O veredito da consciência

Nas grandes cidades, vemos centenas de fábricas funcionando com o auxílio da energia elétrica. Trens e bondes avançam em alta velocidade. Ao anoitecer, milhares de lâmpadas elétricas se acendem e, no verão, ventiladores elétricos funcionam em quase todas as casas. Contudo, assim como nada disso nos causa espanto, também não surge entre nós qualquer divergência quanto à causa fundamental de esses objetos serem luminosos e dotados de grande velocidade. Por quê?………

A única razão é que podemos ver com os nossos próprios olhos os fios elétricos aos quais essas lâmpadas estão ligados. Também não desconhecemos a localização da usina elétrica à qual esses fios estão conectados. A existência e a presença daqueles que trabalham na usina elétrica estão dentro do alcance do nosso conhecimento. Tampouco nos é desconhecido o engenheiro que exerce autoridade e controle sobre os funcionários. Sabemos ainda que esse engenheiro está plenamente familiarizado com o processo de produção de eletricidade. Ele possui enormes máquinas e, ao acioná-las, produz energia elétrica. Vemos concretamente a existência dessa energia elétrica na luz das lâmpadas, na rotação dos ventiladores, no rápido movimento dos trens e bondes, no funcionamento das rodas e das fábricas, e assim por diante. Portanto, a razão pela qual não surge entre nós qualquer divergência quanto à causa e ao efeito da energia elétrica, ao observarmos diretamente suas ações e manifestações externas, é simplesmente que essa cadeia causal está ao alcance dos nossos sentidos e se apresenta diretamente à nossa percepção. Suponhamos que essas lâmpadas se acendessem, os ventiladores girassem, os trens e bondes se movessem rapidamente, e as rodas e as máquinas gigantescas estivessem em movimento. Mas, se os fios por meio dos quais a energia elétrica chega permanecessem ocultos aos nossos olhos, se a usina elétrica também estivesse fora do alcance dos nossos sentidos, se nada pudéssemos saber sobre os funcionários da usina e se tampouco soubéssemos qual engenheiro dirige essa fábrica com o auxílio do seu conhecimento e da sua força, poderíamos ainda assim permanecer sentados tranquilamente? Então, ao observarmos essas manifestações externas da energia elétrica, não surgiria entre nós divergência quanto à sua causa fundamental? Todos responderão que, nesse caso, não poderia deixar de haver divergência entre nós. Mas por quê? Porque, quando a causa das manifestações externas está oculta, invisível e desconhecida, é perfeitamente natural que surja em nossa mente uma inquietação de espanto, que fiquemos ansiosos e aflitos para desvendar esse mistério desconhecido e que apareçam diferenças de concepções, conjecturas e opiniões sobre o mistério.
Tendo isso em mente, consideremos ainda algumas outras coisas. Suponhamos que, no mundo real, existam precisamente as coisas admitidas acima. Milhares e centenas de milhares de lâmpadas elétricas estão acesas, centenas de milhares de ventiladores giram dia e noite, inúmeros veículos correm velozmente e centenas de milhares de fábricas funcionam sem interrupção. Contudo, não temos qualquer meio ao nosso alcance para saber que energia atua em tudo isso nem de onde provém essa energia; diante dessas atividades e manifestações externas, as pessoas ficam atônitas e estupefatas. Cada indivíduo põe a correr os cavalos da sua inteligência em busca da causa. Alguns dizem: tudo isso é espontaneamente luminoso e se move e funciona por sua própria força. Fora da sua própria essência, não existe nenhuma força capaz de lhes dar luz ou movimento. Outros dizem: foi a combinação e a organização das substâncias de que esses objetos são feitos que fez surgir neles a luz e o movimento. Segundo outros, fora deste mundo material existem certos deuses; alguns deles acendem as lâmpadas elétricas, outros conduzem os bondes e os trens, outros provocam a rotação e o movimento dos ventiladores e põem em movimento as rodas das fábricas e das máquinas. Muitos outros, por sua vez, cansaram-se de refletir sobre o assunto e, por fim, começaram a dizer lamentavelmente que o nosso conhecimento e a nossa razão não podem alcançar realidades revestidas de mistérios sutis e profundos. Só podemos conhecer aquilo que vemos com os nossos próprios olhos e podemos sentir. Não somos capazes de compreender nada além disso. E, quanto ao que não compreendemos, assim como não podemos admitir a sua verdade, também não podemos rejeitá-lo como falso.

Essas pessoas de fato brigam e discutem entre si, mas nenhuma delas possui, para apoiar o próprio pensamento e a própria opinião e contestar o pensamento e a opinião dos outros, qualquer conhecimento definido e livre de dúvidas, além de simples concepções e conjecturas.

Durante essas divergências e diferenças de opinião, chega um homem e diz: tenho em meu poder uma fonte de conhecimento verdadeiro que nenhum de vocês possui. Descobri que todas essas lâmpadas elétricas, ventiladores elétricos, veículos, fábricas e rodas de máquinas estão conectados a numerosos fios finos e ocultos que vocês não podem ver nem sentir. A energia é transmitida a esses fios a partir de uma enorme usina elétrica (power house) e, por isso, manifesta-se diante de vocês na forma de luz e movimento. Nessa usina elétrica estão instaladas grandes máquinas, que são operadas por inúmeras pessoas. Essas pessoas, por sua vez, estão sob a direção de um engenheiro; foi o conhecimento e a força desse engenheiro que estabeleceram todo esse sistema, e é sob a sua direção e controle que todas essas atividades são realizadas.

Esse homem apresenta com toda a firmeza a afirmação acima. As pessoas o qualificam de mentiroso. Todos os grupos se opõem unanimemente a ele. Chamam-no de louco, agridem-no, espancam-no, maltratam-no e expulsam-no de casa. Mas, apesar de todas essas perseguições desumanas e físicas, ele permanece firme em sua afirmação. Não se dispõe a alterar ou corrigir sequer um ponto da sua declaração fundamental, por medo ou intimidação de qualquer espécie, nem por qualquer tentação. Nenhum perigo faz aparecer qualquer fraqueza em sua afirmação. Pelo contrário, cada uma de suas palavras prova que ele possui uma convicção firme na veracidade do que diz.

Depois, chega outra pessoa. Ela também apresenta exatamente a mesma afirmação, com uma alegação semelhante. Em seguida, a terceira, a quarta e a quinta pessoa chegam e, tal como as anteriores, apresentam a sua própria alegação dizendo a mesma coisa. Depois, a chegada de pessoas desse tipo aumenta continuamente. Seu número chega a ultrapassar centenas de milhares, e todas essas pessoas apresentam a mesma espécie de afirmação com alegações desse tipo. Apesar das diferenças de lugar, época e circunstâncias, não se percebe nenhuma diferença em sua mensagem fundamental. Todas dizem: “Dispomos de uma fonte especial de conhecimento que ninguém mais possui.” Todas essas pessoas são igualmente chamadas de loucas. Elas são submetidas a todo tipo de perseguição e opressão. Procura-se encurralá-las e deixá-las sem saída por todos os meios. Utilizam-se todos os recursos para impedi-las de manter suas palavras e reivindicações. Mas todas permanecem firmes e inabaláveis em sua posição. Nenhuma força do mundo consegue deslocá-las sequer um centímetro. A essa determinação, firmeza e honestidade constante somam-se várias outras qualidades e características especiais. Nenhuma delas é mentirosa, ladra, desleal, imoral, opressora ou consumidora do ilícito. Até seus inimigos e opositores são obrigados a reconhecer que o caráter dessas pessoas é extremamente puro, sua natureza extraordinariamente íntegra e virtuosa. Em termos de beleza moral e características de caráter, elas são superiores às demais pessoas e ocupam uma posição distinta. Além disso, não há nelas qualquer sinal de loucura. Pelo contrário, apresentam ensinamentos tão elevados sobre a reforma do caráter, a purificação do coração e a correção dos assuntos materiais da vida, e formulam leis, normas e princípios de tal alcance, que grandes eruditos e pensadores precisam dedicar toda a vida não apenas para elaborar leis semelhantes, mas até mesmo para compreender sua sutileza.

De um lado estão as pessoas de diferentes pensamentos e opiniões que consideram falsas as palavras dessas pessoas e negam sua veracidade; do outro, estão os que fazem essa afirmação unânime. A questão de ambos é apresentada ao tribunal do conhecimento e da razão sãos e corretos, para ser julgada e decidida. Como juiz, a razão deve, antes de tudo, compreender e examinar muito bem a sua própria posição. Deve compreender comparativamente a posição das duas partes e, depois de compará-las, examiná-las e avaliá-las, tomar uma decisão final sobre qual delas é aceitável.

A situação da consciência do juiz é a seguinte: ele não tem sob seu controle nenhuma fonte que lhe permita conhecer corretamente a realidade do assunto. Não possui conhecimento algum da verdadeira realidade última (Ultimate Reality). Diante dele estão apenas as descrições e declarações das duas partes, seus argumentos e provas, sua própria situação e seus sinais e indícios externos. Ele deve examiná-los com o olhar de um profundo investigador da verdade e decidir qual deles pode ser provavelmente mais verdadeiro. Contudo, nem mesmo sob o critério de maior probabilidade de verdade ele pode proclamar uma decisão definitiva. Isso porque, com base em toda a teoria e informação que possui, é extremamente difícil para ele dizer qual é a realidade do assunto. No máximo, pode dar preferência a uma das duas partes. Mas não lhe é possível declarar alguém verdadeiro ou chamar alguém de mentiroso com plena certeza e firme convicção.

A situação daqueles que negam a veracidade da afirmação e da alegação mencionadas é a seguinte: Primeiro: suas concepções sobre a verdadeira realidade última são diferentes. Em praticamente todos os assuntos, observam-se entre eles divergências de opinião em vários aspectos.

