se realmente credes em Allah e no Último Dia. Isso é o melhor procedimento e também o melhor quanto às consequências.” — Surata An-Nissá, 59

Este versículo é a base de todo o sistema religioso, social e político do Islã e o primeiro princípio do sistema de governo do Estado Islâmico. Nele estão permanentemente incorporados os seguintes princípios fundamentais:

Primeiro: Na legislação islâmica, a obediência primordial é exclusivamente devida a Allah, o Altíssimo. Antes de tudo, o muçulmano é servo de Allah; tudo o mais vem depois disso. Tanto a vida pessoal de cada muçulmano quanto o sistema social têm como único centro e objetivo cumprir as ordens de Allah e obedecer-Lhe. Qualquer outra obediência só pode ser prestada quando não entra em conflito com a obediência a Allah, mas se submete a ela. Caso contrário, todos os que reivindicarem obediência serão rejeitados diante da obediência primordial e fundamental. Foi exatamente isso que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) afirmou:(Árabe*************) “Não se pode obedecer à criatura desobedecendo ao Criador.”

Segundo: O segundo princípio fundamental da legislação islâmica é obedecer ao Mensageiro. Esta não é uma obediência separada, mas a única forma prática e efetiva da obediência a Allah. O Mensageiro deve ser seguido porque ele é o único meio fiel e confiável pelo qual as ordens de Allah chegam até nós. Portanto, obedecer ao Mensageiro é o único meio e caminho para obedecer a Allah. Assim como a obediência a Allah não é aceitável sem o meio aprovado pelo Mensageiro, negar a obediência ao Mensageiro equivale a rebelar-se contra Allah. Esclarecendo ainda mais esta afirmação, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe***************************na página 280 do PDF)

“Quem me obedece obedece a Allah; e quem me desobedece desobedece a Allah. O Alcorão também afirma claramente esta mesma questão, que será discutida adiante.”

Três: depois das duas formas de obediência mencionadas, a terceira obediência indispensável aos muçulmanos é a obediência àqueles ulul amr que serão provenientes dos próprios muçulmanos. Na realidade, essa obediência está subordinada às duas obediências mencionadas; não é algo independente delas. No Alcorão, eles são chamados de “ulul amr”. Entre eles estão incluídas as pessoas que dirigirão todos os assuntos da vida coletiva dos muçulmanos. Podem ser sábios que exercem liderança no campo espiritual e intelectual, líderes políticos, administradores, juízes, ou ainda chefes e anciãos de bairros e favelas que exercem liderança em questões culturais e sociais. Em suma, quem quer que tenha autoridade para ordenar aos muçulmanos em determinada capacidade terá, nessa mesma capacidade, o direito de receber a obediência dos muçulmanos. Não é correto provocar desordem na vida social dos muçulmanos por meio de divergências com essa pessoa. Contudo, a condição é que ela seja muçulmana e obediente a Allah e ao Mensageiro; essas duas condições são indispensáveis para que lhe seja devida obediência. Assim como essa condição foi mencionada no versículo citado, ela também foi explicada detalhadamente nos hadiths. Os hadiths a seguir são dignos de atenção:

(Árabe***************************Página 281 do PDF)

“É obrigatório aos muçulmanos obedecer às ordens dos ulul amr, sejam elas do seu agrado ou não, desde que não ordenem um pecado. Mas, se for ordenado um pecado, de modo algum se deve obedecer.”

(Árabe***************************Página 281 do PDF)

“Não se deve obedecer a ninguém em algo que implique desobediência a Allah e ao Mensageiro; deve-se obedecer somente no que é bom.” — (Bukhari e Muslim)

(Árabe***************************Página 281 do PDF)

“O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: haverá entre os vossos governantes pessoas cujas ações serão em parte boas e em parte más. Quem manifestar desagrado por suas más ações estará livre delas. E quem as detestar também estará a salvo. Mas aquele que se agradar delas e começar a segui-las não terá salvação. Os Companheiros perguntaram: não devemos combater tais governantes? O Profeta respondeu: não os combatais enquanto eles mantiverem a oração.” — (Muslim)

Isso significa que, se abandonarem a oração, deve-se compreender que abandonaram a obediência a Allah e ao Mensageiro. Nesse caso, será lícito lutar contra eles.

(Árabe***************************na página 281 do PDF)

“O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: Os piores líderes entre vós serão aqueles por quem sentireis ira e que sentirão ira por vós. Vós os amaldiçoareis, e eles vos amaldiçoarão. Os Companheiros perguntaram: Ó Mensageiro de Deus! Quando nos depararmos com uma situação assim, não deveremos lutar contra eles? Ele respondeu: Não, enquanto mantiverem entre vós a prática da oração.” — (Muslim)

Este hadith tornou ainda mais rigorosa a condição mencionada acima. A partir do hadith anterior, poderia parecer que não seria permitido rebelar-se contra os governantes apenas enquanto eles observassem a oração em sua vida pessoal; porém, este hadith esclarece que o significado de rezar é, na realidade, estabelecer a prática da oração na vida coletiva dos muçulmanos. Ou seja, não basta que eles próprios rezem; é igualmente indispensável que seu governo estabeleça a prática da oração. Assim, ficará claro que seu governo é, ao menos em princípio, um governo islâmico. Caso contrário, deverá entender-se que esse governo se desviou do Islã, e será permitido aos muçulmanos empreender uma luta para depô-lo. A esse respeito, outra narração afirma que um dos compromissos que o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) nos fez assumir foi:

(Árabe***************************na página 282 do PDF)

Isto é: “Se não lutarmos contra nossos líderes e governantes, mas virmos uma descrença manifesta em suas ações, teremos argumentos e provas para apresentar diante de Deus a fim de lutar contra eles.” (Bukhari, Muslim)

Quarto: No versículo em discussão, foi estabelecido como um princípio eterno e incontestável que, no sistema estatal islâmico, a ordem de Deus e a tradição normativa do Mensageiro (o Alcorão e a Sunnah) constituem a fonte fundamental da lei (Autoridade Final). Qualquer que seja a questão em que surja uma divergência entre os muçulmanos, ou entre governantes e governados, ela deverá ser resolvida à luz do Alcorão e da Sunnah, e todos deverão aceitar essa decisão humildemente e sem contestação. Aceitar, desse modo, o Livro de Deus e a Sunnah do Mensageiro como a fonte última e definitiva, o fundamento e a autoridade para a tomada de decisões em todos os problemas da vida é a característica indispensável do sistema islâmico que o distingue dos sistemas não islâmicos e rebeldes contra Deus. O sistema em que essa característica está ausente é, sem dúvida, um sistema não islâmico. Nesse contexto, alguns levantam a questão: como se pode aceitar o Livro de Deus e a Sunnah do Mensageiro de Deus como a única fonte e autoridade para resolver todos os problemas da vida? No Alcorão e no hadith não estão de modo algum registradas normas relativas a municípios, ferrovias, correios e semelhantes. Na realidade, perguntas desse tipo surgem por não se compreenderem os princípios fundamentais do Islã. A diferença entre o muçulmano e o incrédulo é que o incrédulo deseja uma liberdade absoluta e sem rédeas. Já o muçulmano, depois de reconhecer fundamentalmente a si mesmo como servo de Deus e escravo obediente a Ele, desfruta de liberdade somente nos casos em que Deus lhe concedeu liberdade. O incrédulo toma decisões em todos os seus assuntos segundo leis e regulamentos elaborados por ele próprio e não sente absolutamente necessidade de qualquer autoridade ou fonte concedida por Deus. O muçulmano, por outro lado, procura прежде de tudo saber, em cada ato seu, qual é a orientação de Deus e de Seu Mensageiro. Quando encontra uma orientação sobre o assunto em questão, aceita-a e age de acordo com ela. Quando não encontra nenhuma orientação, somente então toma uma decisão independente. O fato de Deus e Seu Mensageiro não terem dado nenhuma orientação sobre determinado assunto prova que, nesse caso, lhe foi concedida liberdade para formar opiniões e tomar decisões; por isso, ele aplica livremente sua própria opinião.

 

A revelação de uma wahy adicional ao Profeta (que a paz esteja com ele), além do Alcorão

(Árabe***************************na página 284 do PDF)

“Ó Profeta! Não movas a língua para memorizar apressadamente esta revelação. Incumbe-nos fazê-la chegar à tua memória e recitá-la. Quando a estivermos recitando, escuta atentamente. Depois, também nos incumbe explicar o seu significado.”

Este é um versículo extremamente importante. Dele se comprovam alguns princípios fundamentais que, se forem bem compreendidos, podem proteger-nos de muitas confusões do passado e do presente. Em primeiro lugar, fica claramente comprovado que não era apenas a revelação contida no Alcorão que descia sobre o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele); além dela, também lhe era concedido, por meio da revelação, conhecimento que não estava contido no Alcorão. Com efeito, se o significado das instruções do Alcorão, de suas sutis alusões e indicações e de seus termos específicos, que era explicado ao Profeta, estivesse contido no próprio Alcorão, não haveria necessidade de dizer que me incumbe explicar e esclarecer o seu significado. Nesse caso, essas explicações e esclarecimentos seriam encontrados no próprio Alcorão. Portanto, é necessário reconhecer que a explicação do Alcorão feita por Allah necessariamente está fora do texto corânico. Assim, encontramos no Alcorão mais uma prova da revelação oculta.

Em segundo lugar, a explicação do significado do Alcorão e de suas instruções que Allah transmitiu ao Profeta destinava-se a que ele explicasse o Alcorão às pessoas por meio de suas próprias palavras e ações e as ensinasse a agir de acordo com suas instruções. Se esse não fosse o objetivo, e esse conhecimento lhe tivesse sido transmitido apenas para que o mantivesse limitado a si mesmo, isso teria sido um ato sem propósito, pois não o ajudaria a cumprir a missão profética. Portanto, dizer que esse conhecimento relativo à explicação e ao esclarecimento não pode ser considerado uma fonte da legislação da Sharia é pura insensatez. O próprio Allah Todo-Poderoso disse na surata An-Nahl, versículo 44:

(Árabe***************************na página 284 do PDF)

“Enviamos-te este Livro para que expliques às pessoas o que lhes foi revelado!” — [Para uma explicação detalhada do versículo, veja Tafhim al-Qur’an, volume 7, nota 40 de An-Nahl.] Além disso, em quatro passagens do Alcorão, Allah Todo-Poderoso afirmou claramente que a missão do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não consistia apenas em recitar o Livro de Allah, mas também em ensinar os preceitos desse Livro — (surata Al-Baqarah, versículos 129 e 151; surata Al ‘Imran, versículo 164; surata Al-Jumu‘ah, versículo 2). [Apresentei uma explicação detalhada desses versículos, nas páginas 74 a 77 da obra intitulada “A posição jurídica da Sunnah” — o autor.]

Depois de aceitar o Alcorão, ninguém pode deixar de reconhecer que a explicação do Alcorão dada pelo Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) por meio de suas próprias palavras e ações é a explicação mais pura, mais confiável e verdadeiramente oficial do Alcorão. Isso porque não é uma explicação pessoal dele, mas a explicação ensinada pelo próprio Allah Todo-Poderoso, o Autor do Alcorão. Ignorar ou contornar essa explicação para oferecer uma interpretação inventada de qualquer versículo ou palavra do Alcorão é um ato de extrema audácia, que nenhuma pessoa verdadeiramente crente pode cometer.

Em terceiro lugar, todo estudioso do Alcorão sabe que nele há muitas coisas cujo verdadeiro significado e cuja maneira de transformar em prática as instruções nelas contidas não podem ser compreendidos por alguém que conheça o árabe apenas pela leitura de suas palavras. Tomemos, por exemplo, a palavra ‘salat’ (Árabe****) considere a própria palavra: no Alcorão Sagrado, depois da fé, a prática cuja realização é ordenada com maior ênfase é justamente a salat; contudo, ninguém pode descobrir seu significado correto apenas com o auxílio de um dicionário árabe. Ao observar que essa palavra é repetidamente mencionada no Alcorão, pode-se compreender, no máximo, que ela é usada na língua árabe com algum significado prático específico e que, provavelmente, se chama salat a uma determinada prática que os crentes devem realizar. Mas, lendo somente o Alcorão, ninguém poderá determinar qual é essa prática específica nem como realizá-la. A questão é: se Allah, ao enviar o Alcorão, não tivesse enviado também, de Sua parte, um mestre para transmitir-lhe o significado correto desse termo e explicar-lhe detalhadamente o método de pôr em prática as instruções relativas à salat, será que, lendo apenas o Alcorão, dois muçulmanos quaisquer no mundo poderiam concordar em adotar um único método de cumprir as instruções relativas à salat? No entanto, há mil e quinhentos anos os muçulmanos vêm realizando a oração pelo mesmo método, transmitido de geração em geração. Em todas as regiões do mundo, centenas de milhões de muçulmanos vêm cumprindo da mesma maneira a obrigação da oração. A única razão é que Allah Todo-Poderoso não se limitou a enviar ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) apenas as palavras do Alcorão; Ele também lhe fez compreender perfeitamente o significado dessas palavras. E o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) continuou ensinando esses significados, transmitindo-os às pessoas que aceitaram o Alcorão como o Livro de Allah e a ele como o Mensageiro de Allah.

Em quarto lugar, não temos outro meio, além da sunna e dos hadiths do Mensageiro, para conhecer a explicação das palavras do Alcorão que Allah ensinou ao Seu Mensageiro e que o Mensageiro ensinou à ummah por meio de suas palavras e ações. Hadith significa os relatos referentes às palavras e ações do Profeta, transmitidos dos predecessores aos seus sucessores por narradores confiáveis, com a menção dos nomes dos transmissores. Sunna significa o modo e a prática que, como resultado do ensinamento transmitido pelas palavras e ações do Profeta, foram efetivamente estabelecidos na vida individual e coletiva da sociedade muçulmana. As descrições detalhadas desse modo e dessa prática foram recebidas pelas gerações posteriores das gerações anteriores por meio de cadeias confiáveis de transmissão, e as gerações posteriores também viram essa prática estabelecida na sociedade das gerações anteriores. Negar esse meio de conhecimento significaria que Allah(Árabe*****) ao dizer que havia assumido a responsabilidade de explicar ao Mensageiro o significado do Alcorão, teria falhado no cumprimento dessa responsabilidade — que Allah nos proteja. Pois Allah não assumiu essa responsabilidade apenas para explicar pessoalmente ao Mensageiro o significado do Alcorão, mas para explicá-lo, por meio do Mensageiro, a toda a ummah. Portanto, negar que o hadith e a sunna sejam fontes da lei torna inevitável, por si só, admitir que Allah falhou no cumprimento dessa responsabilidade — que Allah nos proteja. Em resposta, alguns dizem que também foram fabricados muitos hadiths falsos. Eu digo que o próprio fato de terem sido fabricados hadiths falsos prova, mais do que qualquer outra coisa, que, nos primeiros tempos do Islã, toda a ummah conferia às palavras e ações do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a autoridade de lei. Caso contrário, por que aqueles que queriam espalhar a confusão teriam sentido necessidade de fabricar hadiths falsos? Os que fabricam notas falsas falsificam justamente a moeda que está em circulação no mercado. Que tolo falsificaria uma moeda sem valor? Além disso, talvez aqueles que levantam a desculpa dos hadiths falsos não saibam que a nação muçulmana, desde o início, tomou rigorosas precauções para impedir que um hadith falso fosse difundido em nome do grande homem cujas palavras e ações têm autoridade de lei. E, gradualmente, adotou medidas cada vez mais rigorosas para separar o falso do autêntico. A ciência de distinguir os hadiths autênticos dos inautênticos é uma ciência tão extraordinária que, até hoje, nenhuma outra nação do mundo, além dos muçulmanos, conseguiu desenvolvê-la. Aqueles que, sem adquirir essa ciência, consideram o hadith e a sunna inaceitáveis por terem sido enganados pelos orientalistas são extremamente desafortunados; em sua arrogância nascida da ignorância, não sabem quanto dano causam ao Islã.

Determinação da qibla

Está comprovado pelo Alcorão que, além do Alcorão, também chegavam ao Profeta instruções por meio da revelação, e que ele foi ordenado a seguir ambos os tipos de revelação.

(Árabe********************************na página 286 do PDF)

“Eu determinei a qibla que você seguia até então precisamente para verificar quem obedece ao Mensageiro e quem não obedece.” — (Surata Al-Baqara: 143)

Este é o versículo mais claro, que elimina o fundamento de toda interpretação equivocada. Este versículo prova ser falsa a ideia de que nenhuma revelação além do Alcorão chegava ao Profeta. Pois, antes de a Nobre Caaba ser declarada como qibla, não há no Alcorão nenhuma instrução sobre a qibla que os muçulmanos seguiam. No entanto, é incontestável que, logo no início do Islã, o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) determinou a qibla e que, durante quase catorze anos, ele e os Companheiros rezaram voltados nessa direção. Após catorze anos, Allah, o Altíssimo, apoiou nessa passagem da Surata Al-Baqara a decisão do Profeta e declarou: “Fui Eu que determinei aquela qibla.” Eu determinei aquela qibla por meio do Mensageiro para ver quem seguia as palavras do Mensageiro e quem não as seguia. Por um lado, isso prova claramente que, além do Alcorão, também era revelada inspiração ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por outro lado, também se sabe que os muçulmanos foram ordenados a seguir as instruções do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que não são mencionadas no Alcorão. Allah testa até mesmo se os muçulmanos têm fé no Mensageiro fazendo-os obedecer ou não às instruções transmitidas por meio dele. Agora, se se admite que nenhuma revelação além do Alcorão era enviada ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), então como ele recebeu aquela instrução sobre a qibla? Isso não mostra que ele também recebia instruções que não estão no Alcorão?

Profecia da conquista de Meca

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sonhou, em Medina, que havia entrado em Meca e circundado a Nobre Caaba. Ele contou isso aos Companheiros e partiu para realizar a umra levando consigo mil e quatrocentos Companheiros. Os descrentes de Meca bloquearam seu caminho num lugar chamado Hudaybiyyah. O resultado foi o tratado de Hudaybiyyah. Alguns Companheiros ficaram tomados pela dúvida e pela inquietação. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou em nome deles: “Ó Mensageiro de Allah! Acaso você não nos havia informado de que entraríamos em Meca e realizaríamos a umra?”

O Profeta disse: “Eu acaso disse que isso aconteceria nesta mesma viagem?”

Sobre isso, Allah diz no Alcorão:

(Árabe********************************na página 287 do PDF)

“Allah certamente mostrou ao Seu Mensageiro um sonho verdadeiro. Se Allah quiser, entrareis seguramente na Mesquita Sagrada, em segurança, tendo raspado a cabeça ou aparado os cabelos, sem medo. Ele sabia o que vós não sabíeis. Por isso, antes disso, concedeu esta vitória próxima (o Tratado de Hudaybiyyah).” — (Surata Al-Fath: 27)

Com isso, entende-se que, por meio de um sonho, foi mostrado ao Profeta como entraria em Meca. Ele iria em direção a Meca com seus companheiros. Os incrédulos o impediriam e, por fim, seria firmado um tratado; por meio desse tratado, seria possível realizar a Umrah no ano seguinte, e também se abriria o caminho para as vitórias futuras. Isso também não mostra que ele recebia orientação por outros meios além do Alcorão?

Assunto secreto

Quando o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) contou secretamente algo a uma de suas esposas, ela revelou aquilo a outras pessoas. O Profeta perguntou à sua esposa sobre o assunto: “Como soubeste que eu havia revelado aos outros aquilo que me disseste?” O Profeta respondeu: “Aquele que é Onisciente e conhecedor de todas as coisas informou-me.” Assim diz Allah, o Altíssimo:(Árabe********************************na página 288 do PDF)

“E quando o Profeta (que a paz esteja com ele) confiou secretamente algo a uma de suas esposas, e ela revelou aquilo a outras pessoas, e então Allah informou o Profeta sobre o assunto, ele comunicou a ela uma parte de sua falta e deixou de mencionar a outra. Quando o Profeta lhe informou sobre sua falta, ela perguntou: ‘Quem te informou disso?’ Ele respondeu: ‘Allah, o Onisciente, o Conhecedor de todas as coisas, informou-me.’” — (Surata At-Tahrim: 3)

A revelação por meio da qual Allah informou o Profeta sobre a divulgação do segredo de sua esposa não se encontra em nenhuma parte do Alcorão. Se ela não se encontra ali, então fica provado que Allah enviava muitas mensagens ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), além do Alcorão.

O casamento de Zaynab

Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele), filho adotivo do Profeta (que a paz esteja com ele), divorciou-se de sua esposa; depois, o Profeta casou-se com a mulher de quem ele se divorciara. Com isso, os hipócritas e os opositores iniciaram uma campanha difamatória gravíssima contra ele e levantaram várias acusações contra sua pessoa. Allah respondeu a essas acusações em toda uma seção da Surata Al-Ahzab. Ele declarou que Meu Profeta não realizou esse casamento por iniciativa própria, mas por Minha ordem.

(Árabe********************************na página 288 do PDF)

“Então, quando Zayd se divorciou dela, Nós a casamos contigo, para que não houvesse constrangimento para os crentes quanto ao casamento com as mulheres de quem seus filhos adotivos se divorciaram.” — (Versículo 37)

Já mencionei anteriormente o acontecimento referido neste versículo. A questão agora é: antes desse acontecimento, encontra-se em alguma parte do Alcorão a ordem que Allah Todo-Poderoso deu ao Profeta (que a paz esteja com ele) para casar-se com a mulher de quem Zayd se divorciara?

A permissão para cortar árvores

Exasperado com as repetidas violações dos pactos por parte dos Banu Nadir, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) sitiou suas aldeias adjacentes a Medina. Durante o cerco, o exército islâmico cortou muitas árvores dos pomares e jardins circundantes, para abrir caminho à passagem dos soldados. Diante disso, os opositores fizeram grande alarde, alegando que os muçulmanos haviam cortado árvores frutíferas, destruído pomares e causado desordem no mundo. Em resposta, Allah disse:

(Árabe********************************na página 289 do PDF)

“As tamareiras que cortastes e as que não cortastes, tudo foi com a permissão de Allah.”

Alguém pode dizer em qual versículo do Alcorão foi revelada essa permissão para cortar as árvores?

Uma promessa feita antes da Batalha de Badr

Quando, após o fim da Batalha de Badr, surgiu a questão da distribuição dos espólios, foi revelada a Surata Al-Anfal, e toda a batalha foi analisada. A análise começa desde o momento em que o Mensageiro de Allah (s.a.) saiu de casa para a batalha. A esse respeito, Allah dirige-se aos muçulmanos, dizendo:

(Árabe********************************na página 289 do PDF)

“Quando Allah vos prometia que um dos dois grupos (isto é, o grupo de mercadores e o exército dos coraixitas) cairia em vossas mãos, e vós desejáveis que o grupo mais fraco (o grupo de mercadores) caísse em vosso poder. Porém, Allah desejava estabelecer a verdade como verdadeira por meio de Suas palavras e destruir a espinha dorsal dos incrédulos.” — (Surata Al-Anfal: 7)

Agora, em todo o Alcorão, pode ser identificado algum versículo no qual Allah Todo-Poderoso tenha prometido aos muçulmanos que se dirigiam a Badr que lhes concederia a vitória sobre um dos dois grupos?

Resposta ao pedido de ajuda dos muçulmanos

A propósito da análise da batalha de Badr, é dito no versículo seguinte:

(Árabe********************************página 289 do PDF)

“Quando pedíeis ajuda com veemência, então Allah respondeu ao vosso pedido, dizendo: ‘Enviarei para vos ajudar mil anjos, uns após outros’”. — (Surata Al-Anfal: 9)

Podem dizer em que versículo do Alcorão foi revelada esta resposta ao clamor dos muçulmanos?

Vós (ó negadores dos hadiths) pedíeis apenas um exemplo. Apresentei sete exemplos do Alcorão Sagrado. Eles provam irrefutavelmente que, além do Alcorão, também era revelada wahy ao Profeta. Antes de prosseguir com qualquer outra discussão, quero ver se estais prontos para curvar a cabeça diante da verdade?

O adhan e a oração de sexta-feira

(Árabe********************************página 290 do PDF)

“Ó vós que credes! Quando fordes chamados à oração na sexta-feira, apressai-vos para a recordação de Deus e deixai o comércio.” — (Surata Al-Jumu‘ah: 9)

Neste versículo, há três aspectos especialmente dignos de atenção. Primeiro, menciona-se o chamado das pessoas para a oração. Segundo, fala-se do chamado para uma oração específica, que deve ser realizada somente na sexta-feira. Terceiro, este versículo não diz: “Fazei o chamado para a oração e realizai uma oração especial na sexta-feira”. Pelo estilo da exposição e pelo encadeamento do relato, fica claro que as pessoas demonstravam negligência em apressar-se para a oração e permaneciam ocupadas com o comércio. Por isso, Allah revelou este versículo para fazê-las compreender a importância daquele chamado e daquela oração especial, a fim de que a considerassem uma obrigação e partissem prontamente para cumpri-la. Ao refletirmos sobre esses três aspectos, a verdade fundamental que se comprova de modo irrefutável é que Allah também revelava ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) certas instruções que não haviam sido reveladas no Alcorão, e que essas instruções eram tão obrigatórias quanto as instruções reveladas no Alcorão.

Esse chamado para a oração é o azan, que ressoa cinco vezes por dia nas mesquitas de todo o mundo. Contudo, em nenhum lugar do Alcorão aparecem as palavras desse azan, nem há em parte alguma uma instrução para fazer o azan cinco vezes por dia. Ele foi instituído por instrução do Profeta. O Alcorão o apoia em dois lugares: neste versículo da Surata Al-Jumu‘ah e no versículo 38 da Surata Al-Ma’idah. Tampouco há em qualquer lugar do Alcorão uma instrução sobre essa oração especial da sexta-feira, que todos os muçulmanos do mundo realizam, nem foram indicados seu horário e seu modo de realização. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) determinou pessoalmente seu horário e seu modo. O versículo do Alcorão em questão foi revelado apenas para explicar sua obrigatoriedade e importância. Apesar dessa prova clara e irrefutável, quem afirma que somente as instruções mencionadas no Alcorão são instruções da Sharia, na realidade não apenas nega a Sunnah e os hadiths, mas também nega o Alcorão.

As regras e o modo de realizar a oração

(Árabe********************************na página 291 do PDF)

“Viste aquele que impede um servo quando ele está orando?” — (Surata Al-‘Alaq: 9–10)

Aqui, “servo” significa o próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em vários lugares do Alcorão, o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é mencionado dessa maneira, como servo. Por exemplo:

(Árabe********************************na página 291 do PDF)

“Glorificado seja Aquele que levou Seu servo, durante uma noite, à Mesquita de Al-Aqsa.” – (Surata Al-Isrá: 1)

(Árabe********************************na página 291 do PDF)

“Todo louvor pertence a Allah, que revelou o Livro a Seu servo.” – (Surata Al-Kahf: 1)

(Árabe********************************na página 291 do PDF)

“E quando o servo de Allah se levantou para invocá-Lo, eles quase se lançaram sobre ele.” – (Surata Al-Jinn: 19)

Esses versículos mostram que o fato de Allah mencionar Seu Mensageiro em Seu Livro como Seu servo é uma forma especial e afetuosa de expressão. Esses versículos também indicam que, depois de conceder a profecia a Rasulullah (s.a.), Allah lhe ensinou o modo e o método de realizar a oração. Esse modo e método não são mencionados em nenhum lugar do Alcorão. Portanto, fica novamente comprovado aqui que Rasulullah não recebia apenas a revelação do Alcorão; muitas outras coisas que não estão no Alcorão também lhe eram ensinadas por meio da revelação.

 

Capítulo: 7 – A humanidade do Mensageiro

Profecia e humanidade

 

A visão jahilí: um profeta não pode ser humano

Em todas as épocas, os ignorantes alimentavam a conceção equivocada de que um ser humano não podia ser profeta. Assim, sempre que surgia um profeta, ao vê-lo viver com um corpo de carne e osso, alimentando-se e tendo esposa, filhos e família, concluíam: “Este não é um profeta, é um ser humano”. Porém, algum tempo depois da sua morte, surgiam entre os seus devotos e seguidores pessoas que começavam a proclamar que ele não era humano, pois era profeta. Desse modo, alguns aceitaram o profeta como Deus, outros como filho de Deus e outros ainda como uma encarnação de Deus. Em suma, estava além da compreensão das pessoas como uma mesma pessoa podia ser, ao mesmo tempo, profeta e ser humano.

A visão dos idólatras de Meca

Em primeiro lugar, os habitantes de Meca consideravam surpreendente que um ser humano pudesse ser profeta. Pensavam que, para trazer a palavra de Deus, deveria vir um anjo; um ser humano de carne e osso não poderia vir, pois precisava de alimento para sobreviver. Ainda assim, se um ser humano tivesse sido enviado como Mensageiro, ele deveria ser uma figura semelhante a um rei, soberano ou grande personalidade do mundo: alguém por cuja simples visão as pessoas ansiariam e cujo encontro fosse extremamente difícil e raro. Não poderia acontecer que um homem comum, como aquele que caminha pelo mercado fazendo o ruído seco dos seus passos com os sapatos, fosse feito profeta de Deus. Pensavam: quem respeitaria alguém que todo transeunte encontra livremente todos os dias e em quem ninguém consegue ver qualquer espécie de excepcionalidade? Em outras palavras, segundo eles, se de fato houvesse alguma necessidade de um profeta, não seria para orientar as pessoas comuns, mas para lhes mostrar feitos milagrosos e influenciá-las por meio de truques e artifícios. Ou, no mínimo, ele deveria ter consigo um anjo que carregasse sempre um chicote e dissesse às pessoas: “Obedeçam às palavras deste homem, ou farei descer sobre vocês imediatamente o castigo de Deus”. Para eles, era realmente muito estranho que o Criador do universo enviasse um homem completamente sozinho, conferindo-lhe a grandiosa posição de profeta; e Deus deveria, pelo menos, ter providenciado para o Mensageiro uma boa fonte de renda. Como poderia a situação financeira do Mensageiro de Deus ser mais miserável que a de um chefe comum entre nós? Um homem que não tem dinheiro algum, que não possui sequer um pomar de frutas, ousa afirmar: “Eu sou o profeta de Deus, Senhor de todos os mundos”.

Conceções jahilís sobre a profecia e os enviados por Deus

Entre os ignorantes estava sempre profundamente arraigada a falsa ideia de que aquele que fosse enviado por Deus teria necessariamente de ser uma entidade acima da condição humana. Deveriam ocorrer milagres por seu intermédio. Com um simples gesto, ele transformaria uma montanha em ouro. Daria uma ordem e, imediatamente, a montanha se tornaria ouro. Ele saberia tudo sobre as condições passadas e futuras dos seres humanos. Diria onde se encontravam as coisas perdidas, se um doente morreria ou sobreviveria e se no ventre de uma grávida havia um menino ou uma menina, um ser humano ou um animal. Além disso, teria de estar acima das fraquezas e limitações humanas. Aquele que sente fome e sede, precisa dormir, tem esposa, filhos e família, precisa satisfazer as suas necessidades por meio de compra e venda, necessita contrair dívidas e é obrigado a passar os dias atormentado pela pobreza e pela indigência — como poderia ser um homem enviado por Deus? Quando ouviam a reivindicação do Hazrat Rasul-e-Karim (que a paz esteja com ele), pessoas com esse tipo de conceção queriam saber dele os segredos e informações do mundo invisível e exigiam milagres. Ao vê-lo como um ser humano comum, diziam: “Que espécie de profeta é este, que come e bebe, vive no lar com esposa e filhos e circula por toda parte nos mercados e bazares?”

Por que é indispensável que o profeta seja humano?

Ao explicar o significado de enviar a Sua palavra (a mensagem inspirada) ao profeta, Allah, o Altíssimo, diz:

(Árabe********************************na página 296 do PDF)

“Ó Profeta! Fizemos descer esta Mensagem sobre ti para que expliques às pessoas a revelação que lhes foi enviada e as faças compreender.” — (Surata An-Nahl: 44)

Para que esse propósito do envio da revelação fosse alcançado, era indispensável que um ser humano se tornasse profeta. A mensagem de Allah poderia ter sido enviada por meio de um anjo. Poderia até ter sido enviada diretamente a cada pessoa na forma de um livro impresso. Porém, o propósito para o qual Allah, o Onisciente, o Infinitamente Misericordioso e o Majestoso Sustentador, enviou Sua mensagem, não poderia ser cumprido apenas fazendo-a chegar de mão em mão às pessoas. Por isso, era necessário um ser humano capaz, que trouxesse consigo essa mensagem e a recitasse pouco a pouco às pessoas. Ele explicaria àquele que não conseguisse compreendê-la bem. Dissiparia as dúvidas daquele em cujo coração houvesse alguma incerteza. Responderia àquele que tivesse alguma objeção ou queixa. Diante daqueles que não aceitassem suas palavras, se opusessem e criassem obstáculos, ele mostraria uma conduta digna de quem porta a mensagem de Allah. Aos que a aceitassem, daria orientações sobre cada aspecto e dimensão da vida. Apresentaria sua própria vida como modelo diante deles e, formando-os individual e coletivamente, estabeleceria perante o mundo inteiro uma sociedade exemplar, cujo sistema integral de normas seria considerado a interpretação prática da referida mensagem de Allah.

Para orientar a humanidade, somente um ser humano pode ser profeta

A tarefa do portador da mensagem (profeta) não se limita a vir e simplesmente transmitir sua mensagem. Sua tarefa consiste também em demonstrar, mediante a aplicação correta dos princípios fundamentais dessa mensagem a todas as situações humanas, como reformar e corrigir a vida humana à luz dela. Esses princípios também devem manifestar-se concretamente em sua própria vida. Ele precisa encontrar soluções para as muitas questões complexas que surgem na mente dos inúmeros tipos de pessoas que tentam ouvir e compreender sua mensagem. Deve organizar e formar aqueles que ouvem e aceitam seu convite, para que se estabeleça uma sociedade segundo os ensinamentos dessa mensagem. Precisa lutar contra aqueles que rejeitam e se opõem ao seu convite e erguem resistência contra ele, para que os defensores da deformação e do desvio sejam derrotados e se complete a obra de reforma e correção para a qual Allah enviou o profeta. Quando todas essas tarefas devem ser realizadas na própria sociedade humana, que outro ser, além de um ser humano, poderia ser enviado para isso? Se fosse enviado um anjo, no máximo ele transmitiria a mensagem de Allah e depois partiria. Viver entre os seres humanos como um deles, agir como eles e demonstrar, na vida humana, a obra de reforma e correção segundo a vontade de Allah está além da capacidade de um anjo. Para essa tarefa, ninguém poderia ser considerado mais adequado do que um ser humano.

 

A humanidade dos profetas

— Aqui são mencionados apenas alguns profetas: aqueles cuja condição humana é claramente afirmada pelo Alcorão ou sobre os quais os autores trataram detalhadamente. — (Os compiladores)

Adão (que a paz esteja com ele) era humano

(Árabe********************************na página 298 do PDF)

“Primeiro iniciei a criação de vocês, depois dei-lhes forma. Em seguida, ordenei aos anjos: Prostrai-vos diante de Adão.” – (Surata Al-A‘raf: 11)

O significado claro do que foi dito acima é o seguinte:

“Primeiro planejei a criação de vocês e preparei o material da criação. Depois dei a esse material forma humana. Em seguida, quando Adão (que a paz esteja com ele) passou a existir como um ser humano vivo, ordenei aos anjos que se prostrassem diante dele.”

A prostração ordenada diante de Adão (que a paz esteja com ele) não foi por ele ser Adão, mas por ser o representante da humanidade. Em outros lugares do Alcorão, esta é a explicação dada para este versículo. Por exemplo, encontra-se na quinta seção da Surata Sad:

(Árabe********************************na página 298 do PDF)

“Recorda-te do momento em que teu Senhor disse aos anjos: Decidi criar um ser humano a partir do barro. Quando o tiver formado completamente e soprado nele algo do Meu espírito, então caí prostrado diante dele.” – (Surata Sad: 71–72) – [Esta descrição prova que o primeiro profeta também era humano; essa é a crença unanimemente aceita no Islã. – (Autor)]

O honorável Noé (que a paz esteja com ele) era humano

(Árabe********************************na página 298 do PDF)

“(Noé) disse: Não vos digo que possuo os tesouros de Allah, nem digo que conheço o mundo do invisível. Também não afirmo ser um anjo. Tampouco posso dizer que Allah jamais concedeu algum bem àqueles que, aos vossos olhos, são desprezíveis. Allah conhece melhor a condição deles. Se eu dissesse tal coisa, estaria entre os injustos.” –(Surata Hud: 31)

Isso foi dito em resposta ao que os opositores afirmavam: “Tu és apenas um ser humano como nós”. Hazrat Noé diz: De fato, sou um ser humano. Acaso alguma vez afirmei ser outra coisa além de um ser humano, para que levantásseis essas objeções? Minha única afirmação é que Allah me mostrou o caminho reto e correto do conhecimento e da ação. Verificai a veracidade disso como quiserdes. Mas que espécie de verificação é essa, quando às vezes me perguntais sobre notícias do oculto e às vezes exigis coisas tão absurdas, como se todas as chaves dos tesouros de Allah estivessem em minhas mãos? E, outras vezes, questionais minha alimentação e meu modo de viver como um ser humano, como se eu tivesse afirmado ser um anjo. Àquele que afirma mostrar o caminho correto na crença, na moral e na organização social, podeis perguntar o que quiserdes sobre esses assuntos. Mas é espantoso que me pergunteis se a búfala prenhe de fulano dará à luz um macho ou uma fêmea. Parece que a gestação de uma búfala tem alguma relação com a determinação de princípios morais e civilizacionais infalíveis para a vida humana.

(Árabe********************************na página 299 do PDF)

“Os chefes de seu povo (de Noé) que se recusaram a segui-lo disseram: Este homem não passa de um ser humano como vós. Seu objetivo é obter domínio e superioridade sobre vós. Se Allah quisesse enviar alguém, teria enviado anjos. Nunca ouvimos, nos tempos de nossos antepassados, que um ser humano viesse como profeta. Não é nada disso. Na verdade, o homem enlouqueceu. Esperai mais algum tempo (talvez recupere a razão).” –(Surata Al-Mu’minun: 24–25)

“Um ser humano não pode ser profeta” — esta é uma concepção comum de todos os extraviados. Por isso, o Alcorão mencionou repetidamente essa concepção ignorante e a refutou. Afirmou com ênfase que todos os profetas eram seres humanos e que, para os seres humanos, o profeta deveria ser um ser humano.

(Árabe********************************na página 299 do PDF)

“Em resposta, os chefes de destaque de seu povo (de Noé) que se recusaram a segui-lo disseram: Aos nossos olhos, tu és apenas um ser humano como nós. E vemos que somente os de classe inferior entre nós, sem compreender nem refletir, aceitaram seguir-te.” –(Surata Hud: 27)

Esta é a velha desculpa e objeção dos ignorantes que os habitantes de Meca levantavam a respeito de Muhammad (que a paz esteja com ele), dizendo: ele é um ser humano comum como nós. Come, bebe, anda, dorme, acorda e tem família. Como podemos aceitar que ele veio como profeta da parte de Allah?

(Árabe********************************na página 300 do PDF)

“(O profeta Noé, que a paz esteja com ele, disse:) Acaso vos maravilhais que vos tenha chegado uma mensagem do vosso Senhor por intermédio de um homem pertencente à vossa própria gente, para que ele vos advirta, para que vos preserveis do caminho errado e talvez sejais agraciados? — (Surata Al-A’raf: 63)

Hud (que a paz esteja com ele) era um ser humano

(Árabe********************************na página 300 do PDF)

“Os líderes de seu povo que haviam cometido incredulidade, negado a vida futura e a quem Eu havia concedido bem-estar e prosperidade na vida terrena disseram: ‘Este homem não passa de um ser humano como vós. Ele come do que comeis e bebe do que bebeis. E, se obedecerdes a um ser humano como vós, certamente sereis perdedores’.” — (Surata Al-Mu’minun: 33–34)

Algumas pessoas entenderam equivocadamente que eles diziam essas coisas uns aos outros. Não, não era assim. Seus líderes dirigiam essas palavras ao povo comum. Os líderes temiam que as pessoas talvez fossem influenciadas pela personalidade pura do profeta e por seu discurso cativante; e, se fossem influenciadas, sobre quem exerceríamos nossa liderança? Por isso, começaram a desorientar o povo com discursos repetidos. Diziam que toda essa história de profecia não era nada. Que ele dizia essas coisas apenas por ambição de poder e fascínio pelo trono. Irmãos! Ele é um ser humano de carne e osso, assim como vós. Não há absolutamente nenhuma diferença entre ele e vós. Sendo assim, por que ele deveria ser um líder, e por que deveríeis obedecer-lhe? No meio dessas palavras, parecia haver um reconhecimento incontestável de que eles tinham líderes e chefes, e que a liderança deveria pertencer a eles. Em sua concepção, não havia dúvida de que eram seres humanos de carne e osso e que comiam e bebiam. Afinal, isso já estava naturalmente estabelecido e era uma verdade evidente por si mesma. A questão agora era essa nova liderança, que se começava a ver estabelecida. Mais tarde, os que se opuseram a qualquer recém-chegado fizeram-no levantando unicamente a acusação de ‘fascínio pelo poder’. Sempre que percebiam ou suspeitavam que essa característica existia num recém-chegado, suas palavras ecoavam exatamente as palavras daqueles chefes. Além da ambição de poder e de posição, nada mais lhes parecia digno de objeção. Contudo, no caso deles próprios, não era permitido levantar a acusação de ‘ambição de poder’. Era como se isso fosse seu alimento natural. Mesmo que sofressem indigestão por consumir esse alimento em excesso, não se poderia fazer objeção a isso.

(Árabe***********************************na página 301 do PDF)

“Ele (isto é, Hazrat Hud) disse: Ó meu povo! Não estou envolvido em nenhuma insensatez. Sou o Mensageiro do Senhor dos mundos. Transmito-vos as palavras do meu Senhor. E sou, para vós, um conselheiro digno de confiança. Uma admoestação de Allah chegou-vos por meio de um homem dentre vós, para vos advertir. Acaso vos maravilhais?” – (Surata Al-A’raf: 67-69)

(Árabe***********************************na página 301 do PDF)

“Eles disseram: Se o nosso Senhor quisesse, teria enviado anjos. Portanto, não cremos naquilo para cuja missão fostes enviados.” – (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 14)

Hazrat Salih e Shuayb eram seres humanos

(Árabe***********************************na página 301 do PDF)

“Eles (o povo de Samud) responderam: Foste enfeitiçado. O que és, senão um ser humano como nós? Se és veraz, apresenta um sinal.” – (Surata Ash-Shu’ara: 153-154)

(Árabe***********************************na página 301 do PDF)

“Eles disseram: Foste enfeitiçado. E não és senão um ser humano como nós. Consideramos-te um mentiroso.” – (Surata Ash-Shu’ara: 185-186)

Hazrat Moisés e Aarão eram seres humanos

O Faraó disse a seus conselheiros a respeito de Hazrat Moisés e Aarão:

(Árabe***********************************na página 302 do PDF)

“O Faraó começou a dizer: acaso devemos crer em dois seres humanos como nós? E ainda por cima em dois homens cujo povo é nosso escravo”.

Todos os profetas eram seres humanos

(Árabe***********************************na página 302 do PDF)

“Seus mensageiros lhes disseram: na verdade, não somos senão seres humanos como vós. Porém, Allah favorece, dentre Seus servos, quem Ele quer” — (Surata Ibrahim: 11)

Isto é, somos seres humanos, não há dúvida quanto a isso. No entanto, Allah, por Sua graça, escolheu-nos dentre vós para nos conceder conhecimento da verdade e plena visão. Não temos qualquer participação nisso. Trata-se de uma questão que pertence à autoridade de Allah: Ele concede a Seus servos aquilo que quer. Não podemos dizer que transmitiremos a vós tudo o que nos chegou. Tampouco podemos fechar os olhos para as verdades que chegamos a conhecer.

(Árabe***********************************na página 302 do PDF)

“Eles responderam aos mensageiros: ‘Vocês não passam de seres humanos como nós. Querem afastar-nos das divindades que temos adorado desde os tempos de nossos antepassados. Então, apresentem-nos uma prova clara’.” – (Surata Ibrahim: 10)

O que eles diziam era: vocês são, em todos os aspectos, seres humanos como nós. Comem e bebem, dormem, têm esposas e filhos, sentem fome e sede, doença e tristeza, frio e calor, exatamente como nós; e possuem as mesmas fraquezas humanas que nós. Não vemos em vocês nada de extraordinário. Nessas circunstâncias, como poderemos aceitar que vocês sejam mensageiros enviados, que Allah fale com vocês e que os anjos venham até vocês?

 

O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) também era humano

Os incrédulos de Meca diziam que Muhammad (que a paz esteja com ele) não era um mensageiro, pois era um ser humano.

(Árabe***********************************na página 303 do PDF)

“Eles dizem: ‘Que espécie de mensageiro é este, que come alimentos e anda pelos mercados?’”

(Árabe***********************************na página 303 do PDF)

“Esses opressores cochicham entre si: «O que é este homem (Muhammad, que a paz esteja com ele), senão um ser humano como vós? Ainda assim, sereis vítimas da magia mesmo vendo e ouvindo?» — (Surata al-Anbiya: 3)

Antigas concepções da Jahiliyyah

O Sagrado Alcorão, ao refutar essa concepção jahilita dos incrédulos de Meca, diz que isso não é uma nova forma de ignorância que tenha surgido entre eles pela primeira vez. Pelo contrário, desde tempos imemoriais, todos os ignorantes estavam presos à falsa ideia de que um ser humano jamais poderia ser mensageiro, e que um mensageiro jamais poderia ser um ser humano. Quando os líderes e chefes do povo de Noé rejeitaram a missão profética de Noé, disseram:

(Árabe***********************************na página 303 do PDF)

“Este homem não é senão um ser humano como vós. Ele quer impor-se sobre vós. Se Allah quisesse, teria enviado anjos. Jamais ouvimos de nossos antepassados algo como isto: que um ser humano viesse como mensageiro”.

O povo de ‘Ad também disse o mesmo a respeito do profeta Hud:

(Árabe***********************************na página 303 do PDF)

“Este homem não é senão um ser humano como vós. Ele come do que vós comeis e bebe do que vós bebeis. Se obedecerdes a um ser humano como vós, então certamente estareis entre os grandes perdedores”. — (Surata al-Mu’minun: 33–34)

O povo de Samud disse o mesmo a respeito do honrado Salih (que a paz esteja com ele):

(Árabe***********************************na página 303 do PDF)

“Acaso haveremos de obedecer a um simples ser humano dentre nós?” — (Surata Al-Qamar: 24)

Quase todos os profetas se depararam com situações desse tipo. Os incrédulos diziam justamente: —(Árabe********) “Vós não sois senão seres humanos como nós mesmos.” E os profetas lhes respondiam:

(Árabe***********************************na página 304 do PDF)

“Na verdade, não somos senão seres humanos como vós. Porém, Deus favorece, dentre os Seus servos, a quem deseja.” — (Surata Ibrahim: 11)

Obstáculo no caminho da orientação

Em seguida, o Alcorão Sagrado afirma que foi justamente essa concepção ignorante que, em todas as épocas, manteve as pessoas afastadas de aceitar a orientação. E foi por essa razão que a humilhação e o sofrimento se abateram sobre diversos povos.

(Árabe***********************************na página 304 do PDF)

“Acaso não recebestes notícias daqueles que anteriormente descreram e provaram o resultado de seus próprios atos, e para os quais está reservado um castigo ainda mais doloroso? Isso lhes aconteceu porque seus mensageiros lhes chegaram com provas incontestáveis. Mas eles diziam: ‘Será que um ser humano nos guiará?’ Por isso descreram e se afastaram.” — (Surata At-Taghabun: 5–6)

(Árabe***********************************na página 304 do PDF)

“Quando a orientação chegou às pessoas, o único obstáculo para que acreditassem nela foi o que diziam: ‘Será que Allah enviou um ser humano como mensageiro?’” — (Surata Bani Isra’il: 94)

Já foi dito anteriormente que, em todas as épocas, as pessoas alimentavam a falsa ideia de que um ser humano jamais poderia ser profeta. Por isso, sempre que um mensageiro surgia, ao vê-lo comer e beber, viver com sua família e ser um ser humano de carne e osso, concluíam que ele não era profeta. Afinal, ele era humano. Novamente, algum tempo após a morte de um profeta, surgiu entre seus admiradores e devotos um grupo de pessoas que começou a dizer que ele não era humano, pois era profeta. Depois, alguns passaram a chamá-lo de filho de Deus, enquanto outros o chamaram de encarnação de Deus. Em suma, como poderiam a profecia e a humanidade coexistir no mesmo ser? Isso permaneceu, para os ignorantes, um mistério insondável por toda a eternidade.

Os seres humanos sempre foram feitos mensageiros

O Sagrado Alcorão declarou, em linguagem clara e inequívoca, que Allah sempre enviou seres humanos como mensageiros. Com efeito, para orientar os seres humanos, somente um ser humano pode ser mensageiro; não um anjo nem qualquer ser superior ao ser humano.

(Árabe***********************************na página 305 do PDF)

“Ó Profeta! Antes de ti, enviei apenas seres humanos como mensageiros, aos quais Eu enviava a revelação. Se não sabeis disso, perguntai aos conhecedores. Não lhes demos — aos profetas — corpos que não comessem alimentos, nem eram imortais.” — (Surata Al-Anbiya: 7–8)

(Árabe***********************************na página 305 do PDF)

“Ó Profeta! Dize-lhes: ‘Se houvesse anjos caminhando tranquilamente pela Terra, Eu lhes enviaria certamente um anjo como mensageiro’.”

(Árabe***********************************na página 305 do PDF)

“Ó Muhammad! Todos os profetas que enviamos antes de ti eram seres humanos. Eram habitantes das cidades, e Nós lhes enviávamos a revelação. Acaso não viajaram pela Terra para ver qual foi o fim das nações que os precederam? Em verdade, a morada da Outra Vida é muito melhor para aqueles que viveram com taqwa, conforme os ensinamentos dos profetas. Ainda assim, não compreendereis?” — (Surata Yúsuf: 109)

Aqui, um assunto grandioso foi expresso em apenas duas ou três frases; quando explicado em detalhes, ele se apresenta assim:

Eles não dão ouvidos às tuas palavras porque como poderiam acreditar que aquele que, apenas até o dia anterior, havia nascido na própria cidade deles e crescido diante dos seus olhos, de criança a jovem e de jovem a ancião, foi subitamente escolhido por Allah, um dia, como Seu mensageiro? Mas não é algo inédito que eles tenham sido os primeiros a enfrentar isso no mundo. Antes deles, Allah já havia enviado muitos profetas, e todos eram seres humanos. Um profeta jamais surgiu de tal maneira que, de repente, um desconhecido aparecesse numa cidade e dissesse ter sido enviado como profeta. Pelo contrário, todos aqueles que foram enviados para reformar e corrigir as pessoas eram habitantes da própria localidade em questão. Hazrat Jesus, Moisés, Abraão e Noé (que a paz esteja sobre eles) não eram desconhecidos nem estranhos. Apesar disso, ide vós mesmos e vede qual foi o destino das nações e comunidades que não deram ouvidos ao chamado dos profetas para a purificação e continuaram a seguir pensamentos infundados, fantasias ilusórias e desejos desenfreados. Em vossas viagens comerciais, passastes pelas áreas devastadas dos povos de Ad, Samud, Madian e Lot (que a paz esteja sobre ele). Acaso não encontrastes ali alguma lição? O destino que enfrentaram neste mundo mostra que, na Outra Vida, sofrerão um destino ainda mais terrível. E aqueles que se corrigiram neste mundo não foram felizes apenas nele; na Outra Vida, seu destino também será muito melhor.

A diferença entre o cego e o vidente

(Árabe***********************************na página 306 do PDF)

“Ó Muhammad! Dize-lhes: ‘Eu não vos digo que possuo os tesouros de Allah, nem afirmo ser um anjo. Sigo apenas aquilo que me é revelado. Pergunta-lhes: podem o cego e o que vê ser iguais? Não refletis?’” — (Surata Al-An’am: 50)

Isto é, vi com os meus próprios olhos as verdades e informações que vos apresentei e tive experiência direta delas. Por meio da revelação, essas informações foram-me comunicadas com precisão, e o meu testemunho a respeito delas é um testemunho ocular. Vós, por outro lado, sois ignorantes acerca dessas informações, pois as vossas conceções a respeito delas se baseiam unicamente na imaginação ou na imitação cega. Assim, a diferença entre vós e nós é a mesma que existe entre o cego e aquele que vê. Portanto, não sou superior a vós porque os tesouros de Allah estejam comigo, porque conheça o invisível ou porque esteja acima das fraquezas humanas.

(Árabe***********************************na página 306 do PDF)

“Ó Profeta! Antes de ti, enviei muitos mensageiros, e a todos eles concedi esposas e filhos.” — (Surata Ar-Ra’d: 38)

Esta é a resposta a algumas críticas dirigidas ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Eles diziam: “Que espécie de profeta é este, que tem esposa e filhos? Que relação pode um profeta ter com os desejos da paixão?”

O profeta deveria ter sido um anjo (?)

(Árabe***********************************na página 307 do PDF)

“Quando os mensageiros de Deus vieram até eles, pela frente e por trás, e lhes disseram: ‘Não adoreis ninguém além de Deus’, eles responderam: ‘Se o nosso Senhor quisesse, teria enviado anjos. Portanto, não acreditamos naquilo para o qual fostes enviados’.” – (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 14)

Isto é, se a nossa religião atual não agradasse a Deus e Ele quisesse enviar algum mensageiro para nos impedir de seguir essa religião, teria enviado anjos. Já que não sois anjos, mas seres humanos como nós, não acreditamos que Deus vos tenha enviado, nem que vos tenha enviado com o objetivo de que abandonemos a nossa religião e adotemos a religião que apresentais. A afirmação dos incrédulos — “não acreditamos naquilo para o qual foste enviado” — era sarcástica. Isso não significa que eles reconhecessem que eram enviados por Deus e apenas desobedecessem às suas palavras. Esse tipo de sarcasmo foi dirigido pelo faraó também a Moisés. Ele disse aos seus conselheiros:

(Árabe***********************************na página 307 do PDF)

“O mensageiro que vos foi enviado parece completamente louco.” – (Surata Ash-Shu’ara: 27)

Se fosse um profeta, seria rico

(Árabe***********************************na página 307 do PDF)

“Eles dizem: ‘Por que este Alcorão não foi revelado a algum homem importante de uma das duas cidades?’” – (Surata Az-Zukhruf: 31)

Aqui, as duas cidades significam Meca e Taife. A alegação dos incrédulos era: se Deus realmente precisasse enviar algum mensageiro e quisesse revelar um Livro a ele, então teria escolhido para isso alguma pessoa importante de uma dessas nossas duas cidades centrais. E, para escolher como mensageiro, foi justamente alguém assim que Ele encontrou: um órfão desde o nascimento, que não possuía sequer um centavo de herança paterna, que passou a juventude pastoreando cabras, que atualmente vivia negociando com o dinheiro da esposa, que não era chefe de nenhuma tribo nem ancião de nenhuma linhagem. Em Meca, não havia chefes renomados como Ualide ibne Mugira e Utba ibne Rabia? Em Taife, não havia homens de destaque como Urwa ibne Massude, Habibe ibne Amr, Quinana ibne Abde Amr e ibne Abde Ialil? Esse era o argumento dos incrédulos. A princípio, eles nem sequer estavam dispostos a aceitar que um ser humano pudesse ser mensageiro. Porém, o Alcorão refutou completamente essa ideia, repetidas vezes, com argumentos e provas, e lhes disse que, antes disso, sempre tinham vindo seres humanos como mensageiros; que, para orientar os seres humanos, somente um ser humano poderia ser mensageiro, e que ninguém além de um ser humano poderia realizar essa tarefa. Além disso, nenhum mensageiro que veio ao mundo desceu repentinamente do céu; pelo contrário, nasceu em habitações humanas, andou pelos mercados e feiras, foi pai de filhos e não se abstinha sequer de comer e beber.

Ao ouvir esses argumentos do Alcorão, eles começaram uma nova estratégia e disseram: não há problema em que seja realmente um ser humano. Mas ele teria de ser necessariamente um homem famoso, rico e influente. Teria de ser um grande líder e exercer enorme influência e autoridade sobre o povo. Como poderia Muhammad ibn Abdullah ser digno de tal posição?

A questão da subsistência do Profeta (que a paz esteja com ele)

(Árabe***********************************na página 308 do PDF)

“Eles dizem: que tipo de Mensageiro é este, que come e bebe e anda pelos mercados? Por que não lhe foi enviado um anjo, para que permanecesse com ele e advertisse os desobedientes?” — (Surata Al-Furqan: 7)

Ou seja, em primeiro lugar, já seria algo espantoso que um ser humano fosse Mensageiro. Se alguém tivesse de vir trazendo a mensagem de Allah, deveria ser um anjo, não um ser humano de carne e osso, que necessita de alimento para sobreviver. Mesmo admitindo que um ser humano tivesse sido feito Mensageiro, ele deveria ser, no mínimo, um rei ou alguma outra grande personalidade do mundo — alguém que todos ansiassem por ver nem que fosse uma única vez e cuja audiência só pudesse ser obtida após grande esforço e empenho. Mas, em vez disso, um homem comum foi feito mensageiro do Criador do universo. Um homem que percorre o mercado fazendo o ruído de seus sapatos ao caminhar. Um transeunte comum que qualquer pessoa vê todos os dias e em quem não se percebe nada de extraordinário. Quem o olharia com reverência? Em outras palavras, segundo eles, mesmo que houvesse alguma necessidade de um profeta, não seria para orientar as pessoas, mas para realizar atos miraculosos ou dominar o povo exibindo seus truques e artifícios.

(Árabe***********************************na página 308 do PDF)

“Ó Muhammad! Também todos os Mensageiros que enviei antes de ti comiam e andavam pelos mercados. Na realidade, fizemos de uns de vós um meio de provar os outros. Será que tereis paciência? O teu Senhor tudo vê.” — (Surata Al-Furqan: 20)

‘Que tipo de Mensageiro é este, que come e bebe e anda pelos mercados?’ A resposta a essa pergunta dos incrédulos de Meca foi dada no versículo acima. É importante lembrar aqui que os incrédulos de Meca conheciam Noé, Abraão, Ismael, Moisés e muitos outros profetas. Eles reconheciam inclusive a missão profética deles. Houve algum profeta anterior que não comesse nem andasse pelos mercados? É por isso que se diz: por que essa pergunta tão estranha a respeito de Muhammad (que a paz esteja com ele)? Tomemos o próprio Jesus (que a paz esteja com ele) como exemplo: os cristãos fizeram dele o filho de Allah, e os incrédulos de Meca haviam colocado sua estátua na Caaba. Esse mesmo Jesus, segundo o relato da Bíblia, também comia e andava pelos mercados.

(Árabe***********************************na página 308 do PDF)

“Ó Muhammad! Antes de ti, também enviei apenas seres humanos como Mensageiros e lhes revelei. Se não sabeis disso, perguntai ao Povo do Livro. Acaso lhes dei corpos que não necessitassem de alimento? E eles tampouco eram imortais.” — (Surata Al-Anbiya: 7–8)

“Este homem não é nada além de um ser humano como vós.” A resposta à afirmação dos incrédulos é dada no versículo acima. Eles apresentavam o fato de o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) ser humano como prova de que ele não era profeta. Em resposta, é dito que todos os grandes homens de épocas passadas, que reconheceis como enviados de Allah, eram seres humanos e, enquanto humanos, recebiam a revelação de Allah.

 

Capítulo: 8 — A Religião da Verdade

A concepção jahilí e a concepção islâmica sobre a religião

Antes de o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) receber a profecia, a concepção geral sobre a religião predominante no mundo era que ela constituía apenas um aspecto ou uma divisão entre as muitas divisões da vida. Em outras palavras, a religião era considerada um apêndice da vida mundana do ser humano, para que pudesse ser usada como um certificado de salvação na vida futura. A religião estava relacionada somente ao vínculo entre o ser humano e Deus. Aquele que desejasse alcançar a salvação na vida futura com uma posição elevada deveria romper com todas as outras esferas da vida e dedicar-se exclusivamente a essa esfera. Porém, quem não aspirasse a uma posição tão elevada, mas considerasse suficiente obter a salvação de qualquer maneira, desejando ao mesmo tempo que Deus o contemplasse com alguma benevolência na vida terrena e continuasse a conceder-lhe sucesso e progresso nos assuntos mundanos, julgava suficiente inserir a religião como um apêndice da vida terrena. Segundo a concepção jahilí, todos os afazeres mundanos continuariam sendo conduzidos de acordo com as regras e normas vigentes; além disso, algumas cerimônias e costumes religiosos seriam observados para manter Deus satisfeito. A relação do ser humano consigo mesmo, com os demais seres humanos e com o ambiente ao seu redor era completamente distinta da relação entre ele e seu Deus. Não havia qualquer conexão entre as duas.

Essa era a concepção da jahiliyyah sobre a religião. Não era possível estabelecer, com base nela, qualquer civilização e cultura humanas. Por civilização e cultura entende-se a totalidade da vida humana. Portanto, é evidentemente impossível fundamentar a vida inteira em algo que constitui apenas um apêndice dela. É por isso que, em todos os lugares do mundo e ao longo de toda a história, a religião, de um lado, e a civilização e a cultura, de outro, permaneceram separadas e apartadas. Embora essas duas coisas não pudessem deixar de influenciar-se em maior ou menor grau, essa influência era contraditória e multidirecional, como ocorre com a resultante da reunião de muitos elementos. Por isso, em lugar algum se viu essa influência produzir frutos. Quando a religião influenciou a civilização e a cultura, criou-se uma tendência ao ascetismo, à aversão aos vínculos materiais, à indiferença aos prazeres e deleites mundanos, ao desligamento do mundo dependente dos recursos materiais, ao individualismo nas relações humanas, à hostilidade e à estreiteza de visão.

Essa influência não foi, de modo algum, promotora do desenvolvimento; ao contrário, foi uma enorme pedra no caminho do progresso e da prosperidade mundanos. Por outro lado, quando a civilização e a cultura fundamentadas no materialismo e na adoração dos desejos instintivos exerceram influência sobre a religião, corromperam-na. Essa civilização e cultura introduziram na religião toda a sujeira e impureza da adoração dos desejos. Consequentemente, as práticas extremamente sujas e repugnantes que se desejava realizar eram revestidas de uma aparência religiosa, para que nem a própria consciência pudesse censurá-las, nem outra pessoa pudesse dizer algo contra elas. Como efeito dessa influência, vemos, em certos ritos e cerimônias religiosas, métodos e práticas de culto ao prazer, satisfação da luxúria e desavergonhamento que até os correligionários de fora do âmbito religioso classificam como religião.

Mesmo deixando de lado a relação mútua entre religião e civilização, torna-se evidente esta verdade: em toda parte do mundo, o palácio da civilização e da cultura foi erguido sobre os alicerces da irreligiosidade e da falta de caráter. E, com base nos desejos de suas próprias inclinações e em suas experiências deficientes, as pessoas mundanas também praticaram alguns ritos e cerimônias religiosas para realizar, a seu bel-prazer, todas as atividades e ocupações mundanas e todas as suas próprias atividades e ocupações. Embora essas atividades fossem consideradas sem defeitos em suas respectivas épocas, posteriormente ficou comprovado que eram deficientes. Como a religião não passava, para elas, de um mero apêndice da vida, mesmo quando presente, permaneceu apenas como tal. Esse apêndice podia associar-se a toda espécie de desigualdade social e a toda espécie de confusão cultural. Como apêndice, essa religião coexistiu com a fraude e o banditismo, com atividades destrutivas e subversivas, com a usura, a avareza, o adultério e a prostituição.

A concepção abrangente e integral do dīn

O objetivo pelo qual o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) foi enviado não era outro senão o de refutar as concepções jahilí, isto é, não islâmicas, acerca da religião e apresentar uma concepção intelectual e reflexiva. E não se limitaria a apresentá-la; antes, estabeleceria, com base nela, um sistema completo de civilização e cultura, demonstrando sua condução bem-sucedida. Ele declarou que, se a religião fosse apenas um apêndice da vida humana, seria completamente desprovida de sentido. Também seria errado chamar tal coisa de religião. Na realidade, o dīn é aquilo que não é uma parte da vida, mas a vida inteira: sua força vital e propulsora, sua força de compreensão e sentimento, seu pensamento e sua visão de mundo, o critério para determinar o bem e o mal. Em cada aspecto da vida e a cada passo, ele distingue o caminho correto e reto do caminho tortuoso, protege contra o desvio, concede força para permanecer firme no caminho verdadeiro e correto e avançar, e ajuda o ser humano a atravessar, com sucesso e felicidade, cada etapa da interminável jornada da vida, deste mundo até a Outra Vida.

O nome desta religião é Islã. Ela não veio para ser um apêndice da vida. Na verdade, se, de acordo com a antiga concepção jahilí, ela for aceita como um simples apêndice da vida, o próprio propósito de sua vinda e manifestação será frustrado. Ela veio para informar o ser humano desta verdade a respeito da relação entre Deus e o ser humano e da relação do ser humano com toda a criação: essas categorias de relações não são separadas nem estão dissociadas umas das outras; ao contrário, são apenas partes inseparáveis e integradas de um todo. A salvação e o sucesso integral do ser humano dependem do estabelecimento de uma ligação correta e de uma harmonização adequada entre elas. Se a relação entre o ser humano e seu Criador não for correta, a relação do ser humano com a criação não poderá ser correta. Portanto, essas duas relações aperfeiçoam e purificam uma à outra e, juntas, constroem uma vida bem-sucedida. A verdadeira função da religião é preparar o ser humano, mental e ativamente, para essa vida bem-sucedida. A religião que não cumpre essa função não é religião alguma. E a religião que cumpre essa função é o Islã. Por isso, Allah disse:(Árabe***************) “A única religião aceita por Allah é o Islã”.

Uma linha de pensamento e uma visão de mundo específicas

O Islã é uma atitude mental específica e uma perspectiva particular sobre a vida inteira. Além disso, é um método de ação específico, determinado por essa atitude mental e por essa perspectiva. A estrutura formada por meio dessa atitude mental e desse método de ação é o Islã; é também a civilização islâmica e o tamaddun islâmico. Aqui, religião e tahdhīb-tamaddun não são coisas separadas, mas, em conjunto, formam um todo único. Essa mesma atitude mental e essa filosofia de vida resolvem todos os problemas da vida. Essa filosofia de vida determina quais são os direitos de Deus sobre o ser humano, os direitos do ser humano sobre sua própria pessoa, os direitos dos pais, da esposa e dos filhos, dos parentes, dos vizinhos, das pessoas com quem se realizam transações, dos relacionados, dos correligionários e dos seguidores de outras religiões, dos inimigos e dos amigos — em suma, os direitos de toda a humanidade e de cada objeto e força do universo — e estabelece entre eles pleno equilíbrio e justiça. O fato de uma pessoa ser muçulmana é garantia suficiente de que ela cumprirá todos esses direitos com plena justiça e não destruirá injustamente um direito em favor de outro. Depois, essa atitude mental e essa filosofia de vida estabelecem um elevado objetivo moral e um destino espiritual puro e sagrado para a vida humana. E procuram conduzir todos os esforços e empenhos da vida, qualquer que seja seu campo, por um caminho que, sob todos os aspectos, gire em torno desse mesmo centro.

O critério decisivo dos valores

O centro mencionado é uma questão decisiva. O valor de tudo é determinado por ele, e todas as coisas são examinadas segundo esse critério. Tudo aquilo que contribui para alcançar esse objetivo central é aceito, enquanto tudo o que constitui um obstáculo é abandonado e rejeitado. Esse padrão é igualmente aplicado desde as questões mais pequenas e insignificantes da vida individual até às grandes questões da vida social e coletiva. É esse padrão que determina a que limites uma pessoa deve atentar e que regras e restrições deve observar no consumo de alimentos e bebidas, no vestuário, nas relações entre homens e mulheres, nas transações, na fala — em suma, em todos os aspectos da vida — para que possa permanecer e avançar no caminho que conduz ao seu destino, sem desviar-se dele e começar a seguir uma via tortuosa. Pelo mesmo padrão também se determina segundo que princípios devem ser estabelecidos os vínculos das relações mútuas entre os indivíduos na vida coletiva, para que as atividades sociais, econômicas e políticas, bem como os demais caminhos da vida social que levam ao afastamento do objetivo, não sejam seguidos. E os objetos do céu e da terra que vierem ao alcance do ser humano e forem submetidos ao seu domínio deverão ser utilizados por ele de tal modo que possam contribuir para a realização de seu propósito. Também se determina quais meios favorecem o avanço no caminho do objetivo e quais meios devem ser evitados, para que, nas relações de amizade e inimizade com grupos não islâmicos, na guerra e na paz, na consecução e na distinção dos objetivos, na vitória e na condição de vencido, na aquisição de conhecimento e tecnologia e no intercâmbio de civilização e cultura, o grupo islâmico siga determinados princípios; assim, em todos esses aspectos das relações externas, não se desvie do objetivo estabelecido, mas, tanto quanto possível, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente, aceite também a ajuda e a cooperação dos ignorantes e desviados da humanidade para a realização desse propósito. Pois, por sua natureza, o objetivo deles também é o mesmo que o dos seguidores do Islã.

Da mesquita até o campo de ação mais amplo

Em suma, é a mesma visão que transforma todas as atividades, esforços e empenhos da vida, bem como todos os setores e ramificações do pensamento e da ação, desde a mesquita até o mercado e o campo de trabalho, desde os métodos de adoração até os métodos de operação do rádio e do avião, desde os pormenores das normas relativas à ablução, ao banho, à pureza e às necessidades fisiológicas até as questões importantes da política social, da economia, da política e das relações internacionais, e desde a educação elementar até a observação final dos sinais do reino da natureza e a investigação das grandes teorias das leis naturais, em uma única entidade cujas partes apresentam uma continuidade e uma conexão orientadas por um propósito. Em seguida, essas partes são ligadas umas às outras, como as peças de uma máquina, de tal modo que, depois de posta em funcionamento, a máquina produz um resultado uniforme.

Uma doutrina revolucionária

No mundo religioso, esta era uma doutrina revolucionária. Contudo, essa doutrina não conseguiu encontrar lugar nas mentes e nos corações dominados pelas concepções da jahiliyyah. O mundo de hoje está muito mais avançado em conhecimento e ciência do que no século VI cristão. Apesar disso, ainda existe tanta ignorância e superstição cega que, assim como os ignorantes da antiga jahiliyyah não conseguiram aceitar essa doutrina revolucionária, os jovens altamente instruídos das renomadas universidades da Europa também não conseguiram compreendê-la. A influência da falsa concepção sobre a religião, transmitida de geração em geração há milhares de anos, continua profundamente arraigada em suas mentes e corações. Mesmo após uma elevada formação em crítica baseada na razão e em investigação científica, sua boa compreensão não despertou. Não é de admirar que aqueles que vivem nas celas escuras das khanqahs e das mesquitas entendam por religiosidade sentar-se em retiro repetindo «Allah, Allah» e considerem a devoção ao dīn limitada ao âmbito da adoração, pois eles são, sem dúvida, supersticiosos. Também não é de admirar que as massas ignorantes considerem a religião limitada às procissões de taʿziya do Muharram, com tambores e cerimônias, às canções e músicas, e ao conhecimento das questões jurídicas; afinal, são ignorantes. Mas o que aconteceu com esses nossos anciãos, guardiões da luz do conhecimento, para que a escuridão da decadência não se dissipe de seus corações? Eles também consideram o Islã uma religião no mesmo sentido em que um não muçulmano, dominado por concepções jahilies, o considera.

O que é o dīn da verdade?

— [Discurso proferido na Jamia Millia, em Délhi, em 1º de março de 1943.]

A maneira como o Qurʾān convoca a humanidade à ideologia que apresenta, juntamente com a reivindicação que faz, é a seguinte, em suas próprias palavras:

(Árabe***********************************na página 317 do PDF)

“Para Allah, a única religião é o Islã.” — (Surata آل عمران, 19)

Geralmente, explica-se esta frase do Alcorão de maneira tão simples que se diz: para Allah, a única religião verdadeira é o Islã. E a concepção comum das pessoas sobre o “Islã” é que ele é o nome de uma religião. Essa religião teria surgido na Arábia há mil e trezentos anos, e o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) teria lançado seus fundamentos. Usei deliberadamente as palavras “teria lançado seus fundamentos”. Isso porque não são apenas os não muçulmanos; também um número considerável de muçulmanos instruídos chama e escreve que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) foi o fundador do Islã. A ideia é que o Islã teria começado com ele e que ele próprio seria seu fundador (Founder). Por isso, quando um não muçulmano chega a esta frase enquanto estuda o Alcorão, pensa que, assim como todas as religiões proclamam ser verdadeiras e declaram falsas e inválidas as demais, o Alcorão também está declarando verdadeira a religião que apresenta. Pensando assim, ele passa por cima do versículo e prossegue. Do mesmo modo, quando um muçulmano lê este versículo, também não sente necessidade de refletir e investigar. Afinal, ele próprio acredita que a religião declarada nesta frase como fundada sobre a verdade é realmente assim. Ou, se isso provocar nele algum impulso para pensar, geralmente será porque considera necessário provar a verdade do Islã comparando-o com o hinduísmo, o budismo, o cristianismo e outras religiões semelhantes. Na realidade, porém, esta frase do Alcorão é de tal natureza que um pensador sedento de conhecimento deveria refletir profundamente sobre ela. É necessário pensar sobre isso muito mais do que se pensou até agora.

Para compreender devidamente esta afirmação do Alcorão, devemos primeiro apreender o significado das duas palavras “al-dīn” e “al-Islã”.

O significado de al-dīn

Na língua árabe, a palavra “dīn” é usada em vários sentidos. Um deles é vitória, poder, subjugação e domínio. Outro é obediência e servidão. O terceiro é retribuição e recompensa. O quarto é método, sistema e código de vida. Aqui, a palavra é usada no quarto sentido. Ou seja, dīn significa o sistema e as normas de vida, ou o método de pensamento e ação, que devem ser seguidos.

Mas é preciso lembrar que o Alcorão não diz apenas “dīn”; diz “al-dīn”. Em inglês, a diferença de significado entre dizer “This is a way of life” e dizer “This is the way of life” é exatamente a que ocorre aqui. Em outras palavras, a afirmação do Alcorão não é que, para Allah, o Islã seja um sistema de vida entre outros. Sua afirmação é que somente o Islã é o verdadeiro e correto método de vida, ou método de pensamento e ação.

Além disso, é preciso lembrar que o Alcorão não empregou esta palavra em sentido estreito ou limitado, mas em seu sentido mais amplo. Sistema ou método de vida não significa o método de algum aspecto ou setor específico da vida, mas o método da sociedade inteira em sua totalidade. Não significa o método de vida de um país, povo ou época específicos, mas o método de vida individual e coletivo de todas as pessoas de todas as épocas. Portanto, o sentido da afirmação do Alcorão não é que uma combinação correta de adoração a Deus, crenças relativas ao mundo transcendente e concepções sobre a vida após a morte seja algo chamado Islã. Tampouco significa que Islã seja o nome de um sistema puro de pensamentos e ações religiosas dos indivíduos — no sentido restrito em que a palavra “religião” foi adotada na terminologia ocidental. Além disso, o sentido da afirmação do Alcorão não é que um sistema de vida puro e correto tenha sido denominado Islã para os habitantes da Arábia, ou para toda a humanidade até determinado século, ou para aqueles que viveram no mundo antes da Revolução Industrial. Pelo contrário, sua afirmação clara é que, para toda a humanidade de todas as épocas, existe, aos olhos de Allah, uma única maneira e um único método correto e legítimo de viver a vida terrena — e esse método se chama “al-Islã”. — [É extremamente surpreendente que, em algum lugar entre a Ásia e a Europa, tenha sido apresentada uma interpretação original do Alcorão. Segundo ela, o significado de dīn estaria limitado à relação pessoal entre o servo e Deus, sem qualquer relação com a civilização e o sistema de governo. Se essa interpretação tiver sido realmente extraída do próprio Alcorão, então certamente será uma coisa curiosa. Porém, com base no que pude compreender após dedicar dezoito longos anos à investigação profunda das verdades do Alcorão, posso afirmar sem receio que, por mais interpretações inventadas que os comentaristas modernos apresentem, o Alcorão não empregou a palavra “al-dīn” em sentido estreito; antes, empregou-a no sentido de “o código de pensamento e ação para a vida inteira”, destinado a todas as pessoas de todas as épocas. (Uma delegação de jornalistas turcos visitou a Índia em 1943 e fez o comentário acima. O autor alude a isso.)]

O significado de Al-Islam

Expliquemos aqui a palavra «Islam». Na língua árabe, significa depor as armas, curvar-se, reconhecer a obediência e entregar-se. Mas o Alcorão não disse simplesmente Islam — disse «Al-Islam». Este é o seu termo específico. O sentido em que empregou esse termo técnico é curvar-se diante de Allah, obedecer-Lhe, renunciar à própria liberdade diante d’Ele e entregar-se a Ele. Naturalmente, essa entrega não significa submeter-se à lei natural (Law of nature). Alguns, porém, tentaram dar-lhe essa interpretação errônea. Tampouco significa que o ser humano, aplicando a própria imaginação ou por meio de experimentos e observações, tome por si mesmo uma decisão sobre o que Allah deseja e aquilo que Lhe agrada, para então obedecer-Lhe. Algumas outras pessoas entenderam precisamente isso. Na realidade, significa que se deve aceitar o caminho e o método de pensamento e ação que Allah comunicou por meio de Seus Mensageiros, e, renunciando à liberdade — isto é, à arbitrariedade — do próprio pensamento e ação, obedecer e seguir esse caminho e método. O Sagrado Alcorão é isso que entende pela expressão «Al-Islam». Não é uma religião de uma nova era, nem foi Muhammad (que a paz esteja com ele) quem a estabeleceu ou iniciou na Arábia há 1.400 anos. Pelo contrário, no próprio dia em que o ser humano surgiu pela primeira vez na Terra, Allah informou-lhe que, para ele, somente este Islam era o sistema de vida correto e puro. Depois disso, todos os profetas que vieram, enviados por Allah para guiar os seres humanos em diferentes regiões do mundo, convidaram continuamente as pessoas para este «Al-Islam». Em nenhum lugar ocorreu a menor exceção a isso. Por fim, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) também convocou toda a humanidade para o mesmo «Al-Islam». É claro, porém, que o mesmo deve ser dito: o Honorável (que a paz esteja com ele) também convocou toda a humanidade para o mesmo «Al-Islam». É claro, porém, que os seguidores de Moisés (que a paz esteja com ele), posteriormente, misturando muitos outros elementos, criaram o judaísmo; os seguidores de Jesus (que a paz esteja com ele), o cristianismo; e os seguidores dos profetas da Índia, do Irã, da China e de outros países também criaram doutrinas variadas, mescladas e confusas. Na realidade, a religião para a qual Moisés, Jesus e todos os profetas conhecidos e desconhecidos vieram convidar era o Islam puro e genuíno — nada mais.

A afirmação do Alcorão

Após essa explicação e análise, a afirmação do Alcorão torna-se absolutamente clara diante de nós. Ela é a seguinte: “O único caminho e método puro, escolhido por Allah, para a vida da humanidade consiste em curvar-se diante de Allah e seguir o caminho e o método de pensamento e ação que os profetas de Allah mostraram por meio de sua orientação”. Esta é a afirmação do Alcorão.

Agora devemos pensar profundamente se devemos aceitar essa afirmação ou não. Certamente examinaremos os argumentos e as provas que o próprio Alcorão apresentou em apoio à sua afirmação. Mas, antes disso, por que não investigamos por nós mesmos se temos alguma alternativa além de aceitar essa afirmação?

A necessidade de um sistema de vida

É evidente que, para viver, o ser humano precisa, em todas as circunstâncias, adotar um sistema de vida. O ser humano não é um rio, cujo curso se formaria por si mesmo através das elevações e depressões do terreno. Não é uma planta, cujo caminho seria determinado pela lei natural. Tampouco é um simples animal, para o qual apenas a sua natureza e disposição seriam suficientes para indicar o caminho. Embora em grande parte da vida esteja sujeito às leis naturais, há muitos aspectos de sua existência nos quais não encontra um caminho predeterminado que possa seguir involuntariamente, como os demais seres vivos e animais. Pelo contrário, precisa escolher um caminho mediante reflexão e discernimento. Muitos problemas do universo apresentam-se naturalmente diante de sua consciência pensante, mas ele não encontra uma solução para eles em linguagem inequívoca. Por isso, necessita de um caminho para o seu pensamento, a fim de resolver esses problemas. A natureza transmite à sua mente, por meio dos cinco sentidos, alguns fatos e conhecimentos dispersos, mas não os organiza e ordena de maneira sistemática. Para reuni-los, organizá-los e discipliná-los, ele precisa de um caminho do conhecimento. Para sua conduta pessoal, necessita de certos costumes e métodos, por meio dos quais possa satisfazer necessidades que a natureza, de fato, lhe impõe, mas para cuja satisfação não estabelece nenhum método decoroso. Para a vida conjugal, as relações familiares, as transações e atividades econômicas, e para muitos outros aspectos e áreas, necessita de um sistema de normas. Segundo esse sistema, deve poder alcançar um objetivo pelo qual viva não apenas como indivíduo, mas também como grupo, nação e comunidade — objetivo que lhe é naturalmente desejável, embora a natureza não o tenha apresentado claramente diante dele nem determinado qualquer método para alcançá-lo.

A vida humana é indivisível

Em todos esses diversos aspectos e setores da vida, é indispensável que o ser humano adote algum caminho e método. Mas eles não são setores permanentes e mutuamente autossuficientes. Por isso, não é possível adotar, nesses diversos setores, caminhos diferentes — com objetivos distintos, provisões distintas, modos e métodos de avançar distintos, exigências e necessidades distintas e destinos também distintos. Se alguém fizer sequer um pequeno esforço, utilizando a razão e o discernimento para compreender o ser humano e seus problemas vitais, certamente poderá entender que a vida, em sua totalidade, é um conjunto único, cujas partes estão intimamente ligadas e são inseparáveis umas das outras, assim como cada setor está intimamente ligado aos demais. Cada parte influencia as outras e é influenciada por elas. A mesma força vital se espalha por todas as partes, e aquilo que resulta da sua integração chama-se vida humana. Portanto, na realidade, o que o ser humano necessita não são muitos objetivos para a vida, mas um único objetivo principal, sob o qual todos os objetivos menores e maiores permanecerão harmonizados; e, uma vez alcançado o objetivo principal, todos os demais também serão alcançados. Ele não precisa de muitos caminhos; precisa de uma única grande estrada pela qual possa avançar rumo ao objetivo de sua vida, levando consigo todos os seus aspectos e setores em plena harmonia. Não são necessários sistemas separados para filosofia, conhecimento e ciência, literatura, artes, educação, religião, moralidade, vida social, economia, política, tribunais e leis, e assim por diante; é necessário, antes, um sistema abrangente, no qual todos esses elementos possam existir em plena harmonia e que contenha, para todos eles, princípios adequados de uma mesma natureza e disposição. Seguindo esses princípios, o indivíduo, a coletividade e, em termos gerais, toda a humanidade poderão alcançar o objetivo supremo. Foi a era sombria da jahiliyyah aquela em que se julgava possível dividir permanentemente a vida em setores separados. Hoje, se alguém sustenta uma concepção desse tipo e quer proferir palavras sem sentido, deve-se dizer que ou essas pessoas se agarram sinceramente às velhas ideias e, por isso, são dignas de compaixão, ou então conhecem muito bem a realidade e, consciente e deliberadamente, falam desse modo apenas porque precisam assegurar aos que discordam dos princípios do sistema que desejam implantar em alguma comunidade — [isto é, o sistema nacionalista: construir, para os habitantes do país, um sistema de vida voltado exclusivamente para interesses terrenos, rompendo a relação com Deus, com o Livro e com a Risālah] — que, sob esse sistema, terão plena segurança em certos setores de sua vida. Do ponto de vista da racionalidade, da naturalidade e da realidade, isso é impossível. Aqueles que dizem isso provavelmente sabem, eles próprios, que é impossível — [para uma discussão detalhada sobre o assunto, consulte-se Muslim Aur Maujuda Siyasi Kashmakash, volumes 1 e 2, obra do autor, especialmente o segundo volume, Bunyadi Huquq. — (Os dois compiladores)]. Toda dīn vitoriosa não pode deixar de moldar todos os aspectos e setores da vida de acordo com sua própria força vital e natureza, assim como tudo o que cai numa mina de sal é necessariamente transformado em sal.

A divisão geográfica e hereditária da vida

Assim como é sem sentido e irracional dividir a vida humana em partes separadas, é ainda mais irracional e sem sentido dividi-la com base em fronteiras geográficas e raça ou linhagem. Sem dúvida, encontram-se seres humanos em muitas partes do mundo, separados por rios e mares, montanhas e cordilheiras, florestas e selvas, ou por fronteiras artificiais. Também se encontram pessoas de diferentes linhagens e povos, entre os quais, por razões históricas, psicológicas e outras, o desenvolvimento e o progresso da humanidade assumiram formas diversas.

Mas aquele que, sob o pretexto dessas diferenças, afirma ser necessário elaborar um “dīn”, ou sistema de vida, separado para cada linhagem, cada povo e cada região geográfica, está simplesmente proferindo um delírio. Seu olhar estreito ficou preso às diferenças de aparência, forma e configuração exterior. Ele não conseguiu perceber a existência da essência única e comum da humanidade que reside no interior dessas variações externas. Contudo, se essas diferenças fossem realmente tão importantes a ponto de exigirem sistemas de vida distintos, então eu diria: escreva, exagerando tanto quanto quiser, sobre as diferenças observáveis entre um país e outro e entre uma linhagem e outra. Depois, faça uma análise científica imparcial das diferenças que podem ser observadas entre as mulheres e os homens de qualquer país, entre uma pessoa e outra e entre dois filhos dos mesmos pais. Tenho certeza de que, numa análise científica, a segunda diferença se mostrará mais marcante do que a primeira. Então, por que não recomendar um sistema de vida separado para cada ser humano? Na realidade, mesmo no interior das diferenças entre indivíduo e indivíduo, entre mulher e homem e entre família e família, é claramente perceptível um elemento permanente de unidade; e é com base nele que se torna possível conceber a existência de um povo, de um país e de uma linhagem. Por isso, pode-se considerar possível haver um único sistema de vida para o grande número de pessoas de um povo ou de um país. E, se isso é possível, por que não seria possível encontrar, em meio à vastidão das diferenças nacionais, territoriais e hereditárias, um elemento fundamental de unidade? E por que, com base nisso, não seria possível considerar toda a humanidade como uma unidade indivisível e elaborar um único dīn, ou sistema de vida, para todo o mundo humano? Não é verdade que, apesar de todas as diferenças geográficas, étnicas e hereditárias, todos os seres humanos são iguais no que diz respeito às questões fundamentais da natureza; que a vida terrena de todos os seres humanos transcorre sob as mesmas leis naturais; que todos os seres humanos são constituídos segundo as mesmas leis físicas; que as características que conferiram ao ser humano a condição de uma espécie distinta das demais criaturas estão igualmente presentes em todos; que, por nascimento, todos os seres humanos compartilham igualmente as necessidades e exigências naturais; e que a essência humana de cada pessoa é formada pela combinação de forças físicas e psicológicas do mesmo tipo? Além disso, não é correto afirmar que todas as causas físicas, psicológicas, históricas, sociais e econômicas ativas e influentes na vida humana são da mesma natureza para todos os seres humanos? Se, em todos esses aspectos, todas as pessoas são de fato iguais, então os princípios e ideais fundamentais que são puros e corretos para o bem de todos os seres humanos também devem ser universais e abrangentes. Esses princípios e ideais fundamentais não podem assumir uma forma para cada país, cada povo e cada linhagem. Diferentes povos e linhagens podem — e devem — manifestar, sob a abrangência desses princípios e ideais, suas qualidades e características próprias e resolver parcialmente, por métodos diversos, os diferentes problemas de sua vida. Entretanto, o dīn, ou sistema de vida correto, de que o ser humano necessita enquanto ser humano deve ser, em todas as circunstâncias, um e o mesmo. Que algo seja correto para um povo e errado para outro, e que aquilo que é errado para um povo seja correto para outro — isso não é aceitável para a consciência.

A divisão temporal da vida

Já foi feita a análise de alguns argumentos falaciosos em favor da divisão da vida com base nas diferenças externas. Outro argumento desse tipo, apresentado ultimamente com grande segurança e erudição, embora seja, na realidade, o mais falacioso e equivocado de todos, é a divisão temporal da vida. A esse respeito, afirma-se que um sistema de vida pode estar correto em determinada época e, em outra, provar-se errado, pois os problemas da vida mudam em cada era. Entretanto, o fato de um sistema de vida ser correto ou incorreto depende dos problemas da vida. O curioso é que essa afirmação é feita a respeito da vida humana, enquanto, ao mesmo tempo, também se fala do desenvolvimento gradual dessa mesma vida. E, quando se fala do desenvolvimento da vida, investigam-se as leis históricas que o influenciam, extraem-se de suas experiências passadas ensinamentos para o presente e orientações para o futuro. Chega-se até a provar, mediante argumentos, a existência de algo chamado “natureza humana”. Minha pergunta é: aqueles que acreditam na divisão temporal da vida possuem algum instrumento de medição capaz de marcar limites precisos entre as eras ou períodos no curso dessa evolução histórica contínua da humanidade? E, mesmo que algum limite fosse marcado, seria possível apontar com o dedo para uma de suas linhas divisórias e dizer que, do outro lado dessa linha, os problemas da vida eram tais, mas, ao chegar a este lado, mudaram completamente, e que a situação existente do outro lado já não permanece deste lado? Se a vida humana estiver realmente dividida em fragmentos temporais assim separados, então deve-se admitir que o fragmento passado é absolutamente inútil para o fragmento seguinte. Depois de transcorrido aquele fragmento, tudo o que os seres humanos fizeram naquela época tornou-se vão. A experiência adquirida pelas pessoas em determinada era não oferece absolutamente nenhum ensinamento para a era seguinte, pois aquela situação já não existe, nem aqueles problemas existem mais. Portanto, também não teria valor a experiência dos esforços empreendidos pelos seres humanos diante daquela situação e para resolver aqueles problemas. Nesse caso, não haveria sequer oportunidade para falar de desenvolvimento gradual. Tampouco haveria sentido em procurar as leis históricas que influenciam a vida. Não poderia haver. Quando se fala em desenvolvimento gradual, reconhece-se necessariamente que existe algo cuja forma se modifica e que, apesar de todas as mudanças, continua a percorrer seu curso, preservando a própria existência. Quando se discutem as leis da vida, admite-se naturalmente que, em meio a todos esses altos e baixos, destruições e reconstruções, ciclos e transformações, existe também uma verdade eterna da vida, dotada de sua própria natureza e de leis distintas. Quando se extrai algum ensinamento dos exemplos da história, isso significa que o viajante que percorre essa longa estrada da história, avançando continuamente e atravessando uma etapa após outra, possui uma essência própria e um caráter distinto. Essa essência age de determinada maneira em certas circunstâncias; aquilo que aceita em uma época rejeita em outra e passa a exigir coisas novas. Quando se começa a discutir essa verdade eterna, esse ser em constante transformação e as diversas etapas percorridas na estrada da história, com suas situações e problemas, a discussão se torna tão absorvente que o próprio viajante é esquecido: as etapas da estrada e as mudanças em suas situações e problemas podem ocorrer, mas será que, por isso, o viajante e sua individualidade se transformam? Vejo que, desde o início da criação até hoje, não ocorreu qualquer mudança em sua estrutura fundamental. O ser humano que era formado, milhares de anos atrás, pelos mesmos elementos básicos continua sendo formado por esses elementos. Seu temperamento, as exigências e necessidades de sua natureza, suas qualidades e características, suas emoções e sentimentos, suas inclinações e tendências, suas capacidades e aptidões, suas fraquezas e forças, suas ações e reações, sua capacidade de exercer influência e de receber influência, as forças que o dominam e seu ambiente natural e cósmico — tudo permanece hoje como era antes; em nenhum desses aspectos ocorreu sequer a menor diferença desde o início da criação até os dias atuais. Na realidade, ninguém pode ter a audácia de afirmar que, durante os ciclos e transformações da história, as mudanças nas circunstâncias e nos problemas delas decorrentes tenham transformado a própria humanidade do ser humano, ou que tenham mudado os elementos fundamentais ligados à sua humanidade. E, se não se pode afirmar isso, como aceitar que aquilo que ontem era como néctar para o ser humano hoje se tornou como veneno; que aquilo que ontem era verdade hoje se tornou mentira; e que aquilo que ontem era valioso hoje se tornou sem valor?

De que tipo de sistema de vida o ser humano necessita

A realidade é que, ao tentar compreender a essência humana e os elementos fundamentais relacionados a ela no curso dos ciclos e transformações da história, os seres humanos, individual e coletivamente, foram vítimas da confusão e do engano. Compreenderam algumas verdades de forma exagerada e entenderam outras de maneira equivocada, e, por isso, adotaram sistemas de vida errados em diferentes épocas. Mais tarde, depois de experimentações, a humanidade em geral (Humanity at large) percebeu a inconsistência desses sistemas de vida e os abandonou em favor de outros semelhantes. Com base nessas experimentações, chegou-se à conclusão de que, em cada época, deveria ser criado para a humanidade um sistema de vida diferente, limitado às circunstâncias e aos problemas daquela época e empenhado apenas em resolver esses problemas. Contudo, diante de tal situação, a única conclusão correta deve ser que a repetida experimentação de sistemas de vida baseados em eras e períodos — ou, em outras palavras, de sistemas sazonais e improvisados — e a experimentação de um novo sistema para substituir cada um depois de seu fracasso não produz nenhum resultado além do desperdício do tempo precioso da humanidade. Com isso, seu progresso é prejudicado, e ela se depara com enormes obstáculos no caminho de seu desenvolvimento, crescimento e chegada ao objetivo último desejado. Na realidade, ela depende absolutamente de um sistema de vida que seja elaborado com pleno conhecimento de todos os fatos e princípios relacionados a ela, com base em princípios universais, eternos e imutáveis. Ao adotar esse sistema de vida, poderá avançar com segurança através de todas as circunstâncias mutáveis do presente e do futuro, resolver todos os problemas que surgirem e, em vez de subir e descer pela estrada da vida, dirigir-se com passos rápidos rumo ao objetivo almejado.

Será o ser humano capaz de elaborar por si mesmo um sistema de vida desse tipo

Este é o dīn, o sistema ou código de vida de que o ser humano depende. Agora devemos refletir se, caso o ser humano tente elaborar por si mesmo, sem a ajuda de Allah, um sistema de vida desse tipo, será possível que tenha êxito. Não quero levantar a questão de saber se, até hoje, o ser humano conseguiu criar sozinho um sistema de vida assim. A resposta a essa pergunta é indiscutivelmente “não”. Mesmo aqueles que, nesta época, apresentam seus próprios sistemas de vida com pretensões pomposas e se envolvem em lutas e conflitos uns contra os outros por causa deles não poderão afirmar que o sistema de vida apresentado por qualquer um deles é capaz de atender às necessidades que fazem o ser humano depender de um dīn. Isso porque o sistema de vida de alguns se baseia na linhagem ou na nacionalidade; o de outros, na geografia; o de outros, na classe social; e o de outros foi elaborado de acordo com as exigências de uma época que acaba de passar. Nada se pode dizer sobre se ele se mostrará adequado às condições e aos problemas do futuro, pois ainda não foi analisado quais são as exigências históricas da época que está passando. Por isso, minha pergunta não é se o ser humano conseguiu criar um sistema de vida desse tipo, mas se é capaz de criá-lo.

Na verdade, esta é uma questão de extrema importância. Por isso, não seria apropriado tratá-la brevemente. Ela é uma das questões decisivas da vida humana. Portanto, é necessário compreender bem o que é essa coisa cuja elaboração está sendo discutida aqui e qual é exatamente a capacidade da pessoa sobre a qual se pergunta se ela pode elaborá-la.

‘ad-dīn’ significa

O ad-dīn cuja indispensabilidade para o ser humano acabei de demonstrar não é um código detalhado que contenha normas e regulamentos, grandes e pequenos, para todas as situações de todas as épocas, segundo o qual o ser humano simplesmente agiria enquanto ele existisse. Na verdade, consiste em princípios gerais, fundamentais e eternos, capazes de orientar o ser humano em todas as situações, indicar a direção correta para seu pensamento e sua visão, seus esforços e seu avanço, e protegê-lo do desperdício de tempo, energia e trabalho em experimentos equivocados.

Para esse fim, a primeira obrigação do ser humano é adquirir um conhecimento claro e preciso — não meras conjecturas ou suposições — sobre quais são os mistérios de seu próprio ser e do universo, e qual é sua posição e dignidade neste universo.

Depois, ele também precisa saber se esta vida terrena constitui toda a sua vida ou apenas a parte inicial de uma vida inteira. Sua jornada se limita ao período entre o nascimento e a morte, ou isso é apenas uma etapa da jornada?

Em seguida, é indispensável estabelecer para ele um objetivo de vida que não seja um objetivo dependente da vontade humana, mas que seja verdadeiramente o objetivo da vida humana; o ser humano foi criado precisamente para alcançar esse objetivo, e todos os objetivos e propósitos do indivíduo, da coletividade e, de modo geral, de toda a humanidade poderão harmonizar-se plenamente com ele, sem qualquer conflito ou choque.

Depois, ele necessita de certos princípios de moralidade firmes e abrangentes, compatíveis com suas qualidades e características inatas e capazes de ser eficazes e aplicáveis, tanto no plano teórico quanto no prático, em todas as situações possíveis. Esses princípios são absolutamente necessários para que ele possa formar seu caráter, receber orientação para resolver os problemas que surgem em cada etapa do percurso da vida e, ao adaptar-se às condições e aos problemas mutáveis, não tenha de ver continuamente seu ideal moral ser destruído e reconstruído, nem seja considerado uma pessoa sem princípios e oportunista.

Depois, são necessários, para isso, alguns princípios autossuficientes e amplos relativos à organização social. Esses princípios devem ser formulados com base numa compreensão plena do significado e do propósito da sociabilidade humana, bem como de suas necessidades e exigências naturais. Neles não haverá deficiência extrema, nem exagero excessivo ou desequilíbrio. Todos eles garantirão o bem-estar integral da humanidade e contribuirão para a formação, reconstrução, melhoria e desenvolvimento de todos os aspectos da vida humana em todas as épocas.

Além disso, são necessárias algumas normas autossuficientes e precisas para conduzir o caráter individual, o comportamento coletivo e os esforços e atividades individuais e coletivos pelo caminho correto, protegendo-os do desvio. Elas servirão como guias na estrada da vida, advertindo a pessoa em cada curva, em cada cruzamento e em cada situação perigosa, e indicando-lhe o caminho correto.

Além disso, são necessárias algumas normas práticas que deverão ser observadas universalmente para sempre. Essas normas práticas são necessárias com o objetivo de manter intacto o vínculo do ser humano com a profunda verdade sobre o homem e o universo apresentada no din em questão, com a meta e o destino da vida, e com os princípios morais e sociais e as normas de conduta que foram estabelecidos.

É da combinação desses princípios fundamentais e dessas normas que se constitui esse sistema de vida completo. A elaboração desse sistema de vida é o tema de nossa discussão. Agora devemos refletir para verificar se o ser humano possui os meios e recursos necessários para elaborar um sistema de vida completo desse tipo.

Análise dos meios e recursos do ser humano

Para elaborar seu próprio din ou sistema de vida, o ser humano dispõe de no máximo quatro meios e recursos. O primeiro é a vontade; o segundo, o intelecto; o terceiro, a experimentação e a observação; e o quarto, o registro histórico das evidências das experiências passadas. Além desses quatro, não parece possível encontrar um quinto recurso. Examine, tanto quanto puder, cada um desses quatro recursos. Será que eles podem ajudar o ser humano a elaborar o din em questão? Passei uma parte importante da minha própria vida refletindo e investigando profundamente esse assunto. Por fim, cheguei à conclusão de que esses recursos não podem contribuir em nada para a elaboração daquele sistema de vida completo. Contudo, se um guia proveniente do mundo superior, e não humano, apresentar um din, eles poderão ajudar a compreendê-lo, reconhecê-lo e verificar sua veracidade, bem como a formular, de acordo com ele, as normas detalhadas da vida em seus mínimos pormenores.

I. A vontade

Consideremos primeiro a vontade. Ela pode ser um guia para o ser humano? Embora a vontade seja a verdadeira força motivadora e impulsionadora da ação humana, as fraquezas presentes em sua própria natureza fazem com que ela jamais possa ter a capacidade de mostrar ao ser humano o caminho correto da vida. Longe de indicar o caminho, na maioria dos casos ela conduz a consciência, o intelecto e o conhecimento humanos para o desvio. Por mais que seja educada e refinada por meio de vários tipos de treinamento, quando lhe for confiada a responsabilidade de tomar a decisão final, ela inevitavelmente tomará a decisão errada em noventa e nove por cento dos casos. Isso porque as necessidades que surgem dentro dela a obrigam a escolher, em vez da decisão correta, aquela que torne o objeto desejado rápido e facilmente acessível. Essa é, em essência, a fraqueza natural da vontade humana. Portanto, seja a vontade individual, a vontade de uma classe ou a vontade geral descrita por Rousseau (General will), em suma, nenhum tipo de vontade humana é, por sua própria natureza, apto a contribuir para a elaboração de um sistema de vida completo. Especialmente no que diz respeito a questões superiores — como determinar a essência da vida humana, seu destino e sua finalidade —, ela não tem de modo algum, nem pode ter, qualquer capacidade de oferecer auxílio.

II: O intelecto

Passemos agora ao tema do intelecto. Não há dúvida de que ele é uma faculdade humana dotada das mais elevadas capacidades e aptidões, de que sua importância e influência na vida humana são extraordinárias e de que constitui uma imensa força motivadora para o ser humano. Mas, ao considerar a quem poderia ser confiada a responsabilidade de elaborar um “Ad-Din” para a humanidade, surge a pergunta: à inteligência de quem deveria ser confiada essa responsabilidade? À de Zaid ou à de Bakr? À de todos os seres humanos? Ou à de algum grupo específico de pessoas? Às pessoas da época atual, às do passado ou às do futuro? Ainda assim, deixemos de lado essa questão. Porém, há uma pergunta que de modo algum pode ser evitada: depois de considerar os limites e o alcance do intelecto humano, será possível afirmar que se pode confiar a ele a elaboração de um sistema de vida completo e autossuficiente, e que é apropriado confiar-lhe tal tarefa? É sabido que todas as suas decisões dependem das informações recolhidas pelos cinco sentidos, isto é, pelas faculdades sensoriais. Se as informações que ele recolhe forem erradas, suas decisões também serão erradas. Se suas informações forem incompletas, suas decisões também serão incompletas. E, quando os sentidos não lhe fornecerem informação alguma sobre determinado assunto, o intelecto, se estiver consciente de suas próprias capacidades, não tomará decisão alguma. Mas, se for arrogante, continuará lançando flechas inúteis na escuridão. Pode um intelecto cuja capacidade é tão limitada e estreita ser considerado apto a assumir a responsabilidade de elaborar um sistema de vida completo para a humanidade? Além disso, a elaboração do “Ad-Din” depende da solução de problemas superiores e complexos. Será preciso resolver esses problemas com base em imaginações, conjecturas e concepções fantasiosas? Os cinco sentidos fornecem informações extremamente incompletas sobre os conceitos nos quais se baseiam os valores morais eternos indispensáveis à elaboração do “Ad-Din”. Como se pode esperar que o intelecto determine valores morais completos e puros com base nessas informações incompletas? Do mesmo modo, para nenhum dos demais elementos do “Ad-Din” que mencionei se obtêm dos cinco sentidos informações exatas e completas que permitam ao intelecto elaborar um sistema de vida autossuficiente e abrangente. Além disso, o elemento chamado desejo ou inclinação está constantemente às costas do intelecto. Ele não lhe permite tomar decisões puramente racionais. Mesmo quando o intelecto quer seguir o caminho reto, o desejo ou a inclinação não deixa de desviá-lo um pouco para um caminho tortuoso. Portanto, mesmo supondo que o intelecto humano não cometa erros ao organizar e combinar as informações recolhidas pelos cinco sentidos nem ao extrair delas provas, ainda assim, devido às suas próprias fraquezas, ele não possui capacidade suficiente para que se lhe confie uma responsabilidade tão grandiosa. Impor-lhe tal peso seria uma injustiça contra ele, e também contra aquele que o impõe.

III: A ciência

Examinemos agora o terceiro recurso. Trata-se do conhecimento obtido por meio da experiência, da experimentação e da observação. Na mesma medida em que um estudante de ciências reconhece o valor e a importância desse conhecimento, eu também os reconheço. Não o menosprezo nem um pouco. Porém, ignorar as limitações desse conhecimento e atribuir-lhe uma abrangência que ele não possui é uma atitude absolutamente anticientífica. Quem conhece corretamente a teoria do conhecimento humano não pode negar que os mistérios profundos dos problemas metafísicos estão além do alcance humano. O ser humano não dispõe dos meios e instrumentos necessários para desvendar esses mistérios. Tampouco pode observá-los diretamente; e, com base nas coisas que podem ser examinadas e observadas, não é capaz de estabelecer, mediante argumentos e provas, uma opinião sobre eles que possa ser denominada “ciência”. Portanto, não é preciso dizer que a ciência não alcança a solução das poucas questões fundamentais cuja resposta é indispensável conhecer desde o início para elaborar o “Ad-Din” em discussão. Resta então a pergunta: pode-se confiar à ciência a determinação dos valores morais, a formulação dos princípios socioculturais e a identificação dos limites que impedem o desvio? Ao buscar a resposta, surge imediatamente a questão de saber a quem se poderia confiar essa responsabilidade: à ciência de qual indivíduo, grupo ou época? Mas, sem entrar nisso, devemos refletir sobre quais condições indispensáveis precisam ser cumpridas para concluir cientificamente a elaboração de um sistema de vida completo (Ad-Din). A primeira condição é que o ser humano conheça as leis naturais sob as quais transcorre sua vida terrena. A segunda é que domine plenamente todos os fatos e conhecimentos relacionados à sua própria vida. A terceira é que reúna essas duas categorias de conhecimento — todos os fatos e informações conhecidos sobre a vida humana e sobre o mundo natural — e que, depois, uma mente plenamente madura e sábia os organize habilmente, extraindo deles argumentos e provas corretos para determinar os valores morais, os princípios socioculturais e os limites que impeçam o desvio. Essas condições nunca foram cumpridas até hoje, e não se pode esperar que sejam cumpridas nem mesmo daqui a cinco mil anos. Talvez sejam cumpridas um dia antes da extinção da humanidade. Mas, então, isso já não terá utilidade alguma.

IV: A história

Por fim, consideremos aquele recurso do conhecimento que chamamos de registro probatório ou livro de atos da humanidade. Não posso negar sua importância e utilidade. Quero apenas dizer que ele também não é suficiente para realizar uma tarefa tão grandiosa quanto a elaboração do “Ad-Din”. Creio que, ao examiná-lo mais profundamente, os leitores concordarão comigo. Aqui não estou levantando a questão de saber se esse registro histórico chegou às pessoas do presente, vindo do passado, de forma correta e abrangente. Tampouco pergunto a qual mente, em nome de toda a humanidade, poderia ser confiada a tarefa de elaborar o “Ad-Din” com a ajuda desse registro histórico ou arquivo: à de Hegel, à de Marx, à de Ernst Haeckel ou à de outra pessoa? Minha única pergunta é: o registro dos acontecimentos até que data exata — do passado, do presente ou do futuro — seria capaz de fornecer material suficiente para a elaboração de um “Ad-Din”? Felizes serão aqueles que nascerem depois dessa data. E quanto aos que partirem deste mundo antes dela? Allah Altíssimo é o seu Protetor.

resultado desalentador

Creio que, na breve discussão que apresentei, não cometi nenhum erro na análise científica nem na apresentação dos argumentos. Se o exame que fiz dos recursos e meios humanos estiver correto, posso afirmar com firme convicção, sem me preocupar com obstáculos ou impedimentos, que o ser humano talvez consiga elaborar para si um sistema de vida imaturo, defeituoso, temporário e de caráter regional. Mas de modo algum lhe é possível elaborar um sistema de vida completo e atemporal (ad-dīn). Isso era impossível no passado, continua impossível hoje e não há qualquer esperança de que venha a ser possível no futuro.

Nessas circunstâncias, se, segundo os ateus, não existir nenhum “Deus” para guiar o ser humano, então ele deveria cometer suicídio. Para o viajante que não tem guia nem qualquer meio alternativo de encontrar o caminho, nada pode resultar senão extrema desesperança. Além do conselho de bater com força a cabeça numa pedra no próprio caminho e pôr fim a todos os seus problemas, o ser humano compassivo não teria mais nada a oferecer-lhe. E se existir um “Deus”, mas esse Deus não for um Deus-guia — como se empenha em provar a existência de um Deus desse tipo um grupo de filósofos e cientistas —, então a situação se torna ainda mais lamentável. O Deus que concedeu tudo o que é necessário para a subsistência, o desenvolvimento e o crescimento de todos os seres e coisas do universo, mas não lhes concedeu aquilo de que mais necessitam, isto é, as normas e o método para viver, torna extremamente perigoso habitar no mundo que Ele criou. Na verdade, não se pode imaginar perigo maior do que esse. Pois, sem esse modo de vida, toda a vida da humanidade se torna inútil. Em tais circunstâncias, é preciso lamentar pelos pobres, órfãos, doentes, sofredores, feridos e oprimidos. O ser humano realiza repetidamente experiências fracassadas com concepções errôneas de vida. Enquanto caminha, tropeça e cai; depois se levanta e volta a caminhar, até tropeçar novamente. E, cada vez que tropeça, país após país e nação após nação se transformam em ruínas. Ele está tão desorientado que nem sequer sabe qual é o propósito da própria vida. Também não sabe por que deve trabalhar e se esforçar, nem segundo que regras e métodos deve fazê-lo. O Deus que o criou e lhe permitiu viver no mundo parece observar em silêncio todas essas desgraças. Parece ocupar-se apenas da criação, sem se importar em informar as regras para viver e agir no mundo.

a única luz de esperança

O Alcorão apresenta diante de nós um quadro de uma situação completamente oposta a esse cenário. O Alcorão diz que Allah não é apenas o Criador; Ele também é o Guia. Ele concedeu a cada coisa existente no universo toda a orientação necessária, de acordo com sua natureza e constituição.

(Árabe************************************página 330 do PDF)

“Aquele que deu a cada coisa a sua estrutura física e, em seguida, a guiou.” — (Surata Ta-Ha: 50)

Para ver a prova disso, pode-se observar qualquer formiga, mosca ou aranha. O mesmo Deus que mostrou o caminho da vida a essas criaturas insignificantes também mostrou o caminho ao ser humano. Portanto, para o ser humano, o único modo de agir correto e puro é abandonar toda arrogância, curvar-se diante Dele e seguir a orientação do sistema de vida universal e completo, ou “ad-dīn”, que Ele enviou por meio dos profetas.

Agora se vê que há dois caminhos abertos diante de nós. Depois de examinarmos a força, a capacidade e os meios do ser humano, descobriu-se um caminho. E, por meio da declaração do Alcorão, surgiu outro caminho. Para nós, não há alternativa senão escolher um desses dois caminhos. Ou teremos de aceitar a declaração do Alcorão, ou então teremos de lançar a nós mesmos naquela terrível escuridão do desespero, onde não existe nenhum raio de luz da esperança. Na realidade, não estamos diante de uma situação em que existam dois recursos para elaborar um sistema de vida, bastando escolher um deles. A situação que enfrentamos é, na verdade, esta: há um único meio de alcançar um sistema de vida. Devemos decidir se aceitaremos esse único meio ou se, em vez de nos beneficiarmos de sua ajuda, consideraremos preferível vagar desorientados na escuridão.