Segundo: eles próprios afirmam que não possuem nenhuma fonte especial de conhecimento para conhecer a verdade real. Alguns grupos entre eles alegam apenas que suas estimativas e conjecturas são mais importantes que as estimativas e conjecturas das outras pessoas; além disso, não reivindicam qualquer outra coisa. Mas todos reconhecem unanimemente que suas concepções e conjecturas não passam de meras concepções e conjecturas.

Terceiro: sua fé, confiança e convicção em suas concepções e conjecturas não chegaram a uma firmeza inabalável, e há entre eles muitos exemplos de mudança de opinião. Muitas vezes se viu que uma pessoa sustentava e propagava durante muito tempo uma opinião com plena convicção, mas já no dia seguinte começava a contestar sua antiga opinião e a propagar uma nova. É um fato comprovado que suas opiniões frequentemente mudam à medida que avançam em idade, conhecimento, inteligência e experiência.

Quarto: os que negam a afirmação acima têm, em apoio à sua negação, apenas o seguinte argumento: eles não conseguiram apresentar nenhuma prova específica e incontestável favorável à veracidade de suas próprias palavras. Não lhes foi mostrada aquela “fiação” oculta à qual, segundo alegam, estão ligadas essas lâmpadas elétricas, ventoinhas e outras coisas. A existência da eletricidade também não lhes foi demonstrada por meio de experiência real e observação direta. Não foi organizada nenhuma visita à central elétrica, nem lhes foram mostradas suas fábricas e máquinas. Não se encontraram com os funcionários dali, nem jamais foram apresentados ao engenheiro. Nessas circunstâncias, como podemos aceitar a existência e a veracidade de tudo isso?

A situação daqueles que fazem a afirmação mencionada é a seguinte:

Um: todos os que apresentaram esta reivindicação estão inteiramente de acordo. Há entre eles plena unanimidade em todos os aspectos e significados profundos contidos na reivindicação fundamental.

Dois: a reivindicação unânime e consensual de todos eles é que possuem uma fonte de conhecimento verdadeiro que não está ao alcance das pessoas comuns.

Três: nenhum deles disse que afirmava isso apenas com base em conjecturas e inferências. Todos afirmam, em plena unanimidade, que têm uma relação especial com o engenheiro, que os seus funcionários vão até eles e deles vêm, e que lhes foi dada a oportunidade de visitar a sua fábrica. E tudo o que dizem, dizem com conhecimento livre de dúvidas e firme convicção, não com base em conjecturas e inferências. Quatro: não se pode apresentar sequer um exemplo de alguém entre eles que tenha alterado, nem que fosse minimamente, as suas palavras e reivindicação. Cada um deles disse a mesma coisa desde o início da vida até ao último suspiro.

Cinco: o caráter deles é absolutamente puro. Não há em seu caráter o menor vestígio de mentira, engano, fraude ou deslealdade. Em todos os aspectos da vida, são verdadeiros e sinceros; não há qualquer razão lógica para que todos eles tenham mentido conjuntamente sobre este assunto.

Seis: não se pode apresentar qualquer prova de que, ao fazerem tal reivindicação, tenham procurado obter algum benefício pessoal. Pelo contrário, há provas irrefutáveis de que a maioria deles sofreu dores e perseguições desumanas por causa dessa reivindicação e enfrentou graves perigos e calamidades. Por isso, suportaram sofrimento físico, foram encarcerados, feridos e espancados, exilados e expulsos de seus países. Muitos também foram mortos. Alguns chegaram a ser serrados em dois. Com exceção de poucos, ninguém conseguiu viver uma vida confortável e feliz. Portanto, não se pode acusá-los de terem algum interesse pessoal por trás disso. Ao contrário, permanecerem firmes e inabaláveis em suas palavras e reivindicação em tais circunstâncias adversas prova, sem dúvida, que tinham fé e confiança absolutas na veracidade delas. Era uma fé e confiança tais que nenhum deles estava disposto a renunciar à própria reivindicação nem mesmo para salvar a própria vida.

Sete: tampouco há qualquer prova de que fossem loucos e desprovidos de inteligência. Em todos os aspectos da vida, todos eles demonstraram ser extremamente inteligentes e dotados de bom senso. Até os seus opositores foram frequentemente obrigados a curvar-se diante de seu conhecimento e inteligência. Nessas circunstâncias, como se pode acreditar que fossem loucos justamente neste assunto? É especialmente necessário refletir sobre o que era esse assunto. Ele se tornou, para eles, uma questão de vida ou morte. Por causa dele, lutaram contra o mundo durante anos. Esse era o princípio fundamental de seu ensinamento racional, cuja inteligência até os adversários foram obrigados a reconhecer.

Oito: eles próprios também não disseram: podemos fazer-vos encontrar o engenheiro ou os funcionários da usina elétrica, mostrar-vos a sua fábrica secreta, ou provar a veracidade da nossa reivindicação por meio da experiência prática e da observação. Eles próprios chamam todas essas coisas de “invisíveis”. Dizem: depositai em nós a vossa confiança e fé, e aceitai tudo o que estamos dizendo.

Depois de refletir sobre a credibilidade das duas partes e sobre as declarações de ambas, o tribunal da razão profere a sua decisão:

Ambas as partes investigaram, por meio de alguns sinais, indícios e fenômenos externos, as causas internas de seu funcionamento, e ambas expuseram suas próprias doutrinas. À primeira vista, as doutrinas de ambas parecem iguais e «do mesmo tipo» sob certo aspecto. Em primeiro lugar, segundo qualquer uma das partes, não há «impossibilidade» do ponto de vista da razão. Isto é, à luz das regras e princípios da razão, não se pode dizer, acerca de nenhuma dessas opiniões, que seja absolutamente impossível que ela seja correta e verdadeira. Em segundo lugar, nenhuma das partes pode provar a veracidade e a exatidão de sua posição por meio da experiência ou da observação prática. Assim como os partidários da primeira parte não conseguiram apresentar, em apoio de sua posição, nenhuma prova científica capaz de obrigar cada pessoa a acreditar que ela é verdadeira, tampouco a segunda parte consegue apresentar tal prova, nem afirma ser capaz de fazê-lo. Contudo, após uma reflexão e uma investigação mais profundas, alguns fatos se tornam claramente evidentes; e, com base neles, a «doutrina» da segunda parte merece ser considerada digna de preferência.

Primeiro: nenhuma outra doutrina foi divulgada e defendida em favor de sua própria validade e apoio por um número tão grande de pessoas inteligentes, de natureza e caráter puros, verazes, com tamanha veemência, convicção e certeza.

Segundo: pessoas de tal natureza também pertencem a diferentes épocas e lugares. Elas afirmaram coletivamente que todas possuíam uma fonte extraordinária de conhecimento e que, por meio dessa fonte, haviam conhecido as causas internas dos sinais externos. Somente isso já nos leva a reconhecer a veracidade de sua reivindicação. Especialmente porque não há qualquer divergência entre seus relatos acerca dos conhecimentos e informações que possuíam. Nada do que divulgaram sobre esses conhecimentos e informações contém impossibilidade racional. Também não há razão para considerar racionalmente impossível que uma pessoa possua algum conhecimento e inteligência extraordinários, inexistentes em qualquer outra pessoa.

Terceiro: mesmo considerando a natureza dos sinais externos, parece natural que a doutrina da segunda parte seja a correta. Com efeito, lâmpadas elétricas, ventiladores, veículos, fábricas e semelhantes não podem iluminar-se e mover-se por si mesmos. Se assim fosse, iluminar-se e mover-se estaria sob seu próprio arbítrio. E é evidente que não é assim. Do mesmo modo, sua luz e seu movimento não são resultado de sua constituição material, pois, quando não estão em movimento nem iluminados, sua constituição material continua existindo da mesma forma. Também é evidente que eles não estão sujeitos a forças diferentes, pois é algo habitualmente observado que, quando as lâmpadas não estão acesas, os ventiladores também param, os bondes deixam de funcionar e as fábricas igualmente não operam. Portanto, todas as doutrinas apresentadas pela primeira parte para explicar os sinais externos são inaceitáveis à luz do conhecimento, da razão e do discernimento. A afirmação que parece mais correta e precisa é que uma força está ativa em todos esses sinais e que seu princípio diretor está nas mãos de um Ser «onisciente, poderoso e inteligente», que emprega essa força nos diversos sinais segundo uma «ordem determinada».

Os céticos, porém, dizem que não podemos aceitar como verdadeira nem rejeitar como falsa uma afirmação que não compreendemos. O juízo racional não pode aceitar isso como verdade. Pois a verdade real de uma afirmação não depende de ela ser compreensível para aqueles que a ouvem. A existência de numerosas testemunhas confiáveis é, por si só, suficiente para que reconheçamos sua realidade. Se algumas pessoas honestas e confiáveis nos dissessem: «Vimos pessoas, nos países ocidentais, voando pelos ares sentadas em veículos de ferro, e, estando em Londres, ouvimos com nossos próprios ouvidos um discurso vindo da América», nós verificaríamos apenas se essas pessoas não são mentirosas ou zombeteiras e se não há algum interesse pessoal ligado ao que afirmam. Se víssemos que um grande número de pessoas verazes e inteligentes afirma isso sem qualquer divergência e assumindo plena responsabilidade, então certamente aceitaríamos o fato com plena convicção. Mesmo que não compreendêssemos como veículos de ferro podem voar pelos ares e como o som de um país pode ser ouvido em outro, a milhares de quilômetros de distância, sem qualquer meio material, acreditaríamos nisso.

Esse é o veredito da razão sobre o «caso» em questão. Contudo, o estado de verdadeira crença e convicção do coração, chamado īmān na terminologia islâmica, não pode ser obtido por meio desse veredito. Para isso, é necessária uma sensação de sincera devoção; é preciso entregar-se de coração. É necessário que surja das profundezas do íntimo uma voz que ponha fim, para sempre, a todos os estados de falsidade, hesitação, dúvida e indecisão. Ela declarará claramente que as opiniões, conjecturas, pensamentos e imaginações das pessoas são errados e nulos. Aquilo que as pessoas verazes apreendem com base em conhecimento preciso e percepção interior imaculada é a verdade; isso é o correto.