A argumentação do Alcorão

A partir da argumentação que apresentei até agora, só podemos chegar à conclusão de que, para o bem da humanidade, não há alternativa senão aceitar a reivindicação do Alcorão. Em outras palavras, pode-se dizer: não há como ser incrédulo; forçosamente, torna-te muçulmano. Contudo, em apoio à sua reivindicação, o Alcorão apresenta argumentos e provas de qualidade muito superior. Ele não diz às pessoas que se tornem muçulmanas por necessidade. Pelo contrário, incentiva-as a tornarem-se muçulmanas com alegria e por vontade própria. Para isso, possui muitos argumentos e provas. Entre eles, quatro argumentos e provas são os mais fortes. Ele apresenta repetidamente esses quatro.

Primeiro: o Islã é o único sistema de vida correto para o ser humano. Isso porque somente ele está em conformidade com a verdade real. Todas as demais concepções e crenças são contrárias à verdade e irreais.

(Árabe************************************na página 331 do PDF)

“Acaso desejam eles uma religião diferente da religião de Allah? Entretanto, tudo quanto existe nos céus e na terra se prostra diante d’Ele, voluntária ou involuntariamente, e todos retornarão a Ele.”

Segundo: este é o único sistema de vida puro e correto para o ser humano. Isso porque ele é a única verdade. Também segundo o critério da justiça e da retidão, nenhum outro sistema pode ser puro. Allah diz:

(Árabe************************************na página 331 do PDF)

“Na realidade, vosso Senhor é Allah, que criou os céus e a terra em seis dias (ou seis eras). Depois, estabeleceu-Se no Trono. Ele cobre o dia com o manto da noite, e então o dia corre velozmente atrás da noite. O sol, a lua e as estrelas estão todos submetidos à Sua ordem. Sabei que a criação pertence exclusivamente a Ele, e o comando e a legislação também Lhe pertencem exclusivamente. Na verdade, Allah, Senhor dos mundos, é extremamente benévolo.” – (Surata Al-A‘raf: 54)

Terceiro: uma vez que somente Allah possui o conhecimento exato de todas as realidades e informações, somente Ele é capaz de fornecer uma orientação correta. Portanto, este sistema estabelecido por Ele é, para a humanidade, o verdadeiro e perfeito.

(Árabe************************************na página 332 do PDF)

“Na verdade, nada fica oculto a Allah, nem na terra nem no céu.” – (Surata Al ‘Imran: 5)

(Árabe************************************na página 332 do PDF)

“Ele conhece tudo o que está oculto e manifesto aos seres humanos. Eles não podem conhecer nada das informações que Ele possui, exceto aquilo que Ele próprio deseja dar-lhes a conhecer.” – (Surata Al-Baqarah: 255)

(Árabe************************************na página 332 do PDF)

“Ó Profeta! Dize-lhes que somente a orientação de Allah é a orientação verdadeira e correta.” – (Surata Al-An‘am: 71)

Quatro: este é o único caminho verdadeiro para o ser humano. Pois, sem ele, a justiça não é possível. Qualquer outro caminho que o ser humano siga acabará por arrastá-lo para a opressão e a injustiça.

(Árabe************************************na página 332 do PDF)

“Aquele que transgredir os limites estabelecidos por Allah certamente cometerá injustiça contra si mesmo”.–(Surata At-Talaq: 1)

(Árabe************************************na página 332 do PDF)

“Aqueles que não julgam e decidem de acordo com o que Allah revelou são os injustos”.–(Surata Al-Ma’idah: 45)

À luz desses argumentos e provas do Alcorão, é dever obrigatório de toda pessoa dotada de consciência submeter-se diante de Allah e aceitar d’Ele as normas e o sistema de vida.

Critérios para verificar a lei divina

Agora, antes de prosseguir, considero necessário responder a uma pergunta. Nesta etapa da discussão, essa pergunta surge na mente de todos. Quando eu refletia sobre o assunto, ela também surgiu em minha mente. A pergunta é: por que meio poderemos determinar qual é a lei criada por Allah e qual é a lei criada pelo ser humano? Não se pode simplesmente aceitar uma lei só porque alguém a apresenta como sendo a lei de Allah. Para responder a essa pergunta, seria necessária uma discussão muito detalhada. Tentarei, porém, respondê-la brevemente. Na realidade, existem quatro critérios principais para distinguir o pensamento humano do pensamento divino. Apresentá-los-ei um a um.

Uma característica importante do pensamento humano é que nele estão inevitavelmente presentes os efeitos do erro e das limitações do conhecimento. No pensamento divino, porém, isso é impossível. Nele se percebem claramente as marcas de um conhecimento infinito e infalível. Na lei de Allah jamais pode haver algo contrário a uma verdade científica comprovada de uma determinada época; tampouco pode haver nela algo que demonstre que algum aspecto da verdade permaneceu desconhecido para o Legislador. Naturalmente, ao aplicar esse critério, não se deve esquecer que conhecimento, concepções e hipóteses científicas e teorias científicas não são a mesma coisa. Em determinada época, algumas teorias e concepções científicas exercem influência sobre a mente humana, e as pessoas, por erro, consideram-nas conhecimento. Contudo, a possibilidade de estarem erradas é exatamente igual à possibilidade de estarem corretas. Na história do conhecimento e da ciência, são muito raras as concepções, hipóteses e teorias que, no fim, foram comprovadas como verdadeiro “conhecimento”.

Outra grande fraqueza do pensamento humano é a estreiteza de sua perspectiva. Em contrapartida, no pensamento divino observa-se o máximo de amplitude e vastidão da perspectiva. Ao examinar qualquer declaração oriunda do pensamento divino, parece que seu autor vê com os próprios olhos tudo, do princípio ao fim. Parece que ele contempla, de uma só vez, todo o universo e todas as suas verdades profundas. Em comparação com ele, até mesmo as opiniões e linhas de pensamento dos filósofos e pensadores de mais alto nível parecem absolutamente infantis.

Outra característica importante do pensamento humano é que nele se vê, em algum lugar, a razão e o conhecimento da realidade envolvidos em um jogo de esconde-esconde e em conluio com as emoções, o entusiasmo e os desejos das inclinações naturais. Em contrapartida, o sistema divino resplandece com inteligência pura e conhecimento imaculado. Essa característica é tão brilhante e evidente que em nenhuma de suas normas e disposições se percebe o menor vestígio de sentimentalismo ou de inclinação tendenciosa.

Outra fraqueza do pensamento humano é que, no sistema de vida por ele criado, estão inevitavelmente presentes o partidarismo, a desigualdade irracional entre as pessoas e a preferência de uns sobre outros com base em fundamentos irracionais. Isso ocorre porque toda pessoa tem algumas intenções e preferências pessoais, possui vínculos com determinados grupos e não com outros. O pensamento divino, porém, é completamente livre de elementos desse tipo.

Todo sistema que se apresenta como um sistema de vida divino pode ser examinado segundo esse critério. Se ficar comprovado que ele está livre dessas fraquezas e impurezas do pensamento, do conhecimento e da inteligência humanos, e se for tão abrangente e autossuficiente quanto é indispensável que seja um sistema de vida completo, então pode-se ter fé nele com plena confiança e sem hesitação. Não há absolutamente nenhuma razão para objeção ou desculpa a esse respeito.

As exigências da fé

Agora discutirei a última das questões fundamentais. A questão é: quando uma pessoa aceita esta reivindicação do Alcorão e, sabendo com certeza que determinado sistema de vida é um sistema de vida divino, passa a ter fé nele, o que deve fazer?

Digo desde o início que o significado do Islã é curvar-se, obedecer e submeter-se; a arbitrariedade e a liberdade irrestrita de pensamento e ação não podem coexistir com isso. Àquele sistema de vida em que se deposita a fé, deve-se entregar todo o ser da própria vida. Nada que esteja sob o próprio controle pode ser mantido fora de sua obediência. A autoridade e o domínio absolutos desse sistema de vida devem ser reconhecidos sobre tudo: mente e cérebro, olhos e ouvidos, mãos e pés, estômago e corpo, língua e caneta, tempo e trabalho, esforços, meios e atividades, ódio e amor, inimizade e amizade. Nenhuma parte nem nenhum âmbito da própria personalidade pode permanecer fora de sua esfera. Na medida exata em que qualquer coisa sob o próprio controle for mantida fora da obediência e da esfera desse sistema de vida, e na proporção exata em que qualquer de seus aspectos ou âmbitos for excluído, nessa mesma medida a reivindicação da fé será desmentida. Quem deseja permanecer sincero e fiel à própria fé ou crença tem o dever de se esforçar ao máximo para purificar sua vida da falsidade.

Quero repetir ainda uma coisa a este respeito. É preciso ter sempre presente que a vida humana é uma entidade única e indivisível. Por isso, é necessário um único sistema de vida para a totalidade da existência humana. Seguir simultaneamente vários códigos de vida revela apenas vacilação na fé, instabilidade na tomada de decisões e imaturidade. Quando alguém aceita uma religião ou um sistema de vida como sua própria religião ou código de vida, deve necessariamente aceitá-lo como a religião efetiva de todas as partes e dimensões de sua vida. Deve ser a religião de sua vida pessoal, da educação e das instituições de ensino, da atividade profissional, da política e da vida social, das transações e do sustento, das relações mútuas, da conduta e da atividade nacional, e também da literatura e da cultura. Não há absolutamente nenhuma razão para qualquer exceção. Não é possível que cada pérola, enquanto permanece separada, continue sendo uma pérola, mas, assim que se faz um colar com elas, todas se transformem em grãos de feijão-fradinho e lentilha. Do mesmo modo, não é possível que uma pessoa seja individualmente uma seguidora completa de determinada religião ou sistema de vida, mas, assim que várias pessoas se organizem, algumas partes de sua vida coletiva deixem de obedecer àquela religião ou sistema de vida. Além disso, para a pessoa que aceita uma religião como o único sistema de vida completo e crê nela, a maior exigência de sua fé é que ela proporcione a toda a humanidade a oportunidade de ser agraciada com as bênçãos dessa grande religião e se esforce para que esse sistema de vida completo se torne o sistema de vida dominante e efetivo em todo o mundo. Assim como a vocação natural da verdade é sobreviver vitoriosa, também a exigência natural de quem se apega à verdade é empenhar-se plenamente para fazer a verdade triunfar sobre a falsidade. Nenhuma pessoa defensora da verdade pode encontrar tranquilidade sem cumprir essa responsabilidade. Aquele que vê as forças da falsidade firmemente instaladas em todo o mundo, com autoridade avassaladora e enorme poder, mas, mesmo vendo isso, não se sente nem um pouco indignado ou perturbado, se ainda guarda algum afeto ou atração pela verdade, estes permanecem adormecidos e latentes. Deve precaver-se para que esse sono não se transforme num sono destrutivo e para que esse silêncio não se converta no silêncio da morte.

 

O conflito entre o Islã e a jahiliyyah

— Todas as visões de vida e ideologias que existem ou existiram em oposição à verdadeira religião do Islã são, em sentido comparativo, chamadas de “jahiliyyah”. A base do Islã é o “conhecimento verdadeiro”, isto é, a revelação divina; já a base das ideologias jahiliyyah são conjecturas, especulações e concepções metafísicas imaginárias, ou simplesmente pensamentos espirituais resultantes da ignorância e da falta de discernimento (Autor).

Qualquer que seja o código de vida elaborado para a existência dos seres humanos no mundo, é inevitável que ele se origine de alguma filosofia metafísica. Para elaborar um plano adequado para a vida, é indispensável primeiro adquirir uma concepção clara e precisa sobre o ser humano e sobre este universo, que é a morada da humanidade. Sem isso, não é possível elaborar tal plano. Para obter resposta à pergunta sobre como devem ser a conduta e o comportamento humanos e como o ser humano deve agir no mundo, é preciso saber primeiro o que é o ser humano, qual é a posição e o valor deste universo e de que tipo é o seu sistema, ao qual a vida humana deverá se harmonizar. De acordo com a solução encontrada para essas últimas questões, formar-se-á uma ideologia moral; e, conforme o tipo dessa ideologia moral, serão estruturadas as diversas dimensões e áreas da vida humana. Em seguida, segundo esse modelo específico, serão formuladas as regras detalhadas relativas ao caráter individual, às relações coletivas, às transações e à conduta. Finalmente, todo o edifício da sociedade e da civilização será construído sobre essa base.

Com efeito, todas as religiões e ideologias criadas até hoje para a humanidade tiveram, em sua base, de definir uma filosofia fundamental própria e uma perspectiva moral fundamental. Assim, desde os princípios básicos até as regras e normas mais minuciosas, são essa filosofia fundamental e essa perspectiva moral que distinguem uma ideologia de outra. Isso porque elas são o fator determinante do temperamento, da natureza e do caráter de cada sistema de vida. Se o sistema de vida for comparado a um corpo, elas serão sua alma.

Quatro concepções sobre a vida

Se um sistema de vida for analisado apenas em sua estrutura fundamental, deixando de lado os pormenores e seus ramos e subdivisões, veremos que, no total, podem ser adotadas quatro concepções metafísicas sobre o ser humano e o mundo natural. Todas as filosofias de vida existentes no mundo adotaram uma dessas quatro. Entre essas quatro concepções, podemos chamar a primeira de jahiliyyah pura.

Jahiliyyah pura

A ideia central desta doutrina é que a administração de todo o universo é a manifestação real de um acidente fortuito. Por trás dela não há sabedoria, nenhum princípio profundo nem propósito algum. Ela surgiu por si mesma, funciona espontaneamente e, um dia, desaparecerá por si mesma, sem qualquer resultado ou consequência. Ela não tem Deus. E, mesmo que Ele exista, não tem qualquer relação com a vida humana. O ser humano é uma espécie de criatura e, tal como as demais criaturas, talvez também tenha surgido por acaso. Não precisamos preocupar-nos com quem o criou, para que o criou e questões semelhantes. Sabemos apenas que o ser humano existe neste mundo. Ele tem certos desejos e aspirações, para cuja satisfação sua própria natureza exerce uma forte pressão interior. Também possui certas forças e instrumentos que podem ser utilizados como meios para satisfazer esses desejos e aspirações. Ele vê diversos recursos espalhados ao seu redor. Aplicando sobre eles suas próprias forças e instrumentos, pode satisfazer seus desejos e aspirações. Portanto, além de satisfazer as exigências de seus instintos, sua vida não tem nenhum outro objetivo. Além de reunir os melhores meios e recursos para satisfazer essas necessidades, suas capacidades humanas não têm qualquer outra função. Acima do ser humano não existe nenhuma fonte ou origem de conhecimento nem de orientação para o caminho da verdade e da retidão, da qual ele possa obter o código de vida para sua existência. Portanto, ele próprio deveria formular seu código de vida a partir do ambiente, das circunstâncias e dos sinais ao seu redor, bem como das experiências e provas históricas próprias vivenciadas nas circunstâncias e nos sinais existentes. Assim, ele é naturalmente uma entidade sem responsabilidade. Se tiver de prestar contas, deverá fazê-lo apenas perante si mesmo ou perante uma autoridade que nasce entre os seres humanos e passa a exercer autoridade sobre eles.

Quaisquer que sejam os resultados das ações, eles se limitam à vida deste mundo. Não existe nenhuma outra vida além da vida terrena. Portanto, será com base nos resultados manifestados neste mundo que se determinará se algo é certo ou errado, prejudicial ou benéfico, aceitável ou rejeitável.

Quando o ser humano está imerso na jahiliyyah absoluta — isto é, quando não consegue alcançar nenhuma verdade acima das coisas perceptíveis pelos sentidos, ou não deseja alcançá-la por estar escravizado aos próprios instintos —, é esta doutrina que domina sua mente. Os adoradores do mundo adotaram esta mesma doutrina em todas as épocas. Com poucas exceções, reis, monarcas, emires e nobres, governantes, cortesãos, ricos e aqueles que dedicaram a vida à busca da riqueza geralmente deram preferência a esta doutrina. E, entre os povos cuja civilização e cultura são celebradas pela história, esta doutrina atuava na base da cultura de todos eles. Ela também está ativa na base da moderna civilização ocidental. Embora nem todos os ocidentais sejam descrentes em Deus e na vida futura, nem sejam todos, do ponto de vista intelectual, defensores da moralidade materialista, a força vital que atua no corpo de toda a sua civilização e cultura é precisamente a força vital dessa descrença em Deus e na vida futura e da moralidade materialista. Isso se arraigou de tal modo em suas vidas que até aqueles que, racionalmente, reconhecem a existência de Deus e da vida futura e mantêm uma perspectiva não materialista no campo da moralidade são, inconscientemente, na vida prática, nada além de ateus e materialistas; pois a doutrina que seguem no campo do pensamento não tem qualquer relação com a vida prática. A situação dos seus antecessores prósperos e esquecidos de Deus era semelhante. Os prósperos habitantes de Bagdá, Damasco, Délhi e Granada não negavam Deus e a vida futura por serem muçulmanos, mas todo o programa de suas vidas era elaborado como se não existisse absolutamente nada chamado Deus ou vida futura, nem houvesse qualquer questão de prestar contas a alguém ou de receber orientação de alguém. Existiam apenas seus desejos, paixões e aspirações. Para satisfazer essas aspirações, eram inteiramente livres para adotar todos os tipos de meios, recursos e métodos. Sua convicção era esta: uma vez que não há outra vida depois desta, deve-se aproveitar, por meio do prazer e do luxo, todo o tempo que se tem para viver.

Foi dito acima que a própria natureza desta doutrina é tal que, com base nela, se desenvolve um sistema moral puramente materialista. Pouco importa se esse sistema moral é registrado em livros ou simplesmente organizado na mente; isso não altera nada. Depois, é dessa mentalidade materialista que se desenvolvem o conhecimento e a ciência, as ideias, a literatura e a cultura. Gradualmente, todo o sistema de educação e formação passa a ser impulsionado pelo ateísmo e pelo materialismo. Em seguida, o caráter individual é formado segundo o mesmo molde ideológico. Os princípios das relações e das transações entre as pessoas são estabelecidos pelo mesmo método e segundo o mesmo molde. A elaboração das leis e seu aperfeiçoamento também seguem a mesma linha. Então, a liderança desse tipo de sociedade é conquistada precisamente pelos maiores fraudadores, apropriadores indébitos, mentirosos, enganadores, cruéis e pessoas de caráter vil. A liderança e a autoridade sobre toda a sociedade, bem como a responsabilidade pela administração do Estado, passam às mãos deles. Depois, como camelos desenfreados e sem rédeas, lançam impiedosamente sobre a humanidade uma campanha cruel de exploração e opressão. Não temem qualquer prestação de contas nem ser detidos por parte alguma. Toda a sua estratégia prática é elaborada com base nos princípios políticos de Maquiavel. Em seu código legal, a força é outro nome para a verdade, e a fraqueza, outro nome para a mentira. Nada, exceto impedimentos materiais, pode impedi-los de cometer injustiça e opressão. No interior do Estado, essa opressão assume tal forma que os poderosos continuam esmagando a classe fraca de sua própria nação. E, no âmbito internacional, o nacionalismo, o imperialismo e o expansionismo — [Ao analisar outro aspecto da doutrina da jahiliyyah, o autor afirmou: quando o profeta Shu‘ayb (que a paz esteja sobre ele) convidou os membros de seu povo a adorar o Deus Único e lhes ordenou que se abstivessem da corrupção nas transações comerciais, eles responderam:]

(Árabe************************************na página 338 do PDF)

“Ó Shu‘ayb, será que a tua oração te ensina que devemos abandonar os ídolos que nossos antepassados adoravam? E que não podemos gastar nossa riqueza como quisermos?” — (Surata Hud: 87)

Esta é a explicação completa da ideologia da jahiliyyah em oposição ao Islã. O Islã afirma que todas as doutrinas e caminhos, exceto a servidão a Allah, são errados e indignos de ser seguidos, pois não há prova ou evidência nas Escrituras celestiais em favor de qualquer outra doutrina ou caminho. A servidão a Allah não pode limitar-se apenas ao âmbito religioso; ela deve abranger todos os aspectos e setores da vida, isto é, a sociedade e a civilização, a economia e a política. Isso porque tudo o que o ser humano possui em termos de poder e riqueza pertence, em sua essência, a Allah, e ele não tem o direito de usar coisa alguma segundo a própria vontade, contrariando a vontade de Allah. Em contrapartida, a doutrina da jahiliyyah afirma que se deve seguir os costumes e tradições transmitidos desde os tempos dos antepassados. O fato de serem costumes dos antepassados é considerado prova e justificativa suficiente para segui-los; não é necessária nenhuma outra prova ou argumento. A religião teria relação apenas com a adoração e os rituais religiosos. Deveríamos ter plena liberdade em nossas atividades mundanas, para poder realizá-las conforme a nossa vontade. Pode-se concluir daí também que a ideia de dividir a vida em religiosa e mundana não é algo novo. Pelo contrário, há três ou quatro mil anos, o povo do profeta Shu’ayb (que a paz esteja sobre ele) afirmava essa divisão com a mesma ênfase com que hoje a afirmam as nações ocidentais e seus seguidores cegos. Na realidade, isso não é uma nova “luz” obtida pelo ser humano como resultado do desenvolvimento gradual de seu pensamento e de suas concepções. Pelo contrário, é aquela antiga mentalidade supersticiosa que já existia exatamente assim, no seio da jahiliyyah, milhares de anos atrás. O conflito dela com o Islã também não é novo, mas muito antigo. (Compiladores)] e manifesta-se na forma da destruição das nações.

Dois: a jahiliyyah misturada ao shirk

A segunda doutrina sobrenatural está fundamentada no princípio do shirk. A organização da natureza do universo não é resultado de algum acontecimento acidental, nem é verdade que não exista um deus por trás dela. Contudo, seu deus ou senhor (Master) não é um só, mas muitos. Não há qualquer argumento ou prova científica em favor dessa concepção; ela se baseia apenas em conjecturas e suposições. Por isso, os mushriks jamais chegaram a um consenso, nem jamais chegarão, sobre aceitar como deuses todos os objetos que podem ser imaginados, sentidos ou apreendidos pelo intelecto. No intenso breu da ignorância, tudo aquilo sobre o qual recaía a mão dessas pessoas desorientadas era transformado por elas em deus. Assim, o número de divindades aumentava e diminuía. Anjos, jinns, espíritos, planetas e estrelas, pessoas vivas e mortas foram aceitos como divindades. Até coisas abstratas como o amor, a beleza, o desejo sexual, o poder criador, as doenças, a guerra, a fortuna e a força foram transformadas em objetos de adoração. Até mesmo homens-leões, homens-peixes, homens-pássaros, seres de quatro cabeças e homens com mil braços e cabeça de elefante, entre outras figuras disformes, foram incluídos na categoria de divindades adoradas pelos mushriks.

Depois, em torno desse caminho, criou-se um maravilhoso mundo mágico de imaginação e mitologia. A fértil imaginação e o variado talento artístico de cada povo ignorante produziram exemplos tão divertidos que se fica maravilhado ao vê-los. Entre os povos que possuem uma concepção clara do Deus Supremo, isto é, Allah, a administração da divindade é mais ou menos assim: Allah é o rei, enquanto os demais deuses são seus ministros, dignitários da corte, companheiros e responsáveis por diferentes funções; mas, como as pessoas não podem chegar diretamente ao rei, todos os assuntos e atividades ficam relacionados aos deuses de categoria inferior. Já entre os povos cuja concepção de Allah é muito vaga, ou que praticamente não têm concepção alguma sobre Ele, toda a autoridade divina encontra-se distribuída entre diferentes deuses.

Depois da jahiliyyah pura, esta é a “segunda espécie de jahiliyyah”, na qual a humanidade permanece mergulhada desde tempos imemoriais até hoje. Em todos os tempos, as pessoas desceram a tal ponto, chegando ao nível mais baixo do estado mental. Sob a influência dos ensinamentos dos profetas de Allah, aqueles que passaram a crer em um Allah Todo-Poderoso eliminaram de seus corações a existência dos demais deuses; contudo, profetas, mártires, pirs, santos, ghaws, qutbs, abdals e pessoas agraciadas com o título de Zillullah encontraram, de uma forma ou de outra, lugar em suas crenças e convicções. Pessoas ignorantes aceitaram como deuses os mushriks — aqueles cuja vida inteira havia sido dedicada a eliminar o domínio humano sobre os homens e estabelecer exclusivamente a autoridade e o senhorio de Allah. Por um lado, no lugar da adoração dos mushriks, foi criada uma nova shariah de práticas religiosas como fatiha, ziyarat, nazr-niyaz, urs, adoração dos mausoléus, hastear bandeiras sobre os túmulos, ta’ziya e outras práticas semelhantes. Por outro lado, sem qualquer prova teórica ou evidência, criou-se uma mitologia completa sobre o nascimento e a morte desses veneráveis, seu aparecimento e desaparecimento, kashf e karamat, poderes extraordinários e seu estado de proximidade com Allah — uma mitologia inteiramente compatível, em todos os aspectos, com a mitologia dos mushriks. Em terceiro lugar, sob o encantador revestimento de nomes como “wasila”, “ajuda espiritual” e “fayz”, entre outros, todas as relações entre Allah e Seus servos foram vinculadas àqueles veneráveis. Na prática, a situação tornou-se exatamente como a dos mushriks, segundo os quais o Senhor do universo está muito além do alcance dos seres humanos, e todos os assuntos relacionados à vida humana estão confiados às mãos de Seus funcionários inferiores. A única diferença é que os mushriks chamam abertamente esses funcionários inferiores de objetos de adoração, divindades, encarnações ou filhos de Allah, enquanto estes os ocultam sob termos como ghaws, qutb, abdal, awliya e pessoas de Allah.

Em todas as épocas da história, esta segunda espécie de jahiliyyah cooperou com a primeira espécie, isto é, a jahiliyyah pura. Nos tempos antigos, as civilizações e culturas da Babilônia, do Egito, da Índia, do Irã, da Grécia, de Roma e de outros lugares apresentavam a coexistência dessas duas espécies de jahiliyyah. Atualmente, a situação do Japão também é semelhante. Há várias razões para essa cooperação. Mencionarei aqui algumas delas.

Em primeiro lugar, na jahiliyyah misturada ao shirk, a relação do ser humano com suas divindades resume-se ao fato de considerá-las detentoras de autoridade e senhoras do benefício e do prejuízo, procurando obter sua graça e ajuda, por meio de diversos rituais de adoração, para alcançar objetivos mundanos. — [O profeta Salih (que a paz esteja sobre ele) disse ao seu povo:

(Árabe************************************(Árabe************************************na página 340 do PDF)

“Portanto, pedi perdão a Allah e voltai-vos para a obediência a Ele. Certamente, meu Senhor está próximo e atende às súplicas.” — (Surata Hud: 61)

Aqui é refutado um enorme equívoco dos politeístas. Esse equívoco, em geral, estava presente entre todos os politeístas e, em todas as épocas, foi uma das principais causas que levaram as pessoas a se envolverem no politeísmo. Eles pensavam que Allah era como seus reis e imperadores: alguém que permanecia distante do povo, entretido em prazeres dentro de um palácio real. O povo comum não podia chegar até lá. Por isso, para apresentar uma súplica a Ele, era necessário recorrer a alguém entre aqueles que gozavam de Sua proximidade. E, mesmo que, por uma feliz eventualidade, uma súplica chegasse até Ele, por causa de Sua soberba divina, Ele próprio não gostava de respondê-la. A tarefa de responder era confiada a algum de Seus devotos próximos. Sob a influência desse equívoco e instigados por pessoas astutas, eles passaram a pensar que a sagrada corte do Senhor do universo estava muito além do alcance das pessoas comuns. Um homem comum sequer podia esperar chegar até lá. Era absolutamente impossível que uma súplica chegasse à Sua corte e obtivesse resposta, exceto por meio das intercessões de almas santas e com a ajuda de funcionários religiosos especializados, através do envio de oferendas, votos e rogos. Foi devido a esse equívoco que inúmeras divindades, grandes e pequenas, se interpuseram entre o homem e seu deus, e surgiu o sistema sacerdotal, sem cuja intermediação os seguidores das religiões da ignorância não conseguem realizar sequer uma cerimônia religiosa desde o nascimento até a morte. — (Autor)

A questão agora é que não há qualquer possibilidade de obter deles uma orientação moral ou um sistema legal para a vida. Pois, se houvesse algum deus ali, haveria a questão de receber orientações e um sistema legal. E, justamente porque não há, os politeístas são inevitavelmente obrigados a elaborar por si mesmos uma doutrina moral e, com base nela, estabelecer sua própria sharia. Assim, é a própria ignorância pura que se torna efetiva. É por isso que, nas sociedades e civilizações construídas sobre a base da ignorância pura ou da ignorância misturada ao politeísmo, não há outra diferença além de que, em um lugar, junto com a ignorância, começa a continuidade de templos, sacerdotes e cultos, enquanto em outro isso não ocorre. O caráter moral e a conduta são do mesmo tipo em ambos os casos; é por isso que se observa uma semelhança entre o temperamento e a natureza moral da antiga Grécia e do Império Romano pagão e o temperamento e a natureza moral da Europa moderna.

Em segundo lugar, a doutrina misturada ao politeísmo não estabelece nenhuma base independente e permanente para as ciências, a literatura, a filosofia, a política, a economia e assim por diante. Também nesse campo, o politeísta adota o partido da ignorância pura, e todo o desenvolvimento mental e intelectual da sociedade politeísta ocorre segundo o ideal da ignorância pura. A única diferença é que a imaginação dos politeístas é excessiva e, por isso, a tendência imaginativa de seu pensamento é muito forte. Os ateus, porém, tendem a ser um pouco mais realistas. Por isso, não têm interesse nem apego por uma filosofia puramente imaginária. Naturalmente, quando, sem Deus, procuram desvendar o mistério da criação do universo, a rede de argumentos que tecem também se mostra tão irracional quanto a doutrina mitológica dos politeístas. Na verdade, do ponto de vista do pensamento, não há diferença fundamental entre o politeísmo e a ignorância pura. A prova viva disso é que a Europa de hoje, no que diz respeito à sua doutrina, está ligada à antiga Grécia e a Roma por um vínculo tão estreito que parece ser filha delas.

Em terceiro lugar, a sociedade politeísta está plenamente disposta a adotar os costumes e sistemas civilizacionais das sociedades que seguem a ignorância pura, embora haja uma diferença metodológica entre o politeísmo e a ignorância pura na estrutura e na organização da sociedade. No reino do politeísmo, os reis são colocados no lugar de deuses. Além disso, surge uma classe de líderes espirituais e religiosos com privilégios e direitos especiais. E, mediante a aliança entre a família real e a comunidade religiosa, forma-se um círculo de poder. Estabelece-se uma doutrina permanente para afirmar a superioridade e a predominância de uma linhagem ou tribo sobre outra e de uma classe sobre outra. Assim, o povo ignorante é aprisionado nas redes da religião e submetido a uma dominação opressiva. Por outro lado, na sociedade da ignorância pura, esses mesmos vícios e defeitos assumem as formas do culto à linhagem, do culto à raça, do imperialismo nacional, da ditadura, do capitalismo e da luta de classes. Porém, quanto à força vital e à motivação fundamental — estabelecer o domínio de seres humanos sobre outros seres humanos, fragmentar a sociedade por meio dos homens e tornar uma classe de pessoas sedenta do sangue de outra classe —, ambas pertencem ao mesmo nível.

Três: a ignorância ascética

A terceira doutrina sobrenatural, fundada no ascetismo, pode ser resumida da seguinte maneira: este mundo e a existência corporal são, para o ser humano, uma punição semelhante à prisão. A alma humana permanece dentro da jaula do corpo como um prisioneiro condenado. Os desejos, as inclinações ao prazer e as necessidades biológicas que o ser humano sente por causa de sua relação com o corpo são, na realidade, as algemas e correntes dessa própria prisão. Quanto mais o ser humano se relacionar com este mundo e com seus diversos objetos, mais corrompido se tornará e, consequentemente, mais merecedor de punição será. Seu único caminho para a libertação é livrar-se das complicações e dos tumultos desta vida terrena, eliminar os desejos, manter-se afastado dos prazeres e recusar-se a satisfazer as necessidades físicas e os impulsos do corpo; apagar do coração o afeto, o amor e o carinho originados das relações com as coisas, com o amor e com a carne e o sangue; e oprimir e atormentar seu próprio inimigo — isto é, o corpo e os desejos — por meio de uma severa austeridade, até que ele já não conserve domínio algum sobre a alma. Com isso, a alma se tornará livre de peso, livre de corrupção e pura, e será capaz de ascender ao elevado caminho da salvação.

Essa doutrina é, em essência, uma doutrina antissocial. Contudo, exerce influência sobre a organização social de diversas maneiras. Com base nela, desenvolve-se um sistema filosófico específico; a filosofia Vedanta, a filosofia de Manu, o neoplatonismo, o ioga, o sufismo, o ascetismo cristão, o budismo e outros são diferentes formas dessa filosofia. Dessa filosofia surge um sistema moral que é muito pouco positivo e, em sua maior parte, inteiramente negativo. Ambos penetram conjuntamente na literatura, nas crenças, na moralidade e na vida prática e, onde quer que sua influência alcance, atuam como ópio e cocaína. Essa terceira forma de ignorância geralmente coopera com as duas primeiras de três maneiras:

Um: Esta jahiliyyah ascética retira as pessoas virtuosas e tementes a Deus do campo de ação do mundo e as instala em aposentos isolados, deixando o campo de ação livre para os piores malfeitores. Os perversos, ao obterem autoridade absoluta sobre a Terra, espalham a anarquia sem qualquer impedimento, enquanto os virtuosos continuam entregues à ascese, preocupados com a própria salvação.

Dois:A influência que esta jahiliyyah exerce sobre as pessoas comuns cria nelas uma espécie equivocada de paciência e tolerância, bem como uma visão desesperançada, transformando-as em presas fáceis dos opressores. É por isso que reis e monarcas, emires e nobres, e as classes dotadas de autoridade religiosa demonstravam especial interesse em promover e disseminar esta filosofia e moralidade ascéticas. Sob sua supervisão, sua propagação prosseguia sem impedimentos. É raro encontrar, na história, um conflito entre a filosofia e o ideal moral ascéticos, por um lado, e o imperialismo, o capitalismo e o papismo, por outro.

Três: Quando esta filosofia e este ideal moral ascéticos são derrotados pela natureza e pelo temperamento humanos, começa-se a inventar vários tipos de artifícios. Em alguns lugares, inventa-se a crença na expiação, para que se possa pecar à vontade sem perder o Paraíso. Em outros, sob o pretexto do amor centrado no corpo, cria-se a oportunidade de satisfazer os impulsos sexuais, de modo que se possa apagar o fogo do desejo e, ao mesmo tempo, preservar a pureza. Em outros ainda, sob o véu da renúncia ao mundo ou do ascetismo, tecem-se redes de espiritualidade em conluio com reis, monarcas, ricos e comerciantes. A comunidade dos papas de Roma e os ocupantes dos tronos do Oriente apresentaram os exemplos mais vis de tal prática. A jahiliyyah trata assim os que lhe são semelhantes. Contudo, quando esta jahiliyyah penetra entre os seguidores dos profetas, surge uma situação diferente. Em vez de reconhecer o mundo como campo de ação, campo de prova e campo de cultivo para a vida futura, ela desfere seu primeiro golpe contra a religião de Allah ao apresentá-lo como casa de tormento e “ilusão”. Como resultado dessa mudança de perspectiva, o ser humano esquece esta verdade real: foi incumbido, neste mundo, da responsabilidade de ser o califa de Allah. Ele começa a pensar que não veio aqui para trabalhar nem para cumprir as diversas responsabilidades do mundo, mas que foi lançado no meio de sujeira e impureza. Portanto, deve manter-se afastado da sujeira e da impureza. Permanecer aqui como um não cooperador e evitar as responsabilidades passa a ser considerado seu verdadeiro dever. Em consequência dessa concepção, ele olha com temor para o mundo e para suas atividades e responsabilidades. Longe de aceitar a responsabilidade da khilafah, ele teme até assumir responsabilidades sociais. Assim, todo o sistema da sharia islâmica perde o sentido para ele. Ele não consegue compreender que a adoração e as ordens e proibições de Deus foram instituídas para reformar e corrigir a vida terrena e preparar o ser humano para cumprir a responsabilidade da khilafah. Pelo contrário, passa a considerar que a adoração e certos ritos religiosos específicos são uma expiação por sua vida pecaminosa. Por isso, acredita que deve realizá-los com plena atenção e da maneira adequada, para alcançar a salvação na vida futura.

Essa mentalidade lançou uma parte da ummah dos profetas no labirinto das explicações filosóficas da realidade — como o panteísmo —, por meio da meditação em retiro (muraqabah), da tentativa de descobrir mistérios desconhecidos (mukashafah), da realização de chillas, da recitação de wazifas, de ahzab e amaliyat (encantamentos, talismãs e coisas semelhantes), e das viagens pelos lugares do mundo espiritual (sair-e maqamat). Além disso, manteve essas pessoas mais ocupadas com atos voluntários e recomendáveis do que com os atos obrigatórios, tornando-as negligentes quanto à responsabilidade da khilafah. No entanto, os profetas vieram precisamente para estabelecer essa khilafah. Em outro grupo, ela gerou a adoção de uma pobreza artificial, o exagero na religião, o escrutínio minucioso e a investigação teórica desnecessária, além da doença de se preocupar excessivamente com as medidas e os mínimos detalhes de coisas pequenas. A religião de Allah transformou-se, aos olhos dessas pessoas, em um recipiente de vidro tão frágil que elas temem que, ao menor movimento, algo fique desnivelado em algum lugar ou que o recipiente de vidro sobre suas cabeças se quebre em mil pedaços. Depois de tamanha minúcia na religião, surgem inevitavelmente a estreiteza de visão, a falta de iniciativa e a estagnação. Como poderia surgir entre pessoas desse tipo a capacidade de lançar um olhar abrangente sobre os grandes problemas da vida e compreender os princípios universais do Islã? E como poderiam elas adquirir conhecimento tanto dos princípios universais da religião quanto de seus pormenores, preparando-se para assumir a liderança do mundo e orientá-lo em suas novas fases, produzidas pelo curso mutável dos tempos?

 

Quatro: Islã

Os profetas de Allah apresentaram uma concepção sobrenatural. Seu resumo é o seguinte:

Este universo inteiro que se estende ao nosso redor — do qual nós mesmos somos uma parte — é, em essência, o império de um soberano. Ele é o seu Criador, Proprietário e único governante. Aqui, nenhum comando ou governo vigora senão o d’Ele, e todos Lhe são obedientes; todo poder e toda autoridade estão inteiramente concentrados nas mãos desse único Proprietário e Soberano Supremo. O ser humano é súdito nato desse império. Ou seja, ser ou não ser súdito não depende de sua vontade. Pelo contrário, ele nasceu já como súdito, e não há para ele qualquer possibilidade de tornar-se outra coisa além de súdito.

Neste sistema de governo, o ser humano não tem qualquer possibilidade de tornar-se arbitrário e irresponsável. Pela própria natureza, tampouco pode fazê-lo. Ele é, antes de tudo, um súdito nato e, além disso, uma parte desse império. Portanto, assim como todas as demais partes do império obedecem às ordens do soberano, ele também não tem outra alternativa senão obedecer a esse soberano. Ele não tem o direito de determinar por si mesmo seu modo de vida e suas responsabilidades. Cumprir as instruções que o Senhor do império lhe dá é seu único dever. Essas instruções chegam por meio da revelação. E todos aqueles a quem chega a revelação são profetas.

Mas, para pôr o ser humano à prova, o Senhor Soberano adotou um método sutil. Ele próprio permaneceu oculto e também ocultou todo o sistema interno de administração de Seu império. Esse sistema estatal funciona exteriormente de tal modo que não se vê nenhum governante, nem qualquer funcionário. O ser humano vê apenas uma fábrica em funcionamento e percebe a si mesmo dentro dela. Com os sentidos externos, não consegue sentir que é súdito de alguém nem diante de quem terá de prestar contas. Não vê com os próprios olhos nenhum sinal claro que torne indiscutível a autoridade absoluta do Criador do universo sobre ele, bem como o fato de que terá de responder perante Ele e ser governado por Ele — de modo que não lhe reste alternativa senão aceitar isso. Os profetas também vieram, mas não de tal maneira que as pessoas pudessem ver com os próprios olhos a revelação descendo sobre eles; tampouco veio com eles algum sinal cuja visão obrigasse as pessoas a aceitar sua profecia. Além disso, o ser humano desfruta de plena liberdade dentro de certos limites. Recebe o poder para desobedecer e rebelar-se, bem como os meios e recursos necessários, e é-lhe concedido um prazo extremamente longo. Até chegar ao limite máximo da desobediência e da rebeldia, não enfrenta nenhum impedimento. Se quiser obedecer e servir a alguém que não seja o Soberano do império, também não é impedido à força; é-lhe concedida plena liberdade para servir e obedecer a quem quiser. Em ambas as situações — tanto quando desobedece quanto quando serve a outros — continua recebendo seu sustento; são-lhe concedidos em abundância, conforme sua posição, os bens necessários para viver, os meios e recursos necessários para suas atividades e todos os artigos de desfrute. Tudo isso continua sendo-lhe concedido generosamente até o último suspiro. Nunca aconteceu de se interromper o fornecimento dos meios materiais da vida terrena a um rebelde contra Deus ou a alguém que obedece a outros, simplesmente por ter cometido o pecado de rebelar-se contra Deus ou de obedecer a outros. Isso porque o Criador concedeu ao ser humano conhecimento e razão, a capacidade de distinguir o bem do mal, a aptidão para discernir o que é racional e o que é irracional, livre-arbítrio e capacidade de agir. Concedeu-lhe o direito e a capacidade de exercer certo domínio e autoridade governamental sobre inúmeras de Suas criaturas. Com tudo isso, Ele deseja pô-lo à prova. Para realizar essa prova, ocultou por trás do véu do invisível a realidade de todo o Seu império e a própria existência, para testar sua inteligência. Foi-lhe dada a liberdade de escolher o caminho do bem ou o do mal, a fim de verificar se, depois de conhecer a verdade e a justiça, ele as seguiria voluntária e avidamente, sem qualquer coerção, ou se adotaria a servidão aos próprios desejos e delas se afastaria. Sem lhe conceder os meios necessários à vida e a oportunidade de agir livremente, não seria possível testar sua capacidade ou incapacidade.

Esta vida terrena é apenas uma oportunidade para a prova. Por isso, aqui não serão prestadas contas de suas ações, nem lhe será dado o resultado de seus atos. Tudo aquilo que lhe é concedido como bens de desfrute na vida terrena não é recompensa por uma boa ação; é também um instrumento da prova. E todos os sofrimentos, dificuldades, calamidades e aflições que enfrenta tampouco são punição por uma má ação; são, antes, resultados que se manifestam espontaneamente sob a lei natural pela qual o universo é governado. (Isso, naturalmente, não significa que na vida terrena a lei da retribuição pelos atos não esteja de modo algum em vigor. O que quero dizer é que os resultados dos atos neste mundo não são certos nem definidos, tampouco são claros. Em qualquer assunto mundano, o elemento de prova é maior que a recompensa e a retribuição. Por isso, os resultados que se manifestam aqui não podem ser tomados como critério para determinar se alguém é virtuoso ou vicioso. — Autor.) A verdadeira e definitiva prestação de contas das ações, sua avaliação e a decisão a respeito delas ocorrerão após o fim desta vida terrena. Esse é o tempo determinado para isso, e seu nome é Akhirat. Portanto, pelos resultados dos atos obtidos neste mundo não é possível determinar se um sistema de vida ou uma ação é correta ou incorreta, boa ou má, aceitável ou rejeitável. O verdadeiro critério é o resultado manifesto na Akhirat. E qual sistema de vida e quais ações terão bons resultados, e quais terão maus resultados, só pode ser conhecido por meio da revelação enviada por Allah aos profetas. As normas minuciosas e detalhadas são uma questão posterior. A questão fundamental e definitiva da qual dependem o sucesso e o fracasso na Akhirat é saber se, mediante o uso correto de sua capacidade de raciocínio e de seu poder de reflexão, o ser humano consegue compreender que somente Allah Ta’ala é o verdadeiro Legislador e Governante, e que a lei trazida por Ele é uma lei estabelecida pelo próprio Allah. E, depois de compreender isso, se, apesar de possuir a capacidade de escolha livre, ele se submete voluntária e avidamente ao governo e à lei de Allah.

Desde o início, os profetas vêm apresentando essa ideologia. Com base nela, é possível obter uma explicação completa de todos os acontecimentos do mundo. É possível compreender plenamente o significado de todos os sinais da natureza do universo. Nenhuma nova observação ou experiência pode refutar essa ideologia. Dela nasce um processo filosófico permanente e distinto, completamente diferente de todas as filosofias de vida jahilí. Essa filosofia organiza de uma nova maneira todo o conhecimento científico relativo à natureza do universo e à essência humana. Esse método de organização é inteiramente oposto ao método de organização jahilí. Para o cultivo e o desenvolvimento da literatura e das artes, a ideologia dos profetas estabelece um caminho completamente inverso e diferente daquele da literatura e das artes jahilí. Em todas as atividades da vida, ela define uma perspectiva específica e um propósito e objetivo específicos. Esses objetivos e essa perspectiva não têm qualquer semelhança, em sua natureza ou em seus elementos, com os objetivos e a perspectiva jahilí. Dessa ideologia também nasce um sistema próprio de moralidade. Não se encontra qualquer compatibilidade entre ele e a moralidade jahilí. Depois, a civilização edificada sobre esses fundamentos teóricos e morais é completamente diferente das civilizações originadas da jahiliyyah pura. Para preservar essa civilização, é necessário um sistema educacional de natureza inteiramente diferente, cujos princípios se opõem, do início ao fim, ao sistema educacional jahilí. Em suma, nas veias e em cada camada dessa civilização, a autoridade única e absoluta e a soberania do Allah Todo-Poderoso, a crença na Akhirat e a consciência da responsabilidade e o sentimento de obediência do ser humano perante Ele estão presentes como impulso ativo e força vital. Já todas as atividades e normas da civilização puramente jahilí são inspiradas e conduzidas pela liberdade desenfreada, pelo arbítrio e pela irresponsabilidade humanos. Por isso, o tipo e o nível de humanidade produzidos pela civilização estabelecida pelos profetas são, em sua configuração, forma e esplendor, completamente incomparáveis aos da humanidade produzida pela civilização jahilí.

Depois, o sistema social e civilizacional detalhado que se ergue sobre essa base possui uma estrutura distinta de todas as demais estruturas do mundo. Pureza e higiene, alimentação e vestuário, modo de vida, costumes e conduta, caráter pessoal, obtenção do sustento, gasto da riqueza, vida conjugal e familiar, costumes e métodos sociais, procedimentos das reuniões, as diversas formas de relações mútuas entre as pessoas, transações recíprocas, distribuição da riqueza, administração do Estado, formação do governo, posição do líder, método de formação da assembleia legislativa, organização da administração civil, desde os princípios fundamentais da elaboração das leis até a formulação de normas pormenorizadas, tribunais, polícia, sistema de auditoria, sistema tributário, sistema financeiro, obras públicas, indústria e comércio, fornecimento de informações e notícias, sistema educacional e a definição das políticas de todos os demais departamentos, treinamento e organização das forças armadas, guerra e paz, relações internacionais e política externa — em suma, desde os assuntos minuciosos da vida até os assuntos amplos e importantes, as normas e métodos desse sistema civilizacional resplandecem com uma majestade eterna. Em cada uma de suas partes há uma linha divisória clara que o distingue das demais civilizações. Em cada questão, do início ao fim, vigora uma perspectiva específica, um objetivo específico e uma conduta moral específica, relacionados à soberania de Deus, ao sentimento de submissão e responsabilidade do ser humano e ao objetivo da vida futura.

O propósito da vinda dos profetas

Foi com o propósito de estabelecer no mundo a civilização e o sistema civilizacional descritos acima que os profetas vieram sucessivamente. Excetuando-se a civilização ascética, todas as demais civilizações — sejam elas jahilitas ou islâmicas — naturalmente adotam uma visão abrangente da vida mundana e um método universal para administrar os assuntos do mundo, e desejam que o poder governamental passe para suas mãos, para que possam formular um código de vida segundo seu próprio método. Apresentar ou seguir uma ideologia ou um modo de vida sem o poder governamental é algo completamente desprovido de sentido. O caso do asceta é diferente, pois ele não deseja administrar as atividades mundanas. Pelo contrário, mediante um tipo especial de suluk, ou processo de ascese, ele se mantém afastado do campo de ação do mundo e permanece absorto na contemplação de alcançar sua libertação imaginária. Por isso, não necessita nem deseja o poder governamental. Mas aqueles que entram em cena com um método específico para administrar as atividades mundanas e acreditam que a salvação e a libertação das pessoas dependem de seguir esse método específico não têm alternativa senão tentar obter as chaves do poder governamental. Pois, enquanto não adquirirem a capacidade de implementar o projeto do modo de vida que apresentam, esse projeto não poderá atuar no campo prático e real do mundo. Além disso, se não obtiverem esse poder, seu projeto não poderá permanecer por muito tempo nem no papel nem nas mentes. Todas as atividades do mundo se desenvolvem segundo o plano da civilização em cujas mãos está concentrada a autoridade governamental. É sua orientação que prevalece nos campos do conhecimento e da ciência, do pensamento, da literatura e da cultura; é ela que molda a estrutura moral; em suas mãos está a administração da educação e da formação das massas; o sistema civilizacional é estabelecido segundo as leis que ela cria; e sua política vigora em todos os campos da vida. A civilização que não ocupa o poder governamental não tem lugar algum na vida. Quando uma civilização dominante mantém sua hegemonia por um longo período, a civilização que está fora do poder governamental não exerce qualquer influência no campo prático do mundo. Até mesmo nos corações daqueles que simpatizam com essa civilização surge a dúvida sobre se ela é aplicável à vida mundana. Por fim, os supostos porta-estandartes dessa civilização e aqueles que reivindicam ser herdeiros de sua liderança tornam-se dispostos a trabalhar mediante compromissos e partilha com a civilização adversária. Contudo, a partilha e o compromisso entre duas civilizações originadas de fontes completamente opostas no poder governamental são absolutamente impossíveis e irreais. A civilização humana não pode tolerar esse tipo de parceria. Considerar essa partilha realmente possível é sinal de falta de conhecimento; preparar-se para ela, por sua vez, só pode ser chamado de falta de fé e de coragem.

O objetivo máximo e supremo da vinda dos profetas ao mundo era estabelecer nele o governo divino, isto é, o sistema de governo de Deus, e implementar todo o código de vida concedido por Deus. — [Frequentemente se ouve alguns religiosos veneráveis desta época dizerem que não deveria ser objetivo dos muçulmanos conquistar o poder governamental — que isso é uma promessa de Deus. Na mente desses cavalheiros, o poder governamental é, na realidade, apenas uma espécie de recompensa. Eles não pensam que se trata de uma grande responsabilidade. Não sabem que, segundo a lei de Deus, é indispensável estabelecer o governo necessário para instituir o Islã como um sistema efetivo, e que esse deve ser o objetivo dos muçulmanos. Empenhar-se em jihad para estabelecer tal governo também é obrigatório. — (O autor)] Os profetas estavam dispostos a conceder aos representantes da civilização jahilita o direito de permanecerem firmes em suas próprias crenças, caso desejassem, e de seguirem costumes e métodos jahilitas na medida em que os efeitos de suas atividades permanecessem limitados a eles próprios. Porém, os profetas não estavam dispostos a conceder-lhes o direito de manter em suas mãos as chaves do poder governamental e de dirigir coercitivamente todas as atividades da vida humana segundo leis kufr e jahilitas; naturalmente, isso também não era possível. Por essa razão, todos os profetas fizeram o máximo possível para transformar o cenário político. O esforço de alguns limitou-se apenas à criação de um ambiente e de um campo favoráveis, como no caso de Abraão (que a paz esteja com ele). Outros iniciaram um movimento revolucionário, mas deixaram este mundo antes de estabelecer o sistema de governo islâmico, como Jesus (que a paz esteja com ele). E alguns profetas conseguiram levar esse movimento ao objetivo do sucesso, como José, Moisés e o nobre Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele).

 

A religião na perspectiva do Alcorão

(Árabe************************************(Árabe************************************na página 349 do PDF)

“Ele estabeleceu para vós, como religião, o mesmo sistema que havia ordenado a Noé e que agora, por meio da revelação, envio a ti, ó Profeta, e que anteriormente havia ordenado a Abraão, a Moisés e a Jesus, com a determinação de que estabeleçais a religião e não vos dividais a respeito dela.” — (Surata Ash-Shura: 13)

Este versículo afirma claramente que o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) não é o fundador de uma nova religião. E nenhum dos profetas anteriores foi fundador ou promulgador de uma religião distinta. Do princípio ao fim, todos os profetas apresentaram o mesmo dīn da parte de Allah, e o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) também apresentou esse mesmo dīn. Neste contexto, o nome de Hazrat Nuh é mencionado em primeiro lugar, pois, após o grande dilúvio, ele foi o primeiro profeta da humanidade atual. Em seguida, é mencionado o nome do último profeta, Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Depois, é citado o nome de Hazrat Ibrahim. Os árabes reconheciam-no como seu líder religioso. Por fim, são mencionados os nomes de Hazrat Musa e Hazrat Isa. Os cristãos e os judeus consideram-nos fundadores das suas respectivas religiões. Naturalmente, isso não significa que somente esses cinco profetas tenham recebido a ordem de estabelecer esse dīn. O ponto essencial é que todos os profetas enviados ao mundo vieram com o dīn. Aqui, foram mencionados apenas, como exemplos, os nomes de cinco profetas ilustres, pois as leis divinas universalmente conhecidas do mundo foram recebidas por meio deles.

Deste versículo, obtêm-se ensinamentos extremamente importantes sobre o dīn — isto é, a verdadeira religião, o Islã — e sobre o seu objetivo. Por isso, é necessário refletir profundamente sobre este versículo e compreendê-lo devidamente.

Análise lexical

Na língua árabe, a palavra “dīn” é usada em vários sentidos. Por exemplo:

Primeiro: poder, força e domínio; governar e exercer autoridade; obrigar alguém a aceitar a obediência e a submissão; exercer soberania sobre outro, tornando-o seu escravo e submisso. Por exemplo, (Árabe**********) isto é, ele obrigou as pessoas a obedecer.(Árabe**************) isto é, eu os subjuguei, e eles aceitaram a submissão.(Árabe***********) isto é, tornei aquele povo submisso e fiz dele meu escravo.(Árabe*********) isto é, fulano tornou-se poderoso e honrado.(Árabe**************) isto é, obriguei-o a fazer algo que ele não estava disposto a fazer.(Árabe**************) isto é, fulano foi obrigado a realizar uma tarefa desagradável.(Árabe**************) isto é, governei-o e exerci autoridade sobre ele.(Árabe**************) isto é, confiei a fulano a liderança e a autoridade sobre o povo. Com esse sentido, Hutayya dirige-se à sua mãe dizendo:

(Árabe************** na página 350 do PDF)

“Foste feita guardiã dos teus próprios filhos; por isso, deixaste-os mais finos que a farinha.”

No hadith, consta:

(Árabe************** página 350 do PDF)

“Aquele que subjugou seus próprios desejos e se dedicou a obras benéficas para a vida futura é verdadeiramente inteligente”.

É por isso que aquele que vence e exerce autoridade sobre um país, uma nação e uma tribo é (Árabe**************) chamado de Dayyan. Asha al-Harmadhi dirigiu-se ao Mensageiro de Deus (s.a.w.),(Árabe**************) dizendo: “Ó líder do povo e soberano dos árabes”. Nesse sentido, (Árabe**************) significa escravo, e (Árabe**************) significa escrava. E (Árabe**************) significa filho de escrava. O poeta Akhtal diz: (Árabe**************) “Ela (a escrava) criou-me como filho de escrava”. No Sagrado Alcorão, encontramos:

(Árabe***************************************** página 350 do PDF)

Isto é: “Se realmente não sois escravos, seguidores e subordinados de ninguém, por que não podeis salvar aquele que está à beira da morte? Por que não trazeis de volta a alma que está partindo?”