A profecia de Muhammad (S) à luz da razão

Por alguns instantes, feche os olhos físicos, abra os olhos da imaginação e lance um olhar sobre as condições do mundo de mil e quatrocentos anos atrás! Pense em que tipo de mundo era aquele. Eram extremamente poucos os meios e recursos para a troca de pensamentos entre as pessoas. As oportunidades e facilidades de estabelecer comunicação entre as nações e os países eram extremamente limitadas. O conhecimento humano era muito escasso. O pensamento e a mentalidade eram extremamente estreitos. No campo do pensamento, a superstição e a barbárie exerciam uma influência avassaladora. Na escuridão da ignorância, a luz do conhecimento era extremamente fraca e apagada, e expandia-se com enorme dificuldade, dissipando aquela escuridão envolvente. Naquele mundo não havia sistema telegráfico, nem telefone, rádio, trem ou avião. Em lugar algum havia máquinas de impressão ou editoras. Não havia instituições de ensino, nem abundância de escolas, madraças ou colégios. Não eram publicados jornais ou revistas, nem eram escritos e divulgados livros em grande quantidade. Mesmo o conhecimento de um erudito daquela época, sob muitos aspectos, era muito limitado em comparação com o de uma pessoa comum da época atual. Até mesmo uma pessoa da classe alta daquele tempo era menos civilizada do que um trabalhador braçal dos dias de hoje. Uma pessoa altamente instruída daquele período era mais supersticiosa do que uma pessoa supersticiosa da época atual. Aquilo que hoje todos, grandes e pequenos, sabem, naquela época era difícil de conhecer mesmo após anos de trabalho incessante, investigação e pesquisa. Para obter conhecimentos que hoje se encontram espalhados por todo o ambiente como a luz e que toda criança pode adquirir assim que desperta para a consciência, era necessário, naquela época, viajar centenas de milhares de quilômetros. As pessoas dedicavam a vida inteira à sua investigação. Aquilo que hoje é chamado de superstição, naquela época fazia parte do domínio do conhecimento profundo e sutil. As ações que atualmente são consideradas indesejáveis e bárbaras eram, naquele tempo, atividades cotidianas das pessoas. Os meios e métodos que hoje provocam repulsa no coração humano não eram apenas lícitos na moralidade daquela época; era absolutamente inconcebível que pudesse existir algum método ou meio contrário a eles. A atração das pessoas daquele tempo pelo extraordinário era excessiva. Se algo não fosse sobrenatural, anormal ou excepcional, não era reconhecido naquela época como verdadeiro, grandioso e sagrado. Além disso, as pessoas daquele tempo consideravam-se tão inferiores e humilhadas que nem sequer conseguiam conceber que um ser humano pudesse alcançar Allah e que um ser que tivesse alcançado Allah pudesse ser humano.

Naquela época de trevas, havia na Terra um pequeno país onde essa escuridão se tornara ainda mais concentrada. Entre os países considerados civilizados segundo os padrões de civilização e cultura daquele tempo, a Arábia era diferente e isolada de todos os demais. Ao seu redor, na Pérsia, em Roma e no Egito, podiam ser encontrados alguns sinais de conhecimento, ciência, civilização e cultura. Mas o infinito mar de areia mantinha a Arábia completamente separada deles. Os comerciantes árabes viajavam durante meses por esse caminho desértico, em caravanas de camelos, para negociar nesses países e retornavam à sua pátria após trocar suas mercadorias. Não traziam consigo para seu país nem o menor vestígio do conhecimento e da civilização dessas terras. Na Arábia não havia instituições de ensino nem bibliotecas. Assim como não havia entre as pessoas qualquer prática de adquirir conhecimento, tampouco havia interesse ou curiosidade pelas ciências, pelo saber e pelas artes. Em todo o país, apenas um punhado de pessoas sabia ler e escrever um pouco. Mas isso não podia, de modo algum, ser considerado suficiente para familiarizá-las com o conhecimento e a ciência daquela época. Elas possuíam uma língua elevada e bem estruturada, dotada de extraordinária capacidade para expressar pensamentos elevados. Ela também apresentava refinado gosto literário e beleza. Contudo, pelo que podemos observar do que restou de sua literatura, parece que o alcance de seu conhecimento era extremamente limitado. No campo da civilização e da cultura, sua posição era extremamente inferior. Seus pensamentos estavam repletos de superstições cegas. Seus costumes e hábitos eram bárbaros e abomináveis. Sua concepção de moralidade era extremamente ridícula.

Na terra dos árabes não havia um sistema de governo organizado, nem regras ou disciplina. Cada tribo era independente, absoluta e autocrática. Ali, obedecia-se apenas à “lei da selva”. Quando surgia a ocasião e a oportunidade, uma pessoa matava outra e se apoderava de seu dinheiro e de seus bens. Para os árabes, estava além da compreensão por que não deveriam matar alguém que não tivesse surgido de sua própria tribo, nem tomar todos os seus bens e riquezas.

As ideias que tinham sobre moralidade, civilização e cultura eram extremamente simples, imaturas e rudimentares. Não conheciam nem um pouco a diferença entre puro e impuro, belo e feio, bom e mau. Sua vida era marcada por costumes repugnantes e práticas bárbaras. Adultério, jogos de azar, álcool, pilhagem, assassinato, derramamento de sangue e outros atos abomináveis eram acontecimentos cotidianos de suas vidas. Não sentiam o menor constrangimento em ficar completamente nus diante de outras pessoas. Até mesmo as mulheres daquele país circundavam a Caaba despidas. Enterravam vivas, com as próprias mãos, as filhas que tinham, motivados pelo pensamento ignorante de que, se a menina continuasse viva, teriam de transformar alguém em seu “genro”. Após a morte do pai, chegavam até a casar-se com a madrasta. Nem sequer conheciam as regras elementares de civilidade relativas à alimentação, à bebida, ao vestuário e à pureza.

Do ponto de vista religioso, os árabes também participavam igualmente das ignorâncias e dos desvios nos quais o mundo estava mergulhado naquela época. O culto aos ídolos, o culto às almas dos mortos, o culto aos astros — todos os inúmeros tipos de culto então praticados no mundo, exceto a adoração e o serviço a um único Allah — eram amplamente praticados naquele país. Eles não possuíam nenhum conhecimento correto sobre os profetas dos tempos antigos, nem sobre os ensinamentos e modelos que haviam transmitido. Sabiam, naturalmente, que Ibrahim (a.s.) e Ismail (a.s.) eram seus antepassados, mas não tinham a menor ideia de qual era a religião desses grandes antepassados nem de quem eles adoravam e a quem serviam. As histórias das antigas nações, como ‘Ad e Samud, também não lhes eram desconhecidas; contudo, nos relatos mencionados pelos historiadores árabes, não se encontra o menor vestígio dos ensinamentos e do modelo de vida de Hazrat Saleh (a.s.) e Hazrat Hud (a.s.). Por intermédio dos judeus e dos cristãos, muitas informações sobre os profetas da linhagem de Israel haviam chegado até eles. Mas é muito fácil compreender de que natureza eram essas informações a partir das lendas israelitas mencionadas pelos diversos comentaristas do Alcorão. Basta ler esses relatos para compreender que tipo de pessoas eram esses profetas e quão baixa e degradada era a concepção que tinham sobre a profecia.

Foi justamente nessa época que nasceu um homem desse tipo. Ainda na infância, ficou privado da sombra afetuosa de seus pais e de seu avô. Por isso, nem sequer teve a oportunidade de receber a pouca instrução e educação que era possível obter mesmo num país tão subdesenvolvido. À medida que cresceu em idade e conhecimento, começou a pastorear cabras junto com os meninos e rapazes de seu bairro. Na juventude, dedicou-se ao comércio. Sua convivência, seus deslocamentos e suas relações eram todos com pessoas árabes do tipo mencionado anteriormente. Não teve sequer o menor contato com a escrita, os estudos ou a educação, pois na Arábia daquele tempo praticamente não havia pessoas instruídas. É verdade que teve algumas oportunidades de viajar para fora da Arábia, mas essas viagens estrangeiras limitaram-se à Síria. Sua viagem foi semelhante às realizadas pelas caravanas de comerciantes árabes daquela época. Embora durante essa viagem tenha podido ver em alguns lugares certos vestígios de conhecimento e civilização e encontrado algumas pessoas instruídas, é absolutamente claro que o caráter de alguém não pode ser formado por observações dispersas e encontros temporários desse tipo. Sob a influência de tais encontros, ninguém poderia desenvolver um caráter tão distinto e diferente de todo o seu ambiente. Tampouco seria possível a alguém adquirir, em tais oportunidades, tamanha educação que permitisse a um analfabeto iletrado tornar-se o “líder” de todo o mundo e de todas as épocas, independentemente de país ou tempo. Mesmo que tivesse adquirido algum nível de conhecimento com pessoas de fora, naquela época não havia educação propriamente dita em lugar algum do mundo. Não existia então sequer uma noção de religião, moralidade, civilização e cultura, não se encontrava em parte alguma um modelo de caráter humano, e ele não dispunha de nenhum meio para adquirir tudo isso.