Dois: obediência, escravidão, serviço, reconhecer a submissão a alguém, estar sob a autoridade de alguém e curvar-se diante do poder e do domínio de alguém. Os árabes costumam dizer: (Árabe*************) isto é: “Eu servi a fulano e a sicrano”. Consta num hadith que o Profeta (s.a.w.) disse: (Árabe*************) “Quero fazer com que os anjos sigam uma palavra que, se eles a aceitarem, fará com que toda a nação árabe lhes obedeça e se curve diante deles”. É à luz desse significado que a nação é (Árabe*************) chamada assim. No hadith sobre os Kharijitas, a palavra ‘din’ também foi usada nesse sentido. Nele se diz: (Árabe*************) “Eles sairão do din (obediência) assim como uma flecha sai disparada do arco”. — [O sentido desse hadith não é que os Kharijitas se tornarão apóstatas. Quando perguntaram a Ali: “Eles são incrédulos?”, ele respondeu: (Árabe*************) ‘Eles fugiram justamente da incredulidade’. Perguntaram novamente: (Árabe*************) “Então são hipócritas?” Ele respondeu: “O hipócrita raramente se lembra de Deus. Eles, porém, lembram-se de Deus dia e noite. Portanto, pode-se afirmar sem hesitação que, neste hadith, ‘din’ significa obediência ao emir”. Ibn Athir escreveu na obra intitulada An-Nihaya:

(Árabe*************)

“O significado das palavras de Ali é que eles sairão da obediência ao líder cuja obediência é obrigatória”. — (vol. 2, pp. 41–42)

Terceiro: sharia, lei, costumes, usos e hábitos. Na linguagem cotidiana, costuma-se dizer:(Árabe*************) isto é, este é um costume consagrado.(Árabe*************) Ou seja, qualquer que seja o costume, bom ou mau, que alguém siga, ele pode ser chamado de din. No hadith, consta:(Árabe*************) “Antes da profecia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) seguia os costumes praticados por seu povo. Isto é, ele também seguia os costumes e tradições relativos ao casamento, ao divórcio, à herança e a outras questões sociais e usos de sua comunidade.”

Quarto: resultado das ações, retribuição, recompensa ou vingança, julgamento e prestação de contas. O famoso provérbio árabe(Árabe*************) “a cada ação corresponde um resultado” é um exemplo perfeito. O Alcorão cita a declaração dos incrédulos:(Árabe*************) “Será que teremos de prestar contas depois da morte? Será que teremos de sofrer as consequências de nossas ações?” No hadith narrado por Abdullah ibn Umar, consta:(Árabe*************) “Não insultem os governantes. Se for absolutamente necessário falar mal deles, digam: Ó Allah, trata-os como eles nos tratam.” É nesse sentido que(Árabe*************) a palavra “dayyan” é usada para designar o cádi ou juiz. Um sábio comentou a respeito de Ali:(Árabe*************) “Depois do Profeta, ele foi o melhor juiz da comunidade muçulmana.”

Um termo de significado abrangente

Os árabes usavam a palavra “din” de diversas maneiras, ora para um, ora para outro dos significados mencionados. Contudo, sua concepção acerca desses quatro aspectos não era totalmente clara, nem particularmente elevada. Por isso, restou nessa palavra certa imprecisão. Consequentemente, ela não pôde tornar-se propriamente um termo técnico de uma corrente de pensamento. Quando o Alcorão foi revelado, encontrou nessa palavra um veículo adequado para sua mensagem; utilizou-a com um sentido claro e preciso e adotou-a como seu termo técnico específico. Assim, na linguagem do Alcorão, a palavra “din” expressa um sistema de vida completo. Segundo o sentido do Alcorão, chama-se “din” a conduta específica e o modo de agir específico que uma pessoa adota ao reconhecer a soberania e o senhorio de alguém e aceitar obedecer-lhe. E dedicar o “din” exclusivamente a Allah e servi-Lo significa que a pessoa não associará o serviço a ninguém ao serviço de Allah; ao contrário, adorará somente a Ele, seguirá somente Sua lei e obedecerá somente às Suas ordens e instruções, esperando alcançar honra, progresso e recompensa por meio da obediência aos Seus mandamentos, e mantendo-se precavida, sabendo que, se desobedecer a Ele, sofrerá humilhação, desonra e castigo. É provável que, em nenhuma língua do mundo, exista um termo de significado tão abrangente. A palavra moderna “Estado” aproxima-se dele em certa medida. Mas, para expressar plenamente o significado de din, ainda precisa adquirir maior amplitude e abrangência.

Um conceito equivocado

O din cuja instituição foi ordenada era o mesmo para todos os profetas, enquanto suas sharias eram diferentes(Árabe*************) “Para cada comunidade entre vós, estabeleci uma sharia e um caminho.” O din não inclui as prescrições do Alcorão; ele consistiria apenas em aceitar o tawhid, a missão profética, a vida futura, o Livro e a profecia, e em adorar Allah. No máximo, poderiam ser incluídas no din as normas morais fundamentais que eram iguais para todos os profetas. Foi por se olhar de maneira superficial e vaga para a unidade do din e a diversidade das sharias que se tornou possível estabelecer semelhante opinião. Trata-se de uma opinião extremamente grave. Se ela não for corrigida, poderão surgir posteriormente tentativas de criar uma separação enganosa entre o din e a sharia. Foi ao envolver-se em tal divisão que São Paulo apresentou o conceito de um din sem sharia e desviou a comunidade de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Quando a sharia for considerada algo separado do din, os muçulmanos também, como os cristãos, considerarão irrelevantes as prescrições da sharia e, por julgarem sua instituição e implementação alheias ao objetivo, irão ignorá-las. Ficarão satisfeitos tendo como único patrimônio as crenças e os ensinamentos morais fundamentais. Será que determinar o significado do din com base em tais conjecturas significa que ele consiste apenas em crenças e ensinamentos morais fundamentais, ou que as leis e prescrições da sharia também estão incluídas nele? Ao estudar o Nobre Alcorão, vemos que, além das crenças e dos ensinamentos morais, as coisas a seguir também foram incluídas no din:

(Árabe****************************************na página 353 do PDF)

Não lhes foi ordenado senão que adorassem a Allah, dedicando-Lhe sinceramente a religião, estabelecessem a oração e pagassem o zakat. Essa é a religião da nação que segue o caminho correto.” – (Surata Al-Bayyinah: 5)

Disso se compreende que a oração e o zakat fazem parte da religião. Contudo, nas diferentes sharias existem normas distintas relativas a essas duas práticas. Não se pode dizer que, em todas as sharias anteriores, a forma da oração, seus pilares, o número de rak‘at, a qibla, os horários e as demais normas fossem iguais. O mesmo se aplica ao zakat. Ninguém pode afirmar que, em todas as sharias, fossem iguais as normas relativas ao nisab que torna o zakat obrigatório, à sua proporção, bem como à sua arrecadação e distribuição. Apesar dessas diferenças entre as sharias, Allah, o Altíssimo, declarou que essas duas coisas são partes integrantes da religião.

(Árabe****************************************na página 353 do PDF)

“Foi-vos proibido o animal morto, o sangue, a carne de porco, o animal sacrificado em nome de outro que não Allah, e aqueles que morreram estrangulados, por golpe, por choque, por queda de um lugar elevado ou pelo ataque de uma fera. Exceto aquele que encontrardes ainda vivo e sacrificardes: esse é lícito. Também é proibido o animal sacrificado sobre um altar. E é-vos proibido determinar o destino por meio de jogos de azar. Tudo isso é transgressão. Hoje, os incrédulos perderam a esperança quanto à vossa religião. Portanto, não os temais; temei a Mim. Hoje, aperfeiçoei para vós a vossa religião, completei sobre vós a Minha graça e escolhi para vós o Islam como religião.” – (Surata Al-Ma’idah: 3)

Disso se compreende que essas normas da sharia também fazem parte da religião.

(Árabe****************************************na página 353 do PDF)

“Combatei aqueles que não creem em Allah nem no Último Dia, não consideram proibido o que Allah e o Mensageiro proibiram e não adotam como religião a verdadeira religião.” – (Surata At-Tawbah: 29)

Com isso, ficou claro que, além de crer em Allah e na Outra Vida, obedecer e cumprir as disposições sobre o lícito e o ilícito estabelecidas por Allah e por Seu Mensageiro também faz parte da religião.

(Árabe****************************************na página 354 do PDF)

“Açoitai cem vezes tanto a mulher adúltera quanto o homem adúltero. E que a compaixão por eles não vos impeça de aplicar a religião de Allah, se credes em Allah e no Último Dia.” — (Surata An-Nur: 2)

Com isso, ficou claro que o direito penal também faz parte da religião.

Foram apresentados quatro exemplos em que as disposições da sharia são explicitamente chamadas de religião. Além disso, mediante um estudo profundo e ponderado, ficará claro que também faz parte da religião abster-se dos atos pecaminosos sobre os quais Allah advertiu que levarão ao Inferno, como o adultério, a usura, o assassinato de muçulmanos, o consumo dos bens dos órfãos, a apropriação dos bens alheios por meios ilícitos e outros, bem como dos crimes cuja consequência Allah declarou ser inevitavelmente Seu castigo, como as relações homossexuais e a corrupção nas transações. Pois que outro propósito poderia ter a religião senão salvar do Inferno e do castigo divino? Do mesmo modo, as disposições da sharia cuja violação causa o lançamento eterno no Inferno também devem ser consideradas parte da religião. Pode-se mencionar, como exemplo, as disposições relativas à herança. Depois de descrever essas disposições, Allah diz na conclusão:

(Árabe****************************************na página 354 do PDF)

“Quanto àquele que desobedece a Allah e a Seu Mensageiro e transgride os limites estabelecidos por Allah, Ele o lançará no Inferno, onde permanecerá eternamente. Para ele haverá um castigo humilhante.” — (Surata An-Nissá: 14)

Do mesmo modo, não se pode considerar fora da religião a proibição das coisas declaradas ilícitas, como o jogo, o falso testemunho e outras, sob o pretexto de que sua proibição seria uma ordem desnecessária cuja aplicação Allah não desejasse. Da mesma forma, não se pode excluir da religião os atos que Allah declarou obrigatórios, como o jejum e a peregrinação, sob o pretexto de que os trinta jejuns do Ramadã não existiam nas sharias anteriores e de que a peregrinação à Caaba fazia parte, entre os descendentes do Profeta Ibrahim, apenas da sharia de Ismail.

A lei do país e a religião

Na surata Iúçufe,(Árabe************) (segundo a lei do rei, Iúçufe não poderia prender seu irmão), nesta passagem, ao empregar a palavra “religião” no sentido de lei do país (Law of the land), Allah, o Altíssimo, esclareceu a amplitude do significado de religião. Com isso, torna-se sem fundamento a concepção daqueles que limitam a mensagem dos profetas ao sentido religioso comum da adoração do Deus Único e da observância de alguns ritos e cerimônias religiosos, e consideram que a religião não tem qualquer relação com a civilização humana, a política, a economia, as leis, os tribunais e os demais assuntos mundanos. E, mesmo que tenha alguma relação, segundo eles, as orientações da religião nesses assuntos seriam apenas recomendações opcionais: seria bom agir de acordo com elas, mas, caso contrário, não haveria problema em seguir as leis e normas criadas pelos seres humanos. Essa é, sem dúvida, uma concepção enganosa. Durante muito tempo, essa concepção prevaleceu entre os muçulmanos e foi em grande medida responsável pela indiferença deles diante do esforço para estabelecer um sistema de vida islâmico. Por causa dela, os muçulmanos não apenas aceitaram o sistema de vida da incredulidade e da ignorância, mas também, considerando-o uma sunna do Profeta, chegaram a aceitar tornar-se participantes e administradores desse sistema de vida. Ao denominar a lei penal de religião, esta passagem provou ser errônea a concepção deles. Aqui, Allah, o Altíssimo, declarou claramente que, assim como a oração, o jejum e o hajj são religião, também o são as leis que regem a sociedade e o Estado. Portanto,(Árabe************) (o Islã é a única religião escolhida por Allah) e(Árabe************) (aquele que adotar algo além do Islã como religião jamais terá isso aceito), e em passagens semelhantes, a obediência à religião ordenada não significa apenas realizar a oração e o jejum, mas também adotar o sistema social do Islã. Se alguém seguir outro sistema, abandonando este, isso não poderá ser aceito por Allah.

A verdadeira questão é que, na surata Al-Maida,Árabe***************) (Eu determinei para cada comunidade uma lei e um caminho), interpretou-se esta passagem de modo contrário ao seu sentido, dizendo-se que, como a lei religiosa era diferente para cada comunidade, e como a ordem teria sido dada apenas para estabelecer a religião que era comum a todos os profetas, a ordem de estabelecer a lei religiosa não estaria incluída na ordem de estabelecer a religião. Na realidade, o significado desta passagem é exatamente o oposto. Se lermos atentamente os versículos 41 a 50, antes e depois do local em que esta passagem se encontra na surata Al-Maida, saberemos que seu significado correto é o seguinte: qualquer que fosse a lei religiosa que Allah tivesse dado à comunidade de um profeta, ela era a religião daquela comunidade. Durante a época daquele profeta, foi ordenado que se estabelecessem precisamente aquela religião e aquela lei religiosa. Agora, como estamos na era profética de Muhammad (que a paz esteja com ele), a lei religiosa dada à comunidade de Muhammad é a religião desta época, e estabelecê-la significa estabelecer a religião. Quanto às diferenças entre essas leis religiosas, isso não significa que as leis de Allah fossem contraditórias entre si. Significa, antes, que, conforme as circunstâncias, havia algumas diferenças em questões secundárias. Tomemos como exemplo a oração e o jejum. A oração era obrigatória em todas as leis religiosas, mas a qibla não era a mesma em todas elas. Também havia diferenças nos horários da oração, no número de rak‘at e nos seus elementos e regras. O jejum igualmente era obrigatório em todas as leis religiosas, mas os trinta jejuns do mês do Ramadã não existiam em todas elas. Por isso, não é correto dizer que realizar a oração em termos gerais e jejuar nos períodos determinados estaria fora do estabelecimento da religião. A conclusão correta que se pode tirar disso é que, para a comunidade de cada profeta, estabelecer a religião naquela época significava realizar a oração e observar o jejum de acordo com as regras estabelecidas pela lei religiosa vigente naquele período. Já na época atual, estabelecer a religião significa cumprir esses atos de adoração de acordo com as regras e normas estabelecidas pela lei religiosa de Muhammad. A partir desses dois exemplos, podem-se deduzir todas as demais orientações da lei religiosa.

A religião reivindica sua própria autoridade governamental

Se o Sagrado Alcorão for estudado atentamente, ficará claro que este grandioso Livro não apresenta aos seus seguidores um programa de vida religiosa como cidadãos derrotados e obedientes, tratando-os como súditos de um sistema de incredulidade e de incrédulos. Pelo contrário, ele deseja abertamente estabelecer seu próprio sistema de governo. Ele conclama seus seguidores a empenharem-se — até sacrificarem a própria vida — para tornar a verdadeira religião vitoriosa nos campos do pensamento, da moralidade, da civilização, das leis e da política. Este grandioso Livro oferece-lhes, para a reforma da vida humana, um programa cuja grande parte só pode ser implementada quando o poder governamental estiver nas mãos de pessoas crentes. Este grandioso Livro descreve assim o propósito de sua revelação:

(Árabe*****************************************na página 356 do PDF)

“Ó Profeta! Nós te revelamos este grandioso Livro com a verdade, para que julgues entre as pessoas conforme a luz que Allah te mostrou.” — (Surata An-Nissá: 105)

Neste Livro foram estabelecidas as normas para a arrecadação e distribuição da zakat. Por trás dessas normas, está claramente presente a concepção de um governo que arrecadará a zakat e assumirá a responsabilidade de distribuí-la entre as pessoas habilitadas a recebê-la — (Surata At-Tawbah: 60–130). A ordem dada neste Livro para abolir os juros, bem como a declaração de guerra contra aqueles que continuam a consumi-los (Al-Baqarah: 257), só pode ser efetivada se o sistema político e econômico do país passar inteiramente às mãos de pessoas crentes. A pena capital para o assassino (Al-Baqarah: 178), a amputação da mão do ladrão (Al-Ma’idah: 38) e a ordem de aplicar punições por adultério e por acusação caluniosa de adultério não foram dadas sob a suposição de que os tribunais e a polícia que executariam essas determinações permaneceriam sob o controle dos incrédulos. Neste Livro, foi dada a ordem de combater os incrédulos (Al-Baqarah: 190–216)

não sob a suposição de que os seguidores deste dīn se alistariam como soldados sob um governo incrédulo para executar essa ordem. Nele também foi dada a ordem de cobrar a jizya dos judeus e dos cristãos. Mas não pode ser que os muçulmanos, tornando-se súditos dos incrédulos, cobrem deles a jizya e assumam a responsabilidade por sua proteção. Isso não se aplica apenas às suratas reveladas depois da Hégira; mesmo lendo as suratas anteriores à Hégira, uma pessoa de visão pode perceber claramente que, desde o início do Alcorão, havia o plano de tornar os crentes vitoriosos e detentores de autoridade. Jamais houve o plano de que o Islã e os muçulmanos permanecessem subjugados sob um governo incrédulo.

O testemunho das ações concretas do Profeta (que a paz esteja com ele)

Acima de tudo, a interpretação equivocada mencionada entra em conflito com as ações concretas realizadas pelo Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) ao longo dos vinte e três anos de sua missão profética. Quem desconhece que, com o auxílio da pregação e da espada, ele submeteu toda a Arábia e estabeleceu ali um sistema estatal completo, com uma sharia detalhada? Esse Estado submeteu à sua influência todos os aspectos e setores da vida — desde a crença e a fé até o caráter individual e coletivo, a civilização e a cultura, a economia e a organização social, a política, a lei e os tribunais, bem como a guerra e a paz. Se não se admitir que todas as suas ações foram a interpretação prática da ordem dada, no versículo citado, ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), juntamente com todos os profetas, para estabelecer o dīn, então disso decorrem duas possibilidades. Ou é preciso acusar o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) — que Allah nos livre — de ter recebido a ordem de divulgar apenas os principais fundamentos da crença e da moralidade, mas de, ultrapassando esse limite, ter estabelecido por iniciativa própria um governo e elaborado um código detalhado, diferente e adicional ao conjunto das leis de todos os profetas. Ou é preciso acusar o próprio Allah de que, depois de fazer a declaração mencionada na Surata Ash-Shura, Ele mesmo agiu em sentido contrário e, por meio de Seu Profeta, realizou uma tarefa muito maior e diferente daquela de estabelecer o dīn anunciado nessa surata. Além disso, depois de concluir essa tarefa, Ele fez uma segunda declaração contrária à primeira(Árabe***********) (Hoje aperfeiçoei para vós a vossa religião) — que Allah nos livre.

Dīn: um termo de significado abrangente e universal

O Alcorão Sagrado usa a palavra dīn como um termo de significado abrangente. Ela significa um sistema de vida sob o qual a pessoa reconhece a soberania de alguém e lhe obedece; vive de acordo com os limites, costumes e leis por ele estabelecidos; espera alcançar honra, progresso e recompensa por meio dessa obediência; e deve manter no coração o temor de sofrer humilhação, desonra e castigo por desobedecer-lhe. Talvez não exista, em nenhuma língua do mundo, outra palavra de significado tão abrangente. Nos versículos seguintes, dīn foi usado precisamente como esse termo:

(Árabe*****************************************na página 358 do PDF)

“Combatei aqueles, dentre os adeptos do Livro (judeus e cristãos), que não creem em Allah (isto é, não O reconhecem como o único detentor da soberania), nem no Derradeiro Dia (isto é, o Dia do acerto de contas e da retribuição), que não consideram ilícito aquilo que Allah e Seu Mensageiro declararam ilícito e que não adotam a verdadeira religião como sua religião, até que paguem a jizya com as próprias mãos e se submetam.” — (Surata At-Tawbah: 29)

Neste versículo, din al-haqq (a religião verdadeira) é um termo técnico. Ele próprio explicou o que pretende dizer com isso nas três primeiras afirmações do versículo. A soma dessas três afirmações foi definida como din al-haqq:

(Árabe*************************************PDF 358 )

“O Faraó disse: ‘Deixem-me matar Moisés; depois, que ele invoque o seu Senhor. Temo que ele mude a vossa religião ou cause corrupção no país’.” — (Surata al-Mu’min: 26)

Ao analisar e ponderar o contexto de todos os relatos sobre o Faraó e Moisés encontrados no Alcorão, fica indubitavelmente comprovado que, aqui, din não foi usado simplesmente no sentido de uma religião. Pelo contrário, foi usado no sentido de um sistema estatal e civilizacional. O que o Faraó quis dizer foi que, se o objetivo de Moisés (que a paz esteja com ele) fosse alcançado, o sistema de governo mudaria. O sistema de vida vigente com base na soberania do Faraó, nas leis, normas e costumes estabelecidos seria erradicado e, em seu lugar, ou se construiria um novo sistema sobre novos fundamentos, ou nenhum sistema seria construído; ao contrário, surgiria uma situação de anarquia em todo o país.

(Árabe*************************************PDF 358 )

“A única religião escolhida por Deus é o Islão.” — (Surata Ál Imran: 19)

(Árabe*************************************PDF 358 )

“Quem buscar uma religião diferente do Islão, ela jamais será aceita dele.” — (Surata Ál Imran: 85)

(Árabe*************************************PDF 358 )

“Ele é o único Deus que enviou Seu Mensageiro com a orientação correta e a verdadeira religião, para que ele a faça prevalecer sobre todas as demais religiões, por mais repugnante que isso seja para os politeístas”.–(Surata At-Tawbah: 36)

(Árabe*************************************PDF 359 )

“E combatei-os até que não reste no mundo nenhum sistema de incredulidade e até que a religião seja exclusivamente dedicada a Allah”.–(Surata Al-Anfal: 39)

(Árabe*************************************PDF 359 )

“Quando chegou o auxílio de Allah e a vitória foi anunciada, e viste as pessoas ingressarem em grupos na religião de Allah, então glorifica e louva teu Senhor, celebra Seu tasbih e pede-Lhe perdão. Ele é extremamente Misericordioso”.–(Surata An-Nasr)

Nestes versículos, por religião entende-se todos os aspectos e setores da vida, tais como crenças, pensamentos, moralidade e ações práticas.

Nos dois primeiros versículos é dito que o único sistema de vida puro escolhido por Allah é aquele que se estabelece sobre a base da obediência e da servidão a Allah (Islam). Já o sistema de vida que se estabelece sobre a obediência a qualquer outra falsa entidade soberana jamais é aceitável perante o Senhor do universo, nem pode sê-lo por sua própria natureza. Pois o ser humano, que é criação de Allah, Seu servo, sustentado por Ele e que vive como súdito em Seu reino, jamais pode aceitar que tenha o direito de viver submetido e servindo a qualquer outra força além d’Ele, ou de seguir as instruções de qualquer outro.

No terceiro versículo, afirma-se que Allah enviou Seu Mensageiro com este sistema de vida puro, impecável e verdadeiro, isto é, o Islam; e o objetivo de enviá-lo era que ele certamente fizesse este sistema de vida triunfar sobre todos os outros sistemas de vida.

No quarto versículo, os seguidores do sistema de vida islâmico são instruídos a continuar lutando contra os habitantes do mundo até que todos os sistemas de vida fundados na rebeldia contra Allah sejam eliminados da Terra e a servidão e a obediência sejam dedicadas exclusivamente a Allah.

No quinto versículo, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) é interpelado num momento em que, após vinte e três anos de esforço incansável e contínuo, a revolução na Arábia havia sido concluída. O Islam havia sido efetivamente estabelecido como um sistema de crença, pensamento, moralidade, educação, sociedade, civilização, economia e política, e pessoas de várias regiões da Arábia estavam entrando em grupos sob a égide desse sistema. Assim, a obra realizada pelo Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) foi concluída. É-lhe dito que não deve orgulhar-se desse grande sucesso, considerando-o seu próprio sucesso.

A Essência que está acima de todo tipo de erro, deficiência e imperfeição é a Essência do Senhor do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Portanto, pela conclusão dessa grande obra, é-lhe dito que glorifique e louve seu Senhor e peça perdão em Sua presença pelos erros e falhas ocorridos durante os longos vinte e três anos de luta e dedicação.

 

Capítulo: 9 – Milagres

Discussão sobre os milagres

Sempre que os profetas se apresentaram como mensageiros enviados pelo Senhor do Universo, as pessoas lhes exigiram: “Se vocês são realmente representantes do Senhor do Universo, então deveriam realizar algum acontecimento extraordinário e milagroso, acima do curso habitual das leis naturais, ao vê-lo ficar claramente evidente que o Senhor do Universo produziu esse acontecimento como um sinal, intervindo diretamente para provar a veracidade de vocês.” Em resposta a essa exigência, os profetas mostraram diversos sinais. Na terminologia corânica, eles são chamados de ayat, ou sinais, e, na terminologia dos especialistas em crença, são chamados de milagres.

A confusão dos que negam os milagres

Algumas pessoas tentam provar que sinais ou milagres desse tipo são acontecimentos comuns e naturais, ocorridos de acordo com as leis da natureza. Na realidade, adotam uma posição irracional e incompreensível, situada entre aceitar e rejeitar o Alcorão. Pois, quando o Alcorão menciona inequivocamente um acontecimento sobrenatural, tentar classificá-lo como um acontecimento corriqueiro, completamente contrário ao contexto da narrativa, não passa de uma forma extremamente extravagante de jogo de palavras. Esse tipo de jogo de palavras só é necessário para aqueles que não querem acreditar nos livros que relatam acontecimentos extraordinários, mas que, por serem naturalmente ligados à religião herdada de seus antepassados, também não conseguem rejeitar tais livros — embora neles se encontrem, de fato, relatos de acontecimentos sobrenaturais.

A questão principal

A questão decisiva a respeito dos milagres é esta: depois de fazer o mundo natural funcionar segundo determinadas leis, Allah tornou-se inativo e perdeu a capacidade de intervir em qualquer ponto desse processo em curso? Ou Ele manteve em Suas próprias mãos a responsabilidade de governar Seu reino, de modo que Seu comando se cumpre nele a cada instante, conservando também o poder de produzir, quando e como quiser, mudanças parciais ou totais na forma das coisas e no curso habitual dos acontecimentos?

Duas perspectivas

Para aqueles que, em resposta a essa questão, apoiam a primeira afirmação, é impossível admitir os milagres. Isso porque os milagres não se harmonizam com a concepção que têm de Deus e do universo. Contudo, em vez de se ocuparem da exegese e da interpretação do Alcorão, essas pessoas deveriam rejeitá-lo claramente. Pois o Alcorão refutou enfaticamente a primeira concepção acerca de Deus e apoiou com igual ênfase a segunda. Por outro lado, para quem, convencido pelos argumentos e provas do Alcorão, aceita a primeira concepção, não é de modo algum difícil compreender e crer nos milagres. Tomemos como exemplo uma pessoa que adote a crença de que uma serpente só pode nascer da maneira como normalmente nasce. Criar uma serpente por qualquer outro método estaria além do poder de Allah. Se alguém informasse a essa pessoa que o bastão de alguém se transformou em serpente e que depois essa serpente voltou a assumir a forma de bastão, é evidente que ela certamente rejeitaria a notícia. Em contrapartida, a crença de outra pessoa é que Allah cria seres vivos a partir de matéria inanimada e pode conceder vida a qualquer matéria inanimada da maneira que desejar. Para essa pessoa, a transformação em serpente de certas substâncias inanimadas contidas em um ovo não é mais surpreendente do que a transformação de um bastão em serpente. A diferença é apenas que um acontecimento ocorre sempre, enquanto o outro ocorreu somente três vezes. Mas essa diferença não é suficiente para tornar um acontecimento surpreendente e o outro não.

Prova da veracidade dos milagres

(Árabe*************************************PDF 364 )

“Dize: Meu Senhor sabe melhor quantos eles eram (os Companheiros da Caverna). Pouquíssimas pessoas conhecem o número exato deles. Portanto, não discutas com ninguém sobre o número deles, salvo em termos gerais. E não perguntes a ninguém sobre eles.” — (Surata Al-Kahf: 22)

O sentido deste versículo da surata Al-Kahf é que o número deles não é o ponto principal; o essencial é a lição ou ensinamento que se extrai desse acontecimento. A lição desse acontecimento é que um verdadeiro crente jamais deve estar disposto a ignorar a verdade ou a curvar a cabeça diante da falsidade, em qualquer circunstância. Outra lição importante é que o crente não deve depositar sua confiança nos meios e recursos mundanos, mas em Allah. E, para agir em defesa da verdade, mesmo quando exteriormente não houver sinais de um ambiente favorável, deve-se avançar pelo caminho da verdade confiando em Allah.

As leis naturais e o poder supremo de Allah

Outra lição desse acontecimento é que as pessoas chamam de “lei natural” o curso habitual dos acontecimentos e pensam que nada pode ocorrer no mundo contra essa lei; na realidade, Allah não está sujeito a nenhuma obrigação desse tipo. Quando e onde quiser, Ele pode fazer ocorrer qualquer acontecimento extraordinário contrário a esse curso habitual. Para Ele não é uma grande coisa fazer com que uma pessoa durma duzentos anos e, de repente, se levante como se tivesse dormido apenas algumas horas, sem que a passagem desse longo período produza qualquer efeito em sua idade, em sua aparência, em suas roupas ou em sua saúde. Disso se aprende que, conforme os Livros celestiais e as profecias dos profetas, ressuscitar simultaneamente todos os descendentes passados e futuros da humanidade não está além do poder de Allah. Também se compreende que, em todas as épocas, pessoas ignorantes e imaturas, em vez de aprenderem com os sinais de Allah, extraíram deles ainda mais recursos para se desviarem, como fizeram no caso dos Companheiros da Caverna. — [Allah fez ocorrer o acontecimento miraculoso dos Companheiros da Caverna para que as pessoas adquirissem, por meio dele, a crença na vida após a morte. Contudo, a partir desse mesmo sinal, entenderam justamente o contrário: que Allah lhes havia providenciado mais alguns deuses para que os adorassem. — (Autor)]

A existência de inúmeras coisas maravilhosas na natureza do universo

Neste mundo criado por Allah existem inúmeras coisas maravilhosas. Para onde quer que se dirija o olhar, a imensa majestade de Seu poder se manifesta sob a forma de acontecimentos extraordinários. Certos acontecimentos e estados geralmente se manifestam de uma forma específica. Isso, porém, não pode provar que, violando essa lei habitual, eles não possam manifestar-se de algum outro modo extraordinário. Para refutar essa concepção, existe em todo o universo e em cada nível da criação uma longa lista de estados e acontecimentos anormais. Em particular, quem possui uma compreensão clara da onipotência de Allah jamais pode alimentar a falsa ideia de que conceder a um ser humano uma vida de mil anos, ou um período um pouco maior ou menor, seja impossível para o Senhor da vida e da morte. É verdade que o ser humano não pode, por sua própria vontade, continuar vivo nem sequer por um instante. Mas, se Allah quiser, pode mantê-lo vivo pelo tempo que desejar.

Análise dos milagres dos profetas anteriores

 

O milagre da camela do profeta Salih (que a paz esteja com ele)

(Árabe*************************************(Árabe*************************************PDF 366 )

“Enviei ao povo de Samud seu irmão Saleh. Ele lhes disse: Ó meus irmãos de tribo! Adorai a Allah. Não tendes outro deus além de Allah. Uma prova clara de vosso Senhor chegou até vós. Continuai a circular pela terra de Allah. Não a toqueis com más intenções; caso contrário, sereis atingidos por um castigo doloroso”. — (Sura Al-A‘raf: 73)

Pela forma externa da expressão, compreende-se claramente que, na primeira parte do versículo, as palavras “prova clara” e, na segunda parte, “sinal” se referem a esta camela. No oitavo rukū‘ da Sura Ash-Shu‘ara, é dito detalhadamente que o povo de Samud pediu ao próprio Hazrat Saleh um sinal, para que ficasse indiscutivelmente provado que ele era um profeta de Allah. Foi em resposta a essa exigência que Hazrat Saleh apresentou a camela. Portanto, é indubitavelmente verdade que a camela surgiu como um milagre. Era um milagre do mesmo tipo daqueles que muitos outros profetas mostravam aos incrédulos como prova de sua missão profética. Hazrat Saleh advertiu os incrédulos de que a vida deles dependia de a camela permanecer viva. Essa advertência prova que o nascimento da camela ocorreu sob a forma de um milagre. Ele também disse que a camela pastaria livremente nos campos deles. Em um dia, ela beberia água sozinha; no dia seguinte, todos os outros animais beberiam água. Se lhe causassem algum dano, o castigo de Allah cairia subitamente sobre eles. Não é preciso dizer que somente algo cuja natureza extraordinária as pessoas pudessem ver com os próprios olhos poderia ser apresentado com tamanha importância. A camela pastava onde queria: em um dia bebia água sozinha e, no outro, os animais de todos os demais bebiam. Essa situação continuou por muitos dias, e eles a suportaram apesar de sua contrariedade. Por fim, depois de muita deliberação e conspiração, mataram-na. Ora, Hazrat Saleh não possuía qualquer poder que os obrigasse a temê-lo. Outra prova do caráter milagroso da camela é que eles estavam aterrorizados por causa dela e sabiam que, por trás dela, certamente havia algum poder que lhe permitia circular entre eles com tamanha ousadia. Não há no Alcorão e no Hadith nenhuma descrição clara sobre que tipo de camela ela era ou como apareceu. Por isso, não há necessidade de aceitar os relatos citados pelos comentaristas sobre seu nascimento. Contudo, está provado pelo Alcorão que a camela apareceu, de uma forma ou de outra, como um milagre.

O milagre da ressurreição dos mortos

(Árabe*************************************PDF 367 )

“Ou lembra, por exemplo, daquele homem que, ao passar por uma cidade em ruínas, disse: Como Allah fará reviver esta cidade morta? Então Allah fez com que ele morresse, e ele permaneceu morto durante cem anos. Depois, Allah lhe devolveu a vida e perguntou-lhe: Bem, dize-me, quanto tempo permaneceste morto? Ele respondeu: Um dia ou algumas horas. Allah disse: Pelo contrário, cem anos se passaram enquanto estiveste nesse estado. Olha agora para o teu alimento e para a tua bebida: não se alteraram de modo algum. Olha também para o teu jumento, cujos ossos estão apodrecendo. Fizemos isso para te transformar em um exemplo para as pessoas. Observa então como erguemos estes ossos e os revestimos de sangue e carne. Quando a verdade se tornou clara para ele, disse: Sei que Allah é Todo-Poderoso”. — (Sura Al-Baqara: 259)

Não há necessidade de discutir quem era esse homem ou que povoado era aquele. A razão pela qual este episódio foi mencionado é simplesmente dizer que Allah concede dessa maneira a luz da orientação àquele que O toma como seu Protetor. Não temos nenhum meio de determinar a identidade do homem ou o local, e isso também não traz qualquer benefício. Contudo, pela descrição que vem a seguir, compreende-se que o homem aqui mencionado era certamente um profeta.

A pergunta acima não significa que esse nobre homem não acreditasse na vida futura ou tivesse qualquer dúvida a respeito dela. Na realidade, ele desejava obter uma experiência visual direta de uma verdade profunda. Aos profetas era concedida essa oportunidade. O retorno à vida de uma pessoa que as pessoas do mundo sabiam ter morrido cem anos antes seria suficiente para estabelecê-la como um exemplo impressionante entre seus contemporâneos.

A fonte que curou a doença de Hazrat Aiube

(Árabe*************************************PDF 368 )

“Recorda-te do Meu servo Jó. Ele invocou seu Senhor, dizendo: Satanás lançou-me em sofrimento doloroso e tormento. (Eu lhe ordenei:) Golpeia o chão com o pé. Eis aqui água fria para banho e para beber” — (Sura Sad: 41–42).

Ao golpear o chão com o pé, por ordem de Allah, uma fonte brotou. Beber daquela fonte e banhar-se com sua água era o tratamento para a doença de Hazrat Jó. Parece que, possivelmente, Hazrat Jó havia sido acometido por uma grave doença de pele. A Bíblia também afirma que todo o seu corpo, da cabeça aos pés, estava coberto de furúnculos.

O milagre de Hazrat Ibrahim (que a paz esteja com ele)

 

O episódio da ressurreição de quatro aves

(Árabe*************************************PDF 368 )

“Recorda também o episódio em que Ibrahim disse: ‘Meu Senhor! Mostra-me como Tu vivificas os mortos’. Allah perguntou: ‘Acaso não crês?’ Ibrahim respondeu: ‘Creio, sim, mas preciso da tranquilidade do coração’. Allah disse: ‘Então toma quatro aves e domestica-as para ti. Depois coloca uma parte de cada uma delas em cada montanha. Em seguida, chama-as; elas virão correndo até ti. E sabe que Allah é Poderosíssimo e Perfeitamente Sábio’ — (Sura Al-Baqarah: 260).

O nascimento de um filho para Hazrat Ibrahim na velhice

(Árabe*************************************PDF 368 )

“Então, dei-lhe as boas-novas de Ishaq e, depois de Ishaq, de Yaqub. Ela disse: Ai de mim! Como poderei ter um filho, quando já sou uma velha encarquilhada? E este meu marido também envelheceu. Isso é deveras algo extraordinário. Os anjos disseram: Você se surpreende com a decisão de Allah? Ó família de Ibrahim! Sobre vós estão a misericórdia e as bênçãos de Allah. Certamente, Allah é Digno de todo louvor e Magnífico”.–(Surata Hud: 71-73)

A libertação de Hazrat Ibrahim (A.S.) do fogo

(Árabe*************************************PDF 369 )

“Disseram uns aos outros: Construí para ele uma fornalha e lançai-o no meio das chamas ardentes. Tramaram um plano contra ele, mas Eu os tornei humilhados”.–(Surata As-Saffat: 97-98)

Os milagres de Hazrat Musa (A.S.)

(Árabe*************************************PDF 369 )

“Então, enviei Musa e seu irmão Harun ao Faraó e à sua comitiva, com os Meus sinais e provas incontestáveis”.–(Surata Al-Mu’minun: 45-46)

A menção à “prova irrefutável” depois dos “sinais” pode significar que a própria presença desses sinais com eles era a prova irrefutável da profecia de ambos. Também pode ser que os milagres que ele mostrou no Egito, além do bastão, fossem os sinais, enquanto a prova irrefutável se referisse ao seu bastão. Pois os milagres manifestados por meio do bastão não deixaram qualquer margem para dúvida de que ambos eram mensageiros.

(Árabe*************************************PDF 369)

“Quando lançaram seus instrumentos de magia, enfeitiçaram os olhos dos espectadores e encheram seus corações de terror. Assim, exibiram uma magia terrível. E Eu inspirei Moisés: ‘Lança o teu bastão’. Assim que ele o lançou, começou a devorar a ilusão da sua falsa magia.” (Surata Al-A‘raf: 116-117)

O bastão de Hazrat Moisés

Não é correto imaginar que o bastão de Hazrat Moisés tivesse engolido aqueles bastões e cordas dos mágicos que pareciam serpentes gigantes. O que o Alcorão afirma é apenas que o bastão de Moisés, transformando-se em serpente, devorou a miragem enganosa dos mágicos. O sentido do versículo parece claramente ser que, por onde quer que a serpente de Moisés passasse, o efeito da magia era destruído. Sob o efeito da magia, os bastões e as cordas dos mágicos pareciam erguer-se como serpentes, levantando suas cabeças. Mas, assim que a serpente de Moisés deu uma volta, todos os bastões retomaram a forma de bastões e todas as cordas retomaram a forma de cordas.

Diversos castigos de advertência sobre o povo do Faraó

(Árabe*************************************PDF 370)

“Durante vários anos, afligi o povo do Faraó com fome e perda das colheitas, para que recobrassem o bom senso. Mas sua condição era tal que, quando lhes acontecia algo bom, diziam: ‘Isso nos é devido’; e, quando lhes acontecia algo ruim, consideravam Moisés e seus companheiros responsáveis por seu infortúnio. Na verdade, seu infortúnio estava junto de Allah, mas a maioria deles não sabia. Disseram a Moisés: ‘Seja qual for o sinal que nos tragas para nos enfeitiçar, não acreditaremos em ti’. Por fim, enviamos sobre eles tempestades, espalhamos gafanhotos, enviamos piolhos e rãs e fizemos chover sangue. Mostramos-lhes esses sinais separadamente. Mas eles continuaram avançando pelo caminho da arrogância. Na verdade, eram um povo profundamente criminoso.” — (Surata Al-A‘raf: 130-133)

Os cortesãos do Faraó, embora soubessem com toda a certeza que aquilo não podia de modo algum ser resultado de magia, chamaram-no também de magia, demonstrando obstinação e sofismas verbais. Dificilmente qualquer pessoa sensata acreditaria que provocar fome em todo o país e perdas contínuas nas colheitas pudesse ser obra de um mágico. Por isso, o Alcorão diz:

(Árabe*************************************PDF 370 )

“Quando viram os Meus sinais, disseram: ‘Isto é, sem dúvida, magia evidente’. Embora interiormente seus corações estivessem convencidos, negaram-nos apenas por arrogância e altivez.” – (Surata An-Naml: 13–14)

A tempestade mencionada no versículo acima provavelmente consistia em uma chuva torrencial acompanhada de granizo. Também pode ter sido outro tipo de tempestade. Contudo, a Bíblia menciona uma tempestade causada por neve. Por isso, usei esse sentido.

A palavra ‘qummal’ empregada nesse versículo tem vários significados, a saber: piolhos, pequenos gafanhotos, mosquitos, cupins etc. A razão para o uso de uma palavra com significado tão abrangente provavelmente é que os mosquitos e os piolhos atacaram as pessoas, enquanto os cupins atacaram os depósitos de alimentos. – (Ver Êxodo, na Bíblia, capítulos 7 a 12)

Nove sinais

(Árabe*************************************PDF 371 )

“Concedemos a Moisés nove sinais evidentes. Pergunta agora aos filhos de Israel: quando Moisés veio até eles, o que lhe disse o Faraó? Disse: ‘Ó Moisés, penso que foste certamente enfeitiçado’. Moisés respondeu: ‘Ninguém, além do Senhor dos céus e da terra, enviou estes sinais admiráveis. Ó Faraó, penso que certamente estás perdido’.” – (Surata Bani Isra’il: 101–102)

Na Surata Al-A’raf, são mencionados estes nove sinais. São eles: 1. o bastão — que se transformava em serpente; 2. a mão luminosa — que, ao ser retirada da axila, brilhava como o sol; 3. a derrota da magia dos feiticeiros diante do povo; 4. a ocorrência de uma fome em todo o país, conforme um anúncio; 5. tempestades contínuas; 6. gafanhotos; 7. cupins; 8. rãs; e 9. a descida de calamidades como o sangue.

A essência da resposta dada por Moisés ao Faraó era que uma fome em todo o país, a proliferação de rãs por milhões de quilômetros quadrados, o ataque de cupins a todos os depósitos de alimentos e outras crises nacionais desse tipo não poderiam ser provocados pela magia de um feiticeiro nem por qualquer força humana. É preciso lembrar que, antes de cada calamidade, Moisés advertia o Faraó, dizendo: se não abandonares a tua obstinação, esta e aquela calamidade serão impostas ao teu reino. Exatamente como ele havia dito, a calamidade chegava no momento determinado. Nessas circunstâncias, afirmar que tais calamidades foram provocadas por alguém que não Allah, o Senhor dos céus e da terra, só seria possível para um louco ou uma pessoa obstinada.

Dividir o mar em dois com o bastão

(Árabe*************************************PDF 371 )

“Revelamos a Moisés: parte durante a noite com os Meus servos e abre para eles um caminho seco através do mar. Não temas que alguém vos persiga por trás. E não vos assusteis ao atravessar o mar”. — (Surata Taha: 77)

O relato desse acontecimento é o seguinte: Allah acabou por determinar uma noite na qual todos os muçulmanos israelitas e não israelitas (para os quais foi usada a expressão abrangente “Meus servos”) deveriam emigrar de todas as regiões. Todos se reuniram num lugar previamente determinado e partiram formando uma caravana. Naquela época, o Canal de Suez não existia. Toda a área entre o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo era aberta. Contudo, havia bases militares em todas as rotas daquela região. Por isso, não era seguro atravessá-la. Assim, Moisés tomou o caminho em direção ao Mar Vermelho. É provável que pretendesse seguir pela costa marítima em direção à Península do Sinai. Enquanto a caravana ainda estava à beira-mar, o enorme exército do Faraó chegou por trás, vindo daquela direção. Foi relatado na Surata Ach-Chu’ara que a caravana dos emigrantes ficou encurralada entre o mar e o exército do Faraó. Nesse exato momento, Allah ordenou a Moisés:(Árabe**********) “Golpeia o mar com o teu bastão”.(Árabe************) “Imediatamente, o mar se dividiu em dois, e as duas partes se ergueram em ambos os lados como enormes montanhas”. Não apenas surgiu no meio um caminho para a passagem da caravana; essa parte intermediária também se transformou numa estrada seca. Este é o relato de um milagre evidente. As palavras daqueles que dizem que as águas do mar recuaram por causa de uma tempestade ou das marés são refutadas por este relato. Pois, se a água tivesse recuado por essa razão, não teria permanecido erguida dos dois lados como montanhas, nem a parte central teria se transformado numa estrada seca.

(Árabe*************************************PDF 372)

“Ordenei a Moisés por meio da revelação: golpeia o mar com o teu bastão. Imediatamente, o mar se dividiu em duas partes, e as duas partes se ergueram em ambos os lados como enormes montanhas”. — (Surata Ach-Chu’ara: 63)

Em árabe, (Árabe*******) significa montanha. No dicionário chamado Lisān al-ʿArab, diz-se (Árabe***********) que significa uma montanha gigantesca. Além disso, aplicar-lhe o adjetivo (Árabe********) ‘gigantesca’ significa que a água se ergueu de ambos os lados na forma de montanhas extremamente altas. A passagem aberta através do mar foi feita, por um lado, para permitir a travessia da caravana dos Filhos de Israel e, por outro, com o objetivo de afogar o exército do Faraó. Isso deixa claro que a água permaneceu erguida, na forma de montanhas tão grandes e altas, durante tanto tempo que a caravana de milhões de emigrantes israelitas conseguiu atravessá-la, e depois deles o exército do Faraó também chegou até o seu meio. É desnecessário dizer que os ventos tempestuosos que sopram sob as leis naturais comuns, por mais violentos que sejam, não fazem com que a água do mar se erga como montanhas tão grandes e permaneça assim durante tanto tempo. Também é digno de nota que na Surata Taha se diz (Árabe************) ‘Abre para eles uma passagem seca no mar’. Isto é, quando o mar foi golpeado com o cajado, não apenas a água se afastou e se ergueu como montanhas de ambos os lados; a passagem que se formou no interior também ficou seca. Não restou sequer um pouco de água lamacenta que pudesse dificultar a passagem. Trata-se da descrição de um milagre evidente. Torna-se claro que é equivocada a concepção daqueles que tentam explicar esse acontecimento como algo ocorrido segundo as leis naturais comuns.

‘maná’ e ‘codornizes’

(Árabe*************************************PDF 373)

“Fiz descer sobre vós o maná e as codornizes”.–(Surata Taha: 80)

O relato da Bíblia é o seguinte: depois de saírem do Egito, quando os Filhos de Israel atravessavam o deserto de Sim, entre Elim e o Sinai, e, tendo-se esgotado suas provisões de alimentos, estavam prestes a passar fome, começou a descer o maná e as codornizes, e esse processo continuou durante longos quarenta anos, até chegarem às terras habitadas da Palestina. (Êxodo, capítulo 16; Números, capítulo 11, versículos 7–9; Livro de Josué, capítulo 5, versículo 12.) A respeito do maná e das codornizes, o Êxodo diz: “Ao anoitecer, vieram codornizes e cobriram o acampamento; e, pela manhã, havia orvalho ao redor do acampamento. Quando o orvalho se evaporou, eis que sobre a superfície do deserto havia uma coisa fina, semelhante a sementes, miúda como a geada sobre a terra. Ao vê-la, os filhos de Israel disseram uns aos outros: Que é isto? Pois não sabiam o que era. Então Moisés lhes disse: Este é o pão que o Senhor vos deu para comer.–(Capítulo 16, versículos 13–15)”

E a casa de Israel deu àquele alimento o nome de maná; ele era como semente de coentro, branco, e seu sabor era como um bolo misturado com mel.–(Versículo 31)

A respeito de sua descrição, o livro de Números também diz:

O povo saía, recolhia-o, moía-o em moinhos ou triturava-o em pilões, cozinhava-o em panelas e preparava com ele bolos; seu sabor era como o de um bolo assado com óleo. Quando o orvalho caía sobre o acampamento durante a noite, o maná também caía sobre ele.–(Capítulo 11, versículos 8–9)

Isto também foi um milagre. Pois, depois de quarenta anos, quando os Filhos de Israel começaram a receber alimento normal, esse processo cessou. Hoje em dia, nem sequer se vê ali abundância da ave chamada codorniz, e o maná também não é encontrado em lugar algum. Pessoas interessadas vasculharam minuciosamente a região onde os Filhos de Israel viveram como nômades no deserto durante quarenta anos, mas não encontraram maná em parte alguma. Naturalmente, comerciantes vendem halva de “maná” para enganar as pessoas.

Os milagres de Hazrat Sulayman (que a paz esteja com ele)

(Árabe*************************************PDF 374 )

“E ele disse: Ó povo! Foi-me ensinada a linguagem das aves.” — (Surata An-Naml: 16)

A Bíblia nada diz sobre o conhecimento que Hazrat Sulayman possuía da linguagem dos animais e das aves. Contudo, as lendas israelitas contêm um relato claro a esse respeito. — (Enciclopédia Judaica, vol. 11, p. 439)

Os gênios lhe eram obedientes

(Árabe*************************************PDF 374 )

“Para Sulayman, foi reunido um exército bem organizado de gênios, seres humanos e aves.” — (Surata An-Naml: 17)

O trono da rainha de Sabá foi trazido num instante

(Árabe*************************************PDF 374 )

“Salomão disse: Ó membros da assembleia! Quem pode trazer-me o trono da rainha antes que ela venha a mim, submetendo-se à obediência? Um demônio disse: Eu o trarei antes que você se levante do lugar onde está sentado; tenho poder para isso e sou digno de confiança. Alguém que possuía conhecimento do Livro disse: Eu o trarei num piscar de olhos. Então, quando Salomão viu o trono diante de si, exclamou: Isto é uma graça do meu Senhor”.

Os milagres de outros profetas

 

O aspecto milagroso do episódio de Jonas (que a paz esteja com ele)

(Árabe*************************************PDF 374 )

“Certamente, Jonas também era um mensageiro. Lembra-te do momento em que fugiu apressadamente em direção a um navio carregado de passageiros. Participou do sorteio e foi derrotado. Por fim, o peixe o engoliu. Ele estava arrependido. Se não tivesse sido um dos que glorificam Allah, teria permanecido no ventre daquele peixe até o Dia da Ressurreição. Por fim, lançámo-lo, em estado de extrema debilidade, numa terra desolada, sem vegetação, e fizemos nascer sobre ele uma planta de cabaça”.–(Surata As-Saffat: 139–146)

O nascimento de um filho de Zacarias, o venerável, do ventre de sua esposa idosa

(Árabe*************************************PDF 374 )

“Concede-me, por favor, um herdeiro, para que ele seja meu herdeiro e também herde dos descendentes de Jacó. E, ó meu Senhor, faze dele uma pessoa escolhida. Ó Zacarias! Nós te damos a boa-nova de um filho cujo nome será Yahya. Antes dele, não criamos ninguém com esse nome. Ele disse: Ó meu Senhor! Minha esposa é estéril, e eu também cheguei à extrema velhice. Como poderei ter um filho? A resposta veio: Assim será. Teu Senhor disse: Isso é muito fácil para Mim. Antes, também criei a ti, quando não eras nada. Zacarias disse: Ó meu Senhor! Dá-me um sinal. Allah disse: Teu sinal será que, durante três dias consecutivos, não poderás falar com as pessoas” — (Surata Maryam: 5–10)

O milagre de Hazrat Isa (a.s.)

 

O nascimento de Hazrat Isa sem pai

(Árabe*************************************PDF 374 )

“Fizemos de Maryam e de seu filho um sinal, e os estabelecemos num lugar elevado, onde havia tranquilidade e por onde corriam fontes” — (Surata Al-Mu’minun: 50)

Aqui não se disse que Maryam era um sinal e que o filho de Maryam era outro sinal. Tampouco se disse que transformamos Maryam e seu filho em dois sinais. Pelo contrário, disse-se que fizemos de ambos, conjuntamente, um único sinal. O significado disso é que o nascimento de Isa (a.s.) sem pai e a gravidez de Maryam sem contato com um homem são a razão pela qual mãe e filho, juntos, se tornaram um único sinal.

 

(Árabe*************************************PDF 374 )

“(E, ó Muhammad!) Relata neste Livro o episódio de Maria, quando ela se afastou de seu povo e retirou-se para um lugar ao oriente. Ela se ocultou deles atrás de um véu. Então enviámos-lhe o Nosso Espírito (o anjo), que lhe apareceu sob a forma de um homem perfeito. Maria de repente exclamou: Se és um homem temente a Deus, peço refúgio contra ti ao Misericordioso Deus. Ele disse: Sou apenas o mensageiro do teu Senhor; vim para te conceder um filho puro. Maria disse: Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e eu não sou uma mulher de má conduta? O anjo disse: Assim será. Teu Senhor disse: Isso é muito fácil para Mim. Farei isto para torná-lo um sinal para a humanidade e uma misericórdia da Minha parte. E isto é uma decisão decretada por Allah; acontecerá inevitavelmente. Maria concebeu aquele filho e retirou-se para um lugar distante. Depois, as dores do parto obrigaram-na a dirigir-se para debaixo de uma tamareira. Ela dizia: Ai de mim! Se ao menos eu tivesse morrido antes disso e tivesse sido completamente esquecida.” — (Surata Maria: 16–23)

Aqui, por lugar distante, entende-se Belém. Era natural que Maria saísse do seu retiro espiritual e fosse para lá. Maria, além de ser descendente de Bani Harun, o grupo mais piedoso dos Filhos de Israel, encontrava-se no Bayt al-Maqdis, dedicada à adoração de Allah. Uma jovem assim ficou subitamente grávida. Se, nessa situação, tivesse permanecido no local do retiro e a notícia de sua gravidez se espalhasse, não somente os membros da família, mas também os demais integrantes de seu povo, teriam tornado sua vida insuportável. A pobre mulher, diante dessa terrível provação, saiu silenciosamente do quarto do retiro, para que, pelo menos até o momento em que a vontade de Allah se cumprisse, pudesse evitar as censuras e repreensões de seu povo e a ampla desonra. Esse fato de ela ter partido é uma prova evidente de que Jesus nasceu sem pai. Se Maria fosse casada e tivesse concebido de seu marido, não haveria razão alguma para abandonar a casa paterna e a casa dos sogros e ir para um lugar distante a fim de dar à luz.

“Ai de mim! Se ao menos eu tivesse morrido e tivesse sido completamente esquecida” — estas palavras de Maria mostram quão angustiada e preocupada ela estava naquele momento. Quem compreender a delicadeza da situação não terá dificuldade em perceber que essas palavras não lhe saíram da boca apenas por causa das dores do parto; o que a deixava inquieta era pensar em como conseguiria superar satisfatoriamente a terrível prova de fogo na qual Allah a havia colocado. Até então, talvez ela tivesse conseguido ocultar de algum modo o fato de estar grávida. Mas agora, para onde levaria esse filho? Que Maria se referia a essas preocupações é comprovado pelo que o anjo lhe disse em seguida: “Não te aflijas”. Quando chega o momento do parto de uma mulher casada, por mais que ela se agite devido às dores, nunca fica angustiada e preocupada dessa maneira.