É preciso refletir tendo diante de nós não apenas o ambiente da Arábia, mas o ambiente do mundo inteiro daquela época. O homem em questão nasceu entre pessoas com as quais passou sua infância e seus primeiros anos, entre as quais foi criado e entrou na juventude, com as quais convivia e circulava, e com as quais realizava, dia e noite, suas transações e atividades. Ainda assim, desde o início da vida, formou-se completamente distinto dessas pessoas em seus hábitos e caráter. Ele jamais mentia, e toda a nação daquela época testemunhava sua honestidade e veracidade. Nem mesmo seu pior inimigo pôde apresentar contra ele qualquer acusação de mentira. Ele não falava palavras obscenas com ninguém, e ninguém jamais o ouviu pronunciar obscenidades ou insultos. Mantinha boas relações com as pessoas, mas nunca usava linguagem rude nem brigava ou provocava conflitos com ninguém. Em sua voz, em vez de palavras duras, sempre se ouviam palavras doces. Por isso, qualquer pessoa que o encontrava sentia-se profundamente atraída por ele. Nunca tratou ninguém mal nem teve má conduta com quem quer que fosse. Não violou nem usurpou o direito de ninguém. Apesar de negociar durante anos, nunca tomou injustamente sequer o valor de um centavo de ninguém. Todos aqueles com quem mantinha relações comerciais e profissionais confiavam plenamente em sua lealdade e integridade. A nação inteira lhe conferiu o título de “Al-Amín”. Até mesmo pessoas do lado inimigo confiavam-lhe seus bens valiosos, e ele os protegia integralmente. Enquanto quase todas as pessoas ao seu redor eram desavergonhadas, ele era tão recatado que, desde o despertar de sua consciência, ninguém jamais o viu nu. Em meio a um ambiente de pessoas sem caráter, era o único homem de caráter e natureza pura, que jamais se envolveu em qualquer ato injusto ou ilícito. Não bebia álcool nem participava de jogos de azar. Entre pessoas imundas, era tão civilizado que detestava e evitava toda forma de incivilidade e impureza. Pelo contrário, limpeza e decoro manifestavam-se em cada uma de suas ações. Entre pessoas de coração de pedra, era extremamente compassivo, compartilhando a dor e o sofrimento de todos. Ajudava órfãos e viúvas. Nunca causava qualquer espécie de dano a ninguém. Pelo contrário, aceitava de bom grado todo tipo de sofrimento em benefício dos outros. Entre pessoas de nível animalesco, era um homem firmemente amante da paz; sofria ao ver os membros de sua própria nação envolvidos em disputas, conflitos e derramamento de sangue. Mantinha-se extremamente afastado das lutas e contendas tribais. Tomava a iniciativa para promover a reconciliação e a paz. Entre os adoradores de ídolos, era um homem de natureza sã e inteligência límpida; não considerava digno de adoração nada nos céus ou na terra. Não inclinava a cabeça diante de nenhuma criatura e jamais se dispunha a comer as oferendas apresentadas diante dos ídolos. Seu coração era espontaneamente puro da impureza do shirk e da adoração da criação.

Em tal ambiente, esse homem se destacava como uma lâmpada brilhante em meio a uma escuridão impenetrável, ou como um diamante cintilando entre um amontoado de pedras.

Depois de viver durante cerca de quarenta anos uma vida tão pura e íntegra, uma transformação revolucionária teve início subitamente em sua vida. Ele ficou assustado e consternado ao ver a escuridão que cobria todos os lados. Desejava escapar do terrível mar de ignorância, falta de caráter, imoralidade, desordem, shirk e adoração de espíritos que o cercava. Nada naquele ambiente parecia estar de acordo com sua natureza. Abandonou tudo, rompeu com tudo e começou a permanecer em cavernas nas montanhas, longe das áreas habitadas. Passava vários dias e noites seguidos em um ambiente de absoluta solidão e plena tranquilidade. Durante esse período, jejuava e tornava sua alma, seu coração e sua mente cada vez mais puros e aperfeiçoados. Ao mesmo tempo, continuava a refletir e investigar profundamente. Buscava uma luz resplandecente por meio da qual pudesse dissipar a escuridão que cobria todos os lados. Também desejava adquirir uma força com a qual pudesse demolir e transformar aquele mundo decadente, criando um mundo novo.

De repente, teve início uma grande transformação em sua condição. Subitamente, começou a sentir em seu coração e em sua mente uma luz extraordinária, completamente inédita. Também recebeu uma força que jamais possuíra antes. Saiu da caverna da montanha e voltou para as áreas habitadas. Começou a dirigir-se às pessoas, dizendo: “Os ídolos diante dos quais vos inclinai não têm valor algum; abandonai isso. Nenhum ser humano, nenhuma árvore, nenhuma pedra, nenhum espírito e nenhum planeta é digno de adoração; não se deve inclinar a cabeça diante de ninguém. Eles também não são dignos disso. Não se pode servir, escravizar-se, obedecer nem submeter-se às ordens de qualquer uma dessas coisas. Esta terra, a lua e o sol, as estrelas, o céu e tudo o que existe na terra são criação de um único e grandioso Allah. Ele é o Criador de vós e dessas coisas. Ele é o Provedor, o Doador da vida e da morte. Portanto, inclinai a cabeça somente diante d’Ele.”

Roubo, pilhagem, derramamento de sangue, assassinato, injustiça, opressão, fornicação e adultério — todas as práticas às quais vos dedicais dia e noite — são pecados; abandonai-as. Allah não aprova nada disso. Dizei a verdade, sede justos, não mateis ninguém e não tomeis os bens de ninguém. Aquilo que receberdes, recebei-o com honestidade e justiça. E aquilo que derdes, dai-o de acordo com a justiça. Todos vós sois seres humanos, não inferiores; ninguém nasceu neste mundo com a glória da honra. Honra e dignidade não são determinadas pela linhagem ou pela família. Somente a obediência a Allah, a prática da verdade e a pureza são o único critério. Aquele que teme Allah, segue a verdade e possui caráter puro é um ser humano elevado. E aquele que não é assim nada é. Depois da morte, todos vós tereis de comparecer diante de Allah. Cada um de vós terá de prestar contas a Allah por seus próprios atos. E esse Allah é Aquele que tudo vê e tudo sabe. Não podeis ocultar-Lhe coisa alguma. O registro de vossas ações na vida será apresentado diante d’Ele exatamente como é, sem qualquer redução, acréscimo ou alteração. E será com base nesse registro que se decidirá o vosso destino. Diante do Grandioso Allah, o verdadeiro Juiz justo, nenhuma intercessão terá eficácia, nem haverá oportunidade de oferecer suborno. Naquele dia, a honra da linhagem de ninguém terá qualquer valor. Ali, o valor estará somente na fé e nas boas obras. Aquele que possuir esse capital naquele dia poderá entrar no Paraíso; mas aquele que nada disso possuir fracassará e será lançado no Inferno. Foi com essa mensagem que ele saiu da caverna da montanha.

A nação ignorante começou a opor-se a ele. Insultavam-no e começaram a falar mal dele. Levantavam as mãos para agredi-lo. Não por um dia ou dois, mas durante treze anos seguidos, ele foi submetido a severos abusos e perseguições. Por fim, foi expulso de sua terra natal. E eles não se contentaram apenas em expulsá-lo. Mesmo no lugar onde ele se refugiou depois de deixar sua terra natal, continuaram a persegui-lo de várias maneiras. Incitaram todo o território árabe contra ele. Durante longos oito anos, permaneceram em guerra contra ele. E ele suportou pacientemente todos esses abusos e perseguições, mas não se desviou nem por um instante de seu ideal e de sua missão.

Mas por que essa nação se tornou sua inimiga? Havia alguma disputa com eles por causa de dinheiro ou de mulheres? Havia algum caso de derramamento de sangue ou assassinato? Ele lhes havia pedido alguma coisa mundana? ……….. Não, nada disso. A causa fundamental de toda a hostilidade era uma só: ele os convidava a aceitar a adoração de um único Allah e a observar a piedade e a justiça. Por que ele cometeu esse delito? Por que pregou contra a idolatria, o politeísmo e as más ações? Por que atacou a profissão dos adoradores de ídolos e dos sacerdotes? Por que quis pôr fim à autoridade dos chefes e líderes? Por que quis destruir da sociedade as barreiras de separação? Por que proclamou que o fanatismo e a hostilidade de linhagem e de tribo eram ignorância? Por que quis destruir o sistema social que vinha sendo seguido desde os tempos antigos? Na verdade, aos olhos da nação, todas essas palavras eram contrárias às tradições ancestrais e aos costumes nacionais. Por isso, o povo pediu-lhe que abandonasse essa missão e ameaçou tornar sua vida perigosa caso não o fizesse.

Surge então a pergunta: por que ele suportou tal perseguição? O povo estava pronto para lhe entregar o reinado do país. Estava disposto a empilhar riquezas a seus pés. Impuseram apenas uma condição: que ele parasse de propagar seu ideal. Mas ele desprezou tudo isso. Para propagar seu ideal, mostrou-se disposto a suportar apedrejamentos e toda espécie de injustiça e perseguição. Mas por quê? Com que finalidade fez isso? Havia algum interesse pessoal seu no fato de as pessoas se tornarem obedientes a Allah, virtuosas e de bom caráter? E seria esse interesse mais importante do que a irresistível sedução do poder real, da liderança e autoridade, da riqueza e do conforto? Seria esse interesse tão grandioso que, por sua causa, um homem pudesse mergulhar em intenso sofrimento físico e inquietação mental e suportá-los pacientemente durante longos vinte e três anos? Isso é realmente digno de reflexão. Um homem, não por qualquer interesse próprio, mas com o objetivo de promover o bem-estar espiritual do povo, mostrou-se disposto a sofrer dores mortais. Pode-se conceber ideal mais elevado de abnegação, altruísmo e sacrifício? Deve-se considerar também que aqueles pelo bem dos quais ele empreendia todos esses esforços eram precisamente os que o feriam com pedras, o insultavam com palavras impronunciáveis, o expulsavam e exilavam de sua terra natal e não deixavam sequer de persegui-lo em terras estrangeiras. Apesar de tudo isso, ele não deixou nem por um instante de desejar o bem deles. Em segundo lugar, poderia um mentiroso suportar perigos, sofrimentos e calamidades desse tipo perseguindo algo sem fundamento? Poderia uma pessoa guiada apenas por conjecturas e suposições manter-se tão firme e inabalável por causa de uma ideia e suportar, por ela, perigos do tamanho de montanhas? É universalmente sabido quão terríveis perigos recaíram sobre o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), como todo o país se levantou contra ele e como grandes exércitos se prepararam para destruí-lo. Ainda assim, ele não se dispôs a afastar-se nem um pouco do caminho de sua missão. Essa firmeza e constância demonstram espontaneamente que uma convicção ilimitada sobre a verdade de seu ideal havia nascido em seu coração. Se tivesse surgido em sua mente a menor dúvida a esse respeito, jamais teria conseguido permanecer de pé durante vinte e três anos consecutivos diante de perigos e adversidades sucessivos. Essa é apenas uma das perspectivas para observar a situação do homem em questão. O outro aspecto de sua situação é ainda mais surpreendente.