A fala do recém-nascido no berço

(Árabe********************************************na página 377 do PDF)

“Quando ela chegou ao seu povo carregando a criança nos braços, perguntaram-lhe: Ó Maria! De onde trouxeste isto? Ó irmã de Harun! Teu pai não era um homem mau, nem tua mãe era uma mulher de má conduta.” — (Surata Maria: 27–28)

Que explicação têm, aqueles que negam o nascimento milagroso de Jesus, para o fato de que, quando Maria chegou carregando a criança nos braços, os membros de seu povo ficaram furiosos e começaram a censurá-la e repreendê-la de várias maneiras?

(Árabe********************************************na página 377 do PDF)

“Quando Maria lhes fez sinal indicando o seu filho, disseram: ‘Como haveremos de falar com uma criança que está deitada no berço?’” — (Surata Maria: 29)

Os intérpretes distorcedores do Alcorão deram ao versículo o seguinte significado: “Como haveremos de falar com a criança de ontem?” Ou seja, segundo eles, essas palavras foram proferidas quando Jesus já estava na juventude. Os idosos e anciãos dos Filhos de Israel teriam dito: “Como haveremos de falar novamente com o menino que vimos naquele dia deitado no berço?” Contudo, basta observar o contexto e a sequência da narrativa para compreender que isso não passa de uma interpretação absurda, feita apenas para evitar o milagre. Esses intérpretes, se não por outra razão, poderiam ao menos ter refletido sobre o próprio enunciado: o fato pelo qual as pessoas vieram apresentar objeção não ocorreu quando ele estava na juventude, mas no momento do seu nascimento. Além disso, o versículo 46 da Surata Aal Imran e o versículo 10 da Surata Al-Maida afirmam de modo inequívoco e irrefutável que Jesus não disse essas palavras na juventude; pelo contrário, ele as disse quando era recém-nascido e estava deitado no berço. No primeiro versículo, o anjo diz a Maria, ao anunciar-lhe o nascimento de um filho, que ele falaria com as pessoas tanto no berço quanto na juventude. No segundo versículo, o próprio Allah diz a Jesus: ‘Tu falarás com as pessoas tanto no berço quanto na juventude.’

(Árabe********************************************na página 378 do PDF)

“A criança disse: ‘Sou servo de Allah. Ele me deu o Livro, fez de mim um profeta e me tornou abençoado onde quer que eu esteja; ordenou-me também que cumprisse a oração e pagasse o zakat enquanto eu viver. Fez de mim alguém que honra a sua mãe, e não me fez arrogante nem desventurado.’” — (Surata Maria: 30–32)

Aqui não se diz que ele honraria os direitos dos pais, mas apenas os direitos da mãe. Isso também prova que Jesus não tinha pai. O fato de o Alcorão mencioná-lo em toda parte como Jesus, filho de Maria, constitui outra prova irrefutável disso.

(Árabe********************************************na página 378 do PDF)

“A paz esteja sobre mim no dia em que nasci, no dia em que eu morrer e no dia em que eu for ressuscitado.” — (Surata Maria: 33)

Este é o “sinal” que foi apresentado aos Filhos de Israel por meio da pessoa de Jesus. Antes de infligir aos Filhos de Israel um castigo exemplar por seus contínuos atos perversos, Allah queria dar-lhes uma última oportunidade de se corrigirem. Por isso, adotou a seguinte estratégia: fez subitamente com que, ainda virgem, engravidasse a devota moça dos descendentes de Aarão que se encontrava em retiro espiritual no Templo Sagrado e era criada e educada sob os cuidados de Zacarias. Quando ela então aparecesse carregando a criança nos braços, isso provocaria grande comoção em toda a nação, e imediatamente a atenção de todos se voltaria para ela. Como resultado dessa estratégia, uma multidão se reuniu em torno de Maria; então ele fez com que aquela criança recém-nascida falasse, para que, quando ela crescesse e recebesse a profecia, milhares de pessoas da nação estivessem presentes para testemunhar que haviam visto naquela criança um extraordinário milagre de Allah, o Altíssimo. Apesar disso, quando a nação negasse a sua profecia e, em vez de segui-lo, tentasse acusá-lo de criminoso e crucificá-lo, receberia um castigo exemplar, como nenhum outro povo do mundo havia recebido.

Outros milagres mencionados no Alcorão

(Árabe********************************************(na página 379 do PDF)

“E quando ele veio como mensageiro aos Filhos de Israel, disse: ‘Trouxe-vos um sinal da parte do vosso Senhor. Faço, diante de vós, a figura de um pássaro com barro; depois sopro nela, e, pela permissão de Allah, ela se transforma em pássaro. Pela permissão de Allah, curo o cego de nascença e o leproso e ressuscito os mortos. Também posso informar-vos o que comeis e o que armazenais. Se quereis crer, há nesses sinais uma prova suficiente para vós’.” — (Surata Al Imran: 49)

O Profeta Muhammad (s.a.) e seus milagres

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O próprio Alcorão foi apresentado como prova da profecia

(Árabe********************************************(na página 379 do PDF)

“Ó Profeta! Quando não apresentas diante deles nenhum sinal (milagre), eles dizem: ‘Por que não escolheste um sinal para ti?’ Dize-lhes: ‘Sigo apenas a revelação que meu Senhor me envia.’ Isto é uma luz de sabedoria, orientação e misericórdia da parte do vosso Senhor para aqueles que a aceitam.” — (Surata Al-A’raf: 203)

A pergunta dos incrédulos era claramente sarcástica. Em outras palavras, o que queriam dizer era: “Ora, já que te tornaste profeta, bem que poderias também escolher e trazer algum milagre para ti”. Mas é digno de nota quão bela foi a resposta dada a essa zombaria.

O sentido dessa resposta é: não tenho o poder de descobrir ou fabricar algo simplesmente porque vocês o exigem ou porque eu mesmo sinta necessidade disso. Sou apenas um Mensageiro. Minha responsabilidade consiste somente em agir conforme as instruções Daquele que me enviou. Aquele que me enviou concedeu-me o Alcorão em vez de milagres. Ele está repleto de uma luz que permite enxergar o futuro. Sua maior característica é que aqueles que o aceitam encontram o caminho reto e correto da vida, e os sinais da misericórdia de Allah se manifestam em seu belo caráter.

O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não era capaz de realizar milagres por iniciativa própria

(Árabe********************************************na página 380 do PDF)

“Contudo, se não podes suportar que eles te ignorem, então, se tiveres capacidade, procura um túnel sob a terra ou instala uma escada até o céu e tenta trazer-lhes um sinal”. — (Surata al-An’am: 35)

Quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu que muitos dias haviam passado enquanto tentava instruir seu povo, sem que eles seguissem o caminho certo, de tempos em tempos surgia em seu coração o desejo: “Ah, se surgisse da parte de Allah algum sinal pelo qual sua incredulidade fosse eliminada e eles reconhecessem a veracidade da minha profecia”. Este versículo é justamente a resposta ao desejo do Profeta. Seu sentido é: não sejas impaciente. Segue com paciência o método e o processo pelos quais estou conduzindo esta obra. Se fosse necessário realizar a missão por meio de milagres, acaso Eu mesmo não poderia fazê-lo? Mas sei que esse não é o caminho correto para alcançar o sucesso na revolução mental e moral e no estabelecimento da pura ordem civilizacional para os quais foste incumbido. Contudo, se não consegues suportar a atual estagnação das pessoas e sua obstinada rejeição e descrença, e se pensas que, para remover essa estagnação, é indispensável mostrar algum sinal material e perceptível aos sentidos, então toma tu mesmo a iniciativa e, se tiveres capacidade, entra na terra ou sobe ao céu e tenta trazer algum milagre que consideres suficiente para transformar a incredulidade em fé. Mas não esperes que Eu satisfaça esse teu desejo, pois, no Meu plano, não há lugar para semelhante tentativa ou esforço.

O maior milagre do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o Alcorão

(Árabe********************************************na página 380 do PDF)

“Eles dizem: ‘Por que Muhammad não traz algum sinal (milagre) de seu Senhor? Acaso não lhes chegaram claramente todos os ensinamentos dos livros anteriores?’ — (Surata Ta-Ha: 133)

Em outras palavras, acaso não é um pequeno milagre que um homem iletrado dentre eles tenha apresentado um Livro no qual estão reunidos o conteúdo e a essência dos ensinamentos de todos os Livros celestiais, desde os primeiros até os atuais? Não apenas tudo o que havia nesses Livros para conduzir as pessoas ao caminho reto foi reunido neste Livro; foi também exposto em uma linguagem tão simples e clara que até um beduíno do deserto pode compreendê-lo e beneficiar-se dele.

(Árabe********************************************na página 381 do PDF)

“(Ó Profeta!) Antes disso, tu não lias livro algum, nem escrevias com tua própria mão; caso contrário, os seguidores da falsidade teriam caído em dúvida. Na verdade, aqueles a quem foi concedido conhecimento reconhecem em seus corações esses sinais luminosos. E ninguém rejeita Meus sinais, exceto os injustos. Eles dizem: ‘Por que não foram enviados a este homem sinais (milagres) de seu Senhor?’ Dize: ‘Os sinais estão somente junto de Allah. Eu sou apenas um admoestador claro.’ Acaso não lhes basta como sinal o fato de termos revelado a ti o Livro, que lhes é recitado repetidamente? Na verdade, nele há misericórdia e exortação para aqueles que creem.” — (Surata Al-Ankabut: 48–51)

O ponto central do argumento apresentado nesses versículos é que o venerável Muhammad (que a paz esteja sobre ele) era iletrado. Seus vizinhos, parentes e membros de sua tribo haviam-no observado desde o nascimento até a juventude e sabiam muito bem que, durante toda a sua vida, ele não lera livro algum nem jamais segurara uma caneta. Referindo-se a essa realidade, Allah diz que, se tivessem visto esse homem iletrado expressar, sem ler qualquer livro além da revelação nem dedicar-se a estudos e pesquisas, um conhecimento amplo e profundo sobre os ensinamentos dos Livros celestiais anteriores, as biografias dos profetas anteriores, as crenças e doutrinas das religiões precedentes, a história das nações antigas e importantes aspectos de seus sistemas sociais, economias e princípios morais, talvez os incrédulos tivessem algum espaço para a dúvida. Eles poderiam pensar que esse acervo de conhecimento talvez tivesse sido adquirido por seu próprio esforço e dedicação, em vez de por meio da revelação. Mas sua condição de iletrado não deixou o menor espaço para a dúvida. Depois disso, além de uma obstinação pura e simples, não há nenhuma razão racional para negar a profecia.

O fato de um Livro como o Alcorão ter sido revelado ao Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), apesar de ele ser iletrado, é por si só um milagre tão grandioso que basta para crer que ele era Mensageiro. Depois disso, não há necessidade de outros milagres para aqueles que o viram. Mas o Alcorão é um milagre eterno e duradouro, que permanece sempre diante das pessoas; é recitado para elas, e elas podem vê-lo a qualquer momento.

A razão pela qual o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) recebeu um milagre intelectual em vez de um milagre material

(Árabe********************************************na página 382 do PDF)

“E que benefício haveria, ainda que fosse revelado algum Alcorão por meio do qual as montanhas começassem a mover-se, a terra se fendesse ou os mortos começassem a sair dos túmulos e a falar?” — (Surata Ar-Ra‘d: 31)

Para compreender este versículo, é preciso ter em mente que ele não se dirige aos incrédulos, mas aos muçulmanos. Os muçulmanos ficavam inquietos ao ouvir repetidamente, da parte dos incrédulos, exigências de milagres e pensavam consigo mesmos: “Como seria bom se lhes fosse mostrado algum milagre capaz de fazê-los crer!” Quando percebiam que, por não surgir nenhum sinal desse tipo, os incrédulos estavam encontrando a oportunidade de espalhar entre as pessoas comuns dúvidas sobre a missão profética do Profeta, sua inquietação e preocupação aumentavam ainda mais. É nesse contexto que se diz aos muçulmanos: se, juntamente com alguma surata do Alcorão, lhes fosse subitamente mostrado um sinal desse tipo, vocês realmente acham que eles acreditariam? Vocês são tão esperançosos a respeito deles que pensam que estão totalmente preparados para aceitar a verdadeira religião, faltando apenas uma manifestação? Aqueles que não viram a luz da verdade nos ensinamentos do Alcorão, nos sinais da natureza universal, na vida imaculada do Profeta e na transformação revolucionária ocorrida na vida dos honrados companheiros, vocês acham que encontrariam algum raio de luz nas montanhas começando a mover-se, na terra fendendo-se e nos mortos saindo dos túmulos? — [O sentido desta discussão não é que nenhum milagre tenha se manifestado por meio do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Muitos milagres manifestaram-se em diferentes ocasiões. Contudo, eles não foram usados como prova da missão profética para levar os opositores a crer. — (Os compiladores)]

(Árabe********************************************na página 382 do PDF)

“Se Eu quisesse, faria descer do céu um sinal diante do qual eles curvariam a cabeça.” — (Surata Ash-Shu‘ara: 4)

Isto é: não é absolutamente difícil para Allah fazer descer um sinal que obrigasse todos os incrédulos a crer e a aceitar a obediência a Allah. A razão por que Ele não faz isso não é que tal ato esteja além do Seu poder. Na realidade, Ele não deseja uma fé imposta desse modo às pessoas. Ele quer que elas, usando o próprio conhecimento e a própria razão, reconheçam a verdade por meio dos sinais espalhados no Livro de Allah, em toda a natureza e dentro delas mesmas. Depois, quando seus corações testemunharem que aquilo que os profetas disseram é, de fato, a verdade, e que todas as crenças, convicções, costumes e práticas estabelecidos em oposição a isso são falsos e inválidos, então abandonar conscientemente o erro e seguir a verdade é precisamente o que Allah exige dos seres humanos. É por isso que Ele concedeu ao ser humano liberdade de vontade e escolha. É por isso que lhe deu a liberdade de escolher, se quiser, qualquer um dos dois caminhos: o correto ou o equivocado. É por isso que colocou no ser humano ambas as tendências, para o bem e para o mal. Abriu diante dele os caminhos tanto do pecado quanto da virtude. Concedeu a Satanás liberdade para enganar. Para orientar corretamente, estabeleceu a continuidade da profecia, da revelação e do convite ao bem. Colocou o ser humano no campo de prova, dotando-o de todas as capacidades e aptidões necessárias para escolher opiniões e caminhos, a fim de ver se ele adota o caminho da descrença e da desobediência ou o caminho da fé e da obediência. Se Allah adotasse algum sistema que obrigasse as pessoas à fé e à obediência, o objetivo desta prova seria frustrado. Se fosse Sua vontade obrigar as pessoas a crer, que necessidade haveria de obrigá-las mediante milagres? Allah poderia ter criado o ser humano com uma natureza e uma constituição tais que ele não tivesse capacidade alguma para a descrença, a desobediência e o pecado. Assim como os anjos, os seres humanos também nasceriam obedientes e submissos. Em vários versículos do Alcorão, Allah destacou justamente esta verdade. Por exemplo:

(Árabe********************************************na página 383 do PDF)

“Se o seu Senhor quisesse, todos os habitantes da Terra teriam se tornado crentes. Você quer então obrigar as pessoas a crer?” — (Surata Yunus: 99)

(Árabe********************************************na página 383 do PDF)

“Se o teu Senhor quisesse, poderia ter feito de todos os seres humanos uma única comunidade. Mas eles continuarão seguindo caminhos diferentes. Somente aqueles sobre quem recai a misericórdia do teu Senhor escaparão (do desvio). E foi para isso que Ele os criou”.

(Árabe********************************************na página 383 do PDF)

“Será que eles nunca olharam para a terra e viram quantas espécies excelentes de plantas fizemos brotar nela?” — (Surata Ax-Xuará: 7-8)

Em outras palavras, se alguém precisa de um sinal para encontrar a verdade, não precisa ir muito longe. Basta contemplar com os olhos abertos a beleza e a variedade deste mundo para compreender se é verdadeira a doutrina sobre a administração da natureza universal — a unicidade de Allah — apresentada pelos profetas, ou se são verdadeiras as doutrinas que os politeístas e ateus divulgam. Diante da reunião tão abundante e diversificada das plantas produzidas na terra, e da evidente harmonia e correspondência existente entre suas características e as incontáveis necessidades de inúmeras criaturas, somente um tolo poderia concluir que tudo isso acontece por si só, sem a extraordinária habilidade de um artífice perito, a sabedoria de um onisciente, o poder invencível de um ser todo-poderoso e o plano ponderado de criação de um Criador habilidoso. Ou poderia concluir que não foi pela administração de um único Deus, autor e executor de todos esses planos, mas pela administração de numerosos deuses que se estabeleceu uma coordenação tão perfeita entre a terra, a lua, o sol, o vento e a água, e que se criou tamanha harmonia entre as plantas formadas desses elementos e as necessidades e exigências das incontáveis variedades de seres vivos. Se uma pessoa sensata não se entregar à obstinação nem a ideias preconcebidas, ao contemplar esta cena dirá espontaneamente que tudo isso é, sem dúvida, uma prova irrefutável da existência de Deus e da existência de um Deus único. Apesar de existirem todas essas provas, ainda pode haver necessidade de algum outro milagre, sem o qual as pessoas não possam crer na verdade do tawhid?

Este é um milagre sensorial de grande magnitude

[A parte “A” da obra está relacionada, de acordo com a nossa estrutura, à discussão doutrinária e principiológica da filosofia dos milagres; nela, os milagres do Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) não foram inseridos do ponto de vista dos acontecimentos. Ao contrário, foram mencionados nos seus respectivos lugares, na discussão dos acontecimentos da obra. Aqui, apenas o grandioso milagre de fender a lua foi incluído na discussão como exemplo.]

(Árabe********************************************na página 385 do PDF)

“A Hora se aproximou, e a lua se fendeu. Seu comportamento é tal que, sempre que veem algum sinal, afastam-se dele e dizem: ‘Isto é uma magia contínua’. Eles o rejeitaram como mentira e seguiram suas próprias inclinações; porém, toda questão certamente chegará, por fim, a um desfecho” — (Surata Al-Qamar: 1-3)

Relatos sobre o fendimento da lua

O acontecimento do fendimento da lua está comprovado pelo relato irrefutável do Alcorão. Ele não depende dos relatos dos hadiths. Contudo, os relatos dos hadiths fornecem os detalhes do acontecimento e permitem descobrir quando e como ele ocorreu. Bukhari, Muslim, Tirmidhi, Ahmad, Abu Awana, Abu Dawud al-Tayalisi, Abd al-Razzaq, Ibn Jarir, Bayhaqi, Tabarani, Ibn Marduyah e Abu Nuaym al-Isfahani relataram o acontecimento, com base em diferentes cadeias de transmissão, por intermédio de Hazrate Ali, Hazrate Abdullah ibn Masud, Hazrate Abdullah ibn Abbas, Hazrate Abdullah ibn Umar, Hazrate Hudhayfa, Hazrate Anas ibn Malik e Hazrate Zubayr ibn Mut’im. Três desses eminentes homens não poderiam ter sido testemunhas oculares do acontecimento. Isso porque, no caso de um deles, Hazrate Abdullah ibn Abbas, o acontecimento ocorreu antes de seu nascimento. O segundo, Hazrate Anas ibn Malik, era criança na época do acontecimento. Contudo, como ambos eram companheiros do Profeta, pode-se seguramente presumir que tenham ouvido o relato dos companheiros adultos que testemunharam diretamente o acontecimento e só então o tenham transmitido.

Resumo dos relatos

Reunindo todos esses relatos, o sentido que se pode apreender é o seguinte: o acontecimento ocorreu aproximadamente cinco anos antes da Hégira. Era a noite do décimo quarto dia do mês lunar. A lua acabara de nascer. De repente, a lua se dividiu em duas partes. Uma parte foi vista de um lado da montanha à frente, e a outra, do lado oposto. Depois de permanecerem assim por um instante, as duas partes se uniram novamente. O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) encontrava-se então em Mina. Ele disse às pessoas presentes: “Observem o que está acontecendo e sejam testemunhas”. Os incrédulos disseram: “Muhammad lançou um feitiço sobre nós. Por isso nossa visão foi enganada. Ele não pode fazer magia. Que venham pessoas de fora. Perguntaremos a elas se também viram o acontecimento”. Quando algumas pessoas vieram de fora, elas também informaram que haviam visto aquela cena.

Alguns relatos de Hazrate Anas dão origem ao equívoco de que o acontecimento da divisão da lua em duas partes teria ocorrido duas vezes. Contudo, em primeiro lugar, nenhum outro companheiro do Profeta afirmou isso; em segundo, em alguns relatos do próprio Hazrate Anas aparecem as palavras “marratayn” (duas vezes), enquanto em outros aparecem “firqatayn” e “shirqatayn”. Estas últimas significam “em duas partes”. Em terceiro lugar, o Sagrado Alcorão menciona a divisão da lua em duas partes apenas uma vez. Portanto, está correto dizer que o acontecimento ocorreu uma única vez. Naturalmente, as lendas segundo as quais a lua teria se dividido em duas partes assim que o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) apontou para ela com o dedo, e uma das partes teria entrado por dentro de sua roupa e saído pela manga, são completamente infundadas.

A verdadeira natureza do acontecimento

Surge aqui a questão: de que natureza era realmente esse acontecimento? Era um milagre destinado a provar a veracidade da missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele), em resposta à exigência dos incrédulos? Ou era apenas um acidente ocorrido no corpo da lua pela vontade de Deus? E o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) teria chamado a atenção das pessoas para isso por considerá-lo um sinal da possibilidade e da proximidade da Ressurreição? Um grupo de eruditos muçulmanos considera esse acontecimento um dos milagres extraordinários do Profeta. Segundo eles, esse milagre foi mostrado em resposta à exigência dos incrédulos. Entretanto, a base dessa opinião são alguns hadiths transmitidos por Hazrate Anas. Nenhum outro companheiro do Profeta apresentou essa afirmação. Em Fath al-Bari, Ibn Hajar diz: “Entre todos os hadiths por meio dos quais foi relatado o acontecimento da divisão da lua, com exceção do hadith de Hazrate Anas, não encontrei em nenhum outro que o acontecimento da divisão da lua tivesse ocorrido em resposta à exigência dos politeístas”. (Veja o capítulo sobre a divisão da lua.) Abu Nuaym al-Isfahani, porém, citou exatamente essa afirmação em um hadith transmitido por Hazrate Abdullah ibn Abbas, na obra intitulada Dala’il al-Nubuwwah. Contudo, sua cadeia de transmissão é muito fraca. Em nenhum dos relatos de Ibn Abbas transmitidos por cadeias confiáveis e registrados nos livros de hadith aparece essa afirmação. Além disso, Hazrate Abdullah ibn Abbas e Hazrate Anas estavam ambos ausentes no momento do acontecimento. Nenhum dos companheiros que estavam presentes naquela ocasião — a saber, Hazrate Abdullah ibn Masud, Hazrate Hudhayfa, Hazrate Zubayr ibn Mut’im, Hazrate Ali e Hazrate Abdullah ibn Umar — disse que os politeístas de Meca haviam exigido que lhes fosse mostrado algum sinal como prova da veracidade da missão profética de Muhammad e que, por isso, lhes fora mostrado o milagre da divisão da lua. O mais importante é que o próprio Sagrado Alcorão qualificou esse acontecimento não como um sinal da missão de Muhammad, mas como um sinal da proximidade da Ressurreição. É certo, contudo, que, como esse acontecimento confirmou a veracidade da profecia feita pelo Profeta (que a paz esteja com ele) sobre a proximidade da Ressurreição, ele também constitui um sinal evidente da veracidade da missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele).

Algumas objeções e suas respostas

Foram feitas duas objeções a este milagre. Primeiro, segundo eles, de modo algum seria possível que um satélite tão grande quanto a Lua se partisse, que as duas partes se separassem uma da outra, que uma se afastasse centenas de milhas da outra e que depois voltassem a unir-se. Segundo: se tal acontecimento tivesse ocorrido, teria alcançado fama em todo o mundo, seria mencionado nos livros de história e seu relato estaria registrado nos livros de astrologia. Contudo, ambas essas objeções são, em essência, infundadas. O debate sobre sua possibilidade poderia ter ocorrido nos tempos antigos, mas, à luz dos conhecimentos que as pessoas adquiriram nesta era sobre a estrutura e a natureza dos planetas e satélites, não é estranho que, em consequência da erupção do fogo de um vulcão existente no interior de um planeta, ele se rompesse e, numa explosão violenta, seus fragmentos fossem lançados em diferentes direções e percorressem grandes distâncias. Depois, também não é impossível que, devido à força magnética do centro, os fragmentos voltassem a unir-se. Consideremos agora a segunda objeção. Ela também é irrelevante, pois o acontecimento ocorreu subitamente e por apenas um instante. Não havia razão para que, naquele momento específico, as pessoas de todo o mundo estivessem olhando para a Lua. O acontecimento não foi acompanhado de nenhuma explosão que atraísse para ele a atenção das pessoas. Tampouco havia qualquer anúncio prévio que levasse as pessoas a olhar para o céu à sua espera. Além disso, não era possível que ele fosse visto em todo o mundo. Naquele momento, a Lua havia surgido apenas na Arábia e nos países situados a leste dela. E o interesse e as técnicas de registro histórico ainda não haviam alcançado tal nível de desenvolvimento que aqueles que tivessem visto o acontecimento nos países orientais o registrassem, e que, caso essas provas chegassem às mãos de algum historiador, ele as inserisse em seu livro de história. Ainda assim, encontra-se nos anais de Malabar a menção de que, naquela noite, um rei dali havia visto aquela cena. Quanto à pergunta sobre por que não há menção a isso nos livros de astrologia e nos calendários, pode-se responder que isso só teria sido necessário se tivesse ocorrido alguma alteração no movimento da Lua, em sua órbita ou nos horários de seu nascer e pôr. Como isso não aconteceu, a atenção dos astrólogos da Antiguidade não foi atraída para o fato. Naquela época, os observatórios astronômicos tampouco haviam alcançado desenvolvimento suficiente para acompanhar cada acontecimento ocorrido no espaço e preservá-lo em registros documentais.

 

Capítulo: 10 – A questão da intercessão

Os diversos aspectos da questão da intercessão

[O tema da intercessão está profundamente relacionado à essência da profecia por duas razões. A primeira é que aqueles que rejeitaram o chamado do nobre Profeta (s.a.) e dos demais nobres profetas consideravam a crença na intercessão um escudo de salvação. Diziam que, por serem descendentes de profetas e de homens santos, e, por outro lado, por satisfazerem as divindades mediante sua adoração e seus rituais, essas divindades intercederiam por eles perante Allah e, por isso, eles seriam muito queridos por Allah. Assim, o temor do castigo de Deus pelos pecados seria sem sentido. O Alcorão refutou essa concepção de intercessão.

A segunda razão é que, no Dia da Ressurreição, os nobres profetas — e também alguns servos piedosos — intercederão por certos seguidores seus que, embora tenham tentado viver em conformidade com a vontade de Deus em seu conjunto, tenham cometido alguns erros e falhas, ou tenham praticado pecados, mas tenham se arrependido repetidamente e se esforçado para se corrigir.

Por essas duas razões, consideramos que um capítulo intitulado “A questão da intercessão” deveria fazer parte dos temas fundamentais da discussão. Felizmente, palavras valiosas saíram da pena do Maulana sobre este assunto. — (Os compiladores).]

O tema da intercessão foi explicado claramente em vários lugares do Alcorão. Não é difícil para ninguém saber quem pode fazer essa intercessão e quem não pode, em que circunstâncias ela é permitida e em quais não é, por quem ela pode ser feita e por quem não pode, para quem é benéfica e para quem não é. As concepções e crenças equivocadas sobre a intercessão são uma das principais causas do desvio das pessoas. Por isso, o Alcorão expôs este tema com tanta clareza que não deixou espaço algum para qualquer dúvida ou incerteza. Por exemplo, na surata al-Baqarah, versículo 255 (o Ayat al-Kursi), foi dito:

(Árabe********************************************na página 391 do PDF)

“A Ele pertence tudo o que existe nos céus e na terra. Quem pode interceder diante de Allah sem a Sua permissão?”

(Árabe********************************************na página 391 do PDF)

“Ele conhece tudo o que é visível aos seres humanos. E nenhum dos assuntos conhecidos por Allah pode estar ao alcance do conhecimento deles. Porém, se Ele próprio quiser informar alguém de algo, isso é outra questão”.

Ninguém pode exercer influência sobre Allah

Os idólatras acreditavam que os sábios muçulmanos, os anjos e outras entidades tinham grande influência perante Allah. Pensavam que, quando se decidiam por algo, não desistiam até fazê-lo acontecer e que podiam obter de Allah tudo o que quisessem. A primeira parte do versículo mencionado refuta essa ideia. Está sendo dito a eles que, longe de poderem exercer influência, nem mesmo os maiores profetas e os anjos mais próximos têm coragem de emitir sequer um som diante daquele Rei do universo sem a Sua permissão.

A discussão teórica apresentada na segunda parte desfere mais um golpe contra a base do shirk. Na primeira parte, foi apresentada a ideia da autoridade, do domínio e do poder absolutos e ilimitados de Allah, afirmando-se que ninguém possui capacidade para se opor ao Seu poder ou exercer influência sobre Ele. Agora, por outro lado, afirma-se: como poderia alguém interferir em Seus atos? Afinal, eles não têm conhecimento algum sobre a administração do universo e seus mistérios ocultos. O conhecimento de todos — seres humanos, jinn, anjos ou qualquer outra criatura — é incompleto e limitado. Ninguém contempla todos os segredos do universo. Além disso, se fosse permitido a alguém interferir livremente ou fazer uma intercessão irrevogável em algum assunto menor, toda a ordem do mundo seria destruída. Sem falar na ordem e na administração do universo, o servo nem sequer é capaz de compreender plenamente o que é bom ou mau para si mesmo. Somente o Criador e Administrador do universo conhece completamente o que é bom ou mau para ele. Portanto, ele não tem outra alternativa senão confiar nas leis e instruções estabelecidas por Allah.

Não há intercessão para os que merecem punição

Na sura Al-An’am, é dito:

(Árabe********************************************na página 392 do PDF)

“E agora não vejo junto de vós aqueles vossos intercessores sobre os quais julgáveis que também teriam alguma participação na realização dos vossos objetivos. Todos os laços entre vós foram rompidos, e aqueles que julgáveis estar convosco afastaram-se de vós”.

Em outra passagem desta surata, foi dito:

(Árabe********************************************na página 392 do PDF)

“(Ó Muhammad!) Admoesta, por meio deste (conhecimento baseado na revelação), aqueles que temem apresentar-se diante de Allah, pois terão de comparecer perante Ele em uma situação na qual não haverá, além d’Ele, nenhum protetor nem intercessor. Talvez, assim, adotem o caminho da devoção e da consciência de Deus, precavendo-se” — (Surata Al-An‘am: 51).

O sentido disso é que aqueles que estão tão imersos na vida de prazeres mundanos que nem pensam na morte, nem se lembram de que um dia terão de comparecer diante de Deus — aqueles que pensam: “Podemos fazer o que quisermos neste mundo; isso não nos causará nenhum prejuízo na vida futura, pois fulano intercederá por nós, sicrano nos ajudará ou beltrano já expiou os nossos pecados” — também não tirarão proveito desta admoestação.

Na Surata Al-A‘raf, foi dito:

(Árabe********************************************na página 393 do PDF)

“(Na outra vida, dirão:) Encontraremos agora algum intercessor que interceda em nosso favor? Caso contrário, que sejamos enviados de volta; faremos outras obras em lugar das que costumávamos fazer antes.” — (Surata Al-A‘raf: 53)

Na Surata Yunus, Allah, o Altíssimo, diz:

(Árabe********************************************na página 393 do PDF)

“Ninguém tem direito de interceder, exceto com Sua permissão. Este é Allah, vosso Senhor. Adorai, portanto, somente a Ele. Ainda assim, não sereis cautelosos?” — (versículo: 3)

Na mesma surata, também se diz:

(Árabe********************************************na página 393 do PDF)

“Eles adoram, além de Allah, entidades que não podem causar-lhes nem benefício nem dano, e dizem: ‘Estas intercederão por nós junto de Allah.’ Ó Muhammad! Dize-lhes: ‘Quereis informar a Allah sobre algo cuja existência Ele não conhece em parte alguma dos céus e da terra?’ Allah está livre e muito acima daquilo que associam a Ele.” — (Surata Yunus: 18)

O fato de Allah desconhecer algo significa que esse algo não tem existência alguma. Pois tudo o que existe é conhecido por Allah. Justamente assim, por meio de uma expressão muito sutil, nega-se aqui a existência de intercessores. Diz-se que Allah, o Altíssimo, não sabe de ninguém nos céus ou na terra que interceda por vós. Então, de quais intercessores quereis informar-Lhe?

(Árabe********************************************(na página 394 do PDF)

“Os injustos não terão nenhum amigo íntimo, nem qualquer intercessor cuja palavra seja ouvida.” – (Sura al-Mu’min: 18)

Estas palavras foram proferidas para refutar a crença equivocada dos incrédulos a respeito da shafa‘at, ou intercessão. Na verdade, não haverá ali nenhum intercessor pelos criminosos. Pois, se for concedida de fato permissão para interceder, somente os servos queridos e virtuosos de Allah a receberão. E esses servos virtuosos de Allah não podem ser amigos dos pecadores perversos, nem sequer pensarão em interceder para salvá-los. Todavia, como os incrédulos, os idólatras e os desviados geralmente acreditam que os santos e virtuosos a quem veneram e seguem jamais permitirão que eles sejam lançados no Inferno, que se colocarão em seu caminho e certamente conseguirão que sejam perdoados, por isso é dito que ali não haverá nenhum intercessor cuja intercessão Allah tenha de aceitar.

A necessidade de permissão para a intercessão

Na Sura Maryam, é dito:

(Árabe********************************************(na página 394 do PDF)

“Nesse dia, ninguém será capaz de interceder, exceto aquele a quem o Misericordioso tiver concedido permissão.” – (Sura Maryam: 87)

Isso significa que somente por aquele que receber permissão será possível interceder. O segundo significado é que somente aquele que obtiver permissão poderá interceder, e ninguém mais. A forma de expressão do versículo é tal que ele se aplica igualmente a ambos os significados.

Somente será possível interceder por aquele que receber permissão do Misericordioso — o significado disso é que somente aquele que, na vida terrena, tendo crido e mantido algum vínculo com Allah, tornou-se digno de receber perdão, terá a possibilidade de obter intercessão. — [Isto é, a shafa’at está abrangida pela lei da recompensa e pelo sistema de autoridade de Allah Ta’ala. O pré-requisito para obter a shafa’at é que o servo prove diante de Allah que é digno de perdão. Por exemplo, nos princípios fundamentais relativos ao arrependimento, foi estabelecida uma regra sobre o perdão. Essa regra é que o arrependimento daqueles que permanecem imersos em pecado durante toda a vida, sem sentir qualquer remorso ou inquietação por isso, não será aceito. Não é preciso dizer que aqueles que, imediatamente após cometerem um pecado, se arrependem, fazem tawba, abandonam o pecado e se empenham na purificação de si mesmos, encontram-se em situação diferente. Da mesma forma, ao descrever as características daqueles que podem ser perdoados, foi dito: são aqueles que se abstêm dos grandes pecados e dos atos reconhecidamente maus, e que somente cometem pequenos deslizes por engano ou por ignorância. A partir disso, até uma pessoa comum pode avaliar se poderá ou não ser digna de perdão e de shafa’at. Além disso, em vários hadiths, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), mencionando certos atos maus, declarou pessoalmente que não intercederia por aqueles que os praticassem. — (Os dois compiladores)] E o significado de que somente aquele que receber permissão poderá interceder é que aqueles que as pessoas consideram intercessores não terão o direito de interceder. Pelo contrário, somente aquele a quem Allah conceder permissão poderá abrir a boca para interceder.

Na Surata Ta-Ha, foi dito:

(Árabe********************************************na página 395 do PDF)

“A intercessão de ninguém, exceto daquele a quem o Misericordioso conceder permissão para interceder e cuja palavra Ele desejar ouvir, terá efeito. Ele conhece todas as condições anteriores e posteriores das pessoas. Os outros não as conhecem completamente.” — (Surata Ta-Ha: 109–110)

O primeiro versículo pode ter dois significados: primeiro, o sentido expresso na tradução; segundo: “A intercessão não terá efeito em favor de ninguém, exceto daquele em favor de quem Allah, o Misericordioso, conceder permissão para a intercessão e a respeito de quem desejar ouvir”. No Dia da Ressurreição, ninguém terá sequer coragem de emitir um som, quanto mais falar segundo os próprios desejos e caprichos. Somente poderá interceder aquele que receber de Allah permissão para fazê-lo. Esses dois pontos foram explicados detalhadamente em diversos lugares do Alcorão. Por um lado, foi dito:

(Árabe********************************************na página 395 do PDF)

“Quem pode interceder junto a Ele sem a Sua permissão?” — (Surata Al-Baqarah: 255) e

(Árabe********************************************na página 395 do PDF)

“Eles não podem interceder por ninguém, exceto por aqueles em favor de quem Ele consente que se interceda, e permanecem temerosos diante d’Ele”. –(Surata Al-Anbiya: 28)

(Árabe********************************************página 395 do PDF)

“E quantos anjos há nos céus cuja intercessão de nada serve! Todavia, se intercederem com a permissão de Allah e em favor de quem Ele quiser e aprovar que se interceda, isso será diferente”. –(Surata An-Najm: 26)

A razão das restrições impostas à intercessão

A razão dessas restrições impostas à intercessão foi mencionada na Surata Ta-Ha. Ninguém, seja anjo, profeta, wali ou qualquer outra pessoa, sabe — nem pode saber — como é o registro das obras de alguém, o que essa pessoa fazia durante a vida terrena e que tipo de conduta, caráter e responsabilidades trouxe consigo perante o tribunal de Allah. Em contrapartida, Allah possui conhecimento abrangente das ações passadas de todos e somente Ele sabe corretamente qual é agora a situação de cada um: se alguém foi virtuoso, quão virtuoso se tornou; se foi pecador, em que grau é pecador; se é digno de perdão; se merece o castigo extremo; se seu castigo pode ser reduzido; ou se alguma clemência pode ser demonstrada. –[Em outras palavras, pode-se dizer que a intercessão é, essencialmente, uma espécie de testemunho. Por meio dela, realiza-se o ato de testemunhar sobre que tipo de pessoa, em termos gerais, era aquele cujo registro de obras está sendo apresentado, e se ele é digno de castigo ou de perdão. –(Os compiladores)] Nessas circunstâncias, como se poderia conceder aos anjos, aos profetas e às pessoas virtuosas liberdade irrestrita para interceder, de modo que cada um pudesse interceder por quem quisesse e da maneira que quisesse? Se um funcionário comum começasse a atender, em seu pequeno departamento, às recomendações de todos os parentes e amigos, em dois ou quatro dias arruinaria completamente todo o departamento. Se é assim, como se poderia esperar do Senhor Supremo dos céus e da terra que houvesse liberdade irrestrita de intercessão em Sua presença e que todo venerável pudesse ir à corte de Allah e obter o perdão de quem quisesse? Afinal, nenhum venerável sabe como é o registro das obras daqueles por quem intercede. No mundo, a política de qualquer oficial que tenha o mínimo senso de responsabilidade é a seguinte: se algum amigo lhe recomenda um funcionário subordinado culpado, ele diz: “Você não sabe quão grande é a negligência, a irresponsabilidade e a corrupção desse homem no trabalho, nem quanto ele atormenta o público. Eu conheço bem suas atividades. Portanto, por favor, não interceda por essa pessoa junto a mim. –[O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) advertiu repetidamente os muçulmanos de seu tempo, dizendo: “Depois de mim, aqueles que mudarem meu método e minha orientação serão afastados do Lago de Kawthar e não lhes será permitido aproximar-se dele. Eu direi: ‘Eles são meus seguidores’. Então me será dito: ‘Você não sabe o que fizeram depois de sua partida’. Depois disso, eu também os expulsarei e direi: ‘Afastem-se!’”. Esse relato é encontrado em numerosos hadiths. –(O autor) Consulte Bukhari, Kitab ar-Riqaq e Kitab al-Fitan; Muslim, Kitab at-Taharah e Kitab al-Fada’il; Musnad de Ahmad, nas narrações de Ibn Mas‘ud e Abu Huraira; Ibn Majah, Kitab al-Manasik, entre outras fontes.]

A partir deste pequeno exemplo, pode-se estimar quão pura, racional e justa é a norma sobre a intercessão estabelecida neste versículo. A porta da intercessão diante de Allah não será fechada. Aqueles servos virtuosos que estavam habituados a tratar as pessoas com compaixão durante a vida terrena terão de pedir permissão antes de interceder; e somente poderão interceder por aquele em favor de quem Allah lhes conceder permissão para interceder. Além disso, haverá uma condição para a intercessão: que ela seja correta e justa. (Árabe********) (e dirá aquilo que é correto) A declaração de Allah esclarece precisamente esse ponto. Não será permitida ali uma intercessão absurda, pela qual alguém que, no mundo, usurpou os direitos de milhares de pessoas seja recomendado por um venerável com estas palavras: “Senhor! Honre-o e conceda-lhe uma recompensa”. –[Ao contrário, os profetas intercederão para que os membros pecadores e desviados de suas respectivas comunidades sejam punidos. Assim, a seguinte declaração do Profeta sobre esse grupo foi mencionada no Alcorão.

(Árabe********************************************página 397 do PDF)

“Ó meu Senhor! Meu povo abandonou este Alcorão”.]

Na surata An-Naba foi dito:

(Árabe********************************************na página 397 do PDF)

“No dia em que o Espírito e os anjos permanecerem enfileirados, ninguém poderá falar, exceto aquele a quem Allah conceder permissão, e ele dirá o que é correto”.–(Surata An-Naba: 38)

Aqui, falar significa interceder. Está sendo dito que isso ocorrerá sob duas condições. Primeiro, somente aquele a quem Allah conceder permissão para interceder por determinado pecador poderá interceder por ele. Segundo, o intercessor deverá dizer algo correto e justo; não deverá fazer nenhuma intercessão indevida. E aquele por quem se interceder deverá, enquanto esteve no mundo, ter sido pelo menos alguém que reconhecia o estabelecimento da verdade. Isto é, deverá ter sido pecador, mas não incrédulo.

Os intercessores imaginados pelos idólatras

Na surata Al-Anbiya foi dito:

(Árabe********************************************na página 397 do PDF)

“Ele conhece o que está diante deles e conhece também o que lhes está oculto. Eles não intercederão por ninguém, exceto por aqueles em favor de quem Allah estiver satisfeito que se ouça a intercessão, e permanecerão temerosos e aterrorizados diante de Allah”.

Os politeístas consideravam os anjos divindades por duas razões. Primeiro, acreditavam que eles eram filhos e descendentes de Allah. Segundo, pretendiam, adorando-os, torná-los intercessores junto a Allah. (Árabe*******************) (Eles diziam: “Estes são nossos intercessores junto a Allah”: Surata Yunus: 18) e (Árabe*****************) (“Eles nos ajudarão a alcançar proximidade”: Surata Az-Zumar: 3). Nesses dois versículos, ambas as razões são refutadas.

É digno de nota que, ao refutar a concepção e crença politeísta sobre a intercessão, o Alcorão frequentemente declara com ênfase: “Aqueles que considerais intercessores não têm conhecimento de nada do invisível, ao passo que Allah conhece todas as coisas, conhecidas e desconhecidas, relativas a eles”. Com isso, Allah deseja fazer os seres humanos compreenderem o seguinte: se eles não conhecem o passado e o futuro de cada pessoa, nem tudo o que é oculto e manifesto, como poderiam possuir o poder incondicional e absoluto de interceder? Por isso, o poder de intercessão de cada anjo, profeta ou outro homem virtuoso é condicionado. A condição é que Allah Todo-Poderoso conceda a alguém permissão para interceder por uma pessoa. Ninguém terá o direito de interceder por qualquer pessoa segundo a própria vontade. E, quando ouvir ou não ouvir a intercessão, bem como aceitá-la ou não, depende inteiramente da vontade de Allah, que direito poderiam ter tais intercessores impotentes de receber a adoração de alguém e de ouvir suas súplicas e rogos?

Na Surata Sabá, é dito:

(Árabe********************************************página 398 do PDF)

“A intercessão só será proveitosa em favor daquele a quem Allah conceder permissão para interceder”. — (Surata Sabá: 23)

Isto é, longe de alguém ser o próprio senhor, ser sócio na soberania ou ser cooperador ou colaborador de Deus, não existe, em todo o universo, uma única entidade capaz sequer de interceder um pouco, por sua própria vontade, em favor de alguém perante Allah. Vós vos entregais inutilmente à falsa ideia de que Allah possui alguns servos queridos ou influentes que, se fizerem um pedido e insistirem nele, podem obrigá-Lo a aceitá-lo. Na realidade, ali ninguém ousa proferir sequer uma palavra sem permissão. Somente aquele que receber permissão poderá apresentar alguma súplica, e a intercessão só poderá ser feita em favor daquele para quem for concedida permissão para interceder.

Na parte final do mesmo versículo, é dito:

(Árabe********************************************página 398 do PDF)

“Quando finalmente a ansiedade for retirada dos corações das pessoas, elas perguntarão aos intercessores: ‘O que vosso Senhor respondeu?’ Eles dirão: ‘Respondeu corretamente’. Com efeito, Ele é Poderoso e Grandioso.” — (Surata Sabá: 23)

Aqui é apresentada uma cena da situação que se instaurará no Dia da Ressurreição, quando algum intercessor pedir permissão para interceder por alguém. Vemos uma situação em que, depois de apresentada a solicitação de permissão, tanto o intercessor quanto aquele em favor de quem se busca a intercessão, tomados por extrema ansiedade e aterrorizados, aguardam a resposta com grande aflição e impaciência. Finalmente, quando a permissão chega e, pela expressão do rosto do intercessor, aquele em favor de quem se busca a intercessão percebe que a situação se tornou um tanto promissora, é como se sua vida retornasse ao corpo. Ele se aproxima e pergunta ao intercessor: ‘Que resposta foi recebida?’ O intercessor responde: ‘Está tudo bem. A permissão foi concedida.’ — [Uma cena de como os profetas intercederão com humildade no Dia da Ressurreição é apresentada no último rukū‘ da Surata Al-Má’idah. Ali é descrito como Jesus intercederá por seus seguidores. Primeiro, ele testemunhará em resposta à pergunta de Allah. Depois dirá:

(Árabe********************************************na página 399 do PDF)

“Se quiseres puni-los, eles são, de fato, Teus servos. (Não lhes resta alternativa senão submeter-se à punição.) Mas, se os perdoares, Tu és, de fato, Poderoso e Sábio.” — (Versículo 118) Na primeira parte desta frase significativa há um tom de súplica pela intercessão — não há exigência nem insistência. — (Os dois compiladores)

Com esta descrição, Allah quer dizer: ó grupo de tolos! Como podeis imaginar, a respeito de uma corte cuja situação é essa, que alguém irá até lá e, valendo-se de seu próprio poder, conseguirá vosso perdão, ou se obstinará diante de Allah e terá a audácia de dizer: ‘Eles são meus devotos. É obrigatório perdoá-los’?

Foi dito na Surata Ad-Dukhán:

(Árabe********************************************na página 399 do PDF)

“Naquele dia, nenhum parente servirá de ajuda a outro parente. Nenhuma ajuda virá de parte alguma. Exceto aquele sobre quem o próprio Allah concederá Sua misericórdia. Ele é Poderoso e Misericordioso.” — (Surata Ad-Dukhán: 41–42)

Aqui é descrita a cena do tribunal que será estabelecido no Dia do Juízo. A ajuda ou o apoio de ninguém poderá garantir a libertação de qualquer criminoso nem reduzir sua punição. A verdadeira soberania permanecerá nas mãos do Senhor, em cujas mãos estão as chaves de todo o poder; ninguém será capaz de impedir que Sua decisão seja aplicada, nem terá poder para influenciá-la. Reduzir ou cancelar a punição de alguém por misericórdia dependerá inteiramente da vontade de Allah. Na realidade, Ele não faz justiça com crueldade; ao contrário, faz justiça com benevolência. Contudo, qualquer decisão que Ele tomar em um julgamento será necessariamente aplicada ao pé da letra. Depois de explicar essa cena do tribunal divino, os versículos seguintes dizem qual será o destino daqueles que forem declarados culpados nesse tribunal e como serão recompensados aqueles sobre os quais ficar comprovado que, neste mundo, temeram Allah e se abstiveram da desobediência.

O exemplo da súplica do Profeta Noé (que a paz esteja com ele) por seu filho

O relato do Profeta Abraão (que a paz esteja com ele) apresentado na Surata Hud (ver versículos 69 a 76) foi narrado tendo os coraixitas como alvo. Por serem descendentes do Profeta Abraão (que a paz esteja com ele), eles se tornaram os descendentes espirituais de toda a Arábia, os sacerdotes guardiões da Caaba Sagrada e os detentores da liderança religiosa, moral, política e cultural. Por isso, diziam com grande orgulho e arrogância: sendo eles descendentes daquele amado servo de Allah, e estando ele perante Allah para interceder por eles, como poderia a ira de Allah descer sobre eles? Para destruir essa falsa arrogância, primeiro foi apresentada a cena de um grande profeta, como o Profeta Noé, vendo diante dos próprios olhos seu amado filho afogar-se e, aflito, suplicando a Allah que o filho fosse salvo; mas essa intercessão não trouxe benefício algum ao filho e, além disso, o pai recebeu uma repreensão. Em seguida, foi apresentada a própria cena do Profeta Abraão (que a paz esteja com ele). De um lado, são mencionadas as imensas bênçãos de Allah sobre ele, e seu nome é citado em linguagem extremamente afetuosa. De outro, quando o próprio Abraão, o amigo de Allah (Khalil), interferiu na justiça, Allah, apesar de sua intensa súplica, rejeitou sua intercessão em favor do povo criminoso de Lot.

Depois, em um versículo seguinte da própria Surata Hud, Allah diz:

(Árabe********************************************na página 400 do PDF)

“Quando esse dia (da Ressurreição) chegar, ninguém terá capacidade sequer de emitir um som sem a permissão de Allah.” — (Surata Hud: 105)

Isso significa que esse grupo de tolos passa a vida apoiado em esperanças falsas e vãs: tal venerável pessoa intercederá por nós e nos salvará; tal santo insistirá e não descansará até conseguir o perdão de cada um de seus devotos; tal senhor é amado por Allah. Ele permanecerá sentado, firme, no caminho do Paraíso e não sairá dali sem obter o salvo-conduto do perdão para seus devotos. Entretanto, nem sequer se coloca a questão de alguém insistir ou permanecer obstinadamente firme. Por mais elevada que seja a posição de uma pessoa ou de um anjo, ninguém terá ali coragem de dizer uma única palavra. Só será possível falar se o próprio Allah, o juiz supremo daquele tribunal, permitir que alguém diga algo. — [Aqueles que, em vários mausoléus e santuários, oferecem votos e presentes votivos pensando que as pessoas ali sepultadas exercem grande influência e autoridade perante Allah estão corrompendo seus registros de obras na esperança de obter sua intercessão. No Dia da Ressurreição, terão de enfrentar uma situação de extrema decepção.]

A concepção politeísta da intercessão junto a Allah na vida terrena

É dito na Surata An-Nahl:

(Árabe********************************************na página 401 do PDF)

“Mesmo assim, apesar de terem visto e sabido tudo isso, creem eles no falso e negam a benevolência de Allah?” — (Surata An-Nahl: 72)

Os idólatras de Meca não negavam que todos aqueles bens de consumo do mundo eram dádivas de Allah. Também não negavam que a benevolência de Allah estava por trás dessas dádivas. O erro que cometiam, porém, era que, além de expressarem gratidão a Allah por esses bens, expressavam também gratidão a muitas entidades que, segundo eles imaginavam, tinham alguma participação na obtenção desses bens, embora não possuíssem qualquer argumento ou prova a esse respeito. Na linguagem do Alcorão, esse comportamento é chamado de “negar a benevolência de Allah”. Um concede a dádiva, mas a gratidão é dirigida a outro: segundo o Alcorão, isso nada mais é que ingratidão. O Alcorão também afirma, como princípio, que, quando alguém, sem qualquer prova ou evidência a respeito do Doador, imagina que Ele não concedeu a dádiva por benevolência, mas por intermédio de fulano, em consideração a fulano, por intercessão de fulano ou em consequência da intervenção de fulano, isso também equivale, em essência, a negar a dádiva que Ele concedeu.

Esses dois ensinamentos fundamentais do Alcorão são inteiramente coerentes e conformes ao senso comum. Qualquer pessoa pode compreender sua lógica refletindo um pouco. Suponha que, movido pela compaixão por uma pessoa necessitada, você a ajude, e que ela imediatamente se ponha a agradecer, diante de você, a outra pessoa que não teve participação alguma nessa ajuda. Talvez, por generosidade, você ignore esse comportamento injusto e continue ajudando-a no futuro, mas certamente compreenderá, no íntimo, que ela é uma pessoa extremamente mal-educada e ingrata. Suponha que, depois, você lhe pergunte a razão desse comportamento e descubra que, na opinião dela, você não a ajudou por sua própria bondade e generosidade, mas em consideração àquela segunda pessoa. Quando, na realidade, isso não é verdade. Nesse caso, você certamente se sentirá insultado. O significado claro dessa ideia, para você, será que ela nutre uma atitude extremamente negativa a seu respeito. A opinião que ela tem de você é que você não é uma pessoa bondosa e compassiva. Pelo contrário, sua atividade consiste em agradar e favorecer seus amigos. Se alguém vier por intermédio de alguns amigos específicos, você o ajuda apenas para preservar o bom relacionamento com esses amigos. Caso contrário, você não é o tipo de pessoa capaz de beneficiar quem quer que seja.

Em outro versículo da Surata An-Nahl, é dito:

(Árabe********************************************na página 401 do PDF)

“Eles reconhecem a dádiva de Allah e, ainda assim, a negam. A maioria deles não está disposta a aceitar a verdade.” — (Surata An-Nahl: 83)

Aqui, ao falar em negação, está-se fazendo referência justamente à atitude mencionada anteriormente. Os incrédulos de Meca não negavam que tudo o que existe na Terra fosse uma dádiva de Allah, mas acreditavam que Allah lhes havia concedido todas essas coisas por causa de seus deuses. Por isso, ao agradecer por essas dádivas, expressavam sua gratidão tanto a Allah quanto àquelas entidades intermediárias. Chegavam até a demonstrar-lhes uma gratidão ligeiramente maior do que a dedicada a Allah. Foi a essa atitude que Allah deu os nomes de ingratidão, falta de reconhecimento e negação das dádivas de Allah, entre outros.

Na surata Al-Hajj, Allah, o Altíssimo, diz:

(Árabe********************************************na página 402 do PDF)

“Na verdade, Allah escolhe mensageiros dentre os anjos e dentre os seres humanos para transmitir Suas ordens. Ele vê e ouve todas as coisas. Conhece tudo o que os seres humanos ocultam e manifestam. E todos os assuntos retornam a Ele.” — (Surata Al-Hajj: 75–76)

O sentido disso é que, entre as entidades do universo que os politeístas adotaram como divindades, as criaturas mais elevadas são os profetas ou os anjos. Em outras palavras, eles são apenas mensageiros escolhidos por Allah para transmitir aos seres humanos a ordem de Allah. Sua posição não é superior a isso. Somente por possuírem essa posição, eles não podem tornar-se deuses nem parceiros de Deus.

A frase “Ele conhece tudo o que os seres humanos ocultam e manifestam” costuma ser mencionada no Alcorão para refutar a crença politeísta na intercessão. O sentido de mencioná-la aqui é o seguinte: mesmo que vocês não considerem os anjos, os profetas e os homens virtuosos, individualmente, como aqueles que satisfazem todas as necessidades das pessoas e as salvam das dificuldades, ainda assim estarão errados se os adorarem apenas por considerá-los intercessores perante Allah. Isso porque somente Allah possui o poder de ver e ouvir todas as coisas. Somente Ele conhece tudo o que cada pessoa oculta e manifesta. Somente Ele conhece os benefícios e os malefícios, ocultos e manifestos, deste mundo. Ninguém, incluindo os anjos e os profetas, sabe quando determinada ação é apropriada e quando não é. Por isso, Allah não concedeu nem mesmo à Sua criatura mais amada e mais próxima o direito de interceder à vontade sem Sua permissão, e tampouco considerou aceitável qualquer intercessão desse tipo.

Na surata Az-Zumar, Allah diz:

(Árabe********************************************na página 402 do PDF)

“Acaso eles tomaram outros, além de Allah, como intercessores? Dize-lhes: Mesmo que não tenham qualquer poder e nada compreendam, poderão eles interceder? Proclama: Toda intercessão está exclusivamente sob a autoridade de Allah. Ele é o Senhor do domínio e da soberania dos céus e da terra. E a Ele haveis de retornar.” — (Surata Az-Zumar: 43-44)

Em outras palavras, eles próprios imaginaram que, perante Allah, haveria algumas entidades influentes cuja intercessão jamais seria recusada. No entanto, ninguém tem poder para se apresentar espontaneamente como intercessor perante Allah. Muito menos há qualquer prova ou evidência de que sua intercessão seja aceita; eles sequer possuem qualquer prova de que sejam intercessores. Allah, o Altíssimo, jamais disse que essas entidades desfrutam de tal posição perante Ele. E essas próprias entidades jamais afirmaram que realizariam os desejos de seus adoradores. Além disso, sua insensatez consiste em que, deixando de lado o verdadeiro Dono de todo o poder, consideraram esses intercessores inventados como detentores de autoridade absoluta e dedicaram a eles toda a sua devoção e reverência.

Foi declarado na Surata An-Najm:

(Árabe********************************************na página 403 do PDF)

“E quantos anjos há nos céus cuja intercessão de nada servirá, até que Allah tenha concedido permissão para interceder em favor de alguém cujo pedido Ele queira ouvir e aprove.” — (Surata An-Najm: 26)

Isto é, quando nem mesmo a intercessão de todos os anjos reunidos em favor de alguém pode trazer benefício, nem sequer se pode falar em benefício resultante da intercessão desses deuses inventados por vós. Allah é o Dono de toda a autoridade. Os próprios anjos não ousam interceder em favor de ninguém enquanto não recebem permissão de Allah e enquanto Ele não Se dispõe a ouvir sua intercessão em favor dessa pessoa.

Ninguém pode impedir o decreto de Allah.

Foi declarado na Surata Ar-Ra‘d:

(Árabe********************************************(na página 403 do PDF)

“E quando Allah decide trazer a calamidade sobre um povo, ninguém tem poder para impedi-la, e esse povo não terá, contra Allah, nenhum aliado ou ajudante.” — (Surata Ar-Ra‘d: 11)

Isto é, está sendo dito: nunca permaneçais sob a falsa ideia de que, façais o que quer que façais, algum pir, faqir, santo do passado ou do futuro, ou algum jinn ou anjo, depois de aceitar o suborno de vossas dádivas, terá poder para vos salvar das consequências de vossas más ações.”

Em que casos a porta da intercessão se fecha

(Árabe********************************************(na página 404 do PDF)

“Ó Profeta! Peças ou não perdão para essas pessoas (os hipócritas) — mesmo que peças perdão para elas setenta vezes — Allah jamais as perdoará. Isso porque elas cometeram kufr contra Allah e Seu Mensageiro. Allah não mostra o caminho da salvação aos desobedientes.” — (Surata At-Tawbah: 80)

(Árabe********************************************(na página 404 do PDF)

“Ó Profeta! Peças ou não perdão para eles (os hipócritas), será tudo igual para eles. Allah jamais os perdoará. Allah jamais guia os transgressores ao caminho reto.” — (Surata Al-Munafiqun: 6)

Esta afirmação foi revelada primeiro na Surata Al-Munafiqun. Três anos depois, a mesma afirmação foi feita com ainda maior ênfase na Surata At-Tawbah.

“Nela, Allah Todo-Poderoso, dirigindo-Se ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), diz a respeito dos hipócritas: ‘Peças ou não perdão por eles; mesmo que peças perdão por eles setenta vezes, Allah jamais os perdoará. Isso porque eles descreram de Allah e de Seus Mensageiros. E Allah não guia o povo perverso’.” — (Surata At-Tawbah: 80)

Mais adiante, na mesma surata, Allah diz novamente: “E jamais ores pela oração fúnebre de qualquer um deles que morra, nem permaneças junto ao seu túmulo. Eles descreram de Allah e de Seu Mensageiro e morreram enquanto eram desobedientes.” — (Surata At-Tawbah: 84) — [Destes versículos do Alcorão e de vários outros versículos, obtém-se uma informação importante: nas palavras do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), foi esclarecido que, no Dia da Ressurreição, nenhuma intercessão será proveitosa para certos tipos de pessoas nem para aqueles envolvidos em determinadas ações. Diversos hadiths constituem uma prova irrefutável disso. À luz desta verdade, não têm qualquer valor as ideias correntes sobre a intercessão, sob cuja influência as pessoas se tornam negligentes, abandonam a adoração, passam a desprezar as orientações da religião e se entregam ao pecado conforme os desejos do coração. — (Os compiladores)]

Este versículo trata de duas questões. Primeiro, a súplica a Allah pelo perdão dos pecados só pode ser proveitosa no caso daqueles que receberam orientação. Se uma pessoa se desvia do caminho da orientação e adota o caminho da perversidade e da desobediência, não será perdoada nem mesmo se o próprio Mensageiro de Allah pedir perdão por ela — quanto mais uma pessoa comum. Segundo, Allah não facilita esse caminho para aqueles que não desejam seguir a verdade e o caminho correto. Se um servo se desvia por si mesmo do caminho reto e, mesmo depois de lhe ser mostrado esse caminho e de ser chamado a ele, rejeita esse chamado com arrogância e a cabeça erguida, por que Allah haveria de ficar seguindo-o com a orientação e implorando-lhe que venha para o caminho correto?

O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como intercessor no Dia da Ressurreição

Segundo o Alcorão e os hadiths, a disposição islâmica legítima acerca da intercessão é que, no Dia da Ressurreição, na corte de Allah, somente poderá interceder aquele a quem o próprio Allah conceder autoridade e direito de interceder; e somente será possível interceder em favor daquele por quem Allah conceder permissão para a intercessão. A esse respeito, observem-se os seguintes versículos:

(Árabe********************************************na página 405 do PDF)

De acordo com esta disposição, o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) certamente intercederá no Além. Contudo, ele fará essa intercessão com a permissão de Allah e em favor dos crentes tementes a Allah que, apesar de se esforçarem ao máximo para praticar boas ações, acabaram envolvidos em alguns pecados. As pessoas que, voluntária e conscientemente, se dedicam a más ações e à apropriação dos bens alheios, bem como aquelas que jamais temem Allah, não são dignas da intercessão do Profeta. Um longo discurso do Santo Profeta foi relatado num hadith. Nesse hadith, ele explicou quão terrível é o crime de apropriar-se dos bens confiados por outros. Ele disse que, no Dia da Ressurreição, aqueles que se apropriaram dos bens alheios comparecerão carregando sobre os ombros o peso desses bens e me chamarão, dizendo:(Árabe*********) “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)! Salve-me.” Mas eu lhes responderei:(Árabe*********) “Nada poderei fazer por você. Eu lhe havia transmitido a legislação de Allah?” — (Mishkat, capítulo sobre a divisão dos espólios e a apropriação indevida deles)

 

Capítulo: 11 – Profecia

Algumas profecias importantes do Profeta Sagrado

Da parte dos nobres profetas (A.S.) são feitas profecias que se tornam verdadeiras. Naturalmente, muitas vezes demora bastante para que suas profecias se realizem e, observando as circunstâncias aparentes em que são feitas, torna-se difícil imaginar que elas se concretizarão.

Uma profecia verdadeira está entre os sinais da missão profética e, sob certo aspecto, pode-se perceber nela um caráter milagroso. Algumas das coisas ditas por adivinhos e quiromantes às vezes se refletem de alguma forma. Porém, como as profecias dos profetas se baseiam no conhecimento concedido por Deus, elas se tornam plenamente verdadeiras.

Entre as profecias do Profeta Sagrado (S.A.) estão aquelas narradas no Alcorão. A segunda categoria de profecias está preservada nos hadiths. Entre elas, foram incluídas aqui todas as que pudemos reunir dos artigos e demais escritos do autor. — (Os compiladores)

 

As profecias do Alcorão

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Um futuro brilhante

(Árabe********************************************na página 409 do PDF)

Allah Altíssimo deu esta boa-nova ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) num momento em que apenas um punhado de pessoas estava com ele. Toda a nação se opunha a ele. Aparentemente, não se via nem o mais remoto sinal de sucesso. A lâmpada do Islã tremeluzia apenas em Meca. Tempestades sopravam de todos os lados para apagá-la. Naquele momento, Allah Altíssimo disse ao Seu Profeta: “Não te deixes abater pelos obstáculos e dificuldades que surgem nesta fase inicial. O período que virá será melhor do que o atual. A tua honra, estima e dignidade continuarão a aumentar, e a tua influência e autoridade continuarão a expandir-se. E esta promessa não se limita a este mundo. Também se promete que a dignidade que terás no Além será muitas vezes maior do que a dignidade neste mundo.”

At-Tabarani, em sua obra Al-Awsat, e Al-Bayhaqi, em sua obra Dala’il, transmitiram uma narração de Ibn Abbas. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Todos os êxitos que a minha ummah alcançará depois de mim são apresentados diante de mim, e isso me deixa satisfeito.” Então Allah Altíssimo declarou: “O Além será melhor para ti do que este mundo.”

A profecia da vitória da religião

(Árabe********************************************na página 409 do PDF)

“Em breve, o teu Senhor te dará tanto que ficarás satisfeito.”

Isto é: embora haja alguma demora em conceder, não está longe o momento em que o teu Senhor derramará sobre ti a Sua graça e tu alcançarás satisfação com ela. Esta promessa foi cumprida durante a própria vida do Profeta, pois todo o território, desde o extremo sul da Arábia até ao norte, alcançando a fronteira egípcia do Império Romano e a fronteira iraquiana do Império Persa, e desde o Golfo Pérsico, a leste, até ao Mar Vermelho, a oeste, reconheceu a sua autoridade. Pela primeira vez na história árabe, esse território ficou submetido à lei e à ordem. Qualquer força que entrou em conflito com ele foi esmagada. Em todo o país onde os politeístas e o Povo do Livro haviam feito todos os esforços para exaltar as suas falsas doutrinas, ressoou o kalima: “Lā ilāha illallāhu Muhammadur rasūlullāh” — “Não há divindade senão Allah; Muhammad é o Mensageiro de Allah”. Não apenas as cabeças das pessoas se curvaram; os seus corações e mentes também foram subjugados. Uma grande revolução ocorreu nas suas crenças e convicções, bem como nas suas ações e conduta. Uma nação envolta na escuridão da jahiliyyah transformou-se de tal modo em apenas vinte e três anos que há poucos exemplos semelhantes na história. Depois, o movimento fundado pelo Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) alcançou tamanho êxito que se espalhou pela maior parte da Ásia, da África e da Europa. Posteriormente, a sua influência alcançou todos os recantos do mundo. Tudo isso Allah Altíssimo concedeu ao Seu Profeta ainda neste mundo. E o que Ele lhe dará no Além está além da imaginação.

Esta é uma manifestação do poder e da sabedoria de Allah Altíssimo: Ele fez surgir, entre uma nação ignorante e incivilizada, um grande Profeta cuja doutrina e orientação são tão revolucionárias e portadoras de um ideal tão universal que toda a humanidade pode tornar-se uma única ummah ou comunidade. Depois, pode sempre receber orientação desse ideal. Por mais que qualquer impostor ou hipócrita se esforce, jamais poderá alcançar tal dignidade. Muito menos num país subdesenvolvido como a Arábia; nem mesmo o mais talentoso e genial indivíduo de qualquer grande nação do mundo teria capacidade para transformar completamente a forma e a natureza de uma nação desse modo e, em seguida, apresentar-lhe um ideal tão abrangente que, com base nele, toda a humanidade pudesse transformar-se numa única ummah e ser capaz de conduzir para sempre um sistema universal de vida (dīn) e de civilização. Isto é um milagre realizado pelo poder de Allah, e somente Allah Altíssimo, com base no Seu conhecimento sutil e previdente, escolhe para esta tarefa a pessoa, o país ou a nação que deseja. Se alguém se aflige interiormente por causa disso, que se aflija; isso não altera coisa alguma.

Garantia de uma era excelente

O tema da Surata Ad-Duha é consolar o Profeta e aliviar o sofrimento que ele suportava devido à interrupção da revelação. Primeiro, jurando pelo dia luminoso e pela noite tranquila, foi assegurado ao Profeta que seu Senhor não o havia abandonado de modo algum, nem estava descontente com ele. Em seguida, foi-lhe dada a boa-nova de que as dificuldades que ele enfrentara na primeira etapa do chamado islâmico eram apenas temporárias. Cada período vindouro continuaria sendo melhor que o anterior, e em breve Allah derramaria sobre ele tantas graças e favores que ele ficaria satisfeito. Esta é uma profecia tão clara que, posteriormente, se concretizou letra por letra. Contudo, no momento em que essa profecia foi feita, não havia qualquer sinal de que aquele homem desamparado de Meca, empenhado em lutar contra a ignorância de seu povo, alcançaria um sucesso tão extraordinário.

Então Allah, o Altíssimo, disse ao Seu amado Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele): Por que surgiu em teu coração o temor de que Eu te abandonei e fiquei descontente contigo? Desde o momento do teu nascimento, venho continuamente concedendo-te Minha graça. Tu nasceste órfão, e Eu providenciei para ti uma bela proteção e cuidado. Não conhecias o caminho correto; Eu te guiei. Eras pobre; Eu te tornei rico. Tudo isso prova que, desde o princípio, Meu olhar estava sobre ti e que permaneceste permanentemente envolvido por Minha graça e Meus favores.

O significado da remoção do fardo

(Árabe********************************************na página 411 do PDF)

“(Ó Profeta!) Acaso não ampliamos para ti o teu peito? E não removemos de ti o pesado fardo que te quebrava as costas?” — (Surata Alam Nashrah: 1–3)

Alguns exegetas expressaram a opinião de que, na época da ignorância, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) havia cometido algumas faltas e erros, por causa dos quais estava profundamente angustiado. Allah, o Altíssimo, teria revelado este versículo para consolá-lo, dizendo que havia perdoado essa falta. Mas, em nossa opinião, interpretar o versículo dessa maneira é totalmente errado. Primeiro: o significado inevitável da palavra não é pecado, falta ou erro. Pelo contrário, ela também significa um pesado fardo. Portanto, não há razão alguma para atribuir desnecessariamente a essa palavra um significado repulsivo. Segundo: a vida do Santo Profeta antes de sua missão profética era tão pura e imaculada que constituía um desafio para seus opositores. De fato, fazendo o Profeta dirigir-se aos descrentes, foi-lhe ordenado dizer:

(Árabe********************************************na página 411 do PDF)

“Antes de apresentar este Alcorão, passei uma vida entre vós.” — (Surata Yunus: 16)

O Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) não era alguém que tivesse cometido secretamente algum pecado — Deus nos livre. Se isso tivesse acontecido, não teria permanecido desconhecido para Allah Todo-Poderoso; e, se ele carregasse alguma culpa oculta, Allah poderia tê-la declarado sem hesitação diante da nação, como declarou no versículo acima mencionado da Surata Yunus. Portanto, o significado correto da palavra neste versículo é fardo. Isto é, o fardo da tristeza, do sofrimento e das preocupações. Ao ver a ignorância e a insensatez do seu próprio povo, o fardo da tristeza e da ansiedade sobre a sua natureza sensível ia aumentando. A corrupção moral e a nudez prevaleciam por toda parte. A opressão na sociedade e os conflitos e desordens nas relações haviam-se tornado coisas comuns. Os fracos eram esmagados pelos excessos dos poderosos. Meninas eram enterradas vivas. Uma tribo lançava ataques repentinos contra outra. Às vezes, essas disputas tribais continuavam durante centenas de anos. A vida, os bens, a honra e a dignidade de ninguém estavam seguros, a menos que tivesse atrás de si um grupo poderoso. Ao ver tais condições, o Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) sofria profundamente. Contudo, não conseguia encontrar um meio de eliminar aquela decadência. O enorme fardo dessa angústia estava quebrando-lhe as costas. Allah Todo-Poderoso removeu esse fardo de sobre ele, mostrando-lhe o caminho da orientação. Depois de ser investido no cargo de profeta, compreendeu que a fé no Tawhid, na Mensagem e na Vida Futura era a solução para todos os problemas da vida humana. Por meio dela, poderia ser facilitado o caminho para reformar e corrigir todos os aspectos e setores da vida. Essa orientação de Allah Todo-Poderoso aliviou todos os fardos do Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele), e ele ficou completamente tranquilo, certo de que somente por esse caminho seria possível impedir a decadência e a destruição, não apenas da Arábia, mas de todo o mundo.

Elevação da menção

(Árabe********************************************(Árabe********************************************na página 412 do PDF)

“E elevamos para ti a tua menção.”

Isso foi dito numa época em que ninguém poderia sequer imaginar como a voz de uma pessoa que contava com apenas um punhado de seguidores, confinados à cidade de Meca, poderia ser elevada por todo o mundo, nem como uma fama extraordinária poderia se espalhar sobre ela. Mas Allah Todo-Poderoso deu essa boa-nova ao Seu Profeta justamente nessas circunstâncias e fez com que ela se concretizasse de maneira surpreendente. Ele próprio começou a fazer a lembrança e a voz do Profeta chegarem de casa em casa por intermédio dos inimigos do Profeta. Um dos métodos adotados pelos descrentes de Meca para prejudicar o Profeta era que, durante o Hajj, quando pessoas de toda a Arábia chegavam a Meca em grupos, várias delegações de descrentes iam de acampamento em acampamento dos peregrinos e os advertiam, dizendo: “Há um homem perigoso chamado Muhammad que faz este e aquele tipo de magia sobre as pessoas. Ele causa divisão entre pais e filhos, e entre maridos e esposas. Portanto, mantende-vos afastados dele.” Eles também faziam esse tipo de propaganda junto àqueles que iam a Meca, em dias que não eram de Hajj, apenas para visitar ou por algum negócio. Assim, embora difamassem o Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele), o resultado era que o seu nome chegava às aldeias e aos povoados da Arábia. Desse modo, os inimigos fizeram com que o nome do Profeta, saindo do recanto de Meca, se tornasse conhecido por todas as tribos do país. Então, naturalmente, as pessoas começaram a querer saber quem era aquele homem, o que dizia, que tipo de pessoa era, quem estava sendo influenciado pela sua magia e que espécie de efeito essa magia exercia sobre eles. Quanto mais aumentava a propaganda dos descrentes de Meca, mais cresciam essas perguntas na mente das pessoas. Como resultado dessas perguntas e dessa curiosidade, as pessoas passaram a conhecer o caráter e a conduta do Profeta. Ao ouvirem o Alcorão, compreenderam que tipo de ensinamento o Profeta transmitia às pessoas. Observaram que espécie de mudança havia começado na vida daqueles que eram influenciados pelo que chamavam de magia, em comparação com os árabes comuns. Como resultado, a difamação do Profeta começou a transformar-se em sua boa reputação e fama. Quando se aproximou o momento da Hégira, chegou-se a tal situação que, entre as tribos árabes distantes e próximas, havia pessoas simpatizantes do Profeta e da sua pregação. Essa foi a primeira etapa da elevação da fama do Santo Mensageiro. Depois da Hégira, começou a segunda etapa. Nessa época, de um lado, os hipócritas, os judeus e os politeístas de toda a Arábia empenhavam-se intensamente em difamar o Profeta (que a paz esteja sobre ele); de outro, o Estado Islâmico de Medina apresentava exemplos de devoção e temor a Deus, pureza moral, uma bela organização social, justiça, igualdade, generosa doação dos ricos, cuidado dos pobres, preservação dos pactos e honestidade nas transações e nos negócios, entre outras virtudes, conquistando assim os corações das pessoas. Os inimigos tentaram eliminar a influência crescente do Profeta por meio de guerras armadas. Mas a comunidade dos crentes que se formara sob a sua liderança fez com que eles se submetessem. Em dez anos, a fama e a glória do Santo Mensageiro haviam-se elevado e enaltecido tanto que, por todo o país em que os opositores tinham empregado todas as suas forças para difamá-lo, ressoou a proclamação: “Ashhadu anna Muhammadan Rasulullah” — “Testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Allah”.

Depois começou a terceira etapa, a partir da era do Califado Rashidun, quando o sagrado nome do Profeta (que a paz esteja com ele) começou a ser exaltado por todo o mundo. Sua continuidade vem crescendo até hoje e, se Allah quiser, continuará crescendo até o Dia do Juízo. Hoje não há lugar algum no mundo onde não exista uma comunidade muçulmana, onde não se anuncie em voz alta, cinco vezes ao dia, a missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele), onde não se invoquem bênçãos sobre o Profeta durante a oração e onde seu nome não seja lembrado com votos de bênção no sermão da sexta-feira. Entre os doze meses do ano, não há um único dia, nem entre as vinte e quatro horas do dia há um único momento, em que em algum lugar do mundo não se faça a abençoada lembrança do sagrado Profeta (que a paz esteja com ele). Esta é uma prova evidente da veracidade do Alcorão: quando, no início da missão profética, Allah, o Altíssimo, disse (Árabe********) então ninguém poderia imaginar que esta sua (Árabe********) (a exaltação de seu nome e de sua lembrança) continuaria ocorrendo com tamanha dignidade e amplitude. No hadith narrado por Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele), consta que o Profeta (que a paz esteja com ele) disse: Jibril perguntou-me: “Meu Senhor e seu Senhor pergunta como Ele eleva seu nome e sua lembrança.” O Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “Allah sabe melhor.” Jibril disse: “Allah declara: quando Eu sou lembrado, você também será lembrado junto comigo.” — (Ibn Jarir, Ibn Abi Hatim, Musnad de Abu Ya‘la, Ibn al-Mundhir, Ibn Hibban, Ibn Marduyah, Abu Nu‘aym). Toda a história posterior testemunha que estas palavras se tornaram verdadeiras, letra por letra.

Sharh al-sadr

(Árabe****************************************página 413 do PDF)

“(Ó Profeta!) Não te abrimos o peito?” — (Surata Alam Nashrah: 1)

O início da fala com esta pergunta e o que vem depois mostram que, naquela época, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) havia ficado muito inquieto por causa dos obstáculos e dificuldades que enfrentara assim que começou a pregação islâmica. Para consolá-lo nessa situação, Allah, o Altíssimo, disse: “Ó Profeta! Não te concedi estas e aquelas graças? Então por que estás preocupado com esses obstáculos e dificuldades?” Ao observar os diferentes lugares em que a expressão “abrir o peito” é usada no Sagrado Alcorão, percebe-se que ela tem dois significados.

Um:(Árabe****************************************página 414 do PDF)

“Assim, aquele a quem Allah, o Altíssimo, deseja conceder orientação, Ele lhe abre o peito para o Islã.” — (Surata Al-An‘am: 125)

Dois:(Árabe****************************************página 414 do PDF)

“Aquele cujo peito Deus abriu para o Islã está seguindo uma luz proveniente de seu Senhor.” — (Surata Az-Zumar: 22)

Nestes dois lugares, o sentido de sharh al-sadr é libertar-se de toda espécie de inquietação mental, hesitação e conflito interior, e ficar convicto de que o caminho do Islã é a verdade incontestável, e de que as crenças, os princípios morais, a cultura e a civilização, as ordens e proibições e as orientações apresentadas pelo Islã são absolutamente corretas. Nos versículos 12 e 13 da Surata Ach-Chu’ara, é mencionado que, depois de confiar a Hazrat Musa (a.s.) a grandiosa responsabilidade da profecia, quando lhe foi ordenado lutar e combater contra o Faraó e seu poder estatal, Musa (a.s.) suplicou:

(Árabe****************************************na página 414 do PDF)

“Ó meu Senhor! Temo que me chamem de mentiroso, e meu peito se contrai.” — (Surata Ach-Chu’ara: 12–13)

Foi dito nos versículos 25–26 da Surata Taha que, naquela ocasião, o venerável Musa (a.s.) suplicou a Allah, dizendo:

(Árabe****************************************na página 414 do PDF)

“Meu Senhor! Expande o meu peito para mim e facilita para mim a minha tarefa.”

Aqui, o significado da estreiteza do peito é que não estava surgindo coragem para carregar o enorme fardo da profecia e para se envolver sozinho em confrontos e conflitos contra as formidáveis forças da incredulidade. Já sharh al-sadr significa o fortalecimento do ânimo da pessoa: não recuar diante da condução de uma grande campanha nem da resolução de uma tarefa extremamente difícil, e adquirir coragem para cumprir uma responsabilidade tão grandiosa quanto a profecia.

Refletindo, pode-se compreender que, neste versículo, estão contidos ambos os significados na abertura do peito do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quanto ao primeiro significado, isto quer dizer que, antes da profecia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) considerava falsas as religiões dos idólatras, cristãos, judeus e adoradores do fogo da Arábia, e tampouco estava satisfeito com o monoteísmo unilateral que se observava entre alguns monoteístas árabes. Isso porque se tratava de uma crença vaga, sem qualquer descrição detalhada do caminho verdadeiro e correto. Mas, como ele ainda não sabia qual era o caminho correto, sofria de uma hesitação e conflito interior. Então, Allah abriu diante dele a profecia — o caminho reto (Sirat al-Mustaqim) —, fazendo retornar ao seu coração a tranquilidade e a segurança.

O significado do segundo aspecto é que, juntamente com a concessão da profecia, Allah, o Altíssimo, concedeu ao Profeta a coragem, o entusiasmo, a determinação firme e a amplitude de espírito necessários para cumprir essa grande responsabilidade. Ele tornou-se possuidor de um conhecimento tão abrangente que nenhum outro ser humano, além dele, poderia acolher em seu coração. Adquiriu uma visão tão perspicaz que era capaz de eliminar a ampla anarquia e desordem e estabelecer a paz. Assim, alcançou tamanha capacidade que se levantou, sem quaisquer meios ou recursos e aparentemente sem qualquer força de apoio, em uma sociedade extremamente desregrada, mergulhada nas trevas da ignorância, e, como porta-estandarte do Islã, não hesitou em enfrentar as tempestades de oposição e inimizade. Todas as dores, dificuldades e calamidades que surgiram nesse caminho, ele as suportou pacientemente. Nenhuma força pôde desviá-lo de seu objetivo. Quando Allah, o Altíssimo, lhe concedeu esse inestimável tesouro da abertura do peito, por que ele perderia a coragem ao ver esses obstáculos e impedimentos no início da missão?

Alguns exegetas interpretaram a abertura do peito como uma incisão e apresentaram este versículo como prova do acontecimento miraculoso da abertura do peito, narrado à luz dos hadiths. Mas a realidade é que a prova desse acontecimento miraculoso depende exclusivamente das narrações dos hadiths. Não seria correto tentar prová-lo a partir do Alcorão. Do ponto de vista da língua árabe, de modo algum se pode entender a abertura do peito como shaq al-sadr, isto é, a incisão do peito. O erudito al-Alusi afirma em seu Ruh al-Ma‘ani:

(Árabe****************************************página 415 do PDF)

“Para os especialistas, interpretar ‘sharh’ neste versículo no sentido de ‘shaqq’ é uma conclusão fraca.”

A boa-nova de Al-Kawthar

No período inicial da profecia, quando o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enfrentava enormes dificuldades, toda a nação se levantava contra ele com hostilidade, montanhas de obstáculos se erguiam em seu caminho, tempestades de oposição assolavam todos os lados e não se via qualquer sinal de sucesso para o Profeta e seus companheiros, Allah, o Altíssimo, revelou diversos versículos para consolá-lo e despertar coragem, ânimo e entusiasmo. Na Surata Ad-Duha, é declarado:

(Árabe****************************************página 416 do PDF)

“Certamente, o período seguinte (cada período seguinte) será melhor que o anterior, e o teu Senhor te dará aquilo que te deixará satisfeito”.

Na surata Alam Nashrah, Allah diz:(Árabe**********) “Pelo contrário, elevamos a lembrança do teu nome.” Isto é, os inimigos percorrem todo o país difamando-te — mas Eu providenciei a exaltação do teu nome e a divulgação da tua fama.

Em seguida, é dito:

(Árabe****************************************na página 416 do PDF)

“Na verdade, com a dificuldade vem a tranquilidade; certamente, com a dificuldade vem a tranquilidade”.

— isto é, não fiques impaciente porque a situação está muito difícil neste momento. Em breve, o período das dificuldades e calamidades terminará e o sucesso chegará.”

Foi nessa situação que Allah revelou a surata Al-Kawthar e consolou o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Ao mesmo tempo, anunciou a destruição dos opositores. Os incrédulos coraixitas diziam que Muhammad (que a paz esteja com ele) havia sido separado de toda a sua nação. Sua situação agora era semelhante à de um homem sem apoio, recursos ou amigos. Segundo o relato de Ikrima, quando o Nobre Profeta foi feito profeta e começou a convidar os coraixitas ao Islam, eles começaram a dizer:(Árabe*******) (Ibn Jarir). Ou seja, Muhammad estava separado de sua nação como uma árvore cortada e separada de suas raízes. Esperava-se que, depois de algum tempo, secasse e se desfizesse na terra. Muhammad ibn Ishaq diz que, quando mencionavam o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) diante do chefe de Meca, Al-‘As ibn Wa’il al-Sahmi, ele dizia: “Ah, deixem-no de lado. Ele é um homem sem raízes (abtar). Não tem filhos homens; quando morrer, não haverá ninguém para mencionar seu nome”.

Shamir ibn Atiya afirma que ‘Uqba ibn Abi Mu’ayt também fazia declarações desse tipo sobre o Profeta. — (Ibn Jarir)

Ibn Abbas relata: certa vez, quando Ka‘b ibn Ashraf, um dos líderes judeus de Medina, chegou a Meca, os líderes dos coraixitas lhe disseram:

(Árabe****************************************na página 416 do PDF)

“Olhe para esse rapaz: ele está completamente afastado da sociedade, mas afirma ser melhor do que nós, embora nós realizemos o hajj, cuidemos da Caaba e ofereçamos água aos peregrinos.” — (Al-Bazzar) A narração de Ikrimah sobre esse episódio diz: os coraixitas usavam, a respeito do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), suas (Árabe********) palavras. Seu significado era: fraco, sem recursos nem amigos e alguém que se afastou da sociedade (Ibn Jarir). Nas narrações de Ibn Sa‘d e Ibn Asakir: Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o filho mais velho do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era Qasim. Depois dele vinha Hazrat Zaynab, e depois Hazrat Abdullah. Em seguida, nasceram sucessivamente três filhas: Hazrat Umm Kulthum, Hazrat Fatimah e Hazrat Ruqayyah (que Allah esteja satisfeito com elas). Entre eles, primeiro Hazrat Qasim faleceu e, depois, Hazrat Abdullah faleceu. Ao ouvir isso, As ibn Wa’il disse: “Sua descendência foi extinta. Agora ele é abtar, isto é, sua raiz foi cortada.” Em algumas narrações, há ainda esta declaração de As:

(Árabe****************************************na página 417 do PDF)

Isto é: Muhammad é abtar (sem descendência). Ele não tem nenhum filho que o suceda. Após sua morte, seu nome será apagado do mundo. Então vocês ficarão livres dele. A narração transmitida por Abd ibn Humayd, de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), mostra que Abu Jahl também fez um comentário desse tipo após a morte do filho do Profeta, Abdullah. Ibn Abi Hatim narra, por intermédio de Shamir ibn Atiyyah, que, por ocasião do luto do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pela perda de seu filho, Uqbah ibn Abi Mu‘ayt também revelou uma mentalidade tão vil. Ata relata que, após a morte do segundo filho do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Lahab, seu vizinho mais próximo e tio, correu até os idólatras e lhes anunciou esta “boa notícia”:(Árabe********) “Esta noite, Muhammad ficou completamente sem filhos homens.”

Essa era a situação dolorosa em que a surata Al-Kawthar foi revelada. Os descrentes coraixitas estavam enfurecidos com o Profeta porque ele adorava e servia somente a Allah e rejeitava publicamente o politeísmo deles. Por isso, privaram-no da posição que ele ocupava entre toda a nação antes de se tornar profeta. Foi como se o tivessem separado de sua própria tribo e lançado para fora. Seus poucos companheiros também estavam sem recursos e sem amigos. Eles também eram perseguidos. Em tal situação, montanhas de luto pela perda de filhos desabaram sucessivamente sobre o Nobre Profeta. Em um momento tão difícil, em vez de receber compaixão de amigos, parentes, membros de sua tribo e clã ou vizinhos, eles explodiram de alegria. Começaram a fazer comentários extremamente dolorosos. E isso apesar de ele sempre ter tratado bem a todos, próximos ou distantes. Por isso, Allah concedeu nesta pequena surata uma boa-nova jamais concedida a nenhum ser humano no mundo. Ao mesmo tempo, foi anunciado o veredicto de que seriam seus opositores que ficariam sem descendência.

A palavra “abtar” deriva de “batar”, que significa cortar. Contudo, como termo técnico, é usada em sentido amplo. No hadith, a rak‘at que não é acompanhada por outra rak‘at na oração é chamada de “rutaira”. E em outro hadith consta: (Árabe**********************) Toda obra importante que é iniciada sem o louvor a Allah será “abtar”. Isto é, sua raiz será cortada. A obra não será firme, e seu desfecho não será bom. Também se chama “abtar” a pessoa que fracassa. Chama-se “abtar” aquele que é privado dos meios e recursos. “Abtar” é também aquele para quem não há qualquer possibilidade de bem e cuja esperança de sucesso foi completamente eliminada. Também é “abtar” aquele que se separou dos seus entes queridos e ficou completamente só. Usa-se a palavra “abtar” para quem não tem filhos ou para aquele cujos filhos morreram depois de nascer. Isso porque, depois dele, não resta ninguém que mencione seu nome, e seu nome e seus vestígios desaparecem. Foi praticamente com todos esses sentidos que os descrentes coraixitas chamavam o Nobre Profeta (a.s.) de “abtar”. Isso não era uma resposta às suas palavras. Na realidade, porém, era uma importantíssima profecia do Alcorão, que se cumpriu literalmente. Na época em que essa profecia foi feita, as pessoas consideravam o próprio Profeta “abtar”. E não se podia sequer imaginar como os grandes chefes dos coraixitas se tornariam “abtar”. Pois eles eram pessoas famosas não apenas em Meca, mas em toda a Arábia, e eram bem-sucedidos. Possuíam as dádivas da riqueza, dos filhos e de outras bênçãos. Tinham representantes por todo o país, além de amigos e apoiadores que os auxiliavam. Detinham o monopólio do comércio. Como a administração do Hajj estava em suas mãos, mantinham amplas relações com todas as tribos árabes. Entretanto, poucos anos depois, a situação mudou completamente. Houve um tempo em que, na Batalha da Trincheira, os coraixitas atacaram Medina com numerosas tribos árabes e judaicas, obrigando o Santo Profeta (s.a.w.) a construir uma trincheira junto à cidade para resistir-lhes. Naquele momento, os coraixitas não tinham nenhum apoiador ou auxiliar, e tiveram de depor as armas em estado de impotência. Depois, em menos de um ano, toda a Arábia ficou sob o controle do Profeta. Pessoas vinham em grupos, de regiões distantes e remotas do país, para prestar bay‘ah ao Profeta. Seus inimigos ficaram completamente sem amigos. Depois, seu nome e seus vestígios foram apagados de tal maneira que, embora seus descendentes ainda vivam no mundo, nenhum deles sabe que são descendentes de inimigos do Islam, como Abu Jahl, Abu Lahab, ‘As ibn Wa’il ou ‘Uqbah ibn Abi Mu‘ayt. E, mesmo quando sabem, não querem admitir que seus antepassados eram essas pessoas. Em contrapartida, hoje são enviados salat e salam de todo o mundo aos descendentes do Rasulullah (s.a.w.). Milhões e milhões de muçulmanos sentem orgulho e honra por sua relação com a linhagem do Profeta e com a linhagem de seus companheiros. Alguns são chamados Sayyid, outros ‘Alawi, ‘Abbasi, Hashimi, Siddiqi, Faruqi, ‘Uthmani, Zubayri ou Ansari. Mas não se ouve nenhum nome como Abu Jahl ou Lahabi. A história comprovou que o Profeta (s.a.w.) não era “abtar”; pelo contrário, seus inimigos eram “abtar” e continuam sendo.(Árabe********) Aqui, (Árabe******) usa-se a palavra cuja origem está em (Árabe******) Isso significa inveja e hostilidade, pelas quais se trata mal os outros. Em outro lugar do Alcorão foi dito: (Árabe********) e, ó muçulmanos, que a inimizade contra um povo não vos leve a exceder os limites a ponto de cometerdes injustiça. Portanto, (Árabe*******) é todo aquele que, cego de tanta hostilidade contra o Rasulullah (s.a.w.), difama-o, profere palavras ofensivas contra ele, o humilha e descarrega sua raiva lançando-lhe diversas injúrias.]

A dimensão escatológica das boas-novas de Kawthar

Eis o que o Profeta (s.a.w.) disse sobre o Hawd de Kawthar:

Primeiro: no terrível Dia da Ressurreição, quando todos estiverem se debatendo de sede, o Hawd de Kawthar será concedido ao Nobre Profeta (s.a.w.). A comunidade do Profeta se encontrará com ele junto ao Hawd e beberá de sua água até se saciar. O Santo Profeta chegará ali antes de todos e permanecerá no centro. O Profeta disse: (Árabe*************) “É um Hawd ou reservatório ao qual minha comunidade chegará no Dia da Ressurreição” (Muslim, Abu Dawud). (Árabe*********) “Eu chegarei ao Hawd antes de todos vós.” (Bukhari, Muslim, Ibn Majah, Musnad Ahmad)

(Árabe*****************************************na página 419 do PDF)

“Chegarei ali antes de vós e testemunharei em vosso favor. Juro por Allah: agora mesmo estou vendo o meu Hawd.” (Bukhari)

Certa vez, o Profeta dirigiu-se aos Ansar e disse:

(Árabe*****************************************na página 419 do PDF)

“Depois de mim, enfrentareis o egoísmo e o favorecimento dos parentes. Então, sede pacientes. Depois, encontrareis-vos comigo no Hauz de Kausar.” –(Bukhari, Muslim, Tirmizi)

(Árabe**********) ‘No Dia da Ressurreição, estarei no centro do Hauz’ (Muslim). Perguntaram a Hazrat Abu Barza Aslami (que Allah esteja satisfeito com ele): “Ouviu alguma coisa do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre o Hauz?” Ele respondeu: “Uma vez, duas vezes, três vezes — não quatro, mas muitas vezes ouvi. Quem considerar isso uma mentira, Allah o privará da sua água.” –(Abu Dawud)

Ubaidullah ibn Ziyad considerava falsas as narrações relacionadas ao Hauz. Chegou até mesmo a declarar falsas todas as narrações de Abu Barza Aslami (que Allah esteja satisfeito com ele), Bara ibn Azib (que Allah esteja satisfeito com ele) e Aiz ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele). Por fim, Abu Sabra apresentou uma narração que havia registrado por escrito junto de Amr ibn al-As. Nela estavam escritas estas palavras do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): (Árabe********) ‘Sabei que o lugar do vosso encontro comigo é o Hauz de Kausar’. –(Musnad Ahmad)

Dois: Há diferentes descrições da extensão deste Hauz em várias narrações. Contudo, a maioria das narrações afirma que o seu comprimento vai de Aila (o atual porto de Ailat, em Israel) até Sana, no Iêmen; ou de Ayala até Aden; ou de Amã até Aden. A sua largura vai de Aila até Juhfa (a região entre Jeddah e Rabigh) (Bukhari, Abu Dawud, Musnad Ahmad, Muslim, Tirmizi, Ibn Majah).

Pode-se deduzir disso que talvez o atual Mar Vermelho seja transformado no Hauz de Kausar. Allah Todo-Poderoso sabe melhor.

Três: Sobre este Hauz, o Profeta disse que a água será trazida do rio chamado Kausar, no Paraíso, e despejada neste Hauz. (Árabe**********) Em outro lugar, (Árabe*************) isto é, dois canais serão ligados a ele, vindos do Paraíso, para lhe fornecer água (Muslim)

E noutra narração é dito (Árabe********************) ‘Um canal será aberto do rio Kausar do Paraíso em direção a este Hauz’. –(Musnad Ahmad)

Quarto: ao descrever o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), diz-se que sua água é mais branca que o leite ou a prata, mais fria que o gelo e mais doce que o mel. O solo de seu leito é mais perfumado que o almíscar. Sobre ele haverá inúmeros cântaros, como as estrelas do céu. Quem beber dessa água uma vez jamais sentirá sede novamente. Quem for privado dela jamais se sentirá saciado. Isso foi relatado em muitos hadiths, com pequenas diferenças de redação (Bukhari, Muslim, Musnad de Ahmad, Tirmidhi, Ibn Majah, Abu Dawud).

Quinto: a esse respeito, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) advertiu repetidamente as pessoas, dizendo: depois de mim, aqueles entre vocês que alterarem minha prática serão mantidos afastados deste Hawd e não lhes será permitido chegar até ele. Eu direi: “Eles são meus companheiros.” Então será dito: “Você não sabe o que fizeram depois de você.” Então eu também os repelirei e direi: “Afastem-se!” Isso foi relatado em muitas narrações (Bukhari, Muslim, Musnad de Ahmad, Ibn Majah).

O hadith que Ibn Majah relatou sobre esse assunto tem uma redação profundamente comovente.

(Árabe*****************************************Página 420 do PDF)

“Lembrai-vos de que chegarei ao Hawd antes de vós. Eu me orgulharei de que minha comunidade seja mais numerosa do que as demais comunidades. Tende cuidado: alguns serão trazidos até mim, enquanto outros serão afastados de mim. Então direi: ‘Senhor! Estes são meus companheiros.’ Ele dirá: ‘Tu não sabes que tipo de obras praticaram depois de ti’.” Ibn Majah disse que o Profeta proferiu estas palavras durante o sermão de Arafat.

Sexto: do mesmo modo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) advertiu os muçulmanos que viriam desde sua época até o Dia do Juízo, dizendo que todos aqueles que se desviarem de meu caminho e alterarem minha prática serão expulsos do Hawd. Eu direi: “Ó meu Senhor! Eles são meus; são minha comunidade.” Em resposta, será dito: “Você não sabe o que alteraram depois de você e como seguiram o caminho errado.” O Profeta disse: “Então eu os repelirei e não lhes permitirei aproximar-se do Hawd.”

Há muitos hadiths sobre esse assunto. — (Ver Bukhari, Muslim, Ibn Majah e Musnad de Ahmad.)

A descrição deste Hawd foi transmitida por cinquenta Companheiros. Os antigos sábios islâmicos consideraram este Hawd como o Hawd de Kawthar. O Imam Bukhari deu, no capítulo final de seu Livro de Ar-Riqaq, o seguinte título:(Árabe*****************************************Página 421 do PDF)

Em uma transmissão de Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), encontra-se esta explicação: o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao falar sobre Kawthar, disse:(Árabe*************) Este é o reservatório onde minha comunidade se reunirá.

Há também muitas tradições que descrevem o rio chamado Kawthar, que será concedido ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) no Paraíso. Muitas narrativas de Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) também foram registradas, nas quais ele diz que, na noite da Ascensão, o Profeta foi levado a viajar pelo Paraíso. Nessa ocasião, ele viu um rio cujas margens eram adornadas com cúpulas incrustadas de diamantes. O solo do seu leito era perfumado como almíscar. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou a Jibril ou ao anjo que o acompanhava: “O que é aquilo?”. Em resposta, foi dito: “Este é o rio Kawthar, que Allah, o Altíssimo, lhe concedeu”. (Musnad Ahmad, Bukhari, Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi e outros).

Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: um homem perguntou ao Profeta: “O que é Kawthar?”. O Profeta respondeu: “É um rio que Allah me concedeu no Paraíso. Seu solo é perfumado como almíscar; sua água é mais branca que o leite e mais doce que o mel” (Musnad Ahmad, Tirmidhi). Ibn Jarir, citando outra narrativa do Musnad Ahmad, diz que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao descrever as qualidades do rio Kawthar, disse: “No seu fundo, em vez de pedras, estão dispostas joias e pedras preciosas”. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Kawthar é um rio ou curso d’água do Paraíso. Suas margens são de ouro. Ele corre sobre essas joias e pedras preciosas”. Ou seja, em vez de fragmentos de pedra, há ali diamantes e joias espalhados. Seu solo é mais perfumado que o almíscar. Sua água é mais branca que o leite, mais fria que o gelo e mais doce que o mel. (Musnad Ahmad, Tirmidhi, Ibn Majah, Ibn Abi Hatim, Darimi, Abu Dawud, Ibn al-Mundhir, Ibn Marduyah e Ibn Abi Shaybah). Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: certa vez, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele não estava em casa. Sua esposa recebeu o Profeta. Ela disse: “Meu marido me disse que lhe foi concedido no Paraíso um rio chamado Kawthar”. O Profeta respondeu: “Sim, é verdade; seu solo é feito de rubis e de diversas joias e pedras preciosas”. Além dessas narrativas, numerosas declarações dos Companheiros e dos tabi‘in foram citadas nos hadiths, nas quais Kawthar é entendido como esse rio ou curso d’água do Paraíso, e lhe são atribuídas precisamente as qualidades mencionadas acima. Por exemplo, as declarações de Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), Mujahid e Abu al-Aliya foram mencionadas nos livros de hadith dos eruditos, como Musnad Ahmad, Bukhari, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Marduyah, Ibn Jarir e Ibn Abi Shaybah.

O terrível destino de Abu Lahab

(Árabe*****************************************na página 422 do PDF)

“As mãos de Abu Lahab estão arruinadas, e ele fracassou completamente”.

Alguns exegetas(Árabe****************)—interpretaram-no como: “Que as mãos de Abu Lahab sejam arruinadas” — e(Árabe****************)interpretaram-no como: “Que ele seja destruído” ou “Ele foi destruído”. Na realidade, porém, isso não é uma súplica de maldição nem uma condenação dirigida contra ele. Era, antes, uma profecia, para a qual se empregou o verbo no passado em relação a algo que ocorreria no futuro. Sua realização era tão certa que parecia já ter acontecido. De fato, foi exatamente o que aconteceu, conforme fora profetizado nesta surata alguns anos antes. “As mãos serem arruinadas” não significa que uma parte do corpo, as mãos, fosse quebrada. Significa, antes, que uma pessoa fracassaria naqueles empreendimentos pelos quais se esforçara com todas as suas forças. Abu Lahab empregou todo o seu poder para frustrar o chamado islâmico do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Contudo, antes que tivessem passado sete ou oito anos da revelação desta surata, a maioria dos líderes dos coraixitas, que haviam ajudado Abu Lahab em sua inimizade contra o Profeta, foi morta na batalha de Badr. Quando a notícia dessa derrota chegou a Meca, Abu Lahab ficou tão profundamente abalado que não conseguiu sobreviver por mais de sete dias. Sua morte também foi extremamente instrutiva. Ele contraiu a doença da pústula maligna, por causa da qual seus familiares o abandonaram e se afastaram, pois estavam aterrorizados com o medo de sua terrível doença contagiosa. Durante três dias após sua morte, ninguém se aproximou dele. Seu cadáver apodreceu e tornou-se fétido. As pessoas começaram a censurar seus filhos por isso; então eles contrataram alguns abissínios para retirar o cadáver e enterrá-lo. Segundo uma narrativa, cavaram uma cova e, com a ajuda de um pedaço de madeira, lançaram o cadáver nela, cobrindo-o depois com terra e pedras. Sua derrota adicional e completa ocorreu ainda de outra maneira: os próprios filhos abraçaram a religião cujo caminho ele havia empregado todas as suas forças para bloquear. Primeiro, sua filha Durrah emigrou de Meca, chegou a Medina e aceitou o Islã. Depois, por ocasião da conquista de Meca, seus dois filhos, Utbah e Muattab, compareceram diante do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por intermédio de Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) e, depois de abraçarem a fé, prestaram lealdade ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

O castigo dos habitantes de Meca por expulsarem o Profeta

(Árabe*****************************************na página 422 do PDF)

“Eles estavam decididos a expulsá-lo desta terra e bani-lo daqui. Mas, se fizerem isso, não permanecerão aqui por muito tempo depois de você.” — (Bani Isra’il: 76)

Embora, naquela época, essa clara profecia fosse considerada uma ameaça, em dez ou onze anos ela se concretizou literalmente. Um ano depois da revelação desta surata, eles obrigaram o Profeta (que a paz esteja com ele) a deixar Meca. Então, antes que se passassem oito anos, ele entrou em Meca com a aparência de um conquistador. E, dentro de apenas dois anos, a presença dos politeístas foi extinta em todo o território árabe. Todos os que então permaneciam na Arábia o faziam como muçulmanos. Não havia ali lugar algum para os politeístas.

A derrota do grupo dos coraixitas

(Árabe*****************************************na página 423 do PDF)

“Em breve, este grupo será derrotado, e eles serão vistos dando as costas e fugindo.” — (Surata Al-Qamar: 45)

Cinco anos antes da Hégira, foi feita esta clara profecia: o grupo dos coraixitas, que, orgulhoso de seu poder, considerava o mundo insignificante, seria em breve derrotado pelos muçulmanos. Naquela época, ninguém conseguia imaginar como essa revolução se realizaria em um futuro próximo. A situação dos muçulmanos era tão difícil que um grupo deles abandonou o país e migrou para a Abissínia, enquanto os demais crentes estavam confinados no vale de Abu Talib. Os coraixitas haviam rompido todas as relações com eles e os mantinham confinados numa caverna das montanhas; por isso, estavam morrendo de fome. Nessas condições, quem poderia imaginar que, em sete anos, a situação mudaria completamente? Segundo o relato de Ikrimah, discípulo de Abdullah ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele), Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: quando este versículo da Surata Al-Qamar foi revelado, fiquei admirado, pensando: que grupo seria esse que seria derrotado? Mas, quando os incrédulos foram derrotados e fugiam na Batalha de Badr, vi o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) avançando à frente, vestido com sua armadura de guerra, enquanto estas palavras saíam de seus lábios abençoados:

(Árabe*****************************************na página 423 do PDF)

“Então compreendi que esta era a derrota cuja notícia havia sido anunciada antes.”–(Ibn Jarir e Ibn Abi Hatim)

Meca será conquistada

(Árabe*****************************************na página 423 do PDF)

“Nossos exércitos certamente serão vitoriosos.”–(Surata as-Saffat: 173)

Isto é, os incrédulos coraixitas logo veriam com os próprios olhos sua derrota e a vossa vitória. E aconteceu exatamente como havia sido dito. Apenas quatorze ou quinze anos depois da revelação destes versículos, os incrédulos de Meca viram com os próprios olhos o Profeta (que a paz esteja com ele) entrar em Meca com a aparência de um conquistador. Depois de alguns anos, também viram que o Islã não apenas prevaleceu sobre Meca, mas estendeu seu domínio sobre os impérios Romano e Iraniano.

(Árabe*****************************************na página 424 do PDF)

Este lugar é uma referência a Meca. Isto é, justamente no lugar onde essas pessoas (os incrédulos coraixitas) proferem palavras arrogantes, um dia sofrerão a derrota. Será justamente aqui que chegará para eles o momento em que permanecerão cabisbaixos diante do Profeta, a quem hoje consideram inferior e se recusam a aceitar como profeta.

A mensagem do Alcorão certamente se espalhará por toda parte

(Árabe*****************************************na página 424 do PDF)

“Em breve lhes mostrarei os Meus sinais nos horizontes e em suas próprias pessoas. Então ficará claro para eles que este Alcorão é, na verdade, uma grande verdade.” — (Surata Ha-Mim as-Sajdah: 53)

Ou seja, imediatamente eles poderão ver com os próprios olhos que o chamado deste Alcorão se espalhou por toda parte e que eles mesmos se curvaram diante dele. Nesse momento, compreenderão que tudo o que hoje lhes é dito e aquilo que se recusam a aceitar é absolutamente verdadeiro.

Algumas pessoas levantam a questão de que o triunfo de um chamado e a conquista de vastíssimas regiões não constituem prova de sua veracidade. Um chamado falso também se espalha por toda parte, e seus seguidores igualmente conquistam país após país.

Na realidade, essa questão foi levantada considerando-se seu aspecto externo, sem se refletir profundamente sobre o aspecto geral do assunto. A extraordinária vitória alcançada pelo Islã na época do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e dos Califas Bem-Guiados não foi um sinal de Deus simplesmente no sentido de que os muçulmanos conquistaram país após país, mas no sentido de que essa vitória não foi como as demais. Nas outras conquistas, ocorre que, depois de vencer, uma pessoa, uma família ou uma nação se torna dona da vida e dos bens dos vencidos, e a terra de Deus se enche de opressão e tirania. Em contrapartida, a vitória do Islã trouxe consigo uma grande revolução religiosa, moral, espiritual, política, econômica e civilizacional. Onde quer que chegasse a influência dessa revolução, as melhores qualidades humanas floresciam e as más qualidades eram reprimidas. As qualidades que o mundo desejava ver nos dervixes que renunciaram à vida mundana e naqueles que, em silêncio, se dedicavam à recordação de Deus, e que jamais imaginara poder encontrar também entre os administradores dos assuntos mundanos, puderam ser vistas, graças a essa revolução, na política dos governantes, na justiça dos tribunais, nas guerras e vitórias dos comandantes militares, entre os cobradores de impostos e entre os proprietários de grandes empresas comerciais. Essa revolução elevou tanto o caráter, a eficiência e a pureza das pessoas comuns na sociedade que estabeleceu, que até as personalidades renomadas de outras sociedades pareciam inferiores. O Islã libertou as pessoas das correntes da crença cega e da superstição, conduzindo-as à estrada principal da investigação intelectual, do pensamento racional e da ação consciente. O Islã providenciou um tratamento adequado para as enfermidades sociais cuja cura os demais sistemas sociais sequer cogitavam, ou nas quais, mesmo pensando em tratá-las, não conseguiram obter êxito. Por exemplo: a divisão entre as pessoas com base na casta, na linhagem, na pátria, na língua e em outros fatores; a divisão em classes dentro da mesma sociedade e as diferenças de superioridade e inferioridade entre elas; o sistema de intocabilidade; a falta de igualdade nos direitos legais e nas relações sociais práticas; a vida humilhante das mulheres e sua privação dos direitos fundamentais; a abundância de crimes; o uso generalizado do álcool e de outras drogas; a ausência de limites à crítica do governo; a privação do povo de seus direitos fundamentais; a violação de tratados no âmbito internacional; o comportamento demoníaco na guerra; e diversas enfermidades semelhantes. Diante dos próprios olhos, essa revolução transformou a anarquia na Península Arábica em temor a Deus e pureza; a injustiça e a opressão em justiça; a impureza e a incivilidade em pureza e civilização; a ignorância em conhecimento; e os conflitos e disputas herdados de geração em geração em fraternidade, afeição e amor. Além disso, ao povo de uma nação que não conseguia imaginar nada além da liderança de sua própria tribo foi concedida a liderança do mundo. Esses foram os sinais que os descendentes daqueles a quem o Profeta (que a paz esteja com ele) havia recitado inicialmente este versículo, dirigindo-se a eles, puderam ver com os próprios olhos. Desde então até hoje, Deus Todo-Poderoso continua mostrando esses sinais. Mesmo na época de seu declínio, os muçulmanos demonstraram uma nobreza de caráter à qual nem de longe chegaram aqueles que se orgulham de ser os portadores da civilização e da cortesia. O tratamento opressivo que as nações europeias infligiram aos povos conquistados da África, da América, da Ásia e da própria Europa não encontra paralelo em nenhuma época da história dos muçulmanos. Foi somente uma bênção do Sagrado Alcorão que criou nos muçulmanos um grau tão elevado de humanidade que, mesmo depois de se tornarem vitoriosos, não se mostraram — e ainda não se mostram — tão opressores. Quem tiver olhos, que veja: os muçulmanos governaram a Espanha por várias centenas de anos; que tipo de tratamento deram aos cristãos durante esse período? Depois, quando os cristãos conquistaram o poder ali, como trataram os muçulmanos? Embora tenham governado a Índia por mais de oitocentos anos, que tipo de tratamento os muçulmanos deram aos hindus? E agora, depois que os hindus chegaram ao poder ali, como estão tratando os muçulmanos? Qual foi o tratamento dos muçulmanos para com os judeus durante os últimos mil e trezentos anos? E agora, na Palestina, como eles estão tratando os muçulmanos?