Até os quarenta anos, ele foi um homem comum, como os demais árabes. Durante esse período, ninguém o conheceu como um grande orador ou como um pregador extraordinário. Ninguém o ouvira falar com inteligência, conhecimento e sabedoria. Ninguém o vira falar sobre teologia, filosofia moral, direito e ciência política, economia, sociologia ou outros assuntos semelhantes. Ninguém ouvira dele sequer uma palavra sobre Allah, os anjos, os Livros celestiais, os profetas e mensageiros, os diversos povos do passado, o Dia da Ressurreição, a vida futura, o Paraíso e o Inferno. Embora desde o início ele fosse um homem extremamente puro, de caráter elevado e independente. Até os quarenta anos, porém, não se observara em sua pessoa nada de extraordinário que permitisse alimentar alguma esperança quanto à sua vida futura. Até então, as pessoas o conheciam apenas como um homem educado, de poucas palavras, pacífico e inofensivo. Mas, depois dos quarenta anos, quando trouxe da caverna da montanha uma mensagem inédita, ele passou a ser visto como um homem extraordinário.

Depois, começou a transmitir uma mensagem maravilhosa. Ao ouvi-la, todos os árabes ficaram admirados e estupefatos. Seu impacto era tão intenso e profundo que até seus inimigos mortais tinham medo de escutá-la, pois sabiam que, ao ouvi-la, ela tocaria profundamente seus corações. A beleza de sua linguagem, a excelência de sua composição e sua eloquência eram extraordinárias e incomparáveis. Ela apresentou um claro desafio a toda a nação árabe e aos grandes poetas, literatos e oradores já consagrados, declarando repetidamente: [se vocês não acreditam que este discurso é a Palavra de Allah e o consideram apenas uma composição de Muhammad (que a paz esteja com ele), então, unindo seus esforços, componham e apresentem uma única surata semelhante a ele]. Contudo, ninguém se apresentou com a ousadia de enfrentar esse discurso. De fato, a nação árabe jamais havia ouvido antes um discurso tão incomparável.

Foi então que ele surgiu, de modo completamente inesperado, como um incomparável filósofo, reformador social e moral, hábil sociólogo, poderoso legislador, juiz de alto nível e inigualável comandante militar. As palavras sábias e racionais proferidas por esse habitante analfabeto do deserto eram tais que ninguém havia sido capaz de dizê-las antes, nem jamais seria capaz de dizê-las no futuro. Esse homem iletrado começou a discursar sobre os temas mais importantes e complexos da teologia. Começou a apresentar numerosos discursos valiosos e profundos sobre a ascensão e a queda da humanidade ao longo da história. Passou a examinar as atividades dos reformadores sociais da antiguidade, a criticar as religiões do mundo e a resolver os conflitos e disputas entre diferentes povos. Começou a ensinar às pessoas elevados ideais morais, cultura, civilização e organização. Começou a elaborar leis sobre as normas sociais, a economia e as relações mútuas e internacionais; e foi capaz de formular leis cuja lógica intrínseca, beleza e benefício exigiram dos eruditos, sábios e inteligentes do mundo profunda reflexão, pesquisa e uma vida inteira de esforço e experiência para serem compreendidos. E, quanto mais aumentarem o conhecimento e a experiência humanos, mais sua lógica intrínseca e sua beleza serão reveladas e desenvolvidas. Ele era um comerciante pacifista, silencioso e tranquilo, que jamais empunhou uma espada em toda a sua vida. Nunca recebeu educação ou treinamento militar. Durante toda a vida, esteve presente em uma única batalha, apenas como espectador. E justamente esse homem tornou-se um guerreiro extraordinário. Mesmo nas batalhas mais difíceis, jamais recuou um centímetro de sua posição determinada. Não era apenas um soldado: tornou-se verdadeiramente um comandante militar sem igual. Em apenas nove anos, conquistou a Arábia. Tornou-se um comandante de guerra dotado de uma capacidade intelectual extraordinária, sob cuja influência, por meio da doutrina e das atividades militares que organizou, a desamparada nação árabe conseguiu, em apenas alguns anos, derrubar duas grandes potências militares do mundo daquela época.

Ele era um homem extremamente desapegado, impassível e silencioso. Até os quarenta anos, não se observou nele qualquer inclinação ou atividade política. De repente, surgiu como um hábil reformador e dirigente social, de tal modo que, em vinte e três anos, organizou as tribos dispersas, guerreiras, extremamente ignorantes, corruptas, incivilizadas, antissociais e eternamente inclinadas a conflitos internos, que habitavam um deserto de doze milhões de milhas quadradas, sob uma única religião, um único sistema de vida, uma única cultura e civilização, um único Estado e uma única ordem jurídica e administrativa indivisa. Para realizar essa obra grandiosa, não contou com qualquer ajuda dos modernos trens, telégrafos, telefones, rádios, televisores ou máquinas de impressão.

Além disso, transformou radicalmente todo o pensamento e a ideologia deles, modificando seu caráter moral. Refinou seu modo de vida rude e o formou segundo ideais elevados. Transformou sua barbárie em uma civilização de bom gosto, e sua falta de caráter e imoralidade em pureza, taqwa e nobre caráter. Sua intransigência e anarquia foram transformadas em uma incomparável e absoluta obediência à lei e lealdade ao líder. A nação árabe havia permanecido estéril por longo tempo. Durante vários séculos, nenhum personagem notável havia surgido entre aquele povo. Ele moldou essa nação de tal maneira que, depois disso, milhares de grandes personalidades surgiram em seu seio e espalharam-se por toda parte para ensinar às sociedades do mundo a religião, a moralidade, a civilização, a cortesia e a cultura.

Mas ele não realizou essa obra grandiosa por meio de opressão e perseguição, tirania e injustiça, coerção e violência, engano e fraude; realizou-a por meio de um caráter puro e imaculado, de uma cortesia e educação capazes de conquistar os corações, e de pensamentos e ensinamentos que dominavam as mentes. Por meio de seu caráter, transformou até o mais ferrenho inimigo em amigo. Com misericórdia, benevolência, compaixão e magnanimidade, enterneceu o coração das pessoas. Governou o Estado com justiça e equidade. Jamais se desviou sequer minimamente da verdade e da retidão. Mesmo durante guerras violentas, nunca enganou ninguém nem rompeu uma promessa. Jamais oprimiu sequer seus inimigos mortais. Aqueles que tinham sede de seu sangue, que o haviam ferido com pedradas, expulsado de sua terra, incitado toda a nação árabe contra ele e até, por vingança e hostilidade, mastigado o fígado de seu tio, depois de vencê-los, ele perdoou a todos. Jamais buscou vingança por si mesmo. Além disso, era a personificação incomparável do autocontrole e do desprendimento. Mesmo quando era o soberano absoluto de todo o país, continuava tão pobre quanto antes. Vivia em uma cabana de folhas de palmeira e dormia sobre uma esteira. Vestia roupas grosseiras. Alimentava-se como os necessitados. Permanecia sem comida e faminto. Ficava de pé durante várias noites consecutivas em adoração a Allah. Servia os pobres e os aflitos. Não hesitava em trabalhar como um operário comum. Até o fim de sua vida, não surgiu nele o menor vestígio de arrogância imperial, orgulho de superioridade ou soberba humana. Relacionava-se com as pessoas como um homem comum e compartilhava de suas dores e dificuldades. Quando se sentava junto do povo, era muito difícil para os desconhecidos identificar quem presidia a reunião, quem era o chefe ou quem era o rei do país. Apesar de tão grandiosa personalidade, tratava as pessoas humildes como alguém do mesmo nível que elas. Com todos os esforços e sacrifícios de sua vida, não deixou nada para si. Tudo o que lhe restou e tudo o que abandonou, consagrou à nação. Não impôs a seus seguidores qualquer direito em favor de si próprio, de seus filhos ou de seus descendentes. Chegou mesmo a privar seus filhos e descendentes do direito de receber zakat. Caso contrário, haveria o grande risco de que todo o zakat dos seus seguidores fosse doado exclusivamente a seus filhos e descendentes.