A elevada posição do Santo Profeta

(Árabe*****************************************na página 426 do PDF)

“(Ó Profeta!) Saiba com certeza que Aquele que tornou este Alcorão obrigatório para você certamente o conduzirá ao melhor destino.” — (Surata al-Qasas: 85)

As palavras exatas são (Árabe*********)ele o fará retornar a um ‘maʿād’. Maʿād (Árabe******)significa literalmente um lugar para o qual as pessoas devem retornar por fim. Como este termo foi usado no indefinido, seu sentido natural é que se trata de um lugar de grande dignidade. Alguns exegetas interpretaram-no como o Paraíso. Contudo, não há nenhuma razão válida para especificá-lo como sendo o Paraíso. O próprio Deus o empregou em sentido geral; assim, deve-se deixá-lo dessa forma, para que a promessa relativa a esse lugar possa aplicar-se tanto a este mundo quanto à Outra Vida. O contexto anterior do tema também exige que ele seja entendido não apenas como uma promessa de conceder ao Profeta Mustafa (S.A.) uma grande dignidade na Outra Vida, mas também neste mundo. Na discussão contínua, desde o versículo 57 até aqui, acerca das palavras dos incrédulos de Meca, eles haviam dito: ‘Ó Muhammad (S.A.), queres fazer-nos afundar contigo. Se te apoiarmos e aceitarmos tua religião, nossa sobrevivência na Península Arábica se tornará difícil’. Em resposta, Deus diz a Seu Profeta: ‘Ó Profeta! O Deus que te confiou a responsabilidade de ser o porta-bandeira deste Alcorão não te destruirá. Ao contrário, Ele te revestirá de uma dignidade que essas pessoas sequer conseguem imaginar.’

Na realidade, poucos anos depois, Deus mostrou diante dos olhos deles, neste mesmo mundo, ao conceder ao Profeta (S.A.) o domínio absoluto sobre toda a Península Arábica, que nenhuma força capaz de resistir a ele poderia sobreviver e que ali não restaria lugar para nenhuma religião além da religião por ele estabelecida. Em toda a Península Arábica foi estabelecido o reinado absoluto de um homem que não tinha rival; e as pessoas não apenas aceitaram seu domínio político, mas ele também pôs fim a todas as religiões e tornou toda a nação seguidora de sua religião. Na história da Arábia, jamais houvera antes um exemplo semelhante.

O Maqām Maḥmūd para o Profeta Muhammad (S.A.)

(Árabe*****************************************(na página 426 do PDF)

“Em breve, teu Senhor te estabelecerá no ‘Maqām Maḥmūd’”.

Isto é, Ele te revestirá, neste mundo e na Outra Vida, de uma dignidade na qual serás louvado por toda a criação. De todas as direções serão dirigidos a ti louvor e respeito, e tua pessoa se tornará uma pessoa digna de louvor. Hoje, teus opositores prepararam tua recepção com insultos e censuras e criaram uma tempestade de falsas acusações para difamar-te por todo o país. Mas não está distante o tempo em que o eco dos louvores a ti será ouvido no mundo, e na Outra Vida serás louvado por toda a criação. A dignidade alcançada pelo Profeta Mustafa (S.A.) como intercessor no Dia do Juízo é uma parte de sua maḥmūdiyya (ser louvado).

A boa-nova da vitória para o derrotado Império Romano

A profecia feita nos versículos iniciais da Surata Ar-Rum é uma das provas mais claras de que o Alcorão é a Palavra de Deus e de que Muhammad Mustafa (S.A.) é o verdadeiro Profeta de Deus. Para compreender isso, é especialmente necessário observar os acontecimentos históricos daquela época relacionados aos versículos desta surata.

Oito anos antes da missão profética do Profeta Mustafa (que a paz esteja com ele), ocorreu uma rebelião contra o imperador romano Maurício (Marice), e um homem chamado Focas (Phicas) ascendeu ao trono. Esse homem matou cinco filhos do imperador diante dos olhos dele. Em seguida, matou o pai e pendurou publicamente em Constantinopla as cabeças decepadas do pai e dos filhos. Poucos dias depois, sua esposa e suas três filhas também foram assassinadas. Depois desse acontecimento, o imperador iraniano Cosroes Parvez encontrou um pretexto moral para invadir o Império Romano. Maurício era seu benfeitor, e foi com sua ajuda e apoio que Parvez conquistou o trono do Irã. Parvez considerava-o como um pai. Por isso, declarou que vingaria o tratamento diabólico que o invasor Focas havia infligido a Maurício, que lhe era como um pai, e à sua família. Em 603 d.C., declarou guerra ao Império Romano e, desse modo, chegou, de um lado, até Edessa, na Ásia Menor (a atual Urfa), e, de outro, até Alepo e Antioquia, na Síria. Quando os governantes romanos perceberam que Focas não conseguia defender o país, pediram ajuda ao governador da África. Este enviou seu filho Heráclio (Heraclius) a Constantinopla à frente de um poderoso exército. Assim que chegou, ele destronou Focas. Heráclio foi então nomeado César, ou governante, de Roma. Depois de assumir o poder, tratou Focas exatamente como Focas havia tratado Maurício. Isso ocorreu em 610 d.C., precisamente no mesmo ano em que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) foi agraciado com a dignidade da missão profética.

O pretexto moral com que Cosroes Parvez havia declarado guerra deixou de existir após a deposição e o assassinato de Focas. Se o objetivo de sua guerra era apenas vingar-se da tirania e da opressão de Focas, então, depois da morte deste, ele deveria ter feito a paz com o recém-nomeado César, Heráclio. Mas continuou a guerra. As comunidades cristãs — nestorianos, jacobitas e outras — que a Igreja oficial vinha acusando de ateísmo e perseguindo havia anos passaram a simpatizar com os invasores magos, e os judeus também se aliaram aos magos. Tanto que o número de judeus que se juntaram ao exército de Cosroes Parvez chegou a vinte e seis mil.

Heráclio não conseguiu deter essa inundação. Assim que ascendeu ao trono, recebeu a notícia de que Antioquia havia caído nas mãos dos iranianos. Depois, em 613 d.C., os iranianos conquistaram Damasco. No ano seguinte, conquistaram Jerusalém e começaram a devastar os cristãos. Noventa mil cristãos foram mortos nessa cidade. A Igreja do Santo Sepulcro, sua igreja mais sagrada, foi destruída. A verdadeira cruz, ou madeiro da crucifixão, sobre a qual os cristãos acreditavam que Jesus Cristo havia dado a vida, foi tomada pelos magos iranianos e enviada a Ctesifonte. O patriarca em exercício, Zacarias, foi sequestrado, e todas as grandes igrejas da cidade foram destruídas. Um documento que Cosroes Parvez enviou de Jerusalém a Heráclio dá testemunho de quanto essa vitória o havia embriagado de orgulho. Nele, dizia:

“Da parte de Cosroes, o maior dos deuses e senhor de todo o mundo, para esse servo vil e insensato, Heráclio: dizes que confias no teu deus. Então por que o teu deus não protegeu Jerusalém das minhas mãos?

No espaço de um ano após essa vitória, o exército iraniano estendeu seu domínio por toda a região da Jordânia, da Palestina e do vale do Sinai, chegando até a fronteira do Egito. Era uma época em que outra luta, ainda mais importante, ocorria em Meca. Ali, os defensores do monoteísmo, sob a liderança do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), e os politeístas, sob a autoridade dos chefes coraixitas, combatiam uns contra os outros. A situação chegou a tal ponto que, em 615 d.C., um grande grupo de muçulmanos foi obrigado a abandonar suas casas e buscar refúgio num reino cristão da Abissínia. A Abissínia era um Estado aliado de Roma. Naquele tempo, a vitória dos iranianos sobre Roma era o assunto que se ouvia na boca de todos. Em Meca, os politeístas dançavam de alegria e diziam aos muçulmanos: “Vejam: os adoradores do fogo do Irã estão vencendo, enquanto os que creem na revelação e na missão profética sofrem derrota após derrota. Do mesmo modo, nós, os idólatras árabes, extinguiremos a vossa religião.”

Foi nesse contexto que esta surata do Sagrado Alcorão foi revelada. Nela se anuncia a profecia de que os romanos haviam sido derrotados na terra mais próxima, mas que, dentro de alguns anos após sua derrota, seriam vitoriosos. Isso aconteceria num dia em que os muçulmanos se alegrariam com a vitória concedida por Deus.

Essas palavras continham duas profecias: primeiro, os romanos obteriam a vitória; segundo, os muçulmanos também seriam vitoriosos naquele mesmo período. Aparentemente, nem no horizonte mais distante havia qualquer sinal de que uma dessas duas profecias se cumpriria dentro de alguns anos. De um lado, havia um pequeno grupo de muçulmanos que sofria opressão e perseguição em Meca, e, até oito anos depois dessa profecia, não havia qualquer possibilidade visível de que obtivessem a vitória. De outro lado, a derrota dos romanos aumentava dia após dia. Até 619 d.C., todo o Egito havia caído nas mãos dos iranianos, e os exércitos magos haviam levado suas bandeiras até a fronteira de Tarabulus (Trípoli). Os exércitos iranianos atacaram os romanos até a Ásia Menor, e o que restava de seu exército chegou às margens do Bósforo. Em 617 d.C., ocuparam Calcedônia (Chalecdon), a atual Kadıköy, situada diante de Constantinopla. O César de Roma enviou um embaixador a Cosroes do Irã e informou humildemente que estava disposto a fazer a paz a qualquer preço. Mas Cosroes respondeu: “De modo algum permitirei que o César viva em paz enquanto ele não vier acorrentado à minha presença e abandonar o deus crucificado para aceitar a adoração do deus do fogo.” Por fim, Cosroes ficou tão convencido da derrota que decidiu abandonar Constantinopla e transferir-se para Cartago (a atual Túnis). Nas palavras do historiador Gibbon, durante sete ou oito anos após essa profecia do Sagrado Alcorão prevaleceu uma situação em que ninguém poderia sequer imaginar que os romanos venceriam o Irã. Muito menos se poderia esperar uma vitória: até então, ninguém esperava que esse reino sobrevivesse. — [Gibbon, Decline & Fall of the Roman Empire, vol. 2, p. 788. Modern Library, Nova York.]

Quando esses versículos do Alcorão foram revelados, os incrédulos de Meca começaram a zombar e escarnecer muito deles. Ubayy ibn Khalaf fez uma aposta com Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) e disse: “Se os romanos vencerem dentro de três anos, darei dez camelos; caso contrário, tu terás de me dar dez camelos. Quando a notícia dessa aposta chegou ao Profeta (que a paz esteja com ele), ele disse: “No Alcorão,(Árabe********************)foram usadas as palavras, e, na língua árabe, o prazo delas vai até dez. Portanto, estabelece como condição um período de dez anos e aumenta para cem o número de camelos.”

Depois, Hazrat Abu Bakr encontrou-se novamente com Ubai, e foi estabelecida uma nova condição: aquele cuja afirmação fosse provada falsa dentro de dez anos deveria dar cem camelos ao outro.

Em 622 d.C., o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) emigrou e foi para Medina. Enquanto isso, o césar Heráclio partiu secretamente de Constantinopla, pelo caminho do Mar Negro, em direção a Trebizonda, e preparou-se para atacar os iranianos pela retaguarda. Para preparar esse contra-ataque, o césar pediu auxílio financeiro à Igreja, e Sérgio (Serjius), o mais alto dignitário religioso da Igreja cristã, emprestou a juros as riquezas acumuladas na Igreja como oferendas, com o objetivo de proteger o cristianismo do masdeísmo. Em 623 d.C., Heráclio iniciou seu ataque a partir da Armênia e, no ano seguinte, em 624 d.C., entrou no Azerbaijão, destruiu Úrmia, local de nascimento de Zoroastro, e arrasou os templos iranianos de adoração do fogo. A manifestação do poder de Deus foi tal que, nesse mesmo ano, os muçulmanos obtiveram pela primeira vez uma vitória decisiva sobre os incrédulos no campo de Badr. Assim, as duas profecias mencionadas na Surata Ar-Rum cumpriram-se simultaneamente antes de transcorridos dez anos.

Depois disso, as tropas romanas continuaram a derrotar os iranianos. Na batalha decisiva de Ninive (627 d.C.), quebraram a espinha dorsal do Império Iraniano. Em seguida, a residência dos reis iranianos, Dastagird (Dastarat al-Mulk), foi destruída, e os romanos avançaram até chegar diante de Ctesifonte (Ctesiphin), que naquela época era a capital do Irã. Em 628 d.C., começou uma revolta familiar contra Cosroes Parvez, que foi capturado. Diante de seus próprios olhos, dezoito de seus filhos foram mortos. Pouco tempo depois, ele morreu na prisão. Nesse mesmo ano, foi assinado o tratado de Hudaybiyyah, que o Alcorão chamou de “a grande vitória”. Também nesse ano, o filho de Cosroes Parvez, Cosroes II, libertou da ocupação iraniana todos os territórios romanos conquistados e, ao devolver a Santa Cruz, firmou um tratado de paz com os romanos. Em 629 d.C., o próprio césar foi a Bayt al-Maqdis para recolocar a “Santa Cruz” em seu lugar. Nesse mesmo ano, o Puro Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou pela primeira vez em Meca após a Hégira, para realizar a Umrah compensatória.

Depois disso, não restou na mente de ninguém a menor dúvida de que a profecia do Alcorão era verdadeira em todos os seus detalhes. Muitos politeístas da Arábia abraçaram a fé nela. Depois de vencerem a aposta contra os herdeiros de Ubayy ibn Khalaf, estes tiveram de entregar cem camelos a Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), para cumprir a condição da aposta. Abu Bakr levou esses camelos ao Profeta, que ordenou que fossem dados em caridade. A condição havia sido estabelecida numa época em que os jogos de azar ainda não tinham sido proibidos pela Sharia. Depois, veio a ordem de sua proibição. Por isso, embora fosse permitido aceitar os bens dos incrédulos combatentes, foi ordenado que não fossem usados pessoalmente, mas dados em caridade.

(Árabe*****************************************na página 430 do PDF)

“E naquele dia os muçulmanos se alegrarão exultantes pela vitória concedida por Allah.” — (Surata Ar-Rum: 4)

Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele), Sufyan al-Thawri, Suddi e outros sábios disseram que a vitória dos romanos sobre os iranianos e a vitória dos muçulmanos sobre os politeístas em Badr ocorreram no mesmo ano. Por isso, a alegria dos muçulmanos foi duplicada. Isso também é comprovado pelas histórias do Irã e de Roma. A batalha de Badr ocorreu em 624 d.C.; nesse mesmo ano, o césar de Roma destruiu o local de nascimento de Zoroastro e arrasou o maior templo de adoração do fogo do Irã.

Preservação do cadáver do Faraó

[Esta é uma grande profecia do Alcorão, que constitui uma prova clara da missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele) e da veracidade do Alcorão. Quando esta profecia do Alcorão foi ouvida, ainda não se conhecia a situação dos túmulos e dos cadáveres dos faraós do Egito. A entrada nas salas das múmias e a abertura dos túmulos e sarcófagos dos faraós ocorreram recentemente. Antes de 1907, ninguém sabia se o corpo do faraó contemporâneo de Moisés (que a paz esteja com ele) havia sido preservado ou não após ele ter morrido afogado. As informações recentemente descobertas sobre um acontecimento de mais de três mil anos atrás apresentaram aos que negam o Alcorão a prova de que ele foi revelado por Allah.]

(Árabe*****************************************na página 430 do PDF)

“Hoje, preservaremos apenas o teu corpo, para que ele permaneça como um sinal instrutivo para as gerações posteriores.” — (Surata Yunus: 92).

Na margem ocidental do vale do Sinai ainda existe o lugar onde o corpo do faraó foi encontrado flutuando. Atualmente, esse lugar é chamado Jabal Faraão. Próximo a ele há uma fonte termal. Os habitantes locais chamam-na de Hammam do Faraão. Fica alguns quilômetros ao norte e acima de Abu Zainama. Como o corpo do faraó teria caído ali, os habitantes locais demarcaram o lugar.

Se o faraó que morreu afogado for a mesma pessoa que, em consequência de exames e investigações recentes, foi identificada como contemporânea de Moisés (que a paz esteja com ele), então seu corpo poderá ser visto atualmente no museu do Cairo. Em 1907, quando Sir Grafton Eliot Smith removeu o revestimento de sua múmia, foi encontrado sal solidificado sobre o corpo, o que constitui um sinal claro de que ele havia sido submerso na água salgada do mar.

(Árabe************************)isto é: “Continuaremos certamente a mostrar sinais instrutivos, embora a situação da maioria das pessoas seja tal que, mesmo vendo grandes sinais instrutivos, não extraem deles uma lição”.

O ataque mundial de Iajuj e Majuj

Por Iajuj entendem-se aquelas tribos da região de Roma e do norte da China que são conhecidas por nomes como tártaros, mongóis, hunos e citas. Desde a Antiguidade, elas lançavam ataques contra os países civilizados. Além disso, sabe-se que, para se proteger de seus ataques, foram construídas as muralhas de Derbente e de Darial, na região meridional do Cáucaso. Isso porque o ímpeto de seus ataques podia fluir, a qualquer momento, tanto para a Ásia quanto para a Europa. Na Bíblia (Gênesis, capítulo 10), eles são considerados descendentes de Jafé, filho de Noé. Os historiadores muçulmanos também disseram o mesmo. No livro de Ezequiel (capítulos 38 e 39), são descritos como habitantes das regiões de Rôs, Tubal (atual Tobolsk) e Meseque (atual Moscou). O historiador israelita Josefo considerou-os pertencentes ao povo cita, cujo habitat se localizava ao norte e a leste do mar Negro. Segundo a descrição de Jerônimo, Majuj estabeleceu-se ao norte do Cáucaso, próximo ao mar Cáspio.

O significado de libertá-los é que eles começarão a atacar os habitantes da Terra como se um animal feroz tivesse sido subitamente solto de uma jaula fechada. A expressão “aproximou-se o momento do cumprimento da verdadeira promessa” indica claramente que esse ataque e essa devastação mundial de Gog e Magog ocorrerão no fim dos tempos e, logo depois, acontecerá o Juízo Final. A seguinte profecia do Profeta (que a paz esteja com ele), transmitida pelo Imam Muslim sob a autoridade de Hudhayfa ibn Asid al-Ghifari, reforça ainda mais esse significado. Ela diz: “O Juízo Final não acontecerá até que vejais, antes dele, dez sinais: a fumaça, o Dajjal, a Besta da Terra, o nascer do sol no ocidente, a descida de Jesus, filho de Maria, o ataque e a devastação de Gog e Magog, três grandes desmoronamentos de terra (landslides — um no Oriente, o segundo no Ocidente e o terceiro na Arábia) e, por fim, um fogo terrível que surgirá do Iêmen e conduzirá as pessoas em direção ao campo da reunião (isto é, o Juízo Final acontecerá).” Em outro hadith, referindo-se ao ataque de Gog e Magog, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse que, assim como se aproxima o momento do parto de uma mulher plenamente grávida, sem que ela saiba em que instante, de dia ou de noite, dará à luz, naquele momento o Juízo Final estará igualmente muito próximo.

(Árabe*****************************************na página 432 do PDF)

Entretanto, não se pode afirmar claramente, com base no Alcorão e nos hadiths, se Gog e Magog, unindo-se, começarão juntos seus ataques e sua devastação no mundo. Também é possível que, na proximidade do Juízo Final, continuem atacando uns aos outros e que sua guerra assuma a forma de uma catástrofe mundial.

Humilhação e censura dos judeus

(Árabe******************) Sobre isso, creio que continuará até os momentos imediatamente anteriores ao Juízo Final. Isso não é afetado pelo estabelecimento do atual Estado dos israelenses na Palestina. Em primeiro lugar, este versículo se aplica coletivamente à nação judaica. O sentido do versículo não se aplica a cada indivíduo nem a pequenos grupos de indivíduos. Em segundo lugar, trata-se de uma descrição da condição em que eles viverão como nação, desde o anúncio da decisão de Allah, o Altíssimo, até o Juízo Final. Isso não significa que, durante esse longo período, eles não possam, em algum lugar do mundo e mesmo por um breve tempo, deter o poder de governo. Na verdade, para compreender o sentido deste versículo, é preciso conhecer bem a história da nação judaica que se desenrola desde Jesus (que a paz esteja com ele) até os dias atuais. Observando atentamente essa história e a condição atual deles no mundo como um todo, comprova-se a veracidade das seguintes palavras do Sagrado Alcorão:

(Árabe*****************************************na página 432 do PDF)

“E quando teu Senhor declarou que, até o Dia do Juízo, enviaria contra eles alguém que lhes infligiria um castigo severo.” — (Surata Al-A’raf: 167).

(Árabe*****************************************na página 432 do PDF)

“A humilhação foi imposta sobre eles, e onde quer que sejam encontrados, carregarão o peso dessa humilhação. No entanto, se em algum lugar obtiverem a garantia de proteção da parte de Allah e dos seres humanos, será outra coisa.” — (Surata Al Imran: 112).

Toda a sua história demonstra que, de tempos em tempos, surgiu em alguma parte do mundo uma força que massacrou cruelmente os judeus e os expulsou. E, se em algum lugar eles permaneceram em segurança, isso não ocorreu por causa de seu próprio poder; antes, estabeleceram-se e continuam existindo com a ajuda e a cooperação de algum grupo humano, com base nas oportunidades e facilidades concedidas por Allah. No dia em que essa cooperação cessar, o mundo verá o que acontecerá a Israel. Na minha opinião, Allah Todo-Poderoso não quer exterminar esse povo; ao contrário, quer mantê-lo vivo como um exemplo instrutivo. Se a perseguição e a opressão contra esse povo tivessem continuado incessantemente, ele teria desaparecido da face da Terra há muito tempo. Pela Sua própria sabedoria, Allah Todo-Poderoso estabeleceu este meio de preservar esse povo: em um lugar são espancados, enquanto em outro encontram refúgio. Assim, durante os últimos dois mil e quinhentos anos, eles têm sobrevivido na Terra, nem vivos nem mortos(Árabe********************)— e, nesse estado, continuam existindo no mundo.

 

Profecias do Hadith

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A era da segurança completa

Hadrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Certo dia, o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava sentado à sombra da Caaba. Fui até ele e disse: Ó Mensageiro de Allah! A opressão e a tirania não têm fim. O senhor não está suplicando a Allah?

Ao ouvir isso, seu rosto ficou vermelho, e ele disse: Os crentes que viveram antes de vós sofreram uma opressão muito maior do que esta. Sua carne era dilacerada com pentes de ferro, e serras eram colocadas sobre suas cabeças para cortá-las; ainda assim, eles não se afastaram da verdadeira religião. Sabei com certeza que Allah completará esta obra. Por fim, chegará um tempo em que uma pessoa viajará sem medo de Sana’a até Hadramaut, e não terá medo de ninguém além de Allah; mas vós estais sendo demasiadamente apressados. — (Bukhari)

A condição para conquistar os árabes e os não árabes

Abu Talib chamou o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Sobrinho! Veja, os membros do seu povo vieram até mim. Eles desejam que você concorde com eles em uma palavra justa. Assim, a disputa e o conflito entre você e eles chegarão ao fim.” Então, Abu Talib apresentou ao Profeta a proposta dos líderes coraixitas. Em resposta, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Tio! Estou lhes apresentando uma mensagem que, se aceitarem, fará com que toda a Arábia se submeta a eles, e os demais países continuarão pagando tributo.”

Estas palavras do Profeta foram narradas de diferentes maneiras por vários transmissores. Uma das versões é a seguinte:

(Árabe*****************************na página 434 do PDF)

Em outra versão:

(Árabe*****************************na página 434 do PDF)

Outra versão

Numa outra versão, vê-se que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em vez de se dirigir a Abu Talib, dirige-se aos coraixitas e diz:

(Árabe*****************************na página 434 do PDF)

Em outro lugar:

(Árabe*****************************na página 434 do PDF)

Apesar dessas diferenças de redação, o sentido de todas as narrações é o mesmo. Em outras palavras, o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhes disse: “Estou apresentando diante de vocês uma mensagem que, se aceitarem, fará de vocês os senhores dos árabes e dos persas. Diga-me agora: aquilo que vocês chamam de palavra justa é melhor, ou a minha proposta é melhor? O bem de vocês está em aceitar esta palavra, ou em que eu os deixe na situação em que se encontram e continue adorando o meu próprio Senhor?”

O poder político e governamental dos coraixitas

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia profetizado que, enquanto os coraixitas mantivessem elevado o seu caráter e continuassem coletivamente a carregar o estandarte da religião, e enquanto houvesse entre eles ao menos dois empenhados na luta pela verdade, o poder governamental permaneceria em suas mãos.

Essa concepção do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era tão verdadeira que, durante vários séculos depois dele, a história continuou apresentando provas de sua veracidade. A excelência da tribo dos coraixitas foi tão duradoura que, na época do Califado Bem-Guiado, ela forneceu os quatro califas; e é sabido que, naquele tempo, não havia em toda a terra árabe nenhuma personalidade que pudesse substituí-los. Depois, foi essa mesma tribo que estabeleceu o célebre governo omíada. Foi também essa tribo que fundou o governo abássida. O estabelecimento de um vasto sistema de governo na Espanha e o governo fatímida no Egito foram igualmente contribuições dessa tribo.

A jihad continuará

A jihad continuará entre a minha comunidade até o Dia do Juízo. Nem a justiça de um juiz justo nem a opressão de um tirano poderão detê-la. Foi essa força vital que sempre infundiu impulso nos movimentos de renovação islâmica. Foi essa mesma força vital que impediu os virtuosos (salihin) de se submeterem diante do terrível quadro do ambiente.

A decadência dos muçulmanos será como a dos judeus e cristãos

Entre as profecias do Santo Profeta (que a paz esteja com ele) narradas nos hadiths está a de que, por fim, os muçulmanos continuarão a seguir os passos dos judeus e dos cristãos. Tudo o que eles fizerem, os muçulmanos também farão. Até mesmo se algum deles cometer adultério com a própria mãe, surgirão entre os muçulmanos pessoas que cometerão esse crime. –[O autor narra, por outra fonte, a declaração do Santo Profeta (que a paz esteja com ele) da seguinte forma: O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Vós também adotareis os costumes e os comportamentos das comunidades anteriores. Até mesmo se eles entrarem no buraco de um lagarto, vós também fareis o mesmo.” Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Deus! Referis-vos aos judeus e aos cristãos?” O Profeta respondeu: “Sim.” Isso não era apenas uma advertência do Profeta; graças à percepção sutil concedida por Deus, o Santo Profeta sabia por quais caminhos a decadência surgiria na comunidade do Profeta e como ela se manifestaria.]

Esboço da história futura da comunidade

Embora essas profecias possam ser encontradas em grande quantidade nas coletâneas de hadiths como Muslim, Tirmidhi, Ibn Majah e Mustadrak, seria inútil citar aqui as narrações registradas pelo Imam Shatibi em Muwafaqat e pelo Maulana Ismail Shahid (que Deus tenha misericórdia dele) em Mansab-e-Imamat:

(Árabe*****************************na página 436 do PDF)

“O início da vossa religião será a profecia e a misericórdia. Deus a manterá intacta pelo tempo que quiser. Depois, Ele lhe dará fim, e continuará o califado segundo o método da profecia —[o Profeta (que a paz esteja com ele) havia profetizado: ‘Depois de mim, o califado durará trinta anos, e depois se estabelecerá a monarquia.’ O período do califado terminou em Rabi al-Awwal do ano 41 da Hégira, quando o senhor Hasan (que Deus esteja satisfeito com ele) renunciou ao califado em favor de Muawiya (que Deus esteja satisfeito com ele). –(O autor)] —pelo tempo que Ele quiser. Depois, continuará uma monarquia do pior tipo, pelo tempo que Deus quiser. Pela vontade de Deus, isso também chegará ao fim. Depois, será estabelecido o governo de governantes tirânicos. Ele continuará pelo tempo que Deus quiser. Então, Deus Todo-Poderoso lhe dará fim.”

(Árabe*****************************na página 436 do PDF)

“Depois, haverá o califado segundo o método da profecia — que governará entre as pessoas de acordo com a Sunna do Profeta, e o Islã será estabelecido na Terra. Sob esse sistema de governo, tanto os habitantes dos céus quanto os habitantes da Terra ficarão satisfeitos. O céu continuará a derramar abundantemente suas bênçãos, e a Terra lançará para fora tudo o que estiver em seu interior.”

Não posso dizer qual é o grau de autenticidade dessas narrações do ponto de vista da cadeia de transmissão. Contudo, considerando o significado, elas são coerentes com as demais narrações desse tipo. Nelas há uma indicação de cinco fases da história. Três já passaram e a quarta está em curso. Quanto à quinta fase, cuja chegada foi profetizada, todos os sinais que se veem indicam que a história humana está avançando rapidamente nessa direção. Todos os tipos de sistemas criados pelo homem foram postos à prova. Eles fracassaram de maneira desoladora. Não resta aos seres humanos outra alternativa senão retornar desesperadamente ao Islã.

A decadência moral dos amires, dos emires e dos governantes

(Árabe*****************************na página 436 do PDF)

“Depois de mim, algumas pessoas terão autoridade governamental. Quem colaborar com suas mentiras e os ajudar em sua opressão não é dos meus, nem eu sou dos seus. — (An-Nasa’i).

(Árabe*****************************na página 437 do PDF)

“Em breve, governarão sobre vós pessoas em cujas mãos estarão as chaves do vosso sustento. Quando falarem convosco, mentirão, e, quando agirem, praticarão o mal. Não ficarão satisfeitos convosco se não elogiardes seus atos maus e declarardes que suas mentiras são verdadeiras. Enquanto tolerarem isso, apresentai-lhes a verdade. Se ultrapassarem os limites e alguém for morto, será um mártir.” — (Kanzul Ummal)

A continuidade do reavivamento da religião

(Árabe*************) (aqueles que reavivarão para eles a sua religião) — explicação deste hadith.

Este é um assunto cuja boa-nova foi anunciada pelo Santo Profeta, o veraz mensageiro (que a paz esteja com ele), e que foi narrado em Abu Dawud através de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele).

(Árabe*****************************na página 437 do PDF)”

“Allah fará surgir, no início de cada século, pessoas que renovarão para eles a sua religião.”

Contudo, algumas pessoas formaram uma concepção completamente equivocada de ‘tajdid’ e ‘mujaddid’. Elas (Árabe********) entenderam isso como o início ou o fim de um século. E (Árabe****************) interpretaram o seu sentido como significando que se trataria necessariamente de uma única pessoa. Com base nisso, também se dedicaram à obra de tajdid da religião. Entretanto, (Árabe*********) o sentido literal é “cabeça”, e o sentido evidente do surgimento de uma pessoa no início de um século é que ela exercerá uma influência especial sobre o conhecimento e a ciência, as ideias e o curso das atividades de sua época. (Árabe********) A palavra é usada na língua árabe tanto no singular quanto no plural. Portanto, (Árabe*******) pode significar tanto uma pessoa quanto várias pessoas. Também pode significar uma instituição inteira ou um grupo. O sentido claro da boa-nova anunciada pelo Santo Profeta (que a paz esteja com ele) é que, se Allah quiser, em nenhum século da história islâmica faltarão pessoas que se levantarão contra as tempestades da ignorância e continuarão lutando para restabelecer o Islã em sua verdadeira forma. Não é necessário que o mujaddid de um século seja uma única pessoa. Dentro do mesmo século, várias pessoas e grupos podem prestar esse serviço. Também não é necessário que haja um único mujaddid para o mundo inteiro. Ao mesmo tempo, muitas pessoas podem trabalhar em vários países pela renovação da religião. Tampouco é certo que todo aquele que prestar algum serviço nesse âmbito receba o título de mujaddid. O título e a posição de mujaddid podem ser concedidos somente àqueles que tiverem conseguido dar uma contribuição grandiosa e notável para a renovação da religião, ou seja, para o renascimento e o restabelecimento da religião.

Manifestações da divisão entre os muçulmanos

Há um hadith que diz: “Em breve, minha umma se dividirá em setenta e dois grupos. Somente um deles alcançará a salvação na Vida Futura. Eles serão aqueles que seguirão os meus companheiros.”

Nos hadiths, é mencionada a criação de várias fitnas entre os muçulmanos. O objetivo de tudo isso é advertir-nos para que permaneçamos afastados dessas fitnas.

Profecia sobre o surgimento do Mahdi

Quanto às tradições relativas ao surgimento do Mahdi, os verificadores de hadith foram tão rigorosos nesse assunto que um grupo deles sequer reconhece que o Imam Mahdi surgirá. Pela verificação e análise de Asma al-Rijal (a cadeia de transmissores de hadith), sabe-se que a maioria dos narradores dessas tradições pertencia à comunidade xiita. A leitura da história também revela que cada grupo utilizou essas tradições por interesses políticos e religiosos e tentou atribuir a algum de seus próprios indivíduos os sinais descritos acerca do Mahdi.

Elementos verdadeiros e inventados entre as tradições

Pelas razões acima, cheguei à conclusão de que as tradições relativas ao surgimento do Mahdi são verdadeiras. Contudo, a maior parte do que foi dito nas descrições detalhadas é provavelmente inventada. Pessoas interesseiras acrescentaram tais elementos à verdadeira declaração do Profeta. Em diferentes épocas, aqueles que reivindicaram ser o Mahdi prometido — observemos a própria palavra “Mahdi” usada nos hadiths. O Profeta usou a palavra Mahdi, que significa “guiado”. Ele não usou a palavra “Hadi”. Todo chefe, líder ou emir que permanece firme no caminho reto pode ser um Mahdi. “Al-Mahdi” no máximo teria sido usado com uma característica mais específica, com o objetivo de manifestar uma dignidade especialmente característica em alguma pessoa que surgirá no futuro. Essa dignidade foi descrita no hadith da seguinte maneira: depois que o califado estabelecido segundo o método do Profeta for destruído, o mundo será assolado pela opressão e pela injustiça; então a pessoa que surgir estabelecerá novamente o califado segundo o método do Profeta, e o mundo será preenchido de justiça. Essa é a questão essencial pela qual, com o objetivo de designar essa pessoa e atribuir-lhe uma característica especial, antes da palavra “Mahdi”(Árabe*******)foi acrescentado. Seria, porém, errado pensar que, por meio do nome Mahdi, foi criado na religião um cargo especial, cuja aceitação pela fé seria semelhante à fé nos profetas e cuja obediência se tornaria condição para a salvação, o Islã e a fé. Não há nenhuma prova nos hadiths que sustente a ideia de que Mahid será uma entidade infalível. Na realidade, a ideia de que qualquer pessoa além de um profeta seja infalível pertence à comunidade xiita. Não há qualquer prova ou evidência disso no Alcorão e na Sunnah. Nas suas obras literárias, vê-se que aqueles que fizeram falsas reivindicações de ser o Mahdi utilizaram essas tradições como elementos por trás da desordem que criaram.

A forma de expressão das profecias do Profeta

Quanto mais reflito sobre as profecias do Santo Profeta (que a paz esteja com ele), mais percebo que a forma de descrição encontrada nos hadiths sobre o surgimento do Mahdi não correspondia ao modo de expressão do Profeta. Ele certamente descrevia os principais sinais, mas não era seu método descrever os pormenores.

Contradições nas tradições relacionadas

Quando essas tradições são reunidas e comparadas umas com as outras, percebe-se que a maioria contém contradições. Além disso, para aqueles que têm diante de si toda a história dos conflitos entre os Banu Fatima, os Banu Abbas e os Banu Umayya, torna-se difícil aceitar todos os pormenores narrados nos hadiths quando veem claramente que existem diferentes tradições em favor de cada um dos grupos envolvidos nesses conflitos e que, entre os narradores, a maioria estava ligada de uma forma ou de outra a algum desses grupos. Por exemplo, algumas delas mencionam bandeiras negras(Árabe**********)Sabe-se pela leitura da história que a bandeira negra era o símbolo dos Banu Abbas. Além disso, a história também mostra que, mediante a apresentação de hadiths desse tipo, continuaram as tentativas de provar que o califa abássida Mahdi era o Mahdi prometido.

A dignidade do mujaddid perfeito

Ao lançar um olhar sobre a história, sabe-se que, até hoje, nenhum mujaddid perfeito nasceu. Hazrat Umar ibn Abd al-Aziz estava prestes a alcançar essa posição, mas não conseguiu obter êxito. Depois dele, todos os mujaddids que nasceram trabalharam em um campo específico ou em alguns campos. O lugar do mujaddid perfeito ainda está vazio, mas a consciência deseja, a natureza exige e o próprio curso do mundo apresenta essa exigência: que nasça um líder assim. Quer ele nasça nesta época, quer depois de muitas revoluções e transformações do tempo, seu nome será Al-Imam al-Mahdi, sobre cuja vinda foi feita uma profecia clara pela boca sagrada do Santo Profeta (que a paz esteja com ele).

Hoje em dia, por ignorância, as pessoas torcem o nariz ao ouvir esse nome. A acusação delas é que, na expectativa da chegada de algum homem, os ignorantes perderam a disposição para agir. Por isso, sustentam que o ignorante, ao nutrir uma concepção equivocada sobre o assunto, torna-se inativo; na realidade, porém, isso não é fato algum. Além disso, dizem que entre todas as comunidades religiosas se encontra a ideia da chegada de um grande homem do invisível. Portanto, isso não passa de superstição. Mas penso que, se os profetas anteriores, como o Khātam an-Nabiyyīn, também deram a seus povos a boa-nova de que, antes do fim da vida terrena da humanidade, o Islã se tornaria uma vez a religião de todo o mundo, e se isso não for superstição, então, depois de fracassarem todos os ‘ijmās’ criados pelos homens, a humanidade à beira da destruição será obrigada a recorrer à doutrina estabelecida por Deus; e, por intermédio de um grande líder que trabalhará segundo o método dos profetas e implementará plenamente o Islã em sua forma verdadeira, as pessoas receberão essa bênção. Então, por que dizer isso seria superstição? É muito provável que essa ideia tenha se espalhado, a partir da boca dos profetas, entre os demais povos do mundo, e que os ignorantes tenham distorcido seu verdadeiro significado, dando-lhe a forma de superstição.

A concepção corrente sobre o Mahdi

Há alguns adeptos das novidades que sequer reconhecem o advento do Imam al-Mahdi. Entre os muçulmanos, aqueles que reconhecem o advento do Imam al-Mahdi tampouco ficam atrás do primeiro grupo em termos de concepções equivocadas. Eles pensam que o Imam al-Mahdi será, no vestuário e na aparência, como um maulvi e um sufi antiquados. Um dia, surgirá subitamente da cela de uma madrasa ou de uma khanqah, com um tasbih na mão. Imediatamente proclamará: “Eu sou o Mahdi”. Os ulemás, pires e dervixes chegarão com livros e escritos, verificarão sua identidade segundo os sinais e a descrição física mencionados nos livros e o reconhecerão. Depois haverá a bay‘ah e será proclamado o jihad. Os dervixes em chillah e todos os anciãos tradicionalistas se reunirão sob sua bandeira. A espada será usada apenas para cumprir uma exigência formal, mas, na realidade, todo o trabalho será realizado por meio da barakah e da força espiritual. As batalhas continuarão sendo vencidas mediante sopros, encantamentos e wazifas. Todo incrédulo sobre quem recaia o olhar do Imam al-Mahdi morrerá imediatamente, contorcendo-se em agonia. Tanques e aviões bombardeiros ficarão inoperantes apenas por causa de uma maldição.

A concepção do autor sobre o Mahdi

A concepção do povo em geral sobre o advento do Imam al-Mahdi é aquela que foi descrita. Mas o que compreendi é exatamente o oposto. Penso que aquele que virá será o líder de sua época. Terá uma visão perspicaz, fundamentada em pesquisa, sobre todos os conhecimentos e ciências de seu tempo. Compreenderá todos os problemas complexos da vida. Exercerá influência sobre o mundo inteiro no campo do Estado intelectual e ideológico, da sabedoria política e da estratégia militar. Ascenderá ao ápice de todas as novidades de sua época. Temo que os maulvis e os senhores sufis comecem a fazer alarde contra suas inovações. Também não penso que, em sua constituição física, ele será tão diferente das pessoas comuns que possa ser reconhecido apenas ao ser visto. Tampouco penso que se proclamará Mahdi. É provável que nem ele próprio saiba que é o Mahdi prometido. Pode até acontecer que, após sua morte, os habitantes do mundo descubram que ele foi o fundador do califado segundo o método da profecia, aquele cuja vinda havia sido anunciada.

Ser o Mahdi não é algo que se reivindique

Já indiquei anteriormente que, além de um profeta, ninguém possui posição tão elevada a ponto de iniciar uma obra fazendo uma reivindicação. Além de um profeta, ninguém pode sequer saber para que obra foi designado. Ser o Mahdi não é algo que se reivindique, mas algo que se demonstra por meio das próprias ações. Na minha opinião, tanto os que fazem esse tipo de reivindicação quanto os que depositam fé neles dão prova de escassez de conhecimento e baixeza de espírito.

A natureza da missão do Mahdi

A minha concepção sobre a natureza da missão do Mahdi é diferente da concepção desses cavalheiros. Não me parece que kashf, karamat, ilham, chilla, muraqaba, mushahada e coisas semelhantes tenham qualquer lugar nessa missão. Penso que, tal como um líder revolucionário tem de avançar no mundo em meio a uma grande luta e conflito, o Mahdi também terá de fazê-lo. Ele criará, com base no Islã puro, um novo campo ou caminho de pensamento (Escola de Pensamento). Transformará a mentalidade das pessoas. Criará um grande movimento que será, ao mesmo tempo, civilizacional e político. A jahiliyyah tentará eliminá-lo com todas as suas forças, mas, por fim, ele derrubará o sistema de governo jahilí e estabelecerá um poderoso Estado islâmico. Nele, por um lado, a força vital do Islã que será infundida e, por outro, o progresso científico chegarão ao auge. Conforme foi dito no hadith, sob o seu governo tanto os habitantes do céu quanto os habitantes da Terra ficarão satisfeitos. O céu continuará derramando abundantemente as suas bênçãos, e a Terra lançará para fora todos os seus tesouros.

 

A profecia do Profeta sobre a vinda do Messias (a.s.)

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Hadiths relacionados a este assunto

 

(Árabe****************************************na página 441 do PDF)

“Foi narrado por Hazrat Abu Huraira (r.a.) que o Profeta (s.a.w.) disse: Juro por Aquele em cujas mãos está a minha vida: o filho de Maria descerá até vós como um governante justo. Então quebrará a cruz, destruirá os porcos — [quebrar a cruz e destruir os porcos significa que o cristianismo chegará ao fim como religião independente. Toda a estrutura da religião cristã está fundada na crença de que Deus crucificou o Seu único Filho (Hazrat Jesus) e lhe deu uma morte amaldiçoada, fazendo assim expiação pelos pecados da humanidade. A característica dos cristãos entre as comunidades dos profetas é que se contentaram apenas com a crença e rejeitaram toda a Shariah. Chegaram até a declarar lícita a carne de porco, embora ela fosse proibida na Shariah de todos os profetas. Quando Hazrat Jesus (a.s.) voltar e declarar pessoalmente: ‘Eu não sou o Filho de Deus, nem expiei os pecados de ninguém’, nenhum fundamento da crença cristã permanecerá. E quando ele disser que não declarou lícita a carne de porco para os seus seguidores, nem os libertou das restrições da Shariah, a segunda característica da religião cristã também chegará ao fim.] — e declarará o fim das guerras. Em outra narração, no lugar de ‘guerra’, aparece a palavra ‘jizya’. Ou seja, abolirá a jizya. — [Segundo outra narração, isso significa que, naquele tempo, terminarão as divergências entre todas as religiões e grupos, e todos passarão a integrar uma única comunidade religiosa. Consequentemente, não haverá guerra, nem será necessário impor jizya a ninguém. Isso também é mencionado nos hadiths de número 5 e 15 abaixo.] Depois haverá tamanha abundância de riquezas que não haverá ninguém para aceitá-las. Então, uma única prostração diante de Deus será melhor do que o mundo inteiro.” — (Bukhari, Muslim, Tirmidhi, Musnad Ahmad)

Em outra narração, encontram-se estas palavras de Hazrat Abu Huraira (r.a.):

(Árabe****************************************na página 442 do PDF)

“A Hora não ocorrerá até que Hazrat Isa (a.s.) desça. Depois, há as palavras mencionadas acima.” —(Bukhari, Ibn Majah)

(Árabe****************************************na página 442 do PDF)

“Hazrat Abu Huraira (r.a.) relatou que o Profeta (s.a.w.) disse: ‘Como estareis quando Ibn Maryam descer entre vós, enquanto o vosso líder for alguém dentre vós?’ —(Bukhari, Musnad Ahmad)—[Isto é, Hazrat Isa (a.s.) não conduzirá a oração como imã. Ao contrário, ele rezará atrás daquele que já for o imã dos muçulmanos desde antes.]

(Árabe****************************************na página 442 do PDF)

“Hazrat Abu Huraira (r.a.) relatou: o Profeta (s.a.w.) disse: ‘Isa ibn Maryam descerá. Então, matará os porcos e eliminará a cruz. A oração será reunida para ele, e ele distribuirá tanta riqueza que não haverá ninguém para aceitá-la. Abolirá o kharaj e permanecerá no lugar chamado Rawha—[‘Rawha’ é um lugar situado a 35 milhas de Medina]—onde realizará o hajj ou a umrah, ou ambos.’ —[É digno de nota que a pessoa que, nesta época, foi considerada semelhante a Hazrat Isa (a.s.) não realizou em sua vida nem o hajj nem a umrah.] [O narrador não se lembra do que o Profeta (s.a.w.) disse em seguida]. —(Musnad Ahmad, com referência a Muslim)

(Árabe****************************************na página 442 do PDF)

“Hazrat Abu Huraira (r.a.) relatou que, depois de mencionar o surgimento do Dajjal, o Profeta (s.a.w.) disse: ‘Os muçulmanos continuarão se preparando para lutar contra o Dajjal e, depois de se alinharem para a oração, continuarão pronunciando o takbir. Nesse momento, Isa ibn Maryam descerá e conduzirá os muçulmanos na oração. O inimigo de Allah (isto é, o Dajjal), assim que o vir, começará a derreter-se, tal como o sal se dissolve na água. Se Hazrat Isa (a.s.) o deixar nesse estado, ele morrerá derretido; mas Allah Todo-Poderoso fará com que o Dajjal seja morto pelas mãos dele, e ele mostrará aos muçulmanos o sangue do Dajjal em sua arma.’ —(Mishkat, com referência a Muslim)” }]}],

(Árabe****************************************na página 443 do PDF)

“Foi narrado por Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Não há nenhum profeta entre mim e ele (isto é, Hazrat Jesus). Ele descerá. Portanto, quando o virdes, reconhecei-o. Ele será um homem de estatura mediana. Sua tez será uma mistura de vermelho e branco. Vestirá duas peças de tecido amarelo. O cabelo de sua cabeça parecerá estar gotejando água, embora seu corpo não esteja molhado. Ele combaterá as pessoas pela causa do Islã. Quebrará a cruz em pedaços. Destruirá os porcos. Abolirá a jizya. Allah eliminará todos os grupos e comunidades que seguem doutrinas diferentes do Islã. Ele matará o Dajjal. Permanecerá no mundo durante quarenta anos. Depois falecerá, e os muçulmanos oferecerão a oração fúnebre por ele’.”–(Abu Dawud, Musnad Ahmad)

(Árabe****************************************na página 443 do PDF)

“Foi narrado por Hazrat Jaber ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Depois, Jesus, filho de Maria, descerá. O comandante dos muçulmanos lhe dirá: Venha e lidere a oração. Ele responderá: Não. Vós sois comandantes uns dos outros —isto é, vosso comandante deve ser alguém dentre vós—. Ele dará essa resposta tendo em vista a honra que Allah concedeu a esta comunidade’.”–(Muslim, Musnad Ahmad)

(Árabe****************************************na página 444 do PDF)

“Ao falar sobre a tribulação de Ibn Sayyad, Hazrat Jaber ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) então pediu, dizendo: Ó Mensageiro de Allah! Permita-me matá-lo. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: Se ele for esse homem —isto é, o Dajjal—, tu não serás seu assassino; ao contrário, Jesus, filho de Maria, o matará. E, se ele não for esse homem, então tu não tens o direito de matar alguém sob pacto —isto é, qualquer pessoa dentre os dhimmis’.”–(Mishkat, com referência a Sharh al-Sunnah de Baghawi).

(Árabe****************************************na página 444 do PDF)

“Ao narrar a história do Dajjal, Hazrat Jaber ibn Abdullah disse: O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Naquele momento, Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) aparecerá subitamente entre os muçulmanos. As pessoas se levantarão para a oração e lhe será dito: Ó Ruhullah! Avance. Mas ele dirá: Não. Ao contrário, vosso imame deve avançar e ele deve liderar a oração. Depois de concluírem a oração da manhã, as pessoas sairão para enfrentar o Dajjal. O Profeta disse: Quando aquele mentiroso vir Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele), começará a derreter-se como o sal se dissolve na água. Hazrat Jesus avançará em sua direção e o matará. Então a situação será tal que as árvores, as plantas e as montanhas gritarão: Ó Ruhullah! Este judeu está escondido atrás de mim. Não haverá ninguém entre os seguidores do Dajjal que Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele) não mate’.”–(Musnad Ahmad)

(Árabe****************************************na página 444 do PDF)

“Hazrat Nawwas ibn Sam‘an Kilabi, ao narrar a história do Dajjal, disse: quando o Dajjal estiver fazendo essas coisas, Allah enviará o Messias, filho de Maryam. Ele descerá junto ao minarete branco, na região oriental de Damasco, vestindo duas vestes amarelas e apoiando as mãos nos braços de dois anjos. Quando balançar a cabeça, parecerá que a água cai gota a gota. Quando levantar a cabeça, as gotas de água parecerão brilhar como pérolas. Seu hálito se estenderá até onde alcançar sua visão, e todo incrédulo sobre quem ele passar morrerá. Então o filho de Maryam perseguirá o Dajjal, alcançá-lo-á junto ao portão de Lod — consta que Lod está situada a alguns quilômetros de Tel Aviv, capital do Estado de Israel na Palestina. Os judeus construíram ali uma grande base aérea — e o matará?” — (Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah)

(Árabe****************************************na página 445 do PDF)

“Abdullah ibn Amr ibn al-‘As (r.a.) disse: o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: o Dajjal surgirá entre a minha ummah e permanecerá durante quarenta — não sei se quarenta dias, quarenta meses ou quarenta anos — [estas são as próprias palavras de Abdullah ibn Amr ibn al-‘As]. Depois, Allah enviará Isa ibn Maryam. Sua aparência será semelhante à de Urwah ibn Mas‘ud (um Companheiro). Ele perseguirá o Dajjal e o matará. Depois, passarão sete anos de tal modo que não haverá inimizade entre duas pessoas sequer.” — (Muslim)

(Árabe****************************************na página 445 do PDF)

“Hudhayfah ibn Asid al-Ghifari (r.a.) disse: certa vez, o Santo Profeta (s.a.w.) veio até nós. Naquele momento, estávamos conversando entre nós. Ele perguntou: ‘Sobre o que estão falando?’ Respondemos: ‘Estamos discutindo a questão da Ressurreição.’ O Profeta (s.a.w.) disse: ‘A Ressurreição de modo algum ocorrerá enquanto não surgirem dez sinais.’ Depois disse: ‘Os dez sinais são: (1) a fumaça; (2) o Dajjal; (3) a Besta da Terra; (4) o nascer do sol a partir do ocidente; (5) a descida de Isa ibn Maryam; (6) Gog e Magog; (7) três grandes desmoronamentos de terra — um no oriente; (8) um no ocidente; (9) um na Arábia; e, por fim, (10) um enorme fogo que surgirá do Iêmen e expulsará as pessoas, conduzindo-as até a planície da reunião.’” — (Muslim, Abu Dawud)

(Árabe****************************************na página 446 do PDF)

“Thawban, o escravo liberto do Santo Profeta (s.a.w.), disse: o Profeta disse: entre a minha ummah haverá duas tropas que Allah salvou do fogo do Inferno. Uma delas atacará o Hindustão, e a outra estará com Isa ibn Maryam.”

(Árabe****************************************na página 446 do PDF)

“Mujammi ibn Jariya Ansari diz: Ouvi o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: O filho de Maria matará o Dajjal no portão de Ludd.” — (Musnad Ahmad, Tirmidhi)

(Árabe****************************************na página 446 do PDF)

“Abu Umama Bahili, ao mencionar o Dajjal em um longo hadith, diz: Justamente quando o imame dos muçulmanos avançar para conduzir a oração da manhã, Isa ibn Maryam descerá naquele momento. O imame recuará para que Isa possa avançar, mas Isa (que a paz esteja sobre ele), colocando as mãos entre os seus dois braços, dirá: Não, conduza você a oração. Pois é por sua causa que esta oração foi estabelecida. Assim, ele mesmo (o imame anterior) conduzirá a oração. Então Isa (que a paz esteja sobre ele) dirá: Abram a porta. A porta será aberta, e será visto o Dajjal em pé com setenta mil judeus armados. Assim que seu olhar recair sobre o honrado Isa, ele começará a derreter, como o sal derrete na água. Então começará a fugir. Isa (que a paz esteja sobre ele) dirá: Tenho um golpe para você com a minha mão, do qual não poderá escapar vivo. Em seguida, ele o alcançará junto ao portão oriental de Ludd. Então Allah Todo-Poderoso fará os judeus serem derrotados… e o mundo ficará tão cheio de muçulmanos quanto um recipiente se enche de água. Naquele momento, a profissão de fé de todo o mundo será uma só, e ninguém será adorado nem obedecido além de Allah.” — (Ibn Majah)

(Árabe****************************************na página 447 do PDF)

“Uthman ibn Abil As diz: Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer isto: ….. e Isa ibn Maryam (que a paz esteja sobre ele) descerá ao amanhecer. O emir dos muçulmanos lhe dirá: Ó Espírito de Allah! Conduza a oração. Ele dirá: Os membros desta comunidade são, eles próprios, emires uns dos outros. Então o emir dos muçulmanos avançará e conduzirá a oração. Depois da oração, Isa (que a paz esteja sobre ele) avançará com sua arma na direção do Dajjal. Ele o matará. Seu companheiro será derrotado e fugirá, mas não encontrará abrigo em lugar algum. As árvores e as plantas gritarão: Ó crente! O infiel está aqui.” — (Musnad Ahmad, Tabarani, Hakim)

(Árabe****************************************na página 447 do PDF)

“Samura ibn Jundub (que Allah esteja satisfeito com ele) diz: O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Então, pela manhã, Isa ibn Maryam chegará entre os muçulmanos. Allah derrotará o Dajjal e suas tropas, a tal ponto que até as paredes e as raízes das árvores gritarão: Ó crente, um infiel está escondido atrás de mim; venha e mate-o.” — (Musnad Ahmad, Hakim)

(Árabe****************************************na página 448 do PDF)

“Imran bin Husain (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Haverá sempre, entre a minha comunidade, um grupo que permanecerá firme na verdade e será insuportável para os opositores. Então chegará a decisão do Altíssimo Allah, e Isa bin Maryam descerá.” — (Musnad Ahmad)

(Árabe****************************************na página 448 do PDF)

“Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), ao falar sobre a história do Dajjal, disse: Isa (que a paz esteja sobre ele) descerá e o matará. Depois, permanecerá no mundo durante quarenta anos como um imã justo e um governante equitativo.” — (Musnad Ahmad)

(Árabe****************************************na página 448 do PDF)

“Shafinah, o escravo liberto pelo Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), narrou, a respeito da história do Dajjal: Então Isa (que a paz esteja sobre ele) descerá, e Allah destruirá o Dajjal nas proximidades da fortaleza de Afiq — [Afiq, cujo nome atual é ‘Qaiq’, é a última cidade da Síria, situada na fronteira entre a Síria e Israel. A alguns quilômetros a oeste, em frente a ela, há um lago chamado Tiberíades, do qual nasce o rio Jordão. Ao sudoeste desse lago, por entre as montanhas, uma passagem inclinada desce a uma profundidade de mil e quinhentos a dois mil pés e chega a um lugar de onde o rio Jordão sai do interior de Tiberíades. Essa passagem montanhosa é chamada Aqabah de Afiq ou fortaleza de Afiq.]” — (Musnad Ahmad)

(Árabe****************************************na página 448 do PDF)

“Hudhaifa (que Allah esteja satisfeito com ele), falando sobre o Dajjal, disse: Então, quando os muçulmanos se levantarem para a oração, Isa bin Maryam descerá diante dos seus olhos. Ele conduzirá os muçulmanos na oração. Depois de concluir a saudação, dirá ao povo: Afastem-se do caminho entre mim e aquele inimigo de Allah. Allah dará a vitória sobre o Dajjal e seus companheiros e, depois, sobre os muçulmanos. Os muçulmanos continuarão a exterminá-los. Até que as árvores e as pedras gritarão: Ó servo de Allah, ó servo do Misericordioso, ó muçulmano, eis aqui um judeu — matem-no! Assim, Allah os aniquilará. Os muçulmanos vencerão, a cruz será destruída, os porcos serão exterminados e a jizya será abolida.”

[No Mustadrak de al-Hakim; no Muslim também há uma versão resumida. Hafiz Ibn Hajar mencionou este hadith como autêntico em Fath al-Bari (vol. 6, p. 450).]

Ao todo, estes vinte e um hadiths foram registrados em obras de hadith altamente confiáveis, transmitidos por quatorze Companheiros. Embora este tema também apareça em muitos outros hadiths, eles não foram citados por receio de aumentar o volume da obra. Aqui foram citados apenas aqueles que são extremamente confiáveis quanto à cadeia de transmissão.

É equivocada a ideia de ser uma manifestação do Messias (que a paz esteja com ele)

Todos os que estudarem estes hadiths poderão ver por si mesmos que neles não há absolutamente nenhuma menção a qualquer “Messias prometido9”, “manifestação do Messias” ou “aparecimento do Messias”, e assim por diante. Tampouco há fundamento para que, nesta época, uma pessoa nascida do ventre de uma mulher possa afirmar: “Eu sou o Messias cuja vinda foi profetizada pelo Último Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele)”. Estes hadiths anunciam de modo claro e inequívoco a descida daquele Jesus (que a paz esteja com ele) que, há dois mil anos, nasceu no ventre de Maria, a honrada, sem pai.

 

O Dajjal e seu aparecimento

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Não há uma época determinada para o aparecimento do Dajjal

Ao considerar de modo abrangente o conteúdo de todos os hadiths transmitidos pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) acerca do Dajjal, torna-se claro que o conhecimento concedido por Allah ao Santo Profeta sobre este assunto limitava-se ao fato de que surgiria um grande tirano chamado Dajjal. Sua definição seria que ele possuiria essas características. Contudo, não foi dito ao Profeta quando ele surgiria, onde surgiria, nem se havia nascido durante a vida do Profeta ou se nasceria em algum momento posterior.

As diversas conjecturas do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)

Nas palavras atribuídas ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nos hadiths sobre este assunto, a divergência de conteúdo e o seu modo de falar deixam claro que ele não disse essas coisas com base na revelação, mas por conjectura. Às vezes, ele sustentou que o Dajjal surgiria de Khurasan; outras vezes, disse que surgiria de Isfahan. Em outras ocasiões, afirmou que surgiria da região entre a Síria e o Iraque. A respeito de um rapaz judeu que provavelmente nasceu em Medina no segundo ou terceiro ano da Hégira, ele teve a suspeita de que talvez fosse esse o Dajjal. Há ainda uma última narração segundo a qual, no nono ano da Hégira, um sacerdote cristão da Palestina chamado Tamim al-Dari veio aceitar o Islã e contou uma história ao Profeta. Ele disse que certa vez, durante uma viagem marítima (provavelmente pelo mar de Roma ou pelo mar Arábico), chegou a uma ilha desabitada. Ali encontrou um homem estranho, que afirmou ser o próprio Dajjal. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não viu motivo para considerar falsa essa descrição, mas expressou sua dúvida, dizendo: “Segundo as palavras dele, deve-se dizer que o Dajjal está no mar de Roma ou no mar Arábico, mas penso que ele surgirá do Oriente”.

duas partes do pronunciamento do Santo Profeta

Se alguém observar em conjunto essas diversas narrações e estiver familiarizado com a ciência dos hadiths e com os princípios fundamentais da religião, não terá dificuldade em compreender que, sobre este assunto, as palavras do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dividem-se em duas partes.

A primeira parte é que o Dajjal certamente surgirá, terá essas características e causará fitna. Esta é uma notícia absolutamente certa, transmitida pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) da parte de Allah. Não há qualquer divergência entre as narrações sobre isso.

O estatuto distinto da segunda parte

A segunda parte diz respeito a onde e quando o Dajjal surgirá e a quem ele é. Sobre isso, as narrações não são apenas variadas; há também dúvida entre elas e foram usadas expressões baseadas em conjecturas. Por exemplo, a respeito de Ibn Sayyad, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a Umar: “Se este for o Dajjal, então não serás tu o seu assassino. Mas, se ele não for, não tens o direito de matar um dhimmi sob pacto.” Ou, como consta em um hadith, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se ele surgir durante a minha vida, eu o enfrentarei. E, se surgir depois de mim, o meu Senhor será o apoiador e auxiliador de todo crente.”

A importância religiosa e fundamental desta segunda parte não é, nem pode ser, igual à da primeira. Comete um erro aquele que inclui os pormenores desta parte entre as crenças islâmicas; além disso, não é correto afirmar a veracidade de cada um desses pormenores. O Profeta teve dúvidas a respeito de Ibn Sayyad e pensou que talvez ele fosse o Dajjal. Umar chegou a jurar que ele era o Dajjal, mas Ibn Sayyad tornou-se muçulmano, viveu nos dois santuários sagrados, morreu acreditando no Islã e os muçulmanos realizaram a oração fúnebre por ele. Diga-me: resta hoje alguma possibilidade de manter a suspeita a respeito de Ibn Sayyad? A narração de Tamim al-Dari era considerada quase verdadeira naquela época. Tamim al-Dari tinha visto, há mais de mil e trezentos anos, aquele que estava preso; o fato de ele não ter surgido durante todo esse longo período não é suficiente para provar que não era verdadeira a informação que Tamim al-Dari recebera de que ele era o Dajjal? Já na época do Santo Profeta havia a suspeita de que o Dajjal surgiria talvez durante a sua vida ou pouco depois dela. Mas não é verdade que já se passaram mais de mil e trezentos anos e o Dajjal ainda não veio? Portanto, considerar tudo isso como parte das crenças islâmicas, transmiti-lo e narrá-lo não pode ser chamado nem de representação correta do Islã nem de conhecimento correto dos hadiths. Já disse que, em assuntos desse tipo, se algo baseado na estimativa, conjectura ou apreensão do Profeta não se concretiza na realidade, isso de modo algum prejudica o estatuto da profecia. Tampouco atinge a crença na infalibilidade do Profeta. A Shariah também não nos obrigou a crer nesses assuntos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) explicou este princípio fundamental no hadith sobre a fecundação das tamareiras.

Orientação a partir da explicação do próprio Profeta

Muitas vezes, suas próprias explicações revelaram quais palavras do Profeta eram baseadas em suas suposições, quais eram sua opinião pessoal e quais se fundamentavam no conhecimento concedido por Deus. Além disso, muitas vezes isso também pode ser compreendido pelas circunstâncias circundantes. Tomemos, por exemplo, o hadith sobre o Dajjal. Pela própria explicação do Profeta, sabe-se que Deus não lhe havia concedido conhecimento sobre o local e o momento do surgimento do Dajjal, nem sobre sua identidade. Sua dúvida a respeito de Ibn Sayyad era tão evidente que, diante dele, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou a jurar que ele era o Dajjal. O Profeta não o contradisse; porém, quando Umar pediu ao Profeta (que a paz esteja com ele) permissão para matá-lo, ele disse:

(Árabe****************************************na página 451 do PDF)

“Se ele for realmente o Dajjal, você não conseguirá dominá-lo. E, se não for, não haverá nenhum benefício para você em matá-lo”. — (Muslim, Dajjal

questão)

Em outro hadith, ao mencionar o Dajjal, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe****************************************na página 451 do PDF)

“Se ele surgir durante a minha vida, eu o enfrentarei. Mas, se surgir depois da minha morte, cada um o enfrentará por sua própria conta. Allah será o protetor de todos os muçulmanos depois de mim”. — (Muslim, questão do Dajjal)

Quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) ouviu de Tamim al-Dari o relato de seu encontro com o Dajjal durante sua viagem marítima, ele não o aceitou nem o considerou falso. Pelo contrário, disse: (Árabe*********************************************************)

“Gostei do relato de Tamim. Ele coincide com o que vos digo sobre o Dajjal.” Em seguida, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) prosseguiu, dizendo: (Árabe**********************************************************)

“Não; pelo contrário, ele está no mar da Síria ou no mar do Iêmen. Não; pelo contrário, está no Oriente.” Esses relatos esclarecem por si mesmos o seu significado.

A profecia sobre o assassinato de Ammar ibn Yassir

A seguinte declaração do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) acerca de Hazrat Ammar (que Deus esteja satisfeito com ele) era amplamente conhecida entre os Companheiros, e muitos deles a ouviram diretamente da boca do Profeta: (Árabe*****************)“Um grupo rebelde te matará.” — [Este relato foi registrado em diversas coletâneas de hadith, como o Musnad de Ahmad, Bukhari, Muslim, Tirmidhi, Nasai, Tabarani, Bayhaqi e o Musnad de Abu Dawud, sob a autoridade de Hazrat Abu Sa’id al-Khudri, Abu Qatadah al-Ansari, Umm Salama, Abdullah ibn Mas’ud, Abdullah ibn Amr ibn al-As, Abu Huraira, Uthman ibn Affan, Hudhayfa, Abu Ayyub, Abu Rafi, Khuzayma ibn Thabit, Amr ibn al-As, Abu al-Yusr, Ammar ibn Yasir (que Deus esteja satisfeito com todos eles) e muitos outros Companheiros. Ibn Sa’d também o transmitiu por várias cadeias em sua obra Tabaqat.]

Ibn Abd al-Barr escreveu em al-Isti’ab que foi transmitido sucessivamente a partir do Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) que um grupo rebelde mataria Ammar ibn Yasir (que Deus esteja satisfeito com ele), e que este é um dos hadiths mais autênticos.

Dez sinais da proximidade da Hora

É narrado por Muslim ibn Hudhayfa ibn Asid al-Ghifari que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: A Hora não ocorrerá até que vejais dez sinais: a fumaça, o Dajjal, a Besta da Terra, o nascer do sol a partir do Ocidente, a descida de Jesus, filho de Maria, o surgimento de Gog e Magog, e três grandes deslizamentos de terra: o primeiro no Oriente, o segundo no Ocidente e o terceiro na Arábia. Por fim, surgirá um fogo terrível que conduzirá as pessoas para o local da reunião. (Isto é, a Hora ocorrerá logo depois.) Em outro hadith, mencionando a perturbação e o surgimento de Gog e Magog, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse que, naquele momento, a Hora estará tão próxima quanto o parto de uma mulher prestes a dar à luz, que não sabe em que momento dará à luz seu filho, à noite ou durante o dia.

(Árabe****************************************na página 452 do PDF)

 

Capítulo: 12 – A desonestidade teórica dos orientalistas acerca do Alcorão e do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele)

[Nas obras que esses orientalistas ocidentais produziram sobre o Islã, o Alcorão e a biografia do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), eles incluíram inúmeras afirmações absurdas e irracionais. Essas afirmações também foram divulgadas sob o belo nome de pesquisa. No âmbito dessa pesquisa nominal, até mesmo nos escritos de autores moderados como William Muir encontram-se afirmações desse tipo sobre o Profeta (que a paz esteja com ele) e o Islã. Diante disso, aos olhos de um leitor de espírito imparcial, todo o conhecimento e toda a pesquisa dos orientalistas perdem a importância. O primeiro objetivo de todo esse amplo trabalho de pesquisa era, sob a mentalidade criada pelas guerras das Cruzadas, erguer uma barreira de nacionalismo estreito e criar um obstáculo para proteger os cristãos da influência do Islã. O segundo objetivo era transmitir ideias equivocadas sobre o Islã às pessoas ignorantes a seu respeito e lançá-las em dúvidas e suspeitas. Apesar de tudo isso, durante um século os orientalistas desempenharam, para nossa geração moderna, o papel de professores sobre o Islã e a biografia do Profeta (que a paz esteja com ele). E pessoas sem conhecimento do Islã, lendo repetidamente os escritos deles, envolveram-se em dúvidas de toda espécie e levantaram, com as próprias mãos, objeções contra sua própria religião, criando para todo amante da verdade a oportunidade de se surpreender e aprender com isso.

Ao realizar, nesta obra, a ampla reorganização do conhecimento islâmico como intérprete do Islã, o ilustre autor não teve alternativa, em alguns pontos, senão levantar objeções aos escritos dos orientalistas. Sem romper a rede de erros desses pesquisadores que distorcem a verdade, não é possível conduzir a sociedade moderna e instruída da nação muçulmana até as fontes corretas do Islã.

Assim, ao redigir a biografia do Profeta (que a paz esteja com ele), sempre que o erudito autor apontou, em seus próprios escritos, os erros e falhas dos orientalistas, inserimos neste capítulo as partes necessárias, na medida em que fomos capazes de percebê-las.

Antes de estudar os conteúdos deste capítulo, os leitores devem ter em mente que o autor não fez uma análise minuciosa de todos os erros cometidos pelos orientalistas a respeito do Islã e do Profeta (que a paz esteja com ele), nem de todas as formas de desvio que eles produziram. Isso porque não foi escrita nenhuma obra ou artigo completo tendo como tema exclusivo todos os escritos dos orientalistas. As discussões foram feitas apenas nos lugares necessários, conforme as oportunidades e as circunstâncias. As respostas a inúmeras outras objeções dos orientalistas sobre a biografia do Mensageiro (que a paz esteja com ele) estão incluídas em diversos capítulos, embora não tenham sido apresentadas as declarações dos autores das objeções.

É necessário deixar claro aqui que, quanto ao conteúdo deste capítulo, surgiu para nós uma questão bastante preocupante: em que parte da obra ele deveria ser inserido. Depois de refletirmos, incluímo-lo também entre os temas fundamentais. Isso porque os demais artigos deste volume têm a característica de que seu estudo é indispensável para compreender a vida e o caráter do Profeta; nesse caso, o estudo deste artigo sobre os escritos dos orientalistas removerá os obstáculos que se interpõem no caminho da compreensão da Sira.

O primeiro parágrafo deste capítulo é muito breve, mas de significado abrangente. Esse parágrafo, composto de apenas algumas frases, foi separado para que a perspectiva do ilustre autor se apresentasse claramente diante dos olhos. –(Os compiladores)]

A metodologia irracional dos orientalistas

Essas pessoas de natureza desonesta decidem, antes de qualquer pesquisa ou investigação, que não se pode admitir que o Alcorão seja um Livro revelado por Allah. Então, procuram provas e evidências em algum lugar e afirmam que tudo o que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) disse em nome do Alcorão não passa de artigos e informações roubados de algum lugar. Nesse método de investigação, entregam-se à fraude com tamanha falta de escrúpulos e alardeiam isso por todo o mundo que, ao observar tal coisa, surge espontaneamente um sentimento de repulsa, e as pessoas são obrigadas a dizer: se isto se chama pesquisa e conhecimento, então que maldição recaia sobre esse conhecimento e que maldição recaia sobre essa pesquisa.

A história do monge Bahira

 

(Árabe***************************************na página 456 do PDF)

“Aqueles que se recusaram a ouvir as palavras do Profeta (que a paz esteja com ele) dizem: ‘Este Furqan é algo inventado; este homem o fabricou por conta própria, e outras pessoas o ajudaram nisso.’ O que dizem é uma grande injustiça e uma mentira. Eles dizem: ‘Isto não passa de escritos dos antigos, que este homem manda copiar e que lhe são lidos de manhã e à noite.’ Ó Muhammad! Dize-lhes: ‘Quem o revelou conhece os segredos dos céus e da terra. Na verdade, Ele é Perdoador, Misericordioso.’” — (Surata Al-Furqan: 4–6)

Esta é a mesma acusação que os orientalistas da era moderna fazem contra o Alcorão.

Por que o povo do Profeta não fez essa acusação?

É surpreendente que nenhum dos inimigos contemporâneos do Profeta (que a paz esteja com ele) tenha dito: “Quando eras criança e encontraste o monge Bahira, aprendeste tudo isso com ele.” Tampouco disseram: “Quando, na juventude, viajavas ao estrangeiro para negociar, adquiriste esse conhecimento junto aos sacerdotes e monges cristãos e aos rabinos judeus.” Não disseram essas coisas porque conheciam todos os detalhes dessas viagens. Ele não viajara sozinho, mas com a sua própria caravana. Sabiam que, se o acusassem de ter aprendido algo com alguém, centenas de pessoas da própria cidade os chamariam de mentirosos. Além disso, cada pessoa comum de Meca lhes diria: “Se este homem tivesse adquirido todo esse conhecimento com Bahira aos doze ou treze anos de idade, então não teria vivido em nenhum outro lugar fora daqui; teria vivido entre nós. Nesse caso, que razão poderia haver para que esse conhecimento permanecesse oculto até os quarenta anos de idade e para que, durante todo esse tempo, nenhuma palavra saísse de sua boca indicando que possuía um conhecimento desse tipo?”

Essa era a razão principal pela qual os incrédulos de Meca não ousaram proferir uma mentira tão grave. Talvez tenham deixado essa tarefa a cargo de pessoas ainda mais descaradas de épocas posteriores.

Qual era a acusação dos incrédulos de Meca?

O que eles diziam não se referia ao período anterior à profecia, mas ao período em que o chamado à profecia foi proclamado. Diziam: “Este homem é iletrado. Não lhe é possível adquirir conhecimento estudando por conta própria, pois antes nada havia aprendido. Até completar quarenta anos, ele não conhecia nenhuma das coisas que hoje saem de sua boca. Então, de onde lhe vêm agora todos esses conhecimentos? A fonte de seu conhecimento deve ser, portanto, os livros dos povos anteriores. À noite, ele manda traduzir e copiar secretamente trechos desses livros. Faz com que alguém os leia para ele, guarda-os na memória e, durante o dia, recita-os para nós”.

Alguns relatos permitem saber que, a esse respeito, eles também mencionavam os nomes de certas pessoas que pertenciam ao Povo do Livro, sabiam ler e escrever e viviam em Meca. Seus nomes eram Addas (servo liberto de Huaitib ibn Abd al-Uzza), Yasar (servo liberto de Ala ibn al-Hadrami) e Jabr (servo liberto de Amir ibn Rabi’a).

À primeira vista, parece uma acusação bastante importante. Que acusação poderia ser mais importante do que identificar a fonte do conhecimento para rejeitar a alegação da revelação? No entanto, qualquer pessoa fica imediatamente espantada ao perceber que nenhuma prova ou evidência foi apresentada em resposta a essa acusação. Em vez disso, o assunto é encerrado simplesmente dizendo que se está cometendo uma injustiça manifesta contra a verdade e criando uma tempestade de mentiras. Eis, então, a palavra de Deus, que conhece os mistérios dos céus e da terra.

Não é espantoso que uma acusação tão importante tenha sido feita em um ambiente de oposição extrema e rejeitada com desprezo? Será que a acusação deles era realmente tão insignificante que bastava responder dizendo apenas “mentira e injustiça”? Então, por que, depois dessa breve resposta, o público não exigiu uma resposta detalhada e clara, nenhuma dúvida surgiu na mente dos novos muçulmanos e ninguém entre os opositores ousou dizer: “Vejam, como não tiveram coragem de responder à nossa grande acusação, simplesmente a descartaram dizendo apenas ‘mentira e injustiça’?”

Encontramos a resposta justamente no ambiente em que os opositores do Islã fizeram essa acusação.

[Para essa resposta, o autor registrou a análise a seguir. — Os compiladores]

Primeira revisão

Não teria sido nem um pouco difícil para eles atacar de surpresa aqueles opressores que espancavam os muçulmanos um após outro, tornando suas vidas insuportáveis — e sobre os quais diziam que, traduzindo livros antigos, faziam o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) memorizá-los —, invadir a casa do Profeta, retirar de lá aqueles materiais e mostrá-los ao público. Enquanto esse trabalho secreto estivesse em andamento, poderiam atacá-los, chamar as pessoas e dizer: “Vejam, vejam! Aqui está sendo preparada a profecia”. Aqueles que eram capazes de manter Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) deitado sobre a areia escaldante não tinham nenhuma lei ou regulamento que impedisse suas ações; desse modo, poderiam ter eliminado para sempre a “ameaça” da profecia de Muhammad. No entanto, limitavam-se a protestos verbais e, nem por um único dia, tomaram a medida decisiva mencionada acima.

Segunda revisão

As pessoas que eles nomeavam como aquelas que traduziam e recitavam esses textos não eram estrangeiras, mas habitantes da própria cidade de Meca. Suas capacidades também não eram desconhecidas de ninguém. Qualquer pessoa dotada de um mínimo de bom senso percebia o nível elevado do que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentava: a linguagem era tão sublime, a literatura tão nobre, as palavras tão poderosas, e o pensamento e a exposição estavam em um nível tão alto. E que nível tinham as pessoas de quem se dizia que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aprendera tudo aquilo? Por essa razão, ninguém dava importância alguma à acusação deles. Todos pensavam que, fazendo esse tipo de acusação, estavam apenas descarregando sua frustração. E aqueles que nada sabiam sobre essas pessoas poderiam ao menos ter pensado: se elas tinham tamanha capacidade, por que não acenderam a própria lâmpada? Que necessidade tinham de fornecer óleo para a lâmpada alheia? E ainda por cima fazê-lo tão secretamente que nenhum reconhecimento por esse trabalho lhes caberia?

Terceira revisão

Os escravos libertos cujos nomes eram mencionados a esse respeito também não eram estrangeiros. Na vida tribal dos árabes, ninguém podia sobreviver sem o apoio de algum clã poderoso. Mesmo depois de libertado, o escravo continuava sob a proteção de seu antigo senhor. O apoio de seu senhor era o único meio de que dispunha para sobreviver na sociedade. Ora, se o Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele), graças a esses escravos libertos, estivesse administrando uma falsa loja da profecia — que Allah nos livre —, essas pessoas não poderiam ter participado dessa conspiração com sinceridade e boas intenções. Afinal, poderiam elas tornar-se colaboradores sinceros e devotados desse homem que aprendia algo com eles à noite e, durante o dia, proclamava diante de todos que lhe fora revelada uma inspiração da parte de Deus? Só poderiam tê-lo ajudado por alguma tentação ou interesse pessoal. Mas que pessoa sensata poderia imaginar que esses homens, desagradando seus próprios protetores, se tornariam parceiros do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nessa conspiração? Ele era amaldiçoado e desprezado por toda a nação, alvo da hostilidade de todos. Que tentação teria levado essas pessoas a se juntarem a ele? Na esperança de obter que benefício desse homem aflito elas aceitariam o prejuízo de se afastar de seus protetores? Além disso, esses protetores tinham a oportunidade de arrancar deles, por meio de espancamentos, uma confissão da conspiração. Por que não aproveitaram essa oportunidade? E por que toda a nação não os obrigou a confessar que aquele homem havia aprendido com eles e, com base nisso, fazia prosperar a sua loja da profecia?

Quarta revisão

O mais surpreendente de tudo é que todos eles acreditaram no Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e nutriram por ele uma devoção e um respeito incomparáveis, tal como os Companheiros nobres (que Allah esteja satisfeito com eles). Seria possível que aqueles que haviam participado de sua conspiração não apenas acreditassem em uma profecia falsa e conspiratória — que Allah nos livre —, mas também acreditassem nela com profunda devoção e respeito? E suponhamos que isso fosse possível: certamente eles teriam uma posição especial entre os crentes. Como seria possível que o negócio da profecia funcionasse graças a Addas, Yasar e Jabr, enquanto a mão direita do Profeta (que a paz esteja sobre ele) fosse Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abu Ubaidah (que Allah esteja satisfeito com ele)?

Mais surpreendente ainda é o fato de que, se os materiais para essa atividade fossem preparados à noite, com a ajuda de algumas pessoas, como isso poderia permanecer oculto para Zaid ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele), Ali ibn Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele), Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) e os demais Companheiros, que permaneciam com o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dia e noite, como sombras?

Quem quer que ouvisse essa acusação não lhe dava a menor importância. Por isso, ela não foi mencionada no Alcorão como uma acusação importante que exigisse uma resposta. Pelo contrário, foi mencionada para mostrar quão cegamente eles se opunham à verdade e quão determinados estavam a praticar a mentira e a injustiça.

Discussão de três histórias do Alcorão

Os orientalistas, após examinarem três histórias do Alcorão, fizeram a acusação de que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia reunido essas informações de algum outro lugar e as apresentado como sendo de sua própria autoria.

Antes de descrever as acusações e objeções desses orientalistas, é necessário conhecer essas histórias. Caso contrário, será difícil compreender a discussão que se segue. — (Os compiladores)

Primeira: a viagem de Hazrat Moisés (que a paz esteja sobre ele) à confluência dos rios

 

(Árabe***************************************na página 460 do PDF)

“(Narra-lhes essa história) quando Moisés (que a paz esteja sobre ele) disse ao seu servo: Não cessarei de viajar até chegar à confluência dos dois rios; caso contrário, continuarei caminhando por um longo tempo.” — (Surata Al-Kahf: 60)

O objetivo de narrar esta história neste ponto é informar tanto os incrédulos quanto os muçulmanos sobre uma verdade profunda. Essa verdade é que se tira uma conclusão absolutamente equivocada daquilo que aparentemente se vê acontecer no mundo. Isso porque os profundos mistérios com base nos quais Allah, o Altíssimo, age não são perceptíveis aos olhos do observador. A ascensão dos opressores e o sofrimento dos inocentes, a torrente de riquezas derramada sobre os pecadores e os infortúnios enfrentados pelos virtuosos, o conforto e o luxo desfrutados pelos pecadores e a penúria dos devotos — tudo isso é uma cena que se apresenta diariamente diante dos olhos das pessoas. Como não conhecem o mistério por trás dessas coisas, geralmente surgem em suas mentes dúvidas e até concepções equivocadas. O opressor e incrédulo conclui daí que o mundo é um palco de anarquia, que não tem dono nem rei. E, se tem um, ele é incapaz. Aqui, cada um faz o que bem entende. Não há ninguém para prestar contas. E o crente fica abalado. Em tal situação, Allah, o Altíssimo, desvelou para Moisés (que a paz esteja com ele) parte dos mistérios de Suas ações e lhe mostrou alguns vislumbres de luz, para que ele pudesse compreender como e com que propósito acontecem, dia e noite, todas as coisas no mundo, e como o aspecto exterior dos acontecimentos difere de seu aspecto interior.

Detalhes da história

O Alcorão não explica quando nem onde ocorreu este episódio de Moisés (que a paz esteja com ele). Contudo, encontra-se uma narração de Awfi em um hadith. Citando uma declaração de Ibn Abbas, ele diz que esse episódio ocorreu quando Moisés (que a paz esteja com ele), após a destruição do Faraó, havia reassentado seu povo no Egito; porém, a forte narração de Ibn Abbas citada em Bukhari e em outras obras é a descrição acima

(Há um mapa na página 401 do PDF**********************************************************)

Mapa relacionado à história de Moisés e Khidr (que a paz esteja com eles)

não a sustenta. Também não há prova em nenhuma outra fonte de que, após a destruição do Faraó, Moisés (que a paz esteja com ele) tenha permanecido no Egito por algum período. Pelo contrário, o Alcorão afirma claramente que, depois de deixar o Egito, toda a sua vida transcorreu nos vales do Sinai e de Tayma. Por isso, essa narração não é aceitável. Contudo, quando examinamos os detalhes desta história, duas coisas se tornam claras. A primeira é que essas observações foram proporcionadas a Moisés (que a paz esteja com ele) no início de sua missão profética, pois, no começo da profecia, os profetas necessitam desse tipo de ensinamento e treinamento.

A segunda é que Moisés (que a paz esteja com ele) precisou fazer esse tipo de observação quando os Filhos de Israel no Egito se encontravam exatamente na mesma situação que os muçulmanos haviam enfrentado em Meca. Nossa opinião é que, por essas duas razões — e Allah conhece melhor a realidade —, esse episódio ocorreu quando a opressão e a perseguição do Faraó contra os Filhos de Israel estavam em curso no Egito, e quando o Faraó e seus cortesãos, tal como os líderes dos coraixitas, por não lhes sobrevir nenhum castigo, imaginavam que não havia ninguém acima deles que pudesse exigir-lhes contas. Da mesma forma que os muçulmanos oprimidos de Meca, os muçulmanos oprimidos do Egito perguntavam, impacientes: “Ó Deus! Até quando haverá prosperidade e felicidade para esses opressores, e calamidades e infortúnios para nós?” Até mesmo Moisés (que a paz esteja com ele) exclamou:

(Árabe***************************************página 462 do PDF)

“Ó Senhor! Tu agraciaste o Faraó e seus conselheiros, na vida terrena, com poder, autoridade e riquezas. Ó Deus! Fizeste isso para que eles desencaminhassem o mundo?”

Se esta minha suposição for correta, pode-se pensar que talvez a viagem de Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) tenha sido em direção ao Sudão, e que o local da confluência dos dois rios se refira ao lugar onde os dois braços do Nilo, nas proximidades da atual cidade de Cartum, deságuam no mar Mediterrâneo.

A narrativa do Talmude

A Bíblia é absolutamente silenciosa a respeito desse acontecimento. Entretanto, encontra-se uma narrativa no Talmude, mas o acontecimento é atribuído, em vez de a Musa (que a paz esteja com ele), ao rabino Yahuhanan bin Labi. A narrativa diz que, quando esse acontecimento ocorreu, o referido rabino estava com Hazrat Ilyam (que a paz esteja com ele), que, depois de ser elevado do mundo ainda em vida, foi incluído entre os anjos. Em seguida, foi encarregado da administração do mundo.

(The Talmud Selections, de H. Polano, pp. 313–316).

É possível que, assim como os acontecimentos anteriores à saída do Egito, este acontecimento também não tenha sido preservado corretamente nos livros dos Filhos de Israel, e que, séculos depois, eles tenham deslocado e unido partes da narrativa, retirando-as de um lugar e colocando-as em outro. Influenciados por essa narrativa do Talmude, alguns muçulmanos chegaram a dizer que o Musa mencionado aqui não era o profeta Hazrat Musa (que a paz esteja com ele), mas outro Musa. Contudo, não se pode considerar toda narrativa do Talmude como história correta, nem há qualquer razão plausível para supor que o Alcorão tenha mencionado dessa forma algum Musa desconhecido. Além disso, quando os hadiths confiáveis, na narrativa de Hazrat Ubayy ibn Ka’b, mostram que o próprio Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), ao explicar essa história, referiu-se por Musa precisamente ao profeta Musa dos Filhos de Israel (que a paz esteja com ele), então a narrativa do Talmude não pode ser aceita por nenhum muçulmano.

Os orientalistas, de acordo com sua natureza, também tentaram investigar a fonte dessa narrativa do Alcorão e identificaram três relatos, afirmando que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) copiou deles e assim criou essa narrativa, alegando que ela lhe havia sido revelada por meio dessa revelação. Dos três, um é a narrativa de Gilgamesh, o segundo é o Iskandarnama siríaco, e o terceiro é a narrativa dos judeus mencionada acima.

Quatro perguntas para interrogar os orientalistas

Basta exigir deles respostas às quatro perguntas seguintes para que a máscara de sua propaganda maliciosa seja arrancada:

Primeira: que provas têm vocês de que, apenas por encontrarem em dois ou quatro livros antigos algumas coisas que coincidem com o Alcorão, podem afirmar que a narrativa do Alcorão foi extraída deles?

Segunda: se fosse elaborada uma lista de todos os livros, em diferentes línguas, que vocês determinaram como fontes das histórias e narrativas do Alcorão, ela se transformaria no catálogo de uma biblioteca. Existia uma biblioteca desse tipo em Meca naquela época? Além disso, se os tradutores de diferentes línguas dizem isso baseando-se apenas nas duas ou três viagens que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) fez para fora da Arábia, então a pergunta é: durante essas viagens comerciais, quantas bibliotecas ele teria copiado ou memorizado? E qual seria a razão de não se encontrar, até o dia anterior à proclamação de sua missão profética, qualquer indício desse conhecimento em suas palavras?

Terceira: os idólatras de Meca, os judeus e os cristãos investigavam, assim como vocês, de onde o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) trazia essas palavras. Se ele estivesse dizendo palavras roubadas, por que seus contemporâneos não conseguiram descobrir isso? Repetidamente lhes era lançado o desafio de que este Alcorão havia sido revelado por Deus e que não tinha outra fonte além da revelação. Dizia-se: “Se vocês afirmam que ele é apenas palavra humana, então provem que um ser humano é capaz de proferir algo assim”. Esse desafio quebrou a resistência dos inimigos contemporâneos do Profeta (que a paz esteja com ele). No entanto, eles não conseguiram identificar sequer uma fonte da qual se pudesse dizer que o Alcorão havia se originado — muito menos uma fonte cuja pretensa relação com o Alcorão pudesse ser sequer suspeitada por uma pessoa sensata, quanto mais levá-la a acreditar nisso.

A pergunta agora é: por que os contemporâneos fracassaram em descobrir essa teoria, e como é que hoje, treze ou catorze séculos depois, aqueles que nutrem hostilidade contra o Islã alcançaram êxito nesse assunto?

Quarta: a última e importante pergunta é esta: não é também possível que o Alcorão seja um Livro revelado por Allah e que forneça informações verdadeiras sobre acontecimentos de épocas passadas, os quais, ao longo de vários séculos, chegaram às pessoas deformados sob a forma de relatos orais e se transformaram em lendas? Com base em que provas racionais essa possibilidade foi descartada? Por que fizeram desta única possibilidade a base da discussão e da investigação: a de que as histórias do Alcorão foram compostas a partir daqueles acontecimentos que existiam entre as pessoas como lendas transmitidas oralmente? Pode haver alguma outra razão para isso além da hostilidade e da inimizade religiosas?

Se refletirmos profundamente sobre essas perguntas, somos obrigados a chegar à conclusão de que aquilo que os orientalistas apresentaram em nome da “aquisição de conhecimento” não revela, na realidade, qualquer busca genuína do conhecimento.

Segunda: A determinação de Faraó de matar Moisés (que a paz esteja com ele)

(Árabe****************************************na página 464 do PDF)

“Certo dia, o Faraó disse aos membros de seu conselho: ‘Deixai-me, eu matarei Moisés, e que ele invoque então o seu Senhor e veja’.” — (Surata Al-Mu’min: 26).

O acontecimento narrado a partir deste versículo até o versículo 45 é um episódio de extrema importância na história dos Filhos de Israel. Eles, porém, o esqueceram completamente. Não há qualquer menção a esse acontecimento na Bíblia nem no Talmude. Tampouco se encontra o menor vestígio dele em seus outros relatos. Foi somente por meio do Alcorão que o mundo inteiro veio a saber que esse acontecimento ocorreu durante o conflito entre o Faraó e Moisés (que a paz esteja sobre ele).

A importância desta narrativa sob a perspectiva do convite à verdade

Toda pessoa que não nutra uma hostilidade cega contra o Islã e o Alcorão, ao ler esta narrativa, certamente perceberá que ela é de extrema importância sob a perspectiva do convite islâmico. Não seria irrazoável supor que, influenciado pela personalidade de Moisés (que a paz esteja sobre ele), por sua pregação e pelos milagres realizados por ele, alguém entre os membros do conselho do próprio Faraó tenha abraçado interiormente a fé e, ao ver o Faraó decidido a matar Moisés (que a paz esteja sobre ele), não tenha conseguido permanecer em silêncio. Contudo, apesar de suas grandiloquentes alegações de conhecimento e investigação, não é difícil perceber que os orientalistas ocidentais, movidos por uma hostilidade cega, tentam ocultar a verdade manifesta do Alcorão. No artigo intitulado ‘Moisés’, da Encyclopaedia of Islam, o autor afirma o seguinte sobre esta narrativa: “Um muçulmano da corte do Faraó tentou proteger Moisés (que a paz esteja sobre ele).” — A narrativa corânica não é clara (Surata 40: versículo 28). Deveríamos compará-la com a narrativa contada na Hagadá, segundo a qual Hithro aconselhou o Faraó a demonstrar clemência e generosidade em sua corte?

A confusão criada pelos que alegam ser investigadores

Os que alegam ser investigadores parecem ter decidido de uma vez por todas que precisam encontrar um erro em cada palavra do Alcorão. Se não for possível encontrar qualquer base para apontar um erro em alguma afirmação do Alcorão, deve-se ao menos espalhar confusão suficiente para fazer parecer que ela não é clara. Depois, é preciso criar gradualmente na mente dos leitores a suspeita de que o episódio de Hithro, narrado na Hagadá antes do nascimento de Moisés (que a paz esteja sobre ele), o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) teria ouvido em algum lugar e apresentado sob essa forma. Esse é o método de investigação adotado por essas pessoas em relação ao Islã, ao Alcorão e ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele).

Terceiro: Contestação sobre o período de permanência na caverna na narrativa dos Companheiros da Caverna

Alguns orientalistas recusam-se a aceitar que este acontecimento seja semelhante à história dos Companheiros da Caverna, alegando que o Alcorão afirma que o período em que eles permaneceram na caverna foi de trezentos e nove anos. Contudo, na nota 25 desta surata, analisamos que, em relação ao período dos Companheiros da Caverna mencionado no versículo 25 como trezentos e trezentos e nove anos, segundo nosso entendimento, trata-se de uma afirmação das pessoas — não de uma afirmação de Deus, o Altíssimo. A prova disso é que, no versículo seguinte, o próprio Deus, o Altíssimo, diz: “Dize: Deus sabe melhor quanto tempo eles permaneceram na caverna”. Se o próprio Deus tivesse mencionado trezentos e nove anos, essa declaração não teria sentido. Com base nesse argumento, Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) adotou precisamente esta interpretação: não se trata de uma afirmação de Deus, mas de uma afirmação das pessoas.

A insolência de Gibbon

Há algumas pequenas diferenças entre a narrativa siríaca e a narrativa corânica, com base nas quais Gibbon acusou o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) de “ignorância”. No entanto, sobre a narrativa em que depositou sua confiança para demonstrar tamanha insolência, ele próprio sabe que um habitante da Síria registrou o relato desse acontecimento trinta ou quarenta anos depois de sua ocorrência. Durante um período tão longo, ao ser transmitida oralmente de um país para outro, alguma divergência inevitavelmente surge numa narrativa. Considerar que uma narrativa desse tipo é literalmente verdadeira em todos os pormenores e que qualquer divergência em alguma parte dela constitui um erro do próprio Alcorão é algo que só convém a esses indivíduos precipitados que, cegos pelo ódio religioso, ignoram as exigências mais elementares do conhecimento e da razão.

O testemunho de escritores cristãos

O testemunho mais antigo desta história encontra-se num sermão de um sacerdote cristão sírio chamado James Sarugi, escrito em língua siríaca. Ele nasceu em 452 d.C., alguns anos depois da morte dos habitantes da caverna, e redigiu esse sermão por volta de 474 d.C. Nesse sermão, forneceu um relato detalhado do acontecimento. Por um lado, essa narrativa siríaca chegou às mãos dos exegetas dos primeiros tempos; Ibn Jarir al-Tabari citou-a em seu tafsir por meio de várias fontes. Por outro lado, essa narrativa também chegou aos europeus, foi traduzida para o grego e o latim, e sua versão foi publicada. No capítulo XXXIII de sua obra intitulada “História do Declínio e Queda do Império Romano”, no ensaio intitulado “Os Sete Adormecidos”, Gibbon apresentou, com base nas fontes acima mencionadas, um relato desta história que coincide tanto com o relato de nossos exegetas que parece que ambas as histórias foram transmitidas da mesma fonte. Por exemplo, quanto ao governante de cuja tirania e perseguição os Companheiros da Caverna se refugiaram numa gruta montanhosa para se proteger, nossos exegetas dizem que seu nome era Daqyanus ou Damyus. Gibbon diz que seu nome era o César Décio (Decius), que governou o Império Romano de 249 a 251 d.C. e cujo reinado ficou marcado pela perseguição aos seguidores de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Quanto à cidade onde o acontecimento ocorreu, nossos exegetas dizem que seu nome era Éfeso. Gibbon diz Éfeso (Ephesus). Era uma grande cidade e porto romano situada na costa ocidental da Ásia Menor. Suas ruínas ainda podem ser vistas no território da atual Turquia, trinta ou quarenta milhas ao sul da cidade de Esmirna. Depois, quanto ao governante durante cujo reinado os Companheiros da Caverna despertaram, segundo nossos exegetas seu nome era Theodosius, enquanto, segundo Gibbon, era o César Teodósio II (Theodosius). Depois de adotar o cristianismo, ele foi César de Roma de 408 a 450 d.C. A semelhança entre os dois relatos era tão grande que, depois que os habitantes da caverna despertaram, aquele que foi enviado ao mercado para comprar alimentos é chamado de Yamlika pelos exegetas, enquanto Gibbon o chama de Iazalikas (Jamblichus).

Duas narrativas divergentes: conciliação entre elas

Os detalhes da história são praticamente iguais nas duas narrativas. Seu resumo é o seguinte: durante o reinado do César Décio, quando os cristãos eram submetidos a uma terrível perseguição, esses sete jovens refugiaram-se numa gruta montanhosa. Depois, no trigésimo oitavo ano do reinado do César Teodósio — isto é, em 445 ou 446 d.C. —, despertaram do sono. Nessa época, todo o Império Romano havia-se tornado seguidor de Jesus (que a paz esteja sobre ele). Assim, o período de sua permanência na caverna foi de aproximadamente 196 anos.

 

Índice

1. O movimento de independência da Índia e os muçulmanos, vol. 2, pp. 177–178

2. Introdução ao Tafhim al-Qur’an

3. Tafhim al-Qur’an, surata Al-A’raf, nota 135

4. Tafhimat, vol. 1, pp. 9–17

5. Tafhim al-Qur’an, surata An-Nahl, nota 9

6. Tafhim al-Qur’an, surata An-Nahl, nota 10

7. Tafhim al-Qur’an, surata An-Nahl, nota 14

8. Tafhim al-Qur’an, surata Ta-Ha, nota 23

9. Diniyat (Introdução ao Islã), pp. 52–55

10. Tafhimul Qur’an, surata Al-Baqarah, nota 23

11. Diniyat (Introdução ao Islã), pp. 52–55

12. Tafhimul Qur’an, surata Yunus, nota 74

13. Tehrik-e Azadi-e-Hind aur Musalman, volume 2, pp. 105–106 (O movimento de independência do subcontinente e os muçulmanos)

14. Tafhimul Qur’an, surata Al Imran, nota 48

15. Tafhimul Qur’an, surata An-Nisa, nota 208

16. Tafhimul Qur’an, surata An-Nisa, nota 94

17. Tafhimul Qur’an, surata At-Tawbah, nota 32

18. Tafhimul Qur’an, surata Al-A’raf, nota 44

19. Tafhimul Qur’an, surata Al-A’raf, nota 44

20. Tafhimul Qur’an, surata Al-A’raf, nota 88

21. Tafhimul Qur’an, surata Al-Qasas, nota 66

22. Tafhimul Qur’an, surata An-Nisa, nota 94

23. Tafhimul Qur’an, surata Al-Kahf, nota 94

24. Tafhimul Qur’an, surata Al Imran, nota 17

25. Tafhim al-Qur’an, Surata al-Anbiya, nota 91

26. Rasail o Masail, volume 1, pp. 25–27

27. Rasail o Masail, volume 1, pp. 34–36

28. Tafhim al-Qur’an, Surata at-Tahrim, introdução

29. Tafhim al-Qur’an, Surata Bani Isra’il, nota 1

30. Tafhim al-Qur’an, Surata Yusuf, nota 66

31. Tafhim al-Qur’an, Surata al-Anbiya, nota 49

32. Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 50

33. Tafhim al-Qur’an, Surata Yusuf, nota 22

34. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Anbiya, nota 70

35. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Anbiya, nota 87

36. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Nisa, nota 204

37. Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shura, nota 1

38. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Nahl, nota 56

39. Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shura, nota 81

40. Rasa’il wa Masa’il, 2º volume, pp. 348–351

41. Tafhim al-Qur’an, surata As-Saffat, nota 60

42. Tafhim al-Qur’an, surata An-Nahl, nota 56

43. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Qasas, nota 10

44. Tafhim al-Qur’an, surata An-Nissa, nota 204

45. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 20

46. Tafhim al-Qur’an, surata Hud, nota 13

47. Tafhim al-Qur’an, surata Ash-Shura, nota 83

48. A questão política e seus aspectos políticos, religiosos e civilizacionais, pp. 247–50

49. Tafhim al-Qur’an, Surata Yunus, nota 21

50. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Qasas, nota 64

51. Tafhim al-Qur’an, Surata Ar-Ra’d, nota 31

52. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Hajj, nota 110

53. Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 34

54. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Nahl, nota 3

55. Tafhim al-Qur’an, Surata Bani Isra’il, nota 103

56. Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shura, nota 83

57. Tafhimul Qur’an, sura Al-An‘am, nota 61

58. Tafhimul Qur’an, sura Ash-Shura, nota 25

59. Tafhimul Qur’an, sura As-Sajda, nota 5

60. Tafhimul Qur’an, sura Fatir, nota 71

61. Tafhimul Qur’an, sura Al-Bayyina, nota 3

62. Tafhimul Qur’an, sura Al-Bayyina, nota 3

63. Tafhimul Qur’an, sura Al-Bayyina, introdução

64. Diniyat (Introdução ao Islã), pp. 57–60

65. Tafhim al-Qur’an, surata Az-Zukhruf, nota 4

66. Tafhimat, volume 1, pp. 238–255

67. Tafhim al-Qur’an, surata Al-‘Ankabut, nota 91

68. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 88

69. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 89

70. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 90

71. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 21

72. Tafhim al-Qur’an, surata Ash-Shura, nota 84

73. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Qasas, nota 109

74. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Bayyinah, nota 4

75. Tafhim al-Qur’an, Surata As-Sajdah, nota 1

76. Tafhim al-Qur’an, Surata As-Saff, nota 7

77. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 113

78. Tafhim al-Qur’an, Surata As-Saff, nota 8

79. Discursos radiofônicos, págs. 13–19

80. Discursos radiofônicos, págs. 28–38

81. Rasā’il e Masā’il, vol. 3, p. 149

82. Diniyat (Introdução ao Islã), p. 55–57, 71–72

83. Diniyat (Introdução ao Islã), p. 71–75

84. Tafhimul Quran, Surata Saba, nota 47

85. Tafhimul Quran, Surata Fátir, notas 44–45

86. Tafhimul Quran, Surata Al-Anbiya, nota 100

87. Tafhimul Quran, Surata Yunus, nota 55

88. Tafhimul Quran, Surata Al-Furqan, nota 66

89. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Furqan, nota 4

90. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Anbiya, nota 1

91. Tafhim al-Qur’an, surata Al Imran, nota 69

92. Tafhim al-Qur’an, surata Al-A’raf, nota 28

93. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Ahzab, nota 15

94. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 23

95. Rasail o Masail, volume 2, pp. 321–329

96. Rasail o Masail, volume 2, pp. 329–335

97. Rasail e Masail, 1º volume, pp. 30–32

98. Rasail e Masail, 1º volume, apêndice

99. Rasail e Masail, 3º volume, pp. 164–167

100. Rasail e Masail, 3º volume, pp. 151–154

101. Rasail e Masail, 3º volume, pp. 154–157

102. Rasail e Masail, 3º volume, pp. 157–162

103. Tafhimat (resumo), 1º volume, pp. 158–162

104. Tafhimat (resumo), 1º volume, pp. 98–113

105. Tafhimat, vol. 1, pp. 288–317

106. Tafhimat, vol. 1, pp. 273–281

107. Sunnat ki Aini Haisiyat, pp. 78–85, e Tafhim-ul-Quran, surata An-Nahl, nota 40

108. Sunnat ki Aini Haisiyat, pp. 78–85

109. Islami Risalat, pp. 465–466

110. Tafhim-ul-Quran, surata An-Nisa, nota 89

111. Tafhim-ul-Quran, surata Al-Qiyamah, nota 13

112. Sunnat ki Aini Haisiyat, pp. 93–95

113. A posição jurídica da Sunnah, p. 121

114. A posição jurídica da Sunnah, p. 121–125

115. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Jumu‘ah, nota 14

116. Tafhim al-Qur’an, surata Al-‘Alaq, nota 10

117. Tafhim al-Qur’an, surata Bani Israil, nota 107

118. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Furqan, notas 14–16

119. Tafhim al-Qur’an, surata Al-An‘am, nota 31

120. Tafhim al-Qur’an, surata An-Nahl, nota 40

121. Tafhim al-Qur’an, sura Bani Israil, nota 108

122. Tafhim al-Qur’an, sura Al-A’raf, nota 10

123. Tafhim al-Qur’an, sura Hud, nota 37

124. Tafhim al-Qur’an, sura Al-Mu’minun, nota 26

125. Tafhim al-Qur’an, sura Hud, nota 31

126. Tafhim al-Qur’an, sura Al-Mu’minun, nota 26

127. Tafhim al-Qur’an, sura Ibrahim, nota 21

128. Tafhim al-Qur’an, sura Ibrahim, nota 19

129. Tafhim al-Qur’an, Surata Yasin, nota 107; Bani Israil, nota 95

130. Tafhim al-Qur’an, Surata Yasin, nota 95

131. Tafhim al-Qur’an, Surata Yusuf, nota 79

132. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-An’am, nota 32

133. Tafhim al-Qur’an, Surata Ar-Ra’d, nota 56

134. Tafhim al-Qur’an, Surata Ha-Mim As-Sajdah, nota 19

135. Tafhim al-Qur’an, Surata Az-Zukhruf, nota 30

136. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Furqan, nota 14

137. Tafhimul Quran, surata Al-Furqan, nota 29

138. Tafhimul Quran, surata Al-Anbiya, nota 9

139. Tehrike Azadi-e Hind aur Musalman, vol. 1, pp. 109–115 (O movimento de independência do subcontinente e os muçulmanos)

140. Deen-e-Haq, pp. 3–38

141. Tafhimul Quran, surata Hud, nota 97

142. Tafhimul Quran, surata Hud, nota 69

143. Tajdid wa Ihya-e Din, pp. 13–34

144. Tafhimul Quran, surata Ash-Shura, nota 20; surata Yusuf, nota 60; surata Az-Zumar, nota 3; Quran ki Char Bunyadi Istilaha, pp. 129–143, 52–56 (As quatro terminologias fundamentais do Alcorão)

145. Tafhim al-Qur’an, surata Al-A’raf, nota 87

146. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Kahf, nota 23

147. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Ankabut, nota 22

148. Tafhim al-Qur’an, surata Al-A’raf, nota 58

149. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Baqarah, notas 293–95

150. Tafhim al-Qur’an, surata Sad, nota 43

151. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Mu’minun, nota 39

152. Tafhim al-Qur’an, surata Al-A’raf, nota 90

153. Tafhim al-Qur’an, Surata al-A‘raf, nota 94

154. Tafhim al-Qur’an, Surata al-A‘raf, nota 95

155. Tafhim al-Qur’an, Surata al-A‘raf, nota 96

156. Tafhim al-Qur’an, Surata Bani Isra’il, nota 113

157. Tafhim al-Qur’an, Surata Bani Isra’il, nota 115

158. Tafhim al-Qur’an, Surata Taha, nota 53

159. Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shu‘ara, nota 47

160. Tafhim al-Qur’an, Surata Ta-Ha, nota 59

161. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Naml, nota 21

162. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Mu’minun, nota 43

163. Tafhim al-Qur’an, Surata Maryam, nota 16

164. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Mu’minun, nota 17

165. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Mu’minun, nota 19 (a)

166. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Mu’minun, nota 20

167. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Mu’minun, nota 20 (a)

168. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Mu’minun, nota 21

169. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-A’raf, nota 151–152

170. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-An’am, nota 23

171. Tafhim al-Qur’an, Surata Ta-Ha, nota 116

172. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Ankabut, nota 88

173. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Ankabut, nota 91

174. Tafhim al-Qur’an, Surata Ar-Ra’d, nota 47

175. Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shu’ara, nota 3

176. Tafhim al-Qur’an, Surata Ash-Shu’ara, nota 5

177. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Qamar, nota 1

178. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Muddaththir, nota 36; surata Al-Baqarah, nota 281

179. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Baqarah, nota 282

180. Tafhim al-Qur’an, surata Al-An’am, nota 33

181. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 24

182. Tafhim al-Qur’an, surata Yunus, nota 24

183. Tafhim al-Qur’an, surata Al-Mu’min, nota 32

184. Tafhim al-Qur’an, surata Maryam, nota 52

185. Tafhim al-Qur’an, Surata Ta-Ha, nota 85–86

186. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Kawthar, nota 1

187. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Naba, nota 25

188. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Anbiya, nota 27

189. Tafhim al-Qur’an, Surata Saba, nota 40

190. Tafhim al-Qur’an, Surata Saba, nota 41

191. Tafhim al-Qur’an, Surata Ad-Dukhan, nota 37

192. Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 84

193. Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 106

194. Tafhim al-Qur’an, Surata Hud, nota 106

195. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Nahl, nota 64

196. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Nahl, nota 79

197. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Hajj, notas 124–125

198. Tafhim al-Qur’an, Surata Az-Zumar, nota 62

199. Tafhim al-Qur’an, Surata An-Najm, nota 21

200. Tafhim al-Qur’an, Surata Ar-Ra’d, nota 19

201. Tafhimul Quran, Surata Al-Munafiqun, notas 13 e 14

202. Rasail o Masail, vol. 2, pp. 329–350

203. Tafhimul Quran, Surata Ad-Duha, nota 4

204. Tafhimul Quran, Surata Ad-Duha, nota 5

205. Tafhimul Quran, Surata Al-Jumu’a, nota 6

206. Tafhimul Quran, introdução à Surata Ad-Duha

207. Tafhimul Quran, Surata Alam Nashrah, nota 2

208. Tafhimul Quran, Surata Alam Nashrah, nota 3

209. Tafhimul Qur’an, Surata Alam Nashrah, nota 1

210. Tafhimul Qur’an, Surata Kausar, introdução

211. Tafhimul Qur’an, Surata Kausar, nota 4

212. Tafhimul Qur’an, Surata Kausar, nota 3

213. Tafhimul Qur’an, Surata Kausar, nota 1

214. Tafhimul Qur’an, Surata Lahab, nota 1

215. Tafhimul Qur’an, Surata Bani Israil, nota 81

216. Tafhimul Qur’an, Surata Qamar, nota 24

217. Tafhim al-Qur’an, Surata As-Saffat, nota 94

218. Tafhim al-Qur’an, Surata Sad, nota 12

219. Tafhim al-Qur’an, Surata Ha-Mim As-Sajdah, nota 70

220. Tafhim al-Qur’an, Surata Al-Qasas, nota 108

221. Tafhim al-Qur’an, Surata Bani Isra’il, nota 98

— Fim —