A lista das realizações e contribuições de uma personalidade tão grandiosa não termina aqui. Para formar uma concepção correta de sua importância, é necessário lançar um olhar amplo sobre a história mundial. Esse olhar deixará claro que esse pastor iletrado do deserto árabe, nascido na era de trevas de mil e quatrocentos anos atrás, foi, na realidade, o fundador dos alicerces da era moderna e o líder de todo o mundo. Ele não é apenas o líder daqueles que o aceitaram como líder; é também o líder daqueles que não o seguem. Seus opositores não conseguem perceber quão profundamente a liderança daquele contra quem proferem longos discursos se incorporou aos seus pensamentos e crenças, ao seu modo de vida, aos seus métodos de trabalho e às correntes de pensamento da era moderna. Ele desviou o curso de todas as concepções e crenças do mundo da superstição, do sobrenatural, da idolatria e do ascetismo, conduzindo-o ao racionalismo, ao julgamento realista e a um materialismo orientado pela taqwa. Em um mundo materialista e obcecado por milagres concretos, foi ele quem criou nas pessoas o gosto por compreender os milagres da razão, do conhecimento e do talento, e por reconhecê-los como o único critério da verdade. Ele abriu os olhos daqueles que buscavam sinais do poder de Allah apenas na ocorrência de acontecimentos extraordinários e os habituou a procurar sinais da existência de Allah nos fenômenos naturais (natural phenomena). Foi ele quem conduziu aqueles acostumados a deixar correr os cavalos da imaginação, afastando-os da conjectura e da especulação (speculation) e encaminhando-os ao uso da razão e do conhecimento, à reflexão, à pesquisa e à observação. Foi ele quem ensinou à humanidade os limites e as fronteiras próprias da razão e do conhecimento, das percepções sensoriais e das percepções do coração. Estabeleceu harmonia entre o materialismo e o espiritualismo. Estabeleceu uma profunda ligação entre o Dīn e o conhecimento e a ação, e entre o conhecimento e a ação e o Dīn. Com o poder da religião, criou no mundo uma mentalidade científica e, a partir da mentalidade científica, fez surgir uma religiosidade pura e genuína. Foi ele quem demoliu todo o fundamento do shirk e da adoração da criação. Pelo poder do conhecimento, estabeleceu a crença no tawhid sobre bases tão sólidas que os mushriks e os idólatras foram obrigados a adotar a concepção da religião e do tawhid. Foi ele quem transformou os conceitos fundamentais de caráter, moralidade e espiritualidade. Àqueles que consideravam o abandono do mundo e a austeridade como caráter, e que não reconheciam a possibilidade de desenvolvimento espiritual e salvação na vida futura juntamente com o cumprimento dos direitos do nafs e do corpo e a participação nas atividades da vida material, foi ele quem indicou o caminho da civilização, da sociabilidade e da moralidade nas atividades materiais, bem como do desenvolvimento espiritual e da salvação. Foi ele quem familiarizou o ser humano com o verdadeiro valor da vida humana. Àqueles que não estavam dispostos a aceitar ninguém além de Deus, de um avatar ou do filho de Allah como verdadeiro orientador e guia, foi ele quem explicou que um ser humano, semelhante a eles, pode tornar-se representante do reino celestial e khalifa do Grande Senhor do universo. Àqueles que faziam de toda pessoa poderosa o seu senhor, foi ele quem explicou que, na realidade, o ser humano é simplesmente humano, nada além de humano, e que ninguém nasce neste mundo com um direito inato à santidade, à soberania ou ao domínio. Ninguém nasce marcado pelo estigma da degradação, da impureza, da escravidão ou da servidão. Na verdade, foi graças a esse seu ensinamento revolucionário que as ideias e aspirações de unidade, unicidade, igualdade, democracia e liberdade humanas puderam alcançar ampla difusão no mundo.

Se, afastando o olhar do mundo das ideias e da imaginação, julgarmos as coisas à luz da realidade, teremos de reconhecer que a extraordinária liderança desse Profeta iletrado estabeleceu uma influência profunda e grandiosa sobre as leis, os costumes, as tradições e todas as atividades do mundo. Inúmeros princípios que ele pregou sobre caráter moral, civilização, cultura, pureza e higiene espalharam-se por todo o mundo. O mundo adotou muitos dos preceitos e leis que ele formulou sobre a sociedade e a vida social, e continua a adotá-los. Com base nos ideais e nas disposições doutrinárias que ele apresentou sobre a economia, surgiram — e continuam a surgir — inúmeros movimentos no mundo. O método e o sistema que ele adotou para administrar o Estado e o governo deram início, e continuam a dar, a uma revolução nas concepções políticas da filosofia de Estado do mundo. Os princípios que formulou para a lei e a justiça influenciaram profundamente todos os sistemas judiciais e todas as filosofias jurídicas do mundo. Ainda hoje, sua influência se espalha silenciosa e discretamente. Aquele que, na prática, introduziu no mundo uma nova etapa da guerra, da trégua e das relações internacionais era, na verdade, um Profeta iletrado da Arábia. Antes dele, os habitantes do mundo eram completamente ignorantes quanto à possibilidade de haver também uma cultura e uma etiqueta da guerra, e de os assuntos do mundo poderem ser conduzidos sobre os fundamentos da humanidade compartilhada entre diferentes povos.

No contexto da história humana, a grandiosa personalidade desse homem extraordinário parece tão além do tempo que, em comparação com ele, até mesmo as grandes figuras históricas e os heróis famosos do mundo parecem extremamente apagados e insignificantes. Os méritos das personalidades dos maiores homens do mundo manifestam-se, em primeiro lugar, principalmente em dois campos da vida humana, e ninguém conseguiu ultrapassar esses limites. Uma classe de pessoas é formada pelos reis do pensamento, da imaginação e das doutrinas, inteiramente privados de capacidade prática de ação. A outra classe é composta pelos heróis da ação, extremamente fracos no campo do pensamento e da reflexão. O talento de alguns limita-se ao conhecimento político, à inteligência e à administração. Outros são apenas a personificação da excelência e da habilidade militar. Outros ainda concentraram de tal modo a atenção em um aspecto específico da vida social que todos os demais aspectos da sociedade ficaram fora do seu campo de visão. Alguns deram importância exclusivamente à moralidade e à espiritualidade, mas permaneceram completamente alheios à subsistência, à economia e à política. Outros rejeitaram inteiramente a moralidade e a espiritualidade, apoiando-se apenas na política e na economia. Em suma, na história observam-se apenas líderes e heróis unilaterais; somente esta personalidade é tal que nela se harmonizaram todas as formas de perfeição. Ele é, ao mesmo tempo, filósofo e cientista, empenhado em transformar sua própria filosofia em realidade. É também estadista, comandante militar, legislador e mestre de moral e caráter. É igualmente líder religioso e espiritual. Seu olhar abrangia todos os aspectos da vida humana. Nenhum assunto, por mais insignificante que fosse, permanecia fora de sua atenção. Desde as regras e boas maneiras relativas à alimentação e à bebida, os métodos de pureza corporal e higiene física, até as questões internacionais, ele ofereceu orientação clara e direção sobre cada assunto. Fundou uma civilização independente, de acordo com suas ideias e seus ideais, e mostrou-a aos habitantes do mundo. Estabeleceu tal equilíbrio entre os diversos aspectos e setores da vida que em parte alguma se observa excesso ou desequilíbrio. Poderá encontrar-se em algum lugar do mundo humano um exemplo de personalidade tão abrangente?

Quase todas as grandes personalidades do mundo são produto do ambiente. Mas a singularidade desta personalidade também se manifesta nesse aspecto. Não se pode perceber qualquer influência de seu ambiente na formação de sua personalidade. Além disso, do ponto de vista histórico, não se pode provar que o ambiente da Arábia daquela época tivesse qualquer necessidade de produzir alguém assim. Mesmo forçando muito o argumento, só se poderia dizer — e nada além disso — que o curso da história exigia o surgimento de um líder que acabasse com a fragmentação tribal e transformasse os árabes em uma nação unida. Ao mesmo tempo, ele conquistaria outros países e garantiria aos árabes prosperidade e bem-estar econômico. Em outras palavras, teria sido necessário um líder nacionalista que incorporasse as características árabes de então e enriquecesse sua própria nação por todos os meios possíveis, incluindo opressão, crueldade, derramamento de sangue, engano e fraude. Além disso, teria criado e organizado um sistema estatal para deixá-lo aos seus descendentes. Fora isso, não se pode de modo algum provar qualquer outra exigência da história árabe daquele período. Mesmo sob a ótica da filosofia da história de Hegel ou da interpretação materialista da história de Marx, no máximo seria possível dizer que, nas circunstâncias daquele tempo, era inevitável — ou poderia ter sido possível — o surgimento de um líder formador de uma nação e de um Estado. Apesar disso, daquele ambiente surgiu uma personalidade que ensinava o mais elevado caráter moral, reorganizava a humanidade, purificava a mente e o coração das pessoas e eliminava todas as formas de cegueira, superstição, ódio e hostilidade da era da ignorância. Seu olhar ultrapassava os limites da nação, da linhagem e do país, alcançando toda a humanidade. Ele estabeleceu, não para sua própria nação, mas para toda a humanidade, um sistema moral, espiritual, civilizacional e político. Demonstrou, no mundo real e não no reino da imaginação, como estabelecer sobre bases morais as atividades econômicas, a política civil e as relações internacionais. Ele realizou uma combinação tão equilibrada e harmoniosa entre espiritualidade e realidade que seu conhecimento, sua inteligência e seu talento continuam hoje tão absolutamente novos quanto eram naquela época. Diante disso, que explicação pode dar a filosofia hegeliana ou marxista? Pode uma pessoa assim ser considerada produto do ambiente da ignorância árabe daquele período?

Ele não foi apenas alguém que não era produto de seu ambiente; ao refletirmos sobre seus feitos, sabemos sem dúvida que eles estão livres das limitações e dos vínculos do tempo e do espaço. Seu olhar ultrapassa as barreiras do tempo e das circunstâncias, rompe milhares de camadas acumuladas ao longo dos séculos e avança para o futuro. Ele julga as pessoas na perspectiva de cada época e de cada ambiente, e lhes apresenta normas morais e práticas capazes de se ajustar igualmente a todas as circunstâncias. Ele não pertence à categoria daqueles que a história torna obsoletos. Só podemos elogiar os antigos por terem sido “bons líderes” em sua própria época. Mas a personalidade aqui em questão não apenas existiu: ela continua existindo. Ele foi e continua sendo singular e distinto de todos os demais. É um líder de toda a humanidade que avança junto com a história e permanece igualmente “novo” em cada época posterior, tal como foi nas épocas anteriores.

As pessoas que, com generosidade, chamamos de “fazedoras da história” são, na realidade, produtos e criações da história. De fato, em toda a história da humanidade, houve apenas um verdadeiro criador da história — e ele é a personalidade aqui em discussão. Ao examinarmos atentamente a situação dos líderes que provocaram revoluções na história do mundo, veremos que, em todos esses casos, os instrumentos da revolução já estavam previamente preparados, e esses próprios instrumentos determinavam espontaneamente a direção e o caminho da revolução. O líder revolucionário apenas avançou e realizou efetivamente a revolução conforme as exigências das circunstâncias. Na realidade, o campo e a tarefa de seu trabalho já estavam previamente definidos. Entretanto, entre esse vasto grupo de criadores da história ou de revolucionários, a personalidade aqui em discussão é a única cuja revolução não tinha absolutamente nenhum elemento ou causa previamente preparado. Ele próprio os criou. Onde eram raras as pessoas dotadas do espírito revolucionário e da capacidade eficaz de agir, ele mesmo formou pessoas adequadas. Fundiu sua própria personalidade e a reproduziu em centenas de milhares de seres humanos, moldando-os à sua própria imagem. Com sua força, capacidade e vontade, ele próprio criou os instrumentos da revolução. Ele mesmo determinou sua natureza e seu caráter, e, pelo poder de sua vontade, desviou o curso das circunstâncias e o conduziu pelo caminho que havia planejado. Na verdade, será possível encontrar na história do mundo uma segunda personalidade criadora da história com essa dignidade e uma segunda personalidade capaz de produzir uma revolução desse porte?

Agora discutiremos outra questão. É algo para refletir: qual foi a causa fundamental e o meio pelos quais, no mundo mergulhado nas trevas de quatorze séculos atrás, em um canto de um país ainda mais sombrio que a Arábia, entre simples pastores, comerciantes e habitantes analfabetos do deserto, surgiram de repente tanto conhecimento, tanta luz e tanta força, tanto talento e capacidade, tanta competência e uma força tão extraordinariamente eficaz? Pode haver algum fundamento lógico para afirmar que tudo isso foi produto exclusivo da mente e do cérebro daquela pessoa? Se fosse assim, ele teria reivindicado ser Allah. O mundo que transformou Rama em uma divindade, apresentou Krishna como Deus, aceitou Buda como uma entidade digna de adoração, reconheceu Jesus Cristo (A.) por sua própria vontade como “filho de Allah” e chegou a adorar até o fogo, a água e o ar — como poderia esse mundo rejeitar a reivindicação de uma pessoa tão talentosa? …………… Mas essa pessoa jamais atribuiu a si mesma o mérito de qualquer aptidão ou obra de talento; pelo contrário, declarou em voz alta: “Sou um ser humano, apenas um homem comum como vocês. Nada tenho que seja propriamente meu; tudo pertence exclusivamente a Allah e foi recebido de Allah. O Kalam que apresentei, ao qual ninguém no mundo foi capaz de produzir algo semelhante, também não é minha própria palavra. Não é fruto do meu cérebro nem resultado do meu talento pessoal. Cada uma de suas palavras chegou até mim da parte de Allah, e o louvor por ele também pertence a Allah. Nenhum dos grandes feitos que realizei, nenhuma das leis que estabeleci, nenhum dos costumes e ideais que lhes ensinei foi criação minha. Não fui capaz de fazer coisa alguma por minha própria capacidade ou talento. Em cada questão, dependo da orientação direta de Allah. Digo apenas aquilo que recebo como indicação d’Ele.”

Convém considerar sobre que verdade grandiosa esta declaração está fundamentada. Que exemplo luminoso de justiça, lealdade e honestidade ela representa! As pessoas mentirosas não sentem vergonha de reivindicar como suas as realizações de outras pessoas e divulgá-las em seu próprio nome, embora seja possível a todos investigar a verdadeira origem dessas realizações. Contudo, esta grande personalidade não reivindica sequer todos os seus méritos como sendo seus; se o fizesse, ninguém poderia chamá-lo de mentiroso, pois ninguém dispõe de meios para investigar a verdadeira origem de seus méritos. Poderia haver prova mais irrefutável e luminosa de honestidade e veracidade? Ele havia adquirido, de maneira extremamente secreta e oculta, esses talentos e méritos incomparáveis; mas, sem reivindicar nenhum deles para si, divulgou-os em nome de sua verdadeira fonte. Nessas circunstâncias, que outra razão poderia haver para não reconhecê-lo como um verdadeiro profeta?

Akhirat

Existe vida depois da morte? Se existe, que tipo de vida é essa? A resposta a essa pergunta está, na realidade, além dos limites do nosso conhecimento. Pois não temos olhos com os quais possamos espiar para ver o que existe e o que não existe para além da fronteira da morte. Não temos ouvidos capazes de ouvir qualquer som do outro lado, nem dispomos de qualquer instrumento por meio do qual isso possa ser conhecido mediante uma análise e uma avaliação corretas. Esta questão está completamente fora do campo abrangido pela ciência. Quem, em nome da ciência, nega a vida após a morte está certamente afirmando algo anticientífico. Não se pode afirmar, com o auxílio da ciência, que existe alguma vida depois da morte; da mesma forma, não se pode declarar que ela não existe enquanto não for descoberta uma fonte confiável de conhecimento sobre o assunto. Pelo menos, o único método científico correto nesse caso seria não afirmar nem negar a vida após a morte.

Mas será que esse método científico é aplicável à vida prática? De modo algum. Do ponto de vista intelectual, pode ser possível abster-se de qualquer decisão afirmativa ou negativa até que se disponha de todos os meios necessários para conhecer algo. Contudo, quando não há alternativa senão definir nossa conduta em relação a determinada coisa, temos necessariamente de fazê-lo. Por exemplo, você não sabe absolutamente nada sobre certa pessoa e nunca teve necessidade de realizar qualquer negócio com ela. Nessas circunstâncias, talvez não lhe seja possível tomar uma decisão sobre se essa pessoa é confiável ou não. Mas, se você tiver de fazer algum negócio com ela, será obrigado a considerá-la digna ou indigna de confiança. Você certamente pode dizer: ‘Enquanto ela não se provar confiável ou não confiável, tratarei com ela em estado de dúvida.’ Porém, na prática, a forma como você tratará alguém que considera duvidoso quanto à sua confiabilidade será igual àquela como trataria uma pessoa não confiável. Portanto, na realidade, não é possível permanecer numa posição intermediária e duvidosa entre aceitar e rejeitar. Para isso, é indispensável uma aceitação clara ou uma rejeição definitiva.

Com um pouco de reflexão e investigação, você compreenderá que a questão da vida após a morte não é apenas uma questão filosófica; ela tem, antes, uma profunda relação com a nossa vida prática. Se eu acreditar que tudo na vida termina com esta vida terrena e que não existe outra vida depois dela, meu comportamento moral será de um tipo. Mas, se eu acreditar que existe outra vida depois desta, na qual terei de prestar contas da minha vida atual e na qual receberei uma recompensa boa ou má com base nas ações que pratiquei nesta vida, então certamente minha conduta moral será completamente diferente daquela que teria no primeiro caso. Compreenda o exemplo da seguinte maneira: imagine uma pessoa viajando com a ideia de que precisa ir daqui até Karachi e que, ao chegar a Karachi, não somente essa viagem chegará ao seu fim definitivo, como também ela ficará fora do alcance da polícia, dos tribunais e de todas as autoridades competentes para interrogá-la e questioná-la.

Por outro lado, outra pessoa acredita que sua viagem daqui até Karachi é apenas a primeira etapa. Depois disso, terá de viajar para além do mar, até um país cujo rei é o mesmo rei deste país e em cujo escritório está guardado um registro completamente secreto de tudo o que essa pessoa fez neste país. Depois de examinar esse registro, será decidido que tipo de tratamento deverá ser dado a ela de acordo com seus atos. Você pode facilmente imaginar quanta diferença haverá na conduta dessas duas pessoas. A primeira reunirá provisões adequadas para a viagem daqui até Karachi. A segunda, por sua vez, reunirá provisões também para a longa viagem seguinte. A primeira pensará que todos os ganhos e perdas possíveis ocorrerão até a chegada e que, depois disso, não haverá mais nada. A segunda pensará que os verdadeiros ganhos e perdas não se manifestarão na primeira etapa da viagem, mas somente na etapa final.

A primeira pessoa prestará atenção somente aos resultados de suas ações que possam manifestar-se até sua chegada a Karachi. Já a atenção da segunda estará voltada para todos os resultados que poderão manifestar-se depois de chegar ao país situado do outro lado do mar. É evidente que a diferença entre a conduta dessas duas pessoas resulta precisamente da diferença em sua concepção da viagem. Da mesma maneira, a concepção que temos da vida após a morte determina definitivamente o curso da nossa vida prática. Ao ingressarmos no campo da ação prática, a natureza de nossas decisões depende justamente desta questão: estamos agindo considerando esta vida como a primeira e a última, ou também confiamos em outra vida e em seus resultados? No primeiro caso, nossas decisões terão uma natureza; no segundo, serão completamente diferentes.

Esta discussão nos permitiu compreender que a questão da vida após a morte não é uma mera questão filosófica fantasiosa; é, antes, uma questão da própria vida prática. Portanto, não há o menor espaço para adotarmos uma atitude duvidosa e vacilante a esse respeito. Qualquer método que adotemos para viver em estado de dúvida será semelhante ao método de vida de quem nega essa realidade. Em suma, somos obrigados a tomar uma decisão sobre se existe ou não alguma outra vida depois da morte. Se a ciência é incapaz de nos ajudar nesse assunto, teremos de buscar o auxílio da razão.

Agora verificaremos primeiro quais meios temos para julgar com a ajuda da razão.

O primeiro meio que temos diante de nós é o próprio ser humano, e o segundo é a natureza do universo. Colocaremos o ser humano no centro dessa natureza e examinaremos se todas as suas necessidades, enquanto ser humano, são satisfeitas pelo atual sistema de ordenamento da criação, ou se algumas delas permanecem insatisfeitas, tornando necessária para ele uma ordem diferente. Considerem o próprio corpo humano: ele é um conjunto de numerosos minerais, sal, água e gases. Paralelamente a isso, existem no universo criado a terra, as pedras, os metais, o sal, os gases e outras coisas semelhantes. Todas essas coisas necessitam de leis para desempenhar suas respectivas funções. Essas leis atuam em todo o universo criado e, assim como proporcionam ao ambiente externo — às montanhas, aos rios e ao ar — plena possibilidade de cumprir suas respectivas funções, também permitem ao corpo humano funcionar sob essas mesmas leis.

Em segundo lugar, o corpo humano cresce e é nutrido ao consumir alimentos provenientes das substâncias que o cercam. Do mesmo modo, entre os conjuntos de árvores, trepadeiras, arbustos, gramíneas e outros, também se observa a existência das leis necessárias aos organismos dotados de crescimento.

Em terceiro lugar, o corpo humano é vivo, movimenta-se voluntariamente, obtém seu próprio alimento, cuida de sua própria manutenção e também providencia a continuidade de sua própria descendência. Existem igualmente no universo criado diversas formas de vida desse tipo. Nas águas, na terra e na atmosfera encontram-se incontáveis seres vivos e animais, sobre os quais atuam plenamente leis adequadas para abranger a totalidade de suas vidas.

Acima de tudo isso, o ser humano possui ainda uma entidade de outro tipo, à qual chamamos vida moral. Ele tem consciência de praticar o bem e o mal; possui discernimento para diferenciar o bem do mal, capacidade de buscar ações boas ou más e, por natureza, o desejo de receber publicamente os bons ou maus resultados de seus atos. O ser humano também distingue por natureza, entre as qualidades morais, categorias como opressão, justiça, veracidade e mentira, direito e injustiça, compaixão e crueldade, gratidão e ingratidão, generosidade, avareza e traição. Essas qualidades não são imaginárias; pelo contrário, são observadas em ação na vida real do ser humano e, de fato, seus efeitos manifestam-se na vida social e civilizacional da humanidade. Portanto, a humanidade sente naturalmente, com grande intensidade, a necessidade de receber os resultados de suas ações morais, assim como recebe os resultados de suas ações físicas.

Mas lancem um olhar investigativo sobre o sistema de ordenamento do universo criado e vejam: os resultados das atividades morais do ser humano puderam manifestar-se plenamente aqui? Declaro-lhes, com plena confiança, que aqui não há sequer a menor possibilidade disso. Pois, até onde sabemos, não se encontra nenhuma outra criatura dotada de vida moral. O universo inteiro é governado de acordo com as leis naturais. Em nenhuma parte dele se vê uma lei moral atuando efetivamente. Aqui, o dinheiro tem tanto peso quanto valor, mas a verdade não pode ser pesada, nem seu valor pode ser determinado. Aqui, da semente da manga sempre brota uma mangueira. Porém, aos que semeiam a semente da verdade, às vezes chove uma chuva de flores, e às vezes chovem sapatos. Aqui existem leis determinadas para os seres de existência física, e os resultados sempre se manifestam de acordo com essas leis. Entretanto, para as ações morais não existe uma lei determinada que faça com que seus resultados sejam sempre do mesmo tipo. Por se seguir as leis naturais, às vezes obtêm-se resultados morais, na medida em que isso é possível sob as leis naturais. Às vezes acontece que, embora uma ação moral, como consequência natural, tenha a possibilidade de produzir um resultado específico, seu resultado se torna completamente diferente pela combinação das leis naturais. O próprio ser humano fez, por meio de seus sistemas sociais e políticos, um esforço mínimo para obter resultados padronizados de suas ações. Mas esse esforço é extremamente limitado e cheio de falhas. Por um lado, as leis naturais mantiveram esse esforço limitado e defeituoso; por outro, as fraquezas naturais do ser humano aumentaram ainda mais essas falhas.

Quero esclarecer meu argumento com a ajuda de alguns exemplos. Se uma pessoa, por inimizade contra outra, atear fogo à sua casa, a casa queimará; essa é a consequência natural desse ato. Como consequência moral, aquele que ateou o fogo deveria receber uma punição equivalente ao dano sofrido por essa família. Mas a manifestação desse resultado depende de várias condições: que o incendiário seja encontrado, que a polícia seja capaz de prendê-lo, que seu crime seja provado, que o tribunal consiga determinar corretamente os danos sofridos pela família prejudicada e por seus descendentes posteriores, e que lhe aplique, com justiça, uma punição exatamente proporcional. Se qualquer uma dessas condições não for cumprida, o resultado moral ou não se manifestará de modo algum, ou se manifestará apenas de forma muito limitada. Pode até acontecer que, depois de destruir completamente seu inimigo, essa pessoa continue a prosperar e a viver na mais perfeita felicidade neste mundo.

Tomemos também um exemplo de proporções ainda maiores. Um pequeno grupo de pessoas passa a exercer influência sobre sua nação, e toda a nação começa a seguir suas instruções. Aproveitando-se dessa situação, elas despertam na população a repugnante doença do culto à nação e o intenso desejo de imperialismo, provocando guerras com as nações vizinhas; como resultado, milhões de pessoas são mortas. O país inteiro é lançado à destruição, e seus efeitos se estendem por várias gerações posteriores. Pode-se imaginar que, nesta vida terrena, esse pequeno grupo receba a punição plenamente adequada e justa pelo enorme crime de que é culpado? Mesmo que a carne de seus corpos fosse arrancada ou que fossem lançados vivos numa fornalha ardente, ou que lhes fosse aplicada qualquer outra das mais severas punições ao alcance dos seres humanos, a punição aplicada ainda seria insignificante em comparação com o mal que causaram a dezenas de milhões de pessoas e a seus descendentes. Na realidade, sob as leis naturais que governam o mundo atual, não há meio algum de aplicar a esse crime a punição que ele merece.

Por outro lado, pense também naquelas pessoas que ensinaram à humanidade a verdade e a justiça, que lhe mostraram o caminho luminoso da vida e graças às quais incontáveis pessoas vêm recebendo benefícios de geração em geração, sem que se possa calcular quantos séculos ainda continuarão a beneficiar-se disso. Poderão essas grandes personalidades receber nesta vida terrena a plena recompensa por seus atos? Pode imaginar que, sob as leis naturais atuais, uma pessoa possa receber a plena recompensa por todos os seus atos cujos efeitos permanecem por centenas de milhares de anos após sua morte e alcançam incontáveis pessoas? Da discussão acima fica comprovado, em primeiro lugar, que, no sistema atual do mundo, regido pelas leis existentes, não há possibilidade de o ser humano receber o resultado integral de suas ações morais. Em segundo lugar, os efeitos dos atos que o ser humano realiza durante sua breve vida aqui são tão amplos e duradouros que, para desfrutá-los adequadamente, seria necessário que vivesse milhares, ou melhor, milhões de anos. Contudo, sob as leis naturais atuais, não é possível que o ser humano viva por tanto tempo. Esta discussão também demonstra que, para os componentes terrenos, orgânicos e biológicos do ser humano, bastam as leis naturais do mundo atual; porém, para seu aspecto moral, a vida neste mundo é de modo algum suficiente. Para isso é necessário um sistema universal no qual a lei moral seja a lei dominante e fundamental, enquanto a lei natural, subordinada a ela, desempenhe uma função auxiliar.

Ali, a vida será infinita, em vez de limitada, e todos os resultados morais que aqui permanecem ocultos ou se manifestam de forma invertida serão ali manifestados corretamente. Ali, em lugar do ouro e da prata, a honestidade e a veracidade serão avaliadas e pesadas. Ali, o fogo queimará somente aquele que, por razões morais, deve ser queimado.

Esse lugar será de felicidade para os virtuosos e de sofrimento para os ímpios. A razão e a natureza exigem, sem dúvida, um sistema mundial desse tipo.

A razão cumpre seu dever ao nos conduzir até aquilo que “deveria ser”, e então encerra sua função. Agora, nem nossa razão nem nosso conhecimento são capazes de emitir um veredicto definitivo sobre a existência real de um mundo desse tipo. A esse respeito, somente o Sagrado Alcorão nos ajuda. Sua declaração é que aquilo que a razão e a natureza de vocês exigem, de fato acontecerá. O mundo regido pelas leis naturais atuais chegará um dia ao fim, e será estabelecido um sistema mundial diferente, sob o qual os céus, a terra e todas as coisas assumirão uma forma diferente.

Então serão ressuscitados todos os seres humanos que nasceram no mundo desde o primeiro dia da criação até antes da Qiyamah, e todos serão apresentados simultaneamente diante de Allah, o Altíssimo. Ali, o registro completo das ações de cada pessoa, de cada ser vivo e de toda a humanidade será apresentado sem qualquer erro ou omissão.

Haverá um relato completo de cada reação que cada ato de cada pessoa tiver produzido neste mundo, bem como de sua extensão. Todas as partes relacionadas a essas ações permanecerão de pé no banco das testemunhas. Aqueles que tiverem sido atingidos pelo menor dano causado pelas palavras ou ações de uma pessoa também apresentarão suas respectivas listas. Eles testemunharão como a pessoa utilizou suas próprias mãos, pés, olhos e demais membros em diferentes atos. Então, o Melhor dos Juízes proferirá Seu veredicto, considerando esse relatório com plena justiça. Declarará quanto cada um merece receber como recompensa ou punição. A extensão dessa recompensa ou punição será tão grandiosa que será impossível calculá-la segundo os critérios deste mundo limitado. Ali, os critérios de tempo e espaço serão diferentes, e as leis naturais também serão de outra natureza. Aqueles cujas boas ações beneficiaram outras pessoas por milhares de anos neste mundo terão ali a oportunidade de desfrutar plenamente de seus frutos; a morte, a doença e a velhice não poderão roubar-lhes a felicidade. Do mesmo modo, aqueles cujas más ações fizeram com que incontáveis pessoas deste mundo sofressem durante centenas ou milhares de anos sofrerão plenamente a punição pelos crimes que cometeram. A morte ou a inconsciência não poderão salvá-los de sofrer a punição.

Sinto tristeza pela estreiteza de pensamento daqueles que negam a possibilidade de uma vida e de um mundo assim. Se é possível que nosso mundo atual exista diante de nós com as leis naturais atuais, que razão poderia haver para ser impossível que, depois dele, outro mundo exista sob leis diferentes? Naturalmente, não é possível apresentar uma prova concreta que ofereça certeza a esse respeito. Para isso, é indispensável ter fé no invisível (Ghayb).

— Fim —